XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                                  TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                  ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                               TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                     ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                               TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                     ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                               TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                     ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                                TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                    ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                               TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                     ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                                  TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                  ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                             TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                       ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                             TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                       ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                           TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                         ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                           TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                         ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                           TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                         ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                            TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                        ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                           TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                         ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                           TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                         ...
XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS:                        TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS                            ...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

A reescrita da história colonial nicaraguense em o estreito duvidoso de ernesto cardenal por renata bomfim

1.808 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.808
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
1.146
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
3
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A reescrita da história colonial nicaraguense em o estreito duvidoso de ernesto cardenal por renata bomfim

  1. 1. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 1 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) A REESCRITA DA HISTÓRIA COLONIAL NICARAGÜENSE EM O ESTREITO DUVIDOSO, DE ERNESTO CARDENAL Renata Oliveira Bomfim Mestre e doutoranda em Letras- Ufes/ FAPES/ CNPq “Por nós e pela humanidade, começaremos uma nova página, fabricaremos novos conceitos e lançaremos o novo homem” (Frantz Fanon). A obra1 O Estreito Duvidoso (1994), de Ernesto Cardenal (1925), foi escrita quando o poetae sacerdote nicaragüense era interno no Monastério de Cuernavaca, no México, e publicada emMadri, cinco anos depois, em 1966. Dividida em vinte e cinco cantos, a obra é uma epopéiaque reescreve o processo de colonização na América Central, começando com a passagem deCristóvão Colombo pelo Cabo de Graças, na Nicarágua, na sua quarta e última viagem, e seestendendo até a destruição da primeira capital nicaragüense, León Velha, pelo vulcãoMomotombo. A Nicarágua é o maior país da América Central e está situado entre os Oceanos Atlântico(Mar do Sul) e Pacífico (Mar do Norte). Essa localização estratégica fez com que muitosconquistadores cobiçassem a sua posse, e motivou a crença da existência de um Estreito pluvialque uniria os dois Oceanos, facilitando o tráfego das especiarias, vem daí o título da obra. Mapa da América Central Mapa da Nicarágua 1 A tradução deste texto, originalmente em espanhol, foi realizada pela autora deste artigo.
  2. 2. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 2 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) A crença na existência do dito Estreito deve, também, ao fato da Nicarágua possuir váriosrios navegáveis que se intercomunicam, e lagos de grandes extensões como o Cocibolca, maiorda América Latina, chamado na obra de “Mar doce”. O poderio espanhol entrou em declínio naNicarágua no século XIX, quando o capitalismo mundial estava em franca expansão, lideradopelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Eis que nessa época, novamente, a questão do Estreitoentrou em pauta, quando houve a necessidade de os países capitalistas ampliarem o comérciointernacional por meio da criação de novas rotas marítimas, se cogitou a construção de umcanal interoceânico na Nicarágua, ideia que foi rechaçada pelos nicaragüenses. Nacontemporaneidade o Estreito Duvidoso volta a fazer parte da pauta política nicaraguense,como descreveu o artigo O ilusório canal, do jornalista Fabio Gadea Mantilla, publicado nojornal La prensa do dia 03 de julho de 2012. Mantilla afirma que a ideia, nada nova, doPresidente Daniel Ortega, de abrir em dez anos o Canal interoceânico, revela o desejo deste dese manter no poder por um longo prazo. O jornalista defende que o tal Estreito deve serencarado como um projeto nacional que trará estabilidade econômica ao país, assim como oCanal do Panamá, país vizinho. A busca pelo Estreito inexistente foi o leitmotiv utilizado por Cardenal para recontar ahistória da colonização sob um novo prisma e tornando possível a audição de vozes que foramhistoricamente silenciadas e, também, de tecer uma crítica ao governo ditatorial de AnastácioSalazar, assassino de Augusto Sandino2. O Estreito Duvidoso (1994) é um canto poético que serealiza, desde o título, sob o signo da dúvida, aspecto valorizado pela crítica pós-colonial. A crítica pós-colonial é um possível instrumento teórico-crítico utilizado na investigaçãodas práticas discursivas de resistência anti-colonial3. O crítico Homi Bhabha na obra O local dacultura (2007, p. 23) destacou que a utilização do prefixo “pós”, jargão contemporâneo deconceitos (muitos deles controversos) como pós-modernismo e pós-feminismo deve muito àdificuldade de se nomear o tempo presente, marcado pela “sensação de desorientação” e porum “distúrbio de direção”. A abordagem pós-colonialista recebeu críticas como a do chinês2 Augusto César Sandino (líder revolucionário assassinado em 1934 pela Guarda Nacional de Anastácio SomozaGarcia).3 Foi a partir da década de 80 que o pesquisador da literatura estreitou mais o diálogo com outras áreas doconhecimento, como a filosofia, as artes plásticas, a história, a antropologia, a sociologia, entre outras, ecomeçaram a se disseminar, especialmente, na América Latina, linhas de pesquisa que buscavam, além do diálogomultidisciplinar, a escuta e a valorizar de vozes até então excluídas.
  3. 3. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 3 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)Arif Dirlik, que acusou-a de celebrar a fim o colonialismo, porém, Stuart Hall (2009, p. 99)destacou que o conceito foi “confusamente universalizado” graças, em parte, à suapopularização, e a alguns usos inapropriados do mesmo. O pós-colonialismo se deslocou doseu contexto popular que indica seqüencialidade, para indicar a capacidade de “apontarinsistentemente para o além”, transformando “o presente em lugar ex-cêntrico de experiência eaquisição do poder” (BHABHA, 2007, p. 23). Sendo um campo de pesquisa marcado pelodissenso, institucionalizou-se que dele faria parte a busca pela compreensão dos processospelos quais a escrita se apresenta como instrumento de resistência à colonização, seja ela dequalquer natureza (BONNICI, 2000). Para Boaventura de Souza Santos (2010) o pós-colonialismo é um discurso alternativo aoprojeto de dominação colonialista ─ o que lhe confere potência dialógica ─ numa perspectivaque busca problematizar quem produz o conhecimento, em que contexto este conhecimento éproduzido, e a quem ele se destina, questionando assim a grande marcha do historicismoocidental e as suas oposições binárias: nós/outros; metrópole/colônia; centro/periferia,bom/mau, civilizado/selvagem, etc. Alfredo Bozi nos faz saber, na obra Dialética daColonização (1992), que a colonização4 é um processo totalizante cujas forças motrizes devemser buscadas sempre ao nível do colo, ou seja, da terra, do chão. Assim, o processo de colonizarimplica explorar e expropriar, além dos bens da terra, os habitantes nativos que dela fazemparte. O Estreito Duvidoso (1994) tem início com a descrição feita por Toscanelli a CristóvãoColombo na qual ele afirma: “O país é belo”. O cronista, além de ressaltar nos seus escritos abeleza das novas terras, especulou sobre a existência de um Estreito que levaria à “Terra firmedas Índias”. Segundo Toscanelli, estas terras fariam parte dos reinos do “Grande Can”, com“duzentas cidades com pontes de mármore” (CARDENAL, 1994, p. 7). O cronista detalhou aorganização das cidades indígenas, que eram governadas pelos homens mais sábios, falou sobrea existência de templos e palácios “cobertos de ouro”, e das ricas províncias nas quaisabundaria “toda sorte de pedrarias”. Tendo como aporte as palavras de Toscanelli, Colombo4 Vale ressaltar que a ascensão intercontinental, e até mesmo global, do Ocidente, ocorreu após 1492, marcosimbólico do „descobrimento da América”. Até então os povos europeus não exerciam hegemonia cultural e nemeconômica sobre outros povos, não eram dominantes e nem superiores. Os caminhos que levaram a Europa àhegemonia cultural, social, econômica, passam pelo colonialismo.
  4. 4. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 4 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)parte em busca do Estreito, iniciando a jornada, poética, de colonização da América(CARDENAL, 1994, p. 7). Colombo chegou ao Cabo de Graças a Deus após setenta dias de tormenta e de muitosapuros, daí o nome dado ao cabo. Observamos aqui o lugar dinâmico que a natureza ocuparáem toda a obra, ela é uma expressão de alteridade e a afirmação da resistência da América, quedesafia e põe em xeque o poderio europeu. A América, especialmente as ilhas da Nicarágua,deixa de ser descrita como uma virgem indefesa, ou como um paraíso terreal dado por Deus aohomem (colonizador), como fez com Adão no Gênese bíblico, para se tornar uma barreiranatural e, muitas vezes, uma armadilha mortal, revelando a pequenez e a arrogância docolonizador frente a sua portentosa força. A expedição de Colombo buscou o Estreito Duvidoso ansiando ligar os Oceanos Pacifico eAtlântico, porém, após cruzarem várias localidades em busca do mesmo, encontraram umestreito de terra. O poema relata que os colonizadores foram tomados pela fúria e voltaram paraLa Española, primeiro assentamento criado por Cristóvão Colombo no Novo Mundo. O poemapassa a descrever uma série de acontecimentos, nos quais, a “conquista” é apresentada ao leitorcomo fruto de variados insucessos do colonizador, e de acasos. Thomas Bonicci na obra O pós-colonialismo e a literatura (2000, p. 25) destaca que“estrategicamente”, a análise pós-colonial opta por trabalhar textos escritos por autores cujacultura passou pelo jugo colonial, observando de que forma este responde literariamente aarrogância do colonizador. Originário de uma família de posses, Cardenal teve uma educaçãoesmerada, viveu e estudou no México e nos Estados Unidos. Sua poesia cumpriu um percursode três fases, como proposto por Frantz Fanon: a primeira foi a assimilação do discurso e dacultura do colonizador, na segunda fase, esta nacionalista, o intelectual nativo resgata o querestou de sua identidade autêntica; e na terceira, a fase revolucionária, ele incita o povo à luta,torna-se “um despertador do povo” (BONNICI, 2000, p. 27). Este percurso que conjuga poesiae política levou cardenal a Um dos pilares do sistema colonial é a dicotomia que dividiu o mundo em dois, conferindoao colonizador o lugar de poder (e o poder da falar), enquanto ao colonizado restou o lugar dasubmissão, da exclusão, e do silêncio. Ainda no primeiro canto da obra observamos que a terrafoi dividida, uma metade, até ao Golfo que foi dada a Alonso de Hojeda, e a outra, que ia doGolfo ao Cabo de Graças a Deus, para Diego de Nicuesa. Tal divisão foi feita para resguardar
  5. 5. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 5 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)as terras do assédio do “sereníssimo Rei de Portugal” (Cardenal, 1994, p. 13). A imagem doscolonizadores feridos de morte pelos índios assombrava os aspirantes a “conquistadores”. Diz otexto que Juan de la Cosa se calou “como um ouriço”, ao rever nos seus sonhos a assombrosaimagem de Hojeda deformado pelas pontas de muitas flechas e morrendo de fome e de frio.Observamos uma subversão do discurso colonial com o silenciamento do colonizador a partirdas ações de resistência dos grupos indígenas. O pântano assombrava os colonizadores. Muitas vezes estes eram obrigados a andar pordias com lama que lhes chegava até ao joelho. Diz o texto que eles seguiam acreditando quelogo chegariam ao seu destino, mas, a viagem durava dias, e cada vez mais os espanhóis iamafundando na lama sem ter como voltar. Eles seguiam sem a possibilidade de descanso, nãodormiam e, com fome e com sede, comiam raízes e bebiam a água salobra do pântano. A lama,cada vez mais profunda, chegava à cintura, depois aos “sovacos”, “ao pescoço” e os“conquistadores” seguiam por vinte, trinta dias, “com um fio de esperança de que o pântanoacabasse”, ao fim do percurso apenas a metade dos homens conseguiu sair (CARDENAL, 1994,p. 14). Hojeda, um dos donos das novas terras, por exemplo, saiu apenas para morrer e “foienterrado por caridade em La Española”, em um lugar onde “todos os que passam pisam”(CARDENAL, 1994, p. 14). Os colonizadores que sobreviveram ao pântano foram dizimadospelos índios ou pela doença. O poeta conferirá aos índios um papel ativo no processo de resistência à colonização. Estestêm as suas potencialidades e valores destacados. Os índios foram descritos pelo colonizador deforma depreciativa, porém, segundo a visão do poeta eles são: extremamente ligeiros e velozes para correr Tanto os homens quanto as mulheres Nadam como peixes As mulheres melhor que os homens. Suas armas são o arco e a flecha Que fabricam com muita habilidade. [...] Não possuem chefes e nem capitães de guerra Cada um anda livremente Esta gente vive em liberdade, não obedece a ninguém E nem tem senhor Não há disputa entre eles, são simples no modo de falar mas, na realidade, são muito astutos e sagazes. [...] São muito asseados e limpos, pois, tomam banho a toda hora Suas riquezas são plumas de aves de todas as cores e contas que fazem com ossos de peixe, ou pedrinhas verdes ou brancas,
  6. 6. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 6 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) Porém, desprezam o ouro e as pedras preciosas. (Cardenal, 1994, p. 11- 12) Esta descrição não coincide com as que foram registradas em muitos documentos oficiais,como por exemplo, nos diários de viagem de Cristóvão Colombo. A primeira referência feitaaos índios pelo almirante genovês diz respeito a sua nudez. Colombo concluiu que, por estaremsem vestimentas, os nativos eram desprovidos, também, de qualquer propriedade cultural: semreligião e sem ritos, e escreveu ao Rei de Espanha: “pareceu-me que eram gente muitodesprovida de tudo5” (TODOROV, 2007, p. 49). Observamos que foi a partir da falta que ocolonizador europeu inscreveu o índio na história. A história do índio Lempira, “Senhor das serras” é narrada no décimo sétimo canto.Lampina reuniu sob seu comando 200 povos indígenas e nos seus discursos afirmava servergonhoso que “tantos homens estivessem cativos de tão poucos estrangeiros, em sua própriaterra” (CARDENAL, 1994, p. 91). Ele se ofereceu para ser capitão dos indígenas e guiá-los naresistência e “lhes assegurou que, se estivessem unidos, venceriam”. Os povos indígenas oseguiram e este foi o início da guerra. A palavra de Lampira se espalhou de cume em cume, deserra em serra e de vale em vale. Lampina ficou cercado pelos espanhóis nas montanhas, com30.000 homens, por seis meses. Diz o texto que era o ano “Ix”, de muitas misérias e escassez.havia discórdia e guerra, também, entre os próprios povos indígenas e “OS QUE QUISERAMSER SENHORES NÃO PREVALECERAM”. O ano “Ix” era 1535-366, foi o ano da chagadados colonizadores Montejo e Pedro Alvarado no Novo Mundo (CARDENAL, 1994, p. 92). Da identidade indígena fazia parte o sistema calendário, instrumento de união entre ospovos e entre o passado e o presente. O calendário indígena foi abolido e no seu lugar foiintroduzido o calendário cristão, o que marcou o fim do tempo sagrado indígena, contribuindo 5 Segundo Bonicci (2000, p. 20) a nudez do indígena, que é descrita em quase todos os documentos históricos, “é metonímia da suposta incapacidade dos povos pré-coloniais de emergir com a sua literatura e produzir obras de arte iguais as européias”, pressuposto que faz com que esta literatura assuma caráter modelar, inviabilizando o questionamento sobre a mesma. 6 Entre 1521 e 1540 ocorreu o clímax da desintegração da estrutura das sociedades indígenas. Sobre este período não há registros dos nativos, mas é bem possível que tenham existido, pois a tradição oral não foi destruída, ela resistiu. Florescano (2006, p. 73) nos faz saber que os povos maias ocultaram, até o século XIX, um texto escrito no século XVII em alfabeto castelhano, que narrava como era a vida antes da chegada dos espanhóis, eis um fragmento desse texto: “Naquele tempo tudo era bom/ e então [os deuses] foram exterminados./ Neles havia sabedoria/Naquela época não existia pecado [...]/ Naquela época não havia doenças [...]/ Naquela época o corpo andava bem erguido”(FLORESCANO, 2006, p. 73).
  7. 7. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 7 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)grandemente com o colapso e desmantelamento de sua cultura e a rituais e cerimônias quedavam sentido a vida das comunidades. A memória coletiva perdeu o seu centro unificador eficou reduzida à oralidade. O poema descreve que era a época de se plantar uma nova árvore “YAXCHE” (a paineira),como se fazia ao final de cada época para as novas épocas. Mas, agora, as novas árvores: “eramas CRUZES que plantavam nas praças”. Este fato marcou o 5º katún. Lampina não deuouvidos à profecia sobre o novo katún e nem às profecias sobre a chegada de um tempo degrande anarquia que foi anunciada pelo sacerdote, e que dizia que “no dia 13 Ahau seestabeleceria uma nova idade no tempo, [...] uma nova aurora para o mundo, [...]um novoamanhecer nos quatro pontos cardeais”(CARDENAL, 1994, p. 94). Lampina e os seus homenssuportaram um cerco de seis meses, no último mês já não dormiam, atirando flechas de dia e denoite. O capitão Alonso Cáceres mandou um mensageiro aos índios exigindo a rendição paraque houvesse paz, e o soldado foi morto por Lampina. Quando Cácere enviou outro mensageiro,Lampina foi recebê-lo pessoalmente, com seus penachos espetaculares que se agitavam aovento da serra, e num átimo, o soldado lhe apontou uma arma e atirou. Lampina caiu mortoserra abaixo, e este era o ano de 1536-37, “um ano mal”, diziam os anciões (CARDENAL,1994, p. 95). La Española foi um campo de experimentação do sistema colonial e palco das primeiraslutas entre índios e espanhóis. Nela o colonizador iniciou o processo de expropriação dosíndios em variados níveis, eles foram proibidos de falar o seu idioma, de adorar os seus deusese perderam a posse de suas terras, que foram divididas entre os colonizadores (repartimientos).O discurso na obra O Estreito Duvidoso torna-se um instrumento de denúncia e de resgate deum passado que, se precisa ser superado, não deve ser esquecido. Observamos um movimentode reescritura da história a partir da periferia, desconstruindo a idéia de um colonizadormonolítico e absoluto, e conferindo a possibilidade da construção de uma identidade diferente e(hibrida) para os povo colonizados. Esta modalidade de escrita literária é rebelde na medida emque passa a valorizar tudo aquilo que foi desvalorizado e, até mesmo, excluído pelo padrãodiscursivo dominante. Morto Hojeda, Nicuesa tornou-se dono das novas terras. Nicuesa saiu com seus homens ese perderam, ficaram vagando em um pequeno bote e, logo que conseguiram aportar em umapequena ilha, o bote desapareceu. Desesperados, os colonizadores “corriam como loucos de um
  8. 8. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 8 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)cabo a outro, dando gritos. Eles comiam as ervas sem conhecê-las, bebiam água salgada [e] iammorrendo. Os que restavam comiam crus os mariscos”, “enquanto em La Española sepreparava 1.000 pernas de Jamón 7 ” (Cardenal, 1994, p. 16). Depois de passar por muitasdificuldades Nicuesa foi resgatado, pois havia sido nomeado Governador pelo Rei de Espanha,porém, foi rejeitado pelo povo e, assim como Hojeda, teve uma morte inglória. Cardenaldesmistifica as lendas que transformaram um grupo de homens mesquinhos e covardes emheróis da conquista de um povo organizado, guerreiro e corajoso, mostra que a conquista foi oproduto de uma mentira, da manipulação de documentos e de ações de crueldade e coerção. Opoeta ridiculariza colonizadores que são glorificados a séculos pela história. Além da dicotomia, outro pilar do sistema colonial é a desigualdade nas relações de poder,da qual nem os próprios colonizadores conseguiram escapar. As disputas não aconteciamapenas entre índios e espanhóis, mas também, entre os variados grupos de colonizadores, pois,alguns gozavam de muitos privilégios, já outros, viviam à própria sorte. No canto vigésimoprimeiro o poema traz a questão do silêncio com vistas a quebrá-lo, reforçando oquestionamento do poder legitimador do discurso colonial e pondo em xeque a veracidade dosdocumentos históricos. Como observamos, no sistema colonial, o colonizador escreveu a história (de suas vitórias)afirmando o seu poder e apagando os registros da resistência dos povos colonizados. A obraregistra a existência de velho governador, “um conquistador de barba branca”, “quase cego equase surdo”, de Santiado de los Cavalleros de Guatemala, que resolveu escrever a“Verdadeira História” e as coisas que viu e ouviu nas batalhas. O velho “conquistador” afirmouque, tendo sido excluído da história oficial, “talvez se elogie bastante, por que não?”, afinal, “ascoisa não foram como conta Gomara” (CARDENAL, 1994, p. 115). O velho se lembrava comtoda clareza: de todos os nomes dos companheiros mortos. E se lembra de como todos morreram. Hernán Cortés Morreu em “Castilleja de la Cuesta”, Alvarado em Jalisco. Olid, degolado, em Honduras. Juan Velázquez de León nos poentes de Tenochtitlán. Diego de Ordaz morreu no rio Marañón. Gonzalo de Alvarado em Oaxaca, Juan de Alvarado no mar. Medina de Rioseco, “o belo”, morreu sobre as pontes. Gonzalo Dominguez, esforçado e, grande cavaleiro, Morreu em poder dos índios. 7 presunto cru tradicional espanhol.
  9. 9. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 9 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) [...] De quinhentos e cinqüenta que passaram com Cortés Não restaram vivos mais que cinco em toda Nova Espanha. E suas sepulturas? São as barrigas dos índios Que comeram suas pernas, e seus músculos e seus braços, E o resto foi atirado aos tigres e as serpentes e facões que tinham enjaulados. Estas são as suas sepulturas e ali estão seus brasões. Seus nomes deveriam estar escritos em letras de ouro. Agora, apenas cinco estão vivos, mas, velhos e doentes, E o pior de tudo, muito pobres, carregados de filhos, E com filhas solteiras, e netos e pouca renda, Sem dinheiro para ir a Castilha reinvidicar. E nenhum destes nomes foi escrito por Gomara, Nem o doutor Illesca, nem os outros cronistas. Somente deste Marqués Cortés falam os livros. Ele foi o único que descobriu e conquistou tudo, E os demais capitães não contam para nada. (CARDENAL, 1994, p. 112, grifo nosso). Francisco López de Gomara foi um cronista espanhol que escreveu a História verdadeirada conquista da Nova Espanha. Ironicamente ele escreveu seus relatos sem nunca ter ido aoNovo Mundo, tendo como aporte, apenas, as histórias que ouviu dos colonizadores quevoltavam à Espanha e as entrevistas que fez com Hernán Cortés, a quem exaltou grandementeno livro, deixando de lado os outros colonizadores. E seus escritos foi uma referência paraoutros cronistas como, por exemplo, Garcilaso de la Vega, o Inca. O velho se lembrou de que“não contam nada do que realmente se passou em Nova Espanha, “[a História] está cheia dementiras, exaltam a alguns capitães e rebaixam a outros. Dizem que participaram da conquistaaqueles que não participaram delas” (CARDENAL, 1994, p. 120). Diz o poema que o velho escreveu suas memórias sem elegância e nem retórica, “segundo ojeito de falar de castilha antiga”, pois, ele era apenas um soldado, porém, o seu objetivo com talrelato era mostrar para os seus filhos e netos que realmente participou da conquista, eleacreditava que, se a história fosse escrita, saberiam que é verdadeira (CARDENAL, 1994, p.120).Registros históricos revelam que foi pelas rotas marítimas que chegaram à Europa grandesquantidades de ouro e prata oriundos da América 8 . O ouro abria aos colonizadores muitas 8 Frantz Fanon (1979) destacou que a Europa “inchou de maneira desmedida” com o ouro e as matérias primas dos continentes que colonizou: América Latina, China, África, o que faz dela devedora dos povos
  10. 10. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 10 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)portas, lhes conferia poder e a possibilidade de ascender socialmente. No poema, o filho maisvelho do cacique Comagre, Panquiaco, hospedara o conquistador Balboa e seus homens noseu palácio, presenteando-os com ouro, mas, logo se arrependeu de fazê-lo, pois, oscolonizadores não paravam de brigar por causa do metal precioso. Panquiaco então tramautilizar os espanhóis para derrotar os seus inimigos, numa outra subversão histórica. Panquiacodiz a Balboa que, se tem “tanta sede de ouro”, sabe onde consegui-lo, mas este teria que pelejarcom grandes reis e enfrentar os caribes, tribo guerreira que comedora de carne humana, “semlei, sem império e errantes” (Cardenal, 1994, p. 19). Outra característica do sistema colonial é que este volatiza o campo político. Assim,observamos que conquistadores e índios ora atacavam, ora contra-atacavam e, ora, faziamalianças, entrando também nessa ciranda os sacerdotes. Os indígenas eram a parte maisvulnerável nesse jogo, pois, os espanhóis utilizavam armas e cavalos nas suas investidas, alémde não terem nenhum código de honra, atacando muitas vezes na surdina, e utilizandoartimanhas como a mentira e a traição. O texto ressalta que os índios não tinham interesse noouro que não fora trabalhado por um artesão, e ficavam surpresos que os espanhóis mandassemderreter jóias para fazer barras. O conquistador Balboa sonhava com o momento de tomar posse do ouro de Montezuma, enão tirava da cabeça, também, a ideia de ser o descobridor do Estreito que os levaria as ÍndiasNo caminho Balboa mandou cortar uma grande árvore e fazer uma cruz, que foi erguida aosom do “Te Deum”. Mas, a marcha da conquista teve que ser interrompida, pois, a maré baixadeixou a costa toda enlameada, e os espanhóis tiveram que esperar a maré subir. Quando amaré subiu, o mar ficou muito caudaloso. Foi nesse cenário e nessas condições climáticas queBalboa entrou no mar com “uma bandeira e um pendão real, que tinha estampado a imagem daVirgem com o menino e as armas de Castilha” ele tomou posse “dos mares e terras e costa eportos e ilhas austrais com todos os seus anexos e reinos e províncias” em nome dos Reis deCastilha Don Fernando e Dona Joana (CARDENAL, 1994, p. 21). A biografia de Cardenal registra que em 1954 o poeta participou da frustrada Revolução deAbril, contra o ditador Anastácio Somoza Garcia. Em 1956 o poeta viajou para os Estados que roubou e responsável para com o seu subdesenvolvimento, e conclui: “a Europa é uma criação do terceiro mundo” (FANON, 1979, p. 81, grifo nosso).
  11. 11. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 11 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)Unidos e ficou interno em monastério trapense, sob a tutela de Thomas Merlon, um escritormístico. Esta experiência marcou Cardenal profundamente e quando ele retornou para aNicarágua como sacerdote, em 1965, fundou a comunidade Solentiname, formada por artesãose revolucionários. Solentiname, que foi destruída pela Guarda nacional, era formada porartesão e foi um centro de resistência ao Governo ditatorial de Somoza (MOYA, 2012, p. 278).As primeiras comunidades de guerrilha, formadas por intelectuais, estudantes, operários ecamponeses surgiram na Nicarágua por volta de 1960, com o intuito de combater a GuardaNacional. Em 1961 foi criada a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na qualCardenal atuou ativamente. Foi com este espírito crítico e de insurreição que o poeta associou apersonagem Pedrarias Dávila à do ditador Anastácio Somoza na obra O Estreito Duvidoso. Pedrarias Dávila, “Furor Domini!!!!”, se tornou senhor da Nicarágua e “o primeiro ditador”(CARDENAL, 1994, p. 53). Ele introduziu “homens sujos9” na Nicarágua e porcos, cavalos,éguas, ovelhas e outros gados..., porém, (“gados dele”). Foi o “primeiro promotor do comércioda Nicarágua” (“de índios e negros”) para o “Panamá e o Peru” (“nos barcos dele”)(CARDENAL, 1994, p. 53). Conta nos “ridículos documentos comerciais”, registros da“COLEÇÃO SOMOZA”, os “doces nomes” que Pedrarias “jogava como xadrez”(CARDENAL, 1994, p. 53, grifo nosso): ─ Uma égua castanha velha____ ─ Outra égua castanha de três anos ____ ─ Uma potranca, sua filha _____ ─ O negro Juan, o negro Francisquillo ____ ─ A escrava Isabela com o rosto marcado por ferro ____ ─ perico e seu filho que tem o rosto marcado _____ ─ A escrava Marica ____ ─ ysabel da guatemala escrava prenha ______ ─ [...] (CARDENAL, 1994, p. 53). Pedrarias praticou variadas modalidades de crime. Ele tramou contra o seu genro VascoNuñez de Balboa, acusando-o falsamente de ter sido o responsável pela morte de Nicuesa,mandou prendê-lo, e decapitá-lo em praça pública. Todo o processo de acusação de Balboa foifeito via pregão, “como se fosse democracia”, destacou Cardenal (CARDENAL, 1994, p. 25,grifo nosso). Observamos o revide no seio da narrativa, por meio da ironia, da revolta e dadenúncia. 9 Chanchos.
  12. 12. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 12 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) A dimensão do enunciado acentua-se quando, em letras maiúsculas, o personagem Herreraresponde ao ser ameaçado pelo neto de Pedrarias, integrante do “conselho de Guerra” espanhol,que “O CRONISTA NÃO DEVE DEIXAR DE FAZER O SEU TRABALHO” (CARDENAL,1994, p. 54). O cronista Antônio de Herrera era sacerdote. Ele escreveu ao Rei de Espanhadenunciando as atrocidades da colonização: “os índios matavam seus filhos para que nãofossem escravos”, além de serem explorados nas minas, caso alguém não soubesse o caminhodas minas, “bastava seguir os esqueletos dos índios mortos”, seguiam cantavam e chorando. “Eos cachorro, os cachorros de Pedrarias” (CARDENAL, 1994, p. 55). Germán Romero Vargas (2011, p. 27) nos faz saber em História de Nicarágua que osíndios que habitavam a Nicarágua não entregaram suas terras sem lutar, porém, “asuperioridade técnica-militar dos espanhóis, associada ao desmantelamento das comunidadesindígenas, deu a vitória aos espanhóis”. Os castigos para quem se levantasse contra Pedrariaseram duríssimos. Para servir como exemplo, os principais chefes indígenas da região foramobrigados a brigar com cães ferozes, eles tiveram seus corpos destruídos e os restos mortaisexpostos na praça de León até que apodrecessem. “Pedrarias já tinha noventa anos e não morrianunca”, mesmo enfermo “comandava com mãos de ferro (monopólios, roubos, subornos,prisões, espionagem, eleições fraudulentas...)” (CARDENAL, 1994, p. 57). Porém, quandomorreu foi enterrado na cidade de León Velha, ou seja, ficaria duplamente enterrado, pois, acidade, posteriormente, foi soterrada em função do terremoto e da erupção do vulcãoMomotombo (CARDENAL, 1994, p. 57). Alguns padres se colocaram ao lado dos indígenas, e o fizeram sob forma de transgressão.O próprio Cardenal, representante da Teologia da libertação, foi advertido publicamente pelopapa João Paulo II, em março de 1983, quando este visitou a Nicarágua. Na obra, o trabalhorealizado por Bartolomeu de Las Casas ganha destaque. Las Casas partiu da América com oobjetivo de expor à Coroa Espanhola e à cúpula da igreja católica as atrocidades que estavamsendo feitas pelos conquistadores no Novo Mundo. O poemário destaca que, no salão real o Reiestava cercado por seus súditos, entre eles o Almirante das Índias, o monsenhor de Xevres e oBispo Darién. Próximo aos Grande Chanceler, o Bispo de Badajoz, estava Bartolomeu de lasCasas. Darién pede permissão ao Rei e diz: Meu poderoso senhor: O Rei Católico, vosso avô, que esteja na santa glória, Enviou armadas para as terras firmes da Índias
  13. 13. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 13 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) E eu fui nomeado bispo nessa primeira povoação E como éramos muitos e não levamos o que comer, Muitos morreram de fome, e os que chegaram, Para não morrer como os outros, não fizeram outra coisa senão roubar e matar e comer. O primeiro Governador foi mau, e segundo muito pior... Tudo isso é verdade. (CARDENAL, 1994, p. 98).Após a fala do Bispo Darién houve silêncio e Bartolomeu de las Casas se dirige ao rei e diz: Eu sou um dos mais antigos que passou pelas Índias e a muito tempo vivo lá, o que vi com meus olhos não li em histórias que podem ser mentirosas, mas palpável, para dizer a verdade. Tantas crueldades foram feitas com aqueles mansos e pacíficos cordeiros; e um que participou destas tiranias foi o meu pai. [Os índios] são livres e têm seus reis e senhores naturais e os encontramos pacíficos e com suas repúblicas organizadas, proporcionais de rosto e de bom parecer de forma que todos pareciam filhos de senhores. Foram criados simples por Deus, sem maldades e nem falsidades, Obedientes, humildes, pacientes, pacíficos e quietos. Assim mesmo são povos delicados [e] facilmente morrem de qualquer doença. [...] São paupérrimos e não possuem e nem desejam possuir bens temporais e por isso não tem soberba, nem ambições e nem cobiça. Sua comida é pobre como a dos Padres do Deserto. [...] E os espanhóis chegaram como lobos e tigres. [...] A ilha de Cuba ficou doente e cheia de solidão, antes estava cheia desses cordeiros. Em La Española não restam mais que duzentas pessoas. As ilhas de San Juan e Jamaica estão destruídas, ilhas que eram graciosas e férteis. [...] Queimavam vivos aos senhores, a fogo manso, e eu os vi morrer [...].Enviaram os homens as minas e as mulheres para trabalhar nas fazendas, [...] as crianças pequeninas morriam porque suas mães não tinham leite nos peitos e se enforcavam desesperadas com os filhos, e as mulheres tomavam chás para não terem filhos. [...] Eram levados em navios para serem vendidos. [...] Eles estavam indefesos e nus contra pessoas contra pessoas armadas e a cavalos. [...] Os meus olhos viram todas essas cenas e agora eu temo dizê-las duvidando dos meus olhos, como se tivesse sonhado (CARDENAL, 1994, p. 100). Frei Bartolomeu de las Casas se ofereceu para ir à Província de Tuzululn, sem remuneração,sem armas e soldados, só com a palavra de Deus. A única condição: que os índios fossemvassalos livres de Sua Magestade”. “Os frades fizeram trovas e versos, em quiché”, “contandosobre a criação do mundo, a queda do homem, a perda do paraíso, o dilúvio e a morte do filhode Deus e sua ressurreição” (CARDENAL, 1994, p. 102). Os padres pregavam para os índiosno campo e convidou para viverem juntos deles, pois, estes estavam espalhados pelasmontanhas. O cacique já olhava para os artefatos de Castilha sem espanto, “como se tivessenascido em Milão”, e usava um chapéu e recebeu de presente uma imagem de Nossa Senhora.A terra que antes de chamava “Terra de Guerra”, passou a chamar-se “Verdadeira paz”(CARDENAL, 1994, p. 104).
  14. 14. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 14 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) Outra dimensão da obra é o mito. Antes da chegada do espanhol a Nicarágua era uma terrarica, havia nela muito mel, cera, milharais e cacau (que utilizavam como moeda). Havia cervosdo monte, veados, coelhos e muito algodão que era tecido pelas índias. Havia pergaminhosfeitos com pele de veado que traziam as terras pintadas com tinta preta e vermelha e os rios, osbosques. Cada povo tinha um mercado e uma praça onde aconteciam as festas, com cantos edanças na época da colheita do milho (CARDENAL, 1994, p. 49). “O fogo do vulcão Masaya, à noite, iluminava todo o céu como uma lua. E da cratera dovulcão saía, para falar com os índios, uma velha muito velha e enrugada, com os seios caídosaté o umbigo, os dentes de cachorro e mais negra que os próprios índios” (CARDENAL, 1994,p. 51). Moças eram sacrificadas papa apaziguar a velha do vulcão. Desde a chegada doscristãos, a velha se calou e nunca mais saiu. O governo não era feito por caciques ou chefes,mas por “um conselho de anciães eleito por votos”, elegiam também “um capitão geral para aguerra”, e se esse morria, ou o matavam elegiam outro (CARDENAL, 1994, p. 51): ─ e às vezes eles mesmos o matavam Se ele era prejudicial para a república ─ E se reuniam na praça à sombra de uma paineira Aquele conselho de anciães eleitos por voto (CARDENAL, 1994, p. 51). Combater qualquer tentativa de ativação da memória histórica indígena fez parte da agendacolonial, resgatá-la faz parte da agenda pós-colonial. Idealizar o tempo passado foi uma dasmuitas estratégias de resistência utilizadas pelos índios contra o sistema colonial, pois era umaforma de contraposição ao tempo colonial e cristão. O poema destaca um personagem importante da história colonial nicaragüense, GilGonzalez, teria sido ele o responsável por apaziguar os índios que habitavam a Nicarágua. GilGonzalez teve autorização do Rei de Espanha para explorar as terras a Oeste do Panamá, porém,após cem léguas de navegação, se viu obrigado a desembarcar na Costa Rica e a andar, comcem homens e quatro cavalos por longas distâncias. Foi quando ele ouviu falar da existência deuma terra fértil e rica, que era governada por um cacique poderoso chamado Nicarágua(VARGAS, 2011, p. 25). O poema, então, reconta essa história, revelando as circunstâncias nasquais Gil González “conquistou” a Nicarágua. Os relatos instalam no leitor a dúvida quanto àveracidade dos acontecimentos, pois são fantasiosos e Gil González demonstra ter grande sedede reconhecimento.
  15. 15. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 15 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) González narra que, antes de chegar à Nicarágua, ele foi acometido por uma doença que lherestringiu os movimentos da perna, tanto que “não podia sequer dar um passo”, e era carregadoem uma manta amarrada em um galho de madeira. Depois de várias noites sem dormir porcausa da dor, o conquistador sobreviveu, por sorte, a uma enchente que matou muitos dos seushomens. Mas ele não desistiu e “prosseguiu o seu descobrimento pela costa até o poente”,quando encontrou o cacique Nicoya, que lhe presenteou com ouro e se tornou cristão. Emboratenha sido advertido a não procurar o cacique Nicarágua, pois este era muito poderoso,Gonzalez prosseguiu e se apresentou ao cacique e ao seu povo como: “Capitão que o grande reidos cristãos enviara a estas terras para dizer a todos os caciques que no céu, mais acima do sol,há um deus que fez todas as coisas e os homens” (CARDENAL, 1994, p. 30). Gonzáles disse aNicarágua que lhe diria muitas outras coisas maravilhosas sobre esse Deus, e afirmou terrecebido mais ouro de presente dos índios, em troca, ele teria dado ao cacique Nicarágua umacamisa que era sua e outras coisas de Castilha. Junto ao lago, González e o cacique Nicaráguaconversaram, “o conquistador com roupas de ferro e o cacique nu”. Nicarágua fez muitasperguntas a González, dentre elas “para que tão poucos homens queriam tanto ouro?”.González contou que viu “chorar muitos de seus amigos de devoção” quando Nicarágua quisser cristão e foi batizado junto com os seus súditos, e que na praça ele ergueu uma grande cruz.Com tantas conquistas, Gil González aproveitou para tomar posse do grande lago em nome de“Vossa Majestade”, ele entrou a cavalo no rio e se autodenominou “o almirante do Mar Doce!”(CARDENAL, 1994, p. 32). Gil González pediu ao Rei de Espanha autoridade sobre as terras da Nicarágua, mas nãoteve tempo de receber resposta, pois, Pedrarias Dávila já organizara uma expedição para tomarposse da mesma. Gil Gonzalez foi enviado para à Espanha e terminou os seus dias preso(CARDENAL, 1994, p. 37). Cardenal põe em cena outro personagem histórico, Francisco Hernandez de Córdoba,fundador das cidades de Granada e de Leon, que também encontrou um fim trágico nas mãosde Pedrarias e foi degolado em praça pública. A (in)gloriosa conquista do México, por Hernán Cortés, também foi relatada. Cortéstambém buscava o Estreito Duvidoso, e o dessa vez, busco-o nos rios cheios de lagarto, nosquais “perdeu as roupas, a prata”, e o que não se perdeu nos rios se perdeu nos pântanos, que“fechavam os passos como muralhas” (CARDENAL, 1994, p. 41). Os índios tinham dado a
  16. 16. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 16 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)Cortés um mapa feito de pele, só que onde constava existir um povo existia apenas bosque. Osconquistadores perdidos, e com fome, não tinham o que comer senão ervas que queimavam aboca. Quando acabavam os caminhos eles subiam nas árvores para ver se viam o mar, mas, sóviam árvores. A chuva durante a noite apagava o fogo e, ao redor, os animais rugiam. Nessahora muitos homens desertavam. Os guias índios diziam que estavam perdidos e nãomostravam os caminhos para fora dos pântanos. Os espanhóis passaram a comer os cavalos eos índios, comeram, até mesmo, os sexos de um “Montezinos”, “isso Cortés não conta nassuas cartas de Relação” (CARDENAL, 1994, p. 41, grifo nosso). Os soldados queriam voltarpara a Nova Espanha, mas, era tarde para voltar e “Cortés não sabia o que fazer”(CARDENAL, 1994, p. 41, grifo nosso). Depois de haverem comido até mesmo os guias,Cortés e os seus homens deixavam cruzes com cartas pelo caminho onde lia: “Por aqui passouCortés”. Pedro de Alvarado foi outro conquistador que se perdeu. Ele partiu de León para novasdescobertas, porém, depois de percorrer 400 léguas de mar foi pego pelas correntes de ventocontrárias, e foi parar no Peru (CARDENAL, 1994, p. 79). Perdido entre mangues e montanhas,Alvarado abria caminho com a espada, alguns de seus homens enlouqueceram (CARDENAL,1994, p. 61). Vagaram durante sete meses para atravessar as montanhas e se depararam comum frio “furioso” e a secura de uma terra sem árvores. Adentraram na neve sem saber ondeacabavam aquelas serras. O frio os cegava e morriam ou ficavam loucos (CARDENAL, 1994,p. 80). Pedro Gomes morreu congelado com seu cavalo e suas esmeraldas. As armas e as roupas iam se perdendo pela neve. Sobre a neve ficou o ouro Ali ficaram as esmeraldas. Quando saíram da neve iam como defuntos. Os índios iam sem dedos, sem pés e muitos deles cegos. [...] Estas eram terras de Pizarro. (CARDENAL, 1994, p. 81). Diz o poema que Pedro de Alvarado travou muitas pelejas com os índios e venceu, “osangue dos índios correu como um rio nas encostas do morro”, desde então se chamou“Xequiquel”, ou “rio de sangue”. Alvarado atravessou o peito do chefe índio “Tecún-uman”,rei dos quinqués, com a sua lança e queimou vivos os índios “na presença dos príncipes e da
  17. 17. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 17 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)família real” (CARDENAL, 1994, p. 70). Depois, invadiu e destruiu Atitlán, “a nação quenunca havia sido conquistada”, era 20 de abril de 1524. Os índios resistiam “com suas flechas elanças de trinta palmos”, e gritavam para Alvarado: “toma teu ouro Tonatiú”, e uma flechaatingiu a perna de Alvarado (CARDENAL, 1994, p. 72). Da Guatemala, Alvarado partiu com asua frota para descobrir outras terras, mas, encontrou os índios prontos para a guerra, emJalisco. Os Caxcanes estavam revoltados e todos os índios das serras, “como um eclipse”desceram a mataram todos os espanhóis. Os índios estavam escondidos entre as rochas, “ondesó sobem os gatos”, “Chichimecas robustos e grandes flecheiros” (CARDENAL, 1994, p. 83).Mediante tal investida indígena Alvarado teve que se retirar, mas, “não foi fácil como eleimaginava”, pois, as terras eram cheias de pântanos e os homens ficavam presos na lama.Alvarado, ferido, morreu agarrado a um crucifixo dizendo que “tinha a alma doente”(CARDENAL, 1994, p. 84).O apocalipse começa a se anunciar, o vulcão de Quito lançava cinzas longe e o seu estrondopodia ser ouvido a 100 léguas. Logo, o céu da Guatemala escureceu com nuvens carregadas deraios e relâmpagos. E choveu por muitos dias, enquanto o vulcão vomitava fogo. No domingo,“duas horas depois da meia-noite”, houve uma tormenta de raios no vulcão, o barulho era comoo de “muitas carroças correndo embaixo da terra, debaixo da Guatemala” (CARDENAL, 1994,p. 85). A erupção do vulcão matou a maioria dos moradores de León Velha. “Dona Beatriz adesventurada”, viúva de Alvarado, morreu abraçada a uma imagem do cristo crucificado, e suasdonzelas, que estavam sobre o altar da igreja, foram cobertas pelas lavas (CARDENAL, 1994,p. 86). No dia do cataclismo morreram, também: Alonzo Velazco, sua mulher e seus filhos [...] e da casa não restou nem o piso. Da casa de Matín Sánchez Não se viu mais ninguém. Morreu Francisco Flores, o manco. Morreu Blás Fernádez, o cego. Morreu Robles, o alfaiate, com sua mulher . Morreu a mulher de Francisco López E a de Alonso Martín e suas netas, Morreram os filhos de Juan Páez. (CARDENAL, 1994, p. 88). Ao amanhecer a cidade estava coberta de lodo e pedras, e ainda chovia um pouco. Contou-se os mortos e cantou-se as letanias (CARDENAL, 1994, p. 89).
  18. 18. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 18 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) Pedrarias Dávila foi descrito nos sermões do padre Bartolomeu de las Casas como o própriodiabo. O padre que relatava sobre a chegada de um Governador que matou muitos índios einiciou o comércio de compra e venda de pessoas que, às vezes, eram trocadas por toucinho ecavalos: “A donzela mais bonita, uma arroba de vinho. Um toucinho, o filho de um príncipe (oque parecia um filho de um príncipe) comprado por um queijo. Cem pessoas por um cavalo”(CARDENAL, 1994, p. 123). No canto vigésimo terceiro todos os nomes próprios iniciam-se com letras minúsculas. Neleo poeta descreve as ações de Pedrarias Dávila e de seus familiares, como se quisesse destacar apequenez destes: “pedrarias dávila, depois que degolou ao capitão francisco hernandez buscoude muitas formas aniquilar a província” (CARDENAL, 1994, p. 123). Já seu genro, rodrigo deContreras, deu continuidade à dinastia de ditadores, aplicando na província as suas próprias leis.Ele roubou um quarto de tudo que era destinado ao Rei e todas as riquezas dividiu entre suamulher e filhos (CARDENAL, 1994, p. 124). Os padres Bartolomeu de las casas escreveu aopríncipe Dom Felipe relatando os desmandos dos Contreras. No tocante aos índios, os padresdenunciavam que “nenhuma justiça é vista nos tribunais”, todos estão “acovardados para pedirjustiça” (CARDENAL, 1994, p. 129). O bispo de Chiapas e o da Nicarágua chegaram a pensarem abandonar os seus bispados para pedir justiça e não regressar até que acabasse a tirania. Ospadres pediam que o Rei libertasse “os índios naturais destas Índias” (CARDENAL, 1994, p.129). Rodrigo de Contreras mandava prender e ameaçava de morte quem não fizesse a suavontade. Ele não permitia que ninguém saísse da Nicarágua para pedir justiça, e aqueles quesaiam tinham que fazê-lo escondido. A família Contreras detinha um quarto da província.Rodrigo de Contreras elegia os escrivões e encobria muitos processos, fazendo com quetestemunhas falsas se levantem contra a verdade. Depois, ele falsificava “títulos de fazendas” evendia os índios livres para o Peru (CARDENAL, 1994, p. 127): OS POVOS QUE RODRIGO DE CONTRERAS E SUA MULHER E FILHOS POSSUEM SÃO: O povo de mistega _______ O povo de teçuatega Outro povo abangasca Outro povo queçaloaque Outros povos que se chamam utega e uteguilla Outro povo totoa [...] Etc. Etc. Etc.
  19. 19. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 19 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) (observa-se na COLEÇÃO SOMOZA) (CARDENAL, 1994, p. 127). “...oprimidos.../ os índios a cada dia são mais oprimidos. O bispo não serve apenas para termitra e renda”, mas também, “para buscar remediar as opressões e suplicar as autoridades queos defenda (aos índios) ”, se não, pede licença para renunciar ao bispado, escreveu o padreantonio episcopus de Nicarágua ao rei (CARDENAL, 1994, p. 133): Há censura na Nicarágua. Interceptam as cartas... Espionagem, etc.. A província é pobre, mas não por falta de riquezas (digo) senão de um bom governo. Por aqueles que tem governado desassossegando a terra (povoadores e conquistadores igualmente). Tem (rrodrigo de contreras) A terceira parte dos povos “... Senhores destas terras Como se de seus pais a houvessem herdado...” (CARDENAL, 1994, p. 133). “As coisas na Nicarágua tinham chegado a tal ponto que não havia mais caminho para umbispo, era o inferno ou a Espanha” (CARDENAL, 1994, p. 134). Uma audiência na Guatemalapôs fim aos desmandos de Rodrigo de Contreras que foi obrigado a voltar à Espanha, porém,este ficou na Nicarágua com seus dois filhos Hernando Contreras e Pedro Contreras(CARDENAL, 1994, p. 135). Hernando de Contreras golpeou um padre com uma adaga e o bispo caído lhe dizia: “acabalogo carniceiro". Depois de matar o padre ele roubou ouro e prata e muitos documentos daigreja e este foi o início do seu surto. O bispo morreu beijando um crucifixo e a marca desangue de sua mão ficou na parede (CARDENAL, 1994, p. 135). Depois de matar o bispo,Hernando e seu grupo se reuniu em Leon e dali saíram saqueando a cidade e a “casa real com otesouro de sua majestade”. Hernando de Contreras passou a ser chamado de “General” e de“Capitão Geral da Liberdade” (CARDENAL, 1994, p. 136). Depois, passou a ser chamado de“príncipe”, e diziam que ele seria “Rei”. Hernando Contreras acreditava que o rei havia tiradode sua família as terras que foram “ganhadas” por seu avô, Pedrarias, e que seu avô haviadescoberto o Peru. Hernandez planejava tornar-se rei do Panamá”, e “rei de toda a América”(CARDENAL, 1994, p. 138). O irmão de Hernando, Pedro de Contreras se perdeu em um dos manguezais e não se soubemais dele. Hernando, que sonhou em se tornar rei, quase acaba como indigente vencido pela
  20. 20. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 20 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira)selva. Ele se perdeu em uma canoa e o seu corpo foi encontrado no mangue, só lhereconheceram pelo sombrero. Seu corpo foi cortado em quatro partes e sua cabeça foi expostaem uma praça do Panamá (CARDENAL, 1994, p. 139). O Momotombo retumbava, “como trens dentro da terra, o barulho podia ser ouvido delonge, como um tambor de guerra”. Todas as noites a terra tremia. Um rio de fogo descia dovulcão e o lago subia. A água do lago tinha sabor de enxofre. As mulheres não pariam, e separiam as crianças morriam. “A praga tinha começado” (CARDENAL, 1994, p. 141). Osmoradores passaram a deixar a cidade “ESCOMUNGADA (pelo assassinato do bispo)”(CARDENAL, 1994, p. 141). Saíram carregando o Santíssimo Sacramento, a cruz e a insígniae chegaram a uma baixada verde. O Alferez mais velho fixou o estandarte real e puseram a cruzonde seria a Catedral e traçou-se a praça. Levantaram forcas, em nome do rei. As ruas foramtraçadas retas, assim como o lugar de Nossa Senhora das Mercedes e São Francisco, a igreja deSão Tiago. A obra chega ao término com um apocalipse às avessas. O Momotombo seguiabramando e a água continuava subindo, “e a cidade maldita com a marca da mão em sangue nomuro ia afundando e afundando na água” (CARDENAL, 1994, p. 141). Porém, a culturaespanhola ficou resguardada, e seus representantes a salvo para darem início a uma nova/velhasociedade. A reescrita é um fenômeno literário próprio da crítica pós-colonial. Os textos literários sãolidos de “forma não unívoca, mas em contrapontos, com a consciência simultânea da históriametropolitana que está sendo narrada, e de outras histórias nas quais atuam o discursodominante” (BONICCI, 2000, p. 43). Cardenal está com 87 anos e continua escrevendo e militando, segundo ele, contra o“partido sandinista corrompido”, que ascendeu ao poder.Referências:  BHABHA, Homi. O local da cultura. 4. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.  BONICCI, Thomas. O Pós-colonialismo e a Literatura: estratégias de leitura. Maringá: Eduem, 2000.  BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  21. 21. XIV CONGRESSO DE ESTUDOS LITERÁRIOS: TODOS OS POEMAS O POEMA – LEITURAS 21 15 e 16 de outubro de 2012 (segunda e terça-feira) CARDENAL, Ernesto. El estrecho dudoso. Madri: Agencia Española de Cooperación Internacional, 1994. (Colección Visor de Poesia) CASTANTE, Francisco Rodríguez. La cartografia Centroamericana de El Estrecho Dudoso de Ernesto Cardenal. Revistas Comunicación, Costa Rica, ano 28, v. 16, n. 1, p. 29-33, 2007. FLORESCANO, Enrique. A conquista e a transformação da história indígena. In: BONILLA, Heráclio; (Org). Os conquistados: 1492 e a população indígena das Américas. São Paulo: Editora HUCITEC, 2006. FANON, Frantz. Os condenados da terra. 2. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. GADEA, Mantilla. O ilusório canal. La prensa. Disponível em <http://www.laprensa.com.ni/2012/07/03/voces/107129>, acesso em 03 de jul de 2012. HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2009. MOYA, Daniel Rodríguez. Antología: La poesia del siglo XX em Nicarágua. Madrid: La Estafeta del Viento, 2010. SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. 3. ed. São Paulo: Editora Cortez, 2010. (Coleção para um novo senso comum; v. 4) TODOROV, Tzvetan. A conquista da América. São Paulo: Martins Fontes, 2003. VARGAS, Germán Romero. História de Nicarágua. 2. ed. Manágua, Hispamer, 2011.

×