32 compreendendo o milênio. apoc. 19,20

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32 compreendendo o milênio. apoc. 19,20

  1. 1. COMPREENDENDO O MILÊNIO Apocalipse 19 e 20 Primeiro devemos determinar as relações entre a visão de João arespeito dos "mil anos" e o contexto imediato do Apocalipse, ou seja oscapítulos 19 e 21, antes de que possamos compreender o significado docapítulo 20. Também devemos averiguar que conexões possíveis existementre Apocalipse 20 e as profecias do Antigo Testamento. Devemresponder-se estas perguntas de exegese antes de estabelecer qualqueropinião dogmática de Apocalipse 20, uma das passagens maisproblemáticas que há na Bíblia. O enfoque contextual deve precedersempre o dogmático ao fazer uma exegese responsável das SagradasEscrituras. O Contexto de Apocalipse 19 "Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo euma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é odiabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o epôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até secompletarem os mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja soltopouco tempo" (Apoc. 20:1-3). O termo "milênio" significa literalmente "mil anos", e o período dosanos a que se alude como o milênio só se menciona em Apocalipse 20. Arelação desta passagem com a visão precedente de Apocalipse 19:11-21é clara e amplamente reconhecida pelos eruditos. A visão doArmagedom de Apocalipse 19 constitui tanto a expansão final deApocalipse 16 a 18 como a introdução a Apocalipse 20. Dessa maneira,Apocalipse 19 forma uma parte essencial da visão do milênio. Os inimigos de Cristo do tempo do fim são a besta, os reis da terracom seus exércitos e o falso profeta (Apoc. 19:19, 20). Na volta deCristo como o Rei e Juiz de toda a terra, "Os dois [a besta e o falso
  2. 2. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 2profeta] foram lançados vivos dentro do lago de fogo que arde comenxofre" (v. 20). E "outros", ao parecer "os reis da terra e seus exércitos"(v. 19), foram mortos pelo impacto da vinda de Cristo (v. 21).Apocalipse 20 revela que Satanás, o gênio criador de toda rebelião será"preso", encerrado e selado por um anjo de Cristo (vs. 1-3). Depois domilênio será "lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já se achavam abesta e o falso profeta" (v. 10, BJ). A continuidade de Apocalipse 19 e 20 chega a ser até mais evidentese se observar que a seqüência na qual são julgados os inimigos de Cristoacontece em uma ordem inversa à ordem em que aparecem pela primeiravez no livro do Apocalipse. Em Apocalipse 12 foi primeiro mencionadoo dragão, depois vem a besta e o falso profeta no capítulo 13, efinalmente Babilônia no capítulo 14. Seu destino final se descreve emuma seqüência oposta: primeiro vem a queda de Babilônia emApocalipse 16 a 18; depois são destruídos a besta e o falso profeta emApocalipse 19, e finalmente, no 20, depois de mil anos, o dragão éexecutado. Esta composição literária do surgimento e queda dosprincipais inimigos de Cristo manifesta a ordem progressiva deApocalipse 12 a 20 e sua unidade estrutural. Estes capítulos mostram um"desenvolvimento magistral" de pensamento e de tema que avançafirmemente para a culminação, a consumação da guerra cósmica entre océu e a terra. Dessa maneira, a progressão avança da queda de Babilôniaaté o castigo dos agentes de Satanás, e termina com a eliminação dopecado e do próprio Satanás. A Seqüência Cronológica de Apocalipse 19 e 20 Evidentemente, os acontecimentos descritos em Apocalipse19:11-20:10 seguem uma ordem cronológica. Isto está claro daseqüência das visões nas que as aves de rapina são convidadas a ir àgrande ceia de Deus (Apoc. 19:17, 18), seguida pela visão em que todasas aves "saciaram-se das carnes deles" (vs. 19-21). Há uma notável
  3. 3. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 3progressão de eventos nestas duas visões. A declaração de Apocalipse20:10 proporciona a evidência direta da ordem cronológica das visões deApocalipse 19 e 20, quer dizer, "o diabo que os enganava, foi arrojadono lago de fogo e enxofre, onde estavam a besta e o falso profeta"(20:10). Esta última referência ao juízo da besta e de seu profeta sedescreve em 19:20 como acontecendo antes, na segunda vinda (19:19). Outra indicação de uma seqüência cronológica é a observação deque os eventos descritos em Apocalipse 19:11 a 20:6 são análogos àordem dos eventos em Daniel 7. Tanto em Daniel como no Apocalipse oanticristo é consumido por meio de fogo quando o Messias vem em suaglória do céu (Dan. 7:11-14, 25; Apoc. 19:20). Em ambos os livros,imediatamente depois da destruição do anticristo, o reino é dado aossantos (Dan. 7:22, 27; Apoc. 20:4-6). Portanto, como o juízo do anticristo na segunda vinda ainda está nofuturo, o reino milenário dos santos que segue à destruição do anticristotambém deve ser futuro. Estamos de acordo com a conclusão do Jack S.Deere: "Dessa maneira, sobre a base de Daniel 7, é mais natural lerApocalipse 20:4-6 como parte de uma progressão cronológica em seucontexto mais amplo (19:11-20:15), do que como uma recapitulação".1Inclusive o erudito católico do Novo Testamento, Rudolf Schnackenburgreconheceu que "um salto atrás ao tempo da parousia em Apocalipse20:1-3 é altamente inverossímil".2 Enquanto que reconhecemos o papelgeral da recapitulação na estrutura do Apocalipse como um tudo, a seçãode Apocalipse 19:11 a 20:15 apresenta claramente uma ordem lógica ecronológica. Além disso, Ezequiel apresenta uma série consecutiva de visões nasquais o reino messiânico (caps. 36 e 37) é seguido por uma guerraencabeçada por Gogue de Magogue (caps. 38 e 39). Depois da guerrachega o reino eterno centralizado em uma Nova Jerusalém (caps. 40-48).George Ladd concluiu dizendo que "a profecia do Ezequiel tem a mesmaestrutura básica que a de Apocalipse 20".3 O erudito apocalíptico Jeffrey
  4. 4. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 4Vogelgesang declarou: "João [em sua ordem de Apoc. 19:11 a 21:8]segue o modelo do Ezequiel 34 a 48".4 Isto significa que uma análisebásica da ordem dos eventos futuros tal como aparecem em Ezequiel(caps. 37-40) é essencial para um enfoque correto de Apocalipse 19 a 21.Esta comparação é obrigatória se se reconhecer que "João, o profetacristão banido, modelou sua obra sobre o livro do Ezequiel, o grandeprofeta do desterro babilônico".5 A estrutura paralela do Apocalipse comEzequiel levou a Vogelgesang à seguinte conclusão: "Esta é uma provaconclusiva de que Daniel utilizou diretamente a Ezequiel".6 Em resumo, um estudo do milênio de Apocalipse 20 requer umaanálise não só de seu contexto imediato, mas também do amplo contextodos livros proféticos de Israel no Antigo Testamento. Desta duplaperspectiva, o contexto imediato e o mais amplo, discernimos a intençãode João de colocar o reino messiânico do milênio depois da segundavinda de Cristo. A Visão do Armagedom: O Fim da Humanidade Pecadora "Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chamaFiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama defogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito queninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto desangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; e seguiam-no osexércitos que há no céu, montando cavalos brancos, com vestiduras de linhofiníssimo, branco e puro. Sai da sua boca uma espada afiada, para com elaferir as nações; e ele mesmo as regerá com cetro de ferro e, pessoalmente,pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso. Tem no seumanto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOSSENHORES" (Apoc. 19:11-16). Apocalipse 19 apresenta uma representação muito vívida da vindade Cristo e da batalha do Armagedom, antecipada brevemente emApocalipse 16:13-16 e 17:12-14. Cristo é descrito como o Guerreirovitorioso que desce do céu sobre um cavalo de batalha dirigindo um
  5. 5. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 5exército imenso de anjos (Apoc. 19:11, 19; cf. Mat. 24:31; 25:31). Comoo Messias-Rei (ver Apoc: 5:5), vem para reclamar este planeta como seudomínio legítimo. Em sua cabeça há "muitos diademas" (19:12). Nem odragão com suas sete cabeças (12:3) nem a besta com seus dez chifres(13:1) receberam a autoridade do Criador para reinar sobre ahumanidade. Cristo volta como o legítimo "Rei dos reis e Senhor dossenhores" (19:16). Ele sozinho está autorizado pelo Pai a governar sobrea terra. Ele sozinho executará a vontade de Deus porque é "o Verbo deDeus" (v. 13), a manifestação da vontade de Deus para a humanidade.Em quatro descrições simbólicas, todas tiradas dos profetas, Cristo édescrito como o Rei-Juiz de toda a terra. A revelação de que o Senhorressuscitado executará as predições do juízo hebraico constitui umamensagem assombrosa. A. "Está vestido com um manto tinto de sangue" (Apoc. 19:13). B. "Sai da sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações" (Apoc. 19:15). C. "Ele mesmo as regerá com cetro de ferro" (Apoc. 19:15). D. "E, pessoalmente, pisa o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso" (Apoc. 19:15). Estas quatro descrições de juízo indicam como se levará a cabo ofim da era da igreja a justiça retributiva de Deus, tal como aparece emIsaías 11, 34, 63, Joel 3 e Salmo 2.7 João usa as metáforas dos profetaspara expressar o juízo de Deus sobre o Império Babilônico, um juízo quedesdobra a "ira de Deus" na segunda vinda. Apocalipse 19 enfatiza o fimde toda a vida sobre o planeta. "Então, vi um anjo posto em pé no sol, e clamou com grande voz,falando a todas as aves que voam pelo meio do céu: Vinde, reuni-vos para agrande ceia de Deus, para que comais carnes de reis, carnes decomandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e seus cavaleiros,carnes de todos, quer livres, quer escravos, tanto pequenos como grandes"(Apoc. 19:17, 18).
  6. 6. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 6 O convite do céu às aves de rapina para assistir à grande ceia deDeus está em contraste deliberado com o convite anterior: "Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro!"(Apoc. 19:9). Evidentemente, Deus proporcionará ambos os banquetes:um para Babilônia por ocasião do Armagedom, e outro para Israel nomonte Sião (18:4; 14:1). As ceias representam destinos opostos: o gozomais elevado do companheirismo com Cristo no céu e a angústiainexprimível da separação total de Deus na terra. Esta divisão dahumanidade em duas classes foi apresentada durante o sexto selo(6:15-17; 7:1-7). Em outras palavras, Deus proporcionará ou vida eternaou morte eterna. A responsabilidade iniludível do homem é escolherentre o Cordeiro e a besta, entre Cristo e o anticristo. Qual é o significado de um anjo de Deus "posto em pé no sol"convidando a todas as aves de rapina "que voam pelo meio do céu" àceia de Deus? Sugere uma proclamação universal tão importante como ados três anjos de Apocalipse 14:6-12 que também voam "pelo meio docéu". Agora a convocação celestial se dirige a todos os que fizeram casoomisso do rogo anterior de Apocalipse 14 e que rechaçaram o convite deDeus para estar na caia de bodas do Cordeiro. Esta chamada aoArmagedom segue o antigo estilo oriental de entrar em combate: "Vem amim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas-feras do campo (1Sam. 17:44). Inclusive Moisés advertiu ao Israel infiel: "O teu cadáverservirá de pasto a todas as aves dos céus e aos animais da terra; eninguém haverá que os espante" (Deut. 28:26). Uma advertência similarse aplica a todos os que se aliam aos poderes anticristãos. Entretanto, a principal raiz hebraica da visão que João teve do juízode Cristo sobre o mundo apóstata, é a de Ezequiel 38 e 39. Este profetadescreveu o assalto de Gogue e de seus aliados sobre o Israel de Deusem seu solo pátrio no tempo do fim nas seguintes palavras: "Virás, pois, do teu lugar, das bandas do Norte, tu e muitos povoscontigo, montados todos a cavalo, grande ajuntamento e exército numeroso;e subirás contra o meu povo de Israel, como uma nuvem, para cobrir a terra;
  7. 7. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 7no fim dos dias, sucederá que hei de trazer-te contra a minha terra, para queas nações me conheçam a mim, quando eu me houver santificado em ti osseus olhos, ó Gogue... Porque disse no meu zelo, no fogo do meu furor, que,naquele dia, haverá grande tremor sobre a terra de Israel... Porque chamareicontra Gogue a espada, sobre todos os meus montes, diz o Senhor JEOVÁ;a espada de cada um se voltará contra seu irmão. E contenderei com ele pormeio da peste e do sangue; e uma chuva inundante, e grandes pedras desaraiva, fogo e enxofre farei cair sobre ele, e sobre as suas tropas, e sobreos muitos povos que estiverem com ele" (Ezeq. 38:15-22, RC). "Nos montes de Israel, cairás, tu, e todas as tuas tropas, e os povosque estão contigo; a toda espécie de aves de rapina e aos animais docampo eu te darei, para que te devorem" (Ezeq. 39:4, RA). "Tu, pois, ó filho do homem, assim diz o Senhor Jeová: Dize às aves detoda espécie e a todos os animais do campo: Ajuntai-vos, e vinde, vinde detoda parte para o meu sacrifício, que eu sacrifiquei por vós, sacrifício grandenos montes de Israel, e comei carne, e bebei sangue...E vos fartareis, àminha mesa, de cavalos, e de carros, e de valentes, e de todos os homensde guerra, diz o Senhor Jeová" (Ezeq. 39:17-20, RC). O Apocalipse de João estende agora a descrição dos mortos peloMessias além da lista de nações que aparecem em Ezequiel 39. NoArmagedom, os abutres se alimentarão com "carne de todos, livres eescravos, pequenos e grandes" (Apoc. 19:18). João descreve a matançadas multidões de Babilônia, reunidas para fazer guerra contra Deus e seuMessias, como algo universal e total. O mundo inteiro será um "montede matança", um Har Magedon.8 O Apocalipse intencionalmenteaumenta o campo de batalha da predição de Ezequiel a uma escalauniversal. Finalmente, "todas as pessoas" sobre a terra estarão envoltas.Chama-se às aves "que voam pelo meio do céu" para que se fartem dacarne de todos os guerreiros que foram mortos, que lutaram contra oGovernante divino.
  8. 8. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 8 Muitos observaram que Apocalipse 19 não descreve uma batalhareal entre o céu e a terra. Como podem seres mortais oferecer resistênciacontra o Guerreiro divino quando descer da parte oriental do céu? OApocalipse revela que quando se abrir o céu e a terra tremer por causa deum terremoto universal, o temor paralisará a todo o mundo. "Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosose todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascosdos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós eescondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro,porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?"(Apoc. 6:15-17). Sem dúvida a impressão é que não sobreviverá nenhum ser humanorebelde naquele dia. João enfatiza em Apocalipse 19 que "outros" forammortos com a espada que saía da boca do que montava o cavalo (v. 21).A profecia de Daniel da pedra que caiu do céu já expressa que o reinomessiânico esmiuçará a imagem metálica do mundo e converterá a todosos habitantes em pó: "E o vento os levou, e deles não se viram maisvestígios" (Dan. 2:35; também os vs. 44, 45). A Unidade Maior de Apocalipse 19-21 As palavras "Fiel e Verdadeiro" [pistós kay alezinós] com respeito aCristo (Apoc. 19:11), e ao que estava no trono no capítulo 21:5,expressam a continuidade entre Apocalipse 19 e 21. Charles H. Giblinobservou três unidades correlacionadas dentro da narração de Apocalipse19:11-21:8.9 A. A vitória do Rei de reis sobre a besta, o falso profeta e os reis da terra (19:11 -21); B. A vitória sobre Satanás na culminação do milênio (20:1-10); C. O juízo do trono, com a conquista da morte e o sepulcro e o advento da Nova Jerusalém (20:11-21:8).
  9. 9. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 9 O centro focal destas divisões é (A) o Armagedom; (B) o reinomilenial; e (C) o juízo final em forma sucessiva. O tema que forma umarco com estas três seções é o Juízo, que revela o resultado final tantodos fiéis como dos ímpios (ver Apoc. 19:11; 20:4, 12, 13; 21:7, 8). Este arranjo literário de Apocalipse 19 a 21 revela quão perigoso édesconectar as visões do milênio de seu contexto imediato e depoismanifestar uma opinião dogmática do milênio de Apocalipse 20. Pelocontexto sabemos que o juízo de Cristo sobre o dragão, ou Satanás, terálugar só depois que ele tenha destruído a besta, o falso profeta e asmultidões às quais levaram por mau caminho (ver Apoc. 19:19-21; 20:1,2, 10). Isto significa que a vinda de Cristo será seguida pela prisão deSatanás no abismo no começo do milênio. O ponto crítico aqui é a questão seguinte: O milênio de Apocalipse20, apresenta uma recapitulação de toda a história da igreja ou é só aconclusão do plano de redenção? Para responder esta pergunta vamoscomparar Apocalipse 20 com o capítulo 12, porque o capítulo 12apresenta uma narração direta da era da igreja. Comparação de Apocalipse 12 e 20 As narrações destes dois capítulos tratam com o dragão e a igreja deCristo. Enquanto que o capítulo 12 mostra como atacou o dragão aesposa de Deus [a igreja], como buscou destruir o Messias, comocontinuou guerreando contra os anjos no céu, e finalmente como assaltaos santos na terra, o capítulo 20 inverte completamente este quadro.William H. Shea resume brevemente este contraste: "Por outro lado, em Apocalipse 20 se inverte o quadro [de Apoc. 12]. Ocapítulo começa com um quadro de uma derrota inicial do diabo, e terminacom um quadro de sua derrota final. Mas entre estes dois pólosencontramos aos membros vitoriosos da igreja, especialmente os mártires, aquem o dragão tinha derrotado previamente em um sentido físico limitado.Agora viveram na ressurreição e estão reinando com Cristo comosacerdotes para Deus".10
  10. 10. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 10 Joel Badina oferece uma comparação mais detalhada: "Primeiro, no capítulo 12, Satanás é arrojado do céu à terra, enquantoque no capítulo 20 é pacote e arrojado no abismo (20:3). Segundo, nocapítulo 12 Satanás é "o enganador de todo o mundo" (12:9), enquanto queno capítulo 20 "não pode enganar mais as nações" (20:3). Terceiro, ocapítulo 12 descreve os cristãos como mártires expostos à morte (12:11),enquanto que no capítulo 20 está o tempo de sua ressurreição (20:4, 6). Ocapítulo 12 é um tempo de maldição (12:12), enquanto que o capítulo 20 éum tempo de bênção (20:6). Por conseguinte é evidente que os capítulos 12e 20 não descrevem o mesmo período de tempo, e 20:1 não se projeta paratrás, ao século I, como o faz o capítulo 12:1. Antes, o capítulo 20:1-10 devesituar-se em forma imediatamente seguinte à era cristã".11 Esta avaliação comparativa de Apocalipse 12 e 20 leva à conclusãode que o milênio de Apocalipse 20 não recapitula a era da igreja queaparece em Apocalipse 12. O milênio segue à era cristã. Shea e outrosassinalaram que Apocalipse 12 está colocado dentro das séries históricasdo livro (caps. 1-14), enquanto que Apocalipse 20 está colocado dentrodo final das séries escatológicas de juízo (caps. 15-22). Dessa forma,Apocalipse 12 revela a atividade do diabo na história da igreja, enquantoque Apocalipse 20 revela o juízo que Deus faz do diabo na consumaçãofinal. Esta comparação confirma a conclusão anterior do contextoimediato de que o milênio segue a parousia em Apocalipse 19. Outra indicação da ordem cronológica de Apocalipse 19 e 20 seencontra na evidência interna da mesma visão do milênio. Durante os"mil anos" os mártires que rechaçaram aceitar a marca da besta do tempodo fim e que perderam sua vida (ver Apoc. 13:15-17; 19:20), voltam denovo para viver e reinam com Cristo como sacerdotes de Deus: "Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dadaautoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa dotestemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantosquantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e nãoreceberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristodurante mil anos.... Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santoé aquele que tem parte na primeira ressurreição" (Apoc. 20:4-6).
  11. 11. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 11 Esta ressurreição dos santos fiéis tem lugar na segunda vinda deCristo (Apoc. 19:11-16). Paulo tinha ensinado que o segundo advento e aressurreição dos santos ocorrerão simultaneamente: "Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz dearcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristoressuscitarão primeiro" (1 Tes. 4:16). O enfoque contextual referente a Apocalipse 20 aponta claramente aum milênio futuro, porque a ressurreição dos santos terá lugar nasegunda vinda, quando os santos ressuscitados sejam feitos imortais. Paulo e o Milênio Paulo não considerou a ressurreição física de Jesus Cristo como umacontecimento isolado mas sim como a garantia da ressurreição dosmortos: "Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele asprimícias dos que dormem. Visto que a morte veio por um homem, tambémpor um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, emAdão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo"(1Cor. 15:20-22). O apóstolo continua ensinando que nem todos os mortosressuscitarão ao mesmo tempo, mas sim haverá uma certa seqüênciacronológica no cumprimento das promessas de Deus a respeito daressurreição: "Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois,os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregaro reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem comotoda potestade e poder" (1 Cor. 15:23, 24). As palavras "cada um por sua própria ordem" [tágma: grupo, classe]indicam que estão incluídas diferentes classes de pessoas: Cristo, as"primícias", já ressuscitado; depois [épeita: depois] "os que são de
  12. 12. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 12Cristo" serão ressuscitados na vinda de Cristo (cf. 1 Tes. 4:16, 17; Mat.24:30, 31). A distância temporária entre a ressurreição de Cristo e a de seupovo em seu segundo advento, digamos 2.000 anos mais tarde, não semencionam, mas está claramente subentendido. Em outra parte Paulodeclara que os santos vivos serão "transformados" e receberão aimortalidade ao mesmo tempo que os santos ressuscitados, quer dizer, naparousia (1 Tes. 4:17; 1 Cor. 15:51, 52). Depois o apóstolo declara quesó logo [éita] da ressurreição dos santos virá o fim [to télos]. Algunsinterpretam isto como "o resto da humanidade",12 porque abrange atodos os que não pertencem a Cristo. Cristo não entregará o reino a Deuso Pai até depois que tenha destruído a "todos os seus inimigos" incluindoo último inimigo, a "morte": "Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigosdebaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte" (1 Cor. 15:25,26). Paulo não menciona um intervalo de tempo entre a ressurreição dossantos na parousia e o fim quando será destruída a morte. Entretanto,vários intérpretes reconhecem que "um segundo intervalo indefinido vaientre a parousia e o fim".13 Paulo declara que a terceira classe [tágma]de pessoas ressuscitadas, aparentemente os que não pertencem a Cristo,seguem logo ao segundo grupo. O transpasse do reino de Cristo ao Painão terá lugar no segundo advento, e sim depois da destruição da morte.Quanto a isto, é legítimo conectar 1 Coríntios 15:23-28 com Apocalipse20. Ambas as passagens são parte do cânon das Escrituras e tratam dosmesmos eventos depois do segundo advento. As visões de João dos mil anos ampliam o ensino do Paulo em 1Coríntios 15. O Apocalipse revela que o último inimigo do homem, amorte será vencida só depois da destruição de Satanás no lago de fogo eenxofre no fim do milênio: "E a morte e o Hades foram lançados ao lagode fogo. Esta é a segunda morte" (Apoc. 20:14).
  13. 13. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 13 A destruição da morte e do Hades é o ato final do reino de Cristosobre todos os seus inimigos. Paulo viu este mesmo ato como aculminação de "o fim" (1 Cor. 15:24, 26). Nas visões de João, a morteserá vencida só depois do milênio, quando tiver sido destruído Satanás(Apoc. 20:10, 14). Em resumo, concluímos que enquanto que Paulo não ensinaexplicitamente um reinado milenário de Cristo depois de seu parousia,abre espaço para uma futura "cristocracia" assim em 1 Coríntios 15:24. A Suposta Duração do Reino Messiânico no Judaísmo Alguns escritos judaicos apocalípticos anteriores à era cristã contêma expectativa de um reino de Deus temporário antes do juízo final e acriação de um mundo novo. Este período intermediário pacífico não estáconectado com o Messias e sua duração não está especificada claramentenestes escritos pré-cristãos: "O Apocalipse das semanas" em I Enoc91:12-17; 93:1-10; Jubileus 23:26-31; Os oráculos sibilinos, livro3:46-62, 781-784. II Enoc 32 e 33 (ao redor do ano 50 de nossa era)contêm a passagem mais antiga da literatura judia que indica que operíodo intermédio de paz sobre a terra durará mil anos. 14 Durante a segunda metade do primeiro século de nossa era se fezuma distinção nos escritos rabínicos entre a era messiânica e a era porvir. Alguns escritos apocalípticos judeus de perto do fim do século Ideclaram que o reino messiânico é temporário e que está conectado coma iminente queda de Roma, por exemplo, o Apocalipse de Baruc (ou IIBaruc 30) e o Apocalipse de IV Esdras. O Quarto Livro de Esdras contém a passagem mais concludente deque o Messias morrerá depois de 400 anos junto com todos os outrosseres humanos. Depois dessa era messiânica, ocorrerão os seguinteseventos: "O mundo (presente) voltará ao silêncio primitivo durante sete dias, talcomo tinha estado em sua primeira origem; deste modo ninguém
  14. 14. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 14sobreviverá. depois de (esses) sete dias, o mundo novo que não foisuscitado ainda despertará e o que é corruptível será aniquilado. A terradevolverá os que dormem nela, o pó aos que descansam em seu silêncio; ossepulcros às almas que lhes foram confiadas. O Altíssimo se revelará(sentado) em seu trono de juízo (Quarto livro do Esdras 7:30-33)".15 Durante a era cristã os primitivos rabinos judeus discutiram a idadeda era messiânica, concordando só no ponto de que seria um períodolimitado entre a era presente e a era por vir. A lista destes períodos detempo propostos flutua de 40 ou 70 anos, de 400 ou 600 anos a 1.000 ou2.000 anos e até a 7.000 mil anos.16 Aparentemente, não havia umaforma ortodoxa de opinião. Entretanto, alguns apocalipticistas insistiram em que a história erauma recapitulação da semana da criação. Assim como Deus tinhatrabalhado seis dias e descansado no sétimo (Gên. 1, 2), assim a históriaduraria seis "dias" de mil anos cada um, para ser seguida pelo sábado doreinado do Messias de mil anos, depois do qual viria um "oitavo dia"sem fim, o reino eterno (II Enoc 32, 33). Esta idéia anterior aocristianismo se repete no cristão de começos do século II, a Epístola deBarnabé 15, e em outros escritos cristãos posteriores. Especialmente digna de menção é a declaração do rabino Eliézer(90 d.C.), quem representou uma tradição que ensinou que o Messiasreinaria por mil anos.17 Esta é a autoridade rabínica mais antiga quereconhece o período messiânico com uma duração de 1.000 anos. Porconseguinte, alguns eruditos modernos insistem em que João quis dizermil anos literais em Apocalipse 20, porque isto encaixa bem dentro dopensamento judeu contemporâneo. Entretanto, Beasley-Murray declaraque João desejou indicar primeiramente o caráter teológico do milênio,"quer dizer, como o sábado da história".18 Embora seja profundamente significativo interpretar "o sábado dedescanso de Deus como um tipo do reino" e que a "criação prefigurauma nova criação",19 esta interpretação não deve ofuscar a nova
  15. 15. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 15revelação do Apocalipse de João de que o milênio é uma cristocracia.Portanto, ainda permanece a pergunta básica: Como se relacionaApocalipse 20 com os escritos do Antigo Testamento? Os Antecedentes do Milênio no Antigo Testamento Algumas raízes veterotestamentárias do milênio iluminam nossoentendimento. A primeira conexão literária com a Bíblia Hebraica é apalavra "abismo", que se usa duas vezes (Apoc. 20:1, 3) para referir-se à"prisão" (v. 7) em que o dragão estará encerrado por mil anos. Como umtermo por si mesmo, o termo abismo funciona no Apocalipse (9:1, 2, 11[cf. Sal. 88:11]; 11:7; 17:8) e em outros lugares do Novo Testamento(Luc. 8:31; Rom. 10:7) como sinônimo de tumba, morte e destruição, edo cárcere da "besta" e dos demônios. Quando Cristo expulsou a algunsespíritos malignos do homem diabólico da Galiléia, "rogavam-lhe quenão os mandasse para o abismo" (Luc. 8:31), ou ao reino dos mortos. Na versão grega do Antigo Testamento (a LXX) usa-se abismo emGênesis 1:2 para descrever a terra desabitada antes da semana da criação:"A terra estava desordenada e vazia, e as trevas estavam sobre a face doabismo [abussos]". Parece que o Novo Testamento tomou esta descriçãopré-histórica de uma terra vazia e caótica, como seu protótipo para oconceito de abismo como um poço escuro e como o lugar da prisão dosdemônios. Luz adicional sobre o abismo em Apocalipse 20 provém daperspectiva profética do Jeremias. "Olhei para a terra, e ei-la sem forma e vazia; para os céus, e nãotinham luz.... Olhei, e eis que não havia homem nenhum, e todas as avesdos céus haviam fugido. Olhei ainda, e eis que a terra fértil era um deserto, etodas as suas cidades estavam derribadas diante do Senhor, diante do furorda sua ira" (Jer. 4:23-26). Na profecia do Antigo Testamento, o dia do juízo está caracterizadoem geral por uma perspectiva dupla: o dia de Jeová histórico para umanação em particular, e o dia de Jeová do juízo final para todo o mundo.
  16. 16. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 16Este ponto de vista tipológico do reino futuro de Deus que não sepreocupa com as distâncias cronológicas nem pelas distinções étnicas ougeográficas, apresenta o juízo nacional como um modelo muito pequenopara o juízo do mundo do tempo do fim. O foco está no mesmo Deusque, tanto no presente como no futuro, atuará na mesma forma para ojuízo e a salvação. George Ladd resumiu desta maneira esta duplaperspectiva do panorama profético: "O dia do Senhor histórico estádescrito em contraste com a tela de fundo do dia escatológico doSenhor".20 A visão de Jeremias da futura devastação da "terra" tem umadimensão apocalíptica para o juízo final, quando a devastação da terra edo céu alcançará seu alcance universal. Naquele dia apocalíptico dojuízo, toda a terra voltará a seu estado primitivo e de novo chegará a serum abismo: escuro, desordenado e vazio (ver Jer. 4:23, 28; cf. Gên. 1:2). Esse dia apocalíptico, como o Novo Testamento torna claro, é osegundo advento de Cristo (ver 2 Tes. 1:6-9; Apoc. 6:12-17; 19:11-21).Então toda a terra chegará a ser um grande abismo, a condição da terrapor um milênio, um cárcere exclusivamente para Satanás e seus espíritosdemoníacos. De acordo com a escatologia paulina, o juízo da segundavinda de Cristo não deixa pessoa viva sobre a terra. Os santos, seja porressurreição ou translação, todos serão levados à casa do Pai (ver João14:1-3; 1 Tes. 4:16, 17); todos os ímpios jazerão no pó pela glóriaconsumidora da aparição de Cristo (ver Heb. 10:26, 27; 2 Tes. 1:6-10;2:8; Apoc. 6:15-17; 16:17-21; 19:21). Se nenhum ser humanopermanecer vivo sobre a terra, é evidente que Satanás, detido no abismodesta terra convertida em ruínas, está atado por uma "grande cadeia" decircunstâncias que Cristo mesmo ocasionou com seu segundo advento.Durante o milênio, Satanás estará guardado "para que não engane maisas nações" (Apoc. 20:3, CI), porque já não pode influir nem nos justosque estão no céu ou nos ímpios que estão mortos.
  17. 17. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 17 Diferença Entre a Experiência do Evangelho e a Realidade Apocalíptica A linguagem figurada de Apocalipse 20:1-3 não deve confundir-secom a realidade da vitória de Cristo sobre Satanás durante seu ministérioterrestre. Parece injustificado identificar a prisão apocalíptica de Satanásem Apocalipse 20 como o poder do evangelho para "atar" a Satanás ondequer que o Espírito de Cristo liberta as pessoas de seu domínio (ver Mat.12:28, 29). Se a "atadura" de Satanás se levou a cabo quando Cristomorreu na cruz, como pode Satanás ser solto de sua prisão como seanuncia em Apocalipse 20:7? Devemos ser muito cuidadosos para nãoconfundir a obra de Cristo em seu segundo advento com a obra que fezem seu primeiro advento. O propósito do Apocalipse de João não é repetir os quatroEvangelhos que se centram no primeiro advento de Cristo, mas simtransmitir uma revelação progressiva do reinado de Cristo que culminaem seu segundo advento. Em Apocalipse 20, o tempo da atadura deSatanás não só é diferente da dos Evangelhos, mas também que édiferente sua natureza. Anthony Hoekema declarou que a atadura deSatanás em Apocalipse 20 significa que a influência de Satanás "estápelo menos controlada de tal forma que não pode evitar a propagação doevangelho a todas as nações da terra", e que "as nações não podemconquistar a igreja, mas sim a igreja está conquistando às nações".21 Mas esta opinião não respeita a natureza radical da ataduraapocalíptica de Satanás, seu confinamento no abismo de um mundo emruínas, "para que não engane mais às nações" (Apoc. 20:3, CI). Masminimizar a atadura de Satanás até o ponto de dizer que o milênio é umaera de desenvolvimento próspero da igreja, não toma a sério a naturezailimitada da atadura de Satanás no Apocalipse. G. C. Berkouwerrechaçou qualquer relativização da atadura de Satanás em Apocalipse20.22 Igualmente Robert Mounce vê subentendida "a cessação completa
  18. 18. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 18de sua influência na terra" antes que uma restrição das atividades deSatanás.23 Permanece o fato inegável que séculos depois da cruz, Satanás eseus falsos apóstolos ainda são capazes de enganar o mundo ao cegar asmentes dos incrédulos ao evangelho (ver 2 Cor. 4:4; 11:13, 14). O diaboainda "rodeia como leão a rugir" (ver 1 Ped. 5:8, BJ) e "agora opera nosfilhos de desobediência" (Ef. 2:2). Ainda depois de sua derrota moral nacruz (ver Col. 2:15) Satanás ainda está enganando com êxito o mundo(ver 2 Tes. 2:9, o), e está "enganando o mundo inteiro" (ver Apoc. 12:9;13:14; 19:20). João inclusive escreveu que "o mundo inteiro está nomaligno" (1 João 5:19). A cruz despojou a Satanás de todos os seusdireitos perante Deus, mas não de seu poder para enganar a humanidade.Só o segundo advento o despojará desse poder, como descrevem asvisões de Apocalipse 19 e 20.O Milênio Indicado com Antecipação em Duas Profecias Hebraicas Duas passagens do Antigo Testamento arrojam luz sobre osignificado apocalíptico do milênio: Isaías 24:21-23 (dentro doapocalipse de Isaías, caps. 24-27) e Ezequiel 36 a 39. Isaías descreve o juízo final como abrangendo todo o cosmos e todaa terra: "Naquele dia, o Senhor castigará, no céu, as hostes celestes, e os reisda terra, na terra. Serão ajuntados como presos em masmorra, e encerradosnum cárcere, e castigados depois de muitos dias. A lua se envergonhará, e osol se confundirá quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião e emJerusalém; perante os seus anciãos haverá glória" (Isa. 24:21-23). Nesta passagem apocalíptica podem observar-se várioscaracterísticos: (1) o profeta vê o juízo de Deus que dita sentença não sósobre os homens mas também sobre os anjos, o "no céu, as hostescelestes" (cf. Dan. 10:13, 20; Sal. 82; Ef. 6:12); (2) todos esses poderesrebeldes do céu e da terra serão "amontoados como presos em
  19. 19. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 19masmorra" ("poço", BJ); (3) serão "amontoados... num cárcere", serãocastigados "depois de muitos dias", quer dizer, depois de um períodolongo não especificado de encarceramento. Nestes três aspectos doapocalipse de Isaías não se pode falhar em observar o conceito germinaldo milênio com sua atadura de Satanás no abismo por mil anos. G. R.Beasley-Murray reconhece que "a idéia essencial de Apocalipse19:19-21:3 apresenta breve extensão em Isaías 24:21 e os versosseguintes".24 Esta conexão de Isaías 24 com o milênio é amplamentereconhecida pelos comentadores. Isaías declara que enquanto que os poderes malignos estão presos,toda a terra jaz em um estado de desolação. "A terra será de tododevastada e totalmente saqueada, porque o Senhor é quem proferiu estapalavra" (Isa. 24:3; cf. os vs. 19, 20). Aqui temos de novo o quadro deum abismo universal. Na visão de Isaías, o juízo final de Deus compreende várias fases:primeiro os poderes malignos serão capturados mas não serão castigadosimediatamente; ficarão na prisão "muitos dias". Este juízo preliminarserá seguido pelo juízo final levado a cabo pelo próprio Deus. Ospoderes que estão contra Deus estão simbolizados por uma serpente-dragão de muitas cabeças (ver Isa. 27:1; na LXX, drákon; cf. Sal. 74:13,14), descobrindo outro elo com o simbolismo de Apocalipse 20:2. O apocalipse de Isaías revela que o juízo cósmico causa aressurreição dos mortos do fiel povo do pacto de Deus: "Os vossosmortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão... e a terra daráà luz os seus mortos" (Isa. 26:19). Com o toque de uma "grandetrombeta" Deus reunirá "um por um" os fiéis, para que possam participardo banquete apocalíptico de Jeová "para todos os povos" sobre o montesanto (ver Isa. 27:12, 13; 25:6-9; 24:23). No Apocalipse de João, estebanquete se transforma em "a ceia de bodas do Cordeiro" (Apoc.19:6-9), quando a noiva, a igreja de todas os tempos, unir-se-á parasempre com seu Salvador. Esta festa de bodas é o característico central
  20. 20. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 20do reino milenial de Deus no céu, que tem lugar depois que os santosmártires voltem à vida na primeira ressurreição (Apoc. 20:4, 5). O profeta Ezequiel também fala dos eventos do tempo do fim naterminologia apocalíptica de períodos sucessivos. No esquema proféticode Ezequiel, Jeová começa a ressuscitar o povo do novo pacto que estáem Babilônia e a restaurar este novo Israel à terra prometida (ver Ezeq.36:24-32; 37:1-14). Este fiel Israel de Deus será governado para semprepelo Rei messiânico: "Meu servo Davi será rei sobre eles, e todos elesterão um só pastor" (37:24, 25). A glória da shekinah estará entre elespara sempre: "Estará em meio deles meu tabernáculo, e serei a eles porDeus, e eles me serão por povo" (v. 27). Entretanto, "depois de muitos dias" (Ezeq. 38:8) de existênciapacífica desta teocracia messiânica, Gogue, o rei de Magogue, o líder dasnações confederadas do mundo, atacará a terra de Israel. O Israel deDeus de maneira nenhuma entrará em combate. Não precisa fazê-loporque Jeová será o guerreiro divino que pelejará nesta guerra santa sócom armas de seus depósitos. "Contenderei com ele por meio da peste edo sangue; chuva inundante, grandes pedras de saraiva, fogo e enxofrefarei cair sobre ele, sobre as suas tropas e sobre os muitos povos queestiverem com ele. Assim, eu me engrandecerei, vindicarei a minhasantidade e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberãoque eu sou o Senhor" (Ezeq. 38:22, 23; também 39:6). Ezequiel colocou a rebelião final de Gogue depois do reinomessiânico que aparece nos capítulos 36 a 39. Só depois que estarebelião das forças do mal tenha sido esmagada pela intervenção divina,será purificada a terra e estará pronta para a Nova Jerusalém (Ezeq.40-48). Não é maravilha que G. Ernest Wright declarasse: "O livro queapresenta o esboço mais claro dos eventos escatológicos é o deEzequiel".25 O Apocalipse de João Mostra a Consumação
  21. 21. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 21 As sete visões de juízo de João que se encontram em Apocalipse19:11 a 21:8 constituem uma unidade independente, modelada segundo oesboço dos eventos escatológicos de Ezequiel 36-48. A perspectivaapocalíptica de João descreve o juízo de Deus sobre Babilônia durante asétima praga (Apoc. 16-18), que introduz a vinda do Messias como oGuerreiro divino do céu que destruirá os perseguidores de sua igreja, a"besta", o "falso profeta" e os "reis de todo o mundo" (Apoc. 19:19-21;também 16:12-21). Então Cristo traz a seus fiéis a libertação e a ressurreição dosmortos (ver Apoc. 20:4), o regozijo da ceia de bodas na Nova Jerusalémno céu (Apoc. 19:6-9; 21:2, 7), e a autoridade de julgar sobre tronoscelestiais em seu reino durante mil anos (20:4). Este reinado milenialterminará com o descida da Nova Jerusalém do céu à terra. Satanás serásolto de seu abismo, porque agora, ao fim dos mil anos, terá lugar aressurreição do resto da humanidade (20:5, 7; cf. João 5:28, 29; 1 Cor.15:24). Este acontecimento prepara o cenário para a obra final de enganode Satanás e o ataque universal dos inimigos de Deus à Nova Jerusalém,"o acampamento dos santos", de acordo com Apocalipse 20:7-10. Para indicar a continuidade básica desta guerra apocalíptica com ada visão de Ezequiel, João identifica os agentes de Satanás com Gogue eMagogue (Apoc. 20:8). Os paralelos seguintes mostram como secorrespondem os esboços de Ezequiel e João: 1. A ressurreição de um Israel espiritualmente morto da tumba deBabilônia para ser um povo do novo pacto (ver Ezeq. 36:24-28;37:1-14). João vê a ressurreição das testemunhas decapitadas de Cristoque recusaram adorar a "besta" babilônica e a sua "imagem" (Apoc.20:4). 2. Como a nova teocracia, Israel vive pacificamente na terraprometida sob o governo do novo Davi, o Messias (ver Ezeq. 37:1528).João vá os santos ressuscitados reinar com Cristo por mil anos (Apoc.20:4-6).
  22. 22. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 22 3. Depois de "muitos dias" o ataque final do norte contra Israelpelos exércitos de Gogue, rei de Magogue, recebe uma derrotaesmagadora por meio do fogo que desce do céu (Ezeq. 38, 39). João vêque depois do reinado de mil anos dos santos, os exércitos de "Gogue eMagogue" atacam o acampamento do povo de Deus, a santa cidade,desde todas as direções, mas são aniquilados pelo fogo que desce do céu(Apoc. 20:7-9). 4. Ezequiel viu a teofania de Jeová em uma Nova Jerusalém, quetinha o nome: "O Senhor está ali" (Ezeq. 48:35, NBE). João vê a NovaJerusalém descender do céu à terra como a esposa do Cordeiro (Apoc.21:1, 2). Então se realizará plenamente a promessa: "Eis o tabernáculo deDeus com os homens, e com eles habitará..." (v. 3). Enquanto que o objetivo anticristão da guerra apocalíptica é emessência o mesmo tanto em Ezequiel como em João, podem observar-semodificações que ensinam um princípio importante de interpretaçãoapocalíptica. As restrições étnicas e geográficas da linguagem figuradado velho pacto de Ezequiel ("meu povo Israel", "minha terra", Gogueatacará "a terra do Israel", a teofania estremecedora de Jeová, etc.), tudoisto está transformado pelo Apocalipse de João em um conflitocompletamente cristocêntrico. O Apocalipse de João é um apocalipsecristão caracterizado pela integração do evangelho nas escatologias doAntigo Testamento. Essa integração coloca firmemente a Cristo e a seusverdadeiros seguidores no centro de todas as profecias do AntigoTestamento. Esta é a novidade essencial dos Evangelhos cristãos e daescatologia do Novo Testamento. A perspectiva do tempo do fim do Antigo Testamento é básica paraentender o triunfo do Deus do pacto no conflito entre Deus e Satanás. Asprofecias de Israel sobre o castigo divino de todos os poderes rebeldesrecebem seu cumprimento cristológico no Apocalipse de João. O rei deIsrael, "meu servo Davi" (Ezeq. 37:34), chega a ser Cristo, o "Rei dosreis" (Apoc. 19:16; 22:16). O Israel messiânico escatológico (Ezeq.
  23. 23. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 2337:26-28; 38:11, 12) chega a ser a igreja triunfante de Cristo no reino deCristo (Apoc. 20:4). Gogue, o rei de Magogue e seus aliados políticos(Ezeq. 38:2, 3) chegam a ser o próprio Satanás e seus aliados terrestres,quer dizer, o resto da humanidade levantada na segunda ressurreição masenganada por Satanás para uni-los em uma rebelião universal contraCristo (Apoc. 20:7-9; 21:2). Como a profecia de Ezequiel tem a mesma ordem deacontecimentos que os capítulos 20 a 22 do Apocalipse, inferimos que oApocalipse revela a interpretação cristã da consumação de Ezequiel 36 a48, começando com o segundo advento e a ressurreição dos santos fiéis.Portanto, a visão do milênio de João transmite uma mensagem para opresente: aos judeus, que Jesus é o Messias verdadeiro e que sua igreja éa semente verdadeira de Abraão e o Israel messiânico; aos gentios, queCristo é o Juiz do mundo; à igreja, que Jesus vindicará a seus seguidorese os recompensará em seu reino; e a Satanás e seus anjos, que suaexecução é inapelável. O Significado Teológico do Milênio João descreve sua visão principal do milênio em três versículos: "Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dadaautoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa dotestemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantosquantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e nãoreceberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristodurante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que secompletassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventuradoe santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses asegunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes deDeus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos" (Apoc. 20:4-6). É perigosa a tentação a ler muita teologia preconcebida nestapassagem. Precisamos estar em guarda contra uma exegese dogmáticaque encontra um texto que está procurando. Em primeiro lugar, devemos
  24. 24. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 24reconhecer que não há indicação neste texto de que João estádescrevendo um reino sobre os sobreviventes terráqueos da batalha doArmagedom ou de seus descendentes que supostamente nasceramdurante o milênio. Em realidade, como alguns notaram, "a passagem[Apoc. 20:1-6] não diz nada a respeito de um reinado terrestre de Cristosobre um reino principalmente judeu".26 O cenário da visão que João teve do reinado milenial dos santosressuscitados parece estar no céu antes que na terra como geralmente sesupõe. João viu "tronos" sobre os que estavam sentados aqueles que"receberam autoridade de julgar"; "concedeu-lhes autoridade para julgar"(CI); "encarregado-os de pronunciar sentença" (NBE). Leão Morris faz este comentário importante sobre Apocalipse 20:4:"Ele [João] usa a palavra trono 47 vezes em total, e exceto para o tronode Satanás (Apoc. 2:13) e para o trono da besta (Apoc. 13:2; 16:10),todos parecem estar no céu. Estaria de acordo com isto se ele aquientendeu um reino no céu".27 Anthony Hoekema reconhece que "ocenário da visão de João agora se mudou para o céu... os versículos 4-6representam o que acontece no céu".28 Hoekema menciona umacaracterística importante da estrutura de Apocalipse 20: concretamente, amudança de cenário da terra ao céu, que é tão comum nas visõesapocalípticas. William Shea, em um artigo instrutivo, mostrou como a alternânciadas dimensões horizontais e verticais ocorre tanto em Apocalipse 12como no 20.29 Para ser específicos, o centro focal de Apocalipse 12muda da terra (vs. 1-6) ao céu (vs. 7-12), e depois outra vez à terra (vs.13-17). Esta pauta "A-B-A" de cenas consecutivas começa de maneirasimilar com a terra (20:1-3), depois muda ao céu (vs. 4-6), e finalmentevolta para a terra (vs. 7-10). Este ponto de vista de um reino milenialcelestial é uma opinião minoritária entre os intérpretes pré-milenistas eestá incorporada nas crenças fundamentais dos adventistas do sétimodia.30
  25. 25. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 25 Em uma visão anterior João viu deus no trono no céu, e "ao redordo trono havia vinte e quatro tronos; e vi sentados nos tronos a vinte equatro anciões, vestidos de roupas brancas, com coroas de ouro em suascabeças" (Apoc. 4:4). Esta visão intrigante de Apocalipse 4 parecesugerir que Deus como presidente do tribunal comissionou a 24representantes dentre os santos da terra para reinar e julgar junto com eleagora (vejam-se os caps. XII e XIII desta obra). Mas em Apocalipse 20,João vê sentados sobre tronos celestiais os que sacrificaram suas vidaspor causa de sua fidelidade ao "testemunho do Jesus" e a "a palavra deDeus" (V. 4), especialmente durante a prova final de fé com respeito àmarca da besta (V. 4). Aqui há uma diferença fundamental entre as duasvisões do trono de Apocalipse 4 e 20. Os tronos de juízo de Apocalipse20 estão conectados de algum modo à vindicação dos mártires e seudireito a governar o planeta terra. Mounce relaciona a cena do trono emApocalipse 20 ao trono celestial da visão de Daniel 7:13 e 14. Portanto,sugere que os tronos de Apocalipse 20 representam "um tribunalcelestial".31 O elo que une Apocalipse 20 e Daniel 7 é o tema da vindicaçãodivina dos santos do Altíssimo que foram oprimidos, e sua recompensapara governar ao mundo. A diferença fundamental entre as duas cenas dejuízo é que na visão de Daniel, os santos perseguidos são julgados evindicados pelo juiz divino: "Até que veio o Ancião de Dias e fez justiçaaos santos do Altíssimo; e veio o tempo em que os santos possuíram oreino" (Dan. 7:22). Entretanto, em Apocalipse 20, estes santos estãosentados com Cristo sobre tronos celestiais e recebem autoridade parajulgar: "E viveram e reinaram com Cristo mil anos" (Apoc. 20:4). Aquihá uma clara progressão na história, e indica que as sessões do tribunalcelestial em Daniel 7 e Apocalipse 20 se sucedem uma à outra. Tambémé evidente o progresso no tempo ao comparar as "almas" dos que foramdecapitados "por causa da palavra de Deus e o testemunho (do Jesus)"durante o quinto selo (6:9), e que clamavam pelo santo juízo e avingança de Deus (v. 10), e as "almas" dos mesmos mártires que viveram
  26. 26. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 26e reinaram com Cristo mil anos em Apocalipse 20:4. Estes mártiresparticiparam da primeira ressurreição! Não podemos imaginar umavindicação maior. A honra que Deus dá de reinar com Cristo é para osvencedores. Cristo já tinha prometido que voltaria e levaria a seus discípulos àcasa de seu Pai no céu (João 14:1-3). Também prometeu que todos osvencedores se sentariam com ele em seu trono no céu (ver Apoc. 3:21;15:1-4). Estas promessas sugerem com força que durante o milênio ossantos não estarão situados em um mundo desolado. Ao contrário, seureino inclui a responsabilidade de ter uma parte no reino de Deus e emsua avaliação do pecado. Esta segurança renovada em Apocalipse 20:4-6proporciona o consolo aos santos caluniados de que sua "derrota" e"vergonha" serão logo invertidas completamente em triunfo pelo tribunalde Deus. Em realidade, os santos executados ("decapitados") chegarão aser os juizes de seus perseguidores. É significativo que o Apocalipse, com seu apaixonado desejo dejustiça, assegura aos santos que Deus os ressuscitará à vida eterna e osexaltará durante o milênio como sacerdotes e reis para atuar como juízese assessores junto com Cristo. Todo o consolo para os santosperseguidos se concentra na bem-aventurança mais significativa doApocalipse: "Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte naprimeira ressurreição" (Apoc. 20:6). Não voltarão a morrer nunca mais:"A segunda morte não tem poder sobre estes" (V. 6). Deve Aplicar-se Isaías 65 e 66 a um Milênio Sobre a Terra? Chegou a ser uma tradição no dispensacionalismo designar Isaías65 e 66 como o tempo das "bênçãos mileniais" durante as quais amaldição sobre a terra "suprime-se só parcialmente, como se indica pelacontinuidade da morte".32 Também afirmam que os que nasçam nomilênio "não nascerão isentos de pecado, de maneira que a salvação será
  27. 27. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 27necessária", 33 enquanto que os que tenham chegado a ser "abertamenterebeldes serão executados (Isa. 66:20, 24; Zac. 14:16-19)".34 A pressuposição de que Isaías 65 e 66 e promessas similares doreino de Deus devam aplicar-se ao milênio de Apocalipse 20 fica comouma inferência que não é indispensável e que não está garantida se sepermite que o Novo Testamento defina as promessas do reino. Isaíasdeve entender-se à luz do evangelho de Cristo. O novo pacto tem feitoque o antigo seja obsoleto e posto a um lado (ver Heb. 10:9; 8:13). Esta éuma verdade comprovada de fé cristã! Declarar que os santos no milêniojá não celebrarão mais a ceia do Senhor mas sim voltarão a oferecersacrifícios animais em "comemoração" da cruz de Cristo, não só é o"maior obstáculo",35 e sim um rechaço para aceitar o testemunho claroda Escritura em Hebreus 8 a 10 com o propósito de defender um dogmaproblemático.36 Vistos na perspectiva do Novo Testamento, os capítulos 65 e 66 deIsaías devem aceitar-se como a vislumbre antecipada do plano de Deusexpressa no idioma e as limitações do antigo pacto – o culto desacrifícios de sangue e oferendas de animais e as leis levíticas –, o quenão é a última palavra de Deus na história da salvação, e que não se deveisolar do novo pacto de Cristo e da revelação progressiva da vontade deDeus. Apocalipse 21 e 22 ensinam como se cumprirá Isaías 65 e 66: seucumprimento será maior que qualquer expectativa judaica do antigopacto. Apocalipse 21 e 22 transformam as predições de Isaías, e asaplicam ao estado eterno na terra em uma forma melhor que o que seentendeu antes. Os profetas e o Apocalipse não representam duasperspectivas diferentes que devem ajustar-se lado a lado. São uma e amesma. O Senhor ressuscitado adianta a velha perspectiva a umapromessa melhor e mais perfeita em que a morte e o pecado já não sãouma parte do reino de Deus e Cristo sobre a terra feita nova. Ocumprimento será maior que uma leitura literal das velhas promessas: "E
  28. 28. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 28do primeiro não haverá memória, nem mais virá ao pensamento" (Isa.65:17; também 1 Cor. 2:9). Não existe requisito para forçar Isaías 65 e66 em uma forma literalista no milênio de Apocalipse 20. Para umaexposição adicional do Isaías 65 e 66, ver o APÊNDICE B, primeiraparte. O Juízo Pós-Milênio Antes que o diabo e suas hostes sejam aniquilados no "lago defogo", Deus vindica seu nome caluniado em uma forma majestosa diantedo universo: por meio das bocas dos ímpios. Chega a sessão final dotribunal para Satanás e seus seguidores, humanos e angélicos. Agora sedeclara a justiça em termos forenses, reconhecem-se o bem e o mal e seestabelecem para sempre a origem, a natureza e as conseqüências dopecado. "Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cujapresença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi tambémos mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então,se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortosforam julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escritonos livros. Deu o mar os mortos que nele estavam. A morte e o alémentregaram os mortos que neles havia. E foram julgados, um por um,segundo as suas obras. Então, a morte e o inferno foram lançados paradentro do lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E, sealguém não foi achado inscrito no Livro da Vida, esse foi lançado para dentrodo lago de fogo" (Apoc. 20:11-15). Esta cena do tribunal em que o Criador é Juiz, vai além de todas asdemais descrições do juízo final tanto no Antigo Testamento como noNovo Testamento. Os redimidos que ressuscitaram na primeiraressurreição no começo do milênio (Apoc. 20:6) ficam isentos destejuízo final do mundo. A passagem aplica em sua extensão total o queinsígnia o Evangelho de João:
  29. 29. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 29 "Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquantonão crê no nome do unigênito Filho de Deus" (João 3:18). "Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que seacham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que tiverem feito o bem,para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para aressurreição do juízo" (João 5:28, 29). O juízo pós-milênio trata exclusivamente com os que rechaçaramdefinitivamente a Jesus Cristo. Embora são chamados para dar conta desuas vidas "pelas coisas que estavam escritas nos livros" (Apoc. 20:12;cf. Isa. 65:6), João esclarece que o assunto decisivo é sua relação comCristo. Diz João: "E o que não se achou inscrito no livro da vida foiarrojado ao lago de fogo" (Apoc. 20:15; ver também 13:8). João "indicaque o único critério de salvação é o fato de que nosso nome esteja escritono livro da vida. O critério decisivo no juízo universal é o de pertencer aCristo... portanto, o juízo não pode ser a não ser a revelação universaldas decisões que já foram feitas".37 Ellen White comentou o seguinte: "O mundo ímpio todo acha-se em julgamento perante o tribunal deDeus, acusado de alta traição contra o governo do Céu. Ninguém há parapleitear sua causa; estão sem desculpa; e a sentença de morte eterna épronunciada contra eles".38 A sabedoria de Deus, sua justiça e bondade estão colocadas além detoda dúvida. O caráter de Deus fica vindicado diante do universo. Todasas criaturas no céu e na terra, justos ou ímpios, inclinam seus joelhosante o nome do Jesus e "confessam que Jesus Cristo é o Senhor, paraglória de Deus Pai" (Fil. 2:10, 11). Isto significa a coroação final doFilho de Deus, que o exalta "sobre todo nome" (v. 9). Todos os seresvivos no céu e na terra reiteram a doxologia: "O Cordeiro que foiimolado é digno de tomar o poder, as riquezas, a sabedoria, a fortaleza, ahonra, a glória e o louvor" (Apoc. 5:12). Todos estão satisfeitos porque "seus juízos são verdadeiros e justos"(Apoc. 19:2). Na lei de Israel, uma testemunha maliciosa que acusavafalsamente a um irmão de um delito era depois "indagado
  30. 30. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 30minuciosamente" (Deut. 19:18, BJ), e sentenciado a receber o castigoque tinha procurado para seu irmão (ver os vs. 19, 20). Uma"investigação completa" tomará lugar no juízo em que atuarão os santosdurante o milênio (ver Apoc. 20:4; 1 Cor. 6:2, 3). Não mais somente pelafé, mas sim por convicções arraigadas, todos os homens se unirão aocoro dos anjos: "Certamente, Senhor Deus Todo-poderoso, teus juízossão verdadeiros e justos" (Apoc. 16:7; também 19:1, 2; 15:3, 4). Esta opinião "coloca a ênfase não sobre um reino terrestre de glóriapara os redimidos, e sim sobre a vindicação de Deus, a exoneração e ahonra de seu nome em toda sua relação com o problema do pecado".39 Omilênio de Apocalipse 20 oferece a última teodicéia do Criador. Pormeio do dom de seu Filho e pelo sacrifício abnegado de Cristo, o amor ea justiça de Deus permanecem para sempre como uma uniãoinexpugnável ante toda a criação. Todas as acusações de Satanás contrao caráter e o governo de Deus ficam enterradas para sempre. O reino de Cristo sobre os inimigos de Deus alcançará este pontoculminante na conclusão do milênio. Esmagará a cabeça da serpente sobseus pés (Gên. 3:15; Rom. 16:20). Como o arquimentiroso earquiassassino (João 8:44), Satanás será "arrojado no lago de fogo eenxofre" (Apoc. 20:10). Cristo extirpará todo o mal do universo, demaneira que "não deixará nem raiz nem ramo" (Mau. 4.1). Todos os quese identificaram com o pecado encontrarão seu lugar no "fogo eternopreparado para o diabo e seus anjos" (Mat. 25:41). "E o que não se achouinscrito no livro da vida foi arrojado ao lago de fogo". Esta é a segundamorte" (Apoc. 20:15, 14). O assunto final da salvação ou condenação é se se está "inscrito nolivro da vida do Cordeiro" (Apoc. 21:27). Os que nasceram de cimapodem estar absolutamente seguros de ter este registro divino (ver Luc.10:20; Filip. 4:2, 3; 3:20; Heb. 12:22, 24). A salvação é um dom de Deusque não está apoiada sobre obras santificadas a e sim somente sobre aobra de Cristo (ver João 3:16; 5:24). Nossas obras só nos servem comoevidência de nossa união com o Cordeiro. "A fé sem obras é morta"
  31. 31. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 31(Tiago 2:26). Nesse tempo, depois do milênio, realizar-se-á plenamente aperspectiva apocalíptica do Paulo: "E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai,quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade epoder. Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigosdebaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte... Quando,porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho tambémse sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus sejatudo em todos" (1 Cor. 15:24-26, 28). Então pode começar a eternidade: "Novos céus e nova terra, nosquais habita a justiça" (2 Ped. 3:13; também Apoc. 21:1; Sal. 115:16). Asalvação cristã inclui o paraíso restaurado sobre a terra como umarealidade universal, social e política. Referências Para a Bibliografia, ver nas páginas 576-580. 1 Jack S. Deere, "Premillennialism in Revelation 20:4-6" [Premilenialismo em Apocalipse 20:4-6], Bibliotheca Sacra (Biblioteca Sagrada] 135 (1978), p. 61. 2 Schnackenburg, Rudolf. Gottes Herrschaft und Reich [A Soberania e o Reino de Deus], p. 241. 3 Ladd, El Apocalipsis de Juan: Un comentario, p. 269. 4 Vogelgesang, The Interpretation of Ezekiel in the Book of Revelation, p. 65. 5 Ibid., p. 72. 6 Ibid., P. 69 (ver sua lista comparativa na p. 68). 7 Para uma análise detalhada, ver LaRondelle, Chariots of Salvation. The Biblical Drama of Armageddon, cap. 8. 8 Ver LaRondelle, "The Etymology of HAR-MAGEDON (Rev. 16:16)", AUSS 27 (1989), pp. 69-73. 9 Giblin, The Book of Revelation. The Open Book of Prophecy, p. 177.
  32. 32. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 32 10 Shea, Estudios selectos sobre interpretación profética, pp. 46, 47. 11 Badina, "The Millennium", Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 236. 12 Ver Arndt e Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, p. 810. 13 Ladd, Una teología del Nuevo Testamento, p. 559; também a nota 37. 14 Ver Charlesworth, The Old Testament Pseudepigrapha, t. 1, p. 156. 15 Ver Aranda Pérez-García Martínez-Pérez Fernández, Literatura judía intertestamentaria, p. 330. 16 Strack-Billerbeck, Comentario del Nuevo Testamento con el Talmud y la Midrás, t. 3, pp. 823-827. Resumido em G. Beasley- Murray, Revelation, pp. 288 e 289, e no J. M. Ford, Revelation, pp. 352 e 353. 17 Strack-Billerbeck, Comentario del Nuevo Testamento con el Talmud y la Midrás, p. 3, P. 827. 18 Beasley-Murray, Revelation, p. 289. 19 Ibid. 20 Ladd, The Presence of the Future, p. 67. 21 Hoekema, The Meaning or the Millennium: Four Views, p. 164. 22 Berkouwer, The Return of Christ, p. 305. 23 Mounce, The Book of Revelation, p. 353. 24 Beasley-Murray, Revelation, p. 286. 25 G. Ernest Wright, Interpreters Bible Commentary, t. I, p. 372. 26 Hoekema, The Meaning or the Millennium: Four Views, p. 172. 27 Morris, The Revelation of St. John, p. 236. 28 Hoekema, The Bible and the Future, p. 230. 29 Shea, "The Parallel Literary Structure of Revelation 12 and 20", AUSS 23 (1985), pp. 37-54. 30 Ver Creencias de los adventistas del séptimo día, t. 2, cap. 26. 31 Mounce, The Book of Revelation, p. 355. 32 Walvoord, The Millennial Kingdom, pp. 317, 318.
  33. 33. Compreendendo o Milênio. Apoc. 19, 20 33 33 J. Dwight Pentecost, Eventos del porvenir (Maracaibo, Venezuela: Editorial Libertador, 1977; trad. de Luis G. Galdona), p. 371. 34 Walvoord, The Millennial Kingdom, p. 302. 35 Ibid., p. 311. 36 Para uma avaliação e critica extensa, ver LaRondelle, The Israel of God in Prophecy. Principles of Prophetic Interpretation. 37 Rissi, The Future of the World: An Exegetical Study of Revelation 19:11-22:15, pp. 36, 37. 38 Ellen White, GC 668. 39 Badina, em "The Millennium" Simpósio sobre o Apocalipse, t. 2, p. 242. FONTES BIBLIOGRÁFICAS PARA ENTENDER O MILÊNIO Livros Althaus, P. Die Letzten Dinge [Os Eventos Finais]. Gütersloh: C. Bertelsmann, 1957, V impressão. Associação Ministerial da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, Creencias de los adventistas del séptimo día. Florida, Buenos Aires: ACES, 1989 (trad. de Armando J. Collins). 2 vs. Arndt e Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature [Um Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento e de Outra Literatura Cristã Primitiva] (Chicago: The University of Chicago Press, 1952, 4ª ed. revisão e aumentada), p. 332. Beasley-Murray, George R. Revelation [O Apocalipse]. New Century Bible Commentary [Comentário da Bíblia do Novo Século]. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1983. Berkouwer, G. C. The Return of Christ [A Volta de Cristo]. Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1972. Cap. 9: "O Anticristo". Bietenhard, H. Das Tausendjahrige Reich [O Reinado dos Mil Anos]. Zurich: Zwingli-Verlag, 1955.
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