Aula 04 mito e filosofia 20130329114826 (1)

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Aula 04 mito e filosofia 20130329114826 (1)

  1. 1. Mito e FilosofiaO homem sempre tentou dar sentido às coisas e colocar ordem no seu mundo para que pudesse sabercomo agir no cotidiano. “O espírito do homem não suporta a desordem porque não pode pensá-la”(ARAGON, 1996, p. 215 ).Mas, como organizar a realidade? A humanidade seguiu por dois caminhos diferentes:1. Fabulação: mitos2. Razão: filosofiaNa busca de explicar e ordenar o mundo estão presentes tanto o mito, que usa pensamento por figurasquanto a racionalidade que se empenha em pensar por conceitos.A NARRATIVA MÍTICAA narrativa mítica se constitui na mais rica experiência de explicação e ordenação do mundo e doshomens. Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, doshomens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e dadoença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.).A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar, narrar,falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar, contar, anunciar, nomear, designar).Para os gregos, mito é um discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem comoverdadeira a narrativa, porque confiam naquele que narra; é uma narrativa feita em público,baseada, portanto, na autoridade e confiabilidade da pessoa do narrador. E essa autoridade vem dofato de que ele ou testemunhou diretamente o que está narrando ou recebeu a narrativa de quemtestemunhou os acontecimentos narrados.Quem narra o mito? O poeta-rapsodo. Quem é ele? Por que tem autoridade? Acredita-se que o poetaé um escolhido dos deuses, que lhe mostram os acontecimentos passados e permitem que ele veja aorigem de todos os seres e de todas as coisas para que possa transmiti-la aos ouvintes. Sua palavra - omito - é sagrada porque vem de uma revelação divina. O mito é, pois, incontestável e inquestionável.Mircea Eliade, tenta definir mito da seguinte forma:“O mito é uma realidade cultural extremamente complexa, quepode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas ecomplementares [...] o mito conta uma história sagrada, relataum acontecimento que teve lugar no tempo primordial, otempo fabuloso dos começos...O mito conta graças aos feitos dos seres sobrenaturais, umarealidade que passou a existir, quer seja uma realidade tetal, oCosmos, quer apenas um fragmento, uma ilha, uma espécievegetal, um comportamento humano, é sempre, portanto umanarração de uma criação descreve-se como uma coisa foi
  2. 2. produzida, como começou a existir...” Mircea Eliade, Aspectosdo Mito, pág12/13.Toda narrativa mítica se constitui num esforço de explicar como tudo começou. Desde questões dacondição humana aos eventos da natureza, o nascimento dos deuses...Não é possível entender o mito julgando a história ao pé da letra porque ele nunca limita àquilo que nele seexprime. Trás sempre uma lição que trata do comportamento humano e que pode ser entendida na análise dahistoria. Para entender melhor veja o mito de Dédalo e Ícaro:Porém, Dédalo foi a primeira vítima de sua invenção. Após provocar a ira de Minos, Dédalo foi encerrado nolabirinto juntamente com seu filho Ícaro e o Minotauro. Dédalo resolveu, então, fabricar asas artificiais para sie para seu filho com o objetivo de sair do labirinto pelos ares. Depois de muito trabalho, prendeu as asas comcera. Antes porém de saírem voando, Dédalo recomendou ao filho que não voasse muito alto, pois aproximidade com o sol poderia derreter a cera. Abriram asas e partiram.Ícaro, esquecendo-se da recomendação do pai elevou-se demais, chegando muito perto do Sol. A cera de suasasas derreteu e ele precipitou-se no mar Egeu, que desde então passou a chamar-se mar Icário.Quando Ícaro, foi tão alto, além de desobedecer ao pai, exigiu de suas asas muito mais do que elaspoderiam dar.Trazendo para nossos dias: Quantos exigem da vida muito mais do que as suas condições permitem? Ocartão de crédito, por exemplo, nos dá a sensação de que podemos fazer coisas incríveis. Podemospassar do limite é com isso termos uma derrocada financeira.CARACTERÍSTICASPensamento Mágico: O mito está ligado à magia, ao sobrenatural. Entende que é possívelrealizar ações específicas para ter desejos satisfeitos. Dessa forma, muitos rituais sãorealizados como forma de garantir os eventos desejados.Dogmático: Não há necessidade de comprovação pois sua aceitação vem da crença.Dédalo, era um artista muito talentoso que foidescendente de reis de Atenas e estudou com o deusMercúrio. Inventou, entre outras coisas, os remos,que deveriam substituir as velas. Teve um conflitocom seu sobrinho e terminou por mata-lo, sendo porisso, condenado a morte. Fugiu para Creta e serefugiou na corte do rei Minos.Foi o construtor do famoso labirinto, lugar reservadopara aprisionar um terrível monstro, o Minotauro.Para garantir que o monstro não fugiria elaborou umum cercado de madeiras arrumadas de tal formaque, uma vez la dentro, ninguém conseguia sair.
  3. 3. Coletivo: Não existe mito de uma pessoa, ele se manifesta no coletivo. É nesse âmbito que oindivíduo tem consciência de si, como membro de um grupo, o Outro me reporta quem sou.As narrativas tratam de problemas universais e não de uma pessoa isoladamente.ALGUMAS CLASSES DE MITOSMuitos poetas como Hesíodo e Ovídio tiveram o trabalho de tentar uma classificação dostipos de mitos embora não seja possível ser muito rigoroso nesse sentido. Existem mitos quebuscaram explicações sobre a criação do universo e do homem. Eles ficaram conhecidos comomitos de origem. Neste grupo é possível distinguir as cosmogonias, mitos sobre a origem docosmos e as teogonias, mitos sobre as origens dos deuses e, por fim os mitos religiosos, quese baseiam no poder de um único Deus.Deuses foram criados à semelhança dos homens, com defeitos e qualidades, e uma carga desentimentos idêntica aos humanos como amor e ódio, vingança, vaidade, egoísmo, traição,que é o caso do deus supremo do Olimpo: Zeus.Com a invasão da Grécia pelos bárbaros do Norte europeu, houve um choque cultural. Como umamulher, uma deusa, era considerada mais importante na sociedade? Então Hera foi casada comZeus, seu irmão para ter um lugar menos destacado, apenas de esposa, representando isso aderrota do culto matrifocal na Grécia, sendo substituída pelos cultos patrifocais.Casou-se com sua irmã Hera mas teve casoscom muitas deusas e humanas. Dasinfidelidades vieram muitos filhos e filhas aquem Hera perseguia tenazmente, ficandoconhecida como deusa ciumenta. Do encontrode Zeus e Alcmena, nasce Hercules, o maisodiado filho bastardo de Zeus.Hera, conhecida como Rainha dos Céus, é umadivindade cultuada muito antes de Zeus no mundoMediterrâneo e seus cultos se espalharam pormuitos lugares. Haviam procissões, com oferenda,seguidas de banquetes, competições esportivas e oápice das celebrações era quando as sacerdotisasfaziam procissões anuais, momento em quelevavam as estátuas de Hera para serem lavadasno mar.
  4. 4. Outra questão social envolvendo a deusa trata-se do casamento monogâmico defendido peladeusa, que se tornava uma realidade nova na Grécia, mas se chocava com os costumes primitivos depoligamia Hera representa uma ideia, uma visão de sociedade. Passa a ser considerada a deusa docasamento.Gerou Hefesto que nasceu muito feio e deformado. E a forma mítica, de explicar à civilizaçãoantiga as falhas genéticas relativas a casamentos entre parentes próximos, resultado daspreocupações gregas.FUNÇÕES DO MITODe acordo com Chauí, o mito tem três frentes de funções: explicar, organizar e compensar (Chauí,p. 162).1. A função explicativa da realidade é uma forma de tranquilizar o homem em um mundoassustador e não decifrado. O mito de Perséfone, por exemplo, explica o surgimento dasestações do ano e possíveis períodos de escassez de grãos.2. Mito com função de organização – Determina o que pode ou não pode ser feito nas relaçõesentre as pessoas. Como exemplo o mito de Édipo na proibição do incesto.filosofojr.wordpress.com/2008/09/30/o-mito-de-edipo-rei/ - 134k3. Mito com função compensatória onde “o mito narra uma situação passada, que é a negaçãodo presente e que serve tanto para compensar os humanos de alguma perda como para garantir-lhes que um erro passado foi corrigido no presente, de modo a oferecer uma visão estabilizada eregularizada da Natureza e da vida comunitária.” (Chauí, p. 162). A história de Orfeu nos mostraessa categoria de mito. Orfeu perde a esposa a quem tanto amava mas, se reúne novamente a eladepois da morte.COMO O MITO EXPLICA A EXISTÊNCIA DO MUNDO E O QUE NELE EXISTE?1. O principio de todas as coisas - toda existência é oriunda das relações sexuais entre osdeuses e destes com humanos, surgindo os titãs (seres semi-humanos e semidivinos), os heróis(filhos de um deus com uma humana ou de uma deusa com um humano), os humanos, e anatureza.Ex.: Sobre a origem do amor, deus do amor, Eros (Cupido) há o seguinte relato, exemplo extraídodo Banquete 203a, de Platão, após a observação das atitudes de uma pessoa apaixonada, sempreinsegura, ansiosa e disposta a tudo para conseguir seu intento.“Houve uma grande festa entre os deuses. Todos foram convidados, menos a deusa Penúria,sempre miserável e faminta. Quando a festa acabou, Penúria veio, comeu os restos e dormiu como deus Poros (o astuto engenhoso). Dessa relação sexual, nasceu Eros (ou Cupido), que, como suamãe, está sempre faminto, sedento e miserável, mas, como seu pai, tem mil astúcias para sesatisfazer e se fazer amado. Por isso, quando Eros fere alguém com sua flecha, esse alguém seapaixona e logo se sente faminto e sedento de amor, inventa astúcias para ser amado e satisfeito,ficando ora maltrapilho e semimorto, ora rico e cheio de vida.”2. A discórdia ou acordo entre os deuses que faz surgir alguma coisa no mundo. Exemplifica estetipo de mito a história narrada por Homero, na Ilíada, que narra a guerra de Tróia. Justifica o
  5. 5. motivo pelo qual em certas batalhas, os troianos eram vitoriosos e, em outras, a vitória cabia aosgregos. Havia divisão entre os deuses e na medida que Zeus se unia a um grupo de deuses ououtro, determinava na terra quem vencia a batalha.Já de início, a guerra começou em função de rivalidade entre as deusas. Por disputa do titulo demais bela aparecem em sonho para o príncipe troiano Paris, oferecendo a ele seus dons e eleescolheu a Afrodite. Isso gerou ciúmes nas outras deusas, o fizeram raptar a grega Helena, mulherdo general grego Menelau, promovendo a guerra.3. Exigência de submissão: recompensas ou castigos que os deuses dão a quem os desobedeceou a quem os obedece, conforme o exemplo a seguir.A EXPLICAÇÃO PARA A ORIGEM MAL NO MUNDO: A CAIXA DE PANDORAPrometeu, com pena dos homens que passavam necessidades, resolveu furtar umacentelha de fogo dos deuses e doa-la aos homens juntamente com a orientação decomo acendê-lo. Zeus ficou furioso com essa atitude de Prometeu pois, o fogodeveria ser um segredo mantido entre os deuses. Por essa razão acorrentaprometeu numa montanha e todos os dias uma águia vinha devorar-lhe o fígadoque, durante a noite se reconstitui para ser novamente devorado pela manhã. Aoshomens determinou outra punição.Ordenou a Hefesto, que criasse uma mulher perfeita, e que a levasse à reuniãodos deuses. Ela foi apresentada aos deuses, e todos ficaram admirados pelabeleza da moça e, cada um lhe deu um dom particular. Atena, a deusa dasabedoria e da guerra, vestiu essa mulher ricamente e enfeitou sua cabeça comuma coroa de ouro ornamentada por flores, lhe ensinou as artes das mulherescomo a arte de tecer; Afrodite lhe deu o encanto, que despertaria o desejo doshomens; As Cárites, deusas da beleza, e a deusa da persuasão ornaram seupescoço com colares de ouro; Hermes, o mensageiro dos deuses além de lhe dar odom da fala de falar, ensinou-lhe a arte de seduzir os corações por meio depalavras insinuantes.Ela recebeu o nome de Pandora, que em grego quer dizer "todos os dons". Zeuslhe entregou uma caixa fechada, e mandou que ela a levasse como presente aPrometeu. Ele porém, não quis receber nem Pandora, nem a caixa, e recomendoua seu irmão, Epimeteu, que também não aceitasse nada vindo de Zeus. MasEpimeteu, ficou encantado com a beleza de Pandora e casou-se com ela.
  6. 6. O RITO – LINGUAGEM EM AÇÃO DO MITOPara ligar os humanos aos deuses, organizando o espaço e o tempo, são criados os ritos. Lévi-Strauss diz que o ritual coloca em prática o mito, não se tratando apenas de formalidades. Oseu estudo permite melhor compreensão da sociedade.O que é um ritual e qual a sua importância social?Para o senso comum: Ação formal e arcaica, desprovida de conteúdo, usada para celebrarmomentos especiais. Ação ligada à esfera religiosa.Para o discurso científico: “ cada ritual é um manifesto contra a indeterminação” – através darepetição e da formalidade, os rituais demonstram a ordem e a promessa de continuidade dosgrupos. Rituais do dia a dia – universais, repetitivos e ordenadores do mundo.RITUAIS - atribuem a cada um de nós novas identidades e novos papéis a seremdesempenhados junto ao grupo com o qual convivemos. O mundo é carregado de rituaiscotidianos que ORDENAM a vida social. (Claude Rivière).“ o ritual é um fenômeno especial da sociedade, que nosaponta e revela expressões e valores de uma sociedade, mas oritual expande, ilumina e ressalta o que já é comum a umdeterminado grupo” (Rituais ontem e hoje, p.10).Os rituais podem ser religiosos ou profanos, festivos, formais, informais, simples ouelaborados pois o importante em um ritual são: SUAS CARACTERÍSTICAS DE FORMA,CONVENCIONALIDADE, REPETIÇÃO, fatores que mudam de grupo para grupo.Simbolizam o fim da infância e a passagem para a vida adulta. Geralmente ocorrem naadolescência ou em algum momento marcante da fase adulta. São ritos de passagem: aPandora não resistindo à curiosidade abre a caixa delá escaparam todos os males que afligem ahumanidade: Loucura, Doença, Inveja, Paixão,Vício, Praga, Fome e todos os outros males, que seespalharam pelo mundo e tomaram miserável aexistência dos homens a partir de então. Epimeteutentou fechá-la, mas só restou dentro a Esperança, eé graças a ela que os homens conseguem diante dossofrimentos não desistem de viver.A expressão Caixa de Pandora é utilizada paradesignar qualquer sentimento que nos move acuriosidade mas que é sensato não tocar.
  7. 7. crisma (cristianismo), o Bar Mitzvá (judaísmo) e as cerimônias de casamento (várias religiões).Todos aprendemos e nos modificamos até o fim da vida. Essa passagem para o mundo adulto,no entanto é de especial importância para o indivíduo e para a sociedade, povos antigos e associedades “primitivas” possuíam o que chamamos de “rituais de passagem”, cerimônias nasquais os jovens eram iniciados no mundo adulto.Temos em nossa sociedade correlatos desses rituais: o vestibular, a formatura, o casamento, osucesso profissional etc. Mas mesmo com a existência desses “correlatos”, em nossa cultura,nem sempre, para nós, é clara a passagem para o mundo adulto.O ritual é um sistema cultural de comunicação simbólica . O rito é uma cerimônia repetitivaem que imita-se o ser sagrado que em algum tempo realizou a ação que os humanos buscamrepetir e perpetuar. Para isso tudo é pré determinado: gestos, palavras, objetos, pessoas eemoções adquirem o poder misterioso de promover a ligação entre os humanos e adivindade. A simbologia de um ritual, deverá ser seguida pois a sua eficácia dependerá darepetição minuciosa e perfeita do rito, tal como foi praticado na primeira vez, porque nela ospróprios deuses orientaram gestos e palavras dos humanos.A religião sacraliza o espaço e o tempo, seres e objetos do mundo, que se tornam símbolosde algum fato religioso.Cheios de carga simbólica, os objetos são retirados de seu lugar habitual, passando a ter novosentido para toda a comunidade – protetor, perseguidor, benfeitor, ameaçador. Sobre esseser ou objeto recai a noção de tabu (palavra polinésia que significa intocável): é um interdito,ou seja, não pode ser tocado nem manipulado por ninguém que não esteja religiosamenteautorizado para isso. É assim, por exemplo, que certos animais se tornam sagrados ou tabus,como a vaca na Índia, o tucano para a nação tucana, do Brasil.MITO E FILOSOFIAO homem pode ser identificado e caracterizado como um ser que pensa e cria explicações.Criando explicações, cria pensamentos. Na criação do pensamento, estão presentes tanto o mitocomo a racionalidade, ou seja, a base mitológica, enquanto pensamento por figuras, e a baseracional, enquanto pensamento por conceitos. Esses elementos são constituintes do processo deformação do conhecimento filosófico. Este fato não pode deixar de ser considerado, pois é a partirdele que o homem desenvolve suas idéias, cria sistemas, elabora leis, códigos, práticas.Compreender que o surgimento do pensamento racional, conceitual, entre os gregos, foi decisivono desenvolvimento da cultura da civilização ocidental e é condição para que se entenda aconquista da autonomia da razão (lógos) diante do mito. Isso marca o advento de uma etapafundamental na história do pensamento e do desenvolvimento de todas as concepções científicasproduzidas ao longo da história humana.O conhecimento de como isso se deu e quais foram as condições que permitiram a passagem domito à filosofia elucidam uma das questões fundamentais para a compreensão das grandes linhasde pensamento que dominam todas as nossas tradições culturais.Deste modo, é de fundamental importância conhecer o contexto histórico e político dosurgimento da filosofia e o que ela significou para a cultura. Esta passagem do pensamento míticoao pensamento racional no contexto grego ainda é importante pois os mesmos conflitos entremito e razão, vividos pelos gregos, são problemas presentes, ainda hoje, em nossa sociedade, naqual a própria ciência depara-se com o elemento da crença mitológica ao apresentar-se como
  8. 8. neutra, escondendo interesses políticos ou econômicos em sua roupagem sistemática, porexemplo.Ao escrever os autores selecionados preocupam-se em desenvolver textos que permitama experiência filosófica a partir de três recortes, que são: Mito e Filosofia; O Deserto do Real;Ironia e Filosofia.Mito e Filosofia: trata do problema da ordem e da desordem no mundo. O homem, ao procurar aordem do mundo, cria tanto o mito como a filosofia. Muitos povos da antigüidadeexperimentaram o mito, que é um pensamento por imagens. Os gregos também fizeram aexperiência de ordenar o mundo por meio do Mito. Estes perceberam que o Mito era um jeito deordenar o mundo. A experiência política grega, ao longo dos anos, trouxe a possibilidade dopensamento como logos (razão), pois a vida na pólis impôs exigências que o mito já não satisfazia.Mas será que com a filosofia o mito desaparece? Será que em nossa sociedade ainda nosorientamos pelo pensamento mítico?Quais são as diferenças entre Filosofia e mito? Podemos apontar três como as mais importantes:1. O mito pretendia narrar como as coisas eram ou tinham sido no passado imemorial, longínquo efabuloso, voltando-se para o que era antes que tudo existisse tal como existe no presente. AFilosofia, ao contrário, se preocupa em explicar como e por que, no passado, no presente e nofuturo (isto é, na totalidade do tempo), as coisas são como são;2. O mito narrava a origem através de genealogias e rivalidades ou alianças entre forças divinassobrenaturais e personalizadas, enquanto a Filosofia, ao contrário, explica a produção natural dascoisas por elementos e causas naturais e impessoais. O mito falava em Urano, Ponto e Gaia; aFilosofia fala em céu, mar e terra. O mito narra a origem dos seres celestes (os astros), terrestres(plantas, animais, homens) e marinhos pelos casamentos de Gaia com Urano e Ponto. A Filosofiaexplica o surgimento desses seres por composição, combinação e separação dos quatro elementos- úmido, seco, quente e frio, ou água, terra, fogo e ar.3. O mito não se importava com contradições, com o fabuloso e o incompreensível, não só porqueesses eram traços próprios da narrativa mítica, como também porque a confiança e a crença nomito vinham da autoridade religiosa do narrador. A Filosofia, ao contrário, não admitecontradições, fabulação e coisas incompreensíveis, mas exige que a explicação seja coerente,lógica e racional; além disso, a autoridade da explicação não vem da pessoa do filósofo, mas darazão, que é a mesma em todos os seres humanos.1.2 CONDIÇÕES HISTÓRICAS DO SURGIMENTO DA FILOSOFIAResolvido esse problema, temos ainda um último a solucionar: O que tornou possível osurgimento da Filosofia na Grécia no final do século VII e no início do século VI antes de Cristo?Quais as condições materiais, isto é, econômicas, sociais, políticas e históricas que permitiram osurgimento da Filosofia? Podemos apontar como principais condições históricas para o surgimentoda Filosofia na Grécia:• As viagens marítimas, que permitiram aos gregos descobrir que os locais que os mitos diziamhabitados por deuses, titãs e heróis eram, na verdade, habitados por outros seres humanos; e queas regiões dos mares que os mitos diziam habitados por monstros e seres fabulosos não possuíamnem monstros nem seres fabulosos. As viagens produziram o desencantamento ou adesmistificação do mundo, que passou, assim, a exigir uma explicação sobre sua origem,explicação que o mito já não podia oferecer;
  9. 9. • A invenção do calendário, que é uma forma de calcular o tempo segundo as estações doano,as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando, com isso, uma capacidadede abstração nova, ou uma percepção do tempo como algo natural e não como um poder divinoincompreensível;• A invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realiza através das coisasconcretas ou dos objetos concretos trocados por semelhança, mas uma troca abstrata, uma trocafeita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma novacapacidade de abstração e de generalização;• O surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato, dandodesenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o prestígio das famílias daaristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados; além disso, osurgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de poder e deprestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagensconstituídas pelas famílias), fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímulo àsartes, às técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a Filosofia poderia surgir;• A invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e a da moeda, revela ocrescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez que a escrita alfabética oufonética, diferentemente de outras escritas - como, por exemplo, os hieróglifos dos egípcios ou osideogramas dos chineses -, supõe que não se represente uma imagem da coisa que está sendodita, mas a idéia dela, o que dela se pensa e se transcreve;• A invenção da política, que introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento daFilosofia:1. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que decide por si mesmao que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. O aspecto legislado e reguladoda cidade - da polis - servirá de modelo para a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado eordenado do mundo como um mundo racional.2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso,diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente, que recebia das deusasligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que guiavam o poeta) uma iluminaçãomisteriosa ou uma revelação sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deusesque eles deveriam obedecer.3.Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cada cidadão deemitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los a tomar uma decisãoproposta por ele, de tal modo que surge o discurso político como a palavra humanacompartilhada, como diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como decisão racional eexposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.A política, valorizando o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e a decisão racional,valorizou o pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavrafilosófica.BIBLIOGRAFIAARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. São Paulo: Moderna. 1993.ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa : Edições 70, 1989.CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.
  10. 10. • A invenção do calendário, que é uma forma de calcular o tempo segundo as estações doano,as horas do dia, os fatos importantes que se repetem, revelando, com isso, uma capacidadede abstração nova, ou uma percepção do tempo como algo natural e não como um poder divinoincompreensível;• A invenção da moeda, que permitiu uma forma de troca que não se realiza através das coisasconcretas ou dos objetos concretos trocados por semelhança, mas uma troca abstrata, uma trocafeita pelo cálculo do valor semelhante das coisas diferentes, revelando, portanto, uma novacapacidade de abstração e de generalização;• O surgimento da vida urbana, com predomínio do comércio e do artesanato, dandodesenvolvimento a técnicas de fabricação e de troca, e diminuindo o prestígio das famílias daaristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados; além disso, osurgimento de uma classe de comerciantes ricos, que precisava encontrar pontos de poder e deprestígio para suplantar o velho poderio da aristocracia de terras e de sangue (as linhagensconstituídas pelas famílias), fez com que se procurasse o prestígio pelo patrocínio e estímulo àsartes, às técnicas e aos conhecimentos, favorecendo um ambiente onde a Filosofia poderia surgir;• A invenção da escrita alfabética, que, como a do calendário e a da moeda, revela ocrescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez que a escrita alfabética oufonética, diferentemente de outras escritas - como, por exemplo, os hieróglifos dos egípcios ou osideogramas dos chineses -, supõe que não se represente uma imagem da coisa que está sendodita, mas a idéia dela, o que dela se pensa e se transcreve;• A invenção da política, que introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento daFilosofia:1. A idéia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que decide por si mesmao que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas. O aspecto legislado e reguladoda cidade - da polis - servirá de modelo para a Filosofia propor o aspecto legislado, regulado eordenado do mundo como um mundo racional.2. O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso,diferente daquele que era proferido pelo mito. Neste, um poeta-vidente, que recebia das deusasligadas à memória (a deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que guiavam o poeta) uma iluminaçãomisteriosa ou uma revelação sobrenatural, dizia aos homens quais eram as decisões dos deusesque eles deveriam obedecer.3.Agora, com a polis, isto é, a cidade política, surge a palavra como direito de cada cidadão deemitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los a tomar uma decisãoproposta por ele, de tal modo que surge o discurso político como a palavra humanacompartilhada, como diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como decisão racional eexposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.A política, valorizando o humano, o pensamento, a discussão, a persuasão e a decisão racional,valorizou o pensamento racional e criou condições para que surgisse o discurso ou a palavrafilosófica.BIBLIOGRAFIAARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. São Paulo: Moderna. 1993.ELIADE, Mircea. Aspectos do mito. Lisboa : Edições 70, 1989.CHAUI, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1994.

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