A gramática no livro didático do ensino médio

6.891 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
6.891
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
28
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

A gramática no livro didático do ensino médio

  1. 1. A GRAMÁTICA NO LIVRO DIDÁTICO DO ENSINO MÉDIOGiselle da Silva PalharesResumo: Este trabalho traz uma análise do ensino de gramática em uma sequênciadidática de uma coleção para o Ensino Médio de Língua Portuguesa. Através daconcepção bakhtiniana de língua, observa-se de que maneira estão ligados osParâmetros Curriculares, o PNLD e o livro didático quanto ao ensino de língua materna,uma vez que nos documentos oficiais são incorporadas as produções acadêmicas maisrecentes sobre linguagem e ensino, o que levaria os autores de coleções didáticas anovas posturas teórico-metodológicas. No entanto, nota-se que esta conexão nãoacontece tal como se espera, e sim o conflito teoria x prática na elaboração do material.Palavras–chave: Gramática, livro didático, Ensino Médio.Considerações iniciaisApós a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais, na década de 90,autores de livros didáticos têm tentado adequar-se cada vez mais às exigências presentesneste documento, nas várias áreas do conhecimento que são objetos de estudo nasescolas brasileiras, junto às normas do Programa Nacional do Livro Didático,responsável pela avaliação, compra e distribuição dos livros didáticos nas escolaspúblicas de Educação Básica. Trata-se de novas teorias e novas metodologias de ensinoproduzidas pelos acadêmicos e incorporadas ao discurso oficial como modelo a seradotado na sala de aula.Desta forma, pretende-se verificar qual é a proposta para o ensino de gramáticapresente em uma das coleções aprovadas pelo PNLD 2012, a obra de CEREJA eMAGALHÃES (2010), através da análise de um de seus capítulos sobre o tema. Talanálise partirá do conceito bakhtiniano de língua e do método proposto pelo autor paraos estudos linguísticos.Em Marxismo e Filosofia da Linguagem (2006), Bakhtin, ao argumentar contraduas correntes da linguística a ele contemporâneas, defende que se tome para os estudoslinguísticos a língua em sua dimensão humana, isto é, viva, em constante evolução,marcada social e historicamente, o que implica em certa ordem metodológica para o1  
  2. 2. estudo da língua, que se inicia nas condições concretas da interação e termina namaterialidade linguística. Para isso, o texto deve ser analisado em sua completude, e nãosegmentado em partes, como, de acordo com o autor, havia sido feito na Linguística atéentão.Percebe-se, deste modo, que no ensino de língua materna pautado nestaperspectiva, a abordagem gramatical se realiza de forma contextualizada, preservando-se as características intra e extralinguísticas do texto.1. A obra Português Linguagens2.1 Características geraisA sétima edição de Português Linguagens, publicada em 2010, é formada portrês volumes, organizados em quatro unidades, com número de capítulos variável entresete e 13 por unidade, ordenados pelos seguintes eixos: “Literatura” (54 capítulos),“Língua: uso e reflexão” (32 capítulos), “Produção de texto” (29 capítulos) e“Interpretação de textos” (16 capítulos). Todas as unidades são nomeadas de acordocom o tema literário que abordam, terminando com uma seção de exercícios, intitulada“em dia com o ENEM e o vestibular”, subdividida em “Literatura e estudos delinguagem” e “Produção de textos” e com a seção “Projeto”, que apresenta sugestões depesquisas e de produções de textos para exposição em eventos, também propostos pelosautores. Os capítulos do eixo “Língua: uso e reflexão”, destinados ao ensino degramática, são distribuídos da seguinte forma:Volume 1 Volume 2 Volume 3Unidade 1Cap. 3: “Linguagem,comunicação e interação”Cap. 5: “Figuras delinguagem”Cap. 2: “O substantivo”Cap. 5: “O adjetivo”Cap. 7: “O artigo e o numeral”Cap. 10: “O pronome”Cap. 3: “Período compostopor subordinação: as oraçõessubstantivas”Cap. 7: “Período compostopor subordinação: as oraçõesadjetivas”Unidade 2Cap. 3: “Texto e discurso:intertexto e interdiscurso”Cap. 5: “Introdução àsemântica”Cap. 2: “O verbo”Cap. 5: “O advérbio”Cap. 8: “Palavras relacionais: apreposição e a conjunção”Cap. 10: “A interjeição”Cap. 3: “Período compostopor subordinação: as oraçõesadverbiais”Cap. 6: “Período compostopor coordenação: as oraçõescoordenadas”Cap. 9: “A pontuação”2  
  3. 3. Unidade 3Cap. 3: “Sons e letras”Cap. 6: “A expressão escrita:ortografia – divisão silábica”Cap. 9: “A expressão escrita:acentuação”Cap. 3: “O modelomorfossintático: o sujeito e opredicado”Cap. 6: “termos ligados aoverbo: objeto direto, objetoindireto, adjunto adverbial”Cap. 9: “O predicativo – Tiposde predicado”Cap. 3: “Concordância;Concordância verbal”Cap. 6: “Concordâncianominal”Unidade 4Cap. 3: “Estrutura depalavras”Cap. 6: “Formação depalavras”Cap. 4: “Tipos de sujeito”Cap. 7: “termos ligados aonome: Adjunto adnominal ecomplemento nominal”Cap. 10: “Termos ligados aonome: Aposto e vocativo”Cap. 3: “Regência verbal enominal”Cap. 8: “A colocação; Acolocação pronominal”Os volumes consultados possuem, em todas as suas páginas, sugestões de comoconduzir as atividades, bem como, respostas dos exercícios, uma vez que se trata do“livro do professor”, O “manual do professor”, no final de cada volume, indica quaisteorias sobre linguagem e ensino teriam embasado o trabalho com os vários eixos quesão desenvolvidos, além de sugestões bibliográficas para aprofundamento teórico-metodológico.Ao exporem sobre o eixo “Língua: uso e reflexão”, os autores afirmam que seu trabalhoserá uma mescla das gramáticas normativa, descritiva, de uso e reflexiva, extrapolando,assim, o nível sintático e incorporando a semântica e os estudos enunciativos. Otrabalho linguístico se daria, desta maneira, desde o nível da frase até o nível discursivo.Após a exposição teórica, são transcritos dois artigos seus, nos quais defendem o ensinode língua contextualizado, advertindo que estariam, nesta perspectiva, atendendo àproposta de trabalho indicada nos Parâmetros Curriculares Nacionais (CEREJA: 2010,“Manual do professor”, p. 21).1.2 A colocação pronominal como conteúdo de ensinoO capítulo escolhido para análise, “A Colocação - Colocação pronominal”, fazparte da quarta unidade do terceiro volume, cujo título é “A Literatura Contemporânea”.Dos 11 textos que aparecem em seu interior, apenas três dialogam com essa subdivisãoliterária, sendo uma letra de música, uma pintura e um poema. O capítulo se divide em“Construindo o conceito”, “Conceituando”, “A colocação pronominal na construção dotexto” e “Semântica e discurso”, mas estas seções não aparecem no índice, em que se3  
  4. 4. vê: “Colocação pronominal”, “A colocação pronominal na construção do texto” e“Semântica e discurso”.Em “Construindo o conceito”, observa-se a intenção de preparar o aluno para aapresentação do conceito de colocação. Para isso, parte-se da leitura do anúnciopublicitário de um hotel, seguida de duas questões, cujos itens (a, b, c) versam sobre aslinguagens utilizadas e sobre o contexto de produção do texto. Na questão dois, umafrase do texto é reproduzida (“O Brasil é a nossa maior vocação” ao lado de outra,criada pelos autores (“A nossa maior vocação é o Brasil”). Nos itens a e b, pergunta-se:“a) Que diferença de sentido há entre os enunciados?”; “b) Deduza: Por que o locutorutilizou a ordem das palavras apresentada no 1º enunciado e qual a sua intenção?”.(CEREJA: 2010, p. 388).Observa-se, assim, que o aluno, neste momento da sequência didática, não tembase teórica alguma para responder a tais perguntas, o que vem logo depois, quando, em“Conceituando”, com um breve texto expositivo sobre ordem direta e inversa ecolocação, conceitua-se ordem direta como a disposição dos termos da oração emsujeito+verbo+predicado e ordem inversa como a alteração desta disposição. Emseguida, define-se colocação como “o modo de dispor, na ordem direta ou inversa, ostermos que compõem a oração”. Afirma-se ainda que na língua portuguesa há bastanteliberdade no que se refere à colocação dos termos na oração, mas há também certosprincípios que regem a colocação dos pronomes átonos. Com uma caixa de texto aolado, informa-se que não há uma sistematização sobre a questão da ordem direta comosendo a mais frequente em nossa língua (CEREJA: 2010, p. 389).Ao consultar três gramáticas, foi possível observar que as gramáticasconsideradas tradicionais, isto é, normativas, trazem uma identificação total ou parcialentre colocação e ordem, como é o caso de CUNHA (2001) e de BECHARA (2001),respectivamente. Nas duas, porém, trata-se da colocação pronominal e da ordem direta eda ordem inversa como questões de diferentes naturezas: o termo ordem se refere àdisposição sujeito+verbo+predicado ou à disposição das orações no período, semrelação com a questão da colocação dos pronomes pessoais oblíquos átonos, sendo quea posição do pronome tem como referência o verbo ou, como prefere BECHARA(2001:587), o vocábulo tônico ao qual se liga, e não o sujeito ou o predicado. Nota-se,portanto, uma controvérsia de base teórica na apresentação dos conceitos da sequênciadidática.4  
  5. 5. NEVES (1996: 304), ao fazer um estudo sobre como a ordem é abordada emgramáticas tradicionais, considera que, nestes estudos, há uma predominância deassuntos relacionados à colocação, que identifica como estudo da frase, ao passo que,em estudos modernos sobre a língua falada, se aborda mais as questões de ordem, quese elevariam a um estudo além da frase. Em sua Gramática de usos do português(NEVES: 2011), a autora traz o estudo da ordem entre orações, ressaltando aimportância deste estudo no que se refere aos efeitos de sentido gerados pelas diferentesformas de distribuição da informação presentes nos enunciados, geradas pelasnecessidades comunicativas dos falantes. Não chega a citar, assim, o conceito de ordemdireta e inversa e nem o de colocação pronominal, a não ser o de “colocação emsequência de pronomes de diferentes pessoas” (NEVES: 2011, p. 468).Na continuação da seção, agora dividida em “Colocação pronominal”,“Colocação pronominal em relação ao verbo” e “Colocação pronominal em relação aostempos compostos e às locuções verbais”, reproduz-se um cartum de Laerte com a frase“Chute-me”, para introduzir os conceitos de ênclise, próclise e mesóclise como asdiferentes posições dos pronomes átonos em relação ao verbo. Nada mais se explora notexto além da extração de sua frase como exemplo de ênclise. Os exemplos citados paracada caso de colocação são frases descontextualizadas, para que depois a atenção sejavoltada aos casos de próclise. Este perfil de trabalho converge com a avaliação da obrano Guia do PNLD de 2012 (BRASIL: 53), em que seus “pontos fracos” são os“exercícios de análise linguística a partir de frases isoladas” e a “ênfase em atividadesde classificação de termos da oração”.Uma nova caixa de texto introduz, à continuação, o conceito de eufonia comoexplicação para as “regras da variedade padrão”. Intitulada “A colocação pronominal noportuguês do Brasil e no português lusitano”, traz duas tiras, uma produzida emPortugal e outra no Brasil; na primeira, destaca-se o uso de “Dê-me”, um exemplo daênclise portuguesa, enquanto na segunda, “Me dá” é o exemplo da próclise brasileira eminício de frase. Explica-se, então, que, embora a próclise em início de frase aconteça noportuguês brasileiro, “as regras de colocação pronominal na variedade padrão de nossalíngua ainda guardam fortes influências do português de Portugal, sendo orientadas pelaentonação do falar lusitano” (CEREJA: 2010, p. 390). Uma série de exercícios sobreemprego da próclise dá continuidade à sequência e, após exposição sobre a colocaçãoem relação aos tempos compostos e às locuções verbais, também com exemplos de5  
  6. 6. frases descontextualizadas, aparece outra caixa de texto com exemplos da colocaçãobrasileira nestes casos e mais exercícios, sobre as novas regras.Formando um total de seis exercícios entre a primeira e a segunda séries, trêsdeles propõem a reformulação de frases - novamente descontextualizadas - de acordocom as regras da “variedade padrão”. Os outros três também propõem a mesmareformulação, mas a partir de textos, a saber, duas tiras e um anúncio publicitário. Aopropor tais atividades sobre os textos, descaracteriza-se o uso da língua próprio dos doiscasos, a linguagem corrente. Na questão do anúncio, por exemplo, os alunos devemtransformar a frase “Eu sempre vou te amar” em outra frase que “siga as regras davariedade padrão”, ou seja, em “Eu sempre te vou amar” ou “Eu sempre vou amar-te”.Em outro item da mesma questão, pergunta-se se a colocação em “Eu sempre vou teamar” acentua a formalidade ou a informalidade. (CEREJA: 2010, p. 393)O que se depreende da finalização da seção “Conceituando” é que o português-padrão que se está ensinando aos alunos, quanto à questão do sistema pronominal, narealidade, é o português de Portugal, sendo que, de acordo com POSSENTI (1996: 66),os estudos mais recentes da língua mostram que a fala e a escrita culta dos brasileirosmudou, inclusive no uso dos pronomes, citando os casos mais comuns. O autor afirmaque o ensino de pronomes baseado no sistema lusitano é, portanto, resultado de uma“visão equivocada língua” ou de uma atitude de saudosismo ou de purismo em relaçãoao português medieval (POSSENTI: 1996, p. 67). POSSENTI (1996: 73) define queuma gramática normativa é aquela que tem como principal característica a prescrição,tendo como parte desta concepção o uso da palavra “regra” com a ideia de obrigação, dealgo a se obedecer, como se nota na coleção em estudo.Outra observação a ser feita é que, na questão acima mencionada, do anúnciopublicitário, os autores mesclam diferentes noções de variação linguística. Nas locuçõesverbais e tempos compostos, o uso proclítico brasileiro em relação ao verbo principal évisto como informalidade, enquanto o uso lusitano é associado à formalidade. Conformeclassifica TRAVAGLIA (2003), as variações podem ser dialetais (TRAVAGLIA: 2003,p. 42), entre elas a geográfica, como a diferença entre o português lusitano e obrasileiro, ou de registro (TRAVAGLIA: 2003, p. 51), entre estas o grau de formalismo,que difere ainda do texto oral para o texto escrito.As duas seções seguintes, “colocação pronominal na construção do texto” e“Semântica e discurso” são compostas por 10 exercícios, contendo entre eles uma caixade texto sobre “Para que servem as regras de colocação pronominal”. Em síntese, a6  
  7. 7. resposta a esta pergunta é que precisamos empregar corretamente os pronomes, isto é,de acordo com as regras do que se chama de português padrão. Dos 10 exercícios,apenas três trazem textos reais e completos, e a metodologia é praticamente a mesmados exercícios anteriores.Duas questões, porém, fogem do tema da colocação dos pronomes átonos: Naprimeira, de “Semântica e discurso”, o aluno deve dar o significado de uma mesmapalavra que, em duas frases diversas, tem seu sentido alterado, como por exemplo, em“Você tem que ir lá no dia certo” e “Certo dia, eis que meu filho chega sem avisar”. Naoutra, da mesma seção, reproduz-se uma tira de Luís Fernando Veríssimo, para pedir aoaluno, entre outros itens da questão, que compare duas de suas frases (“Vamosmassacrá-los” e “Vamos arrasar eles”) e diga qual está correta, de acordo com as“regras da variedade padrão”, sendo que nada foi dito antes sobre a colocação dopronome tônico “Ele” com objeto direto, nem na variedade portuguesa, nem nabrasileira.Considerações FinaisEste trabalho partiu do princípio de que o trabalho com a linguagem numaperspectiva enunciativa envolve o conceito de língua como interação, na dimensão dotexto e em suas condições concretas de produção, como proposto na perspectivabakhtiniana. Buscou verificar como se dá o ensino de gramática no livro didático doensino médio, através da análise de uma sequência didática sobre colocação depronomes oblíquos átonos.Constatou-se que, apesar da presença de textos no livro didático de línguaportuguesa, sua abordagem é meramente sintática; o ensino de gramática ainda se dápreferencialmente por meio de frases descontextualizadas em exercícios mecânicos. Osconceitos gramaticais que permeiam a obra não abrangem os estudos da língua em uso,demonstrando, desta forma, um caráter bastante normativo e privilegiando a variaçãolusitana. Da mesma forma, não há coerência entre os pressupostos teóricos apresentadosno Manual do professor e as atividades elaboradas.Referências bibliográficas7  
  8. 8. 8  BAKHTIN, M. (VOLOCHÍNOV). Marxismo e Filosofia da Linguagem. SP:HUCITEC, 2006, 12ª edição.BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. RJ: Lucerna, 2001, 37ª edição.BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Guia de livros didáticos: PNLD 2012:Língua Portuguesa. Brasília: MEC/FNDE/Secretaria de Educação Básica, 2011.CEREJA, W. R. & MAGALHÃES, T. C. Português Linguagens. SP: Saraiva, 7ª edição,2010, volumes 1, 2 e 3.CUNHA, C. & CINTRA, L. Nova Gramática do Português Contemporâneo. RJ: NovaFronteira, 2001, 3ª edição.NEVES, M. H. M. “A questão da ordem na gramática tradicional”. In: CASTILHO, A.T. (org.) Gramática do português falado. Campinas/SP: UNICAMP: 1996, 3ª edição,vol. I: A ordem._______________ .Gramática de usos do português. SP: UNESP, 2011, 2ª edição.POSSENTI, S. Por que (não) ensinar gramática na escola. SP: ALB/ Mercado deLetras, 1996, 3ª edição.TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação – uma proposta para o ensino degramática. SP: Cortez, 2003, 1ª edição.  

×