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Entrev Teixeira dos Santos

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Entrev Teixeira dos Santos

  1. 1. Este suplemento faz parte integrante do Diário EconómicoNº 6267 e não pode ser vendido separadamente | 25 Setembro 2015 Oex-ministrodas Finançasquenãoquer ‘tachos’ BrunoBarbosa NESTA ENTREVISTA DE VIDA, TEIXEIRA DOS SANTOS DISCORDA DOS ‘GRANDES TACHOS’ DEPOIS DA SAÍDA DO GOVERNO. O ANTIGO MINISTRO DE JOSÉ SÓCRATES AVALIA TAMBÉM OS MOMENTOS DO PEDIDO DE AJUDA EXTERNA, O FUTURO DO PAÍS E FALA SOBRE A INFÂNCIA E A VIDA EM FAMÍLIA. REPORTAGEM Aliciantes e problemas do negócio de ‘street food’ que já vale 2,5 milhões de euros TECNOLOGIA Conheça os melhores ‘gadgets’ e as aplicações ideais para o regresso às aulas
  2. 2. 2 E+Fim-de-Semana Sexta-feira, 25 de Setembro 2015 TeixeiradosSantos,ex-ministrodasFinanças,emo- cionou-sequandorecordouomomentoemqueco- nheceuamulher.Foi“amoràprimeiravista”.Fala aindadapersonalidadedeJoséSócrates,dopedidode ajudaexternaeanalisaofuturodoPaís.UmaentrevistadeMartaRan- gel,comfotografiasdeBrunoBarbosa,paralerapartirdapágina4 Bo- lasdeBerlim,cachorros-quentes,sumos,salsichasdeinspiraçãoale- mã:derepente,a‘streetfood’ganhoudimensãoejávale2,5milhões. AreportagemdeCátiaSimõescomfotosdePaulaNunesidentificapo- tencialeproblemasdeumnegócioquevaiatrairmuitagenteaBelém estefim-de-semana 8LeiaaindaoperfildeMartinWinterkorn,oCEO daVolkswagenquesedemitiuapósoescândalodefalsificaçãodedados nasemissõesdegases12Nastecnologias,SaraPiteiraMotamostra-lhe osmelhores‘gadgets’paraoregressoàsaulas.14Boasemana AntónioSarmento EM FOCO 4 25 SET PaulaNunes BrunoBarbosa 8 15 AdamBerry/Bloomberg 12
  3. 3. 4 E+Fim-de-Semana Sexta-feira, 25 de Setembro 2015 No final de Abril de 2011, José Sócrates disse numa entrevista: “Teixeira dos Santos é meu amigo, amigo do PS, contarei com ele para todaavida.”Aindasãoamigos? Apósosmomentosdifíceis,vividosem2011,hou- ve afastamento entre nós e, desde que saí do Go- verno, escassos contactos. Cruzei-me uma vez comelequandoveioaoPortoapresentarolivro. Comoreagiuquandosoubedadetenção? Grandesurpresa.Ésempreumchoquequandose éconfrontadocomumanotíciadessanatureza. Foivisitá-loaÉvora? Não. Pretendevisitá-loemcasa? Nãotenhoplanosnessesentido. Há quem diga que, nos Governos de José Só- crates, só ele mandava e deixava pouca mar- gemparaosministros… Temumapersonalidademuitoforte,semdúvida, masnãosubscrevointeiramenteessacaracteriza- ção. Ele era muito empenhado na defesa do seu ponto de vista. Não era fácil, muitas vezes, con- vencê-lodeumpontodevistadiferente.Mas,daía dizerqueelefosseinteiramentecasmurro,vaium grande passo. Várias vezes o vi ceder e perceber o queoministériodasFinançasdefendia. Precisou de coragem para o enfrentar e de- fender que era preciso pedir ajuda externa? Não. Sempre disse o que pensava, muitas vezes, contrariandoospontosdevistadele. HouveumaclivagementresieoPS,depoisdo pedidodeajudaexterna? Depoisdetersaídodogovernoeuprópriotomeia decisãodemeafastar.Nãotenhomilitânciaparti- dária.Nãovejoquepossafalardeclivagemnosen- tido em que tenha havido uma zanga. Falo com muitagentedoPSemantenhorelaçãodediálogo. AntónioCostaéparecidocomJoséSócrates? Sãopessoasdiferentes.OAntónioCostatambém é um homem determinado e sinto, na sua prática política, quer enquanto meu colega no Governo, queràfrentedaCâmaradeLisboa,queéumapes- soacapazdefazerpontesedepromoverentendi- mentoscomsensibilidadespolíticasdiferentes. O próximo Governo vai precisar de ter essa capacidadedeentendimento? Serásempremuitodifícilfazer-sepolíticasemca- pacidade de diálogo e de promover entendimen- tos. Qualquer que seja a força política. O País tem de ultrapassar este trauma que viveu de uma si- tuação financeira difícil, de uma cura traumática, queforamestesúltimosquatroanos. Opiorjápassou? O pior já passou, mas as dificuldades ainda não. Estamosaviverummomentodeacalmiainterna- cionalanívelfinanceiro,masháfactoresderisco, que vão continuar a exigir políticas muito rigoro- sasparaqueoPaísnãoresvaleeparaquesepossa promoverumamelhoriadobem-estardosportu- gueses.Precisamosdeapostarnumaestratégiade crescimento.AEuropajápercebeuqueaaborda- gem que teve da austeridade gerou dois anos de recessão a nível europeu, três em Portugal, com problemassociaisagravadoseumgrandeaumen- tododesemprego. Portugalcorreoriscodeterumnovoresgate? Neste momento, vejo esse risco reduzido. Portu- galeaEuropasãodiferentesdoqueeramháqua- tro anos. A Europa dispõe de um quadro de coor- denação e de acompanhamento das políticas na- cionais que dificilmente permitirá episódios como os do pós-crise de 2008 e 2009. Está mais preparadaparapreveniressassituações. O perfil da economia portuguesa mudou ou foisóapercepção? Paramim,aindanãoéclaroqueoperfildaecono- “ Nãoémilitanteehesitoudaraentrevistatãopertodaslegislativas.RecusaqueoPSesteja marcadopelodespesismoegarantequeAntónioCostaeJoséSócrates“sãodiferentes”.Oex-pri- meiro-ministro“tempersonalidademuitoforte”,mas“nãoéinteiramentecasmurro”.Oactual secretário-geralé“capazdepromoverentendimentos”.PorMartaRangel| fotografiasdeBrunoBarbosa Políticasdoprograma doPS“sãoarriscadas” Háfactoresde riscoqueexigem políticasmuito rigorosaspara queoPaísnão resvaleehaja melhoriano bem-estardos portugueses S eis de Abril de 2011 marcou a História de Portugal e a vida de Teixeira dos Santos. Mas o ex-ministro das Fi- nanças raramente olha para trás: sem mágoas, sen- timentos de culpa ou ran- cor, não se incomoda quan- dolheatribuemaresponsa- bilidade pelo pedido de ajuda externa. Assegura quecolocouosinteressesdopaísàfrenteegaran- tequenuncatevedeenfrentarJoséSócrates.Mas a amizade há muito não existe: não visitou o ex- -primeiro-ministro no Estabelecimento Prisio- naldeÉvoranempretendevisitá-loemcasa. Alguma vez imaginou que iria ficar na His- tória de Portugal? Nunca.Tenhopenaquepossaficarpelasrazões que foram. Gostaria que fosse por algo mais po- sitivo. Acada6deAbrilpensanaquelediade2011? Não. De alguma forma, por ser interpelado, sou obrigado a recordar, mas não tenho de fazê-lo ao longodaminhavida. Sente mágoa ou arrependimento? De forma alguma. Foram momentos muito difí- ceis e compreendo que houvesse diferenças na formadeencararosdesafios. Estátranquilocomadecisãoquetomou? Nãoestariabemcomigoprópriose,nummomen- to decisivo, não exprimisse aquilo que considera- vadeverserfeito.Sentiquetinhaessaresponsabi- lidade pelo cargo que ocupava e pela lealdade de- vidaaoPaíseàquelesqueconfiavamemmim. Alguém o culpabiliza pelo pedido de ajuda externa? Nãosintoqualquerculpa,nemseisemeculpabili- zam.Ouçodizerquefuieuachamaraajudaexter- naeconvivobemcomisso,mas,formalmente,foi decisãodoGoverno.ComoministrodasFinanças exprimi a minha opinião, mas o Governo não ti- nhadeofazer.Decidiufazê-loepensoquebem. JoséSócratesculpabilizou-o? Foi um momento de grande tensão. Não foi um momentofácilnarelaçãopessoalcomoprimeiro- -ministro, mas soubemos ultrapassá-lo de ime- diato. A seguir ao pedido era preciso continuar a trabalhare,apesardatensãoqueoepisódiogerou, nãoprejudicouoexercíciodasfunções. CONVERSAS COM VIDA
  4. 4. E+Fim-de-Semana 5Sexta-feira, 25 de Setembro 2015 Osmercados somostodosnós, pelasreacções, comportamento, poraquiloque decidimosfazer ounão “ Conversas com Vida Veja hoje às 22h00 a entrevista com Teixeira dos Santos gravada no Porto HD miaportuguesatenhamudado.Háumamudança que tem a ver com o bom desempenho do sector exportador.Mastenhodificuldadeemdizerqueé uma mudança verdadeiramente estrutural e que está para durar. Tenho dificuldade em dizer que nãosedeveu,puraesimplesmente,aumareacção defensiva de muitas empresas portuguesas que, peranteoestreitamentodomercadointerno,por causa das políticas de austeridade, tiveram de re- fugiar-se no mercado externo e procurar vender mais para o exterior. Saber se temos factores de competitividade que permitam manter essa si- tuação,paramim,nãoéinteiramentecerto. Há cinco anos, a dívida pública era 90% do PIB. E tanto os investidores como as agên- cias de ‘rating’ consideraram que Portugal não ia conseguir pagar e os juros dispara- ram. Agora, a dívida está em 130% do PIB e o Tesouro financia-se a juros historicamen- te baixos. Que lógica é que isto tem? Temaquelalógicaque,àsvezes,pareceirracional. Assim como os mercados, em 2010 e 2011, reagi- ram com algum pânico, neste momento parece queestãocomumaeuforiaeumoptimismo,qua- seumacertabonomia,comosestadossoberanos, que também é historicamente excessiva. E por- quê?Astaxasdejuro,nestemomento,emvirtude da política do Banco Central Europeu, estão his- toricamentebaixas. Os países são reféns dos mercados finan- ceiros? Namedidaemquequalquerumdenósouospaí- sestenhampedidoemprestado,somosdealguma forma reféns. O grau em que somos depende do nível de endividamento. É evidente que um País quetenhapedidodinheiroemprestadoestásujei- toàsregrasdemercado.Osmercadossãoumaen- tidade sem rosto porque têm muitos rostos: os mercadossomostodosnós,pelasnossasreacções, comportamentos,poraquiloquedecidimosfazer ounão.Umacoisaécerta:aindaestamosnumasi- tuaçãoemqueocrescimentoéfracoetemosuma dívida maior. Qualquer percalço neste quadro pode,deummomentoparaooutro,fazercomque osmercadosreajamdeformaviolenta. NestecontextodefragilidadecomoéqueoPS conseguedescolar-sedaideiadedespesismo? Não me parece que o PS esteja a dar um sinal de despesismo. Essa é a ideia que procuram dar do PS.Éaestratégiaqueacoligaçãotemdesenvolvi- dopoisoPSfezalgoinéditonopanoramapolítico português: apresentou um programa fundamen- tado e colocou-o à discussão. O que o PS propõe é estimularaeconomiaatravésdaprocurainterna. Maséarriscado? Semdúvidaqueestaspolíticassãoarriscadasno quadro orçamental em que estamos. Agora isto tem de ser feito explorando margens de mano- bra orçamental. Não ouvi ainda, dos responsá- veis do PS, dizer: ‘Não queremos saber dos ob- jectivos orçamentais, não queremos saber do défice.’ O que tem sido dito é: ‘Propomos estas políticassemcomprometerorigororçamental.’ Mas é um exercício muito difícil. Não será fácil levar a cabo uma política como esta e manter ri- gororçamental. Só será possível fazer verdadeiras reformas estruturais com um Governo que tenha os partidosdoarcodagovernação? Serámaisfácilfazê-lasdessaforma.Seriaimpor- tante para resolver questões estruturais. Mas es- sesentendimentosnãotêmdeserumacordo.Às vezes, podem ser implícitos. Vivemos décadas muitocentradosnumprojecto–aintegraçãoeu- ropeia, fazer parte da moeda única – e não houve umtratadoassinadoentreoPSeoPSDemtorno disto. Mas houve convergência dos dois partidos em torno deste desígnio nacional. Creio que, em outrasáreasdagovernação-daSegurançaSocial à Educação -, poderá haver uma convergência de entendimentooudeobjectivosestratégicos. É necessário Governo de maioria absoluta? Há um ditado que diz ‘quem não tem cão caça comgato’.Umgovernodemaioriaabsolutaseria o desejável, pois dá garantias de estabilidade de governação e dá outro fôlego ao governo para políticas relevantes para o País. Se não houver um governo de maioria absoluta, terá de gover- nar-secomaquiloqueforpossível.Nãotemosde dramatizar. Desde 1974, só tivemos três gover- nos com maioria absoluta. Seria desejável, sem dúvida,mas,senãofor,temosderespeitaravon- tadedoeleitorado.
  5. 5. 6 E+Fim-de-Semana Sexta-feira, 25 de Setembro 2015 “ Cordial, professoral e, até, afectuoso. Desengane-se quem pensa que um ministro das Finanças se parece com os números: frios e cinzentos. A rigidez do cargo não condiz com os laços do coração – e, esses, estão bem atados à família e aos amigos. É apaixonado pela mulher e, ainda hoje, os olhos brilham quando recorda o dia em que a conheceu. O aparentemente sisudo Teixeira dos Santos conta piadas, organiza jantaradas com amigos e até arrisca uns passos nas danças africanas. liberdade de me envolver noutro tipo de activi- dades. Os seus pais condicionavam-no? Havia um ambiente de grande sacrifício e es- forço dos meus pais e receavam que o meu en- volvimento pudesse comprometer o meu su- cessonosestudos. Também foi na Universidade que conheceu a sua mulher. Foi amor à primeira vista? Possodizerquesim. Como é que ela era? Com um rosto muito jovial, sorridente, muito amistosa. Cativou-me bastante essa forma de contacto. São momentos que ficam e não dão paraesquecer. É melhor ser ministro ou ex-ministro? Apesar de tudo, a segunda é melhor, mas não se pode ser ex sem ter sido ministro. Neste caso, readquiri qualidade de vida que não tive nos anos passados no Governo. O stress, a exposi- ção e pressão mediática deixam de existir. Mas atenção: não estou arrependido de ter sido mi- nistro. O facto de ter podido servir o meu país durante seis anos é gratificante. É muito enri- quecedor do ponto de vista da aprendizagem, pois é uma experiência única, na qual se vive, de modo intenso, problemas sérios e as nossas decisões afectam milhões de portugueses. É umpesomuitograndequetemosdecarregar. Como é que se lida com essa pressão? Lida-se. Ouvi dizer que nunca se zanga… Muito raramente. De uma forma geral, as pes- soas que trabalharam comigo terão dificuldade em dizer que me viram zangado com frequên- cia. Em seis anos, isso talvez sucedesse uma ou duasvezes. Mesmo nos momentos de maior tensão? Tive sempre a preocupação de, nos momentos muitodifíceis,manterumsorriso,comentarcom F oi “o benjamim” de uma família grande. Talvez por isso, aprendeu a conviver com pessoas e opiniões diferentes. Herdou dos pais e do avô “o sentido de traba- lho e sacrifício” e reper- cutiu, na família que formou, “o aconchego”. Foi para onde voltou depois de seis anos difíceis enquanto ministro das Finanças de José Sócrates. Já tinha um es- pírito jovem e conservou-o, apesar do stress e da pressão. Faz “contas à moda do Porto”, mas garante que não tem quaisquer contas a ajustar com o passado. Está bem onde está: sem “ta- chos”. Quando era criança sonhava ser o quê? Aprimeiracoisaquequisserfoiadvogado. Porquê? Muito influenciado pelas séries de televisão, em particular, o Perry Mason. Gostava do per- sonagem, que tentava ajudar as pessoas, resol- ver os seus problemas e também do confronto emtribunal,deconseguircontra-argumentare arranjarumasoluçãoquaseinextremis. Como foi parar a um curso de Economia? Por uma razão muito simples: não havia curso de Direito no Porto e teria de ir para Lisboa ou Coimbra. Isso levantava problemas económi- cos: seria difícil à minha família suportar os en- cargos da minha deslocação. Por isso, tive de encontrar um curso que satisfizesse as minhas aspirações no Porto. Era algo de relativamente novo e tinha uma componente de Direito, como ainda tem. Acabei por considerar que se- riaum‘secondbest’aceitávelparaquemqueria continuarosestudos. Mas até aí não teve apetência especial por Economia? Não,aMatemáticanuncafuiumalunobrilhan- te. Era razoável. Se me sentisse mais confiante nessa área, como aconteceu mais tarde, talvez optasse por um curso nas Engenharias. Apren- di a gostar de Matemática no 6º e 7º anos do li- ceu e, na Faculdade, senti-me bem mais à von- tade. Tem saudades da infância? Sim, no sentido em que era um tempo de maior aconchego familiar, de inocência. Mas, ao mes- mo tempo, não tenho qualquer pulsão para vol- tar a esses tempos. Tenho saudades dos meus pais que já partiram, do meu avô que partiu na altura em que entrei na Universidade. São pes- soas que me marcaram, mas a vida é mesmo as- sim. Cumpre-nos marcar as novas gerações e fazer com que, dentro de alguns anos, sintam saudadesnossas. E o que lhe transmitiram os seus pais que incorporou na sua personalidade? O sentido de que é preciso muito trabalho e sa- crifício para se conseguir as coisas. A minha fa- mília não era desafogada, teve dificuldades em educartrêsfilhos.Esseexemplodequaseabne- gação pelos filhos, sacrifício, para que nada fal- tasse, é a grande marca que os meus pais me deixaram. Entrou na Faculdade em 1968, saiu em 1973, quase apanhou o período da Revolu- ção… QuandoentreinaUniversidade,oambientees- tudantileramuitomarcadopeloMaiode68em França. E aí despertei para um conjunto de problemas - essa consciência de que temos de ser uma parte mais activa na transformação do Mundo e da sociedade; que a vida não se limita atirarumcursoeterumaprofissão,vivendona nossa zona de conforto quase numa perspecti- vaegoísta. Era interventivo? Não tive militância ou participação em movi- mentos estudantis, mas comecei a interessar- -mepeloquesepassavaàminhavolta,ateropi- niões próprias e uma visão crítica. Continuava a viver com os meus pais e isso condicionava a Readquiri qualidadede vidaquenão tivedurante osanospassados noGoverno “Nãoestouarrependido detersidoministro”
  6. 6. E+Fim-de-Semana 7Sexta-feira, 25 de Setembro 2015 nhamos. Acima de tudo, tenho algumas sauda- des da adrenalina, desse chamamento perma- nente para resolver vários problemas ao mes- motempo. Quem o conhece bem diz que tem uma ho- nestidade à prova de bala: alguma vez foi posta à prova? Honestidade no sentido de que há coisas com as quais não podemos pactuar, pois têm a ver com os nossos princípios. Nunca fui confronta- do com situações de corrupção, de me quere- rem comprar. Mas fui confrontado com situa- ções em que temos de tomar decisões que não são só nossas. Fazemos parte do colectivo que é oGoverno.Muitasvezes,onossopontodevista nãopodevalercomoentendemos,éprecisone- gociar, arranjar compromissos. Mas há linhas que não podemos atravessar sob pena de colo- caremcausaaquiloemqueacreditamos. Diz sempre o que pensa: por convicção ou necessidade? Porconvicção.Ensinaram-mequenãoébonito mentir, tive sempre grande horror à mentira e entendo que a verdade deve ser dita. E isso, na política,tambémémuitoimportante. Não perdoa uma mentira? Não. Muitos que andaram na política apren- demqueosmentirososapanham-secommuita facilidade. Desiludiu-se com a política? De forma alguma. Considero que é uma activi- dade muito nobre. Os países precisam de pes- soas que se dediquem a ela. Tenho muito res- peito pelos políticos, mas nem sempre estarei agradado pela forma como a política é feita. É preciso distinguir aquilo que é a actividade po- lítica essencial do que é a espuma diária e da in- triga.E,aí,osórgãosdecomunicaçãodesenvol- vemmuitoessaespumaemtornodaactividade política. Entender que a política é viver um pouco nesse foguetório mediático é uma visão limitada e não antevejo grande futuro a quem pretendafazê-lasódessaforma. Seria de esperar que, após ter sido minis- tro das Finanças, ocupasse um cargo de al- guma relevância numa empresa ou num Banco. Os convites surgiram e não aceitou ou não surgiram? Não tem de ser assim. Estou num cargo impor- tante, na Faculdade de Economia do Porto, co- laboro com a Porto Business School nos seus MBAeessaéumaposiçãoimportante. Não se imaginaria numa grande empresa ou num banco? Tive um convite há poucos meses para uma instituição financeira que acabou por não se concretizar. Isso é, de alguma forma, uma ima- gem que se criou dos ex-ministros, em particu- lar das Finanças: têm sempre de acabar com aquilo que costuma chamar-se ‘um grande ta- cho’. Sinto-me bem no que estou a fazer, estou debemcomavidaecomosoutros. Pessoas que lhe são próximas dizem que o senhor “é uma lição de vida”. Sente que tem uma missão, que já cumpriu, ou ainda tem mais para dar? Não sinto que tenha uma missão. Não tenho qualquerilusãoquantoaisso.Procurodarsem- pre o meu melhor: ser um bom amigo, estar de bem com a minha família, ser um bom pai, um bom marido, um bom avô, um bom professor. Falaremmissãoéisso:poderdarsempreomeu melhornasmaisvariadasfacetas. E o avô Fernando agora tem mais tempo para brincar com os netos? Tenho,felizmente.Eéumacoisamuitoboa. humorfosseoquefosse,semdeixartransparecer a preocupação para não contagiar quem iria ser importanteaajudar-mearesolverproblemas. O que o tira do sério? Faltadeintegridadeouseriedadeintelectual-a forma como se distorcem factos, como às vezes se procura imputar intenções, pegar em coisas que dissemos e querer dar a entender que que- ríamos dizer uma coisa diferente - e a falta de rigor. Ver falta de rigor e coerência em termos deargumentaçãotira-medosério. Já tentaram distorcer aquilo que disse? Muitas vezes, em especial, nos debates na As- sembleia. Chegámos a um ponto em que quase se considera normal que as coisas sejam assim em política e não deve ser. O facto de ser pro- fessor há muitos anos obriga-me a encarar as coisas com rigor e seriedade, algo que nem sempreseencontranodebatepolítico. Falando em rigor: faz ‘contas à moda do Norte’. O que quer isto dizer? O termo mais usado é contas à moda do Porto, algo que, em termos mais gerais, chamamos o conceito do utilizador-pagador: ‘gastaste, pa- gas.’ Se vamos a um café ou restaurante, cada umpagaasuaparte.Nofundo,éumaculturade partilha dos encargos e dos custos, algo que me parece saudável e deveria ser praticado de modomaisgeneralizado. De que tem saudades nos tempos do minis- tério das Finanças? Do convívio, do espírito de entreajuda que tí- “Verfaltaderigor ecoerência emtermosde argumentação tira-medosério

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