Arquivo pessoal Mary Lage/ Academia Rokaz 
VANESSA JACINTO 
ESPECIAL 
CAPA 
MARY LAGE escala 
parede de calcário em 
Verdon, na França 
SEM 
IDADE 
E las são revolucionárias. Põem em xeque o concei-to 
de velhice tal qual concebemos, desafiam a de-nominação 
de idosas que, segundo a Organização 
Mundial de Saúde (OMS), define as que passaram dos 
60. E crescem em todos os cenários, classes sociais e re-giões 
do Brasil. Estão aí, a desafiar o tempo e atuantes, 
as atrizes Marília Pera, Irene Ravache, Fernanda Mon-tenegro, 
Marieta Severo... e tantas outras anônimas. Há 
Judy Robbe, de 73 anos, Mary Lage, 65, Rosa Carvalho, 
70, e Margarida Cardoso, 66, rompendo o preconceito 
que associa a longevidade a prejuízos. 
A psicóloga Marisa Sanábria, presidente da Comis-são 
de Mulheres e Questões de Gênero do Conselho 
Regional de Psicologia de Minas Gerais, adianta: elas 
alteram a ostensiva ideia de que a data de validade fe-minina 
MULHERES QUE DESAFIAM 
O TEMPO, MOSTRAM SUA 
FORÇA E LUTAM POR 
SEUS DIREITOS, INCLUSIVE 
O DE ENVELHECER 
deve ser dada pela sua sexualidade e idade re-produtiva. 
“Elas lutam por seus direitos, inclusive o de 
envelhecer.” Melhor seria, então, de acordo com a an-tropóloga 
Mirian Goldenberg, se referir a elas como 
ageless (sem idade) ou inclassificáveis, “pois não lhes 
cabem rótulos.” 
À sua maneira, cada uma delas vai construindo, 
com fôlego para chegar bem aos 90 anos, o que Mirian 
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chama de bela velhice. O termo é o 
mesmo que intitula seu último li-vro, 
lançado pela Editora Record, 
resultado de suas pesquisas sobre 
envelhecimento. “As integrantes 
desse grupo têm muito a ensinar. A 
melhor lição é a certeza de que pas-sar 
dos 60 nada tem a ver com o fim 
do trabalho, da libido, da saúde ou 
do interesse pela vida.” 
No próximo mês de outubro, 
nos dias 16 e 17, ela e outros es-pecialistas 
se reunirão no Rio de 
Janeiro para discutir o assunto, du-rante 
o II International Longevity 
Forum 2014 , promovido pelo Cen-tro 
Internacional de Longevidade 
e cujo tema será Envelhecimento e 
Gênero. Nesta reportagem, as mu-lheres 
entrevistadas mostram que 
não penduraram as chuteiras. 
Tampouco fazem planos de pa-rar. 
“Eu não coloco data para dei-xar 
de fazer escalada”, afirma Mary 
Lage, escaladora e montanhista. 
“Enquanto eu conseguir, vou conti-nuar 
subindo muros e paredões. Se 
isso é o que me traz vigor e alegria 
de viver, não tem sentido deixar de 
fazer só porque podem me julgar 
velha demais pra isso.” Junto com 
o marido e os filhos, ela coman-da 
uma academia de escalada na 
Savassi, em Belo Horizonte, onde 
também treina quase que diaria-mente. 
Vencendo o próprio medo 
de altura, ela já subiu picos como 
o das Agulhas Negras (2.791,55 me-tros) 
e o Dedo de Deus (1.692). 
Muitos a julgariam inadequa-da 
por começar, aos 47 anos, a pra-ticar 
esse tipo de esporte. Mas ela 
não se intimidou. Desde então, o 
muro tem sido seu psicólogo, sím-bolo 
de superação, de capacidade 
de transpor limites. Mary diz que 
escalar melhora sua autoestima, 
sua autoconfiança e, é claro, a con-dição 
física. “Existe tanta pedra bo-nita 
no mundo pra eu conhecer e 
subir! Ainda vou viver muito.” 
Judy, aos 73, segue dedicada ao 
seu trabalho de dar apoio às famí-lias 
da pessoa com Alzheimer. Ela 
também faz palestras e seminários, 
treinamento especial de cuida-dores 
e aconselhamento familiar. 
Desfruta de boa saúde e de alegria 
de viver. A esse envelhecimento 
bem-sucedido, Judy atribui o fato 
de ter passado por um processo 
de autoconhecimento, iniciado 30 
anos atrás. “Foi nesta época que 
entendi qual era a minha missão: 
orientar e acolher essas famílias. O 
trabalho de autoconhecimento me 
permitiu estar mais engajada com 
a vida, encontrar o equilíbrio, pla-nejar 
as etapas e cuidar melhor de 
mim.” Nasceu na Inglaterra duran-te 
a Segunda Guerra. “Escondida 
em abrigos subterrâneos, minha 
mãe não sabia se era noite ou dia 
no momento em que vim ao mun-do. 
E foi assim que passei os meus 
primeiros 5 anos.” 
Talvez por isso ela esbanje tan-ta 
vontade de viver, tenha tanto 
respeito pela velhice e morte. Es-ses 
ingredientes a conduziram num 
Não 
tem sentido 
deixar de fazer 
só porque 
podem me 
julgar velha” 
Mary Lage 
processo de autoinvestigação que 
nunca acabou. Desde que o marido 
morreu em 2009, Judy criou outro 
grupo com mais 3 amigas. Sema-nalmente, 
elas se reúnem para dis-cutir 
“como estou envelhecendo”. 
Elas revisitam o passado, levantam 
questões e informações da infân-cia, 
da família, falam sobre como 
se sentem sem seus maridos, de 
espiritualidade, de onde e como 
querem viver quando se tornarem 
dependentes. 
As respostas encontradas per-mitem 
a Judy fazer ajustes na rota 
que traçou para o seu envelheci-mento. 
Seu grande projeto é enve-lhecer 
com dignidade e, para que 
não haja dúvida sobre seus dese-jos, 
ela documentou como quer 
que isso aconteça (quadro na pág. 
ao lado). “Envelhecer é como uma 
viagem, você não pode ir para ela 
sem um mapa. É fundamental se 
preparar e planejar como vai ser o 
momento.” 
Rosa de Lourdes sempre este-ve 
ao lado de Judy nesta busca 
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por autoconhecimento. E tam-bém 
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vive uma bela velhice. “Aos 
70 me sinto inteira, ativa, disposta. 
É como se ainda tivesse 40 anos e 
muito tempo pela frente.” Ela sem-pre 
se preparou para chegar bem 
à velhice. Dietas equilibradas, cor-po 
em movimento, laços afetivos 
fortalecidos e espiritualidade em 
equilíbrio com outras esferas. Acre-dita 
que é preciso ir construindo 
a vida fazendo o que traz alegria, 
resgatando sonhos perdidos na in-fância. 
Atualmente, faz novos inves-timentos 
levando em conta, prin-cipalmente, 
as dificuldades que 
poderão surgir nos próximos 30 ou 
20 anos. “Tenho observado, pela 
minha mãe de 95 anos, o quan-to 
traz vida cada um envelhecer 
no seu canto, cuidando das suas 
coisas, das plantas, no seu ninho. 
Já estou adaptando o lugar onde 
moro de forma que ele possa com-portar 
a minha velhice. É na minha 
casa que quero viver até o fim dos 
meus dias, com cuidadores se for 
necessário.” 
Planejar é mesmo fundamen-tal. 
“É preciso se dedicar às coisas 
de que gosta. Nós envelhecemos 
como vivemos e, se a pessoa sem-pre 
teve projetos, certamente os 
terá depois dos 60. Pode ser com 
outra cadência, mas tem que ser o 
que dá alegria,” diz a psicóloga Ma-risa 
Sanábria. 
Para traçar seu próprio enve-lhecimento, 
Marisa, que tem 60 
anos, também fez seu plano. Um 
deles é chegar a essa fase com me-nos 
apegos, carga, culpa, menos. 
“É preciso ir adquirindo uma certa 
leveza para poder descansar nes-se 
jardim com a alma apaziguada 
e tranquila!” A professora Marga-rida 
Ferreira Cardoso, 66 anos, re-solveu 
levar esse jardim para fora. 
Ornamentou a praça Violeta Soter 
JUDY ROBBE: 
“Envelhercer 
é como uma 
viagem, você 
não pode 
ir sem um 
mapa” 
Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 
Vargas, no bairro Serra, em Belo 
Horizonte. Foi a forma que encon-trou 
para preencher de forma lúdi-ca 
parte das horas vagas do seu dia, 
antes tomado pelos 30 anos em que 
deu aula na rede municipal de en-sino. 
“Eu teria continuado, mas os 
alunos estavam me considerando 
inadequada por causa da idade. Fi-quei 
triste, mas não me surpreendi. 
Isso é comum, vindo de uma juven-tude 
que não está nada prepara-da 
para o envelhecimento”, afirma 
Margarida. A ideia de enfeitar a 
praça aconteceu no último Natal 
e, de lá para cá, os adornos feitos 
à mão são renovados a cada data 
comemorativa. Os últimos foram 
colocados no Dia dos Pais. “É um 
processo de cura.” De reconexão 
com a natureza e com a possibili-dade 
de mudança que não se es-gota 
com a idade. Ao contrário, se 
renova diariamente. “É fundamen- 
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MARISA SANÁBRIA 
(ao centro) durante 
ofi cina de bordado 
ESPECIAL 
CAPA 
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CARDOSO: “Não 
lamento rugas ou 
cabelos brancos” 
ALEXANDRE 
KALACHE: “O 
envelhecimento é 
uma conquista 
da mulher” 
COMO 
QUERO 
ENVELHECER 
Documento escrito 
por Judy Robbe 
l Aceitando o ciclo natural da vida, com 
saúde física e lucidez mental, com 
independência e ajuda mínima para 
fazer aquilo que não consigo mais 
l Adaptando-me às mudanças no meu 
mundo e mantendo-me fl exível para 
enfrentar melhor as difi culdades 
e tristezas que possam aparecer. 
Depois da morte de meu parceiro, em 
2009, quero envelhecer gostando da 
minha própria companhia, e nunca 
reclamando da solidão 
l Com meus fi lhos e netos me 
visitando porque querem estar 
comigo, não por obrigação 
l Com os recursos adequados para 
as minhas necessidades básicas 
(para isso sempre poupei) 
l Continuar gostando de brincar, de 
estar com as minhas amigas, com 
o meu computador, iPad e celular, 
para fazer pesquisas e me comunicar 
com parentes e amigos pelo mundo. 
Quero estar sempre rodeada 
pelos meus livros, lembranças e 
animais de estimação 
l Na minha casa, no meu ninho, 
enquanto estiver lúcida e autônoma o 
sufi ciente para realizar as tarefas do dia 
a dia. Se perder a minha independência, 
vou morar numa pousada geriátrica 
previamente escolhida por mim 
l Tendo boas razões para me levantar 
todos os dias, com metas, propostas 
e compromissos. Sentindo-me útil à 
comunidade 
l Na esperança de que os meus desejos 
sejam respeitados se eu não conseguir 
mais me expressar ou tomar decisões 
quanto ao meu tratamento médico 
l Declaro que não quero medidas 
heroicas para prolongar o processo da 
minha morte, quando as chances de 
vida já não existirem 
l Quero ser acompanhada por médicos 
que apoiam a fi losofi a hospice e 
cuidados paliativos 
Igor Coelho/Agência i7 
MARGARIDA 
Divulgação 
tal ter um projeto. Não lamento rugas 
ou cabelos brancos.” 
Segundo o gerontólogo Alexandre 
Kalache, presidente do Centro Inter-nacional 
de Longevidade, a possibi-lidade 
de viver mais é uma realidade 
para todos. Até 2025, quando vamos 
atingir a marca de 33,4 milhões de 
idosos, o Brasil ocupará a sexta posi-ção 
na classificação dos países mais 
envelhecidos, dobrando, em 13 anos, 
o contingente na faixa acima dos 60 
anos. Em 2050, nossa pirâmide etária 
estará completamente invertida, com 
o número de velhos ultrapassando 
o de jovens e crianças. Longevidade 
resultante de uma série de avanços 
como os da ciência e da medicina, o 
acesso aos serviços de saúde etc. 
“A velhice, a ponto de a popula-ção 
toda envelhecer, é algo recente, 
dos últimos 50 anos. Antes, envelhecer 
era exceção, agora é regra”, diz a ge-riatra 
Karla Giacomin. Ela garante que 
só no século passado ganhamos 
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FÁBIO 
CAMARGO, 
Luciana 
Barros e 
Robson 
Fontenelle: 
atentos ao 
futuro 
Igor Coelho/Agência i7 
POUCO PREPARADOS PARA A VELHICE 
“Você está se preparando para 
a velhice ou vai se deixar surpre-ender?” 
É com essa pergunta que 
o gerontólogo Alexandre Kalache, 
desafi a jovens e adultos em deba-tes 
que realiza mundo afora. A ideia 
é confrontá-los com a imagem de 
si próprios nas fases mais avan-çadas 
da vida, aos 65, 70 ou 80 
anos, e alertar para o fato de que 
precisamos nos preparar, social e 
individualmente, para a tremenda 
revolução demográfi ca em curso. 
Para que a possibilidade de vi-ver 
mais seja, de fato, uma con-quista, 
a velhice deve ser vivida 
com saúde, segurança, recursos fi - 
nanceiros e capital social. “Não dá 
para pensar nisso 1 semana antes 
de fazer 80 anos. Cada um de nós 
deve fazer investimentos, em todas 
as etapas da existência, para atra-vessar 
bem a fronteira dos 60”, diz 
o especialista. Caso contrário, pode 
ser uma etapa da vida caracteriza-da 
por solidão, sofrimento, insegu-rança. 
“É necessário desenvolver, 
também, uma cultura do cuidado, 
pois estamos sofrendo a síndrome 
da insufi ciência familiar.” 
A equação não fecha: de um 
lado cada vez maior número de 
idosos, equanto que o de cuida-dores 
só diminui. Com mais mo-bilidade 
social e geográfica, as 
famílias também estão mais frag-mentadas. 
As pessoas se casam 
2, 3 ou até mais vezes. Com todas 
essas questões, a revisora Lucia-na 
Lobato Barros, de 41 anos, o 
professor universitário Fábio Ca-margo, 
43, e o publicitário Robson 
Fontenelle, também de 43, come-çaram 
a se organizar. 
Eles sabem que não terão fi lhos 
e que, portanto, precisam pensar 
alternativas de cuidado. Robson, 
que desde o primeiro AVC sofrido 
pela mãe, em 2001, vive a doloro-sa 
experiência de vê-la numa si-tuação 
limite, já havia despertado 
para a questão. “É angustiante ver 
minha mãe, hoje com 85 anos, sem 
falar, sem se mexer na cama.” 
Não dá para prever o futuro. O 
que Robson já sabe é que terá que 
cuidar melhor da saúde e continu-ar 
fazendo reserva financeira. “In-visto 
nas relações de amizade. Já 
temos um combinado que é cons-truir 
casa para vivermos juntos.” 
A ideia é a mesma que Luciana e 
Fábio pretendem adotar. Como 
segunda opção, eles consideram 
a possibilidade de viver numa ins-tituição. 
“Eu sempre soube que ia 
ser sozinho na vida, então, essa 
possibilidade não me assusta”, diz 
Fábio. Luciana também não tem 
medo do futuro. “Eu me preparo, 
mas sempre com a consciência de 
que a vida é imprevisível demais.” 
ESPECIAL 
CAPA 
mais em quantidade de vida do que 
tínhamos conseguido em milênios. 
“E não é apenas em quantidade. 
Trata-se, principalmente, de qua-lidade 
de vida que tanto homens 
quanto mulheres passaram a expe-rimentar.” 
Para o público mascu-lino, 
contudo, o envelhecimento, 
segundo a antropóloga Mirian Gol-denberg, 
é um processo de conti-nuidade, 
enquanto que o feminino 
teve que revolucionar e se reinven-tar 
para atingir – e até ultrapassar 
– a expectativa de vida do homem. 
Kalache lembra que as mulhe-res 
que agora estão entre os 60 e 75 
anos são as que nasceram durante 
ou pós-Segunda-Guerra. Elas desa-fiaram 
as elevadas taxas de mortali-dade 
materna, viveram a revolução 
sexual, conquistaram o direito de 
entrar no mercado de trabalho e 
de decidir o número de filhos que 
teriam com o uso de métodos an-ticoncepcionais. 
“Se analisarmos 
sob a perspectiva da mulher, a re-volução 
da longevidade foi muito 
maior. Ela se emancipou, gostou 
da experiência, e podemos, sim, 
considerar que o envelhecimento é 
uma conquista dela.” 
A psicóloga Marisa Sanábria 
concorda com o gerontólogo e vê a 
mulher, o tempo todo, desafiar pre-conceitos, 
lutar por direitos, inclu-sive 
o envelhecer. Até mesmo pela 
literatura isso se torna evidente. As 
bruxas são retratadas como mu-lheres 
envelhecidas, na menopau-sa, 
feias e mal amadas. Cria-se, 
lembra Marisa, o arquétipo de que 
toda mulher vai envelhecer com 
amargura e que o processo inclui 
apenas decadência. Não é mais 
assim, estão aí as atrizes de 60, 70, 
80, Judy, Mary, Margarida e Rosa 
para provar o contrário. 
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Sem idade, matéria de capa de Vanessa Jacinto

  • 1.
    Arquivo pessoal MaryLage/ Academia Rokaz VANESSA JACINTO ESPECIAL CAPA MARY LAGE escala parede de calcário em Verdon, na França SEM IDADE E las são revolucionárias. Põem em xeque o concei-to de velhice tal qual concebemos, desafiam a de-nominação de idosas que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), define as que passaram dos 60. E crescem em todos os cenários, classes sociais e re-giões do Brasil. Estão aí, a desafiar o tempo e atuantes, as atrizes Marília Pera, Irene Ravache, Fernanda Mon-tenegro, Marieta Severo... e tantas outras anônimas. Há Judy Robbe, de 73 anos, Mary Lage, 65, Rosa Carvalho, 70, e Margarida Cardoso, 66, rompendo o preconceito que associa a longevidade a prejuízos. A psicóloga Marisa Sanábria, presidente da Comis-são de Mulheres e Questões de Gênero do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, adianta: elas alteram a ostensiva ideia de que a data de validade fe-minina MULHERES QUE DESAFIAM O TEMPO, MOSTRAM SUA FORÇA E LUTAM POR SEUS DIREITOS, INCLUSIVE O DE ENVELHECER deve ser dada pela sua sexualidade e idade re-produtiva. “Elas lutam por seus direitos, inclusive o de envelhecer.” Melhor seria, então, de acordo com a an-tropóloga Mirian Goldenberg, se referir a elas como ageless (sem idade) ou inclassificáveis, “pois não lhes cabem rótulos.” À sua maneira, cada uma delas vai construindo, com fôlego para chegar bem aos 90 anos, o que Mirian 50 VIVER Setembro 5 - 2014 050 - 054.indd 1 29/08/14 19:50
  • 2.
    chama de belavelhice. O termo é o mesmo que intitula seu último li-vro, lançado pela Editora Record, resultado de suas pesquisas sobre envelhecimento. “As integrantes desse grupo têm muito a ensinar. A melhor lição é a certeza de que pas-sar dos 60 nada tem a ver com o fim do trabalho, da libido, da saúde ou do interesse pela vida.” No próximo mês de outubro, nos dias 16 e 17, ela e outros es-pecialistas se reunirão no Rio de Janeiro para discutir o assunto, du-rante o II International Longevity Forum 2014 , promovido pelo Cen-tro Internacional de Longevidade e cujo tema será Envelhecimento e Gênero. Nesta reportagem, as mu-lheres entrevistadas mostram que não penduraram as chuteiras. Tampouco fazem planos de pa-rar. “Eu não coloco data para dei-xar de fazer escalada”, afirma Mary Lage, escaladora e montanhista. “Enquanto eu conseguir, vou conti-nuar subindo muros e paredões. Se isso é o que me traz vigor e alegria de viver, não tem sentido deixar de fazer só porque podem me julgar velha demais pra isso.” Junto com o marido e os filhos, ela coman-da uma academia de escalada na Savassi, em Belo Horizonte, onde também treina quase que diaria-mente. Vencendo o próprio medo de altura, ela já subiu picos como o das Agulhas Negras (2.791,55 me-tros) e o Dedo de Deus (1.692). Muitos a julgariam inadequa-da por começar, aos 47 anos, a pra-ticar esse tipo de esporte. Mas ela não se intimidou. Desde então, o muro tem sido seu psicólogo, sím-bolo de superação, de capacidade de transpor limites. Mary diz que escalar melhora sua autoestima, sua autoconfiança e, é claro, a con-dição física. “Existe tanta pedra bo-nita no mundo pra eu conhecer e subir! Ainda vou viver muito.” Judy, aos 73, segue dedicada ao seu trabalho de dar apoio às famí-lias da pessoa com Alzheimer. Ela também faz palestras e seminários, treinamento especial de cuida-dores e aconselhamento familiar. Desfruta de boa saúde e de alegria de viver. A esse envelhecimento bem-sucedido, Judy atribui o fato de ter passado por um processo de autoconhecimento, iniciado 30 anos atrás. “Foi nesta época que entendi qual era a minha missão: orientar e acolher essas famílias. O trabalho de autoconhecimento me permitiu estar mais engajada com a vida, encontrar o equilíbrio, pla-nejar as etapas e cuidar melhor de mim.” Nasceu na Inglaterra duran-te a Segunda Guerra. “Escondida em abrigos subterrâneos, minha mãe não sabia se era noite ou dia no momento em que vim ao mun-do. E foi assim que passei os meus primeiros 5 anos.” Talvez por isso ela esbanje tan-ta vontade de viver, tenha tanto respeito pela velhice e morte. Es-ses ingredientes a conduziram num Não tem sentido deixar de fazer só porque podem me julgar velha” Mary Lage processo de autoinvestigação que nunca acabou. Desde que o marido morreu em 2009, Judy criou outro grupo com mais 3 amigas. Sema-nalmente, elas se reúnem para dis-cutir “como estou envelhecendo”. Elas revisitam o passado, levantam questões e informações da infân-cia, da família, falam sobre como se sentem sem seus maridos, de espiritualidade, de onde e como querem viver quando se tornarem dependentes. As respostas encontradas per-mitem a Judy fazer ajustes na rota que traçou para o seu envelheci-mento. Seu grande projeto é enve-lhecer com dignidade e, para que não haja dúvida sobre seus dese-jos, ela documentou como quer que isso aconteça (quadro na pág. ao lado). “Envelhecer é como uma viagem, você não pode ir para ela sem um mapa. É fundamental se preparar e planejar como vai ser o momento.” Rosa de Lourdes sempre este-ve ao lado de Judy nesta busca VIVER Setembro 5 - 2014 51 050 - 054.indd 2 29/08/14 19:50
  • 3.
    por autoconhecimento. Etam-bém 52 vive uma bela velhice. “Aos 70 me sinto inteira, ativa, disposta. É como se ainda tivesse 40 anos e muito tempo pela frente.” Ela sem-pre se preparou para chegar bem à velhice. Dietas equilibradas, cor-po em movimento, laços afetivos fortalecidos e espiritualidade em equilíbrio com outras esferas. Acre-dita que é preciso ir construindo a vida fazendo o que traz alegria, resgatando sonhos perdidos na in-fância. Atualmente, faz novos inves-timentos levando em conta, prin-cipalmente, as dificuldades que poderão surgir nos próximos 30 ou 20 anos. “Tenho observado, pela minha mãe de 95 anos, o quan-to traz vida cada um envelhecer no seu canto, cuidando das suas coisas, das plantas, no seu ninho. Já estou adaptando o lugar onde moro de forma que ele possa com-portar a minha velhice. É na minha casa que quero viver até o fim dos meus dias, com cuidadores se for necessário.” Planejar é mesmo fundamen-tal. “É preciso se dedicar às coisas de que gosta. Nós envelhecemos como vivemos e, se a pessoa sem-pre teve projetos, certamente os terá depois dos 60. Pode ser com outra cadência, mas tem que ser o que dá alegria,” diz a psicóloga Ma-risa Sanábria. Para traçar seu próprio enve-lhecimento, Marisa, que tem 60 anos, também fez seu plano. Um deles é chegar a essa fase com me-nos apegos, carga, culpa, menos. “É preciso ir adquirindo uma certa leveza para poder descansar nes-se jardim com a alma apaziguada e tranquila!” A professora Marga-rida Ferreira Cardoso, 66 anos, re-solveu levar esse jardim para fora. Ornamentou a praça Violeta Soter JUDY ROBBE: “Envelhercer é como uma viagem, você não pode ir sem um mapa” Fotos: Pedro Vilela/Agência i7 Vargas, no bairro Serra, em Belo Horizonte. Foi a forma que encon-trou para preencher de forma lúdi-ca parte das horas vagas do seu dia, antes tomado pelos 30 anos em que deu aula na rede municipal de en-sino. “Eu teria continuado, mas os alunos estavam me considerando inadequada por causa da idade. Fi-quei triste, mas não me surpreendi. Isso é comum, vindo de uma juven-tude que não está nada prepara-da para o envelhecimento”, afirma Margarida. A ideia de enfeitar a praça aconteceu no último Natal e, de lá para cá, os adornos feitos à mão são renovados a cada data comemorativa. Os últimos foram colocados no Dia dos Pais. “É um processo de cura.” De reconexão com a natureza e com a possibili-dade de mudança que não se es-gota com a idade. Ao contrário, se renova diariamente. “É fundamen- VIVER Setembro 5 - 2014 MARISA SANÁBRIA (ao centro) durante ofi cina de bordado ESPECIAL CAPA 050 - 054.indd 3 29/08/14 19:50
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    CARDOSO: “Não lamentorugas ou cabelos brancos” ALEXANDRE KALACHE: “O envelhecimento é uma conquista da mulher” COMO QUERO ENVELHECER Documento escrito por Judy Robbe l Aceitando o ciclo natural da vida, com saúde física e lucidez mental, com independência e ajuda mínima para fazer aquilo que não consigo mais l Adaptando-me às mudanças no meu mundo e mantendo-me fl exível para enfrentar melhor as difi culdades e tristezas que possam aparecer. Depois da morte de meu parceiro, em 2009, quero envelhecer gostando da minha própria companhia, e nunca reclamando da solidão l Com meus fi lhos e netos me visitando porque querem estar comigo, não por obrigação l Com os recursos adequados para as minhas necessidades básicas (para isso sempre poupei) l Continuar gostando de brincar, de estar com as minhas amigas, com o meu computador, iPad e celular, para fazer pesquisas e me comunicar com parentes e amigos pelo mundo. Quero estar sempre rodeada pelos meus livros, lembranças e animais de estimação l Na minha casa, no meu ninho, enquanto estiver lúcida e autônoma o sufi ciente para realizar as tarefas do dia a dia. Se perder a minha independência, vou morar numa pousada geriátrica previamente escolhida por mim l Tendo boas razões para me levantar todos os dias, com metas, propostas e compromissos. Sentindo-me útil à comunidade l Na esperança de que os meus desejos sejam respeitados se eu não conseguir mais me expressar ou tomar decisões quanto ao meu tratamento médico l Declaro que não quero medidas heroicas para prolongar o processo da minha morte, quando as chances de vida já não existirem l Quero ser acompanhada por médicos que apoiam a fi losofi a hospice e cuidados paliativos Igor Coelho/Agência i7 MARGARIDA Divulgação tal ter um projeto. Não lamento rugas ou cabelos brancos.” Segundo o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Inter-nacional de Longevidade, a possibi-lidade de viver mais é uma realidade para todos. Até 2025, quando vamos atingir a marca de 33,4 milhões de idosos, o Brasil ocupará a sexta posi-ção na classificação dos países mais envelhecidos, dobrando, em 13 anos, o contingente na faixa acima dos 60 anos. Em 2050, nossa pirâmide etária estará completamente invertida, com o número de velhos ultrapassando o de jovens e crianças. Longevidade resultante de uma série de avanços como os da ciência e da medicina, o acesso aos serviços de saúde etc. “A velhice, a ponto de a popula-ção toda envelhecer, é algo recente, dos últimos 50 anos. Antes, envelhecer era exceção, agora é regra”, diz a ge-riatra Karla Giacomin. Ela garante que só no século passado ganhamos VIVER Setembro 5 - 2014 53 050 - 054.indd 4 29/08/14 19:51
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    FÁBIO CAMARGO, Luciana Barros e Robson Fontenelle: atentos ao futuro Igor Coelho/Agência i7 POUCO PREPARADOS PARA A VELHICE “Você está se preparando para a velhice ou vai se deixar surpre-ender?” É com essa pergunta que o gerontólogo Alexandre Kalache, desafi a jovens e adultos em deba-tes que realiza mundo afora. A ideia é confrontá-los com a imagem de si próprios nas fases mais avan-çadas da vida, aos 65, 70 ou 80 anos, e alertar para o fato de que precisamos nos preparar, social e individualmente, para a tremenda revolução demográfi ca em curso. Para que a possibilidade de vi-ver mais seja, de fato, uma con-quista, a velhice deve ser vivida com saúde, segurança, recursos fi - nanceiros e capital social. “Não dá para pensar nisso 1 semana antes de fazer 80 anos. Cada um de nós deve fazer investimentos, em todas as etapas da existência, para atra-vessar bem a fronteira dos 60”, diz o especialista. Caso contrário, pode ser uma etapa da vida caracteriza-da por solidão, sofrimento, insegu-rança. “É necessário desenvolver, também, uma cultura do cuidado, pois estamos sofrendo a síndrome da insufi ciência familiar.” A equação não fecha: de um lado cada vez maior número de idosos, equanto que o de cuida-dores só diminui. Com mais mo-bilidade social e geográfica, as famílias também estão mais frag-mentadas. As pessoas se casam 2, 3 ou até mais vezes. Com todas essas questões, a revisora Lucia-na Lobato Barros, de 41 anos, o professor universitário Fábio Ca-margo, 43, e o publicitário Robson Fontenelle, também de 43, come-çaram a se organizar. Eles sabem que não terão fi lhos e que, portanto, precisam pensar alternativas de cuidado. Robson, que desde o primeiro AVC sofrido pela mãe, em 2001, vive a doloro-sa experiência de vê-la numa si-tuação limite, já havia despertado para a questão. “É angustiante ver minha mãe, hoje com 85 anos, sem falar, sem se mexer na cama.” Não dá para prever o futuro. O que Robson já sabe é que terá que cuidar melhor da saúde e continu-ar fazendo reserva financeira. “In-visto nas relações de amizade. Já temos um combinado que é cons-truir casa para vivermos juntos.” A ideia é a mesma que Luciana e Fábio pretendem adotar. Como segunda opção, eles consideram a possibilidade de viver numa ins-tituição. “Eu sempre soube que ia ser sozinho na vida, então, essa possibilidade não me assusta”, diz Fábio. Luciana também não tem medo do futuro. “Eu me preparo, mas sempre com a consciência de que a vida é imprevisível demais.” ESPECIAL CAPA mais em quantidade de vida do que tínhamos conseguido em milênios. “E não é apenas em quantidade. Trata-se, principalmente, de qua-lidade de vida que tanto homens quanto mulheres passaram a expe-rimentar.” Para o público mascu-lino, contudo, o envelhecimento, segundo a antropóloga Mirian Gol-denberg, é um processo de conti-nuidade, enquanto que o feminino teve que revolucionar e se reinven-tar para atingir – e até ultrapassar – a expectativa de vida do homem. Kalache lembra que as mulhe-res que agora estão entre os 60 e 75 anos são as que nasceram durante ou pós-Segunda-Guerra. Elas desa-fiaram as elevadas taxas de mortali-dade materna, viveram a revolução sexual, conquistaram o direito de entrar no mercado de trabalho e de decidir o número de filhos que teriam com o uso de métodos an-ticoncepcionais. “Se analisarmos sob a perspectiva da mulher, a re-volução da longevidade foi muito maior. Ela se emancipou, gostou da experiência, e podemos, sim, considerar que o envelhecimento é uma conquista dela.” A psicóloga Marisa Sanábria concorda com o gerontólogo e vê a mulher, o tempo todo, desafiar pre-conceitos, lutar por direitos, inclu-sive o envelhecer. Até mesmo pela literatura isso se torna evidente. As bruxas são retratadas como mu-lheres envelhecidas, na menopau-sa, feias e mal amadas. Cria-se, lembra Marisa, o arquétipo de que toda mulher vai envelhecer com amargura e que o processo inclui apenas decadência. Não é mais assim, estão aí as atrizes de 60, 70, 80, Judy, Mary, Margarida e Rosa para provar o contrário. 54 VIVER Setembro 5 - 2014 050 - 054.indd 5 29/08/14 19:51