UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE TECNOLOGIA
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
WAGNER JOSÉ FERREIRA DA COSTA
ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA
BELÉM-PA
2016
WAGNER JOSÉ FERREIRA DA COSTA
ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, como
requisito para a obtenção do título de Arquiteto e
Urbanista pela Universidade Federal do Pará,
sob a orientação da Profª. Dra. Cybelle Salvador
Miranda.
BELÉM-PA
2016
WAGNER JOSÉ FERREIRA DA COSTA
ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA
Belém (PA), 7 de Junho de 2016
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________
Profª. Drª. Cybelle Salvador Miranda
Universidade Federal do Pará
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
_____________________________________________
Prof. Dr. RonaldoNonato Ferreira Marques de Carvalho
Universidade Federal do Pará
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
___________________________________________
M. Sc. Cibelly Alessandra Rodrigues Figueiredo
Universidade Federal do Pará
Laboratório de Memória e Patrimônio Cultural
BELÉM-PA
2016
Agradeço à Consciência
Universal, Andrógina (Deusa e Deus), à
Madonna Nera. Agradeço à minha
Divindade Interna, aos Deuses, Orixás e
Santos, Estrelas e Arcanjos, aos Espíritos
de meus Antepassados, às Entidades,
Sibillas e Profetisas, à minha família e
amigos e à minha orientadora pela
oportunidade, incentivo e por toda ajuda
que me forneceu. Agradeçoao Sagrado
que todos possuímos.
AGRADECIMENTOS
Quero agradecer à Consciência Universal e à minha Divindade Interna por me
trazerem até aqui nesta encarnação, por todas as instruções, mensagens e bênçãos
que me conferiram durante minha longa jornada que chamo de vida, e pelos
momentos em que pensei estar perdido no escuro, quando tudo o que precisava era
acender minha própria lâmpada.
Agradeço à minha amada, honrada e venerada Madonna Nera, Nossa
Senhora, que sempre me assiste, protege e abençoa, que enxugou todas as minhas
lágrimas e me impedia de desistir, falando-me para seguir não importa o que
acontecesse, pois sempre estaria perto para me socorrer. Este trabalho é em Sua
honra,do Nosso Sagrado e de meus Antepassados.
Minha gratidão também vai aos Orixás, às Estrelas e à todos os Espíritos,
Entidades, Caruanas, Encantados, bem como Sibillas e Profetisas, que sempre me
acolheram, dando bons conselhos e me auxiliando espiritualmente.
À minha família como um todo. À minha prima Hérika Sodré por ter pago meu
cursinho, à meus tios, Francisco e Deusdedith, por me acolherem em sua casa no
período de vestibular. Aos meus pais, Simone e João, por custearem minha formação
acadêmica monetariamente, ainda que não dessem apoio emocional e espiritual que
tanto precisava, suprido em parte por minhas tias que sempre estiveram do meu lado,
dando-me bons conselhos, acompanhando-me e acolhendo-me em suas casas e em
seus corações, em especial, Maria, Madalena, Marta e Matilde.
À meus primos, Hélida Sodré, Henrique Costa, André Andrade e Gerson Lima,
que sempre me apoiaram, nos momentos bons e principalmente nos ruins.Ainda
quero homenagear meus Antepassados, pois enquanto estiver vivo, nossa Lareira
sempre estará acesa e vocês estarão comigo, vivos em meu coração.
Sou gratoà minha orientadora Profª Dra. Cybelle Salvador, por me acolher
como uma mãe, por sua excelente orientação, apoio, flexibilidade e compreensão,
bem como pela oportunidade de falar sobre um tema tão emocionante (devo dizer que
aprendi muito nesse período que passamos juntos), assim como o Profº Dr. Ronaldo
Carvalho pelas palavras amigas, conselhos, sempre disposto a me ajudar; agradeço à
toda família do LAMEMO, especialmente à Suelen Vieira, Felipe Moreira e Lídia Basile
pelas boas conversas e companheirismo, e Nathália Sudani por abrir meus olhos e me
acalmar. Da graduação agradeço à Gabiela Amorim, Sonya Teixeira, George Bruno e
Luís Paulo por sempre estarem comigo me incentivando, assim como todos os amigos
do curso que me apoiaram.
Ainda quero mencionar e agradecer àProfª Dra. Kláudia Perdigão, que em
minha ideia bruta me orientou, mas ao perceber que minha pesquisa se encaixava na
linha de raciocínio do LAMEMO, pensou em minha realização pessoal e suavemente
me encaminhou à Profª Dra. Cybelle.
Aos meus amigos de longa data Idália Santos, Rebecca Souza e Rafael
Guedes, quero dizer obrigado por todos os risos, conversas, conselhos, choros,
segredos, e momentos inusitados que compartilhei junto à vocês, pra mim todos são
especiais.
Quero exprimir também minha gratidão à todos os amigos antigos e os novos
com que o Universo docemente me presenteou, que me apoiaram durante todo o
processo de construção deste trabalho de conclusão de curso.
Agradeço à Vida, ao Amor e ao Sagrado que à tudo permeia.
Obrigado!
“O dever de um arquiteto já foi o de
construir um templo para o homem, e esse
templo não era apenas um edifício
especificamente dedicado à adoração de
Deus. Ele era o ambiente do homem. Cada
estrutura que se ergueu sobre a face da
Terra era projetada para refletir a ordem,
os mistérios e os poderes mágicos
inerentes ao cosmos. A arquitetura era
então a arte de incorporar a percepção
espiritual profunda no tecido estrutural do
ambiente que criamos para nós, e no qual
trabalhamos, nos divertimos, e cultuamos.
Ela era a expressão desse entendimento
espiritual revelador que há muito tempo se
acreditava que constituísse a beleza de um
edifício”.
(Herbert Bangs)
COSTA, Wagner J. Ferreira. Arquitetura Religiosa e o Resgate do Sagrado em
Belém-Pa. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para a obtenção do título de
Arquiteto e Urbanista. Instituto de Tecnologia. Universidade Federal do Pará, 2016.
RESUMO
O presente estudo tem por base resgatar a função simbólica da arquitetura religiosa
em Belém do Pará, fazendo uma análise comparativa entre três templos de diferentes
religiões, buscando identificar e compreender os elementos arquitetônicos que
funcionam como ponte para que seus frequentadores possam perceber e entrar em
comunhão com o sagrado residente nestes espaços, elucidando os motivos pelos
quais esta qualidade é perdida. Através de pesquisa bibliográfica, levantamento
fotográfico e documental, além de pesquisa de campo de natureza qualitativa, em
concordância com ramos de conhecimento multidisciplinares tais como psicologia,
metafísica e teologia, buscou-se comprovar a influência dos elementos simbólicos que
elevam os indivíduos à união com o divino, a reafirmação do arquiteto como produtor
de um espaço sagrado, e a importância de resgatar a função do templo religioso como
símbolo.
Palavras-chave:Arquitetura Religiosa; Símbolos; Percepção ambiental; Belém-PA.
ABSTRACT
The present study is based rescue the symbolic function of religious architecture in
Belem of Pará, making a comparative analysis between three temples of different
religions in order to identify and understand the architectural elements that act as
bridge for what your goers can perceive and enter in communion with the sacred
resident in these spaces, elucidating the reasons why this quality is lost. Through a
bibliographical research, photographic survey and documentation, in addition to
qualitative nature of field research , in agreement with multidisciplinary knowledge
such as branches psychology, metaphysics and theology , sought -If prove the
influence of symbolic elements that elevate individuals with the Union the divine, a
reaffirmation of architect as hum sacred space producer, and the importance of
recovering the function of religious temple as a symbol .
Key-Word: Religious Architecture; symbols; environmental awareness; Belém- PA
LISTA DE FIGURAS
Figura 1- Bauhaus, Alemanha....................................................................................20
Figura 2- Sigmund Freud (à esquerda) e Karl Gustav Jung (à direita).........................26
Figura 3- O Nascimento de Vênus- Ilustração de Arquétipo e Imagem Arquetípica-
Pintura de Sandro Botticelli.........................................................................................28
Figura 4- Sistema da Árvore da Vida...........................................................................30
Figura 5- O Tarô e os Caminhos da Árvore da Vida....................................................37
Figura 6- Arcanos Maiores do Tarô de Marselha........................................................38
Figura 7- Experimento “O Vaso de Rubin”..................................................................45
Figura 8- Ilustração do princípio da compleição......................................................... 46
Figura 9- Panteão- Vista frontal, lateral, corte e planta baixa- ilustração de ritmo,
simetria, hierarquia, polaridade, proporção e escala...................................................49
Figura 10-Partenon, Grécia- Ilustração sobre as interpretações fisiopsicológicas das
retas............................................................................................................................51
Figura 11- “Deus como um arquiteto”, Pintura de William Blake.................................52
Figura 12- Formas geométricas básicas.....................................................................53
Figura 13- O homem vitruviano- Arte de Leonardo Da Vinci, modificada....................54
Figura 14- O sigilo dos sólidos platônicos: um triângulo equilátero circunscrito no Selo
de Salomão.................................................................................................................54
Figura 15- Vesica piscis..............................................................................................55
Figura 16- Quadrados áureos.....................................................................................56
Figura 17- Razões áureas do Paternon......................................................................57
Figura 18- Série de Fibonacci.....................................................................................58
Figura 19- Molusco representado na série de Fibonacci.............................................59
Figura 20- As cores.....................................................................................................60
Figura 21- Aspectos positivos das cores.....................................................................62
Figura 22- Esboço planta baixa da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.................66
Figura 23- Frontispício da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré..............................67
Figura 24- Frontão da Basílica Nossa Senhora de Nazaré.........................................68
Figura 25- Árvore da Vida na vista frontal da Basílica de Nossa Senhora de
Nazaré........................................................................................................................69
Figura 26- Mandala dourada no piso da nave principal.............................................. 71
Figura 27- Piso entre os pilares...................................................................................71
Figura 28- Piso crístico representando os quatro elementos e a quintessência..........72
Figura 29- Piso dos confessionários...........................................................................73
Figura 30- Forro central do pátio em forma de cruz latina...........................................74
Figura 31- Forro lateral (esquerdo e direito) do pátio com motivos florais...................74
Figura 32- Forro interno da nave central em formas de cruzes e retângulos...............75
Figura 33- Porta principal da Basílica de Nazaré- folha direita....................................76
Figura 34- Porta lateral esquerda da Basílica de Nazaré............................................77
Figura 35- Vitral de Santa Luzia, lado direito do átrio..................................................78
Figura 36- Lampadário com motivos solares..............................................................79
Figura 37- Pilares e arcos como falos e vulvas...........................................................80
Figura 38- Leques com anjos e medalhões marianos.................................................81
Figura 39- Capela de São Miguel Arcanjo na lateral direita.........................................83
Figura 40- Altar Mor da Basílica de Nazaré.................................................................84
Figura 41- O Glória com imagem de Nossa Senhora de Nazaré.................................85
Figura 42- Lauderdale Road Synagogue, Londres.....................................................86
Figura 43- Frontispício Principal- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim................................87
Figura 44- Esboço da planta baixa térreo e 1º pavimento- Sinagoga Shaar
Ha-Shamaim...............................................................................................................88
Figura 45- Árvore da Vida na vista frontal da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim..............89
Figura 46- Tábuas da Lei com as dez primeiras letras hebraicas................................90
Figura 47- Vista superior da cúpula da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim........................91
Figura 48- Piso da nave central em forma de cruzes...................................................92
Figura 49- Piso em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo............................92
Figura 50- Frase feita em letras metálicas, lado esquerdo..........................................93
Figura 51- Pilares internos da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim.....................................93
Figura 52- Arcos e forros.............................................................................................94
Figura 53- Porta Shaar Ha-Shamaim..........................................................................96
Figura 54- “Vitral” com figura de pilares e menorá.......................................................97
Figura 55- Arco interno envolvendo óculos.................................................................98
Figura 56- Altar central da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim...........................................99
Figura 57- Menorá metálico......................................................................................100
Figura 58- Cadeiras com nomes...............................................................................101
Figura 59- Cortina da Porta Shaar Ha-Shamaim.......................................................102
Figura 60- Daniel Berg (à esquerda) e GunnanVigren (à direita)..............................103
Figura 61- Árvore da Vida estilizada na fachada traseira da Assembleia de Deus....105
Figura 62- Esboço da planta baixa do auditório da Assembleia de Deus..................106
Figura 63- Visão interna do auditório 2º pavimento...................................................107
Figura 64- Altar como uma grande proa de navio......................................................108
Figura 65- Forro em cascata que remete à uma embarcação...................................108
Figura 66- Visão do auditório a partir do altar............................................................109
Figura 67- Principio de polaridade visto nas escadas ao fundo intercruzadas..........110
Figura 68- Planta baixa da antiga igreja de Santo Alexandre....................................112
Figura 69- Árvore da Vida na vista frontal de Santo Alexandre.................................113
Figura 70- Capela Mor da antiga Igreja de Santo Alexandre.....................................114
Figura 71- Forro de Santo Alexandre........................................................................115
Figura 72- Púlpito esquerdo na antiga Igreja Santo Alexandre.................................116
Figura 73- Capela lateral direita, vista interna de Santo Alexandre...........................117
Figura 74- Antiga Igreja Santo Alexandre por volta de 1940.....................................118
Figura 75- Estado atual de Santo Alexandre.............................................................119
Figura 76: Pontos de referência na pesquisa de campo............................................120
LISTA DE QUADROS
Quadro 1- Gráficos referentes aos resultados das perguntas de 1 à 4 do
questionário..............................................................................................................121
Quadro 2- Comparativo dos elementos simbólicos dos templos referidos na
análise......................................................................................................................122
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...........................................................................................................16
1. ARQUITETURA SAGRADA: DESAPARECIMENTO E GRADUAL
RETORNO.............................................................................................................19
1.1. O Modernismo e O Declínio do Sagrado.......................................................19
1.2. O Retorno Gradual do Sagrado......................................................................23
2. A MENTE E OS SÍMBOLOS: COMO PERCEBER O SAGRADO?.....................26
2.1. A Cabala: O Sistema Mágico dos Arquétipos...............................................29
2.2. Tarô: Os Caminhos do Ser..............................................................................35
3. PRINCÍPIOS SIMBÓLICOS DA ARQUITETURA RELIGIOSA............................44
3.1. Matemática, Números, Geometria e Formas Sagradas................................50
3.2. As Cores como Símbolos...............................................................................59
4. O SAGRADO NOS TEMPLOS: ESTUDOS COMPARATIVOS............................63
4.1.BASÍLICA DE NAZARÉ: O REINADO DOS CÉUS NA TERRA..........................63
4.1.1. Histórico e Pesquisa....................................................................................63
4.1.2. Planta Baixa..................................................................................................65
4.1.3. Fachada........................................................................................................67
4.1.4. Pisos.............................................................................................................70
4.1.5. Paredes.........................................................................................................73
4.1.6. Forros............................................................................................................73
4.1.7. Esquadrias....................................................................................................75
4.1.8. Iluminação....................................................................................................78
4.1.9. Iconografia e Estatuário..............................................................................80
4.2.SHAAR HA-SHAMAIM: A PORTA DOS CÉUS...................................................85
4.2.1. Histórico e Pesquisa....................................................................................86
4.2.2. Planta Baixa..................................................................................................88
4.2.3. Fachada........................................................................................................89
4.2.4. Pisos, Paredes, Colunas, Arcos e Forros.................................................91
4.2.5. Esquadrias e Iluminação............................................................................95
4.2.6. Ornamentos.................................................................................................98
4.3.ASSEMBLÉIA DE DEUS: O BARCO DOS ELEITOS........................................102
4.3.1. Histórico e Pesquisa..................................................................................103
4.3.2. Fachada......................................................................................................104
4.3.3. Planta Baixa, Pisos, Paredes, Colunas e Forros....................................105
4.3.4. Esquadrias e Iluminação...........................................................................109
4.4. SANTO ALEXANDRE: A VIOLAÇÃO DO SAGRADO......................................110
4.5. PESQUISA DE CAMPO E QUADRO COMPARATIVO....................................120
CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................126
REFERÊNCIAS........................................................................................................129
APÊNDICES.............................................................................................................134
16
INTRODUÇÃO
No passado templos antigos arrebatavam nossas almas de forma ímpar,
causando-nos grande impacto, pois neles havia algo que não sabíamos
conscientemente definir, embora a incrível sensação de união com o universo
fosse nítida. Tais construções foram projetadas e edificadas não somente para
servir de abrigo e satisfazer nossas necessidades mais práticas, mas também
para elevar nossa consciência em direção ao Sagrado, ao Divino. Com a
evolução da humanidade e a chegada do Modernismo, os arquitetos pareceram
perder a antiga capacidade que tinham de formular templos que expressassem
as verdades universais, cuja linguagem simbólica funcionava como uma “ponte
do arco íris”, ligando Terra e Céu.
A antiga lógica construtiva fora substituída por uma nova, o que também
influenciou os templos religiosos. Estes agora, são apenas caixas inertes
edificadas pela visão funcionalista e prática, que visa o lucro como sendo mais
importante do que o bem-estar psicológico e espiritual de quem neles adentra. A
casa que estava baseada no conceito de lar fora substituída pelo de “máquina de
morar”, e da mesma forma os templos perderam sua antiga magia, subjugados à
uma condição simplista de paredes e formas que nada comunicam a não ser
tédio, distração e um grande vazio.
O presente trabalho busca, então, recuperar a antiga função do edifício
religioso, descobrir o porquê de sua dessacralização, e resgatar os símbolos que
levavam os indivíduos ao encontro do Sagrado, bem como também recuperar a
antiga função do arquiteto como um mago, um filósofo e organizador dos
espaços.
17
A necessidade do resgate do sagrado na Arquitetura Religiosa, tem por
base fazer um estudo dos símbolos e trazê-los de volta ao campo da percepção
através dos sentidos, para assim religar o indivíduo à sua parte mais íntima, ao
que ele considera de mais divino através destas construções. Para tanto, o tema
explanado evidenciará as formas arquitetônicas e seus caracteres internos,
através de alguns conceitos encontrados na arquitetura, bem como também, no
cunho multidisciplinar, conceitos advindos dos campos da psicologia, metafísica
e religião, cujas simbologias influenciaram, e ainda influenciam, nessa
percepção. Sendo o arquiteto o mago e filósofo do espaço que, através de sua
obra tangível e simbólica, objetiva criar uma ponte, pela qual a integração entre
indivíduo e ambiente sagrado ganhem uma dimensão real.
No que tange a metodologia definida para o desenvolvimento do presente
trabalho temos três eixos a saber: pesquisa bibliográfica, estudo de casos
comparativos e levantamento fotográfico-documental.
A pesquisa bibliográfica será feita com o objetivo de identificação dos
elementos arquitetônicos que conferem aos templos religiosos uma simbologia
sagrada, através de suas formas e demais carácteres internos, que promovem
um elo entre o humano e divino.
Para fundamentar a primeira linha de pesquisa, serão feitos estudos de
caso em templos de religiões distintas. Assim poderemos analisar, de forma
mais nítida, como a arquitetura desses templos pode expressar o sagrado, quais
elementos se repetem ou não, e como eles influenciam seus frequentadores.
A fim de conseguir identificar cada um desses elementos, faz-se
necessário um levantamento fotográfico dos templos escolhidos, bem como
documental através da elaboração de um questionário destinado aos
frequentadores ou não, que reafirme a importância do resgate do sagrado na
18
arquitetura para os dias de hoje. Partindo destas premissas, propõe-se as
seguintes questões:
1- Qual a importância de resgatar o sagrado em edifícios religiosos?
2- Qual a verdadeira função do arquiteto no que tange o sagrado e como
ele pode desempenhá-la?
Este trabalho tem por objetivo resgatar a antiga função simbólica dos
templos religiosos, através da compreensão dos elementos arquitetônicos que
atribuem um significado sagrado à eles, como base para questionar o papel do
arquiteto na concepção destes edifícios.São partes deste objetivo reestabelecer
a função do espaço construído como influenciador na percepção e sentimentos
do indivíduo, consolidando o ambiente da arquitetura religiosa como um elo entre
o humano e o divino; reviver a antiga função do arquiteto como produtor de um
espaço no qual as grandes verdades do universo possam ser expressas e,
assim, legitimar o papel do sagrado como valioso para preservar a memória,
identidade histórica, simbologia e legado dos templos religiosos.
19
1. ARQUITETURASAGRADA:DESAPARECIMENTO E GRADUAL RETORNO
1.1. O Modernismo e O Declínio do Sagrado
Com a revolução industrial da segunda metade do século XVIII, muitas coisas
foram modificadas, e uma delas foi a forma de projetar e construir e do porquê fazê-lo
assim. Outras concepções vieram à tona no caráter estético, estrutural e funcional,
e,desta forma, grande parte das velhas filosofias simbólicas que circundavam a antiga
arte da arquitetura também foram ficando cada vez mais à mercê do esquecimento,
vistas como ultrapassadas.
Novos materiais de construção foram inseridos, como vidro, aço e concreto
armado, suprindo as necessidades dos mais variados tipos de monumentos, ao passo
que os destituía de originalidade e uma filosofia que sustentasse o projeto em seus
caracteres conceituais mais sublimes, como ocorreu com os vários ramos de arte,
incluindo a arquitetura, principalmente a religiosa, que teve sua função sagrada
violada mediante à nova lógica científica vigente, como aborda Maxwell Fry no livro “ A
Arte Na Era da Máquina” (2010):
[...] A verdade é que a poesia, como a arte, religião e filosofia, foram postas
de lado como desnecessárias à promulgação bem sucedida de uma ciência
tanto em seu estado supostamente puro e absolutamente sagrado, como
quando aplicada à atividade humana na qualidade do industrialismo da
máquina. [...](Fry, Maxwell, 2010, p. 123).
Sendo assim, somente aquilo que era compatível e justificável com o
racionalismo e a lógica científica seria visto como parte do projeto, aos moldes do
materialismo científico, que considerava somente aquilo que poderia ser medido e
pesado como sendo real, negando outras realidades de existência que não a física.
20
Com o tempo novas escolas de arquitetura foram surgindo, mas nenhuma teve
uma contribuição tão grande para o modernismo como a Bauhaus, na Alemanha,
liderada por Walter Gropius, Ludwig Mies van der Rohe, dentre outros, na análise de
Kenneth Framptom (2003). Esta escola acreditava piamente que com a utilização de
novos materiais e tecnologias construtivas, poderiam melhorar as condições de vida
do homem do século XX.
Desta feita, para a Bauhaus os edifícios teriam que ser belos, bem como
também funcionais para suprir as necessidades de seus habitantes. Le Corbusier1,
por exemplo, chegou até mesmo a descrever a casa como se fosse uma “máquina de
morar”, incentivando o caráter tecnológico dando origem a um padrão construtivo que
posteriormente foi denominado de “estilo internacional”.
Figura 1: Bauhaus, Alemanha.
Fonte: www.vitruvius.com.br, 2016.
Tais acontecimentos contribuíram para o surgimento de dois fenômenos que
Herbert Bangsem seu livro “O Retorno da Arquitetura Sagrada, A Razão Áurea e o
1 Arquiteto renomado do século XX e pioneiro da arquitetura moderna mundial.
21
Fim do Modernismo”(2010) explanou como“deserto arquitetônico” e “arquitetura da
alienação”. O primeiro diz respeito aos edifícios sem personalidade em meio a
espaços não expressivos, enquanto que o segundo nada mais é do que a negação
dos arquitetos pelas verdades esotéricas implícitas inerentes ao espaço construído. A
crítica é reforçada ao citar Le Corbusier, que agravou esses fenômenos pois a maioria
de suas obras propunham uma desarticulação com a natureza contida no ambiente
externo, funcionando como uma caixa que separava ambos os meios
hermeticamente.
Os culpados por tais processos segundo o referido autor são os próprios
arquitetos, cujo ensino mecanicista, baseado no materialismo científico2, vedava
qualquer caráter implícito procriador de uma arquitetura simbólica de qualidade, sem
falar na sensibilidade estética (estudos de harmonia, proporção e beleza),
negligenciada.
O resultado dessa arquitetura tão mecanicista e materialista atingiu a esfera de
vários edifícios públicos, principalmente os templos religiosos. A antiga função
sagrada destes edifícios, que era a de expressar as verdades espirituais mais intimas
e mais elevadas dos seres humanos criando um elo entre eles e o divino, fora violada
pelos padrões arquitetônicos que servem à uma lógica racionalista e de lucro
desmedido, muitos deles, inclusive, tiveram sua função espiritual modificada para
servir aoutros interesses, o que constitui uma grande perda do sagrado inerente a
esses templos, bem como também ao legado deixado e à memória.
[...] O colapso de uma sociedade integrada, que se seguiu rapidamente à
Revolução Industrial, que vimos fielmente espelhada numa arquitetura
desarticulada, amputada das artes de maior estrutura, e estas por sua vez a
degenerar sob a pressão do industrialismo em processo em de
transformação [...](Fry, Maxwell, 2010, p. 142).
2 Filosofia que encontrava suas bases no pensamento lógico-racional, mecanicista, de base científica.
22
É incrível notar como as universidades ainda continuam propagando de forma
extrema o pensamento lógico funcional, não permitindo vazão às artes arquitetônicas
com um sentido mais oculto. As construções não têm qualquer significado tão
profundo, suas formas não evidenciam uma conversa com os indivíduos que neles
entram, para que possam entender os princípios pelos quais a obra se tornou o que é.
Perante esse ambiente de total insegurança e medo, qual seria então o antigo e
real dever do arquiteto? Fry (2010) explica que através da combinação de forma e
ordem, uma pura criação do espírito, o arquiteto consegue estimular “ecos profundos”
através de sua obra nos indivíduos, pelos quais pode ser experimentada a sensação
do belo. Bangs (2010) tem uma visão mais ampla deste entendimento ao dizer que:
[...]O dever de um arquiteto já foi o de construir um templo para o homem, e
esse templo não era apenas um edifício especificamente dedicado à
adoração de Deus. Ele era o ambiente do homem. Cada estrutura que se
ergueu sobre a face da Terra era projetada para refletir a ordem, os mistérios
e os poderes mágicos inerentes ao cosmos. A arquitetura era então a arte de
incorporar a percepção espiritual profunda no tecido estrutural do ambiente
que criamos para nós, e no qual trabalhamos, nos divertimos, e cultuamos.
Ela era a expressão desse entendimento espiritual revelador que há muito
tempo se acreditava que constituísse a beleza de um edifício.[...](BANGS,
Herbert., 2010, p. 76)
Fry (2010) considera que a forma arquitetônica, ao longo do tempo, criou seus
símbolos de identidade, que pela erudição tornou-se intelectualizada, e no processo
acabou sendo concebida exterior à nós, afastando-nos do objetivo essencial, que é
revelar o sentido da vida. Atualmente os arquitetos sequer conseguem expressar as
linhas intangíveis de seus projetos aos clientes, pois se perderam do verdadeiro
sentido de sua obra, antes destinada à um sentido mais elevado.
Jonathan Hale (1994 apud BANGS, 2010) baseou suas ideias na intuição, e
formulando uma analogia bem nítida com o tema abordado, o arquiteto é o “mago” dos
espaços. Ele é quem organiza os ambientes, pesquisa, explana, formula os conceitos
23
sob os quais seus traçados e demais formas externas e internas do ambiente irão se
configurar, a fim de elevar a consciência daqueles que adentrarem sua obra para
outro plano. Mais que isso, ele é o “filósofo” do espaço, é quem incute a antiga “magia”
e as antigas “fórmulas” nas formas que desenha, fazendo uma ponte entre o indivíduo
e o seu eu mais sagrado, divino e eterno.
Muitos arquitetos jamais chegarão a serem verdadeiros “magos” e terem uma
real percepção de seus espaços projetados que não seja a mais literal, mas as que
guardam tantas interpretações quanto possíveis forem, e que sejam uma catapulta na
qual os seus frequentadores sejam atirados de volta ao divino e de volta para si
mesmos, para decepção de Hale.
1.2. O Retorno Gradual do Sagrado
Por muito tempo a arquitetura ficou condicionada aos parâmetros do
Modernismo3, embasada diretamente no materialismo científico, sendo negada a
concepção da arte de projetar e construir como uma ação sublime para representar o
universo, suas leis tangíveis e intangíveis, e a integração de homem e mulher com
Ele. Contudo, através do reconhecimento de tradições antigas, vindas antes do
Cristianismo, foi que a antiga função começou a ser redescoberta.
As tradições antigas bastante mencionadas em Mircea Eliade, no “O Sagrado e
O Profano” (1992), referem-se ao conjunto de heranças esotéricas das mais diversas
partes do mundo. Essas tradições são muito anteriores às verdades cristãs, mais
antigas até do que religiões de povos mais antigos, que constituíam cultos pagãos
baseados nos ciclos da Natureza, cujo compêndio de simbolismo sobreviveu até os
nossos dias, mesmo que tenham sido atacados de maneira bilateral pela igreja e
ciência. A primeira refutando as verdades espirituais mais profundas e práticas
3 Movimento artístico e cultural do século XX.
24
mágicas ou esotéricas que ameaçassem seu poderio, enquanto que a segunda
valendo-se de escárnios e invalidação do conhecimento antigo, que segundo ela não
poderia ser comprovado, explica Bangs (2010)
O pós-Iluminismo possibilitou que a espiritualidade e misticismo fossem
trabalhados novamente, embasados numa filosofia materialista que afirmava possuir
os instrumentos necessários para desvendar os mistérios ocultos, revelando assim
uma realidade espiritual diferente da mundana. Ao mesmo passo, a Igreja aos poucos
perdia poder no começo do século XX, o que permitia com que as pessoas pudessem
devidamente procurar suas realidades interiores no seu âmago e na Natureza, ao
passo que grandes acontecimentos paranormais vinham acontecendo de forma cada
vez mais presente, sendo estudados como “fenômenos parapsicológicos”, o que
também representou uma contradição à ciência.
Eliade (1992) evidencia as contribuições da psicologia no campo da religião por
Wilhelm Wundt (1832- 1920), Sigmund Freud(1856-1939), dentre outros. Freud
apresentou o termo de “inconsciente” em bases aceitáveis para algumas mentes
científicas.
Jung (1875-1961),valendo-se da psicanálise, foi quem aprofundou esse
conhecimento agregando à ele outros ramos como astrologia, alquimia, mitologia, e
afins, baseando-se nos povos antigos, de espiritualidade pagã, pois eles estavam em
maior contato com a natureza, pois dela dependia sua sobrevivência. Os antigos ritos
constituíam no culto centrado na fertilidade e preservação da vida, caracterizado pelos
ciclos sazonais de plantio, semeadura e colheita, representados por nascimento,
morte e renascimento. Assim, esses povos viviam cercados de simbologia derivada
de seus mitos, costumes e ritos, aonde tudo era visto como sagrado, como explana
Eliade (1992).
25
Através desses acontecimentos podemos ver o materialismo científico ruindo
até seu suspiro final pelos físicos teóricos que demonstraram o modelo falido que o
pensamento mecanicista constituía. Uma nova visão do universo teve que ser criada,
através da reformulação da metodologia reinante, assim como os objetivos imediatos
e do propósito que todas as ciências deveriam ter. Albert Einstein, por sua vez, no
início do século XX, com a sua “Teoria Especial da Relatividade” foi de suma
importância para dar início ao que se chamou, posteriormente, de física quântica.
Dessa forma, os conceitos místicos e estudos ocultos ganharam ênfase, unindo
as tradições antigas, sejam elas de caráter ocidental ou oriental, com a nova física.
Agora, aos modelos cosmológicos foram creditados uma análise séria e estruturada,
passando a ser embasados e provados pelos modelos científicos, unindo-os em uma
só corrente de pensamento e dando margem para novas pesquisas deste novo
campo.
A arquitetura por sua vez, não deve ser uma arte que expresse apenas um
abrigo inerte, mas estar permeada desse encontro místico que remete à união de
indivíduo e divino. A arquitetura é símbolo da realidade divina e abrigo para nossa
materialidade na consciência de Bangs (2010), e tomar conhecimento da função
simbólica do templo religioso é estar sintonizado com as verdades universais.
Portanto o arquiteto deve assumir sua antiga função de ser o “filósofo” e
“mago” dos espaços para que, no uso dos instrumentos materiais que tem em mãos,
possa representar em sua construção um modelo que expresse, como um todo, o
universo e seus mistérios, elevando o nível de percepção de quem nos seus templos
adentra para que o grande encontro de humano e divino seja possível.
26
2. A MENTE E OS SÍMBOLOS: COMO PERCEBER O SAGRADO?
Através das teorias de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, ambos psicólogos e
pesquisadores, constatou-se que a percepção do sagrado é proveniente de três
fatores: a mente (inconsciente e consciente), intuição e os símbolos e
arquetípicos.Pelos edifícios religiosos serem um símbolo arquitetônico concretizado,
faz-se necessário que analisemos cada um dos fatores apresentados.
Figura 2: Sigmund Freud (à esquerda) e Karl Gustav Jung (à direita)
Fonte: psicosophia.webnod.com, 2016.
Sigmund Freud, criador da psicanálise, defendia dois tipos de mente em cada
ser humano: a consciente e a inconsciente. Assim, a mente era comparada à um
iceberg onde a parte consciente (analítico-racional) constituía apenas a sua
superfície, enquanto que no grande corpo submerso da estrutura de gelo estaria o
inconsciente.
Apontava também que nesta parte inconsciente da mente estariam guardadas
as camadas mais profundas das experiências e processos vividos, aquilo que, com
frequência, não é aparente, tal como traumas e medos originados, ou não, na infância,
27
dúvidas, desejos secretos, memórias, e afins, caracterizando um vasto campo
inexplorado, uma fonte ilimitada de informações, contudo latente em cada ser
humano.
Jung em sua obra “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo” (2002) concebeu o
inconsciente em duas modalidades, que são o “inconsciente pessoal” e o
“inconsciente coletivo”:
[...]Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é
indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este,
porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem
em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais
profunda é o que chamamos inconsciente coletivo...contrariamente à psique
pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são 'cum
grano salis' os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos”[...](JUNG, C.
G., 2002, p. 15)
Essas imagens universais, que apareciam principalmente nos sonhos e demais
associações, as quais Jung (2002) chamou de arquétipos são nada mais que os
conteúdos encontrados no inconsciente coletivo, a exemplo da figura de deuses das
diversas mitologias. Ele ainda deixa evidente a diferenciação do conceito acima
demonstrado do de imagens arquetípicas, este último referindo-se ao contexto ou
características com as quais “arquétipos” se apresentam, como a mitologia, os
símbolos de cada um dos deuses, etc.
Figura 3: O Nascimento de Vênus- Ilustração de Arquétipo e Imagem Arquetípica- Pintura de Sandro
Botticelli.
28
Fonte: www.naturale.med.br, 2016.
Outra descoberta do pai da psicologia analítica foi que no inconsciente paira a
intuição, que segundo o próprio, ocorre “como um raio”, sendo um conhecimento
inato, um dom, que pode ser aprendido. A intuição gera a criatividade, que começa
como uma brincadeira divina que no intuito da criação vai formando e transformando o
mundo criado à vontade de quem o modela.
Bangs (2010) utiliza-se dessa linguagem para defender que o arquiteto deve
conhecer e trabalhar com ambas as mentes para construir seus projetos. Com a
consciente, faria uso de suas habilidades racionais para calcular, medir e estruturar
ambientes, e com a inconsciente procuraria revelar os arquétipos do inconsciente
coletivo, elevando os indivíduos a um estado de espírito ímpar, reforçando o sentido
da introspecção e meditação como apoio.
É dever do arquiteto então retirar da fonte inesgotável, que é o inconsciente
coletivo, os símbolos, imagens arquetípicas, dentre outros elementos que reflitam a
verdade metafísica e que seja a expressão do sincronismo entre homem e universo.
Formular uma arquitetura religiosa de caráter sublime é uma necessidade, e precisa
ser recuperada a fim de propiciar ao templo religioso um “status” de ponte entre
indivíduo e divino.
29
2.1. A Cabala: O Sistema Mágico dos Arquétipos
Dion Fortune, célebre ocultista, em seu livro “A Cabala Mística“(1985) afirma
que a Cabala é um método mágico filosófico de origem judaica, que tem em si um
sistema chamado de a “Árvore da Vida”, sendo uma combinação de dez círculos
dispostos de determinada maneira, correlacionados, unidos por linhas. Os círculos
são as “Dez Sephiroth4 Sagradas” (chamadas de esferas ou emanações) e as linhas
constituem os “Caminhos” (representados por letras hebraicas, ligados às cartas do
Tarô), estes últimos somam o total de vinte e dois; tal sistema reforça as ideias de
Jung sobre símbolos:
[...] sistema simbólico que conhecemos como Árvore da Vida é uma tentativa
de reduzir à forma diagramática as forças e fatores não só do universo
manifesto como também da alma humana, de correlacioná-los mutuamente e
de ordená-los como num mapa, para que as posições relativas de cada
unidade possam ser compreendidas, de modo a traçar lhes as relações
mútuas. Em resumo, a Árvore da Vida é um compêndio de ciência, psicologia,
filosofia e teologia...evoca imagens na mente; essas imagens, porém, não se
desenvolvem ao acaso, mas seguem uma linha de associações bem
definidas na Mente Universal. O símbolo da Árvore é, para a Mente Universal,
o que o sonho é para o eu individual- um hieróglifo sintético, oriundo da
subconsciência, que representa as forças ocultas [...] (FORTUNE, Dion.,
1985, p. 10-13)
Portanto, a Cabala consegue atuar no inconsciente individual e coletivo de
cada indivíduo através da utilização das letras e de suas formas, cores, números e
arquétipos a eles relacionados, precisamos então compreender a visão deste método
de como enxergar o mundo de uma forma mais ampla.
Menciona Fortune (1985) que há quatro mundos que representam os níveis de
consciência ao qual todos os seres e mundos estão imersos, eles são: Assiah (O
mundo das ações), Yetzirah (O mundo da formação), Briah (O mundo da criação) e
4 Sephiroth é o termo plural para designar duas ou mais Sephirah, termo singular, representando as
Esferas da Árvore da Vida, segundo Fortune (1985, p. 28).
30
Atziluth (O mundo divino). O primeiro representa o plano da matéria e das ações
terrenas, o segundo corresponde ao plano formativo, no terceiro vemos o plano
criativo de onde as ideias surgem, enquanto que no último e mais elevado plano
encontramos o nível dos Arquétipos em si.
Figura 4: Sistema da Árvore da Vida
Fonte: terapeutaholisticacabenilde.blogspot.com,2015
A teoria de Jung é reforçada neste método pela a imagem dos deuses de todos
os panteões pré-cristãos, bem como os santos católicos, que também possuem suas
particularidades, servindo em si como arquétipos e imagens arquetípicas de acordo
com sua simbologia, como bem é dito por Regardie (1978) utilizando as palavras de
Eliphas Levi, mago ocultista do século XIX:
[...]A ciência hieroglífica absoluta tem como base um alfabeto no qual todos
os deuses foram letras e todas as letras ideias, todas as ideias números e
todos os números sinais perfeitos. Este alfabeto hieroglífico do qual Moisés
fez grande segredo em sua Cabala, é o famoso livro de
Thoth[...](REGARDIE,Israel., 1978, p. 12)
31
Regardie (1978) e Fortune (1985), compactuam ao dizer que o hieróglifo da
“Árvore da Vida” demonstra três pilares, que representam as energias da força, forma
e equilíbrio. À direita temos o “Pilar da Misericórdia”, que representa as qualidades
masculinas de força, energia e atividade, enquanto que à esquerda temos o “Pilar da
Severidade” com qualidades femininas, de forma e receptividade, já o “Pilar do Meio”
é nada mais que uma junção dos dois anteriores, formando uma androginia e
equilíbrio entre as características.
A Consciência Universal, no caso Deus, estruturou o universo e a alma humana
através de sucessivas etapas. As primeiras foram, respectivamente, AIN (a
Negatividade), AIN SOPH (o Ilimitado) e AIN SOPH AUR (a Luz Ilimitada), chamadas
“Véus Negativos da Existência”, que representam aquilo que é Não Manifestado;
depois dessas etapas que surgiu a primeira esfera como consta na obra de
Fortune(1985).
A autora classifica Kether como sendo a “Primeira Manifestação”, por se tratar
da cristalização primordial na manifestação do que era até então Imanifesto5- além de
conferir à esta Esfera qualidade andrógena (Deus é homem e mulher) o que é
justificado devido estar no topo do “Pilar do Meio”, por isso também tem o título de “
Coroa”. Atribui ainda qualidades arquetípicas como a cor branca, número um, e às
deidades que, nas diversas mitologias, criaram todo o universo material como o
conhecemos, demonstrando a Consciência Universal em sua essência mais elevada.
Kether, por ser uma energia ilimitada origina Chokmah, possuindo esta o título
de “Sabedoria”, e dela nasce Binah, a terceira emanação, que recebe o título de
“Compreensão”, explica Regardie (1978). A segunda Esfera é representada
numericamente pelo dois, pela cor cinza, ligada aos deuses da sabedoria, enquanto
que a terceira tem a cor preta, o número três, intimamente ligada aos arquétipos
5 Imanifesto representa os “Véus Negativos da Existência” conforme nos aponta Fortune (1985, p. 82).
32
relacionados à geração e à morte. Outra relação que se pode traçar aqui é o da
segunda Esfera representar o “Princípio Masculino”, sendo ativa e de energia
incessante, encabeçando o “Pilar da Misericórdia” que rege a força, ao passo que a
terceira refere-se ao “Princípio Feminino”, à geração da vida, sendo quem dá a forma
a seus filhos.
[...] Em Chokmah e Binah temos, respectivamente, o positivo e o negativo
arquetípicos; a masculinidade e a feminilidade primordiais...É desses pares
de opostos primários que surgem os Pilares do Universo, por entre os quais
se tece a rede da manifestação [...] (FORTUNE, Dion., 1985, p. 94)
Chesed recebe o título de “Misericórdia”, o número quatro, cor azul, relacionada
aos deuses tutelares, como Júpiter romano. Regardie (1978) entende essa esfera
como filha das duas precedentes, e é caracterizada pela construção, criação e
organização, sendo a emanação onde as ideias da mente divina começam a ser
formuladas. Em Geburah, prossegue sua análise, identificando-a como a quinta
Sephirah correspondente à força complementar de Chesed, pois representa a
destruição do que foi edificado e construído na esfera anterior, por isso seu título é
“Severidade”. É a quinta esfera, de cor vermelha, correspondendo aos deuses da
guerra.
Tipharet, também chamada de “Beleza”, é a sexta Sephirah de cor amarelo
ouro, ligada ao sol. Esta é uma das mais importantes emanações, devido ser um
reflexo de Kether (em arco menor) e de Yesod (em arco maior), sendo nela que
encontramos a “Consciência Crística”, representada também por deuses solares,
ligados à cura e redenção. Destaca-se sua importância por outro fator, pois nela é que
há o encontro entre nossa mente consciente e inconsciente.
[...]Em primeiro lugar, ela é o centro de equilíbrio de toda a Árvore, estando no
meio do Pilar Central...As quatro Sephitoh sob Tipharet representam a
personalidade ou o eu inferior; as quatro Sephiroth acima de Tipharet
representam a individualidade, ou o eu superior, e Kether é a centelha divina,
ou núcleo de manifestação [...](FORTUNE, Dion., 1985, p. 146)
33
[...] Essa Esfera da Árvore recebe o nome de Centro Cristológico, e é aqui
que a religião cristã tem seu ponto focal...Kether é metafísica; Yesod é
psíquica; e Tipharet é essencialmente mística, compreendendo-se o termo
“místico” como um modo de operação mental em que a consciência cessa de
trabalhar nas representações subconscientes simbólicas, ganhando
conhecimento por meio de reações emocionais[...] (FORTUNE, Dion., 1985,
p. 148-149)
Regardie (1978), da sétima esfera, Netzach, chamada de “Vitória”, estando
ligada ao planeta Vênus, à cor verde, representando os sentimentos e sensações. Os
arquétipos que se relacionam à esta esfera são de todas os deuses do amor e prazer,
enquanto que a esfera seguinte é Hod, que leva o título de “Glória” e está ligada com o
a rigidez e direcionamento das forças para alcançar algum fim. É a oitava esfera de
cor alaranjada, ligada ao planeta Mercúrio, representando disciplina, conhecimento e
direcionamento, além da forma.
Yesod é apresentada por Fortune (1985) como “Fundação”, sendo a nona
Esfera, de cor roxa, ligada à Lua. Nessa “emanação” vemos o sonho, intuição,
emoções e base metafísica das energias vitais. Por este último motivo, ela também é
vista como a grande máquina geradora que confere energia ao plano físico, tendo
ambas relação intrínseca.
Por fim temos Malkuth, que representa a esfera do plano físico, tendo as cores
preta, marrom, verde oliva e amarelo ocre. Os arquétipos a ela ligados são de todos os
Deuses e Deusas da terra.
[...] Malkuth recebe o nome de Esfera da Terra...O ponto capital concernente
à Malkuth é que nela se completa a estabilidade. É na inércia de Malkuth que
repousam suas virtudes. Todas as outras Sephiroth são dinâmicas em vários
graus; mesmo o Pilar central só atinge o equilíbrio quando em funcionamento,
como um equilibrista que caminha sobre um arame [...] (FORTUNE, Dion.,
1985, p. 206-207)
Tendo conhecimento de cada um desses conceitos do diagrama da “Árvore da
Vida”, como é que podemos relacioná-los com a formação do universo e do homem e
34
com a arquitetura? A resposta é mais simples do que parece, se partimos do princípio
que cada Sephirah conta um processo de formação que se inicia no “Imanifesto” até o
“Manifesto”.
Os “Véus Negativos da Existência”, representados por “Ain”, “Ain Soph” e “Ain
Soph Aur” correspondem à Força Motriz criadora de todas as coisas, e que não pode
ser compreendida, que muitos chamam de “Deus” ou “Consciência Universal”,
conforme suas crenças particulares. O influxo dessas forças permitiu que a primeira
luz de manifestação fosse criada, e daí surgiu Kether, a primeira manifestação daquilo
que era “Imanifesto”, ou seja, o aspecto manifesto da Divindade Criadora do Cosmos.
Kether por ser considerada andrógina divide-se em duas polaridades, ativa ou
masculina (representada pela segunda esfera, Chokmah) e passiva ou feminina
(representada pela terceira esfera, Binah), que formam uma tríade, um triangulo, a
base triangular primária da manifestação.
Após a união do ativo e passivo, vemos a formulação de Chesed que
representa a base sólida das ideias, onde elas podem ser construídas e organizadas.
Contudo, aquilo que foi criado está passível de destruição, o que é representado por
Geburah. Sendo assim tem-se que haver um equilíbrio dessa energia em movimento,
que é Tipharet, assim forma-se a segunda base de um terceiro triângulo, ou conjunto
de forças.
Em Netzach essa força gerada ganha várias nuances e divide-se formando
tudo aquilo que se possa perceber através dos sentidos, mas para que essas
potências ganhem embasamento maior é preciso que uma “forma” seja estabelecida,
ou seja, participe da esfera de Hod.
Contudo para que ganhem vida, as formas precisam receber o “Sopro Divino”,
ou seja, a forma precisa de energia para viver, adentrando na Esfera de Yesod. O
terceiro triângulo também é formado e gera a base material, Malkuth, para que a forma
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venha ao plano físico, e assim que a “Consciência Universal” é manifestada, e este é o
processo de formação do Universo e do homem.
E o que tudo isso implica na arquitetura em si? Para entender isso, precisamos
lembrar que o arquiteto, em sentido mais amplo, é um mago, ele cria, destrói e recria
espaços através de ideias. Tendo isso em mente, podemos compreender como
concebemos nossos projetos e como nossa arquitetura pode refletir um sentido maior.
Seguindo essa linha de pensamento temos a lógica:
Toda ideia surge como um lampejo, uma inspiração divina (Kether), e daí
tentamos entender (Chokmah) e compreender (Binah) esse processo, e logo
formulamos um pensamento (Chesed) e o organizamos, construímos e destruímos
(Geburah), maturamos até que ele ganhe traços de equilíbrio e harmonia (Thipareth),
assim ele reflete beleza estética (Netzach) através de sua forma (Hod), princípios,
filosofia e emoção (Yesod) até que saia da prancheta e computador para sua
realização (Malkuth).
Agora que compreendemos do porque a Cabala ser estudada no presente
trabalho, podemos ver que toda criação é obra de um “lampejo divino”, e que tudo está
interligado direta ou indiretamente.
As Sephiroth foram estudadas e explanadas, mas ainda nos falta analisar os
“Caminhos” da “Árvore da Vida” que interligam Esfera à Esfera. Para tratar do
assunto, faremos uma relação direta do sistema da Cabala com o Tarô e Astrologia,
pois um complementa o outro, formando uma tríade para o entendimento do “O Todo”.
2.2. Tarô: Os Caminhos do Ser
O Tarô é um dos oráculos mais antigos, e muitos estudiosos tiveram verdadeiro
fascínio sobre ele, mas nenhum foi tão proeminente em vias acadêmicas, talvez, do
que Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica. Para ele os oráculos promoviam
36
uma ligação direta entre a mente inconsciente e a consciente, sendo assim, este
oráculo promovia uma forma de se comunicar com o que estava escondido, com
nossos traumas, medos, padrões ocultos, nossas verdades mais internas através dos
símbolos encontrados em cada carta, como constam nos escritos de Sallie Nichols em
“Jung e o Taro, Uma Jornada Arquetípica" (2001):
[...] Uma viagem pelas cartas do Taro, primeiro que tudo, é uma viagem as
nossas próprias profundezas. O que quer que encontremos ao longo do
caminho é, aufond, um aspecto do nosso mais profundo e elevado eu[...].
(NICHOLS, Sallie.,2001, p. 12)
Veet Pramad, tarólogo renomado, por sua vez, no livro que escreveu “ Curso de
Tarô e Seu Uso Terapêutico “ (2011) fala que o Tarô possui 78 cartas ou “Arcanos”,
divididas em três “Classes”: Arcanos Maiores (22 cartas), Arcanos Menores (40
cartas) e Cartas da Corte (16 cartas), atribuindo-lhes as respectivas letras hebraicas,
que constituem os “Caminhos” da “Árvore da Vida” da Cabala, assim como os signos
astrológicos em uma fiada unilateral, conforme o quadro abaixo retirado do livro de
Regardie (1978).
37
Figura 5: O Tarô e os Caminhos da Árvore da Vida
Fonte: Livro Um Jardim de Romãs- Israel Regardie.
Segundo ele, a primeira “Classe” está relacionada aos grandes arquétipos do
“inconsciente coletivo”, a segunda com as circunstâncias e fatores que podem
influenciar na vida de cada indivíduo, e a última sendo uma representação de
dezesseis tipos de personalidade arquetípica ou máscaras que o indivíduo pode
assumir.
A viagem arquetípica sugerida por Nichols (2001), também abordada por
Pramad (2011), vale-se do uso dos “Arcanos Maiores”, constituindo 22 cartas em
sequência, que contam a história da alma humana através de imagens alegóricas, que
transbordam simbolismo. A jornada da vida humana começa com o “Arcano 0”, “O
Louco”, e termina com o “Arcano XXI”, O Mundo”.
Fazer uma análise de cada um desses “Arcanos” é necessário para que
possamos compreender os gatilhos psicológicos que nos elevam ao sagrado. Há
38
vários tipos de tarô, contudo em nossa análise utilizaremos o tarô de Marselha, por ser
um dos mais antigos e ter formas e cores simples, o que tornará a análise mais limpa.
Figura 6: Arcanos Maiores do Tarô de Marselha
Fonte: www.bridgetopeaceproject.com
A jornada começa com “O Louco” ou “Arcano 0”. Pramad (2011) diz ser esta
carta a necessidade de entrar em contato consigo mesmo descobrindo novos
potenciais e habilidades; vemos o bebê dentro do útero, bem como a posterior
criança, sem realizações práticas, que apenas cresce e desenvolve-se de forma
espontânea dentro do útero materno, até o momento de seu nascimento.
Ao nascer a criança começa a se mexer, bem como também seus processos
mentais começam a ser construídos, então “O Mago” ou “ Arcano I”. Este é o “Mago”
que demonstra a milagrosa realidade interior abordada por Nichols (2001), no caso
vivida pelo bebê, e que Pramad (2011) verbaliza como as atividades mentais
inerentes aos pensamentos, o intelecto, bem como as oportunidades futuras que
precisam ser aproveitadas.
Ao passo que sua mente é formada, também o bebê começa a sentir, tendo
uma primeira percepção ao mundo fora do útero, que o cerca, “A Sacerdotisa” ou
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“Arcano II”. Em silêncio o bebê ouve o que acontece ao seu redor, e também seu
coração, sonhando, como conta Pramad (2011).
Ao irromper no mundo da matéria, a primeira pessoa com quem de fato o bebê
entra em contato é sua mãe, “AImperatríz” ou “Arcano III”, que mostra seu rosto gentil.
Normalmente a segunda pessoa é o seu pai, “O Imperador” ou “ Arcano IV”; sobre eles
Nichols (2001) deixa bem claro:
[...] A IMPERATRIZ e O IMPERADOR, simbolizam os arquétipos de Mãe e
do Pai em escala grandiosa...Como crianças, todos vimos, provavelmente,
nossos pais entronizados como a “boa” mãe “nutriz” e “protetora”, e como o
“onisciente”, “corajoso” e “poderoso” pai [...]( NICHOLS, Sallie., 2001, p.
24-25)
Ao crescer a criança é ensinada e aprende com os exemplos de seus pais.
Grava as doutrinas, o que lhe falam, lhe mostram, e sabe que por detrás de cada uma
dessas coisas, que, intuitivamente, há uma verdade maior, é a comunicação universal
entre todos os seres. E assim se expressa “O Hierofante” aprendendo e ensinando, na
ótica de Pramad (2011)
Já na adolescência a não mais criança depara com um dilema, as escolhas,
que são “Os Enamorados” ou “Arcano VI”. Ele deve escolher entre o vício e a virtude,
entre o amor maternal e o sexual; nesta etapa sabe que precisa fazer uma escolha
que mudará sua vida.
[...]Aqui se vê um jovem paralisado entre duas mulheres, cada uma das quais
parece requisitar-lhes a atenção, senão a própria alma...acima e atrás do
Enamorado, um deus alado munido de arco e seta está prestes a infligir lhe
um ferimento mortal, que talvez lhe solucione o conflito...Eros, é,
naturalmente, uma figura arquetípica, e assim também e o moço. Este
personifica um ego jovem. O ego é tecnicamente definido como o centro da
consciência. E quem, em nós, pensa e fala de si mesmo como “eu”[...](
NICHOLS, Sallie., 2001, p. 26)
Tendo optado por um caminho deve segui-lo sem olhar para trás, e começa a
se desapegar de tudo aquilo que não faz mais sentido em sua vida. “O Carro” ou
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“Arcano VII” é pilotado andando somente para frente, e assim o adolescente se torna
mais independente e livre para voar.
[...] O CARRO, vemos que o herói encontrou um veículo para transportá-lo
em sua jornada, pilotando por um jovem rei. Quando o jovem rei aparece em
sonhos e mitos, costuma simbolizar a emergência de um novo princípio
diretivo[...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 27)
Ele aprende que, com o tempo vem responsabilidades e exigências externas
chegarão, e nesta hora aparece “A Justiça” ou “ Arcano VIII”. Ela cobra que ele não
deixe de seguir aquilo que acredita, ao passo que deve equilibrar o que sente por
dentro e o que é pedido pelo exterior; Pramad (2011) nota também os efeitos
construtivos desse tipo de atitude inerente à culpa de antigos erros, deixando-os no
passado, entrando o indivíduo em harmonia consigo mesmo.
Esse sentimento o ajuda a se autoconhecer, analisar o que sente, o que deixa
passar despercebido, e assim vemos “O Ermitão” ou “Arcano IX” acendendo a
lâmpada numa noite escura, continuando sua busca. Aqui vemos grandes reflexões
exprimidas na análise de Pramad (2011) relacionadas à procura e conhecimento de si
mesmo, o indivíduo percebe que o que procura está dentro de si e não fora, o mesmo
que Nichols (2001) expõe:
[...] carrega uma lanterna. Se o herói já não puder encontrar a iluminação que
procura dentro de uma religião estabelecida, esse frade pode ajudá-lo a
encontrar uma luz mais individual [...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 28)
Pramad (2011), nesta etapa, aponta que as coisas entraram num grande ciclo,
uma grande espiral, que se encaminha rumo aos céus, “A Roda da Fortuna” ou “
Arcano X” e as mudanças ocorrem, e o jovem tem que aprender a completar o que
começa a encerrar etapas e não alternar de caminho em caminho, mas avançar em
direção à si mesmo para evoluir em todos os aspectos de sua vida
Para viver com amor, ele precisa de tesão, e se entrega à “A Força” ou “ Arcano
XI”. Agora ele faz tudo com carinho, com atenção, com mais vivacidade, aprende a
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força do sexo e da vida; Nichols (2001) fala de uma dama que doma um leão, essas
duas figuras a integração e entendimento de seus aspectos animais e humanos, seus
instintos e sua razão.
Com toda essa pressão, “O Enforcado” ou “Arcano XII” ensina ao, agora,
homem adulto a se aceitar como é, a saber que ele pode muito bem ser quem quer
ser, independente das exigências externas. Pramad (2011) vislumbra esse homem
aceitando suas ideias, sentimentos, fraquezas e aprende com tudo isso, mesmo
sabendo que pode acarretar certos sacrifícios, como de seu ego, sendo importante
apenas manter-se fiel à si. Somente deste jeito ele pode deixar morrer sua parte
inferior, os velhos padrões que não lhe servem mais, suas máscaras, deixando-os no
cemitério do “Arcano XIII”, “ A Morte”.
Aos poucos o homem aprende a fluir com as coisas que acontecem, fazendo o
menor esforço e o máximo de aproveitamento, revela Pramad (2011), quando desvela
a “A Temperança” ou “ Arcano XIV”, mostrando que há tempo para tudo, que pode se
divertir, trabalhar, brincar, viver um dia de cada vez, indo de encontro ao seu centro,
como fala Nichols (2001):
[...] É um anjo ocupado em deitar o líquido de um vaso em outro. Nesse
ponto, as energias e esperanças do herói voltam a fluir, numa nova direção.
Agora ele está pronto para voltar suas energias mais conscientemente na
direção do mundo interior. Ao passo que antes buscava o desenvolvimento
do ego, sua atenção volta se agora para um centro psíquico mais amplo, que
Jung denominou o “eu” [...]( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 28)
Mesmo indo em direção à si mesmo, o indivíduo precisa tomar cuidado com “O
Diabo” ou “ Arcano XV”,pois ele rege os impulsos e instintos que podem atrapalhar ou
facilitar a jornada.
[...] diz Jung: As execráveis forças instituais do homem civilizado são
imensamente mais destrutivas e, portanto, mais perigosas do que os instintos
do homem primitivo, o qual, num grau modesto, vive constantemente instintos
negativos [...] ( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 274)
42
A vida o ensina que o que tudo aquilo que não construímos em bases sólidas
do nosso mais verdadeiro eu cai por terra. Pramad (2011) evidenciou bem esse
aspecto, para que todas as prisões internas e externas sejam atingidas pelo raio da
verdade como “A Torre” ou “ Arcano XVI”.
Agora ele compreende que a visão de mundo que tinha precisa ser
reformulada, dando margem à uma revisão de categorias, pois as antigas só o faziam
sofrer, e a esperança da “A Estrela” ou “ Arcano XVII” brilha em seu coração.
[...] a tarefa da Mulher Estrela parece ser de separação e redistribuição. Ela
talvez esteja separando os elementos arquetípicos do inconsciente da
essência mais pessoal, para que a consciência do ego não permaneça
inundada por material com o qual não está presentemente em condições de
lidar. Devolve a essência arquetípica ao rio coletivo compartilhado por toda a
espécie humana; derramando a mais pessoal na terra seca da realidade
cotidiana para estimular nova vida e crescimento [...] ( NICHOLS, Sallie.,
2001, p. 316)
Pramad (2011) foi intenso ao dizer que após o Arcano anterior o ser adulto
começa a perceber seu inconsciente, de seus traumas e medos e adentra ao reino da
“A Lua” ou “Arcano XVIII”. Aqui ele não tem outra escolha a não ser atravessar a ponte
de sua sombra e criar uma relação com ela e com tudo o que ela representa,
trabalhando todos os aspectos obscuros de seu ser, caso contrário ficará preso em
seu próprio nevoeiro.
Somente encarando seus medos, aceitando-os e conversando com eles o
homem pode se autoconhecer, e encontrar sua verdadeira face, se individualizando,
encontrando seu “eu”, e desta forma a noite acaba e o dia traz os raios do “O Sol” ou
“Arcano XIX”.
[...] quando o Sol está no zênite, voltamo-nos para o interior, a fim de
redescobrir a criança perdida dentro de nós e relacionar-nos com ela de
maneira mais consciente, curando o estado de alienação interna imposto pela
civilização. O Sol retrata a re-conexão ao herói como seu eu negligenciado,
43
que traz consigo uma experiência direta da divindade iluminadora e da vida
transcendente [...] ( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 340)
O grande despertar acontece pelo “O Julgamento”, “Arcano XX”,que faz com
que ele reconheça que precisa ser independente, e abrir os olhos para expandir sua
consciência, entendendo qual sua missão na terra. Por fim, ele sabendo de tudo o que
é e não é, e de sua tarefa, consegue se auto realizar por completo, e se eleva aos
planos maiores, ascendendo a outros planos.
[...] Aqui um anjo com uma trombeta irrompe na percepção do herói num
glorioso esplendor de luz para despertar os mortos adormecidos. Na terra,
embaixo, um moço levanta-se do túmulo enquanto duas figuras mais velhas
se veem por perto em atitudes de prece e de assombro diante do milagroso
renascimento [...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 29)
No “O Mundo” ou “Arcano XXI” a jornada iniciada com “O Louco” chega ao fim,
pois ele aprendeu a completar sua missão e se auto realizar. Aqui através de um
trabalho continuo para aumentar sua consciência até expandi-la além dos limites
humanos, ascendendo à esferas de percepção maior, como Jung falava, na análise
de Nichols (2001).
Esta “Jornada do Louco”, como é chamada, mostra a manifestação do homem
no plano da matéria, e a longa jornada que é a vida em busca da volta à união com o
divino, com o “Uno”. Nos edifícios religiosos, a natureza de cada uma das cartas da
sequência apresentada, pode ser vivida por todos os seres humanos; no Cristianismo,
a “Jornada” é expressa na vida de Jesus, desde a anunciação de seu nascimento até
sua morte e posterior ressurreição, geralmente expressa através das pinturas e vitrais
encontrados nas igrejas e até mesmo nos quadros da Via Sacra6.
Os “Arcanos Menores” também recebem relevância, visto que eles tratam dos
quatro elementos primordiais da matéria (fogo, água, ar e terra), que se conjugam com
6 Via Sacra série das 14 estações, constituídas de quadros ou esculturas que representam as
principais cenas da Paixão de Cristo.
44
a numeração de cada carta, de um à dez, representando diferentes estados de
consciência ligados ao elemento em questão. Pramad (2011) revela que o elemento
fogo está intimamente ligado à forma com que agimos no mundo, nossos impulsos e
criatividade, a água diz respeito à nossas emoções e sentimentos, o ar à nossas
mentes e pensamentos, e a terra equivale à vida material, inerente à dinheiro e saúde.
Na arquitetura sacra eles encontram ainda um paralelo relevante, pois cada um
dos elementos torna-se presente no espaço religioso, como bem evoca a citação
abaixo:
[...] A terra- sólida, escura e inanimada- claramente relaciona-se com a
caverna. O ar relaciona-se com o espaço e a luz, ou àquilo a que me refiro
clareira. O fogo não se refere ao fogo aberto queimando na lareira...mas sim
a energia do sol que se transforma ao ser absorvida pelas plantas...A água é
a água, a fonte suprema de nosso ser [...] (BANGS, Herbert., 2010, p.167)
Por todo este arcabouço de cunho psicológico, embebido de metafísica,
pudemos compreender a relação dos vários “arquétipos” e de como eles se
expressam no mundo físico, e de sua importância nos edifícios religiosos para
enaltecer nossa alma em direção ao divino. A Natureza material também é mestra,
pois ela permite conhecer como funciona o mundo, estando os seres humanos
conscientes no espaço, permeado de formas e cores que aguçam a imaginação,
fazendo com que “O Todo” possa ser entendido, assim como a alma humana.
3. PRINCÍPIOS SIMBÓLICOS DA ARQUITETURA RELIGIOSA
Se no capítulo dois do presente trabalho foram abordadas as bases metafísicas
pelas quais o universo e a alma humana foram formados pela “Consciência
Universal”, utilizando-nos do método da Cabala, agora será visto de forma mais
prática como os edifícios religiosos nos permitem ter uma percepção superior do
45
sagrado pelos estudos dos princípios áureos que regem seu traçado, geometria e
forma, garantindo à eles harmonia e beleza ímpar, transcendental.
Através da experiência adquirida pelos cinco sentidos percebemos o espaço e
as formas ao nosso redor, captadas por nossos órgãos receptores. Mitchell (2008)
apresenta a psicofísica dividindo os quatro atributos da modalidade sensorial, à
exemplo da cor, que possui características de qualidade (a cor em si), intensidade (na
tonalidade de cor), extensão (área de atuação da cor) e duração (exposição à cor).
Na Psicologia Clássica, temos um ramo que se chama de Gestalt que trata de
estudar a percepção das formas e de como elas influenciam a mente humana. Mitchell
(2008) aponta que no processamento dos sentidos figura e fundo podem não ficar tão
nítidas, confundindo-se, tal fenômeno foi constatado pelo psicólogo Edgar Rubin, em
seu experimento, “O Vaso de Rubin”, no qual colocou o objeto em questão na frente
de um fundo uniforme, revelando uma outra realidade, que não a imediata, de duas
faces humanas.
Figura 7: Experimento “O Vaso de Rubin”
Fonte: illusioniottiche.wordpress.com, 2016.
As formas funcionam como gatilhos psicológicos para que possamos
compreender o mundo objetivo e subjetivo através de nossa mente. Neste campo da
46
percepção humana sobre o espaço e forma, além de contarmos com nossa
experiência, precisamos conhecer dois princípios que pautam a apreensão do
ambiente ao nosso redor, eles são o princípio de abdução e o princípio da compleição.
Figura 8: Ilustração do princípio da compleição
Fonte:dcmhci.wordpress.com , 2016.
Jun Okamoto, arquiteto e escritor, abordou esses conceitos em sua obra
“Percepção Ambiental e Comportamento” (1997). Sobre o primeiro princípio, o autor
explica se tratar de um conceito análogo de um sistema para o outro, permitindo que
tenhamos semelhanças entre as novidades e o que já fora visto anteriormente. O
segundo princípio é derivado da necessidade psicológica de completarmos aquilo que
está incompleto, dando margem à nossa imaginação e sentimentos como ocorre
também na arquitetura.
[...]Também na Arquitetura os projetos que causam emoção e tocam a
imaginação dos usuários são aqueles que insinuam e exaltam a imaginação
dos usuários, forçando-os a completar com imagens e sentimentos
evocativos. São espaços que nos tocam. Estes jamais serão esquecidos [...]
(OKAMOTO, Jun. 1997, p.148)
Outros dois fenômenos da Gestalt são o de proximidade e simplicidade,
abordados por Mitchell (2008),eles falam sobre objetos próximos uns dos outros
serem agrupados em uma unidade.
47
Como já adentramos no mérito da percepção e de como enxergamos
sensorialmente o mundo, iremos mergulhar nos princípios básicos que estruturam a
forma, procurando entender quais as mensagens ocultas e os sentimentos que em
nós elas provocam.
A palavra “forma” tem vários significados, mas por estarmos trabalhando no
campo da arquitetura, adotaremos o conceito usado no livro de Francis D. K. Ching
“Arquitetura Forma espaço e Ordem” (2005):
[...]Em arte e projeto, frequentemente utilizamos o termo para denotar a
estrutura formal de um trabalho- a maneira de dispor e coordenar os
elementos e partes de uma composição de forma a produzir uma imagem
coerente[...] (CHING,Francis D. K. 2005, p.34).
Bangs (2010) nos diz que arquitetura religiosa da antiguidade foi erigida sobre
as bases de uma geometria conscienciosa, na qual as formas assumiam a função de
impressionar os seus frequentadores e transportá-los à uma condição mais sublime
de existência. Para isso os arquitetos antigos valiam-se de cores, texturas e
principalmente de formas variadas, para compor ambientes que facilitassem este
contato, por via direta ou subliminar.
A forma é de suma importância, pois ela é uma grande comunicadora das
experiências vividas em uma determinada época, bem como também das visões e
impressões espirituais de seus projetistas, que por sua percepção usavam a intuição
aliada à harmonia e proporção, que são a essência daquilo que é considerado belo,
como afirma R.H. Wilenski (1927 apud MITCHELL, 2008), crítico do início do
Modernismo:
[...]o arquiteto experimenta, sintetiza e cria; experimenta proporções,
equilíbrio, linhas, rebaixamentos, e assim por diante, coordenando e
organizando sua experiência, e conferindo uma forma definitiva a um
edifício...Ele se ocupa do primeiro ao último problema de relações formais[...]
(MITCHELL, William J., 2008, p.13)
48
Antes de nos ocuparmos com o estudo da simbologia dos traçados e formas,
e para que estas possam ser organizadas no espaço religioso de modo a garantir
harmonia entre as partes do edifício e seu todo, gerando templos belos e graciosos
capazes de arrebatar nossas almas, analisaremos princípios como ritmo, simetria,
proporção, escala, hierarquia e polaridade.
A palavra ritmo se origina do grego “rhytmos” e está associada à ideia de
repetições de elementos, lembrando um movimento regular, como numa dança,aos
olhos de Mitchell (2008). Tais motivos estão dispostos em intervalos regulares ou
irregulares, obtidos ao acompanharmos a repetição com nossos olhos ou ao passo
que nos movimentamos, modificando nossa perspectiva.
A simetria, por sua vez, está relacionada à organização equilibrada dos
padrões equivalentes de formas e espaços em lados opostos de uma linha ou plano
divisório, ou em relação ao centro do eixo,como reflete Ching (2005). A palavra adveio
também do grego, “symmetria”, usada pelo escultor Polyclitus desde o século V a.C,
como Mitchell menciona:
[...]A simetria poderia ser alcançada, segundo Polyclitus, relacionando-se
todas as partes de uma escultura entre si e com o todo, por meio de um
sistema apropriado de proporções. Daí sua famosa afirmação de que “a
perfeição provém de diversos números [...] (MITCHELL, William J., 2008,
p.42)
Os princípios de proporção e escala devem ser estudados juntos, pois eles
equilibram um ao outro, só assim podemos compreendê-los de um ponto de vista mais
geral. Bangs (2010) acreditava a proporção como a essência da arquitetura, pois ela é
governada por leis matemáticas que fazem parte do vasto campo de estudo
encontrado na geometria. Para ele, a proporção guardava em si a ideia de razão, de
comparação entre as partes separadas e o conjunto da obra.
Figura 9: Panteão- Vista frontal, lateral, corte e planta baixa- ilustração de ritmo, simetria, hierarquia,
polaridade, proporção e escala
49
Fonte: historiadaarte.pbworks.com, 2016.
A escala não é muito diferente, pois é a relação dimensional entre o edifício e
um padrão, como defende Tedeschi (1969 apud OKAMOTO, 1997). A escala pode
valer-se das proporções humanas, nesse caso é chamada de “escala humana”, ou
não, a mais comum usada é a “escala monumental”, destinada para grandes
ambientes.
Sob a ótica de Okamoto (1997), a proporção e escala dos edifícios
desempenham um significado mais agudo principalmente no que tange aos edifícios
religiosos, pois neles encontramos amplo uso da verticalidade, representando a
ascensão no espaço espiritual do templo, valendo-se do que ele chama de “escala
psicológica”.
Quando medimos o grau de importância e diferenciação entre formas e
espaços, nos seus mais diferentes atributos, sejam eles funcionais, formais e
simbólicos que desempenham na organização, estamos falando de hierarquia. Esta
50
tem a função de destacar uma forma arquitetônica, devendo ter tamanho excepcional,
formato único e uma localização estratégica, segundo nos relata Ching (2005).
Tudo no universo tem polos, é assim que a natureza se manifesta. Nos
templos a polaridade é notável, nesses espaços sagrados dançam luz e sombra, a
primeira representando consciência e clareza, enquanto que a segunda o
subconsciente e escuridão.
Sobre este assunto, Bangs (2010) opina quando ao relatar que por muito
tempo o aspecto “sombra” vem sido negligenciado, o que está ligado a este aspecto
lembrar da caverna e o medo do escuro, funcionando como uma rejeição ao feminino,
em detrimento da lógica racional apolínea de espaços extremamente iluminados. A
forma encontra na polaridade um caráter mais sexual, aonde pilares redondos são a
representação do órgão genital masculino, enquanto que os arcos ora sinuosos ora
tênues sugerem a representação de uma vulva, verdadeiros portais.
3.1. Matemática, Números, Geometria e Formas Sagradas
O significado dos números varia ao redor do mundo, conforme suas
respectivas culturas. Como este trabalho centra-se na visão místico filosófica
judaico-cristã, continuaremos utilizando a simbologia numérica associada à Cabala,
cada esfera representando as características de cada número.Os números originam
as formas, e estas são constituídas de elementos básicos, que guardam significado
conforme nosso subconsciente os concebe.
É a partir do número um que temos a manifestação da primeira Esfera,
Kether, simbolicamente, um ponto que marca a posição no espaço, não tendo
comprimento, largura ou profundidade, centralizado e sem direção.
51
Essa concepção é de Ching (2005), que também lança a noção de reta como
dois pontos que se unem, podendo ter o segmento de comprimento finito ou ser
considerado como uma parte de uma trajetória mais longa. Neste caso a reta
representa o número dois, como a Esfera subsequente do sistema cabalístico, uma
força que se prolonga ao infinito.
Figura 10: Partenon, Grécia- Ilustração sobre as interpretações fisiopsicológicas das retas
Fonte: thinglink.com, 2016.
Bruno Zevi, postula sobre as interpretações fisiopsicológicas das retas com
seu “Saber Ver a Arquitetura” (2002). Para ele, elas dão a ideia de rigidez e força, se
horizontais exprimem racionalidade, estabilidade, constância e equilíbrio, já as
verticais projetam-se ao infinito dos céus, dando margem ao êxtase e emoção; linhas
inclinadas sugerem desequilíbrio, enquanto que as helicoidais denunciam a ânsia de
ascensão, desprendimento ou libertação do plano da matéria.
Prossegue o autor com o simbolismo do círculo, que passa o conceito de
equilíbrio, do controle sobre todos os elementos da vida, enquanto que a esfera,
cúpulas e semi cúpulas conotam perfeição, lei final e conclusiva, já a elipse, que se
desenvolve em torno de dois centros, nunca permite que a vista repouse, tornando-a
móvel e irrequieta.
Figura 11: “Deus como um arquiteto”, Pintura de William Blake
52
Fonte: oleniski.blogspot.com.br, 2016.
Sua simbologia também está ligada à ideia do cosmos, da criação, por ser a
forma geométrica mais básica, dando origem a várias outras figuras; Bangs (2010)
enaltece o instrumento para traçar o círculo, o compasso, associando-o na cultura
ocidental à criação do mundo por Deus, que o segura.
A esfera e demais formas similares geradas são obtidas através da revolução
do círculo em torno do diâmetro, relata Ching (2005). Misticamente demonstra o
Macrocosmo (o Universo) assim como o Microcosmo (o homem), pelas referidas
atribuições dadas na publicação de Alberto Pennick,“Geometria Sagrada, Simbolismo
e Intenção nas estruturas religiosas” (1980).
Com o número três evoca a figura do triângulo, explicitada na obra de Bangs
(2010) como símbolo da unidade indiferenciada. Representa a antiga Trindade
53
encontrada em todas as religiões; no cristianismo representa o Pai, o Filho e o Espírito
Santo7.
Figura 12: Formas geométricas básicas
Fonte: www.desenhoonline.com.br, 2016.
A forma seguinte é a do quadrado, que possui quatro ângulos retos, cujas
dimensões são iguais. Sua simbologia implica na forma do cubo, dando a noção de
construção, organização, estabilidade, segurança e integridade observadas em Zevi
(2002). Além disso, o quadrado traz à tona a figura da cruz de braços iguais, símbolo
dos quatro elementos; para o Cristianismo, esta forma suscita Jesus, que fora
crucificado sobre o quadrado da materialidade, como complementa Bangs (2010).
No número cinco iremos encontrar uma relação de formas compostas
apresentadas em Ching (2005) como é o caso da pirâmide, que é um poliedro cujas
faces triangulares se encontram em um ponto comum ou vértice. Ela está diretamente
associada aos quatro elementos da matéria, representados por seus lados
triangulares e base quadrada, acrescida do espírito, que é o cume da forma em
questão, simbolizando a quintessência em Bangs (2010). Outra atribuição do número
cinco é a forma do homem pitagórico pintado por Leonardo da Vinci (1452-1519, que
encontra paralelo anterior em Vitruvio8, dentro da figura de um círculo com braços e
7 Pai, Filho e Espírito Santo constitui a Trindade Cristã.
8 Vitruvio foi um arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I a.C, no período do Imperador
Augusto, deixando sua obra em 10 volumes chamados de “De Architectura.
54
pernas abertos, imagem que nos lembra o pentagrama, estrela de cinco pontas
circunscrita.
Figura 13: O homem vitruviano- Arte de Leonardo Da Vinci, modificada
Fonte:www.sitedecuriosidades.com, 2016.
Pennick (1980) representa o hexágono como uma figura que possui seis
lados, composta de triângulos equiláteros que se interpenetram de forma inversa
tocando-se nos mesmos pontos, simbolizando a fusão dos opostos, além do poder da
criação divina e inteireza, bem como harmonia, sendo amplamente utilizado pelos
judeus.
Figura 14: O sigilo dos sólidos platônicos: um triângulo equilátero circunscrito no Selo de Salomão.
Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980.
55
Para as demais formas obtidas, como os sólidos platônicos, utilizamos a
vesica piscis9, produzida a partir de dois círculos de igual tamanho quando traçados
um a partir do centro do outro. Pennick (1980) prossegue falando que a vesica piscisé
uma derivação do triângulo equilátero e da linha reta que parte do círculo, guardando
o simbolismo do órgão genital da Deusa Mãe, como ponto físico da origem da vida,
inerente ao nascimento do templo religioso, analogamente ao nascimento do sol;
Bangs (2010), inclusive, compara a vesica piscis a uma semente, a partir da qual
outras formas são obtidas, como uma grande árvore em crescimento.
Figura 15: Vesica piscis
Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980.
A secção dourada é uma razão utilizada na produção da arquitetura sagrada
da antiguidade, inerente ao Egito e Grécia. Os edifícios desses lugares eram
formulados por retângulos de raiz, também conhecidos como retângulos áureos,
produzidos através de um quadrado e um compasso:
[...] O seguinte, o retângulo V2, é produzido a partir do quadrado por meio do
simples expediente de se colocar o compasso no comprimento da diagonal e
9 Vesica Piscisé a forma gerada pela intersecção de dois círculos de mesmo raio, em que o centro de
cada circunferência está sobre o perímetro da outra.
56
fazer a linha de base encontrar a linha traçada a partir daquele vértice. Esse
procedimento toma o comprimento do lado longo igual à raiz quadrada de 2,
tomando o lado curto como unidade. O retângulo V3 é produzido da diagonal
desse retângulo, e assim por diante[...] (PENNICK, Nigel.1980, p.25)
Esses retângulos também podem ser reduzidos a partes muito menores como
explicita Pennick (1980), sendo partes do todo. Fala ainda que a proporção e a
comensurabilidade das formas arquitetônicas harmônicas, é nada mais que geometria
traduzida em som pela música, traçando uma relação entre ela e a proporção dos
edifícios.
Figura 16: Quadrados áureos
Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980.
Figura 17: Razões áureas do Partenon
57
Fonte: www.avaad.ufsc.br, 2016.
Há também os retângulos, classificados em estáticos e dinâmicos, além de
uma terceira forma que combina os dois. O primeiro caso ocorre quando as
proporções expressam números inteiros, já os que são do tipo de raiz são chamados
dinâmicos, garantindo maior flexibilidade, e o terceiro caso é uma junção das
propriedades dos dois anteriores, chamados de quadrado e quadrado duplo e na
diagonal deste último temos a forma de V5, muito usada em edifícios sagrados, sendo
diretamente do retângulo de raiz dois ou de raiz quatro ao retângulo de raiz cinco
relacionado com a proporção V5+1/2 da seção dourada, como Pennick (1980) deixa
claro. O pentagrama também pode produzir essa razão por estar ligada ao pentágono,
obedecendo a equação V5+1/2=1,618, sendo apresentada pelo postulado:
[...] Em toda progressão ou série crescente de termos que tem como a razão
entre os termos que se sucedem, cada termo é igual à soma dos dois
precedentes. Esta propriedade singular permite a manipulação de toda a
série. Todos os outros termos sucessivos podem ser construídos, a partir de
dois deles, por movimentos simples de compasso[...] (PENNICK, Nigel.1980,
p.25)
58
Figura 18: Série de Fibonacci
Fonte: afaithfulattempt.blogspot.com, 2016.
Tais propriedades foram reproduzidas por vários matemáticos e estudiosos
como Lucas Paccioli (1445-1517) e Leonardo da Vinci (1452-1519), mas ficou mais
amplamente conhecida na Europa por Leonardo Bigollo Fibonacci (1170-1250). A
série de Fibonacci constitui uma formula aditiva na qual, como visto em Pennick
(1980), dois termos anteriores geram um terceiro, encontra-se em vários mitos através
da formosa concha do Nautilus pompilius10, que para os pitagóricos representa a
criação rítmica do cosmos, harmonicamente o amor universal, como nos relata Lawlor
(1996).
[...] A espiral logarítmica acaba por ser sobreposição ao feto do homem e dos
animais, e está presente no esquema de crescimento de muitas plantas. A
distribuição das sementes de girassol, por exemplo, é regida pela espiral
logarítmica do número áureo. Além disto, o girassol possui 55 espirais
orientadas no sentido horário, sobrepostas a 34 ou 89 espirais em sentido
anti-horário. Reconhecemos estes números como parte da série Fibonacci,
que é gerada porΦ[...] (LAWLOR, Robert.1996, p.57)
Prosseguindo com a ideia ele apresenta a série tal que os dois termos
sucessivos tendem a se relacionar na proporção de 1:Φ11, e qualquer dos três termos
10 Molusco marinho da família Nautilídae.
11 Letra grega Φ “Fi” que representa a constante da série de Fibonacci equivalendo a
aproximadamente 1,618.
59
sucessivos é igual à 1:Φ:Φ ² originando um valor de aproximadamente igual à
1,61818. Conforme a Figura 19 da página anterior temos que: 55/34= 1,618; da
mesma forma vemos que 55/21=1,618.
Figura 19:Molusco representado na série de Fibonacci
Fonte: sophiaofnature.wordpress.com, 2016.
Com todos esses princípios formulados a geometria sagrada ganhou
embasamento matemático a fim de comprovar os postulados das formas simbólicas
das construções do passado, fomentando seu caráter oculto.
3.2. As Cores como Símbolos
Vários estudos comprovam o efeito psicológico que as cores possuem, e já
vimos que esses fatores estão presentes em diversos sistemas e oráculos, como os
que residem no capítulo anterior.Para termos uma compreensão mais apurada das
cores, veremos conceitos de luz e vista.
A grande fonte de luz e energia natural que possuímos é sol, embora a
intensidade de seus raios varie com os diferentes horários do dia e as estações,
podendo ser ainda atrapalhado pelas nuvens, neblinas, precipitações, etc. Ao
adentrarem um edifício, os vários matizes de luz solar, devido sua intensidade e
direção, em diferentes horários causam nuances visuais diferenciadas, projetando a
sombra das formas que dentro do recinto existe, conforme Ching (2005).
60
As janelas e portas, dependendo do material de que são feitos e de seu
formato, podem facilitar ou dificultar a iluminação natural, e suas dimensões,
localização e orientação podem ser vitais para uma boa incidência de luz, e as devidas
projeções, que nelas ocorrerão ao serem iluminadas, bem como as consequencias
que disso provém, à exemplo do calor, má ventilação e percepção visual.
Foco, orientação e perspectiva, fazem parte da vista, e são importantes quando
tratamos da forma. O foco é algo que chama nossa atenção, e no caso dos interiores
das habitações pode ser visto como a lareira de Bangs (2010), já nos exteriores pode
ser identificado por uma vista em direção a um espaço adjacente.
A orientação é notada quando à suposição colocamos uma janela translúcida
no canto de um recinto para conferir ao ambiente uma orientação diagonal. Por último
temos a perspectiva, que tem mais haver com a distância e a posição da qual se
observa um certo foco, como no exemplo da janela acima, seja ele uma paisagem
externa.
Figura 20: As cores
Fonte: blogquestaodeestilo.com,2015.
As cores são de suma importância por facilitarem ou não nossa compreensão
dos edifícios religiosos e de como nos sentimos neles, pois são imagens evocativas.
Marie Louise Lacy começa a introdução de seu livro “O Poder das Cores no Equilíbrio
61
dos Ambientes” (2011) com a seguinte pergunta: “ Como e porque as cores
influenciam a nossa vida?”- que prontamente responde quando discursa:
[...]A cor pode transformar, animar e modificar totalmente um ambiente; todos
nós reagimos à cor e, atualmente é possível levá-la a todas as áreas da vida
pelo uso de materiais, tecidos e tintas...As cores que apreciamos são
expressões de nós mesmos, pois em torno de cada pessoa há uma aura de
luz que irradia várias cores. Tendemos a ser atraídos por cores que
complementam a nossa própria aura [...] (LACY, Marie Louise. 2011, p. 13)
O entendimento de como as cores pode nos influenciar através do que
chamamos de psicodinâmica das cores. Wood (1984 apud OKAMOTO,1997) diz:“ o
olho humano interpreta os raios luminosos (energia eletromagnética) através de uma
interação dos nervos óticos com o cérebro, a qual envolve um sistema de bastonetes
e cones de retina, para depois o externalizar como cores. Parece que existem cerca
de 1.000 matizes diferentes e mais de 2.000 tonalidades e nuanças que podem ser
percebidas pelo olho humano”.
Okamoto (1997) fala ainda de dois aspectos das cores, o da percepção e o da
sensação. O primeiro confere ao sujeito as informações vindas dos objetos pelas
cores, enquanto que a segunda anima aguça a imaginação sobre as figuras, o que
Goethe interpretava como a ação e a paixão, respectivamente.
As texturas e padrões também nos influenciam, como é ressaltado por Danby
(1963 apud OKAMOTO, 1997) ao dizer que eles são meios adicionais de percepção
das cores de maneiras distintas em uma superfície, seja de pequena escala, no caso
das texturas, ou de grande escala como são os padrões, o que também é percebido
na arquitetura:
[...] No âmbito da Arquitetura, a textura e os padrões, no fundo, são definidos
pelas escolhas e especificações dos materiais de construções e
revestimentos. Pela distância e pelo movimento constante que o homem faz
nos ambientes, os valores de percepção dos padrões, que dependem dos
materiais que se destinam para o ambiente, passam a ser o aspecto mais
importante[...]” (OKAMOTO, Jun. 1997, p.156)
62
Ao tocar neste assunto, estamos levando em consideração a natureza dos
materiais construtivos aplicados à forma, que para além de suas propriedades físicas,
apresentam significado psicológico. Entre os materiais artificiais e naturais, estes
últimos se destacam quanto a significância, devido serem retirados de sua fonte
primária, o que confere à eles qualidades especiais, como vemos na citação:
[...]Pedra não é apenas pedra e madeira não é apenas madeira. Cada
material, especialmente aqueles que nós como espécie que tem uma tradição
viva e continua, usamos durante os últimos milênios, tem uma significação
esotérica e arquetípica que podemos compreender por meio da meditação e
da introspecção[...] (BANGS, Herbert. 2010, p.188)
Vejamos agora a influência de cada uma das principais cores e seus
significados mais gerais, de uma imagem retirada da referência utilizada
demonstradas abaixo:
Figura 21: Aspectos positivos das cores
Fonte: O Poder das Cores no Equilíbrio dos Ambientes,2015.
4. O SAGRADO NOS TEMPLOS: ESTUDOS COMPARATIVOS
63
Após entender os mecanismos pelos quais o sagrado é compreendido nos
templos através da função evocativa dos símbolos e de conceitos baseados em outros
ramos de conhecimento como psicologia, cabala, e afins, adentrar-se-á agora à
análise mais aprofundada de quatro templos religiosos: A Basílica de Nazaré, Templo
da Assembleia de Deus, Sinagoga Shaar Ha-Shamaim e por fim Igreja de Santo
Alexandre.
4.1.A BASÍLICA DE NAZARÉ: O REINADO DOS CÉUS NA TERRA
4.1.1. Histórico e Pesquisa
A Basílica Santuário de Nazaré está extremamente ligada ao culto à Nossa
Senhora de Nazaré, que tem seu legado advindo desde Portugal e que chegara ao
Brasil pelos padres jesuítas e ao Pará, posteriormente, embalada pela história do
caboclo Plácido que encontrou a estátua da Santa à beira de um Igarapé, e que com a
ajuda de seu amigo Agostinho construiu uma Ermida de palha, abrindo um grande
quadrilátero que compreendia o Largo de hoje, além do terreno da basílica e da casa
dos Padres e parte do terreno do quartel até o igarapé das pedras ou da Santa.
Através do Padre Luiz Zoia, visitador da ordem dos Barnabitas no Brasil em
1908, foi que a sugestão de construir uma nova matriz surgiu, a qual ficaria ao lado da
antiga para não interromper o culto, sendo uma redução da Basílica de São Paulo
Extra Muros em Roma, como aponta o “Guia da Basílica Santuário de Nazaré” (1978).
Auxiliado pelos arquitetos Coppede e Pedrasso, de Gênova, fizeram os
esboços e demais desenhos. Padre Luiz teve grande importância para a construção
64
da Basílica, expedindo plantas e materiais da Itália, além de organizar os processos
da construção, tendo assistência na parte decorativa de engenheiros como
Acatauassú Nunes, Tiago Bolla, Julio Tropinoe da Marmífera Lígure Italiana.
No terceiro Domingo de Outubro de 1909 a primeira pedra foi colocada, em
menos de 5 anos a Basílica já estava no arcabouço12, além de cripta13, tesouras14,
vigamentos15 e cumeeiras16 através do comando do padre Emílio M. Richert ajudado
pelo padre José Lanzi, que era mestre de obra. Além deles, em 1918, tivemos a
participação do padre Afonso di Giorgio que recebeu a igreja completamente nua e a
ornamentou de mármores, mosaicos e vitrais, bem como revestimento e
embelezamento da obra levando até 1962, ano em que morreu.
A Basílica representa o reinado dos céus na terra, tutelado pela padroeira da
cidade de Belém, Nossa Senhora de Nazaré. Neste templo a função Sagrada do
edifício faz-se presente pelas simbologias encontradas desde a sua fachada até o seu
interior, ricamente ornamentado de pinturas, esculturas e cores ricas que se
comunicam com o inconsciente coletivo de todos os seus visitantes.
Com as pesquisas realizadas no templo religioso e entorno, na Praça
Santuário, Bairro de Nazaré, os resultados mostraram-se mais relevantes quanto à
representatividade do sagrado do edifício, repleto de símbolos a começar pelo
formato. Este templo é um símbolo vivo da fé encontrada em Nossa Senhora de
Nazaré, aqui as imagens, esculturas e demais caracteres mostram ser de vital
importância para que a percepção do ambiente divino sirva como ponte para alcançar
a comunhão com Deus e as bênçãos e proteção da Senhora de Nazaré.
12 Arcabouço ou esqueleto é o conjunto dos elementos estruturais da edificação ou de partes desta.
13 É um ambiente subterrâneo, em geral sob a cabeceira de uma igreja.
14 Tesoura ou asna são peças de madeira inclinada que liga a parte inferior do pendural à empena.
15 Conjunto de vigas de uma construção.
16 É a parte mais alta do telhado, onde se encontram as superfícies inclinadas.
65
4.1.2. Planta baixa
A Basílica, cujo estilo é neoclássico, apresenta-se com cinco naves, divididas
por 36 colunas de puro granito italiano, sendo uma reprodução da Basílica de São
Paulo Extra Muros,em Roma, com os mesmos 20 metros de altura, e cujas torres se
projetam a 42 metros, já o comprimento é de 62 metros e 24 de largura,
correspondendo a metade da Basílica Pontifícia.
O formato da planta é em cruz latina com os espaços impressos de
simbolismos por seus pisos, colunas e arcos, divididos por suas naves central e lateral
(esquerda e direita). Ambas são espaços de meditação, na central há maior número
de bancos para os fiéis assistirem às missas e fazerem suas orações, é um local de
silêncio, recolhimento e contemplação no qual a visão para o altar mor é desobstruída,
sendo este o principal símbolo da parte interna da igreja, como discursaremos mais
tarde.
Nas naves laterais de ambos os lados temos a presença de capelas
diferenciadas por sua ornamentação, que ao fundo exibem mosaicos de santos e
motivos religiosos, e acima delas vitrais que mostram os milagres de Jesus.Elas estão
entre colunas nas quais fixados estão quadros cujo formato lembra a fronte de um
edifício romano, que representam as diferentes estações da via sacra. Alternando
com as capelas há confessionários feitos em madeira, cujos símbolos de cruzes
representam a remissão dos pecados.
Figura 22: Esboço planta baixa da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré
66
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
O ambiente da sacristia que possui 20 metros de largura por 10 de
comprimento tratando-se de uma construção cúbica, analisada posteriormente, é
separada das naves da igreja por um corredor ao lado esquerdo em relação à testada
frontal, que dá acesso à parte administrativa, banheiros e lojas. Sendo assim,
trataremos primeiro da fachada, pois ela é o cartão postal para apresentação do
templo.
67
4.1.3. Fachada
A fachada principal já mostra formas pronunciadamente simbólicas. Antes de
adentrar ao templo nos deparamos com uma escadaria em pedra portuguesa
acompanhada de ambos os lados de dois aclives semilunares em granito escuro, um
em cada lado que nos levam em direção aos três portais que compõem a entrada.
Figura 23: Frontispício da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2015.
Ao chegar ao átrio coberto da Basílica vemos quatro colunas em granito róseo,
à frente, e quatro pilares do mesmo material que abrigam os três portais. Eles dão
sustentação a uma varanda vazada tendo em seu meio a Virgem de Nazaré com
mãos unidas em forma de prece, e cujo os mosaicos abaixo da estátua e tímpano17,
respectivamente, dizem, segundo o “Guia da Basílica Santuário de Nazaré”(1978):“
Salve Rainha, Mãe de Misericórdia“,“O Mãe de Deus Imaculada como outrora em
Nazaré, aqui sempre permaneçais, à nós propícia”e “ À Mãe de Deus, a Virgem de
Nazaré”.
17Espaço triangular limitado pelos três lados do frontão.
68
Já no triangulo do tímpano vemos a Madonna, outro título dado à Maria,
representada como título de “Rainha da Amazônia”, rodeada de florestas, índios,
negros e jesuítas além de celebridades históricas tais como Pedro Alvares Cabral,
Castelo Branco, Dom Bartolomeu, dentre outros.
Figura 24: Frontão da Basílica Nossa Senhora de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2015.
A leitura da função simbólica geral da fachada nos remete ao universo da
Cabala, tomando a Basílica como um reinado dos céus na terra. Partindo deste
princípio, o nível do arraial representaria a esfera da terra (Malkuth) e as escadas
representariam a ascensão à esfera de Yesod, em outras palavras à Lua, o que é
percebido através dos aclives semilunares em granito escuro que levam ao átrio
coberto.
As quatro colunas que sustentam o balaústre tem a simbologia do número
quatro, que representa a estabilidade e ordem, e também as quatro esferas
posteriores, que correspondem ao Microcosmo18, indo da esfera da Lua (Yesod) à do
Sol (Tipharet), sendo as duas esferas de ligação; a primeira (Yesod) liga a Terra
(Malkuth) ao Sol (Tipharet), enquanto esta liga as quatro esferas inferiores às
superiores.
18 É nada mais que o próprio homem, representado como sendo um pequeno universo na leitura de
Fortune (1985, p. 35).
69
Figura 25: Árvore da Vida na vista frontal da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Há ainda a projeção destas colunas para cima, representando a continuidade e
interligação de esferas inferiores, as quais já vimos, com as superiores representadas
pelo número três sob forma de triângulo do tímpano. O número três como vimos na
ótica da Cabala está ligado à esfera da Mãe (Binah), afirmando o caráter
essencialmente feminino da construção, além do conceito de Trindade divulgado pelo
Cristianismo: Pai, Filho e Espírito Santo, que representam, respectivamente, Kether
(A Coroa) primeira esfera de onde tudo surgiu, Tipharet (A Beleza) esfera do Sol e
Yesod (Fundamento) a esfera da Lua, propiciando uma relação das partes com o
Todo.
Na fachada ainda encontramos exemplificados os quatro mundos da Cabala
por sua divisão. O mundo de Assiah (plano da matéria) é notado pelo nível do arraial
até o piso do pátio, deste em diante até o balaústre temos o mundo de Yetzirah (plano
dos anjos e da formação); deste até a base do triângulo do tímpano temos Briah
(plano arcangélico ou criativo), e por último da base triangular até os céus Atziluth
70
(plano da Divindade Pura), aonde encontram-se as três esferas superiores: Kether (A
Divindade Andrógina), Chokmah (A Força Masculina, O Pai) e Binah (A Força
Feminina, A Mãe), como nos diz Fortune (1985).
As torres foram colocadas posteriormente ao projeto primitivo em 1910,
carregando, cada uma, nove sinos da firma Barigozzi de Milão, que foram bentos em
15 de junho de 1930. Vale lembrar que nove é o número da esfera da Lua, chamada
também de “Fundação” que se interliga ao “Reino”, ou seja, à Terra.
4.1.4. Pisos
Através do piso a função simbólica também se revela pela composição dos
desenhos geométricos. Há diferenças entre as pedras utilizadas conforme a cor e
formatos ; a branca é de Trani, de Torres, amarela de Verona, verde dos Alpes, escuro
de Portôro, vermelho de Levanto, pórfido, conforme o Guia da Basílica de Nazaré
(1978).
A nave central é escalada por círculos concêntricos que se repetem de forma
espaçada em número de dez, que parecem refazer no piso a “Árvore da Vida” da
Cabala, até os pequenos degraus que dão acesso ao Altar Mor. O oitavo círculo tem
em si um disco dourado, que forma uma mandala, representando o centro da Basílica,
o meio da cruz explanada pela planta do templo, bem como também a concretização
maior no plano da forma, simbolizada pelo nascimento de Jesus Cristo na terra como
demonstrado por Pastro ( 1999).
71
Figura 26: Mandala dourada no piso da nave principal
Fonte: Wagner Ferreira, 2015.
Entre os pilares da nave central, oito no total, vemos formas retangulares do
piso que se conjugam com um círculo em seu meio, representando que entre os dois
pilares há um invisível compondo uma tríade, como os “Pilares da Misericórdia”,
“Severidade” e “Equilíbrio” do sistema da “Árvore da vida”, representações da força e
da forma.
Figura 27: Piso entre os pilares
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Podemos encontrar ainda nessa nave composições de vinte e um quadrados
que se intercalam em uma área retangular separando os círculos concêntricos.
Devemos lembrar que o número vinte e um é uma alusão aos caminhos do mesmo
hieróglifo, dizendo respeito ao Tarô.
72
Outra parte do piso da nave central forma a figura de uma cruz latina
intercalada por um quadrado e em seu centro um círculo. Essa figura evoca os quatro
elementos que constituem a matéria, e o círculo a união destes, a quintessência dos
sábios.
Figura 28: Piso crístico representando os quatro elementos e a quintessência
Fonte: Wagner Ferreira, 2015.
Nas naves laterais esquerda e direita podemos identificar pisos
harmonicamente iguais, desenhados por composições de quadrados e losangos que
se intercalam ao longo do percurso. Mais notável ainda é a composição do piso dos
confessionários, um conjugado de triângulos e hexágonos, que remontam a terceira
esfera (Binah) e a sexta (Tipharet), simbolizando a redenção e absolvição da culpa
que morre nos braços misericordiosos da sagrada mãe Igreja.
Estas naves laterais se diferenciam, pelos vitrais, esculturas e pinturas que as
compõem, contendo capelas de santos, suas pinturas, esculturas, bem como da vida
de Jesus. O percurso culmina na nave esquerda na capela de Jesus (à esquerda) e de
Nossa Senhora do Brasil (à direita), cada uma com seu piso e simbologia própria.
73
Figura 29: Piso dos confessionários
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
4.1.5. Paredes
As paredes são revestidas com faixas de vermelho e amarelo de Verona, com
verde de Polcévera e coral são revestidos os rodapés, constando na publicação da
Biblioteca do Círio (1978). Podemos encontrar simbologia vasta, ricamente
exemplificada pelos desenhos geométricos que nela observamos, mosaicos das
capelas laterais, bem como pelas pinturas de sua composição, de ambos os lados que
compõem a nave central, no qual mostras figuras sacras de Maria, Santos e Anjos.
4.1.6. Forros
O forro do pátio é revestido de estuques19 de cimento, guardando em si
motivos em alto relevo de vegetação nos lados esquerdo e direito, enquanto que na
parte central, eles se dispõem inclusos nas quatro partes de uma cruz, com uma
esfera no centro, simbolizando os quatro elementos, nos quatro cantos dessa cruz,
19 Argamassa que depois de seca adquire grande resistência ao tempo.
74
podemos perceber a imagem de anjos, que parecem recepcionar os visitantes do
templo. No átrio o forro é de madeira de lei.
Figura 30: Forro central do pátio em forma de cruz latina
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Figura 31: Forro lateral (esquerdo e direito) do pátio com motivos florais
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Internamente o forro se diferencia em cada uma das naves, mas é na central
que a simbologia se destaca com forro em cedro vermelho em mão de obra paraense,
conforme a Biblioteca do Círio (1978), em formatos de cruzes latinas, guardadas em
75
cada um dos quadrantes por quatro arcanjos, o que nos retoma a idéia dos quatro
mundos da Cabala. Além disso há também um círculo no meio, assim como em um
dos desenhos do piso, que é a culminância dos quatro mundos.
Figura 32: Forro interno da nave central em formas de cruzes e retângulos
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
4.1.7. Esquadrias
As três portas foram realizadas pela firma Eberle de Caxias do Sul, sendo as
duas portas laterais mais estreitas enquanto que a do meio é a de maior destaque por
altura, largura, peso e espessura. O Guia da Basílica de Nazaré (1978) nos fala que
na parte superior há o emblema da Basílica (Umbela20 e duas chaves pontifícias)
além das armas dos Padres Barnabitas (três montes e uma cruz com as iniciais de
Paulo, O Apóstolo). O portal principal também apresenta Maria com gravuras em alto
20
É qualquer objeto ou estrutura que imite um guarda-chuva.
76
relevo como sendo Rainha dos Santos, das Virgens, Apóstolos, Anjos, e de todo o
Reino.
Figura 33: Porta principal da Basílica de Nazaré- folha direita
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
As portas laterais também seguem o mesmo padrão. Na direita vemos Nossa
Senhora como a Estrela da Manhã, Consoladora dos Aflitos, Arca da Aliança, como
Casa de Ouro, Refúgio dos Pecadores e como Virgem Poderosa. Na esquerda
observamos Nossa Senhora do Carmo e Simão Stock, Nossa Senhora do Rosário
com São Domingos e Santa Catarina, Nossa Senhora como Rosa Mística, Lírio entre
espinhos, Nossa Senhora de Lourdes com Bernadette, Nossa Senhora de Fátima com
os três pastorinhos.
77
Figura 34: Porta lateral esquerda da Basílica de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Através dos portais, vemos que a Igreja se afirma, de forma sutil, como um
ambiente feminino, aonde a porta central representa a grande entrada de volta ao
útero da Mãe Antiga, sendo um abrigo como Bangs (2010) explanou em seu livro
quando discursava sobre a caverna.
Os vitrais, por sua vez, apresentam grande diversificação quanto às suas
imagens, ora relembrando os Santos (nas naves laterais), ora a história da devoção
de Nossa Senhora de Nazaré de Portugal até Belém (nos transeptos21 esquerdo e
direito). À Exemplo temos o vitral de Santa Luzia, encontrado à direita, ao lado do
21 É parte transversal de uma igreja que se estende para fora da nave central, formando com esta uma
cruz.
78
átrio22, padroeira da visão e da oftalmologia, segura em uma das mãos uma bandeja
com seus olhos carnais, e na outra uma palma (planta levada por todos os Santos
mártires). Neste caso, o prato com os olhos representam o espelho da alma, a visão
do espírito, que a tudo clareia e permeia, que tudo conhece.
Figura 35: Vitral de Santa Luzia, lado direito do átrio
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
4.1.8. Iluminação
A iluminação da Basílica é conjugada, sendo ora contemplada com a riqueza e
pompa de seus lampadários venezianos de estilo românico, ora complementada com
iluminação de lâmpadas modernas. Nas primeiras somos levados à observar os
formatos esférico, globo de vidro coloridos, que guardam uma simbologia ligada ao
22É a sala de entrada das antigas casas romanas, no caso da entrada da Basílica de Nazaré.
79
sol, devido ao fato de em sua parte mais pronunciada abaixo, pelo ornamento metálico
pontudo, ter em si uma estrela de seis pontas como um hexágono, cuja simbologia já
fora em demasia explanada.
O desenho do próprio lampadário expressa ainda uma mandala23 de mesmos
motivos, que remetem à iluminação. Neste desenho, vemos a presença de doze
círculos na cor verde escura, que fazem alusão aos ponteiros do relógio, reforçando
sua função simbólica de não somente clarear o espaço circundante, mas a própria
alma humana, por estarem penduradas.
Figura 36: Lampadário com motivos solares
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Há outro sentido de elevação, e ele está na figura da águia que fica nos quatro
cantos da haste metálica que carrega a lâmpada, um dos símbolos da primeira esfera
(Kether). Esta imagem arquetípica anuncia que as luminárias suspensas acima
apenas são um vislumbre da esfera mais elevada.
23 É definida por Jung (2002, p. 44) como um círculo mágico que representa simbolicamente a
individualidade.
80
Figura 37: Pilares e arcos como falos e vulvas
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
A iluminação ordenada ainda auxilia na nitidez do princípio de polaridade visto
no capítulo três, pois ela guarda em si um caráter andrógino. Assim o jogo de luz e
sombra faz se presente de forma a equilibrar os aspectos conscientes representados
pela luz, bem como também os inconscientes sentidos com a sombra e penumbra.
Embora o Cristianismo tenha um caráter patriarcal histórico, devemos lembrar
que as construções religiosas são andróginas e no caso da Basílica de Nazaré tem
essência feminina. O interior dessa edificação representa arquetipicamente um útero,
ao passo que o masculino pronuncia se pelos pilares de formato fálico, que se
projetam acima para sustentar a edificação, e, portanto, é evidente a sexualidade que
este templo possui.
4.1.9. Iconografia e estatuário
A Basílica de Nazaré é um dos exemplos de maior riqueza de arte sacra em
Belém, por possuir em seu conjunto grande suntuosidade tanto em sua iconografia,
81
pelas pinturas e ornamentos, bem como também por seu rico estatuário. O templo
religioso está cercado de figuras arquetípicas ligadas ao Cristianismo, tais como anjos
e Santos, próprios da liturgia.
Pelos estímulos captados por nossos sentidos devido ao contato das cores e
formas utilizadas, nosso subconsciente é ativado e conseguimos estabelecer um elo
entre as imagens que se apresentam à nossa frente, e as grandes verdades
universais que elas guardam em si. Sendo assim, céu e terra são religados, temos a
formação de uma “ponte” que liga nosso eu individual e coletivo, com o Espírito
Sagrado que neste templo habita.
Na nave central temos a presença, na união dos arcos (leque)24, de anjos cada
um com um tipo de instrumento, representando dons e virtudes, enquanto que no
entablamento logo acima, há a presença de medalhões que representam a vida de
Maria, assinalando desde seu casamento até a festa de Pentecostes.
Figura 38: Leques com anjos e medalhões marianos
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Nas naves laterais esquerda e direita, temos as figuras de mulheres do Antigo
Testamento, nos leques entre os pilares, cada uma representando suas respectivas
24 É o espaço central entre a terminação de dois arcos
82
virtudes, ao passo que os vitrais abaixo destas demonstram figuras de Santos e de
Jesus e seus diferentes feitos ao longo de sua vida na terra, conforme aponta o Guia
da Basílica de Nazaré (1985).
Cada vitral tem suas particularidades à exemplo do terceiro, que demonstra a
“parábola do bom pastor”, em moldura de mármore de Skyros, porém todos eles foram
preparados pela firma parisiense M. Champineulle.
Nas laves laterais de ambos os lados, tendo as paredes como panos de fundo
encontramos alternância entre estatuário e confessionários. Os primeiros formam
capelas individuais, frutuosamente adornados com suas próprias simbologias ligadas
à escultura dos santos, santas ou anjos que nesses espaços faz-se presente, como a
capela de São Miguel Arcanjo.
Esta, além de ser uma das mais chamativas e ornadas, das capelas laterais,
ostenta um grande simbolismo, pois o Arcanjo aparece com a mão esquerda
posicionada em seu coração, ao passo que na mão direita está munido de uma
espada, aos seus pés um demônio cristão, o diabo. A portinhola que guarnece a
capela lateral,tem a forma de um anjo inserido no meio de uma cruz, representando a
iluminação e equilíbrio.
83
Figura 39: Capela de São Miguel Arcanjo na lateral direita
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Tal imagem representa as aspirações mais elevadas da alma, as grandes
virtudes, na figura do deslumbrante Arcanjo, que com sua espada luminosa,
representando a clareza e iluminação, sobrepuja os vícios e principalmente a
ignorância, representadas pela figura abaixo de seus pés. No mural, podemos ver
como pano de fundo um céu azul escuro cheio de estrelas que possuem oito raios,
simbolizando a esperança da alma mesmo nas horas mais escuras da noite. Nos
quatro cantos, observamos quatro cruzes, símbolo dos elementos da natureza.
84
Figura 40: Altar Mor da Basílica de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Uma das maiores representações simbólicas da Basílica reside no Altar Mor
primeiro, inaugurado no dia 15 de Agosto de 1923, seguindo a fonte da Biblioteca do
Círio (1978). O ícone mais proeminente do Altar é seu sacrário25, pois em sua porta
está a figura de um pelicano, que na cultura popular usa o próprio sangue para
alimentar seus filhotes, e mais abaixo um cordeiro em cima de um livro com uma cruz,
mencionando ainda imagens de uvas e pães, todos símbolos de Cristo, neste último
caso como “Pão da Vida”. Ao lado do expositório26 ainda encontramos quatro anjos,
dois de pé e dois ajoelhados, em sinal de reverência.
25 Lugar aonde se guardam os objetos sacros, por exemplo, a hóstia.
26
Objeto sacro que serve para expor, mostrar a hóstia.
85
Figura 41: O Glória com imagem de Nossa Senhora de Nazaré
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
A “Glória” se destaca os pilares de granito rosado de Grusallo, revestido de
mármore. Nele as figuras mais relevantes estão na presença de dois grandes anjos de
asas abertas que parecem elevar o coração dos fiéis à Rainha da Amazônia, Nossa
Senhora de Nazaré. A estatueta da Madonna, inclusive, de fabricação ibérica, vinda
da Lusitânia, de estilo Barroco (1600), é símbolo de devoção e de fé à cristandade
católica, ornada com pompa e esmero. Ela segura o Menino Jesus, que brinca com o
globo do mundo.
4.2.SHAAR HA-SHAMAIM: A PORTA DOS CÉUS
86
4.2.1. Histórico e Pesquisa
O templo judeu chamado Lauderdale Road Synagogue, localizado em Londres,
na Inglaterra, foi o molde para a criação da sinagoga Shaar Ha-Shamaim, localizada
na Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 842- Bairro de Batista Campos em Belém, que foi
construída em 1946, cujo nome significa “Porta dos Céus”, sendo um templo de
orações judaicas bem como também uma congregação.
Figura 42: Lauderdale Road Synagogue, Londres.
Fonte: sefard.info, 2016.
Inicialmente quem projetou a Sinagoga foi o arquiteto Hugo Furinni, que
posteriormente precisou se ausentar devido ter sido convocado para a 2ª guerra
mundial para servir Mussolini.
A obra então passou às mãos de Judá Levy, engenheiro que estava ligado às
causas sociais, e que conseguiu concluir o projeto da Sinagoga à contento. Assim
judeus puderam nela se reunir para prestarem culto ao seu sagrado Deus único,
sustentados por sua doutrina ortodoxa pautadas na aprendizagem de sua sagrada
escritura, a Torá.
87
Figura 43: Frontispício Principal- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Cybelle Miranda, 2016.
Ao serem mostradas as imagens ao templo para os entrevistados, muitos
demonstraram verdadeiro espanto por nunca terem reparado nele. Isso é dado pelo
fato de que antes a sinagoga possuía apenas um pequeno muro baixo com grades
que a separava do exterior, contudo devido à ação de várias ameaças ao povo judeu
nos últimos anos fez com que o templo se enclausurasse do mundo afora. Com o
objetivo de proteger-se do perigo, seus muros foram aumentados, construindo-se uma
pequena guarita para identificação, para se ter acesso ao templo.
Embora o muro constitua uma verdadeira barreira física para a contemplação
da sinagoga, as imagens revelaram-se de bastante ajuda no reconhecimento do
templo como um lugar sagrado, até mesmo por pessoas de diferentes religiões, que
concordaram com o fato de que os elementos formais ali encontrados, como o
formato, as portas, e principalmente a cúpula, reconhecida apenas por alguns, são
88
fatores essenciais para que se consiga vivenciar o espaço religioso como um local de
união com o divino.
4.2.2. Planta baixa
A planta baixa é bem simples, constituída no pavimento térreo de um pátio
interno retangular que leva a duas grandes portas de vidro à frente, uma de cada lado.
Em ambas as laterais deste ambiente há duas escadas, quase como espirais que
elevam-se dando acesso ao pavimento superior.
Figura 44: Esboço da planta baixa térreo e 1º pavimento- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Transpassando uma das portas, que divide o ambiente inicial da sala de culto,
adentramos ao espaço principal. Nele observamos pilares na cor branca, culminando
em capitéis estilizados. No centro há um altar circular, com mobiliário e uma mesa
maior para colocar as Sagradas Escrituras na hora do culto. Na parede ao fundo
89
observamos um arco, que ostenta uma cortina vermelha, além disso também há duas
portas, uma em cada canto, desta parede que leva à uma ante sala.
Nesta há um pequeno altar, na verdade uma mesa, coroada em cima com uma
abóbada, na qual pende uma lamparina na qual estão as cinzas de incensos, com os
quais se honram os ancestrais. À direita da ante sala dá acesso ao salão de festas, no
qual se desenvolvem outras atividades ligadas à comunidade judaica, mas não
propriamente ao culto em si.
4.2.3. Fachada
O templo está embasado num modelo eclético, caracterizado pelo sagrado
advindo da simbologia judaica. A fachada guarda a mesma relação arquetípica
encontrada na Basílica quanto à estrutura geométrica do hieróglifo da Árvore da Vida.
Revela ainda a transcendência ligada à esfera do Sol (Thiparet), encontrada no
método da Cabala, que faz-se presente através dos três hexagramas englobados pelo
arco interno, este possuindo um óculo em formato circular, que faz alusão aos
ponteiros de um relógio solar, relacionado à esfera já citada.
Figura 45:Árvore da Vida na vista frontal da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
90
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
O triângulo como elemento da trindade na unidade é presente assim como na
Basílica, contudo aqui de forma mais amena por não fechar a figura geométrica.
Vemos então uma relação entre o triângulo e o hexagrama, pois o segundo é o dobro
do primeiro, e também é composto por dois triângulos de intercalados de forma
oposta.
As duas portas principais relacionam-se à esfera da Lua (Yesod), a qual tem
uma estreita afinidade com o plano da terra (Malkuth). Para os cabalistas essas duas
emanações estão ligadas pelo que chamam de “duplo etéreo”, àquela seria a “ casa
das máquinas” que conferiria energia à esta última, fazendo-a funcionar como bem
fala Fortune (1985).
É na fachada também que observamos um ornamento de grande simbolismo
que está acima das duas portas principais. Com um livro aberto lidamos, com a tábua
da Lei de Deus dada a Moisés, na qual estão os dez mandamentos, cada um
representado pelas primeiras dez letras do alfabeto hebraico.
Figura 46: Tábuas da Lei com as dez primeiras letras hebraicas
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Os pilares externos culminam em estruturas que forma pequenas cúpulas,
como as antigas torres de observação em número de doze. Vistas de frente as quatro
91
torres principais parecendo querer sustentar a cúpula, que se projeta para os céus
infinitos; utilizando a mesma perspectiva vemos uma relação pelas duas pequenas
torres frontais, de oito gomos, com a que fica no ápice da cúpula, enquanto que as
demais têm apenas quatro gomos.
Figura 47: Vista superior da cúpula da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Esta cúpula é um dos elementos mais importantes da edificação, pois é ela
quem evoca a imagem arquetípica de uma “Coroa” branca, o que nos lembra de
Kether, a primeira esfera da Cabala. Vista do ângulo de baixo o triângulo parece
apontar para a cúpula branca, dando a entender que o objetivo é alcançá-la como a
realização final do templo.
4.2.4. Pisos, paredes, colunas, arcos e forro
O piso das naves central e laterais são de ladrilho hidráulico em formato de
pequenos quadrados, e cruzes conjugados nos tons preto e branco amarelado,
92
evocando a polaridade de claro e escuro como um jogo de forças masculinas e
femininas, encontrados no pavimento térreo da edificação.
Figura 48: Piso da nave central em forma de cruzes
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Enquanto isso, no primeiro pavimento há uma diferenciação do piso, executado
em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo, nas laterais e arquibancada
anterior.
Figura 49: Piso em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
As paredes têm uma funcionalidade simbólica reduzida. Aqui as mensagens
subliminares ao inconsciente se fazem pelas cores de azul claro e o branco (inerentes
à bandeira de Israel) que segundo Lacy (2011) representam serenidade, meditação,
contemplação, paz e harmonia, o que é comprovado pelas letras metálicas de ambos
os lados, feitas em cobre, da “Grande Porta” ao final que formam a frase: “Oração sem
93
concentração, corpo sem alma”; à esquerda ela é escrita em português e à direita em
hebraico.
Figura 50: Frase feita em letras metálicas, lado esquerdo
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Figura 51: Pilares internos da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
As colunas se elevam de ambos os lados na cor branca, em formato fálico,da
mesma maneira que os dois pilares, da “Misericórdia” e “Severidade” de Fortune
94
(1985) sustentam a ‘Árvore da Vida”, culminando em capitéis estilizados, o que
também acontece com os pilares que seguem para o pavimento superior.
Nestes pilares do canto apóiam-se as bases suavizadas dos arcos, que se
prolongam harmoniosamente até o próximo pilar. Estes arcos do pavimento superior
são em número de quatro, o que evoca organização, estabilidade, bem como também
ordem, e guardam uma relação com os quatro elementos que constituem a matéria;
além disso, possuem dependuradas na estrutura de seus ápices lamparinas, que
insinuam a presença de um terceiro pilar invisível a sustentá-los (os arcos),
equilibrando o sistema e trazendo iluminação.
Figura 52: Arcos e forros
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
95
O forro do pavimento térreo é feito possivelmente em concreto com formato de
arcos, similares às nuvens dos céus por flutuarem entre as naves laterais, enquanto
que o pavimento superior acompanha a forma dos grandes arcos rebocados e
pintados, exceto no deambulatório posterior feito em forro de gesso acartonado. O
primeiro tipo de forro no pavimento superior ganha importância maior devido a cúpula
central do templo que se pronuncia além da alegoria das nuvens, demonstrando
majestade.
4.2.5. Esquadrias e iluminação
As portas possuem formatos diversos, sendo de quatro tipos. O primeiro pode
ser encontrado em ambos os lados da fachada principal tendo formato retangular,
sendo mais simples, enquanto que o segundo diz respeito às duas portas do meio,
que já tiveram sua relação com o sagrado desvelada. A terceira é de esquadria
metálica e vidro, e não tem relação direta com a expressão do sagrado no edifício,
possuindo uso funcional na edificação.
O quarto tipo é o mais importante, por ser modelo único, um portal em arco cujo
interior é velado por cortinas, enquadrado num arco ainda maior, por guardar relíquias
e dar nome ao templo. Ela é chamada de Shaar Ha-Shamaim, que quer dizer do
hebraico “A Porta dos Céus”, pois em seu interior residem as Escrituras Sagradas ( o
que é sinalizado pela tábua acima da porta em madeira), retiradas em momento
solene da liturgia do culto judeu, dando a entender que é através dos ensinamentos
sagrados, conhecimento e sabedoria, embasados na meditação concentrada ( como a
frase em letras metálicas na parede) e serenidade, que se chega à uma condição mais
elevada, e alcança-se o objetivo de união com o Sagrado.
96
Figura 53: Porta Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
As janelas, por sua vez, garantem iluminação natural ao templo, sendo
encontradas de quatro tipos principais, com suas esquadrias de madeira pintadas de
branco e vidro transparente. O primeiro tipo é o mais comum tendo formato retangular
e não parece demonstrar simbolismo pronunciado se comparada aos demais modelos
encontrados no pavimento superior.
Neste nível, nas laterais do templo, observamos o segundo tipo de esquadria
que culmina sua forma previamente retangular em um arco. Este modelo está nos dois
lados de uma terceira janela maior, como um vitral colorido,explanando motivos
sacros para o Judaísmo de grande valor simbólico representando os dois pilares já
muito mencionados, e no cume do arco um menorá27 rodeado de letras hebraicas,
27 É um candelabro sagrado com sete braços.
97
funcionando como um vitral. Este tipo de formação de esquadrias ocorre em ambos os
lados do edifício.
Figura 54: “Vitral” com figura de pilares e menorá
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
No balcão de fundo, situado acima do nártex28 da entrada, encontramos o
interior do arco que engloba os dois hexagramas mais o óculo, a mandala solar já
mencionada na fachada. A mesma mandala, que mais parece uma flor amarela, como
um girassol, está fixada em uma posição elevada do nicho em forma de portal,
chamando atenção para a portaShaar Ha-Shamaim.
28 Ambiente da entrada do templo sagrado.
98
Figura 55: Arco interno envolvendo óculos
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
A iluminação artificial não fica escape do mesmo simbolismo, através de
lamparinas de formato diferenciado, que evocam a figura arquetípica que representam
ou por seu formato hexagonal, de luminárias, candelabros ou por sua cor dourada,
todas essas figuras ligadas ao sol e suas atribuições.
4.2.6. Ornamentos
Os principais ornamentos simbólicos são: o altar circular, o menorá, o
mobiliário e a cortina da porta Shaar- Hashamaim. Todos eles desempenham um
papel ímpar dentro da edificação reforçando o caráter da liturgia celebrada dentro do
espaço religioso.
O altar circular está posicionado bem ao centro da nave central, e é nele que
se fazem a leitura das Antigas Escrituras. Ele é elevado a cerca de vinte centímetros
do nível do piso, revestido com granito de cores claras e escuras que se alternam,
para chamar atenção dos frequentadores a ouvir a liturgia, visto que até a ordem das
cadeiras estão voltadas em sua direção.
99
Figura 56: Altar central da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Este altar é circundado por um guarda-corpo vazado em granito, compondo um
desenho de seis hexagramas de cada lado, um total de doze, visto que no seu entorno
há duas aberturas laterais para se ter acesso à ele. Em cima do piso de granito vemos
um tapete na cor vermelha, de formato circular, bem como duas cadeiras para os
ministrantes e uma mesa generosa que serve de ambão, onde são colocadas as
escrituras.
Encimando o guarda-corpo vê-se três ornamentos. Os dois primeiros são
menorás metálicos, lâmpadas em número de sete, que simbolizam, cada um,o
Espírito de Deus, ou seja, os elementos da natureza criados pelo Um, sendo o número
da plenitude, conforme Pastro (1999) uma em cada lado do acesso ao altar, além de
100
outro elemento em metal que na ponta é ornado por uma coroa azul, símbolo também
de realeza e liderença.
Figura 57: Menorá metálico
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Elementos secundários como candelabros com velas e incensos dão ênfase
mais mística ao rito, visto que a vela é símbolo de iluminação estando ligado à festa
judaica das luzes, enquanto que o incenso se refere à adoração e ao sacrifício, lembra
Pastro (1999).
O mobiliário tem um significado curioso, pois ele demonstra uma certa
hierarquia quanto aos participantes,como ocorre com as cadeiras. As que se
encontram no pavimento térreo são reservadas aos homens e idosos, enquanto que
as do pavimento superior são destinadas às mulheres; essa mobília ganha inclusive
função de ancestralidade, e algumas são até mesmo marcadas com os nomes de
seus respectivos usuários, formando um legado de “herança” para as gerações
futuras, conforme fonte oral dada pelo Rabino Moysés Abraham em entrevista de
campo ocorrida em Janeiro de 2016.
101
Figura 58: Cadeiras com nomes
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
A cortina da porta Shaar Ha-shamaim é de cor vermelho escuro, chamando
nossa atenção para o mistério que ela oculta. Os desenhos pintados na cor dourada
são de dois menorás apoiados em duas colunas, sendo elas a Misericórdia ( pilar da
direita), cujo ponto mais alto é Chokmah, e Severidade (pilar da esquerda), cujo ápice
é Binah, da cabala, e, no meio um pouco mais pra cima , uma coroa (Kether),
formando uma tríade de elementos; Em meio à este triângulo sacro há as “Tábuas da
Lei” dadas à Moisés, permeadas de letras hebraicas, simbolizando a sabedoria,
compreensão e entendimento necessários para união com o Divino.
102
Figura 59: Cortina da Porta Shaar Ha-Shamaim
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Nos cantos superiores da cortina encontramos dois hexagramas, contendo o
mesmo simbolismo do sol, anteriormente revelado. Poderíamos pensar que a mesma
lógica se faz presente na lamparina pendurada na estrutura semicircular de madeira,
contudo, por ela estar elevada perto do ícone da coroa dourada, a luz aqui não é
aquela atribuída à esfera do sol, mas sim à luz branca da esfera mais elevada, ou seja,
Kether.
4.3. ASSEMBLEIA DE DEUS: O BARCO DOS ELEITOS
103
4.3.1. Histórico e Pesquisa
Tudo começou com os primeiros missionários Daniel Berg e Gunnan Vigren,
que fundaram em 1911 o templo religioso “Assembléia de Deus” em agosto do mesmo
ano, localizado na Rua São Jerônimo-224 em Belém. Em 8 de novembro de 1914 a
instituição mudou-se para a Travessa 9 de Janeiro já como primeiro templo próprio,
ampliando sua instituição com o segundo templo localizado na Travessa 14 de Março
em 1926.
Figura 60: Daniel Berg (à esquerda) e GunnanVigren (à direita)
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Foi em setembro de 1979 que o processo de construção do Templo Central da
Assembleia de Deus, localizado na Avenida Governador José Malcher 1571, no Bairro
de Nazaré, começou. A partir daí a concepção do projeto foi direcionada ao arquiteto
Euler Arruda, professor da Universidade Federal do Pará, que recebeu um programa
de necessidades para projetar o Templo Central da Assembleia de Deus que
atendesse à quatro mil pessoas, sendo concluído em 23 de abril de 1988.
104
Neste local os resultados da pesquisa mostraram-se parecidos com os templos
acima estudados, contudo, há peculiaridades apresentadas nos relatos de cada uma
das pessoas que responderam ao questionário. A maioria demonstrou-se surpresa
por pela primeira vez estar olhando a foto mais geral da fachada do templo, que
passava desapercebida.
O templo possui uma forma mais atual e moderna, não lembrando em nada um
templo religioso, a não ser pelas esquadrias que se unem em arco, mencionadas por
raros entrevistados; aqueles que não o frequentavam, inclusive, pareciam confundir o
templo com um edifício público, devido ao próprio formato que se destaca por
hierarquia, porém, cujo material aplicado na fachada não nos chama atenção para a
função real pela qual foi erigido em parte também pelo meio urbano em que se
encontra.
4.3.2. Fachada
A fachada foi projetada com base em um sonho profético que um pastor da
referida instituição teve, no qual barcos rumavam em direção ao céu, este simbolismo
teve um caráter bastante evidente no projeto. Podemos notar que nas quatro
elevações, os arcos que se unem formam a proa de barcos e aqui vemos novamente
uma relação com o diagrama da Árvore da Vida, demonstrando as esferas bem como
os quatro mundos da Cabala, de forma mais sutil que nos outros templos analisados.
105
Figura 61: Árvore da Vida estilizada na fachada traseira da Assembleia de
Deus
Fonte: telrarsasfotos.blogspot.com, 2016.
4.3.3. Planta baixa,pisos, paredes, colunas e forros
Pelo simbolismo principal deste templo estar na fachada e na própria estrutura,
os demais elementos não permitem depreender significados, servindo apenas à
funcionalidade e ao conforto de seus frequentadores.
Como todos os outros ambientes não tem mais que um simples altar, no
máximo um ambão e cadeiras, nos reservaremos à análise do auditório principal, que
em sua estrutura apresenta de forma sutil o sagrado. Nele o piso é feito todo em
korodur na cor cinza com rejuntes negros, exceto na arquibancada lateral em
porcelanato polido branco, bem como na arquibancada anterior, cujo o piso foi
106
preservado em madeira; deste ambiente temos o modelo nítido do templo não
somente como um barco, mas um grande navio.
Como o auditório fica no primeiro pavimento, contudo em nossa análise vamos
encarar este pavimento como sendo o “térreo” pois a partir dele que o espaço se
desenvolve como se verá na imagem a seguir que mostra as plantas baixas dos
pavimentos deste ambiente.
Figura 62: Esboço da planta baixa do auditório da Assembleia de Deus
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
107
Figura 63: Visão interna do auditório 2º pavimento
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
As colunas quadradas revestidas de granito na cor cinza não mantém relação
tão nítida com os pilares da Cabala e muito menos com o formato fálico, pois
assumem a configuração do esqueleto de uma embarcação, o que nos leva à refletir
sobre a construção da Arca de Noé (personagem bíblico), como o “Barco dos Eleitos”,
como encontrado no livro do Gênesis, do Antigo Testamento, aonde a proa do “barco”
é o próprio altar.
As colunas laterais erguem-se desaparecendo no forro todo feito em gesso
acartonado em ambos os pisos. É no segundo, porém, que o forro assume um formato
de cascata, lembrando da vista interna dos navios reforçando o templo religiosos
como símbolo.
108
Figura 64: Altar como uma grande proa de navio
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Figura 65: Forro em cascata que remete à uma embarcação
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
109
Figura 66: Visão do auditório a partir do altar
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
4.3.4. Esquadrias e iluminação
Todas as esquadrias são de alumínio e vidro reforçado, e garantem iluminação
natural abundante para todo o ambiente. O princípio de polaridade, devido o amplo
uso de luz natural e artificial, parece ter sido abandonado, evocando um ambiente
lógico, racional, amplamente masculino, e sem qualquer simbologia mais
pronunciada.
110
Figura 67: Principio de polaridade visto nas escadas ao fundo intercruzadas
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Uma das poucas relações, se não a única mais próxima de lembrar a figura
feminina está imparcialmente localizada nas escadas que se alternam até o segundo
piso, como uma dança de opostos ou como uma espiral simbolizando ascensão.
4.4. SANTO ALEXANDRE: A VIOLAÇÃO DO SAGRADO
De acordo com o a publicação da SECULT- PARÁ “Feliz Lusitânia/ Museu de
Arte Sacra” (2005), a igreja de Santo Alexandre foi construída pelos jesuítas no século
XVII na Vila Portuguesa, como era chamada Belém, através dos padres João de
Souto Maior e Gaspar Fragoso enviados por seu superior, padre Antônio Vieira ,
sofrendo reformas a partir do século XVIII, tendo o Barroco como estilo predominante.
111
Sua construção passou por três etapas principais até sua inauguração em
1719, no século XVIII, segundo a mesma fonte. A primeira liderada pelo padre João de
Souto maior, em 1653, sendo uma simples construção de taipa e folhas de palmeira,
enquanto que a segunda foi projetada pelo arquiteto Cristóvão Domingos e
inaugurada em 3 de dezembro de 1668, dedicada à São Francisco Xavier (que não
tinha grande identificação por parte da população), enquanto que o colégio recebeu o
nome de Santo Alexandre.
A Igreja passou então a ter o mesmo nome do colégio, ao que se acredita, pela
devoção que se tinha a este Santo, cujas relíquias foram dadas aos jesuítas pelo Papa
Urbano VII, trazidas com eles à Belém. Serafim Leite, em sua “História da companhia
de Jesus no Brasil” (1943), chega ainda a mencionar o relicário encontrado no altar
colateral da esquerda demonstrando o sagrado inerente ao túmulo dourado do Santo.
Quanto à terceira etapa não se tem a data exata do começo de sua construção
bem como também de sua inauguração. Embora sua data de conclusão tenha sido
assinalada entre 1715 e 1720, após ter suas obras paradas em 1714 por falta de
recursos e retomada na gestão de Manoel de Brito, o mais provável é foi inaugurada
em dezembro de 1718 ou março de 1719, conforme Leite (1943).
Sua construção foi inovadora devido à distribuição do espaço religioso no qual
há apenas uma nave central, baseados na planta baixa da igreja do Gesú de Roma
realizada por Vignola e Della Porta em 1568. A intenção principal do modelo dessas
edificações era de uma melhor comunicação entre a igreja e os fiéis, saindo dos
modelos medievais compostos por três naves.
Jussara e Jorge Derenji em sua publicação “Igrejas, Palácios e Palacetes de
Belém” (2009), publicado em parceria com o IPHAN- PA, explanam muito bem a
distribuição da planta baixa:
112
[...] A planta da igreja possui uma nave central e tem a forma de uma cruz
latina com quatro capelas de cada lado, formando ao total oito capelas que
comunicantes com a sacristia. Estas capelas são feitas por arcos redondos
que se apoiam em pilastras. Na nave da igreja há a presença de púlpitos que
foram construídos em madeira em forma de pirâmides e de decoração
exacerbada característica do barroco. Estes púlpitos foram feitos com a
junção de conchas, volutas com anjos, atlantes e figura de olhos vendados.
Além disso, há a existência da grandiosa capela-mor, a qual é feita em talha,
a sacristia, e apoiando-se nas pilastras das grandiosas capelas, estão as
tribunas, as quais eram utilizadas pelas pessoas com maior poder aquisitivo
na época para assistirem as celebrações [...](DERENJI, Jussara; DERENJI
Jorge. 2009. p. 117, 118).
Figura 68: Planta baixa da antiga igreja de Santo Alexandre, modificada
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
Devido ter ficado fechada por cerca de 50 anos, a Igreja de Santo Alexandre
teve apenas pequenos reparos para sua conservação durante esse longo período. No
final do século XX a Igreja em conjunto com o colégio foram transformados em Museu
de Arte Sacra do Pará. As grandes modificações antes feitas, e principalmente a
degradação pela falta de conservação subjugaram os antigos símbolos a uma
condição precária, muitos até não conseguindo sobreviver ao efeito do tempo, uma
113
perda irreparável ao legado antes construído e à memória de um passado que não
mais se faz presente.
A fachada, conformada nos moldes do hieróglifo da “Árvore da Vida”, parece
ser um dos poucos elementos simbólicos que ainda permaneceram, até certo ponto,
sem alteração mais radical. O triângulo arquetípico das três esferas superiores
(Kether, Chokmah e Binah), caracterizadas por Pai, Filho e Espírito Santo, são
representadas pelas volutas na forma de espirais que se unem no topo aonde há uma
cruz como mostra Derenji (2009).
As volutas em si, revelam ser duas grandes mãos unidas, com as extremidades
apontadas para o céu, cujo gesto, para Pastro (1999) seria de submissão e de
escravos que se deixam amarrar. Partindo desse pensamento, podemos fazer uma
relação bastante significativa, pois a mensagem subliminar que as volutas parecem
querer realmente nos dizer hoje, é que suas mãos estão unidas não como forma de
oração, mas como sinal de uma súplica desesperada a buscar a salvação de sua
estrutura e função simbólica.
Figura 69: Árvore da Vida na vista frontal de Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
114
As pilastras em alto relevo da fachada explicitadas por Derenji (2009), formam
um jogo de luz e sombras, demonstrando a polaridade inerente ao templo, mas que
devido a lógica racional da atualidade passa despercebida. Em branco também se
encontram os nichos abaixo das volutas, que antes guardavam imagens de santos,
entretanto não mais utilizadas, pois se perderam com o tempo, formando uma
verdadeira lacuna para a composição do edifício; as que conseguiram ser
recuperadas encontram-se no museu ao lado, que servia como antigo colégio.
Figura 70: Capela Mor da antiga Igreja de Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
Internamente o piso, paredes e forros não mais exprimem as mesmas ideias
segundo sua composição original. Conforme as prospecções relatadas em PARÁ
(2005), o piso original da nave, capelas, sacristia, sala lateral esquerda do altar mor,
era feito em tijoleira e fora substituído por lajota de barro e preservado como
encontrado nas modificações mais recentes. As paredes também sofreram
115
modificações, devido à ação das chuvas que deterioraram vários ambientes,
fazendo-se necessária a modificação do reboco original.
Figura 71: Detalhe do Forro da Sacristia da antiga Igreja de Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
O forro original não foi encontrado, preservando-se apenas o de madeira mais
recente, dando apenas tratamento específico para sua preservação, o telhado teve
ação de cupim e teve que ser substituído. Quanto aos púlpitos temos que:
[...] Seus púlpitos, altares e em especial o altar-mor são exemplos da
decoração jesuítica na região. No caso das igrejas jesuítas paraenses,
padres artistas, como João Xavier Traer, o irmão Luís Correa ou o pintor
Agostinho Rodrigues, se encarregavam de instruir a mão de obra nativa para
auxiliar na talha e nas pinturas decorativas, de excepcional qualidade, que
ornamentavam os espaços internos [...] (DERENJI,Jussara, DERENJI Jorge,
2009. p. 28)
116
Figura 72: Púlpito esquerdo na antiga Igreja Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
As capelas laterais, seis ao todo, três em cada lado, com retábulos29 em
argamassa (direita) e madeira (esquerda), também estavam degradadas, assim como
a capela mor, um dos maiores símbolos do antigo templo, tendo recebido tratamento
para sua preservação, conseguindo-se em alguns casos até fazer a fixação dos
vestígios da pintura original, segundo PARÁ (2005).
29 Estrutura ornamental em pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior de um altar.
117
Figura 73: Capela lateral direita, vista interna de Santo Alexandre
Fonte: Foto de Artur Vítor Lannini-www.flickr.com, 2016.
Devido ao estado em que fora encontrada depois de tanto tempo em abandono,
a Secretaria de Cultura do Estado do Pará, começou seu processo de restauração,
contudo muitas imagens e objetos sacros foram levados pelas pessoas, alguns com a
intenção de roubá-las, outros almejando protegê-las; posteriormente Paulo Chaves,
conseguiu recuperar os objetos sacros, conforme os relatos da então Coordenadora
Zenaide de Paiva (2013) numa entrevista concedida à Carolina Vasconcelos de
Sousa, acadêmica da Universidade Federal do Tocantins.
Após tantas modificações, atualmente, Santo Alexandre encontra-se quase
que totalmente descaracterizada, uma verdadeira violação à antiga e sublime função
sagrada do edifício e também ao legado herdado, pois o papel que desempenhava
118
antes, de elevar os seus frequentadores ao divino, fora esquecido e substituído por
outro.
O espaço agora é utilizado apenas para visitações, palestras, casamentos e
usos afins, subjugado à condição de um simples auditório, desprovido de
representação mais elevada, e que nada nos evoca senão um vazio, uma vaga
lembrança de tempos áureos.
Figura 74: Antiga Igreja Santo Alexandre por volta de 1940
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
Nas entrevistas, todos pronunciaram-se de forma ímpar ao reconhecer em tom
lamentoso a grande perda da função simbólica do espaço. Embora Santo Alexandre
não funcione mais como Igreja, os ecos do edifício como um templo religioso ainda
podem ser nitidamente escutados pelos que passam pela construção, devido ele
trazer um sentimento de identificação maior com o divino, um sentido de
pertencimento visto em Manenti (2003), ligado ao início da história de Belém do Pará,
fazendo parte da identidade de todo o povo paraense possuindo valor material,
cultural e espiritual.
119
Figura 75: Estado atual de Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
Este sentimento de saudosismo, ainda é vívido nos moradores de seu entorno,
e pela memória de todos aqueles que frequentavam às missas do local, na época de
sua infância ou adolescência, o que se reflete nos relatos de boa parte dos
entrevistados, haja vista que várias dessas celebrações foram executadas no espaço
tornando-o não um ambiente qualquer, sem vida, inerte de significado, mas um
símbolo vibrante de uma espiritualidade que ficou intrínseca, em suas formas e
símbolos na mente de todos que ali um dia partilharam o sentimento de comunhão
com Deus, propriamente ditas de um sagrado, que clama por não ser esquecido, mas
lembrado, resgatado e preservado.
Portanto, resgatar a função sagrada dos templos religiosos e estar consciente
deles, quanto ao seu significado de pontes para o divino, não é somente resgatar o
espaço físico que eles constituem, mas antes de tudo é religar nosso espírito,
fortalecer nossa identidade e nunca esquecer de quem e do quê realmente somos,
sagrados por excelência.
120
4.5. PESQUISA DE CAMPO E QUADRO COMPARATIVO
Para constatar as influências dos edifícios religiosos na percepção do sagrado,
foi feita uma pesquisa de campo em três dias, de 28 (Quinta Feira) à 30 de Abril
(Sábado) deste ano (2016), com uma população total de 100 pessoas (25 em cada
templo) com idades diferentes, entre 14 à 75 anos, alguns foram selecionados por
frequentarem o templo, enquanto outros eram escolhidos por rotineiramente
passarem próximos ao local.
Baseados em imagens do local da pesquisa (vistas externa e interna), todos os
entrevistados responderam à um questionário com quatro perguntas, as três primeiras
diretas (“sim” ou “não”), enquanto que a última era de múltipla escolha. O modelo base
do questionário pode ser encontrado nos apêndices, assim como as imagens
apresentadas à cada um dos entrevistados, já o resultado da pesquisa pode ser visto
nos gráficos da página seguinte.
Figura 76: Pontos de referência na pesquisa de campo
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
Na Basílica de Nazaré a pesquisa deu-se no entorno da Praça Santuário,
Avenida Nazaré, ao passo que na Assembleia de Deus o ponto de referência foi na
121
frente da edificação, na Avenida Governador José Malcher. Em Santo Alexandre a
referência foi a Praça da Sé e seu entorno, incluindo o Complexo Feliz Lusitânia, e o
último ponto de pesquisa foi na Avenida Serzedelo Corrêa, paralela à Rua Arcipreste
Manoel Teodoro, onde se localiza a Sinagoga Shaar Ha-Shamaim.
Quadro 1: Gráficos referentes aos resultados das perguntas de 1 à 4 do questionário.
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
O resultado da pesquisa para a primeira pergunta nos mostra que 78% dos
entrevistados, portanto a maioria, acredita que o formato das edificações religiosas e
seus símbolos influenciam na percepção do sagrado, enquanto que 22% não tem a
mesma visão. Na segunda pergunta 90% das pessoas concordaram que o arquiteto
pode contribuir para criação de um ambiente que ligue o humano ao divino, enquanto
que 10% discordaram.
Quando aos entrevistados foi perguntado sobre a importância do espaço
sagrado criar um elo entre humano e divino, o resultado foi bem próximo ao da
pergunta anterior com 89% dizendo “sim” e 11% “não”. Ao responderem sobre o que
mais chamava a sua atenção nos edifícios religiosos, tratando-se de uma pergunta
múltipla escolha, 36% disseram que é o formato, 19 % as esculturas (nos templos que
as possuíam), 16 % todos os elementos, 14 % a pintura ( a arte sacra), 6% as cores e
122
3% disseram nenhum, e os demais 6% falaram outros elementos, como o espaço
sagrado, o sacrário e a liturgia.
Portanto, pelo resultado obtido, pôde-se comprovar a eficiência da função
simbólica dos edifícios religiosos como grandes facilitadores da percepção do
sagrado, pois seus formatos, cores, pinturas e demais características tem um grande
impacto na mente subconsciente, criando um elo entre o humano e o divino, evocando
sentimentos e lembranças, um estado de bem-aventurança que transcende a
dimensão material, o que Pastro (1999) chamou de “tremendum”.
Os templos religiosos analisados têm características em comum devido à
linguagem arquetípica da árvore da vida que está presente, mesmo que de maneira
sutil nas obras. Abaixo veremos um quadro comparativo, que ilustra as principais
características simbólicas encontradas.
Quadro 2: Comparativo dos elementos simbólicos dos templos referidos na análise.
TEMPLO RELIGIOSO
ELEMENTO
SIMBÓLICO
BASÍLICA DE
NAZARÉ
SHAAR
HÁ-SHAMAIM
ASSEMBLÉIA
DE DEUS
FACHADA Árvore da Vida
da Cabala.
Árvore da Vida
da Cabala.
Árvore da Vida
da Cabala.
PLANTA BAIXA Formato de
Cruz Latina.
Formato
retangular.
Formato de uma
Embarcação.
PISO Vários
formatos
simbólicos
como cruzes,
quadrados,
losangos,
círculos,
dentre outras
formas
geométricas.
Formatos de
Cruzes,
retângulos e
quadrados.
Não tem função
simbólica
proeminente.
123
PAREDE Apresentam
desenhos
sacros,
mosaicos, etc.
Pintadas de azul
celeste e
branco, cores
propícias à
meditação.
Não possuem
função
simbólica
proeminente.
FORRO Formato de
retângulos,
cruzes,
motivos florais
e símbolos
cristãos tais
como anjos.
Em elemento
estrutural. No
pavimento
térreo em forma
de nuvens e no
superior em
forma de arcos.
Forro de gesso
acartonado em
diferentes níveis
reproduz o teto
de uma
embarcação.
ESQUADRIAS Portas e Vitrais
com motivos
sacros.
Presença de
Vitral de
Polímero nas
laterais.
Não possuem
função
simbólica
proeminente.
ILUMINAÇÃO Luminárias
com formatos
hexagonais.
Luminárias com
formatos
hexagonais.
Não possui
função
simbólica
proeminente.
ORNAMENTOS,
ICONOGRAFIA E
ESTATUÁRIA
Vários objetos,
pinturas,
esculturas com
significado
simbólico.
Objetos sacros
(Menorá, Sinos,
etc.), mas sem a
presença de
estatuário.
Não possui
ornamentos,
iconografia e
estatuário
Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
O quadro comparativo nos mostra um vislumbre mais geral da função simbólica
dos templos religiosos em questão. Podemos observar que quanto mais recente é o
templo, no caso da Assembleia de Deus, como se viu no decorrer da análise, mais ele
desaparece em meio ao ambiente urbano, comparando-se em significado e
importância com os demais edifícios cujas funções são outras, que segundo Micaela
Branco (2015) é um produto de uma desvalorização da religião e modificação do
pensamento, e, portanto, da lógica construtiva, descaracterizando a identificação do
124
lugar como sagrado. Por essa lógica construtiva pautada no lucro (mercado
imobiliário) houve uma quebra entre o lugar do sagrado no templo com o
transcendente.
Ela ainda suscita o desleixo do “lugar” da arquitetura na cidade, e complementa
com as ideias de Norberg- Schulz (1980), ao dizer que os arquitetos esquecem do
essencial, dos princípios imateriais que conferem fôlego às construções,
preocupando-se somente com questões estético-formais. Esta atitude contribuiu
destrutivamente para as características físicas tradicionais dos templos, fazendo com
que estes tipos de edifícios deixassem de ser reconhecidos como igrejas.
Neste ponto temos Abumanssur (2000), que explana uma convergência entre a
arte abstrata e o espaço sagrado relacionados a como ambos são percebidos pelos
indivíduos. Para tal empreitada, abordando a religião cristã, caracteriza o problema
estético fundamentado no conhecimento de Deus, abordando conceitos de beleza
desde Platão, chegando a conclusão que nas artes plásticas a relação entre o ser e o
mundo visível fundamentam o problema religioso, enquanto que na arquitetura isso
está contido na concepção do que seja o espaço sagrado em si.
Quanto aos templos religiosos, por suas características tradicionais não serem
respeitadas ou até mesmo pela modificação de sua função sacra, há a perda do
referencial deste espaço como um lugar do sagrado. Eliade (1992 apud
ABUMANSSUR, 2000) fala da relação simbólica que garante significado
transcendental aos templos, e o concebe ainda como sendo o “lugar”, onde os
espaços adquirem sentido maior, guardando o caráter monumental, uma expressão
concreta da permanência. Neles os indivíduos conscientizam-se de sua coletividade e
da história que os une.
Pastro (1999) parece complementar a ideia de lugar, definindo Deus como
sendo “o Lugar”, logo se o espaço sacro é violado, se sua função sublime é
125
negligenciada e alterada, isso fomenta uma ruptura da ponte que liga terra e céu.
Além disso a concepção da comunidade, como sendo a união de vários indivíduos
unidos por um ideal, que destes espaços participa, assim como sua história
desvanece.
Cybelle Miranda no seu artigo “Restauração Como Tradução: Intervenções na
Igreja de São João Batista em Belém (1994-1996)” (2013), constatou dois aspectos
que caracterizam o templo como um bem cultural, que são o valor estético-histórico e
o valor afetivo. Discursa desta forma sobre as várias polêmicas ocorridas devido às
modificações na estrutura física da Igreja analisada, o que causou grande insatisfação
por parte dos fiéis, que em alguns casos não aceitaram completamente as
intervenções realizadas, demonstrando o sentido de identificação não somente
afetiva, mas também relativo à história deste espaço, à sua memória.
A percepção ambiental que se tem desses templos tal como a memória afetiva
e identificação histórica do espaço sagrado, com toda sua expressão maior, é que são
os fatores que fazem com que o patrimônio religioso seja salvaguardado, o que em
muitos casos não ocorre; é por isso que a Igreja de Santo Alexandre vista no final da
análise, embora não esteja no quadro comparativo, foi inserida nas pesquisas
realizadas para figurar um exemplo claro dessa violação.
126
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho buscou-se resgatar a função simbólica da arquitetura religiosa
em Belém do Pará, satisfazendo não só as necessidades mais básicas da concepção
do templo como um abrigo, mas como um lugar no qual o sagrado possa ser
percebido através dos sentidos por meio dos elementos arquitetônicos, externos e
internos, que assumem papel de símbolo, verdadeiros gatilhos psicológicos para que
possa proporcionar um meio pelo qual a integração com o divino seja sentida de forma
mais tangível.
Constatou-se que o Modernismo quanto influenciador dos modelos
construtivos, contribuiu de maneira significativa para o desaparecimento e
descaracterização do que é concebido como sagrado não somente das antigas
construções no que diz respeito a modificação de sua função sacra, condicionando-os
a simples auditórios ou salões, como também para a produção de templos que
pouco ou em nada contribuem para que a espiritualidade possa se expressar de forma
harmônica, são apenas caixas que não arrebatam a alma de quem neles adentra com
uma reflexão mais sublime.
A bibliografia consultada, por meio de conceitos provenientes da psicologia,
metafísica e teologia, em paralelo com o levantamento foto documental, comprovaram
de forma direta a grande influência que os símbolos arquitetônicos podem causar na
mente de todos os indivíduos, a fim de que se consiga perceber o que há de
transcendental dentro dos templos, confirmando também o antigo papel do arquiteto
como grande mago e filósofo dos espaços, que sabiamente expressa em sua obra
edificada as grandes verdades que o universo comunica, o que também foi
127
comprovado através dos resultados da pesquisa de campo por meio dos
questionários.
Esta por sua vez, mostrou-se de grande valia, principalmente no processo de
afirmação do templo religioso como referência de localização com o espaço sagrado a
exemplo do que acontece com Santo Alexandre. Os relatos das entrevistas
demonstram com clareza que mesmo a antiga igreja tenha sido dessacralizada, com a
destituição de suas várias partes compositivas, como ornamentos e estatuário, e pela
modificação de sua função religiosa, a concepção daquele lugar como sendo um
espaço sagrado ainda persiste na mente de várias pessoas, principalmente na dos
mais antigos, que antes frequentavam as celebrações eucarísticas e partilhavam da
vida em comunhão com o sagrado ali presente, criando um processo de identificação
com o local, um elo.
O presente trabalho contribuiu no processo de entendimento e conscientização
do porquede o espaço ser considerado sagrado. Além disso, evidenciamos dois
fatores que podem garantir que os edifícios religiosos sejam salvaguardados, que são
a memória e as devidas experiências vividas no espaço comunicadamente sagrado.
As várias percepções espaciais ajudam na identificação destes ambientes como
sendo um “lugar”, uma referência representativa do sagrado, contribuindo para uma
forte identificação do espaço sacro, um reconhecimento de que ali pode-se entrar em
contato com o divino, o reconhecimento de que este espaço é especial, que merece
ser cuidado e preservado.
Portanto, as perguntas da introdução são respondidas com primor ao se firmar
o papel do arquiteto como produtor de um espaço espiritualizado, e o mais importante,
comprovar que resgatar o sagrado dos templos religiosos para além de criar um
espaço comunicante dos grandes mistérios, ambiente propício no qual humano e
128
divino são uno, é resgatar, antes de tudo, através dos símbolos o legado deixado, a
memória, principalmente nossa identidade, nossa história, para que ela não sucumba,
para que nosso sagrado não morra.
129
REFERÊNCIAS
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134
APÊNDICES
135
APÊNDICE A- MODELO DE QUESTIONÁRIO DA PESQUISA DE CAMPO
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE TECNOLOGIA
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
Questionário para o TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO- ARQUITETURA
RELIGIOSA: O RESGATE DO SAGRADO.
Orientadora: ProfªDrªCybelle Salvador Miranda- LAMEMO-FAU-UFPA
Orientando: Wagner J. Ferreira da Costa- Nº Matrícula: 201104340025
Local da Pesquisa: Basílica de Nazaré
Nome:
Idade:
Escolaridade:
Religião:
E-mail:
1- Você acha que o formato dos edifícios religiosos e demais símbolos encontrados
neles influenciam na percepção do Sagrado?
SIM NÃO
136
2- Você acredita que o arquiteto pode contribuir para a criação de um espaço
religioso que ligue o indivíduo ao Sagrado?
SIM NÃO
3- Acha importante que um espaço sagrado crie um elo entre humano e divino?
SIM NÃO
4- O que mais chama sua atenção no templo religioso?(Múltipla Escolha)
CORES FORMATO ESCULTURAS
PINTURA OUTROS- QUAIS?
137
APÊNDICE B- IMAGENS APRESENTADAS JUNTO COM O QUESTIONÁRIO AOS
ENTREVISTADOS
138
*Todas as imagens são do arquivo pessoal, exceto a número 5 e número 7.
Número 5- Fachada da Assembléia de Deus.
Fonte: judsoncanto.wordpress.com, em Janeiro de 2016.
Número 7- Fachada Santo Alexandre
Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
139
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C1- FACHADA
140
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C2- PORTA PRINCIPAL
141
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C3- PORTA FRONTAL ESQUERDA
142
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C4- PORTA FRONTAL DIREITA- “PORTA DA MISERICÓRDIA”
143
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C5- ESBOÇO PLANTA BAIXA
144
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C6- PLANTA DE PISO GERAL
145
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C7- PLANTA DE PISO COM LEGENDAS
146
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C8- FORRO DO PÁTIO
147
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C8- FORRO DO PÁTIO- DETALHAMENTO
148
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C9- FORRO DO PÁTIO- DETALHAMENTO
149
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C10- FORRO DA NAVE PRINCIPAL E TRANSCEPTOS
150
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C11- LAMPADÁRIOS
151
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C12- VITRAL DE SANTA LUZIA
152
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C13- CAPELA LATERAL DE SÃO MIGUEL ARCANJO
153
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C14- ALTAR MOR
154
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C15- DETALHES DO ALTAR MOR
155
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C16- LEQUES ENTRE ARCOS E MEDALHÕES
156
APÊNDICE C- BASÍLICA DE NAZARÉ
C17- ALTAR DA SACRISTIA
157
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D1- FACHADA
158
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D2- ESBOÇO PLANTA BAIXA-TÉRREO
159
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D3- ESBOÇO PLANTA BAIXA-PAVIMENTO SUPERIOR
160
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D4- LAMPADAS
161
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D5- LAMPADAS
162
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D6- LAMPADAS
163
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D7- JANELAS- PAVIMENTO SUPERIOR
164
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D8- ALTAR CENTRAL CIRCULAR E ELEMENTOS COMPOSITIVOS
165
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D9- PORTA SHAAR HA-SHAMAIM
166
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D10- FORROS TÉRREO E PAVIMENTO SUPERIOR
167
APÊNDICE D- SINAGOGA SHAAR HA-SHAMAIM
D11- CÚPULA
168
APÊNDICE E- TEMPLO ASSEMBLEIA DE DEUS
E1- FACHADA
169
APÊNDICE E- TEMPLO ASSEMBLEIA DE DEUS
E2- ESBOÇO PLANTA BAIXA “TÉRREO”
170
APÊNDICE E- TEMPLO ASSEMBLEIA DE DEUS
E3- ESBOÇO PLANTA BAIXA “PAVIMENTO TIPO 1 E 2”
171
APÊNDICE E- TEMPLO ASSEMBLEIA DE DEUS
E4- FORRO E ELEMENTOS ESTRUTURAIS
172
APÊNDICE F- ANTIGA IGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE
SACRA
F1- FACHADA
173
APÊNDICE F- ANTIGA IGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE
SACRA
F2- FORRO- BRASÃO CENTRAL
174
APÊNDICE F- ANTIGA IGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE
SACRA
F3- ESBOÇO DA CAPELA MOR

Arquitetura Religiosa e o resgate do Sagrado em Belém-Pa

  • 1.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DOPARÁ INSTITUTO DE TECNOLOGIA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO WAGNER JOSÉ FERREIRA DA COSTA ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA BELÉM-PA 2016
  • 2.
    WAGNER JOSÉ FERREIRADA COSTA ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, como requisito para a obtenção do título de Arquiteto e Urbanista pela Universidade Federal do Pará, sob a orientação da Profª. Dra. Cybelle Salvador Miranda. BELÉM-PA 2016
  • 3.
    WAGNER JOSÉ FERREIRADA COSTA ARQUITETURA RELIGIOSA E O RESGATE DO SAGRADO EM BELÉM-PA Belém (PA), 7 de Junho de 2016 BANCA EXAMINADORA ____________________________________________ Profª. Drª. Cybelle Salvador Miranda Universidade Federal do Pará Faculdade de Arquitetura e Urbanismo _____________________________________________ Prof. Dr. RonaldoNonato Ferreira Marques de Carvalho Universidade Federal do Pará Faculdade de Arquitetura e Urbanismo ___________________________________________ M. Sc. Cibelly Alessandra Rodrigues Figueiredo Universidade Federal do Pará Laboratório de Memória e Patrimônio Cultural BELÉM-PA 2016
  • 4.
    Agradeço à Consciência Universal,Andrógina (Deusa e Deus), à Madonna Nera. Agradeço à minha Divindade Interna, aos Deuses, Orixás e Santos, Estrelas e Arcanjos, aos Espíritos de meus Antepassados, às Entidades, Sibillas e Profetisas, à minha família e amigos e à minha orientadora pela oportunidade, incentivo e por toda ajuda que me forneceu. Agradeçoao Sagrado que todos possuímos.
  • 5.
    AGRADECIMENTOS Quero agradecer àConsciência Universal e à minha Divindade Interna por me trazerem até aqui nesta encarnação, por todas as instruções, mensagens e bênçãos que me conferiram durante minha longa jornada que chamo de vida, e pelos momentos em que pensei estar perdido no escuro, quando tudo o que precisava era acender minha própria lâmpada. Agradeço à minha amada, honrada e venerada Madonna Nera, Nossa Senhora, que sempre me assiste, protege e abençoa, que enxugou todas as minhas lágrimas e me impedia de desistir, falando-me para seguir não importa o que acontecesse, pois sempre estaria perto para me socorrer. Este trabalho é em Sua honra,do Nosso Sagrado e de meus Antepassados. Minha gratidão também vai aos Orixás, às Estrelas e à todos os Espíritos, Entidades, Caruanas, Encantados, bem como Sibillas e Profetisas, que sempre me acolheram, dando bons conselhos e me auxiliando espiritualmente. À minha família como um todo. À minha prima Hérika Sodré por ter pago meu cursinho, à meus tios, Francisco e Deusdedith, por me acolherem em sua casa no período de vestibular. Aos meus pais, Simone e João, por custearem minha formação acadêmica monetariamente, ainda que não dessem apoio emocional e espiritual que tanto precisava, suprido em parte por minhas tias que sempre estiveram do meu lado, dando-me bons conselhos, acompanhando-me e acolhendo-me em suas casas e em seus corações, em especial, Maria, Madalena, Marta e Matilde. À meus primos, Hélida Sodré, Henrique Costa, André Andrade e Gerson Lima, que sempre me apoiaram, nos momentos bons e principalmente nos ruins.Ainda quero homenagear meus Antepassados, pois enquanto estiver vivo, nossa Lareira sempre estará acesa e vocês estarão comigo, vivos em meu coração.
  • 6.
    Sou gratoà minhaorientadora Profª Dra. Cybelle Salvador, por me acolher como uma mãe, por sua excelente orientação, apoio, flexibilidade e compreensão, bem como pela oportunidade de falar sobre um tema tão emocionante (devo dizer que aprendi muito nesse período que passamos juntos), assim como o Profº Dr. Ronaldo Carvalho pelas palavras amigas, conselhos, sempre disposto a me ajudar; agradeço à toda família do LAMEMO, especialmente à Suelen Vieira, Felipe Moreira e Lídia Basile pelas boas conversas e companheirismo, e Nathália Sudani por abrir meus olhos e me acalmar. Da graduação agradeço à Gabiela Amorim, Sonya Teixeira, George Bruno e Luís Paulo por sempre estarem comigo me incentivando, assim como todos os amigos do curso que me apoiaram. Ainda quero mencionar e agradecer àProfª Dra. Kláudia Perdigão, que em minha ideia bruta me orientou, mas ao perceber que minha pesquisa se encaixava na linha de raciocínio do LAMEMO, pensou em minha realização pessoal e suavemente me encaminhou à Profª Dra. Cybelle. Aos meus amigos de longa data Idália Santos, Rebecca Souza e Rafael Guedes, quero dizer obrigado por todos os risos, conversas, conselhos, choros, segredos, e momentos inusitados que compartilhei junto à vocês, pra mim todos são especiais. Quero exprimir também minha gratidão à todos os amigos antigos e os novos com que o Universo docemente me presenteou, que me apoiaram durante todo o processo de construção deste trabalho de conclusão de curso. Agradeço à Vida, ao Amor e ao Sagrado que à tudo permeia. Obrigado!
  • 7.
    “O dever deum arquiteto já foi o de construir um templo para o homem, e esse templo não era apenas um edifício especificamente dedicado à adoração de Deus. Ele era o ambiente do homem. Cada estrutura que se ergueu sobre a face da Terra era projetada para refletir a ordem, os mistérios e os poderes mágicos inerentes ao cosmos. A arquitetura era então a arte de incorporar a percepção espiritual profunda no tecido estrutural do ambiente que criamos para nós, e no qual trabalhamos, nos divertimos, e cultuamos. Ela era a expressão desse entendimento espiritual revelador que há muito tempo se acreditava que constituísse a beleza de um edifício”. (Herbert Bangs) COSTA, Wagner J. Ferreira. Arquitetura Religiosa e o Resgate do Sagrado em Belém-Pa. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado para a obtenção do título de Arquiteto e Urbanista. Instituto de Tecnologia. Universidade Federal do Pará, 2016.
  • 8.
    RESUMO O presente estudotem por base resgatar a função simbólica da arquitetura religiosa em Belém do Pará, fazendo uma análise comparativa entre três templos de diferentes religiões, buscando identificar e compreender os elementos arquitetônicos que funcionam como ponte para que seus frequentadores possam perceber e entrar em comunhão com o sagrado residente nestes espaços, elucidando os motivos pelos quais esta qualidade é perdida. Através de pesquisa bibliográfica, levantamento fotográfico e documental, além de pesquisa de campo de natureza qualitativa, em concordância com ramos de conhecimento multidisciplinares tais como psicologia, metafísica e teologia, buscou-se comprovar a influência dos elementos simbólicos que elevam os indivíduos à união com o divino, a reafirmação do arquiteto como produtor de um espaço sagrado, e a importância de resgatar a função do templo religioso como símbolo. Palavras-chave:Arquitetura Religiosa; Símbolos; Percepção ambiental; Belém-PA.
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    ABSTRACT The present studyis based rescue the symbolic function of religious architecture in Belem of Pará, making a comparative analysis between three temples of different religions in order to identify and understand the architectural elements that act as bridge for what your goers can perceive and enter in communion with the sacred resident in these spaces, elucidating the reasons why this quality is lost. Through a bibliographical research, photographic survey and documentation, in addition to qualitative nature of field research , in agreement with multidisciplinary knowledge such as branches psychology, metaphysics and theology , sought -If prove the influence of symbolic elements that elevate individuals with the Union the divine, a reaffirmation of architect as hum sacred space producer, and the importance of recovering the function of religious temple as a symbol . Key-Word: Religious Architecture; symbols; environmental awareness; Belém- PA
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    LISTA DE FIGURAS Figura1- Bauhaus, Alemanha....................................................................................20 Figura 2- Sigmund Freud (à esquerda) e Karl Gustav Jung (à direita).........................26 Figura 3- O Nascimento de Vênus- Ilustração de Arquétipo e Imagem Arquetípica- Pintura de Sandro Botticelli.........................................................................................28 Figura 4- Sistema da Árvore da Vida...........................................................................30 Figura 5- O Tarô e os Caminhos da Árvore da Vida....................................................37 Figura 6- Arcanos Maiores do Tarô de Marselha........................................................38 Figura 7- Experimento “O Vaso de Rubin”..................................................................45 Figura 8- Ilustração do princípio da compleição......................................................... 46 Figura 9- Panteão- Vista frontal, lateral, corte e planta baixa- ilustração de ritmo, simetria, hierarquia, polaridade, proporção e escala...................................................49 Figura 10-Partenon, Grécia- Ilustração sobre as interpretações fisiopsicológicas das retas............................................................................................................................51 Figura 11- “Deus como um arquiteto”, Pintura de William Blake.................................52 Figura 12- Formas geométricas básicas.....................................................................53 Figura 13- O homem vitruviano- Arte de Leonardo Da Vinci, modificada....................54 Figura 14- O sigilo dos sólidos platônicos: um triângulo equilátero circunscrito no Selo de Salomão.................................................................................................................54 Figura 15- Vesica piscis..............................................................................................55 Figura 16- Quadrados áureos.....................................................................................56 Figura 17- Razões áureas do Paternon......................................................................57 Figura 18- Série de Fibonacci.....................................................................................58 Figura 19- Molusco representado na série de Fibonacci.............................................59 Figura 20- As cores.....................................................................................................60
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    Figura 21- Aspectospositivos das cores.....................................................................62 Figura 22- Esboço planta baixa da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.................66 Figura 23- Frontispício da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré..............................67 Figura 24- Frontão da Basílica Nossa Senhora de Nazaré.........................................68 Figura 25- Árvore da Vida na vista frontal da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré........................................................................................................................69 Figura 26- Mandala dourada no piso da nave principal.............................................. 71 Figura 27- Piso entre os pilares...................................................................................71 Figura 28- Piso crístico representando os quatro elementos e a quintessência..........72 Figura 29- Piso dos confessionários...........................................................................73 Figura 30- Forro central do pátio em forma de cruz latina...........................................74 Figura 31- Forro lateral (esquerdo e direito) do pátio com motivos florais...................74 Figura 32- Forro interno da nave central em formas de cruzes e retângulos...............75 Figura 33- Porta principal da Basílica de Nazaré- folha direita....................................76 Figura 34- Porta lateral esquerda da Basílica de Nazaré............................................77 Figura 35- Vitral de Santa Luzia, lado direito do átrio..................................................78 Figura 36- Lampadário com motivos solares..............................................................79 Figura 37- Pilares e arcos como falos e vulvas...........................................................80 Figura 38- Leques com anjos e medalhões marianos.................................................81 Figura 39- Capela de São Miguel Arcanjo na lateral direita.........................................83 Figura 40- Altar Mor da Basílica de Nazaré.................................................................84 Figura 41- O Glória com imagem de Nossa Senhora de Nazaré.................................85 Figura 42- Lauderdale Road Synagogue, Londres.....................................................86 Figura 43- Frontispício Principal- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim................................87 Figura 44- Esboço da planta baixa térreo e 1º pavimento- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim...............................................................................................................88
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    Figura 45- Árvoreda Vida na vista frontal da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim..............89 Figura 46- Tábuas da Lei com as dez primeiras letras hebraicas................................90 Figura 47- Vista superior da cúpula da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim........................91 Figura 48- Piso da nave central em forma de cruzes...................................................92 Figura 49- Piso em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo............................92 Figura 50- Frase feita em letras metálicas, lado esquerdo..........................................93 Figura 51- Pilares internos da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim.....................................93 Figura 52- Arcos e forros.............................................................................................94 Figura 53- Porta Shaar Ha-Shamaim..........................................................................96 Figura 54- “Vitral” com figura de pilares e menorá.......................................................97 Figura 55- Arco interno envolvendo óculos.................................................................98 Figura 56- Altar central da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim...........................................99 Figura 57- Menorá metálico......................................................................................100 Figura 58- Cadeiras com nomes...............................................................................101 Figura 59- Cortina da Porta Shaar Ha-Shamaim.......................................................102 Figura 60- Daniel Berg (à esquerda) e GunnanVigren (à direita)..............................103 Figura 61- Árvore da Vida estilizada na fachada traseira da Assembleia de Deus....105 Figura 62- Esboço da planta baixa do auditório da Assembleia de Deus..................106 Figura 63- Visão interna do auditório 2º pavimento...................................................107 Figura 64- Altar como uma grande proa de navio......................................................108 Figura 65- Forro em cascata que remete à uma embarcação...................................108 Figura 66- Visão do auditório a partir do altar............................................................109 Figura 67- Principio de polaridade visto nas escadas ao fundo intercruzadas..........110 Figura 68- Planta baixa da antiga igreja de Santo Alexandre....................................112 Figura 69- Árvore da Vida na vista frontal de Santo Alexandre.................................113 Figura 70- Capela Mor da antiga Igreja de Santo Alexandre.....................................114
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    Figura 71- Forrode Santo Alexandre........................................................................115 Figura 72- Púlpito esquerdo na antiga Igreja Santo Alexandre.................................116 Figura 73- Capela lateral direita, vista interna de Santo Alexandre...........................117 Figura 74- Antiga Igreja Santo Alexandre por volta de 1940.....................................118 Figura 75- Estado atual de Santo Alexandre.............................................................119 Figura 76: Pontos de referência na pesquisa de campo............................................120 LISTA DE QUADROS Quadro 1- Gráficos referentes aos resultados das perguntas de 1 à 4 do questionário..............................................................................................................121 Quadro 2- Comparativo dos elementos simbólicos dos templos referidos na análise......................................................................................................................122
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    SUMÁRIO INTRODUÇÃO...........................................................................................................16 1. ARQUITETURA SAGRADA:DESAPARECIMENTO E GRADUAL RETORNO.............................................................................................................19 1.1. O Modernismo e O Declínio do Sagrado.......................................................19 1.2. O Retorno Gradual do Sagrado......................................................................23 2. A MENTE E OS SÍMBOLOS: COMO PERCEBER O SAGRADO?.....................26 2.1. A Cabala: O Sistema Mágico dos Arquétipos...............................................29 2.2. Tarô: Os Caminhos do Ser..............................................................................35 3. PRINCÍPIOS SIMBÓLICOS DA ARQUITETURA RELIGIOSA............................44 3.1. Matemática, Números, Geometria e Formas Sagradas................................50 3.2. As Cores como Símbolos...............................................................................59 4. O SAGRADO NOS TEMPLOS: ESTUDOS COMPARATIVOS............................63 4.1.BASÍLICA DE NAZARÉ: O REINADO DOS CÉUS NA TERRA..........................63 4.1.1. Histórico e Pesquisa....................................................................................63 4.1.2. Planta Baixa..................................................................................................65 4.1.3. Fachada........................................................................................................67 4.1.4. Pisos.............................................................................................................70 4.1.5. Paredes.........................................................................................................73 4.1.6. Forros............................................................................................................73 4.1.7. Esquadrias....................................................................................................75 4.1.8. Iluminação....................................................................................................78 4.1.9. Iconografia e Estatuário..............................................................................80 4.2.SHAAR HA-SHAMAIM: A PORTA DOS CÉUS...................................................85
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    4.2.1. Histórico ePesquisa....................................................................................86 4.2.2. Planta Baixa..................................................................................................88 4.2.3. Fachada........................................................................................................89 4.2.4. Pisos, Paredes, Colunas, Arcos e Forros.................................................91 4.2.5. Esquadrias e Iluminação............................................................................95 4.2.6. Ornamentos.................................................................................................98 4.3.ASSEMBLÉIA DE DEUS: O BARCO DOS ELEITOS........................................102 4.3.1. Histórico e Pesquisa..................................................................................103 4.3.2. Fachada......................................................................................................104 4.3.3. Planta Baixa, Pisos, Paredes, Colunas e Forros....................................105 4.3.4. Esquadrias e Iluminação...........................................................................109 4.4. SANTO ALEXANDRE: A VIOLAÇÃO DO SAGRADO......................................110 4.5. PESQUISA DE CAMPO E QUADRO COMPARATIVO....................................120 CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................126 REFERÊNCIAS........................................................................................................129 APÊNDICES.............................................................................................................134
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    16 INTRODUÇÃO No passado templosantigos arrebatavam nossas almas de forma ímpar, causando-nos grande impacto, pois neles havia algo que não sabíamos conscientemente definir, embora a incrível sensação de união com o universo fosse nítida. Tais construções foram projetadas e edificadas não somente para servir de abrigo e satisfazer nossas necessidades mais práticas, mas também para elevar nossa consciência em direção ao Sagrado, ao Divino. Com a evolução da humanidade e a chegada do Modernismo, os arquitetos pareceram perder a antiga capacidade que tinham de formular templos que expressassem as verdades universais, cuja linguagem simbólica funcionava como uma “ponte do arco íris”, ligando Terra e Céu. A antiga lógica construtiva fora substituída por uma nova, o que também influenciou os templos religiosos. Estes agora, são apenas caixas inertes edificadas pela visão funcionalista e prática, que visa o lucro como sendo mais importante do que o bem-estar psicológico e espiritual de quem neles adentra. A casa que estava baseada no conceito de lar fora substituída pelo de “máquina de morar”, e da mesma forma os templos perderam sua antiga magia, subjugados à uma condição simplista de paredes e formas que nada comunicam a não ser tédio, distração e um grande vazio. O presente trabalho busca, então, recuperar a antiga função do edifício religioso, descobrir o porquê de sua dessacralização, e resgatar os símbolos que levavam os indivíduos ao encontro do Sagrado, bem como também recuperar a antiga função do arquiteto como um mago, um filósofo e organizador dos espaços.
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    17 A necessidade doresgate do sagrado na Arquitetura Religiosa, tem por base fazer um estudo dos símbolos e trazê-los de volta ao campo da percepção através dos sentidos, para assim religar o indivíduo à sua parte mais íntima, ao que ele considera de mais divino através destas construções. Para tanto, o tema explanado evidenciará as formas arquitetônicas e seus caracteres internos, através de alguns conceitos encontrados na arquitetura, bem como também, no cunho multidisciplinar, conceitos advindos dos campos da psicologia, metafísica e religião, cujas simbologias influenciaram, e ainda influenciam, nessa percepção. Sendo o arquiteto o mago e filósofo do espaço que, através de sua obra tangível e simbólica, objetiva criar uma ponte, pela qual a integração entre indivíduo e ambiente sagrado ganhem uma dimensão real. No que tange a metodologia definida para o desenvolvimento do presente trabalho temos três eixos a saber: pesquisa bibliográfica, estudo de casos comparativos e levantamento fotográfico-documental. A pesquisa bibliográfica será feita com o objetivo de identificação dos elementos arquitetônicos que conferem aos templos religiosos uma simbologia sagrada, através de suas formas e demais carácteres internos, que promovem um elo entre o humano e divino. Para fundamentar a primeira linha de pesquisa, serão feitos estudos de caso em templos de religiões distintas. Assim poderemos analisar, de forma mais nítida, como a arquitetura desses templos pode expressar o sagrado, quais elementos se repetem ou não, e como eles influenciam seus frequentadores. A fim de conseguir identificar cada um desses elementos, faz-se necessário um levantamento fotográfico dos templos escolhidos, bem como documental através da elaboração de um questionário destinado aos frequentadores ou não, que reafirme a importância do resgate do sagrado na
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    18 arquitetura para osdias de hoje. Partindo destas premissas, propõe-se as seguintes questões: 1- Qual a importância de resgatar o sagrado em edifícios religiosos? 2- Qual a verdadeira função do arquiteto no que tange o sagrado e como ele pode desempenhá-la? Este trabalho tem por objetivo resgatar a antiga função simbólica dos templos religiosos, através da compreensão dos elementos arquitetônicos que atribuem um significado sagrado à eles, como base para questionar o papel do arquiteto na concepção destes edifícios.São partes deste objetivo reestabelecer a função do espaço construído como influenciador na percepção e sentimentos do indivíduo, consolidando o ambiente da arquitetura religiosa como um elo entre o humano e o divino; reviver a antiga função do arquiteto como produtor de um espaço no qual as grandes verdades do universo possam ser expressas e, assim, legitimar o papel do sagrado como valioso para preservar a memória, identidade histórica, simbologia e legado dos templos religiosos.
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    19 1. ARQUITETURASAGRADA:DESAPARECIMENTO EGRADUAL RETORNO 1.1. O Modernismo e O Declínio do Sagrado Com a revolução industrial da segunda metade do século XVIII, muitas coisas foram modificadas, e uma delas foi a forma de projetar e construir e do porquê fazê-lo assim. Outras concepções vieram à tona no caráter estético, estrutural e funcional, e,desta forma, grande parte das velhas filosofias simbólicas que circundavam a antiga arte da arquitetura também foram ficando cada vez mais à mercê do esquecimento, vistas como ultrapassadas. Novos materiais de construção foram inseridos, como vidro, aço e concreto armado, suprindo as necessidades dos mais variados tipos de monumentos, ao passo que os destituía de originalidade e uma filosofia que sustentasse o projeto em seus caracteres conceituais mais sublimes, como ocorreu com os vários ramos de arte, incluindo a arquitetura, principalmente a religiosa, que teve sua função sagrada violada mediante à nova lógica científica vigente, como aborda Maxwell Fry no livro “ A Arte Na Era da Máquina” (2010): [...] A verdade é que a poesia, como a arte, religião e filosofia, foram postas de lado como desnecessárias à promulgação bem sucedida de uma ciência tanto em seu estado supostamente puro e absolutamente sagrado, como quando aplicada à atividade humana na qualidade do industrialismo da máquina. [...](Fry, Maxwell, 2010, p. 123). Sendo assim, somente aquilo que era compatível e justificável com o racionalismo e a lógica científica seria visto como parte do projeto, aos moldes do materialismo científico, que considerava somente aquilo que poderia ser medido e pesado como sendo real, negando outras realidades de existência que não a física.
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    20 Com o temponovas escolas de arquitetura foram surgindo, mas nenhuma teve uma contribuição tão grande para o modernismo como a Bauhaus, na Alemanha, liderada por Walter Gropius, Ludwig Mies van der Rohe, dentre outros, na análise de Kenneth Framptom (2003). Esta escola acreditava piamente que com a utilização de novos materiais e tecnologias construtivas, poderiam melhorar as condições de vida do homem do século XX. Desta feita, para a Bauhaus os edifícios teriam que ser belos, bem como também funcionais para suprir as necessidades de seus habitantes. Le Corbusier1, por exemplo, chegou até mesmo a descrever a casa como se fosse uma “máquina de morar”, incentivando o caráter tecnológico dando origem a um padrão construtivo que posteriormente foi denominado de “estilo internacional”. Figura 1: Bauhaus, Alemanha. Fonte: www.vitruvius.com.br, 2016. Tais acontecimentos contribuíram para o surgimento de dois fenômenos que Herbert Bangsem seu livro “O Retorno da Arquitetura Sagrada, A Razão Áurea e o 1 Arquiteto renomado do século XX e pioneiro da arquitetura moderna mundial.
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    21 Fim do Modernismo”(2010)explanou como“deserto arquitetônico” e “arquitetura da alienação”. O primeiro diz respeito aos edifícios sem personalidade em meio a espaços não expressivos, enquanto que o segundo nada mais é do que a negação dos arquitetos pelas verdades esotéricas implícitas inerentes ao espaço construído. A crítica é reforçada ao citar Le Corbusier, que agravou esses fenômenos pois a maioria de suas obras propunham uma desarticulação com a natureza contida no ambiente externo, funcionando como uma caixa que separava ambos os meios hermeticamente. Os culpados por tais processos segundo o referido autor são os próprios arquitetos, cujo ensino mecanicista, baseado no materialismo científico2, vedava qualquer caráter implícito procriador de uma arquitetura simbólica de qualidade, sem falar na sensibilidade estética (estudos de harmonia, proporção e beleza), negligenciada. O resultado dessa arquitetura tão mecanicista e materialista atingiu a esfera de vários edifícios públicos, principalmente os templos religiosos. A antiga função sagrada destes edifícios, que era a de expressar as verdades espirituais mais intimas e mais elevadas dos seres humanos criando um elo entre eles e o divino, fora violada pelos padrões arquitetônicos que servem à uma lógica racionalista e de lucro desmedido, muitos deles, inclusive, tiveram sua função espiritual modificada para servir aoutros interesses, o que constitui uma grande perda do sagrado inerente a esses templos, bem como também ao legado deixado e à memória. [...] O colapso de uma sociedade integrada, que se seguiu rapidamente à Revolução Industrial, que vimos fielmente espelhada numa arquitetura desarticulada, amputada das artes de maior estrutura, e estas por sua vez a degenerar sob a pressão do industrialismo em processo em de transformação [...](Fry, Maxwell, 2010, p. 142). 2 Filosofia que encontrava suas bases no pensamento lógico-racional, mecanicista, de base científica.
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    22 É incrível notarcomo as universidades ainda continuam propagando de forma extrema o pensamento lógico funcional, não permitindo vazão às artes arquitetônicas com um sentido mais oculto. As construções não têm qualquer significado tão profundo, suas formas não evidenciam uma conversa com os indivíduos que neles entram, para que possam entender os princípios pelos quais a obra se tornou o que é. Perante esse ambiente de total insegurança e medo, qual seria então o antigo e real dever do arquiteto? Fry (2010) explica que através da combinação de forma e ordem, uma pura criação do espírito, o arquiteto consegue estimular “ecos profundos” através de sua obra nos indivíduos, pelos quais pode ser experimentada a sensação do belo. Bangs (2010) tem uma visão mais ampla deste entendimento ao dizer que: [...]O dever de um arquiteto já foi o de construir um templo para o homem, e esse templo não era apenas um edifício especificamente dedicado à adoração de Deus. Ele era o ambiente do homem. Cada estrutura que se ergueu sobre a face da Terra era projetada para refletir a ordem, os mistérios e os poderes mágicos inerentes ao cosmos. A arquitetura era então a arte de incorporar a percepção espiritual profunda no tecido estrutural do ambiente que criamos para nós, e no qual trabalhamos, nos divertimos, e cultuamos. Ela era a expressão desse entendimento espiritual revelador que há muito tempo se acreditava que constituísse a beleza de um edifício.[...](BANGS, Herbert., 2010, p. 76) Fry (2010) considera que a forma arquitetônica, ao longo do tempo, criou seus símbolos de identidade, que pela erudição tornou-se intelectualizada, e no processo acabou sendo concebida exterior à nós, afastando-nos do objetivo essencial, que é revelar o sentido da vida. Atualmente os arquitetos sequer conseguem expressar as linhas intangíveis de seus projetos aos clientes, pois se perderam do verdadeiro sentido de sua obra, antes destinada à um sentido mais elevado. Jonathan Hale (1994 apud BANGS, 2010) baseou suas ideias na intuição, e formulando uma analogia bem nítida com o tema abordado, o arquiteto é o “mago” dos espaços. Ele é quem organiza os ambientes, pesquisa, explana, formula os conceitos
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    23 sob os quaisseus traçados e demais formas externas e internas do ambiente irão se configurar, a fim de elevar a consciência daqueles que adentrarem sua obra para outro plano. Mais que isso, ele é o “filósofo” do espaço, é quem incute a antiga “magia” e as antigas “fórmulas” nas formas que desenha, fazendo uma ponte entre o indivíduo e o seu eu mais sagrado, divino e eterno. Muitos arquitetos jamais chegarão a serem verdadeiros “magos” e terem uma real percepção de seus espaços projetados que não seja a mais literal, mas as que guardam tantas interpretações quanto possíveis forem, e que sejam uma catapulta na qual os seus frequentadores sejam atirados de volta ao divino e de volta para si mesmos, para decepção de Hale. 1.2. O Retorno Gradual do Sagrado Por muito tempo a arquitetura ficou condicionada aos parâmetros do Modernismo3, embasada diretamente no materialismo científico, sendo negada a concepção da arte de projetar e construir como uma ação sublime para representar o universo, suas leis tangíveis e intangíveis, e a integração de homem e mulher com Ele. Contudo, através do reconhecimento de tradições antigas, vindas antes do Cristianismo, foi que a antiga função começou a ser redescoberta. As tradições antigas bastante mencionadas em Mircea Eliade, no “O Sagrado e O Profano” (1992), referem-se ao conjunto de heranças esotéricas das mais diversas partes do mundo. Essas tradições são muito anteriores às verdades cristãs, mais antigas até do que religiões de povos mais antigos, que constituíam cultos pagãos baseados nos ciclos da Natureza, cujo compêndio de simbolismo sobreviveu até os nossos dias, mesmo que tenham sido atacados de maneira bilateral pela igreja e ciência. A primeira refutando as verdades espirituais mais profundas e práticas 3 Movimento artístico e cultural do século XX.
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    24 mágicas ou esotéricasque ameaçassem seu poderio, enquanto que a segunda valendo-se de escárnios e invalidação do conhecimento antigo, que segundo ela não poderia ser comprovado, explica Bangs (2010) O pós-Iluminismo possibilitou que a espiritualidade e misticismo fossem trabalhados novamente, embasados numa filosofia materialista que afirmava possuir os instrumentos necessários para desvendar os mistérios ocultos, revelando assim uma realidade espiritual diferente da mundana. Ao mesmo passo, a Igreja aos poucos perdia poder no começo do século XX, o que permitia com que as pessoas pudessem devidamente procurar suas realidades interiores no seu âmago e na Natureza, ao passo que grandes acontecimentos paranormais vinham acontecendo de forma cada vez mais presente, sendo estudados como “fenômenos parapsicológicos”, o que também representou uma contradição à ciência. Eliade (1992) evidencia as contribuições da psicologia no campo da religião por Wilhelm Wundt (1832- 1920), Sigmund Freud(1856-1939), dentre outros. Freud apresentou o termo de “inconsciente” em bases aceitáveis para algumas mentes científicas. Jung (1875-1961),valendo-se da psicanálise, foi quem aprofundou esse conhecimento agregando à ele outros ramos como astrologia, alquimia, mitologia, e afins, baseando-se nos povos antigos, de espiritualidade pagã, pois eles estavam em maior contato com a natureza, pois dela dependia sua sobrevivência. Os antigos ritos constituíam no culto centrado na fertilidade e preservação da vida, caracterizado pelos ciclos sazonais de plantio, semeadura e colheita, representados por nascimento, morte e renascimento. Assim, esses povos viviam cercados de simbologia derivada de seus mitos, costumes e ritos, aonde tudo era visto como sagrado, como explana Eliade (1992).
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    25 Através desses acontecimentospodemos ver o materialismo científico ruindo até seu suspiro final pelos físicos teóricos que demonstraram o modelo falido que o pensamento mecanicista constituía. Uma nova visão do universo teve que ser criada, através da reformulação da metodologia reinante, assim como os objetivos imediatos e do propósito que todas as ciências deveriam ter. Albert Einstein, por sua vez, no início do século XX, com a sua “Teoria Especial da Relatividade” foi de suma importância para dar início ao que se chamou, posteriormente, de física quântica. Dessa forma, os conceitos místicos e estudos ocultos ganharam ênfase, unindo as tradições antigas, sejam elas de caráter ocidental ou oriental, com a nova física. Agora, aos modelos cosmológicos foram creditados uma análise séria e estruturada, passando a ser embasados e provados pelos modelos científicos, unindo-os em uma só corrente de pensamento e dando margem para novas pesquisas deste novo campo. A arquitetura por sua vez, não deve ser uma arte que expresse apenas um abrigo inerte, mas estar permeada desse encontro místico que remete à união de indivíduo e divino. A arquitetura é símbolo da realidade divina e abrigo para nossa materialidade na consciência de Bangs (2010), e tomar conhecimento da função simbólica do templo religioso é estar sintonizado com as verdades universais. Portanto o arquiteto deve assumir sua antiga função de ser o “filósofo” e “mago” dos espaços para que, no uso dos instrumentos materiais que tem em mãos, possa representar em sua construção um modelo que expresse, como um todo, o universo e seus mistérios, elevando o nível de percepção de quem nos seus templos adentra para que o grande encontro de humano e divino seja possível.
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    26 2. A MENTEE OS SÍMBOLOS: COMO PERCEBER O SAGRADO? Através das teorias de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, ambos psicólogos e pesquisadores, constatou-se que a percepção do sagrado é proveniente de três fatores: a mente (inconsciente e consciente), intuição e os símbolos e arquetípicos.Pelos edifícios religiosos serem um símbolo arquitetônico concretizado, faz-se necessário que analisemos cada um dos fatores apresentados. Figura 2: Sigmund Freud (à esquerda) e Karl Gustav Jung (à direita) Fonte: psicosophia.webnod.com, 2016. Sigmund Freud, criador da psicanálise, defendia dois tipos de mente em cada ser humano: a consciente e a inconsciente. Assim, a mente era comparada à um iceberg onde a parte consciente (analítico-racional) constituía apenas a sua superfície, enquanto que no grande corpo submerso da estrutura de gelo estaria o inconsciente. Apontava também que nesta parte inconsciente da mente estariam guardadas as camadas mais profundas das experiências e processos vividos, aquilo que, com frequência, não é aparente, tal como traumas e medos originados, ou não, na infância,
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    27 dúvidas, desejos secretos,memórias, e afins, caracterizando um vasto campo inexplorado, uma fonte ilimitada de informações, contudo latente em cada ser humano. Jung em sua obra “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo” (2002) concebeu o inconsciente em duas modalidades, que são o “inconsciente pessoal” e o “inconsciente coletivo”: [...]Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos inconsciente pessoal. Este, porém repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos inconsciente coletivo...contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são 'cum grano salis' os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos”[...](JUNG, C. G., 2002, p. 15) Essas imagens universais, que apareciam principalmente nos sonhos e demais associações, as quais Jung (2002) chamou de arquétipos são nada mais que os conteúdos encontrados no inconsciente coletivo, a exemplo da figura de deuses das diversas mitologias. Ele ainda deixa evidente a diferenciação do conceito acima demonstrado do de imagens arquetípicas, este último referindo-se ao contexto ou características com as quais “arquétipos” se apresentam, como a mitologia, os símbolos de cada um dos deuses, etc. Figura 3: O Nascimento de Vênus- Ilustração de Arquétipo e Imagem Arquetípica- Pintura de Sandro Botticelli.
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    28 Fonte: www.naturale.med.br, 2016. Outradescoberta do pai da psicologia analítica foi que no inconsciente paira a intuição, que segundo o próprio, ocorre “como um raio”, sendo um conhecimento inato, um dom, que pode ser aprendido. A intuição gera a criatividade, que começa como uma brincadeira divina que no intuito da criação vai formando e transformando o mundo criado à vontade de quem o modela. Bangs (2010) utiliza-se dessa linguagem para defender que o arquiteto deve conhecer e trabalhar com ambas as mentes para construir seus projetos. Com a consciente, faria uso de suas habilidades racionais para calcular, medir e estruturar ambientes, e com a inconsciente procuraria revelar os arquétipos do inconsciente coletivo, elevando os indivíduos a um estado de espírito ímpar, reforçando o sentido da introspecção e meditação como apoio. É dever do arquiteto então retirar da fonte inesgotável, que é o inconsciente coletivo, os símbolos, imagens arquetípicas, dentre outros elementos que reflitam a verdade metafísica e que seja a expressão do sincronismo entre homem e universo. Formular uma arquitetura religiosa de caráter sublime é uma necessidade, e precisa ser recuperada a fim de propiciar ao templo religioso um “status” de ponte entre indivíduo e divino.
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    29 2.1. A Cabala:O Sistema Mágico dos Arquétipos Dion Fortune, célebre ocultista, em seu livro “A Cabala Mística“(1985) afirma que a Cabala é um método mágico filosófico de origem judaica, que tem em si um sistema chamado de a “Árvore da Vida”, sendo uma combinação de dez círculos dispostos de determinada maneira, correlacionados, unidos por linhas. Os círculos são as “Dez Sephiroth4 Sagradas” (chamadas de esferas ou emanações) e as linhas constituem os “Caminhos” (representados por letras hebraicas, ligados às cartas do Tarô), estes últimos somam o total de vinte e dois; tal sistema reforça as ideias de Jung sobre símbolos: [...] sistema simbólico que conhecemos como Árvore da Vida é uma tentativa de reduzir à forma diagramática as forças e fatores não só do universo manifesto como também da alma humana, de correlacioná-los mutuamente e de ordená-los como num mapa, para que as posições relativas de cada unidade possam ser compreendidas, de modo a traçar lhes as relações mútuas. Em resumo, a Árvore da Vida é um compêndio de ciência, psicologia, filosofia e teologia...evoca imagens na mente; essas imagens, porém, não se desenvolvem ao acaso, mas seguem uma linha de associações bem definidas na Mente Universal. O símbolo da Árvore é, para a Mente Universal, o que o sonho é para o eu individual- um hieróglifo sintético, oriundo da subconsciência, que representa as forças ocultas [...] (FORTUNE, Dion., 1985, p. 10-13) Portanto, a Cabala consegue atuar no inconsciente individual e coletivo de cada indivíduo através da utilização das letras e de suas formas, cores, números e arquétipos a eles relacionados, precisamos então compreender a visão deste método de como enxergar o mundo de uma forma mais ampla. Menciona Fortune (1985) que há quatro mundos que representam os níveis de consciência ao qual todos os seres e mundos estão imersos, eles são: Assiah (O mundo das ações), Yetzirah (O mundo da formação), Briah (O mundo da criação) e 4 Sephiroth é o termo plural para designar duas ou mais Sephirah, termo singular, representando as Esferas da Árvore da Vida, segundo Fortune (1985, p. 28).
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    30 Atziluth (O mundodivino). O primeiro representa o plano da matéria e das ações terrenas, o segundo corresponde ao plano formativo, no terceiro vemos o plano criativo de onde as ideias surgem, enquanto que no último e mais elevado plano encontramos o nível dos Arquétipos em si. Figura 4: Sistema da Árvore da Vida Fonte: terapeutaholisticacabenilde.blogspot.com,2015 A teoria de Jung é reforçada neste método pela a imagem dos deuses de todos os panteões pré-cristãos, bem como os santos católicos, que também possuem suas particularidades, servindo em si como arquétipos e imagens arquetípicas de acordo com sua simbologia, como bem é dito por Regardie (1978) utilizando as palavras de Eliphas Levi, mago ocultista do século XIX: [...]A ciência hieroglífica absoluta tem como base um alfabeto no qual todos os deuses foram letras e todas as letras ideias, todas as ideias números e todos os números sinais perfeitos. Este alfabeto hieroglífico do qual Moisés fez grande segredo em sua Cabala, é o famoso livro de Thoth[...](REGARDIE,Israel., 1978, p. 12)
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    31 Regardie (1978) eFortune (1985), compactuam ao dizer que o hieróglifo da “Árvore da Vida” demonstra três pilares, que representam as energias da força, forma e equilíbrio. À direita temos o “Pilar da Misericórdia”, que representa as qualidades masculinas de força, energia e atividade, enquanto que à esquerda temos o “Pilar da Severidade” com qualidades femininas, de forma e receptividade, já o “Pilar do Meio” é nada mais que uma junção dos dois anteriores, formando uma androginia e equilíbrio entre as características. A Consciência Universal, no caso Deus, estruturou o universo e a alma humana através de sucessivas etapas. As primeiras foram, respectivamente, AIN (a Negatividade), AIN SOPH (o Ilimitado) e AIN SOPH AUR (a Luz Ilimitada), chamadas “Véus Negativos da Existência”, que representam aquilo que é Não Manifestado; depois dessas etapas que surgiu a primeira esfera como consta na obra de Fortune(1985). A autora classifica Kether como sendo a “Primeira Manifestação”, por se tratar da cristalização primordial na manifestação do que era até então Imanifesto5- além de conferir à esta Esfera qualidade andrógena (Deus é homem e mulher) o que é justificado devido estar no topo do “Pilar do Meio”, por isso também tem o título de “ Coroa”. Atribui ainda qualidades arquetípicas como a cor branca, número um, e às deidades que, nas diversas mitologias, criaram todo o universo material como o conhecemos, demonstrando a Consciência Universal em sua essência mais elevada. Kether, por ser uma energia ilimitada origina Chokmah, possuindo esta o título de “Sabedoria”, e dela nasce Binah, a terceira emanação, que recebe o título de “Compreensão”, explica Regardie (1978). A segunda Esfera é representada numericamente pelo dois, pela cor cinza, ligada aos deuses da sabedoria, enquanto que a terceira tem a cor preta, o número três, intimamente ligada aos arquétipos 5 Imanifesto representa os “Véus Negativos da Existência” conforme nos aponta Fortune (1985, p. 82).
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    32 relacionados à geraçãoe à morte. Outra relação que se pode traçar aqui é o da segunda Esfera representar o “Princípio Masculino”, sendo ativa e de energia incessante, encabeçando o “Pilar da Misericórdia” que rege a força, ao passo que a terceira refere-se ao “Princípio Feminino”, à geração da vida, sendo quem dá a forma a seus filhos. [...] Em Chokmah e Binah temos, respectivamente, o positivo e o negativo arquetípicos; a masculinidade e a feminilidade primordiais...É desses pares de opostos primários que surgem os Pilares do Universo, por entre os quais se tece a rede da manifestação [...] (FORTUNE, Dion., 1985, p. 94) Chesed recebe o título de “Misericórdia”, o número quatro, cor azul, relacionada aos deuses tutelares, como Júpiter romano. Regardie (1978) entende essa esfera como filha das duas precedentes, e é caracterizada pela construção, criação e organização, sendo a emanação onde as ideias da mente divina começam a ser formuladas. Em Geburah, prossegue sua análise, identificando-a como a quinta Sephirah correspondente à força complementar de Chesed, pois representa a destruição do que foi edificado e construído na esfera anterior, por isso seu título é “Severidade”. É a quinta esfera, de cor vermelha, correspondendo aos deuses da guerra. Tipharet, também chamada de “Beleza”, é a sexta Sephirah de cor amarelo ouro, ligada ao sol. Esta é uma das mais importantes emanações, devido ser um reflexo de Kether (em arco menor) e de Yesod (em arco maior), sendo nela que encontramos a “Consciência Crística”, representada também por deuses solares, ligados à cura e redenção. Destaca-se sua importância por outro fator, pois nela é que há o encontro entre nossa mente consciente e inconsciente. [...]Em primeiro lugar, ela é o centro de equilíbrio de toda a Árvore, estando no meio do Pilar Central...As quatro Sephitoh sob Tipharet representam a personalidade ou o eu inferior; as quatro Sephiroth acima de Tipharet representam a individualidade, ou o eu superior, e Kether é a centelha divina, ou núcleo de manifestação [...](FORTUNE, Dion., 1985, p. 146)
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    33 [...] Essa Esferada Árvore recebe o nome de Centro Cristológico, e é aqui que a religião cristã tem seu ponto focal...Kether é metafísica; Yesod é psíquica; e Tipharet é essencialmente mística, compreendendo-se o termo “místico” como um modo de operação mental em que a consciência cessa de trabalhar nas representações subconscientes simbólicas, ganhando conhecimento por meio de reações emocionais[...] (FORTUNE, Dion., 1985, p. 148-149) Regardie (1978), da sétima esfera, Netzach, chamada de “Vitória”, estando ligada ao planeta Vênus, à cor verde, representando os sentimentos e sensações. Os arquétipos que se relacionam à esta esfera são de todas os deuses do amor e prazer, enquanto que a esfera seguinte é Hod, que leva o título de “Glória” e está ligada com o a rigidez e direcionamento das forças para alcançar algum fim. É a oitava esfera de cor alaranjada, ligada ao planeta Mercúrio, representando disciplina, conhecimento e direcionamento, além da forma. Yesod é apresentada por Fortune (1985) como “Fundação”, sendo a nona Esfera, de cor roxa, ligada à Lua. Nessa “emanação” vemos o sonho, intuição, emoções e base metafísica das energias vitais. Por este último motivo, ela também é vista como a grande máquina geradora que confere energia ao plano físico, tendo ambas relação intrínseca. Por fim temos Malkuth, que representa a esfera do plano físico, tendo as cores preta, marrom, verde oliva e amarelo ocre. Os arquétipos a ela ligados são de todos os Deuses e Deusas da terra. [...] Malkuth recebe o nome de Esfera da Terra...O ponto capital concernente à Malkuth é que nela se completa a estabilidade. É na inércia de Malkuth que repousam suas virtudes. Todas as outras Sephiroth são dinâmicas em vários graus; mesmo o Pilar central só atinge o equilíbrio quando em funcionamento, como um equilibrista que caminha sobre um arame [...] (FORTUNE, Dion., 1985, p. 206-207) Tendo conhecimento de cada um desses conceitos do diagrama da “Árvore da Vida”, como é que podemos relacioná-los com a formação do universo e do homem e
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    34 com a arquitetura?A resposta é mais simples do que parece, se partimos do princípio que cada Sephirah conta um processo de formação que se inicia no “Imanifesto” até o “Manifesto”. Os “Véus Negativos da Existência”, representados por “Ain”, “Ain Soph” e “Ain Soph Aur” correspondem à Força Motriz criadora de todas as coisas, e que não pode ser compreendida, que muitos chamam de “Deus” ou “Consciência Universal”, conforme suas crenças particulares. O influxo dessas forças permitiu que a primeira luz de manifestação fosse criada, e daí surgiu Kether, a primeira manifestação daquilo que era “Imanifesto”, ou seja, o aspecto manifesto da Divindade Criadora do Cosmos. Kether por ser considerada andrógina divide-se em duas polaridades, ativa ou masculina (representada pela segunda esfera, Chokmah) e passiva ou feminina (representada pela terceira esfera, Binah), que formam uma tríade, um triangulo, a base triangular primária da manifestação. Após a união do ativo e passivo, vemos a formulação de Chesed que representa a base sólida das ideias, onde elas podem ser construídas e organizadas. Contudo, aquilo que foi criado está passível de destruição, o que é representado por Geburah. Sendo assim tem-se que haver um equilíbrio dessa energia em movimento, que é Tipharet, assim forma-se a segunda base de um terceiro triângulo, ou conjunto de forças. Em Netzach essa força gerada ganha várias nuances e divide-se formando tudo aquilo que se possa perceber através dos sentidos, mas para que essas potências ganhem embasamento maior é preciso que uma “forma” seja estabelecida, ou seja, participe da esfera de Hod. Contudo para que ganhem vida, as formas precisam receber o “Sopro Divino”, ou seja, a forma precisa de energia para viver, adentrando na Esfera de Yesod. O terceiro triângulo também é formado e gera a base material, Malkuth, para que a forma
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    35 venha ao planofísico, e assim que a “Consciência Universal” é manifestada, e este é o processo de formação do Universo e do homem. E o que tudo isso implica na arquitetura em si? Para entender isso, precisamos lembrar que o arquiteto, em sentido mais amplo, é um mago, ele cria, destrói e recria espaços através de ideias. Tendo isso em mente, podemos compreender como concebemos nossos projetos e como nossa arquitetura pode refletir um sentido maior. Seguindo essa linha de pensamento temos a lógica: Toda ideia surge como um lampejo, uma inspiração divina (Kether), e daí tentamos entender (Chokmah) e compreender (Binah) esse processo, e logo formulamos um pensamento (Chesed) e o organizamos, construímos e destruímos (Geburah), maturamos até que ele ganhe traços de equilíbrio e harmonia (Thipareth), assim ele reflete beleza estética (Netzach) através de sua forma (Hod), princípios, filosofia e emoção (Yesod) até que saia da prancheta e computador para sua realização (Malkuth). Agora que compreendemos do porque a Cabala ser estudada no presente trabalho, podemos ver que toda criação é obra de um “lampejo divino”, e que tudo está interligado direta ou indiretamente. As Sephiroth foram estudadas e explanadas, mas ainda nos falta analisar os “Caminhos” da “Árvore da Vida” que interligam Esfera à Esfera. Para tratar do assunto, faremos uma relação direta do sistema da Cabala com o Tarô e Astrologia, pois um complementa o outro, formando uma tríade para o entendimento do “O Todo”. 2.2. Tarô: Os Caminhos do Ser O Tarô é um dos oráculos mais antigos, e muitos estudiosos tiveram verdadeiro fascínio sobre ele, mas nenhum foi tão proeminente em vias acadêmicas, talvez, do que Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica. Para ele os oráculos promoviam
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    36 uma ligação diretaentre a mente inconsciente e a consciente, sendo assim, este oráculo promovia uma forma de se comunicar com o que estava escondido, com nossos traumas, medos, padrões ocultos, nossas verdades mais internas através dos símbolos encontrados em cada carta, como constam nos escritos de Sallie Nichols em “Jung e o Taro, Uma Jornada Arquetípica" (2001): [...] Uma viagem pelas cartas do Taro, primeiro que tudo, é uma viagem as nossas próprias profundezas. O que quer que encontremos ao longo do caminho é, aufond, um aspecto do nosso mais profundo e elevado eu[...]. (NICHOLS, Sallie.,2001, p. 12) Veet Pramad, tarólogo renomado, por sua vez, no livro que escreveu “ Curso de Tarô e Seu Uso Terapêutico “ (2011) fala que o Tarô possui 78 cartas ou “Arcanos”, divididas em três “Classes”: Arcanos Maiores (22 cartas), Arcanos Menores (40 cartas) e Cartas da Corte (16 cartas), atribuindo-lhes as respectivas letras hebraicas, que constituem os “Caminhos” da “Árvore da Vida” da Cabala, assim como os signos astrológicos em uma fiada unilateral, conforme o quadro abaixo retirado do livro de Regardie (1978).
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    37 Figura 5: OTarô e os Caminhos da Árvore da Vida Fonte: Livro Um Jardim de Romãs- Israel Regardie. Segundo ele, a primeira “Classe” está relacionada aos grandes arquétipos do “inconsciente coletivo”, a segunda com as circunstâncias e fatores que podem influenciar na vida de cada indivíduo, e a última sendo uma representação de dezesseis tipos de personalidade arquetípica ou máscaras que o indivíduo pode assumir. A viagem arquetípica sugerida por Nichols (2001), também abordada por Pramad (2011), vale-se do uso dos “Arcanos Maiores”, constituindo 22 cartas em sequência, que contam a história da alma humana através de imagens alegóricas, que transbordam simbolismo. A jornada da vida humana começa com o “Arcano 0”, “O Louco”, e termina com o “Arcano XXI”, O Mundo”. Fazer uma análise de cada um desses “Arcanos” é necessário para que possamos compreender os gatilhos psicológicos que nos elevam ao sagrado. Há
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    38 vários tipos detarô, contudo em nossa análise utilizaremos o tarô de Marselha, por ser um dos mais antigos e ter formas e cores simples, o que tornará a análise mais limpa. Figura 6: Arcanos Maiores do Tarô de Marselha Fonte: www.bridgetopeaceproject.com A jornada começa com “O Louco” ou “Arcano 0”. Pramad (2011) diz ser esta carta a necessidade de entrar em contato consigo mesmo descobrindo novos potenciais e habilidades; vemos o bebê dentro do útero, bem como a posterior criança, sem realizações práticas, que apenas cresce e desenvolve-se de forma espontânea dentro do útero materno, até o momento de seu nascimento. Ao nascer a criança começa a se mexer, bem como também seus processos mentais começam a ser construídos, então “O Mago” ou “ Arcano I”. Este é o “Mago” que demonstra a milagrosa realidade interior abordada por Nichols (2001), no caso vivida pelo bebê, e que Pramad (2011) verbaliza como as atividades mentais inerentes aos pensamentos, o intelecto, bem como as oportunidades futuras que precisam ser aproveitadas. Ao passo que sua mente é formada, também o bebê começa a sentir, tendo uma primeira percepção ao mundo fora do útero, que o cerca, “A Sacerdotisa” ou
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    39 “Arcano II”. Emsilêncio o bebê ouve o que acontece ao seu redor, e também seu coração, sonhando, como conta Pramad (2011). Ao irromper no mundo da matéria, a primeira pessoa com quem de fato o bebê entra em contato é sua mãe, “AImperatríz” ou “Arcano III”, que mostra seu rosto gentil. Normalmente a segunda pessoa é o seu pai, “O Imperador” ou “ Arcano IV”; sobre eles Nichols (2001) deixa bem claro: [...] A IMPERATRIZ e O IMPERADOR, simbolizam os arquétipos de Mãe e do Pai em escala grandiosa...Como crianças, todos vimos, provavelmente, nossos pais entronizados como a “boa” mãe “nutriz” e “protetora”, e como o “onisciente”, “corajoso” e “poderoso” pai [...]( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 24-25) Ao crescer a criança é ensinada e aprende com os exemplos de seus pais. Grava as doutrinas, o que lhe falam, lhe mostram, e sabe que por detrás de cada uma dessas coisas, que, intuitivamente, há uma verdade maior, é a comunicação universal entre todos os seres. E assim se expressa “O Hierofante” aprendendo e ensinando, na ótica de Pramad (2011) Já na adolescência a não mais criança depara com um dilema, as escolhas, que são “Os Enamorados” ou “Arcano VI”. Ele deve escolher entre o vício e a virtude, entre o amor maternal e o sexual; nesta etapa sabe que precisa fazer uma escolha que mudará sua vida. [...]Aqui se vê um jovem paralisado entre duas mulheres, cada uma das quais parece requisitar-lhes a atenção, senão a própria alma...acima e atrás do Enamorado, um deus alado munido de arco e seta está prestes a infligir lhe um ferimento mortal, que talvez lhe solucione o conflito...Eros, é, naturalmente, uma figura arquetípica, e assim também e o moço. Este personifica um ego jovem. O ego é tecnicamente definido como o centro da consciência. E quem, em nós, pensa e fala de si mesmo como “eu”[...]( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 26) Tendo optado por um caminho deve segui-lo sem olhar para trás, e começa a se desapegar de tudo aquilo que não faz mais sentido em sua vida. “O Carro” ou
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    40 “Arcano VII” épilotado andando somente para frente, e assim o adolescente se torna mais independente e livre para voar. [...] O CARRO, vemos que o herói encontrou um veículo para transportá-lo em sua jornada, pilotando por um jovem rei. Quando o jovem rei aparece em sonhos e mitos, costuma simbolizar a emergência de um novo princípio diretivo[...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 27) Ele aprende que, com o tempo vem responsabilidades e exigências externas chegarão, e nesta hora aparece “A Justiça” ou “ Arcano VIII”. Ela cobra que ele não deixe de seguir aquilo que acredita, ao passo que deve equilibrar o que sente por dentro e o que é pedido pelo exterior; Pramad (2011) nota também os efeitos construtivos desse tipo de atitude inerente à culpa de antigos erros, deixando-os no passado, entrando o indivíduo em harmonia consigo mesmo. Esse sentimento o ajuda a se autoconhecer, analisar o que sente, o que deixa passar despercebido, e assim vemos “O Ermitão” ou “Arcano IX” acendendo a lâmpada numa noite escura, continuando sua busca. Aqui vemos grandes reflexões exprimidas na análise de Pramad (2011) relacionadas à procura e conhecimento de si mesmo, o indivíduo percebe que o que procura está dentro de si e não fora, o mesmo que Nichols (2001) expõe: [...] carrega uma lanterna. Se o herói já não puder encontrar a iluminação que procura dentro de uma religião estabelecida, esse frade pode ajudá-lo a encontrar uma luz mais individual [...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 28) Pramad (2011), nesta etapa, aponta que as coisas entraram num grande ciclo, uma grande espiral, que se encaminha rumo aos céus, “A Roda da Fortuna” ou “ Arcano X” e as mudanças ocorrem, e o jovem tem que aprender a completar o que começa a encerrar etapas e não alternar de caminho em caminho, mas avançar em direção à si mesmo para evoluir em todos os aspectos de sua vida Para viver com amor, ele precisa de tesão, e se entrega à “A Força” ou “ Arcano XI”. Agora ele faz tudo com carinho, com atenção, com mais vivacidade, aprende a
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    41 força do sexoe da vida; Nichols (2001) fala de uma dama que doma um leão, essas duas figuras a integração e entendimento de seus aspectos animais e humanos, seus instintos e sua razão. Com toda essa pressão, “O Enforcado” ou “Arcano XII” ensina ao, agora, homem adulto a se aceitar como é, a saber que ele pode muito bem ser quem quer ser, independente das exigências externas. Pramad (2011) vislumbra esse homem aceitando suas ideias, sentimentos, fraquezas e aprende com tudo isso, mesmo sabendo que pode acarretar certos sacrifícios, como de seu ego, sendo importante apenas manter-se fiel à si. Somente deste jeito ele pode deixar morrer sua parte inferior, os velhos padrões que não lhe servem mais, suas máscaras, deixando-os no cemitério do “Arcano XIII”, “ A Morte”. Aos poucos o homem aprende a fluir com as coisas que acontecem, fazendo o menor esforço e o máximo de aproveitamento, revela Pramad (2011), quando desvela a “A Temperança” ou “ Arcano XIV”, mostrando que há tempo para tudo, que pode se divertir, trabalhar, brincar, viver um dia de cada vez, indo de encontro ao seu centro, como fala Nichols (2001): [...] É um anjo ocupado em deitar o líquido de um vaso em outro. Nesse ponto, as energias e esperanças do herói voltam a fluir, numa nova direção. Agora ele está pronto para voltar suas energias mais conscientemente na direção do mundo interior. Ao passo que antes buscava o desenvolvimento do ego, sua atenção volta se agora para um centro psíquico mais amplo, que Jung denominou o “eu” [...]( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 28) Mesmo indo em direção à si mesmo, o indivíduo precisa tomar cuidado com “O Diabo” ou “ Arcano XV”,pois ele rege os impulsos e instintos que podem atrapalhar ou facilitar a jornada. [...] diz Jung: As execráveis forças instituais do homem civilizado são imensamente mais destrutivas e, portanto, mais perigosas do que os instintos do homem primitivo, o qual, num grau modesto, vive constantemente instintos negativos [...] ( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 274)
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    42 A vida oensina que o que tudo aquilo que não construímos em bases sólidas do nosso mais verdadeiro eu cai por terra. Pramad (2011) evidenciou bem esse aspecto, para que todas as prisões internas e externas sejam atingidas pelo raio da verdade como “A Torre” ou “ Arcano XVI”. Agora ele compreende que a visão de mundo que tinha precisa ser reformulada, dando margem à uma revisão de categorias, pois as antigas só o faziam sofrer, e a esperança da “A Estrela” ou “ Arcano XVII” brilha em seu coração. [...] a tarefa da Mulher Estrela parece ser de separação e redistribuição. Ela talvez esteja separando os elementos arquetípicos do inconsciente da essência mais pessoal, para que a consciência do ego não permaneça inundada por material com o qual não está presentemente em condições de lidar. Devolve a essência arquetípica ao rio coletivo compartilhado por toda a espécie humana; derramando a mais pessoal na terra seca da realidade cotidiana para estimular nova vida e crescimento [...] ( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 316) Pramad (2011) foi intenso ao dizer que após o Arcano anterior o ser adulto começa a perceber seu inconsciente, de seus traumas e medos e adentra ao reino da “A Lua” ou “Arcano XVIII”. Aqui ele não tem outra escolha a não ser atravessar a ponte de sua sombra e criar uma relação com ela e com tudo o que ela representa, trabalhando todos os aspectos obscuros de seu ser, caso contrário ficará preso em seu próprio nevoeiro. Somente encarando seus medos, aceitando-os e conversando com eles o homem pode se autoconhecer, e encontrar sua verdadeira face, se individualizando, encontrando seu “eu”, e desta forma a noite acaba e o dia traz os raios do “O Sol” ou “Arcano XIX”. [...] quando o Sol está no zênite, voltamo-nos para o interior, a fim de redescobrir a criança perdida dentro de nós e relacionar-nos com ela de maneira mais consciente, curando o estado de alienação interna imposto pela civilização. O Sol retrata a re-conexão ao herói como seu eu negligenciado,
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    43 que traz consigouma experiência direta da divindade iluminadora e da vida transcendente [...] ( NICHOLS, Sallie., 2001, p. 340) O grande despertar acontece pelo “O Julgamento”, “Arcano XX”,que faz com que ele reconheça que precisa ser independente, e abrir os olhos para expandir sua consciência, entendendo qual sua missão na terra. Por fim, ele sabendo de tudo o que é e não é, e de sua tarefa, consegue se auto realizar por completo, e se eleva aos planos maiores, ascendendo a outros planos. [...] Aqui um anjo com uma trombeta irrompe na percepção do herói num glorioso esplendor de luz para despertar os mortos adormecidos. Na terra, embaixo, um moço levanta-se do túmulo enquanto duas figuras mais velhas se veem por perto em atitudes de prece e de assombro diante do milagroso renascimento [...] (NICHOLS, Sallie., 2001, p. 29) No “O Mundo” ou “Arcano XXI” a jornada iniciada com “O Louco” chega ao fim, pois ele aprendeu a completar sua missão e se auto realizar. Aqui através de um trabalho continuo para aumentar sua consciência até expandi-la além dos limites humanos, ascendendo à esferas de percepção maior, como Jung falava, na análise de Nichols (2001). Esta “Jornada do Louco”, como é chamada, mostra a manifestação do homem no plano da matéria, e a longa jornada que é a vida em busca da volta à união com o divino, com o “Uno”. Nos edifícios religiosos, a natureza de cada uma das cartas da sequência apresentada, pode ser vivida por todos os seres humanos; no Cristianismo, a “Jornada” é expressa na vida de Jesus, desde a anunciação de seu nascimento até sua morte e posterior ressurreição, geralmente expressa através das pinturas e vitrais encontrados nas igrejas e até mesmo nos quadros da Via Sacra6. Os “Arcanos Menores” também recebem relevância, visto que eles tratam dos quatro elementos primordiais da matéria (fogo, água, ar e terra), que se conjugam com 6 Via Sacra série das 14 estações, constituídas de quadros ou esculturas que representam as principais cenas da Paixão de Cristo.
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    44 a numeração decada carta, de um à dez, representando diferentes estados de consciência ligados ao elemento em questão. Pramad (2011) revela que o elemento fogo está intimamente ligado à forma com que agimos no mundo, nossos impulsos e criatividade, a água diz respeito à nossas emoções e sentimentos, o ar à nossas mentes e pensamentos, e a terra equivale à vida material, inerente à dinheiro e saúde. Na arquitetura sacra eles encontram ainda um paralelo relevante, pois cada um dos elementos torna-se presente no espaço religioso, como bem evoca a citação abaixo: [...] A terra- sólida, escura e inanimada- claramente relaciona-se com a caverna. O ar relaciona-se com o espaço e a luz, ou àquilo a que me refiro clareira. O fogo não se refere ao fogo aberto queimando na lareira...mas sim a energia do sol que se transforma ao ser absorvida pelas plantas...A água é a água, a fonte suprema de nosso ser [...] (BANGS, Herbert., 2010, p.167) Por todo este arcabouço de cunho psicológico, embebido de metafísica, pudemos compreender a relação dos vários “arquétipos” e de como eles se expressam no mundo físico, e de sua importância nos edifícios religiosos para enaltecer nossa alma em direção ao divino. A Natureza material também é mestra, pois ela permite conhecer como funciona o mundo, estando os seres humanos conscientes no espaço, permeado de formas e cores que aguçam a imaginação, fazendo com que “O Todo” possa ser entendido, assim como a alma humana. 3. PRINCÍPIOS SIMBÓLICOS DA ARQUITETURA RELIGIOSA Se no capítulo dois do presente trabalho foram abordadas as bases metafísicas pelas quais o universo e a alma humana foram formados pela “Consciência Universal”, utilizando-nos do método da Cabala, agora será visto de forma mais prática como os edifícios religiosos nos permitem ter uma percepção superior do
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    45 sagrado pelos estudosdos princípios áureos que regem seu traçado, geometria e forma, garantindo à eles harmonia e beleza ímpar, transcendental. Através da experiência adquirida pelos cinco sentidos percebemos o espaço e as formas ao nosso redor, captadas por nossos órgãos receptores. Mitchell (2008) apresenta a psicofísica dividindo os quatro atributos da modalidade sensorial, à exemplo da cor, que possui características de qualidade (a cor em si), intensidade (na tonalidade de cor), extensão (área de atuação da cor) e duração (exposição à cor). Na Psicologia Clássica, temos um ramo que se chama de Gestalt que trata de estudar a percepção das formas e de como elas influenciam a mente humana. Mitchell (2008) aponta que no processamento dos sentidos figura e fundo podem não ficar tão nítidas, confundindo-se, tal fenômeno foi constatado pelo psicólogo Edgar Rubin, em seu experimento, “O Vaso de Rubin”, no qual colocou o objeto em questão na frente de um fundo uniforme, revelando uma outra realidade, que não a imediata, de duas faces humanas. Figura 7: Experimento “O Vaso de Rubin” Fonte: illusioniottiche.wordpress.com, 2016. As formas funcionam como gatilhos psicológicos para que possamos compreender o mundo objetivo e subjetivo através de nossa mente. Neste campo da
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    46 percepção humana sobreo espaço e forma, além de contarmos com nossa experiência, precisamos conhecer dois princípios que pautam a apreensão do ambiente ao nosso redor, eles são o princípio de abdução e o princípio da compleição. Figura 8: Ilustração do princípio da compleição Fonte:dcmhci.wordpress.com , 2016. Jun Okamoto, arquiteto e escritor, abordou esses conceitos em sua obra “Percepção Ambiental e Comportamento” (1997). Sobre o primeiro princípio, o autor explica se tratar de um conceito análogo de um sistema para o outro, permitindo que tenhamos semelhanças entre as novidades e o que já fora visto anteriormente. O segundo princípio é derivado da necessidade psicológica de completarmos aquilo que está incompleto, dando margem à nossa imaginação e sentimentos como ocorre também na arquitetura. [...]Também na Arquitetura os projetos que causam emoção e tocam a imaginação dos usuários são aqueles que insinuam e exaltam a imaginação dos usuários, forçando-os a completar com imagens e sentimentos evocativos. São espaços que nos tocam. Estes jamais serão esquecidos [...] (OKAMOTO, Jun. 1997, p.148) Outros dois fenômenos da Gestalt são o de proximidade e simplicidade, abordados por Mitchell (2008),eles falam sobre objetos próximos uns dos outros serem agrupados em uma unidade.
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    47 Como já adentramosno mérito da percepção e de como enxergamos sensorialmente o mundo, iremos mergulhar nos princípios básicos que estruturam a forma, procurando entender quais as mensagens ocultas e os sentimentos que em nós elas provocam. A palavra “forma” tem vários significados, mas por estarmos trabalhando no campo da arquitetura, adotaremos o conceito usado no livro de Francis D. K. Ching “Arquitetura Forma espaço e Ordem” (2005): [...]Em arte e projeto, frequentemente utilizamos o termo para denotar a estrutura formal de um trabalho- a maneira de dispor e coordenar os elementos e partes de uma composição de forma a produzir uma imagem coerente[...] (CHING,Francis D. K. 2005, p.34). Bangs (2010) nos diz que arquitetura religiosa da antiguidade foi erigida sobre as bases de uma geometria conscienciosa, na qual as formas assumiam a função de impressionar os seus frequentadores e transportá-los à uma condição mais sublime de existência. Para isso os arquitetos antigos valiam-se de cores, texturas e principalmente de formas variadas, para compor ambientes que facilitassem este contato, por via direta ou subliminar. A forma é de suma importância, pois ela é uma grande comunicadora das experiências vividas em uma determinada época, bem como também das visões e impressões espirituais de seus projetistas, que por sua percepção usavam a intuição aliada à harmonia e proporção, que são a essência daquilo que é considerado belo, como afirma R.H. Wilenski (1927 apud MITCHELL, 2008), crítico do início do Modernismo: [...]o arquiteto experimenta, sintetiza e cria; experimenta proporções, equilíbrio, linhas, rebaixamentos, e assim por diante, coordenando e organizando sua experiência, e conferindo uma forma definitiva a um edifício...Ele se ocupa do primeiro ao último problema de relações formais[...] (MITCHELL, William J., 2008, p.13)
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    48 Antes de nosocuparmos com o estudo da simbologia dos traçados e formas, e para que estas possam ser organizadas no espaço religioso de modo a garantir harmonia entre as partes do edifício e seu todo, gerando templos belos e graciosos capazes de arrebatar nossas almas, analisaremos princípios como ritmo, simetria, proporção, escala, hierarquia e polaridade. A palavra ritmo se origina do grego “rhytmos” e está associada à ideia de repetições de elementos, lembrando um movimento regular, como numa dança,aos olhos de Mitchell (2008). Tais motivos estão dispostos em intervalos regulares ou irregulares, obtidos ao acompanharmos a repetição com nossos olhos ou ao passo que nos movimentamos, modificando nossa perspectiva. A simetria, por sua vez, está relacionada à organização equilibrada dos padrões equivalentes de formas e espaços em lados opostos de uma linha ou plano divisório, ou em relação ao centro do eixo,como reflete Ching (2005). A palavra adveio também do grego, “symmetria”, usada pelo escultor Polyclitus desde o século V a.C, como Mitchell menciona: [...]A simetria poderia ser alcançada, segundo Polyclitus, relacionando-se todas as partes de uma escultura entre si e com o todo, por meio de um sistema apropriado de proporções. Daí sua famosa afirmação de que “a perfeição provém de diversos números [...] (MITCHELL, William J., 2008, p.42) Os princípios de proporção e escala devem ser estudados juntos, pois eles equilibram um ao outro, só assim podemos compreendê-los de um ponto de vista mais geral. Bangs (2010) acreditava a proporção como a essência da arquitetura, pois ela é governada por leis matemáticas que fazem parte do vasto campo de estudo encontrado na geometria. Para ele, a proporção guardava em si a ideia de razão, de comparação entre as partes separadas e o conjunto da obra. Figura 9: Panteão- Vista frontal, lateral, corte e planta baixa- ilustração de ritmo, simetria, hierarquia, polaridade, proporção e escala
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    49 Fonte: historiadaarte.pbworks.com, 2016. Aescala não é muito diferente, pois é a relação dimensional entre o edifício e um padrão, como defende Tedeschi (1969 apud OKAMOTO, 1997). A escala pode valer-se das proporções humanas, nesse caso é chamada de “escala humana”, ou não, a mais comum usada é a “escala monumental”, destinada para grandes ambientes. Sob a ótica de Okamoto (1997), a proporção e escala dos edifícios desempenham um significado mais agudo principalmente no que tange aos edifícios religiosos, pois neles encontramos amplo uso da verticalidade, representando a ascensão no espaço espiritual do templo, valendo-se do que ele chama de “escala psicológica”. Quando medimos o grau de importância e diferenciação entre formas e espaços, nos seus mais diferentes atributos, sejam eles funcionais, formais e simbólicos que desempenham na organização, estamos falando de hierarquia. Esta
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    50 tem a funçãode destacar uma forma arquitetônica, devendo ter tamanho excepcional, formato único e uma localização estratégica, segundo nos relata Ching (2005). Tudo no universo tem polos, é assim que a natureza se manifesta. Nos templos a polaridade é notável, nesses espaços sagrados dançam luz e sombra, a primeira representando consciência e clareza, enquanto que a segunda o subconsciente e escuridão. Sobre este assunto, Bangs (2010) opina quando ao relatar que por muito tempo o aspecto “sombra” vem sido negligenciado, o que está ligado a este aspecto lembrar da caverna e o medo do escuro, funcionando como uma rejeição ao feminino, em detrimento da lógica racional apolínea de espaços extremamente iluminados. A forma encontra na polaridade um caráter mais sexual, aonde pilares redondos são a representação do órgão genital masculino, enquanto que os arcos ora sinuosos ora tênues sugerem a representação de uma vulva, verdadeiros portais. 3.1. Matemática, Números, Geometria e Formas Sagradas O significado dos números varia ao redor do mundo, conforme suas respectivas culturas. Como este trabalho centra-se na visão místico filosófica judaico-cristã, continuaremos utilizando a simbologia numérica associada à Cabala, cada esfera representando as características de cada número.Os números originam as formas, e estas são constituídas de elementos básicos, que guardam significado conforme nosso subconsciente os concebe. É a partir do número um que temos a manifestação da primeira Esfera, Kether, simbolicamente, um ponto que marca a posição no espaço, não tendo comprimento, largura ou profundidade, centralizado e sem direção.
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    51 Essa concepção éde Ching (2005), que também lança a noção de reta como dois pontos que se unem, podendo ter o segmento de comprimento finito ou ser considerado como uma parte de uma trajetória mais longa. Neste caso a reta representa o número dois, como a Esfera subsequente do sistema cabalístico, uma força que se prolonga ao infinito. Figura 10: Partenon, Grécia- Ilustração sobre as interpretações fisiopsicológicas das retas Fonte: thinglink.com, 2016. Bruno Zevi, postula sobre as interpretações fisiopsicológicas das retas com seu “Saber Ver a Arquitetura” (2002). Para ele, elas dão a ideia de rigidez e força, se horizontais exprimem racionalidade, estabilidade, constância e equilíbrio, já as verticais projetam-se ao infinito dos céus, dando margem ao êxtase e emoção; linhas inclinadas sugerem desequilíbrio, enquanto que as helicoidais denunciam a ânsia de ascensão, desprendimento ou libertação do plano da matéria. Prossegue o autor com o simbolismo do círculo, que passa o conceito de equilíbrio, do controle sobre todos os elementos da vida, enquanto que a esfera, cúpulas e semi cúpulas conotam perfeição, lei final e conclusiva, já a elipse, que se desenvolve em torno de dois centros, nunca permite que a vista repouse, tornando-a móvel e irrequieta. Figura 11: “Deus como um arquiteto”, Pintura de William Blake
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    52 Fonte: oleniski.blogspot.com.br, 2016. Suasimbologia também está ligada à ideia do cosmos, da criação, por ser a forma geométrica mais básica, dando origem a várias outras figuras; Bangs (2010) enaltece o instrumento para traçar o círculo, o compasso, associando-o na cultura ocidental à criação do mundo por Deus, que o segura. A esfera e demais formas similares geradas são obtidas através da revolução do círculo em torno do diâmetro, relata Ching (2005). Misticamente demonstra o Macrocosmo (o Universo) assim como o Microcosmo (o homem), pelas referidas atribuições dadas na publicação de Alberto Pennick,“Geometria Sagrada, Simbolismo e Intenção nas estruturas religiosas” (1980). Com o número três evoca a figura do triângulo, explicitada na obra de Bangs (2010) como símbolo da unidade indiferenciada. Representa a antiga Trindade
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    53 encontrada em todasas religiões; no cristianismo representa o Pai, o Filho e o Espírito Santo7. Figura 12: Formas geométricas básicas Fonte: www.desenhoonline.com.br, 2016. A forma seguinte é a do quadrado, que possui quatro ângulos retos, cujas dimensões são iguais. Sua simbologia implica na forma do cubo, dando a noção de construção, organização, estabilidade, segurança e integridade observadas em Zevi (2002). Além disso, o quadrado traz à tona a figura da cruz de braços iguais, símbolo dos quatro elementos; para o Cristianismo, esta forma suscita Jesus, que fora crucificado sobre o quadrado da materialidade, como complementa Bangs (2010). No número cinco iremos encontrar uma relação de formas compostas apresentadas em Ching (2005) como é o caso da pirâmide, que é um poliedro cujas faces triangulares se encontram em um ponto comum ou vértice. Ela está diretamente associada aos quatro elementos da matéria, representados por seus lados triangulares e base quadrada, acrescida do espírito, que é o cume da forma em questão, simbolizando a quintessência em Bangs (2010). Outra atribuição do número cinco é a forma do homem pitagórico pintado por Leonardo da Vinci (1452-1519, que encontra paralelo anterior em Vitruvio8, dentro da figura de um círculo com braços e 7 Pai, Filho e Espírito Santo constitui a Trindade Cristã. 8 Vitruvio foi um arquiteto e engenheiro romano que viveu no século I a.C, no período do Imperador Augusto, deixando sua obra em 10 volumes chamados de “De Architectura.
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    54 pernas abertos, imagemque nos lembra o pentagrama, estrela de cinco pontas circunscrita. Figura 13: O homem vitruviano- Arte de Leonardo Da Vinci, modificada Fonte:www.sitedecuriosidades.com, 2016. Pennick (1980) representa o hexágono como uma figura que possui seis lados, composta de triângulos equiláteros que se interpenetram de forma inversa tocando-se nos mesmos pontos, simbolizando a fusão dos opostos, além do poder da criação divina e inteireza, bem como harmonia, sendo amplamente utilizado pelos judeus. Figura 14: O sigilo dos sólidos platônicos: um triângulo equilátero circunscrito no Selo de Salomão. Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980.
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    55 Para as demaisformas obtidas, como os sólidos platônicos, utilizamos a vesica piscis9, produzida a partir de dois círculos de igual tamanho quando traçados um a partir do centro do outro. Pennick (1980) prossegue falando que a vesica piscisé uma derivação do triângulo equilátero e da linha reta que parte do círculo, guardando o simbolismo do órgão genital da Deusa Mãe, como ponto físico da origem da vida, inerente ao nascimento do templo religioso, analogamente ao nascimento do sol; Bangs (2010), inclusive, compara a vesica piscis a uma semente, a partir da qual outras formas são obtidas, como uma grande árvore em crescimento. Figura 15: Vesica piscis Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980. A secção dourada é uma razão utilizada na produção da arquitetura sagrada da antiguidade, inerente ao Egito e Grécia. Os edifícios desses lugares eram formulados por retângulos de raiz, também conhecidos como retângulos áureos, produzidos através de um quadrado e um compasso: [...] O seguinte, o retângulo V2, é produzido a partir do quadrado por meio do simples expediente de se colocar o compasso no comprimento da diagonal e 9 Vesica Piscisé a forma gerada pela intersecção de dois círculos de mesmo raio, em que o centro de cada circunferência está sobre o perímetro da outra.
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    56 fazer a linhade base encontrar a linha traçada a partir daquele vértice. Esse procedimento toma o comprimento do lado longo igual à raiz quadrada de 2, tomando o lado curto como unidade. O retângulo V3 é produzido da diagonal desse retângulo, e assim por diante[...] (PENNICK, Nigel.1980, p.25) Esses retângulos também podem ser reduzidos a partes muito menores como explicita Pennick (1980), sendo partes do todo. Fala ainda que a proporção e a comensurabilidade das formas arquitetônicas harmônicas, é nada mais que geometria traduzida em som pela música, traçando uma relação entre ela e a proporção dos edifícios. Figura 16: Quadrados áureos Fonte: Livro Geometria sagrada, simbolismo e intenção nas estruturas religiosas, 1980. Figura 17: Razões áureas do Partenon
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    57 Fonte: www.avaad.ufsc.br, 2016. Hátambém os retângulos, classificados em estáticos e dinâmicos, além de uma terceira forma que combina os dois. O primeiro caso ocorre quando as proporções expressam números inteiros, já os que são do tipo de raiz são chamados dinâmicos, garantindo maior flexibilidade, e o terceiro caso é uma junção das propriedades dos dois anteriores, chamados de quadrado e quadrado duplo e na diagonal deste último temos a forma de V5, muito usada em edifícios sagrados, sendo diretamente do retângulo de raiz dois ou de raiz quatro ao retângulo de raiz cinco relacionado com a proporção V5+1/2 da seção dourada, como Pennick (1980) deixa claro. O pentagrama também pode produzir essa razão por estar ligada ao pentágono, obedecendo a equação V5+1/2=1,618, sendo apresentada pelo postulado: [...] Em toda progressão ou série crescente de termos que tem como a razão entre os termos que se sucedem, cada termo é igual à soma dos dois precedentes. Esta propriedade singular permite a manipulação de toda a série. Todos os outros termos sucessivos podem ser construídos, a partir de dois deles, por movimentos simples de compasso[...] (PENNICK, Nigel.1980, p.25)
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    58 Figura 18: Sériede Fibonacci Fonte: afaithfulattempt.blogspot.com, 2016. Tais propriedades foram reproduzidas por vários matemáticos e estudiosos como Lucas Paccioli (1445-1517) e Leonardo da Vinci (1452-1519), mas ficou mais amplamente conhecida na Europa por Leonardo Bigollo Fibonacci (1170-1250). A série de Fibonacci constitui uma formula aditiva na qual, como visto em Pennick (1980), dois termos anteriores geram um terceiro, encontra-se em vários mitos através da formosa concha do Nautilus pompilius10, que para os pitagóricos representa a criação rítmica do cosmos, harmonicamente o amor universal, como nos relata Lawlor (1996). [...] A espiral logarítmica acaba por ser sobreposição ao feto do homem e dos animais, e está presente no esquema de crescimento de muitas plantas. A distribuição das sementes de girassol, por exemplo, é regida pela espiral logarítmica do número áureo. Além disto, o girassol possui 55 espirais orientadas no sentido horário, sobrepostas a 34 ou 89 espirais em sentido anti-horário. Reconhecemos estes números como parte da série Fibonacci, que é gerada porΦ[...] (LAWLOR, Robert.1996, p.57) Prosseguindo com a ideia ele apresenta a série tal que os dois termos sucessivos tendem a se relacionar na proporção de 1:Φ11, e qualquer dos três termos 10 Molusco marinho da família Nautilídae. 11 Letra grega Φ “Fi” que representa a constante da série de Fibonacci equivalendo a aproximadamente 1,618.
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    59 sucessivos é igualà 1:Φ:Φ ² originando um valor de aproximadamente igual à 1,61818. Conforme a Figura 19 da página anterior temos que: 55/34= 1,618; da mesma forma vemos que 55/21=1,618. Figura 19:Molusco representado na série de Fibonacci Fonte: sophiaofnature.wordpress.com, 2016. Com todos esses princípios formulados a geometria sagrada ganhou embasamento matemático a fim de comprovar os postulados das formas simbólicas das construções do passado, fomentando seu caráter oculto. 3.2. As Cores como Símbolos Vários estudos comprovam o efeito psicológico que as cores possuem, e já vimos que esses fatores estão presentes em diversos sistemas e oráculos, como os que residem no capítulo anterior.Para termos uma compreensão mais apurada das cores, veremos conceitos de luz e vista. A grande fonte de luz e energia natural que possuímos é sol, embora a intensidade de seus raios varie com os diferentes horários do dia e as estações, podendo ser ainda atrapalhado pelas nuvens, neblinas, precipitações, etc. Ao adentrarem um edifício, os vários matizes de luz solar, devido sua intensidade e direção, em diferentes horários causam nuances visuais diferenciadas, projetando a sombra das formas que dentro do recinto existe, conforme Ching (2005).
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    60 As janelas eportas, dependendo do material de que são feitos e de seu formato, podem facilitar ou dificultar a iluminação natural, e suas dimensões, localização e orientação podem ser vitais para uma boa incidência de luz, e as devidas projeções, que nelas ocorrerão ao serem iluminadas, bem como as consequencias que disso provém, à exemplo do calor, má ventilação e percepção visual. Foco, orientação e perspectiva, fazem parte da vista, e são importantes quando tratamos da forma. O foco é algo que chama nossa atenção, e no caso dos interiores das habitações pode ser visto como a lareira de Bangs (2010), já nos exteriores pode ser identificado por uma vista em direção a um espaço adjacente. A orientação é notada quando à suposição colocamos uma janela translúcida no canto de um recinto para conferir ao ambiente uma orientação diagonal. Por último temos a perspectiva, que tem mais haver com a distância e a posição da qual se observa um certo foco, como no exemplo da janela acima, seja ele uma paisagem externa. Figura 20: As cores Fonte: blogquestaodeestilo.com,2015. As cores são de suma importância por facilitarem ou não nossa compreensão dos edifícios religiosos e de como nos sentimos neles, pois são imagens evocativas. Marie Louise Lacy começa a introdução de seu livro “O Poder das Cores no Equilíbrio
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    61 dos Ambientes” (2011)com a seguinte pergunta: “ Como e porque as cores influenciam a nossa vida?”- que prontamente responde quando discursa: [...]A cor pode transformar, animar e modificar totalmente um ambiente; todos nós reagimos à cor e, atualmente é possível levá-la a todas as áreas da vida pelo uso de materiais, tecidos e tintas...As cores que apreciamos são expressões de nós mesmos, pois em torno de cada pessoa há uma aura de luz que irradia várias cores. Tendemos a ser atraídos por cores que complementam a nossa própria aura [...] (LACY, Marie Louise. 2011, p. 13) O entendimento de como as cores pode nos influenciar através do que chamamos de psicodinâmica das cores. Wood (1984 apud OKAMOTO,1997) diz:“ o olho humano interpreta os raios luminosos (energia eletromagnética) através de uma interação dos nervos óticos com o cérebro, a qual envolve um sistema de bastonetes e cones de retina, para depois o externalizar como cores. Parece que existem cerca de 1.000 matizes diferentes e mais de 2.000 tonalidades e nuanças que podem ser percebidas pelo olho humano”. Okamoto (1997) fala ainda de dois aspectos das cores, o da percepção e o da sensação. O primeiro confere ao sujeito as informações vindas dos objetos pelas cores, enquanto que a segunda anima aguça a imaginação sobre as figuras, o que Goethe interpretava como a ação e a paixão, respectivamente. As texturas e padrões também nos influenciam, como é ressaltado por Danby (1963 apud OKAMOTO, 1997) ao dizer que eles são meios adicionais de percepção das cores de maneiras distintas em uma superfície, seja de pequena escala, no caso das texturas, ou de grande escala como são os padrões, o que também é percebido na arquitetura: [...] No âmbito da Arquitetura, a textura e os padrões, no fundo, são definidos pelas escolhas e especificações dos materiais de construções e revestimentos. Pela distância e pelo movimento constante que o homem faz nos ambientes, os valores de percepção dos padrões, que dependem dos materiais que se destinam para o ambiente, passam a ser o aspecto mais importante[...]” (OKAMOTO, Jun. 1997, p.156)
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    62 Ao tocar nesteassunto, estamos levando em consideração a natureza dos materiais construtivos aplicados à forma, que para além de suas propriedades físicas, apresentam significado psicológico. Entre os materiais artificiais e naturais, estes últimos se destacam quanto a significância, devido serem retirados de sua fonte primária, o que confere à eles qualidades especiais, como vemos na citação: [...]Pedra não é apenas pedra e madeira não é apenas madeira. Cada material, especialmente aqueles que nós como espécie que tem uma tradição viva e continua, usamos durante os últimos milênios, tem uma significação esotérica e arquetípica que podemos compreender por meio da meditação e da introspecção[...] (BANGS, Herbert. 2010, p.188) Vejamos agora a influência de cada uma das principais cores e seus significados mais gerais, de uma imagem retirada da referência utilizada demonstradas abaixo: Figura 21: Aspectos positivos das cores Fonte: O Poder das Cores no Equilíbrio dos Ambientes,2015. 4. O SAGRADO NOS TEMPLOS: ESTUDOS COMPARATIVOS
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    63 Após entender osmecanismos pelos quais o sagrado é compreendido nos templos através da função evocativa dos símbolos e de conceitos baseados em outros ramos de conhecimento como psicologia, cabala, e afins, adentrar-se-á agora à análise mais aprofundada de quatro templos religiosos: A Basílica de Nazaré, Templo da Assembleia de Deus, Sinagoga Shaar Ha-Shamaim e por fim Igreja de Santo Alexandre. 4.1.A BASÍLICA DE NAZARÉ: O REINADO DOS CÉUS NA TERRA 4.1.1. Histórico e Pesquisa A Basílica Santuário de Nazaré está extremamente ligada ao culto à Nossa Senhora de Nazaré, que tem seu legado advindo desde Portugal e que chegara ao Brasil pelos padres jesuítas e ao Pará, posteriormente, embalada pela história do caboclo Plácido que encontrou a estátua da Santa à beira de um Igarapé, e que com a ajuda de seu amigo Agostinho construiu uma Ermida de palha, abrindo um grande quadrilátero que compreendia o Largo de hoje, além do terreno da basílica e da casa dos Padres e parte do terreno do quartel até o igarapé das pedras ou da Santa. Através do Padre Luiz Zoia, visitador da ordem dos Barnabitas no Brasil em 1908, foi que a sugestão de construir uma nova matriz surgiu, a qual ficaria ao lado da antiga para não interromper o culto, sendo uma redução da Basílica de São Paulo Extra Muros em Roma, como aponta o “Guia da Basílica Santuário de Nazaré” (1978). Auxiliado pelos arquitetos Coppede e Pedrasso, de Gênova, fizeram os esboços e demais desenhos. Padre Luiz teve grande importância para a construção
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    64 da Basílica, expedindoplantas e materiais da Itália, além de organizar os processos da construção, tendo assistência na parte decorativa de engenheiros como Acatauassú Nunes, Tiago Bolla, Julio Tropinoe da Marmífera Lígure Italiana. No terceiro Domingo de Outubro de 1909 a primeira pedra foi colocada, em menos de 5 anos a Basílica já estava no arcabouço12, além de cripta13, tesouras14, vigamentos15 e cumeeiras16 através do comando do padre Emílio M. Richert ajudado pelo padre José Lanzi, que era mestre de obra. Além deles, em 1918, tivemos a participação do padre Afonso di Giorgio que recebeu a igreja completamente nua e a ornamentou de mármores, mosaicos e vitrais, bem como revestimento e embelezamento da obra levando até 1962, ano em que morreu. A Basílica representa o reinado dos céus na terra, tutelado pela padroeira da cidade de Belém, Nossa Senhora de Nazaré. Neste templo a função Sagrada do edifício faz-se presente pelas simbologias encontradas desde a sua fachada até o seu interior, ricamente ornamentado de pinturas, esculturas e cores ricas que se comunicam com o inconsciente coletivo de todos os seus visitantes. Com as pesquisas realizadas no templo religioso e entorno, na Praça Santuário, Bairro de Nazaré, os resultados mostraram-se mais relevantes quanto à representatividade do sagrado do edifício, repleto de símbolos a começar pelo formato. Este templo é um símbolo vivo da fé encontrada em Nossa Senhora de Nazaré, aqui as imagens, esculturas e demais caracteres mostram ser de vital importância para que a percepção do ambiente divino sirva como ponte para alcançar a comunhão com Deus e as bênçãos e proteção da Senhora de Nazaré. 12 Arcabouço ou esqueleto é o conjunto dos elementos estruturais da edificação ou de partes desta. 13 É um ambiente subterrâneo, em geral sob a cabeceira de uma igreja. 14 Tesoura ou asna são peças de madeira inclinada que liga a parte inferior do pendural à empena. 15 Conjunto de vigas de uma construção. 16 É a parte mais alta do telhado, onde se encontram as superfícies inclinadas.
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    65 4.1.2. Planta baixa ABasílica, cujo estilo é neoclássico, apresenta-se com cinco naves, divididas por 36 colunas de puro granito italiano, sendo uma reprodução da Basílica de São Paulo Extra Muros,em Roma, com os mesmos 20 metros de altura, e cujas torres se projetam a 42 metros, já o comprimento é de 62 metros e 24 de largura, correspondendo a metade da Basílica Pontifícia. O formato da planta é em cruz latina com os espaços impressos de simbolismos por seus pisos, colunas e arcos, divididos por suas naves central e lateral (esquerda e direita). Ambas são espaços de meditação, na central há maior número de bancos para os fiéis assistirem às missas e fazerem suas orações, é um local de silêncio, recolhimento e contemplação no qual a visão para o altar mor é desobstruída, sendo este o principal símbolo da parte interna da igreja, como discursaremos mais tarde. Nas naves laterais de ambos os lados temos a presença de capelas diferenciadas por sua ornamentação, que ao fundo exibem mosaicos de santos e motivos religiosos, e acima delas vitrais que mostram os milagres de Jesus.Elas estão entre colunas nas quais fixados estão quadros cujo formato lembra a fronte de um edifício romano, que representam as diferentes estações da via sacra. Alternando com as capelas há confessionários feitos em madeira, cujos símbolos de cruzes representam a remissão dos pecados. Figura 22: Esboço planta baixa da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré
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    66 Fonte: Wagner Ferreira,2016. O ambiente da sacristia que possui 20 metros de largura por 10 de comprimento tratando-se de uma construção cúbica, analisada posteriormente, é separada das naves da igreja por um corredor ao lado esquerdo em relação à testada frontal, que dá acesso à parte administrativa, banheiros e lojas. Sendo assim, trataremos primeiro da fachada, pois ela é o cartão postal para apresentação do templo.
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    67 4.1.3. Fachada A fachadaprincipal já mostra formas pronunciadamente simbólicas. Antes de adentrar ao templo nos deparamos com uma escadaria em pedra portuguesa acompanhada de ambos os lados de dois aclives semilunares em granito escuro, um em cada lado que nos levam em direção aos três portais que compõem a entrada. Figura 23: Frontispício da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2015. Ao chegar ao átrio coberto da Basílica vemos quatro colunas em granito róseo, à frente, e quatro pilares do mesmo material que abrigam os três portais. Eles dão sustentação a uma varanda vazada tendo em seu meio a Virgem de Nazaré com mãos unidas em forma de prece, e cujo os mosaicos abaixo da estátua e tímpano17, respectivamente, dizem, segundo o “Guia da Basílica Santuário de Nazaré”(1978):“ Salve Rainha, Mãe de Misericórdia“,“O Mãe de Deus Imaculada como outrora em Nazaré, aqui sempre permaneçais, à nós propícia”e “ À Mãe de Deus, a Virgem de Nazaré”. 17Espaço triangular limitado pelos três lados do frontão.
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    68 Já no triangulodo tímpano vemos a Madonna, outro título dado à Maria, representada como título de “Rainha da Amazônia”, rodeada de florestas, índios, negros e jesuítas além de celebridades históricas tais como Pedro Alvares Cabral, Castelo Branco, Dom Bartolomeu, dentre outros. Figura 24: Frontão da Basílica Nossa Senhora de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2015. A leitura da função simbólica geral da fachada nos remete ao universo da Cabala, tomando a Basílica como um reinado dos céus na terra. Partindo deste princípio, o nível do arraial representaria a esfera da terra (Malkuth) e as escadas representariam a ascensão à esfera de Yesod, em outras palavras à Lua, o que é percebido através dos aclives semilunares em granito escuro que levam ao átrio coberto. As quatro colunas que sustentam o balaústre tem a simbologia do número quatro, que representa a estabilidade e ordem, e também as quatro esferas posteriores, que correspondem ao Microcosmo18, indo da esfera da Lua (Yesod) à do Sol (Tipharet), sendo as duas esferas de ligação; a primeira (Yesod) liga a Terra (Malkuth) ao Sol (Tipharet), enquanto esta liga as quatro esferas inferiores às superiores. 18 É nada mais que o próprio homem, representado como sendo um pequeno universo na leitura de Fortune (1985, p. 35).
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    69 Figura 25: Árvoreda Vida na vista frontal da Basílica de Nossa Senhora de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Há ainda a projeção destas colunas para cima, representando a continuidade e interligação de esferas inferiores, as quais já vimos, com as superiores representadas pelo número três sob forma de triângulo do tímpano. O número três como vimos na ótica da Cabala está ligado à esfera da Mãe (Binah), afirmando o caráter essencialmente feminino da construção, além do conceito de Trindade divulgado pelo Cristianismo: Pai, Filho e Espírito Santo, que representam, respectivamente, Kether (A Coroa) primeira esfera de onde tudo surgiu, Tipharet (A Beleza) esfera do Sol e Yesod (Fundamento) a esfera da Lua, propiciando uma relação das partes com o Todo. Na fachada ainda encontramos exemplificados os quatro mundos da Cabala por sua divisão. O mundo de Assiah (plano da matéria) é notado pelo nível do arraial até o piso do pátio, deste em diante até o balaústre temos o mundo de Yetzirah (plano dos anjos e da formação); deste até a base do triângulo do tímpano temos Briah (plano arcangélico ou criativo), e por último da base triangular até os céus Atziluth
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    70 (plano da DivindadePura), aonde encontram-se as três esferas superiores: Kether (A Divindade Andrógina), Chokmah (A Força Masculina, O Pai) e Binah (A Força Feminina, A Mãe), como nos diz Fortune (1985). As torres foram colocadas posteriormente ao projeto primitivo em 1910, carregando, cada uma, nove sinos da firma Barigozzi de Milão, que foram bentos em 15 de junho de 1930. Vale lembrar que nove é o número da esfera da Lua, chamada também de “Fundação” que se interliga ao “Reino”, ou seja, à Terra. 4.1.4. Pisos Através do piso a função simbólica também se revela pela composição dos desenhos geométricos. Há diferenças entre as pedras utilizadas conforme a cor e formatos ; a branca é de Trani, de Torres, amarela de Verona, verde dos Alpes, escuro de Portôro, vermelho de Levanto, pórfido, conforme o Guia da Basílica de Nazaré (1978). A nave central é escalada por círculos concêntricos que se repetem de forma espaçada em número de dez, que parecem refazer no piso a “Árvore da Vida” da Cabala, até os pequenos degraus que dão acesso ao Altar Mor. O oitavo círculo tem em si um disco dourado, que forma uma mandala, representando o centro da Basílica, o meio da cruz explanada pela planta do templo, bem como também a concretização maior no plano da forma, simbolizada pelo nascimento de Jesus Cristo na terra como demonstrado por Pastro ( 1999).
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    71 Figura 26: Mandaladourada no piso da nave principal Fonte: Wagner Ferreira, 2015. Entre os pilares da nave central, oito no total, vemos formas retangulares do piso que se conjugam com um círculo em seu meio, representando que entre os dois pilares há um invisível compondo uma tríade, como os “Pilares da Misericórdia”, “Severidade” e “Equilíbrio” do sistema da “Árvore da vida”, representações da força e da forma. Figura 27: Piso entre os pilares Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Podemos encontrar ainda nessa nave composições de vinte e um quadrados que se intercalam em uma área retangular separando os círculos concêntricos. Devemos lembrar que o número vinte e um é uma alusão aos caminhos do mesmo hieróglifo, dizendo respeito ao Tarô.
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    72 Outra parte dopiso da nave central forma a figura de uma cruz latina intercalada por um quadrado e em seu centro um círculo. Essa figura evoca os quatro elementos que constituem a matéria, e o círculo a união destes, a quintessência dos sábios. Figura 28: Piso crístico representando os quatro elementos e a quintessência Fonte: Wagner Ferreira, 2015. Nas naves laterais esquerda e direita podemos identificar pisos harmonicamente iguais, desenhados por composições de quadrados e losangos que se intercalam ao longo do percurso. Mais notável ainda é a composição do piso dos confessionários, um conjugado de triângulos e hexágonos, que remontam a terceira esfera (Binah) e a sexta (Tipharet), simbolizando a redenção e absolvição da culpa que morre nos braços misericordiosos da sagrada mãe Igreja. Estas naves laterais se diferenciam, pelos vitrais, esculturas e pinturas que as compõem, contendo capelas de santos, suas pinturas, esculturas, bem como da vida de Jesus. O percurso culmina na nave esquerda na capela de Jesus (à esquerda) e de Nossa Senhora do Brasil (à direita), cada uma com seu piso e simbologia própria.
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    73 Figura 29: Pisodos confessionários Fonte: Wagner Ferreira, 2016. 4.1.5. Paredes As paredes são revestidas com faixas de vermelho e amarelo de Verona, com verde de Polcévera e coral são revestidos os rodapés, constando na publicação da Biblioteca do Círio (1978). Podemos encontrar simbologia vasta, ricamente exemplificada pelos desenhos geométricos que nela observamos, mosaicos das capelas laterais, bem como pelas pinturas de sua composição, de ambos os lados que compõem a nave central, no qual mostras figuras sacras de Maria, Santos e Anjos. 4.1.6. Forros O forro do pátio é revestido de estuques19 de cimento, guardando em si motivos em alto relevo de vegetação nos lados esquerdo e direito, enquanto que na parte central, eles se dispõem inclusos nas quatro partes de uma cruz, com uma esfera no centro, simbolizando os quatro elementos, nos quatro cantos dessa cruz, 19 Argamassa que depois de seca adquire grande resistência ao tempo.
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    74 podemos perceber aimagem de anjos, que parecem recepcionar os visitantes do templo. No átrio o forro é de madeira de lei. Figura 30: Forro central do pátio em forma de cruz latina Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Figura 31: Forro lateral (esquerdo e direito) do pátio com motivos florais Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Internamente o forro se diferencia em cada uma das naves, mas é na central que a simbologia se destaca com forro em cedro vermelho em mão de obra paraense, conforme a Biblioteca do Círio (1978), em formatos de cruzes latinas, guardadas em
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    75 cada um dosquadrantes por quatro arcanjos, o que nos retoma a idéia dos quatro mundos da Cabala. Além disso há também um círculo no meio, assim como em um dos desenhos do piso, que é a culminância dos quatro mundos. Figura 32: Forro interno da nave central em formas de cruzes e retângulos Fonte: Wagner Ferreira, 2016. 4.1.7. Esquadrias As três portas foram realizadas pela firma Eberle de Caxias do Sul, sendo as duas portas laterais mais estreitas enquanto que a do meio é a de maior destaque por altura, largura, peso e espessura. O Guia da Basílica de Nazaré (1978) nos fala que na parte superior há o emblema da Basílica (Umbela20 e duas chaves pontifícias) além das armas dos Padres Barnabitas (três montes e uma cruz com as iniciais de Paulo, O Apóstolo). O portal principal também apresenta Maria com gravuras em alto 20 É qualquer objeto ou estrutura que imite um guarda-chuva.
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    76 relevo como sendoRainha dos Santos, das Virgens, Apóstolos, Anjos, e de todo o Reino. Figura 33: Porta principal da Basílica de Nazaré- folha direita Fonte: Wagner Ferreira, 2016. As portas laterais também seguem o mesmo padrão. Na direita vemos Nossa Senhora como a Estrela da Manhã, Consoladora dos Aflitos, Arca da Aliança, como Casa de Ouro, Refúgio dos Pecadores e como Virgem Poderosa. Na esquerda observamos Nossa Senhora do Carmo e Simão Stock, Nossa Senhora do Rosário com São Domingos e Santa Catarina, Nossa Senhora como Rosa Mística, Lírio entre espinhos, Nossa Senhora de Lourdes com Bernadette, Nossa Senhora de Fátima com os três pastorinhos.
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    77 Figura 34: Portalateral esquerda da Basílica de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Através dos portais, vemos que a Igreja se afirma, de forma sutil, como um ambiente feminino, aonde a porta central representa a grande entrada de volta ao útero da Mãe Antiga, sendo um abrigo como Bangs (2010) explanou em seu livro quando discursava sobre a caverna. Os vitrais, por sua vez, apresentam grande diversificação quanto às suas imagens, ora relembrando os Santos (nas naves laterais), ora a história da devoção de Nossa Senhora de Nazaré de Portugal até Belém (nos transeptos21 esquerdo e direito). À Exemplo temos o vitral de Santa Luzia, encontrado à direita, ao lado do 21 É parte transversal de uma igreja que se estende para fora da nave central, formando com esta uma cruz.
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    78 átrio22, padroeira davisão e da oftalmologia, segura em uma das mãos uma bandeja com seus olhos carnais, e na outra uma palma (planta levada por todos os Santos mártires). Neste caso, o prato com os olhos representam o espelho da alma, a visão do espírito, que a tudo clareia e permeia, que tudo conhece. Figura 35: Vitral de Santa Luzia, lado direito do átrio Fonte: Wagner Ferreira, 2016. 4.1.8. Iluminação A iluminação da Basílica é conjugada, sendo ora contemplada com a riqueza e pompa de seus lampadários venezianos de estilo românico, ora complementada com iluminação de lâmpadas modernas. Nas primeiras somos levados à observar os formatos esférico, globo de vidro coloridos, que guardam uma simbologia ligada ao 22É a sala de entrada das antigas casas romanas, no caso da entrada da Basílica de Nazaré.
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    79 sol, devido aofato de em sua parte mais pronunciada abaixo, pelo ornamento metálico pontudo, ter em si uma estrela de seis pontas como um hexágono, cuja simbologia já fora em demasia explanada. O desenho do próprio lampadário expressa ainda uma mandala23 de mesmos motivos, que remetem à iluminação. Neste desenho, vemos a presença de doze círculos na cor verde escura, que fazem alusão aos ponteiros do relógio, reforçando sua função simbólica de não somente clarear o espaço circundante, mas a própria alma humana, por estarem penduradas. Figura 36: Lampadário com motivos solares Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Há outro sentido de elevação, e ele está na figura da águia que fica nos quatro cantos da haste metálica que carrega a lâmpada, um dos símbolos da primeira esfera (Kether). Esta imagem arquetípica anuncia que as luminárias suspensas acima apenas são um vislumbre da esfera mais elevada. 23 É definida por Jung (2002, p. 44) como um círculo mágico que representa simbolicamente a individualidade.
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    80 Figura 37: Pilarese arcos como falos e vulvas Fonte: Wagner Ferreira, 2016. A iluminação ordenada ainda auxilia na nitidez do princípio de polaridade visto no capítulo três, pois ela guarda em si um caráter andrógino. Assim o jogo de luz e sombra faz se presente de forma a equilibrar os aspectos conscientes representados pela luz, bem como também os inconscientes sentidos com a sombra e penumbra. Embora o Cristianismo tenha um caráter patriarcal histórico, devemos lembrar que as construções religiosas são andróginas e no caso da Basílica de Nazaré tem essência feminina. O interior dessa edificação representa arquetipicamente um útero, ao passo que o masculino pronuncia se pelos pilares de formato fálico, que se projetam acima para sustentar a edificação, e, portanto, é evidente a sexualidade que este templo possui. 4.1.9. Iconografia e estatuário A Basílica de Nazaré é um dos exemplos de maior riqueza de arte sacra em Belém, por possuir em seu conjunto grande suntuosidade tanto em sua iconografia,
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    81 pelas pinturas eornamentos, bem como também por seu rico estatuário. O templo religioso está cercado de figuras arquetípicas ligadas ao Cristianismo, tais como anjos e Santos, próprios da liturgia. Pelos estímulos captados por nossos sentidos devido ao contato das cores e formas utilizadas, nosso subconsciente é ativado e conseguimos estabelecer um elo entre as imagens que se apresentam à nossa frente, e as grandes verdades universais que elas guardam em si. Sendo assim, céu e terra são religados, temos a formação de uma “ponte” que liga nosso eu individual e coletivo, com o Espírito Sagrado que neste templo habita. Na nave central temos a presença, na união dos arcos (leque)24, de anjos cada um com um tipo de instrumento, representando dons e virtudes, enquanto que no entablamento logo acima, há a presença de medalhões que representam a vida de Maria, assinalando desde seu casamento até a festa de Pentecostes. Figura 38: Leques com anjos e medalhões marianos Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Nas naves laterais esquerda e direita, temos as figuras de mulheres do Antigo Testamento, nos leques entre os pilares, cada uma representando suas respectivas 24 É o espaço central entre a terminação de dois arcos
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    82 virtudes, ao passoque os vitrais abaixo destas demonstram figuras de Santos e de Jesus e seus diferentes feitos ao longo de sua vida na terra, conforme aponta o Guia da Basílica de Nazaré (1985). Cada vitral tem suas particularidades à exemplo do terceiro, que demonstra a “parábola do bom pastor”, em moldura de mármore de Skyros, porém todos eles foram preparados pela firma parisiense M. Champineulle. Nas laves laterais de ambos os lados, tendo as paredes como panos de fundo encontramos alternância entre estatuário e confessionários. Os primeiros formam capelas individuais, frutuosamente adornados com suas próprias simbologias ligadas à escultura dos santos, santas ou anjos que nesses espaços faz-se presente, como a capela de São Miguel Arcanjo. Esta, além de ser uma das mais chamativas e ornadas, das capelas laterais, ostenta um grande simbolismo, pois o Arcanjo aparece com a mão esquerda posicionada em seu coração, ao passo que na mão direita está munido de uma espada, aos seus pés um demônio cristão, o diabo. A portinhola que guarnece a capela lateral,tem a forma de um anjo inserido no meio de uma cruz, representando a iluminação e equilíbrio.
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    83 Figura 39: Capelade São Miguel Arcanjo na lateral direita Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Tal imagem representa as aspirações mais elevadas da alma, as grandes virtudes, na figura do deslumbrante Arcanjo, que com sua espada luminosa, representando a clareza e iluminação, sobrepuja os vícios e principalmente a ignorância, representadas pela figura abaixo de seus pés. No mural, podemos ver como pano de fundo um céu azul escuro cheio de estrelas que possuem oito raios, simbolizando a esperança da alma mesmo nas horas mais escuras da noite. Nos quatro cantos, observamos quatro cruzes, símbolo dos elementos da natureza.
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    84 Figura 40: AltarMor da Basílica de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Uma das maiores representações simbólicas da Basílica reside no Altar Mor primeiro, inaugurado no dia 15 de Agosto de 1923, seguindo a fonte da Biblioteca do Círio (1978). O ícone mais proeminente do Altar é seu sacrário25, pois em sua porta está a figura de um pelicano, que na cultura popular usa o próprio sangue para alimentar seus filhotes, e mais abaixo um cordeiro em cima de um livro com uma cruz, mencionando ainda imagens de uvas e pães, todos símbolos de Cristo, neste último caso como “Pão da Vida”. Ao lado do expositório26 ainda encontramos quatro anjos, dois de pé e dois ajoelhados, em sinal de reverência. 25 Lugar aonde se guardam os objetos sacros, por exemplo, a hóstia. 26 Objeto sacro que serve para expor, mostrar a hóstia.
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    85 Figura 41: OGlória com imagem de Nossa Senhora de Nazaré Fonte: Wagner Ferreira, 2016. A “Glória” se destaca os pilares de granito rosado de Grusallo, revestido de mármore. Nele as figuras mais relevantes estão na presença de dois grandes anjos de asas abertas que parecem elevar o coração dos fiéis à Rainha da Amazônia, Nossa Senhora de Nazaré. A estatueta da Madonna, inclusive, de fabricação ibérica, vinda da Lusitânia, de estilo Barroco (1600), é símbolo de devoção e de fé à cristandade católica, ornada com pompa e esmero. Ela segura o Menino Jesus, que brinca com o globo do mundo. 4.2.SHAAR HA-SHAMAIM: A PORTA DOS CÉUS
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    86 4.2.1. Histórico ePesquisa O templo judeu chamado Lauderdale Road Synagogue, localizado em Londres, na Inglaterra, foi o molde para a criação da sinagoga Shaar Ha-Shamaim, localizada na Rua Arcipreste Manoel Teodoro, 842- Bairro de Batista Campos em Belém, que foi construída em 1946, cujo nome significa “Porta dos Céus”, sendo um templo de orações judaicas bem como também uma congregação. Figura 42: Lauderdale Road Synagogue, Londres. Fonte: sefard.info, 2016. Inicialmente quem projetou a Sinagoga foi o arquiteto Hugo Furinni, que posteriormente precisou se ausentar devido ter sido convocado para a 2ª guerra mundial para servir Mussolini. A obra então passou às mãos de Judá Levy, engenheiro que estava ligado às causas sociais, e que conseguiu concluir o projeto da Sinagoga à contento. Assim judeus puderam nela se reunir para prestarem culto ao seu sagrado Deus único, sustentados por sua doutrina ortodoxa pautadas na aprendizagem de sua sagrada escritura, a Torá.
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    87 Figura 43: FrontispícioPrincipal- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim Fonte: Cybelle Miranda, 2016. Ao serem mostradas as imagens ao templo para os entrevistados, muitos demonstraram verdadeiro espanto por nunca terem reparado nele. Isso é dado pelo fato de que antes a sinagoga possuía apenas um pequeno muro baixo com grades que a separava do exterior, contudo devido à ação de várias ameaças ao povo judeu nos últimos anos fez com que o templo se enclausurasse do mundo afora. Com o objetivo de proteger-se do perigo, seus muros foram aumentados, construindo-se uma pequena guarita para identificação, para se ter acesso ao templo. Embora o muro constitua uma verdadeira barreira física para a contemplação da sinagoga, as imagens revelaram-se de bastante ajuda no reconhecimento do templo como um lugar sagrado, até mesmo por pessoas de diferentes religiões, que concordaram com o fato de que os elementos formais ali encontrados, como o formato, as portas, e principalmente a cúpula, reconhecida apenas por alguns, são
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    88 fatores essenciais paraque se consiga vivenciar o espaço religioso como um local de união com o divino. 4.2.2. Planta baixa A planta baixa é bem simples, constituída no pavimento térreo de um pátio interno retangular que leva a duas grandes portas de vidro à frente, uma de cada lado. Em ambas as laterais deste ambiente há duas escadas, quase como espirais que elevam-se dando acesso ao pavimento superior. Figura 44: Esboço da planta baixa térreo e 1º pavimento- Sinagoga Shaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Transpassando uma das portas, que divide o ambiente inicial da sala de culto, adentramos ao espaço principal. Nele observamos pilares na cor branca, culminando em capitéis estilizados. No centro há um altar circular, com mobiliário e uma mesa maior para colocar as Sagradas Escrituras na hora do culto. Na parede ao fundo
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    89 observamos um arco,que ostenta uma cortina vermelha, além disso também há duas portas, uma em cada canto, desta parede que leva à uma ante sala. Nesta há um pequeno altar, na verdade uma mesa, coroada em cima com uma abóbada, na qual pende uma lamparina na qual estão as cinzas de incensos, com os quais se honram os ancestrais. À direita da ante sala dá acesso ao salão de festas, no qual se desenvolvem outras atividades ligadas à comunidade judaica, mas não propriamente ao culto em si. 4.2.3. Fachada O templo está embasado num modelo eclético, caracterizado pelo sagrado advindo da simbologia judaica. A fachada guarda a mesma relação arquetípica encontrada na Basílica quanto à estrutura geométrica do hieróglifo da Árvore da Vida. Revela ainda a transcendência ligada à esfera do Sol (Thiparet), encontrada no método da Cabala, que faz-se presente através dos três hexagramas englobados pelo arco interno, este possuindo um óculo em formato circular, que faz alusão aos ponteiros de um relógio solar, relacionado à esfera já citada. Figura 45:Árvore da Vida na vista frontal da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim
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    90 Fonte: Wagner Ferreira,2016. O triângulo como elemento da trindade na unidade é presente assim como na Basílica, contudo aqui de forma mais amena por não fechar a figura geométrica. Vemos então uma relação entre o triângulo e o hexagrama, pois o segundo é o dobro do primeiro, e também é composto por dois triângulos de intercalados de forma oposta. As duas portas principais relacionam-se à esfera da Lua (Yesod), a qual tem uma estreita afinidade com o plano da terra (Malkuth). Para os cabalistas essas duas emanações estão ligadas pelo que chamam de “duplo etéreo”, àquela seria a “ casa das máquinas” que conferiria energia à esta última, fazendo-a funcionar como bem fala Fortune (1985). É na fachada também que observamos um ornamento de grande simbolismo que está acima das duas portas principais. Com um livro aberto lidamos, com a tábua da Lei de Deus dada a Moisés, na qual estão os dez mandamentos, cada um representado pelas primeiras dez letras do alfabeto hebraico. Figura 46: Tábuas da Lei com as dez primeiras letras hebraicas Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Os pilares externos culminam em estruturas que forma pequenas cúpulas, como as antigas torres de observação em número de doze. Vistas de frente as quatro
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    91 torres principais parecendoquerer sustentar a cúpula, que se projeta para os céus infinitos; utilizando a mesma perspectiva vemos uma relação pelas duas pequenas torres frontais, de oito gomos, com a que fica no ápice da cúpula, enquanto que as demais têm apenas quatro gomos. Figura 47: Vista superior da cúpula da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Esta cúpula é um dos elementos mais importantes da edificação, pois é ela quem evoca a imagem arquetípica de uma “Coroa” branca, o que nos lembra de Kether, a primeira esfera da Cabala. Vista do ângulo de baixo o triângulo parece apontar para a cúpula branca, dando a entender que o objetivo é alcançá-la como a realização final do templo. 4.2.4. Pisos, paredes, colunas, arcos e forro O piso das naves central e laterais são de ladrilho hidráulico em formato de pequenos quadrados, e cruzes conjugados nos tons preto e branco amarelado,
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    92 evocando a polaridadede claro e escuro como um jogo de forças masculinas e femininas, encontrados no pavimento térreo da edificação. Figura 48: Piso da nave central em forma de cruzes Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Enquanto isso, no primeiro pavimento há uma diferenciação do piso, executado em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo, nas laterais e arquibancada anterior. Figura 49: Piso em parquet de madeiras tipo acapu e pau amarelo Fonte: Wagner Ferreira, 2016. As paredes têm uma funcionalidade simbólica reduzida. Aqui as mensagens subliminares ao inconsciente se fazem pelas cores de azul claro e o branco (inerentes à bandeira de Israel) que segundo Lacy (2011) representam serenidade, meditação, contemplação, paz e harmonia, o que é comprovado pelas letras metálicas de ambos os lados, feitas em cobre, da “Grande Porta” ao final que formam a frase: “Oração sem
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    93 concentração, corpo semalma”; à esquerda ela é escrita em português e à direita em hebraico. Figura 50: Frase feita em letras metálicas, lado esquerdo Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Figura 51: Pilares internos da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. As colunas se elevam de ambos os lados na cor branca, em formato fálico,da mesma maneira que os dois pilares, da “Misericórdia” e “Severidade” de Fortune
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    94 (1985) sustentam a‘Árvore da Vida”, culminando em capitéis estilizados, o que também acontece com os pilares que seguem para o pavimento superior. Nestes pilares do canto apóiam-se as bases suavizadas dos arcos, que se prolongam harmoniosamente até o próximo pilar. Estes arcos do pavimento superior são em número de quatro, o que evoca organização, estabilidade, bem como também ordem, e guardam uma relação com os quatro elementos que constituem a matéria; além disso, possuem dependuradas na estrutura de seus ápices lamparinas, que insinuam a presença de um terceiro pilar invisível a sustentá-los (os arcos), equilibrando o sistema e trazendo iluminação. Figura 52: Arcos e forros Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
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    95 O forro dopavimento térreo é feito possivelmente em concreto com formato de arcos, similares às nuvens dos céus por flutuarem entre as naves laterais, enquanto que o pavimento superior acompanha a forma dos grandes arcos rebocados e pintados, exceto no deambulatório posterior feito em forro de gesso acartonado. O primeiro tipo de forro no pavimento superior ganha importância maior devido a cúpula central do templo que se pronuncia além da alegoria das nuvens, demonstrando majestade. 4.2.5. Esquadrias e iluminação As portas possuem formatos diversos, sendo de quatro tipos. O primeiro pode ser encontrado em ambos os lados da fachada principal tendo formato retangular, sendo mais simples, enquanto que o segundo diz respeito às duas portas do meio, que já tiveram sua relação com o sagrado desvelada. A terceira é de esquadria metálica e vidro, e não tem relação direta com a expressão do sagrado no edifício, possuindo uso funcional na edificação. O quarto tipo é o mais importante, por ser modelo único, um portal em arco cujo interior é velado por cortinas, enquadrado num arco ainda maior, por guardar relíquias e dar nome ao templo. Ela é chamada de Shaar Ha-Shamaim, que quer dizer do hebraico “A Porta dos Céus”, pois em seu interior residem as Escrituras Sagradas ( o que é sinalizado pela tábua acima da porta em madeira), retiradas em momento solene da liturgia do culto judeu, dando a entender que é através dos ensinamentos sagrados, conhecimento e sabedoria, embasados na meditação concentrada ( como a frase em letras metálicas na parede) e serenidade, que se chega à uma condição mais elevada, e alcança-se o objetivo de união com o Sagrado.
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    96 Figura 53: PortaShaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. As janelas, por sua vez, garantem iluminação natural ao templo, sendo encontradas de quatro tipos principais, com suas esquadrias de madeira pintadas de branco e vidro transparente. O primeiro tipo é o mais comum tendo formato retangular e não parece demonstrar simbolismo pronunciado se comparada aos demais modelos encontrados no pavimento superior. Neste nível, nas laterais do templo, observamos o segundo tipo de esquadria que culmina sua forma previamente retangular em um arco. Este modelo está nos dois lados de uma terceira janela maior, como um vitral colorido,explanando motivos sacros para o Judaísmo de grande valor simbólico representando os dois pilares já muito mencionados, e no cume do arco um menorá27 rodeado de letras hebraicas, 27 É um candelabro sagrado com sete braços.
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    97 funcionando como umvitral. Este tipo de formação de esquadrias ocorre em ambos os lados do edifício. Figura 54: “Vitral” com figura de pilares e menorá Fonte: Wagner Ferreira, 2016. No balcão de fundo, situado acima do nártex28 da entrada, encontramos o interior do arco que engloba os dois hexagramas mais o óculo, a mandala solar já mencionada na fachada. A mesma mandala, que mais parece uma flor amarela, como um girassol, está fixada em uma posição elevada do nicho em forma de portal, chamando atenção para a portaShaar Ha-Shamaim. 28 Ambiente da entrada do templo sagrado.
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    98 Figura 55: Arcointerno envolvendo óculos Fonte: Wagner Ferreira, 2016. A iluminação artificial não fica escape do mesmo simbolismo, através de lamparinas de formato diferenciado, que evocam a figura arquetípica que representam ou por seu formato hexagonal, de luminárias, candelabros ou por sua cor dourada, todas essas figuras ligadas ao sol e suas atribuições. 4.2.6. Ornamentos Os principais ornamentos simbólicos são: o altar circular, o menorá, o mobiliário e a cortina da porta Shaar- Hashamaim. Todos eles desempenham um papel ímpar dentro da edificação reforçando o caráter da liturgia celebrada dentro do espaço religioso. O altar circular está posicionado bem ao centro da nave central, e é nele que se fazem a leitura das Antigas Escrituras. Ele é elevado a cerca de vinte centímetros do nível do piso, revestido com granito de cores claras e escuras que se alternam, para chamar atenção dos frequentadores a ouvir a liturgia, visto que até a ordem das cadeiras estão voltadas em sua direção.
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    99 Figura 56: Altarcentral da Sinagoga Shaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Este altar é circundado por um guarda-corpo vazado em granito, compondo um desenho de seis hexagramas de cada lado, um total de doze, visto que no seu entorno há duas aberturas laterais para se ter acesso à ele. Em cima do piso de granito vemos um tapete na cor vermelha, de formato circular, bem como duas cadeiras para os ministrantes e uma mesa generosa que serve de ambão, onde são colocadas as escrituras. Encimando o guarda-corpo vê-se três ornamentos. Os dois primeiros são menorás metálicos, lâmpadas em número de sete, que simbolizam, cada um,o Espírito de Deus, ou seja, os elementos da natureza criados pelo Um, sendo o número da plenitude, conforme Pastro (1999) uma em cada lado do acesso ao altar, além de
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    100 outro elemento emmetal que na ponta é ornado por uma coroa azul, símbolo também de realeza e liderença. Figura 57: Menorá metálico Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Elementos secundários como candelabros com velas e incensos dão ênfase mais mística ao rito, visto que a vela é símbolo de iluminação estando ligado à festa judaica das luzes, enquanto que o incenso se refere à adoração e ao sacrifício, lembra Pastro (1999). O mobiliário tem um significado curioso, pois ele demonstra uma certa hierarquia quanto aos participantes,como ocorre com as cadeiras. As que se encontram no pavimento térreo são reservadas aos homens e idosos, enquanto que as do pavimento superior são destinadas às mulheres; essa mobília ganha inclusive função de ancestralidade, e algumas são até mesmo marcadas com os nomes de seus respectivos usuários, formando um legado de “herança” para as gerações futuras, conforme fonte oral dada pelo Rabino Moysés Abraham em entrevista de campo ocorrida em Janeiro de 2016.
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    101 Figura 58: Cadeirascom nomes Fonte: Wagner Ferreira, 2016. A cortina da porta Shaar Ha-shamaim é de cor vermelho escuro, chamando nossa atenção para o mistério que ela oculta. Os desenhos pintados na cor dourada são de dois menorás apoiados em duas colunas, sendo elas a Misericórdia ( pilar da direita), cujo ponto mais alto é Chokmah, e Severidade (pilar da esquerda), cujo ápice é Binah, da cabala, e, no meio um pouco mais pra cima , uma coroa (Kether), formando uma tríade de elementos; Em meio à este triângulo sacro há as “Tábuas da Lei” dadas à Moisés, permeadas de letras hebraicas, simbolizando a sabedoria, compreensão e entendimento necessários para união com o Divino.
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    102 Figura 59: Cortinada Porta Shaar Ha-Shamaim Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Nos cantos superiores da cortina encontramos dois hexagramas, contendo o mesmo simbolismo do sol, anteriormente revelado. Poderíamos pensar que a mesma lógica se faz presente na lamparina pendurada na estrutura semicircular de madeira, contudo, por ela estar elevada perto do ícone da coroa dourada, a luz aqui não é aquela atribuída à esfera do sol, mas sim à luz branca da esfera mais elevada, ou seja, Kether. 4.3. ASSEMBLEIA DE DEUS: O BARCO DOS ELEITOS
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    103 4.3.1. Histórico ePesquisa Tudo começou com os primeiros missionários Daniel Berg e Gunnan Vigren, que fundaram em 1911 o templo religioso “Assembléia de Deus” em agosto do mesmo ano, localizado na Rua São Jerônimo-224 em Belém. Em 8 de novembro de 1914 a instituição mudou-se para a Travessa 9 de Janeiro já como primeiro templo próprio, ampliando sua instituição com o segundo templo localizado na Travessa 14 de Março em 1926. Figura 60: Daniel Berg (à esquerda) e GunnanVigren (à direita) Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Foi em setembro de 1979 que o processo de construção do Templo Central da Assembleia de Deus, localizado na Avenida Governador José Malcher 1571, no Bairro de Nazaré, começou. A partir daí a concepção do projeto foi direcionada ao arquiteto Euler Arruda, professor da Universidade Federal do Pará, que recebeu um programa de necessidades para projetar o Templo Central da Assembleia de Deus que atendesse à quatro mil pessoas, sendo concluído em 23 de abril de 1988.
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    104 Neste local osresultados da pesquisa mostraram-se parecidos com os templos acima estudados, contudo, há peculiaridades apresentadas nos relatos de cada uma das pessoas que responderam ao questionário. A maioria demonstrou-se surpresa por pela primeira vez estar olhando a foto mais geral da fachada do templo, que passava desapercebida. O templo possui uma forma mais atual e moderna, não lembrando em nada um templo religioso, a não ser pelas esquadrias que se unem em arco, mencionadas por raros entrevistados; aqueles que não o frequentavam, inclusive, pareciam confundir o templo com um edifício público, devido ao próprio formato que se destaca por hierarquia, porém, cujo material aplicado na fachada não nos chama atenção para a função real pela qual foi erigido em parte também pelo meio urbano em que se encontra. 4.3.2. Fachada A fachada foi projetada com base em um sonho profético que um pastor da referida instituição teve, no qual barcos rumavam em direção ao céu, este simbolismo teve um caráter bastante evidente no projeto. Podemos notar que nas quatro elevações, os arcos que se unem formam a proa de barcos e aqui vemos novamente uma relação com o diagrama da Árvore da Vida, demonstrando as esferas bem como os quatro mundos da Cabala, de forma mais sutil que nos outros templos analisados.
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    105 Figura 61: Árvoreda Vida estilizada na fachada traseira da Assembleia de Deus Fonte: telrarsasfotos.blogspot.com, 2016. 4.3.3. Planta baixa,pisos, paredes, colunas e forros Pelo simbolismo principal deste templo estar na fachada e na própria estrutura, os demais elementos não permitem depreender significados, servindo apenas à funcionalidade e ao conforto de seus frequentadores. Como todos os outros ambientes não tem mais que um simples altar, no máximo um ambão e cadeiras, nos reservaremos à análise do auditório principal, que em sua estrutura apresenta de forma sutil o sagrado. Nele o piso é feito todo em korodur na cor cinza com rejuntes negros, exceto na arquibancada lateral em porcelanato polido branco, bem como na arquibancada anterior, cujo o piso foi
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    106 preservado em madeira;deste ambiente temos o modelo nítido do templo não somente como um barco, mas um grande navio. Como o auditório fica no primeiro pavimento, contudo em nossa análise vamos encarar este pavimento como sendo o “térreo” pois a partir dele que o espaço se desenvolve como se verá na imagem a seguir que mostra as plantas baixas dos pavimentos deste ambiente. Figura 62: Esboço da planta baixa do auditório da Assembleia de Deus Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
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    107 Figura 63: Visãointerna do auditório 2º pavimento Fonte: Wagner Ferreira, 2016. As colunas quadradas revestidas de granito na cor cinza não mantém relação tão nítida com os pilares da Cabala e muito menos com o formato fálico, pois assumem a configuração do esqueleto de uma embarcação, o que nos leva à refletir sobre a construção da Arca de Noé (personagem bíblico), como o “Barco dos Eleitos”, como encontrado no livro do Gênesis, do Antigo Testamento, aonde a proa do “barco” é o próprio altar. As colunas laterais erguem-se desaparecendo no forro todo feito em gesso acartonado em ambos os pisos. É no segundo, porém, que o forro assume um formato de cascata, lembrando da vista interna dos navios reforçando o templo religiosos como símbolo.
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    108 Figura 64: Altarcomo uma grande proa de navio Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Figura 65: Forro em cascata que remete à uma embarcação Fonte: Wagner Ferreira, 2016.
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    109 Figura 66: Visãodo auditório a partir do altar Fonte: Wagner Ferreira, 2016. 4.3.4. Esquadrias e iluminação Todas as esquadrias são de alumínio e vidro reforçado, e garantem iluminação natural abundante para todo o ambiente. O princípio de polaridade, devido o amplo uso de luz natural e artificial, parece ter sido abandonado, evocando um ambiente lógico, racional, amplamente masculino, e sem qualquer simbologia mais pronunciada.
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    110 Figura 67: Principiode polaridade visto nas escadas ao fundo intercruzadas Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Uma das poucas relações, se não a única mais próxima de lembrar a figura feminina está imparcialmente localizada nas escadas que se alternam até o segundo piso, como uma dança de opostos ou como uma espiral simbolizando ascensão. 4.4. SANTO ALEXANDRE: A VIOLAÇÃO DO SAGRADO De acordo com o a publicação da SECULT- PARÁ “Feliz Lusitânia/ Museu de Arte Sacra” (2005), a igreja de Santo Alexandre foi construída pelos jesuítas no século XVII na Vila Portuguesa, como era chamada Belém, através dos padres João de Souto Maior e Gaspar Fragoso enviados por seu superior, padre Antônio Vieira , sofrendo reformas a partir do século XVIII, tendo o Barroco como estilo predominante.
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    111 Sua construção passoupor três etapas principais até sua inauguração em 1719, no século XVIII, segundo a mesma fonte. A primeira liderada pelo padre João de Souto maior, em 1653, sendo uma simples construção de taipa e folhas de palmeira, enquanto que a segunda foi projetada pelo arquiteto Cristóvão Domingos e inaugurada em 3 de dezembro de 1668, dedicada à São Francisco Xavier (que não tinha grande identificação por parte da população), enquanto que o colégio recebeu o nome de Santo Alexandre. A Igreja passou então a ter o mesmo nome do colégio, ao que se acredita, pela devoção que se tinha a este Santo, cujas relíquias foram dadas aos jesuítas pelo Papa Urbano VII, trazidas com eles à Belém. Serafim Leite, em sua “História da companhia de Jesus no Brasil” (1943), chega ainda a mencionar o relicário encontrado no altar colateral da esquerda demonstrando o sagrado inerente ao túmulo dourado do Santo. Quanto à terceira etapa não se tem a data exata do começo de sua construção bem como também de sua inauguração. Embora sua data de conclusão tenha sido assinalada entre 1715 e 1720, após ter suas obras paradas em 1714 por falta de recursos e retomada na gestão de Manoel de Brito, o mais provável é foi inaugurada em dezembro de 1718 ou março de 1719, conforme Leite (1943). Sua construção foi inovadora devido à distribuição do espaço religioso no qual há apenas uma nave central, baseados na planta baixa da igreja do Gesú de Roma realizada por Vignola e Della Porta em 1568. A intenção principal do modelo dessas edificações era de uma melhor comunicação entre a igreja e os fiéis, saindo dos modelos medievais compostos por três naves. Jussara e Jorge Derenji em sua publicação “Igrejas, Palácios e Palacetes de Belém” (2009), publicado em parceria com o IPHAN- PA, explanam muito bem a distribuição da planta baixa:
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    112 [...] A plantada igreja possui uma nave central e tem a forma de uma cruz latina com quatro capelas de cada lado, formando ao total oito capelas que comunicantes com a sacristia. Estas capelas são feitas por arcos redondos que se apoiam em pilastras. Na nave da igreja há a presença de púlpitos que foram construídos em madeira em forma de pirâmides e de decoração exacerbada característica do barroco. Estes púlpitos foram feitos com a junção de conchas, volutas com anjos, atlantes e figura de olhos vendados. Além disso, há a existência da grandiosa capela-mor, a qual é feita em talha, a sacristia, e apoiando-se nas pilastras das grandiosas capelas, estão as tribunas, as quais eram utilizadas pelas pessoas com maior poder aquisitivo na época para assistirem as celebrações [...](DERENJI, Jussara; DERENJI Jorge. 2009. p. 117, 118). Figura 68: Planta baixa da antiga igreja de Santo Alexandre, modificada Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. Devido ter ficado fechada por cerca de 50 anos, a Igreja de Santo Alexandre teve apenas pequenos reparos para sua conservação durante esse longo período. No final do século XX a Igreja em conjunto com o colégio foram transformados em Museu de Arte Sacra do Pará. As grandes modificações antes feitas, e principalmente a degradação pela falta de conservação subjugaram os antigos símbolos a uma condição precária, muitos até não conseguindo sobreviver ao efeito do tempo, uma
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    113 perda irreparável aolegado antes construído e à memória de um passado que não mais se faz presente. A fachada, conformada nos moldes do hieróglifo da “Árvore da Vida”, parece ser um dos poucos elementos simbólicos que ainda permaneceram, até certo ponto, sem alteração mais radical. O triângulo arquetípico das três esferas superiores (Kether, Chokmah e Binah), caracterizadas por Pai, Filho e Espírito Santo, são representadas pelas volutas na forma de espirais que se unem no topo aonde há uma cruz como mostra Derenji (2009). As volutas em si, revelam ser duas grandes mãos unidas, com as extremidades apontadas para o céu, cujo gesto, para Pastro (1999) seria de submissão e de escravos que se deixam amarrar. Partindo desse pensamento, podemos fazer uma relação bastante significativa, pois a mensagem subliminar que as volutas parecem querer realmente nos dizer hoje, é que suas mãos estão unidas não como forma de oração, mas como sinal de uma súplica desesperada a buscar a salvação de sua estrutura e função simbólica. Figura 69: Árvore da Vida na vista frontal de Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
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    114 As pilastras emalto relevo da fachada explicitadas por Derenji (2009), formam um jogo de luz e sombras, demonstrando a polaridade inerente ao templo, mas que devido a lógica racional da atualidade passa despercebida. Em branco também se encontram os nichos abaixo das volutas, que antes guardavam imagens de santos, entretanto não mais utilizadas, pois se perderam com o tempo, formando uma verdadeira lacuna para a composição do edifício; as que conseguiram ser recuperadas encontram-se no museu ao lado, que servia como antigo colégio. Figura 70: Capela Mor da antiga Igreja de Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. Internamente o piso, paredes e forros não mais exprimem as mesmas ideias segundo sua composição original. Conforme as prospecções relatadas em PARÁ (2005), o piso original da nave, capelas, sacristia, sala lateral esquerda do altar mor, era feito em tijoleira e fora substituído por lajota de barro e preservado como encontrado nas modificações mais recentes. As paredes também sofreram
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    115 modificações, devido àação das chuvas que deterioraram vários ambientes, fazendo-se necessária a modificação do reboco original. Figura 71: Detalhe do Forro da Sacristia da antiga Igreja de Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. O forro original não foi encontrado, preservando-se apenas o de madeira mais recente, dando apenas tratamento específico para sua preservação, o telhado teve ação de cupim e teve que ser substituído. Quanto aos púlpitos temos que: [...] Seus púlpitos, altares e em especial o altar-mor são exemplos da decoração jesuítica na região. No caso das igrejas jesuítas paraenses, padres artistas, como João Xavier Traer, o irmão Luís Correa ou o pintor Agostinho Rodrigues, se encarregavam de instruir a mão de obra nativa para auxiliar na talha e nas pinturas decorativas, de excepcional qualidade, que ornamentavam os espaços internos [...] (DERENJI,Jussara, DERENJI Jorge, 2009. p. 28)
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    116 Figura 72: Púlpitoesquerdo na antiga Igreja Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. As capelas laterais, seis ao todo, três em cada lado, com retábulos29 em argamassa (direita) e madeira (esquerda), também estavam degradadas, assim como a capela mor, um dos maiores símbolos do antigo templo, tendo recebido tratamento para sua preservação, conseguindo-se em alguns casos até fazer a fixação dos vestígios da pintura original, segundo PARÁ (2005). 29 Estrutura ornamental em pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior de um altar.
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    117 Figura 73: Capelalateral direita, vista interna de Santo Alexandre Fonte: Foto de Artur Vítor Lannini-www.flickr.com, 2016. Devido ao estado em que fora encontrada depois de tanto tempo em abandono, a Secretaria de Cultura do Estado do Pará, começou seu processo de restauração, contudo muitas imagens e objetos sacros foram levados pelas pessoas, alguns com a intenção de roubá-las, outros almejando protegê-las; posteriormente Paulo Chaves, conseguiu recuperar os objetos sacros, conforme os relatos da então Coordenadora Zenaide de Paiva (2013) numa entrevista concedida à Carolina Vasconcelos de Sousa, acadêmica da Universidade Federal do Tocantins. Após tantas modificações, atualmente, Santo Alexandre encontra-se quase que totalmente descaracterizada, uma verdadeira violação à antiga e sublime função sagrada do edifício e também ao legado herdado, pois o papel que desempenhava
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    118 antes, de elevaros seus frequentadores ao divino, fora esquecido e substituído por outro. O espaço agora é utilizado apenas para visitações, palestras, casamentos e usos afins, subjugado à condição de um simples auditório, desprovido de representação mais elevada, e que nada nos evoca senão um vazio, uma vaga lembrança de tempos áureos. Figura 74: Antiga Igreja Santo Alexandre por volta de 1940 Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. Nas entrevistas, todos pronunciaram-se de forma ímpar ao reconhecer em tom lamentoso a grande perda da função simbólica do espaço. Embora Santo Alexandre não funcione mais como Igreja, os ecos do edifício como um templo religioso ainda podem ser nitidamente escutados pelos que passam pela construção, devido ele trazer um sentimento de identificação maior com o divino, um sentido de pertencimento visto em Manenti (2003), ligado ao início da história de Belém do Pará, fazendo parte da identidade de todo o povo paraense possuindo valor material, cultural e espiritual.
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    119 Figura 75: Estadoatual de Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005. Este sentimento de saudosismo, ainda é vívido nos moradores de seu entorno, e pela memória de todos aqueles que frequentavam às missas do local, na época de sua infância ou adolescência, o que se reflete nos relatos de boa parte dos entrevistados, haja vista que várias dessas celebrações foram executadas no espaço tornando-o não um ambiente qualquer, sem vida, inerte de significado, mas um símbolo vibrante de uma espiritualidade que ficou intrínseca, em suas formas e símbolos na mente de todos que ali um dia partilharam o sentimento de comunhão com Deus, propriamente ditas de um sagrado, que clama por não ser esquecido, mas lembrado, resgatado e preservado. Portanto, resgatar a função sagrada dos templos religiosos e estar consciente deles, quanto ao seu significado de pontes para o divino, não é somente resgatar o espaço físico que eles constituem, mas antes de tudo é religar nosso espírito, fortalecer nossa identidade e nunca esquecer de quem e do quê realmente somos, sagrados por excelência.
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    120 4.5. PESQUISA DECAMPO E QUADRO COMPARATIVO Para constatar as influências dos edifícios religiosos na percepção do sagrado, foi feita uma pesquisa de campo em três dias, de 28 (Quinta Feira) à 30 de Abril (Sábado) deste ano (2016), com uma população total de 100 pessoas (25 em cada templo) com idades diferentes, entre 14 à 75 anos, alguns foram selecionados por frequentarem o templo, enquanto outros eram escolhidos por rotineiramente passarem próximos ao local. Baseados em imagens do local da pesquisa (vistas externa e interna), todos os entrevistados responderam à um questionário com quatro perguntas, as três primeiras diretas (“sim” ou “não”), enquanto que a última era de múltipla escolha. O modelo base do questionário pode ser encontrado nos apêndices, assim como as imagens apresentadas à cada um dos entrevistados, já o resultado da pesquisa pode ser visto nos gráficos da página seguinte. Figura 76: Pontos de referência na pesquisa de campo Fonte: Wagner Ferreira, 2016. Na Basílica de Nazaré a pesquisa deu-se no entorno da Praça Santuário, Avenida Nazaré, ao passo que na Assembleia de Deus o ponto de referência foi na
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    121 frente da edificação,na Avenida Governador José Malcher. Em Santo Alexandre a referência foi a Praça da Sé e seu entorno, incluindo o Complexo Feliz Lusitânia, e o último ponto de pesquisa foi na Avenida Serzedelo Corrêa, paralela à Rua Arcipreste Manoel Teodoro, onde se localiza a Sinagoga Shaar Ha-Shamaim. Quadro 1: Gráficos referentes aos resultados das perguntas de 1 à 4 do questionário. Fonte: Wagner Ferreira, 2016. O resultado da pesquisa para a primeira pergunta nos mostra que 78% dos entrevistados, portanto a maioria, acredita que o formato das edificações religiosas e seus símbolos influenciam na percepção do sagrado, enquanto que 22% não tem a mesma visão. Na segunda pergunta 90% das pessoas concordaram que o arquiteto pode contribuir para criação de um ambiente que ligue o humano ao divino, enquanto que 10% discordaram. Quando aos entrevistados foi perguntado sobre a importância do espaço sagrado criar um elo entre humano e divino, o resultado foi bem próximo ao da pergunta anterior com 89% dizendo “sim” e 11% “não”. Ao responderem sobre o que mais chamava a sua atenção nos edifícios religiosos, tratando-se de uma pergunta múltipla escolha, 36% disseram que é o formato, 19 % as esculturas (nos templos que as possuíam), 16 % todos os elementos, 14 % a pintura ( a arte sacra), 6% as cores e
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    122 3% disseram nenhum,e os demais 6% falaram outros elementos, como o espaço sagrado, o sacrário e a liturgia. Portanto, pelo resultado obtido, pôde-se comprovar a eficiência da função simbólica dos edifícios religiosos como grandes facilitadores da percepção do sagrado, pois seus formatos, cores, pinturas e demais características tem um grande impacto na mente subconsciente, criando um elo entre o humano e o divino, evocando sentimentos e lembranças, um estado de bem-aventurança que transcende a dimensão material, o que Pastro (1999) chamou de “tremendum”. Os templos religiosos analisados têm características em comum devido à linguagem arquetípica da árvore da vida que está presente, mesmo que de maneira sutil nas obras. Abaixo veremos um quadro comparativo, que ilustra as principais características simbólicas encontradas. Quadro 2: Comparativo dos elementos simbólicos dos templos referidos na análise. TEMPLO RELIGIOSO ELEMENTO SIMBÓLICO BASÍLICA DE NAZARÉ SHAAR HÁ-SHAMAIM ASSEMBLÉIA DE DEUS FACHADA Árvore da Vida da Cabala. Árvore da Vida da Cabala. Árvore da Vida da Cabala. PLANTA BAIXA Formato de Cruz Latina. Formato retangular. Formato de uma Embarcação. PISO Vários formatos simbólicos como cruzes, quadrados, losangos, círculos, dentre outras formas geométricas. Formatos de Cruzes, retângulos e quadrados. Não tem função simbólica proeminente.
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    123 PAREDE Apresentam desenhos sacros, mosaicos, etc. Pintadasde azul celeste e branco, cores propícias à meditação. Não possuem função simbólica proeminente. FORRO Formato de retângulos, cruzes, motivos florais e símbolos cristãos tais como anjos. Em elemento estrutural. No pavimento térreo em forma de nuvens e no superior em forma de arcos. Forro de gesso acartonado em diferentes níveis reproduz o teto de uma embarcação. ESQUADRIAS Portas e Vitrais com motivos sacros. Presença de Vitral de Polímero nas laterais. Não possuem função simbólica proeminente. ILUMINAÇÃO Luminárias com formatos hexagonais. Luminárias com formatos hexagonais. Não possui função simbólica proeminente. ORNAMENTOS, ICONOGRAFIA E ESTATUÁRIA Vários objetos, pinturas, esculturas com significado simbólico. Objetos sacros (Menorá, Sinos, etc.), mas sem a presença de estatuário. Não possui ornamentos, iconografia e estatuário Fonte: Wagner Ferreira, 2016. O quadro comparativo nos mostra um vislumbre mais geral da função simbólica dos templos religiosos em questão. Podemos observar que quanto mais recente é o templo, no caso da Assembleia de Deus, como se viu no decorrer da análise, mais ele desaparece em meio ao ambiente urbano, comparando-se em significado e importância com os demais edifícios cujas funções são outras, que segundo Micaela Branco (2015) é um produto de uma desvalorização da religião e modificação do pensamento, e, portanto, da lógica construtiva, descaracterizando a identificação do
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    124 lugar como sagrado.Por essa lógica construtiva pautada no lucro (mercado imobiliário) houve uma quebra entre o lugar do sagrado no templo com o transcendente. Ela ainda suscita o desleixo do “lugar” da arquitetura na cidade, e complementa com as ideias de Norberg- Schulz (1980), ao dizer que os arquitetos esquecem do essencial, dos princípios imateriais que conferem fôlego às construções, preocupando-se somente com questões estético-formais. Esta atitude contribuiu destrutivamente para as características físicas tradicionais dos templos, fazendo com que estes tipos de edifícios deixassem de ser reconhecidos como igrejas. Neste ponto temos Abumanssur (2000), que explana uma convergência entre a arte abstrata e o espaço sagrado relacionados a como ambos são percebidos pelos indivíduos. Para tal empreitada, abordando a religião cristã, caracteriza o problema estético fundamentado no conhecimento de Deus, abordando conceitos de beleza desde Platão, chegando a conclusão que nas artes plásticas a relação entre o ser e o mundo visível fundamentam o problema religioso, enquanto que na arquitetura isso está contido na concepção do que seja o espaço sagrado em si. Quanto aos templos religiosos, por suas características tradicionais não serem respeitadas ou até mesmo pela modificação de sua função sacra, há a perda do referencial deste espaço como um lugar do sagrado. Eliade (1992 apud ABUMANSSUR, 2000) fala da relação simbólica que garante significado transcendental aos templos, e o concebe ainda como sendo o “lugar”, onde os espaços adquirem sentido maior, guardando o caráter monumental, uma expressão concreta da permanência. Neles os indivíduos conscientizam-se de sua coletividade e da história que os une. Pastro (1999) parece complementar a ideia de lugar, definindo Deus como sendo “o Lugar”, logo se o espaço sacro é violado, se sua função sublime é
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    125 negligenciada e alterada,isso fomenta uma ruptura da ponte que liga terra e céu. Além disso a concepção da comunidade, como sendo a união de vários indivíduos unidos por um ideal, que destes espaços participa, assim como sua história desvanece. Cybelle Miranda no seu artigo “Restauração Como Tradução: Intervenções na Igreja de São João Batista em Belém (1994-1996)” (2013), constatou dois aspectos que caracterizam o templo como um bem cultural, que são o valor estético-histórico e o valor afetivo. Discursa desta forma sobre as várias polêmicas ocorridas devido às modificações na estrutura física da Igreja analisada, o que causou grande insatisfação por parte dos fiéis, que em alguns casos não aceitaram completamente as intervenções realizadas, demonstrando o sentido de identificação não somente afetiva, mas também relativo à história deste espaço, à sua memória. A percepção ambiental que se tem desses templos tal como a memória afetiva e identificação histórica do espaço sagrado, com toda sua expressão maior, é que são os fatores que fazem com que o patrimônio religioso seja salvaguardado, o que em muitos casos não ocorre; é por isso que a Igreja de Santo Alexandre vista no final da análise, embora não esteja no quadro comparativo, foi inserida nas pesquisas realizadas para figurar um exemplo claro dessa violação.
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    126 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalhobuscou-se resgatar a função simbólica da arquitetura religiosa em Belém do Pará, satisfazendo não só as necessidades mais básicas da concepção do templo como um abrigo, mas como um lugar no qual o sagrado possa ser percebido através dos sentidos por meio dos elementos arquitetônicos, externos e internos, que assumem papel de símbolo, verdadeiros gatilhos psicológicos para que possa proporcionar um meio pelo qual a integração com o divino seja sentida de forma mais tangível. Constatou-se que o Modernismo quanto influenciador dos modelos construtivos, contribuiu de maneira significativa para o desaparecimento e descaracterização do que é concebido como sagrado não somente das antigas construções no que diz respeito a modificação de sua função sacra, condicionando-os a simples auditórios ou salões, como também para a produção de templos que pouco ou em nada contribuem para que a espiritualidade possa se expressar de forma harmônica, são apenas caixas que não arrebatam a alma de quem neles adentra com uma reflexão mais sublime. A bibliografia consultada, por meio de conceitos provenientes da psicologia, metafísica e teologia, em paralelo com o levantamento foto documental, comprovaram de forma direta a grande influência que os símbolos arquitetônicos podem causar na mente de todos os indivíduos, a fim de que se consiga perceber o que há de transcendental dentro dos templos, confirmando também o antigo papel do arquiteto como grande mago e filósofo dos espaços, que sabiamente expressa em sua obra edificada as grandes verdades que o universo comunica, o que também foi
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    127 comprovado através dosresultados da pesquisa de campo por meio dos questionários. Esta por sua vez, mostrou-se de grande valia, principalmente no processo de afirmação do templo religioso como referência de localização com o espaço sagrado a exemplo do que acontece com Santo Alexandre. Os relatos das entrevistas demonstram com clareza que mesmo a antiga igreja tenha sido dessacralizada, com a destituição de suas várias partes compositivas, como ornamentos e estatuário, e pela modificação de sua função religiosa, a concepção daquele lugar como sendo um espaço sagrado ainda persiste na mente de várias pessoas, principalmente na dos mais antigos, que antes frequentavam as celebrações eucarísticas e partilhavam da vida em comunhão com o sagrado ali presente, criando um processo de identificação com o local, um elo. O presente trabalho contribuiu no processo de entendimento e conscientização do porquede o espaço ser considerado sagrado. Além disso, evidenciamos dois fatores que podem garantir que os edifícios religiosos sejam salvaguardados, que são a memória e as devidas experiências vividas no espaço comunicadamente sagrado. As várias percepções espaciais ajudam na identificação destes ambientes como sendo um “lugar”, uma referência representativa do sagrado, contribuindo para uma forte identificação do espaço sacro, um reconhecimento de que ali pode-se entrar em contato com o divino, o reconhecimento de que este espaço é especial, que merece ser cuidado e preservado. Portanto, as perguntas da introdução são respondidas com primor ao se firmar o papel do arquiteto como produtor de um espaço espiritualizado, e o mais importante, comprovar que resgatar o sagrado dos templos religiosos para além de criar um espaço comunicante dos grandes mistérios, ambiente propício no qual humano e
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    128 divino são uno,é resgatar, antes de tudo, através dos símbolos o legado deixado, a memória, principalmente nossa identidade, nossa história, para que ela não sucumba, para que nosso sagrado não morra.
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    129 REFERÊNCIAS ABUMANSSUR, EdinSued. AArte, a Arquitetura e o Sagrado. CienciasSociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 2, n. 2, p. 177-190, set. 2000. ALBERNAZ, Maria Paula; LIMA, Cecília Modesto. Dicionário ilustrado de arquitetura. São Paulo: V. Wissenbach Editor, 1998. BANGS, Herbert. O Retorno da Arquitetura Sagrada: a razão áurea e o fim do modernismo. São Paulo: ed. Pensamento, 2010. BRANCO, Micaela. Lugar do sagrado: igreja como elemento dinamizador do espaço público. A: Seminario Internacional de Investigaciónen Urbanismo. "VII Seminario Internacional de Investigaciónen Urbanismo, Barcelona-Montevideo, junio 2015". Barcelona: DUOT, 2015. CAPRA, Fritjof .O Tao da Física. São Paulo: ed. Cultrix, 1985. CHARPENTIER, Louis. The MysteriesofChartresCathedral. Traduzido por Ronald Frazer em colaboração com Janette Jackson. Orpington, Kent: R.I.L.K.O. Books, 1972. CHEVALIER, Jean;GHEERBRANT, Alain. Dicionário dos Símbolos- Mitos, Sonhos, Costumes, Gestos, Formas, Figuras, Cores e Números. São Paulo. Ed. José Olympio, 10ª Edição, 1996. CHING, Francis D. K. Arquitetura Forma, Espaço e Ordem. SãoPaulo:ed. Martins Fontes, 2005.
  • 130.
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    133 WOOD, Betty. AsCores e seu Poder de Cura. São Paulo: EditoraPensamento. 1988. ZEVI, Bruno. Saber Ver a Arquitetura. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2002. Fontes eletrônicas http://www.adbelem.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=47 &Itemid=54( Consulta : 03/01/2016). http://www.basilicadenazare.com.br/pagina/historico_da_basilica(Consulta: 03/01/2016). http://artebarrocabelem.blogspot.com.br/2011/09/igreja-de-santo-alexandre.htm l(Consulta: 03/01/2016). http://artebarrocabelem.blogspot.com.br/2011/09/igreja-de-santo-alexandre.html (Co nsulta: 21/01/2016). http://ufpa.br/forumlandi/PT/AttivitaLuoghiOpere/ArchitettureBelem-ChiesaCollegioAl essandro.html(Consulta: 21/01/2016). http://hadnu.org/publicacoes/73-um-jardim-de-romas( Consulta: 20/12/2015).
  • 134.
  • 135.
    135 APÊNDICE A- MODELODE QUESTIONÁRIO DA PESQUISA DE CAMPO UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE TECNOLOGIA FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO Questionário para o TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO- ARQUITETURA RELIGIOSA: O RESGATE DO SAGRADO. Orientadora: ProfªDrªCybelle Salvador Miranda- LAMEMO-FAU-UFPA Orientando: Wagner J. Ferreira da Costa- Nº Matrícula: 201104340025 Local da Pesquisa: Basílica de Nazaré Nome: Idade: Escolaridade: Religião: E-mail: 1- Você acha que o formato dos edifícios religiosos e demais símbolos encontrados neles influenciam na percepção do Sagrado? SIM NÃO
  • 136.
    136 2- Você acreditaque o arquiteto pode contribuir para a criação de um espaço religioso que ligue o indivíduo ao Sagrado? SIM NÃO 3- Acha importante que um espaço sagrado crie um elo entre humano e divino? SIM NÃO 4- O que mais chama sua atenção no templo religioso?(Múltipla Escolha) CORES FORMATO ESCULTURAS PINTURA OUTROS- QUAIS?
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    137 APÊNDICE B- IMAGENSAPRESENTADAS JUNTO COM O QUESTIONÁRIO AOS ENTREVISTADOS
  • 138.
    138 *Todas as imagenssão do arquivo pessoal, exceto a número 5 e número 7. Número 5- Fachada da Assembléia de Deus. Fonte: judsoncanto.wordpress.com, em Janeiro de 2016. Número 7- Fachada Santo Alexandre Fonte: Livro Feliz Lusitânia/Museu de Arte Sacra, SECULT, 2005.
  • 139.
    139 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C1- FACHADA
  • 140.
    140 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C2- PORTA PRINCIPAL
  • 141.
    141 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C3- PORTA FRONTAL ESQUERDA
  • 142.
    142 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C4- PORTA FRONTAL DIREITA- “PORTA DA MISERICÓRDIA”
  • 143.
    143 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C5- ESBOÇO PLANTA BAIXA
  • 144.
    144 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C6- PLANTA DE PISO GERAL
  • 145.
    145 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C7- PLANTA DE PISO COM LEGENDAS
  • 146.
    146 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C8- FORRO DO PÁTIO
  • 147.
    147 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C8- FORRO DO PÁTIO- DETALHAMENTO
  • 148.
    148 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C9- FORRO DO PÁTIO- DETALHAMENTO
  • 149.
    149 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C10- FORRO DA NAVE PRINCIPAL E TRANSCEPTOS
  • 150.
    150 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C11- LAMPADÁRIOS
  • 151.
    151 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C12- VITRAL DE SANTA LUZIA
  • 152.
    152 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C13- CAPELA LATERAL DE SÃO MIGUEL ARCANJO
  • 153.
    153 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C14- ALTAR MOR
  • 154.
    154 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C15- DETALHES DO ALTAR MOR
  • 155.
    155 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C16- LEQUES ENTRE ARCOS E MEDALHÕES
  • 156.
    156 APÊNDICE C- BASÍLICADE NAZARÉ C17- ALTAR DA SACRISTIA
  • 157.
    157 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D1- FACHADA
  • 158.
    158 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D2- ESBOÇO PLANTA BAIXA-TÉRREO
  • 159.
    159 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D3- ESBOÇO PLANTA BAIXA-PAVIMENTO SUPERIOR
  • 160.
    160 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D4- LAMPADAS
  • 161.
    161 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D5- LAMPADAS
  • 162.
    162 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D6- LAMPADAS
  • 163.
    163 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D7- JANELAS- PAVIMENTO SUPERIOR
  • 164.
    164 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D8- ALTAR CENTRAL CIRCULAR E ELEMENTOS COMPOSITIVOS
  • 165.
    165 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D9- PORTA SHAAR HA-SHAMAIM
  • 166.
    166 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D10- FORROS TÉRREO E PAVIMENTO SUPERIOR
  • 167.
    167 APÊNDICE D- SINAGOGASHAAR HA-SHAMAIM D11- CÚPULA
  • 168.
    168 APÊNDICE E- TEMPLOASSEMBLEIA DE DEUS E1- FACHADA
  • 169.
    169 APÊNDICE E- TEMPLOASSEMBLEIA DE DEUS E2- ESBOÇO PLANTA BAIXA “TÉRREO”
  • 170.
    170 APÊNDICE E- TEMPLOASSEMBLEIA DE DEUS E3- ESBOÇO PLANTA BAIXA “PAVIMENTO TIPO 1 E 2”
  • 171.
    171 APÊNDICE E- TEMPLOASSEMBLEIA DE DEUS E4- FORRO E ELEMENTOS ESTRUTURAIS
  • 172.
    172 APÊNDICE F- ANTIGAIGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE SACRA F1- FACHADA
  • 173.
    173 APÊNDICE F- ANTIGAIGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE SACRA F2- FORRO- BRASÃO CENTRAL
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    174 APÊNDICE F- ANTIGAIGREJA DE SANTO ALEXANDRE- ATUAL MUSEU DE ARTE SACRA F3- ESBOÇO DA CAPELA MOR