Miguel Cadilhe

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Miguel Cadilhe

  1. 1. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 1 de 7Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quaseos mesmos apontados por Salazar em 1929-31”Por Isabel Tavares, publicado em 15 Out 2011 - 03:00 | Actualizado há 1 dia 16 horasAlberto João Jardim devia demitir-se. “Uma demissão digna”. Buracos e derrapagenssão imperdoáveis Imagem Imprimir Enviar Like 80 Send 35 0 0 70O ex-ministro das Finanças, Miguel Cadilhe, fala do Orçamento do Estado para 2012 e da longa“soneca” do Banco de Portugal. Critica a justiça nacional, que parece premiar a irresponsabilidade eelogia o discurso de Cavaco Silva sobre a crise da zona euro, culpando todos e não apenas os “estadosfinanceiramente indisciplinados”. Diz que, finalmente, Durão Barroso deu um passo em frente paraformar uma União mais coesa e explica por que só o Banco Central Europeu pode salvar a Europa noimediato. É por aí que começa.A crise da dívida soberana continua a alastrar. Itália, Espanha e até França. A UniãoEuropeia é capaz de gerir esta situação?Vai ser capaz. Em particular, a Zona Euro (ZE) tem de sair por cima desta crise e o que tem de ser temmuita força, ainda que por vezes a força venha tarde demais.Há dinheiro para apoiar todos?O problema não se põe tanto assim. Põe-se mais, isso sim, no tempo e no modo de intervir. Numagrave crise de confiança e liquidez como a presente, é o BCE quem tem força, razões e instrumentospara realizar uma intervenção que convença crentes e cépticos, mas não o tem feito.Ainda agora, nas despedidas, o presidente Trichet pareceu preocupar-se com a inflação acima dos 2%quando a economia da ZE anda como anda, frouxa, sem ameaçar ser persistentemente inflacionária,muito longe disso, e a chamada inflação subjacente é o que é, está muito abaixo dos tais 2%. Aliás, umpouco mais de inflação com juros baixos até poderia ajudar a atenuar o peso das dívidas públicas eprivadas.Que mais pode fazer o BCE?O BCE tem de ser o principal protagonista, em defesa da estabilidade financeira e não só daestabilidade dos preços. O BCE deveria evidenciar uma inequívoca vontade de apoiar a liquidez dosistema em crise, sem que o mercado percepcione limitações de tempo e de quantidade. Isto semprejuízo, pelo contrário, da boa execução de rigorosos programas de ajustamento e estabilização nospaíses mais desequilibrados.O redactores da influente revista “Economist”, no número de 17 de Setembro, analisam, concluem erecomendam preto no branco, e eu subscrevo, que o BCE é a única entidade europeia, das existentes,capaz de atacar a crise da ZE depressa e bem.Qual o papel da Comissão Europeia?A Comissão Europeia está estatutariamente fora de combate. Falo dos combates mais imediatos,urgentes e decisivos nesta seriíssima crise da ZE, porque para agir com novos conceitos, que serãoúteis, a Comissão precisa de se alongar em muitas negociações e aguardar deliberações de governos eparlamentos. Na agudeza da circunstância, resta-lhe pressionar e sensibilizar, pouco mais.E numa visão menos imediata?Já numa visão mais estruturante das coisas, aí sim, tem a Comissão de preparar e assumir iniciativasa nível quer dos países quer da Europa. É a diferença entre o curtíssimo prazo mais ao alcance do BCEe o longo prazo mais ao alcance da Comissão. Nestes últimos dias, finalmente, Durão Barroso deu umimportante passo de afirmação estratégica no Parlamento Europeu, esperemos que a Comissão sejaconsequente e seja respeitada por todos os países da ZE.Como viu o discurso do Presidente da República sobre a crise da zona euro?Achei muito bem todo o discurso de Cavaco Silva em Florença.http://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  2. 2. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 2 de 7A Alemanha está a ser demasiado severa, esqueceu os custos da reunificação e, antesdisso, da guerra?Severa, não diria. Talvez esteja um pouco estranha, talvez como alguns têm observado lhe comece afaltar um pouco da luz que só a história consente, muitos dos actuais líderes alemães nasceram depoisda II GG... Mas, entendamo-nos, quem errou reiteradamente e indisciplinou as finanças, como nósfizemos, não pode agora esperar muita solidariedade financeira. Nem fica bem erguer presunções efantasmas da história, porque isso seria misturar temas e buscar evasivas, seria tentar aliviarresponsabilidades, quando os males e as causas são nossos, como é evidente.Como olha para esta “ditadura dos credores externos”, como lhe chamou?Inevitável, porque nós devedores não tivemos juízo, ainda que os credores também não tivessemagido com todo o dever de prudência quando era preciso. Houve temeridade em ambos os lados, maso grau é diferente, é sempre muito mais grave do lado do devedor, sobretudo quando se trata dedevedores, como o Estado, que têm a obrigação de saber o que estão a fazer.O que falta à União Europeia?Credibilidade. Em particular na ZE.O modelo económico-financeiro actual é sustentável?Em Portugal não é sustentável. Provam-no os nossos défices externo e público, que são persistentes.Entretanto, tudo está em reajustamento e renovação, seja por vias endógenas, que a criseimplacavelmente induz, digamos que vai ser uma auto-regeneração, seja por vias exógenas, que aspolíticas estruturais discricionariamente hão-de provocar.As medidas de austeridade devem ser definitivas ou temporárias?Falando das medidas de austeridade, há algumas delas que têm de ser estruturais no sentido de que éausteridade para permanecer, como, suponho, a diminuição dos salários nominais pagos pelo Estadoem 2011.Portugal poderá estar fora de perigo em 2013?Não, nem pensar.Quando poderá Portugal respirar de alívio?Ninguém sabe. Vai levar anos. E o alívio como lhe chama será uma nova tendência que terá de partirde novas condições estruturais, de que se destacará, infelizmente, um novo patamar de nível médio devida das famílias sensivelmente abaixo do de 2010. Gradualmente, consistentemente, não há que terilusões.A troika foi longe de mais nas exigências à banca?Talvez sim. O maior problema da banca é de liquidez, que não permite dar tempo ao tempo. A bancatambém precisa de correcções estruturais que terão de ser realizadas pelos banqueiros e pelossupervisores, mas o mais premente de tudo é a questão da liquidez e da confiança interbancária.Mas há outros entraves ao relançamento da economia?Outro entrave é a política orçamental de austeridade, que está sendo pró-cíclica o que é uma anomaliaque não tem alternativa. Outro é a conjuntura externa que é depressiva. Outro é a desconfiança e omedo.Existe espaço para uma política orçamental anticíclica?Em Portugal, não, infelizmente não. Porque a má condição financeira ganhou um mandopraticamente absoluto, por uns tempos. Estamos demasiado acima das médias europeias dos ráciosdo défice público/PIB e da dívida pública/PIB, isso casado com um deplorável desempenho do PIBefectivo, teimosamente abaixo ou muito abaixo da média europeia, e um fraquinho PIB potencial. Umcasamento que assusta os credores da economia portuguesa.Em geral, a meu ver, podemos e devemos conciliar sempre boa saúde financeira do Estado compoliticas anticíclicas activas, digo activas para além portanto dos estabilizadores automáticos. E digopolíticas regradamente activas. Politicas que, se necessário, possam ajudar o crescimento e oemprego, nas fases más do ciclo, e que moderem a expansão, nas fases boas. Sou defensor disso.Mas estamos demasiado condicionados...Porém, na situação em que estamos, a disciplina financeira é-nos imposta de fora pelos credores,desgraçadamente demos-lhes azo a isso. Agora que precisávamos, estão-nos vedadas políticas activasanti-depressão. Pior, temos as lógicas invertidas, temos de ter e aguentar políticas pró-cíclicas,contraccionistas em plena contracção.Sempre disse que há bons e maus défices públicos, avisei imensas vezes. Mas nós caímos em péssimosdéfices públicos, pior ainda, parcialmente ocultos. Estou chocado por essas mentiras ou ocultaçõesdas nossas finanças públicas, a todos os níveis, que do passado têm vindo à tona em 2011.A concentração do actual governo no imediato está a tirar-lhe perspectiva?Não me parece que seja assim. Não vejo uma obsessão pelo imediato, vejo realismo, competência euma honesta preocupação pelo futuro. É claro que há as prioridades impostas pelo programa deajustamento acordado com a troika, é vital que se cumpram. Os tempos são o que são, as medidas deausteridade são uma fatalidade não uma fixação.http://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  3. 3. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 3 de 7Como vê o Orçamento de Estado 2012?Sobre o OE 2012 que ainda estamos a vislumbrar, achei que esteve muito bem esta últimacomunicação de Passos Coelho. As notícias eram muito más, mas o primeiro-ministro falou verdade eavançou com medidas impopulares que parecem relativamente eficazes, concorde-se ou não com elas,ou com a distribuição dos sacrifícios, domínio este em que tenho algumas dúvidas.Em que é que o OE não pode falhar?Por mim, desejo que o OE traga uma nova política orçamental, traga um novo caminho que seja decortes da despesa muito mais do que de sobrecargas de impostos. Até agora, em 2011, no crucial ladoda despesa, o governo parece que se tem limitado a executar o OE herdado dos antecessores. E para2012 apresenta mais cortes temporários nos vencimentos e nas pensões, por exemplo, masprecisamos de ver cortes estruturais decorrentes da reconceituação de regimes e das reestruturações eencerramentos de serviços.Todavia, bem vê, podemos discutir a composição das políticas e o doseamento das medidas, nãodevemos porém pôr em causa as metas e os objectivos acordados com a troika. Talvez possamos maisadiante, graças a bons resultados, renegociar um outro gradualismo do ajustamento. Por ora, seriaprematuro, ainda não demos provas cabais.TSU, aumento das taxas de IVA, IRS, IRC, aumento do horário de trabalho… Sãomedidas avulsas ou consequentes?Concordaria com a descida da TSU se e só se fosse exclusivamente para exportadores e equiparáveis.Isso esbarraria em regras básicas da UE, mas o facto é que Portugal está em situação aflitiva, a nossadiplomacia haveria que tentar o impossível, para isso é que ela existe. Defendi isto no Forum para aCompetitividade, antes do programa da troika, mas o Forum não acolheu nas suas propostas adiscriminação da TSU a favor de exportadores.Horas de trabalho...Quanto à medida de mais horas de trabalho com o mesmo salário, ou seja, menor salário por hora, elapoderá melhorar a competitividade-custo numa economia que esteja em pleno-emprego. Não éobviamente o nosso caso, e a medida pode mesmo evitar a criação de emprego. Como medidafacultativa para as empresas e obrigatória para os trabalhadores, ela poderá beneficiar sobretudo asempresas que estejam a produzir no limite da capacidade, especialmente muitas pme e muitasexportadoras. As empresas que estejam a produzir abaixo da capacidade, e serão a grande maioria,não precisarão de usar a medida.E o aumento de impostos?Quanto a mais aumentos da já pesadíssima carga fiscal, estou desolado que se vá por aí, sou contra.Defendo, porém, como é sabido, mas isso é outra história, um imposto extraordinário, a lançar deuma só vez sobre a riqueza líquida de passivos de pessoas singulares e colectivas, corrigido da duplatributação, aplicável acima de razoáveis isenções de base, e cuja receita iria directamente àamortização da dívida pública, não iria alimentar as despesas do OE.Fiz essa proposta em Abril passado, muito a contragosto porque vai ao arrepio da minha normal visãodas coisas, mas fui sensível a razões de justa distribuição dos sacrifícios (presentemente está a serinjusta, tenhamos consciência disso) e a razões de eficácia e convencimento na redução do rácio dadívida pública. Por coincidência, a seguir apareceram aquelas posições de algumas das pessoas maisricas do mundo, W. Buffett e outros.Se estivesse no governo que medidas adoptaria?Nas Finanças, francamente e em geral, acho que não seria capaz de fazer melhor do que o ministroVítor Gaspar vem fazendo e certamente irá fazendo.Por exemplo, como ele, procuraria cumprir religiosamente o programa de ajustamento e o acordo datroika. Faria ponto de honra no corte das despesas públicas primárias e fixaria como meta orçamentalum “excedente primário” de uns 4% do PIB, um garrote para valer por vários anos, sei que seriaviolento. Evitaria alindar o OE com medidas não recorrentes e ilusórias, como essa coisa dos fundosde pensões da banca, ou similares, algumas já fizeram serventia a diversos ministros das Finanças,sempre achei mal. Adoptaria políticas sistemáticas de redução de custos das empresas. Tentarianegociar com a UE um programa para 5 a 10 anos, do tipo PCEDED da 2.ª metade dos anos 80, agorareadaptado ao contexto da ZE. Tentaria congregar os parceiros sociais em acordos de concertação.Amortizaria antecipadamente parte da dívida pública por consignação das receitas de todas asprivatizações e do mencionado imposto extraordinário sobre patrimónios. Recriaria o GAFEEP noMF, gabinete de análise do financiamento do Estado e das empresas públicas...Que foi extinto...O GAFEEP revelou-se um utilíssimo instrumento de disciplina financeira. Criei-o nos anos 80 enomeei Carlos Tavares como seu primeiro presidente, ele tornou o GAFEEP respeitado, escutado econsequente, contudo o gabinete foi depois extinto, talvez por isso mesmo, por ser incómodo...Ainda não se vêem cortes na despesa...Sim, concordo e estou muito preocupado com isso. Mas vamos ver em breve o que o OE 2012 nos traznesse campo da despesa, para além do que o primeiro-ministro já disse ao País. Entretanto, há aexecução em curso do OE 2011 vindo do governo anterior, com alguma dose de austeridade nadespesa.Onde se pode cortar?Cumprir o acordo da troika, como se vem fazendo, mas ir bastante mais fundo, até às raízes dohttp://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  4. 4. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 4 de 7despesismo e efectuar cortes estruturais (no sentido que lhe dei acima) nos regimes e nos conceitosdas funções do Estado. Se nos últimos seis anos tivessem acolhido algumas das propostas que fiz em2005, no livro “Sobrepeso do Estado em Portugal”, hoje estaríamos bem melhor e sem estas afliçõesda dívida soberana.Vivemos uma crise económica e de valores. O Estado tem sido “pessoa” de bem?Há anos que deixou de ser pessoa de bem. Por exemplo, não presta boas contas, mente, escondedespesas, derrapa nos orçamentos, atrasa-se a pagar aos fornecedores correntes; administra mal ajustiça; convive com fenómenos de nepotismo, corrupção, economia informal... Faço com mágoa esteretrato em tons carregados. E no particular domínio das finanças públicas, estando nós na UE e naZE, confesso que nunca imaginei poder ser enganado por dados oficiais sobre a real dimensão donosso défice público, como temos vindo a constatar graças ao trabalho da troika e do actual Governo.Quais têm sido os principais pecados das entidades públicas?Quase os mesmos pecados que Salazar apontava em 1929-31. Ele dizia que a vida administrativa doPaís era uma “mentira colossal”. Era a “mentira das previsões”, ou seja o orçamento, e era a “mentiradas contas”, ou seja a execução das despesas... Era o abuso do “crédito para pagar despesascorrentes”... Era a tentação de “furtar as despesas a uma fiscalização rigorosa”. Era o despesismo, a“nossa prodigalidade”, o “nosso prazer de gastar”, as “nossas aspirações desmedidas”... Era a falta dequalidade das instituições, a “forte pressão dos nossos defeitos administrativos”, a “nossa desordemadministrativa”...Palavras de há oitenta anos que fantasmagoricamente hoje quase ressuscitam, humilham ademocracia e envergonham os órgãos de soberania, todos. Curiosamente, citei-as em 1984 numaconferência que fiz, veja-se a ironia da vida, na Madeira, a respeito do estado das nossas finançaspúblicas, estava o País a sofrer a 2.ª intervenção do FMI, estava eu longe de me supor na função deministro das Finanças o que haveria de ocorrer um ano depois, no governo Cavaco Silva.As entidades reguladoras, nomeadamente o Banco de Portugal e CMVM têm estado àaltura dos desafios colocados?Durante anos a fio, a supervisão do BdP foi permissiva e desatenta. Foi incompetente. O actualgovernador está, e bem, a corrigir erros, negligências, omissões. A CMVM situa-se noutro campo, comoutros meios e outros alcances, penso que tem progredido bem.Alguns deputados exigiram a devolução do dinheiro que recebeu enquanto esteve àfrente do BPN. Como ficou esse “processo”?Isso não tinha cabimento nenhum. Nem sequer houve processo algum, a atoarda como nasceu logomorreu. Esses deputados, aliás muito poucos, não sabiam do que estavam a falar, foi uma tristeza vê-los na baixeza das presunções, foi uma irresponsabilidade, que de pronto a presidente Maria de BelémRoseira fez corrigir com firmeza e dignidade. Esses deputados pretenderam fragilizar as coisas, não oconseguiram, antes de se virarem para os gravíssimos casos danosos, talvez dolosos, que a minhaequipa corajosamente tinha posto a descoberto e vinham do passado, da responsabilidade de pessoasnotoriamente conhecidas.Recebeu o dinheiro legitimamente...Quanto ao meu dinheiro, vamos lá ver se falo disto pela última vez. Os factos são estes. Não fui euquem pediu para ir para o BPN, foram os maiores accionistas quem insistiu durante meses para queeu aceitasse a famigerada incumbência. E foram eles quem aprovou a questão do dinheiro, cujascondições se referiam a dois momentos. Antes de ser nomeado, pagaram-me de uma só vez tudoaquilo que eu ia perder, nem mais nem menos, sendo essa perda imposta por regulamento do BCPabsolutamente incompatível com funções no BPN, portanto soma algébrica nula para mim. Depois deser nomeado, pagaram-me remunerações mensais iguais à média dos bancos cotados, nem mais nemmenos, sendo que o BPN se prefigurava como um objecto de trabalho muito mais espinhoso, semdesprimor para os bancos cotados...Foi um processo claro?Tudo foi claro, documentado e dentro da lei. Tudo foi submetido a impostos. Tudo se situou nosantípodas dos actos furtivos ou evasivos que, para nosso espanto, haveríamos de detectar cometidospor administrações anteriores à nossa chegada.Poderão vir a ocorrer mais casos como o do BPN e o do BPP?Creio que não. Mas, enfim, a longa soneca do supervisor no BdP pode ter propiciado muita coisa.O Millennium continua a ser um dos maiores bancos privados, mas vale hoje muito menos que háquatro anos. Podia ser diferente?Bom, o facto é que propus uma equipa para o conselho de administração do BCP na assembleia geralde inícios de 2008, mas não fomos eleitos. Tivemos um excelente acolhimento da parte dos pequenosaccionistas, havia porém um acordo de bastidores entre os maiores accionistas e os poderes públicos.Seguramente, o nosso caminho para o BCP teria sido outro, se melhor se pior não sei, e há quereconhecer que na generalidade todos os bancos têm estado a perder valor em bolsa.Disse em tribunal que a sentença no processo do BdP contra ex-administradores e BCPfoi desproporcionada em relação aos factos. Porquê?Disse que o BdP é que foi desproporcionado. Entre outras coisas, disse que ele não cumpriu o basilardever do recato, que está na primeiríssima linha dos padrões de comportamento de um banco centralque se preze. Disse que ele flagelou elementares deveres de consideração e respeito ao menosprezarhttp://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  5. 5. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 5 de 7uma brilhante história que é a do BCP no nosso sistema bancário. Disse que ele provocoupublicamente uma crise reputacional no BCP, ora isso é o pior que pode acontecer a um banco. Disseque os factos têm várias leituras e não me pareceu inquestionável a leitura do BdP. Disse que, emgeral, a supervisão do BdP havia falhado estrondosamente.E afirmou que existem situações análogas noutras instituições. Como devem sertratadas?Devem ser tratadas pelo BdP com recato, proporcionalidade e efectividade. Mas acho que não faleipropriamente de situações análogas, o que admiti, acho de memória, foi que pudessem existir outrassituações, como por exemplo as relacionadas com a denominada “operação furacão” que, não seiporquê, não se move como furacão, nem, que eu visse, veio o BdP a terreiro bradar cobras e lagartoscontra operações bancárias que surpreendentemente haviam sido congeminadas e montadas porbancos para gerar ganhos fiscais aos clientes em discutível licitude. Atenção, não veio o BdP a terreiro,e fez bem, neste caso teve estado recatado e suponho que actuante. Mal fez o governador do BdPquando veio à praça pública no citado caso BCP, em fins de 2007, causando alarido social econdenando pessoas antes mesmo de haver processo.Como vê a actuação de Vítor Constâncio à frente do BdP e a sua passagem para a vice-presidência do BCE?Mal. Ele é um bom economista, mas falhou nas duas principais frentes da sua responsabilidade noBdP, a supervisão bancária e a vigilância macroeconómica. Entretanto, aprendeu com os próprioserros. E deve estar muito agradecido, Portugal foi magnânimo, encaminhou-o para o BCE.Vítor Constâncio devia ser responsabilizado pelo que se passou no sistema bancário nacional?A República tem esse ‘bom’ hábito de não pôr a justiça a responsabilizar os seus altos dignitários. Porvezes, a República até os premeia.A CGD devia ser privatizada?Sempre defendi a CGD pública, tal como nasceu, ela não nasceu de uma nacionalização. Todavia,agora o País está como está. O Estado tem de vender património para pagar dívidas. A receita nãodeve ir ao orçamento, não deve alimentar despesismo, reitero, deve ir directa e exclusivamente àamortização da dívida pública.Ainda sobre a banca. O rácio de transformação da banca nacional é de 150%. Como olhapara este número?Tudo depende da qualidade dos créditos concedidos. Quando, porém, o chão estremece debaixo dospés, a crise se instala, a economia não cresce, estagna, decresce, um tal rácio pode revelar-setemerário, mesmo perigoso.Defendia para Portugal um ministro (ou ministra) das Finanças de mão férrea. É o quetemos?Sim. Mas Gaspar tem duas mãos. Vai ter de conciliar uma mão férrea que aperta e uma mão justa quesemeia, faz crescer e redistribui. Uma conciliação quase divina.O Estado tem demasiado peso na economia?Sim. Esse é um dos nossos maiores males estruturais. Analiso isso no meu livro de 2005, que já citei.Faz sentido vender activos numa altura de crise? Porquê?Sim, desde que seja para pagar dívidas excessivas e evitar insolvências, como é o caso da nossa dívidapública. O preço não é o melhor? Pois bem, o óptimo é inimigo do bom, em tempo de guerra não selimpam armas, temos de salvar a honra da casa.Qual a sua expectativa para 2012?Entre nós, a casa continuará a ser arrumada. Gastar-se-á muito menos. A procura total continuará acontrair-se, com a procura interna a puxar para baixo e a procura externa a puxar para cima, estalonge de compensar aquela. O PIB cairá ainda mais e o emprego sofrerá ainda mais. Osestabilizadores automáticos acentuar-se-ão, provocando naturalmente menos receita fiscal e maisdespesa social, desajudando assim a meta de redução do défice público, mas esta terá de sercumprida . O défice externo poderá melhorar graças sobretudo à quebra das importações arrastadapela quebra da procura.Sobre o novo buraco aberto pelas contas da Madeira, AJJ devia demitir-se?Sim. Uma demissão digna. Ele sabe muito bem o que isso é, e saberá como fazê-lo fora dos teatros,dos trombones e das provocações que lhe conhecemos, de que ele tanto gosta, mas que agora ficammal, mais do que nunca.Caso não se demita, não deviam tirá-lo de lá?Reitero, a República tem esse ‘bom’ hábito de não pôr a justiça a responsabilizar os seus altosdignitários.Acredita que serão encontrados mais buracos, se não nas regiões autónomas nasempresas nacionais, públicas e privadas?Já não digo nada... A República tem esse ‘bom’ hábito de fazer e esconder buracos e derrapagensorçamentais. Gasta o que não tem, depois não paga ou pede emprestado. O ‘bom’ hábito foi pelatroika desnudado e condenado em 2011, espera-se que esteja de facto completamente nu e não hajahttp://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  6. 6. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 6 de 7mais surpresas. Na fotografia tirada pela troika ficam todos mal, os políticos autores dos buracos ederrapagens, os seus burocratas chefes, as instituições vigilantes, de registo e de controlo como o INE,o Tribunal de Contas, o BdP, a PGR, o MF, a AR, etc.O governo está a lidar bem com estas situações?Sim. A troika também. Os buracos e as derrapagens são imperdoáveis. Dei-lhes luta sem tréguasquando estive nas Finanças. Nos anos 1986, 87, 88, 89, fechei sempre o ano com um saldo executadomelhor do que o orçamentado, e procurei na composição subjacente impor disciplina nos diversossectores da despesa. Rui Carp era o meu secretário de Estado do Orçamento. Foram, talvez, osmelhores anos da democracia no que toca à intensidade do saneamento financeiro dos sectorespúblicos administrativo e empresarial. Não sou, claro que não sou, o melhor juiz nesta matéria, emqualquer caso deixei disso um registo no livro que publiquei em 1990, logo após sair das Finanças. Oregisto está bem actual...Para que serve o Tribunal de Contas e de que têm servido os seus alertas?A República tem o ‘bom’ hábito de não ouvir o Tribunal de Contas, este tem o ‘bom’ hábito de não sefazer ouvir. Digo ouvir e fazer-se ouvir com a substância, a oportunidade, a sonoridade e asubsequência que a gravidade das situações muitas vezes requer. E falo muito especialmente dosouvidos do Parlamento, da Procuradoria da República e da comunicação social.O que faz falta ao País?A par da troika, ou depois dela, faltará que a gente acredite de novo, sem extravagâncias nemfacilitismos. Faltará um Estado forte, contido, regrado, competente. Faltará qualidade dasinstituições, começando pela justiça. Faltarão mais exportadores e mais competitividade. Faltaráinvestimento. Faltará discriminar mais a favor do mérito, do trabalho e da produtividade. Faltaráresponsabilizar os responsáveis, mais, muito mais. Faltará banir corrupções. Faltarão politicasestruturais, reformas estruturais, correcção estrutural do défice externo e do desemprego. Faltarãopolíticas de redução dos custos. Faltará reduzir a economia informal... etc. Faltará, enfim, curar elibertar o PIB potencial que tem estado gravemente doente.Vale a pena olhar para trás para aprender a lição? Quais foram os erros capitais?Houve muitos erros, alguns deles impressionantes. Não me conforta nada, mas alertei em váriosmomentos para todos eles, por vezes fui incompreendido e mesmo mal visto. O tempo talvez me tenhadado alguma razão. O que para mim podia ser um erro capital, estruturante ou desestruturante, paraoutros não o era.Um exemplo?Por exemplo, a meu ver, logo nos inícios dos anos 90, o ‘erro’ do escudo precoce, como lhe chamei, foia adesão a uma moeda única demasiado forte para a nossa estrutura produtiva, e a perda da políticamonetária incluindo a política cambial... Ou nas décadas de 90 e 2000, o ‘erro’ das péssimasafectações de recursos, visíveis em grandes despesas, como Expo 98, submarinos, estádios de futebol,densidade de auto-estradas... Ou o ‘erro’ da subalternização dos chamados “transaccionáveis”, sobreque mostrei perplexidade, também no início dos anos 90, perante o abandono do PCEDED, umprograma que me foi muito caro... Ou o ‘erro’ da falsa equidade, e além disso falsa sustentabilidade,que constituiu o anti-princípio “utilizador-pagador”... Ou o ‘erro’ da imparável escalada das despesasde funcionamento do Estado, são as “despesas correntes primárias”, eram 28% do PIB no meu tempodas Finanças, estavam nos 42% ou mais em 2010... Ou o ‘erro’ da correlativa escalada da carga fiscale, pior, do denominado esforço fiscal... Ou o ‘erro’ da perda de competitividade por força de uma daspiores evoluções dos salários reais acima da produtividade, em comparação com os países da UE... Ouo ‘erro’ da demolição, não reconstrutiva, do nosso sector primário tradicional, agricultura e pescas...Ou o ‘erro’ do repetidíssimo protelamento das re reformas estruturais do Estado... PUBComente este artigoO seu nome: * AnonymousEmail: *O conteúdo deste campo é privado e não irá ser exibido publicamente.Página Pessoal:Comentar: *http://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011
  7. 7. Página Miguel Cadilhe “Os pecados de hoje são quase os mesmos apontados por Salazar e... 7 de 7 CAPTCHA A questão (CAPTCHA) é para verificar de que é um humano a aceder ao site para prevenir o envio de SPAM. Que letras aparecem na imagem?: * Introduza os caracteres apresentados na imagem. Guardar Pré-visualizaçãoComentáriosby j.o. (não verificado) | 16 Outubro, 2011 - 08:57 Excelente. Não esperaria outra coisa do melhor ministro das finanças pós 25 de Abril.by Anonymous (não verificado) | 16 Outubro, 2011 - 02:56 Fogo...mas ninguém prende este homem? É preciso ter lata...by Antonio Ribatejo | 15 Outubro, 2011 - 21:59 Dr. Miguel Cadilhe, falar é fácil, barato e normalmente não custa dinheiro. Admiro a lata em que arranjam culpados, colocando o "rabinho de fora". Lembro-lhe apenas que TODOS estamos a pagar o PPR que V.Exa. sacou (10 milhões ?!?) por ter estado 6 meses no BPN. Sabe quem está a pagar esses 10 milhões, as mais valias de uma determinada família algarvia, o retiro cabo-verdiano de um seu companheiro de lides? Esta é a pergunta para 5000 milhões de dólares que o erário vai pagar com sangue, fome, suor, e muitas lágrimas. Iníciar sessão de utilizador Nome de utilizador ou email: * Senha: * Entrar Criar uma nova conta Pedir uma nova senha . Inicie sessão usando o Facebook Portugal Mundo Dinheiro BoaVida Desporto Agentes de espetáculos Bruxelas: polícia detido Trichet defedende Feira do livro do Carlos Marta apresenta reúnem-se para debater depois de agressão a alteração de tratados e tripulante. Páginas que candidatura para a aumento da taxa de IVA manifestante - vídeo rejeita "ameaça" contra levam às nuvens presidência da Federação moeda única Portuguesa de Futebol na Uma centena de Indignados: distúrbios Avenida da Liberdade. sexta manifestantes aguarda em Roma provocaram G20. Países mais ricos Um salão de visitas ao por início de Assembleia 135 feridos e mais de um vão comprometer-se em seu dispor Jogadores do FC Porto Popular frente à AR. milhão de euros de dotar FMI com recursos apresentam amanhã Miss Limpopo e as Trânsito cortado prejuízos adequados requerimento de abertura capulanas para a mulher de instrução no caso do Jerónimo de Sousa Primeiro-ministro grego Dilma critica medidas moderna túnel da Luz admite greve geral e apela à UE para solução restritivas impostas pelo Semana negra para a deixa antever voto contra "colectiva e decisiva" da FMI a países europeus Sporting vence Famalicão imprensa francesa. OE 2012 crise da dívida com dois golos de Privados. Empresas em Greves travam saída de Wolfswinkel Portugueses pesquisam Magreb. "Primavera dificuldades vão cortar quatro diários online mas compram Árabe" pede informações subsídios FC Porto goleia Pêro The Woodentops. Isto offline sobre a revolução Pinheiro por 8-0 Austeridade adicional tinha de voltar a portuguesa Incêndios: 28 activos, leva recessão a 3% em acontecer Real Madrid. Na quinta do nove lavram há mais de MNE preocupado com 2012, dizem economistas mestre Ronaldo, a duas horas "apontado" envolvimento verdura do Betis engana do Irão no atentado contra diplomata sauditahttp://www.ionline.pt/portugal/miguel-cadilhe-os-pecados-hoje-sao-quase-os-mesmos... 16-10-2011

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