Constituição de Rede: 
Território e Itinerários de 
Cidadania 
Luiz Cecilio 
Universidade Federal de São Paulo
Rede 
território 
Itinerários de cidadania
Para além do 
“território” da 
atenção 
básica...
A Saúde se produz em múltiplos territórios que 
se conectam entre si 
O território da Grande Política 
O território da Gestão 
REDE 
O território dos Serviços de Saúde 
Os territórios existenciais 
Itinerários de cidadania
A produção de redes de 
cuidado resulta sempre 
da conexão de múltiplos 
territórios 
Uma rede de cuidado tem sempre uma 
dimensão molar e uma dimensão 
molecular. As redes de cuidado são da 
ordem da multiplicidade e das conexões
Os territórios: o que são? 
Que atores se movem nesse território? 
O que se produz nesse território? 
Dispositivos operados no território 
O QUE RESULTA PARA O CUIDADO EM 
SAÚDE MENTAL NESSE TERRITÓRIO
O território da Grande Política 
Que atores se movem nesse território? Os 
governantes, o Ministro da Saúde, os parlamentares 
em todos os níveis de governo, a Sociedade Civil 
Organizada. 
O que se produz nesse território? A legislação do 
Sistema de Saúde; a legislação de saúde mental (A 
Lei Paulo Delgado); o financiamento; o modelo 
assistencial, etc 
Dispositivos operados: aprovação de legislação, definição de 
Política de Saúde, Financiamento, indução de políticas, etc 
A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DO BRASIL
O território da Gestão 
Que atores se movem nesse território? Os gestores da 
Saúde; os prestadores públicos e privados de serviços de 
saúde; o controle social 
O que se produz nesse território? 
A construção e ampliação de unidades de saúde; a 
contratação de pessoal; a regulação do acesso e 
consumo de serviços. 
Dispositivos operados: contratações; capacitações; central 
de regulação; compra de serviços; pactuações; 
protocolizações. 
A LINHA DE ATENÇÃO PSICO-SOCIAL.
O território dos Serviços de Saúde 
Que atores se movem nesse território? 
Os trabalhadores e as equipes de saúde; os 
gerentes de serviços; os usuários. 
O que se produz nesse território? 
Acolhimento; consultas médicas e de outros 
profissionais; atividades de grupo; oficinas de 
trabalho; visitas domiciliares,etc 
Dispositivos operados: reuniões de equipe; supervisão; 
matriciamento; conselho gestor local de saúde; trabalho com 
familias e equipamentos locais, etc. 
(não) Vínculo e (não) cuidado
Os territórios existenciais 
Que atores se movem nesse território? 
Cada de um nós. “Cada um sabe a dor e a delícia 
de ser o que é” (Caetano); o mundo da vida. 
O que se produz nesse território? 
Nosso viver. Nossos projetos de felicidade e 
possibilidades. Nossa capacidade de produzir 
futuro. 
Dispositivos operados: as trajetórias terapêuticas; os “mapas 
do cuidado”; os vínculos; o agir leigo. 
NOSSO MODO DE ANDAR A VIDA/ AUTONOMIA.
ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL 
A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DO BRASIL 
A LINHA DE ATENÇÃO PSICO-SOCIAL. 
(NÃO) VÍNCULO E (NÃO) CUIDADO 
NOSSO MODO DE ANDAR A VIDA/ AUTONOMIA.
UM CASO PARA PENSAR OS 
CONCEITOS DE REDE 
F., 36 anos, feminino, branca, mãe de P., 11 anos, mora com filho em 
uma ocupação no centro de São Paulo, cursou ensino fundamental 
completo, desempregada, natural de Itapajé – CE e procedente de São 
Paulo há 17 anos, evangélica. 
Acompanhada em Unidade de Internação Psiquiátrica 
de um Hospital Universitário
A paciente nasceu em Itapajé - CE em 15/08/77, mas foi criada em 
Missi – CE, onde morou com seus pais e quatro irmãos até os 15 
anos. É a quarta filha da prole de cinco, sendo três homens e duas 
mulheres. Durante a infância, refere ter tido bom relacionamento com 
pais e irmãos, principalmente com a mãe, e um desempenho escolar 
regular, apesar de não gostar de ir à escola. F. sempre foi mais 
caseira e diz ter tido pouco amigos, gostava muito de fazer crochê. 
Durante sua adolescência, seu isolamento ficou mais evidente e 
passou a ser questionada pela família, pois seus amigos saíam para 
dançar forró e ela não. Nesse mesmo período, apresentou episódios 
de raiva e irritabilidade logo após o falecimento de seu pai. 
Aos 19 anos, F. veio para São Paulo a fim de trabalhar com irmão em 
um bar, o que fez por aproximadamente 3 meses. Nesse período, 
morou com irmão e esposa por um ano em uma casa com outras 
pessoas (cortiço?) na Bela Vista. À partir de então, a paciente refere 
diversas mudanças de residência, ora com amigos e conhecidos, ora 
com companheiros e este comportamento foi colocando-a em muitas 
situações de risco.
Há 11 anos, F. envolveu-se com C., com quem teve uma união 
estável por um ano e engravidou de P. Após seu nascimento, 
foram atendidos em um projeto social ligado ao Hospital Sírio 
Libanês (Abrace Seu Bairro) e, neste período (2005), P. é 
diagnosticado com autismo e F. tem seu primeiro surto psicótico, 
no qual ficou encolhida no chão durante dias, sem se movimentar 
e com pouca expressão verbal, prejuízo no autocuidado e no 
cuidado com seu filho, sendo internada de acordo com C. (não 
temos maiores informações sobre essa primeira internação). 
Neste período, o Abrace Seu Bairro, encaminha P. ao Centro de 
Referência da Infância e Adolescência – CRIA/UNIFESP para 
avaliação e seguimento desde 2008.
Em 2009, F. tem nova internação, aparentemente 
desencadeada por pedido de C. por teste de DNA do filho. C. 
refere que a paciente ficou bastante desorganizada e com 
pensamentos persecutórios com relação a C., como se 
quisesse lhe causar mal ou a seu filho. Após saída da 
internação, a paciente retorna aos comportamentos de risco, 
morando com desconhecidos. F. tem resistência em contar 
sobre seu trabalho neste período e a equipe faz uma hipótese 
de que estivesse envolvida com prostituição, uma vez que C. 
já havia sugerido que esta fosse a sua ocupação. Assim, conta 
de diversas situações nas quais foi violentada e agredida 
fisicamente, sobretudo por seus companheiros. Em 2010, a 
paciente é encaminhada pelo CRIA ao CAPS Y, onde iniciou 
atendimento ambulatorial mensal com psiquiatra.
Em 2011, teve sua terceira internação no Hospital X por um mês 
(agosto). Nesta ocasião, foi internada com hematomas, quadro de 
agitação, pensamento persecutório de que estranhos queriam tirar 
seu filho e de que pessoas mortas saíam do chão e a conduziam de 
carro. É referido que este quadro foi desencadeado por episódios de 
violência de seu parceiro à época (informações colhidas pela equipe 
do CRIA durante a visita à internação). 
Neste mesmo ano, após alta da internação, a paciente retorna ao 
convívio com o parceiro que continua a agredir, bem como seu filho, 
que chega ao CRIA também com hematomas. Diante deste episódio, 
a equipe do CRIA intervém e a paciente e seu filho são acolhidos no 
Centro de Acolhida Maria da Penha. 
Antes da internação, a paciente estava residindo com seu filho em 
uma ocupação no centro de São Paulo (Cine Marrocos).

Seminário Saúde Mental na Atenção Básica: "Vínculos e Diálogos Necessários" - 04 e 05 de novembro de 2014

  • 1.
    Constituição de Rede: Território e Itinerários de Cidadania Luiz Cecilio Universidade Federal de São Paulo
  • 2.
  • 3.
    Para além do “território” da atenção básica...
  • 4.
    A Saúde seproduz em múltiplos territórios que se conectam entre si O território da Grande Política O território da Gestão REDE O território dos Serviços de Saúde Os territórios existenciais Itinerários de cidadania
  • 5.
    A produção deredes de cuidado resulta sempre da conexão de múltiplos territórios Uma rede de cuidado tem sempre uma dimensão molar e uma dimensão molecular. As redes de cuidado são da ordem da multiplicidade e das conexões
  • 6.
    Os territórios: oque são? Que atores se movem nesse território? O que se produz nesse território? Dispositivos operados no território O QUE RESULTA PARA O CUIDADO EM SAÚDE MENTAL NESSE TERRITÓRIO
  • 7.
    O território daGrande Política Que atores se movem nesse território? Os governantes, o Ministro da Saúde, os parlamentares em todos os níveis de governo, a Sociedade Civil Organizada. O que se produz nesse território? A legislação do Sistema de Saúde; a legislação de saúde mental (A Lei Paulo Delgado); o financiamento; o modelo assistencial, etc Dispositivos operados: aprovação de legislação, definição de Política de Saúde, Financiamento, indução de políticas, etc A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DO BRASIL
  • 8.
    O território daGestão Que atores se movem nesse território? Os gestores da Saúde; os prestadores públicos e privados de serviços de saúde; o controle social O que se produz nesse território? A construção e ampliação de unidades de saúde; a contratação de pessoal; a regulação do acesso e consumo de serviços. Dispositivos operados: contratações; capacitações; central de regulação; compra de serviços; pactuações; protocolizações. A LINHA DE ATENÇÃO PSICO-SOCIAL.
  • 9.
    O território dosServiços de Saúde Que atores se movem nesse território? Os trabalhadores e as equipes de saúde; os gerentes de serviços; os usuários. O que se produz nesse território? Acolhimento; consultas médicas e de outros profissionais; atividades de grupo; oficinas de trabalho; visitas domiciliares,etc Dispositivos operados: reuniões de equipe; supervisão; matriciamento; conselho gestor local de saúde; trabalho com familias e equipamentos locais, etc. (não) Vínculo e (não) cuidado
  • 10.
    Os territórios existenciais Que atores se movem nesse território? Cada de um nós. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano); o mundo da vida. O que se produz nesse território? Nosso viver. Nossos projetos de felicidade e possibilidades. Nossa capacidade de produzir futuro. Dispositivos operados: as trajetórias terapêuticas; os “mapas do cuidado”; os vínculos; o agir leigo. NOSSO MODO DE ANDAR A VIDA/ AUTONOMIA.
  • 11.
    ATENÇÃO À SAÚDEMENTAL A POLÍTICA DE SAÚDE MENTAL DO BRASIL A LINHA DE ATENÇÃO PSICO-SOCIAL. (NÃO) VÍNCULO E (NÃO) CUIDADO NOSSO MODO DE ANDAR A VIDA/ AUTONOMIA.
  • 12.
    UM CASO PARAPENSAR OS CONCEITOS DE REDE F., 36 anos, feminino, branca, mãe de P., 11 anos, mora com filho em uma ocupação no centro de São Paulo, cursou ensino fundamental completo, desempregada, natural de Itapajé – CE e procedente de São Paulo há 17 anos, evangélica. Acompanhada em Unidade de Internação Psiquiátrica de um Hospital Universitário
  • 13.
    A paciente nasceuem Itapajé - CE em 15/08/77, mas foi criada em Missi – CE, onde morou com seus pais e quatro irmãos até os 15 anos. É a quarta filha da prole de cinco, sendo três homens e duas mulheres. Durante a infância, refere ter tido bom relacionamento com pais e irmãos, principalmente com a mãe, e um desempenho escolar regular, apesar de não gostar de ir à escola. F. sempre foi mais caseira e diz ter tido pouco amigos, gostava muito de fazer crochê. Durante sua adolescência, seu isolamento ficou mais evidente e passou a ser questionada pela família, pois seus amigos saíam para dançar forró e ela não. Nesse mesmo período, apresentou episódios de raiva e irritabilidade logo após o falecimento de seu pai. Aos 19 anos, F. veio para São Paulo a fim de trabalhar com irmão em um bar, o que fez por aproximadamente 3 meses. Nesse período, morou com irmão e esposa por um ano em uma casa com outras pessoas (cortiço?) na Bela Vista. À partir de então, a paciente refere diversas mudanças de residência, ora com amigos e conhecidos, ora com companheiros e este comportamento foi colocando-a em muitas situações de risco.
  • 14.
    Há 11 anos,F. envolveu-se com C., com quem teve uma união estável por um ano e engravidou de P. Após seu nascimento, foram atendidos em um projeto social ligado ao Hospital Sírio Libanês (Abrace Seu Bairro) e, neste período (2005), P. é diagnosticado com autismo e F. tem seu primeiro surto psicótico, no qual ficou encolhida no chão durante dias, sem se movimentar e com pouca expressão verbal, prejuízo no autocuidado e no cuidado com seu filho, sendo internada de acordo com C. (não temos maiores informações sobre essa primeira internação). Neste período, o Abrace Seu Bairro, encaminha P. ao Centro de Referência da Infância e Adolescência – CRIA/UNIFESP para avaliação e seguimento desde 2008.
  • 15.
    Em 2009, F.tem nova internação, aparentemente desencadeada por pedido de C. por teste de DNA do filho. C. refere que a paciente ficou bastante desorganizada e com pensamentos persecutórios com relação a C., como se quisesse lhe causar mal ou a seu filho. Após saída da internação, a paciente retorna aos comportamentos de risco, morando com desconhecidos. F. tem resistência em contar sobre seu trabalho neste período e a equipe faz uma hipótese de que estivesse envolvida com prostituição, uma vez que C. já havia sugerido que esta fosse a sua ocupação. Assim, conta de diversas situações nas quais foi violentada e agredida fisicamente, sobretudo por seus companheiros. Em 2010, a paciente é encaminhada pelo CRIA ao CAPS Y, onde iniciou atendimento ambulatorial mensal com psiquiatra.
  • 16.
    Em 2011, tevesua terceira internação no Hospital X por um mês (agosto). Nesta ocasião, foi internada com hematomas, quadro de agitação, pensamento persecutório de que estranhos queriam tirar seu filho e de que pessoas mortas saíam do chão e a conduziam de carro. É referido que este quadro foi desencadeado por episódios de violência de seu parceiro à época (informações colhidas pela equipe do CRIA durante a visita à internação). Neste mesmo ano, após alta da internação, a paciente retorna ao convívio com o parceiro que continua a agredir, bem como seu filho, que chega ao CRIA também com hematomas. Diante deste episódio, a equipe do CRIA intervém e a paciente e seu filho são acolhidos no Centro de Acolhida Maria da Penha. Antes da internação, a paciente estava residindo com seu filho em uma ocupação no centro de São Paulo (Cine Marrocos).