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Vila Andrade Ramos: estudo tipológico na cidade de Belém do Pará no período pós-eclético
Vila Andrade Ramos: estudo tipológico na cidade de Belém do Pará no período pós-eclético
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE TECNOLOGIA (ITEC)
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO (FAU)
BEATRIZ MARTINS MANESCHY
VILA ANDRADE RAMOS: ESTUDO TIPOLÓGICO NA CIDADE DE BELÉM DO
PARÁ NO PERÍODO PÓS-ECLÉTICO
Belém
2019
BEATRIZ MARTINS MANESCHY
VILA ANDRADE RAMOS: ESTUDO TIPOLÓGICO NA CIDADE DE BELÉM DO
PARÁ NO PERÍODO PÓS-ECLÉTICO
Trabalho Final de Graduação apresentado
à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo como
requisito final para obtenção do título de
Arquiteta e Urbanista
Orientadora: Profª. Drª. Cybelle Salvador
Miranda.
Belém, 12 de dezembro de 2019.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________
Profª. Drª. Cybelle Salvador Miranda.
Orientadora
FAU/UFPA
________________________________________
Profª. Drª. Elna Maria Andersen Trindade
Examinadora interna
FAU/UFPA
________________________________________
Profª. Ms. Laura Caroline de Carvalho da Costa
Examinadora externa
Instituto Federal de Educação e Tecnologia – IFPA
DEDICATÓRIA
À Maria de Fátima Ramos (in memoriam) e Luiz
Alberto Paiva Maneschy (in memoriam).
AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha orientadora, Profª. Cybelle Miranda, por me apresentar ao tema, pelas
contribuições sempre pontuais e assertivas, além de oportunizar a minha iniciação de uma
carreira acadêmica. Ao Prof. Ronaldo de Carvalho, pelos apontamentos técnicos, momentos de
descontração e risadas. Ao LAMEMO, por ser meu campo de trabalho, o qual ainda pretendo
contribuir ao longo desta caminhada e a todos os seus integrantes que passaram em meu
caminho: Vithória, Larissa, Lívia, Wagner, Salma, Sidney, obrigada pelos conselhos, conversas
e ajuda acadêmica.
Agradeço aos entrevistados, Raul Moreira e Socorro Gemaque, por terem aberto suas
residências e contado as histórias da família, para que, enfim, este trabalho pudesse ser
concretizado. Agradeço à Bianca Barros, ex-integrante do LAMEMO, por ter me auxiliado no
levantamento técnico da casa 674.
À Prof.ª Elna Trindade pelas contribuições na banca de TCC I que muito agregaram a
este trabalho.
Ao Fórum Landi, em especial ao Morgado e à Beá, por terem me introduzido ao mundo
do Patrimônio de Belém. A todos da Kamel Arquitetura e Design, pela amizade e pelos
ensinamentos ao longo deste ano.
Agradeço aos meus pais, Ana Aurora e Luiz Alberto, por sempre me proporcionarem,
de maneira incansável, as melhores condições e oportunidades para que eu pudesse me tornar
uma profissional competente.
Às minhas irmãs, Amanda e Marina por abrirem e guiarem os meus caminhos, me
ensinando que vivemos em um mundo profissional nem sempre receptivo para mulheres, mas
que nós vamos, sim, nos inserir nele.
Ao meu avô, Olivar, pela assídua presença na minha vida e por sempre me fazer rir com
seu jeito bruto e carinhoso de ser. À minha avó, Ana Maria, a qual compartilho traços de
personalidade, você é meu exemplo. À minha avó, Conceição, por me ensinar o que é amor
verdadeiro. Ao meu avô, Luiz (in memoriam), espero que, de onde o senhor estiver, esteja
orgulhoso de eu ter seguido suas últimas palavras dirigidas a mim.
Ao meu companheiro de vida, Vitor, pelas revisões, bom-humor, por sempre escutar
minhas lamúrias e pelo apoio em meus momentos de maior instabilidade.
À Marinalva e Fátima (in memoriam), pelos conselhos, por me poupar das atividades
diárias para que pudesse me dedicar somente aos estudos e por acreditarem em mim, mais do
que eu mesma. À Iva, por ser minha segunda mãe da infância e me ensinar os pilares de caráter,
honestidade e bondade.
A todos os meus amigos, por ouvirem as constantes reclamações e os ‘nãos’ aos convites
de saída, obrigada por sempre estarem ao meu lado.
Ao Luis e à Kimie, por fazerem com que as vindas à FAU fossem sempre mais alegres
e descontraídas ao longo destes 5 anos (e por também escutarem, as já citadas, reclamações).
Ao Zack (in memoriam), à Tiana e ao Oreo, por me ensinarem o amor incondicional.
Com as lágrimas do tempo / E a cal
do meu dia / Eu fiz o cimento / Da
minha poesia
E na perspectiva / Da vida futura /
Ergui em carne viva / Sua
arquitetura
Vinicius de Moraes, 1960.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO..........................................................................................................................1
1 A ARQUITETURA RESIDENCIAL ECLÉTICA E PRÉ-MODERNA EM BELÉM...4
1.1. Histórico do Ecletismo em Belém ............................................................................4
1.2. Tipologias e técnicas construtivas ecléticas no espaço privado belenense do Ciclo
da Borracha..........................................................................................................................8
1.3. O Pré-Modernismo em Belém entre 1920 e 1940...................................................19
2 AS VILAS NO BAIRRO DE NAZARÉ .......................................................................23
2.1. Contexto histórico e sociocultural do Bairro de Nazaré .........................................23
2.2. Breve histórico e conceituação de vilas ..................................................................26
2.3. Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré..............................................................30
3 CARACTERIZAÇÃO DA CASA Nº 674 DA VILA ANDRADE RAMOS................37
3.1. Histórico da vila Andrade Ramos ...........................................................................37
3.2. Tipologia, elementos construtivos e influências arquitetônicas..............................42
3.3. A reconstrução virtual da Vila Andrade Ramos enquanto visualização
computadorizada do patrimônio cultural...........................................................................55
3.4. O paralelo com as moradias em banda da cidade do Porto.....................................62
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................69
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................71
APÊNDICE I.............................................................................................................................75
Levantamento físico-cadastral:
1 Planta baixa
2 Planta de cobertura
3 Corte
4 Elevações
APÊNDICE II........................................................................................................................79
Plantas de reconstituição:
1 Planta Baixa
2 Planta de Cobertura
3 Planta de paginação de piso
4 Detalhes da paginação de piso
5 Planta de paginação de forro
6 Corte
7 Elevações
APÊNDICE III..........................................................................................................................86
Memorial fotográfico
APÊNDICE IV........................................................................................................................102
Memorial de intervenção com análise de conservação
APÊNDICE V.........................................................................................................................111
Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré
LISTA DE FIGURAS
FIGURA 01 e 02 - Fotografia da Avenida São Jerônimo (atual José Malcher) em 1902 e da
Rua dos Cearenses (não se sabe seu nome atual), a desigualdade social da Belle-
Époque......................................................................................................................................07
FIGURA 03 – Exemplo de casa térrea colonial com telhado em duas águas e beiral, em
Belém........................................................................................................................................10
FIGURA 04 – Tipologia externa das fachadas coloniais..........................................................11
FIGURA 05, 06 e 07 – Edifício da Folha do Norte, Palacete Bibi Costa e Palacete
Bolonha.....................................................................................................................................14
FIGURAS 08 e 09 - Exemplos de casas assobradadas ou
apalacetadas..............................................................................................................................16
FIGURA 10 - Esquema de planta de casas de puxadas............................................................17
FIGURAS 11 e 12 - Fachadas frontal e lateral de exemplo de casa de puxada, localizada na
rua 28 de setembro....................................................................................................................17
FIGURAS 13 e 14 - Exemplos de vilas....................................................................................18
FIGURA 15 - Exemplo de palhoças, em Belém, imagem anterior ao ano de 1912.................19
FIGURA 16 - Vista da verticalização da Avenida Presidente Vargas, em 1966......................20
FIGURA 17 - Belém em 1958, apresentando a predominância ainda da linguagem
eclética......................................................................................................................................21
FIGURA 18 - Exemplo de chalés urbanos geminados, localizado na Avenida Generalíssimo
Deodoro.....................................................................................................................................22
FIGURAS 19 e 20 - Nas imagens abaixo são apresentados dois tipos de vilas localizadas no
bairro de Nazaré. Na primeira foto infere-se que seja uma vila para trabalhadores e a segunda
uma vila já construída por integrantes da classe média, devido aos maiores detalhes e adorno
de fachada.................................................................................................................................30
FIGURAS 21, 22 e 23 - Vilas de trabalhadores localizadas no bairro da
Cremação..................................................................................................................................31
FIGURAS 24, 25, 26 e 27 - Exemplos de vilas ecléticas para trabalhadores encontradas no
bairro de Nazaré, possivelmente...............................................................................................32
FIGURAS 28, 29, 30 e 31 - Exemplos de vilas ecléticas para classe média encontradas no
bairro de Nazaré, possivelmente construídas por uma classe mais abastada do que os
trabalhadores.............................................................................................................................33
FIGURAS 32, 33 e 34 - Exemplos de vilas geminadas no estilo chalé encontradas no bairro
de Nazaré...................................................................................................................................34
FIGURAS 35, 36 e 37 - Exemplos da tipologia bangalô no bairro de Nazaré.........................35
FIGURAS 38 e 39 - Vilas militares em linguagem neocolonial, no bairro de Nazaré.............36
FIGURA 40 - Localização e delimitação do bairro de Nazaré e da Vila Andrade Ramos,
marcada em vermelho...............................................................................................................37
FIGURAS 41 e 42 - A Passagem Ramos e a SEMEC..............................................................38
FIGURAS 43 e 44 - Na primeira foto à esquerda, elemento decorativo em porcelana original
dos primeiros proprietários. A segunda foto à direita está a filha de Pedro de Andrade Ramos,
Maria, e seu cônjuge.................................................................................................................39
FIGURAS 45, 46 e 47 - Recortes de jornais encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca
Nacional. Acima da esquerda para a direita, a nota de falecimento de Maria dos Anjos Ramos,
irmã de José Júlio de Andrade e mãe de Pedro de Andrade e imagem da família Andrade
Ramos reunida. Abaixo, a nota de falecimento de Pedro de Andrade Ramos..........................39
FIGURAS 48 e 49 - Planta do pavimento térreo e primeiro pavimento da casa 674 da vila
Andrade Ramos, levantamento físico e cadastral realizado em 2019.......................................42
FIGURAS 50, 51, 52 e 53 - Nas fotografias identifica-se detalhes do interior original da casa,
como o piso em ladrilho hidráulico e a cor das esquadrias.......................................................43
FIGURAS 54 e 55 - Na primeira fotografia, lê-se os dizeres “Cruzeiro” e “J. Sidrim – Pará”,
os quais levou à olaria Paraense. Abaixo, foco para a parede de tijolos originais....................44
FIGURA 56 - Na fotografia abaixo é possível notar as portas com bandeiras e janelas com o
recurso das diferentes aberturas................................................................................................45
FIGURAS 57, 58, 59 e 60 - Imagens das escadas da casa da Sra. Socorro e do Sr. Raul........46
FIGURAS 61, 62 e 63 - Fotografias da escada balanceada em madeira, com o primeiro degrau
em granilite...............................................................................................................................46
Figuras 64, 65, 66, 67 e 68: Na primeira linha, estão os ladrilhos remanescentes encontrados
nas residências do Sr. Raul e da Sra. Cybelle. Na segundo linha, à esquerda está o piso
mosaicado original da sala de estar e à direita o assoalho de madeira do primeiro
pavimento.................................................................................................................................47
FIGURA 69 - Pastilhas cerâmicas hexagonais da residência próxima à Pça. Brasil...............48
FIGURAS 70, 71, 72, 73 e 74 - Nas duas primeiras linhas da esquerda para a direita estão os
exemplares do forro de madeiro e rodateto encontrados em ambos os pavimentos. Na última
linha, fotografia indicando o único ambiente da residência que possui laje............................49
FIGURAS 75, 76 e 77 - Detalhe para a platibanda da vila, apresentando um desenho
triangular e com pequenos frisos quadriláteros adornando-a e delimitando cada uma das
residências.................................................................................................................................50
FIGURA 78 - Ilustração da fachada demonstrando os elementos decorativos que tendem ao
Art déco.....................................................................................................................................51
FIGURA 79 - Ilustração da fachada demonstrando os elementos individualizantes e os de
união..........................................................................................................................................52
FIGURA 80 - Planta de cobertura da vila Andrade Ramos, apresentando as 16 águas e com a
planta da casa 674 tracejada em vermelho................................................................................53
FIGURA 81 - Nesta planta baixa do pavimento térreo, foram identificadas três salas
consecutivas..............................................................................................................................54
FIGURAS 82, 83, 84 e 85 - Na primeira linha, duas casas na tipologia chalé, situadas após a
vila Andrade Ramos. Na segunda linha, outro chalé vizinho à vila, situado anteriormente à
Passagem Ramos.......................................................................................................................55
FIGURAS 86 e 87 - Na primeira imagem à esquerda, é possível identificar o desenho do
muro original na terceira casa, onde também é possível identificar as cores originais verde e
branca. Na segunda imagem, à direita, identifica-se o padrão verde e branco nas duas
residências centrais da vila........................................................................................................59
FIGURAS 88, 89 e 90 - Imagens da fachada principal da Vila Andrade Ramos, indicando as
cores verde e branco..................................................................................................................59
FIGURAS 91 e 92 - Fotografias da fachada atualmente..........................................................60
FIGURAS 93 e 94 - Detalhes para as esquadrias e elementos decorativos.............................60
FIGURAS 95, 96, 97 e 98 - Na primeira linha, as fotografias indicando o prolongamento
realizado na residência da esquina e a exclusão da edícula. Na segunda linha à esquerda, o
muro entre a casa 674 e a casa da esquina, onde houve a exclusão do telhado de duas águas do
setor de serviço, como ainda encontrado nas outras duas casas, como mostra a imagem à
direita........................................................................................................................................61
FIGURAS 99, 100 e 101 - Na primeira imagem, a elevação posterior de como eram as
fachadas, com os beirais, calhas e águas do telhado. Na segunda linha, imagens da
representação gráfica de como era a volumetria da fachada posterior e das edículas..............61
FIGURAS 102, 103 e 104 - Exemplo de moradias em banda na cidade do Porto, em
Portugal.....................................................................................................................................62
FIGURA 105 - Residências à beira da Baía de Guajará, em Belém, demonstrando tipologia
similar às moradias em banda...................................................................................................64
FIGURA 106 - Exemplares de volumetrias da categoria C......................................................66
FIGURAS 107 e 108 - Recorte da planta de travessa Carvalhosa, desenhada por Luís Inácio
de Barros Lima, 1802, acima. Abaixo, esquema representativo do tipo das moradias da planta
anterior......................................................................................................................................67
FIGURA 109 - Esquema representativo da fachada da vila Andrade Ramos..........................67
RESUMO
O bairro de Nazaré agrega uma gama de edificações que podem ser enquadradas como
patrimônio cultural da cidade de Belém-PA, uma delas é a tipologia em vila, cuja frequência
nas ruas do bairro a torna um dos componentes da imagética arquitetônica do bairro de
Nazaré. As vilas são constituídas por conjuntos de casas com planta e volumetria
semelhantes, propagadas internacionalmente a partir da Revolução Industrial, visando a
economia na construção e/ou o lucro, devido ao aluguel das casas. Fora realizado um
mapeamento destas vilas que comprovasse a frequência desta tipologia ao longo do bairro.
Especificamente, o objeto de estudo deste trabalho será a vila Andrade Ramos, uma das
vilas geminadas encontradas ao longo do bairro de Nazaré. Construída no ano de 1934, em
um contexto pós-eclético, posterior o Ciclo da Borracha e de despontamento das primeiras
obras arquitetônicas modernistas na cidade, a vila ainda fora edificada seguindo as técnicas
construtivas e materiais encontrados nas residências ecléticas, ainda que já sendo possível
reconhecer certos elementos mais retilíneos e minimalistas, o que a difere de outras vilas
ecléticas encontradas pelo bairro, com maior influência Classicizante. O objetivo principal
deste trabalho é analisar tipologicamente a vila Andrade Ramos, identificando suas
influências nacionais e internacionais, a história da família Andrade Ramos e a construção
destas casas. Para isso, fora realizado um levantamento físico-cadastral da residência 674
da vila, com o objetivo de compreender o partido arquitetônico e realizar a análise da
tipologia para além de sua volumetria e fachada. Além disso, utilizando programas de
arquitetura e animação gráfica, realizou-se uma reconstrução virtual da vila em seu possível
estado original, de forma a contribuir para a Memória do Patrimônio Cultural deste
exemplar da tipologia vila no bairro de Nazaré.
Palavras-chave: Vilas; Patrimônio; Ecletismo; Belém-PA.
ABSTRACT
The district of Nazaré adds a range of buildings that can be classified as cultural heritage of
the city of Belém-PA, one of them is a typology called vila, whose frequency in the streets
of the district makes it one relevant type of the architectural image of Nazaré. Vilas are
constituted of houses of similar size and layout, propagated internationally with the
occurrence of the Industrial Revolution, those houses aiming at building economy and / or
profit due to the renting of houses. A mapping of these vilas had been made to prove the
frequency of this typology throughout the district. Specifically, the object of study of this
work will be the vila Andrade Ramos, one of the vilas found along the neighborhood of
Nazaré. Built in 1934, in a post-eclectic context, after the Amazon’s Rubber Cycle and the
dawn of the first modernist architectural buildings in the city, this vila was still built
following the construction techniques and materials found in eclectic residences, although
it was already possible. recognize certain more rectilinear and minimalist elements, which
differs from other eclectic vilas found by the neighborhood, with greater influence
Classicizante. The main objective of this paper is to analyze typologically the Andrade
Ramos vila, identifying its national and international influences, the Andrade Ramos family
history and the story of the construction of these houses. For this, a physical-cadastral
survey of the 674 residence of the vila had been produced, in order to understand the
architectural layout and to analyze the typology beyond its volume and facade. In addition,
using architecture and graphic animation programs, a virtual reconstruction of the vila in its
possible original state was carried out, in order to contribute to the Memory of the Cultural
Heritage of this example of the village typology in the district of Nazaré.
Keywords:Vilas; Heritage; Eclecticism; Belém-PA.
1
INTRODUÇÃO
Este trabalho visa o estudo tipológico da residência 674 da vila Andrade Ramos,
construída no ano de 1934, durante um período limítrofe entre a permanência das construções
ecléticas e o surgimento das primeiras casas modernistas na cidade de Belém. Por isso, objetiva-
se compreender a influência da arquitetura de linguagem eclética do século XIX dentro de uma
construção da segunda metade do século XX. Portanto, analisar-se-á a tipologia da vila Andrade
Ramos via levantamento físico cadastral para compreender o partido arquitetônico da residência
e realizar uma síntese de matérias, com o intuito de refazer um modelo original.
Fora utilizado o método qualitativo aliado ao estudo tipológico comparativo. Foram
realizadas visitas ao objeto de estudo para serem realizados o memorial fotográfico e o
levantamento físico-cadastral. Posteriormente, na ausência de documentos que pudessem ser
usados como referência, foram realizadas entrevistas com familiares e descendentes dos
primeiros moradores da vila. Subsequentemente, por meio de pesquisa bibliográfica e análise
tipológica, foram efetuadas as comparações e analisadas as influências. Após isso, optou-se por
reconstruir digitalmente o modelo original da vila, via programas digitais de arquitetura e
animação.
Buscou-se, também, compreender as influências para além do ecletismo, observando
possíveis elementos e tipologias que apresentariam algum tipo de relação com a vila, como, por
exemplo, a tipologia das moradias em banda, comum na cidade do Porto em Portugal. Ademais,
outro objetivo deste estudo é perceber a formação e importância da tipologia vila no contexto
do bairro de Nazaré, em Belém.
Entre os anos de 1984 e 1997, fora realizado pelo IPHAN, e encabeçado pelos arquitetos
Jorge Derenji, Celma Chaves e Ana Claudia Monteiro, um levantamento de vilas construídas
entre meados do século XX até a década de 1960 em sete bairros de Belém, onde foram
encontrados um total de 349 exemplares de vilas e conjuntos. Para Derenji, Chaves e Monteiro
(1997, p. 48), o surgimento e evolução das vilas em Belém está relacionado ao processo de
evolução urbana das cidades brasileiras e as quais constituem um acervo representativo acerca
da arquitetura popular praticada em Belém e em outras cidades brasileiras, mas que também se
faz presente em diversos países, devido sua disseminação após a Revolução Industrial.
2
Os autores também afirmam que esta tipologia consistia em uma solução de moradia para
uns e fonte de renda para outros, pois, perpassando os conceitos de vila desde o período colonial,
quando a vila estava relacionada à existência de um povoado que possuísse certa autonomia
política, jurídica e econômica, chega-se aos conjuntos de habitações de características idênticas
ou semelhantes, produzidas por empreendimentos privados, como no caso das vilas operárias,
casas destinadas a aluguel. Segundo Derenji, Chaves e Monteiro (1997, p. 07), a urbanização
crescente ao longo da última década do século XIX, fez com que o mercado imobiliário se
tornasse atraente para o investidor, o qual usufrui dos incentivos dados pelo poder público para
a construção destas residências de aluguel.
É relevante ressaltar também que a preservação do patrimônio histórico da cidade de
Belém ainda possui uma visão cronológica, muito atrelada à linguagem eclética e edificações
coloniais. Muitas construções fora do entorno do centro histórico da cidade e/ou que não
apresentam a linguagem considerada histórica, antiga, são desvalorizadas e esquecidas quanto
à sua preservação. A vila aqui estudada está enquadrada neste caso, construída em um período
pós-eclético, em meados da década de 1930, mas com características ecléticas, em uma fase na
qual a historiografia arquitetônica considerava os cânones da Arquitetura Moderna, com a
negação da arquitetura eclética. Além disso, está situada em uma região além do Centro
Histórico de Belém e seu entorno, não estando, dessa forma, totalmente protegida da
especulação imobiliária que assola o bairro.
No próprio Levantamento de Vilas de 1997, é relatado que, na época, 18% dos exemplares
mapeados no bairro de Nazaré em 1984 haviam deixado de existir e que apenas 45% eram
considerados de interesse à preservação, todos concentrados nas porções mais nobres do bairro.
Imagina-se, então, quantos outros arquétipos de conjuntos de casas e vilas já não desapareceram
ao longo destes 22 anos. Por isso, achou-se imprescindível inventariar as vilas ainda existentes
atualmente neste bairro.
No primeiro capítulo, fora realizado um aparato histórico acerca da arquitetura residencial
em Belém, perpassando pela linguagem eclética, suas influências e tipologias, até o contexto
do pré-modernismo na cidade entre as décadas de 1920 e 1940, momento no qual a vila Andrade
fora construída, com objetivo de compreender as diferentes formas de construir e habitar que
haviam em Belém neste período.
3
No segundo capítulo, o bairro de Nazaré é mantido em foco, no qual é realizado um
histórico de sua formação e ocupação. Posteriormente, fora feito um breve histórico e
conceituação de vilas. Ao fim destes tópicos, resultou-se um mapeamento das diversas
tipologias de vilas encontradas neste bairro, com o intuito de compreender o quão relevante
para a imagética arquitetônica do bairro, estes conjuntos podem ser.
No terceiro e último capítulo, por fim, fora feita a análise tipológica da vila, com enfoque
na residência 674 da mesma. Além disso, as influências arquitetônicas são comparadas e
examinadas aqui. Ademais, neste capítulo também fora realizada a reconstrução virtual da vila
Andrade Ramos, com objetivo de catalogação de um exemplar pertinente para o patrimônio
cultural do bairro de Nazaré e, consequentemente, da cidade de Belém.
4
1 A ARQUITETURA RESIDENCIAL ECLÉTICA E PRÉ-MODERNA EM BELÉM
1.1. Histórico do Ecletismo em Belém
A linguagem eclética começa a se manifestar na arquitetura europeia no final do século
XVIII até o início do século XX, tendo sua origem como uma reação à Revolução Industrial, a
partir da ascensão de uma nova classe que buscava status e a demarcação de seu lugar na
sociedade (Fabris apud Faria, 2015, p. 58). Na capital paraense, o intuito da utilização do
Ecletismo na forma burguesa de residir também seguia a mesma lógica de destaque social em
detrimento das diferentes classes. A comercialização do látex amazônico contribuiu para o
surgimento de uma nova elite na cidade – a elite gomífera, baseada no novo quadro econômico,
a sociedade paraense sofreu mudanças em sua estrutura político-social, incitando alterações no
modo de vida, padrões de costumes e, consequentemente, na composição das classes
dominantes (SARGES, 2002, pg. 81).
A elite belenense, outrora, entre o período colonial e as primeiras décadas do século
XIX, composta por proprietários de terras escravagistas, militares e altos funcionários da
burocracia portuguesa, que estruturaram o poder econômico com base no monopólio da terra e
na dominação da força do trabalho indígena e africano (SARGES, 2002, pg. 81) torna-se agora
composta por “novos ricos”: seringalistas, comerciantes, financistas e profissionais liberais,
estruturados economicamente na exploração da borracha (FARIA, 2013, pg. 71). Esta nova elite
inspirou uma nova composição social, a qual estava ligada diretamente à influência de países
europeus, principalmente da França (SOARES, 2008, pg. 47). Após a comercialização do látex
no mercado internacional, a renda interna da Amazônia cresceu 2.800% e a cidade de Belém
sofreu um salto populacional de 18 mil habitantes no ano de 1835, para 180 mil, em 1912.
Contudo, nem toda a população belenense participava, efetivamente, desta prosperidade
econômica (CASTRO, 2010, pg. 16). Daí surge o anseio de modernidade da cidade,
principalmente a partir dos desejos da exteriorização da riqueza da nova elite.
O sinônimo desta modernidade, para a elite gomífera paraense, eram os produtos
culturais, sociais, científicos e políticos da Europa. Os ideais iluministas, que surgiam com o
boom da Revolução Industrial, foram trazidos para o Brasil, e consequentemente para o Pará, a
partir da juventude, descendentes e herdeiros dos componentes da elite local, que trazia as novas
ideias e teorias das ciências que despontavam no antigo continente quando iam estudar nas
universidades europeias. Juntamente com esses conceitos, vieram novos fundamentos também
na Arquitetura, como afirma Faria (2015, pg. 58), o estudo de Cerdá, engenheiro urbanista
5
responsável pelo plano de extensão e reforma da cidade de Barcelona, considera a cidade sob
uma perspectiva histórica, a partir da criação do conceito de “urbanismo”. A cidade, agora, é
alvo de modernizações e novos planos, que se adaptassem ao novo estilo de vida industrial que
surgia no seio europeu.
Patetta (apud Faria, 2015, pg. 62), considera o ecletismo a cultura arquitetônica da classe
burguesa, cujos preceitos valorizavam o conforto, admiravam o progresso e subsidiavam o
surgimento de novas tecnologias, como as instalações hidráulicas, de serviço sanitário, a nova
distribuição interna das residências e a evolução de tipologias. Ainda de acordo com Patetta, o
Ecletismo fora manifestado de três formas: a composição estilística, a qual adotava uma postura
de mimetização “correta” de formas de determinado estilo arquitetônico do passado; ao
historicismo Tipológico, que orientava o estilo do edifício de acordo com sua função; e,
também, aos pastiches compositivos, cujo criava novas “soluções estilísticas historicamente
inadmissíveis, beirando o mau-gosto (mas que, muitas vezes, escondiam soluções estruturais
interessantes e avançadas)”. A partir disso, pode-se concluir que o Ecletismo valorizava a
atribuição de um valor associativo ao edifício, para que a arquitetura do prédio fosse
representativa, ou de acordo com o status de seu morador, ou da função da edificação no
contexto urbano (apud Faria, 2015, pg. 63).
Entende-se que a disseminação do Ecletismo em Belém se deu como uma consequência
da influência europeia. Possivelmente, para o caso de enquadramento do ecletismo paraense
dentro dos conceitos de Patetta, as construções que surgiram na cidade de Belém estariam
conceituadas como pastiches construtivos, à parte o discurso hostil de Patetta acerca do mau-
gosto. A linguagem eclética belenense costumava misturar elementos de diversos estilos
arquitetônicos diferentes, de diversos períodos históricos e fora responsável por novas técnicas
construtivas que surgiam, como o uso de concreto armado, as instalações hidráulicas e elétricas
no espaço interno das construções e o início de uma pequena verticalização, tímida, mas
existente. Fora principalmente a partir dos governos do intendente de Belém, Antônio Lemos
(1897-1911), e do governador do Pará, Augusto Montenegro (1908), que a capital paraense
passou a vivenciar um momento de modernidade e desenvolvimento, ainda que não totalmente
isonômico entre os indivíduos.
A partir do ano de 1850, a borracha passa a progredir de maneira visível na cidade de
Belém e em decorrência disso, viria a renovação arquitetônica na capital paraense,
transformando as antigas formas de morar na cidade. A Belém, entre 1870 e 1910, passa a
6
romper com as estruturas urbanas coloniais e revela uma ruptura estilística com a tradição
portuguesa na arquitetura, já que os paraenses passam a se inspirar nos países do norte da
Europa, principalmente da França, em detrimento do país ibérico colonizador (SOARES, 2006,
pg. 35). Esta mudança tipológica é notável, não apenas na Belém da era da borracha, mas em
quase todas as grandes cidades do país, uma vez que após o fim do tráfico de escravos, o início
da imigração europeia, o desenvolvimento do trabalho remunerado e o surgimento do transporte
ferroviário, surgem as primeiras residências urbanas com nova implantação, a nível nacional
(REIS FILHO, 2014, pg. 48).
A partir das conquistas econômicas e da expansão e estruturação da cidade em direção
à Primeira Légua Patrimonial, como os bairros de Nazaré, Batista Campos, Reduto e Umarizal,
em detrimento dos sítios mais antigos, Cidade Velha e Campina, surgem as modificações da
cidade à luz da linguagem eclética. Seguindo os preceitos da reforma urbana haussmaniana da
cidade de Paris, Lemos priorizou o discurso higienista, visando a reconstrução da cidade em
uma Belém moderna, mais limpa, mais bonita, mais higiênica. Para isso, o centro da cidade,
conhecido como o lócus econômico e cultural, por onde o capital da borracha e os membros da
elite perpassavam, fora o ápice da representação desta modernização. A periferia, entretanto,
permanecia desamparada, com altos níveis de insalubridade e escassez de habitações, uma vez
que aqueles que não se enquadrassem nos preceitos higienistas lemistas eram expulsos das áreas
centrais e obrigados a refazer suas vidas nas regiões adjacentes (FARIA, 2015, pg. 71).
Para que o espaço urbano fosse redefinido, a Intendência Municipal de Belém
esquematizou estratégias para caracterizar a nova fisionomia da Belém Moderna que
despontava: planos para a transformação física e urbana da cidade, com a construção de
edifícios públicos e implantação de novas tecnologias de serviços públicos, como o bonde, o
sistema de esgoto e a luz elétrica. Ademais, o intendente Antônio Lemos se concentrava na
aparência físico-social da cidade, criando um ordenamento urbano, com regras e posturas para
as construções de residências, de forma que se adequassem à modernidade que rebentava na
capital paraense (SOARES, 2008, pg. 54).
Este é o principal ponto da ecletização da cidade de Belém: inspirada na burguesia
europeia, a elite local, amparada pelo capital da borracha, buscava apresentar ao mundo a
própria experiência de modernidade, a sua própria Paris n’América, transformando-a em uma
cidade esteticamente salubre, limpa das imoralidades nocivas e imundas que pudessem
desprestigiar a nova imagem da capital. Desta maneira, a estética urbana torna-se um importante
7
instrumento do Poder Público e da elite gomífera para equacionar a degradação urbana e a casa
torna-se extensão das políticas de saúde (SOARES, 2006, pg. 84).
Figuras 01 e 02: Fotografia da Avenida São Jerônimo (atual José Malcher) em 1902 e da Rua dos Cearenses (não
se sabe seu nome atual), a desigualdade social da Belle-Époque.
Fonte: (01): O Álbum de Belém, 1902; (02): Belém da Saudade, 1998.
Diante dos preceitos do higienismo vigente, em quase todas as capitais brasileiras, as
habitações das classes mais baixas passam a ser vistas como uma ameaça à saúde, à moralidade
e à produção, tornam-se casas insalubres, as quais não eram consideradas um ambiente
acolhedor, e seus moradores eram convidados a retirarem-se, abandonados às ruas. Forma-se,
então, um discurso científico do Poder Público de que casas insalubres seriam focos de doenças
e de que o moderno deveria eliminar casas doentes. Por isso, são criadas regras e condutas de
higiene e embelezamento, como as Leis e Posturas Municipais (1892-1897) e o Código de
Polícia Municipal (1900), medidas que atingiam o espaço público e o privado (SOARES, 2006,
pg. 84 e 86).
Soares (2006, pg. 90 e 91), demonstra algumas das recomendações da Lei de Polícia
Municipal, tais como: casas belenenses não poderiam ser construídas com as paredes externas
de estuque ou em madeira e sua espessura era regulada seguindo as exigências estéticas e pela
rigidez; as fachadas não deveriam apresentar alturas inferiores a 3 metros e nem qualquer
saliência superior a 15 centímetros; as aberturas deveriam ter uma superfície de aeração
superior ou igual a 1/5 da área do aposento a ser iluminado e arejado; os cômodos internos não
8
poderiam obter área menor que 12 m², a exceção do banheiro, latrina, despensa ou vestíbulo, e
todos deveriam apresentar aberturas diretas para o exterior; corredores maiores do que 10
metros deveriam apresentar nos extremos ou laterais, iluminação direta. Além disso, haviam
artigos criados especificamente para habitações e deveriam ser criteriosamente seguidos, como
por exemplo: todas as casas deveriam apresentar porões, variando entre 1,5 e 3 metros de altura,
com aberturas para o arejamento e a ventilação; nas fachadas, portas e janelas deveriam abrir
para o interior do edifício; o proprietário deveria manter a pintura e manutenções de emboços
e rebocos em condições; fora proibido o uso de madeira em nesgas, ombreira e a construção de
beirais com telhas, obrigando o uso da platibanda; havia também, regras para o pé direito de
cada pavimento – térreos ou 1º pavimento até 5 metros, 2º pavimento, 4,5 metros e do 3º
pavimento em diante, 3 metros.
Por isso, pode-se afirmar que houvera esse processo de ecletização das casas da capital,
no que tange a área central, uma vez que as residências que não se enquadravam nas posturas
municipais eram obrigadas a sofrer as alterações exigidas, caso contrário deveriam desocupá-
las para que outra família, mais “decente”, pudesse residir, após as devidas reformações. Neste
contexto, surgiam diversas tipologias ecléticas na cidade, algumas pensadas pelas famílias mais
abastadas, com o intuito de status social, outras por membros mais humildes, que apenas
procuravam se adequar às medidas lemistas, e, havia ainda aqueles que, dentro das
possibilidades, buscavam aburguesar suas residências. Abordar-se-á algumas destas tipologias
e técnicas construtivas da época no próximo item.
1.2. Tipologias e técnicas construtivas ecléticas no espaço privado belenense do Ciclo da
Borracha
Posto que alguns edifícios, técnicas construtivas e composição urbana de Belém foram
estruturados a partir da colonização portuguesa na região e que alguns influenciaram, de certa
forma, a arquitetura eclética, nota-se a necessidade de realizar-se um breve histórico acerca da
arquitetura colonial, considerando que, por mais que houvera esta tentativa de separação da
herança portuguesa durante a Era da Borracha, o traçado urbano da cidade e algumas técnicas
construtivas coloniais permaneceram e permanecem até hoje.
Como afirma Cal (1989, pg. 65), em que pese o processo evolutivo da arquitetura
residencial em Belém na primeira metade do século XX estivesse relacionado com as fases e
9
características do sistema econômico regional vigente, a herança colonial permaneceu por um
longo período, condicionando soluções arquitetônicas sob vários aspectos, até mesmo a partir
dos condicionamentos de uma estrutura urbana que pouco se modificou.
Entre 1616 a 1822, a arquitetura colonial era a prevalecente na cidade de Belém, onde
as casas eram construídas com os materiais que estivessem à disposição dos construtores, na
maioria imigrantes portugueses que aliavam os materiais disponíveis à técnica construtiva
portuguesa. A maioria das casas era de madeira ou taipa de pilão e, para melhor consolidar sua
estrutura, seus construtores espalhavam tijuco1 nas paredes. Apenas as construções com maior
relevância política e sociocultural, como Igrejas e Palácios, eram construídas de pedra e cal.
Uma das técnicas construtivas comuns nas residências deste período era o levantamento de
esteios, seguido de adubamento das paredes com tijuco; o telhado, devido à ausência das telhas
de barro, era construído com folhas de palmeiras ou de suas palhas.
Contudo, ainda que neste início da povoação da cidade as construções fossem
constituídas de forma bastante humilde, à medida que a cidade de Belém ia crescendo, as casas
também foram modificadas, recebendo técnicas mais duráveis e acabamentos mais refinados,
como assoalhos, paredes de pedra e cal, porém ainda adicionando-se tijuco para que
permanecessem protegidas das chuvas (SOARES, 2006, pg. 22 e 23).
As vilas e cidades apresentavam um aspecto uniforme, com residências construídas
sobre o alinhamento das vias e paredes laterais sobre os limites dos terrenos. Esta uniformidade
dos terrenos era correspondida na regularidade dos partidos arquitetônicos, uma vez que as
casas eram construídas de maneira padrão, em alguns casos, normatizadas por Cartas Régias
ou em posturas municipais, a ideia era que estes assentamentos brasileiros obtivessem uma
aparência portuguesa. As plantas também apresentavam certa unissonância: as salas da frente e
as lojas se utilizavam das aberturas sobre a rua, já as aberturas dos fundos eram destinadas para
a iluminação dos cômodos de permanência das mulheres e dos locais de trabalho e entre estas
áreas com iluminação natural, situavam-se as alcovas, onde não havia aberturas para penetrar a
luz do dia, por isso destinavam-se mais ao uso noturno. A circulação era realizada por meio de
um corredor longitudinal, o qual, geralmente, conduzia da porta de entrada da rua aos fundos
da casa, o corredor apoiava-se a uma das paredes laterais ou fixava-se no centro da planta, em
exemplos de maior escala. A austeridade das técnicas construtivas denunciava o primitivismo
1
Tijuco, na língua portuguesa, significa lama, iodo. Lama de barro; este material tinha função de impermeabilizante
natural (SOARES, 2006, pg. 23)
10
tecnológico da época colonial, havia muita mão-de-obra determinada pela existência do
trabalho escravo e a ausência de aperfeiçoamentos (REIS FILHO, 2014, pg. 25 e 26).
As edificações com dois pavimentos ou mais, a exemplo dos sobrados, as casas de
esquina2 e a substituição das telhas de madeira por telhas de barro, revelavam a situação
privilegiada do colono proprietário da residência (SOARES, 2006, pg. 23). Outra maneira de
definir os estratos sociais na época, era por meio dos tipos de pisos da habitação: habitar um
sobrado com piso assoalhado significava riqueza, enquanto que o piso batido de uma casa térrea
caracterizava pobreza. Desta maneira, os pavimentos térreos dos sobrados, quando não eram
lojas, eram utilizados para acomodação dos escravos e de animais, sem com que fossem
ocupados pelas famílias dos proprietários (REIS FILHO, 2014, pg. 28). Os espaços mais
valorizados destas residências eram as salas: nas salas de visitas havia a predominância do
branco no teto de madeira, nas paredes pintadas a óleo e nas portas internas de almofadas com
caixilhos de vidro (MACHADO, 2011, pg. 36).
Figura 03: Exemplo de casa térrea colonial com telhado em duas águas e beiral, em Belém.
Fonte: CAL, Carmen Lúcia, 1989, pg. 68.
Entretanto, com a vinda da Família Real portuguesa ao Brasil, no ano de 1808, D. João
anuncia a abertura dos portos ao comércio internacional e a partir da liberação das transações
comerciais, adentra ao país uma abundância de produtos manufaturados, equipamentos e
2
Estas variações possuíam a possibilidade de aproveitar duas fachadas sobre a rua, o que alterava em parte o
esquema de planta e telhado (REIS FILHO, 2014, pg. 26).
11
materiais para o aprimoramento das construções e instalações de indústrias. Após a chegada da
Missão Francesa, seus integrantes passaram a se tornar responsáveis pelos projetos dos edifícios
públicos, estes artistas franceses foram responsáveis por trazer ao Brasil o estilo Neoclássico,
tendência prevalente na Europa (MACHADO, 2011, pg. 26 e 38). Em nível regional, Antônio
Landi, arquiteto italiano, fora um dos responsáveis pela consagração do novo estilo, chamado
de Classicizante3, em Belém (SOARES, 2006, pg. 32).
A partir deste momento histórico, a casa de porão alto surge como um novo tipo de
residência, a qual representava uma transição entre os velhos sobrados e as casas térreas. A
presença da entrada de novos equipamentos, a partir da abertura dos portos, contribuiu para a
alteração da aparência das construções, ainda que respeitando o primitivismo das técnicas
tradicionais. Desta forma, as platibandas passam a ser utilizadas, os beirais foram substituídos
por calhas ou condutores e as velhas urupemas e gelosias4 eram substituídas pelo uso de vidros
simples ou coloridos, especialmente na região das bandeiras das portas e janelas. Contudo,
ainda era comum encontrar as alcovas neste tipo de residência (REIS FILHO, 2014, pg. 37).
Figura 04: Tipologia externa das fachadas coloniais.
Fonte: REIS FILHO (2014, pg. 31)
A partir do ano de 1850, a borracha passa a progredir de maneira visível na cidade de
Belém e com o ciclo da borracha, viria a renovação arquitetônica na capital paraense,
3
Alguns autores afirmam que como nunca houvera um estilo Clássico no Brasil, não poderia chamar-se de estilo
Neoclássico.
4
Painéis formados por treliças de madeira, utilizados para vedar os vãos das esquadrias.
12
transformando as antigas formas de morar na cidade. A Belém entre 1870 e 1910 passa a romper
com as estruturas urbanas coloniais e revela uma ruptura estilística com a tradição portuguesa
na arquitetura, já que os paraenses passam a se inspirar nos países do norte da Europa,
principalmente da França, em detrimento do país ibérico colonizador (SOARES, 2006, pg. 35).
Esta mudança tipológica é notável, não apenas na Belém da era da borracha, mas em quase
todas as grandes cidades do país, uma vez que após o fim do tráfico de escravos, o início da
imigração europeia, o desenvolvimento do trabalho remunerado e o surgimento do transporte
ferroviário, surgem as primeiras residências urbanas com nova implantação, a nível nacional
(REIS FILHO, 2014, pg. 48).
A construção e reformas de prédios e espaços públicos como o Palácio Lauro Sodré, o
Mercado de São Brás, o Mercado Francisco Bolonha (ou Mercado de Carne), a Praça Batista
Campos e da República, dentre outros, demonstra que o Poder Público também fora responsável
pela disseminação da linguagem eclética na paisagem paraense. Entretanto, a difusão das mais
recentes e modernas técnicas construtivas da época no espaço privado belenense, se dá,
principalmente, diante da construção destas residências da elite gomífera, uma vez que eram os
guardiões dos excedentes provenientes do emolumento da borracha, ou seja, os que podiam
pagar pelos projetos, materiais e mão-de-obra e se dar ao luxo de aplicá-los em suas residências.
Segundo Faria (2015, p. 73), na transição do século XIX para o XX, as alterações na
arquitetura residencial ocorrem de forma gradual, seguindo os hábitos e costumes provenientes
das transformações socioeconômicas e culturais que vinham sendo incorporadas na população.
Ao se tratar das fachadas, as residências sofrem, a priori, algumas alterações em seus elementos
decorativos, permanecendo as bases na modenatura do Classicismo Imperial Brasileiro. Reis
Filho (2015, p. 44) afirma que as primeiras transformações são encontradas nas soluções de
implantação, a qual demonstrava os esforços de libertação da construção dos limites do terreno.
Desta maneira, fora possível criar soluções mais adaptáveis ao clima tropical da Amazônia,
possibilitando a criação de varandas, novos vãos para circulação de ar, entradas laterais, jardins
e quintais. Por isso, é a partir dos códigos de posturas municipais devidamente alterados, uma
vez que anteriormente as leis seguiam os padrões urbanistas coloniais portugueses dos edifícios
sobre o alinhamento das vias, as residências sofrem as maiores mudanças tipológicas (Reis
Filho, 2015, p. 46) e, principalmente, com as primeiras construções da elite.
As residências da Belém eclética seguiam os padrões da época de acordo com a condição
financeira de seu proprietário. Dessa forma, Soares (2006, p. 147) diferencia as várias formas
13
de morar em Belém, começando pelas formas burguesas do morar da Belém da Belle-Époque5
,
as quais simbolizavam efetivamente o que era a modernidade, sendo chamadas inclusive pelo
diminutivo de palácios, palacetes, demonstrando a magnitude que tais residências impunham
na paisagem da capital. Isto, quando contextualizado no espaço urbano, pois haviam, ainda, as
construções rurais burguesas, utilizadas como casas de descanso e de veraneio da elite local,
estas chamadas de rocinhas, chácaras ou chalés e localizadas em áreas mais afastadas do
aglomerado citadino.
Os cidadãos mais endinheirados construíam novas casas nas áreas em que a elite passava
a ocupar, como a Estrada de Nazaré, a Avenida São Jerônimo e a Avenida Independência, por
exemplo. Eram nestes pontos que começavam a surgir os palacetes, geralmente estas vivendas
adquiriam os nomes de seus proprietários como uma forma de status, desta maneira ficaram
conhecidos os palacetes: Bibi Costa, Bolonha, Vitor Maria da Silva, Faciola, Pinho, etc
(ARRAES, 2014, p. 521). É, principalmente, a partir destas edificações, patrocinadas pelo
espírito burguês e pelo dinheiro do Ciclo da Borracha, que as inovações construtivas são
inauguradas pela cidade.
Foi a partir dos palacetes que, não apenas as novas tecnologias construtivas, mas o novo
estilo de morar fora introduzido baseado nos costumes europeus da época, por isso, o partido
arquitetônico passar a ser mais especializado, com ambientes próprios para determinada função
(SOARES, 2006, p. 150). Em uma matéria do jornal A Província do Pará (1906, p. 01), é feita
uma minuciosa descrição sobre o Palacete Bibi Costa, em consequência da visita do Presidente
da República da época, Afonso Pena, o qual ficara hospedado no referido palacete. Nesta
matéria, são delimitados os nomes de alguns ambientes, como: sala de conferências, sala de
espera, sala de visitas, sala de copa e salão de jantar, indicando o nível da diferenciação entre
as finalidades para os ambientes.
Aos olhos do Poder Público, estas vivendas eram o exemplar do bom gosto e da higiene,
não necessitando, desta forma, seguir rigidamente as determinações das leis municipais, uma
vez que os projetos seguiam o modelo europeu, adotando as regras dos estilos escolhidos sem
interferir na arquitetura erudita (SOARES, 2006, p.150). É o caso do Palacete Bibi Costa e
Palacete Bolonha, ambos projetados pelo engenheiro Francisco Bolonha, um dos idealizadores
5
Vale ressaltar que o termo Belle-Époque, muito utilizado por décadas para destacar o período próspero da borracha
amazônica, atualmente está sendo continuamente debatido na Academia, uma vez que a capital paraense era bela,
moderna e próspera apenas para parte minoritária da população, isto é, para a elite local, enquanto grande parcela
dos cidadãos era desacolhida do contexto da urbanização da cidade.
14
da paisagem da Belém da borracha, responsável por diversos projetos proeminentes da época.
Ambos os palacetes não apresentam a platibanda exigida na lei. Neto (apud Costa, 2016, p. 18)
afirma que a utilização do ferro fundido e os novos elementos estruturais como o uso do
concreto armado, fora uma introdução da arquitetura eclética, tais elementos sendo amplamente
disseminados a partir do seu uso nos palacetes.
Com a incorporação do cimento Portland e do ferro fundido, a execução de vergas,
cintas, lajes e pequenos balanços como sacadas e marquises tornara-se possível. Fora em
detrimento destes elementos que Bolonha conseguiu projetar e executar o Edifício sede do
jornal A Folha do Norte (1895). Apresentando três pavimentos, um térreo e um mirante, este
edifício poderia ser considerado o mais verticalizado da cidade na época, com exceção das
igrejas coloniais. Já no século XX, Bolonha projetara os palacetes Bolonha e Bibi Costa, os
quais também apresentam esta verticalização (COSTA, 2016, p. 19). Em relação ao restante
dos materiais, havia uma variedade de origens, importados de diversos países, encontrando-se
tijolos portugueses e alemães pintados à mão, elementos arquitetônicos em ferro fundido,
pedras nobres como mármore e granito, e, na ausência destas pedras, havia também a escaiola,
um tipo de pintura que mimetizava a aparência marmorizada. Ademais, madeiras nobres
amazônicas como o acapu e o pau-amarelo também eram amplamente utilizadas,
principalmente na formação de pisos quadriculados e axadrezados (SOARES, 2006, p. 150).
Figuras 05, 06 e 07: Edifício da Folha do Norte, Palacete Bibi Costa e Palacete Bolonha.
15
Fonte: (05): https://fragmentosdebelem.tumblr.com/post/142323081615; (06): Relatório de Belém, 1906; (07):
https://i.pinimg.com/originals/d4/b3/05/d4b305a6a0578a089e84a1c5e585069c.jpg
Além dos palacetes, a forma burguesa de morar na cidade de Belém, segundo
denominações de Soares (2006, p. 162), eram as casas assobradadas ou apalacetadas. Estas
casas apresentavam diversos padrões construtivos e indicam a transição construtiva entre as
casas de porão alto e os palacetes. Como afirma Soares (2006), apresentavam proporções e
dimensões maiores que os palacetes, porém não possuíam a opulência e o luxo de tais
residências e não poderiam ser identificadas deste modo por não “se estabelecerem conhecidas
no imaginário ou no senso comum dos palacetes da Belle-Époque”, isto é, não obtiveram fama
suficiente para que se tornassem parte da imagética cultural da capital paraense. Por exemplo,
o palacete Bibi Costa transfigura-se em um dos ícones da borracha, da época do já foi, expressão
esta que deve ser questionada, uma vez que, como afirma Castro (1998, p. 29), todo lugar de
fala “Era da Borracha” é uma saudade do desconhecido. É uma lembrança sensual, efetivada
quando a concretude material de um objeto histórico-discursivo permeia o poder de gerenciar
novas falas, novos enunciados.
Entretanto, o Bibi Costa também entra na imagética da cidade como uma lenda urbana,
do castelinho mal-assombrado, forma como é amplamente conhecido em Belém. Talvez
parando um indivíduo nas ruas da cidade e perguntando-o sobre o Palacete Bibi Costa, ele não
saberá responder qual é ou onde se localiza, contudo, se o denominar de “castelinho” durante a
indagação, provavelmente o cidadão saberá sua localização e ainda contará mais algumas
histórias fantasmagóricas. Em razão disso que as casas assobradadas ficariam em um patamar
16
abaixo dos palacetes, mesmo representando a mesma classe social de novos ricos, que
provavelmente possuíam tantas riquezas quanto os proprietários de palacetes.
As casas apalacetadas, ou assobradadas, refletiam a ecletização dos sobrados coloniais,
porém apresentavam mudanças no esquema projetual e partido arquitetônico de características
coloniais. Podem ser encontrados diversas proporções destes tipos de residências, desde mais
pomposas até modelos mais modestos. Entretanto, elas exibem características em comum,
como a maior dimensão volumétrica, inovações da casa moderna, como a implantação no lote,
um programa de necessidades melhor especializado (SOARES, 2006, p. 163).
Figuras 08 e 09: Exemplos de casas assobradadas ou apalacetadas.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2017.
Outras tipologias ecléticas surgiam na cidade de Belém, desta vez não apresentando
mais o requinte das casas burguesas, mas demonstrando a preocupação de encaixar-se no padrão
burguês, seguindo a condição econômica que o proprietário dispunha. Soares (2006, p. 182)
indica dois tipos de casas “popularmente burguesas de se morar”: as casas de puxadas e as casas
para proletariados. Sobre as casas de puxadas, estas residências são consequências das
mudanças tipológicas na forma colonial de residir, estas transformações ficam evidentes ao
longo da transição das casas de sobrado para as casas de porão alto, as quais passaram a ser
erguidas do nível do chão, estas casas ainda apresentavam um arranjo arquitetônico colonial de
porta e janela, entretanto, já exibiam soluções projetuais mais modernizadas. Estas residências
ficaram conhecidas como puxadas devido ao esquema de planta alongado, como uma
modernização da casa colonial. Derenji (apud Soares, 2006, p. 183), descreve a planta de
puxada como uma sala seguida por um corredor que ligava a diferentes ambientes e finalizava
17
em uma sala de almoço e no fim do século, as cozinhas e banheiros integraram-se ao interior
da residência. Ademais, o setor social das puxadas era, predominantemente, locado na parte da
frente, onde eram recebidas as visitas e apresentavam maior decoração.
Figura 10: Esquema de planta de casas de puxadas.
Fonte: Handals (apud Coimbra, 2014, p. 101)
Imagem 11 e 12: Fachadas frontal e lateral de exemplo de casa de puxada, localizada na rua 28 de setembro
Fonte: Beatriz Maneschy, 2018
Este tipo de esquema de planta de puxadas era amplamente aceito pela classe média e
baixa, pois adaptava-se melhor aos recursos e modo de viver das famílias. Por isso, no intuito
de participar do estilo de vida burguês, as famílias de classes inferiores, buscavam aburguesar
e ecletizar suas casas (SOARES, 2006, p. 183 e 184). As casas de puxadas foram consideradas
o tipo-base de esquema da habitação civil não excepcional em Belém, caracterizadas por uma
evolução de acréscimos e parcelamento de cômodos, determinados segundo as dimensões do
lote e no alinhamento das vias, com partidos em I, L ou C. (Hidaka apud Coelho, 2016, pg.
155).
18
O segundo modelo de casas popularmente burguesas de se morar, eram as casas para
proletariados, onde estão enquadradas as vilas, conjuntos de casas geminadas com o esquema
de plantas de puxadas rebatido. Devido a simplicidade de sua construção e o tamanho das
residências, estas casas passam a ser consideradas um empreendimento rentável para os patrões,
que construíam este modelo para, posteriormente, vendê-las ou alugá-las para seus empregados.
Entretanto, estas residências não eram “ecleticamente” aceitas pela Intendência Municipal,
consideradas por Antônio Lemos monótona a uniformidade das casas e que a fachada afetava
a estética urbana da capital paraense. Contudo, devido as vilas apresentarem um projeto e
seguirem as recomendações do Código de Polícia Municipal, fora permitida as construções
destas edificações na cidade Belém (SOARES, 2006, p. 201 a 204).
Figuras 13 e 14: Exemplos de vilas.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Além das formas burguesas, haviam ainda as formas populares de se morar na Belle-
Époque. Geralmente, estas residências eram da população desamparada pelo plano de
urbanização de Lemos, que não possuíam recursos para adaptar ou construir casas
ecleticamente aceitas, por isso eram consideradas anti-higiênicas, desagradáveis e imorais.
Desta forma, estas casas foram localizadas em áreas mais afastadas do núcleo central da cidade,
sendo renegadas aos arredores, esta atitude era justificada por um discurso higienista que dizia
controlar, assim, a proliferação de doenças (ou a visão dos pobres pela classe elitista). Exemplos
destas moradias eram os cortiços e as barracas e palhoças. Entretanto, haviam ainda casas
populares que buscavam ecletizar-se, da mesma forma que a classe média se espelhava na elite
gomífera, a classe baixa também almejava o morar burguês, pelo menos até onde suas condições
19
financeiras permitiam. Desta maneira, algumas palhoças foram reconstruídas em alvenaria e o
acréscimo de alguns elementos decorativos nas fachadas e de cômodos considerados modernos,
como o vestíbulo. Contudo, estas casas não foram adicionadas no imaginário da Belle-Époque,
pois não eram consideradas modernas o suficiente para tal, sendo excluídas deste contexto, em
detrimento do que era a real riqueza da borracha (SOARES, 2006, p. 209 a 231).
Figura 15: Exemplo de palhoças, em Belém, imagem anterior ao ano de 1912.
Fonte: Belém da Saudade, 1998.
1.3. O Pré-Modernismo em Belém entre 1920 e 1940
No período entre guerras, os esquemas de implantação e arquitetura urbana sofreriam
transformações significativas. Entre 1920 e 1940, surgem os primeiros arranha-céus e a
consequente verticalização do centro urbano, a periferia cresce notavelmente e criam-se bairros
operários e de trabalhadores. As técnicas construtivas são aperfeiçoadas, principalmente devido
à influência da mão-de-obra imigrante. Até o ano de 1940 os materiais de construções
apresentavam uma industrialização tímida, quase artesanal e a indústria da construção ensaiava
pequenos avanços. Segundo Carlos Borges Schimidt (apud. Reis Filho, 2014, pg. 64), era
comum, até meados da década de 40 do século XX, encontrar em certas regiões de São Paulo a
utilização da técnica de taipa de pilão, sendo uma solução mais econômica na época. Em Belém
não seria diferente, principalmente no que se refere às construções populares. De maneira geral,
os tipos de lotes urbanos do século XIX se mantinham exceto por pequenas alterações, como
dimensões (REIS FILHO, 2014, pg. 65 e 66).
20
Figura 16: Vista da verticalização da Avenida Presidente Vargas, em 1966.
Fonte: IMS, fotografia de Marcel Gautherot, 1966.
Portanto, é comum encontrar na cidade de Belém a ocorrência de um Ecletismo tardio,
isto é, posterior ao ápice da borracha. Uma das expressões desse ecletismo remanescente são
os chalés urbanos. A tendência dos chalés urbanos e rurais chegou ao Brasil na metade do século
XIX, apresentando um gosto pitoresco, assimilando inovações técnicas e introduzindo materiais
construtivos e decorativos de produção em série na arquitetura tradicional brasileira. Em que
pese os chalés constituíssem modelos típicos de montanhas europeias, locais com clima
temperado, eles foram sendo aplicados na cidade paraense de clima equatorial. Por mais
dificultoso que fosse inseri-los na realidade tropical de Belém, este estilo de residência
conquista gradativamente a paisagem urbana da cidade a partir da primeira metade do século
XX (SARQUIS e NETO, 2003, pg. 32 e 33).
21
Figura 17: Belém em 1958, apresentando a predominância ainda da linguagem eclética.
Fonte: IMS, fotografia Marcel Gautherot, 1958.
No entanto, a tipologia da casa eclética, além dos chalés urbanos, com planta tradicional,
foi mantida, apresentando inovações restritas a uma liberdade maior nos desenhos das fachadas
e introduzindo características relacionadas a diferentes estilos. A partir disso, o ecletismo antes
dominante, passa a conviver com outras manifestações arquitetônicas, consideradas mais
modernos, durante as décadas de 1930, 1940 e 1950 (SARQUIS e NETO, 2003, pg. 34). Nestas
décadas, a agricultura enfrentava crises constantes, não havia certa diversificação de capital e
o crescimento populacional dos maiores centros urbanos aumentava vertiginosamente. Por isso,
a forma mais eficaz de aplicação financeira era o mercado imobiliário, a renda do aluguel de
casas era a vantagem de grandes investidores, enquanto que a casa própria era a segurança dos
pequenos investidores (REIS FILHO, 2014, pg. 66).
22
Figura 18: Exemplo de chalés urbanos geminados, localizado na Avenida Generalíssimo Deodoro.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Houvera também a multiplicação da construção de conjuntos de casas econômicas do
tipo médio, as quais buscavam reproduzir a aparência das residências mais ricas, contudo em
menor escala. Estas habitações conservavam-se sob os limites laterais dos lotes, porém
distanciavam-se alguns metros da via pública, onde locavam pequenos jardins. Havia também
a existência de edículas nos fundos do terreno. Fachadas frontais rebuscadas, em menor escala,
conviviam com fachadas posteriores mais modestas. Estes sobrados apresentavam
características parecidas, que buscavam atender às inovações formais que o Modernismo
começava a introduzir, como linhas retas, platibandas escondendo as telhas tipo Marselha e
ornamentos retilíneos (REIS FILHO, 2014, pg. 68).
23
2 AS VILAS NO BAIRRO DE NAZARÉ
2.1. Contexto histórico e sociocultural do Bairro de Nazaré
No século XIX, as estradas, travessas e ruas, surgem a partir do arraial de Nazareth,
região inserida na primeira légua patrimonial de Belém, concedida em 1627 à comarca
municipal da cidade (CANCELA, 2006, pg. 51). Entretanto, o bairro de Nazaré possui suas
origens ainda no século XVIII, quando o Caboclo Plácido caminhava pela estrada do Utinga
(atualmente Avenida Nazaré) e se deparou, às margens do igarapé Murutucu – hoje aterrado -
um nicho natural contendo uma pequena imagem da Virgem de Nazaré. Plácido, então,
construiu uma pequena ermida que abrigasse a imagem, marcando o início da devoção à Nossa
Senhora de Nazaré pelos paraenses (Dossiê Iphan I apud Azevedo, 2015, pg. 56). Após isso,
fora construída uma segunda capela em homenagem à Virgem de Nazaré, em 1774, destarte, a
população passou a frequentá-la assiduamente, realizando romarias na estrada do Utinga que
atravessava a mata virgem. Em consequência disso, algumas moradias foram construídas pela
população pobre da cidade, na então aldeia de Nazaré, onde hoje está localizado o Centro
Arquitetônico de Nazaré (CAN) (AZEVEDO, 2015, pg. 57).
Até aproximadamente metade do século XIX, a elite da cidade de Belém permanecia
em regiões como os bairros da Campina, Cidade Velha e do Comércio, porém, com o
surgimento das rocinhas6 na região do arraial de Nazaré, a elite passa a ocupar um espaço que
antes era considerado periferia. De acordo com Azevedo (2015, pg. 57), este processo de
expulsão da população desfavorecida ocorreu devido aos anseios de ocupação de um espaço
geográfico privilegiado pela elite local, uma vez que o arraial de Nazaré correspondia a um sítio
alto e seco, diferentemente da maioria dos terrenos de Belém, predominantemente baixos e
alagadiços. Nota-se então, um bairro originado pela religiosidade de uma população humilde,
local onde estes indivíduos mais desvalidos cravaram suas estacas e construíram suas casas e
se depararam, posteriormente, expulsos da região onde assentaram suas moradias, pela elite que
agora se apropriava desta área para construir suas casas de descanso.
Do último volume da coleção Motins Políticos, escrito pelo Barão de Guajará no tempo
da Cabanagem (1835) e lançado somente em 1890, Cruz (1971, pg. 83) destaca trechos que
abordam o antigo arraial de Nazaré, o qual o Barão chama de “simples sítio, solitário e
6
“Imóveis afastados do centro da cidade, isto é, em seus arrabaldes e procurados por seus proprietários para
momentos de recolhimento e de tranquilidade. E passavam a maior parte de sua vida aquelas propriedades onde
dispunham de regular conforto” (LA ROCQUE, Roberto Soares, 1996, pg. 22)
24
sombreado de árvores agrestes”. Era formada uma pequena praça com uma ermida no centro,
dedicada à Nossa Senhora de Nazaré e a estrada que levava ao bairro era composta por
suntuosas chácaras e alamedas, entremeadas com casas baixas e cabanas construídas de palha.
Uma outra estrada fora aberta até a praça de São Brás, conhecida por São Jerônimo. Em que
pese esta estrada ser um caminho estreito com pouco espaço para qualquer trânsito,
posteriormente torna-se a Avenida São Jerônimo, completamente arborizada, com jardins e
parques, ostentando magníficos prédios.
A partir da ocupação da região pela população mais abastada, em decorrência das
rocinhas, a estrada de Nazaré passa a apresentar certa organização urbana, quando, no final do
século XIX, devido a especulação imobiliária existente no centro comercial, em bairros como
o da Campina, o preço dos terrenos, assim como o preço dos impostos cobrados pela
Municipalidade, aumentaram significativamente. A partir disso, ocorre a migração dos
moradores desta região comercial em direção a bairros mais afastados, como Nazaré, Batista
Campos e Umarizal. Anteriormente, quando na ocupação pela massa popular, o bairro de
Nazaré era caracterizado por ruelas estreitas e tortuosas, sujas e deficientemente drenadas
(LIMA, 2015, pg. 82 e 83) e estes indivíduos viram-se novamente obrigados a morar em áreas
ainda mais afastadas, em “novos” bairros periféricos, como o da Pedreira, ou construir novos
bairros de trabalhadores, como Canudos (SOARES, 2006, pg. 53).
Ademais, a partir de 1870, com a inserção e consolidação da borracha amazônica no
mercado mundial, a nova Belém, construída a luz do lema de Modernidade, Progresso e
Civilização, vinha sendo construída (SOARES, pg. 36). Neste seguimento, Antônio Lemos7
realiza uma série de benfeitorias no espaço urbano de Belém, como pavimentação de ruas,
construção de praças e jardins, usinas de incineração de lixo, limpeza urbana, entre outros.
Todas as construções, até mesmo propriedades particulares, eram controladas e inspecionadas
por um código de posturas e normas que seguiam os ideais liberais. Contudo, vale lembrar que
esta estruturação urbana era localizada e dirigida à área central da cidade, a qual era habitada
pela nova elite local e a nascente classe média (SARGES, 2002, pg. 142).
De acordo com Cancela (2006, pg. 113), um documento apresentado como a listagem
da junta de qualificação da paróquia de Nazareth de 1876 demonstra que, dos 18 votantes mais
ricos, com fortunas acima de seis contos de réis anuais, 14 moravam na Estrada de Nazaré e
7
Intendente Municipal da cidade de Belém entre os anos de 1897 e 1910. (SARGES, Maria de Nazaré, 2002, pg.
139)
25
São Jerônimo (atual Avenida Governador José Malcher, também localizada na região do Bairro
de Nazaré). A autora também aponta que comerciantes recém-chegados à capital do Estado e
que enriqueceram a partir do comércio da borracha, construíram suas residências na Estrada de
Nazaré e da Independência, sendo a última contígua à primeira. Indivíduos de estratos sociais
menores, mas ainda com renda acima de seiscentos mil réis anuais, como militares, empregados
públicos, médicos, engenheiros, caixeiros, alfaiates e sapateiros, também são registrados como
residentes nas estradas de Nazaré e São Jerônimo. Isto significa que a população predominante
no Bairro de Nazaré a partir do final do século XIX era composta pela elite belenense e por
uma ascendente classe média.
É no seio deste plano de urbanização que a Estrada de Nazaré é definitivamente
consolidada, dessa vez com o nome de Avenida Nazaré e recebendo a estruturação urbana que
a Belém moderna prometia. Despontava, dessa maneira, o Bairro de Nazaré, agora enraizado
como endereço residencial da elite,
área de integração das famílias de posse, ou seja, grande parte das moradas
existentes ao longo desta eram ocupadas por aquelas, sejam em casas térreas que
guardavam o estilo português como o conjunto de setes casas, na esquina da Benjamin
Constant com a Avenida Nazaré, na qual a primeira, na esquina, pertenceu ao ‘Sr. José
Faciola e as demais a um funcionário da Companhia de Telefones, a Sra. Emilia Bahia,
o médico José Lobão e a última habitaram várias pessoas como o Visconde de Monte
Redondo’ (O Liberal, 1987, II – 14) ou em palacetes assobradados como o pertencente
a Antônio Almeida Faciola [...] (AZEVEDO, 2015, pg. 64)
O Bairro de Nazaré permanece como um território elitista da cidade de Belém ao longo
do século XX até os dias atuais. A partir de 1920, as primeiras residências neocoloniais vão
despontando na região, construídas por uma elite abalada pela crise da borracha. Ainda que a
sociedade sofresse as consequências da recessão do látex, a arquitetura continuava sendo
utilizada como ferramenta de valorização social pela elite, desta vez utilizando a linguagem
Neocolonial, com suas fachadas rebuscadas, como um meio para isto, mesmo que fosse um
estilo arquitetônico polêmico, aclamado por uns e considerado kitsch por outros (AZEVEDO,
2015, pg. 67). Após o período entre guerras, por mais que Belém ainda amargasse um passado
próximo de decadência, surgia uma nova geração que almejava por uma modernização, desta
forma, a cidade sai do isolamento cultural, a partir da chegada de novas tendências
arquitetônicas, como o estilo Art Decò e o Neocolonial (OLIVEIRA, 2016, p. 39).
26
2.2. Breve histórico e conceituação de vilas
Durante a República Velha (1889-1930), a visão liberal do Estado privilegiava a
produção privada e negava a intervenção direta no que tange a construção de casas para
trabalhadores (BONDUKI, 1994, p. 712). A habitação e o direito à casa (moradia) ainda não
eram vistos como obrigação do Estado e, por isso, não havia a intermediação dos setores
públicos (NEMER, 2018, p. 34). Prova disso é que somente em 1988, com o advento da
constituição cidadã é que o legislador constituinte teve a preocupação de elevar a moradia ao
patamar de direito fundamental, atribuindo ao Estado o dever na promoção de políticas públicas
de habitação. Nesse contexto, sob a égide de uma sociedade culturalmente escravista e
patriarcal, mesmo pós-revolução industrial e modelo capitalista crescente, era comum que os
patrões oferecessem moradias para seus empregados, construindo-as para aluguel ou venda, da
mesma forma que o problema do alojamento de escravos era pertinente aos seus senhores.
Regionalmente neste período, como dito anteriormente, Belém, assim como o restante
do Brasil, experienciava um boom populacional e a elite via neste ponto uma possibilidade de
investimento devido à especulação imobiliária que iniciava na cidade. Bonduki (apud Bonduki,
1994, p. 713) afirma que a rentabilidade da locação habitacional e o investimento imobiliário
garantia uma reserva de valor e um intenso processo de valorização. É deste histórico que o
brasileiro carrega, até os dias atuais, o sonho da casa própria, onde ter uma moradia significa
segurança e/ou capitalização. Contudo, àqueles que não possuíam a renda suficiente para
construir a casa própria, restavam poucas opções de habitação no período da borracha em Belém
(República Velha em nível nacional).
Como comentado previamente, morar no centro da cidade significava habitar casas
modernas, que seguissem os preceitos ecléticos, os quais apenas a elite gomífera e a emergente
classe média com suas casas ecletizadas possuíam este privilégio. Por isso, os proletariados,
impossibilitados de tal luxo, viam-se obrigados a pagar casas de aluguel, quartos em pensões
ou até mesmo morar nos fundos das casas dos patrões, ou acomodando-se nos porões.
Entretanto, a partir destes trabalhadores surgiram novos bairros operários, como Canudos,
Reduto e Umarizal, onde a especulação ainda não chegara, por serem considerados bairros
periféricos. Contudo a distância para o centro afastava alguns trabalhadores da realização da
casa própria, popular, mesmo que fora dos padrões lemistas (SOARES, 2006, p.196).
27
Inseridas no discurso higienista da época, as casas de proletariados deviam ser
medicalizadas, seguindo os princípios da casa saudável e moderna e, principalmente, seguindo
o Código de Posturas Municipais. Na época havia uma mitigação dos direitos trabalhistas em
prol do hipotético desenvolvimento da região em razão do lucro da comercialização da
borracha, onde a prosperidade econômica era considerada proeminente, em detrimento de um
desenvolvimento social e da ampliação de uma democracia mais igualitária, uma vez que, não
muito diferente dos dias atuais, não havia uma distribuição de renda equilibrada, sendo mantido
todos os lucros nas mãos de uma mesma elite – a gomífera.
Por consequência, a maioria dos proletários não obtinha a segurança e renda necessárias
para a construção de uma casa, mesmo que popular. Surgem, então, pequenas e fracassadas
tentativas do governo de criação de vilas operárias pra trabalhadores, como a Vila de Marituba,
17 grupos de duas casas, uma para o chefe de ofícios e duas para moradia dos operários. Porém,
principalmente devido à localização destas vilas, longe do centro, a Administração Pública não
conseguiu executar plenamente as casas para o trabalhador, delegando e incentivando esta ação
para firmas e profissionais particulares (SOARES, 2006, p. 201). Ademais, no início do século
XX, com a chegada dos primeiros imigrantes estrangeiros, ocorre uma mudança nos aspectos
morfológicos e sociais, quando surgiam as primeiras vilas operárias, construídas pelos donos
de fábricas e localizadas principalmente no bairro do Reduto, importante núcleo urbano e
econômico na Belém do século XIX e XX, as quais serviam aos trabalhadores das fábricas
(PONT VIDAL e OLIVEIRA, 2018, p. 338)
No início do século XX, a moradia passa a ser alvo da higienização da cidade e antigas
habitações coletivas consideradas insalubres, como os cortiços e deveriam incorporar as
inovações técnicas e sanitárias. Para isso, deveriam ser realizadas melhorias arquitetônicas,
como boas condições de iluminação e aeração, dormitórios separados para adultos e crianças e
um controle dos ocupantes da residência. Entretanto, para viabilizar a construção destas
habitações, era necessário um elevado custo, incompatível com os salários das classes
trabalhadoras (NEMER, 2018, p. 35). Por isso, a vila é construída por empreiteiros, casas
aviadoras ou bancos para serem alugadas por famílias e seus funcionários, ficando conhecida
como moradia da classe média e baixa do início do século XX. Estas vilas, devido à forma
homogênea e sem grandes variações como eram construídas e também ao motivo de a quem
elas eram destinadas, não eram bem quistas aos olhos do intendente Antônio Lemos, o qual as
descreveu desta forma: “Tereis exemplo d’estas afirmativas nos diferentes grupos de casas
28
construídas em Belém, nos últimos anos, por algumas companhias de seguro: são tudo quanto
póde [sic] haver de menos gracioso e esthetico [sic]” (LEMOS apud SOARES, 2006, p. 202).
Ainda assim, estas habitações seguiam os padrões ecléticos e as leis da Intendência
Municipal, apresentando, até certo ponto, o bom gosto aburguesado, por isso Lemos acaba por
ceder ao, já irrefreável, despontamento das vilas. Contudo, o projeto destas residências seguia
uma planta básica e impessoal, para que correspondessem diferentes programas de necessidades
e, consequentemente, agradassem mais famílias. Outrossim, a construção destas casas era fácil
e rentável, pois geralmente eram pequenas, higiênicas e cômodas, por isso os industriais as
construíam para alugar ou vender aos seus empregados. A planta destas residências era
predominantemente de puxada, um padrão já conhecido e aceito pela população (SOARES,
2006, p. 203). Bonduki (1998, p. 713) ressalta uma solução que buscava a economia de
materiais e terrenos, mas que ia contra as inovações ecléticas de afastamentos do lote: a
geminação e a ausência de recuos frontais e laterais,
cada qual destinado a uma capacidade de pagamento do aluguel: do cortiço, moradia
operária por excelência, sequência de pequenas moradias ou cômodos insalubres ao
longo de um corredor, sem instalações hidráulicas, aos palacetes padronizados
produzidos em série para uma classe média que se enriquecia, passando por soluções
pobres mas decentes de casas geminadas em vilas ou ruas particulares que perfuravam
quarteirões para aumentar o aproveitamento de um solo caro e disputado pela intensa
especulação imobiliária (Bonduki, 1998, p. 713).
A partir do trecho de Bonduki, avalia-se uma outra motivação para a construção destas
vilas, não apenas as construídas de patrões para empregados, visando o aluguel, mas também
uma solução tipológica econômica de uma classe mais emergente para morar o centro da cidade,
onde já se enfrentava as consequências da especulação. Desta maneira, a solução tipológica das
vilas ecléticas, da mesma forma que as edificações ecléticas no geral, eram construídas de
acordo com a condição financeira de seu proprietário. Por conseguinte, as vilas encontradas nos
bairros de trabalhadores, possuíam soluções modestas e menos decoradas, tanto em suas
fachadas, quanto internamente, enquanto que as vilas destinadas à classe média, apresentavam
soluções modernas, mais valorizadas, até mesmo devido à própria especulação imobiliária do
bairro nas quais estavam inseridas (SOARES, 2006, p. 205).
Portanto, pode-se afirmar que, no início do século XX em Belém, existiam dois modelos
de vilas: as vilas para trabalhadores e as vilas ecléticas. A primeira seguia o pensamento da
autora Eva Blay (1985,p. 18), onde a casa -em uma vila- funcionava como forma do salário não
pago, a qual sob uma visão marxista de Engels, a medida em que o trabalhador investia suas
29
economias para a construção da casa própria, ele acabava por converter em capital para o
capitalista, uma vez que o aluguel, cujo deveria estar incluso na remuneração, é descontado e
seu salário reduzido, perpetuando esta dependência habitacional entre patrão-empregado,
existente desde os primórdios coloniais escravistas e culminando na idealização atual brasileira
ao redor do sonho da casa própria.
Por outro lado, porém, observamos um modelo não totalmente aceito pelo principal
idealizador da capital paraense moderna do início do século XX, o intendente Antônio Lemos,
mas ainda assim difundido e explorado por uma classe média que almejava o modo burguês de
se morar, dentro das suas próprias condições financeiras. Estas vilas da classe média se tornam
mais aceitas pela intendência municipal devido às premissas ecléticas respeitadas e a qualidade
projetual do espaço interno, que já seguia as inovações propostas para a casa moderna. Segundo
Soares (2006, p. 205), os moradores desta segunda modalidade de vila, buscavam denotar
“maior estratificação social, o que, na prática, significou a introdução de novos hábitos
modernos dentro da casa, mas em especial no melhor tratamento estético das fachadas”.
Destarte, deve-se ressaltar que, já que as duas categorias foram construídas ao longo do
período eclético na cidade, seguindo padrões construtivos ecléticos, levando-se em
consideração as devidas proporções, ambas as tipologias possuem suas condignas importâncias
para o cenário histórico-social da Belém eclética. A casa popular, assim como a casa burguesa,
conta sua versão acerca de uma mesma época, e ambas sempre devem ser consideradas, Le
Goff explica em seu livro História e Memória, a necessidade da ampliação do conhecimento de
todos os lados possíveis da história, uma vez que o documento
é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí
detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à
memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno
conhecimento de causa (Le Goff, 2003, p. 536).
A partir desta crítica, compreende-se a necessidade de ampliar as pesquisas e estudos
acerca desta tipologia habitacional, enquanto objeto de análise histórico, sociológico e cultural,
já que muito se fala sobre as casas burguesas e seus palacetes, mas pouco se aborda sobre casas
populares, de trabalhadores ou de uma classe média. A construção de casas em vilas inicia no
contexto acima referido e ainda se faz presente como forma de entendimento de uma grande
dificuldade enfrentada por diversos Governos Brasileiros: o direito à própria casa, por isso a
importância de se compreender a forma de morar em Belém, sob a perspectiva de todas as
classes, torna-se inegável.
30
Figuras 19 e 20: Nas imagens abaixo são apresentados dois tipos de vilas localizadas no bairro de Nazaré. Na
primeira foto infere-se que seja uma vila para trabalhadores e a segunda uma vila já construída por integrantes da
classe média, devido aos maiores detalhes e adorno de fachada.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Por fim, outro aspecto importante para o estudo das vilas, é a abundância com as quais
são encontradas pela capital paraense. Neste trabalho, fora realizado um mapeamento de vilas
pelo bairro de Nazaré (restringiu-se apenas ao bairro de localização do principal objeto de
estudo), e nele foram encontradas modalidades de vilas operárias, ecléticas, com influências
modernistas, em estilo bungalow, etc. Isto implica na relevância geográfica desta tipologia
residencial, demonstrando o quanto eram recorrentes não apenas em bairros ditos industriais,
mas como também em logradouros ditos historicamente da elite.
2.3. Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré
Fora realizada uma análise ao longo do mês de abril de 2019 pelo bairro de Nazaré
(locus do objeto de estudo e desta pesquisa) com o objetivo de mapear as vilas existentes na
região. Como comentado anteriormente, o bairro de Nazaré fora fundado por uma população
desatendida pelo governo que fora, pouco a pouco, expulsa pela elite. A partir disso, esta
localidade passa a ser considerada um bairro elitista, predominantemente. Vale ressaltar a
palavra predominantemente, pois foram encontradas tipologias de vilas básicas e humildes,
semelhantes com modelos encontrados em bairros adjacentes e ocupados inicialmente por
trabalhadores, como o bairro da Cremação. Isto evidencia que havia uma pequena parcela dos
moradores do bairro que eram, possivelmente, trabalhadores morando em vilas de aluguel.
31
Figuras 21, 22 e 23: Vilas de trabalhadores localizadas no bairro da Cremação.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
A relevância da realização deste mapeamento se dá devido à grande variedade de
residências que seguem os esquemas tipológicos de uma vila, isto é, conjuntos de casas,
geminadas ou não. Foram encontradas vilas para trabalhadores, vilas de uma classe mais
abastada, vilas seguindo a tipologia chalé, vilas em estilo bangalô etc. Isto mostra o quão
rentável fora a construção destas tipologias ao longo dos anos, por existirem desde residências
do período eclético até vilas mais recentes, já inseridas no contexto da arquitetura moderna da
cidade de Belém. Fora possível, até mesmo, diferenciar as vilas de acordo com a linguagem
arquitetônica possivelmente inseridas, sendo denominadas aqui de: Vilas ecléticas para
trabalhadores; vilas ecléticas para classe média; vilas em estilo chalé; vilas modernas (aqui
inseridas as vilas em estilo neocolonial e bangalôs).
32
Figuras 24, 25, 26 e 27: Exemplos de vilas ecléticas para trabalhadores encontradas no bairro de Nazaré,
possivelmente.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Acredita-se que estas sejam casas para trabalhadores devido à sutileza dos elementos
decorativos, apresentando platibandas retilíneas e sem ornamentos estucados muito
trabalhados, além da ausência do porão, pavimento considerado importante para a aeração e
conforto térmico da casa.
33
Figuras 28, 29, 30 e 31: Exemplos de vilas ecléticas para classe média encontradas no bairro de Nazaré,
possivelmente construídas por uma classe mais abastada do que os trabalhadores.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Em que pese, as residências em vila destinadas à classe média, possuíssem maiores
inovações construtivas - platibandas ornamentadas, afastamentos laterais e/ou frontais, a
existência de alpendres com telhados e lambrequins trabalhados em madeira, azulejaria e
estucaria - ambos os estilos de vilas seguiam a solução arquitetônica de puxada.
Ademais, foram encontradas residências em vila no estilo chalé, como explicado no
capítulo anterior, esta linguagem fora uma expressão do ecletismo tardio na cidade de Belém.
Dentre as soluções volumétricas e de telhados encontrados na cidade, observou-se influências
das seguintes regiões europeias: Alta Normandia, na França; de Bray, na Irlanda; da região
fronteiriça entre Suíça e Alemanha; da região de Champagne, próxima à Alemanha (os quais
também foram encontrados exemplares de tipos geminados); da Alsácia, principalmente no que
tange à solução de alas perpendiculares e tipos de telhados; e, por último, da região de
Wertemberg, em Baden, na Alemanha, próxima à fronteira da França. A disseminação de um
estilo de regiões tão opostas à cidade é explicada devido ao seu estilo moderno e diferente na
34
região, além de sua facilidade de construção, possibilitando uma grande variação de tamanho e
solução de telhado (CAL, 1989, pg. 78)
Estes modelos são encontrados na região entre a rua Alcindo Cacela e avenida
Magalhães Barata, exemplares simplificados, isolados no terreno e também em conjunto de
duas até cinco unidades geminadas. A difusão deste modelo ao longo desta área pode ser
explicada devido ao governo de Magalhães Barata, na década de 1920, ter dado um prazo aos
proprietários de terrenos inutilizados para que construíssem em seus lotes, sob pena de
desapropriação, uma vez que esta região ainda estava muito desocupada. Portanto, os
moradores encontraram neste estilo, uma forma barata e de fácil construção, em sua maioria
visando o aluguel. Entretanto, no que se refere à funcionalidade de edifícios neste estilo, os
méritos são poucos. O excesso de compartimentação, com várias saletas ao longo da construção,
ia contra os hábitos da população da época. As escadas normalmente eram íngremes e estreitas
e as dependências de empregados ficavam situadas em anexo no fundo do quintal, apresentando
certa harmonia volumétrica com o corpo principal das casas. Quanto ao conforto, este estilo
apresenta detalhes relevantes, como portas internas com bandeiras vazadas e janelas
apropriadas para o clima quente e úmido da cidade, apresentando um sistema misto de
venezianas e vidro e folhas cortadas na horizontal, que permitiam a abertura somente da parte
superior, resguardando a privacidade interna ao mesmo tempo em que permitia a circulação de
ar. Contudo, o tipo chalé permanece até meados da década de 1950, quando, pouco a pouco,
fora substituído pelo tipo bangalô (CAL, 1989, pg. 79).
Figuras 32, 33 e 34: Exemplos de vilas geminadas no estilo chalé encontradas no bairro de Nazaré.
35
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
Além disso, foram registrados conjuntos de casas mais modernas, seguindo a tipologia
bangalô, a qual surge na década de 1920 e torna-se muito utilizada na década de 1960, esta
tipologia permanece isolada no lote, apresentando varandas no térreo e/ou pavimento superior,
com grandes platibandas e garagem coberta, copiadas das revistas americanas e italianas da
época, o bangalô fora uma premissa para as construções modernas de Belém. Ademais, este
modelo moderno de residências também apresentava grandes platibandas encobrindo o telhado,
jardins utilizando plantas regionais, azulejos, vidros e esquadrias em madeira (MIRANDA e
MARQUES DE CARVALHO, 2008, p. 4 e 5).
Figuras 35, 36 e 37: Exemplos da tipologia bangalô no bairro de Nazaré.
Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
36
Ademais, registrou-se a existências de casas em vila com estilo neocolonial, outra
tipologia muito recorrente no bairro de Nazaré, a qual possuía uma tendência de valorização
social (AZEVEDO, 2015, p. 67), sendo muito utilizada em casas da elite ou classe média,
mesmo que em meio à crise pós-borracha ocorrente a partir da década de 1920. Muitos destes
conjuntos de casas em estilo neocolonial ou na linguagem bangalô são provenientes em vilas
militares localizadas ao longo do bairro.
Figuras 38 e 39: Vilas militares em linguagem neocolonial, no bairro de Nazaré.
Fonte Beatriz Maneschy, 2019.
No mais, fora realizado um mapeamento enumerando e localizando as vilas encontradas
ao longo do bairro de Nazaré, o qual pode ser analisado em anexo a este trabalho. A partir da
realização desta etapa do trabalho, fora possível compreender a dimensão espacial que esta
tipologia ocupa na cidade e encontrou-se as mais diversas adversidades pelas quais alguns
destes exemplares enfrentam, apesar da já relatada importância histórica e sociocultural destes
tipos de construção. São várias as vilas aqui elencadas que estão deterioradas e em um já
avançado estado de má conservação.
Por isso, notou-se necessária a discussão sobre a questão da patrimonialização de
residências em vila, assunto este extremamente complexo e impossível de ser abordado em
poucas linhas deste trabalho, além de fugir do tema específico aqui analisado. Acerca deste
tópico levantado, será feita uma observação final ao longo das considerações finais.
37
3 CARACTERIZAÇÃO DA CASA Nº 674 DA VILA ANDRADE RAMOS
3.1. Histórico da vila Andrade Ramos
Segundo relatos coletados por meio de entrevistas com os atuais proprietários da vila,
Sr. Raul Moreira, filho dos primeiros proprietários da residência 678, e Sra. Socorro de Almeida
Gemaque, nora dos primeiros proprietários da casa 668, fora possível delimitar o histórico da
Vila Andrade Ramos, localizada na rua João Balbi com a Passagem Ramos, no bairro de
Nazaré. Formada por quatro residências, esta vila fora construída em 1934, a mando do Sr.
Pedro de Andrade Ramos, para quatro de suas seis filhas: Heloísa, Lígia, Maria dos Anjos,
Liliana, Haydée e Lourdes; outras duas filhas foram contempladas com casas na Passagem
Ramos, e não na Rua João Balbi.
Ainda que, em entrevista, o sr. Raul tenha relatado o ano de 1934 como de sua
construção, os livros de transcrição das transmissões, os de registros diversos e os de registro
geral apresentam o dia 23 de janeiro de 1948 como a data de transmissão do terreno edificado.
Entretanto, como este documento é apenas uma oficialização do que já encontrava-se
construído no terreno, não é possível confirmar o ano da construção via registros ou documentos
de imóveis da época, uma vez que no início do século XX, como ainda não havia o curso de
arquitetura e urbanismo no Pará e o curso de engenharia civil ainda estava nos seus primórdios
(fundado em 1931), não havia certa rigidez quanto aos registros de obras e/ou construções. Por
isso, considera-se a versão do descendente dos primeiros proprietários do ano de 1934.
Figura 40: Localização e delimitação do bairro de Nazaré e da Vila Andrade Ramos, marcada em vermelho.
Desenho: Beatriz Maneschy, 2019.
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Acredita-se que Pedro de Andrade Ramos tenha vindo do Ceará para o Pará juntamente
com seu tio-avô, José Júlio de Andrade, famoso político e latifundiário, durante as primeiras
décadas do século XX, para trabalhar em sua empresa Andrade & Ramos Co, em pleno apogeu
econômico da borracha na Amazônia. Em Belém, Pedro de Andrade acumulou muitas riquezas
e terras, possuía um palacete no terreno onde está localizada atualmente a Secretaria Municipal
de Educação e Cultura (SEMEC), na Av. José Malcher, a apenas algumas quadras do local onde
residia seu tio, o palacete Bibi Costa, também chamado de palacete José Júlio de Andrade, bem
como localizado na Avenida José Malcher, antiga São Jerônimo.
Figuras 41 e 42: A Passagem Ramos e a SEMEC.
Fonte: (41): Beatriz Maneschy, 2019; (42): Cybelle Miranda, 2019.
A Passagem Ramos, em homenagem à própria família, estava locada aos fundos do
terreno de palacete de Pedro de Andrade Ramos. Por isso, construiu as residências de suas filhas
nesta área, sendo duas casas locadas na Passagem propriamente dita e quatro já locadas como
vila, na Rua João Balbi. De acordo com a entrevista de Socorro Gemaque, a casa nº 668 fora
construída para a filha Maria dos Anjos de Andrade, com a intenção de residir na própria após
seu casamento. Socorro mudou-se para a casa da sogra em 1987 e afirma que não chegou a
conhecer Pedro de Andrade Ramos, avô de seu marido, pois este faleceu antes de seu
casamento. Socorro discorre sobre a história que sua sogra relatava, na qual Pedro Ramos estava
jantando com a família, logo após vender seu palacete na José Malcher, quando sofreu de um
mal súbito e veio a óbito. O dinheiro da venda de seu palacete sumiu e por isso sua esposa, não
tendo onde morar, foi auxiliada pelos filhos.
39
Figuras 43 e 44: Na primeira foto à esquerda, elemento decorativo em porcelana original dos primeiros
proprietários. A segunda foto à direita está a filha de Pedro de Andrade Ramos, Maria, e seu cônjuge.
Fonte: Acervo Socorro Gemaque, s.d.
Como Pedro de Andrade era possuidor de muitas terras e bens, tanto na capital paraense,
quanto no interior do estado, legou suas propriedades para seus filhos, deixando todos
amparados, uma vez que, além das seis filhas, o casal também havia tido quatro homens: Pedro,
Clóvis, Freitas, (...). Estes filhos receberam casas próximas à Passagem Ramos, exprimindo o
costume da época, onde os membros da família moravam próximos, ao redor da vizinhança.
Figuras 45, 46 e 47: Recortes de jornais encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Acima da
esquerda para a direita, a nota de falecimento de Maria dos Anjos Ramos, irmã de José Júlio de Andrade e mãe
de Pedro de Andrade e imagem da família Andrade Ramos reunida. Abaixo, a nota de falecimento de Pedro de
Andrade Ramos.
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Vila Andrade Ramos: estudo tipológico na cidade de Belém do Pará no período pós-eclético

  • 3. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE TECNOLOGIA (ITEC) FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO (FAU) BEATRIZ MARTINS MANESCHY VILA ANDRADE RAMOS: ESTUDO TIPOLÓGICO NA CIDADE DE BELÉM DO PARÁ NO PERÍODO PÓS-ECLÉTICO Belém 2019
  • 4. BEATRIZ MARTINS MANESCHY VILA ANDRADE RAMOS: ESTUDO TIPOLÓGICO NA CIDADE DE BELÉM DO PARÁ NO PERÍODO PÓS-ECLÉTICO Trabalho Final de Graduação apresentado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo como requisito final para obtenção do título de Arquiteta e Urbanista Orientadora: Profª. Drª. Cybelle Salvador Miranda. Belém, 12 de dezembro de 2019. BANCA EXAMINADORA ________________________________________ Profª. Drª. Cybelle Salvador Miranda. Orientadora FAU/UFPA ________________________________________ Profª. Drª. Elna Maria Andersen Trindade Examinadora interna FAU/UFPA ________________________________________ Profª. Ms. Laura Caroline de Carvalho da Costa Examinadora externa Instituto Federal de Educação e Tecnologia – IFPA
  • 5. DEDICATÓRIA À Maria de Fátima Ramos (in memoriam) e Luiz Alberto Paiva Maneschy (in memoriam).
  • 6. AGRADECIMENTOS Agradeço à minha orientadora, Profª. Cybelle Miranda, por me apresentar ao tema, pelas contribuições sempre pontuais e assertivas, além de oportunizar a minha iniciação de uma carreira acadêmica. Ao Prof. Ronaldo de Carvalho, pelos apontamentos técnicos, momentos de descontração e risadas. Ao LAMEMO, por ser meu campo de trabalho, o qual ainda pretendo contribuir ao longo desta caminhada e a todos os seus integrantes que passaram em meu caminho: Vithória, Larissa, Lívia, Wagner, Salma, Sidney, obrigada pelos conselhos, conversas e ajuda acadêmica. Agradeço aos entrevistados, Raul Moreira e Socorro Gemaque, por terem aberto suas residências e contado as histórias da família, para que, enfim, este trabalho pudesse ser concretizado. Agradeço à Bianca Barros, ex-integrante do LAMEMO, por ter me auxiliado no levantamento técnico da casa 674. À Prof.ª Elna Trindade pelas contribuições na banca de TCC I que muito agregaram a este trabalho. Ao Fórum Landi, em especial ao Morgado e à Beá, por terem me introduzido ao mundo do Patrimônio de Belém. A todos da Kamel Arquitetura e Design, pela amizade e pelos ensinamentos ao longo deste ano. Agradeço aos meus pais, Ana Aurora e Luiz Alberto, por sempre me proporcionarem, de maneira incansável, as melhores condições e oportunidades para que eu pudesse me tornar uma profissional competente. Às minhas irmãs, Amanda e Marina por abrirem e guiarem os meus caminhos, me ensinando que vivemos em um mundo profissional nem sempre receptivo para mulheres, mas que nós vamos, sim, nos inserir nele. Ao meu avô, Olivar, pela assídua presença na minha vida e por sempre me fazer rir com seu jeito bruto e carinhoso de ser. À minha avó, Ana Maria, a qual compartilho traços de personalidade, você é meu exemplo. À minha avó, Conceição, por me ensinar o que é amor verdadeiro. Ao meu avô, Luiz (in memoriam), espero que, de onde o senhor estiver, esteja orgulhoso de eu ter seguido suas últimas palavras dirigidas a mim.
  • 7. Ao meu companheiro de vida, Vitor, pelas revisões, bom-humor, por sempre escutar minhas lamúrias e pelo apoio em meus momentos de maior instabilidade. À Marinalva e Fátima (in memoriam), pelos conselhos, por me poupar das atividades diárias para que pudesse me dedicar somente aos estudos e por acreditarem em mim, mais do que eu mesma. À Iva, por ser minha segunda mãe da infância e me ensinar os pilares de caráter, honestidade e bondade. A todos os meus amigos, por ouvirem as constantes reclamações e os ‘nãos’ aos convites de saída, obrigada por sempre estarem ao meu lado. Ao Luis e à Kimie, por fazerem com que as vindas à FAU fossem sempre mais alegres e descontraídas ao longo destes 5 anos (e por também escutarem, as já citadas, reclamações). Ao Zack (in memoriam), à Tiana e ao Oreo, por me ensinarem o amor incondicional.
  • 8. Com as lágrimas do tempo / E a cal do meu dia / Eu fiz o cimento / Da minha poesia E na perspectiva / Da vida futura / Ergui em carne viva / Sua arquitetura Vinicius de Moraes, 1960.
  • 9. SUMÁRIO INTRODUÇÃO..........................................................................................................................1 1 A ARQUITETURA RESIDENCIAL ECLÉTICA E PRÉ-MODERNA EM BELÉM...4 1.1. Histórico do Ecletismo em Belém ............................................................................4 1.2. Tipologias e técnicas construtivas ecléticas no espaço privado belenense do Ciclo da Borracha..........................................................................................................................8 1.3. O Pré-Modernismo em Belém entre 1920 e 1940...................................................19 2 AS VILAS NO BAIRRO DE NAZARÉ .......................................................................23 2.1. Contexto histórico e sociocultural do Bairro de Nazaré .........................................23 2.2. Breve histórico e conceituação de vilas ..................................................................26 2.3. Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré..............................................................30 3 CARACTERIZAÇÃO DA CASA Nº 674 DA VILA ANDRADE RAMOS................37 3.1. Histórico da vila Andrade Ramos ...........................................................................37 3.2. Tipologia, elementos construtivos e influências arquitetônicas..............................42 3.3. A reconstrução virtual da Vila Andrade Ramos enquanto visualização computadorizada do patrimônio cultural...........................................................................55 3.4. O paralelo com as moradias em banda da cidade do Porto.....................................62 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................69 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................71 APÊNDICE I.............................................................................................................................75 Levantamento físico-cadastral: 1 Planta baixa 2 Planta de cobertura 3 Corte 4 Elevações APÊNDICE II........................................................................................................................79 Plantas de reconstituição: 1 Planta Baixa 2 Planta de Cobertura 3 Planta de paginação de piso 4 Detalhes da paginação de piso 5 Planta de paginação de forro 6 Corte 7 Elevações APÊNDICE III..........................................................................................................................86
  • 10. Memorial fotográfico APÊNDICE IV........................................................................................................................102 Memorial de intervenção com análise de conservação APÊNDICE V.........................................................................................................................111 Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré
  • 11. LISTA DE FIGURAS FIGURA 01 e 02 - Fotografia da Avenida São Jerônimo (atual José Malcher) em 1902 e da Rua dos Cearenses (não se sabe seu nome atual), a desigualdade social da Belle- Époque......................................................................................................................................07 FIGURA 03 – Exemplo de casa térrea colonial com telhado em duas águas e beiral, em Belém........................................................................................................................................10 FIGURA 04 – Tipologia externa das fachadas coloniais..........................................................11 FIGURA 05, 06 e 07 – Edifício da Folha do Norte, Palacete Bibi Costa e Palacete Bolonha.....................................................................................................................................14 FIGURAS 08 e 09 - Exemplos de casas assobradadas ou apalacetadas..............................................................................................................................16 FIGURA 10 - Esquema de planta de casas de puxadas............................................................17 FIGURAS 11 e 12 - Fachadas frontal e lateral de exemplo de casa de puxada, localizada na rua 28 de setembro....................................................................................................................17 FIGURAS 13 e 14 - Exemplos de vilas....................................................................................18 FIGURA 15 - Exemplo de palhoças, em Belém, imagem anterior ao ano de 1912.................19 FIGURA 16 - Vista da verticalização da Avenida Presidente Vargas, em 1966......................20 FIGURA 17 - Belém em 1958, apresentando a predominância ainda da linguagem eclética......................................................................................................................................21 FIGURA 18 - Exemplo de chalés urbanos geminados, localizado na Avenida Generalíssimo Deodoro.....................................................................................................................................22 FIGURAS 19 e 20 - Nas imagens abaixo são apresentados dois tipos de vilas localizadas no bairro de Nazaré. Na primeira foto infere-se que seja uma vila para trabalhadores e a segunda uma vila já construída por integrantes da classe média, devido aos maiores detalhes e adorno de fachada.................................................................................................................................30 FIGURAS 21, 22 e 23 - Vilas de trabalhadores localizadas no bairro da Cremação..................................................................................................................................31 FIGURAS 24, 25, 26 e 27 - Exemplos de vilas ecléticas para trabalhadores encontradas no bairro de Nazaré, possivelmente...............................................................................................32 FIGURAS 28, 29, 30 e 31 - Exemplos de vilas ecléticas para classe média encontradas no
  • 12. bairro de Nazaré, possivelmente construídas por uma classe mais abastada do que os trabalhadores.............................................................................................................................33 FIGURAS 32, 33 e 34 - Exemplos de vilas geminadas no estilo chalé encontradas no bairro de Nazaré...................................................................................................................................34 FIGURAS 35, 36 e 37 - Exemplos da tipologia bangalô no bairro de Nazaré.........................35 FIGURAS 38 e 39 - Vilas militares em linguagem neocolonial, no bairro de Nazaré.............36 FIGURA 40 - Localização e delimitação do bairro de Nazaré e da Vila Andrade Ramos, marcada em vermelho...............................................................................................................37 FIGURAS 41 e 42 - A Passagem Ramos e a SEMEC..............................................................38 FIGURAS 43 e 44 - Na primeira foto à esquerda, elemento decorativo em porcelana original dos primeiros proprietários. A segunda foto à direita está a filha de Pedro de Andrade Ramos, Maria, e seu cônjuge.................................................................................................................39 FIGURAS 45, 46 e 47 - Recortes de jornais encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Acima da esquerda para a direita, a nota de falecimento de Maria dos Anjos Ramos, irmã de José Júlio de Andrade e mãe de Pedro de Andrade e imagem da família Andrade Ramos reunida. Abaixo, a nota de falecimento de Pedro de Andrade Ramos..........................39 FIGURAS 48 e 49 - Planta do pavimento térreo e primeiro pavimento da casa 674 da vila Andrade Ramos, levantamento físico e cadastral realizado em 2019.......................................42 FIGURAS 50, 51, 52 e 53 - Nas fotografias identifica-se detalhes do interior original da casa, como o piso em ladrilho hidráulico e a cor das esquadrias.......................................................43 FIGURAS 54 e 55 - Na primeira fotografia, lê-se os dizeres “Cruzeiro” e “J. Sidrim – Pará”, os quais levou à olaria Paraense. Abaixo, foco para a parede de tijolos originais....................44 FIGURA 56 - Na fotografia abaixo é possível notar as portas com bandeiras e janelas com o recurso das diferentes aberturas................................................................................................45 FIGURAS 57, 58, 59 e 60 - Imagens das escadas da casa da Sra. Socorro e do Sr. Raul........46 FIGURAS 61, 62 e 63 - Fotografias da escada balanceada em madeira, com o primeiro degrau em granilite...............................................................................................................................46 Figuras 64, 65, 66, 67 e 68: Na primeira linha, estão os ladrilhos remanescentes encontrados nas residências do Sr. Raul e da Sra. Cybelle. Na segundo linha, à esquerda está o piso mosaicado original da sala de estar e à direita o assoalho de madeira do primeiro pavimento.................................................................................................................................47 FIGURA 69 - Pastilhas cerâmicas hexagonais da residência próxima à Pça. Brasil...............48 FIGURAS 70, 71, 72, 73 e 74 - Nas duas primeiras linhas da esquerda para a direita estão os exemplares do forro de madeiro e rodateto encontrados em ambos os pavimentos. Na última
  • 13. linha, fotografia indicando o único ambiente da residência que possui laje............................49 FIGURAS 75, 76 e 77 - Detalhe para a platibanda da vila, apresentando um desenho triangular e com pequenos frisos quadriláteros adornando-a e delimitando cada uma das residências.................................................................................................................................50 FIGURA 78 - Ilustração da fachada demonstrando os elementos decorativos que tendem ao Art déco.....................................................................................................................................51 FIGURA 79 - Ilustração da fachada demonstrando os elementos individualizantes e os de união..........................................................................................................................................52 FIGURA 80 - Planta de cobertura da vila Andrade Ramos, apresentando as 16 águas e com a planta da casa 674 tracejada em vermelho................................................................................53 FIGURA 81 - Nesta planta baixa do pavimento térreo, foram identificadas três salas consecutivas..............................................................................................................................54 FIGURAS 82, 83, 84 e 85 - Na primeira linha, duas casas na tipologia chalé, situadas após a vila Andrade Ramos. Na segunda linha, outro chalé vizinho à vila, situado anteriormente à Passagem Ramos.......................................................................................................................55 FIGURAS 86 e 87 - Na primeira imagem à esquerda, é possível identificar o desenho do muro original na terceira casa, onde também é possível identificar as cores originais verde e branca. Na segunda imagem, à direita, identifica-se o padrão verde e branco nas duas residências centrais da vila........................................................................................................59 FIGURAS 88, 89 e 90 - Imagens da fachada principal da Vila Andrade Ramos, indicando as cores verde e branco..................................................................................................................59 FIGURAS 91 e 92 - Fotografias da fachada atualmente..........................................................60 FIGURAS 93 e 94 - Detalhes para as esquadrias e elementos decorativos.............................60 FIGURAS 95, 96, 97 e 98 - Na primeira linha, as fotografias indicando o prolongamento realizado na residência da esquina e a exclusão da edícula. Na segunda linha à esquerda, o muro entre a casa 674 e a casa da esquina, onde houve a exclusão do telhado de duas águas do setor de serviço, como ainda encontrado nas outras duas casas, como mostra a imagem à direita........................................................................................................................................61 FIGURAS 99, 100 e 101 - Na primeira imagem, a elevação posterior de como eram as fachadas, com os beirais, calhas e águas do telhado. Na segunda linha, imagens da representação gráfica de como era a volumetria da fachada posterior e das edículas..............61 FIGURAS 102, 103 e 104 - Exemplo de moradias em banda na cidade do Porto, em Portugal.....................................................................................................................................62 FIGURA 105 - Residências à beira da Baía de Guajará, em Belém, demonstrando tipologia
  • 14. similar às moradias em banda...................................................................................................64 FIGURA 106 - Exemplares de volumetrias da categoria C......................................................66 FIGURAS 107 e 108 - Recorte da planta de travessa Carvalhosa, desenhada por Luís Inácio de Barros Lima, 1802, acima. Abaixo, esquema representativo do tipo das moradias da planta anterior......................................................................................................................................67 FIGURA 109 - Esquema representativo da fachada da vila Andrade Ramos..........................67
  • 15. RESUMO O bairro de Nazaré agrega uma gama de edificações que podem ser enquadradas como patrimônio cultural da cidade de Belém-PA, uma delas é a tipologia em vila, cuja frequência nas ruas do bairro a torna um dos componentes da imagética arquitetônica do bairro de Nazaré. As vilas são constituídas por conjuntos de casas com planta e volumetria semelhantes, propagadas internacionalmente a partir da Revolução Industrial, visando a economia na construção e/ou o lucro, devido ao aluguel das casas. Fora realizado um mapeamento destas vilas que comprovasse a frequência desta tipologia ao longo do bairro. Especificamente, o objeto de estudo deste trabalho será a vila Andrade Ramos, uma das vilas geminadas encontradas ao longo do bairro de Nazaré. Construída no ano de 1934, em um contexto pós-eclético, posterior o Ciclo da Borracha e de despontamento das primeiras obras arquitetônicas modernistas na cidade, a vila ainda fora edificada seguindo as técnicas construtivas e materiais encontrados nas residências ecléticas, ainda que já sendo possível reconhecer certos elementos mais retilíneos e minimalistas, o que a difere de outras vilas ecléticas encontradas pelo bairro, com maior influência Classicizante. O objetivo principal deste trabalho é analisar tipologicamente a vila Andrade Ramos, identificando suas influências nacionais e internacionais, a história da família Andrade Ramos e a construção destas casas. Para isso, fora realizado um levantamento físico-cadastral da residência 674 da vila, com o objetivo de compreender o partido arquitetônico e realizar a análise da tipologia para além de sua volumetria e fachada. Além disso, utilizando programas de arquitetura e animação gráfica, realizou-se uma reconstrução virtual da vila em seu possível estado original, de forma a contribuir para a Memória do Patrimônio Cultural deste exemplar da tipologia vila no bairro de Nazaré. Palavras-chave: Vilas; Patrimônio; Ecletismo; Belém-PA.
  • 16. ABSTRACT The district of Nazaré adds a range of buildings that can be classified as cultural heritage of the city of Belém-PA, one of them is a typology called vila, whose frequency in the streets of the district makes it one relevant type of the architectural image of Nazaré. Vilas are constituted of houses of similar size and layout, propagated internationally with the occurrence of the Industrial Revolution, those houses aiming at building economy and / or profit due to the renting of houses. A mapping of these vilas had been made to prove the frequency of this typology throughout the district. Specifically, the object of study of this work will be the vila Andrade Ramos, one of the vilas found along the neighborhood of Nazaré. Built in 1934, in a post-eclectic context, after the Amazon’s Rubber Cycle and the dawn of the first modernist architectural buildings in the city, this vila was still built following the construction techniques and materials found in eclectic residences, although it was already possible. recognize certain more rectilinear and minimalist elements, which differs from other eclectic vilas found by the neighborhood, with greater influence Classicizante. The main objective of this paper is to analyze typologically the Andrade Ramos vila, identifying its national and international influences, the Andrade Ramos family history and the story of the construction of these houses. For this, a physical-cadastral survey of the 674 residence of the vila had been produced, in order to understand the architectural layout and to analyze the typology beyond its volume and facade. In addition, using architecture and graphic animation programs, a virtual reconstruction of the vila in its possible original state was carried out, in order to contribute to the Memory of the Cultural Heritage of this example of the village typology in the district of Nazaré. Keywords:Vilas; Heritage; Eclecticism; Belém-PA.
  • 17. 1 INTRODUÇÃO Este trabalho visa o estudo tipológico da residência 674 da vila Andrade Ramos, construída no ano de 1934, durante um período limítrofe entre a permanência das construções ecléticas e o surgimento das primeiras casas modernistas na cidade de Belém. Por isso, objetiva- se compreender a influência da arquitetura de linguagem eclética do século XIX dentro de uma construção da segunda metade do século XX. Portanto, analisar-se-á a tipologia da vila Andrade Ramos via levantamento físico cadastral para compreender o partido arquitetônico da residência e realizar uma síntese de matérias, com o intuito de refazer um modelo original. Fora utilizado o método qualitativo aliado ao estudo tipológico comparativo. Foram realizadas visitas ao objeto de estudo para serem realizados o memorial fotográfico e o levantamento físico-cadastral. Posteriormente, na ausência de documentos que pudessem ser usados como referência, foram realizadas entrevistas com familiares e descendentes dos primeiros moradores da vila. Subsequentemente, por meio de pesquisa bibliográfica e análise tipológica, foram efetuadas as comparações e analisadas as influências. Após isso, optou-se por reconstruir digitalmente o modelo original da vila, via programas digitais de arquitetura e animação. Buscou-se, também, compreender as influências para além do ecletismo, observando possíveis elementos e tipologias que apresentariam algum tipo de relação com a vila, como, por exemplo, a tipologia das moradias em banda, comum na cidade do Porto em Portugal. Ademais, outro objetivo deste estudo é perceber a formação e importância da tipologia vila no contexto do bairro de Nazaré, em Belém. Entre os anos de 1984 e 1997, fora realizado pelo IPHAN, e encabeçado pelos arquitetos Jorge Derenji, Celma Chaves e Ana Claudia Monteiro, um levantamento de vilas construídas entre meados do século XX até a década de 1960 em sete bairros de Belém, onde foram encontrados um total de 349 exemplares de vilas e conjuntos. Para Derenji, Chaves e Monteiro (1997, p. 48), o surgimento e evolução das vilas em Belém está relacionado ao processo de evolução urbana das cidades brasileiras e as quais constituem um acervo representativo acerca da arquitetura popular praticada em Belém e em outras cidades brasileiras, mas que também se faz presente em diversos países, devido sua disseminação após a Revolução Industrial.
  • 18. 2 Os autores também afirmam que esta tipologia consistia em uma solução de moradia para uns e fonte de renda para outros, pois, perpassando os conceitos de vila desde o período colonial, quando a vila estava relacionada à existência de um povoado que possuísse certa autonomia política, jurídica e econômica, chega-se aos conjuntos de habitações de características idênticas ou semelhantes, produzidas por empreendimentos privados, como no caso das vilas operárias, casas destinadas a aluguel. Segundo Derenji, Chaves e Monteiro (1997, p. 07), a urbanização crescente ao longo da última década do século XIX, fez com que o mercado imobiliário se tornasse atraente para o investidor, o qual usufrui dos incentivos dados pelo poder público para a construção destas residências de aluguel. É relevante ressaltar também que a preservação do patrimônio histórico da cidade de Belém ainda possui uma visão cronológica, muito atrelada à linguagem eclética e edificações coloniais. Muitas construções fora do entorno do centro histórico da cidade e/ou que não apresentam a linguagem considerada histórica, antiga, são desvalorizadas e esquecidas quanto à sua preservação. A vila aqui estudada está enquadrada neste caso, construída em um período pós-eclético, em meados da década de 1930, mas com características ecléticas, em uma fase na qual a historiografia arquitetônica considerava os cânones da Arquitetura Moderna, com a negação da arquitetura eclética. Além disso, está situada em uma região além do Centro Histórico de Belém e seu entorno, não estando, dessa forma, totalmente protegida da especulação imobiliária que assola o bairro. No próprio Levantamento de Vilas de 1997, é relatado que, na época, 18% dos exemplares mapeados no bairro de Nazaré em 1984 haviam deixado de existir e que apenas 45% eram considerados de interesse à preservação, todos concentrados nas porções mais nobres do bairro. Imagina-se, então, quantos outros arquétipos de conjuntos de casas e vilas já não desapareceram ao longo destes 22 anos. Por isso, achou-se imprescindível inventariar as vilas ainda existentes atualmente neste bairro. No primeiro capítulo, fora realizado um aparato histórico acerca da arquitetura residencial em Belém, perpassando pela linguagem eclética, suas influências e tipologias, até o contexto do pré-modernismo na cidade entre as décadas de 1920 e 1940, momento no qual a vila Andrade fora construída, com objetivo de compreender as diferentes formas de construir e habitar que haviam em Belém neste período.
  • 19. 3 No segundo capítulo, o bairro de Nazaré é mantido em foco, no qual é realizado um histórico de sua formação e ocupação. Posteriormente, fora feito um breve histórico e conceituação de vilas. Ao fim destes tópicos, resultou-se um mapeamento das diversas tipologias de vilas encontradas neste bairro, com o intuito de compreender o quão relevante para a imagética arquitetônica do bairro, estes conjuntos podem ser. No terceiro e último capítulo, por fim, fora feita a análise tipológica da vila, com enfoque na residência 674 da mesma. Além disso, as influências arquitetônicas são comparadas e examinadas aqui. Ademais, neste capítulo também fora realizada a reconstrução virtual da vila Andrade Ramos, com objetivo de catalogação de um exemplar pertinente para o patrimônio cultural do bairro de Nazaré e, consequentemente, da cidade de Belém.
  • 20. 4 1 A ARQUITETURA RESIDENCIAL ECLÉTICA E PRÉ-MODERNA EM BELÉM 1.1. Histórico do Ecletismo em Belém A linguagem eclética começa a se manifestar na arquitetura europeia no final do século XVIII até o início do século XX, tendo sua origem como uma reação à Revolução Industrial, a partir da ascensão de uma nova classe que buscava status e a demarcação de seu lugar na sociedade (Fabris apud Faria, 2015, p. 58). Na capital paraense, o intuito da utilização do Ecletismo na forma burguesa de residir também seguia a mesma lógica de destaque social em detrimento das diferentes classes. A comercialização do látex amazônico contribuiu para o surgimento de uma nova elite na cidade – a elite gomífera, baseada no novo quadro econômico, a sociedade paraense sofreu mudanças em sua estrutura político-social, incitando alterações no modo de vida, padrões de costumes e, consequentemente, na composição das classes dominantes (SARGES, 2002, pg. 81). A elite belenense, outrora, entre o período colonial e as primeiras décadas do século XIX, composta por proprietários de terras escravagistas, militares e altos funcionários da burocracia portuguesa, que estruturaram o poder econômico com base no monopólio da terra e na dominação da força do trabalho indígena e africano (SARGES, 2002, pg. 81) torna-se agora composta por “novos ricos”: seringalistas, comerciantes, financistas e profissionais liberais, estruturados economicamente na exploração da borracha (FARIA, 2013, pg. 71). Esta nova elite inspirou uma nova composição social, a qual estava ligada diretamente à influência de países europeus, principalmente da França (SOARES, 2008, pg. 47). Após a comercialização do látex no mercado internacional, a renda interna da Amazônia cresceu 2.800% e a cidade de Belém sofreu um salto populacional de 18 mil habitantes no ano de 1835, para 180 mil, em 1912. Contudo, nem toda a população belenense participava, efetivamente, desta prosperidade econômica (CASTRO, 2010, pg. 16). Daí surge o anseio de modernidade da cidade, principalmente a partir dos desejos da exteriorização da riqueza da nova elite. O sinônimo desta modernidade, para a elite gomífera paraense, eram os produtos culturais, sociais, científicos e políticos da Europa. Os ideais iluministas, que surgiam com o boom da Revolução Industrial, foram trazidos para o Brasil, e consequentemente para o Pará, a partir da juventude, descendentes e herdeiros dos componentes da elite local, que trazia as novas ideias e teorias das ciências que despontavam no antigo continente quando iam estudar nas universidades europeias. Juntamente com esses conceitos, vieram novos fundamentos também na Arquitetura, como afirma Faria (2015, pg. 58), o estudo de Cerdá, engenheiro urbanista
  • 21. 5 responsável pelo plano de extensão e reforma da cidade de Barcelona, considera a cidade sob uma perspectiva histórica, a partir da criação do conceito de “urbanismo”. A cidade, agora, é alvo de modernizações e novos planos, que se adaptassem ao novo estilo de vida industrial que surgia no seio europeu. Patetta (apud Faria, 2015, pg. 62), considera o ecletismo a cultura arquitetônica da classe burguesa, cujos preceitos valorizavam o conforto, admiravam o progresso e subsidiavam o surgimento de novas tecnologias, como as instalações hidráulicas, de serviço sanitário, a nova distribuição interna das residências e a evolução de tipologias. Ainda de acordo com Patetta, o Ecletismo fora manifestado de três formas: a composição estilística, a qual adotava uma postura de mimetização “correta” de formas de determinado estilo arquitetônico do passado; ao historicismo Tipológico, que orientava o estilo do edifício de acordo com sua função; e, também, aos pastiches compositivos, cujo criava novas “soluções estilísticas historicamente inadmissíveis, beirando o mau-gosto (mas que, muitas vezes, escondiam soluções estruturais interessantes e avançadas)”. A partir disso, pode-se concluir que o Ecletismo valorizava a atribuição de um valor associativo ao edifício, para que a arquitetura do prédio fosse representativa, ou de acordo com o status de seu morador, ou da função da edificação no contexto urbano (apud Faria, 2015, pg. 63). Entende-se que a disseminação do Ecletismo em Belém se deu como uma consequência da influência europeia. Possivelmente, para o caso de enquadramento do ecletismo paraense dentro dos conceitos de Patetta, as construções que surgiram na cidade de Belém estariam conceituadas como pastiches construtivos, à parte o discurso hostil de Patetta acerca do mau- gosto. A linguagem eclética belenense costumava misturar elementos de diversos estilos arquitetônicos diferentes, de diversos períodos históricos e fora responsável por novas técnicas construtivas que surgiam, como o uso de concreto armado, as instalações hidráulicas e elétricas no espaço interno das construções e o início de uma pequena verticalização, tímida, mas existente. Fora principalmente a partir dos governos do intendente de Belém, Antônio Lemos (1897-1911), e do governador do Pará, Augusto Montenegro (1908), que a capital paraense passou a vivenciar um momento de modernidade e desenvolvimento, ainda que não totalmente isonômico entre os indivíduos. A partir do ano de 1850, a borracha passa a progredir de maneira visível na cidade de Belém e em decorrência disso, viria a renovação arquitetônica na capital paraense, transformando as antigas formas de morar na cidade. A Belém, entre 1870 e 1910, passa a
  • 22. 6 romper com as estruturas urbanas coloniais e revela uma ruptura estilística com a tradição portuguesa na arquitetura, já que os paraenses passam a se inspirar nos países do norte da Europa, principalmente da França, em detrimento do país ibérico colonizador (SOARES, 2006, pg. 35). Esta mudança tipológica é notável, não apenas na Belém da era da borracha, mas em quase todas as grandes cidades do país, uma vez que após o fim do tráfico de escravos, o início da imigração europeia, o desenvolvimento do trabalho remunerado e o surgimento do transporte ferroviário, surgem as primeiras residências urbanas com nova implantação, a nível nacional (REIS FILHO, 2014, pg. 48). A partir das conquistas econômicas e da expansão e estruturação da cidade em direção à Primeira Légua Patrimonial, como os bairros de Nazaré, Batista Campos, Reduto e Umarizal, em detrimento dos sítios mais antigos, Cidade Velha e Campina, surgem as modificações da cidade à luz da linguagem eclética. Seguindo os preceitos da reforma urbana haussmaniana da cidade de Paris, Lemos priorizou o discurso higienista, visando a reconstrução da cidade em uma Belém moderna, mais limpa, mais bonita, mais higiênica. Para isso, o centro da cidade, conhecido como o lócus econômico e cultural, por onde o capital da borracha e os membros da elite perpassavam, fora o ápice da representação desta modernização. A periferia, entretanto, permanecia desamparada, com altos níveis de insalubridade e escassez de habitações, uma vez que aqueles que não se enquadrassem nos preceitos higienistas lemistas eram expulsos das áreas centrais e obrigados a refazer suas vidas nas regiões adjacentes (FARIA, 2015, pg. 71). Para que o espaço urbano fosse redefinido, a Intendência Municipal de Belém esquematizou estratégias para caracterizar a nova fisionomia da Belém Moderna que despontava: planos para a transformação física e urbana da cidade, com a construção de edifícios públicos e implantação de novas tecnologias de serviços públicos, como o bonde, o sistema de esgoto e a luz elétrica. Ademais, o intendente Antônio Lemos se concentrava na aparência físico-social da cidade, criando um ordenamento urbano, com regras e posturas para as construções de residências, de forma que se adequassem à modernidade que rebentava na capital paraense (SOARES, 2008, pg. 54). Este é o principal ponto da ecletização da cidade de Belém: inspirada na burguesia europeia, a elite local, amparada pelo capital da borracha, buscava apresentar ao mundo a própria experiência de modernidade, a sua própria Paris n’América, transformando-a em uma cidade esteticamente salubre, limpa das imoralidades nocivas e imundas que pudessem desprestigiar a nova imagem da capital. Desta maneira, a estética urbana torna-se um importante
  • 23. 7 instrumento do Poder Público e da elite gomífera para equacionar a degradação urbana e a casa torna-se extensão das políticas de saúde (SOARES, 2006, pg. 84). Figuras 01 e 02: Fotografia da Avenida São Jerônimo (atual José Malcher) em 1902 e da Rua dos Cearenses (não se sabe seu nome atual), a desigualdade social da Belle-Époque. Fonte: (01): O Álbum de Belém, 1902; (02): Belém da Saudade, 1998. Diante dos preceitos do higienismo vigente, em quase todas as capitais brasileiras, as habitações das classes mais baixas passam a ser vistas como uma ameaça à saúde, à moralidade e à produção, tornam-se casas insalubres, as quais não eram consideradas um ambiente acolhedor, e seus moradores eram convidados a retirarem-se, abandonados às ruas. Forma-se, então, um discurso científico do Poder Público de que casas insalubres seriam focos de doenças e de que o moderno deveria eliminar casas doentes. Por isso, são criadas regras e condutas de higiene e embelezamento, como as Leis e Posturas Municipais (1892-1897) e o Código de Polícia Municipal (1900), medidas que atingiam o espaço público e o privado (SOARES, 2006, pg. 84 e 86). Soares (2006, pg. 90 e 91), demonstra algumas das recomendações da Lei de Polícia Municipal, tais como: casas belenenses não poderiam ser construídas com as paredes externas de estuque ou em madeira e sua espessura era regulada seguindo as exigências estéticas e pela rigidez; as fachadas não deveriam apresentar alturas inferiores a 3 metros e nem qualquer saliência superior a 15 centímetros; as aberturas deveriam ter uma superfície de aeração superior ou igual a 1/5 da área do aposento a ser iluminado e arejado; os cômodos internos não
  • 24. 8 poderiam obter área menor que 12 m², a exceção do banheiro, latrina, despensa ou vestíbulo, e todos deveriam apresentar aberturas diretas para o exterior; corredores maiores do que 10 metros deveriam apresentar nos extremos ou laterais, iluminação direta. Além disso, haviam artigos criados especificamente para habitações e deveriam ser criteriosamente seguidos, como por exemplo: todas as casas deveriam apresentar porões, variando entre 1,5 e 3 metros de altura, com aberturas para o arejamento e a ventilação; nas fachadas, portas e janelas deveriam abrir para o interior do edifício; o proprietário deveria manter a pintura e manutenções de emboços e rebocos em condições; fora proibido o uso de madeira em nesgas, ombreira e a construção de beirais com telhas, obrigando o uso da platibanda; havia também, regras para o pé direito de cada pavimento – térreos ou 1º pavimento até 5 metros, 2º pavimento, 4,5 metros e do 3º pavimento em diante, 3 metros. Por isso, pode-se afirmar que houvera esse processo de ecletização das casas da capital, no que tange a área central, uma vez que as residências que não se enquadravam nas posturas municipais eram obrigadas a sofrer as alterações exigidas, caso contrário deveriam desocupá- las para que outra família, mais “decente”, pudesse residir, após as devidas reformações. Neste contexto, surgiam diversas tipologias ecléticas na cidade, algumas pensadas pelas famílias mais abastadas, com o intuito de status social, outras por membros mais humildes, que apenas procuravam se adequar às medidas lemistas, e, havia ainda aqueles que, dentro das possibilidades, buscavam aburguesar suas residências. Abordar-se-á algumas destas tipologias e técnicas construtivas da época no próximo item. 1.2. Tipologias e técnicas construtivas ecléticas no espaço privado belenense do Ciclo da Borracha Posto que alguns edifícios, técnicas construtivas e composição urbana de Belém foram estruturados a partir da colonização portuguesa na região e que alguns influenciaram, de certa forma, a arquitetura eclética, nota-se a necessidade de realizar-se um breve histórico acerca da arquitetura colonial, considerando que, por mais que houvera esta tentativa de separação da herança portuguesa durante a Era da Borracha, o traçado urbano da cidade e algumas técnicas construtivas coloniais permaneceram e permanecem até hoje. Como afirma Cal (1989, pg. 65), em que pese o processo evolutivo da arquitetura residencial em Belém na primeira metade do século XX estivesse relacionado com as fases e
  • 25. 9 características do sistema econômico regional vigente, a herança colonial permaneceu por um longo período, condicionando soluções arquitetônicas sob vários aspectos, até mesmo a partir dos condicionamentos de uma estrutura urbana que pouco se modificou. Entre 1616 a 1822, a arquitetura colonial era a prevalecente na cidade de Belém, onde as casas eram construídas com os materiais que estivessem à disposição dos construtores, na maioria imigrantes portugueses que aliavam os materiais disponíveis à técnica construtiva portuguesa. A maioria das casas era de madeira ou taipa de pilão e, para melhor consolidar sua estrutura, seus construtores espalhavam tijuco1 nas paredes. Apenas as construções com maior relevância política e sociocultural, como Igrejas e Palácios, eram construídas de pedra e cal. Uma das técnicas construtivas comuns nas residências deste período era o levantamento de esteios, seguido de adubamento das paredes com tijuco; o telhado, devido à ausência das telhas de barro, era construído com folhas de palmeiras ou de suas palhas. Contudo, ainda que neste início da povoação da cidade as construções fossem constituídas de forma bastante humilde, à medida que a cidade de Belém ia crescendo, as casas também foram modificadas, recebendo técnicas mais duráveis e acabamentos mais refinados, como assoalhos, paredes de pedra e cal, porém ainda adicionando-se tijuco para que permanecessem protegidas das chuvas (SOARES, 2006, pg. 22 e 23). As vilas e cidades apresentavam um aspecto uniforme, com residências construídas sobre o alinhamento das vias e paredes laterais sobre os limites dos terrenos. Esta uniformidade dos terrenos era correspondida na regularidade dos partidos arquitetônicos, uma vez que as casas eram construídas de maneira padrão, em alguns casos, normatizadas por Cartas Régias ou em posturas municipais, a ideia era que estes assentamentos brasileiros obtivessem uma aparência portuguesa. As plantas também apresentavam certa unissonância: as salas da frente e as lojas se utilizavam das aberturas sobre a rua, já as aberturas dos fundos eram destinadas para a iluminação dos cômodos de permanência das mulheres e dos locais de trabalho e entre estas áreas com iluminação natural, situavam-se as alcovas, onde não havia aberturas para penetrar a luz do dia, por isso destinavam-se mais ao uso noturno. A circulação era realizada por meio de um corredor longitudinal, o qual, geralmente, conduzia da porta de entrada da rua aos fundos da casa, o corredor apoiava-se a uma das paredes laterais ou fixava-se no centro da planta, em exemplos de maior escala. A austeridade das técnicas construtivas denunciava o primitivismo 1 Tijuco, na língua portuguesa, significa lama, iodo. Lama de barro; este material tinha função de impermeabilizante natural (SOARES, 2006, pg. 23)
  • 26. 10 tecnológico da época colonial, havia muita mão-de-obra determinada pela existência do trabalho escravo e a ausência de aperfeiçoamentos (REIS FILHO, 2014, pg. 25 e 26). As edificações com dois pavimentos ou mais, a exemplo dos sobrados, as casas de esquina2 e a substituição das telhas de madeira por telhas de barro, revelavam a situação privilegiada do colono proprietário da residência (SOARES, 2006, pg. 23). Outra maneira de definir os estratos sociais na época, era por meio dos tipos de pisos da habitação: habitar um sobrado com piso assoalhado significava riqueza, enquanto que o piso batido de uma casa térrea caracterizava pobreza. Desta maneira, os pavimentos térreos dos sobrados, quando não eram lojas, eram utilizados para acomodação dos escravos e de animais, sem com que fossem ocupados pelas famílias dos proprietários (REIS FILHO, 2014, pg. 28). Os espaços mais valorizados destas residências eram as salas: nas salas de visitas havia a predominância do branco no teto de madeira, nas paredes pintadas a óleo e nas portas internas de almofadas com caixilhos de vidro (MACHADO, 2011, pg. 36). Figura 03: Exemplo de casa térrea colonial com telhado em duas águas e beiral, em Belém. Fonte: CAL, Carmen Lúcia, 1989, pg. 68. Entretanto, com a vinda da Família Real portuguesa ao Brasil, no ano de 1808, D. João anuncia a abertura dos portos ao comércio internacional e a partir da liberação das transações comerciais, adentra ao país uma abundância de produtos manufaturados, equipamentos e 2 Estas variações possuíam a possibilidade de aproveitar duas fachadas sobre a rua, o que alterava em parte o esquema de planta e telhado (REIS FILHO, 2014, pg. 26).
  • 27. 11 materiais para o aprimoramento das construções e instalações de indústrias. Após a chegada da Missão Francesa, seus integrantes passaram a se tornar responsáveis pelos projetos dos edifícios públicos, estes artistas franceses foram responsáveis por trazer ao Brasil o estilo Neoclássico, tendência prevalente na Europa (MACHADO, 2011, pg. 26 e 38). Em nível regional, Antônio Landi, arquiteto italiano, fora um dos responsáveis pela consagração do novo estilo, chamado de Classicizante3, em Belém (SOARES, 2006, pg. 32). A partir deste momento histórico, a casa de porão alto surge como um novo tipo de residência, a qual representava uma transição entre os velhos sobrados e as casas térreas. A presença da entrada de novos equipamentos, a partir da abertura dos portos, contribuiu para a alteração da aparência das construções, ainda que respeitando o primitivismo das técnicas tradicionais. Desta forma, as platibandas passam a ser utilizadas, os beirais foram substituídos por calhas ou condutores e as velhas urupemas e gelosias4 eram substituídas pelo uso de vidros simples ou coloridos, especialmente na região das bandeiras das portas e janelas. Contudo, ainda era comum encontrar as alcovas neste tipo de residência (REIS FILHO, 2014, pg. 37). Figura 04: Tipologia externa das fachadas coloniais. Fonte: REIS FILHO (2014, pg. 31) A partir do ano de 1850, a borracha passa a progredir de maneira visível na cidade de Belém e com o ciclo da borracha, viria a renovação arquitetônica na capital paraense, 3 Alguns autores afirmam que como nunca houvera um estilo Clássico no Brasil, não poderia chamar-se de estilo Neoclássico. 4 Painéis formados por treliças de madeira, utilizados para vedar os vãos das esquadrias.
  • 28. 12 transformando as antigas formas de morar na cidade. A Belém entre 1870 e 1910 passa a romper com as estruturas urbanas coloniais e revela uma ruptura estilística com a tradição portuguesa na arquitetura, já que os paraenses passam a se inspirar nos países do norte da Europa, principalmente da França, em detrimento do país ibérico colonizador (SOARES, 2006, pg. 35). Esta mudança tipológica é notável, não apenas na Belém da era da borracha, mas em quase todas as grandes cidades do país, uma vez que após o fim do tráfico de escravos, o início da imigração europeia, o desenvolvimento do trabalho remunerado e o surgimento do transporte ferroviário, surgem as primeiras residências urbanas com nova implantação, a nível nacional (REIS FILHO, 2014, pg. 48). A construção e reformas de prédios e espaços públicos como o Palácio Lauro Sodré, o Mercado de São Brás, o Mercado Francisco Bolonha (ou Mercado de Carne), a Praça Batista Campos e da República, dentre outros, demonstra que o Poder Público também fora responsável pela disseminação da linguagem eclética na paisagem paraense. Entretanto, a difusão das mais recentes e modernas técnicas construtivas da época no espaço privado belenense, se dá, principalmente, diante da construção destas residências da elite gomífera, uma vez que eram os guardiões dos excedentes provenientes do emolumento da borracha, ou seja, os que podiam pagar pelos projetos, materiais e mão-de-obra e se dar ao luxo de aplicá-los em suas residências. Segundo Faria (2015, p. 73), na transição do século XIX para o XX, as alterações na arquitetura residencial ocorrem de forma gradual, seguindo os hábitos e costumes provenientes das transformações socioeconômicas e culturais que vinham sendo incorporadas na população. Ao se tratar das fachadas, as residências sofrem, a priori, algumas alterações em seus elementos decorativos, permanecendo as bases na modenatura do Classicismo Imperial Brasileiro. Reis Filho (2015, p. 44) afirma que as primeiras transformações são encontradas nas soluções de implantação, a qual demonstrava os esforços de libertação da construção dos limites do terreno. Desta maneira, fora possível criar soluções mais adaptáveis ao clima tropical da Amazônia, possibilitando a criação de varandas, novos vãos para circulação de ar, entradas laterais, jardins e quintais. Por isso, é a partir dos códigos de posturas municipais devidamente alterados, uma vez que anteriormente as leis seguiam os padrões urbanistas coloniais portugueses dos edifícios sobre o alinhamento das vias, as residências sofrem as maiores mudanças tipológicas (Reis Filho, 2015, p. 46) e, principalmente, com as primeiras construções da elite. As residências da Belém eclética seguiam os padrões da época de acordo com a condição financeira de seu proprietário. Dessa forma, Soares (2006, p. 147) diferencia as várias formas
  • 29. 13 de morar em Belém, começando pelas formas burguesas do morar da Belém da Belle-Époque5 , as quais simbolizavam efetivamente o que era a modernidade, sendo chamadas inclusive pelo diminutivo de palácios, palacetes, demonstrando a magnitude que tais residências impunham na paisagem da capital. Isto, quando contextualizado no espaço urbano, pois haviam, ainda, as construções rurais burguesas, utilizadas como casas de descanso e de veraneio da elite local, estas chamadas de rocinhas, chácaras ou chalés e localizadas em áreas mais afastadas do aglomerado citadino. Os cidadãos mais endinheirados construíam novas casas nas áreas em que a elite passava a ocupar, como a Estrada de Nazaré, a Avenida São Jerônimo e a Avenida Independência, por exemplo. Eram nestes pontos que começavam a surgir os palacetes, geralmente estas vivendas adquiriam os nomes de seus proprietários como uma forma de status, desta maneira ficaram conhecidos os palacetes: Bibi Costa, Bolonha, Vitor Maria da Silva, Faciola, Pinho, etc (ARRAES, 2014, p. 521). É, principalmente, a partir destas edificações, patrocinadas pelo espírito burguês e pelo dinheiro do Ciclo da Borracha, que as inovações construtivas são inauguradas pela cidade. Foi a partir dos palacetes que, não apenas as novas tecnologias construtivas, mas o novo estilo de morar fora introduzido baseado nos costumes europeus da época, por isso, o partido arquitetônico passar a ser mais especializado, com ambientes próprios para determinada função (SOARES, 2006, p. 150). Em uma matéria do jornal A Província do Pará (1906, p. 01), é feita uma minuciosa descrição sobre o Palacete Bibi Costa, em consequência da visita do Presidente da República da época, Afonso Pena, o qual ficara hospedado no referido palacete. Nesta matéria, são delimitados os nomes de alguns ambientes, como: sala de conferências, sala de espera, sala de visitas, sala de copa e salão de jantar, indicando o nível da diferenciação entre as finalidades para os ambientes. Aos olhos do Poder Público, estas vivendas eram o exemplar do bom gosto e da higiene, não necessitando, desta forma, seguir rigidamente as determinações das leis municipais, uma vez que os projetos seguiam o modelo europeu, adotando as regras dos estilos escolhidos sem interferir na arquitetura erudita (SOARES, 2006, p.150). É o caso do Palacete Bibi Costa e Palacete Bolonha, ambos projetados pelo engenheiro Francisco Bolonha, um dos idealizadores 5 Vale ressaltar que o termo Belle-Époque, muito utilizado por décadas para destacar o período próspero da borracha amazônica, atualmente está sendo continuamente debatido na Academia, uma vez que a capital paraense era bela, moderna e próspera apenas para parte minoritária da população, isto é, para a elite local, enquanto grande parcela dos cidadãos era desacolhida do contexto da urbanização da cidade.
  • 30. 14 da paisagem da Belém da borracha, responsável por diversos projetos proeminentes da época. Ambos os palacetes não apresentam a platibanda exigida na lei. Neto (apud Costa, 2016, p. 18) afirma que a utilização do ferro fundido e os novos elementos estruturais como o uso do concreto armado, fora uma introdução da arquitetura eclética, tais elementos sendo amplamente disseminados a partir do seu uso nos palacetes. Com a incorporação do cimento Portland e do ferro fundido, a execução de vergas, cintas, lajes e pequenos balanços como sacadas e marquises tornara-se possível. Fora em detrimento destes elementos que Bolonha conseguiu projetar e executar o Edifício sede do jornal A Folha do Norte (1895). Apresentando três pavimentos, um térreo e um mirante, este edifício poderia ser considerado o mais verticalizado da cidade na época, com exceção das igrejas coloniais. Já no século XX, Bolonha projetara os palacetes Bolonha e Bibi Costa, os quais também apresentam esta verticalização (COSTA, 2016, p. 19). Em relação ao restante dos materiais, havia uma variedade de origens, importados de diversos países, encontrando-se tijolos portugueses e alemães pintados à mão, elementos arquitetônicos em ferro fundido, pedras nobres como mármore e granito, e, na ausência destas pedras, havia também a escaiola, um tipo de pintura que mimetizava a aparência marmorizada. Ademais, madeiras nobres amazônicas como o acapu e o pau-amarelo também eram amplamente utilizadas, principalmente na formação de pisos quadriculados e axadrezados (SOARES, 2006, p. 150). Figuras 05, 06 e 07: Edifício da Folha do Norte, Palacete Bibi Costa e Palacete Bolonha.
  • 31. 15 Fonte: (05): https://fragmentosdebelem.tumblr.com/post/142323081615; (06): Relatório de Belém, 1906; (07): https://i.pinimg.com/originals/d4/b3/05/d4b305a6a0578a089e84a1c5e585069c.jpg Além dos palacetes, a forma burguesa de morar na cidade de Belém, segundo denominações de Soares (2006, p. 162), eram as casas assobradadas ou apalacetadas. Estas casas apresentavam diversos padrões construtivos e indicam a transição construtiva entre as casas de porão alto e os palacetes. Como afirma Soares (2006), apresentavam proporções e dimensões maiores que os palacetes, porém não possuíam a opulência e o luxo de tais residências e não poderiam ser identificadas deste modo por não “se estabelecerem conhecidas no imaginário ou no senso comum dos palacetes da Belle-Époque”, isto é, não obtiveram fama suficiente para que se tornassem parte da imagética cultural da capital paraense. Por exemplo, o palacete Bibi Costa transfigura-se em um dos ícones da borracha, da época do já foi, expressão esta que deve ser questionada, uma vez que, como afirma Castro (1998, p. 29), todo lugar de fala “Era da Borracha” é uma saudade do desconhecido. É uma lembrança sensual, efetivada quando a concretude material de um objeto histórico-discursivo permeia o poder de gerenciar novas falas, novos enunciados. Entretanto, o Bibi Costa também entra na imagética da cidade como uma lenda urbana, do castelinho mal-assombrado, forma como é amplamente conhecido em Belém. Talvez parando um indivíduo nas ruas da cidade e perguntando-o sobre o Palacete Bibi Costa, ele não saberá responder qual é ou onde se localiza, contudo, se o denominar de “castelinho” durante a indagação, provavelmente o cidadão saberá sua localização e ainda contará mais algumas histórias fantasmagóricas. Em razão disso que as casas assobradadas ficariam em um patamar
  • 32. 16 abaixo dos palacetes, mesmo representando a mesma classe social de novos ricos, que provavelmente possuíam tantas riquezas quanto os proprietários de palacetes. As casas apalacetadas, ou assobradadas, refletiam a ecletização dos sobrados coloniais, porém apresentavam mudanças no esquema projetual e partido arquitetônico de características coloniais. Podem ser encontrados diversas proporções destes tipos de residências, desde mais pomposas até modelos mais modestos. Entretanto, elas exibem características em comum, como a maior dimensão volumétrica, inovações da casa moderna, como a implantação no lote, um programa de necessidades melhor especializado (SOARES, 2006, p. 163). Figuras 08 e 09: Exemplos de casas assobradadas ou apalacetadas. Fonte: Beatriz Maneschy, 2017. Outras tipologias ecléticas surgiam na cidade de Belém, desta vez não apresentando mais o requinte das casas burguesas, mas demonstrando a preocupação de encaixar-se no padrão burguês, seguindo a condição econômica que o proprietário dispunha. Soares (2006, p. 182) indica dois tipos de casas “popularmente burguesas de se morar”: as casas de puxadas e as casas para proletariados. Sobre as casas de puxadas, estas residências são consequências das mudanças tipológicas na forma colonial de residir, estas transformações ficam evidentes ao longo da transição das casas de sobrado para as casas de porão alto, as quais passaram a ser erguidas do nível do chão, estas casas ainda apresentavam um arranjo arquitetônico colonial de porta e janela, entretanto, já exibiam soluções projetuais mais modernizadas. Estas residências ficaram conhecidas como puxadas devido ao esquema de planta alongado, como uma modernização da casa colonial. Derenji (apud Soares, 2006, p. 183), descreve a planta de puxada como uma sala seguida por um corredor que ligava a diferentes ambientes e finalizava
  • 33. 17 em uma sala de almoço e no fim do século, as cozinhas e banheiros integraram-se ao interior da residência. Ademais, o setor social das puxadas era, predominantemente, locado na parte da frente, onde eram recebidas as visitas e apresentavam maior decoração. Figura 10: Esquema de planta de casas de puxadas. Fonte: Handals (apud Coimbra, 2014, p. 101) Imagem 11 e 12: Fachadas frontal e lateral de exemplo de casa de puxada, localizada na rua 28 de setembro Fonte: Beatriz Maneschy, 2018 Este tipo de esquema de planta de puxadas era amplamente aceito pela classe média e baixa, pois adaptava-se melhor aos recursos e modo de viver das famílias. Por isso, no intuito de participar do estilo de vida burguês, as famílias de classes inferiores, buscavam aburguesar e ecletizar suas casas (SOARES, 2006, p. 183 e 184). As casas de puxadas foram consideradas o tipo-base de esquema da habitação civil não excepcional em Belém, caracterizadas por uma evolução de acréscimos e parcelamento de cômodos, determinados segundo as dimensões do lote e no alinhamento das vias, com partidos em I, L ou C. (Hidaka apud Coelho, 2016, pg. 155).
  • 34. 18 O segundo modelo de casas popularmente burguesas de se morar, eram as casas para proletariados, onde estão enquadradas as vilas, conjuntos de casas geminadas com o esquema de plantas de puxadas rebatido. Devido a simplicidade de sua construção e o tamanho das residências, estas casas passam a ser consideradas um empreendimento rentável para os patrões, que construíam este modelo para, posteriormente, vendê-las ou alugá-las para seus empregados. Entretanto, estas residências não eram “ecleticamente” aceitas pela Intendência Municipal, consideradas por Antônio Lemos monótona a uniformidade das casas e que a fachada afetava a estética urbana da capital paraense. Contudo, devido as vilas apresentarem um projeto e seguirem as recomendações do Código de Polícia Municipal, fora permitida as construções destas edificações na cidade Belém (SOARES, 2006, p. 201 a 204). Figuras 13 e 14: Exemplos de vilas. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Além das formas burguesas, haviam ainda as formas populares de se morar na Belle- Époque. Geralmente, estas residências eram da população desamparada pelo plano de urbanização de Lemos, que não possuíam recursos para adaptar ou construir casas ecleticamente aceitas, por isso eram consideradas anti-higiênicas, desagradáveis e imorais. Desta forma, estas casas foram localizadas em áreas mais afastadas do núcleo central da cidade, sendo renegadas aos arredores, esta atitude era justificada por um discurso higienista que dizia controlar, assim, a proliferação de doenças (ou a visão dos pobres pela classe elitista). Exemplos destas moradias eram os cortiços e as barracas e palhoças. Entretanto, haviam ainda casas populares que buscavam ecletizar-se, da mesma forma que a classe média se espelhava na elite gomífera, a classe baixa também almejava o morar burguês, pelo menos até onde suas condições
  • 35. 19 financeiras permitiam. Desta maneira, algumas palhoças foram reconstruídas em alvenaria e o acréscimo de alguns elementos decorativos nas fachadas e de cômodos considerados modernos, como o vestíbulo. Contudo, estas casas não foram adicionadas no imaginário da Belle-Époque, pois não eram consideradas modernas o suficiente para tal, sendo excluídas deste contexto, em detrimento do que era a real riqueza da borracha (SOARES, 2006, p. 209 a 231). Figura 15: Exemplo de palhoças, em Belém, imagem anterior ao ano de 1912. Fonte: Belém da Saudade, 1998. 1.3. O Pré-Modernismo em Belém entre 1920 e 1940 No período entre guerras, os esquemas de implantação e arquitetura urbana sofreriam transformações significativas. Entre 1920 e 1940, surgem os primeiros arranha-céus e a consequente verticalização do centro urbano, a periferia cresce notavelmente e criam-se bairros operários e de trabalhadores. As técnicas construtivas são aperfeiçoadas, principalmente devido à influência da mão-de-obra imigrante. Até o ano de 1940 os materiais de construções apresentavam uma industrialização tímida, quase artesanal e a indústria da construção ensaiava pequenos avanços. Segundo Carlos Borges Schimidt (apud. Reis Filho, 2014, pg. 64), era comum, até meados da década de 40 do século XX, encontrar em certas regiões de São Paulo a utilização da técnica de taipa de pilão, sendo uma solução mais econômica na época. Em Belém não seria diferente, principalmente no que se refere às construções populares. De maneira geral, os tipos de lotes urbanos do século XIX se mantinham exceto por pequenas alterações, como dimensões (REIS FILHO, 2014, pg. 65 e 66).
  • 36. 20 Figura 16: Vista da verticalização da Avenida Presidente Vargas, em 1966. Fonte: IMS, fotografia de Marcel Gautherot, 1966. Portanto, é comum encontrar na cidade de Belém a ocorrência de um Ecletismo tardio, isto é, posterior ao ápice da borracha. Uma das expressões desse ecletismo remanescente são os chalés urbanos. A tendência dos chalés urbanos e rurais chegou ao Brasil na metade do século XIX, apresentando um gosto pitoresco, assimilando inovações técnicas e introduzindo materiais construtivos e decorativos de produção em série na arquitetura tradicional brasileira. Em que pese os chalés constituíssem modelos típicos de montanhas europeias, locais com clima temperado, eles foram sendo aplicados na cidade paraense de clima equatorial. Por mais dificultoso que fosse inseri-los na realidade tropical de Belém, este estilo de residência conquista gradativamente a paisagem urbana da cidade a partir da primeira metade do século XX (SARQUIS e NETO, 2003, pg. 32 e 33).
  • 37. 21 Figura 17: Belém em 1958, apresentando a predominância ainda da linguagem eclética. Fonte: IMS, fotografia Marcel Gautherot, 1958. No entanto, a tipologia da casa eclética, além dos chalés urbanos, com planta tradicional, foi mantida, apresentando inovações restritas a uma liberdade maior nos desenhos das fachadas e introduzindo características relacionadas a diferentes estilos. A partir disso, o ecletismo antes dominante, passa a conviver com outras manifestações arquitetônicas, consideradas mais modernos, durante as décadas de 1930, 1940 e 1950 (SARQUIS e NETO, 2003, pg. 34). Nestas décadas, a agricultura enfrentava crises constantes, não havia certa diversificação de capital e o crescimento populacional dos maiores centros urbanos aumentava vertiginosamente. Por isso, a forma mais eficaz de aplicação financeira era o mercado imobiliário, a renda do aluguel de casas era a vantagem de grandes investidores, enquanto que a casa própria era a segurança dos pequenos investidores (REIS FILHO, 2014, pg. 66).
  • 38. 22 Figura 18: Exemplo de chalés urbanos geminados, localizado na Avenida Generalíssimo Deodoro. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Houvera também a multiplicação da construção de conjuntos de casas econômicas do tipo médio, as quais buscavam reproduzir a aparência das residências mais ricas, contudo em menor escala. Estas habitações conservavam-se sob os limites laterais dos lotes, porém distanciavam-se alguns metros da via pública, onde locavam pequenos jardins. Havia também a existência de edículas nos fundos do terreno. Fachadas frontais rebuscadas, em menor escala, conviviam com fachadas posteriores mais modestas. Estes sobrados apresentavam características parecidas, que buscavam atender às inovações formais que o Modernismo começava a introduzir, como linhas retas, platibandas escondendo as telhas tipo Marselha e ornamentos retilíneos (REIS FILHO, 2014, pg. 68).
  • 39. 23 2 AS VILAS NO BAIRRO DE NAZARÉ 2.1. Contexto histórico e sociocultural do Bairro de Nazaré No século XIX, as estradas, travessas e ruas, surgem a partir do arraial de Nazareth, região inserida na primeira légua patrimonial de Belém, concedida em 1627 à comarca municipal da cidade (CANCELA, 2006, pg. 51). Entretanto, o bairro de Nazaré possui suas origens ainda no século XVIII, quando o Caboclo Plácido caminhava pela estrada do Utinga (atualmente Avenida Nazaré) e se deparou, às margens do igarapé Murutucu – hoje aterrado - um nicho natural contendo uma pequena imagem da Virgem de Nazaré. Plácido, então, construiu uma pequena ermida que abrigasse a imagem, marcando o início da devoção à Nossa Senhora de Nazaré pelos paraenses (Dossiê Iphan I apud Azevedo, 2015, pg. 56). Após isso, fora construída uma segunda capela em homenagem à Virgem de Nazaré, em 1774, destarte, a população passou a frequentá-la assiduamente, realizando romarias na estrada do Utinga que atravessava a mata virgem. Em consequência disso, algumas moradias foram construídas pela população pobre da cidade, na então aldeia de Nazaré, onde hoje está localizado o Centro Arquitetônico de Nazaré (CAN) (AZEVEDO, 2015, pg. 57). Até aproximadamente metade do século XIX, a elite da cidade de Belém permanecia em regiões como os bairros da Campina, Cidade Velha e do Comércio, porém, com o surgimento das rocinhas6 na região do arraial de Nazaré, a elite passa a ocupar um espaço que antes era considerado periferia. De acordo com Azevedo (2015, pg. 57), este processo de expulsão da população desfavorecida ocorreu devido aos anseios de ocupação de um espaço geográfico privilegiado pela elite local, uma vez que o arraial de Nazaré correspondia a um sítio alto e seco, diferentemente da maioria dos terrenos de Belém, predominantemente baixos e alagadiços. Nota-se então, um bairro originado pela religiosidade de uma população humilde, local onde estes indivíduos mais desvalidos cravaram suas estacas e construíram suas casas e se depararam, posteriormente, expulsos da região onde assentaram suas moradias, pela elite que agora se apropriava desta área para construir suas casas de descanso. Do último volume da coleção Motins Políticos, escrito pelo Barão de Guajará no tempo da Cabanagem (1835) e lançado somente em 1890, Cruz (1971, pg. 83) destaca trechos que abordam o antigo arraial de Nazaré, o qual o Barão chama de “simples sítio, solitário e 6 “Imóveis afastados do centro da cidade, isto é, em seus arrabaldes e procurados por seus proprietários para momentos de recolhimento e de tranquilidade. E passavam a maior parte de sua vida aquelas propriedades onde dispunham de regular conforto” (LA ROCQUE, Roberto Soares, 1996, pg. 22)
  • 40. 24 sombreado de árvores agrestes”. Era formada uma pequena praça com uma ermida no centro, dedicada à Nossa Senhora de Nazaré e a estrada que levava ao bairro era composta por suntuosas chácaras e alamedas, entremeadas com casas baixas e cabanas construídas de palha. Uma outra estrada fora aberta até a praça de São Brás, conhecida por São Jerônimo. Em que pese esta estrada ser um caminho estreito com pouco espaço para qualquer trânsito, posteriormente torna-se a Avenida São Jerônimo, completamente arborizada, com jardins e parques, ostentando magníficos prédios. A partir da ocupação da região pela população mais abastada, em decorrência das rocinhas, a estrada de Nazaré passa a apresentar certa organização urbana, quando, no final do século XIX, devido a especulação imobiliária existente no centro comercial, em bairros como o da Campina, o preço dos terrenos, assim como o preço dos impostos cobrados pela Municipalidade, aumentaram significativamente. A partir disso, ocorre a migração dos moradores desta região comercial em direção a bairros mais afastados, como Nazaré, Batista Campos e Umarizal. Anteriormente, quando na ocupação pela massa popular, o bairro de Nazaré era caracterizado por ruelas estreitas e tortuosas, sujas e deficientemente drenadas (LIMA, 2015, pg. 82 e 83) e estes indivíduos viram-se novamente obrigados a morar em áreas ainda mais afastadas, em “novos” bairros periféricos, como o da Pedreira, ou construir novos bairros de trabalhadores, como Canudos (SOARES, 2006, pg. 53). Ademais, a partir de 1870, com a inserção e consolidação da borracha amazônica no mercado mundial, a nova Belém, construída a luz do lema de Modernidade, Progresso e Civilização, vinha sendo construída (SOARES, pg. 36). Neste seguimento, Antônio Lemos7 realiza uma série de benfeitorias no espaço urbano de Belém, como pavimentação de ruas, construção de praças e jardins, usinas de incineração de lixo, limpeza urbana, entre outros. Todas as construções, até mesmo propriedades particulares, eram controladas e inspecionadas por um código de posturas e normas que seguiam os ideais liberais. Contudo, vale lembrar que esta estruturação urbana era localizada e dirigida à área central da cidade, a qual era habitada pela nova elite local e a nascente classe média (SARGES, 2002, pg. 142). De acordo com Cancela (2006, pg. 113), um documento apresentado como a listagem da junta de qualificação da paróquia de Nazareth de 1876 demonstra que, dos 18 votantes mais ricos, com fortunas acima de seis contos de réis anuais, 14 moravam na Estrada de Nazaré e 7 Intendente Municipal da cidade de Belém entre os anos de 1897 e 1910. (SARGES, Maria de Nazaré, 2002, pg. 139)
  • 41. 25 São Jerônimo (atual Avenida Governador José Malcher, também localizada na região do Bairro de Nazaré). A autora também aponta que comerciantes recém-chegados à capital do Estado e que enriqueceram a partir do comércio da borracha, construíram suas residências na Estrada de Nazaré e da Independência, sendo a última contígua à primeira. Indivíduos de estratos sociais menores, mas ainda com renda acima de seiscentos mil réis anuais, como militares, empregados públicos, médicos, engenheiros, caixeiros, alfaiates e sapateiros, também são registrados como residentes nas estradas de Nazaré e São Jerônimo. Isto significa que a população predominante no Bairro de Nazaré a partir do final do século XIX era composta pela elite belenense e por uma ascendente classe média. É no seio deste plano de urbanização que a Estrada de Nazaré é definitivamente consolidada, dessa vez com o nome de Avenida Nazaré e recebendo a estruturação urbana que a Belém moderna prometia. Despontava, dessa maneira, o Bairro de Nazaré, agora enraizado como endereço residencial da elite, área de integração das famílias de posse, ou seja, grande parte das moradas existentes ao longo desta eram ocupadas por aquelas, sejam em casas térreas que guardavam o estilo português como o conjunto de setes casas, na esquina da Benjamin Constant com a Avenida Nazaré, na qual a primeira, na esquina, pertenceu ao ‘Sr. José Faciola e as demais a um funcionário da Companhia de Telefones, a Sra. Emilia Bahia, o médico José Lobão e a última habitaram várias pessoas como o Visconde de Monte Redondo’ (O Liberal, 1987, II – 14) ou em palacetes assobradados como o pertencente a Antônio Almeida Faciola [...] (AZEVEDO, 2015, pg. 64) O Bairro de Nazaré permanece como um território elitista da cidade de Belém ao longo do século XX até os dias atuais. A partir de 1920, as primeiras residências neocoloniais vão despontando na região, construídas por uma elite abalada pela crise da borracha. Ainda que a sociedade sofresse as consequências da recessão do látex, a arquitetura continuava sendo utilizada como ferramenta de valorização social pela elite, desta vez utilizando a linguagem Neocolonial, com suas fachadas rebuscadas, como um meio para isto, mesmo que fosse um estilo arquitetônico polêmico, aclamado por uns e considerado kitsch por outros (AZEVEDO, 2015, pg. 67). Após o período entre guerras, por mais que Belém ainda amargasse um passado próximo de decadência, surgia uma nova geração que almejava por uma modernização, desta forma, a cidade sai do isolamento cultural, a partir da chegada de novas tendências arquitetônicas, como o estilo Art Decò e o Neocolonial (OLIVEIRA, 2016, p. 39).
  • 42. 26 2.2. Breve histórico e conceituação de vilas Durante a República Velha (1889-1930), a visão liberal do Estado privilegiava a produção privada e negava a intervenção direta no que tange a construção de casas para trabalhadores (BONDUKI, 1994, p. 712). A habitação e o direito à casa (moradia) ainda não eram vistos como obrigação do Estado e, por isso, não havia a intermediação dos setores públicos (NEMER, 2018, p. 34). Prova disso é que somente em 1988, com o advento da constituição cidadã é que o legislador constituinte teve a preocupação de elevar a moradia ao patamar de direito fundamental, atribuindo ao Estado o dever na promoção de políticas públicas de habitação. Nesse contexto, sob a égide de uma sociedade culturalmente escravista e patriarcal, mesmo pós-revolução industrial e modelo capitalista crescente, era comum que os patrões oferecessem moradias para seus empregados, construindo-as para aluguel ou venda, da mesma forma que o problema do alojamento de escravos era pertinente aos seus senhores. Regionalmente neste período, como dito anteriormente, Belém, assim como o restante do Brasil, experienciava um boom populacional e a elite via neste ponto uma possibilidade de investimento devido à especulação imobiliária que iniciava na cidade. Bonduki (apud Bonduki, 1994, p. 713) afirma que a rentabilidade da locação habitacional e o investimento imobiliário garantia uma reserva de valor e um intenso processo de valorização. É deste histórico que o brasileiro carrega, até os dias atuais, o sonho da casa própria, onde ter uma moradia significa segurança e/ou capitalização. Contudo, àqueles que não possuíam a renda suficiente para construir a casa própria, restavam poucas opções de habitação no período da borracha em Belém (República Velha em nível nacional). Como comentado previamente, morar no centro da cidade significava habitar casas modernas, que seguissem os preceitos ecléticos, os quais apenas a elite gomífera e a emergente classe média com suas casas ecletizadas possuíam este privilégio. Por isso, os proletariados, impossibilitados de tal luxo, viam-se obrigados a pagar casas de aluguel, quartos em pensões ou até mesmo morar nos fundos das casas dos patrões, ou acomodando-se nos porões. Entretanto, a partir destes trabalhadores surgiram novos bairros operários, como Canudos, Reduto e Umarizal, onde a especulação ainda não chegara, por serem considerados bairros periféricos. Contudo a distância para o centro afastava alguns trabalhadores da realização da casa própria, popular, mesmo que fora dos padrões lemistas (SOARES, 2006, p.196).
  • 43. 27 Inseridas no discurso higienista da época, as casas de proletariados deviam ser medicalizadas, seguindo os princípios da casa saudável e moderna e, principalmente, seguindo o Código de Posturas Municipais. Na época havia uma mitigação dos direitos trabalhistas em prol do hipotético desenvolvimento da região em razão do lucro da comercialização da borracha, onde a prosperidade econômica era considerada proeminente, em detrimento de um desenvolvimento social e da ampliação de uma democracia mais igualitária, uma vez que, não muito diferente dos dias atuais, não havia uma distribuição de renda equilibrada, sendo mantido todos os lucros nas mãos de uma mesma elite – a gomífera. Por consequência, a maioria dos proletários não obtinha a segurança e renda necessárias para a construção de uma casa, mesmo que popular. Surgem, então, pequenas e fracassadas tentativas do governo de criação de vilas operárias pra trabalhadores, como a Vila de Marituba, 17 grupos de duas casas, uma para o chefe de ofícios e duas para moradia dos operários. Porém, principalmente devido à localização destas vilas, longe do centro, a Administração Pública não conseguiu executar plenamente as casas para o trabalhador, delegando e incentivando esta ação para firmas e profissionais particulares (SOARES, 2006, p. 201). Ademais, no início do século XX, com a chegada dos primeiros imigrantes estrangeiros, ocorre uma mudança nos aspectos morfológicos e sociais, quando surgiam as primeiras vilas operárias, construídas pelos donos de fábricas e localizadas principalmente no bairro do Reduto, importante núcleo urbano e econômico na Belém do século XIX e XX, as quais serviam aos trabalhadores das fábricas (PONT VIDAL e OLIVEIRA, 2018, p. 338) No início do século XX, a moradia passa a ser alvo da higienização da cidade e antigas habitações coletivas consideradas insalubres, como os cortiços e deveriam incorporar as inovações técnicas e sanitárias. Para isso, deveriam ser realizadas melhorias arquitetônicas, como boas condições de iluminação e aeração, dormitórios separados para adultos e crianças e um controle dos ocupantes da residência. Entretanto, para viabilizar a construção destas habitações, era necessário um elevado custo, incompatível com os salários das classes trabalhadoras (NEMER, 2018, p. 35). Por isso, a vila é construída por empreiteiros, casas aviadoras ou bancos para serem alugadas por famílias e seus funcionários, ficando conhecida como moradia da classe média e baixa do início do século XX. Estas vilas, devido à forma homogênea e sem grandes variações como eram construídas e também ao motivo de a quem elas eram destinadas, não eram bem quistas aos olhos do intendente Antônio Lemos, o qual as descreveu desta forma: “Tereis exemplo d’estas afirmativas nos diferentes grupos de casas
  • 44. 28 construídas em Belém, nos últimos anos, por algumas companhias de seguro: são tudo quanto póde [sic] haver de menos gracioso e esthetico [sic]” (LEMOS apud SOARES, 2006, p. 202). Ainda assim, estas habitações seguiam os padrões ecléticos e as leis da Intendência Municipal, apresentando, até certo ponto, o bom gosto aburguesado, por isso Lemos acaba por ceder ao, já irrefreável, despontamento das vilas. Contudo, o projeto destas residências seguia uma planta básica e impessoal, para que correspondessem diferentes programas de necessidades e, consequentemente, agradassem mais famílias. Outrossim, a construção destas casas era fácil e rentável, pois geralmente eram pequenas, higiênicas e cômodas, por isso os industriais as construíam para alugar ou vender aos seus empregados. A planta destas residências era predominantemente de puxada, um padrão já conhecido e aceito pela população (SOARES, 2006, p. 203). Bonduki (1998, p. 713) ressalta uma solução que buscava a economia de materiais e terrenos, mas que ia contra as inovações ecléticas de afastamentos do lote: a geminação e a ausência de recuos frontais e laterais, cada qual destinado a uma capacidade de pagamento do aluguel: do cortiço, moradia operária por excelência, sequência de pequenas moradias ou cômodos insalubres ao longo de um corredor, sem instalações hidráulicas, aos palacetes padronizados produzidos em série para uma classe média que se enriquecia, passando por soluções pobres mas decentes de casas geminadas em vilas ou ruas particulares que perfuravam quarteirões para aumentar o aproveitamento de um solo caro e disputado pela intensa especulação imobiliária (Bonduki, 1998, p. 713). A partir do trecho de Bonduki, avalia-se uma outra motivação para a construção destas vilas, não apenas as construídas de patrões para empregados, visando o aluguel, mas também uma solução tipológica econômica de uma classe mais emergente para morar o centro da cidade, onde já se enfrentava as consequências da especulação. Desta maneira, a solução tipológica das vilas ecléticas, da mesma forma que as edificações ecléticas no geral, eram construídas de acordo com a condição financeira de seu proprietário. Por conseguinte, as vilas encontradas nos bairros de trabalhadores, possuíam soluções modestas e menos decoradas, tanto em suas fachadas, quanto internamente, enquanto que as vilas destinadas à classe média, apresentavam soluções modernas, mais valorizadas, até mesmo devido à própria especulação imobiliária do bairro nas quais estavam inseridas (SOARES, 2006, p. 205). Portanto, pode-se afirmar que, no início do século XX em Belém, existiam dois modelos de vilas: as vilas para trabalhadores e as vilas ecléticas. A primeira seguia o pensamento da autora Eva Blay (1985,p. 18), onde a casa -em uma vila- funcionava como forma do salário não pago, a qual sob uma visão marxista de Engels, a medida em que o trabalhador investia suas
  • 45. 29 economias para a construção da casa própria, ele acabava por converter em capital para o capitalista, uma vez que o aluguel, cujo deveria estar incluso na remuneração, é descontado e seu salário reduzido, perpetuando esta dependência habitacional entre patrão-empregado, existente desde os primórdios coloniais escravistas e culminando na idealização atual brasileira ao redor do sonho da casa própria. Por outro lado, porém, observamos um modelo não totalmente aceito pelo principal idealizador da capital paraense moderna do início do século XX, o intendente Antônio Lemos, mas ainda assim difundido e explorado por uma classe média que almejava o modo burguês de se morar, dentro das suas próprias condições financeiras. Estas vilas da classe média se tornam mais aceitas pela intendência municipal devido às premissas ecléticas respeitadas e a qualidade projetual do espaço interno, que já seguia as inovações propostas para a casa moderna. Segundo Soares (2006, p. 205), os moradores desta segunda modalidade de vila, buscavam denotar “maior estratificação social, o que, na prática, significou a introdução de novos hábitos modernos dentro da casa, mas em especial no melhor tratamento estético das fachadas”. Destarte, deve-se ressaltar que, já que as duas categorias foram construídas ao longo do período eclético na cidade, seguindo padrões construtivos ecléticos, levando-se em consideração as devidas proporções, ambas as tipologias possuem suas condignas importâncias para o cenário histórico-social da Belém eclética. A casa popular, assim como a casa burguesa, conta sua versão acerca de uma mesma época, e ambas sempre devem ser consideradas, Le Goff explica em seu livro História e Memória, a necessidade da ampliação do conhecimento de todos os lados possíveis da história, uma vez que o documento é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa (Le Goff, 2003, p. 536). A partir desta crítica, compreende-se a necessidade de ampliar as pesquisas e estudos acerca desta tipologia habitacional, enquanto objeto de análise histórico, sociológico e cultural, já que muito se fala sobre as casas burguesas e seus palacetes, mas pouco se aborda sobre casas populares, de trabalhadores ou de uma classe média. A construção de casas em vilas inicia no contexto acima referido e ainda se faz presente como forma de entendimento de uma grande dificuldade enfrentada por diversos Governos Brasileiros: o direito à própria casa, por isso a importância de se compreender a forma de morar em Belém, sob a perspectiva de todas as classes, torna-se inegável.
  • 46. 30 Figuras 19 e 20: Nas imagens abaixo são apresentados dois tipos de vilas localizadas no bairro de Nazaré. Na primeira foto infere-se que seja uma vila para trabalhadores e a segunda uma vila já construída por integrantes da classe média, devido aos maiores detalhes e adorno de fachada. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Por fim, outro aspecto importante para o estudo das vilas, é a abundância com as quais são encontradas pela capital paraense. Neste trabalho, fora realizado um mapeamento de vilas pelo bairro de Nazaré (restringiu-se apenas ao bairro de localização do principal objeto de estudo), e nele foram encontradas modalidades de vilas operárias, ecléticas, com influências modernistas, em estilo bungalow, etc. Isto implica na relevância geográfica desta tipologia residencial, demonstrando o quanto eram recorrentes não apenas em bairros ditos industriais, mas como também em logradouros ditos historicamente da elite. 2.3. Mapeamento de vilas no bairro de Nazaré Fora realizada uma análise ao longo do mês de abril de 2019 pelo bairro de Nazaré (locus do objeto de estudo e desta pesquisa) com o objetivo de mapear as vilas existentes na região. Como comentado anteriormente, o bairro de Nazaré fora fundado por uma população desatendida pelo governo que fora, pouco a pouco, expulsa pela elite. A partir disso, esta localidade passa a ser considerada um bairro elitista, predominantemente. Vale ressaltar a palavra predominantemente, pois foram encontradas tipologias de vilas básicas e humildes, semelhantes com modelos encontrados em bairros adjacentes e ocupados inicialmente por trabalhadores, como o bairro da Cremação. Isto evidencia que havia uma pequena parcela dos moradores do bairro que eram, possivelmente, trabalhadores morando em vilas de aluguel.
  • 47. 31 Figuras 21, 22 e 23: Vilas de trabalhadores localizadas no bairro da Cremação. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. A relevância da realização deste mapeamento se dá devido à grande variedade de residências que seguem os esquemas tipológicos de uma vila, isto é, conjuntos de casas, geminadas ou não. Foram encontradas vilas para trabalhadores, vilas de uma classe mais abastada, vilas seguindo a tipologia chalé, vilas em estilo bangalô etc. Isto mostra o quão rentável fora a construção destas tipologias ao longo dos anos, por existirem desde residências do período eclético até vilas mais recentes, já inseridas no contexto da arquitetura moderna da cidade de Belém. Fora possível, até mesmo, diferenciar as vilas de acordo com a linguagem arquitetônica possivelmente inseridas, sendo denominadas aqui de: Vilas ecléticas para trabalhadores; vilas ecléticas para classe média; vilas em estilo chalé; vilas modernas (aqui inseridas as vilas em estilo neocolonial e bangalôs).
  • 48. 32 Figuras 24, 25, 26 e 27: Exemplos de vilas ecléticas para trabalhadores encontradas no bairro de Nazaré, possivelmente. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Acredita-se que estas sejam casas para trabalhadores devido à sutileza dos elementos decorativos, apresentando platibandas retilíneas e sem ornamentos estucados muito trabalhados, além da ausência do porão, pavimento considerado importante para a aeração e conforto térmico da casa.
  • 49. 33 Figuras 28, 29, 30 e 31: Exemplos de vilas ecléticas para classe média encontradas no bairro de Nazaré, possivelmente construídas por uma classe mais abastada do que os trabalhadores. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Em que pese, as residências em vila destinadas à classe média, possuíssem maiores inovações construtivas - platibandas ornamentadas, afastamentos laterais e/ou frontais, a existência de alpendres com telhados e lambrequins trabalhados em madeira, azulejaria e estucaria - ambos os estilos de vilas seguiam a solução arquitetônica de puxada. Ademais, foram encontradas residências em vila no estilo chalé, como explicado no capítulo anterior, esta linguagem fora uma expressão do ecletismo tardio na cidade de Belém. Dentre as soluções volumétricas e de telhados encontrados na cidade, observou-se influências das seguintes regiões europeias: Alta Normandia, na França; de Bray, na Irlanda; da região fronteiriça entre Suíça e Alemanha; da região de Champagne, próxima à Alemanha (os quais também foram encontrados exemplares de tipos geminados); da Alsácia, principalmente no que tange à solução de alas perpendiculares e tipos de telhados; e, por último, da região de Wertemberg, em Baden, na Alemanha, próxima à fronteira da França. A disseminação de um estilo de regiões tão opostas à cidade é explicada devido ao seu estilo moderno e diferente na
  • 50. 34 região, além de sua facilidade de construção, possibilitando uma grande variação de tamanho e solução de telhado (CAL, 1989, pg. 78) Estes modelos são encontrados na região entre a rua Alcindo Cacela e avenida Magalhães Barata, exemplares simplificados, isolados no terreno e também em conjunto de duas até cinco unidades geminadas. A difusão deste modelo ao longo desta área pode ser explicada devido ao governo de Magalhães Barata, na década de 1920, ter dado um prazo aos proprietários de terrenos inutilizados para que construíssem em seus lotes, sob pena de desapropriação, uma vez que esta região ainda estava muito desocupada. Portanto, os moradores encontraram neste estilo, uma forma barata e de fácil construção, em sua maioria visando o aluguel. Entretanto, no que se refere à funcionalidade de edifícios neste estilo, os méritos são poucos. O excesso de compartimentação, com várias saletas ao longo da construção, ia contra os hábitos da população da época. As escadas normalmente eram íngremes e estreitas e as dependências de empregados ficavam situadas em anexo no fundo do quintal, apresentando certa harmonia volumétrica com o corpo principal das casas. Quanto ao conforto, este estilo apresenta detalhes relevantes, como portas internas com bandeiras vazadas e janelas apropriadas para o clima quente e úmido da cidade, apresentando um sistema misto de venezianas e vidro e folhas cortadas na horizontal, que permitiam a abertura somente da parte superior, resguardando a privacidade interna ao mesmo tempo em que permitia a circulação de ar. Contudo, o tipo chalé permanece até meados da década de 1950, quando, pouco a pouco, fora substituído pelo tipo bangalô (CAL, 1989, pg. 79). Figuras 32, 33 e 34: Exemplos de vilas geminadas no estilo chalé encontradas no bairro de Nazaré.
  • 51. 35 Fonte: Beatriz Maneschy, 2019. Além disso, foram registrados conjuntos de casas mais modernas, seguindo a tipologia bangalô, a qual surge na década de 1920 e torna-se muito utilizada na década de 1960, esta tipologia permanece isolada no lote, apresentando varandas no térreo e/ou pavimento superior, com grandes platibandas e garagem coberta, copiadas das revistas americanas e italianas da época, o bangalô fora uma premissa para as construções modernas de Belém. Ademais, este modelo moderno de residências também apresentava grandes platibandas encobrindo o telhado, jardins utilizando plantas regionais, azulejos, vidros e esquadrias em madeira (MIRANDA e MARQUES DE CARVALHO, 2008, p. 4 e 5). Figuras 35, 36 e 37: Exemplos da tipologia bangalô no bairro de Nazaré. Fonte: Beatriz Maneschy, 2019.
  • 52. 36 Ademais, registrou-se a existências de casas em vila com estilo neocolonial, outra tipologia muito recorrente no bairro de Nazaré, a qual possuía uma tendência de valorização social (AZEVEDO, 2015, p. 67), sendo muito utilizada em casas da elite ou classe média, mesmo que em meio à crise pós-borracha ocorrente a partir da década de 1920. Muitos destes conjuntos de casas em estilo neocolonial ou na linguagem bangalô são provenientes em vilas militares localizadas ao longo do bairro. Figuras 38 e 39: Vilas militares em linguagem neocolonial, no bairro de Nazaré. Fonte Beatriz Maneschy, 2019. No mais, fora realizado um mapeamento enumerando e localizando as vilas encontradas ao longo do bairro de Nazaré, o qual pode ser analisado em anexo a este trabalho. A partir da realização desta etapa do trabalho, fora possível compreender a dimensão espacial que esta tipologia ocupa na cidade e encontrou-se as mais diversas adversidades pelas quais alguns destes exemplares enfrentam, apesar da já relatada importância histórica e sociocultural destes tipos de construção. São várias as vilas aqui elencadas que estão deterioradas e em um já avançado estado de má conservação. Por isso, notou-se necessária a discussão sobre a questão da patrimonialização de residências em vila, assunto este extremamente complexo e impossível de ser abordado em poucas linhas deste trabalho, além de fugir do tema específico aqui analisado. Acerca deste tópico levantado, será feita uma observação final ao longo das considerações finais.
  • 53. 37 3 CARACTERIZAÇÃO DA CASA Nº 674 DA VILA ANDRADE RAMOS 3.1. Histórico da vila Andrade Ramos Segundo relatos coletados por meio de entrevistas com os atuais proprietários da vila, Sr. Raul Moreira, filho dos primeiros proprietários da residência 678, e Sra. Socorro de Almeida Gemaque, nora dos primeiros proprietários da casa 668, fora possível delimitar o histórico da Vila Andrade Ramos, localizada na rua João Balbi com a Passagem Ramos, no bairro de Nazaré. Formada por quatro residências, esta vila fora construída em 1934, a mando do Sr. Pedro de Andrade Ramos, para quatro de suas seis filhas: Heloísa, Lígia, Maria dos Anjos, Liliana, Haydée e Lourdes; outras duas filhas foram contempladas com casas na Passagem Ramos, e não na Rua João Balbi. Ainda que, em entrevista, o sr. Raul tenha relatado o ano de 1934 como de sua construção, os livros de transcrição das transmissões, os de registros diversos e os de registro geral apresentam o dia 23 de janeiro de 1948 como a data de transmissão do terreno edificado. Entretanto, como este documento é apenas uma oficialização do que já encontrava-se construído no terreno, não é possível confirmar o ano da construção via registros ou documentos de imóveis da época, uma vez que no início do século XX, como ainda não havia o curso de arquitetura e urbanismo no Pará e o curso de engenharia civil ainda estava nos seus primórdios (fundado em 1931), não havia certa rigidez quanto aos registros de obras e/ou construções. Por isso, considera-se a versão do descendente dos primeiros proprietários do ano de 1934. Figura 40: Localização e delimitação do bairro de Nazaré e da Vila Andrade Ramos, marcada em vermelho. Desenho: Beatriz Maneschy, 2019.
  • 54. 38 Acredita-se que Pedro de Andrade Ramos tenha vindo do Ceará para o Pará juntamente com seu tio-avô, José Júlio de Andrade, famoso político e latifundiário, durante as primeiras décadas do século XX, para trabalhar em sua empresa Andrade & Ramos Co, em pleno apogeu econômico da borracha na Amazônia. Em Belém, Pedro de Andrade acumulou muitas riquezas e terras, possuía um palacete no terreno onde está localizada atualmente a Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SEMEC), na Av. José Malcher, a apenas algumas quadras do local onde residia seu tio, o palacete Bibi Costa, também chamado de palacete José Júlio de Andrade, bem como localizado na Avenida José Malcher, antiga São Jerônimo. Figuras 41 e 42: A Passagem Ramos e a SEMEC. Fonte: (41): Beatriz Maneschy, 2019; (42): Cybelle Miranda, 2019. A Passagem Ramos, em homenagem à própria família, estava locada aos fundos do terreno de palacete de Pedro de Andrade Ramos. Por isso, construiu as residências de suas filhas nesta área, sendo duas casas locadas na Passagem propriamente dita e quatro já locadas como vila, na Rua João Balbi. De acordo com a entrevista de Socorro Gemaque, a casa nº 668 fora construída para a filha Maria dos Anjos de Andrade, com a intenção de residir na própria após seu casamento. Socorro mudou-se para a casa da sogra em 1987 e afirma que não chegou a conhecer Pedro de Andrade Ramos, avô de seu marido, pois este faleceu antes de seu casamento. Socorro discorre sobre a história que sua sogra relatava, na qual Pedro Ramos estava jantando com a família, logo após vender seu palacete na José Malcher, quando sofreu de um mal súbito e veio a óbito. O dinheiro da venda de seu palacete sumiu e por isso sua esposa, não tendo onde morar, foi auxiliada pelos filhos.
  • 55. 39 Figuras 43 e 44: Na primeira foto à esquerda, elemento decorativo em porcelana original dos primeiros proprietários. A segunda foto à direita está a filha de Pedro de Andrade Ramos, Maria, e seu cônjuge. Fonte: Acervo Socorro Gemaque, s.d. Como Pedro de Andrade era possuidor de muitas terras e bens, tanto na capital paraense, quanto no interior do estado, legou suas propriedades para seus filhos, deixando todos amparados, uma vez que, além das seis filhas, o casal também havia tido quatro homens: Pedro, Clóvis, Freitas, (...). Estes filhos receberam casas próximas à Passagem Ramos, exprimindo o costume da época, onde os membros da família moravam próximos, ao redor da vizinhança. Figuras 45, 46 e 47: Recortes de jornais encontrados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Acima da esquerda para a direita, a nota de falecimento de Maria dos Anjos Ramos, irmã de José Júlio de Andrade e mãe de Pedro de Andrade e imagem da família Andrade Ramos reunida. Abaixo, a nota de falecimento de Pedro de Andrade Ramos.