UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA         DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV                LICENCIATURA EM HISTÓRIA A re...
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3                                 AGRADECIMENTOS     À minha família que contribui decisivamente na minha formação acadêmi...
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9moderno pelo mito da razão e da comprovação, possibilitou que as fontes orais fossemdesqualificadas enquanto documentos”....
10cultura, resume que esta por sua vez só pode ser definida em termos da nossa própria cultura. 4O fato é que o conceito d...
11       Graças a este diálogo, os historiadores também aprenderam a valorizar o uso da memóriacomo interpretação do passa...
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13CAPÍTULO                I       –       PANORAMA                    SOCIOECONÔMICO                             DASISALIC...
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15primeiros desfibramentos, até que foi substituída pelas máquinas atuais, apelidadas deparaibanas, dada sua origem, as qu...
16aumentando sua produtividade nas décadas seguintes. Na Fazenda do Sr. Pacifico, localizadaem Valente, havia alguns traba...
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18também foi marcado por constantes crises e baixa do preço do sisal. Algumas das mudançaspromovidas pala instituição foi ...
19                           Em 1975, o sisal foi uma das principais bases de sustentação da economia regional,           ...
20sisal param em virtude da escassez da planta e do seu baixo desenvolvimento eaproveitamento na cadeia de produção.     A...
21                           da máquina exige grande esforço do operador (puxador), que poderá ser uma ou                 ...
22tece o seguinte comentário sobre a questão do trabalho infantil fazendo analogia com otrabalho na sua época de infância:...
23                            A seca está provocando falta de sisal para as indústrias e batedeiras. Por isto, o          ...
24                              O sisal sempre pára de vez em quando, todo mundo sabe é a seca né? Por que                ...
25       cooperativa “Mulheres de Fibra”, essas mulheres saíram do motor do sisal e constituíram       com o apoio de sind...
26no semi-árido, não resultam em estratégias de convivência do semi-árido propriamente dita. Adistinção pode ser explicada...
27Capítulo II – MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E MUSICAIS NOSERTÃO NORDESTINO                                                   ...
28                            organizam o mundo social, percebe a cultura popular em suas dependências e                  ...
29     Enfim, essa discussão sobre a definição de “cultura” não é o foco deste trabalho, mascomo coloca Thompson “não pode...
30     Os primeiros estudos no Brasil relativos à cultura popular voltaram-se para o campo dapoesia. As pesquisas foram in...
31assim denominado devido a condições morfoclimáticas e características peculiares fortementepresente na região. A designa...
32Todas essas representações da cultura popular sertaneja trazem, sobretudo, o seu modo devida expressando o cotidiano e o...
33permitem evidenciar a existência de sertões diferenciados, com peculiaridades, dinâmicas erelações sociais diferenciadas...
34outras caracterizações. Enquanto, exalta e afirma um Sul como o espaço concentrador dedesenvolvimento, moderno, educado ...
35      Outra diferenciação de sertões caracteriza-se pela vertente cultural, que apresentaaspectos peculiares de perceber...
36e as cantorias expressas em versos sobre um sertão carregado de estigmas e esperanças deuma vida melhor.       Na verdad...
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A representação sócio cultural do cotidiano dos sisaleiros nas manifestações culturais do município de são domingos na década de 1990

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nasmanifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990. Campo de sisal, Fazenda Riacho do Cedro no município de São Domingos – BA. Iracema Lopes Alves Conceição do Coité 2010
  2. 2. 2 Iracema Lopes Alves A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nasmanifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990. Monografia apresentada a Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV como requisito parcial para obtenção do título de graduado em Licenciatura em História sob a orientação do professor Aldo José Morais Silva. Conceição do Coité 2010
  3. 3. 3 AGRADECIMENTOS À minha família que contribui decisivamente na minha formação acadêmica e peloaprendizado que me ensinaram e que levo pra toda a vida. Ao meu noivo Edigenildo que esteve ao meu lado em todas as etapas da pesquisa decampo, e pela força e incentivo dado nos momentos mais difíceis na realização do trabalho. Aos meus colegas da turma de Licenciatura em História de 2006.1 do campus XIV daUNEB que contribuíram significativamente nessa longa jornada de estudos e aprendizados,pela qual passamos nesse período em que estivemos juntos. Em especial, a Vera Lúcia, Iara eMilene parceiras de todas as horas que iniciaram comigo o projeto de pesquisa, o qualoriginou o presente estudo. Agradeço também a todos os professores que ao longo desses anos nos proporcionaramaprendizados que serão levados por toda a vida. Em especial, a Aldo José Moraes pelaorientação e pela força dada para que esse trabalho viesse a ser concebido. Ainda sou grata a Milena e muitas outras pessoas que me estimularam, apoiaram eencorajaram na realização desse trabalho. Por fim, agradeço a todas as pessoas que mediante seus depoimentos proporcionaram aconcretização desse trabalho com suas histórias de vida, compartilhadas e revividas nosmomentos da pesquisa.
  4. 4. 4 Eu sou da região esquecida Onde homens de fibra sobrevivem da fibra Onde o signo de libra a balança não pesa Onde o arco-íris é do povo que reza A semente e a terra com rara harmonia O calor e seu uso uma arma letal O falo: divisor de fronteiras da ação Velhas de anágua e meninas de minissaiaGarotos de boné e homem de chapéu de palhaAs tradições curvam-se agora mais que nunca Mais o suor ainda é o mesmo (...) Moséis Neto, Poema “O sisaleiro”.
  5. 5. 5 RESUMOEste estudo busca entender como a rotina de trabalho de sisaleiros se expressa em suasmanifestações culturais no município de São Domingos, cujas transformações e adaptaçõesforam mais acentuadas na década de 1990. Período este, que ocorreu várias mudanças nasisalicultura e consequentemente causou um impacto nos costumes e modo de vida de muitostrabalhadores e trabalhadoras rurais que sobreviviam dessa atividade econômica. Inicialmente,exponho a chegada do agave no país até a sua introdução no semi-árido baiano. Após acontextualização desse vegetal na região, abordo os diversos sentidos que foram atribuídos aotermo sertão, bem como a construção de uma imaginada comunidade do sisal e a importânciaque as canções populares possuem na vida dos sertanejos/nordestinos. E, finalizo o trabalhocom a análise de músicas, das manifestações em estudo, presentes tanto no local de trabalhocomo nos ambientes de festas e lazer dos sisaleiros e sisaleiras são-dominguenses.Palavras-chave: manifestações culturais – trabalho – sisal – São Domingos.
  6. 6. 6 ABSTRACTThis study search to understand as the routine of sisaleiros work it is expressed in yourcultural manifestation in the municipal district of São Domingos, whose transformations andadaptations were more accentuated in the decade of 1990. Period this, that happened severalchanges in the sisalicultura end consequently it caused an impact in the habits and way ofmany workers that survived of that economical activity. Initially, I expose the arrival of theagave in the country until your introduction in the semi-arid baiano. After a contextualizaçãoon the plant of the area, I approach the several senses that were attributed to the term interior,as well as an imagined community‟s of the sisal construction and the importance that thepopular songs possess in the life of the setanejos/nordetinos. I conclude the work with itanalyzes of music, of the manifestations in study, presents so much in the work places as inthe atmospheres of parties and leisure of the sisaleiros and sisaleiras sãodomiguense.Key words: cultural manifestations – work – sisal – São Domingos.
  7. 7. 7 SUMÁRIOINTRODUÇÃO .......................................................................................................9CAPÍTULO I – Panorama Socioeconômico da Sisaliculturano Nordeste Baiano ................................................................................................141.1 Histórico sobre a cultura do sisal ......................................................................... 141.1 As relações sociais de produção no coração da sisalândia ........................................171.2 As influências do capital externo na economia sisaleira .......................................... 231.3 Fibras de agave: cordas do progresso ................................................................... 25CAPÍTULO II – Manifestações artísticas e musicais ................................................ 28no sertão nordestino.1.1 Cultura popular nos sertões do Brasil .................................................................... 281.3 O sertão como lugar ........................................................................................... 331.4 As canções musicais na vida do sertanejo .............................................................. 371.5 Cultura e identidade regional no semi-árido baiano ................................................. 38CAPÍTULO III – Sisal e Sociedade Rural:Manifestações Culturais no Território do Sisal ........................................................ 451.1 A música popular no cotidiano do sisaleiro ........................................................... 451.2 Grupos de Reisados no município de São Domingos .............................................. 541.3 Cantadeiras de roda ...........................................................................................631.4 Entre rezas e brincadeiras ................................................................................... 691.5 Perdas ou permanências? ................................................................................... 72CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 77REFERÊNCIAS ....................................................................................................80FONTES .............................................................................................................. 84ANEXOS .............................................................................................................. 85
  8. 8. 8 INTRODUÇÃO O agave no Nordeste Baiano tornou-se símbolo de sobrevivência para muitas famíliasque não possuíam alternativa de emprego. A partir da década de 1940 com sua exuberância napaisagem local, atraia muitos olhares e expectativas de dias melhores para a população de ummodo geral, pois o “verde do agave” seduzia, quebrando a rotina da paisagem local marcadapor vegetais acinzentados e retorcidos. Todavia, a sisalicultura não trouxe somente esperançae prosperidade para a região, também se mostrou agressiva nas condições de trabalho ealterou profundamente o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Dessa forma, o propósito desse estudo consiste em compreender como a rotina detrabalho dos sisaleiros se expressa em suas manifestações culturais no município de SãoDomingos. Como teria originado essas manifestações no ambiente de trabalho? Por que oslavradores tentavam veemente transmitir seus costumes nessas expressões culturais? Comoessas manifestações resistiram e/ou transformaram-se ao longo do tempo nos campos domunicípio? Enfim, como essas canções populares retratam os costumes de trabalhadoresrurais das comunidades em estudo? Para estudar os significados que os sisaleiros e sisaleiras atribuíram ás manifestações e àsexperiências no trabalho com o agave, utilizei fontes impressas e orais. Com relação aosdocumentos escritos consultei o jornal “Folha do sisal”, editado pela APAEB, a revista“Territórios rurais” e as Atas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Agricultura Familiarde São Domingos (SINTRAF). Assim, no primeiro momento procurei informações e dadossobre as condições e relações de trabalho da sisalicultura no município. No que diz respeito às fontes orais, busquei conversar com pessoas que possuíam umaexperiência de muito tempo nos campos de sisal e que tivessem vivido na época do auge dasmanifestações culturais no setor rural de São Domingos. Pois, este fator era primordial pararealização do estudo da temática referente à década de 1990. Usei principalmente os registros orais porque os considero fundamentais para aelaboração do discurso historiográfico. Heródoto, considerado o pai da história, já reconheciaa importância de ouvir as pessoas que vivenciaram os fatos narrados. Contudo, esteprocedimento gerou críticas mesmo entre historiadores gregos e, no mundo moderno, ospositivistas denunciavam a subjetividade na construção do conhecimento. Essa discussão - objetividade/subjetividade – ainda permanece nos debates acadêmicos.Para Nunes “a pretensa vontade de traduzir o passado para o presente, realimentada no mundo
  9. 9. 9moderno pelo mito da razão e da comprovação, possibilitou que as fontes orais fossemdesqualificadas enquanto documentos”. Ela ainda comenta que “delimitaram-se as fronteiras ese estabeleceram as dicotomias: objetividade/subjetividade, verdade/mentira,ficção/realidade”.1 Diante disso, foi a partir dos Annales que a noção tradicional de documento passou a serquestionada, apontando para a inexistência de hierarquias entre as fontes, sejam escritas ouorais, o que permitiu que a história oral readquirisse o status de documento no discursohistoriográfico. Além do interesse pessoal por este tema, percebe-se ainda a sua importância para ahistoriografia local, pois existem poucos textos sobre este assunto no referido município eregião. Tais trabalhos, comumente, foram produzidos por economistas como HumbertoMiranda do Nascimento, cuja sua preocupação foi a de estudar a formação e atuação daAssociação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) e muitoparticularmente as estratégias de convivência com o semi-árido baiano. 2 Outra obra de grande significância para compreensão da agaveicultura no NordesteBaiano é o livro “O sisal baiano: entre a Natureza e Sociedade: uma visão multidisciplinar”,organizado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, e o livro de José Filho Ramos,“Sisal: sua história entre nós”, imprescindíveis para a realização de estudos sobre o sisal naBahia. Embora algumas dessas obras busquem um diálogo com a história social, nota-se que,de um modo geral, estas abordagens enfatizam mais os aspectos produtivos, não priorizandoitens relacionados à cultura dos trabalhadores, ás suas experiências cotidianas, enfim, asexpressões culturais nesses ambientes. “Uma história de baixo para cima”, como escreveuEric Hobsbawm. 3 Ressaltando os costumes de sujeitos ocultos, cujas histórias não aparecemapenas como fragmentos de vidas em si mesmas, mas em uma trama ampla: as histórias doshomens e mulheres interligados às cordas do agave e ao grande emaranhado de costumesexpressos diariamente e perpetuados por gerações. Assim, realizo os estudos presentes neste trabalho dentro de uma perspectiva cultural dahistória social. Desse modo, em uma área muito ampla fazem-se necessário expor algunsteóricos que auxiliaram no desenvolvimento dessa investigação. Peter Burke, ao falar sobre1 NUNES, Mariângela de Vasconcelos. Entre o capa verde e a redenção: A cultura do trabalho com o agave noCariris Velhos (1937-1966, Paraíba). Universidade de Brasília – UNB. Programa de Pós-Graduação em História,Brasília, 2006, p. 27.2 NASCIMENTO, Humberto Miranda do. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA.. SãoPaulo: Annablume, 2003, p.35.3 HOBSBAWN, Eric. Sobre História. São Paulo; Companhia das Letras, 1998, p.216.
  10. 10. 10cultura, resume que esta por sua vez só pode ser definida em termos da nossa própria cultura. 4O fato é que o conceito de cultura vem mudando ao longo do tempo. Para os historiadores, otermo cultura, no século XIX, estava ligado à arte, à literatura, às idéias e aos sentimentos.Tratava-se de uma definição extremamente elitista desta categoria. Portanto, a idéia de culturaera extremamente restrita e baseada na noção de alta cultura, assim, sendo desprezada acultura dos grupos subalternos. No entanto, Nunes comenta que “esta corrente sofreu severas críticas, pois ela não sóignorava a produção cultural dos segmentos sócio-economicamente mais frágeis comotambém não dialogava com a cena econômica-política-social na qual estava inserida acultura”. 5 O historiador Edward Thompson, no século passado, apresentou outro conceito decultura, no qual a definiu como um conjunto de ações que constituem o cotidiano, asexperiências dos sujeitos, ressaltando o seu papel na história, as suas vivências. 6 Nas últimas décadas do século XX, uma nova dimensão de história cultural foiconsolidada ficando conhecido como “nova história cultural”, cujo objetivo é compreender osentido que os homens, em diferentes momentos atribuíram, ao mundo, como disse ohistoriador Roger Chartier: “A História Cultural, tal como a entendemos, tem como principalobjeto identificar no mundo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinadarealidade social é construída, pensada, dada a ler”.7 Esta vertente se aproxima da antropologia.Tal aliança baseou-se na incorporação, por parte dos historiadores, da dimensão simbólica. Assim como os antropólogos, os historiadores começaram a se referir à cultura no plural,atacando a noção de hierarquização cultural. Ademais, o contato com aqueles possibilitouuma redefinição do significado de cultura, que passou a ser entendida de uma forma maisampla, como disse Peter Burke: Em outras palavras, estendeu-se o sentido do termo para abranger uma variedade muito ampla de atitudes do que antes não apenas a arte mas a cultura material, não apenas a escrita, mas a oral, não apenas o drama mas o ritual, não apenas a filosofia 8 mas as mentalidades das pessoas comuns.4 BURKE, Peter. Variedades da história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p.13.5 NUNES, op. cit.,2006, p. 18.6 THOMPSON apud NUNES, ibdem, p.18.7 CHARTIER, Roger. A história cultural, entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro:Betrand, 1982.8 BURKE,. op. cit., 2000, p.13.
  11. 11. 11 Graças a este diálogo, os historiadores também aprenderam a valorizar o uso da memóriacomo interpretação do passado. O recurso da memória ainda nos permite ultrapassar asfronteiras do individual, adentrando assim em um território amplo, como destacou MauriceHalbawachs: É necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou noções comuns que se encontrem tanto no nosso espírito como nos dos outros, porque elas passam incessantemente destes para aqueles e reciprocamente, o que só é possível se fizerem e continuarem a fazer parte de uma mesma sociedade. Somente assim, podemos compreender que uma lembrança passa a ser, ao mesmo tempo, reconhecida e reconstruída. 9 Nesta compreensão, foi possível, a partir das memórias individuais, entender como ostrabalhadores rurais se organizavam cotidianamente, como e quando realizavam asmanifestações culturais na comunidade, como viviam suas frustrações, alegrias, enfim, seintegravam às rodas da história. Sendo assim, proponho analisar a representação das experiências sociais dos sisaleirosatravés das suas manifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990.Este trabalho consta três capítulos. No primeiro, estudei a vida dos trabalhadores rurais no referido município, com aintrodução do sisal na região, mostrando como viviam os lavradores, como organizavam seutrabalho e seu cotidiano, fornecendo assim, paisagens históricas da região sisaleira e da cidadeem estudo, que serviram para iluminar a compreensão dos capítulos seguintes. No segundo capítulo, trato do significado que ao longo do tempo foi sendo atribuído aotermo sertão. E mais especificamente aos significados e olhares que se direcionavam para osertão nordestino. Além disso, abordo a imagem que foi construída por muito tempo arespeito do semi-árido baiano e, após o desenvolvimento da agaveicultura e a conseqüenteconstrução de uma imaginada comunidade do sisal. Exponho, também, brevemente asignificância que as canções musicais possuem na vida do sertanejo. Já no terceiro capítulo, trabalhei com as manifestações culturais presentes na vida dossisaleiros e sisaleiras no Território do Sisal e, especialmente, em São Domingos. Nessa etapa,pode-se entender o cotidiano dessas pessoas que expressam nas “rezas e brincadeiras”, oscostumes e o cotidiano de trabalho como forma de resistência à situação que lhes era imposta.9 HALBAWACHS apud NUNES, op. cit., 2006, p.20.
  12. 12. 12 Delimitei como marco temporal a década de 1990 em virtude das bruscas mudanças queocorreram no manejo com o sisal, bem como as constantes flutuações de preço no mercadointerno e externo. Todavia, o que mais pesou nessa escolha foram as intensas transformaçõesocorridas nas manifestações, na área rural, nesse período em relação às décadas anteriores. Portanto, como afirma Ecléa Bosi: “feliz o pesquisador que se pode amparar em 10testemunhos vivos e reconstituir comportamentos e sensibilidades de uma época!”. Sendoassim, o conhecimento pautado na oralidade nos proporciona hoje ter acesso às lembrançasdestes indivíduos que em suas narrativas nos ensinam sobre os festejos que envolvem:músicas, danças, trabalho, alegria, distração... Enfim, são costumes herdados de longasgerações e/ou reelaborados dentro de um novo contexto histórico.10 BOSI, Ecléa. O Tempo vivo da Memória; ensaios de psicologia social. 2º ed. São Paulo: Ateliê editorial, 2004,p.16-17.
  13. 13. 13CAPÍTULO I – PANORAMA SOCIOECONÔMICO DASISALICULTURA NO NORDESTE BAIANO. O sisal representa um recurso perfeitamente adaptado às condições climáticas do semi-árido e de difícil substituição, já que a cultura se constitui na maior fonte de produção e de subsistência da região. Maria Auxiliadora da Silva Neste capítulo encontra-se um panorama geral da introdução da sisalicultura no Brasil ena Bahia. Logo após, trato das relações de trabalho e as condições de vida dos sisaleiros, bemcomo as crises cíclicas do agave e sua expansão na área de estudo, principalmente na décadade 1990. Posteriormente, retrato algumas possibilidades de convivência com o semi-árido etransformações socioprodutivas na região sisaleira.1.1 Histórico sobre a cultura do sisal O sisal (Agave Sisalana) 11 é uma planta originária de península de Yucatan, no México.As várias espécies dessa planta foram usadas pelos índios em fabricação de objetosdomésticos e de bebidas alcoólicas, tais como a tequila, o pulque e o mexical. Dessa forma,esse vegetal caracteriza-se como resistente à seca, e por isso que no Nordeste encontrou lugarpropicio para a sua implantação. Por ter sido bem adaptada à região semi-árida eraconsiderada como uma planta nativa. 12 Benedita Pereira Andrade , em trabalho de síntese sobre a implantação do sisal naBahia informa que as primeiras mudas foram trazidas da Flórida (EUA) pelo industrialHorácio Urpia Junior no começo do século, precisamente em 1903. Nesse mesmo ano,algumas mudas foram levadas para a Bahia principalmente por sua beleza e sua utilidade parafazer cercas que impedia o gado de alcançar as plantações. Das mudas que chegaram aoterritório baiano, algumas foram enviadas para a Paraíba em 1911, e foi nesse estado que, a11 O agave (que vem do grego agavos = magnífico admirável) é um gênero de plantas de consistência herbácea eescapo floral saliente, que dá origem a várias espécies fibrosas, entre elas o sisal, que é uma fibra dura foliar.Alias, há somente o conhecimento de duas espécies de Agave com valor comercial: a sisalana e a foucroydes.Quando menciono à denominação genérica “sisal”, estarei falando da espécie sisalana.12 ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e Sociedade Rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia. In: LAJES,Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza esociedade: uma visão interdisciplinar. Salvador: UFBA _ Instituto de Geociência, 2002, p. 71-74..
  14. 14. 14partir de 1937, o sisal passou a ser cultivado com finalidade econômica, enquanto na Bahia,isso ocorreu em 1939/1940, trinta e seis anos após a iniciativa pioneira de Horácio Urpia. No nordeste baiano, o sisal obteve maior produtividade em virtude do clima e solofavorável ao cultivo, distribuindo-se especialmente por 20 municípios que posteriormentepassam a integrar o Território do Sisal. Voltado, sobretudo para a exportação, após passar porum beneficiamento, o sisal, pouco a pouco, tornou-se a atividade econômica da região.“Disseminaram-se assim as primeiras sementeiras do „Agave Sisalana‟ sem que Pacífico e osdemais roceiros conhecessem as legítimas riquezas da variedade botânica que aparecia nossertões”. 13 Esse vegetal começa a ser cultivado em Valente na década de 1920, sendo este municípiopertencente, na época, a cidade de Conceição do Coité. O Sr. Pacifico José dos Santos foi opioneiro na plantação de agave na região, mas, inicialmente a sua utilidade era apenas comoadorno ou com finalidade de servir de cerca para separar as propriedade e guardar osanimais.14 A partir disso, ocorre uma progressiva ampliação desse plantio na região e,consequentemente o beneficiamento da fibra do sisal para a fabricação de diversos produtos,sendo estes exportados até mesmo para fora do país. Diante da falta de emprego que atingiagrande parte da população, fazia-se necessário o cultivo de uma lavoura permanente e queresistisse às inclemências das secas. No final da década de 1930 e início de 1940 houve por parte do governo estímulosiniciais para o cultivo do sisal, o qual se espalhou pelas terras semi-áridas do país. OMinistério da Agricultura e do governo do Estado ofereciam prêmios para os maioresplantadores e beneficiadores, essas atitudes contribuíram significativamente para o aumentodas áreas plantadas. “Em poucos anos, as plantações chegaram até perto do rancho.Expulsando a hortinha, as galinhas e a mandioca”. 15 No entanto, com esses estímulos iniciais a produção ficou nas mãos de pequenos e médiosprodutores, e o governo ausentou-se do apoio esperado para a experimentação e pesquisa coma planta. Além disso, concessão de créditos para a lavoura era praticamente inexistente.Nenhuma tecnologia foi oferecida aos agricultores para compensar o seu esforço. Para extraira fibra, o sertanejo recorreu a sua capacidade criativa: inventou o farracho, instrumentorústico, rudimentar, que faz lembrar o tempo da pedra lascada, mas que serviu para os13 RAMOS, José Filho. Sisal: sua história entre nós. Salvador: S.A. Artes Gráficas, 1965, p. 11.14 GALVÃO, Almiro. Valente, estrela do Semi-Árido. Valente, abril, 2004, p. 15-16.15 LIMA, Jorge Pinto. Correio Rural. São Paulo, 1952, p. 50.
  15. 15. 15primeiros desfibramentos, até que foi substituída pelas máquinas atuais, apelidadas deparaibanas, dada sua origem, as quais têm decepado dedos e mãos dos operadores, gerando atriste multidão dos mutilados do sisal. Quanto à intervenção governamental Nonato Marquescomenta: Tudo foi feito na base da improvisação, enquanto o Governo modorrava na sua inércia, à espera dos tributos arrancados de um produto embebido do suor de milhares de nordestinos espoliados pela especulação violenta dos intermediários gananciosos. [...] Mas mesmo assim, produtores fizeram com que, a partir de 1946, o sisal passasse a figurar nas estatísticas baianas para delas jamais sair. 16 Mas, mesmo assim, produtores fizeram com que, A partir de 1946, as exportaçõesaumentassem substancialmente, favorecidas, após a II Guerra Mundial, pelo aumento demercados, devido às necessidades geradas pelo conflito e, sobretudo, devido ao incremento daagricultura na América do Norte e nos novos mercados da Europa Oriental e Ocidental. Em1946, o Brasil tornou-se exportador de sisal e, em 1951, assumiu a vice-liderança na produçãomundial. A Paraíba ocupava o lugar de maior exportadora do Brasil até a década de 60,quando é superada pela Bahia. Nessa mesma década houve um período de alta de preços,provocada pelos acontecimentos políticos que explodiram na África, mas logo em 1965, omercado mundial de fibra mergulhou em profunda crise, com a redução das colheitas e“devido ao surgimento de sucedâneos sintéticos derivados do petróleo (...) o avanço daindústria química e a produção de grande escala reduz substancialmente o preço da fibrasintética, inviabilizando a indústria periférica do sisal”. 17 Apesar da relevância econômica e social do sisal, a exploração da cultura, durante operíodo em questão, foi realizada com baixo índice de modernização e capitalização,resultando em acentuado declínio, tanto da área plantada quanto da produção. Um outro fatorlimitante é o alto custo de produção, devido ao baixo aproveitamento da planta. Assim, diante da contextualização do sisal no Brasil e na Bahia fazem-se necessárioabordar brevemente a introdução desse vegetal na cidade em estudo. O território atual que seconfigura no município de São Domingos, junto com Valente, pertencia primeiramente aConceição de Coité. Desse modo, quando Valente emancipa-se em 1958, o povoado de SãoDomingos passa a pertencê-la. Mas, antes mesmo da passagem do território são-dominguensepara o município de Valente já havia evidências da sisalicultura nas terras dessa localidade,16 MARQUES, Nonato. Histórico sobre a cultura do sisal. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO JoãoAlmarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade, Salvador, 2002 p. 16.17 Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005.
  16. 16. 16aumentando sua produtividade nas décadas seguintes. Na Fazenda do Sr. Pacifico, localizadaem Valente, havia alguns trabalhadores da referida comunidade que já trabalhavam com osisal para fins econômicos. E assim, esses sisaleiros aprendiam as técnicas e o modo decultivar a planta para depois trazerem para os campos de sisal, do então povoado, em quecentenas de famílias passaram a depender fortemente dessa atividade econômica. 181.2 As relações sociais de produção no coração da sisalândia O semi-árido baiano ocupa a região central do estado, representando 60% da superfícieterritorial, abrangendo 258 municípios. 33 destes municípios compunham a chamada regiãodo sisal, que recebe esta denominação devido a sua principal atividade econômica. Essaregião enfrentou um período de decadência após os anos 70 em que as pedreiras, a pecuáriaextensiva e a agricultura familiar de subsistência, ficam sujeitas aos longos períodos de secaque ciclicamente atingem a região, agravando os problemas sociais. 19 No sertão da Bahia destaca-se um terreno de grande potencial para o cultivo desseagave, conhecido como sisalândia. Esse território apresenta características peculiares emrelação às demais localidades do estado, diferenças estas referentes às relações sociais deprodução e intenso cultivo do sisal. Portanto, o termo sisalândia nas palavras de JacquesHubschmar caracteriza-se da seguinte forma: Essa designação é, às vezes, aplicada ao coração do espaço sisaleiro, à área sertaneja no qual se concentra o grosso da produção de fibra. Trata-se, de Serrinha, particularmente da parte ocidental, que se estende entre os rios Itapicuru, ao Norte, e Jacuípe, ao sul, onde se encontram os dois municípios vizinhos de Valente e Santa Luz. Na verdade, essas terras de sisal são, também, arquétipos do sertão, que se assemelham a um espaço relativamente limitado, mas com os mesmos traços característicos do interior do Nordeste. 20 Desse modo, o município de São Domingos encontra-se localizado nesse espaço degrande produção do agave, o qual foi por muito tempo distrito da cidade de Valente18 Depoimento do Sr. Manuel Moséis de Oliveira, 69 anos, neto do Sr. Pacifico José dos Santos.19 RAMOS, Alba Regina; NASCIMENTO, Antonio Dias. Características culturais. Resgatando a infância. Atrajetória do PETI na Bahia. Salvador: MOC/OIT/UNICEF, 2001.20 HUBSCHMAR, Jacques. Olhar sobre o sisal: As pesquisas e a sociedade no sertão sisaleiro da Bahia. In:LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entrenatureza e sociedade, Salvador, 2002, p.2.
  17. 17. 17emancipando-se apenas em 1989, localizando-se numa distância de 261 km da capital doestado – Salvador. Este município na década de 1990 possuía 10.276 habitantes, sendo suapopulação rural correspondente a 66,5% deste total (IBGE, 1991). O Índice deDesenvolvimento Humano (IDH) nesse período é considerado muito baixo – 0, 531, quandocomparado à média nacional. A região sisaleira é também denominada como Território do Sisal. E por essadenominação entende-se que “território é o espaço que se estrutura em virtude de uma açãosocial e que compreende os aspectos econômico, social e político. (...) os territórios são 21compreendidos por ações sócio-políticos regionalizadas”. Nesse sentido, Brandão em seulivro “Território e Desenvolvimento” faz uma crítica e discute a questão do desenvolvimentolocal e o “localismo” que muitas vezes posto como panacéia para o problema dodesenvolvimento nacional. Na sua concepção, a análise regional deve estar pautada numaabordagem territorial. O grande desafio é encontrar uma maneira de tratar ao mesmo tempo enuma perspectiva multiescalar as heterogeneidades estruturais de um país subdesenvolvido eas diversas alternativas de avanço social, político e produtivo. E observa que: Nunca as diversidades produtivas, sociais, culturais, espaciais (regionais, urbanas e rurais) foram usadas no sentido positivo. Foram tratadas sempre como desequilíbrios, assimetrias e problemas. A equação político-econômica imposta ao país pelo pacto de dominação oligárquica das elites, cuja lógica aponto muito sinteticamente neste texto, travou o exercício da criatividade “dos de baixo”, procurando impedir sua politização. 22 Brandão enfatiza, então, a necessidade de construção democrática de estratégias dedesenvolvimento e aponta para os limites teóricos que desafiam a noção de desenvolvimentoterritorial. Dentro dessa idéia de território como local de redes socioespaciais, é que sãobuscados pelas organizações, agentes públicos e atores sociais novas perspectivas de análisepara o Desenvolvimento Rural. Nesse contexto, destacam-se no território do sisal as ações daAssociação de Pequenos Agricultores do Estado da Bahia (APAEB/Valente) e o Movimentode Organização Comunitária (MOC), ambos os mecanismos responsáveis por transformaçõessocioprodutivas nos municípios do nordeste baiano e na vida de muitos sisaleiros da região. A APAEB surge da luta contra a cobrança extorsiva do ICM aos pequenos produtoresrurais, com a atuação regional de defesa econômica e ação sócio-politica. Esse período21 Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005.22 BRANDÃO, A. C. Território e desenvolvimento: as múltiplas escalas entre o local e o global. Campinas, SP:Editora da Unicamp, 2007, p.205.
  18. 18. 18também foi marcado por constantes crises e baixa do preço do sisal. Algumas das mudançaspromovidas pala instituição foi a introdução da batedeira comunitária, adoção de uso racionaldo solo e da propriedade, visando o aumento da produtividade. Em 1993, a APAEB funda acooperativa de crédito que opera, além do significado econômico, produz um valor simbólico 23e pedagógico muito importante. Dessa forma, após a sua estruturação, passa a atuar emoutros municípios circunvizinhos rompendo as fronteiras de Valente, onde encontra instaladasua sede. Com as ações desse organismo na região sisaleira houve mudanças no modo de trabalharcom o sisal. O sisaleiro Luís da Silva relata que “existe uma mudançinha sim, por que de umcerto dia pra cá a gente tá aprendendo até a trabalhar mais, inclusive, através de algunscursos que a gente tomou na APAEB espalhar o resíduo que ninguém espalhava. Hojetambém é... fazer a „silagem do sisal‟24 e utiliza pra gente ter um burrego de corte dar raçãono coxo”. As ações do MOC também se realizam com grande eficácia na região. Criado em 1967, apartir do trabalho da Igreja Católica, esse organismo busca incentivar a emancipação social ea criação de grupos organizados para o exercício da cidadania. O desenvolvimento deatividades de apoio e fortalecimento de associações comunitárias rurais e urbanas, acontribuição do desenvolvimento sustentável da região sisaleira e o auxilio para a atuaçãoqualificada na gestão de políticas publicas são algumas dos trabalhos do MOC. Naperspectiva de convivência com o semi-árido, a instituição desenvolveu os programas de“Água e segurança alimentar”, “Agricultura familiar”, “Comunicação”, “Crianças eadolescentes”, “Educação do campo”, “Gênero”, e “Políticas publicas”. 25 A região de Valente/São Domingos e Santa Luz a sisalicultura contribuiu decisivamentepara manter, nesses municípios, milhares de famílias sertanejas que, na ausência do sisalengrossariam os fluxos migratórios em direção as grandes cidades. Alguns dados mostram deque forma eram ocupadas as terras com o plantio do agave sisalana.23 SANTOS, Vilbégina Monteiro dos. A construção de uma comunidade imaginada do sisal. In: V ENECULT,Faculdade de Comunicação/UFBA, maio de 2009, p.6.24 Consiste numa técnica denominada de ensilagem que utiliza o resíduo da fibra do sisal (mucilagem), que foianteriormente desfibrado no “motor”, para alimentar criações de gado caprino e ovino. A ensilagem pode serfeita ma forma de monte, sobre o solo, coberto com lona; ou em silos do tipo trincheira; ou, ainda, em sacosplásticos, caso em que é necessário que se faça a compressão do material ensilado, com vista a expulsar o arcontido na massa. Ensilada em regiões semi-áridas, 10 dias são suficientes para completar o processo defermentação, sendo então, adicionado mais substâncias transformando-se numa ração nutritiva para alimentar osanimais da região sisaleira.25 MOC - Homepage. Disponível em: www. moc.org. br. Acesso em nov. - dez. de 2009.
  19. 19. 19 Em 1975, o sisal foi uma das principais bases de sustentação da economia regional, responsável pela subsistência de 50% a 60% da população e pela permanência do homem no campo [...] A ocupação do solo com o sisal era de ordem 49,71% em Valente/São Domingos e 21,08% em Santa Luz. 26 A cadeia produtiva do sisal compreende uma numerosa quantidade de pessoas, no qualabriga sisaleiros desde crianças, mulheres e homens que desempenham diversas funções nomanejo com este vegetal. O processo inicia-se com atividades de manutenção das lavouras,colheitas, desfibramento e beneficiamento da fibra e termina com a industrialização e aconfecção de artesanatos. Para cada função há uma ou mais pessoas para desempenhá-la,contudo no campo é realizado a plantação e o desfibramento do sisal. O sucesso do vegetal naregião deve-se a intensa procura do mercado interno e externo pela fibra dessa planta sendoutilizada para a fabricação de cordas de todos os tipos (cabos marítimos, cordas, cordões eoutros produtos similares), diversos tipos de tapetes, sacolas e outros artigos domésticos. A pecuária é uma atividade econômica típica do interior brasileiro, no que se refere aquestão agrária, no entanto devido as condições climáticas adversas para a criação de gado emlarga escala no sertão baiano prevalece a agricultura de subsistência e predominantemente ocultivo do sisal. Para Adaltina Araújo Santana27 é possível plantar outros tipos de vegetaçõesnas terras da região sisaleira, todavia salienta que “vem o plantio do milho, feijão, quiabo,abóbora, mas quando tá chovendo... o que permanece mesmo é o sisal”. A escassez de chuvana região reduz significativamente as alternativas de emprego oferecidas aos trabalhadoresrurais. Por isso, deve-se levar em conta um conjunto de fatores que influenciam no cotidianodesta população, que por sua vez acarreta no desenvolvimento econômico, social e cultural daregião sisaleira. Nos minifúndios (áreas de 1 a 10 há), o fracionamento da propriedade é constante. Todaa família ocupa-se dos trabalhos agrícolas e muitos trabalham em outras propriedades paraaumentar a renda familiar. O sisaleiro Luis da Silva relata que “o que realmente existe aqui éo motô de sisal ou quando algum fazendeiro quer pagar uns dias de roça, mas é muitopouco.” Diante disso, percebe-se que mesmo trabalhando no manejo com o agave a renda nãose torna suficiente para manter a família, sendo então necessário complementá-la comatividades extras, até mesmo devido aos constantes períodos de seca nos quais os motores de26 MOREIRA, Maria Auxiliadora. Nova dinâmica de ocupação do solo no sertão sisaleiro da Bahia. In: LAJES,Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza esociedade., Salvador, 2002, p.21.27 Ex-trabalhadora do sisal, atualmente funcionária do Sindicato de Trabalhadores de São Domingos.
  20. 20. 20sisal param em virtude da escassez da planta e do seu baixo desenvolvimento eaproveitamento na cadeia de produção. A cultura do sisal é uma atividade que exige uma grande aplicação de mão-de-obra. Odesfibramento é feito pelo motorzinho ou máquina paraibana, nas propriedades. Geralmente,os sisaleiros trabalham nas terras de outras pessoas, no qual prestam serviços temporários enão assalariados, ou seja, utilizados para as tarefas bem precisas e no tempo determinado. Onível de emprego de mão-de-obra temporária é maior nas pequenas empresas rurais efamiliares, onde o sisal é a cultura dominante. Os trabalhadores são pagos por tarefa ouquantidade produzida. Não existe contrato, e os acordos são feitos verbalmente. Osproprietários preferem o trabalho temporário, porque permite reduzir sensivelmente os custosde produção e as despesas exigidas pelos encargos sociais. A primeira etapa do processo de colheita do sisal consiste no corte periódico de determinados números de folha da planta, por meio de instrumentos adequados. (...) O transporte das folhas colhidas para o local de desfibramento deve ser realizado na menor distância possível. Na região sisaleira, esta operação é realizada com auxílio de asininos e muares, dispondo as folhas colhidas sobre cangalhas com cambitos (gancho, tipo V, de madeira) ao seu dorso. Um animal pode transportar em torno de 130 a 180 kg. 28 As práticas utilizadas nesse tipo de agricultura são transmitidas de geração a geração. Asmulheres e as crianças representam uma força de trabalho importante, cuja participação éconstante durante uma longa jornada de trabalho, porém com pouco valor econômico. Estaspor sua vez, realizam todas as atividades, exceto as do “cortador”, do “cevador” (operador domotorzinho) e do “bagaceiro” (encarregado de retirar as polpas residuais), que geralmente sãofeitas pelos homens. As mulheres, geralmente, realizam o trabalho conhecido como “estenderfibras”, no qual consiste em colocar para secar as fibras do sisal que foram passadasanteriormente na máquina no processo de desfibramento. Esse processo acontece da seguinteforma: O desfibramento consiste na eliminação da polpa das fibras mediante a raspagem mecânica da folha, através de rotores raspadores acionados por um motor a diesel. A principal desfibradora dos campos do sisal do Nordeste brasileiro é a máquina denominada “motor de agave” ou “máquina paraibana”, que tem baixa capacidade operacional.esta máquina desfibra em torno de 150 a 200kg de fibra seca em turno de 10 horas de trabalho, desperdiçando em média, 20% a 30% da fibra; além disso, envolve um número elevado de pessoas para sua operacionalização. A rusticidade28 ANDRADE, Wilson (org.). O sisal do Brasil. SINDIFIBRAS – Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais daBahia; Brasília: APEX – Brasil – Agência de Promoção de Exportações e Investimentos, 2006.
  21. 21. 21 da máquina exige grande esforço do operador (puxador), que poderá ser uma ou duas pessoas. Em operação normal desfibram-se, em média, 20 a 30 folhas/min, ou 1.200 a 1 800 folhas/h. A fadiga. Aliada à falta de segurança da máquina, expõe os operadores a constantes riscos de acidentes, o que constitui um dos principais problemas da máquina e da operação propriamente dita. 29 O desgaste físico decorrido do trabalho no processo de desfibramento do sisal podeacarretar também na questão das mutilações (mãos e braços) que ocorrem com freqüência em 30toda região sisaleira. Fato este provocado, em virtude do intenso trabalho que o Cevadorpratica na máquina chamada “paraíbana” para obter uma renda semanal maior, pois se ganhapor produção. Além disso, o baixo nível de capitalização da lavoura sisaleira, somada a faltade recursos financeiros, cria um estado de vulnerabilidade perante os oligopólios comerciais,industriais e exportadores, culminando, ao longo do tempo, com o entrave à modernizaçãotecnológica desta cultura. No município de São Domingos na década de 1990 as mutilações nos campos de sisal,segundo os sisaleiros da localidade, foi reduzido bastante comparado-a com décadasanteriores. Os motivos foram os mais diversos que vão desde as modificações realizadas namáquina como pelo cuidado e atenção maior dada pelos trabalhadores no manejo com amesma. É importante salientar que as mutilações acontecem em sua grande maioria empessoas do sexo masculino, pois estes exercem a função mais perigosa no processo dedesfibramento. A ex-trabalhadora do sisal Adaltina Araújo Santana já presenciou oacontecimento e relata que “o momento é muito difícil por que eu acho que a dor é tanta quea pessoa adormece, ele nem geme, depois é que vem gemer, por que a velocidade da máquinaé tão rápida que ele perde a mão e nem vê.” Comenta ainda das mudanças ocorridas nochamado “motor de sisal” sendo um fator da provável redução de acidentes no município “aboca da máquina diminuiu mais, de primeiro era feita a machado, a boca da máquinapassava duas mãos se fosse possível.”. O trabalho infantil nos campos de sisal na década de 1990 foi bastante freqüente eintenso, mas os sisaleiros do município relatam que com o surgimento do Programa deErradicação do Trabalho Infantil (PETI) em 1997 e demais programas do governo reduziramsignificativamente o trabalho de crianças na zona rural. Além disso, estimulou e aumentou afreqüência nas escolas da localidade. Luís da Silva com 46 anos de idade, trabalhador do sisal,29 Idem. Ibdem.30 Cevador é homem responsável pelo desfibramento do sisal. Sendo este quem sofre com o problema demutilação ao manejar a fibra na máquina paraíbana.
  22. 22. 22tece o seguinte comentário sobre a questão do trabalho infantil fazendo analogia com otrabalho na sua época de infância: Naquele período eu estudei lá em Zazá era uma légua e meia, a gente ia e vinha de péis e quando estudei na casa de vó Martim era uma légua e a gente não tinha a chance que tem hoje. Hoje todos lugares os carros passam para pegarem as crianças. Naquele tempo, a gente ia de péis, montando jegue... E hoje em dia tem uma grande tranqüilidade dos meninos, até mesmo a bolsa escola que ajuda a comprar uns materiais. E depois da escola vão pro PETI e aí os meninos hoje em dia... qual o menino hoje em dia que quer aprender pegar uma fibra. Antigamente começava pegando fibra depois ajudando os pais às vezes a cortar uma palha daí com 15 e 16 anos já encarava. Eu quando comecei cevar tinha dezesseis anos, eu não tinha interado dezessete anos, eu aprendi a cevar ai pronto tô até hoje. E graças a Deus não tenho arrependimento não, peço a Deus que quero ter a saúde, tendo a saúde o resto não tem pressa.1.3 As influências do capital externo na economia sisaleira A sisalicultura não depende apenas do mercado interno. As fibras que se produzem noBrasil destinam-se a exportação, principalmente para os Estados Unidos e a Europa.Consequentemente, o país torna-se dependente das decisões dos países consumidores e daoferta dos países produtores no mercado internacional. As constantes flutuações dos preçosdas fibras do sisal se refletem em toda a cadeia de produção, principalmente, na base dessesistema, no qual se encontra o sisaleiro. Em novembro de 1990, o sisal estava em crise. Inúmeras batedeiras em Valente e Santa Luz pararam as suas atividades. Na tentativa de minorar a crise do sisal, os agricultores, os trabalhadores e os representantes sindicais lançaram uma campanha intitulada os sisaleiros pedem socorro, seguida de um desfile, de reuniões e de um conjunto de reivindicações. 31 O preço do sisal durante a década de 1990 oscilou bastante em virtude de dois fatoresprincipais: o panorama econômico internacional e os constantes períodos de seca que assolavaa região nessa década. Durante esse período, ocorreram várias reuniões envolvendo osSindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), associações e autoridades municipais objetivandojuntos encontrarem um saída para a crise que enfrentavam , no qual uma das alternativaspoderia advir de recursos governamentais destinados a região sisaleira.31 ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e sociedade rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia In: LAJES,Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano entre natureza esociedade, Salvador, 2002, p.75.
  23. 23. 23 A seca está provocando falta de sisal para as indústrias e batedeiras. Por isto, o governo está colocando no mercado parte do sisal adquirido pelo Programa de preços Mínimos. Para evitar desemprego na BATEDEIRA COMUNITÁRIA, a APAEB/Valente comprou 460 toneladas de sisal em dois leilões realizados recentemente pela bolsa de Mercadorias da Bahia. 32 O município de São Domingos atravessou um período de dificuldades econômicas emvirtude da seca que afetava a região e, pelas constantes crises do preço do sisal na década de1990. Durante todo o ano de 1993 foi buscado apoio governamental para amenizar a situaçãode calamidade que o município enfrentava nesse período. Para isso, mobilizou-se o Sindicatode Trabalhadores Rurais de São Domingos, autoridades municipais e membros da IgrejaCatólica com o intuito de criar uma comissão municipal de assistência a seca, no qualreceberia uma verba enviada pelo governo estadual, em parceria com o poder federal, paradesenvolver o programa denominado de “Frente de Serviço ou Frente Produtivas”. 33 Esse Projeto criado no governo de Itamar Franco consistia em amenizar a fome e odesemprego gerado pela seca na região Nordeste, para tal finalidade eram disponibilizadosdurante alguns meses desse ano recursos financeiros, que por sua vez, revestiam-se emempregos para pessoas de baixa renda. Essas pessoas recebiam meio salário mínimo mensalpara trabalharem realizando serviços públicos e capinando estradas na localidade. Éimportante salientar que a geração de empregos provisórios atendia a população rural e urbanacomo medida de emergência nas cidades que mais sofriam com a seca naquele período, omunicípio de São Domingos empregou nessa época quatrocentos e cinqüentas habitantes noreferido programa. 34 Em março de 1995 o jornal Folha do Sisal anuncia “Preço do sisal bate recorde históricono mercado mundial”. A reportagem aborda o melhor preço que o agave obteve nos últimos10 anos. Isso em virtude do aumento do consumo do produto no mercado externo,principalmente pela valorização da celulose e, também, por se tratar de um produto,biologicamente degradável (Gráfico 02 e 03). Porém, mesmo com este aumento, a situaçãodos trabalhadores do sisal continuou difícil, pois as constantes secas provocaram a paralisaçãode motores e batedeiras em muitos municípios, inclusive, em São Domingos que a maiorgeração de emprego advém da agaveicultura.32 Jornal BATEDEIRA COMUNITÁRIA, p. 01, nº. 13, Valente, Abril de 1993.33 Sindicato de Trabalhadores Rurais de São Domingos. Atas das reuniões realizadas durante o ano de 1993.34 Idem. ibdem.
  24. 24. 24 O sisal sempre pára de vez em quando, todo mundo sabe é a seca né? Por que sempre baixa o preço do sisal, mas se tiver chovendo sempre continua o motô rodando, por que nesse município, nessa região sisaleira a renda é o sisal, mesmo, ou seja, bom ou seja ruim de preço tem que rodar, só pára em tempo de seca. 35 Gráfico 02 – Exportação de Fibras e Manufaturados Gráfico 03 – Exportação de Tapetes Fonte: Sindifibras As crises periódicas na sisalicultura é uma característica constante no país, apesar dodinamismo do Brasil nesse setor, os preços ficam a mercê das flutuações do mercado. Em1995 a área plantada de agave sisalana reduziu-se a metade do que já havia sido cultivado emanos anteriores. Nesse mesmo ano foram plantados 92. 807 hectares de sisal espalhados porCampo Formoso, Conceição do Coité, Itiúba, Jacobina, Mirangaba, Ourolândia, Queimadas,Retirolândia, Santa Luz, São Domingos, Valente, Várzea Nova e outros. 361.4 Fibras de agave: cordas do progresso O agave sisalana representa para a região do nordeste baiano um meio de sobrevivência e mais do que isso um progresso no setor econômico, social, político e cultural. O sisal pode ser a solução de muitos problemas do semi-árido nordestino, pois apresenta várias possibilidades de desenvolvimento sustentável para os municípios que realizam a sisalicultura e seu beneficiamento. A APAEB transforma as fibras produzidas na região sisaleira em fios, que através dos teares são transformados em tapetes e carpetes. Isso agrega valor ao produto e gera 600 postos de emprego, no qual inclui pessoas de vários municípios vizinhos de Valente. Além disso, são desenvolvidos vários projetos e cooperativas que trabalham com a fibra do agave na confecção de diversos produtos artesanais. Dentre estes, se encontra a35 Depoimento de Adaltina Araújo Santana, ex-trabalhadora rural.36 Jornal FOLHA DO SISAL, Ano 8, nº. 40, Outubro de 1997, p.2.
  25. 25. 25 cooperativa “Mulheres de Fibra”, essas mulheres saíram do motor do sisal e constituíram com o apoio de sindicatos, sociedade civil e entidades públicas, a Cooperativa Regional de artesãs de fibras do sisal (Cooperafis), por isso a denominação bastante sugestiva mulheres de fibras. O trabalho delas realiza-se da seguinte forma: São colchas bordadas, bolsas e chapéus de fibra fina de sisal, variados objetos de decoração. O sucesso foi imediato e ultrapassou as fronteiras locais. Chegou a Salvador, São Paulo e começa a ganhar o mundo. Dignidade e cidadania cresceram frutos de trabalho e dedicação. Atualmente são 122 cooperadas distribuídas em nove núcleos de produção, nos municípios de Araci, são Domingos e Valente. 37 A agaveicultura pode também transformar a vida dos pequenos produtores e sisaleirosque vivem no sertão baiano mediante ações e investimentos aplicados em instalações deindústrias que utilizem a fibra do agave na fabricação de diversos produtos para exportação.“A fibra do sisal pode ser utilizada na fabricação de pasta celulósica, empregada na fabricaçãodo papel Kraft, de alta resistência, e de outros tipos de papéis finos. Pode também serempregado na indústria automotiva, de móveis e eletrodomésticos e na construção civil.” 38 As atividades econômicas e as associações existentes na região sisaleira, especialmenteno município de São Domingos, são desenvolvidas basicamente em torno do sisal. Esse fatoestá intimamente relacionado à quantidade de pessoas que sobrevivem direta ou indiretamentedo: cultivo, desfibramento, beneficiamento, exportação ou atividade artesanal nos principaiscentros produtores de agave da Bahia. Além do desenvolvimento e contribuição desse produtono setor primário e secundário, nas últimas décadas nota-se uma crescente urbanização eprogresso no setor terciário, pois este por sua vez, depende consideravelmente do capitalmovimentado nos município proveniente da sisalicultura. Na verdade, se o sisal é por um lado uma preciosidade e riqueza para muitos produtores,por outro lado é visto pelos sisaleiros como meio de sobrevivência e esperança de um futuromais próspero com grandes plantações do agave nas suas pequenas propriedades. Sendoassim, mesmo diante de precárias condições de trabalho, dos constantes períodos de seca edas cíclicas crises no preço do sisal o sisaleiro acredita que as fibras do agave são cordas doprogresso. Todavia, para que isso ocorra é necessário um planejamento na questão dodesenvolvimento rural em regiões semi-áridas, posto que muitas estratégicas de sobrevivênciapraticadas e propagadas, por guardarem relação de similaridade com formas de convivência37 RECENA, Luiz. Sisal o território da esperança. In: Territórios rurais, nº1, jan./jun., 2005, p.19.38 ANDRADE, Op. cit., 2006.
  26. 26. 26no semi-árido, não resultam em estratégias de convivência do semi-árido propriamente dita. Adistinção pode ser explicada da seguinte forma: Para que fique claro a distinção, podemos dizer que as estratégias de sobrevivência são práticas de valência social da população local, em geral, para conviver com as privações infortúnios no(grifo do autor) Semi-Árido. Ao contrário, as estratégias de (grifo do autor) Convivência com o Semi-Árido são modos de superar as mazelas do subdesenvolvimento naquilo que têm de mais especifico no Semi-árido brasileiro: o agravamento da dependência e da exploração, o aumento das vulnerabilidades socioambientais e a situação de insustentabilidade de certos meios e modos de vida. 39 As estratégias de desenvolvimento rural no nordeste baiano são primordiais para seefetivar verdadeiramente as ações governamentais e/ou privadas que alcancem e promovaprogresso no âmbito social, econômico e cultural. Para isso, é de extrema importância queesse sujeito, o sisaleiro, seja colocado no centro das discussões dessas estratégias deplanejamento rural no sertão da Bahia e, a partir disso, possa ser percebido as organizações eatores locais que refletem contextos sócio-espaciais específicos e interesses em disputa emtorno da questão do desenvolvimento. Portanto, o ambiente cultural deste trabalhador do sisal,antes de tudo um sertanejo, diz muito sobre seu cotidiano e sua vida de um modo geral. A cultura é a parte importante do capital social porque os saberes acumulados, as tradições, os modos de vínculos com a natureza e as capacidades naturais de auto- organização são de grande valia para as populações pobres, pois são suas dotações iniciais. A democratização cultural, com a criação de espaços de vivência e convivência acessíveis aos setores mais desfavorecidos, pode abrir canais de integração social. 40 Ao longo dos últimos dez anos, houve um desenvolvimento nas associações dascomunidades rurais, o que propiciou o surgimento de formas e estratégias econômicas, sociaise culturais de convivência na região sisaleira. Diante disso, o estereotipo em torno do semi-árido baiano é visto de modo simplificado, como uma região problemática em que as soluçõesestão distantes ou inacessíveis da população. No entanto, as alternativas muitas vezes, estãotão próximas e não utilizadas como deveriam para beneficiar a região, procurando até mesmona revitalização da produção sisaleira e, em escala mais ampla, na revitalização do território.39 NASCIMENTO, Humberto Miranda. A convivência com o semi-árido e as transformações socioprodutivas naregião do sisal – Bahia: por uma perspectiva territorial no desenvolvimento rural. XLVI congresso da SociedadeBrasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. UCSAL: Salvador. S.d., p. 4. 40 Idem. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA. São Paulo: Annablume, 2003, p.22..
  27. 27. 27Capítulo II – MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E MUSICAIS NOSERTÃO NORDESTINO Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-la como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Stuart Hall Este capítulo enfoca o significado que ao longo do tempo foi atribuído ao sertãonordestino. A partir disso, discute a imagem que também foi conferida ao semi-árido baiano ea importância das expressões culturais na vida dos sertanejos, os quais retratam seus costumesnas manifestações artísticas existentes no seio de sua comunidade.2.1 Cultura popular nos sertões do Brasil O termo cultura popular configura-se numa gama de definições e conceitos que lhesforam atribuídos em diferentes épocas e contextos distintos, que envolvem disputas teóricas epolíticas na História. Para Martha Abreu o conceito de cultura popular não está engessado emdefinições imutáveis. Na sua concepção “pode ser visto como uma perspectiva, no sentido deser mais um ponto (de vista) para se observar a sociedade e sua produção cultural”. 41 Nesse sentido, a cultura popular é um instrumento da história que serve para evidenciardiferenças e ajudar a pensar a realidade social e cultural de uma determinada sociedade. Nas 42palavras de Chartier “a cultura popular é uma categoria erudita” , devido a dificuldade ouimpossibilidade de detectar o que é genuinamente do povo, ou mesmo de se precisar a origemsocial das manifestações culturais, em função da histórica relação e do intercâmbio entre osmundos sociais, em qualquer período da história. Segundo Chartier correndo o risco desimplificar ao extremo, é possível reduzir as diversas definições de cultura popular em doisgrandes modelos de descrição e interpretação. O primeiro, no intuito de abolir toda forma de etnocentrismo cultural, concebe a cultura popular como um sistema simbólico coerente e autônomo, que funciona segundo uma lógica absolutamente alheia e irredutível à da cultura letrada. O segundo, preocupado em lembrar a existência das relações de dominação que41 ABREU, Martha. Cultura Popular: um conceito e várias historias. In: ABREU, Martha, SOIHET, Rachel(orgs.). Ensino de Historia: conceitos, temáticas e metodologias. Rio de Janeiro: Cada da Palavra, 2003, p.84.42 CHARTIER, Roger. “Cultura popular: revisitando um conceito historiográfico”. Revista Estudos Históricos(Rio de Janeiro), vol. 8, n. 16 (1995), p. 179.
  28. 28. 28 organizam o mundo social, percebe a cultura popular em suas dependências e carências em relação à cultura dos dominantes. 43 As idéias postas por Ginzburg em muito contribuíram para resgatar o mundo da culturana história como também promoveu estudos sobre uma “história vista de baixo”, no qualpassaram a ser discutidos questões como o de circularidades culturais e apropriações desujeitos históricos com uma variável e razoável autonomia. Dentro dessa perspectiva culturale das constantes interações e compartilhamento entre culturas, o historiador inglês PeterBurke lança o termo “biculturalidade” para abordar o intercâmbio de práticas culturaispopulares assimiladas por membros da elite, ao mesmo tempo em que preservavam a própriacultura. Apresenta ainda várias contribuições significativas no campo da Nova HistóriaCultural e trás uma excelente discussão no seu livro “O que é história cultural?”. Na suaperspectiva, qualquer definição de História Cultural passa pelo o campo interdisciplinar, locale momento em que a noção de Cultura sofre modificações para oferecer aos historiadoresalgum potencial analítico e explicativo. Na verdade, o termo “cultura” e “cultura popular” não possuem definições prontas eestabelecidas, iguais aos verbetes em dicionários. Os conceitos foram sendo ampliados com opassar do tempo e assim recebendo novas atribuições de significados. Para Peter Burke ovocábulo “cultura” ainda é mais problemático do que o termo “cultura popular”, poiscaracterizar e definir o que não é cultura tornam-se uma tarefa mais difícil do que classificá-lo. Sendo assim, o conceito em geral é usado para referir à “alta” e “baixa” cultura, as ciênciase artes, seus equivalentes populares (músicas folclóricas, medicina popular, e assim pordiante.), uma ampla gama de artefatos (imagens, ferramentas, etc.) e práticas (conversar, ler,dentre outros). 44 Sobre “cultura popular” Burke comenta: Os especialistas várias vezes sugeriram que as muitas interações entre cultura erudita e popular eram uma razão para abandonar de vez os dois adjetivos. O problema é que sem eles é impossível descrever as interações entre o erudito e o popular. Talvez a melhor política seja empregar os dois termos sem tornar muito rígida a posição binária, colocando tanto o erudito como o popular em uma estrutura mais ampla. 4543 Idem, ibdem, p.179.44 BURKER, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p.42-43.45 Idem, ibdem, p.42.
  29. 29. 29 Enfim, essa discussão sobre a definição de “cultura” não é o foco deste trabalho, mascomo coloca Thompson “não podemos esquecer que a „cultura‟ é um termo emaranhado, que,ao reunir tantas atividades e atributos em um só feixe, pode na verdade confundir ou ocultar 46distinções que precisam ser feitas” . Então, conceitos a parte, a História de modo geralsempre estará recebendo novas conceituações e inovações em seus campos de estudo, emvirtude dos constantes questionamentos e pesquisas suscitadas em contextos históricosdistintos. Diante disso, o conceito perpassa várias conjunturas e épocas históricas de maneira que apartir das décadas de 1940-1950, a cultura popular é utilizada sob uma perspectiva maispolítica associada ao populismo bastante difundido na América Latina. No Brasil, a partir dofinal do século XIX a expressão cultura popular se difunde entre folcloristas, antropólogos esociólogos, entre outros intelectuais da época que discutiam a construção de uma determinadaidentidade cultural para o país. A cultura popular brasileira possui uma estreita relação com a difusão das idéiasfolclóricas no país, visto que, como na Europa e também na América Latina serviu para aformação das novas nações do século XIX e XX, resgatando assim o passado e os sentimentospopulares do período. Dessa forma, atrelado a questão da valorização e exaltação da produçãoartística nacional apropriou-se fortemente da produção dos sertanejos e dos caboclos dointerior, objetivando enfatizar o que permanecia como traços de uma identidade cultural eétnica, pautada pela integração cultural sincrética das três raças. No entanto, a partir de 1960severas criticas são feitas as produções folcloristas, no qual eram vistas como simplórias e nãodetectavam a fundo os problemas das classes populares em foco e muito menos sobre oprocesso de dominação presente na sociedade da época. Na verdade, após esse períodorecebeu “significados negativos, assumindo até mesmo conotações ligadas ao anedótico e aoridículo”. 47 Se a discussão em torno da cultura dos setores não desapareceu, atrelou-se, em grande parte, ás avaliações sobre os aspectos que levaram à sua alienação ou não consciência de classe, o que possibilitou a consolidação de uma série de visões preconceituosas sobre a cultura popular: cultura fragmentada, conservadora, presa às tradições, obstáculos a mudanças sociais, conformista e supersticiosa. As reflexões sobre as manifestações culturais dos homens e mulheres comuns acabaram ficando, mais uma vez, prisioneiras das armaduras ideológicas de seu próprio tempo. 4846 THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo; Companhiasdas Letras, 1998, p.22.47 ABREU, Martha. Op. cit., p.87.48 Idem, ibdem, p.88.
  30. 30. 30 Os primeiros estudos no Brasil relativos à cultura popular voltaram-se para o campo dapoesia. As pesquisas foram inicialmente conduzidas por correntes filosóficas e científicasvigente na Europa e que marcaram época entre os intelectuais brasileiros como, por exemplo,o positivismo que foi bastante significativo nos estudos dos fatos folclóricos no país. No que tange ao papel da cultura popular idealizada por muitos pesquisadores naconstrução da identidade nacional, deve-se atentar para as possíveis homogeneizações feitasem todo o território brasileiro com relação ao valor que determinadas práticas erepresentações culturais significam para população do país. Pois, a diversidade culturalprecisa ser levada em conta no que se refere à idéia de regionalidade e, acima de tudo, aosaspectos econômicos, sociais e culturais que marcam a identidade e o modo de vida de umadeterminada população de uma região ou território brasileiro dentro de um marco histórico.Essa questão é detectada por Fressato quando menciona que “a cultura popular em que sebaseiam os intelectuais para formulação da identidade nacional é típica dos centros urbanosdo sudeste, notadamente de São Paulo e do Rio de Janeiro, não considerando asespecificidades das culturas regionais”. 49 Dentre tanta diversidade cultural existente no território nacional encontra-se uma queestá profundamente arraigada na cultura brasileira, seja na arte e literatura popular ou ainda noimaginário do povo, no qual está presente a idéia de “sertão”. A etimologia da palavra aindanão possui uma definição única e limitada. Segundo Janaína Amado o vocábulo deriva dedeserto (deserto, desertão, sertão), atrelado a essa hipótese e dando-lhe maior ênfase estão ascaracterísticas naturais e humanas ligadas aos termos: aridez, despovoamento, travessia.Segundo outros autores, o termo suscitaria do latim clássico serere, sertanum (traçado,entrelaçado, embrulhado), desertum (desertor, aquele que sai da fileira e da ordem) edesertanum (lugar desconhecido para onde foi o desertor). 50 No Brasil, desde o período colonial, a palavra sertão recebeu a conotação de interiordo território brasileiro e por isso foi empregado para representar as mais diversas áreasdependendo da localização do qual fala enunciante. Dessa forma, em virtude de suaabrangência e imprecisa definição de delimitação territorial segundo a história brasileira pode,então, ser denominado de sertão o interior de São Paulo e da Bahia, os estados de MinasGerais, Goiás e Mato Grosso, além do sertão nordestino, o qual é conhecido e popularmente49 FRESSATO, Soleni Biscouto. Cultura popular: reflexões sobre um conceito complexo. Oficina Cinema-História. Núcleo de Produção e Pesquisas da Relação Imagem-história. S. d., p.5.50 AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 4.
  31. 31. 31assim denominado devido a condições morfoclimáticas e características peculiares fortementepresente na região. A designação de sertão pode ser caracterizada da seguinte forma: Marcado pela baixa densidade populacional e, em alguns lugares, pela aridez da vegetação e do clima, o sertão assinala a fronteira entre dois mundos, o atrasado e o civilizado. Marcha imprecisa que recobre o interior do Brasil, melhor seria a referência a “sertões”, no plural. Pode-se afirmar que relativo ao espaço geográfico ou ao imaginário social, sertão é sempre plural. 51 No período de colonização, o sertão foi, de modo geral, visto com significados negativoscomo espaços distantes povoado por indígenas, animais e mitos. Tornou-se também refúgiopara os expulsos da sociedade colonial, incluíam-se degredados, criminosos, fugitivos que 52buscavam um local para reconstruir suas vidas. O movimento bandeirante, em fins doséculo XVII e inicio do XVIII, suscita dois fatores fundamentais no povoamento do sertão: aexploração das minas e o desenvolvimento da pecuária bovina, cuja conseqüência, dentreoutras, foi a ocupação de vários territórios que se estendiam do estado de Minas Gerais aooeste da Bahia. Além de todos esses estereótipos que foram ao longo do tempo inseridos na imagempopular, o sertão também recebe características pejorativas como “uma terra sem lei, lugar daviolência, do indistinto e da desordem. O perfil do sertanejo surgia em comportamentos 53condizentes com o meio social, distante as autoridades régias”. Outro traço bastantecaracterístico dessas regiões diz respeito ao ideário de pobreza, atestada nas casas simples ehumildes com poucos móveis. Parte dessa população era composta de trabalhadores volantes,que buscavam moradia de favor junto a algum grande proprietário ou que optavam vagarpelos campos desertos, fazendo roçados para sobrevivência com suas famílias. 54 É importantesalientar que muitas dessas características permanecem posteriormente ao período decolonização e povoamento do interior do país e se estende pelos séculos seguintes. A cultura dos sertões manifesta-se na religiosidade popular; na literatura de cordel, quetransmite lendas, contos e “causos”; nos rodeios e vaquejadas; na comida; na poesia; namaneira de vestir; nas danças e na música, com semelhanças e peculiaridades por todo o país.51 ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. Cultura e identidade nos sertões do Brasil: representações na músicapopular. S.d., Disponível em: http://www.hist.puc.cl/historia/iaspmla.html. Acessado em nov. de 2009.52 SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII, Ed. Graal, 2ª ed.,Rio de Janeiro, 1986, p. 85.53 ALENCAR, Op.cit. p. 2.54 ARAÚJO, Emanuel. Tão vasto, Tão Ermo, Tão Longe: o sertão e o sertanejo nos tempos coloniais. In: DELPRIORI, Mary (org.). Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro:Campus, 2000, p.145.
  32. 32. 32Todas essas representações da cultura popular sertaneja trazem, sobretudo, o seu modo devida expressando o cotidiano e o contexto socioeconômico ao qual está inserido. No século XX, apesar do rápido avanço das frentes de expansão e do progresso demodernização que atingiu o sertão brasileiro, o sentimento de inferioridade ainda mantinha-seem relação ao litoral. Os atributos pejorativos foram assim carregados pela população dessasregiões como uma identidade negativa e inferior no que diz respeito às outras regiões doBrasil por serem considerados do interior, caipira e sertanejo. Como já foi mencionadaanteriormente essa visão preconceituosa com relação ao sertão brasileiro passa a ser utilizadade maneira inversa quanto à significância que o termo é atribuído. No final do século XIX,mais propriamente na década de 1870, a cultura sertaneja torna-se um elemento de relevânciano contexto identitário da nação em processo de construção. A oposição á dicotomia litoral-sertão fez surgir uma produção intelectual que, expressando a preocupação com a construção de uma nação unificada, procurava superar aquela dicotomia. Sertão se tornou, então, categoria essência do pensamento brasileiro. Na cultura do interior do país, esses autores encontravam as fontes mais puras da racionalidade. 55 As manifestações culturais expressas na música saem das ruas para os salões junto comuma maior valorização das danças rurais postas como componentes da música popular. Máriode Andrade escreveu sobre esse período: “A música popular cresce e se define com umarapidez incrível, tornando-se violentamente a criação mais forte e a caracterização mais bela 56da nossa raça”. Esse fato pode ser constatado no período Vargas (1930-1945), no qual oEstado brasileiro se fez presente, de forma enfática, na direção da incorporação do sertãocomo forma de construção da nação e a ideologia nacionalista atingiram momentos deeuforia.2.2 O sertão como lugar Os conceitos, definições e abordagens do termo sertão ao longo da história brasileira foipermeada por expressões pejorativas, ou então, serviu de elemento inerente em determinadasconjunturas políticas para finalidades identitárias. Desse modo, os dados apresentados nos55 ALENCAR, op.cit., p. 5.56 ANDRADE apud ALENCAR, ibdem, p 4.
  33. 33. 33permitem evidenciar a existência de sertões diferenciados, com peculiaridades, dinâmicas erelações sociais diferenciadas umas das outras. Nesse caso, o sertão nordestino, bem comotodas as demais regiões assim denominadas, não pode ser enquadrado nessa visãogeneralizante de sertão, apesar da característica marcante ligado ao desenvolvimento daatividade agropecuária, cada sertão brasileiro possui aspectos econômicos, geográficos,sociais, culturais e políticos distintos e de interações diferenciados em escala nacional. O vocábulo “sertão” também em alguns casos recebe uma conotação institucionalizadareferente ao espaço no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas(IBGE), esse termo pode ser designado oficialmente como uma das subáreas nordestinas,árida e pobre, situada a oeste das duas outras, a saber: “agreste” e “zona da mata”. Nessesentido, comumente no imaginário popular relaciona-se o termo a região mais sofrida e secado Nordeste. Esse estereótipo, muitas vezes, é construído quando se considera essa parte doterritório brasileiro como marginalizado do “progresso” ou desenvolvimento cultural eeconômico do país. Por muito tempo na história brasileira relacionou-se o conceito de caipira ao universopertencente ao sertanejo. E assim, ganharam espaços no país personagens como Jeca Tatu, deMonteiro Lobato, como uma figura que deixava o espaço rural que era personificação doatraso, do caipirismo sertanejo, emperrando o desenvolvimento nacional. Como se o homemdo campo, do interior (sertão) devesse ser adaptado a conjuntura urbana e sulista do país.Todavia, o sertanejo/nordestino apresenta características diferenciadas dessa concepçãodifundida do caipira na sociedade brasileira. Isso não significa que especulações e estenótipossejam amenizados, O historiador Durval Muniz Alburquerque Jr. no seu livro “A Invenção doNordeste e outras artes” comenta sobre a imagem construída do nordestino e o necessáriodeslocamento dos lugares fixos de opressor/oprimido e inventor/inventado, promovendoassim um questionamento em torno da produção imagético-discursiva criada em torno dosNordeste. 57 Desse modo, nota-se a discrepância entre o “Brasil de cima” - Norte/Nordeste - e o 58Brasil de baxo” - Sul/Sudeste. Essa diferença é fundamentada na sobreposição de umaregião sobre outras, no qual baseia e propaga-se a imagem de um povo nordestino carregadode estigmas como: tabaréu, miserável, agressivo, anti-social, intelectualmente inferior, dentre57 ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009, p.153.58 Patativa do Assaré apud VASCONCELOS, Claudia Pereira. A construção da imagem do nordestino/sertanejona construção da identidade nacional. II ENECULT, Faculdade de Comunicação /UFBA, Salvador, maio de2006, p.7.
  34. 34. 34outras caracterizações. Enquanto, exalta e afirma um Sul como o espaço concentrador dedesenvolvimento, moderno, educado e altamente superior no que se refere a “cultura”brasileira. Alburquerque Jr. retrata também essa imagem construída historicamente do Norte, queenglobava o Nordeste, e do Sul visto como centro político, econômico e cultural do país. Essediscurso-imagético é exposto no subcapítulo “Norte versus Sul”, na sua obra já mencionada,no qual expõe o discurso construído e disseminado por décadas de um Norte atrasado,marcado pelo barbarismo, pela miséria e pela seca que se tornava o ponto de discussão paraatrair investimentos. Além disso, o cangaço e o messianismo também eram concebidospejorativamente como elementos próprios da natureza da região. Por outro lado, o Sul seria ofundamento da nação onde toda a alta cultura se formava e permanecia. De acordo com osparâmetros naturalistas as questões do meio e da raça eram responsáveis pelo distanciamentoentre ambas as divisões regionais do país. Esse mesmo autor aborda ainda a imagem que o sertão passa a possuir quandorelacionado ao Nordeste. “O sertão deixa de ser aquele espaço abstrato que se definia a partirda „fronteira da civilização‟, como todo o espaço interior do país, para ser apropriado peloNordeste. Só o Nordeste passa a ter o sertão e este passa a ser apropriado pelo nordeste”.Então, o sertão era sinônimo de péssimas condições de vida e um local atribuído,principalmente, a uma região desfavorecida e marcada pelos estereótipos excludentes e, assimmarginalizada do restante do país. Na verdade, “o espaço nordestino vai sendo dotado de umavisibilidade e dizibilidade; desenhado por um agrupamento de imagens rurais ou urbanas, dolitoral ou do sertão, domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas eescritores”. 59 Diante disso, o homem que retrataria o Nordeste, segundo o movimento regionalista,seria o sertanejo como um ser forte, acima de tudo, revestido de coragem, um herói comocoloca Euclides da Cunha que para sobreviver precisa enfrentar rotineiramente as maisadversas situações no ambiente em que vive. Segundo Alburqueque Jr., O tipo nordestino vai se definindo como um tipo tradicional voltado para a preservação de um passado regional que estaria desaparecendo... Se situa na contramão do mundo moderno, rejeita as suas especificidades, sua vida delicada e histérica. Um homem de costumes conservadores, rústicos, ásperos, masculinos: um macho capaz de resgatar aquele patriarcalismo em crise; um ser viril, capaz de retirar a sua região da situação de passividade e subserviência em que se encontrava. 6059 ALBUQUERQUE Jr., Op. cit., p. 134.60 Idem, ibdem, p. 162.
  35. 35. 35 Outra diferenciação de sertões caracteriza-se pela vertente cultural, que apresentaaspectos peculiares de perceber o sertão e o modo de vida sertanejo. Para este pontoconvergem fundamentalmente expressões como a literatura e a música. Segundo JanaínaAmado “„sertão‟ ocupa ainda lugar extremamente importante na literatura brasileira,representado tema central na literatura popular, especialmente na oral e de cordel, além decorrentes e obras literárias cultas”. 61 A denominada “geração de 1930” composta essencialmente por Graciliano Ramos,Raquel de Queirós, José de Lins Rego, Jorge Amado e muitos outros consagrados literatosforam, por sua vez, responsáveis pela construção de conturbados e desafiadores sertõesnordestinos, de forte significado social. No entanto, muitos historiadores destacam JoãoGuimarães Rosa como um dos mais renomados autores ligado ao tema, o qual aponta umsertão singular, marcado por conflitos e contradições humanas que aparecem de forma maisintensa sobre a proteção da crueza do território geralmente áspero. E assim, “[...] comGuimarães o sertão deixa de ser o indesejável para se converter no inevitável. [...], o sertão é oespaço privilegiado do entendimento do ser humano”. 62 A importância de Guimarães Rosa é incontestável quanto à ressignificação doimaginário do sertão em nível nacional. Todavia, deve-se acrescentar autores como AntonioGonçalves da Silva, Patativa do Assaré, o guardião de saberes e sensibilidade do povonordestino. Recebeu tal apelido por ter nascido no município de Assaré (Ceará) e pordesenvolver uma poesia comparada, pela espontaneidade, com o canto sonoro da patativa.Aprendeu a tocar viola, desenvolveu o gosto pela arte cantando e versejando com famososcantadores do Nordeste. Uma das obras mais conhecidas “Cante lá que eu canto cá” publicada em 1978, o poetafica conhecido nacionalmente e tem seu nome registrado na história da cultura popularbrasileira. Os fatos que sucedem em sua carreira são marcas do reconhecimento oriundo dasua maneira ímpar de fazer poesia. Isso ocorre porque a figura de Patativa traz em sicaracterísticas da oralidade. Os poetas formais escrevem seus versos, o recurso utilizado eradisposto pela memória e pela fala; o que dizia ou cantava era transcrito por outras pessoaspara o papel, porém seu texto permaneceu na história através de uma manifestação fiel aoscódigos da expressão oral. Característica esta bastante comum entre os nordestinos,trabalhadores na roça, que mal sabem escrever seu próprio nome, mas carregam consigo a arte61 AMADO, Op. cit., 1995, p.3.62 PIMENTEL, Sidney Valadares. O chão é o limite: a festa de Peão de Boiadeiro e a domesticação do sertão.Editora UFG. Goiás, 1997, p.19.
  36. 36. 36e as cantorias expressas em versos sobre um sertão carregado de estigmas e esperanças deuma vida melhor. Na verdade Patativa retratava na sua fala a vida simples no sertão, a coragem de falar dascoisas erradas e a poesia engajada a esses aspectos são objetos de estudos para muitaspesquisas que envolvem o sertanejo. Outro autor que aborda essa temática é GracilianoRamos, no qual inscreve o sertão nordestino no imaginário nacional. Em “Vidas seca”,emerge um sertão árido, difícil, onde homens e mulheres lutam contra a seca e contra aexploração social. A opressão da seca ao lado da opressão apresentada pelos fazendeiros epelo Estado. Já na obra Os Sertões de Euclides da cunha o nordestino é representa da seguintemaneira na visão de Cláudia Vasconcelos: É neste cenário de organização de imagem opostas do nordeste e nordestino que a celebre obra de Euclides da Cunha Os Sertões, publicada em 1902, pode servir como uma das fundamentações para ambos os argumentos, completamente dispares entre si. O seu discurso ambíguo e contrastante oferece substrato suficiente para produzir tanto uma estereotipia negativa em que se inferioriza o sertão/nordeste, quanto uma estereotipia positiva em que se enaltece esta região e o seu povo. 63 Dessa forma, os discursos sobre o sertanejo/nordestino nem sempre é posto na literaturabrasileira como genuinamente positivo e enaltecedor. Essas características, sejam elasexaltadoras ou preconceituosas, estão presentes também em outras artes como a pintura, oteatro, o cinema e, em especial, a música e em diversos meios de comunicação e programashumorísticos. A difusão desse ideário posto, muitas vezes, como inerente a cultura brasileiraencontra sua significância quando Guimarães Rosa (1965) comenta: “o sertão está em todaparte; o sertão está dentro da gente”. Contudo, isso não significa que a cultura nordestina sejaaceita e respeitada, de modo geral, como identidade nacional e igualada ao centro sul do país,apesar das diversas tentativas, outrora ou mais recentemente, para sua inserção como parteintegrante da unidade brasileira ainda precisa romper obstáculos e ser reconhecida evalorizada em âmbito nacional. O historiador Alburquerque Jr. também problematiza esse nordestino tão difundido eesboçado no “romance de trinta” que se institui com “temas regionais”. Ele discute justamenteessa imagem disseminada de um Nordeste vitimizado pelas condições climáticas, onde a secapassa a ser o fator causador de um meio homogêneo que, portanto, teria também originadouma sociedade homogênea. Tudo isso, na concepção do referido historiador, gerou uma série63 VASCONCELOS, Op. cit., 2006, p.5.

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