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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
CENTRO DE LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

Alcilene Costa de Souza
Ana Mônica Monteiro
Cleide Lúcia Magalhães de Souza

O ARRAIAL DA CULTURA POPULAR PARAENSE
É SÓ PAVULAGEM

BELÉM - PA
Março / 2003

1
Alcilene Costa de Souza
Ana Mônica Monteiro
Cleide Lúcia Magalhães de Souza

O Arraial da Cultura Popular Paraense é só Pavulagem

MONOGRAFIA
APRESENTADA
AO
CURSO
DE
COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL
DO PARÁ COMO REQUISITO PARCIAL PARA
OBTENÇÃO DO CURSO DO GRAU DE BACHAREL EM
COMUNICAÇÃO
SOCIAL
–
HABILITAÇÃO
EM
JORNALISMO, SOB A ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA
MS. ROSALY DE SEIXAS BRITO.

Belém / PA
Março / 2003
2
“Para conhecermos a cultura de um povo não deveremos ser etnocêntricos, mas estar
abertos para entender toda a história e representações em que ela está inserida”.
(Cleide Magalhães)

“Celebremos a mobilidade, os conflitos, a ternura, a fluidez, a beleza que emergem do
interior de cultura que cada povo escreve ao longo de sua existência. Ë por esse espelho que
percebemos o que vai no íntimo, o que vai na alma de cada um de nós. Portanto, celebremos”.
(Ana Mônica Monteiro)

“A beleza da cultura popular está na maneira criativa de interpretar o mundo, incorporando
e transformando elementos do erudito e do massivo, em algo próprio.”
(Alcilene Costa)

3
AGRADECIMENTOS

Ao Arraial do Pavulagem por ter nos dado a sua valiosa contribuição ao disponibilizar sua
atenção e material de arquivo para a concretização deste trabalho.
Ao Centro de Educação e Práticas Populares – CEPEPO que nos ofereceu condições para
desenvolvermos a parte complementar desta monografia que é a produção do vídeo –
documentário “Batalhão da Estrela”.
A professora Rosaly Brito por ter-nos norteado na elaboração desta monografia.

4
A Deus,
Aos pais,
Aos amigos e professores,
que nos incentivaram durante

a

vida de estudantes.

5
SUMÁRIO

1 – Resumo

7

2 – Introdução

8

3 - Um sonho que virou cantoria

10

4 - As Culturas Populares na Contemporaneidade

25

5 – O Arraial do Pavulagem: Identidade em Rotação

42

6 - Considerações Finais

58

7 – Referências

60

6
RESUMO
Este estudo discutirá a cultura popular, tendo como objeto de análise o
Arraial do Pavulagem, grupo que nasceu em 1987 com a finalidade de divulgar,
juntamente com a participação popular, a cultura paraense. O Arraial, como ícone
da cultura popular, não apenas reproduz as manifestações populares, mas
também cria, renova e incorpora elementos, tanto da cultura amazônica como de
outras regiões como linguagem, estilos e instrumentos musicais. Assim, em
função do Arraial do Pavulagem misturar elementos do culto, do popular e do
massivo e construir o sentido de identidade cultural amazônica, constitui-se num
rico exemplo para mostrar que a cultura é dinâmica e está em constante rotação.
Palavras-chave: hibridismo – cultura popular - identidade
ABSTRACT
This study will argue the popular culture, having as analysis object the
Arraial of the Pavulagem, group that was born in 1987 with the purpose to divulge,
together with the popular participation, the paraense culture. The Arraial, with the
icon of popular culture, not only reproduces the popular manifestations, also
create, renew and incorporate elements, as much of the Amazonian culture, as of
others regions as the language, styles and musical instruments. Thus, in function
of the Arraial of the Pavulagem to mix elements of cult, of popular and of mass and
to make the sense of Amazonian cultural identify, consist in a rich example to show
that the culture is dynamic and it is in constant rotation.
Key-words: hybrisdism - popular culture - identity

7
INTRODUÇÃO
Para esboçar algumas discussões sobre a cultura popular e o processo de
hibridização, torna-se necessário fazer referências pontuais sobre a noção de
cultura que norteia este trabalho, realizando um breve, e certamente limitado
percurso do conceito até a sua compreensão em tempos de transformação global.
Assim, pode-se perceber como a cultura foi sendo compreendida ao longo do
tempo e ampliação do conceito na medida em que se tornou necessário atentar
para o significado de hibridização nas relações interculturais promovidos,
principalmente, pela globalização.
As condições desse processo devem ser observadas tendo como ponto de
partida o duplo processo, tanto global quanto local, que permite, no mesmo tempo
e espaço, a expressão de vozes diferentes e contrastantes. Trata-se, portanto, da
transposição de identidades, tempos e práticas de sociabilidade, reconstituindo o
cenário da cultura contemporânea.
Em decorrência desse processo de diversidade cultural, explicitada nas
atuais condições de intercâmbio, são as trocas simbólicas que consolidam e reconfiguram as noções de pertencimento em todas as suas possíveis expressões.
É nesse mundo conflitante de pluralidade e centralismo - formado por
diversos “eus”, tribos, identidades centradas e/ou múltiplas - que tentaremos situar
o nosso objeto de estudo, o Arraial do Pavulagem, que surgiu em 1987, na Praça
da República.
Sua proposta inicial era apenas uma brincadeira descontraída, que
acontecia sempre aos domingos. Porém, hoje, o Arraial é um ícone da cultura
popular paraense, onde estão representados vários elementos das diversas
manifestações existentes nas regiões Norte e Nordeste do país como marujada,
retumbão, xote bragantino, carimbó, boi-bumbá, reggae e lundu. Configurando-se,
assim, motivo suficiente para a análise das transformações a que a cultura está
sujeita, pois entendemos que esta não pode ser vista como algo estático e
acabado, mas que é ressignificado e que vai muito além da visão purista da busca

8
de raiz, ou seja, está em constante construção e interação com os outros “campos
sociais1”.
Além disso, situaremos a cultura popular dentro do sistema capitalista, que
se apropria, reorganiza e ressignifica as manifestações culturais.
No primeiro momento deste estudo, há uma contextualização histórica do
objeto; no segundo momento, serão apresentadas as questões teóricas, que
norteiam as discussões sobre a cultura popular. Para finalizar, situaremos o Arraial
do Pavulagem no contexto da discussão da cultura popular como fruto do
processo de hibridismo cultural.
Além desta monografia, foi produzido o vídeo-documentário “Batalhão da
Estrela”, que trata sobre o Arraial do Pavulagem, ilustrando e complementando a
temática tratada neste trabalho.

Campo social: “uma rede, ou uma configuração de relações objetivas entre posições definidas objetivamente, na sua
existência e nas determinações que impõem aos seus ocupantes, agentes ou instituições, pela sua situação presente e
potencial ... na estrutura de distribuição do poder (ou capital), cuja posse comanda o acesso aos benefícios específicos que
estão em jogo no campo, assim como pelas suas relações objectivas com outras posições... " (Pierre Bourdieu, La
Distinction - Critique Sociale du jugement, Minuit, Paris, 1979)

1

9
1º CAPÍTULO
UM SONHO QUE VIROU CANTORIA
A história do Arraial2 do Pavulagem3 começou em 1987, a partir de uma
brincadeira que reunia aos domingos na Praça da República4 diversos artistas
locais numa rodada de cantoria, que misturava ritmos diversos e empolgava quem
passava pelo local. A partir daí, começa a
ganhar

corpo

o

sonho

de

Ruy

Baldez,

compositor, cantor, poeta e um dos fundadores
do Arraial. Entre eles havia afinidades para
tocar e cantar ritmos do norte e nordeste como
os de Bragança5, Parintins6 e São Luiz7. A
princípio, o grupo era denominado “O Boi

Túnel das mangueiras, na
Praça da República

Pavulagem do Teu Coração” e somente a partir
de 1988 passou a se chamar “Arraial do Pavulagem”. A mudança no nome foi
devido a possibilidade de ampliar-se e trazer o universo de elementos da cultura
popular para o Arraial, a fim de que este se tornasse um painel de representação
dessa cultura e não se restringir somente ao boi–bumbá.
Eles eram músicos, compositores, lutando por espaço e divulgação de suas
obras. Segundo Ronaldo Silva, a intenção imediata não era a criação de um boibumbá, mas a formação de platéia, um público que justificasse o esforço de
produção, divulgação e principalmente, fosse o complemento da cadeia de
fortalecimento da música paraense. “Nós sentíamos, ao lado de outros
compositores, músicos letristas, legítimos agentes históricos responsáveis por
2

Arraial: lugar onde se realizam as festas populares
Pavulagem: a palavra vem de “pavão”, ave fasianídea de bela plumagem. Mas, na linguagem popular paraense significa
pávulo, formoso, metido, sem modéstia.
4
Praça da República: uma das principais praças da cidade de Belém, capital paraense. A sua construção foi no início do
século XVIII, período áureo da extração da borracha e, além disso, é um dos espaços públicos de lazer mais freqüentados
da cidade.
5
Bragança: município localizada no nordeste paraense e fica a 210 quilômetros de Belém. Todos os anos, no mês de
dezembro realiza a Festa da Marujada, em homenagem a São Benedito, santo padroeiro da cidade.
6
Parintins –cidade do Médio Amazonas, com cerca de 60 mil habitantes caboclos. Todos os anos, no último final de
semana de junho, a cidade realiza o Festival Folclórico de Parintins.O evento reuniu em 2002 aproximadamente seis mil
brincantes e mais de 35 mil espectadores.
7
São Luiz: capital do Estado do Maranhão, localizado no Nordeste do Brasil.
3

10
esse desafio de fortalecer a música brasileira. Por isso, ampliamos o universo e o
nosso campo musical para divulgar o carimbó, lundu8, xote bragantino9,
retumbão10, quadrilha e o boi-bumbá”.
“Vou contar uma história do Mangue
Que fala do sonho que teve o Baldez,
Quando foi pro Acará sem governo...
Era o boizinho azulado
Que ele ia ver crescer e alegrar a cidade”
(“A Lenda, o Sonho” / Ronaldo Silva)
No início, o Arraial do Pavulagem era formado pelos músicos Arytanã,
Cincinato Marques, Dimmi Alberto, Júnior Soares, Luiz Pinto, Mari Martel, Nazako,
Ronaldo Silva, Ruy Baldez e contou com a participação do poeta Antônio Juracy
Siqueira, entre outros. Em 1994, o Arraial ganha mais um integrante, o cantor e
compositor Toni Soares. Ele trouxe uma sonoridade mais universal para o grupo
que antes tinha uma concepção mais voltada para o regional. A partir da idéia de
Toni, o ritmo do reggae-boi foi introduzido no Arraial. Em janeiro de 2003, o cantor
saiu do Arraial do Pavulagem por discordâncias internas.
A preferência do grupo pelo regional é devido a forte ligação que os
componentes têm com seu lugar de origem. Por exemplo, Júnior Soares tem suas
raízes de Bragança. Porém, mesmo os que nasceram em áreas urbanas como
Ruy Baldez - São Luís (MA), Ronaldo Silva e Toni Soares - Belém (PA),
receberam influências das culturas rurais, no caso de Cachoeira do Arari
12

do Marajó

11

- Ilha

e da já citada região bragantina.

Um dos objetivos do Arraial do Pavulagem é divulgar a cultura paraense em
todas as suas vertentes, tanto na dança e música, quanto na expressão da cultura
e da arte cênica. Além disso, possibilitar que a população conheça os ritmos e
linguagens e possa reinventar essa cultura e criar mecanismos de participação.
8

Lundu: dança sensual de origem africana, com ritmo semelhante ao retumbão
Xote Bragantino: dança de origem Européia( Escócia) e típica da Festa da Marujada.
10
Retumbão: dança de origem africana e da Marujada.
11
Cachoeira do Arari: cidade localizada no oeste da Ilha do Marajó, esta última palavra de origem indígena que significa
vento fresco, que sopra à tarde do lado da Ilha do Marajó..
12
Ilha do Marajó: uma das maiores ilhas fluviais do mundo, localizada no delta do Rio Amazonas, no Pará.
9

11
Em 22 de junho de 1999, o grupo sofreu uma grande perda com o
falecimento de Ruy Baldez, e isso acabou funcionando como mecanismo de
estímulo para novas ações do Arraial do Pavulagem, com os remanescentes do
grupo. Ainda hoje a imagem de Baldez se faz presente no Arraial através de
músicas e poesias que os artistas fazem em sua homenagem. Isso se deve à
relevante contribuição que Baldez deixou para o Arraial e também à cultura
popular paraense. Dentre essas homenagens, há a poesia do artista Antônio
Juracy Siqueira:
“Baldez – A voz que nunca Rui”
Calou do pássaro a voz,
Mas vejam só! por encanto,
Ficou vibrando entre nós
Os acordes do seu canto!
Partiu Baldez!
Partiu nada!
Só fez que foi mas não foi
Pois deixou a voz gravada
Em mil toadas de boi
Por sina, por devoção
Ou talvez por pavulagem
Resolveu seguir viagem
Em noite de São João
Vai cantador! Vai na frente!
Vai cantar pra outros bois!...
Vai em paz, segue na frente
Que a gente segue depois!
À medida que o tempo passava, o Arraial do Pavulagem amadurecia
enquanto proposta de ação cultural, buscando substanciar sua produção artística
através de pesquisas musicais, consultas de discos e livros que abordavam a
música popular, principalmente a regional. Assim, eles conseguiram reunir um
repertório variado e de boa qualidade, acima dos modismos. “Têm também
pesquisas que a gente fez, dos artesãos de brinquedos de miriti13, em Abaetetuba,
13

Miriti: palmeira existente na Amazônia, porém em outras regiões é conhecida como buriti.

12
Itancoã-Mirim e Guajará-Miri14, o trabalho com os remanescentes de Quilombo,
com o boi Malhadinho, uma das maiores riquezas que a gente tem”, ressalta
Ronaldo Silva.
A relação entre o Arraial do Pavulagem e o boi Malhadinho, tradicional do
bairro do Guamá15, na passagem Pedreirinha, formado somente por crianças,
surgiu para mostrar e fortalecer a manifestação folclórica do boi-bumbá na
comunidade. “O Arraial como fazia um trabalho de palco tinha a intenção de
mostrar como era o tradicional. Fizemos pesquisas, inclusive o Ronaldo Silva
participou dos trabalhos de resgate do Malhadinho, que é da década de 30. Aí a
gente passou a conhecer o lado tradicional”, comenta Nazareno Silva16.
O Arraial utilizou-se de outros instrumentos como violão e contra baixo,
aliados aos tradicionais como barricas e tambores, surgindo assim, uma parceria
entre o Malhadinho, que representa o tradicional e o Arraial que remete ao novo.
“Traz meu chapéu enfeitado, meu tambor
Traz a matraca, vaqueiro da Pedreirinha
Traz o bilhete do Nazo
Diz o recado, meu mano,
Diz quem mandou
Que o Guamá ta em festa,
Tem valor, jardim em flor
Tem malhadinho no pasto (...)”
(“Bilhete do Nazo” / Ronaldo Silva e Toni Soares)
Foi a partir da saída em cortejo17 pela Praça da República, que contava
também com a presença de um boi de talinha18, que o Arraial do Pavulagem
começou a ganhar prestígio do público e, assim, conseguiu espaço para se
apresentar no Teatro Waldemar Henrique, localizado nessa praça, aos domingos.
Segundo Júnior Soares, as apresentações eram gratuitas e foram de tamanha
aceitação pelo público – o que fez com que o grupo resolvesse cobrar um preço
14

Guajará Mirin: município do Estado de Rondônia, na região Norte do país
Guamá: bairro localizado na periferia de Belém. É também uma das áreas mais populosas da capital.
16
Em entrevista concedida ao arquivo de imagens do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na Praça da
República.
17
Cortejo: reunião de pessoas que saem em festa pelas ruas da cidade.
18
Boi de Talinha: primeira representação do boi-bumbá no Arraial do Pavulagem.Era um boizinho feito de miriti e
espetado ao meio com uma tala de bambu.
15

13
simbólico no valor do ingresso. Porém, isso não foi muito bem aceito, pois uma
parte do público não tinha condições de pagá-lo. Então, a outra alternativa
encontrada foi a contribuição espontânea, através do que o grupo chamou de
“rolar o chapéu” numa alusão à esmolação19 dos santos católicos.
Em 1988, os integrantes do Pavulagem, entusiasmados com o prazer que o
cortejo junino20 provocava neles e nos brincantes, resolveram profissionalizar as
performances, cuidando mais dos arranjos, apurando os ritmos e as melodias e
fazendo composições específicas para o grupo. “Com o exercício da composição,
criamos a cara do Boi Pavulagem. E a imagem do Pavulagem pôde ser um pouco
mudada, ou melhor, acrescida, com a entrada de um boi doado pelo folclorista
bragantino ‘Bibiano’. O boi de talinha continua, mas terá agora um boizinho vestido
por uma criança do Malhadinho do Guamá", conta Ronaldo Silva. Outra novidade
foi a presença dos violeiros. Da percussividade dos primeiros anos, o Pavulagem
acrescentou instrumentos como o saxofone, contrabaixo, violão, tambores,
barricas, claves e tambor de onça (estes quatro últimos de fabricação artesanal) –
e um trabalho de vocalização. Ainda nesta época, o Arraial teve a sua primeira
participação em um projeto chamado “Eu quero Cultura”, da Rádio Cultura FM,
com a música ‘Toada do Igapó’, de composição de Rui Baldez e Ronaldo Silva.
Com essa motivação, veio a gravação da fita
cassete "Pavulagem do Teu Coração", no Estúdio Edgar
Proença, da Rádio Cultura FM, com arranjos de Tinoco
(teclados),

Ney

Conceição

(contrabaixo),

Dadadá

(percussão), Bererê (bateria), Júnior Soares (voz e violão),
Toni Soares (voz e violão), Ruy Baldez (voz e maracas) e
Ronaldo Silva (voz e tambor). A produção foi de Adriana
Sampaio e Beto Fares, produtor e radialista da Rádio
Fita Cassete

Cultura FM. O lançamento aconteceu no dia 03 de junho de
1994, no Teatro Waldemar Henrique.

19

Esmolação: prática popular voluntária que antecede as festividades católicas e consiste na arrecadação de
dinheiro à realização das festas populares religiosas.
Junino: é referente a quadra junina, festejos que acontecem no mês de junho.

20

14
A partir daí, o grupo foi convidado pelo artista e cantor paraense Nilson
Chaves, sócio da gravadora “Outros Brasis”, para a transformação das doze
músicas dessa fita cassete no primeiro CD do Arraial do
Pavulagem, chamado ”Gente da Nossa Terra”. Além disso,
acrescentaram-se três vinhetas e cinco composições inéditas:
Tupinambá, o Treme Terra (mistura do reggae e boi); Gueto
da Regueira (no estilo roots-reggae); as toadas Reunida e
Guarnecendo, além do xote Bela Certeza. Dentre estas

1º CD

composições, a música Batalhão da Estrela é considerada uma das mais
importantes para o grupo, pois já foi executada por outros artistas paraenses e,
além disso, é a mais conhecida pelo público e tocada ainda hoje em todos os
shows do Arraial.
“Abre os olhos morena
Vem ver meu boi
Ta vindo da estrela
Traz batalhão afiado
E o couro bordado
Pra contrário ver
Do arraial que é do sol
Do arraial que é da lua
Do povo na rua
Do meu guarnicê”
(“ Batalhão da Estrela”/ Ronaldo Silva e Toni Soares)
Em 1995, o grupo lança o segundo CD, intitulado
“Sotaque do Reggae-Boi”. Nele, o grupo misturou e
incorporou ritmos como xote, retumbão, quadrilha, reggae21 e
carimbó22 As músicas possuem uma linguagem mais pop e
incluem instrumentos como guitarra e teclados eletrônicos.
2º CD

Para Júnior Soares, essa combinação teve o objetivo de

21
Reggae: Ritmo de origem da Jamaica, na África, que passou a ser conhecido no Brasil, possivelmente, através do cantor
Jimmy Cliff, em um dos Festivais Internacionais da Canção que aconteceram no fim dos anos 60.
22
Carimbó: Dança de origem indígena, que recebeu influência africana. È uma das mais famosas danças folclóricas do
Estado do Pará. O título curimbó é formado por duas palavras: curi = pau oco e m’bó = furado. Assim, o pau que produz
som. Posteriormente, a troca das vogais de curimbó para corimbo e para carimbó, denominação mais conhecida da dança.

15
modernizar as leituras musicais do cancioneiro popular, afinal “não somos um
grupo folclórico, por isso não temos o compromisso de preservar algo na sua
forma original, mas somos criadores e intérpretes da cultura popular. O que resulta
em boas sonoridades, nós mostramos ao público”, diz Júnior.
“Bate tambor no baque do reggae-boi
bate tambor, retumbão e marujada
balança boi que a galera do farol
balança boi vai rompendo a madrugada.
Dança de boi pela rua
Em noite clara de lua
Faz o coração bater
Num compasso acelerado
E quando o navio apita
Segue o reggae-boi na praia.”
(“Bate Tambor” / Ronaldo Silva)
Ainda nesse período danças coreográficas foram introduzidas no Arraial.
Elas misturam ritmos tradicionais com moderno e tem como objetivo provocar
maior interação entre o público e o grupo. Segundo Max Soares, dançarino e
coreógrafo do Arraial, as danças foram introduzidas através de uma pesquisa
sobre os ritmos do boi-bumbá de Belém, Parintins e do próprio Arraial do
Pavulagem.
Embora haja uma preocupação de Max Soares em não tornar as
coreografias estilizadas, ele ainda é alvo de críticas. “Existe até uma polêmica
comigo porque dizem que estou fazendo um boi aeróbico, porém, tento modificar
um pouco, mas não fugindo da linha do boi-bumbá”, defende-se Max Soares. Vale
ressaltar que ele faz não somente coreografias do boi - bumbá, mas também de
variados ritmos como o retumbão, quadrilha23 e o reggae-boi.
Para o grupo, a dança, assim como as indumentárias, têm sido o maior
desafio, pois o boi-bumbá não pode ficar alheio às danças, às indumentárias,
porque possui uma linguagem específica.

23

Quadrilha: dança de origem européia do começo do século XIX. Ela foi trazida para o país através dos portugueses
colonizadores.

16
Com a introdução das danças, o público passou a interagir mais com o
grupo e a experimentar os ritmos tocados por eles. Ao mesmo tempo, as
coreografias trazem traços tradicionais, misturados com modernos.
O terceiro CD – Arrastão do Pavulagem - foi direcionado para a
manifestação do Arrastão do Pavulagem. Este CD mostra
somente os ritmos de boi-bumbá. “Nós pensamos em 30
toadas24, que caíram para 16, depois escolhemos 14
músicas que compõem esse CD do arrastão”, explicou
Toni Soares25. O repertório foi produzido em parceria com
Beto Fares e contou também com a participação do
Mestre Emílio Silva da Paixão, amo do boi-bumbá “Flor do

3º CD

Campo”, considerado um dos mais antigos de Belém e de artistas paraenses
como Nilson Chaves, Kátia Teixeira, Sabá Moraes e Almirzinho Gabriel. O CD
trouxe um painel musical com obras de domínio público e uma leitura musical
moderna e atual, utilizando elementos rítmicos tradicionais, elaborando a partir
daí, uma releitura de folguedo paraense.
“Eiá lá vai o céu
Lumiô céu
Meu canto de saudade
Clariô céu
Levou chapéu de fita e maracá na mão
Partiu no mês de junho, mês de São João”
(“Lumiô Céu”/Toni Soares)
O último CD, pré-lançado no dia 20 de dezembro de
2002, no Instituto de Artes do Pará (IAP), reúne ladainhas e
folias em homenagem a São Sebastião26, do município de
Cachoeira do Arari. Porém, a idéia do lançamento partiu de
uma apresentação, no Teatro do Centur, da Comissão de
4º CD
24

Toadas:músicas no ritmo de boi-bumbá
Em entrevista baseada no arquivo de imagens do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na praça Pedro
Teixeira, localizada no Cais do Porto, em Belém.
26
São Sebastião: santo católico (de origem francesa), padroeiro dos vaqueiros e fazendeiros, na Ilha do Marajó.
25

17
São Sebastião, que são os esmoladores do santo na região do Marajó,
principalmente nas cercanias de Cachoeira. As músicas são compostas a partir de
uma concepção de contato e de reinterpretação do mundo cultural marajoara27.
Além disso, no novo CD o grupo faz experimento de outros instrumentos
acústicos, como: rabecas e violinos, além de misturá-los com sons pré-gravados.
“A nossa intenção era produzir um disco para eles. Na busca de parcerias
para a realização do projeto, recebemos um convite do poeta, professor de
Estética e Pesquisador da Cultura, João de Jesus Paes Loureiro, que naquela
ocasião, era presidente do IAP para, além de fazer um disco com as folias do
Marajó – da comissão de São Sebastião – complementar com um segundo disco
com a nossa visão sobre o Marajó, e a proposta foi de ser uma viagem virtual
àquela região, como se saíssemos de Belém, de barco em direção à Cachoeira do
Arari, ‘descobríssemos’ as folias e voltássemos a Belém com este encantamento
nas nossas composições e foi o que fizemos”, explicou Júnior Soares.
“Lá vai lá vai
Minha beleza de gado
Navegando rio acima
Aportando no Acará
Mandei recado
Balancei o maracá
Na porteira abril cancela
Pro meu batalhão passar...
(“Acará sem Governo” / Arraial do pavulagem)
Ao longo dos anos, passaram muitos músicos pelo grupo, que, se por
vários motivos não continuaram, de alguma forma o Arraial do Pavulagem de hoje
reflete a participação deles. Entre os que passaram estão: Ruy Baldez, Luis Pinto,
Aritanã, Lúcio Mouzinho, Alcyr Guimarães, João Moleque, Poli, Maurício Nery e
Nazaco, Tony Soares, entre outros.
Segundo Júnior Soares, o grupo já passou por várias mudanças ao longo
dos seus dezesseis anos de existência. “Estamos em constante ebulição, sempre
mudando a forma de fazer, mas com o mesmo objetivo. Entre as principais
27

Marajoara: pessoa que nasce na Ilha do Marajó.

18
mudanças durante toda a nossa trajetória posso destacar a estruturação do grupo
musical, que no início era um grupo de percussionistas que tocava em frente ao
Teatro Waldemar Henrique; a introdução de instrumentos eletrônicos na banda;
minha entrada e saída dos outros integrantes; mistura dos ritmos reggae com o
boi; entrada, saída e depois entrada de novo do Toni Soares e a estruturação do
Arrastão do Pavulagem, com a entrada de Walter Figueiredo, um dos
organizadores do Arraial, em 1998.
O grupo se prepara para gravar um disco ao vivo com músicas que são
conhecidas pelo público, mas que nunca foram registradas pelo Arraial do
Pavulagem como “Marujada de São Benedito”:
“Marujada de São Benedito
Em louvor ao protetor
Vem vestindo azul ou vermelho carmim
Na festa, no barracão”
(“Marujada de São Benedito” - Júnior Soares / Edu Filho)
1.1- As interfaces do Arraial do Pavulagem
O Arraial do Pavulagem é responsável por quatro ações que estão
integradas e têm o objetivo de resgatar a cultura popular paraense, conforme
discriminados abaixo:
1.1.1 – A Banda
A

banda

tem

sido

o

foco

determinante para todas as ações do
Arraial,

embora

os

complementares,

ou

projetos
seja,

sejam
estejam

intrinsecamente ligados. Surgiu quase
Banda do Arraial, na Praça da
República

que simultaneamente à manifestação na
Praça da República, em 1987. Os

19
instrumentos mais utilizados inicialmente foram tambores, guitarras, violões,
percussão e contra baixo.
De acordo com Ronaldo Silva, o objetivo da banda é “experimentar e vestir
os ritmos que são tradicionais da música popular paraense. É reinventar esses
ritmos e fazer conviver essas células dentro de um conceito futurístico”. A
gravação do CD faz parte de uma estratégia de registro e divulgação dos ritmos e
toadas de boi-bumbá dentro e fora do Estado do Pará. A última formação da
Banda, em 2002, é a seguinte: percussionistas Edgar Júnior; Nazareno Silva;
Ginja; Chico Henriques (bateria); Calibre (Contra baixo); Marcelo Pyrull (guitarra);
Júnior Soares e Toni Soares (Violão) e Ronaldo Silva (Vocal).
1.1.2 – Rodas de Boi
As Rodas de Boi são reuniões lítero-musicais envolvendo amos de bois
tradicionais, grupos parafolclóricos, músicos, compositores, bailarinos e artistas
populares diversos. Esses encontros são inspirados nas "esmolações" das festas
dos santos, que visam os preparativos e a permanência dos cultos sacros e
profanos. As peregrinações pelas cercanias do lugar prevêem o desenvolvimento
e a mobilização da comunidade acerca da festividade. As rodas de boi têm o
objetivo de difundir os ritmos da região, bem como mobilizar os produtores da
cultura popular e disponibilizar um produto cultural, com a finalidade de contribuir
para o fortalecimento do turismo na capital paraense. Elas se realizam sob duas
vertentes: as rodas de boi, com base fixa que acontecem todos os domingos, no
mês de junho.O local e data são definidos de acordo com o patrocínio que o grupo
consegue a cada ano; e as com base itinerante que acontecem semanalmente,
nos distritos de Belém, em lugares diversos como currais de boi tradicional e
centros comunitários, escolas, praças públicas e etc.

20
1.1.3- Oficinas Públicas
São atividades sócio-educativas que
vislumbram o desenvolvimento da arte e da
cultura, enquanto processo pedagógico
contínuo. Têm como objetivo valorizar o boibumbá paraense.
Elas são feitas em parceria com a
Fundação Curro Velho e destinadas gratuitamente
às

crianças,

adolescentes

e

adultos

com

realização em espaços públicos. De acordo com
Natan Ribeiro, responsável pelos adereços no
Arraial do Pavulagem, este trabalho iniciou nos
coretos da Praça da República. “Trabalhamos com

Momento da confecção do boi
Pavulagem, em 2001

papel reciclado, papelão e tinta. Chamávamos aquelas crianças que passavam
com seus pais, avós e acompanhantes, para que elas recortassem e dessem
formas aos adereços como estrela, chapéu, lua, fogueira e os colorissem”, explica
Natan28. Posteriormente, em função da necessidade de um espaço maior, as
oficinas passaram a ser realizadas na Escola de Samba Bole-Bole, no bairro do
Guamá. O resultado do trabalho realizado pelas crianças pôde ser visualizado há
três anos com a confecção de estandartes no tamanho oficial, chapéus e
bandeiras com imagens de santos juninos: Santo Antônio, São Pedro e São João
Menino.
As oficinas compreendem uma carga horária de 40 horas e iniciam três
meses antes do cortejo. As atividades enfocam técnicas de adereços de símbolos
juninos, sotaques rítmicos do boi–bumbá paraense, coreografias do Boi,
estandartes e bandeira, máscaras e cabeções, que foram introduzidas há quatro
anos. Os resultados destes trabalhos são apresentados por ocasião os Cortejos /
Arrastões.

21
1.1.4 – Cortejo / Arrastão
O Arrastão do Pavulagem foi a
primeira ação do grupo e é hoje a
culminância das festividades do Arraial, pois
congrega os sotaques rítmicos do boi, com
orquestra e apresentação dos elementos
cênicos e visuais da brincadeira - o boi brinquedo; os estandartes e bandeiras com
Participantes do Arrastão, na
Av.Presidente Vargas

as imagens dos santos festeiros, mastros,

cabeções juninos, brincantes mascarados conduzindo os adereços com os
símbolos da época, na cadência do boi e a cantoria, que expressam as toadas de
amos tradicionais e contemporâneos.
O Arrastão acontece há quinze anos. “Nos últimos quatro anos, o cortejo é
realizado nos seguintes períodos: nos domingos do mês de junho, saindo da
Praça Pedro Teixeira, na escadinha do Cais do Porto, localizada no início da
avenida Presidente Vargas29 e se encerra com um show no anfiteatro da Praça da
República; e na véspera do Círio de Nazaré, saindo da Praça do Operário e
encerrando na Praça do Carmo, na Cidade Velha30”, esclarece Júnior Soares.
Ao longo desse período, muitas mudanças ocorreram. “No início, dávamos
apenas uma volta em torno da Praça da República, tocando e cantando toadas de
boi. Os instrumentos utilizados eram basicamente de percussão como tambores e
barricas. Três anos depois, o Arrastão passou a ser finalizado com um show no
Teatro Waldemar Henrique e, em 1997, acrescentamos elementos novos como a
participação da orquestra”, disse Júnior Soares. No ano de 2000, as novidades
foram a introdução do boi, que antes era representado apenas através do boi de
talinha, além do atual local de saída do Arrastão. Nesse período, o público que
participa do Arrastão aumentou, atingindo em 2002 cerca de cinco mil pessoas.

28

Em entrevista baseada nas imagens de arquivo do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na Praça da
República.
Av. Presidente Vargas: uma das principais avenidas, localizada no centro de Belém.

29

22
“O Arrastão é ainda um processo em construção. A vontade de conhecer
novos elementos da cultura popular é muito grande. Ainda não existe um formato
definitivo”, comenta Ronaldo Silva. Os estandartes com imagens dos santos
católicos da quadra junina abrem o Arrastão. Além dos bois, outros elementos
dessa tradição se juntam à brincadeira, como os vaqueiros da comédia e os
bonecos cabeçudos, numa alusão ao boi de orquestra de São Caetano de
Odivelas31. As toadas são levadas pelos barriqueiros e pela orquestra de sopros.
Bandeiras e muitos adereços de mão colorem essa caminhada.
No primeiro domingo de saída, o Arrastão do Pavulagem traz o mastro de
São João, adornado com frutas e elementos da natureza, através de um cortejo
fluvial, que sai da Praça Princesa Isabel32 e chega à Escadinha do Cais do Porto33.
Depois, é levado pelos participantes da festa pela avenida Presidente Vargas até a
Praça da República, onde é erguido e fica até o final do mês quando é derrubado,
simbolizando o encerramento do festejo. O levantamento do mastro é semelhante
ao que acontece nas festas populares religiosas dos santos católicos.
“A idéia de trazer o mastro de barco é porque a cidade de Belém é de costa
para o rio, assim como o ribeirinho. Então, nós queríamos inventar uma
brincadeira que falasse dessa orla. O barco só encosta quando a gente diz que é
para encostar”, ressalta Ronaldo Silva.
1.1.5 – Cordão de Peixe Boi
A mais recente ação do Arraial do Pavulagem é o Cordão do Peixe-Boi34. É
uma manifestação de rua que tem um objetivo cultural-ecológico em defesa da
vida do peixe-boi. O Cordão pretende compor o calendário cultural da cidade no
período que antecede o carnaval, apresentando ritmos da região amazônica,
como samba de cacete35, carimbó, bangüê36, siriá37 e folias. Este foi o primeiro

30

Cidade Velha: é a parte mais antiga de Belém, nela, acontecem os principais eventos da cultura popular paraense. Além
disso, pode -se encontrar o que restou da arquitetura colonial portuguesa dos séculos XVII e XVIII. São casarões, palacetes
e sobrados que ainda guardam fachadas de azulejos e os mais antigos templos religiosos da cidade.

31

São Caetano de Odivelas: município localizado no nordeste paraense, com cerca de 104 quilômetros de Belém. No mês
de junho é realizado o festival folclórico do Boi de Máscara.
32
Praça Princesa Isabel: localizada no bairro do Condor, periferia da cidade
33
Escadinha do Cais do Porto: localizada na Praça PedroTeixeira, no final da avenida Presidente Vargas.
34
Peixe-boi: mamífero aquático herbívoro, que vive nos rios da Amazônia e está em extinção.
35
Samba de Cacete: mistura de danças como o Síria, Maçarico (de Cametá) e o frevo (de Recife - Ba)

23
ano do cortejo, que saiu no dia 23 de fevereiro. A trajetória inicia-se com uma
concentração na Praça do Pescador, no Ver-o-Pêso38. Depois, o cortejo percorre o
centro histórico da cidade até a Praça do Carmo39, culminando com um encontro
de tambores com a participação de grupos regionais. Apesar do Arraial do
Pavulagem contar com o apoio e estímulo de uma comitiva e de colaboradores, o
grupo enfrenta dificuldades principalmente financeiras, pois não possui uma
estrutura suficiente para trabalhar e poder viabilizar idéias e projetos para o
coletivo. Na opinião deles, à medida que se faz um exercício coletivo, estão
fortalecendo a identidade cultural. Mas para isso, é necessária uma estrutura
maior, possivelmente, no formato de um Instituto ou de uma Organização Não
Governamental - ONG.

36

Bangüê: palavra de origem africana e significa padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana. É variante
da palavra bangulê, dança de negros ao som de puíta, palmas e sapateados.

37

Síria: dança folclórica do município de Cametá, cerca de 150 km de Belém (em linha reta), no nordeste paraense.
Ver-o-Pêso: uma das maiores feiras livres da América Latina. Composto também por praças, mercado e porto. Estes
últimos foram criados em1688, para que fosse mantido o controle das exportações e importações da capital paraense. O
complexo, principalmente, o mercado de ferro, é um dos mais importantes cartão postal da cidade. O complexo do Ver-oPêso candidata-se a patrimônio histórico da humanidade. A sua localização é limitada pela travessa Frutuoso Guimarães e
estende-se até a doca do Ver-o-Pêso, no centro da cidade.

38

39

Praça do Carmo: localizada no bairro da Cidade Velha, que é a parte mais antiga de Belém, onde ainda pode se
encontrar arquiteturas coloniais portuguesas dos séculos XVII e XVIII. São casarões, palacetes e sobrados que ainda
guardam fachadas de azulejos e os mais antigos templos religiosos da cidade.

24
2º CAPÍTULO
AS CULTURAS POPULARES NA CONTEMPORANEIDADE
2.1 - Da origem à problematização
Para entrarmos numa discussão sobre cultura popular, antes de tudo,
devemos entender que ela é parte da cultura universal de um povo e que sua
definição requer uma compreensão no seu sentido lato, capaz de entendê-la nas
suas mais diversas dimensões sociais e simbólicas. Ela é fruto de todo um
processo histórico, que ao longo dos anos, constitui-se através da dinâmica social
das relações de poder.
Conceituar “cultura” é tão complexo, que qualquer tentativa de enquadrá-la
em um conceito definitivo, rígido e fechado pode ser um risco de mascarar o seu
sentido mais abrangente. O fenômeno da cultura ocupa um espaço privilegiado
em todas as teorias sociais. Apesar das diferentes perspectivas sobre o seu
conceito, há o entendimento geral de que se trata de um domínio no sentido da
atividade humana, porque está relacionada com as condições materiais de
produção. A cultura está situada no campo simbólico: não é ação pura, é resultado
do modo como se estabelecem as relações sociais.
O conceito de cultura popular é recente e está intimamente associado ao
processo de urbanização que ocorreu a partir do século XVIII. A cultura popular,
divulgada pelo romantismo, ocupou no imaginário da burguesia oitocentista a
memória de uma sociedade que estava prestes a desaparecer. Neste imaginário,
aparece retratada uma cultura feita por camponeses, símbolos de povo idealizado,
puro e feliz na sua ignorância.
Dois marcos importantes que construíram e reforçaram o sentimento
nacional e representaram tentativas de homogeneização das pluralidades que
compunham a vida nas comunidades e regiões no período medieval foram: a
configuração do Estado Moderno e as Guerras de Religião. Esses pontos estão
associados

às

transformações

no

sistema

de

produção

capitalista

e,

25
consequentemente, à expansão de mercados com a colonização de outros povos,
provocando com isso, o contato entre diferentes culturas.
O próprio sentido dado no dicionário à palavra “cultura”, é alvo de
controvérsias, pois atribui um significado limitado:
“Ato, efeito ou modo de cultivar; o complexo dos padrões
de comportamento, das diferenças, das instituições, das
manifestações artísticas, intelectuais, etc, transmitidos
coletivamente, e típicos de uma sociedade; o conjunto dos
conhecimentos
adquiridos
em
determinado
campo”
(FERREIRA, 2002. p. 197)
A palavra “cultura” é de origem latina e seu significado também está ligado
às atividades agrícolas. É derivada do verbo latino Colere, que significa cultivar.
Pensadores antigos ampliaram esse significado e usaram para se referir ao
refinamento, sofisticação e educação elaborada de uma pessoa.
A utilização do conceito de cultura no sentido figurado como "cultura do
espírito" surgiu no século XVI, com o Renascimento. A importância da
denominação foi enfatizada ao se tornar um símbolo do Iluminismo e dos seus
filósofos como, por exemplo, Hobbes, que designa "cultura" como o trabalho de
"educação do espírito". Esse conceito está baseado na concepção da pessoa
humana como um indivíduo centrado, unificado, dotado das capacidades de ação.
O que prevalecia era o conceito individualista, ao contrário do sociológico, que
segundo Stuart Hall (1998) tinha a identidade formada na interação entre o eu e a
sociedade, ou seja, entre o interior e o exterior.
Alguns teóricos como Kant e Voltaire relacionam a cultura com civilização.
Para eles, a cultura é a medida de uma civilização porque permite avaliar,
comparar e classificar civilizações. Outros pensadores, a inserem numa questão
dialético-histórico como Marx e Hegel, que concebem a cultura como campo
simbólico determinado pelas condições materiais de existência.
Até a primeira metade do século XIX imperou uma concepção tradicional e
singular de cultura - sinônimo de civilização. Nesse período, prevalecia uma visão
etnocêntrica e compartimentada da cultura.
26
Posteriormente, essa concepção moderniza-se graças à importante
contribuição da Antropologia e, numa perspectiva evolucionista, Edward B. Tylor
(1871) faz a primeira formulação do conceito antropológico de cultura, definindo-a
através do desenvolvimento mental e organizacional das sociedades:
"Cultura é o complexo unitário que inclui o conhecimento, a
crença, a arte, a moral, as leis e todas as outras capacidades e
hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade"
(TYLOR, apud GONÇALVES, 1998:2)
No início do século XX, essa teoria é criticada e surgem novas vertentes de
pensamento social como o Funcionalismo, que teve em Malinowsky um dos seus
principais teóricos. Essa corrente entende a cultura como um sistema de
comportamentos aprendidos e transmitidos pela educação, imitação e pelo
condicionamento num dado meio social.
Além disso, na década de 70, surgiu o Estruturalismo que teve C.LéviStrauss como um dos mais importantes teóricos. Essa vertente enfatiza o aspecto
simbólico da cultura ao identificá-la como expressão de sistemas do espírito: a
cultura é uma manifestação do mundo das idéias abstratas do espírito; é um
instrumento de comunicação.
A partir desse momento, surgiram outros teóricos como Lucien Goldmann,
Marcel Rioux, Michel de Certeau, Pierre Bourdieu, E. Verón, que deram grande
contribuição para o estudo do fenômeno cultural. Suas reflexões tinham como
justificativa:
"Procurar vias para superar a aludida concepção
etnocêntrica e compartimentada de cultura e possibilitar uma
análise das relações entre as diversas culturas coexistentes
numa sociedade" (SANTOS, apud GONÇALVES, 1988:2).
2.2 – Folclore, Cultura de Massa e Popular
“Cultura popular” está longe de ser um conceito bem definido pelas ciências
humanas, especialmente pela Antropologia Social. Isso porque lhe são atribuídos
os mais diversos significados e expressões, como “caipira”, “povo” (visto de
27
maneira pejorativa), “inculto”, “grotesco”, “exótico”, “de mau gosto”, etc. Também
freqüentemente é confundida com “folclore” ou com a “cultura de massa”, porque
são expressões de um processo contínuo de mútuas influências e transformações.
Não podemos pensar que cultura popular, por ser uma manifestação
realizada fora do universo acadêmico e das instituições científicas, não tenha valor
social. Ela não é fruto exclusivamente das classes ditas subalternas e sim
resultado de um diálogo entre a cultura dominante e a do povo. Ela faz parte de
um mesmo processo que tanto recebe, quanto influencia na criação de
representações que formam a cultura.
Um dos principais equívocos é pensar a cultura popular como folclore, ou
seja, um conjunto de objetos, práticas, valores, símbolos e concepções
tradicionais parados no tempo.
Essa visão de folclore foi defendida pelos românticos e ilustrados no século
XIX. No entanto, as preocupações quanto ao estudo das manifestações populares
são herdeiras de debates e correntes intelectuais européias desde os séculos XVII
e XVIII, pelos Antiquários, autores dos primeiros escritos, que retrataram os
costumes populares na Europa e, posteriormente, pelo romantismo, poderoso
movimento intelectual e artístico.
“O povo começa a existir como referente do debate moderno
no fim do século XVIII e início do século XIX, pela formação na
Europa de Estados Nacionais que trataram de abarcar todos os
estratos da população. Entretanto, a ilustração acredita que
esse povo ao qual se deve recorrer para legitimar um governo
secular e democrático é também portador daquilo que a razão
quer abolir: a superstição, a ignorância e a turbulência. Por
isso, desenvolve-se um dispositivo complexo. (...) O povo
interessa como legitimador da hegemonia burguesa, mas
incomoda como lugar do inculto por tudo aquilo que lhe falta”
(CANCLINI, 1997: 208)
Vale ressaltar que havia algumas diferenças de pensamento entre os
românticos e ilustrados no que se refere à valorização do passado. Para os
românticos, a cultura popular seria a guardiã da tradição e do passado, enquanto

28
que para os ilustrados, o passado seria um momento de selvageria e ignorância.
Porém, eles pensavam em comum quanto à origem da cultura popular.
“Os românticos se tornam cúmplices dos ilustrados. Ao
decidir que a especificidade da cultura popular reside em sua
fidelidade ao seu passado rural, tornam-se cegos às mudanças,
que a definiam nas sociedades industriais e urbanas. Ao
atribuir-lhe uma autonomia imaginada, suprimem a
possibilidade de explicar o popular pelas interações que têm
com a nova cultura hegemônica. O povo é ‘resgatado’, mas não
reconhecido” (CANCLINI, 1997: 210)
No Brasil, uma ampla movimentação em torno do folclore iniciou-se no
século XX, com o movimento modernista, reunindo nomes como Cecília Meirelles,
Câmara Cascudo, Gilberto Freire, entre tantos outros.
Nessa época, o contexto histórico era marcado pelo avanço da
industrialização e pela modernização da sociedade, o que criou a Campanha de
Defesa do Folclore Brasileiro, organizado pelo Ministério da Educação e Cultura.
Seu objetivo era preservar e divulgar o folclore nacional, que possuía a atribuição
de uma autenticidade, pureza e essência cultural da nação.
“O desenvolvimento de estudos folclóricos brasileiros devese muito a objetivos tão pouco científicos como os de fixar o
terreno da nacionalidade em que se fundem o negro, o branco
e o índio. (...) Ortiz acrescenta que está também associado aos
avanços da consciência regional oposta à centralização do
Estado”. (ORTIZ, apud CANCLINI, 1997: 211-212)
A principal ausência nos trabalhos de folclore é deixar de ver as diferenças
culturais postas pelos movimentos histórico-sociais de uma sociedade de classes
e não questionar o que ocorria com as culturas populares quando a sociedade se
massifica.
As diferenças de classes eram escamoteadas por uma outra visão: a de
homogeneização da sociedade. Essa teoria foi sustentada pelos pensadores
norte-americanos, que criaram as expressões “sociedade de massa” e “cultura de
massa” para dar a entender que as classes sociais haviam desaparecido e,
29
conseqüentemente, o fim das lutas entre elas. Essa teoria foi muito bem recebida
pelos pensadores liberais, porque, para eles, significava o triunfo do discurso da
democracia liberal, em que as divisões sociais se reduziam a divergências de
interesses entre grupos.
Para opor-se a essa apologia da sociedade de massas como democrática
frankfurtianos, trazem os conceitos de indústria cultural e de cultura administrada.
Os principais teóricos da chamada Escola de Frankfurt foram Max Hokheimer,
Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e Walter Benjamin.
A Escola de Frankfurt surge num momento de grandes transformações
sociais e como vanguarda do marxismo, refletindo a problemática da comunicação
nos anos 30, quando se assistia toda a crise social das democracias liberais, à
ascensão do fascismo e à regressão do socialismo na Europa. Grande parte do
pensamento desses teóricos é baseada na relação cultura/capital e no uso intenso
da técnica como instrumento de controle social.
De acordo com a teoria da indústria cultural, a cultura passa a ser uma
mera mercadoria no capitalismo. Assim, o produto cultural torna-se um bem de
consumo, criando um homem unidimensional, a massa homogênea, anônima,
manipulável e sem relevo interno.
Segundo Marilena Chauí, com exceção de Herbert Marcuse, as duas
perspectivas, tanto a americana quanto a frankfurtiana,
“tendiam a concordar em um ponto: a identificação da
cultura popular e da cultura de massa. Indepentemente do
significado antagônico e irreconciliável das duas perspectivas,
deixaram elas um saldo comum que repercute sobre a maioria
das análises referentes à Cultura Popular nos países ditos
centrais ou de capitalismo avançado. A Cultura Popular é
identificada com a Cultura de Massa – Popcult e Masscult
tornaram-se sinônimos ” (CHAUÍ, 1986:27)
Porém, ressalte-se que não se pode tomá-las como sendo idênticas, mas é
permitido dizer que as práticas populares se relacionam com as expressões da
cultura de massa. Esta tende a ocultar as diferenças, os conflitos e as

30
contradições entre as classes sociais, ao contrário da cultura popular que, busca
assinalar aquilo que a cultura dominante pretende omitir.
“A cultura de massa não aparece de repente, como uma
ruptura que permita seu confronto com a cultura popular. O
massivo foi gerado lentamente a partir do popular. Só um
enorme estrabismo histórico e um potente etnocentrismo de
classe que se nega a nomear o popular como cultura pôde
ocultar essa relação, a ponto de não enxergar a cultura de
massa senão um processo de vulgarização e decadência da
cultura culta” (BARBERO, 2001:181)
Deve-se entender a cultura popular como um conjunto de práticas
contraditórias e dispersas, que tem uma dinâmica própria, construída no seio dos
conflitos sociais, incorporando, readaptando e transformando símbolos, signos e
elementos de outras culturas em algo próprio.
“As culturas populares (termo que achamos mais adequado
do que a cultura popular) se constituem por um processo de
apropriação desigual dos bens econômicos e culturais de uma
nação ou etnia por parte dos seus setores subalternos, e pela
compreensão, produção e transformação real e simbólica das
condições gerais e específicas do trabalho e da vida”
(CANCLINI, 1982: 42)
A cultura popular possui originalidade, criatividade, que se transforma,
evolui, incorpora novos signos e os transforma uma expressão forte, identitária de
um povo e, por isso mesmo, revelando com maior amplitude a alma desse povo.
Por isso não é possível falar de cultura popular sem falar da classe social que a
produz.
”Quando você mistura dizendo que tudo é cultura, como se
tudo fosse uma coisa única, você na verdade escamotea a
origem social (...). A sociedade está dividida em inúmeras
classes sociais e cada uma produz a sua expressão de cultura”.
(Paes Loureiro)

31
Nesse sentido, não podemos deixar de fazer referência ao conceito de
hegemonia, porque nesse processo são reproduzidas as relações de poder e a
correlação de forças entre classes sociais que estão em constante disputa por
representatividade.
“A hegemonia vive é sempre um processo. Não é, senão do
ponto de vista analítico, um sistema ou uma estrutura. É um
complexo realizado de experiências, atividades, compressões e
limites específicos e mutáveis. Na prática, a hegemonia nunca
pode ser singular. Suas estruturas concretas são altamente
complexas e sobretudo, não existe apenas passivamente na
forma de dominação. Deve ser continuamente renovada,
recriada, defendida e modificada e é continuamente resistida,
limitada, alterada, desafiada por pressões que não são suas.
Nesse sentido, devemos acrescentar ao conceito de hegemonia
aos conceitos de contra-hegemonia e hegemonia alternativa,
que são elementos reais e persistentes da prática (...).
(GRAMSCI, apud CHAUÍ, 1986:22)
2.3 - Identidades Flexíveis: Desterritorialização e Deslocamento
As questões que cercam a discussão da “identidade” são demasiadamente
complexas e têm sido bastante discutidas por teóricos, principalmente aqueles
ligados aos estudos culturais.
O conceito da identidade cultural vem se transformando ao longo do
processo histórico. Sua discussão ganha força a partir do Iluminismo, cuja
concepção pautava-se num sujeito totalmente unificado, dotado das capacidades
de razão, consciência e ação. Em seguida, esse pensamento dá lugar ao “sujeito
sociológico” do mundo moderno, que se forma na interação social, ou seja, entre
relações com outras pessoas que mediam seus valores, sentidos e símbolos
expressos em uma cultura.
Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas relações que estão
mudando, na medida em que a identidade do sujeito moderno - que era vista
como estável e unificada – torna-se fragmentada. Agora, o sujeito não é mais
formado por uma única identidade, mas por várias. Isso é o que produz o “sujeito
32
pós-moderno”, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou
permanente.
“A identidade plenamente unificada, completa, segura e
coerente é uma fantasia, pois cada vez mais, os sistemas de
significação e representação cultural crescem e se entrelaçam,
colocando-nos diante de um universo complexo de identidades,
sendo que, em cada uma delas, o indivíduo pode se identificar
– ao menos temporariamente”. (HALL,1998: 13)
Dessa forma, o sujeito assume identidades diferentes em momentos
distintos, afetadas tanto pelos processos de socialização quanto de globalização
dos meios de comunicação e informação. A sociedade em que vive o sujeito não é
um todo unificado, uma totalidade, que flui e evolui a partir de si mesma, pois está
também constantemente sendo descentrada e deslocada por forças externas.
“(...) entendo por identidade um processo de construção de
significado com base num atributo cultural, ou ainda num
conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual (ais)
prevalece (m) sobre outras fontes de significado. Para um
determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo identidades
múltiplas.” (CASTELL, 1999: 25)
Com o processo de globalização e industrialização, da expansão dos
mercados, do deslocamento de fronteiras, se amplia a visão de cultura,
introduzindo o conceito de diversidade, de heterogeneidade e de hibridismo,
trazendo consigo novas formas de sociabilidade, tais como a formação de círculos
de interesses parcializados, grupos de integração intermitentes capazes de gerar
formas culturais novas e altamente sincréticas, as quais implicam num universo
simbólico mais aberto e transitório, distinto do caráter totalizante e estável dos
símbolos culturais tradicionais.
“Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando
as sociedades modernas no final do século XX. Isso está
fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero,
sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos
tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais.
33
Estas transformações estão também mudando nossas
identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós
próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um ‘sentido
de si’ estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou
descentração de sujeito.” (HALL, 1998: 9)
Nesse contexto, é válido ressaltar que as identidades são contraditórias e
que as pessoas participam de várias identidades simultaneamente, em
combinações às vezes conflitantes, tais como ser mulher, pobre, homossexual e
negro ao mesmo tempo. Vale também dizer que essa identidade muda com a
forma como o sujeito é interpelado ou representado, e que sua identificação nem
sempre é automática.
“De acordo com Laclau, o que caracteriza a sociedade da
modernidade tardia é a diferença, isto é: um conjunto de
divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade
de “posições do sujeito”, de identidades para os indivíduos. Tais
sociedades não se desintegram, porque seus diferentes
elementos e identidades podem ser articulados conjuntamente,
no arranjo parcial que deixa em aberto a estrutura da
identidade” (LACLAU apud FABRIS: 3)
È importante lembrar que, ao invés de se falar de identidade como uma
algo acabado, deve-se falar de uma identificação, de um processo, e que essa
identidade nunca é plena dentro dos indivíduos, ao contrário, ela precisa ser
"preenchida" e desenvolvida. As identidades nacionais não são nem genéticas
nem hereditárias, ao contrário, são formadas e transformadas no interior de uma
representação. Uma nação é, nesse processo formador de uma identidade, uma
comunidade simbólica em um sistema de representação cultural. E a cultura
nacional é um discurso ou modo de construir sentidos que influenciam e
organizam tanto as ações quanto as concepções que temos de nós mesmos.
No caso da América Latina, o processo de diversidade cultural não
aconteceu como na Europa com a formação de Estados Nacionais. Nos países
latinos, prevaleceu o uso da violência, da coerção por parte da burguesia
“nacional” com relação às populações indígenas e negras.

34
Como resultado, as sociedades passaram a sofrer processos de
estranhamento incompletos, de fragmentação de referenciais tradicionais.
Originou-se assim um imbricado cruzamento de tempos históricos diferenciados,
coexistentes de modo desarticulado. Garcia Canclini denominou esse processo de
heterogeneidade multitemporal ou hibridismos culturais.
“Essa heterogeneidade multitemporal da cultura moderna é
conseqüência de uma história na qual a modernização operou
poucas vezes mediante a substituição do tradicional e do
antigo. Houve rupturas provocadas pelo desenvolvimento e
pela urbanização que, apesar de terem ocorrido depois que na
Europa, foram mais aceleradas” (CANCLINI, 1997:74)
No caso do Brasil, a identidade está embutida na língua e nos sistemas
culturais, mas estão longe de uma homogeneidade. Ao contrário, estão
influenciadas pelas diferenças étnicas, pelas desigualdades sociais e regionais,
pelos desenvolvimentos históricos diferenciados, naquilo que é denominado
"unidade na diversidade". Nesse processo de intercâmbio, todas as nações são
híbridas culturais e isso constitui-se como um dos fatores de potencialização das
faculdades criativas.
Essa visão multifacetada da identidade foi promovida pelo colonialismo,
movimentos migratórios, intercâmbios culturais e pelo avanço tecnológico. Tudo
isso provocou um processo de fragmentações internas, ruptura, deslocamento e
desterritorialização do senso de identidade e das temporalidades diversas,
reconfigurando e transformando o tempo e o espaço.
“À medida que o espaço se encolhe para se tornar uma
aldeia “global” de telecomunicações e uma “espaçonave
planetária” de interdependências econômicas e ecológicas –
para usar apenas duas imagens familiares e cotidianas – e à
medida em que os horizontes temporais se encurtam até ao
ponto em que o presente é tudo que existe, temos que
aprender a lidar com um sentimento avassalador de
compreensão de nossos mundos espaciais e temporais”
(HARVEY, 1989: 240)

35
É importante destacar o conceito de cada um desses fenômenos sócioculturais. Segundo Canclini (1997), a desterritorialização
“é a perda da relação ‘natural’ da cultura com os territórios
geográficos e sociais, e, ao mesmo tempo, certas
relocalizações territoriais relativas, parciais, das velhas e novas
produções simbólicas”.(CANCLINI, 1997: 309)
Segundo Ernest Laclau (1990) as sociedades modernas não têm nenhum
centro, nenhum princípio articulador ou organizador único e não se desenvolvem
de acordo com o desdobramento de uma única “causa” ou “lei” afirma que seria
uma estrutura. Ele acrescenta que
“ uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado,
não sendo substituído por outro, mas por uma ‘pluralidade de
centros de pode’ ’” (LACLAU, apud HALL, 1998:16)
Na contemporaneidade, observa-se o constante estabelecimento de novas
formas de significação, responsáveis pela criação de novas culturas, maneiras de
expressar as inúmeras identidades culturais e novos grupos de identificação.
Assim, ao romper com as fronteiras territoriais, as manifestações das
identidades podem ser consideradas um modo de tentar compreender e expressar
a sociedade contemporânea na sua pluralidade, segmentação e contradições.
2.4 – As Conseqüências dos Contatos Interculturais
2.4.1 – Hibridismo
A

cultura

tem

se

transformado

radicalmente

nos

últimos

anos,

ultrapassando fronteiras e fazendo com que cada grupo possa se abastecer de
repertórios culturais diferentes. As sociedade são naturalmente híbridas pela
mestiçagem

racial,

assimilação

de

“novas” culturas,

pela

reciclagem

e

reprocessamento de valores importados e, como não poderia deixar de ser, pelos

36
hábitos e valores de consumo. Assim, nada mais oportuno que utilizarmos o termo
hibridismo para caracterizar o momento vivido pelas culturas contemporâneas.
“O termo híbrido vem do grego “hybris”, que quer dizer
destempero e excesso. É também um dos conceitos centrais
para se entender o legado da tradição helenista; no Feudro,
Platão descreve a hybris como a transgressão da justa-medida,
sendo portanto uma expressão do caos com suas múltiplas
faces e partes. O termo adquiriu ao longo da história o sentido
de impureza e mistura”. (STANGL,2002: 3)
O espaço híbrido onde se produz o sentido de identidade, localidade,
conjuga num só tempo sistemas de identificação de um enraizamento cultural
como a própria demarcação de territórios, das renovações das tradições,
convivência comunitária, imagens e comportamentos facilmente identificáveis num
contexto globalizado, os quais são incorporados ao cotidiano de diversas culturas.
O hibridismo é um processo que agrega diversas manifestações culturais,
fundindo elementos tradicionais e modernos. Eles convivem num mesmo cenário
social, juntamente com o massivo, entendido como meios eletrônicos de
informação.
Um fator de intensificação do hibridismo é a expansão urbana, que traz
consigo a oferta cultural das comunidades rurais, tradicionais e homogêneas
transformando-se em função do contato com a oferta heterogênea das grandes
cidades, originando-se daí a mistura do regional com redes nacionais e
transnacionais de comunicação e a desestabilização dos limites entre uma e outra
cultura. Canclini salienta que os meios de comunicação de massa se converteram
nos grandes mediadores das interações coletivas, em função da subordinação da
chamada cultura urbana às tecnologias eletrônicas.
Segundo Lévi Strauss, os homens têm sempre dificuldades de encarar as
diversidades das culturas como fenômeno cultural, resultante da relação direta ou
indireta entre as sociedades. A cultura envolve, portanto, uma diversidade de
situações da vida social que se articulam e assumem significados variados em
meio às transformações e contatos cotidianos.

37
Denys Cuche explicita essa questão ao desenvolver o pensamento de
autores que abordam a cultura como um processo permanente de construção,
desconstrução e reconstrução.
“Todas as culturas, devido ao fato dos contatos culturais, são
culturas mistas, feitas de continuidades e descontinuidades”
(CUCHE apud WOITOWICZ,2002: 14)
No entanto, alguns autores como Bruce Robbins, discutem a denominação
de hibridismo por ser um conceito com determinadas limitações, por não explicitar
certos aspectos do internacionalismo. Assim, a noção de cosmopolitismo seria
considerada a mais adequada, na visão de Robbins, para designar o momento
vivido pela sociedade atual que seriam os intercâmbios e fluxos, frutos da
globalização, do avanço tecnológico e, conseqüentemente, da mundialização da
cultura. (ROBBINS apud PRYSTHON: 02)
A celebração dos vários hibridismos é, senão o maior, pelo menos o mais
constante atributo a garantir a definição do multiculturalismo. Além de revelar
misturas e criar “identidades hifenadas” (SHOHAT & STAM, apud MACHADO,
1994:02) o multiculturalismo ganhou notoriedade, porque ampliou a possibilidade
de refletir sovbre o encontro das culturas não apenas com formação identitária,
mas como diálogo de diferentes sistemas comunicacionais.
O multiculturalismo pode ser visto como um sintoma de transformações
sociais básicos, ocorridos na segunda metade do século XX, no pós-guerra. O
multiculturalismo é, antes de mais nada, um questionamento de fronteiras de todo
tipo, principalmente da monoculturalidade e, com esta, de um conceito de nação
nela baseado. Visto como militância, o multiculturalismo implica em reivindicações
e conquistas vistas pelas chamadas minorias. Reivindicações e conquistas muito
concretas: legais, políticas, sociais e econômicas.
“O multiculturalismo hoje é uma marca da nossa realidade e
felizmente, estamos num período da história cultural e artística,
que está sendo denominada de pós-modernidade, onde há uma
abertura para os contrastes, para os opostos. (...) A pósmodernidade aceita a união dos contrários, a coincidência
38
deles. Nós podemos trabalhar hoje com o mais antigo e o mais
novo, o mais local e não local sem que isso seja estranho, pelo
contrário, é tido como um dado as mais, um enriquecimento
para o processo criador.” (Paes Loureiro)
A partir da análise dos pensamentos de Robbins, Shohat, Stam e Canclini,
pode-se perceber que eles oferecem leituras que convergem em um ponto: todas
as culturas são de fronteira, devido ao fenômeno da desterritorialização, articulamse umas com as outras e, com isso, têm ampliado seu potencial de comunicação,
renovação e conhecimento.
“ (...) hoje as culturas são de fronteira. Todas as artes se
desenvolvem em relação com as outras artes: o artesanato
migra do campo para a cidade; os filmes, os vídeos e canções
que narram acontecimentos de um povo são intercambiados
com outros. Assim as culturas perdem a relação exclusiva com
seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento”.
(CANCLINI, 1997: 348)
Não se pode promover um contato cultural sem que esse implique em troca
simbólica. Percebe-se, desse modo, que não há cultura unicamente doadora e
nem unicamente receptora, pois se trata de um trabalho coletivo de troca,
assimilação e reciclagem de sentidos culturais.
Outra conseqüência dos contatos interculturais é o processo de
mestiçagem, verificado com mais ênfase no Brasil. Teria começado no momento
em que o colonizador português desembarcava nestas terras e cedia aos
encantos das mulheres indígenas e teria se prolongado com a escravidão, que
deu aos senhores a oportunidade de escolherem as escravas "mais belas e mais
sãs para suas amantes". Desse encontro teria nascido a raça mais eugênica e
melhor adaptada aos trópicos: o mulato, feliz meio-termo entre a degradação do
escravo e os vícios dos senhores. Porém, a designação de “mestiçagem”, como é
concebida pelo prisma da etnicidade, não é suficiente para explicar a
complexidade e diversidades culturais contemporâneas marcadas pelo intenso
fluxo de troca de bens culturais entre as sociedades.

39
Segundo Maria Isaura Queiroz (1989), as elites brasileiras negavam a
riqueza da contribuição das diferentes culturas responsáveis pela construção da
brasilidade, a saber: o negro, o índio e o branco. A identidade cultural no país
mostrou-se problemática desde o início do século XIX, pois esta era recheada pelo
preconceito e impregnada pelo racismo. Os teóricos admitiam a grande
heterogeneidade cultural e o sincretismo existente no país, porém viam essa
mistura como um obstáculo que impedia o Brasil de alcançar a ‘verdadeira’
identidade nacional, aos moldes europeus.
Somente na segunda metade do século XX, a multiplicidade étnica será
vista pelos intelectuais como um fator de grande relevância para a construção do
patrimônio cultural.
2.5 – O global e o local
Com a globalização, as fronteiras territoriais foram diluídas, possibilitando
um maior contato entre as diversas culturas. A despeito disso, as identidades
nacionais e outras identidades “locais” ou particulares estão sendo reforçadas pela
resistência à globalização e as identidades nacionais estão em declínio, mas
novas identidades – híbridas – estão surgindo.
“uma das características distintivas da modernidade é
uma interconexão crescente entre os dois extremos da
“extensionalidade” e da “intencionalidade”: de um lado
influências globalizantes e, do outro, disposições pessoais...
Quanto mais a tradição perde terreno, e quanto mais
reconstitui-se a vida cotidiana em termos da interação dialética
entre o local e o global, mais os indivíduos vêem-se forçados a
negociar opções por estilos de vida em meio a uma série de
possibilidades... O planejamento da vida organizada
reflexivamente...torna-se
característica
fundamental
da
estruturação da auto-identidade” (GIDDENS, apud CANCLINI,
1999: 27)
O principal paradoxo da globalização é tentar impor a hegemonia a uma
nação, fragmentando determinadas culturas, ou conduzir a um ecumenismo
40
global, que seria promover a interação entre o intercâmbio cultural, e o
fortalecimento das identidades, ou seja, o lugar de convívio entre diferentes
manifestações culturais.
“(...) ao lado da tendência em direção à homogeneização
global, há também uma fascinação com a diferença e com a
mercantilização da etnia e da “alteridade”. Há juntamente com
o impacto do ‘global’, um novo interesse pelo ‘local”. (HALL,
1997)
Em meio ao campo de produção e reprodução da cultura midiática
aparecem as contradições da sociedade globalizada: as definições e limites entre
a afirmação do local, regional, nacional e do internacional. Essa (in)definição de
fronteiras deve ser deslocada agora para a capacidade de interagir com as
múltiplas ofertas simbólicas internacionais a partir de posições próprias.
É em meio a esse mundo conflitante de pluralidade e centralismo que as
culturas se movimentam. As contradições desse processo devem ser observadas
a partir do duplo processo de globalização e de localização da cultura, permitindo
ao mesmo tempo e no mesmo espaço, a expressão de vozes diferentes,
dissonantes e contrastantes.
“À medida que o espaço se encolhe para se tornar uma
aldeia “global” de telecomunicações e uma ‘espaçonave
planetária’ de interdependências econômicas e ecológicas –
para usar apenas duas imagens familiares e cotidianas – e à
medida em que os horizontes temporais se encurtam até ao
ponto em que o presente é tudo que existe, temos que
aprender a lidar com um sentimento avassalador de
compreensão de nossos mundos espaciais e temporais”
(HARVEY, apud HALL, 1998: 70)
Verifica-se, portanto, que há uma polarização entre o universal e o local. É
verdade que as sociedades fechadas e grupos tradicionais estão expostos a
mensagens multiculturais, mas isso não significa que eles sejam passivos diante
desse processo. Pelo contrário, a universalização crescente e imposta pela
ausência de um “outro lado” implica uma necessidade premente de auto-definição
e, acima de tudo, de auto-conhecimento.
41
3º CAPÍTULO
O ARRAIAL DO PAVULAGEM: IDENTIDADE EM ROTAÇÃO
O Arraial do Pavulagem já se constitui um ícone da cultura amazônica que
congrega diversos elementos característicos das manifestações culturais,
principalmente dessa região. Ele pode ser situado em uma fronteira que funde o
tradicional e o moderno, o rural e o urbano, o popular e o massivo, revelando a
sua natureza híbrida.
Por se revelar um objeto rico enquanto fonte de representação, que se
renova e ressignifica a cultura popular paraense, o Arraial foi escolhido como fonte
de estudo e análise, pautado em uma discussão dialética e dinâmica de cultura.
Nele, estão presentes diversas manifestações culturais do Norte e Nordeste
do país como marujada, quadrilha junina, carimbó, retumbão, boi-bumbá, reggae,
lundu, etc. Por isso, apresenta-se como um rico fenômeno a que a cultura está
sujeita.
Segundo Canclini, tratar de cultura popular não é falar de sua beleza ou de
sua autenticidade, mas levar em consideração a participação do povo, pois ela
deve estar a serviço, ser elaborada e ser consumida por ele.
“O popular não deve por nós ser apontado como um
conjunto de objetos (peças de artesanato ou danças indígenas)
mas sim como uma posição e uma prática. Ele não pode ser
fixado num tipo particular de produtos ou mensagens, porque o
sentido de ambos é constantemente alterado pelos conflitos
sociais. Nenhum objeto tem seu caráter popular garantido para
sempre, porque foi produzido pelo povo ou porque este o
consome com avidez; o sentido e o valor populares vão sendo
conquistados nas relações sociais.
É o uso e não a origem, a posição e a capacidade de
suscitar práticas ou representações populares que conferem
essa identidade” (CANCLINI, 1982:135)
O Arraial do Pavulagem é uma construção coletiva, pois, no Arrastão,
observa-se a participação do público não somente como espectador, mas também
como ator e produtor dessa festa popular, à medida que é realizada num espaço
42
público, de maneira aberta, onde as pessoas podem entrar e sair a qualquer
momento; podem tocar instrumentos; servir de
suporte aos personagens da festa como o boibumbá, porta-bandeira e os cabeções. Além
disso,

os

participantes

são

os

próprios

produtores dos adereços presentes no Arrastão
- bandeiras, estandartes, chapéus, barricas,
Porta-bandeiras, no
momento do Arrastão

cabeções, o próprio boi-bumbá e etc.

“Nessa experiência, há elementos que nos remetem para o
futuro com o propósito de construir uma relação não apenas
contemplativa ou participativa, mas, principalmente, reflexiva,
pois, a cultura popular é o nosso mote”. (Ronaldo Silva)
3.2 – Arraial: Festa e Espetacularização
Partindo do que Jesus Gonzalez Requena denomina de “Tipologia do
Espetáculo” (REQUENA,1988:67) pode-se inserir o Arrastão do Pavulagem nesta
tipologia, já que adota um modelo carnavalesco, protagonizando uma cena aberta
e indefinida que tende a estender-se por toda a cidade.
O espetáculo é entendido como mais uma forma discursiva de expressar o
real no mundo contemporâneo. É o meio pelo qual cada indivíduo é percebido e
se faz perceber, numa encenação que permite dar visibilidade às ações dos
diversos atores sociais e demarcar o espaço que cada um deles ocupa nesse
cenário.
O espaço onde o espetáculo se desenvolve também ganha contornos e
sentidos diversos na medida em que é reorganizado, tanto simbólica quanto
esteticamente para a realização da festa. No caso do Arrastão do Pavulagem, a
Avenida Presidente Vargas e a Praça da República, localizadas no centro de
Belém, tornam-se palco onde sujeitos diferentes e diferenças culturais se cruzam
e são ressignificadas.
O Arraial do Pavulagem tem como uma de suas características o aspecto
festivo, fruto de toda contribuição cultural ibérica, colonizadores do continente
43
americano. Para Maria Lúcia Monteiro, mergulhar fundo nas matrizes da cultura
popular brasileira significa retomar essas heranças, deixadas principalmente pelo
Barroco, que oferece uma multiplicidade de leituras.
Assim como o fenômeno das festas, o Barroco pode ser visto como capaz
de produzir uma multiplicidade de leituras todas centradas na ótica do poder. A
festa no período colonial funde a força do Estado e da Igreja, que conferem um
caráter sagrado e profano à celebração. No Arraial, isso é facilmente identificado
quando se observa a presença dos santos e mastros aliados à cantoria e à dança.
È justamente esse aspecto lúdico do cortejo que confere um sentido
inovador, possibilitando experimentar, criar e recombinar esses elementos. Isso se
deve ao processo de bricolage, característico da festa barroca, que incorpora e
ressignifica poderosos elementos simbólicos. Na festa a existência humana ganha
formas e contornos.
No dizer de Marcel Mauss (1974), a festa
“é um acontecimento que expõe uma ordem moral e social pelo
lugar que cada um ocupa no contexto”. (MONTEIRO: 150)
Clifford Geertz (1978) complementa:
“a festa nos permite ler por meio dela o que a sociedade diz
sobre si mesma”, (MONTEIRO: 150)
Daí se compreende que esta festa barroca possa, como uma matriz
simbólica, penetrar em profundidade nas formas da cultura. Nestas formas, são
conservados seus elementos constitutivos, às vezes quase intactos, mas na
maioria submetidos a um processo de ressignificação, segundo a própria lógica da
festa, entendida como bricolage material e simbólica.
Enquanto bricolage, o Arraial é uma festa que apresenta características
tanto rurais quanto urbanas, trazendo para o cortejo elementos que são típicos de
área rural como o boi Tinga (através dos cabeções), marujada, mastro,
44
vocabulário, indumentárias, agregando-os a elementos urbanos como é o caso do
próprio lugar em que essa manifestação acontece, os instrumentos musicais
eletrônicos, padronização das camisetas.
3.3 – A Religiosidade Popular
Uma das principais características das festas populares, especialmente na
América Latina, é sua associação com a religião, ou seja, apresenta um caráter,
ritualizado e sagrado, segundo Gilberto Giménez40. Neste sentido, as três raças
(brancos, negros e índios) desempenham um papel básico formando aquilo que
Roberto DaMatta denomina como “Triângulo Racial” (DAMATTA, 1987:75 ),
resultando num sincretismo religioso.
Um traço comum nas festas religiosas é o pastoril, de caráter catequético,
trazido por portugueses e espanhóis. O povo brasileiro respondeu com o pastorilprofano, de ponta de rua, e com a comicidade irreverente nos demais folguedos
como lundu, marujada, boi-bumbá e, também, com a criação dos cortejos
inspirados em elementos de outras manifestações culturais e religiosas.
Nesse sentido, o Arraial do Pavulagem faz referências às manifestações
religiosas, quando traz, no Arrastão, os estandartes com imagens dos santos
juninos, enquanto os homenageia nas composições musicais como acontece por
exemplo na música “Batalhão da Estrela”, em que a palavra “Estrela” refere-se a
São João Batista41, segundo a explicação de Ronaldo Silva. Além disso, o Arraial
utiliza elementos da marujada como o chapéu de palha com fitas coloridas, as
letras das músicas que fazem referências a São Benedito e aos preparativos
dessa festa.
A marujada é uma festa em homenagem a São Benedito, santo negro de
origem européia (Sicília). O ponto alto da festividade acontece entre o Natal e o
primeiro dia do ano. Porém, os festejos ocorrem ao longo de todo o ano, com a
"esmolação".
40

Canclini, Nestor. As Culturas Populares no Capitalismo.
São João Batista: Nasceu no dia 24 de junho na cidade de Judá. Chamaram-no "Batista" porque batizou Cristo, no Rio
Jordão, e o "Precursor" porque pregou imediatamente antes de Jesus Cristo, o anunciando.

41

45
Diferente de outras regiões do país, a marujada paraense mistura danças,
ritos, louvores e ritmos, herança dos negros africanos. Essa tradição começou
com o culto a São Benedito, em 1798, fruto da devoção religiosa. Como forma de
agradecer

a

permissão

dada

pelos

senhores para construir uma capela ao
santo, os negros realizam uma grande
festa, mesclada de reza e dança, onde o
sagrado e o profano se misturam.
Outra referência religiosa também
presente no Arraial é a de São Sebastião,
Festa da marujada, no dia 26 de
dezembro

santo de origem francesa, padroeiro de
Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. Ele

faz parte e é homenageado no CD “Comissão de São Sebastião” do Arraial do
Pavulagem, que representa todo um ritual de celebração, reunindo as folias e
ladainhas católicas, rezadas em latim. Entretanto, houve uma preocupação de
respeitar a oralidade rural ribeirinha42 das folias.
Os preparativos da festa de São Sebastião envolvem peregrinações dos
foliões pelo meio rural daquele município, objetivando a arrecadação de donativos
ao santo e à festa propriamente dita, que ocorre entre 10 e 20 de janeiro. É
constituída de diversas atrações religiosas e profanas (procissão, novena, corrida
de cavalo, luta marajoara, derrubada de mastro, entre outros).
A origem dessa manifestação, embora inexistam registros históricos, está
provavelmente na atuação dos padres jesuítas que tiveram importante
participação no processo de colonização da Ilha do Marajó, especialmente nas
margens do rio Arari, onde se dedicaram à criação de gado.
“As folias de São Sebastião são raízes cravadas no chão do
tempo e, enquanto isso, visíveis à flor da terra, nos manguezais
das ilhas do Marajó. Revelam a identidade espiritual de sua
gente e essa atmosfera de transcedência que há na paisagem
cultural marajoara. Elas dão forma de beleza e sonho, de

42

Ribeirinho: moradores que habitam as margens dos rios, na Amazônia.

46
crença e doçura, àqueles que vivem ainda numa bela harmonia
com a natureza e com a alma luminosa das coisas”43
(João de Jesus Paes Loureiro)
Desse modo, fica evidente que a invenção da cultura pela hibridização é um
fenômeno de apropriação de traços culturais de várias procedências. Luiz Antônio
Barreto chama atenção para uma conotação religiosa, nem sempre evidenciada
pelos estudiosos, no
“vasto repertório brasileiro da cultura popular ou folclórica”,
que “pode ser também percorrido pela intenção catequética,
conversora, redutora adotada pelos colonizadores. (...) A
catequese
e a
conversão
ao
cristianismo estão,
dominantemente, no repertório da cultura popular brasileira”.
(BARRETO apud BENJAMIN, 2002: 3)
3.4 – O Hibridismo no Arraial do Pavulagem
Hibridismo, híbrido, hibridização são conceitos-chave dos estudos culturais
de teóricos latino-americanos nos anos 90, prolongando discussões que haviam
iniciado na abordagem do pós-moderno.
A apropriação que há nos mais variados traços culturais coloca no mesmo
plano as diversas manifestações da cultura contemporânea, rompendo as
fronteiras estabelecidas pela lógica da modernidade, que colocava o culto nos
museus e nas universidades e o popular nas praças e feiras.
O Arraial do Pavulagem é um exemplo emblemático dessa miscigenação
cultural, em que estão presentes legados das culturas indígena, negra e européia.
Os próprios artistas, que fazem parte do Arraial, não se limitam apenas a serem
reprodutores de um processo cultural. Segundo Paes Loureiro o Arraial atua nas
duas vertentes da arte:
“Eles são criadores e intérpretes ao mesmo tempo.
Intérpretes no sentido de que eles buscam, através de
pesquisas, contatos com outras culturas e da própria
experiência pessoal de cada um, fontes de inspiração,
43

Encarte do CD “Folias do Marajo”´, do Arraial do Pavulagem

47
símbolos, signos, cores, materiais e ritmos. Também são
criadores, quando contribuem com sua originalidade, inspiração
e criatividade para fazer uma obra que resulta dessa releitura,
que é feita de forma criativa e atualizadora, incorporando
elementos novos e que fazem parte do cotidiano e da vida
presente da população” (LOUREIRO, 2003)
Enquanto objeto híbrido, o Arraial do Pavulagem é um encontro de
inspirações e signos culturais, que constituem a própria dinâmica da cultura
popular. Nele, há um diálogo entre as origens e a atualidade, entre a tradição e o
moderno.
“Afirmar que a cultura é um processo social de produção
significa, antes de tudo, opor-se às concepções que entendem
a cultura como um ato espiritual (expressão, criação) ou como
uma manifestação alheia, exterior e posterior às relações de
produção (sendo uma simples representação delas)”
(CANCLINI, 1982:30)
É necessário que se entenda que a criação popular não é um milagre da
natureza, mas produto do trabalho humano de criatividade. O homem do povo
também se faz artista e por isso é que é bonito o trabalho de transformação do ser
em transformador e artista.
Na proposta do Arraial do Pavulagem, de acordo com Ronaldo Silva
“são positivos os traços de outros formatos como o de São
Luís do Maranhão, Parintins, São Caetano de Odivelas,
marujada, etc., pois a cultura brasileira se caracteriza por essa
mistura, por essa diversidade e nós estamos construindo com o
nosso formato. Portanto, é saudável a convivência desses
traços porque são para nós a garantia de um resultado a médio
e longo prazo, rico, flexível, conectado com a raiz e aberto ao
novo”.

No Arraial, o híbrido está presente nos elementos discriminados abaixo:
48
3.4.1 – Linguagem
A utilização da linguagem regional usando elementos que compõem o
imaginário da região é uma forma de reforçar as matrizes estéticas que deram
origem a essas manifestações – negra, indígena e européia, expressando a
hibridização.
No Arraial, a linguagem é ressemantizada, através do processo de mistura
de diversos dialetos nacionais e estrangeiros, como monsieur, anarriê e balancê,
que são expressões de origem francesa; “mandinga”, palavra de origem africana;
“one”, de origem inglesa; a própria linguagem regional, típica do caboclo
amazônida, principalmente no nome “Pavulagem”, que significa “formoso, belo,
pávulo” e outros exemplos como:
“Me adesculpe os pais da moça
Do modo d’eu versejar
É que fiquei mundiado
Com esse zolho a me olhar”
(“Clara”/ Rui Baldez)
“Fica velho de esperar
Aperpare o peito
A demora é pequena”
(“Fortaleza”/Arraial do Pavulagem)
“Disse o Firmino
Que ia me judiar”
(“Canto Estrangeiro”/Toni Soares)
“Oi retumba meu boi retumbão
O mutuca vem ver na janela”
(“Arrastão da Mutuca”/ Ronaldo Silva)
“Eu nunca vi nada pior
andar avexado”
(“Mastro Bastião”/Arraial do Pavulagem)

49
Além

disso,

“Tupinambá”,

há

“Icoaraci”,

referências
“cuieira”,

a

palavras

“Curuçambá”,

indígenas
“cauê”;

como
“Ananin”,

“Igapó”,
“pajé”,

“mandinga”, “Cotijuba” e “Camutá”, todas presentes nas composições do Arraial.
3.4.2 – Danças
No Arraial do Pavulagem, as danças foram introduzidas com objetivo de
retratar e/ou representar a cultura amazônica nas suas diversas expressões, ou
seja, com o carimbó, o lundu, o retumbão, o xote bragantino, a quadrilha e o boibumbá, entre outros.
Vale ressaltar que esses ritmos já trazem
consigo uma mistura desde a sua origem, pois
eles carregam elementos indígenas, europeus e
africanos. No caso do carimbó, é uma dança cuja
origem vem dos índios tupinambá; entretanto,
recebeu contribuição dos negros africanos, que

Grupo folclórico na dança do
Lundu

introduziram ritmos mais agitados, sincopados e movimentados.
O lundu possui origem africana expressa na sua grande sensualidade, que
insinua a relação sexual e por isso foi proibida no Brasil durante o período
imperial.
O retumbão é a principal dança da marujada, a mais conhecida dança
folclórica da região bragantina. O nome
retumbão se deve aos instrumentos de
percussão utilizados. Os negros pegaram
dois troncos de árvores e construíram os
tambores, que produziam um efeito sonoro
extraordinário. O seu som era ouvido muito
longe e segundo a expressão da época

Marujas na dança do retumbão

"retumbavam".Estudiosos das manifestações folclóricas dizem que a dança é o
próprio lundu.

50
O xote bragantino não é de origem africana, mas recebeu muitas influências
negras. Embora tenha surgido na Escócia, como Schotinch, em 1841, a dança
chegou ao Pará trazida pelos portugueses. Os escravos observavam os senhores
dançar e guardavam os passos na memória. Vale ressaltar que o povo introduziu
outros movimentos, com novas adaptações, detalhes, com objetivo de não
somente valorizar o efeito visual, como também despertar o interesse dos
espectadores.
A quadrilha é uma dança de origem européia
do início do século XIX. Ela é de origem
francesa, porém foi trazida para o Brasil,
através

dos

Originalmente
A quadrilha junina é um dos
folguedos presentes no Arraial

portugueses

colonizadores.

dividida

cinco

em

partes

comandadas por um marcador, que mistura
palavras francesas e portuguesas.
O boi–bumbá é um folguedo popular,

que resultada da ‘mistura bonita de três raças - a indumentária do branco, o
atabaque do negro, a coreografia do índio.
Na segunda metade do século XIX, em Belém, o boi-bumbá reunia negros
escravos num folguedo, que misturava o ritmo forte, marcado no tambor de couro
representando um dado surpreendente para a época
segundo o historiador Vicente Sales - a luta de classes
dentro de uma sociedade colonial. Apesar da repressão, o
boi tornou-se uma das mais importantes representações da
cultura local.
Vale ressaltar que o boi-bumbá do Arraial do
Pavulagem é um exemplo emblemático das mudanças que
o folguedo sofrera na região. O cortejo não mais encena o
ritual que gira em torno do boi do Nordeste, mas tem,
sobretudo, uma conotação lúdica e traz também o rosário,
típico do boi - bumbá paraense.

O boi Pavulagem
exibe seu belo rosário
(adorno na cabeça)

51
“Tem andor, tem rosário
no caminho lírio e flor
Ô rola boi,
o meu boi mandei rolar”
(“Acará sem Governo”/ Arraial do Pavulagem”)
3.4.3 - Instrumentos
A arte musical do Arraial do Pavulagem materializa a originalidade, beleza,
força nas intenções de resguardar uma emoção original, mas não como coisa do
passado e sim integrada no presente.
Para representar isso, o Arraial se apropria das novas tecnologias para
trabalhar elementos do culto, do popular e do massivo. Do culto, quando se utiliza
de violinos, cellos, trombone e saxofone. Do popular, quando usa instrumentos de
fabricação artesanal como barricas, matracas, xeques, maracás, reco-reco e
tambores. Do massivo, quando emprega instrumentos eletrônicos como guitarras
e teclados. Estes últimos foram incorporados, principalmente, a partir da entrada
de Toni Soares, que trouxe uma sonoridade mais urbana às composições do
Arraial.
“Nós éramos eminentemente percussivos no início (...).
Quando nós passamos para o palco, para fazer o show
musical, aí sim, nós incorporamos todos os instrumentos
elétricos até pela necessidade de facilitar essa linguagem
musical no palco. Aí já colocamos os teclados, guitarras, os
contra-baixos elétricos” (Júnior Soares)
Vale ressaltar que a princípio, o cenário em que o grupo trabalhava era de
músicas de Parintins, São Luís do Maranhão, de Bragança, mas eles começaram
a perceber que havia vários elementos que faziam parte do imaginário popular
amazônida que podiam ser trazidos para o Arraial. A partir daí, começaram a
fazer suas próprias composições e a incorporar elementos que fazem parte do
cotidiano dos amazônidas.

52
3.4.4 – Adereços
Um dos elementos mais importantes no Arraial do Pavulagem são os
adereços, porque eles são ícones que representam toda a riqueza da cultura
popular como o mastro, o chapéu de palha, a cobra grande, o boi de talinha, as
bandeiras, os estandartes e os cabeções. Estes representam a diversidade
cultural que está presente no Arraial, proveniente do encontro e da incorporação
de ícones, símbolos e códigos que compõem o vasto universo do imaginário
social.
“Hoje, nós trabalhamos com a cultura de são Caetano de
Odivelas, de onde nós trouxemos os cabeções. Nós trouxemos
o chapéu de fitas, uma leve inspiração a marujada de
Bragança; temos os estandartes, dos santos festeiros; a cobra
grande, que é uma reprodução da cobra de miriti do círio de
Nazaré” (Júnior Soares)
O imaginário social constitui fonte de referências no vasto sistema simbólico
de qualquer sociedade. È um meio pelo qual ela se produz e se percebe, organiza,
divide e elabora seus próprios objetivos. Designa sua identidade; cria uma certa
representação de si, estabelece a distribuição dos papéis e das posições sociais;
exprime e impõe crenças comuns; constrói uma espécie de código de “bom
comportamento” através da instalação de modelos formadores.
O imaginário social é, pois, uma peça eficaz do dispositivo de controle da
vida coletiva e, em especial, do exercício de autoridade e do poder. Ao mesmo
tempo, ele torna-se o lugar dos conflitos sociais.
No imaginário popular amazônida, cada adereço presente no Arraial tem
um sentido simbólico. O Arraial é um exemplo da dinâmica cultural, pois a cada
ano, alguns adereços permanecem, como o chapéu de palha, os cabeções e o
mastro; e novos elementos são incorporados como a cobra grande de miriti, o
reco-reco, entre outros.

53
a) Chapéu de palha
O chapéu de palha44 é um acessório indispensável no cotidiano do caboclo
amazônida.

O

Arraial

do

Pavulagem

o

incorporou não somente por essa razão, mas
também em uma alusão à marujada, na qual o
chapéu é o ponto alto da indumendária
feminina. Porém, no Arraial ele é usado pelos
componentes e participantes da festa que
Participantes tocando barricas e,
na cabeça, usam chapéus que
fazem alusão à marujada

o

adornam com fitas coloridas, longas e presas à
aba do chapéu.

b) Cabeções
Os cabeções presentes no Arraial do Pavulagem são figuras caricatas,
algumas remetem a personalidades da cultura regional como Waldemar Henrique,
maestro e compositor paraense. No Arraial, eles foram inspirados da manifestação
do Boi de Máscara, existente há mais de
cinqüenta anos, em São Caetano de Odivelas. A
sua confecção é feita pelos participantes do
Arraial durante as oficinas e os materiais
utilizados

são basicamente paneiro, papel,

petecas e pinturas.
elementos

Porém, os cabeções são

presentes

também

em

outras

manifestações populares do país como os que

Os cabeções de São Caetano de
Odivelas estão também presentes
no Arraial do Pavulagem

acontecem em Olinda.
“Na
festa
ibérica,
a
presença
de
máscaras
sobredimensionadas, tais como os cabeções do Carnaval de
Olinda ou da pequena Santana do Parnaíba, e que são
encontradas também numa festa do Divino de São Luis do
44

Palha: é feita de folha seca de planta nativa da região. È utilizada para a confecção de outros adornos e para cobrir o teto
das malocas dos índios ou casas dos ribeirinhos da região.

54
Paraitinga: representação de figuras monstruosas, (...) tantas
vezes encontradas na iconografia do Carnaval brasileiro do
século XIX”. (...)
E seria possível continuar indefinidamente a esmiuçar essas
imagens, nessas aproximações que se estendem em escala
continental,
atestando
semelhanças,
coincidências
e
continuidades entre essas formas de cultuar popular”.
(MONTEIRO:153-154)
Conclui-se que essas semelhanças, coincidências e continuidades entre
essas formas populares de cultura se recriam, dobram e desdobram e
recombinam, resultando em uma grande hibridação – exatamente o que o Arraial
do Pavulagem faz.
c) Cobra grande
A cobra grande foi mais um dos elementos incorporados no Arraial, no ano
de 2001. Ela e outros brinquedos de miriti estão presentes no Círio de Nazaré,
uma das maiores manifestações religiosas do Brasil, realizada no segundo
domingo de outubro, em Belém, que reuniu mais de dois milhões de pessoas na
sua procissão.
Os diversos brinquedos de miriti que fazem parte da festa do Círio são
barquinhos, rodas gigantes, animais, entre outros, que estão ligados ao imaginário
do popular paraense. Eles são produzidos por artesãos do município de
Abaetetuba, que fica a cerca de duas horas de Belém, capital paraense.
No Arraial do Pavulagem a cobra possuía mais de cinco metros de
comprimento, era carregada pelos participantes da festa e trazia um significado
místico de que se quem não a tocasse ficaria “panema”, que significa na
linguagem regional “com azar, mau sorte ao longo daquele ano”.
Segundo a lenda amazônica, uma índia, grávida da boiúna (cobra-grande,
sucuri), deu à luz duas crianças gêmeas, Honorato e Maria, que na verdade eram
Cobras, porém de personalidades que representavam o bem e o mal,
respectivamente.

55
d) Mastro
A forma tradicional do levantamento do mastro de São João é feita no
anoitecer da véspera do dia 24 de junho, data de comemoração ao santo. O
mastro é composto por madeira resistente, roliça e lisa e uma bandeira triangular,
com três faces onde aparecem os três santos festejados: Santo Antônio, São João
e São Pedro. É costume, também, prender ao mastro milhos e laranjas.
A tradição do mastro existe em várias localidades do Brasil. Ele é erguido
diante das Igrejas com músicas, cantos e foguetes. Porém, em alguns lugares há
apenas o "levantar da bandeira" - o hasteamento de uma bandeira com a efígie do
sacro patrono.
No Arraial do Pavulagem, o mastro possui toda uma simbologia, pois ele
representa o ritual de abertura do Arrastão e o seu encerramento, além de ter uma
conotação religiosa e ao mesmo tempo profana.
No Arrastão há uma releitura de alguns
aspectos dessa tradição, pois o mastro é feito
de madeira da região, com aproximadamente
quatro

metros,

adornado

com

folhas

de

açaizeiro e frutas regionais em oferenda ao
santo. Além disso, o hasteamento, ao invés de

Participantes do Arrastão
enfeitando o mastro

acontecer diante de uma igreja, é realizado no meio da Praça da República.
“Todas as festas de santo do interior têm o mastro, onde
toda brincadeira, toda festividade, todo folguedo desenvolve
principalmente a parte profana. Ela se desenvolve ao redor
desse mastro, então é um símbolo da cultura popular que está
atrelado às culturas religiosas que nós trouxemos para o Arraial
do Pavulagem. Tanto que nós fincamos o mastro na praça da
república no início da brincadeira e derrubamos no último dia,
simbolizando o início e o término do folguedo” (Júnior Soares)
Apesar de existir toda essa mistura de elementos, o Arraial do Pavulagem é
um exemplo de afirmação do local e de fortalecimento do regional. Essa é uma
característica que veio acompanhada do processo de globalização e aparece
56
Tccpavulagemfinal
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Tccpavulagemfinal

  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ CENTRO DE LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL Alcilene Costa de Souza Ana Mônica Monteiro Cleide Lúcia Magalhães de Souza O ARRAIAL DA CULTURA POPULAR PARAENSE É SÓ PAVULAGEM BELÉM - PA Março / 2003 1
  • 2. Alcilene Costa de Souza Ana Mônica Monteiro Cleide Lúcia Magalhães de Souza O Arraial da Cultura Popular Paraense é só Pavulagem MONOGRAFIA APRESENTADA AO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ COMO REQUISITO PARCIAL PARA OBTENÇÃO DO CURSO DO GRAU DE BACHAREL EM COMUNICAÇÃO SOCIAL – HABILITAÇÃO EM JORNALISMO, SOB A ORIENTAÇÃO DA PROFESSORA MS. ROSALY DE SEIXAS BRITO. Belém / PA Março / 2003 2
  • 3. “Para conhecermos a cultura de um povo não deveremos ser etnocêntricos, mas estar abertos para entender toda a história e representações em que ela está inserida”. (Cleide Magalhães) “Celebremos a mobilidade, os conflitos, a ternura, a fluidez, a beleza que emergem do interior de cultura que cada povo escreve ao longo de sua existência. Ë por esse espelho que percebemos o que vai no íntimo, o que vai na alma de cada um de nós. Portanto, celebremos”. (Ana Mônica Monteiro) “A beleza da cultura popular está na maneira criativa de interpretar o mundo, incorporando e transformando elementos do erudito e do massivo, em algo próprio.” (Alcilene Costa) 3
  • 4. AGRADECIMENTOS Ao Arraial do Pavulagem por ter nos dado a sua valiosa contribuição ao disponibilizar sua atenção e material de arquivo para a concretização deste trabalho. Ao Centro de Educação e Práticas Populares – CEPEPO que nos ofereceu condições para desenvolvermos a parte complementar desta monografia que é a produção do vídeo – documentário “Batalhão da Estrela”. A professora Rosaly Brito por ter-nos norteado na elaboração desta monografia. 4
  • 5. A Deus, Aos pais, Aos amigos e professores, que nos incentivaram durante a vida de estudantes. 5
  • 6. SUMÁRIO 1 – Resumo 7 2 – Introdução 8 3 - Um sonho que virou cantoria 10 4 - As Culturas Populares na Contemporaneidade 25 5 – O Arraial do Pavulagem: Identidade em Rotação 42 6 - Considerações Finais 58 7 – Referências 60 6
  • 7. RESUMO Este estudo discutirá a cultura popular, tendo como objeto de análise o Arraial do Pavulagem, grupo que nasceu em 1987 com a finalidade de divulgar, juntamente com a participação popular, a cultura paraense. O Arraial, como ícone da cultura popular, não apenas reproduz as manifestações populares, mas também cria, renova e incorpora elementos, tanto da cultura amazônica como de outras regiões como linguagem, estilos e instrumentos musicais. Assim, em função do Arraial do Pavulagem misturar elementos do culto, do popular e do massivo e construir o sentido de identidade cultural amazônica, constitui-se num rico exemplo para mostrar que a cultura é dinâmica e está em constante rotação. Palavras-chave: hibridismo – cultura popular - identidade ABSTRACT This study will argue the popular culture, having as analysis object the Arraial of the Pavulagem, group that was born in 1987 with the purpose to divulge, together with the popular participation, the paraense culture. The Arraial, with the icon of popular culture, not only reproduces the popular manifestations, also create, renew and incorporate elements, as much of the Amazonian culture, as of others regions as the language, styles and musical instruments. Thus, in function of the Arraial of the Pavulagem to mix elements of cult, of popular and of mass and to make the sense of Amazonian cultural identify, consist in a rich example to show that the culture is dynamic and it is in constant rotation. Key-words: hybrisdism - popular culture - identity 7
  • 8. INTRODUÇÃO Para esboçar algumas discussões sobre a cultura popular e o processo de hibridização, torna-se necessário fazer referências pontuais sobre a noção de cultura que norteia este trabalho, realizando um breve, e certamente limitado percurso do conceito até a sua compreensão em tempos de transformação global. Assim, pode-se perceber como a cultura foi sendo compreendida ao longo do tempo e ampliação do conceito na medida em que se tornou necessário atentar para o significado de hibridização nas relações interculturais promovidos, principalmente, pela globalização. As condições desse processo devem ser observadas tendo como ponto de partida o duplo processo, tanto global quanto local, que permite, no mesmo tempo e espaço, a expressão de vozes diferentes e contrastantes. Trata-se, portanto, da transposição de identidades, tempos e práticas de sociabilidade, reconstituindo o cenário da cultura contemporânea. Em decorrência desse processo de diversidade cultural, explicitada nas atuais condições de intercâmbio, são as trocas simbólicas que consolidam e reconfiguram as noções de pertencimento em todas as suas possíveis expressões. É nesse mundo conflitante de pluralidade e centralismo - formado por diversos “eus”, tribos, identidades centradas e/ou múltiplas - que tentaremos situar o nosso objeto de estudo, o Arraial do Pavulagem, que surgiu em 1987, na Praça da República. Sua proposta inicial era apenas uma brincadeira descontraída, que acontecia sempre aos domingos. Porém, hoje, o Arraial é um ícone da cultura popular paraense, onde estão representados vários elementos das diversas manifestações existentes nas regiões Norte e Nordeste do país como marujada, retumbão, xote bragantino, carimbó, boi-bumbá, reggae e lundu. Configurando-se, assim, motivo suficiente para a análise das transformações a que a cultura está sujeita, pois entendemos que esta não pode ser vista como algo estático e acabado, mas que é ressignificado e que vai muito além da visão purista da busca 8
  • 9. de raiz, ou seja, está em constante construção e interação com os outros “campos sociais1”. Além disso, situaremos a cultura popular dentro do sistema capitalista, que se apropria, reorganiza e ressignifica as manifestações culturais. No primeiro momento deste estudo, há uma contextualização histórica do objeto; no segundo momento, serão apresentadas as questões teóricas, que norteiam as discussões sobre a cultura popular. Para finalizar, situaremos o Arraial do Pavulagem no contexto da discussão da cultura popular como fruto do processo de hibridismo cultural. Além desta monografia, foi produzido o vídeo-documentário “Batalhão da Estrela”, que trata sobre o Arraial do Pavulagem, ilustrando e complementando a temática tratada neste trabalho. Campo social: “uma rede, ou uma configuração de relações objetivas entre posições definidas objetivamente, na sua existência e nas determinações que impõem aos seus ocupantes, agentes ou instituições, pela sua situação presente e potencial ... na estrutura de distribuição do poder (ou capital), cuja posse comanda o acesso aos benefícios específicos que estão em jogo no campo, assim como pelas suas relações objectivas com outras posições... " (Pierre Bourdieu, La Distinction - Critique Sociale du jugement, Minuit, Paris, 1979) 1 9
  • 10. 1º CAPÍTULO UM SONHO QUE VIROU CANTORIA A história do Arraial2 do Pavulagem3 começou em 1987, a partir de uma brincadeira que reunia aos domingos na Praça da República4 diversos artistas locais numa rodada de cantoria, que misturava ritmos diversos e empolgava quem passava pelo local. A partir daí, começa a ganhar corpo o sonho de Ruy Baldez, compositor, cantor, poeta e um dos fundadores do Arraial. Entre eles havia afinidades para tocar e cantar ritmos do norte e nordeste como os de Bragança5, Parintins6 e São Luiz7. A princípio, o grupo era denominado “O Boi Túnel das mangueiras, na Praça da República Pavulagem do Teu Coração” e somente a partir de 1988 passou a se chamar “Arraial do Pavulagem”. A mudança no nome foi devido a possibilidade de ampliar-se e trazer o universo de elementos da cultura popular para o Arraial, a fim de que este se tornasse um painel de representação dessa cultura e não se restringir somente ao boi–bumbá. Eles eram músicos, compositores, lutando por espaço e divulgação de suas obras. Segundo Ronaldo Silva, a intenção imediata não era a criação de um boibumbá, mas a formação de platéia, um público que justificasse o esforço de produção, divulgação e principalmente, fosse o complemento da cadeia de fortalecimento da música paraense. “Nós sentíamos, ao lado de outros compositores, músicos letristas, legítimos agentes históricos responsáveis por 2 Arraial: lugar onde se realizam as festas populares Pavulagem: a palavra vem de “pavão”, ave fasianídea de bela plumagem. Mas, na linguagem popular paraense significa pávulo, formoso, metido, sem modéstia. 4 Praça da República: uma das principais praças da cidade de Belém, capital paraense. A sua construção foi no início do século XVIII, período áureo da extração da borracha e, além disso, é um dos espaços públicos de lazer mais freqüentados da cidade. 5 Bragança: município localizada no nordeste paraense e fica a 210 quilômetros de Belém. Todos os anos, no mês de dezembro realiza a Festa da Marujada, em homenagem a São Benedito, santo padroeiro da cidade. 6 Parintins –cidade do Médio Amazonas, com cerca de 60 mil habitantes caboclos. Todos os anos, no último final de semana de junho, a cidade realiza o Festival Folclórico de Parintins.O evento reuniu em 2002 aproximadamente seis mil brincantes e mais de 35 mil espectadores. 7 São Luiz: capital do Estado do Maranhão, localizado no Nordeste do Brasil. 3 10
  • 11. esse desafio de fortalecer a música brasileira. Por isso, ampliamos o universo e o nosso campo musical para divulgar o carimbó, lundu8, xote bragantino9, retumbão10, quadrilha e o boi-bumbá”. “Vou contar uma história do Mangue Que fala do sonho que teve o Baldez, Quando foi pro Acará sem governo... Era o boizinho azulado Que ele ia ver crescer e alegrar a cidade” (“A Lenda, o Sonho” / Ronaldo Silva) No início, o Arraial do Pavulagem era formado pelos músicos Arytanã, Cincinato Marques, Dimmi Alberto, Júnior Soares, Luiz Pinto, Mari Martel, Nazako, Ronaldo Silva, Ruy Baldez e contou com a participação do poeta Antônio Juracy Siqueira, entre outros. Em 1994, o Arraial ganha mais um integrante, o cantor e compositor Toni Soares. Ele trouxe uma sonoridade mais universal para o grupo que antes tinha uma concepção mais voltada para o regional. A partir da idéia de Toni, o ritmo do reggae-boi foi introduzido no Arraial. Em janeiro de 2003, o cantor saiu do Arraial do Pavulagem por discordâncias internas. A preferência do grupo pelo regional é devido a forte ligação que os componentes têm com seu lugar de origem. Por exemplo, Júnior Soares tem suas raízes de Bragança. Porém, mesmo os que nasceram em áreas urbanas como Ruy Baldez - São Luís (MA), Ronaldo Silva e Toni Soares - Belém (PA), receberam influências das culturas rurais, no caso de Cachoeira do Arari 12 do Marajó 11 - Ilha e da já citada região bragantina. Um dos objetivos do Arraial do Pavulagem é divulgar a cultura paraense em todas as suas vertentes, tanto na dança e música, quanto na expressão da cultura e da arte cênica. Além disso, possibilitar que a população conheça os ritmos e linguagens e possa reinventar essa cultura e criar mecanismos de participação. 8 Lundu: dança sensual de origem africana, com ritmo semelhante ao retumbão Xote Bragantino: dança de origem Européia( Escócia) e típica da Festa da Marujada. 10 Retumbão: dança de origem africana e da Marujada. 11 Cachoeira do Arari: cidade localizada no oeste da Ilha do Marajó, esta última palavra de origem indígena que significa vento fresco, que sopra à tarde do lado da Ilha do Marajó.. 12 Ilha do Marajó: uma das maiores ilhas fluviais do mundo, localizada no delta do Rio Amazonas, no Pará. 9 11
  • 12. Em 22 de junho de 1999, o grupo sofreu uma grande perda com o falecimento de Ruy Baldez, e isso acabou funcionando como mecanismo de estímulo para novas ações do Arraial do Pavulagem, com os remanescentes do grupo. Ainda hoje a imagem de Baldez se faz presente no Arraial através de músicas e poesias que os artistas fazem em sua homenagem. Isso se deve à relevante contribuição que Baldez deixou para o Arraial e também à cultura popular paraense. Dentre essas homenagens, há a poesia do artista Antônio Juracy Siqueira: “Baldez – A voz que nunca Rui” Calou do pássaro a voz, Mas vejam só! por encanto, Ficou vibrando entre nós Os acordes do seu canto! Partiu Baldez! Partiu nada! Só fez que foi mas não foi Pois deixou a voz gravada Em mil toadas de boi Por sina, por devoção Ou talvez por pavulagem Resolveu seguir viagem Em noite de São João Vai cantador! Vai na frente! Vai cantar pra outros bois!... Vai em paz, segue na frente Que a gente segue depois! À medida que o tempo passava, o Arraial do Pavulagem amadurecia enquanto proposta de ação cultural, buscando substanciar sua produção artística através de pesquisas musicais, consultas de discos e livros que abordavam a música popular, principalmente a regional. Assim, eles conseguiram reunir um repertório variado e de boa qualidade, acima dos modismos. “Têm também pesquisas que a gente fez, dos artesãos de brinquedos de miriti13, em Abaetetuba, 13 Miriti: palmeira existente na Amazônia, porém em outras regiões é conhecida como buriti. 12
  • 13. Itancoã-Mirim e Guajará-Miri14, o trabalho com os remanescentes de Quilombo, com o boi Malhadinho, uma das maiores riquezas que a gente tem”, ressalta Ronaldo Silva. A relação entre o Arraial do Pavulagem e o boi Malhadinho, tradicional do bairro do Guamá15, na passagem Pedreirinha, formado somente por crianças, surgiu para mostrar e fortalecer a manifestação folclórica do boi-bumbá na comunidade. “O Arraial como fazia um trabalho de palco tinha a intenção de mostrar como era o tradicional. Fizemos pesquisas, inclusive o Ronaldo Silva participou dos trabalhos de resgate do Malhadinho, que é da década de 30. Aí a gente passou a conhecer o lado tradicional”, comenta Nazareno Silva16. O Arraial utilizou-se de outros instrumentos como violão e contra baixo, aliados aos tradicionais como barricas e tambores, surgindo assim, uma parceria entre o Malhadinho, que representa o tradicional e o Arraial que remete ao novo. “Traz meu chapéu enfeitado, meu tambor Traz a matraca, vaqueiro da Pedreirinha Traz o bilhete do Nazo Diz o recado, meu mano, Diz quem mandou Que o Guamá ta em festa, Tem valor, jardim em flor Tem malhadinho no pasto (...)” (“Bilhete do Nazo” / Ronaldo Silva e Toni Soares) Foi a partir da saída em cortejo17 pela Praça da República, que contava também com a presença de um boi de talinha18, que o Arraial do Pavulagem começou a ganhar prestígio do público e, assim, conseguiu espaço para se apresentar no Teatro Waldemar Henrique, localizado nessa praça, aos domingos. Segundo Júnior Soares, as apresentações eram gratuitas e foram de tamanha aceitação pelo público – o que fez com que o grupo resolvesse cobrar um preço 14 Guajará Mirin: município do Estado de Rondônia, na região Norte do país Guamá: bairro localizado na periferia de Belém. É também uma das áreas mais populosas da capital. 16 Em entrevista concedida ao arquivo de imagens do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na Praça da República. 17 Cortejo: reunião de pessoas que saem em festa pelas ruas da cidade. 18 Boi de Talinha: primeira representação do boi-bumbá no Arraial do Pavulagem.Era um boizinho feito de miriti e espetado ao meio com uma tala de bambu. 15 13
  • 14. simbólico no valor do ingresso. Porém, isso não foi muito bem aceito, pois uma parte do público não tinha condições de pagá-lo. Então, a outra alternativa encontrada foi a contribuição espontânea, através do que o grupo chamou de “rolar o chapéu” numa alusão à esmolação19 dos santos católicos. Em 1988, os integrantes do Pavulagem, entusiasmados com o prazer que o cortejo junino20 provocava neles e nos brincantes, resolveram profissionalizar as performances, cuidando mais dos arranjos, apurando os ritmos e as melodias e fazendo composições específicas para o grupo. “Com o exercício da composição, criamos a cara do Boi Pavulagem. E a imagem do Pavulagem pôde ser um pouco mudada, ou melhor, acrescida, com a entrada de um boi doado pelo folclorista bragantino ‘Bibiano’. O boi de talinha continua, mas terá agora um boizinho vestido por uma criança do Malhadinho do Guamá", conta Ronaldo Silva. Outra novidade foi a presença dos violeiros. Da percussividade dos primeiros anos, o Pavulagem acrescentou instrumentos como o saxofone, contrabaixo, violão, tambores, barricas, claves e tambor de onça (estes quatro últimos de fabricação artesanal) – e um trabalho de vocalização. Ainda nesta época, o Arraial teve a sua primeira participação em um projeto chamado “Eu quero Cultura”, da Rádio Cultura FM, com a música ‘Toada do Igapó’, de composição de Rui Baldez e Ronaldo Silva. Com essa motivação, veio a gravação da fita cassete "Pavulagem do Teu Coração", no Estúdio Edgar Proença, da Rádio Cultura FM, com arranjos de Tinoco (teclados), Ney Conceição (contrabaixo), Dadadá (percussão), Bererê (bateria), Júnior Soares (voz e violão), Toni Soares (voz e violão), Ruy Baldez (voz e maracas) e Ronaldo Silva (voz e tambor). A produção foi de Adriana Sampaio e Beto Fares, produtor e radialista da Rádio Fita Cassete Cultura FM. O lançamento aconteceu no dia 03 de junho de 1994, no Teatro Waldemar Henrique. 19 Esmolação: prática popular voluntária que antecede as festividades católicas e consiste na arrecadação de dinheiro à realização das festas populares religiosas. Junino: é referente a quadra junina, festejos que acontecem no mês de junho. 20 14
  • 15. A partir daí, o grupo foi convidado pelo artista e cantor paraense Nilson Chaves, sócio da gravadora “Outros Brasis”, para a transformação das doze músicas dessa fita cassete no primeiro CD do Arraial do Pavulagem, chamado ”Gente da Nossa Terra”. Além disso, acrescentaram-se três vinhetas e cinco composições inéditas: Tupinambá, o Treme Terra (mistura do reggae e boi); Gueto da Regueira (no estilo roots-reggae); as toadas Reunida e Guarnecendo, além do xote Bela Certeza. Dentre estas 1º CD composições, a música Batalhão da Estrela é considerada uma das mais importantes para o grupo, pois já foi executada por outros artistas paraenses e, além disso, é a mais conhecida pelo público e tocada ainda hoje em todos os shows do Arraial. “Abre os olhos morena Vem ver meu boi Ta vindo da estrela Traz batalhão afiado E o couro bordado Pra contrário ver Do arraial que é do sol Do arraial que é da lua Do povo na rua Do meu guarnicê” (“ Batalhão da Estrela”/ Ronaldo Silva e Toni Soares) Em 1995, o grupo lança o segundo CD, intitulado “Sotaque do Reggae-Boi”. Nele, o grupo misturou e incorporou ritmos como xote, retumbão, quadrilha, reggae21 e carimbó22 As músicas possuem uma linguagem mais pop e incluem instrumentos como guitarra e teclados eletrônicos. 2º CD Para Júnior Soares, essa combinação teve o objetivo de 21 Reggae: Ritmo de origem da Jamaica, na África, que passou a ser conhecido no Brasil, possivelmente, através do cantor Jimmy Cliff, em um dos Festivais Internacionais da Canção que aconteceram no fim dos anos 60. 22 Carimbó: Dança de origem indígena, que recebeu influência africana. È uma das mais famosas danças folclóricas do Estado do Pará. O título curimbó é formado por duas palavras: curi = pau oco e m’bó = furado. Assim, o pau que produz som. Posteriormente, a troca das vogais de curimbó para corimbo e para carimbó, denominação mais conhecida da dança. 15
  • 16. modernizar as leituras musicais do cancioneiro popular, afinal “não somos um grupo folclórico, por isso não temos o compromisso de preservar algo na sua forma original, mas somos criadores e intérpretes da cultura popular. O que resulta em boas sonoridades, nós mostramos ao público”, diz Júnior. “Bate tambor no baque do reggae-boi bate tambor, retumbão e marujada balança boi que a galera do farol balança boi vai rompendo a madrugada. Dança de boi pela rua Em noite clara de lua Faz o coração bater Num compasso acelerado E quando o navio apita Segue o reggae-boi na praia.” (“Bate Tambor” / Ronaldo Silva) Ainda nesse período danças coreográficas foram introduzidas no Arraial. Elas misturam ritmos tradicionais com moderno e tem como objetivo provocar maior interação entre o público e o grupo. Segundo Max Soares, dançarino e coreógrafo do Arraial, as danças foram introduzidas através de uma pesquisa sobre os ritmos do boi-bumbá de Belém, Parintins e do próprio Arraial do Pavulagem. Embora haja uma preocupação de Max Soares em não tornar as coreografias estilizadas, ele ainda é alvo de críticas. “Existe até uma polêmica comigo porque dizem que estou fazendo um boi aeróbico, porém, tento modificar um pouco, mas não fugindo da linha do boi-bumbá”, defende-se Max Soares. Vale ressaltar que ele faz não somente coreografias do boi - bumbá, mas também de variados ritmos como o retumbão, quadrilha23 e o reggae-boi. Para o grupo, a dança, assim como as indumentárias, têm sido o maior desafio, pois o boi-bumbá não pode ficar alheio às danças, às indumentárias, porque possui uma linguagem específica. 23 Quadrilha: dança de origem européia do começo do século XIX. Ela foi trazida para o país através dos portugueses colonizadores. 16
  • 17. Com a introdução das danças, o público passou a interagir mais com o grupo e a experimentar os ritmos tocados por eles. Ao mesmo tempo, as coreografias trazem traços tradicionais, misturados com modernos. O terceiro CD – Arrastão do Pavulagem - foi direcionado para a manifestação do Arrastão do Pavulagem. Este CD mostra somente os ritmos de boi-bumbá. “Nós pensamos em 30 toadas24, que caíram para 16, depois escolhemos 14 músicas que compõem esse CD do arrastão”, explicou Toni Soares25. O repertório foi produzido em parceria com Beto Fares e contou também com a participação do Mestre Emílio Silva da Paixão, amo do boi-bumbá “Flor do 3º CD Campo”, considerado um dos mais antigos de Belém e de artistas paraenses como Nilson Chaves, Kátia Teixeira, Sabá Moraes e Almirzinho Gabriel. O CD trouxe um painel musical com obras de domínio público e uma leitura musical moderna e atual, utilizando elementos rítmicos tradicionais, elaborando a partir daí, uma releitura de folguedo paraense. “Eiá lá vai o céu Lumiô céu Meu canto de saudade Clariô céu Levou chapéu de fita e maracá na mão Partiu no mês de junho, mês de São João” (“Lumiô Céu”/Toni Soares) O último CD, pré-lançado no dia 20 de dezembro de 2002, no Instituto de Artes do Pará (IAP), reúne ladainhas e folias em homenagem a São Sebastião26, do município de Cachoeira do Arari. Porém, a idéia do lançamento partiu de uma apresentação, no Teatro do Centur, da Comissão de 4º CD 24 Toadas:músicas no ritmo de boi-bumbá Em entrevista baseada no arquivo de imagens do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na praça Pedro Teixeira, localizada no Cais do Porto, em Belém. 26 São Sebastião: santo católico (de origem francesa), padroeiro dos vaqueiros e fazendeiros, na Ilha do Marajó. 25 17
  • 18. São Sebastião, que são os esmoladores do santo na região do Marajó, principalmente nas cercanias de Cachoeira. As músicas são compostas a partir de uma concepção de contato e de reinterpretação do mundo cultural marajoara27. Além disso, no novo CD o grupo faz experimento de outros instrumentos acústicos, como: rabecas e violinos, além de misturá-los com sons pré-gravados. “A nossa intenção era produzir um disco para eles. Na busca de parcerias para a realização do projeto, recebemos um convite do poeta, professor de Estética e Pesquisador da Cultura, João de Jesus Paes Loureiro, que naquela ocasião, era presidente do IAP para, além de fazer um disco com as folias do Marajó – da comissão de São Sebastião – complementar com um segundo disco com a nossa visão sobre o Marajó, e a proposta foi de ser uma viagem virtual àquela região, como se saíssemos de Belém, de barco em direção à Cachoeira do Arari, ‘descobríssemos’ as folias e voltássemos a Belém com este encantamento nas nossas composições e foi o que fizemos”, explicou Júnior Soares. “Lá vai lá vai Minha beleza de gado Navegando rio acima Aportando no Acará Mandei recado Balancei o maracá Na porteira abril cancela Pro meu batalhão passar... (“Acará sem Governo” / Arraial do pavulagem) Ao longo dos anos, passaram muitos músicos pelo grupo, que, se por vários motivos não continuaram, de alguma forma o Arraial do Pavulagem de hoje reflete a participação deles. Entre os que passaram estão: Ruy Baldez, Luis Pinto, Aritanã, Lúcio Mouzinho, Alcyr Guimarães, João Moleque, Poli, Maurício Nery e Nazaco, Tony Soares, entre outros. Segundo Júnior Soares, o grupo já passou por várias mudanças ao longo dos seus dezesseis anos de existência. “Estamos em constante ebulição, sempre mudando a forma de fazer, mas com o mesmo objetivo. Entre as principais 27 Marajoara: pessoa que nasce na Ilha do Marajó. 18
  • 19. mudanças durante toda a nossa trajetória posso destacar a estruturação do grupo musical, que no início era um grupo de percussionistas que tocava em frente ao Teatro Waldemar Henrique; a introdução de instrumentos eletrônicos na banda; minha entrada e saída dos outros integrantes; mistura dos ritmos reggae com o boi; entrada, saída e depois entrada de novo do Toni Soares e a estruturação do Arrastão do Pavulagem, com a entrada de Walter Figueiredo, um dos organizadores do Arraial, em 1998. O grupo se prepara para gravar um disco ao vivo com músicas que são conhecidas pelo público, mas que nunca foram registradas pelo Arraial do Pavulagem como “Marujada de São Benedito”: “Marujada de São Benedito Em louvor ao protetor Vem vestindo azul ou vermelho carmim Na festa, no barracão” (“Marujada de São Benedito” - Júnior Soares / Edu Filho) 1.1- As interfaces do Arraial do Pavulagem O Arraial do Pavulagem é responsável por quatro ações que estão integradas e têm o objetivo de resgatar a cultura popular paraense, conforme discriminados abaixo: 1.1.1 – A Banda A banda tem sido o foco determinante para todas as ações do Arraial, embora os complementares, ou projetos seja, sejam estejam intrinsecamente ligados. Surgiu quase Banda do Arraial, na Praça da República que simultaneamente à manifestação na Praça da República, em 1987. Os 19
  • 20. instrumentos mais utilizados inicialmente foram tambores, guitarras, violões, percussão e contra baixo. De acordo com Ronaldo Silva, o objetivo da banda é “experimentar e vestir os ritmos que são tradicionais da música popular paraense. É reinventar esses ritmos e fazer conviver essas células dentro de um conceito futurístico”. A gravação do CD faz parte de uma estratégia de registro e divulgação dos ritmos e toadas de boi-bumbá dentro e fora do Estado do Pará. A última formação da Banda, em 2002, é a seguinte: percussionistas Edgar Júnior; Nazareno Silva; Ginja; Chico Henriques (bateria); Calibre (Contra baixo); Marcelo Pyrull (guitarra); Júnior Soares e Toni Soares (Violão) e Ronaldo Silva (Vocal). 1.1.2 – Rodas de Boi As Rodas de Boi são reuniões lítero-musicais envolvendo amos de bois tradicionais, grupos parafolclóricos, músicos, compositores, bailarinos e artistas populares diversos. Esses encontros são inspirados nas "esmolações" das festas dos santos, que visam os preparativos e a permanência dos cultos sacros e profanos. As peregrinações pelas cercanias do lugar prevêem o desenvolvimento e a mobilização da comunidade acerca da festividade. As rodas de boi têm o objetivo de difundir os ritmos da região, bem como mobilizar os produtores da cultura popular e disponibilizar um produto cultural, com a finalidade de contribuir para o fortalecimento do turismo na capital paraense. Elas se realizam sob duas vertentes: as rodas de boi, com base fixa que acontecem todos os domingos, no mês de junho.O local e data são definidos de acordo com o patrocínio que o grupo consegue a cada ano; e as com base itinerante que acontecem semanalmente, nos distritos de Belém, em lugares diversos como currais de boi tradicional e centros comunitários, escolas, praças públicas e etc. 20
  • 21. 1.1.3- Oficinas Públicas São atividades sócio-educativas que vislumbram o desenvolvimento da arte e da cultura, enquanto processo pedagógico contínuo. Têm como objetivo valorizar o boibumbá paraense. Elas são feitas em parceria com a Fundação Curro Velho e destinadas gratuitamente às crianças, adolescentes e adultos com realização em espaços públicos. De acordo com Natan Ribeiro, responsável pelos adereços no Arraial do Pavulagem, este trabalho iniciou nos coretos da Praça da República. “Trabalhamos com Momento da confecção do boi Pavulagem, em 2001 papel reciclado, papelão e tinta. Chamávamos aquelas crianças que passavam com seus pais, avós e acompanhantes, para que elas recortassem e dessem formas aos adereços como estrela, chapéu, lua, fogueira e os colorissem”, explica Natan28. Posteriormente, em função da necessidade de um espaço maior, as oficinas passaram a ser realizadas na Escola de Samba Bole-Bole, no bairro do Guamá. O resultado do trabalho realizado pelas crianças pôde ser visualizado há três anos com a confecção de estandartes no tamanho oficial, chapéus e bandeiras com imagens de santos juninos: Santo Antônio, São Pedro e São João Menino. As oficinas compreendem uma carga horária de 40 horas e iniciam três meses antes do cortejo. As atividades enfocam técnicas de adereços de símbolos juninos, sotaques rítmicos do boi–bumbá paraense, coreografias do Boi, estandartes e bandeira, máscaras e cabeções, que foram introduzidas há quatro anos. Os resultados destes trabalhos são apresentados por ocasião os Cortejos / Arrastões. 21
  • 22. 1.1.4 – Cortejo / Arrastão O Arrastão do Pavulagem foi a primeira ação do grupo e é hoje a culminância das festividades do Arraial, pois congrega os sotaques rítmicos do boi, com orquestra e apresentação dos elementos cênicos e visuais da brincadeira - o boi brinquedo; os estandartes e bandeiras com Participantes do Arrastão, na Av.Presidente Vargas as imagens dos santos festeiros, mastros, cabeções juninos, brincantes mascarados conduzindo os adereços com os símbolos da época, na cadência do boi e a cantoria, que expressam as toadas de amos tradicionais e contemporâneos. O Arrastão acontece há quinze anos. “Nos últimos quatro anos, o cortejo é realizado nos seguintes períodos: nos domingos do mês de junho, saindo da Praça Pedro Teixeira, na escadinha do Cais do Porto, localizada no início da avenida Presidente Vargas29 e se encerra com um show no anfiteatro da Praça da República; e na véspera do Círio de Nazaré, saindo da Praça do Operário e encerrando na Praça do Carmo, na Cidade Velha30”, esclarece Júnior Soares. Ao longo desse período, muitas mudanças ocorreram. “No início, dávamos apenas uma volta em torno da Praça da República, tocando e cantando toadas de boi. Os instrumentos utilizados eram basicamente de percussão como tambores e barricas. Três anos depois, o Arrastão passou a ser finalizado com um show no Teatro Waldemar Henrique e, em 1997, acrescentamos elementos novos como a participação da orquestra”, disse Júnior Soares. No ano de 2000, as novidades foram a introdução do boi, que antes era representado apenas através do boi de talinha, além do atual local de saída do Arrastão. Nesse período, o público que participa do Arrastão aumentou, atingindo em 2002 cerca de cinco mil pessoas. 28 Em entrevista baseada nas imagens de arquivo do Arraial do Pavulagem, no mês de outubro de 2001, na Praça da República. Av. Presidente Vargas: uma das principais avenidas, localizada no centro de Belém. 29 22
  • 23. “O Arrastão é ainda um processo em construção. A vontade de conhecer novos elementos da cultura popular é muito grande. Ainda não existe um formato definitivo”, comenta Ronaldo Silva. Os estandartes com imagens dos santos católicos da quadra junina abrem o Arrastão. Além dos bois, outros elementos dessa tradição se juntam à brincadeira, como os vaqueiros da comédia e os bonecos cabeçudos, numa alusão ao boi de orquestra de São Caetano de Odivelas31. As toadas são levadas pelos barriqueiros e pela orquestra de sopros. Bandeiras e muitos adereços de mão colorem essa caminhada. No primeiro domingo de saída, o Arrastão do Pavulagem traz o mastro de São João, adornado com frutas e elementos da natureza, através de um cortejo fluvial, que sai da Praça Princesa Isabel32 e chega à Escadinha do Cais do Porto33. Depois, é levado pelos participantes da festa pela avenida Presidente Vargas até a Praça da República, onde é erguido e fica até o final do mês quando é derrubado, simbolizando o encerramento do festejo. O levantamento do mastro é semelhante ao que acontece nas festas populares religiosas dos santos católicos. “A idéia de trazer o mastro de barco é porque a cidade de Belém é de costa para o rio, assim como o ribeirinho. Então, nós queríamos inventar uma brincadeira que falasse dessa orla. O barco só encosta quando a gente diz que é para encostar”, ressalta Ronaldo Silva. 1.1.5 – Cordão de Peixe Boi A mais recente ação do Arraial do Pavulagem é o Cordão do Peixe-Boi34. É uma manifestação de rua que tem um objetivo cultural-ecológico em defesa da vida do peixe-boi. O Cordão pretende compor o calendário cultural da cidade no período que antecede o carnaval, apresentando ritmos da região amazônica, como samba de cacete35, carimbó, bangüê36, siriá37 e folias. Este foi o primeiro 30 Cidade Velha: é a parte mais antiga de Belém, nela, acontecem os principais eventos da cultura popular paraense. Além disso, pode -se encontrar o que restou da arquitetura colonial portuguesa dos séculos XVII e XVIII. São casarões, palacetes e sobrados que ainda guardam fachadas de azulejos e os mais antigos templos religiosos da cidade. 31 São Caetano de Odivelas: município localizado no nordeste paraense, com cerca de 104 quilômetros de Belém. No mês de junho é realizado o festival folclórico do Boi de Máscara. 32 Praça Princesa Isabel: localizada no bairro do Condor, periferia da cidade 33 Escadinha do Cais do Porto: localizada na Praça PedroTeixeira, no final da avenida Presidente Vargas. 34 Peixe-boi: mamífero aquático herbívoro, que vive nos rios da Amazônia e está em extinção. 35 Samba de Cacete: mistura de danças como o Síria, Maçarico (de Cametá) e o frevo (de Recife - Ba) 23
  • 24. ano do cortejo, que saiu no dia 23 de fevereiro. A trajetória inicia-se com uma concentração na Praça do Pescador, no Ver-o-Pêso38. Depois, o cortejo percorre o centro histórico da cidade até a Praça do Carmo39, culminando com um encontro de tambores com a participação de grupos regionais. Apesar do Arraial do Pavulagem contar com o apoio e estímulo de uma comitiva e de colaboradores, o grupo enfrenta dificuldades principalmente financeiras, pois não possui uma estrutura suficiente para trabalhar e poder viabilizar idéias e projetos para o coletivo. Na opinião deles, à medida que se faz um exercício coletivo, estão fortalecendo a identidade cultural. Mas para isso, é necessária uma estrutura maior, possivelmente, no formato de um Instituto ou de uma Organização Não Governamental - ONG. 36 Bangüê: palavra de origem africana e significa padiola de cipós trançados na qual se leva o bagaço da cana. É variante da palavra bangulê, dança de negros ao som de puíta, palmas e sapateados. 37 Síria: dança folclórica do município de Cametá, cerca de 150 km de Belém (em linha reta), no nordeste paraense. Ver-o-Pêso: uma das maiores feiras livres da América Latina. Composto também por praças, mercado e porto. Estes últimos foram criados em1688, para que fosse mantido o controle das exportações e importações da capital paraense. O complexo, principalmente, o mercado de ferro, é um dos mais importantes cartão postal da cidade. O complexo do Ver-oPêso candidata-se a patrimônio histórico da humanidade. A sua localização é limitada pela travessa Frutuoso Guimarães e estende-se até a doca do Ver-o-Pêso, no centro da cidade. 38 39 Praça do Carmo: localizada no bairro da Cidade Velha, que é a parte mais antiga de Belém, onde ainda pode se encontrar arquiteturas coloniais portuguesas dos séculos XVII e XVIII. São casarões, palacetes e sobrados que ainda guardam fachadas de azulejos e os mais antigos templos religiosos da cidade. 24
  • 25. 2º CAPÍTULO AS CULTURAS POPULARES NA CONTEMPORANEIDADE 2.1 - Da origem à problematização Para entrarmos numa discussão sobre cultura popular, antes de tudo, devemos entender que ela é parte da cultura universal de um povo e que sua definição requer uma compreensão no seu sentido lato, capaz de entendê-la nas suas mais diversas dimensões sociais e simbólicas. Ela é fruto de todo um processo histórico, que ao longo dos anos, constitui-se através da dinâmica social das relações de poder. Conceituar “cultura” é tão complexo, que qualquer tentativa de enquadrá-la em um conceito definitivo, rígido e fechado pode ser um risco de mascarar o seu sentido mais abrangente. O fenômeno da cultura ocupa um espaço privilegiado em todas as teorias sociais. Apesar das diferentes perspectivas sobre o seu conceito, há o entendimento geral de que se trata de um domínio no sentido da atividade humana, porque está relacionada com as condições materiais de produção. A cultura está situada no campo simbólico: não é ação pura, é resultado do modo como se estabelecem as relações sociais. O conceito de cultura popular é recente e está intimamente associado ao processo de urbanização que ocorreu a partir do século XVIII. A cultura popular, divulgada pelo romantismo, ocupou no imaginário da burguesia oitocentista a memória de uma sociedade que estava prestes a desaparecer. Neste imaginário, aparece retratada uma cultura feita por camponeses, símbolos de povo idealizado, puro e feliz na sua ignorância. Dois marcos importantes que construíram e reforçaram o sentimento nacional e representaram tentativas de homogeneização das pluralidades que compunham a vida nas comunidades e regiões no período medieval foram: a configuração do Estado Moderno e as Guerras de Religião. Esses pontos estão associados às transformações no sistema de produção capitalista e, 25
  • 26. consequentemente, à expansão de mercados com a colonização de outros povos, provocando com isso, o contato entre diferentes culturas. O próprio sentido dado no dicionário à palavra “cultura”, é alvo de controvérsias, pois atribui um significado limitado: “Ato, efeito ou modo de cultivar; o complexo dos padrões de comportamento, das diferenças, das instituições, das manifestações artísticas, intelectuais, etc, transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade; o conjunto dos conhecimentos adquiridos em determinado campo” (FERREIRA, 2002. p. 197) A palavra “cultura” é de origem latina e seu significado também está ligado às atividades agrícolas. É derivada do verbo latino Colere, que significa cultivar. Pensadores antigos ampliaram esse significado e usaram para se referir ao refinamento, sofisticação e educação elaborada de uma pessoa. A utilização do conceito de cultura no sentido figurado como "cultura do espírito" surgiu no século XVI, com o Renascimento. A importância da denominação foi enfatizada ao se tornar um símbolo do Iluminismo e dos seus filósofos como, por exemplo, Hobbes, que designa "cultura" como o trabalho de "educação do espírito". Esse conceito está baseado na concepção da pessoa humana como um indivíduo centrado, unificado, dotado das capacidades de ação. O que prevalecia era o conceito individualista, ao contrário do sociológico, que segundo Stuart Hall (1998) tinha a identidade formada na interação entre o eu e a sociedade, ou seja, entre o interior e o exterior. Alguns teóricos como Kant e Voltaire relacionam a cultura com civilização. Para eles, a cultura é a medida de uma civilização porque permite avaliar, comparar e classificar civilizações. Outros pensadores, a inserem numa questão dialético-histórico como Marx e Hegel, que concebem a cultura como campo simbólico determinado pelas condições materiais de existência. Até a primeira metade do século XIX imperou uma concepção tradicional e singular de cultura - sinônimo de civilização. Nesse período, prevalecia uma visão etnocêntrica e compartimentada da cultura. 26
  • 27. Posteriormente, essa concepção moderniza-se graças à importante contribuição da Antropologia e, numa perspectiva evolucionista, Edward B. Tylor (1871) faz a primeira formulação do conceito antropológico de cultura, definindo-a através do desenvolvimento mental e organizacional das sociedades: "Cultura é o complexo unitário que inclui o conhecimento, a crença, a arte, a moral, as leis e todas as outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade" (TYLOR, apud GONÇALVES, 1998:2) No início do século XX, essa teoria é criticada e surgem novas vertentes de pensamento social como o Funcionalismo, que teve em Malinowsky um dos seus principais teóricos. Essa corrente entende a cultura como um sistema de comportamentos aprendidos e transmitidos pela educação, imitação e pelo condicionamento num dado meio social. Além disso, na década de 70, surgiu o Estruturalismo que teve C.LéviStrauss como um dos mais importantes teóricos. Essa vertente enfatiza o aspecto simbólico da cultura ao identificá-la como expressão de sistemas do espírito: a cultura é uma manifestação do mundo das idéias abstratas do espírito; é um instrumento de comunicação. A partir desse momento, surgiram outros teóricos como Lucien Goldmann, Marcel Rioux, Michel de Certeau, Pierre Bourdieu, E. Verón, que deram grande contribuição para o estudo do fenômeno cultural. Suas reflexões tinham como justificativa: "Procurar vias para superar a aludida concepção etnocêntrica e compartimentada de cultura e possibilitar uma análise das relações entre as diversas culturas coexistentes numa sociedade" (SANTOS, apud GONÇALVES, 1988:2). 2.2 – Folclore, Cultura de Massa e Popular “Cultura popular” está longe de ser um conceito bem definido pelas ciências humanas, especialmente pela Antropologia Social. Isso porque lhe são atribuídos os mais diversos significados e expressões, como “caipira”, “povo” (visto de 27
  • 28. maneira pejorativa), “inculto”, “grotesco”, “exótico”, “de mau gosto”, etc. Também freqüentemente é confundida com “folclore” ou com a “cultura de massa”, porque são expressões de um processo contínuo de mútuas influências e transformações. Não podemos pensar que cultura popular, por ser uma manifestação realizada fora do universo acadêmico e das instituições científicas, não tenha valor social. Ela não é fruto exclusivamente das classes ditas subalternas e sim resultado de um diálogo entre a cultura dominante e a do povo. Ela faz parte de um mesmo processo que tanto recebe, quanto influencia na criação de representações que formam a cultura. Um dos principais equívocos é pensar a cultura popular como folclore, ou seja, um conjunto de objetos, práticas, valores, símbolos e concepções tradicionais parados no tempo. Essa visão de folclore foi defendida pelos românticos e ilustrados no século XIX. No entanto, as preocupações quanto ao estudo das manifestações populares são herdeiras de debates e correntes intelectuais européias desde os séculos XVII e XVIII, pelos Antiquários, autores dos primeiros escritos, que retrataram os costumes populares na Europa e, posteriormente, pelo romantismo, poderoso movimento intelectual e artístico. “O povo começa a existir como referente do debate moderno no fim do século XVIII e início do século XIX, pela formação na Europa de Estados Nacionais que trataram de abarcar todos os estratos da população. Entretanto, a ilustração acredita que esse povo ao qual se deve recorrer para legitimar um governo secular e democrático é também portador daquilo que a razão quer abolir: a superstição, a ignorância e a turbulência. Por isso, desenvolve-se um dispositivo complexo. (...) O povo interessa como legitimador da hegemonia burguesa, mas incomoda como lugar do inculto por tudo aquilo que lhe falta” (CANCLINI, 1997: 208) Vale ressaltar que havia algumas diferenças de pensamento entre os românticos e ilustrados no que se refere à valorização do passado. Para os românticos, a cultura popular seria a guardiã da tradição e do passado, enquanto 28
  • 29. que para os ilustrados, o passado seria um momento de selvageria e ignorância. Porém, eles pensavam em comum quanto à origem da cultura popular. “Os românticos se tornam cúmplices dos ilustrados. Ao decidir que a especificidade da cultura popular reside em sua fidelidade ao seu passado rural, tornam-se cegos às mudanças, que a definiam nas sociedades industriais e urbanas. Ao atribuir-lhe uma autonomia imaginada, suprimem a possibilidade de explicar o popular pelas interações que têm com a nova cultura hegemônica. O povo é ‘resgatado’, mas não reconhecido” (CANCLINI, 1997: 210) No Brasil, uma ampla movimentação em torno do folclore iniciou-se no século XX, com o movimento modernista, reunindo nomes como Cecília Meirelles, Câmara Cascudo, Gilberto Freire, entre tantos outros. Nessa época, o contexto histórico era marcado pelo avanço da industrialização e pela modernização da sociedade, o que criou a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, organizado pelo Ministério da Educação e Cultura. Seu objetivo era preservar e divulgar o folclore nacional, que possuía a atribuição de uma autenticidade, pureza e essência cultural da nação. “O desenvolvimento de estudos folclóricos brasileiros devese muito a objetivos tão pouco científicos como os de fixar o terreno da nacionalidade em que se fundem o negro, o branco e o índio. (...) Ortiz acrescenta que está também associado aos avanços da consciência regional oposta à centralização do Estado”. (ORTIZ, apud CANCLINI, 1997: 211-212) A principal ausência nos trabalhos de folclore é deixar de ver as diferenças culturais postas pelos movimentos histórico-sociais de uma sociedade de classes e não questionar o que ocorria com as culturas populares quando a sociedade se massifica. As diferenças de classes eram escamoteadas por uma outra visão: a de homogeneização da sociedade. Essa teoria foi sustentada pelos pensadores norte-americanos, que criaram as expressões “sociedade de massa” e “cultura de massa” para dar a entender que as classes sociais haviam desaparecido e, 29
  • 30. conseqüentemente, o fim das lutas entre elas. Essa teoria foi muito bem recebida pelos pensadores liberais, porque, para eles, significava o triunfo do discurso da democracia liberal, em que as divisões sociais se reduziam a divergências de interesses entre grupos. Para opor-se a essa apologia da sociedade de massas como democrática frankfurtianos, trazem os conceitos de indústria cultural e de cultura administrada. Os principais teóricos da chamada Escola de Frankfurt foram Max Hokheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e Walter Benjamin. A Escola de Frankfurt surge num momento de grandes transformações sociais e como vanguarda do marxismo, refletindo a problemática da comunicação nos anos 30, quando se assistia toda a crise social das democracias liberais, à ascensão do fascismo e à regressão do socialismo na Europa. Grande parte do pensamento desses teóricos é baseada na relação cultura/capital e no uso intenso da técnica como instrumento de controle social. De acordo com a teoria da indústria cultural, a cultura passa a ser uma mera mercadoria no capitalismo. Assim, o produto cultural torna-se um bem de consumo, criando um homem unidimensional, a massa homogênea, anônima, manipulável e sem relevo interno. Segundo Marilena Chauí, com exceção de Herbert Marcuse, as duas perspectivas, tanto a americana quanto a frankfurtiana, “tendiam a concordar em um ponto: a identificação da cultura popular e da cultura de massa. Indepentemente do significado antagônico e irreconciliável das duas perspectivas, deixaram elas um saldo comum que repercute sobre a maioria das análises referentes à Cultura Popular nos países ditos centrais ou de capitalismo avançado. A Cultura Popular é identificada com a Cultura de Massa – Popcult e Masscult tornaram-se sinônimos ” (CHAUÍ, 1986:27) Porém, ressalte-se que não se pode tomá-las como sendo idênticas, mas é permitido dizer que as práticas populares se relacionam com as expressões da cultura de massa. Esta tende a ocultar as diferenças, os conflitos e as 30
  • 31. contradições entre as classes sociais, ao contrário da cultura popular que, busca assinalar aquilo que a cultura dominante pretende omitir. “A cultura de massa não aparece de repente, como uma ruptura que permita seu confronto com a cultura popular. O massivo foi gerado lentamente a partir do popular. Só um enorme estrabismo histórico e um potente etnocentrismo de classe que se nega a nomear o popular como cultura pôde ocultar essa relação, a ponto de não enxergar a cultura de massa senão um processo de vulgarização e decadência da cultura culta” (BARBERO, 2001:181) Deve-se entender a cultura popular como um conjunto de práticas contraditórias e dispersas, que tem uma dinâmica própria, construída no seio dos conflitos sociais, incorporando, readaptando e transformando símbolos, signos e elementos de outras culturas em algo próprio. “As culturas populares (termo que achamos mais adequado do que a cultura popular) se constituem por um processo de apropriação desigual dos bens econômicos e culturais de uma nação ou etnia por parte dos seus setores subalternos, e pela compreensão, produção e transformação real e simbólica das condições gerais e específicas do trabalho e da vida” (CANCLINI, 1982: 42) A cultura popular possui originalidade, criatividade, que se transforma, evolui, incorpora novos signos e os transforma uma expressão forte, identitária de um povo e, por isso mesmo, revelando com maior amplitude a alma desse povo. Por isso não é possível falar de cultura popular sem falar da classe social que a produz. ”Quando você mistura dizendo que tudo é cultura, como se tudo fosse uma coisa única, você na verdade escamotea a origem social (...). A sociedade está dividida em inúmeras classes sociais e cada uma produz a sua expressão de cultura”. (Paes Loureiro) 31
  • 32. Nesse sentido, não podemos deixar de fazer referência ao conceito de hegemonia, porque nesse processo são reproduzidas as relações de poder e a correlação de forças entre classes sociais que estão em constante disputa por representatividade. “A hegemonia vive é sempre um processo. Não é, senão do ponto de vista analítico, um sistema ou uma estrutura. É um complexo realizado de experiências, atividades, compressões e limites específicos e mutáveis. Na prática, a hegemonia nunca pode ser singular. Suas estruturas concretas são altamente complexas e sobretudo, não existe apenas passivamente na forma de dominação. Deve ser continuamente renovada, recriada, defendida e modificada e é continuamente resistida, limitada, alterada, desafiada por pressões que não são suas. Nesse sentido, devemos acrescentar ao conceito de hegemonia aos conceitos de contra-hegemonia e hegemonia alternativa, que são elementos reais e persistentes da prática (...). (GRAMSCI, apud CHAUÍ, 1986:22) 2.3 - Identidades Flexíveis: Desterritorialização e Deslocamento As questões que cercam a discussão da “identidade” são demasiadamente complexas e têm sido bastante discutidas por teóricos, principalmente aqueles ligados aos estudos culturais. O conceito da identidade cultural vem se transformando ao longo do processo histórico. Sua discussão ganha força a partir do Iluminismo, cuja concepção pautava-se num sujeito totalmente unificado, dotado das capacidades de razão, consciência e ação. Em seguida, esse pensamento dá lugar ao “sujeito sociológico” do mundo moderno, que se forma na interação social, ou seja, entre relações com outras pessoas que mediam seus valores, sentidos e símbolos expressos em uma cultura. Argumenta-se, entretanto, que são exatamente essas relações que estão mudando, na medida em que a identidade do sujeito moderno - que era vista como estável e unificada – torna-se fragmentada. Agora, o sujeito não é mais formado por uma única identidade, mas por várias. Isso é o que produz o “sujeito 32
  • 33. pós-moderno”, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia, pois cada vez mais, os sistemas de significação e representação cultural crescem e se entrelaçam, colocando-nos diante de um universo complexo de identidades, sendo que, em cada uma delas, o indivíduo pode se identificar – ao menos temporariamente”. (HALL,1998: 13) Dessa forma, o sujeito assume identidades diferentes em momentos distintos, afetadas tanto pelos processos de socialização quanto de globalização dos meios de comunicação e informação. A sociedade em que vive o sujeito não é um todo unificado, uma totalidade, que flui e evolui a partir de si mesma, pois está também constantemente sendo descentrada e deslocada por forças externas. “(...) entendo por identidade um processo de construção de significado com base num atributo cultural, ou ainda num conjunto de atributos culturais inter-relacionados, o(s) qual (ais) prevalece (m) sobre outras fontes de significado. Para um determinado indivíduo ou ainda um ator coletivo identidades múltiplas.” (CASTELL, 1999: 25) Com o processo de globalização e industrialização, da expansão dos mercados, do deslocamento de fronteiras, se amplia a visão de cultura, introduzindo o conceito de diversidade, de heterogeneidade e de hibridismo, trazendo consigo novas formas de sociabilidade, tais como a formação de círculos de interesses parcializados, grupos de integração intermitentes capazes de gerar formas culturais novas e altamente sincréticas, as quais implicam num universo simbólico mais aberto e transitório, distinto do caráter totalizante e estável dos símbolos culturais tradicionais. “Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. 33
  • 34. Estas transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um ‘sentido de si’ estável é chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração de sujeito.” (HALL, 1998: 9) Nesse contexto, é válido ressaltar que as identidades são contraditórias e que as pessoas participam de várias identidades simultaneamente, em combinações às vezes conflitantes, tais como ser mulher, pobre, homossexual e negro ao mesmo tempo. Vale também dizer que essa identidade muda com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, e que sua identificação nem sempre é automática. “De acordo com Laclau, o que caracteriza a sociedade da modernidade tardia é a diferença, isto é: um conjunto de divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de “posições do sujeito”, de identidades para os indivíduos. Tais sociedades não se desintegram, porque seus diferentes elementos e identidades podem ser articulados conjuntamente, no arranjo parcial que deixa em aberto a estrutura da identidade” (LACLAU apud FABRIS: 3) È importante lembrar que, ao invés de se falar de identidade como uma algo acabado, deve-se falar de uma identificação, de um processo, e que essa identidade nunca é plena dentro dos indivíduos, ao contrário, ela precisa ser "preenchida" e desenvolvida. As identidades nacionais não são nem genéticas nem hereditárias, ao contrário, são formadas e transformadas no interior de uma representação. Uma nação é, nesse processo formador de uma identidade, uma comunidade simbólica em um sistema de representação cultural. E a cultura nacional é um discurso ou modo de construir sentidos que influenciam e organizam tanto as ações quanto as concepções que temos de nós mesmos. No caso da América Latina, o processo de diversidade cultural não aconteceu como na Europa com a formação de Estados Nacionais. Nos países latinos, prevaleceu o uso da violência, da coerção por parte da burguesia “nacional” com relação às populações indígenas e negras. 34
  • 35. Como resultado, as sociedades passaram a sofrer processos de estranhamento incompletos, de fragmentação de referenciais tradicionais. Originou-se assim um imbricado cruzamento de tempos históricos diferenciados, coexistentes de modo desarticulado. Garcia Canclini denominou esse processo de heterogeneidade multitemporal ou hibridismos culturais. “Essa heterogeneidade multitemporal da cultura moderna é conseqüência de uma história na qual a modernização operou poucas vezes mediante a substituição do tradicional e do antigo. Houve rupturas provocadas pelo desenvolvimento e pela urbanização que, apesar de terem ocorrido depois que na Europa, foram mais aceleradas” (CANCLINI, 1997:74) No caso do Brasil, a identidade está embutida na língua e nos sistemas culturais, mas estão longe de uma homogeneidade. Ao contrário, estão influenciadas pelas diferenças étnicas, pelas desigualdades sociais e regionais, pelos desenvolvimentos históricos diferenciados, naquilo que é denominado "unidade na diversidade". Nesse processo de intercâmbio, todas as nações são híbridas culturais e isso constitui-se como um dos fatores de potencialização das faculdades criativas. Essa visão multifacetada da identidade foi promovida pelo colonialismo, movimentos migratórios, intercâmbios culturais e pelo avanço tecnológico. Tudo isso provocou um processo de fragmentações internas, ruptura, deslocamento e desterritorialização do senso de identidade e das temporalidades diversas, reconfigurando e transformando o tempo e o espaço. “À medida que o espaço se encolhe para se tornar uma aldeia “global” de telecomunicações e uma “espaçonave planetária” de interdependências econômicas e ecológicas – para usar apenas duas imagens familiares e cotidianas – e à medida em que os horizontes temporais se encurtam até ao ponto em que o presente é tudo que existe, temos que aprender a lidar com um sentimento avassalador de compreensão de nossos mundos espaciais e temporais” (HARVEY, 1989: 240) 35
  • 36. É importante destacar o conceito de cada um desses fenômenos sócioculturais. Segundo Canclini (1997), a desterritorialização “é a perda da relação ‘natural’ da cultura com os territórios geográficos e sociais, e, ao mesmo tempo, certas relocalizações territoriais relativas, parciais, das velhas e novas produções simbólicas”.(CANCLINI, 1997: 309) Segundo Ernest Laclau (1990) as sociedades modernas não têm nenhum centro, nenhum princípio articulador ou organizador único e não se desenvolvem de acordo com o desdobramento de uma única “causa” ou “lei” afirma que seria uma estrutura. Ele acrescenta que “ uma estrutura deslocada é aquela cujo centro é deslocado, não sendo substituído por outro, mas por uma ‘pluralidade de centros de pode’ ’” (LACLAU, apud HALL, 1998:16) Na contemporaneidade, observa-se o constante estabelecimento de novas formas de significação, responsáveis pela criação de novas culturas, maneiras de expressar as inúmeras identidades culturais e novos grupos de identificação. Assim, ao romper com as fronteiras territoriais, as manifestações das identidades podem ser consideradas um modo de tentar compreender e expressar a sociedade contemporânea na sua pluralidade, segmentação e contradições. 2.4 – As Conseqüências dos Contatos Interculturais 2.4.1 – Hibridismo A cultura tem se transformado radicalmente nos últimos anos, ultrapassando fronteiras e fazendo com que cada grupo possa se abastecer de repertórios culturais diferentes. As sociedade são naturalmente híbridas pela mestiçagem racial, assimilação de “novas” culturas, pela reciclagem e reprocessamento de valores importados e, como não poderia deixar de ser, pelos 36
  • 37. hábitos e valores de consumo. Assim, nada mais oportuno que utilizarmos o termo hibridismo para caracterizar o momento vivido pelas culturas contemporâneas. “O termo híbrido vem do grego “hybris”, que quer dizer destempero e excesso. É também um dos conceitos centrais para se entender o legado da tradição helenista; no Feudro, Platão descreve a hybris como a transgressão da justa-medida, sendo portanto uma expressão do caos com suas múltiplas faces e partes. O termo adquiriu ao longo da história o sentido de impureza e mistura”. (STANGL,2002: 3) O espaço híbrido onde se produz o sentido de identidade, localidade, conjuga num só tempo sistemas de identificação de um enraizamento cultural como a própria demarcação de territórios, das renovações das tradições, convivência comunitária, imagens e comportamentos facilmente identificáveis num contexto globalizado, os quais são incorporados ao cotidiano de diversas culturas. O hibridismo é um processo que agrega diversas manifestações culturais, fundindo elementos tradicionais e modernos. Eles convivem num mesmo cenário social, juntamente com o massivo, entendido como meios eletrônicos de informação. Um fator de intensificação do hibridismo é a expansão urbana, que traz consigo a oferta cultural das comunidades rurais, tradicionais e homogêneas transformando-se em função do contato com a oferta heterogênea das grandes cidades, originando-se daí a mistura do regional com redes nacionais e transnacionais de comunicação e a desestabilização dos limites entre uma e outra cultura. Canclini salienta que os meios de comunicação de massa se converteram nos grandes mediadores das interações coletivas, em função da subordinação da chamada cultura urbana às tecnologias eletrônicas. Segundo Lévi Strauss, os homens têm sempre dificuldades de encarar as diversidades das culturas como fenômeno cultural, resultante da relação direta ou indireta entre as sociedades. A cultura envolve, portanto, uma diversidade de situações da vida social que se articulam e assumem significados variados em meio às transformações e contatos cotidianos. 37
  • 38. Denys Cuche explicita essa questão ao desenvolver o pensamento de autores que abordam a cultura como um processo permanente de construção, desconstrução e reconstrução. “Todas as culturas, devido ao fato dos contatos culturais, são culturas mistas, feitas de continuidades e descontinuidades” (CUCHE apud WOITOWICZ,2002: 14) No entanto, alguns autores como Bruce Robbins, discutem a denominação de hibridismo por ser um conceito com determinadas limitações, por não explicitar certos aspectos do internacionalismo. Assim, a noção de cosmopolitismo seria considerada a mais adequada, na visão de Robbins, para designar o momento vivido pela sociedade atual que seriam os intercâmbios e fluxos, frutos da globalização, do avanço tecnológico e, conseqüentemente, da mundialização da cultura. (ROBBINS apud PRYSTHON: 02) A celebração dos vários hibridismos é, senão o maior, pelo menos o mais constante atributo a garantir a definição do multiculturalismo. Além de revelar misturas e criar “identidades hifenadas” (SHOHAT & STAM, apud MACHADO, 1994:02) o multiculturalismo ganhou notoriedade, porque ampliou a possibilidade de refletir sovbre o encontro das culturas não apenas com formação identitária, mas como diálogo de diferentes sistemas comunicacionais. O multiculturalismo pode ser visto como um sintoma de transformações sociais básicos, ocorridos na segunda metade do século XX, no pós-guerra. O multiculturalismo é, antes de mais nada, um questionamento de fronteiras de todo tipo, principalmente da monoculturalidade e, com esta, de um conceito de nação nela baseado. Visto como militância, o multiculturalismo implica em reivindicações e conquistas vistas pelas chamadas minorias. Reivindicações e conquistas muito concretas: legais, políticas, sociais e econômicas. “O multiculturalismo hoje é uma marca da nossa realidade e felizmente, estamos num período da história cultural e artística, que está sendo denominada de pós-modernidade, onde há uma abertura para os contrastes, para os opostos. (...) A pósmodernidade aceita a união dos contrários, a coincidência 38
  • 39. deles. Nós podemos trabalhar hoje com o mais antigo e o mais novo, o mais local e não local sem que isso seja estranho, pelo contrário, é tido como um dado as mais, um enriquecimento para o processo criador.” (Paes Loureiro) A partir da análise dos pensamentos de Robbins, Shohat, Stam e Canclini, pode-se perceber que eles oferecem leituras que convergem em um ponto: todas as culturas são de fronteira, devido ao fenômeno da desterritorialização, articulamse umas com as outras e, com isso, têm ampliado seu potencial de comunicação, renovação e conhecimento. “ (...) hoje as culturas são de fronteira. Todas as artes se desenvolvem em relação com as outras artes: o artesanato migra do campo para a cidade; os filmes, os vídeos e canções que narram acontecimentos de um povo são intercambiados com outros. Assim as culturas perdem a relação exclusiva com seu território, mas ganham em comunicação e conhecimento”. (CANCLINI, 1997: 348) Não se pode promover um contato cultural sem que esse implique em troca simbólica. Percebe-se, desse modo, que não há cultura unicamente doadora e nem unicamente receptora, pois se trata de um trabalho coletivo de troca, assimilação e reciclagem de sentidos culturais. Outra conseqüência dos contatos interculturais é o processo de mestiçagem, verificado com mais ênfase no Brasil. Teria começado no momento em que o colonizador português desembarcava nestas terras e cedia aos encantos das mulheres indígenas e teria se prolongado com a escravidão, que deu aos senhores a oportunidade de escolherem as escravas "mais belas e mais sãs para suas amantes". Desse encontro teria nascido a raça mais eugênica e melhor adaptada aos trópicos: o mulato, feliz meio-termo entre a degradação do escravo e os vícios dos senhores. Porém, a designação de “mestiçagem”, como é concebida pelo prisma da etnicidade, não é suficiente para explicar a complexidade e diversidades culturais contemporâneas marcadas pelo intenso fluxo de troca de bens culturais entre as sociedades. 39
  • 40. Segundo Maria Isaura Queiroz (1989), as elites brasileiras negavam a riqueza da contribuição das diferentes culturas responsáveis pela construção da brasilidade, a saber: o negro, o índio e o branco. A identidade cultural no país mostrou-se problemática desde o início do século XIX, pois esta era recheada pelo preconceito e impregnada pelo racismo. Os teóricos admitiam a grande heterogeneidade cultural e o sincretismo existente no país, porém viam essa mistura como um obstáculo que impedia o Brasil de alcançar a ‘verdadeira’ identidade nacional, aos moldes europeus. Somente na segunda metade do século XX, a multiplicidade étnica será vista pelos intelectuais como um fator de grande relevância para a construção do patrimônio cultural. 2.5 – O global e o local Com a globalização, as fronteiras territoriais foram diluídas, possibilitando um maior contato entre as diversas culturas. A despeito disso, as identidades nacionais e outras identidades “locais” ou particulares estão sendo reforçadas pela resistência à globalização e as identidades nacionais estão em declínio, mas novas identidades – híbridas – estão surgindo. “uma das características distintivas da modernidade é uma interconexão crescente entre os dois extremos da “extensionalidade” e da “intencionalidade”: de um lado influências globalizantes e, do outro, disposições pessoais... Quanto mais a tradição perde terreno, e quanto mais reconstitui-se a vida cotidiana em termos da interação dialética entre o local e o global, mais os indivíduos vêem-se forçados a negociar opções por estilos de vida em meio a uma série de possibilidades... O planejamento da vida organizada reflexivamente...torna-se característica fundamental da estruturação da auto-identidade” (GIDDENS, apud CANCLINI, 1999: 27) O principal paradoxo da globalização é tentar impor a hegemonia a uma nação, fragmentando determinadas culturas, ou conduzir a um ecumenismo 40
  • 41. global, que seria promover a interação entre o intercâmbio cultural, e o fortalecimento das identidades, ou seja, o lugar de convívio entre diferentes manifestações culturais. “(...) ao lado da tendência em direção à homogeneização global, há também uma fascinação com a diferença e com a mercantilização da etnia e da “alteridade”. Há juntamente com o impacto do ‘global’, um novo interesse pelo ‘local”. (HALL, 1997) Em meio ao campo de produção e reprodução da cultura midiática aparecem as contradições da sociedade globalizada: as definições e limites entre a afirmação do local, regional, nacional e do internacional. Essa (in)definição de fronteiras deve ser deslocada agora para a capacidade de interagir com as múltiplas ofertas simbólicas internacionais a partir de posições próprias. É em meio a esse mundo conflitante de pluralidade e centralismo que as culturas se movimentam. As contradições desse processo devem ser observadas a partir do duplo processo de globalização e de localização da cultura, permitindo ao mesmo tempo e no mesmo espaço, a expressão de vozes diferentes, dissonantes e contrastantes. “À medida que o espaço se encolhe para se tornar uma aldeia “global” de telecomunicações e uma ‘espaçonave planetária’ de interdependências econômicas e ecológicas – para usar apenas duas imagens familiares e cotidianas – e à medida em que os horizontes temporais se encurtam até ao ponto em que o presente é tudo que existe, temos que aprender a lidar com um sentimento avassalador de compreensão de nossos mundos espaciais e temporais” (HARVEY, apud HALL, 1998: 70) Verifica-se, portanto, que há uma polarização entre o universal e o local. É verdade que as sociedades fechadas e grupos tradicionais estão expostos a mensagens multiculturais, mas isso não significa que eles sejam passivos diante desse processo. Pelo contrário, a universalização crescente e imposta pela ausência de um “outro lado” implica uma necessidade premente de auto-definição e, acima de tudo, de auto-conhecimento. 41
  • 42. 3º CAPÍTULO O ARRAIAL DO PAVULAGEM: IDENTIDADE EM ROTAÇÃO O Arraial do Pavulagem já se constitui um ícone da cultura amazônica que congrega diversos elementos característicos das manifestações culturais, principalmente dessa região. Ele pode ser situado em uma fronteira que funde o tradicional e o moderno, o rural e o urbano, o popular e o massivo, revelando a sua natureza híbrida. Por se revelar um objeto rico enquanto fonte de representação, que se renova e ressignifica a cultura popular paraense, o Arraial foi escolhido como fonte de estudo e análise, pautado em uma discussão dialética e dinâmica de cultura. Nele, estão presentes diversas manifestações culturais do Norte e Nordeste do país como marujada, quadrilha junina, carimbó, retumbão, boi-bumbá, reggae, lundu, etc. Por isso, apresenta-se como um rico fenômeno a que a cultura está sujeita. Segundo Canclini, tratar de cultura popular não é falar de sua beleza ou de sua autenticidade, mas levar em consideração a participação do povo, pois ela deve estar a serviço, ser elaborada e ser consumida por ele. “O popular não deve por nós ser apontado como um conjunto de objetos (peças de artesanato ou danças indígenas) mas sim como uma posição e uma prática. Ele não pode ser fixado num tipo particular de produtos ou mensagens, porque o sentido de ambos é constantemente alterado pelos conflitos sociais. Nenhum objeto tem seu caráter popular garantido para sempre, porque foi produzido pelo povo ou porque este o consome com avidez; o sentido e o valor populares vão sendo conquistados nas relações sociais. É o uso e não a origem, a posição e a capacidade de suscitar práticas ou representações populares que conferem essa identidade” (CANCLINI, 1982:135) O Arraial do Pavulagem é uma construção coletiva, pois, no Arrastão, observa-se a participação do público não somente como espectador, mas também como ator e produtor dessa festa popular, à medida que é realizada num espaço 42
  • 43. público, de maneira aberta, onde as pessoas podem entrar e sair a qualquer momento; podem tocar instrumentos; servir de suporte aos personagens da festa como o boibumbá, porta-bandeira e os cabeções. Além disso, os participantes são os próprios produtores dos adereços presentes no Arrastão - bandeiras, estandartes, chapéus, barricas, Porta-bandeiras, no momento do Arrastão cabeções, o próprio boi-bumbá e etc. “Nessa experiência, há elementos que nos remetem para o futuro com o propósito de construir uma relação não apenas contemplativa ou participativa, mas, principalmente, reflexiva, pois, a cultura popular é o nosso mote”. (Ronaldo Silva) 3.2 – Arraial: Festa e Espetacularização Partindo do que Jesus Gonzalez Requena denomina de “Tipologia do Espetáculo” (REQUENA,1988:67) pode-se inserir o Arrastão do Pavulagem nesta tipologia, já que adota um modelo carnavalesco, protagonizando uma cena aberta e indefinida que tende a estender-se por toda a cidade. O espetáculo é entendido como mais uma forma discursiva de expressar o real no mundo contemporâneo. É o meio pelo qual cada indivíduo é percebido e se faz perceber, numa encenação que permite dar visibilidade às ações dos diversos atores sociais e demarcar o espaço que cada um deles ocupa nesse cenário. O espaço onde o espetáculo se desenvolve também ganha contornos e sentidos diversos na medida em que é reorganizado, tanto simbólica quanto esteticamente para a realização da festa. No caso do Arrastão do Pavulagem, a Avenida Presidente Vargas e a Praça da República, localizadas no centro de Belém, tornam-se palco onde sujeitos diferentes e diferenças culturais se cruzam e são ressignificadas. O Arraial do Pavulagem tem como uma de suas características o aspecto festivo, fruto de toda contribuição cultural ibérica, colonizadores do continente 43
  • 44. americano. Para Maria Lúcia Monteiro, mergulhar fundo nas matrizes da cultura popular brasileira significa retomar essas heranças, deixadas principalmente pelo Barroco, que oferece uma multiplicidade de leituras. Assim como o fenômeno das festas, o Barroco pode ser visto como capaz de produzir uma multiplicidade de leituras todas centradas na ótica do poder. A festa no período colonial funde a força do Estado e da Igreja, que conferem um caráter sagrado e profano à celebração. No Arraial, isso é facilmente identificado quando se observa a presença dos santos e mastros aliados à cantoria e à dança. È justamente esse aspecto lúdico do cortejo que confere um sentido inovador, possibilitando experimentar, criar e recombinar esses elementos. Isso se deve ao processo de bricolage, característico da festa barroca, que incorpora e ressignifica poderosos elementos simbólicos. Na festa a existência humana ganha formas e contornos. No dizer de Marcel Mauss (1974), a festa “é um acontecimento que expõe uma ordem moral e social pelo lugar que cada um ocupa no contexto”. (MONTEIRO: 150) Clifford Geertz (1978) complementa: “a festa nos permite ler por meio dela o que a sociedade diz sobre si mesma”, (MONTEIRO: 150) Daí se compreende que esta festa barroca possa, como uma matriz simbólica, penetrar em profundidade nas formas da cultura. Nestas formas, são conservados seus elementos constitutivos, às vezes quase intactos, mas na maioria submetidos a um processo de ressignificação, segundo a própria lógica da festa, entendida como bricolage material e simbólica. Enquanto bricolage, o Arraial é uma festa que apresenta características tanto rurais quanto urbanas, trazendo para o cortejo elementos que são típicos de área rural como o boi Tinga (através dos cabeções), marujada, mastro, 44
  • 45. vocabulário, indumentárias, agregando-os a elementos urbanos como é o caso do próprio lugar em que essa manifestação acontece, os instrumentos musicais eletrônicos, padronização das camisetas. 3.3 – A Religiosidade Popular Uma das principais características das festas populares, especialmente na América Latina, é sua associação com a religião, ou seja, apresenta um caráter, ritualizado e sagrado, segundo Gilberto Giménez40. Neste sentido, as três raças (brancos, negros e índios) desempenham um papel básico formando aquilo que Roberto DaMatta denomina como “Triângulo Racial” (DAMATTA, 1987:75 ), resultando num sincretismo religioso. Um traço comum nas festas religiosas é o pastoril, de caráter catequético, trazido por portugueses e espanhóis. O povo brasileiro respondeu com o pastorilprofano, de ponta de rua, e com a comicidade irreverente nos demais folguedos como lundu, marujada, boi-bumbá e, também, com a criação dos cortejos inspirados em elementos de outras manifestações culturais e religiosas. Nesse sentido, o Arraial do Pavulagem faz referências às manifestações religiosas, quando traz, no Arrastão, os estandartes com imagens dos santos juninos, enquanto os homenageia nas composições musicais como acontece por exemplo na música “Batalhão da Estrela”, em que a palavra “Estrela” refere-se a São João Batista41, segundo a explicação de Ronaldo Silva. Além disso, o Arraial utiliza elementos da marujada como o chapéu de palha com fitas coloridas, as letras das músicas que fazem referências a São Benedito e aos preparativos dessa festa. A marujada é uma festa em homenagem a São Benedito, santo negro de origem européia (Sicília). O ponto alto da festividade acontece entre o Natal e o primeiro dia do ano. Porém, os festejos ocorrem ao longo de todo o ano, com a "esmolação". 40 Canclini, Nestor. As Culturas Populares no Capitalismo. São João Batista: Nasceu no dia 24 de junho na cidade de Judá. Chamaram-no "Batista" porque batizou Cristo, no Rio Jordão, e o "Precursor" porque pregou imediatamente antes de Jesus Cristo, o anunciando. 41 45
  • 46. Diferente de outras regiões do país, a marujada paraense mistura danças, ritos, louvores e ritmos, herança dos negros africanos. Essa tradição começou com o culto a São Benedito, em 1798, fruto da devoção religiosa. Como forma de agradecer a permissão dada pelos senhores para construir uma capela ao santo, os negros realizam uma grande festa, mesclada de reza e dança, onde o sagrado e o profano se misturam. Outra referência religiosa também presente no Arraial é a de São Sebastião, Festa da marujada, no dia 26 de dezembro santo de origem francesa, padroeiro de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. Ele faz parte e é homenageado no CD “Comissão de São Sebastião” do Arraial do Pavulagem, que representa todo um ritual de celebração, reunindo as folias e ladainhas católicas, rezadas em latim. Entretanto, houve uma preocupação de respeitar a oralidade rural ribeirinha42 das folias. Os preparativos da festa de São Sebastião envolvem peregrinações dos foliões pelo meio rural daquele município, objetivando a arrecadação de donativos ao santo e à festa propriamente dita, que ocorre entre 10 e 20 de janeiro. É constituída de diversas atrações religiosas e profanas (procissão, novena, corrida de cavalo, luta marajoara, derrubada de mastro, entre outros). A origem dessa manifestação, embora inexistam registros históricos, está provavelmente na atuação dos padres jesuítas que tiveram importante participação no processo de colonização da Ilha do Marajó, especialmente nas margens do rio Arari, onde se dedicaram à criação de gado. “As folias de São Sebastião são raízes cravadas no chão do tempo e, enquanto isso, visíveis à flor da terra, nos manguezais das ilhas do Marajó. Revelam a identidade espiritual de sua gente e essa atmosfera de transcedência que há na paisagem cultural marajoara. Elas dão forma de beleza e sonho, de 42 Ribeirinho: moradores que habitam as margens dos rios, na Amazônia. 46
  • 47. crença e doçura, àqueles que vivem ainda numa bela harmonia com a natureza e com a alma luminosa das coisas”43 (João de Jesus Paes Loureiro) Desse modo, fica evidente que a invenção da cultura pela hibridização é um fenômeno de apropriação de traços culturais de várias procedências. Luiz Antônio Barreto chama atenção para uma conotação religiosa, nem sempre evidenciada pelos estudiosos, no “vasto repertório brasileiro da cultura popular ou folclórica”, que “pode ser também percorrido pela intenção catequética, conversora, redutora adotada pelos colonizadores. (...) A catequese e a conversão ao cristianismo estão, dominantemente, no repertório da cultura popular brasileira”. (BARRETO apud BENJAMIN, 2002: 3) 3.4 – O Hibridismo no Arraial do Pavulagem Hibridismo, híbrido, hibridização são conceitos-chave dos estudos culturais de teóricos latino-americanos nos anos 90, prolongando discussões que haviam iniciado na abordagem do pós-moderno. A apropriação que há nos mais variados traços culturais coloca no mesmo plano as diversas manifestações da cultura contemporânea, rompendo as fronteiras estabelecidas pela lógica da modernidade, que colocava o culto nos museus e nas universidades e o popular nas praças e feiras. O Arraial do Pavulagem é um exemplo emblemático dessa miscigenação cultural, em que estão presentes legados das culturas indígena, negra e européia. Os próprios artistas, que fazem parte do Arraial, não se limitam apenas a serem reprodutores de um processo cultural. Segundo Paes Loureiro o Arraial atua nas duas vertentes da arte: “Eles são criadores e intérpretes ao mesmo tempo. Intérpretes no sentido de que eles buscam, através de pesquisas, contatos com outras culturas e da própria experiência pessoal de cada um, fontes de inspiração, 43 Encarte do CD “Folias do Marajo”´, do Arraial do Pavulagem 47
  • 48. símbolos, signos, cores, materiais e ritmos. Também são criadores, quando contribuem com sua originalidade, inspiração e criatividade para fazer uma obra que resulta dessa releitura, que é feita de forma criativa e atualizadora, incorporando elementos novos e que fazem parte do cotidiano e da vida presente da população” (LOUREIRO, 2003) Enquanto objeto híbrido, o Arraial do Pavulagem é um encontro de inspirações e signos culturais, que constituem a própria dinâmica da cultura popular. Nele, há um diálogo entre as origens e a atualidade, entre a tradição e o moderno. “Afirmar que a cultura é um processo social de produção significa, antes de tudo, opor-se às concepções que entendem a cultura como um ato espiritual (expressão, criação) ou como uma manifestação alheia, exterior e posterior às relações de produção (sendo uma simples representação delas)” (CANCLINI, 1982:30) É necessário que se entenda que a criação popular não é um milagre da natureza, mas produto do trabalho humano de criatividade. O homem do povo também se faz artista e por isso é que é bonito o trabalho de transformação do ser em transformador e artista. Na proposta do Arraial do Pavulagem, de acordo com Ronaldo Silva “são positivos os traços de outros formatos como o de São Luís do Maranhão, Parintins, São Caetano de Odivelas, marujada, etc., pois a cultura brasileira se caracteriza por essa mistura, por essa diversidade e nós estamos construindo com o nosso formato. Portanto, é saudável a convivência desses traços porque são para nós a garantia de um resultado a médio e longo prazo, rico, flexível, conectado com a raiz e aberto ao novo”. No Arraial, o híbrido está presente nos elementos discriminados abaixo: 48
  • 49. 3.4.1 – Linguagem A utilização da linguagem regional usando elementos que compõem o imaginário da região é uma forma de reforçar as matrizes estéticas que deram origem a essas manifestações – negra, indígena e européia, expressando a hibridização. No Arraial, a linguagem é ressemantizada, através do processo de mistura de diversos dialetos nacionais e estrangeiros, como monsieur, anarriê e balancê, que são expressões de origem francesa; “mandinga”, palavra de origem africana; “one”, de origem inglesa; a própria linguagem regional, típica do caboclo amazônida, principalmente no nome “Pavulagem”, que significa “formoso, belo, pávulo” e outros exemplos como: “Me adesculpe os pais da moça Do modo d’eu versejar É que fiquei mundiado Com esse zolho a me olhar” (“Clara”/ Rui Baldez) “Fica velho de esperar Aperpare o peito A demora é pequena” (“Fortaleza”/Arraial do Pavulagem) “Disse o Firmino Que ia me judiar” (“Canto Estrangeiro”/Toni Soares) “Oi retumba meu boi retumbão O mutuca vem ver na janela” (“Arrastão da Mutuca”/ Ronaldo Silva) “Eu nunca vi nada pior andar avexado” (“Mastro Bastião”/Arraial do Pavulagem) 49
  • 50. Além disso, “Tupinambá”, há “Icoaraci”, referências “cuieira”, a palavras “Curuçambá”, indígenas “cauê”; como “Ananin”, “Igapó”, “pajé”, “mandinga”, “Cotijuba” e “Camutá”, todas presentes nas composições do Arraial. 3.4.2 – Danças No Arraial do Pavulagem, as danças foram introduzidas com objetivo de retratar e/ou representar a cultura amazônica nas suas diversas expressões, ou seja, com o carimbó, o lundu, o retumbão, o xote bragantino, a quadrilha e o boibumbá, entre outros. Vale ressaltar que esses ritmos já trazem consigo uma mistura desde a sua origem, pois eles carregam elementos indígenas, europeus e africanos. No caso do carimbó, é uma dança cuja origem vem dos índios tupinambá; entretanto, recebeu contribuição dos negros africanos, que Grupo folclórico na dança do Lundu introduziram ritmos mais agitados, sincopados e movimentados. O lundu possui origem africana expressa na sua grande sensualidade, que insinua a relação sexual e por isso foi proibida no Brasil durante o período imperial. O retumbão é a principal dança da marujada, a mais conhecida dança folclórica da região bragantina. O nome retumbão se deve aos instrumentos de percussão utilizados. Os negros pegaram dois troncos de árvores e construíram os tambores, que produziam um efeito sonoro extraordinário. O seu som era ouvido muito longe e segundo a expressão da época Marujas na dança do retumbão "retumbavam".Estudiosos das manifestações folclóricas dizem que a dança é o próprio lundu. 50
  • 51. O xote bragantino não é de origem africana, mas recebeu muitas influências negras. Embora tenha surgido na Escócia, como Schotinch, em 1841, a dança chegou ao Pará trazida pelos portugueses. Os escravos observavam os senhores dançar e guardavam os passos na memória. Vale ressaltar que o povo introduziu outros movimentos, com novas adaptações, detalhes, com objetivo de não somente valorizar o efeito visual, como também despertar o interesse dos espectadores. A quadrilha é uma dança de origem européia do início do século XIX. Ela é de origem francesa, porém foi trazida para o Brasil, através dos Originalmente A quadrilha junina é um dos folguedos presentes no Arraial portugueses colonizadores. dividida cinco em partes comandadas por um marcador, que mistura palavras francesas e portuguesas. O boi–bumbá é um folguedo popular, que resultada da ‘mistura bonita de três raças - a indumentária do branco, o atabaque do negro, a coreografia do índio. Na segunda metade do século XIX, em Belém, o boi-bumbá reunia negros escravos num folguedo, que misturava o ritmo forte, marcado no tambor de couro representando um dado surpreendente para a época segundo o historiador Vicente Sales - a luta de classes dentro de uma sociedade colonial. Apesar da repressão, o boi tornou-se uma das mais importantes representações da cultura local. Vale ressaltar que o boi-bumbá do Arraial do Pavulagem é um exemplo emblemático das mudanças que o folguedo sofrera na região. O cortejo não mais encena o ritual que gira em torno do boi do Nordeste, mas tem, sobretudo, uma conotação lúdica e traz também o rosário, típico do boi - bumbá paraense. O boi Pavulagem exibe seu belo rosário (adorno na cabeça) 51
  • 52. “Tem andor, tem rosário no caminho lírio e flor Ô rola boi, o meu boi mandei rolar” (“Acará sem Governo”/ Arraial do Pavulagem”) 3.4.3 - Instrumentos A arte musical do Arraial do Pavulagem materializa a originalidade, beleza, força nas intenções de resguardar uma emoção original, mas não como coisa do passado e sim integrada no presente. Para representar isso, o Arraial se apropria das novas tecnologias para trabalhar elementos do culto, do popular e do massivo. Do culto, quando se utiliza de violinos, cellos, trombone e saxofone. Do popular, quando usa instrumentos de fabricação artesanal como barricas, matracas, xeques, maracás, reco-reco e tambores. Do massivo, quando emprega instrumentos eletrônicos como guitarras e teclados. Estes últimos foram incorporados, principalmente, a partir da entrada de Toni Soares, que trouxe uma sonoridade mais urbana às composições do Arraial. “Nós éramos eminentemente percussivos no início (...). Quando nós passamos para o palco, para fazer o show musical, aí sim, nós incorporamos todos os instrumentos elétricos até pela necessidade de facilitar essa linguagem musical no palco. Aí já colocamos os teclados, guitarras, os contra-baixos elétricos” (Júnior Soares) Vale ressaltar que a princípio, o cenário em que o grupo trabalhava era de músicas de Parintins, São Luís do Maranhão, de Bragança, mas eles começaram a perceber que havia vários elementos que faziam parte do imaginário popular amazônida que podiam ser trazidos para o Arraial. A partir daí, começaram a fazer suas próprias composições e a incorporar elementos que fazem parte do cotidiano dos amazônidas. 52
  • 53. 3.4.4 – Adereços Um dos elementos mais importantes no Arraial do Pavulagem são os adereços, porque eles são ícones que representam toda a riqueza da cultura popular como o mastro, o chapéu de palha, a cobra grande, o boi de talinha, as bandeiras, os estandartes e os cabeções. Estes representam a diversidade cultural que está presente no Arraial, proveniente do encontro e da incorporação de ícones, símbolos e códigos que compõem o vasto universo do imaginário social. “Hoje, nós trabalhamos com a cultura de são Caetano de Odivelas, de onde nós trouxemos os cabeções. Nós trouxemos o chapéu de fitas, uma leve inspiração a marujada de Bragança; temos os estandartes, dos santos festeiros; a cobra grande, que é uma reprodução da cobra de miriti do círio de Nazaré” (Júnior Soares) O imaginário social constitui fonte de referências no vasto sistema simbólico de qualquer sociedade. È um meio pelo qual ela se produz e se percebe, organiza, divide e elabora seus próprios objetivos. Designa sua identidade; cria uma certa representação de si, estabelece a distribuição dos papéis e das posições sociais; exprime e impõe crenças comuns; constrói uma espécie de código de “bom comportamento” através da instalação de modelos formadores. O imaginário social é, pois, uma peça eficaz do dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício de autoridade e do poder. Ao mesmo tempo, ele torna-se o lugar dos conflitos sociais. No imaginário popular amazônida, cada adereço presente no Arraial tem um sentido simbólico. O Arraial é um exemplo da dinâmica cultural, pois a cada ano, alguns adereços permanecem, como o chapéu de palha, os cabeções e o mastro; e novos elementos são incorporados como a cobra grande de miriti, o reco-reco, entre outros. 53
  • 54. a) Chapéu de palha O chapéu de palha44 é um acessório indispensável no cotidiano do caboclo amazônida. O Arraial do Pavulagem o incorporou não somente por essa razão, mas também em uma alusão à marujada, na qual o chapéu é o ponto alto da indumendária feminina. Porém, no Arraial ele é usado pelos componentes e participantes da festa que Participantes tocando barricas e, na cabeça, usam chapéus que fazem alusão à marujada o adornam com fitas coloridas, longas e presas à aba do chapéu. b) Cabeções Os cabeções presentes no Arraial do Pavulagem são figuras caricatas, algumas remetem a personalidades da cultura regional como Waldemar Henrique, maestro e compositor paraense. No Arraial, eles foram inspirados da manifestação do Boi de Máscara, existente há mais de cinqüenta anos, em São Caetano de Odivelas. A sua confecção é feita pelos participantes do Arraial durante as oficinas e os materiais utilizados são basicamente paneiro, papel, petecas e pinturas. elementos Porém, os cabeções são presentes também em outras manifestações populares do país como os que Os cabeções de São Caetano de Odivelas estão também presentes no Arraial do Pavulagem acontecem em Olinda. “Na festa ibérica, a presença de máscaras sobredimensionadas, tais como os cabeções do Carnaval de Olinda ou da pequena Santana do Parnaíba, e que são encontradas também numa festa do Divino de São Luis do 44 Palha: é feita de folha seca de planta nativa da região. È utilizada para a confecção de outros adornos e para cobrir o teto das malocas dos índios ou casas dos ribeirinhos da região. 54
  • 55. Paraitinga: representação de figuras monstruosas, (...) tantas vezes encontradas na iconografia do Carnaval brasileiro do século XIX”. (...) E seria possível continuar indefinidamente a esmiuçar essas imagens, nessas aproximações que se estendem em escala continental, atestando semelhanças, coincidências e continuidades entre essas formas de cultuar popular”. (MONTEIRO:153-154) Conclui-se que essas semelhanças, coincidências e continuidades entre essas formas populares de cultura se recriam, dobram e desdobram e recombinam, resultando em uma grande hibridação – exatamente o que o Arraial do Pavulagem faz. c) Cobra grande A cobra grande foi mais um dos elementos incorporados no Arraial, no ano de 2001. Ela e outros brinquedos de miriti estão presentes no Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do Brasil, realizada no segundo domingo de outubro, em Belém, que reuniu mais de dois milhões de pessoas na sua procissão. Os diversos brinquedos de miriti que fazem parte da festa do Círio são barquinhos, rodas gigantes, animais, entre outros, que estão ligados ao imaginário do popular paraense. Eles são produzidos por artesãos do município de Abaetetuba, que fica a cerca de duas horas de Belém, capital paraense. No Arraial do Pavulagem a cobra possuía mais de cinco metros de comprimento, era carregada pelos participantes da festa e trazia um significado místico de que se quem não a tocasse ficaria “panema”, que significa na linguagem regional “com azar, mau sorte ao longo daquele ano”. Segundo a lenda amazônica, uma índia, grávida da boiúna (cobra-grande, sucuri), deu à luz duas crianças gêmeas, Honorato e Maria, que na verdade eram Cobras, porém de personalidades que representavam o bem e o mal, respectivamente. 55
  • 56. d) Mastro A forma tradicional do levantamento do mastro de São João é feita no anoitecer da véspera do dia 24 de junho, data de comemoração ao santo. O mastro é composto por madeira resistente, roliça e lisa e uma bandeira triangular, com três faces onde aparecem os três santos festejados: Santo Antônio, São João e São Pedro. É costume, também, prender ao mastro milhos e laranjas. A tradição do mastro existe em várias localidades do Brasil. Ele é erguido diante das Igrejas com músicas, cantos e foguetes. Porém, em alguns lugares há apenas o "levantar da bandeira" - o hasteamento de uma bandeira com a efígie do sacro patrono. No Arraial do Pavulagem, o mastro possui toda uma simbologia, pois ele representa o ritual de abertura do Arrastão e o seu encerramento, além de ter uma conotação religiosa e ao mesmo tempo profana. No Arrastão há uma releitura de alguns aspectos dessa tradição, pois o mastro é feito de madeira da região, com aproximadamente quatro metros, adornado com folhas de açaizeiro e frutas regionais em oferenda ao santo. Além disso, o hasteamento, ao invés de Participantes do Arrastão enfeitando o mastro acontecer diante de uma igreja, é realizado no meio da Praça da República. “Todas as festas de santo do interior têm o mastro, onde toda brincadeira, toda festividade, todo folguedo desenvolve principalmente a parte profana. Ela se desenvolve ao redor desse mastro, então é um símbolo da cultura popular que está atrelado às culturas religiosas que nós trouxemos para o Arraial do Pavulagem. Tanto que nós fincamos o mastro na praça da república no início da brincadeira e derrubamos no último dia, simbolizando o início e o término do folguedo” (Júnior Soares) Apesar de existir toda essa mistura de elementos, o Arraial do Pavulagem é um exemplo de afirmação do local e de fortalecimento do regional. Essa é uma característica que veio acompanhada do processo de globalização e aparece 56