Arte Afro-brasileira: Uma questão em aberto                                         Por                      Raimundo Nona...
Negada ou deturpada ao longo do tempo, a contribuição dos povos africanos para aformação da cultura brasileira, mesmo nos ...
a população africana no Brasil estava submetida tanto na sociedade escravista quanto aque se seguiu a esta.               ...
este é certamente uma releitura do que antes era puramente africano, releitura,reinterpretação, adaptação, recriação, resu...
Das várias fontes confiáveis sobre a presença africana entre a segunda metade do séc.XIX e princípio do XX. Nina Rodrigues...
Podemos então concluir que o que é africano está intrinsecamente ligado ao que é     baiano, e que essa influência por não...
Se bem observarmos, quando se diz que artistas europeus foram influenciados pela arteafricana devemos nos acautelar dessa ...
O afro na arte brasileiraA partir da definição de arte afro-brasileira feita por Zanini (1983) na obra HistóriaGeral da Ar...
Nesse ponto o autor perfila uma série de manifestações populares que não podemprescindir da visualidade: “ reizados, conga...
e em referência a um aspecto de interesses muito mais amplo do que simplesmente aescultura, é sutil e extenso. E não são s...
buscam afirmar a todo momento a superioridade de alguns povos em relação a outros ea arte por ser um campo de subjetividad...
RAMOS, Arthur. O negro brasileiro. São Paulo: Nacional, 1940.RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. São Paulo: Cia ed. N...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

010

1.014 visualizações

Publicada em

0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
1.014
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
615
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
11
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

010

  1. 1. Arte Afro-brasileira: Uma questão em aberto Por Raimundo Nonato Ribeiro da Silva Mestre em Artes Visuais pela Universidade Federal da Bahia“A criação plástica é uma expressão de cultura tanto quanto visão estética do mundo. Àsvezes é difícil curvar ou fazer desaparecer as tendências plásticas de um povo ou deuma classe.” Mário Barata
  2. 2. Negada ou deturpada ao longo do tempo, a contribuição dos povos africanos para aformação da cultura brasileira, mesmo nos dias de hoje é alvo de controvérsias eespeculações, certamente um assunto de difícil abordagem. É do conhecimento geralque a influência africana em nossa cultura remonta desde os primeiros séculos dacolonização abrangendo toda a nossa história, sendo, portanto base de nossa formação.Os africanos, na condição de escravos, trouxeram para o Brasil sua cultura, tendo suaselaborações da vivência com as outras culturas dado a nossa sociedade sua identidade.Santos (2001) muito apropriadamente, afirma que na cidade de Salvador essa populaçãopreservou grande parte de suas culturas de origem, em diferentes graus de aculturação,dependendo da maior ou menor retenção dos modelos e raízes africanas e dascircunstâncias sócio-históricas das diversas regiões onde se estabeleceram os váriosgrupos étnicos. Mesmo submetidos à violência, pobreza e discriminação os afro-brasileiros construíram um legado de dignidade, beleza e diversidade. Suas práticas religiosas são marcadas por vigorosas expressões plásticas e estéticas, materializadas nos seus rituais e símbolos sagrados. (SANTOS, 2001, 27)A autora afirma ainda que “a atividade ritual engendra uma série de outras atividades;música, dança e recitação, arte e artesanato, cozinha, etc., que integram um sistema devalores” (idem: p.38) Assim não podemos deste modo conceber o que é o ethos baiano econsequentemente o brasileiro sem levar em conta essa contribuição que é em verdadebase da nossa cultura e se manifesta de maneira mais explícita ou implícita na medidaem que esses traços africanizantes aparecem reformulados e relidos pelo próprioprocesso de aculturação resultando no que reconhecemos hoje por traços culturaisbrasileiros . No caso da Bahia a presença africana, especialmente em Salvador e naregião do recôncavo foi preponderante e deixou marcas indeléveis na formação étnica ecultural. Essa marca pode facilmente ser vista, ouvida e literalmente saboreada. Pode sertocada e nos tocar. Contudo essa “proximidade” com as matrizes africanas, longe deapresentar a pureza ideal que muitos querem, incorporou, como em outras regiões dopaís, durante séculos adaptações ditadas pelas circunstâncias sociais e políticas às quais
  3. 3. a população africana no Brasil estava submetida tanto na sociedade escravista quanto aque se seguiu a esta. Afro nas artes visuaisNo universo das artes visuais, onde passaremos a analisar o fenômeno que chamamos dearte afro-brasileira, este bem reflete a situação ambígua do negro na cultura brasileira esuas complexas relações com a cultura hegemônica.Até que ponto essa classificação tão utilizada nos confunde ou esclarece a respeito daapropriação do repertório estético-cultural afro-brasileiro? O presente artigo tem comoobjetivo discutir essa questão, para nós uma questão em aberto, campo a ser explorado,além da simples conjectura, se fazendo necessário abandonar as fórmulas fáceisgeneralizantes e preencher as lacunas, antes com pesquisas minuciosas e uma visãoaberta. Sendo necessário reconhecer que a presença e a contribuição do elementoafricano vai muito além do que é admitido.Na Bahia especialmente a apropriação das matrizes culturais africanas se dá maisexplicitamente pela assimilação dos elementos simbólicos oriundos da tradição religiosaviva no candomblé que é uma elaboração cultural inter-africana feita no Brasil. Quandofalamos afro-baiano ou afro-brasileiro, estamos nos referindo a uma influência direta daÁfrica sobre a cultura baiana e brasileira? Ou às tradições africanas refeitas emterritório brasileiro? Mas como medir essa influência e declará-la pura de outroselementos? Ao se classificar uma obra de arte como brasileira já não estaríamosreconhecendo e aceitando a influência e contribuição africanas como elementoconstitutivo de nossa identidade.?, Em alguns momentos a manipulação desses termosparece querer negar mais do que destacar a importância da participação do negro no quese convencionou chamar identidade brasileira, ainda que essa contribuição seja a nossaprópria identidade. Parece ter o brasileiro um grande complexo de ver-se ou sentir-senegro.Sendo a nossa matriz cultural complexa e de difícil exame posto as dificuldadesencontradas. De fato o que é baiano e brasileiro não deixa de passar por umaafricanidade, é certo, contudo, que essa africanidade não pôde ao longo do processo decivilização ficar intocada por outros elementos, como também não pode ficar intocada acultura portuguesa de além mar. A respeito desse elemento africano na cultura baiana,
  4. 4. este é certamente uma releitura do que antes era puramente africano, releitura,reinterpretação, adaptação, recriação, resultado de séculos de aculturação e resistênciasque deram aos elementos da cultura africana, oriundos de várias nações, vale dizer, umcaráter eminentemente brasileiro. Porém mesmo diante da predominância de elementosde origem africana sobre as demais culturas, isso não facilita separar o que é afro-brasileiro do que não o é. Nesse contexto é muito difícil, senão impossível dizer o quena cultura brasileira e especialmente a cultura baiana não é de origem africana ou emcerta medida africanizado. Vejamos a visão de um autor respeitado por sua erudição einteresse genuíno pelo assunto em questão. Clarival do Prado Valadares (1988), aoanalisar a escultura afro-brasileira comenta: É claro que nas centenas de anos decorridos na escravidão e nos sessenta posteriores, os negros tiveram uma série de contatos com outros tipos de cultura, um dos quais tomou quase sempre em relação a sua, atitudes hostil, forçando-os à aquisição de modos de vida novos. Desse fato resultaram transformações da criação plástica dos negros, com resultados visíveis e, possivelmente, alguns que não são reconhecidos à primeira vista. (VALADARES,1988,p.74).Para Mário Barata, a grande massa de africanos aqui chegada trouxe consigo suastécnicas e concepções plásticas, ligadas aos cultos religiosos e essa influência maisdireta ,na Bahia durou até o séc.XX de toda ou grande parte da América do sul, só o nosso país (Bahia, durante muito tempo, Rio ) parecem ter se conservado de maneira evidente, as técnicas e concepções plásticas africanas. durante esse tempo muitas peças foram trazidas da África ou feitas aqui por africanos até o início do séc.XX. Uma vez cessado esse contato ,formou-se na Bahia um centro de escultura destinado a abastecer os terreiros. Esses escultores eram certamente descendentes de africanos ligados ao culto. (1988:183 )Barata acrescenta que o estudioso Melville J.Herskovits1 depois de ter estudado gruposnegros na África e na América verificou: o contato e entre a Bahia e a África ocidental foi mais constante e se prolongou até uma data mais recente do que em qualquer outra região do novo mundo; africanos viviam aqui, falando suas línguas nativas, até o começo deste século vinte fato tão singular no novo mundo como o outro, embora menos conhecido, de somente na Bahia, dentro do novo mundo, haver se preservado de maneira apreciável a tradição artística africana da talha de madeira e do trabalho em metais (1988:187 )1
  5. 5. Das várias fontes confiáveis sobre a presença africana entre a segunda metade do séc.XIX e princípio do XX. Nina Rodrigues (1976) relatando a presença de africanos naBahia diz: “[...] navios a vela para Lagos três a quatro vezes por ano traziam nagôsnegociantes falando iorubano e inglês e trazendo noz de cola, cauris, objetos do cultojeje-ioruba, sabão, pano da costa [...]” (1976, p.105 ).Entre a segunda metade do século XIX e primeiros anos do séc. XX, entravam na Bahiaesculturas, outras eram feitas aqui por africanos, conservando assim os caracteresestilísticos originais, que eram facilitados pela existência de modelos e exigências doculto e da tradição, que fixavam os dados formais dos objetos. Apoiando-se nessesargumentos, Mário Barata, como vários outros autores, afirma a maior proximidade dacultura baiana com África e enfatiza a importância da escultura africana como fonte deexpressão artística que mais diretamente marcou a arte brasileira e baiana. Tendoexplicado sobre a influência direta de escultores africanos, o autor caracteriza aescultura afro-brasileira da seguinte forma: 1- esculturas que obedecem tendências estéticas negras, sendo obra de arte de padrões novos; 2- esculturas do resultado do confronto entre a tradição africana as de outras origens, correspondendo a novas necessidades e situações; 3- esculturas feitas por africanos ou seus descendentes diretos ligadas à tradição africana, mas descaracterizadas na forma ou na plástica esquecidas ou superadas; 4 esculturas realizadas por descendentes de negros integrados `a cultura branca, sem aspectos estilísticos africanos.(parece ser o caso de Aleijadinho e Mestre Valentim) trabalhando dentro do sentido católico barroco, nesse caso não se relacionam com a estilística negra no Brasil.(BARATA,1988,p.183)O estudioso não dá, contudo outros exemplos. Mais adiante na obra citada afirma que ainfluência da arte africana conservada na Bahia, fez aparecer núcleos de artistaspopulares que mantêm vivas as tendências estéticas africanas. A maioria está ligada aocandomblé e utilizam vários materiais, essa arte se concentra nos arredores da cidade. formou-se no Salvador um centro de escultura ligado a manutenção dos cultos negros. Seja em certos bairros ,seja nos arredores da cidade, artistas fizeram , até os dias atuais ,orixás, fornilhos de cachimbos, acentos e outras peças metálicas, com aspectos africanos mais ou menos conservados. (1988,p.183 ):
  6. 6. Podemos então concluir que o que é africano está intrinsecamente ligado ao que é baiano, e que essa influência por não se limitar a modelos externos a nossa cultura se manifesta nos seus processos formadores. Europa, África e BahiaA investigação acadêmica só muito recentemente vem se afastando dos rançosetnocêntricos, dos conceitos estreitos e da visão comprometida por preconceitos emanipulações que orientam para uma leitura de mundo onde o que não pertence àcultura dominante é reduzido a esquemas interpretativos superficiais, estereotipando erotulando erroneamente o que não se enquadra em suas categorias estreitas. Issoacontece, é claro, com a arte dos povos não ocidentais, que por não se encaixarem aosconceitos preestabelecidos são submetidos a juízos de valor que consideram sempre obom, o elevado e o certo as manifestações artísticas das sociedades ocidentais e seuspressupostos estéticos. O resto pode ser primitivo, étnico, ingênuo ou qualquer outrorótulo cômodo que não exija nenhuma investigação mais profunda nem revele nadaalém do que está convencionado. Recente também é a valorização da arte africana. NaEuropa ela ganhou nos cubistas admiradores por ser considerada plena deexpressividade “primitiva” e revelar um novo universo estético pleno de vigor. A esserespeito Argan esclarece com uma explicação que não esconde seu etnocentrismo: Picasso não estava sendo o primeiro a descobrir a escultura negra: já haviam chegado os fauves e os expressionistas, seguindo os rastros do exotismo e primitivismo de Gauguin. Picasso encontra os novos valores que buscara fora da cultura européia. [...] Não é o motivo do exótico, do selvagem, do aterrador que o interessa, mas a estrutura plástica que exclui as distinções entre forma e espaço. (1992, p.426)Argan afirma ainda que Picasso não tem a intenção de imitar a arte negra e sim deromper com a estética européia: a arte negra, que condensa todo o espaço na estrutura plástica da forma, é o extremo de uma relação dialética, de um problema; o outro extremo é a pintura de Cézanne, que soluciona as formas particulares na estrutura do espaço [...] Picasso resolve isso adotando a arte africana como elemento de ruptura com de um limite histórico. Nesse contexto o fato de Picasso e outros artistas europeus terem sido influenciados pela arte africana para romper com a estética estabelecida, não o faz um artista afro-francês. (1992, p.426)
  7. 7. Se bem observarmos, quando se diz que artistas europeus foram influenciados pela arteafricana devemos nos acautelar dessa generalização, pois o que os europeus conheceramfoi o objeto de arte africano, destituído do seu contexto, visto apenas como objetoestético, linhas e volume. Pois pouca coisa de fato os europeus sabiam da arte africanaou de outros continentes, sempre deturpada por suas visões parciais e generalizantes. Aarte africana, dita primitiva era vista pelo europeu como fetiche, como objeto“primitivo”, “exótico”, “selvagem”, ligados a cultos fetichistas, alvo de interpretaçõesraciais equivocadas. Estudiosos proeminentes como Nina Rodrigues, movidos peloespírito científico da época viram a arte africana até como prova de uma pretensapatologia e pretensa inferioridade dos negros.Por pertencer a outro sistema cultural, o ser e o fazer na arte africana difere da arteeuropéia obviamente. Na África aquilo que chamamos arte está diretamente ligada àvida da comunidade e do cotidiano das culturas que as produzem. Sua ligação com osagrado é inegável e o conceito de arte como coisa individualizada não é de maneiraalguma a característica mais marcante dessa arte que expressa o interesse dacoletividade e interligação do mundo mágico dos ancestrais ao mundo social; o mítico eo político. Essa arte também apresenta características funcionais complexas que só épossível entender conhecendo a cultura de cada povo que a produziu. Outra idéia queperpassa a mentalidade ocidental é a idéia de uma África homogênea e primitiva comsua população vivendo ainda no paleolítico. Ora o continente Africano é um grandemosaico humano, povos e civilizações que coexistem, algumas já extintas, outras empleno florescimento. E cada uma a sua maneira produziu arte dentro de recursostécnicos e estilísticos próprios e ao contrário do que se imagina e se generaliza, a arte docontinente africano não era homogênea, nem estava fechada no tribal. Barata (1988)aponta três tendências estilísticas dominantes na África que nem sempre estãoseparadas, pois como foi dito esse não era um campo tão isolado. Barata (Op.cit.)afirma: “Havia na África vários centros de estilos e três tendências dominantes; Umarealista, uma geométrica e outra expressionista.” (que poderia ser uma derivação de umacombinação entre as duas primeiras) Assim a nossa visão da arte africana é muitas vezesestereotipada reduzindo a sua plasticidade a uma imagem escultórica de fatura tosca,ingênua, que se repete no tempo e no espaço não importando o povo em questão.Caímos assim no velho clichê: ver a arte fora do seu contexto cultural e julgá-la com osparâmetros de outra cultura, no caso a ocidental.
  8. 8. O afro na arte brasileiraA partir da definição de arte afro-brasileira feita por Zanini (1983) na obra HistóriaGeral da Arte Brasileira, podemos traçar um paralelo do que está também definido porarte afro-baiana; Zanini define: Arte afro-brasileira é uma expressão convencionada artística que, ou desempenha função no culto dos orixás, ou trata de tema ligado ao culto [...] Dentro desse critério são, com justiça, incluídos no campo afro-brasileiro iconografias do caboclo ou da umbanda que nada tem de africano nem no estilo nem na técnica. (1983, p. 977)Na conceituação de arte afro-brasileira feita por Zanini, há uma concordância comoutros autores ao relacionar artes visuais e patrimônio religioso afro-brasileiro, o que éafro-brasileiro está diretamente ligado ao culto dos orixás ou indiretamente pelarepresentação de algum tema correlacionado, contudo o próprio Zanini adverte sobre aestreiteza do conceito quando ressalta apenas o caráter religioso dessa influência,relegando o segundo plano outras manifestações da cultura material de conteúdo afro-brasileiro. Ainda assim o que está convencionado como arte afro-brasileira, nãoultrapassa os limites do fazer religioso, embora saibamos que a influência africana vaimuito além dos terreiros, despejando-se por todas as atividades humanas, sobretudo asartesanais/artísticas. Raul Lody. afirma afortunadamente: os espaços sagrados dos terreiros ,embora produzam e os abasteçam objetos de fundo religioso, também expressam na sua plástica objetos não comprometidos com os deuses , o mesmo ocorrendo com a música, a dança, as tradições orais e outras formas de comunicação artística e de propostas afro-baiana, afro-pernambucana, afro-maranhense ou de outras regiões que já consolidaram seus sistemas de fazer, significar e simbolizar.(1995, p.21 )Podemos acrescentar a isso a afirmação de Valadares: a contribuição vai além do aspecto estilístico , presente na escultura popular e de origem religiosa o campo é muito mais vasto, é preciso examinar a função das peças na sociedade pois nem só os cultos religiosos utilizam as tradições estéticas africanas o carnaval e outras festas populares foram e são o repositório dessa herança plástica.[...] (1988, p.189)
  9. 9. Nesse ponto o autor perfila uma série de manifestações populares que não podemprescindir da visualidade: “ reizados, congadas e bumba-meu-boi, procissões com seusadereços como máscaras, estandartes, [...]”.(Idem.) Urge portanto o estabelecimento deum conceito mais preciso e abrangente sobre a arte afro-brasileira.Tanto pelo estudo dascoleções de objetos apreendidos dos candomblés pela polícia e depositados eminstituições públicas ou em coleções particulares, como por uma atenta observação dopatrimônio vivo no cotidiano brasileiro; também observado por Lody: usuários, construtores e demais casos que implicam os aprendizados de trabalhos artesanais/artísticos, não exclusivamente em situações que levem a um destino religioso, mas também nas convergências e trocas permanentes dos artesãos, artistas, artífices e demais categorias de trabalhadores que expressam, conhecem e detêm um saber afro-brasileiro. (1995, p.240)Além da arte ritual, outro campo onde alguns autores reconhecem a influência afro-brasileira é na chamada arte primitiva ou naïf. A respeito dessa arte e dessa atitudeValladares diz: E essa permissão e aplauso se referem à determinada arte primitiva, situada em termos de docilidade, de potencialidade anódina, na dose exata em que a pintura naïf deve comportar-se no conjunto das coleções ou das decorações de ambientes privados de aparente clima cultural. (-1968, n 47)Podemos dizer que, todas essas observações quanto ao termo afro-brasileiro, aplicam-seao afro-baiano. Se o termo afro-baiano refere-se a tudo aquilo que remete às matrizesafricanas torna-se difícil dizer o que não é afro-baiano se todas as criações culturaisrecebem direta ou indiretamente a influência da vida social da qual faz parte e nossasociedade é em essência africanizada e afro-baianizante. Como produzir arte fora docontexto cultural que vivemos se a própria arte nasce desse contexto e com ele seinterrelaciona? Diz-nos Geertz: Assim como não podemos considerar a linguagem como uma lista de variações sintáticas, ou o mito como um conjunto de transformações estruturais, tampouco podemos entender objetos estéticos como um mero encadeamento de formas puras. (1997, p. 140).O autor toma como exemplo a linha, e o seu significado na cultura ioruba, que aponta aclareza linear e a precisão do traço, como as principais preocupações dos escultores e doseu público. É o vocabulário de qualidades lineares, que os ioruba usam coloquialmente
  10. 10. e em referência a um aspecto de interesses muito mais amplo do que simplesmente aescultura, é sutil e extenso. E não são só suas estátuas, potes e outros objetossemelhantes, que os ioruba marcam com linhas: fazem o mesmo com seu rosto. Oscortes que tornam-se cicatrizes servem para indicar posição social, linhagem e status. Énessa civilização tão importante o traço, que a linha está associada com civilização. Emioruba , “este país tornou-se civilizado”, significa: “esta terra tem linhas na face”.(Op.cit,p.148) Para o autor : A preocupação constante que os escultores ioruba têm com a linha’ e com formas específicas de linha, nasce, portanto, de algo mais que um prazer desinteressado em suas propriedade intrínsecas, ou de problemas técnicos da escultura, ou mesmo de alguma noção cultural que poderíamos isolar e considerar como estética nativa. Ela surge como conseqüência de uma sensibilidade específica, em cuja formação participa a totalidade da vida-e segundo a qual, o próprio significado das coisas são as cicatrizes com que os homens as marcam. (op.cit. p.149 )Assim as bases da formação artística não podem estar soltas no vácuo, e sim ligada auma coletividade, sendo tão ampla e tão profunda como a vida social não sendo tambémcomo querem alguns um mecanismo elaborado para definir as relações sociais. Aconexão central entre a arte e a vida coletiva então, se encontra num plano semiótico(nem formalista nem funcionalista) é esta uma conexão ideacional, não mecânica, sãoconceitos que buscam um lugar significativo; não ilustrações de conceitos. Isso talvezexplique a sobrevivência de certos traços africanos em nossa cultura material eespiritual e porque alguns artistas captem com sua aguçada sensibilidade essesentimento e faça dele a sua via de expressão, porque talvez ao seu público seja isso querealmente interesse, esse lugar significativo buscado. E também por isso ainda sejapouco afirmar que a maior herança artística africana seja a escultura. Quem sabe a nossamaneira de apreciar as cores e por elas ser afetados, ou quem sabe no nosso paladar erelação com o comer, com os cheiros e os sons ou ainda em nossa relação com o corpo eo vestir. Isso dependerá com que instrumentos analisemos as manifestações artísticas, setendo como parâmetro uma nova relação com a arte e a maneira de pensá-la ou se comos olhos do eurocentrismo tendo como medida a maneira de sentir do ocidente, brancoe gregoromanizado e mais recentemente americanizado, e sua parafernália formalista eou funcionalista, e suas comparações auto centradas onde o diferente sai perdendosempre nas rotulações superficiais e depreciativas , comprometidas com teses que
  11. 11. buscam afirmar a todo momento a superioridade de alguns povos em relação a outros ea arte por ser um campo de subjetividades é um fértil território para isso.Se há uma arte afro-brasileira e afro-baiana, ela é certamente influência, continuidade,tradição, adaptação, interferência dinâmica de interação com novos meios e usos deelementos antes africanos, aculturados não perderam, contudo seu sabor e prevalecerammodificados e renovados em outras formas plásticas outras ideações, mas que sempreestão remetendo à matriz originária. A despeito da sua falta de exatidão, o termo afro-brasileiro continua sendo empregado para classificar a obra de alguns artistas.Concordamos com Zanini (1983 ) ao considerar a qualificação afro-brasileira no campodas artes, uma qualificação “ambígua e provisória”. Pois essa qualificação ao englobarartistas de diferentes etnias e tendências estéticas tendo em comum apenas a apropriaçãode elementos da cultura religiosa ou popular de origem africana nos revela que é hora dedizer simplesmente artista brasileiro ou reservar o termo afro brasileiro e afro-baianosomente para alguns casos específicos..REFERÊNCIASARAÚJO, Emanoel (org). A mão afro-brasileira. São Paulo: Tenenge, 1988.ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia da Letras, 1992.BASTIDE, Roger.O Candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001CHIARELLI, Tadeu. Arte Internacional Brasileira. São Paulo: Lemos – Editorial,1999.DE FUSCO, Renato. História da Arte Contemporânea.Lisboa: Presença 1988. GEERTZ, Clifford. O Saber Local: Novos Ensaios em Antropologia Interpretativa.Petrópolis: Vozes, 1997.LODY, Raul. O povo do santo. Rio de Janeiro: Pallas, 1995.______l. Comunicado Aberto. ........1994.PONTUAL, Roberto. Arte no Brasil hoje 50 anos depois. São Paulo: Collectio Artes,1973.QUERINO, Manuel. O africano como colonizador. Salvador: Progresso, 1954.
  12. 12. RAMOS, Arthur. O negro brasileiro. São Paulo: Nacional, 1940.RODRIGUES, Nina. Os africanos no Brasil. São Paulo: Cia ed. Nacional/INL,1976.(Brasiliana, 9.)SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagôs e a morte. Ed. Vozes: Petrópolis, 2001.VALLADARES, Clarival do Prado. O negro brasileiro nas Artes plásticas In:Cadernos Brasileiros, Rio de Janeiro, maio/junho de 1968, n.47.VAINFAS, Ronaldo. Brasil de Todos os Santos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.Revista Tempo Brasileiro Nº 112, Ed. Tempo Brasileiro Rio de Janeiro – RJ 1962.ZANINI, Walter. (Org.) História Geral da Arte no Brasil. São Paulo: 1983.

×