CENA UM
10 de Agosto de 2010, manhã.
A câmera passa por altos muros. Não podemos ver o que há dentro.
NARRADOR: Você já pa...
indivíduos? E será que assim, pouco a pouco, expandiríamos isso para o
resto do planeta, formando assim um mundo ideal? Es...
MULHER UM: Cale a boca que ninguém te chamou na conversa, Karina.
KARINA (MULHER TRÊS): Credo, como você é má.
MULHER UM: ...
KARINA: Não... Elas nunca deram nenhum sinal de que eram um casal.
LUCAS: Ela nunca foi gentil com um homem.
KARINA: Eu se...
MULHER: Tudo bem Jonas?
JONAS (HOMEM): Como você ousa perguntar se está tudo bem?
Jonas se levanta e se posiciona em frent...
JUSSARA: Já faz mais de 20 anos que o penúltimo dos seus antigos
amigos morreu... Só sobrou o Azul. Não tem porque continu...
YASMIN: Do jeito que ele é vagabundo não vai conseguir nunca
FELIPE: Eu não aceito que você fale assim comigo.
YASMIN: E e...
A câmera mostra Felipe entrando em sua casa. Sua mulher, Thaís, está lá
dentro.
FELIPE (sorridente): Arrumei um emprego
MU...
Thaís pega uma faca de cozinha que estava em cima da mesa e a aponta
para Felipe.
FELIPE (chorando): Não faça isso, por fa...
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  1. 1. CENA UM 10 de Agosto de 2010, manhã. A câmera passa por altos muros. Não podemos ver o que há dentro. NARRADOR: Você já parou para pensar que o mundo é extremamente perigoso? A qualquer momento, em qualquer lugar, alguém que está perto de você pode retirar uma faca do bolso e te matar friamente. Mas as pessoas não fazem isso, pois tem seus princípios do que é certo ou errado e porque tem medo da punição que pode levar. Estaríamos, então, seguros? Talvez, você concorde que a resposta é não. Isso porque, os princípios do que é certo ou errado não são os mesmos para todos, e os de uma mente deturpada podem ser extremamente diferentes dos seus. E alguém que está prestes a suicidar-se não teme a punição, como podemos ver em muitos atentados em que o assassino se mata no final. Então... Que mundo é esse, em que podemos morrer assassinados a qualquer momento? Será que, esses problemas vêm da má educação dada por alguns pais? Ou vêm de uma doença psicológica natural, na qual ninguém pode interferir? Talvez sejam os dois. Pessoas erradas fazem coisas erradas todos os dias. O mal está presente em todo o canto. Mas... Será que se isolássemos um pequeno grupo de pessoas “puras”, acabaríamos por completo com o mal referente àqueles
  2. 2. indivíduos? E será que assim, pouco a pouco, expandiríamos isso para o resto do planeta, formando assim um mundo ideal? Esse é o sonho de Jonas. O síndico e construtor do Condomínio Experts. Um local onde, teoricamente, a vida seria tranquila e pacífica. Esse condomínio têm tudo o que é preciso para uma pequena população se desenvolver: Um mercado, um hospital, uma delegacia e uma pequena escola. As pessoas que lá moram, indepen-dente de sua classe social, passaram por uma rigorosa entrevista para ocupar as 40 casas desse mundo ideal. Além disso, o preço do aluguel é gigante. Para garantir a segurança, o condomínio tem enormes muros, com grades elétricas, apenas uma entrada e muitos seguranças espalhados. Sem falar que, os moradores não recebem muitas visitas, já que escolheram morar em um condomínio afastado da civilização por não terem amigos na cidade grande. Podemos comparar esses grandes muros, com muros de cidades antigas, ou, até mesmo, de cidades como York na Inglaterra e Carcassone, na França. Todavia, nunca se sabe onde está escondido o verdadeiro mal. Quanto mais profundo ele for, mais cruel ele é. Será que o Condomínio Experts é seguro mesmo, ou é mais perigoso que a nossa vida normal? A câmera entra por um grande portão e passa por algumas casas até chegar ao que aparenta ser uma padaria. Podemos observar algumas mesas no local e um balcão onde estão três funcionárias esperando clientes. O estabelecimento está meio vazio. Um cliente entra e se dirige a uma das mulheres CLIENTE: Quero seis pães, por favor. A mulher sorri e fica olhando para ele por alguns segundos antes de pegar os pães, o que faz as duas outras funcionárias estranharem. MULHER UM (com uma voz muito doce): Aqui estão os seus pães. CLIENTE (se retirando): Obrigado MULHER DOIS: Que doçura toda foi essa, amiga? MULHER UM: Doçura? Que doçura, amiga? MULHER TRÊS: Isso tudo foi muito estranha.
  3. 3. MULHER UM: Cale a boca que ninguém te chamou na conversa, Karina. KARINA (MULHER TRÊS): Credo, como você é má. MULHER UM: Vamos coversar lá no andar de cima Emanuelle? EMANUELLE (MULHER DOIS): Será, Yasmim? Gorda do jeito que a Karina é vai se difícil não ficar perto dela. Sua gordura ocupa todos os espaços do condomínio KARINA (gritando): Não fale assim comigo, Emanuelle!! YASMIM (MULHER UM): Não se esqueça que eu sou sua chefe e a Manu é minha melhor amiga. Se você levantar o tom pra ela de novo, será despedida. EMANUELLE: Sem falar que gritando assim você assusta os clientes. YASMIM: Se bem que só a cara dela já espantaria. Vamos lá pra cima logo, amiga. Yasmim e Emanuelle vão para o andar de cima, um apartamento em que as duas moram. Karina permanece no balcão e chama um funcionário que estava varrendo o local para ajuda-la no balcão. KARINA: Lucas, aconteceu uma coisa muito estranha. LUCAS (FUNCIONÁRIO): O quê? KARINA: A Yasmim foi doce com um cliente LUCAS: Doce? Tem certeza? KARINA: Sim, ela até sorriu? LUCAS: Sorriu? Tem certeza? KARINA: Pare com isso! É claro que eu tenho certeza LUCAS: Mas porque será? Em todos os cinco anos que eu trabalho aqui nunca vi ela ser doce com um cliente KARINA: Será que ela está apaixonada? LUCAS: Não sei... Sempre achei que ela namorasse a Emanuelle.
  4. 4. KARINA: Não... Elas nunca deram nenhum sinal de que eram um casal. LUCAS: Ela nunca foi gentil com um homem. KARINA: Eu sei. Mas em alguma hora a gente deve saber que bicho a mordeu. CENA DOIS Yasmim e Emanuelle chegam ao quarto YASMIM: Quem era aquele moço que apareceu agora a pouco? EMANUELLE: O nome dele é Charles. Ele se mudou faz pouco tempo. Achei estranho que ele passou aqui, pois é um dos poucos que sempre vai à cidade. YASMIM: Eu reparei nas roupas de marca dele. Esse Charles é rico? EMANUELLE: Muito. Ele mora em um daqueles dois casarões no final do condomínio. O outro é do Jonas. Como ele é o síndico, nem paga aluguel, então achei que ninguém pudesse pagar por aquilo. YASMIM: Ele deve ser bilionário! EMANUELLE: O quê você tá tramando, amiga? YASMIM: Vou dar o golpe do baú. EMANUELLE: Você vai tacar um baú nele? Yasmim dá um soco em Emanuelle YASMIM: Burra!! Sem esse tipo de piadinha pra mim, entendeu? EMANUELLE (Limpando o pouco de sangue que saiu): Entendi, amiga. Pode deixar. YASMIM: Limpa essa merda de rosto que nós vamos descer ver o que aquela gordona tá fazendo. CENA TRÊS Um homem está digitando algo em seu escritório quando uma mulher chega.
  5. 5. MULHER: Tudo bem Jonas? JONAS (HOMEM): Como você ousa perguntar se está tudo bem? Jonas se levanta e se posiciona em frente à mulher JONAS: As coisas não estão indo bem. Os condôminos são grossos uns com os outros, não se ajudam, não pagam o aluguel em dia. MULHER: Normal. JONAS (se exaltando): Normal? Você não vê que isso estraga meu sonho? De um mundo melhor para os nossos filhos. MULHER: Você está fazendo tempestade em copo d’água. Já pensou em procurar aquela psicóloga que eu lhe falei? JONAS: Psicóloga? Quem deveria procurar psicólogo é você, que está feliz com esse mundo em que vivemos. MULHER: A vida é assim JONAS: Jussara, você percebe o que está falando? Você está louca. JUSSARA: Eu estou louca? Você que gastou milhões construindo esse condomínio horroroso. JONAS: Condomínio horroroso? O mundo é horroroso! Sem falar que a melhor coisa que eu fiz na vida foi ter me mudado para cá há muitos anos atrás. E depois ter construído um condomínio JUSSARA: Se você está tão preocupado porque muitos não pagam o aluguel em dia, porque não os despeja daqui? Isto é um condomínio para ricos, não para qualquer um. JONAS: Não posso expulsa-los. Quem me deve são, principalmente, o Felipe, a Mariana, a Yasmim... JUSSARA: Então! A Yasmim é a mais encrenqueira daqui. Manda ela embora. JONAS: Você sabe muito bem que não posso! Os pais de cada um dos três foram meus melhores amigos no passado. Tenho que respeitar a memória deles e a promessa que fiz de fazer tudo para o bem de seus filhos.
  6. 6. JUSSARA: Já faz mais de 20 anos que o penúltimo dos seus antigos amigos morreu... Só sobrou o Azul. Não tem porque continuar mantendo essa promessa JONAS: Você é uma vagabunda! Olhe o que está dizendo JUSSARA: É porque escolhi casar com você em detrimento da minha sanidade. JONAS: A culpa de tudo agora é minha? JUSSARA: Sim. JONAS: Saia do meu escritório porque eu não quero continuar brigando com você. Jussara sai. Jonas chora. CENA QUATRO Mesmo dia, 10 de Agosto de 2010, tarde. A câmera volta para a padaria de Yasmim. Ela está descendo as escadas e Lucas está atendendo um cliente. FELIPE (CLIENTE): Eu quero um salgado LUCAS: (Entregando o salgado a ele): Dois e cinquenta, Felipe. FELIPE: Amigo, você podia por na minha conta, por favor? LUCAS: Tem certeza? Sua conta já está grande. FELIPE: Eu não tenho dinheiro agora. Mas eu pago, juro. LUCAS: Tá bom FELIPE: Você... Yasmim aparece e interrompe Felipe YASMIM: Como assim sua conta já está grande? Eu não acredito que você tem comprado fiado aqui. LUCAS: É só até ele conseguir um emprego
  7. 7. YASMIN: Do jeito que ele é vagabundo não vai conseguir nunca FELIPE: Eu não aceito que você fale assim comigo. YASMIN: E eu não aceito que você deixe de pagar a conta. Ou você larga esse salgado e sai daqui ou eu chamo a policia. FELIPE (indo em direção à porta): Eu saio. YASMIN: Tenta conseguir um emprego no bar do Azul. Daí você paga a sua conta. E com juros. Acho que você consegue, já que o Azul é um babaca idiota. CENA CINCO Felipe entra em um bar e senta num banco em frente ao balcão. Um atendente se aproxima dele FELIPE: Oi Azul AZUL: Oi amigo. FELIPE: Você teria um emprego para me arrumar? AZUL: Me desculpe, mas não estou precisando de nenhum funcionário FELIPE: Por favor. Não precisa me pagar muito. Só o suficiente para eu pagar o aluguel e comer. O dinheiro que a minha mulher ganha mal dá para pagar as contas de luz e água. AZUL: Tá bom. Eu te dou um emprego CENA SEIS Mesmo dia, 10 de Agosto de 2010, crepúsculo Karina e Lucas estão fechando a padaria de Yasmin KARINA (Trancando a porta da frente): Cadê a Yasmin e a Emanuelle? LUCAS: Pelo que eu entendi foram atrás de um ricaço KARINA: Ricaço? Que ricaço será esse? CENA SETE
  8. 8. A câmera mostra Felipe entrando em sua casa. Sua mulher, Thaís, está lá dentro. FELIPE (sorridente): Arrumei um emprego MULHER (raivosa): Aleluia. Já estava na hora de você me ajudar com as contas. Não consigo pagar tudo sozinha. Sem falar que o aluguel custa bem mais que o meu salário FELIPE (engrossando o tom de voz): Então é assim? Eu me mato de tanto procurar um emprego e você me vem com sermão? THAÍS (dando um tapa em Felipe): Eu não aguento mais. FELIPE: Quem não aguenta mais sou eu, sua vagabunda. THAÍS: Sai da minha casa FELIPE: Você vai ver só. THAÍS: Isso é uma ameaça? FELIPE: E se for? THAÍS: Está tudo acabado entre nós. Amanhã mesmo vamos a cidade pedir divórcio. FELIPE: Ótimo THAÍS: Ótimo. FELIPE: Eu sei que você não vive sem mim THAÍS: Veremos. FELIPE: E todos os anos que passamos juntos... THAÍS: Foram um lixo FELIPE: Continua falando assim que eu te mato. THAÍS: Mata? Quem te mata sou eu.
  9. 9. Thaís pega uma faca de cozinha que estava em cima da mesa e a aponta para Felipe. FELIPE (chorando): Não faça isso, por favor. THAÍS: Agora você é gentil, né?

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