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2ª
ANDRADE, Manuel C. Caminhos e descaminhos
da geografia. Campinas: Papirus, 1989. ............................................................. 4


HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização.
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004 ................................................. 8


SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura.
O Brasil: território e sociedade no início do século XXI.
Rio de Janeiro: Record, 2001. .......................................................... 13


SANTOS, M. (Org). Novos Rumos da Geografia Brasileira.
São Paulo: Hucitec, 1982. ................................................................ 16


SIMIELLI, Maria Elena R. Cartografia no
ensino fundamental e médio. In: CARLOS, Ana Fani A. (Org.).
A geografia na sala de aula.
São Paulo: Contexto, 1999. p. 92-108. ............................................ 19


VESENTINI, José William (Org.).
Ensino de geografia no século XXI.
São Paulo: Papirus, 2005. ................................................................ 21
ANDRADE, Manuel C. Caminhos e descaminhos da geografia. Campinas: Papirus, 1989.
                                                                       Elaborada pelo Professor Auro Moreno Romero
                                                                                         Mestre em Geografia – USP


            1 – INTRODUÇÃO                                             tentes entre a natureza de um lugar e as formas de
                                                                       exploração desenvolvidas pelo homem. No mesmo
                Manuel C. de Andrade apresenta nesse livro uma
                                                                       período Karl Hitter, procurou estudar os vários siste-
            coleção de artigos escritos no período compreendido
                                                                       mas de organização do espaço terrestre, comparando
            entre os anos de 1984/1987, portanto, um momento
                                                                       povos, instituições e sistemas de utilização de recur-
            em que o Brasil e o mundo passavam por grandes trans-
                                                                       sos. Assim, esses dois pensadores alemães deram à
            formações sociais e políticas. É neste contexto de mu-
                                                                       Geografia um status de ciência. Karl Hitter dedicou-se
            danças que o autor rediscute o papel da geografia, como
                                                                       muito mais ao ensino, desenvolvendo o método com-
            ciência capaz de corroborar com a melhoria da quali-
                                                                       parativo em Geografia, sendo professor de Ratzel e Elissé
            dade de vida de todos e do geógrafo, como cidadão
                                                                       Reclus que consolidariam o conhecimento geográfico
            que participa das mudanças e as ajuda compreender.
                                                                       em bases verdadeiramente científicas.
            Assim, podemos dividir o livro, segundo o autor, nos
                                                                           Ratzel naturalista alemão viveu em uma época em
            seguintes artigos: A geografia e o problema da
                                                                       que a Alemanha realizava sua unidade e seus estudos
            interdisciplinaridade entre as ciências; A geografia e a
                                                                       foram muito utilizados na política alemã do “espaço
            crise brasileira; Populismo e organização social do es-
                                                                       vital”, daí ser considerado o fundador da escola
            paço; Perspectivas do papel do geógrafo, como profis-
                                                                       determinista e ter dado suporte teórico à Geopolítica
            sional no Brasil; O livro didático de geografia no con-
                                                                       fundada por Kjillen em 1911. Ao contrário de Ratzel
            texto da prática de ensino e A geografia e o problema
                                                                       que apoiava a expansão imperialista alemã, Elissé
            da redivisão territorial do Brasil.
                                                                       Reclus militou contra essa política, adotando uma
                                                                       política de contestação do imperialismo, por isso ter
            2 - A GEOGRAFIA E O PROBLEMA DA                            ficado esquecido e marginalizado.
            INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE AS CIÊNCIAS                        Já no século XX as concepções acerca da Geogra-
                 Desde o século XVIII, principalmente com Kant e,      fia se diferenciam e ganham importância as chama-
            no século XIX, com Comte, estabelecer os limites en-       das escolas nacionais, cada uma refletindo os inte-
            tre os campos das várias ciências tem se tornado uma       resses de seus países, principalmente no que diz res-
            preocupação para os filósofos. O conhecimento cien-        peito ao imperialismo e ao processo de colonização.
            tífico não pode ser compartimentado, todavia existe            A influência do positivismo na Geografia aumen-
            um problema entre a vastidão de conhecimentos de-          tou o problema sobre a delimitação de qual deveria
            senvolvidos pela humanidade e a capacidade do ho-          ser a área de estudo da Geografia. Influenciada pelo
            mem de acumulá-lo em um único campo. Sendo as-             positivismo, a Geografia foi compartimentada em vá-
            sim, a questão reside em como, sem quebrar o prin-         rios setores ou ramos: Geografia da População, Geo-
            cípio da totalidade dos conhecimentos, estabelecer         grafia Agrária entre outras. Essa visão departimentada
            ramos específicos para cada área do conhecimento.          do contismo só será questionada após a Revolução
            A preocupação central do autor neste artigo é como a       Russa, que através do marxismo, proporcionou que a
            geografia, que só se tornou uma ciência autônoma           interdisciplinaridade fosse exercitada mais intensamen-
            nas últimas décadas do século XIX, se posiciona no         te na Geografia.
            quadro das ciências.                                           No caso Brasileiro a Geografia se desenvolveu muito
                                                                       lentamente limitando-se aos estudos descritivos. Foi
            2.1 – Da natureza da Geografia                             só a partir de 1930 com a criação do IBGE e das pri-
               O que seria a Geografia e qual o seu objeto de          meiras faculdades de Filosofia que a Geografia Brasi-
            estudo? Inicialmente a Geografia se constituía em um       leira ganha um caráter científico. Daí delinearam-se
            conhecimento eminentemente prático, empírico e li-         várias correntes: as preocupadas com a Geopolítica,
            mitado em catalogar e cartografar os lugares, servin-      de cunho militar e as de modelo francesa (mais filo-
            do aos exércitos, governos e aos comerciantes que          sófica) trazida por Pierre Mombeig Pierre Deffontaines
            necessitavam de informações sobre os principais pro-       e Francis Ruellan. Também se destacam nesse perío-
            dutos a serem explorados em uma determinada área.          do ensaístas como Gilberto Freire, Josué de Castro e
            Na proporção que os navegantes necessitavam de mais        Caio Prado Junior.
            segurança nas viagens, a Geografia foi ganhando um             Esse modelo de Geografia perdura até os anos 60
            caráter científico e estabelecendo relacionamento com      quando dois modelos de Geografia se chocam: uma
   4        outras ciências.                                           a serviço de um projeto de desenvolvimento capitalis-
  Nº 18        A ciência geográfica ganha notoriedade a partir do      ta dependente para o país (Geografia Quantitativa) e
MAIO/2006   século XIX quando Humboldt observou as relações exis-      outro que questionava a pretensa neutralidade da
Geografia Quantitativa que dava suporte aos gover-       dor sob alegação da necessidade de se pagar a dívida
nos autoritários da época (Geografia Crítica). Os        externa, caindo em um círculo vicioso. Exporta para
Quantitivistas, em baixa durante toda a década de 80,    pagar a dívida e aumenta a dívida por dar prioridade à
reaparecem nos anos 90 inspirados pela informática       política exportadora.
e pelo uso do computador.
                                                         3.2 - A crise da Geografia.
2.2 - O problema da interdisciplinaridade                   Em uma sociedade permanentemente em crise é
    Para o autor a interdisciplinaridade ganha uma di-   natural, que a Geografia, como ciência social, tam-
mensão especial na Geografia, pois a existência de       bém se encontre em crise.
uma Geografia Humana e de uma Geografia Física é            Os grupos que estão no poder esperam que a Ge-
apenas artificial e apenas serve para estabelecer uma    ografia esteja a serviço da exclusão social, que contri-
dicotomia que acaba pondo em risco a própria exis-       bua para beneficiar o grande capital. Todavia as su-
tência geográfica. Os saberes próprios da Geografia      cessivas crises internacionais colocaram sob suspeita
tais como: a climatologia, a geomorfologia, pedologia,   a Geografia institucional e trouxe o problema do com-
etc. acabaram por se tornar objeto de estudo de es-      prometimento do geógrafo com o país.
pecialista, criando assim uma preocupação para a
Geografia definir seu objeto.                            3.3 – A geografia e a crise
    Sendo a Geografia uma ciência social é importan-         Sabendo que o país vive momentos de crise, o que
te que estreite sua relação com as chamadas ciências     seve ser discutido é qual deve ser o papel do geógrafo
do homem, surgindo assim, saberes intermediários         no momento atual.
entre elas e a Geografia.                                    Assim, para Andrade, o geógrafo só poderá con-
    A Geografia deve, portanto estabelecer um conta-     tribuir com seu país se possuir uma boa formação
to direto com a História, com a Antropologia, com a      científica; ser capaz de analisar a realidade brasileira,
Economia Política entre outras ciências. É justamen-     dentro de sua especificidade; entender que não basta
te essa aproximação que enriquece a Geografia e tam-     descrever o visível, mas também perceber e interpretá-
bém as outras ciências.                                  lo; aceitar que existe um processo dialético na produ-
                                                         ção do espaço que obriga o geógrafo a dispor de um
3 – A GEOGRAFIA E A CRISE BRASILEIRA.                    quadro teórico que lhe permita analisar tanto as con-
    A palavra crise é uma das mais usadas no Brasil,     dições do meio natural, submetidas também a um
da mesma forma que o Brasil a Geografia também se        processo dinâmico, como conhecer bem a estrutura
encontra em crise, isso porque antes de ser profissio-   da sociedade em que vive; Possuir boa formação filo-
nal o geógrafo é um cidadão e daí, dentro de sua área    sófica para que com esta e com a práxis possa carac-
de atuação, deve colaborar para procurar os caminhos     terizar as categorias que vai utilizar e por fim, possuir
que ajudem na reformulação da sociedade brasileira.      um espírito critico e apaixonado para poder fugir dos
                                                         modelos filosóficos idealistas que as classes dominan-
3.1. – Características da crise brasileira.              tes utilizam com maestria para desviar os estudiosos
    O Brasil, apesar de ser um país de grande exten-     do caminho seguro na procura das soluções para a
são territorial, rico em recursos naturais e com uma     problemática da sociedade.
população numerosa, se apresenta como um país po-            Em síntese, é grande a responsabilidade do
bre. Esse atraso em parte pode ser explicado em fun-     geógrafo diante da crise que atinge o país e a sua
ção de nossa herança colonial, sustentada na explo-      ciência. Cabe a ele participar do encontro de uma saída
ração dos recursos naturais e nas populações indíge-     autêntica para a crise nacional e de uma solução para
nas e negras.                                            a retirada de sua própria ciência do descrédito e das
    Ainda hoje, passado mais de 200 anos de nossa        dificuldades com que ela se defronta.
independência, feita sem revolução e sem nenhuma
transformação, o país pouco mudou e praticamente         4 - POPULISMO E ORGANIZAÇÃO
até os anos de 1930 o Brasil era dominado pelos gran-
des proprietários rurais.                                SOCIAL DO ESPAÇO.
    A partir da década de 30, abriu-se espaço para os       O populismo é sempre tema atual e dos mais com-
grupos urbanos na participação da vida política. O       plexos constituindo-se um desafio à reflexão. O
país se urbanizou e verificou-se o surgimento de uma     populismo é uma das formas de governo mais co-
burguesia urbana que se aliou aos antigos chefes ru-     muns em sociedades de transição, típicas dos países
rais mantendo a estrutura de dominação. As leis tra-     subdesenvolvidos.
balhistas, notadamente populistas acabaram fazendo          Constituem-se em um desafio refletir sobre a socie-
algumas concessões às classes mais baixas, todavia       dade, política e a organização do espaço em regimes
mantendo o sistema social excludente.                    populistas. Para o autor, o estudioso que se propor a
    Com exceção da PETROBRÁS, toda nossa econo-          estudar o relacionamento entre o populismo e as for-           5
mia foi sendo incorporada ao capitalismo internacio-     mas de organização do espaço se vê obrigado a ma-             Nº 18
nal. O Brasil adotou um modelo econômico exporta-        nejar com categorias científicas as mais diversificadas.    MAIO/2006
Necessita refletir, levando em conta que o espaço nunca         No Brasil podemos dizer que o populismo estava
            está organizado de forma definitiva, não é algo estáti-     muito mais voltado para as populações urbanas do
            co, é profundamente dinâmico e vai se modificando           que para as rurais. A modernização da indústria veio
            dialeticamente de forma permanente. O espaço pro-           a atender os desejos de uma burguesia urbana, toda-
            duzido é sempre temporário pois é produto das rela-         via, as intervenções que favoreceram às mudanças não
            ções dialéticas entre sociedade e natureza, permane-        provocaram alterações nas velhas formas de poder.
            cendo ora de forma mais intensa, ora de forma me-               As transformações urbanas e indústriais provoca-
            nos intensa em permanente transformação.                    ram um grande êxodo rural, principalmente de traba-
                                                                        lhadores sem qualificação o que provocou ainda mais
            4.1 – Do espaço organizado                                  a queda no padrão da qualidade de vida, das condi-
                Durante muito tempo admitiu-se que o espaço ou          ções sanitárias, da segurança, da saúde, etc.
            era produto da influência da natureza, havendo um               O crescimento urbano foi ainda estimulado pela
            determinismo do meio natural sobre a ação do ho-            construção de grandes rodovias que facilitaram a
            mem, ou, que sem se libertar da influência do               integração do território. O deslocamento de popula-
            ambientalismo, haveria possibilidades recíprocas da         ção (para atender as classes dominantes nacional e
            influência do homem sobre o meio e do meio sobre o          as empresas estrangeiras) se deu de forma
            homem – o possibilismo.                                     desordenada em sem planejamento provocando a
                Hoje ao analisarmos o espaço em suas várias es-         destruição e a degradação do meio ambiente.
            calas devemos considerar um erro darmos ênfase                  Poderíamos citar diversos exemplos, todavia o que
            unicamente qualitativa, ou seja, a problemática es-         importa é demonstrar como a atuação populista pode
            pacial não pode ser vista apenas pela visão da Geo-         modificar a organização espacial do país nas mais di-
            grafia. A análise espacial exige a participação da socio-   versas escalas exacerbando as tendências dominan-
            logia, da antropologia, da história, da economia, da        tes em um país inserido na área de domínio do capi-
            política entre outras ciências.                             talismo periférico.
                Ao estudarmos o espaço produzido deve-se levar
            em conta que esse espaço é a resultante de uma evo-
            lução e foi produto da ação de numerosos fatores,
                                                                        5 – PERSPECTIVAS DO PAPEL DO GEÓGRAFO
            bastante diversificados. É necessário destacar que a        COMO PROFISSIONAL, NO BRASIL
            interferência individual na organização do espaço é            Para discutir o papel do geógrafo como profissio-
            praticamente nula por isso o que importa é entender-        nal o autor coloca duas questões:
            mos como atua a sociedade em seu conjunto. Na
            medida em que nossa sociedade constitui-se em uma           1- Qual a formação profissional do geógrafo;
            sociedade capitalista, a organização do espaço irá re-      2- Qual o mercado de trabalho que oferece oportuni-
            fletir, dentro de certas limitações, os interesses das         dades ao profissional de geografia.
            classes dominantes. Limitações impostas pelas diver-
                                                                            Nas primeiras quatro décadas do século XX prati-
            gências de interesses dentro das classes dominantes
                                                                        camente não houve preocupação, no Brasil, em se
            e pelas pressões impostas pelas classes dominadas.
                                                                        formar profissionais que requeriam maior especiali-
                Desta forma, a organização de um determinado
                                                                        zação, como é o caso da Geografia.
            espaço, sempre irá refletir as estruturas sociais exis-
                                                                            A Geografia só começou ser lecionada oficialmen-
            tentes e dominantes.
                                                                        te em institutos superiores após a Revolução de 1930,
            4.2 – O populismo e suas características                    com a criação dos cursos de Geografia e História, nas
                Os governos populistas são típicos dos países sub-      faculdades de filosofia e com a introdução de uma
            desenvolvidos, nos períodos de crises sociais. Sem-         disciplina de Geografia Econômica nos cursos de Ad-
            pre que ocorre uma certa instabilidade política e soci-     ministração e Finanças, de Ciências Contábeis e
            al e é comum o surgimento de lideres carismáticos.          Atuariais e de Administração Pública e de Empresas.
            O líder populista não tem compromisso com mudan-                Mesmo assim a Geografia não era ministrada com
            ças reais, procura com reformas superficiais atenuar        a finalidade de formar geógrafos mas sim formar pro-
            as tensões.                                                 fessores para as escolas de ensino médio e dar subsí-
                No Brasil, os períodos populistas muitas vezes se       dios aos economistas e administradores.
            seguem ou coexistem com períodos autoritários (1930/        5.1 – Os primeiros trabalhos geográficos
            34,1937/45 e 1964).
                                                                           Os primeiros trabalhos geográficos foram elabo-
            4.3 – O populismo e a produção do espaço social             rados por não geógrafos. Trabalhos, sobretudo im-
               A questão central, segundo o autor, é discutir quais     portantes quando das questões de limites, de frontei-
            são as repercussões de uma política populista sobre         ras entre o Brasil e as Repúblicas Vizinhas. Podemos
            o espaço social produzido? Ou ainda, com que inten-         considerar como pioneiros dos estudos geográficos,
   6        sidade uma ação populista pode modificar o espaço           embora não sendo geógrafos, Olville Derby, Teodoro
  Nº 18     anteriormente produzido e que marcas poderá deixar          Sampaio, Capistrano de Abreu, Oliveira Viana, Gilber-
MAIO/2006   para o futuro?                                              to Freire e Caio Prado Junior, todavia é Delgado de
Carvalho que pode ser considerado o primeiro geógrafo      de atuação específico, bem delimitado e tecnocrático.
brasileiro, precursor da Geografia científica no Brasil,   Elaborada no período ditatorial, essa Lei vinculou os
com trabalhos publicados no início do século XX.           geógrafos ao CONFEA, ao lado dos engenheiros, agrô-
                                                           nomos e dos arquitetos, ignorando a formação
5.2 – A oportunidade para a existência                     humanística que caracteriza a Geografia. Hoje a Geo-
de geógrafos profissionais                                 grafia desempenha um grande papel na vida brasilei-
    A formação de geógrafos foi proporcional às exi-       ra e tem, pelas condições do país e pela capacidade
gências criadas pelo desenvolvimento do país. No           de seus profissionais, um grande espaço a ocupar na
IBGE, houve uma grande preocupação com as fron-            construção do Brasil de amanhã.
teiras do Brasil e com a necessidade de uma nova
divisão regional. O IBGE foi uma das grandes escolas       6 - O LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA
de formação de geógrafos, enviando técnicos para           NO CONTEXTO DA PRÁTICA DE ENSINO
realizarem cursos na França, principalmente para de-
senvolverem uma teoria sobre região que pudesse ser        6.1 – O livro didático no 1o e 2o graus
aplicada ao Brasil.                                            Os primeiros livros didáticos refletiam o modelo
    Um outro segmento que contribuiu para a forma-         de ensino de geografia que se praticava até 1930. Os
ção de geógrafos foi a USP, que passou a exigir dos        estudantes eram obrigados a decorar nomes de aci-
candidatos a professores o título de doutor. As nume-      dentes geográficos – linha costeira, relevo, rios, la-
rosas teses de doutoramento, então defendidas, se          gos, nomes de capitais e de principais cidades etc.
constituíram num verdadeiro marco para a história              Após 1930 Delgado de Carvalho, inspirado na Ge-
do desenvolvimento da Geografia Brasileira.                ografia Francesa, publica uma série de livros sobre o
    Fundada em 1945 a AGB desempenhou um gran-             Brasil, chegando a publicar, com fim estritamente di-
de papel para a formação de pesquisadores. Criada          dático, uma Corografia do Brasil. A reforma educaci-
em São Paulo expandiu-se para todo o Brasil. Foram         onal Francisco de Campos deu grande ênfase à Geo-
de suma importância os congressos e os grupos de           grafia que passou a ser ensinada nas cinco séries do
trabalho que se formaram no interior da AGB.               ensino ginasial. Essa reforma animou novos profes-
    O desmembramento dos cursos de Geografia e             sores a escreverem compêndios de geografia. Daí
História, a partir de 1955 favoreceu o surgimento de       surgiram, na década de 30, as coleções de livros es-
inúmeras disciplinas auxiliares - embora agudizando        critos por Delgado de Carvalho e Aroldo de Azevedo,
ainda mais a dicotomia entre Geografia física e hu-        Pierre Mombeig, João Dias da Silveira, Maria da Con-
mana – deu à Geografia mais autonomia.                     ceição Vicente de Carvalho.
                                                               Com a reforma do Estado Novo, a Geografia, con-
5.3 – A pós-graduação e a regulamentação da profissão
                                                           siderada uma ciência conservadora, ganhou espaço
    Nos anos 60 houve no Brasil um grande estimulo à       e passou a ser ensinada em todo curso secundário.
criação de cursos de pós-graduação, seguindo o mode-           No início da década de 50 surgiram novos livros
lo norte-americano. Os primeiros mestrados surgiram        didáticos que procuraram apresentar, de forma mais
ma Universidade de São Paulo posteriormente foram          dinâmica, os fenômenos geográficos, abandonando
sendo implantados cursos na Universidade Federal do        as classificações estáticas, principalmente tratando-
Pernambuco, na UNESP na Universidade Federal de
                         ,                                 se das climáticas.
Sergipe, na Universidade Federal de Santa Catarina.            Nos anos 60, com o domínio de uma política
                                                           populista, houve maior estímulo à produção de livros
5.4 – As perspectivas para o geógrafo
                                                           didáticos aparecendo novos autores e editoras que
   As perspectivas para o geógrafo não são muito           além dos livros didáticos produziam os cadernos de
amplas. Elas surgem sobretudo no setor público, nas        exercícios, os chamados “livros do mestre”, com res-
áreas de planejamento, defesa do meio ambiente, pro-       postas e formulações prontas, limitando a criatividade
blemas de urbanização etc. Inicialmente a procura era      do professor e a perda de reflexão por parte deste.
maior por cartógrafos – área onde os geógrafos en-             Assim, é fundamental uma revisão total no ensino
frentavam uma série concorrência dos engenheiros.          de geografia no nível médio. O professor deve utilizar,
   Além dessas áreas os geógrafos encontram traba-         além do livro didático, outras formas auxiliares de
lho nos estudos rurais, principalmente em um mo-           pesquisa. Os livros didáticos além de serem melhora-
mento em que se discute tanto uma reformulação             dos necessitam ter um caráter mais regional afim que
fundiária. Na empresa privada o geógrafo encontra          os estudantes comecem a aprendizagem a partir da
espaço nas empresas de mineração, exploração agrí-         paisagem com que convivem diariamente. A geogra-
cola, de transportes, principalmente após o governo        fia não pode ser ensinada a partir de grandes concep-
começar a exigir das empresas maiores cuidados quan-       ções generalizantes, ela deve dar maior atenção à pro-
to à preservação ambiental.                                dução do espaço.
   Após anos de batalha a profissão de geógrafo foi                                                                     7
regulamentada pelo projeto de Lei 6664 de 26 de ju-        6.2 – O livro didático para o ensino superior               Nº 18
nho de 1979 que estabeleceu ao geógrafo um campo              Para o ensino superior, o problema é bem diverso,      MAIO/2006
o livro texto perde importância, embora também seja       garquias que controlam o poder nessas áreas. O que
            indispensável para dar uma linha mestra ao pensamento     deveria ser levado em consideração no momento em
            do formando, quer captando-o para uma linha de pen-       que se discute a divisão do país em mais estados são
            samento do autor, quer levando-o a raciocinar de for-     as áreas de fronteiras. Os parlamentares e adminis-
            ma crítica sobre essa linha de pensamento.                tradores deveriam estudar a possibilidade de criação
                                                                      de territórios federais em áreas fronteiriças, potenci-
            7 – A GEOGRAFIA E O PROBLEMA DA                           almente ricas e sujeitas à infiltração estrangeira.
            REDIVISÃO TERRITORIAL DO BRASIL                           7.4 – Há outra alternativa
                                                                          Talvez uma alternativa à divisão dos velhos esta-
            7.1 – Origem da divisão
                                                                      dos seria a criação de uma nova escala de divisão
            político-administrativa do Brasil                         territorial de nível superior à municipal e inferior à es-
                O Brasil, apesar de sua grande extensão territorial   tadual. Ela constituiria na criação de departamentos
            e de sua elevada população, comparado a outros pa-        ou regiões administrativas nos vários estados, sobre-
            íses vê-se pouco dividido politicamente, o que traz       tudo nos de maior extensão territorial, que interme-
            conseqüências nem sempre favoráveis à administra-         diariam os dois níveis de administração.
            ção e ao seu desenvolvimento.
                A divisão político-administrativa, com pequenas al-   8 – REFLEXÕES A RESPEITO
            terações, pouco mudou desde o período colonial. Do
            ponto de vista geográfico, admite-se que os estados de    DO DOUTORADO EM GEOGRAFIA.
            grande extensão territorial mantiveram a sua unidade          Os cursos de pós-graduação foram implantados
            em função da inexistência de um povoamento efetivo        durante o período autoritário sendo que antes disso
            por parte do colonizador, concentrando as populações      havia a nível federal um sistema bastante diferente.
            próximas de algumas cidades de maior expressão.           Após dois anos de formados na graduação os inte-
                                                                      ressados em seguir uma carreira universitária podiam
            7.2 – Os estados e as reivindicações autonomistas         se inscrever para o concurso de Livre Docência apre-
                A divisão político-administrativa brasileira sempre   sentando uma tese já elaborada. O cargo de profes-
            foi muito questionada, isto porque se consiste numa       sor catedrático era obtido mediante concurso.
            divisão abstrata e irreal na medida que ignora os inte-       A deficiência de doutores na área de Geografia no
            resses e as aspirações populares.                         Brasil resulta da falta de tradição na formação de dou-
                Os grandes estados não dispõem de recursos para       tores nas universidades federais.
            promover o desenvolvimento de áreas periféricas ao            Quanto à Geografia, o grande debate que ela está
            mesmo tempo em os habitantes de áreas muito po-           provocando atinge a sua conceituação e os métodos
            voadas se sentem desvinculados do estado que per-         utilizados; cremos que a Geografia encontra-se em
            tencem e defendem o direito à autonomia alegando          um processo evolutivo rápido de modo que, ao lado
            sentirem-se desprezados pelos governos estaduais.         das pesquisas empíricas, vem se travando uma pro-
                                                                      funda discussão teórica que deságua em posições fi-
            7.3 – A Assembléia Constituinte e a                       losóficas e epistemológicas as mais diversas.
            divisão político-administrativa do Brasil                     A grande importância dos cursos de pós-gradua-
               Na Assembléia Constituinte foram apresentados          ção em Geografia, segundo Andrade, é a possibilida-
            projetos de redivisão territorial do Brasil levando-nos   de de deixarmos de copiar os modelos estrangeiros
            a pensar se essas propostas correspondem às aspira-       de Geografia e desenvolvermos nossa ciência de for-
            ções de suas populações ou aos interesses das oli-        ma crítica e autônoma.



            HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização:
            do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
                                                  Elaborada pela Profa. Joyce Regina da Silva Magalhães Bozzi
                                            Graduada em Letras – Especialista em Ensino Superior – UNOPAR-PR

                Território e desterritorialização nas ciências so-    sem fronteiras, sociedade em rede) é, na verdade, a
            ciais. Com a globalização via internet e o ciberespaço    reconstrução do território em novas bases, isto porque
            está destruindo a territorialidade das fronteiras dos     o homem não vive sem território e que a sociedade
            Estados e criando um único espaço virtual? O mundo        não pode existir sem territorialidade. A questão é, se-
   8        estaria se desterritorializando? A tese de Rogério        gundo Haesbaert, enfocar o território numa perspecti-
  Nº 18     Haesbaert é que o movimento de destruição de territó-     va geográfica intrinsecamente integradora, ou seja, num
MAIO/2006   rios (com o mito da desterritorialização – um mundo       sentido múltiplo e relacional, respeitando a diversidade
e a dinâmica temporal do mundo. Assim, a terri-                 minância de redes, completamente dissociadas de
torialização é vista para além do processo de domínio           e/ou opostas a territórios, e como se crescente
político-econômico, ou de apropriação simbólico-cul-            globalização e mobilidade fossem sempre sinôni-
tural do espaço pelos grupos humanos. Portanto, cada            mos de desterritorialização.
ser humano precisa territorializar-se. Para Haesbaert, a          Entender a Desterritorialização a partir da defi-
questão não é o fenômeno da desterritorialização, mas        nição de Território. Trata-se de analisar as questões
o da multiterritorialização: experimentar diferentes ter-    de como as diferentes concepções de território, ao longo
ritórios ao mesmo tempo. Entretanto, as relações ca-         da tradição do pensamento geográfico e sociológico,
pitalistas relegaram a maior parte da humanidade à           servem de pano de fundo para o debate sobre a
“exclusão aviltante ou às inclusões extremamente pre-        desterritorialização. Território pode ser compreendido
cárias, no qual no lugar de partilharem múltiplos ter-       em três vertentes básicas: a) política – referida às rela-
ritórios, vaguem em busca de um, o mais elementar            ções espaço-poder ou jurídico-política – relativa a to-
território da sobrevivência cotidiana, como é o caso         das as relações espaço-poder institucionalizadas. Ter-
dos múltiplos territórios precários que abrigam sem-         ritório: espaço delimitado e controlado, no qual se exerce
tetos, sem terras e outros grupos minoritários que           um determinado poder relacionado ao poder político
parecem não ter lugar numa desordem de ‘aglomera-            do Estado. Trata-se do jogo entre os “macropoderes”
dos humanos’ (...) estigmatizados e separados”. Por-         políticos institucionalizados e os “micropoderes” (Michel
tanto, “o sonho da multiterritorialidade generalizada,       Foucault); b) cultural (culturalista) ou simbólico-cul-
dos ‘territórios-rede’ a conectar a humanidade intei-        tural (Bourdieu): território como produto da apropria-
ra, parte (...) da territorialidade mínima, abriga e acon-   ção/valorização simbólica de um grupo em relação ao
chego, condição indispensável para (...) estimular a         seu espaço vivido; c) econômica (economicista): terri-
individualidade e promover o convício solidário das          tório como fonte de recursos e incorporado no embate
multiplicidades – de todos e de cada um de nós”, diz         entre duas classes sociais e na relação capital-traba-
Haesbaert.                                                   lho, como produto da divisão “territorial” do trabalho.
    As questões sociológicas referentes ao espaço e          Entretanto, segundo Haesbaert, há um entrecruzamento
território tiveram as contribuições de Michel Foucault       de proposições teóricas, no qual é fundamental trazer
(emergência de uma era centrada no tempo e no es-            uma outra postura teórica que seja mais ampla: terri-
paço com destaque para a questão do poder), Jameson          tório numa perspectiva integradora e relacional, no
(sobre a questão da cultura e espaço), Deleuze e             qual traz a idéia de território como um híbrido, seja
Guatarri (geofilosofia – no qual atentou para o perigo       entre o mundo material e ideal, seja entre natureza e
do fascínio da desterritorialização: “inteiramente des-      sociedade, em suas múltiplas esferas (econômica, po-
providos de territórios, nos fragilizamos até desman-        lítica e cultural).
char irremediavelmente”). Já no Brasil há a contri-
buição de Otávio Ianni e, principalmente, Milton San-            Haesbaert postula uma leitura integradora e
tos. Para este, a “desterritorialização é, freqüen-          relacional do território. Hoje, a “experiência
temente, uma outra palavra para significar                   integradora” é possível somente se estivermos arti-
estranhamente, que é, também, desculturização” e             culados (em rede) através de múltiplas escalas. Não
há, segundo ele, uma associação entre “ordem glo-            há território sem uma estruturação em rede que
bal” que “desterritorializa” e “ordem local” que             conecta diferentes pontos ou áreas. É o domínio dos
“reterritorializa”. Mas sobre o olhar geográfico, deve-      “territórios-rede”, espacialmente descontínuos, mas
se compreender esta análise a partir da multerrito-          intensamente conectados e articulados entre si. Tra-
rialidade. Portanto, para Haesbaert, sobre a desterrito-     ta-se de uma leitura integrada do espaço social com
rialização:                                                  uma visão de território a partir da concepção de es-
                                                             paço como um híbrido na indissociação entre movi-
a) não há definição clara de territórios nos debates         mento e (relativa) estabilidade. Território, neste sen-
   que focalizam a desterritorialização; o território ora    tido, pode ser concebido a partir da imbricação de
   aparece como algo “dado”, um conceito implícito           múltiplas relações de poder, do poder mais material
   ou a priori referido a um espaço absoluto, oura           das relações econômico-políticas ao poder mais sim-
   ele é definido de forma negativa, isto é, a partir        bólico das relações de ordem mais estritamente cul-
   daquilo que ele não é;                                    tural. Para além de uma leitura puramente materialis-
b) desterritorialização é focalizada quase sempre como       ta do poder, na leitura relacional, o poder é com-
   um processo genérico numa relação dicotômica e            preendido “como relação, e não como coisa a qual
   não intrinsecamente vinculada à sua contraparte, a        possuímos ou da qual somos expropriados, envolve
   (re)territorialização; este dualismo mais geral encon-    não apenas as relações sociais concretas, mas tam-
   tra-se ligado a vários outros, como as dissociações       bém as representações que elas veiculam e, de certa
   entre espaço e tempo, espaço e sociedade, materi-         forma, também produzem. Assim, não há como se-
   al e imaterial, fixação e mobilidade;                     parar o poder político nem sentido mais estrito do              9
c) desterritorialização significando “fim dos territóri-     poder simbólico”.
                                                                                                                            Nº 18
   os” aparece associada, sobretudo, com a predo-               Território e Desterritorialização em Deleuze e            MAIO/2006
Guattari. Trata-se de uma concepção teoricamente mais            espaço. No período da Revolução Industrial já mos-
            elaborada sobre desterritorialização que vem da filoso-          trava traços que estavam sendo gestados pela
            fia, como um dos conceitos centrais do pós-estrutura-            modernidade como “tudo que é sólido” tende a se
            lismo de Guilles Deleuze e Félix Guattari. Segundo eles,         “desmanchar no ar” segundo Berman.
            “não há território sem um vetor de saída do território, e            Enquanto a modernidade passava pelo mito da
            não há saída do território, ou seja, desterritorialização,       Revolução, a pós-modernidade estaria ligada à repe-
            sem, ao mesmo tempo, um esforço para se                          tição, ao anti-histórico, ao presente contínuo, enfim,
            reterritorializar em outra parte”. Os territórios sempre         na ótica severamente crítica. O projeto central da
            comportam dentro de si vetores de desterritorialização e         modernidade enfatizava o indivíduo-sujeito na esfera
            de reterritorialização. Muito mais do que uma coisa ou           da autonomia individual, levando como marco desta
            objeto, diz Haesbaert, “o território é um ato, uma ação,         época a reterritorialização, ou seja, o individuo sus-
            uma relação, um movimento” (de territorialização e               tentado pelo individualismo, faz com que indivíduo
            desterritorialização), um ritmo, um movimento que se             queira ultrapassar os diversos territórios, comunitári-
            repete e sobre o qual se exerce um controle. Esta dialética      os. Caracteriza-se sinteticamente o pós-modernismo
            envolve a criação e a destruição de territórios, conforme        aquele que desestabiliza a estrutura metonímica que
            nos atestam Deleuze e Guattari: “o território pode se            relaciona presença e ausência com proximidade e dis-
            desterritorializar, isto é, abrir-se, engajar-se em linhas       tância, assim compreende-se que desreterritorialização
            de fuga e até sair do seu curso e se destruir. A espécie         está fortemente vinculada com o fenômeno da com-
            humana está mergulhada num imenso movimento de                   pressão tempo-espaço onde a sociedade complexa
            desterritorialização, no sentido de que seus territórios         vive no paradoxo da desigualdade diferenciada.
            ‘originais’ se desfazem ininterruptamente com a divi-                 Múltiplas Dimensões da Desterritorialização:
            são social do trabalho, com a ação dos deuses univer-            perspectivas econômicas, política e cultural. A
            sais que ultrapassam os quadros da tribo e da etnia,             desterritorialização é tratada em três grandes dimen-
            com os sistemas maquínicos que a levam a atraves-                sões sociais sendo elas: a econômica, a dimensão
            sar, cada vez mais rapidamente, as estratificações               política e a perspectiva simbólica ou cultural em sen-
            materiais e mentais”. Para compreensão desta dialética           tido mais restrito. A problemática destas dimensões
            entre desterritorialização e reterritorialização, exemplifica-   engloba a questão de território e a territorialização
            se com a condição do bóia-fria morador de periferias             sempre focados num sentido mais restrito, pelo qual
            urbanas. Assim, como entender este universo para a ge-           se busca responder problemáticas específicas ligadas
            ografia? Segundo Deleuze, “a geografia não se conten-            a questões econômicas, políticas ou culturais, mais
            ta em fornecer uma matéria e lugares variáveis para a            do que a problemática social que envolveria uma no-
            forma histórica. Ela não é somente humana e física,              ção de território mais integradora implícita quando se
            mas mental, como a paisagem. Ela arranca a história              fala em processos de exclusão social, já que exclusão
            do culto da necessidade, para fazer valer a                      será vista aqui como um fenômeno amplo e comple-
            irredutibilidade da contingência, ela a arranca do cul-          xo, ao mesmo tempo de natureza econômica, política
            to das origens, para afirmar a potência de um ‘meio’             e cultural.
            (...). Enfim, ela arranca a história de si mesma para                Na dimensão da perspectiva econômica pode-
            descobrir os devires, que não são a história mesmo               mos observar que não é a maior tradição nos debates
            quando nela recaem (...)”. Ora, se a Geografia menos-            sobre território assim analisando três pontos de vista
            prezou as dinâmicas desreterritorializadoras como cen-           econômicos que afetam a desterritorialização:
            tro de sua análise, trata-se de recuperar os estudos es-         a) a desterritorialização é vista como sinônimo de
            paciais em torno dos fenômenos de deslocamento e das                globalização econômica, esta situação econômica
            desconexões, especialmente diante da nossa nova ex-                 acontece quando se forma um mercado mundial
            periência “pós-moderna” de espaço-tempo, diz                        com fluxos comercias e financeiros e de informa-
            Haesbaert.                                                          ções cada vez mais independentes de base
                 Pós-modernidade e Geometrias do Poder. Ana-                    territoriais bem definidas, como a dos Estados
            lisa-se desterritorialização, no sentindo de que não                nações:
            representa mais uma extinção de território, e sim uma
            dificuldade de definir o novo tipo de território muito           b) em um sentido mais complexo podemos dar ênfa-
            mais múltiplo e descontínuo, que está surgindo. No                  se a um dos momentos do processo de globalização
            âmbito da historicidade fica complexo analisar a con-               ou ao mais típico, aquele chamado capitalismo pós-
            cepção de desterritorialização, especialmente quan-                 fordista ou capitalismo de acumulação flexível, fle-
            do relaciona a experiência entre espaço-tempo,                      xibilidade esta que seria responsável pelo enfraque-
            modernidade e a pós-modernidade. Após rompimen-                     cimento das bases territoriais;
            to com uma época, o pós-modernismo estabelece uma                c) em um sentido mais específico citamos ainda a
            nova sensibilidade, uma nova leitura e uma nova ex-                 desterritorialização como um processo vinculado
  10        periência de mundo, diretamente vinculada aos no-                   pela economia globalizada, o setor financeiro, onde
  Nº 18     vos paradigmas tecnológicos que balançam as anti-                   a tecnologia informacional tornaria mais evidente
MAIO/2006   gas certezas e os antigos laços da sociedade com o                  tanto a imaterialidade quanto a instantaneidade.
Dentro da perspectiva política pode-se delimitar           Dentro da sociedade percebe-se o tamanho do valor
seus aspectos onde território é aquele que vincula         dado à sociedade contemporânea, ou seja, não signi-
espaço e soberania estatal, ou seja, território como a     ficando obrigatoriamente que a mobilidade social num
área ou espaço de exercício da soberania de um Esta-       mundo onde o movimento é regra, a fixidez e a esta-
do. Através do aparecimento do Estado vê-se que ele        bilidade podem acabar, de alguma forma, transfor-
é o primeiro responsável pelo primeiro grande movi-        mando-se também numa espécie de triunfo ou de
mento de desterritorialização, na medida em que ele        recurso.
imprime a divisão de terra pela organização adminis-           Territórios, Redes e Aglomerados de Exclusão.
trativa, fundiária e residencial.                          Pode-se identificar território no movimento ou pelo
    No quadro da desterritorialização numa perspec-        movimento. Talvez esta seja a grande novidade da
tiva cultural, pode-se pensar o território ao longo da     nossa experiência espaço-temporal dita pós-moder-
história do pensamento nas Ciências Sociais, especi-       na, onde controlar o espaço indispensável à nossa
almente entre geógrafos e cientistas políticos. Partin-    reprodução não significa apenas controlar áreas e
do do par História-mito e da herança helenística, en-      definir fronteiras. Com a globalização a comunicação
quanto as “potências regem o mundo” produz histó-          revoluciona a formação de territórios pela configura-
ria, as cidades e seus territórios produzem e se ali-      ção de redes que podem mesmo prescindir de alguns
mentam de mitos.                                           de seus componentes materiais fundamentais, como
    Desterritorialização e Mobilidade. Os processos        linhas de energia ou até mesmo cabos telefônicos. O
de territorialização classificam como fruto de interação   território hoje, mais do que nunca, considera-se tam-
entre relações sociais e controle do/pelo espaço, rela-    bém movimento, ritmo, fluxo, rede não se trata de
ções de poder em sentido amplo, ao mesmo tempo             um movimento qualquer, ou de um movimento de
de forma mais concreta (dominação) e mais simbóli-         feições meramente funcionais: ele é também um
ca (um tipo de apropriação). Em uma visão mais tra-        movimento dotado de significado, de expressividade,
dicional desterritorializar significa então, diminuir ou   isto é, que tem um significado determinado para quem
enfraquecer o controle das fronteiras, aumentando          constrói ou dele usufrui. As redes participam de um
assim a dinâmica, a fluidez, em suma, em suma, a           jogo ambivalente com os fluidos, ao mesmo tempo
mobilidade, seja ela de pessoas, bens materiais, capi-     tentando canalizá-los e/ou sendo desestruturadas por
tal ou informações. A desterritorialização em conse-       eles, cria-se então a noção de aglomerados que sur-
qüência do território torna-se assim discurso da mo-       ge pela necessidade de dar conta de outros tipos de
bilidade tanto da mobilidade material quanto da mo-        espaços que não se encaixavam claramente na lógi-
bilidade imaterial, especialmente aquele diretamente       ca zonal, nem na lógica reticular.
ligado aos fenômenos de compressão tempo-espa-                 Esta noção de aglomerados de exclusão traduz a
ço, propagado pela informatização através do chamado       dimensão geográfica ou espacial dos processos mais
ciberespaço. Os frutos da sociedade sem territoria-        extremos de exclusão social porque ela parece expres-
lidade, sem local, torna a mobilidade generalizada, ou     sar bem a condição de desterritorialização ou de
seja, os territórios são construídos a partir do movi-     territorialização precária a que estamos nos referin-
mento e onde o local se fundamenta na diferença das        do. Em um sentido mais amplo, podemos considerar
mobilidades. Em um ângulo mais complexo da                 que “aglomerados de exclusão” seriam o exemplo mais
desterritorialização vemos freqüentemente uma cres-        representativo especificamente no caso dos aglome-
cente mobilidade das pessoas, seja como, novos nô-         rados de massa impostos pela sociedade capitalista,
mades, vagabundos, viajantes, turistas, imigrantes         presentes em maior ou menor grau praticamente em
refugiados ou como exilados – expressões cujo signi-       todos os espaços do nosso tempo.
ficado costuma ir muito além de seu sentido literal.           Da Desterritorialização à Multiterritorialidade. Aqui
    No contexto geográfico, segundo o Haesbaert,           Haesbaert defende a tese de que desterritorialização é,
“podemos definir mobilidade como uma relação so-           na verdade, uma nova forma de territorialização, a que
cial ligada à mudança de lugar, isto é, como conjun-       chamamos de “multiterritorialidade”: um processo
to de mobilidades pelas quais os membros de uma            concomitante de destruição e construção de territóri-
sociedade tratam a possibilidade de eles próprios ou       os mesclando diferentes modalidades territoriais, como
outros ocuparem sucessivamente vários lugares”.            é o caso dos “territórios-zona” e os “territórios-rede”,
Busca-se através de uma análise níveis para a              em múltiplas escalas e novas formas de articulação
desterritorialização para cada grupo ou classe social,     territorial. Segundo Rogério Haesbaert, “o mundo ‘mo-
percebe-se claramente que aquilo que é denominado          derno’ das territorialidades contínuas/contíguas regidas
desterritorialização para a elite planetária que se        pelo princípio da exclusividade (...) estaria cedendo
locomove com facilidade nada tem a ver com o des-          lugar hoje ao mundo das múltiplas territorialidades
locamento compulsório das classes mais pobres. Na          ativadas de acordo com os interesses, o momento e o
classe que compõe os ricos a desterritorialização para     lugar em que nos encontramos”. Trata-se então, de
os ricos, pode ser confundida com uma multiterrito-        um “mosaico-padrão” de unidades territoriais em área,         11
rialidade segura, mergulhada na flexibilidade e em         seu convívio com uma miríade de territórios-rede mar-         Nº 18
experiências múltiplas de mobilidade.                      cados pela descontinuidade e pela fragmentação que          MAIO/2006
os possibilita a passagem de um território a outro, num     a) desmaterialização ou domínio de relações simbóli-
            jogo que denomina-se multiterritorialidade humana.          cas ou “virtuais”; b) “não-presença” ou desvinculação
            Desterritorialização: é a reterritorialização complexa,     do aqui e do agora; c) aceleração do movimento ou
            em rede e com fortes conotações rizomáticas, ou seja,       predomínio da fluidez sobre a estabilidade; d) enfra-
            não-hierárquicas.                                           quecimento dos controles espaciais através de limi-
                Neste contexto, destaca-se a “globalização”, isto       tes-fronteiras e áreas; e) aumento da hibridização cul-
            é, a dialética entre o global e o local combinados, ao      tural; f) justaposição e imbricação de territórios. As-
            mesmo tempo: “o global e o local são processos,             sim, a desterritorialização é um mito.
            não localizações. Globalização e localização produ-             Não obstante, muitas vezes, o pano de fundo dos
            zem todos os espaços como híbridos, como sítios             discursos sobre a desterritorialização é o movimento
            ‘globais’ tanto de diferenciação quanto de integração.      neoliberal que prega o “fim das fronteiras” e o “fim
            O local e o global não são entidades fixas, mas são         do Estado” para a livre atuação das forças do merca-
            produzidas de forma contingente, sempre em pro-             do. Assim, desterritorialização, referida aí à elite pla-
            cessos de re-produção, nunca completados”. Assim,           netária, é um mito. Não passa, para Haesbaert, de
            a presença de territórios-rede proporciona as condi-        um rearranjo territorial sob condições de grande com-
            ções para a existência da multiterritorialidade. Esta       preensão do espaço-tempo, em que as transforma-
            depende, sobretudo do contexto social, econômico,           ções nas relações ligadas à distância e à presença-
            político e cultural em que estamos situados. Multiter-      ausência tornam-se ainda mais intensas as dinâmi-
            ritorialidade contemporânea pode ser altamente com-         cas de desigualdade e de diferenciação do espaço pla-
            plexa e dotada de ampla flexibilidade, como também,         netário. Trata-se, neste sentido, da forma “versátil de
            ser ativada e desativada numa incrível velocidade.          reterritorialização dos ‘de cima’ que se forja, por ou-
            Portanto, segundo Haesbaert, quem tiver mais opções         tro lado, grande parte da desterritorialização dos ‘de
            para ativar e comandar a riqueza da multiterritorialidade   baixo’, através do agravamento da desigualdade e
            que potencialmente se encontre a seu dispor, seja atra-     da exclusão pela concentração de renda, do capital
            vés de movimentos progressistas (movimento Zapatista        (dos investimentos) e da infra-estrutura, associada à
            de Chiapas), seja através de movimentos retrógrados         ausência de políticas efetivas de redistribuição, aos
            ou conservadores (Al Qaeda), consegue maior poder           investimentos mais na especulação financeira do que
            para produzir mudanças sociais (“linhas de fuga”), no       no setor produtivo gerador de empregos, e à
            sentido de um movimento concomitante de desterrito-         globalização da cultura do status e do valor contábil
            rialização e reterritorialização.                           em uma sociedade de consumo estendida a todas
                Desterritorialização como Mito. O discurso da           as esferas da vida humana”.
            desterritorialização se coloca, segundo Haesbaert, como         Entretanto, para além de hierarquizar as pedras,
            um “discurso eurocêntrico ou ‘primeiro-mundista’,           plantas, animais, pessoas deve-se considerar o “par-
            atento muito mais à realidade das elites efetivamente       lamento das coisas” (Bruno Latour), no qual “não
            globalizadas e alheio à ebulição da diversidade de          admite nenhuma hierarquia ontológica entre as coi-
            experiências e reconstruções do espaço em curso não         sas existentes”. Portanto, deve-se ter “amor por tudo
            só nas chamadas periferias do planeta como no inte-         o que existe” (Gualandi). Este amor deve estar no cen-
            rior das próprias metrópoles centrais. Com certeza, o       tro de nossos processos de territorialização, pela “cons-
            desprezo de algumas correntes filosóficas pela              trução de territórios que não fossem simples territó-
            materialidade do mundo (elaboradas em países ‘cen-          rios funcionais de re-produção (exploração) econô-
            trais’) contribuiu para essa difusão da idéia de um         mica e dominação política, mas efetivamente espa-
            mundo de extinção dos territórios ou mergulhado numa        ços de apropriação e identificação social, em cuja
            dinâmica crescente de desterritorialização”.                transformação nos sentíssemos efetivamente identi-
                O fenômeno da desterritorialização e reterritoria-      ficados e comprometidos” (Haesbaert). É “o espaço
            lização não é um fenômeno pós-moderno ou da soci-           do prazer” (Lefevre). Mas, como “amar tudo o que
            edade pós-industrial ou da sociedade informacional,         existe”, num mundo de crescente e abominável desi-
            visto que o próprio império romano, medieval e o pró-       gualdade, exclusão, segregação, violência e insegu-
            prio Marx como Durkheim já falavam destes fenôme-           rança? Para tanto - para poder “amar tudo o que existe”
            nos. Também o é de longa data a questão do espaço           e construir territórios efetivamente/afetivamente apro-
            como esfera de possibilidade da existência da               priados - é necessário “acabar com toda exploração
            multiplicidade. Assim, o espaço é a condição múltipla       e indiferença dos homens entre si e dos homens para
            de possibilidade tanto de desterritorialização e            com a própria natureza”, diz Haesbaert.
            reterritorialização, simultâneos. Não obstante, Haes-           Para que os territórios não sejam mais instrumen-
            baert acrescenta ainda o fenômeno da Multiterrito-          tos de alienação, segregação, opressão e “in-seguran-
            rialidade, para manter e enfatizar a idéia de processo,     ça”, mas espaços estimuladores, ao mesmo tempo,
            de permanente movimento e devir. Multiterrito-              da diversidade e da igualdade sociais. O tempo denota
  12        rialização: é a condensação de um processo que re-          que, segundo Santos, “a força dos fracos é o seu tem-
  Nº 18     presenta a territorialização através da própria             po lento”. Mesmo que a corrente ideológica do capita-
MAIO/2006   desterritorialização. Desterritorialização não é apenas:    lismo volátil tente destruir as referências territoriais ou
que constrói multiterritorialidades num sentido                 Antes de ser a desterritorialização a grande ques-
destabilizador fragmentador de falta de liberdade, da       tão da passagem de século (como quer Virilo), o que
dinâmica do consumo desenfreado, do correr o risco          está dominando, segundo Haesbaert, é a complexi-
de perder todos os nosso referenciais e fragilizarmos       dade das reterritorializações, “numa multiplicidade
até “desmanchar irremediavelmente” (Guattari), por          de territorialidades nunca antes vista, dos limites mais
outro lado, já no universo dos “espaços lentos” e do        fechados e fixos da guetoficação e dos ‘neoterritórios’
“reenraizamento” cabe reconhecer e lutar por essa           da globalização”.
unidade das coisas do mundo e do território no interior         Portanto, conclui-se com singular maestria
dessa unidade, estimular o potencial “invencionático”,      Haesbaert: “O grande dilema deste novo século será
criativo, de multiplicidade. Trata-se de lutar concreta-    o da desigualdade entre as múltiplas velocidades,
mente para, segundo Haesbaert, construir uma socie-         ritmos e níveis de des-re-territorialização, especial-
dade onde não só esteja muito mais democratizado o          mente aquela entre a minoria que tem pleno acesso
acesso à mais ampla multiterritorialidade – e a convi-      e usufrui dos territórios-rede capitalistas globais que
vência de múltiplas territorialidades, onde estejam sem-    asseguram sua multiterritorialidade, e a massa ou
pre abertas, também, as possibilidades para a               os ‘aglomerados’ crescentes de pessoas que vivem
reavaliação de nossas escolhas e a conseqüente cria-        na mais precária territorialização ou, em outras pa-
ção de outras territorialidades ainda mais igualitárias e   lavras, mais incisivas, na mais violenta exclusão e/
respeitadoras da diferença humana.                          ou reclusão socioespacial”.




SANTOS, Milton & SILVEIRA, Laura Maria. O Brasil Território e sociedade
no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001.
                                      Elaborada pela Profa. Joyce Regina da Silva Magalhães Bozzi
                                Graduada em Letras – Especialista em Ensino Superior – UNOPAR-PR


1. A questão: o uso do território.                          to de suas partes, reconhecendo as respectivas
                                                            complementaridades.
    A partir do século XXI, dá-se uma dimensão às pa-          Para o contexto geográfico, a palavra território tam-
lavras com mais ênfase, devido à diversidade lingüísti-     bém é definida como: implantação de infra-estrutura,
ca e assim são atribuídos novos sentidos e o aumento        de ciência, técnica e informação, estudo do povoa-
de vocábulos. Estas mudanças freqüentes na lingua-          mento, e, sobretudo, com a ocupação econômica. O
gem fazem com que dificulte a interpretação das pala-       grande crescimento urbano demonstra como os sis-
vras, por exemplo, território e espaço. Pode-se atribuir    temas de movimento de homens, capitais, produtos,
a estas palavras as seguintes significações: território,    mercadorias, serviços, mensagens, ordens contribu-
extensão apropriada e usada, visto que se define es-        em para o fluído de território.
paço como extensão indefinida. Território segundo os           Com as cidades crescendo e o número maior de
autores é um nome político de um país, é difícil falar-     pessoas em um número cada vez menor de lugares, a
mos de um Estado sem um território.                         urbanização significa uma maior divisão de trabalho
    O território é visto como unidade e diversidade         resultando em melhor qualidade de território.
como uma questão central da história humana. Cada              Para obtenção da qualidade de território há uma
período pode, assim, perguntar o que é novo no es-          necessidade de regulação política do território, ou seja,
paço e como se combina com que já existe. O pano            resultado é a criação de regiões do mandar e regiões
de fundo de cada país constitui o estudo das suas           do fazer.
diversas etapas e do momento atual, que marca o iní-           A criação deste vínculo do mandar e fazer obser-
cio da divisão territorial do trabalho.                     vamos como as técnicas são desenvolvidas para me-
    A partir da criação da divisão do trabalho estabe-      lhor eficácia, divisão e a especialização do trabalho
lece uma hierarquia entre as pessoas e lugares jul-         nos lugares como: a incorporação de técnicas ao solo
gando a capacidade de agir das pessoas, das firmas e        (rodovias, ferrovias, hidrelétricas, telecomunicações,
das instituições, assim instaura-se nos dias atuais um      emissora de rádios e TV, etc.), objetos técnicos liga-
novo conjunto de técnicas que constroem uma a base          dos à produção (veículos, implementos), insumos téc-
material da vida da sociedade transformando em um           nico-científicos (sementes, adubos, propaganda,
meio técnico-científico informacional, sendo a expres-      consultoria).
são geográfica mais utilizada da globalização. Ensi-           As técnicas desenvolvidas ao longo do tempo per-           13
nando a olhar a constituição do território a partir dos     cebem que há uma preocupação muito maior para o               Nº 18
seus usos, do seu movimento, formando um conjun-            entendimento das diferenças regionais e com o novo          MAIO/2006
dinamismo para busca de uma interpretação geográ-         tos industriais no Brasil, sendo as áreas de mais com-
            fica da sociedade brasileira.                             plexos industriais as regiões Sul, alguns pontos do Cen-
                                                                      tro-Oeste, Nordeste e do Norte (Manaus).
            2. A formação da Região Concentrada                           Ainda neste período podemos destacar o avanço e
                                                                      as inovações na agricultura tratando de uma nova
            e a urbanização interior.                                 geografia feita de belts que são heranças e cristaliza-
                Na década de 1930, houve o momento da
                                                                      ções de fronts próprios de uma divisão do trabalho
            integração nacional, sendo descoberta São Paulo como
                                                                      anterior; áreas que ocupadas em outro momento, hoje
            a metrópole industrial, pois estavam presentes todos
                                                                      se densificam e se tecnificam. Constitucionalmente
            os tipos de fabricação.
                                                                      integradas a estes novos avanços as terras ganham
                A revolução de 1932 trouxe a necessidade do avan-
                                                                      nova valorização que acabam por “expulsar” certos
            ço, e o crescimento para o transporte que facilitaria a
                                                                      produtos para áreas ainda não utilizadas.
            circulação de mercadorias entre os Estados e a União.
                                                                          Podemos ver que, nas áreas privilegiadas pela con-
            O transporte foi um grande marco neste período, prin-
                                                                      centração, o trabalho adquire maior especialização e
            cipalmente o marítimo onde se localizavam os mer-
                                                                      cresce a necessidade de intercâmbios. As cidades tor-
            cados permitindo um tráfego mais intenso.
                                                                      nam-se especializadas reforçando a capacidade de
                Os migrantes dos estados que provinham da Bahia,
                                                                      conhecimento e informação.
            Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Ceará e Sergipe
            começaram a chegar entre 1935 e 1939, ultrapassando
            os números de estrangeiros, assim fazendo um mo-
                                                                      5. Por uma geografia do movimento.
                                                                          Não basta apenas produzir, precisa por a produ-
            mento preliminar da integração territorial dado por
                                                                      ção em movimento. Para esta circulação acontecer é
            uma integração regional do Sudeste e do Sul.
                                                                      preciso a dialética entre a freqüência e a espessura
                                                                      dos movimentos no período contemporâneo e a cons-
            3. A integração nacional.                                 trução e a modernização dos aeroportos, portos, es-
                No período de 1945 a 1950, São Paulo se firma         tradas, ferrovias e hidrovias.
            como grande metrópole fabril do país, o que Milton            Os fluxos aéreos. A concentração maior destes flu-
            Braga Furtado chama de crescimento industrial in-         xos acontece entre São Paulo e o Rio de Janeiro onde
            tencional, para diferenciá-lo do crescimento industri-    a divisão de trabalho é extrema e a vida de relações
            al não intencional dos anos 30.                           assume especial relevo. Além da facilidade podemos
                Estabelece um domínio paulista, com um aumen-         classificar a utilidade da aviação na agricultura para o
            to grande nos investimentos que se iniciava no regi-      controle e a aplicação de fertilizantes e pesticidas de
            me de Getúlio Vargas facilitando a concentração eco-      forma rápida nas grandes fazendas.
            nômica e espacial, desenvolvendo o mercado não ape-           As ferrovias são resultado de conflitos e acordos
            nas fora, mas sim dentro do país.                         sempre provisórios entre o Estado e as empresas fa-
                Neste período da história acontece a Segunda Guerra   zendo assim que o seu fluxo seja sempre datado au-
            Mundial, favorecendo São Paulo como centro produ-         mentando as cargas transportadas. O uso das ferro-
            tor, e ao mesmo tempo, distribuição primária. A difi-     vias não serve apenas para o transporte de cargas e
            culdade financeira dos transportes marítimos acelera a    sim de pessoas também, entre os anos de 1970 e
            instalação do império do caminhão em São Paulo.           1994 foi criado nos estados de São Paulo e Rio de
                Neste período de transição econômica e a criação      Janeiro as companhias de trens metropolitanos.
            de uma indústria automobilística conflui com a cons-          A expansão das grandes metrópoles fez com que
            trução de Brasília que foi um passo importante para as    houvesse uma integração do território através das estra-
            rodovias, pois sem o desenvolvimento industrial de São    das, assim aumentando o fluxo rodoviário levando a dis-
            Paulo seria impossível a construção de Brasília.          puta com as ferrovias e favorecendo o aumento de gran-
                A partir deste período também ocorreu o golpe de      des empresas no sistema rodoviário dando autonomia
            Estado de 1964 que foi considerado como um “novo          ao poder público e domínio mercantil completo.
            passo” para internacionalização da economia brasi-            As hidrovias classificam-se através das cinco baci-
            leira. Os movimentos reforçam os demais, enquanto         as brasileiras tendo como critérios os elementos soci-
            a economia e a sociedade se renovam.                      ais e econômicos diversos. Podemos citar a Amazô-
                                                                      nia que a maior parte da população utiliza transporte
            4. Uma reorganização produtiva do território.             fluvial, ou seja, é uma pequena camada da sociedade
                O desenvolvimento da ciência, da técnica e o ace-     que tem acesso aos transportes aéreo e ao rodoviário
            lerado mundo das informações, fazem com que au-           assim torna-se o meio mais acessível de transporte.
            mente a especialização do trabalho nos lugares. Atra-
            vés deste momento surge uma nova divisão territorial,     6. O território brasileiro:
            fundada na ocupação de áreas até então periféricas e
  14        na remodelação de regiões já ocupadas.
                                                                      do passado ao presente.
  Nº 18         Nos anos 70 e 80, amplia-se a descentralização            As tendências para uma dinâmica de um país que
MAIO/2006   industrial devido o grande número de estabelecimen-       se industrializa começaram a partir do século XX, que
já vinha revelando o crescimento industrial que se deum     verdadeira gangorra constante, pois o território é “uno”
a partir dos estados como Bahia, Pernambuco, Rio            e seu movimento é solidário, desta maneira a desvalo-
de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Nestas           rização e revalorização obedecem a uma lógica.
regiões é implantado o sistema ferroviário, e depois            A quantificação do valor do território que a lógica
estradas de rodagem facilitando a vida agrícola e pa-       obedece, é dado pelo tipo de produto fabricado. No
ralelamente a população urbana crescia de maneira           ano de 1950 observa-se um grande movimento mi-
mais rápida.                                                gratório no país, e a diversidade de origens vão cada
    Com a evolução vertiginosa da cidade de São Pau-        vez mais se misturando sobre o território.
lo, cresce também a sua base industrial, estabelecen-           Este aglomerado de pessoas tentava a sua estabi-
do uma aliança com outras indústrias, desse modo            lidade, no campo, segundo Milton Santos, no ano de
fortalecendo um denso tecido industrial, do qual vão        1997 foram registrados pela Comissão Pastoral da
valer as atividades comerciais, de serviços, de trans-      Terra 622 conflitos pela terra brasileira, em uma quantia
porte, do governo e as próprias indústrias presentes        aproximadamente de 16 milhões de hectares produti-
ali e em outros pontos do Brasil, inclusive, em muitos      vos não utilizados pelo Brasil.
casos, o próprio Rio de Janeiro.                                Os processos de valorização da terra por consoli-
                                                            dação das frentes pioneiras tiveram, certamente, um
7. Uma ordem espacial:                                      papel detonador em vários movimentos migratórios
                                                            do país.
a economia política do território.
    Ao falarmos de ordem espacial, nos referimos no-
vamente ao explicado em uso, ou seja, cada momen-
                                                            9. Neoliberalismo e uso do território.
                                                                As mudanças importantes para a utilização do terri-
to da história tende a produzir sua ordem espacial,
                                                            tório começam a partir da prática do neoliberalismo,
que se associa a uma ordem econômica e uma or-
                                                            tornando o uso do território mais seletivo, assim pu-
dem social, sendo necessário entender sua realidade
                                                            nindo as populações mais pobres, isoladas, mais dis-
a partir de forças que, freqüentemente, não são visí-
                                                            persas e mais distantes de grandes centros produtivos.
veis a olho nu.
                                                                O monopólio criado pelo neoliberalismo afastan-
    Caracterizamos o espaço como um conjunto
                                                            do as populações mais carentes, assim aumentando
indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações.
                                                            o êxodo rural, aumentando a concentração de pesso-
Trata-se de caracterizar uma situação na qual, em cada
                                                            as nos grandes centros, atrás de empregos, desleal-
área, os objetos tendem a exercer certas funções e os
                                                            mente a concorrência é grande e cada vez a diminui-
respectivos processos são em grande parte, submeti-
                                                            ção no salário dos trabalhadores. Só conferir o au-
dos ao papel regulador de instituições e empresas.
                                                            mento de incidência de trabalho escravo.
    O crescimento do território leva o desenvolvimen-
                                                                Dentro da divisão geográfica o neoliberalismo
to de atividades econômicas modernas que permite
                                                            conduz a uma seletividade dos provedores de bens e
uma cooperação entre empresas que facilita o pro-
                                                            serviços, que geram a acumulação e a competitividade
cesso de privatização do território. Este comportamen-
                                                            assim causando uma maior dificuldade para as
to influencia também outras empresas, industriais,
                                                            pessoas mais pobres e isoladas, mostrando que os
agrícolas e de serviços, influenciando fortemente o
                                                            grandes centros também criam gente pobre, pois há
comportamento do poder público, na União, nos Es-
                                                            um grande número de mão de obra que precisa de
tados e nos Municípios.
                                                            trabalho.
    O uso do território é objeto de divisões de traba-
                                                                As grandes metrópoles seguem o padrão da
lho, as empresas produzem atividades e produzem a
                                                            globalização onde novas fontes de riqueza e novas
sua própria divisão de trabalho. Através das lógicas
                                                            razões de pobreza se estabelecem nas grandes cida-
globais, percebemos que os circuitos de cooperação
                                                            des. A globalização amplia a variedade econômica,
são também circuitos de competição, o que conduz à
                                                            cultural, religiosa e lingüística multiplicando os mo-
questão explicativa maior de saber quem, em deter-
                                                            delos produtivos de circulação e de consumo.
minadas circunstâncias, regula quem.
    O valor dado ao território é caracterizado pela no-
ção de espaço, que inclui uma utilização privilegiada
                                                            10. A racionalidade do espaço: da solidariedade
dos bens públicos e uma utilização hierárquica dos          orgânica à solidariedade organizacional.
bens privados. Neste aspecto as empresas tornam a               A racionalidade dentro do espaço pode-se carac-
desempenhar um papel central na produção e no fun-          terizar pelos aspectos cujas condições materiais e
cionamento do território e da economia.                     políticas permitem um uso considerado produtivo pelos
                                                            atores econômicos, sociais, culturais e políticos dota-
8. Desvalorizações e                                        dos de racionalidade. Só pode haver racionalidade de
revalorizações do território.                               espaço quando o território oferece as condições ne-
   O território é palco de grandes disputas comerciais      cessárias.                                                    15
sendo as maiores delas o espaço, que se torna um objeto         No auge da globalização, em nossos atuais dias,           Nº 18
de articulações entre grandes empresas. Existe uma          podemos afirmar que racionalidade de espaço está a          MAIO/2006
serviço das grandes empresas privadas, fazendo com         próprio dinamismo, tenham uma evolução e recons-
            que estas empresas constituam em território as ade-        trução locais relativamente autônomas e apontando
            quações técnicas e políticas necessárias para que usu-     para um destino comum.
            fruam uma maior produtividade e uma maior                      A solidariedade organizacional supõe uma
            lucratividade.                                             interdependência até certo ponto mecânica, produto
               O neoliberalismo faz com que a racionalidade pri-       de normas presididas por interesses de modo geral
            vada tenha benefícios sobre os recursos públicos, le-      mercantis, mutáveis em função de fatores do merca-
            vando com que os setores sociais sejam prejudicados        do. Dentro deste contexto verificamos que a solidari-
            para manter o setor privado.                               edade organizacional é paralela à produção de uma
               A solidariedade orgânica parte do ponto em que          racionalidade que não interessa à maior parte das
            suas atividades exercidas em território usado, fruto do    empresas nem da população.




            SANTOS, Milton (org). Novos rumos da geografia brasileira. São Paulo: Hucitec, 1982.
                                                                                               Claudemir Lopes Bozzi
                                                          Filósofo, especialista em Filosofia Política e Jurídica – UEL

               Num primeiro momento apontaremos as princi-             superação. Esta cultura da crise se relaciona como o
            pais contribuições brasileiras à teoria da geografia; em   poder na medida em que questiona a ideologia do
            seguida, veremos a geografia e o espaço brasileiro.        poder e re-funda os fundamentos teóricos críticos da
                                                                       própria geografia no sentido de explicar e transfor-
            I – Contribuições brasileiras                              mar o real.
                                                                           Num segundo momento, passar da crise da totali-
            à teoria da geografia.                                     dade aos espaços da geografia. Nem o progresso nem
                Contribuição à crítica da crise da geografia, de       as riquezas naturais são infinitos. Portanto o sonho do
            Armando Corrêa da Silva. A crise da geografia se con-      consumo infinito acabou. Que fazer? Há condições
            figura como a crise da cultura que gerou a expansão        materiais para realizar objetivos que a própria humani-
            do capitalismo. Da idéia de espaço totalmente livre,       dade se põe em seus vários espaços: da prática, da
            planeta terra, passou-se para a noção de solo frag-        técnica, da pesquisa, da ciência, do trabalho intelectu-
            mentado. Compreender o espaço global é consciên-           al, das opções possíveis e os espaços da geografia. O
            cia de suas partes (unidades), como um todo de rela-       espaço da prática é o mais imediato, empírico e coti-
            ção. É tensão dialética entre o todo e a parte. Assim,     diano. O espaço das soluções práticas do dia a dia. Já
            a geografia atual é uma cultura em crise e na consci-      o espaço da técnica faz a codificação e formalização
            ência, cultura da crise. Como a cultura contemporâ-        do empírico. É saber elaborado. O espaço da pesqui-
            nea é a composição de um mosaico, também a geo-            sa implica razão e técnica, imaginação ordenada e fa-
            grafia atual é um mosaico (indivíduo e grupo social).      zer metódico. É investigação analítica (hipótese, ob-
            A crise da geografia é parte da cultura da crise. Sur-     servação, análise de dados e generalização). Implica
            gem, então, vários obstáculos: a) a crise da geogra-       operações mentais mais complexas do que o homem
            fia, a ideologia do fim das ideologias; b) crise dos       prático e homem técnico. O espaço da ciência ultra-
            geógrafos, renovação e multiplicidade de ideologias;       passa a relação racionalismo-empirismo. É a elabora-
            c) crise da universidade como lugar de produção da         ção rigorosa de conexão interna de seus saberes, es-
            geografia, abalo dos fundamentos empíricos das ide-        paços da prática, técnica e pesquisa. O espaço do tra-
            ologias; d) a crise do ensino, síntese e fim das ideolo-   balho intelectual se depara com a contradição da divi-
            gias. Portanto, é a crise efetivada como crise de con-     são social do trabalho (intelectuais e técnicos versus
            sumo e consumo de crise. O que fazer? No dia se-           trabalhadores manuais) e diante desta fragmentação
            guinte inquirir a liberdade da consciência da necessi-     social põe-se como opção entre dicotomia social e
            dade. A liberdade da consciência e consciência da li-      unidade. O espaço das opções possíveis deve definir
            berdade. Consciência da necessidade individual e so-       os objetivos a serem alcançados e descobrir as condi-
            cial. Consciência da sobre determinação. Vem o pro-        ções reais de sua efetivação. Assim, os espaços da ge-
            jeto! Efetivar a continuidade, mas com a técnica e a       ografia se põem como espaços plurais. O espaço da
            metodologia analítica a serviço da coletividade do tra-    geografia, espaço: a) da ciência e ideologia que se re-
            balho. Assim, a objetividade do real é posta sob o         laciona com a interdisciplinaridade; b) de seu próprio
            teleológico: serviço da humanidade. A metodologia          espaço interno; c) referido ao segmento do real; d) do
  16        analítica se instrumentaliza como libertação: põe a        subespaço do real que remete à subtotalidade em seu
  Nº 18     cultura da crise e se torna ciência da cultura em crise.   conjunto; e) do discurso que extrapola a subtotalidade,
MAIO/2006   Pela contradição já possuem em si o germe de sua           como consciência do real no todo e na parte.
Algumas considerações do espaço geográfico,           faz o homem, pelo trabalho, e a ação da natureza so-
de Roberto Lobato Corrêa. Que é espaço? Para o            bre o homem o faz sujeito natural. Segundo Moreira,
geógrafo é a superfície da terra vista enquanto mora-     “é a estrutura econômica da formação econômico-
da, do homem e de sua história. Trata-se de pensar o      social que determina a organização espacial, mas é
espaço-morada do homem. Qual a natureza do espa-          a conjuntura política que comanda seus movimen-
ço geográfico? Como o geógrafo pensa este espaço e        tos (processos e formas)”. Pensemos, por exemplo,
qual o conceito de processo espacial? O conceito de       nas classes sociais e seus lugares geográficos: o ca-
espaço (Harvey) tem variado historicamente: espaço        ráter de classe determina o caráter do lugar, seu ar-
absoluto, espaço relativo e espaço relacional. No con-    ranjo espacial: a estética da moradia, a natureza dos
ceito de espaço absoluto: o espaço é uma coisa em         serviços, a “política pública” de infra-estrutura espa-
si mesma e associado às idéias de áreas ou região e de    cial, a geometria. O espaço geográfico, portanto é
unicidade, associado à geografia regional (Hartshorne).   condição da reprodução econômico-social da socie-
Já o espaço relativo: entendido a partir de “relacio-     dade. A organização do espaço, enquanto reprodu-
namentos entre objetos, só existe porque os objetos       ção da produção capitalista, desempenha papel de
existem e se relacionam mutuamente. Assim, o movi-        mediação de espaço enquanto arranjo: econômico
mento de pessoas, bens, serviços e informações veri-      como uma formação de múltiplos espaços desiguais
ficam-se em um espaço relativo porque custa dinhei-       (espaços industriais; instrumentos de trabalho; meios
ro, tempo, energia para se vencer a fricção da distân-    de consumo individuais e coletivos;), jurídico-político
cia” (Harvey). Pode cair no perigo de geografia como      (aparelhos ideológicos e repressivos do Estado), ide-
conexão, direção e distância sem referência com o so-     ológico (aparelhos ideológicos de prescrição da ideo-
cial ou a serviço do “custo-benefício” do capitalismo.    logia dominante: escola, igreja, quartel, tribunais).
Por fim, o espaço relacional: como existindo nos ob-      Necessário desenvolver um método específico para a
jetos – “no sentido de que um objeto somente pode         geografia: a partir do arranjo social, apreender a
existir na medida em que ele contenha e represente        dialética social da formação econômico-social. Assim,
dentro de si relações com outros objetos” (Harvey). Mas   a teoria crítica do espaço deve possui três facetas: a
porque três conceitos de espaço? Porque: a) espaço        formação econômico-social, o modo de produção e
como valor de uso, no qual o homem valoriza a fertili-    a formação sócio-espacial. Por fim, sobre a análise
dade e amenidades físicas; b) no mercado capitalista o    geográfica deve-se argüir a direção das determinações
espaço possui valor de troca – espaço como extração       e descobrir a essência da aparência. Portanto, o ca-
de renda (espaço é mercadoria), monopólio de classe;      minho seguro do método é, segundo Moreira, o da
c) espaço como conteúdo relacional do qual extrai ren-    imersão no arranjo espacial no jogo das suas deter-
da de monopólio. Portanto, trata-se de estudar o espa-    minações múltiplas, sobretudo as determinações de
ço-morada a partir da formação social de uma deter-       classe. Conhecer para transformar!
minada sociedade. O espaço-morada do homem é de                Repensando a teoria das localidades centrais,
natureza social. Neste sentido, destaca Corrêa, a ação    de Roberto Lobato Corrêa. Repensar a teoria da loca-
humana tem papel fundamental na organização do            lidade criticando-a e recuperá-la em um nível mais
espaço. Pensa-se nos atores que monopolizam os meios      elevado. Primeiro: a rede hierarquizada de localida-
de produção e o Estado. De um lado, a acumulação          des centrais constitui-se em uma forma de organiza-
do capital e, de outro, a reprodução da força-de-traba-   ção do espaço vinculado ao capitalismo, sendo de
lho. Os processos espaciais são efetivados para res-      natureza histórica. Segundo: a rede de localidades
ponder, numa sociedade de mercado, estas duas for-        centrais cumpre simultaneamente dois papéis que são
ças antagônicas. Por elas ocorrem a concentração e        complementares: de um lado, constitui-se em um meio
dispersão da ação humana-tempo-espaço-mudança.            para o processo de acumulação capitalista, e de ou-
Assim, o espaço reflete valores socialmente enraizados    tro, constitui-se em um meio para a reprodução das
na comunidade. Portanto, trata-se de pensar o espa-       classes sociais. Isto significa que a rede de localida-
ço-morada do homem em suas conexões com tempo             des centrais constitui-se em um meio através do qual
e espaço, pois são experiências humanas.                  a reprodução do modo de produção capitalista se ve-
    Repensando a geografia, de Ruy Moreira. O pro-        rifica. Terceiro: as redes de localidades centrais apre-
cesso de socialização na natureza pelo trabalho soci-     sentam-se caracterizadas por arranjos estruturais e
al, i. é, a transformação da história natural em histó-   espaciais diversos, isto porque o capitalismo se verifi-
ria dos homens implica uma estrutura de relações sob      ca de modo desigual. Quarto: a rede de localidades
determinação do social. É esta estrutura complexa e       centrais constitui-se em uma estrutura territorial cuja
em perpétuo movimento dialético que conhecemos            análise possibilita a compreensão do sistema urbano
sob a designação de espaço geográfico. História dos       de países não industrializados ou onde a industrializa-
homens e história da natureza são inseparáveis. Há        ção se verifica espacialmente concentrada. Quinto:
múltiplas determinações na relação dialética entre o      possibilidade da conexão entre rede de localidades
homem e a natureza na qual, pela ação do trabalho         centrais e capitalismo monopolítico. A emergência de         17
humano sobre a forma-natureza, gera a forma-socie-        outro arranjo estrutural e espacial da distribuição de       Nº 18
dade. Portanto, o modo de socialização da natureza        bens e serviços caracterizados pela especialização dos     MAIO/2006
PROVA PMSP 2010 TIPO 1 - Geografia
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PROVA PMSP 2010 TIPO 1 - Geografia

  • 1. A FIA P CA RA G E O G
  • 2. PA CA 2ª
  • 3. ANDRADE, Manuel C. Caminhos e descaminhos da geografia. Campinas: Papirus, 1989. ............................................................. 4 HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004 ................................................. 8 SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001. .......................................................... 13 SANTOS, M. (Org). Novos Rumos da Geografia Brasileira. São Paulo: Hucitec, 1982. ................................................................ 16 SIMIELLI, Maria Elena R. Cartografia no ensino fundamental e médio. In: CARLOS, Ana Fani A. (Org.). A geografia na sala de aula. São Paulo: Contexto, 1999. p. 92-108. ............................................ 19 VESENTINI, José William (Org.). Ensino de geografia no século XXI. São Paulo: Papirus, 2005. ................................................................ 21
  • 4. ANDRADE, Manuel C. Caminhos e descaminhos da geografia. Campinas: Papirus, 1989. Elaborada pelo Professor Auro Moreno Romero Mestre em Geografia – USP 1 – INTRODUÇÃO tentes entre a natureza de um lugar e as formas de exploração desenvolvidas pelo homem. No mesmo Manuel C. de Andrade apresenta nesse livro uma período Karl Hitter, procurou estudar os vários siste- coleção de artigos escritos no período compreendido mas de organização do espaço terrestre, comparando entre os anos de 1984/1987, portanto, um momento povos, instituições e sistemas de utilização de recur- em que o Brasil e o mundo passavam por grandes trans- sos. Assim, esses dois pensadores alemães deram à formações sociais e políticas. É neste contexto de mu- Geografia um status de ciência. Karl Hitter dedicou-se danças que o autor rediscute o papel da geografia, como muito mais ao ensino, desenvolvendo o método com- ciência capaz de corroborar com a melhoria da quali- parativo em Geografia, sendo professor de Ratzel e Elissé dade de vida de todos e do geógrafo, como cidadão Reclus que consolidariam o conhecimento geográfico que participa das mudanças e as ajuda compreender. em bases verdadeiramente científicas. Assim, podemos dividir o livro, segundo o autor, nos Ratzel naturalista alemão viveu em uma época em seguintes artigos: A geografia e o problema da que a Alemanha realizava sua unidade e seus estudos interdisciplinaridade entre as ciências; A geografia e a foram muito utilizados na política alemã do “espaço crise brasileira; Populismo e organização social do es- vital”, daí ser considerado o fundador da escola paço; Perspectivas do papel do geógrafo, como profis- determinista e ter dado suporte teórico à Geopolítica sional no Brasil; O livro didático de geografia no con- fundada por Kjillen em 1911. Ao contrário de Ratzel texto da prática de ensino e A geografia e o problema que apoiava a expansão imperialista alemã, Elissé da redivisão territorial do Brasil. Reclus militou contra essa política, adotando uma política de contestação do imperialismo, por isso ter 2 - A GEOGRAFIA E O PROBLEMA DA ficado esquecido e marginalizado. INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE AS CIÊNCIAS Já no século XX as concepções acerca da Geogra- Desde o século XVIII, principalmente com Kant e, fia se diferenciam e ganham importância as chama- no século XIX, com Comte, estabelecer os limites en- das escolas nacionais, cada uma refletindo os inte- tre os campos das várias ciências tem se tornado uma resses de seus países, principalmente no que diz res- preocupação para os filósofos. O conhecimento cien- peito ao imperialismo e ao processo de colonização. tífico não pode ser compartimentado, todavia existe A influência do positivismo na Geografia aumen- um problema entre a vastidão de conhecimentos de- tou o problema sobre a delimitação de qual deveria senvolvidos pela humanidade e a capacidade do ho- ser a área de estudo da Geografia. Influenciada pelo mem de acumulá-lo em um único campo. Sendo as- positivismo, a Geografia foi compartimentada em vá- sim, a questão reside em como, sem quebrar o prin- rios setores ou ramos: Geografia da População, Geo- cípio da totalidade dos conhecimentos, estabelecer grafia Agrária entre outras. Essa visão departimentada ramos específicos para cada área do conhecimento. do contismo só será questionada após a Revolução A preocupação central do autor neste artigo é como a Russa, que através do marxismo, proporcionou que a geografia, que só se tornou uma ciência autônoma interdisciplinaridade fosse exercitada mais intensamen- nas últimas décadas do século XIX, se posiciona no te na Geografia. quadro das ciências. No caso Brasileiro a Geografia se desenvolveu muito lentamente limitando-se aos estudos descritivos. Foi 2.1 – Da natureza da Geografia só a partir de 1930 com a criação do IBGE e das pri- O que seria a Geografia e qual o seu objeto de meiras faculdades de Filosofia que a Geografia Brasi- estudo? Inicialmente a Geografia se constituía em um leira ganha um caráter científico. Daí delinearam-se conhecimento eminentemente prático, empírico e li- várias correntes: as preocupadas com a Geopolítica, mitado em catalogar e cartografar os lugares, servin- de cunho militar e as de modelo francesa (mais filo- do aos exércitos, governos e aos comerciantes que sófica) trazida por Pierre Mombeig Pierre Deffontaines necessitavam de informações sobre os principais pro- e Francis Ruellan. Também se destacam nesse perío- dutos a serem explorados em uma determinada área. do ensaístas como Gilberto Freire, Josué de Castro e Na proporção que os navegantes necessitavam de mais Caio Prado Junior. segurança nas viagens, a Geografia foi ganhando um Esse modelo de Geografia perdura até os anos 60 caráter científico e estabelecendo relacionamento com quando dois modelos de Geografia se chocam: uma 4 outras ciências. a serviço de um projeto de desenvolvimento capitalis- Nº 18 A ciência geográfica ganha notoriedade a partir do ta dependente para o país (Geografia Quantitativa) e MAIO/2006 século XIX quando Humboldt observou as relações exis- outro que questionava a pretensa neutralidade da
  • 5. Geografia Quantitativa que dava suporte aos gover- dor sob alegação da necessidade de se pagar a dívida nos autoritários da época (Geografia Crítica). Os externa, caindo em um círculo vicioso. Exporta para Quantitivistas, em baixa durante toda a década de 80, pagar a dívida e aumenta a dívida por dar prioridade à reaparecem nos anos 90 inspirados pela informática política exportadora. e pelo uso do computador. 3.2 - A crise da Geografia. 2.2 - O problema da interdisciplinaridade Em uma sociedade permanentemente em crise é Para o autor a interdisciplinaridade ganha uma di- natural, que a Geografia, como ciência social, tam- mensão especial na Geografia, pois a existência de bém se encontre em crise. uma Geografia Humana e de uma Geografia Física é Os grupos que estão no poder esperam que a Ge- apenas artificial e apenas serve para estabelecer uma ografia esteja a serviço da exclusão social, que contri- dicotomia que acaba pondo em risco a própria exis- bua para beneficiar o grande capital. Todavia as su- tência geográfica. Os saberes próprios da Geografia cessivas crises internacionais colocaram sob suspeita tais como: a climatologia, a geomorfologia, pedologia, a Geografia institucional e trouxe o problema do com- etc. acabaram por se tornar objeto de estudo de es- prometimento do geógrafo com o país. pecialista, criando assim uma preocupação para a Geografia definir seu objeto. 3.3 – A geografia e a crise Sendo a Geografia uma ciência social é importan- Sabendo que o país vive momentos de crise, o que te que estreite sua relação com as chamadas ciências seve ser discutido é qual deve ser o papel do geógrafo do homem, surgindo assim, saberes intermediários no momento atual. entre elas e a Geografia. Assim, para Andrade, o geógrafo só poderá con- A Geografia deve, portanto estabelecer um conta- tribuir com seu país se possuir uma boa formação to direto com a História, com a Antropologia, com a científica; ser capaz de analisar a realidade brasileira, Economia Política entre outras ciências. É justamen- dentro de sua especificidade; entender que não basta te essa aproximação que enriquece a Geografia e tam- descrever o visível, mas também perceber e interpretá- bém as outras ciências. lo; aceitar que existe um processo dialético na produ- ção do espaço que obriga o geógrafo a dispor de um 3 – A GEOGRAFIA E A CRISE BRASILEIRA. quadro teórico que lhe permita analisar tanto as con- A palavra crise é uma das mais usadas no Brasil, dições do meio natural, submetidas também a um da mesma forma que o Brasil a Geografia também se processo dinâmico, como conhecer bem a estrutura encontra em crise, isso porque antes de ser profissio- da sociedade em que vive; Possuir boa formação filo- nal o geógrafo é um cidadão e daí, dentro de sua área sófica para que com esta e com a práxis possa carac- de atuação, deve colaborar para procurar os caminhos terizar as categorias que vai utilizar e por fim, possuir que ajudem na reformulação da sociedade brasileira. um espírito critico e apaixonado para poder fugir dos modelos filosóficos idealistas que as classes dominan- 3.1. – Características da crise brasileira. tes utilizam com maestria para desviar os estudiosos O Brasil, apesar de ser um país de grande exten- do caminho seguro na procura das soluções para a são territorial, rico em recursos naturais e com uma problemática da sociedade. população numerosa, se apresenta como um país po- Em síntese, é grande a responsabilidade do bre. Esse atraso em parte pode ser explicado em fun- geógrafo diante da crise que atinge o país e a sua ção de nossa herança colonial, sustentada na explo- ciência. Cabe a ele participar do encontro de uma saída ração dos recursos naturais e nas populações indíge- autêntica para a crise nacional e de uma solução para nas e negras. a retirada de sua própria ciência do descrédito e das Ainda hoje, passado mais de 200 anos de nossa dificuldades com que ela se defronta. independência, feita sem revolução e sem nenhuma transformação, o país pouco mudou e praticamente 4 - POPULISMO E ORGANIZAÇÃO até os anos de 1930 o Brasil era dominado pelos gran- des proprietários rurais. SOCIAL DO ESPAÇO. A partir da década de 30, abriu-se espaço para os O populismo é sempre tema atual e dos mais com- grupos urbanos na participação da vida política. O plexos constituindo-se um desafio à reflexão. O país se urbanizou e verificou-se o surgimento de uma populismo é uma das formas de governo mais co- burguesia urbana que se aliou aos antigos chefes ru- muns em sociedades de transição, típicas dos países rais mantendo a estrutura de dominação. As leis tra- subdesenvolvidos. balhistas, notadamente populistas acabaram fazendo Constituem-se em um desafio refletir sobre a socie- algumas concessões às classes mais baixas, todavia dade, política e a organização do espaço em regimes mantendo o sistema social excludente. populistas. Para o autor, o estudioso que se propor a Com exceção da PETROBRÁS, toda nossa econo- estudar o relacionamento entre o populismo e as for- 5 mia foi sendo incorporada ao capitalismo internacio- mas de organização do espaço se vê obrigado a ma- Nº 18 nal. O Brasil adotou um modelo econômico exporta- nejar com categorias científicas as mais diversificadas. MAIO/2006
  • 6. Necessita refletir, levando em conta que o espaço nunca No Brasil podemos dizer que o populismo estava está organizado de forma definitiva, não é algo estáti- muito mais voltado para as populações urbanas do co, é profundamente dinâmico e vai se modificando que para as rurais. A modernização da indústria veio dialeticamente de forma permanente. O espaço pro- a atender os desejos de uma burguesia urbana, toda- duzido é sempre temporário pois é produto das rela- via, as intervenções que favoreceram às mudanças não ções dialéticas entre sociedade e natureza, permane- provocaram alterações nas velhas formas de poder. cendo ora de forma mais intensa, ora de forma me- As transformações urbanas e indústriais provoca- nos intensa em permanente transformação. ram um grande êxodo rural, principalmente de traba- lhadores sem qualificação o que provocou ainda mais 4.1 – Do espaço organizado a queda no padrão da qualidade de vida, das condi- Durante muito tempo admitiu-se que o espaço ou ções sanitárias, da segurança, da saúde, etc. era produto da influência da natureza, havendo um O crescimento urbano foi ainda estimulado pela determinismo do meio natural sobre a ação do ho- construção de grandes rodovias que facilitaram a mem, ou, que sem se libertar da influência do integração do território. O deslocamento de popula- ambientalismo, haveria possibilidades recíprocas da ção (para atender as classes dominantes nacional e influência do homem sobre o meio e do meio sobre o as empresas estrangeiras) se deu de forma homem – o possibilismo. desordenada em sem planejamento provocando a Hoje ao analisarmos o espaço em suas várias es- destruição e a degradação do meio ambiente. calas devemos considerar um erro darmos ênfase Poderíamos citar diversos exemplos, todavia o que unicamente qualitativa, ou seja, a problemática es- importa é demonstrar como a atuação populista pode pacial não pode ser vista apenas pela visão da Geo- modificar a organização espacial do país nas mais di- grafia. A análise espacial exige a participação da socio- versas escalas exacerbando as tendências dominan- logia, da antropologia, da história, da economia, da tes em um país inserido na área de domínio do capi- política entre outras ciências. talismo periférico. Ao estudarmos o espaço produzido deve-se levar em conta que esse espaço é a resultante de uma evo- lução e foi produto da ação de numerosos fatores, 5 – PERSPECTIVAS DO PAPEL DO GEÓGRAFO bastante diversificados. É necessário destacar que a COMO PROFISSIONAL, NO BRASIL interferência individual na organização do espaço é Para discutir o papel do geógrafo como profissio- praticamente nula por isso o que importa é entender- nal o autor coloca duas questões: mos como atua a sociedade em seu conjunto. Na medida em que nossa sociedade constitui-se em uma 1- Qual a formação profissional do geógrafo; sociedade capitalista, a organização do espaço irá re- 2- Qual o mercado de trabalho que oferece oportuni- fletir, dentro de certas limitações, os interesses das dades ao profissional de geografia. classes dominantes. Limitações impostas pelas diver- Nas primeiras quatro décadas do século XX prati- gências de interesses dentro das classes dominantes camente não houve preocupação, no Brasil, em se e pelas pressões impostas pelas classes dominadas. formar profissionais que requeriam maior especiali- Desta forma, a organização de um determinado zação, como é o caso da Geografia. espaço, sempre irá refletir as estruturas sociais exis- A Geografia só começou ser lecionada oficialmen- tentes e dominantes. te em institutos superiores após a Revolução de 1930, 4.2 – O populismo e suas características com a criação dos cursos de Geografia e História, nas Os governos populistas são típicos dos países sub- faculdades de filosofia e com a introdução de uma desenvolvidos, nos períodos de crises sociais. Sem- disciplina de Geografia Econômica nos cursos de Ad- pre que ocorre uma certa instabilidade política e soci- ministração e Finanças, de Ciências Contábeis e al e é comum o surgimento de lideres carismáticos. Atuariais e de Administração Pública e de Empresas. O líder populista não tem compromisso com mudan- Mesmo assim a Geografia não era ministrada com ças reais, procura com reformas superficiais atenuar a finalidade de formar geógrafos mas sim formar pro- as tensões. fessores para as escolas de ensino médio e dar subsí- No Brasil, os períodos populistas muitas vezes se dios aos economistas e administradores. seguem ou coexistem com períodos autoritários (1930/ 5.1 – Os primeiros trabalhos geográficos 34,1937/45 e 1964). Os primeiros trabalhos geográficos foram elabo- 4.3 – O populismo e a produção do espaço social rados por não geógrafos. Trabalhos, sobretudo im- A questão central, segundo o autor, é discutir quais portantes quando das questões de limites, de frontei- são as repercussões de uma política populista sobre ras entre o Brasil e as Repúblicas Vizinhas. Podemos o espaço social produzido? Ou ainda, com que inten- considerar como pioneiros dos estudos geográficos, 6 sidade uma ação populista pode modificar o espaço embora não sendo geógrafos, Olville Derby, Teodoro Nº 18 anteriormente produzido e que marcas poderá deixar Sampaio, Capistrano de Abreu, Oliveira Viana, Gilber- MAIO/2006 para o futuro? to Freire e Caio Prado Junior, todavia é Delgado de
  • 7. Carvalho que pode ser considerado o primeiro geógrafo de atuação específico, bem delimitado e tecnocrático. brasileiro, precursor da Geografia científica no Brasil, Elaborada no período ditatorial, essa Lei vinculou os com trabalhos publicados no início do século XX. geógrafos ao CONFEA, ao lado dos engenheiros, agrô- nomos e dos arquitetos, ignorando a formação 5.2 – A oportunidade para a existência humanística que caracteriza a Geografia. Hoje a Geo- de geógrafos profissionais grafia desempenha um grande papel na vida brasilei- A formação de geógrafos foi proporcional às exi- ra e tem, pelas condições do país e pela capacidade gências criadas pelo desenvolvimento do país. No de seus profissionais, um grande espaço a ocupar na IBGE, houve uma grande preocupação com as fron- construção do Brasil de amanhã. teiras do Brasil e com a necessidade de uma nova divisão regional. O IBGE foi uma das grandes escolas 6 - O LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA de formação de geógrafos, enviando técnicos para NO CONTEXTO DA PRÁTICA DE ENSINO realizarem cursos na França, principalmente para de- senvolverem uma teoria sobre região que pudesse ser 6.1 – O livro didático no 1o e 2o graus aplicada ao Brasil. Os primeiros livros didáticos refletiam o modelo Um outro segmento que contribuiu para a forma- de ensino de geografia que se praticava até 1930. Os ção de geógrafos foi a USP, que passou a exigir dos estudantes eram obrigados a decorar nomes de aci- candidatos a professores o título de doutor. As nume- dentes geográficos – linha costeira, relevo, rios, la- rosas teses de doutoramento, então defendidas, se gos, nomes de capitais e de principais cidades etc. constituíram num verdadeiro marco para a história Após 1930 Delgado de Carvalho, inspirado na Ge- do desenvolvimento da Geografia Brasileira. ografia Francesa, publica uma série de livros sobre o Fundada em 1945 a AGB desempenhou um gran- Brasil, chegando a publicar, com fim estritamente di- de papel para a formação de pesquisadores. Criada dático, uma Corografia do Brasil. A reforma educaci- em São Paulo expandiu-se para todo o Brasil. Foram onal Francisco de Campos deu grande ênfase à Geo- de suma importância os congressos e os grupos de grafia que passou a ser ensinada nas cinco séries do trabalho que se formaram no interior da AGB. ensino ginasial. Essa reforma animou novos profes- O desmembramento dos cursos de Geografia e sores a escreverem compêndios de geografia. Daí História, a partir de 1955 favoreceu o surgimento de surgiram, na década de 30, as coleções de livros es- inúmeras disciplinas auxiliares - embora agudizando critos por Delgado de Carvalho e Aroldo de Azevedo, ainda mais a dicotomia entre Geografia física e hu- Pierre Mombeig, João Dias da Silveira, Maria da Con- mana – deu à Geografia mais autonomia. ceição Vicente de Carvalho. Com a reforma do Estado Novo, a Geografia, con- 5.3 – A pós-graduação e a regulamentação da profissão siderada uma ciência conservadora, ganhou espaço Nos anos 60 houve no Brasil um grande estimulo à e passou a ser ensinada em todo curso secundário. criação de cursos de pós-graduação, seguindo o mode- No início da década de 50 surgiram novos livros lo norte-americano. Os primeiros mestrados surgiram didáticos que procuraram apresentar, de forma mais ma Universidade de São Paulo posteriormente foram dinâmica, os fenômenos geográficos, abandonando sendo implantados cursos na Universidade Federal do as classificações estáticas, principalmente tratando- Pernambuco, na UNESP na Universidade Federal de , se das climáticas. Sergipe, na Universidade Federal de Santa Catarina. Nos anos 60, com o domínio de uma política populista, houve maior estímulo à produção de livros 5.4 – As perspectivas para o geógrafo didáticos aparecendo novos autores e editoras que As perspectivas para o geógrafo não são muito além dos livros didáticos produziam os cadernos de amplas. Elas surgem sobretudo no setor público, nas exercícios, os chamados “livros do mestre”, com res- áreas de planejamento, defesa do meio ambiente, pro- postas e formulações prontas, limitando a criatividade blemas de urbanização etc. Inicialmente a procura era do professor e a perda de reflexão por parte deste. maior por cartógrafos – área onde os geógrafos en- Assim, é fundamental uma revisão total no ensino frentavam uma série concorrência dos engenheiros. de geografia no nível médio. O professor deve utilizar, Além dessas áreas os geógrafos encontram traba- além do livro didático, outras formas auxiliares de lho nos estudos rurais, principalmente em um mo- pesquisa. Os livros didáticos além de serem melhora- mento em que se discute tanto uma reformulação dos necessitam ter um caráter mais regional afim que fundiária. Na empresa privada o geógrafo encontra os estudantes comecem a aprendizagem a partir da espaço nas empresas de mineração, exploração agrí- paisagem com que convivem diariamente. A geogra- cola, de transportes, principalmente após o governo fia não pode ser ensinada a partir de grandes concep- começar a exigir das empresas maiores cuidados quan- ções generalizantes, ela deve dar maior atenção à pro- to à preservação ambiental. dução do espaço. Após anos de batalha a profissão de geógrafo foi 7 regulamentada pelo projeto de Lei 6664 de 26 de ju- 6.2 – O livro didático para o ensino superior Nº 18 nho de 1979 que estabeleceu ao geógrafo um campo Para o ensino superior, o problema é bem diverso, MAIO/2006
  • 8. o livro texto perde importância, embora também seja garquias que controlam o poder nessas áreas. O que indispensável para dar uma linha mestra ao pensamento deveria ser levado em consideração no momento em do formando, quer captando-o para uma linha de pen- que se discute a divisão do país em mais estados são samento do autor, quer levando-o a raciocinar de for- as áreas de fronteiras. Os parlamentares e adminis- ma crítica sobre essa linha de pensamento. tradores deveriam estudar a possibilidade de criação de territórios federais em áreas fronteiriças, potenci- 7 – A GEOGRAFIA E O PROBLEMA DA almente ricas e sujeitas à infiltração estrangeira. REDIVISÃO TERRITORIAL DO BRASIL 7.4 – Há outra alternativa Talvez uma alternativa à divisão dos velhos esta- 7.1 – Origem da divisão dos seria a criação de uma nova escala de divisão político-administrativa do Brasil territorial de nível superior à municipal e inferior à es- O Brasil, apesar de sua grande extensão territorial tadual. Ela constituiria na criação de departamentos e de sua elevada população, comparado a outros pa- ou regiões administrativas nos vários estados, sobre- íses vê-se pouco dividido politicamente, o que traz tudo nos de maior extensão territorial, que interme- conseqüências nem sempre favoráveis à administra- diariam os dois níveis de administração. ção e ao seu desenvolvimento. A divisão político-administrativa, com pequenas al- 8 – REFLEXÕES A RESPEITO terações, pouco mudou desde o período colonial. Do ponto de vista geográfico, admite-se que os estados de DO DOUTORADO EM GEOGRAFIA. grande extensão territorial mantiveram a sua unidade Os cursos de pós-graduação foram implantados em função da inexistência de um povoamento efetivo durante o período autoritário sendo que antes disso por parte do colonizador, concentrando as populações havia a nível federal um sistema bastante diferente. próximas de algumas cidades de maior expressão. Após dois anos de formados na graduação os inte- ressados em seguir uma carreira universitária podiam 7.2 – Os estados e as reivindicações autonomistas se inscrever para o concurso de Livre Docência apre- A divisão político-administrativa brasileira sempre sentando uma tese já elaborada. O cargo de profes- foi muito questionada, isto porque se consiste numa sor catedrático era obtido mediante concurso. divisão abstrata e irreal na medida que ignora os inte- A deficiência de doutores na área de Geografia no resses e as aspirações populares. Brasil resulta da falta de tradição na formação de dou- Os grandes estados não dispõem de recursos para tores nas universidades federais. promover o desenvolvimento de áreas periféricas ao Quanto à Geografia, o grande debate que ela está mesmo tempo em os habitantes de áreas muito po- provocando atinge a sua conceituação e os métodos voadas se sentem desvinculados do estado que per- utilizados; cremos que a Geografia encontra-se em tencem e defendem o direito à autonomia alegando um processo evolutivo rápido de modo que, ao lado sentirem-se desprezados pelos governos estaduais. das pesquisas empíricas, vem se travando uma pro- funda discussão teórica que deságua em posições fi- 7.3 – A Assembléia Constituinte e a losóficas e epistemológicas as mais diversas. divisão político-administrativa do Brasil A grande importância dos cursos de pós-gradua- Na Assembléia Constituinte foram apresentados ção em Geografia, segundo Andrade, é a possibilida- projetos de redivisão territorial do Brasil levando-nos de de deixarmos de copiar os modelos estrangeiros a pensar se essas propostas correspondem às aspira- de Geografia e desenvolvermos nossa ciência de for- ções de suas populações ou aos interesses das oli- ma crítica e autônoma. HAESBAERT, Rogério. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. Elaborada pela Profa. Joyce Regina da Silva Magalhães Bozzi Graduada em Letras – Especialista em Ensino Superior – UNOPAR-PR Território e desterritorialização nas ciências so- sem fronteiras, sociedade em rede) é, na verdade, a ciais. Com a globalização via internet e o ciberespaço reconstrução do território em novas bases, isto porque está destruindo a territorialidade das fronteiras dos o homem não vive sem território e que a sociedade Estados e criando um único espaço virtual? O mundo não pode existir sem territorialidade. A questão é, se- 8 estaria se desterritorializando? A tese de Rogério gundo Haesbaert, enfocar o território numa perspecti- Nº 18 Haesbaert é que o movimento de destruição de territó- va geográfica intrinsecamente integradora, ou seja, num MAIO/2006 rios (com o mito da desterritorialização – um mundo sentido múltiplo e relacional, respeitando a diversidade
  • 9. e a dinâmica temporal do mundo. Assim, a terri- minância de redes, completamente dissociadas de torialização é vista para além do processo de domínio e/ou opostas a territórios, e como se crescente político-econômico, ou de apropriação simbólico-cul- globalização e mobilidade fossem sempre sinôni- tural do espaço pelos grupos humanos. Portanto, cada mos de desterritorialização. ser humano precisa territorializar-se. Para Haesbaert, a Entender a Desterritorialização a partir da defi- questão não é o fenômeno da desterritorialização, mas nição de Território. Trata-se de analisar as questões o da multiterritorialização: experimentar diferentes ter- de como as diferentes concepções de território, ao longo ritórios ao mesmo tempo. Entretanto, as relações ca- da tradição do pensamento geográfico e sociológico, pitalistas relegaram a maior parte da humanidade à servem de pano de fundo para o debate sobre a “exclusão aviltante ou às inclusões extremamente pre- desterritorialização. Território pode ser compreendido cárias, no qual no lugar de partilharem múltiplos ter- em três vertentes básicas: a) política – referida às rela- ritórios, vaguem em busca de um, o mais elementar ções espaço-poder ou jurídico-política – relativa a to- território da sobrevivência cotidiana, como é o caso das as relações espaço-poder institucionalizadas. Ter- dos múltiplos territórios precários que abrigam sem- ritório: espaço delimitado e controlado, no qual se exerce tetos, sem terras e outros grupos minoritários que um determinado poder relacionado ao poder político parecem não ter lugar numa desordem de ‘aglomera- do Estado. Trata-se do jogo entre os “macropoderes” dos humanos’ (...) estigmatizados e separados”. Por- políticos institucionalizados e os “micropoderes” (Michel tanto, “o sonho da multiterritorialidade generalizada, Foucault); b) cultural (culturalista) ou simbólico-cul- dos ‘territórios-rede’ a conectar a humanidade intei- tural (Bourdieu): território como produto da apropria- ra, parte (...) da territorialidade mínima, abriga e acon- ção/valorização simbólica de um grupo em relação ao chego, condição indispensável para (...) estimular a seu espaço vivido; c) econômica (economicista): terri- individualidade e promover o convício solidário das tório como fonte de recursos e incorporado no embate multiplicidades – de todos e de cada um de nós”, diz entre duas classes sociais e na relação capital-traba- Haesbaert. lho, como produto da divisão “territorial” do trabalho. As questões sociológicas referentes ao espaço e Entretanto, segundo Haesbaert, há um entrecruzamento território tiveram as contribuições de Michel Foucault de proposições teóricas, no qual é fundamental trazer (emergência de uma era centrada no tempo e no es- uma outra postura teórica que seja mais ampla: terri- paço com destaque para a questão do poder), Jameson tório numa perspectiva integradora e relacional, no (sobre a questão da cultura e espaço), Deleuze e qual traz a idéia de território como um híbrido, seja Guatarri (geofilosofia – no qual atentou para o perigo entre o mundo material e ideal, seja entre natureza e do fascínio da desterritorialização: “inteiramente des- sociedade, em suas múltiplas esferas (econômica, po- providos de territórios, nos fragilizamos até desman- lítica e cultural). char irremediavelmente”). Já no Brasil há a contri- buição de Otávio Ianni e, principalmente, Milton San- Haesbaert postula uma leitura integradora e tos. Para este, a “desterritorialização é, freqüen- relacional do território. Hoje, a “experiência temente, uma outra palavra para significar integradora” é possível somente se estivermos arti- estranhamente, que é, também, desculturização” e culados (em rede) através de múltiplas escalas. Não há, segundo ele, uma associação entre “ordem glo- há território sem uma estruturação em rede que bal” que “desterritorializa” e “ordem local” que conecta diferentes pontos ou áreas. É o domínio dos “reterritorializa”. Mas sobre o olhar geográfico, deve- “territórios-rede”, espacialmente descontínuos, mas se compreender esta análise a partir da multerrito- intensamente conectados e articulados entre si. Tra- rialidade. Portanto, para Haesbaert, sobre a desterrito- ta-se de uma leitura integrada do espaço social com rialização: uma visão de território a partir da concepção de es- paço como um híbrido na indissociação entre movi- a) não há definição clara de territórios nos debates mento e (relativa) estabilidade. Território, neste sen- que focalizam a desterritorialização; o território ora tido, pode ser concebido a partir da imbricação de aparece como algo “dado”, um conceito implícito múltiplas relações de poder, do poder mais material ou a priori referido a um espaço absoluto, oura das relações econômico-políticas ao poder mais sim- ele é definido de forma negativa, isto é, a partir bólico das relações de ordem mais estritamente cul- daquilo que ele não é; tural. Para além de uma leitura puramente materialis- b) desterritorialização é focalizada quase sempre como ta do poder, na leitura relacional, o poder é com- um processo genérico numa relação dicotômica e preendido “como relação, e não como coisa a qual não intrinsecamente vinculada à sua contraparte, a possuímos ou da qual somos expropriados, envolve (re)territorialização; este dualismo mais geral encon- não apenas as relações sociais concretas, mas tam- tra-se ligado a vários outros, como as dissociações bém as representações que elas veiculam e, de certa entre espaço e tempo, espaço e sociedade, materi- forma, também produzem. Assim, não há como se- al e imaterial, fixação e mobilidade; parar o poder político nem sentido mais estrito do 9 c) desterritorialização significando “fim dos territóri- poder simbólico”. Nº 18 os” aparece associada, sobretudo, com a predo- Território e Desterritorialização em Deleuze e MAIO/2006
  • 10. Guattari. Trata-se de uma concepção teoricamente mais espaço. No período da Revolução Industrial já mos- elaborada sobre desterritorialização que vem da filoso- trava traços que estavam sendo gestados pela fia, como um dos conceitos centrais do pós-estrutura- modernidade como “tudo que é sólido” tende a se lismo de Guilles Deleuze e Félix Guattari. Segundo eles, “desmanchar no ar” segundo Berman. “não há território sem um vetor de saída do território, e Enquanto a modernidade passava pelo mito da não há saída do território, ou seja, desterritorialização, Revolução, a pós-modernidade estaria ligada à repe- sem, ao mesmo tempo, um esforço para se tição, ao anti-histórico, ao presente contínuo, enfim, reterritorializar em outra parte”. Os territórios sempre na ótica severamente crítica. O projeto central da comportam dentro de si vetores de desterritorialização e modernidade enfatizava o indivíduo-sujeito na esfera de reterritorialização. Muito mais do que uma coisa ou da autonomia individual, levando como marco desta objeto, diz Haesbaert, “o território é um ato, uma ação, época a reterritorialização, ou seja, o individuo sus- uma relação, um movimento” (de territorialização e tentado pelo individualismo, faz com que indivíduo desterritorialização), um ritmo, um movimento que se queira ultrapassar os diversos territórios, comunitári- repete e sobre o qual se exerce um controle. Esta dialética os. Caracteriza-se sinteticamente o pós-modernismo envolve a criação e a destruição de territórios, conforme aquele que desestabiliza a estrutura metonímica que nos atestam Deleuze e Guattari: “o território pode se relaciona presença e ausência com proximidade e dis- desterritorializar, isto é, abrir-se, engajar-se em linhas tância, assim compreende-se que desreterritorialização de fuga e até sair do seu curso e se destruir. A espécie está fortemente vinculada com o fenômeno da com- humana está mergulhada num imenso movimento de pressão tempo-espaço onde a sociedade complexa desterritorialização, no sentido de que seus territórios vive no paradoxo da desigualdade diferenciada. ‘originais’ se desfazem ininterruptamente com a divi- Múltiplas Dimensões da Desterritorialização: são social do trabalho, com a ação dos deuses univer- perspectivas econômicas, política e cultural. A sais que ultrapassam os quadros da tribo e da etnia, desterritorialização é tratada em três grandes dimen- com os sistemas maquínicos que a levam a atraves- sões sociais sendo elas: a econômica, a dimensão sar, cada vez mais rapidamente, as estratificações política e a perspectiva simbólica ou cultural em sen- materiais e mentais”. Para compreensão desta dialética tido mais restrito. A problemática destas dimensões entre desterritorialização e reterritorialização, exemplifica- engloba a questão de território e a territorialização se com a condição do bóia-fria morador de periferias sempre focados num sentido mais restrito, pelo qual urbanas. Assim, como entender este universo para a ge- se busca responder problemáticas específicas ligadas ografia? Segundo Deleuze, “a geografia não se conten- a questões econômicas, políticas ou culturais, mais ta em fornecer uma matéria e lugares variáveis para a do que a problemática social que envolveria uma no- forma histórica. Ela não é somente humana e física, ção de território mais integradora implícita quando se mas mental, como a paisagem. Ela arranca a história fala em processos de exclusão social, já que exclusão do culto da necessidade, para fazer valer a será vista aqui como um fenômeno amplo e comple- irredutibilidade da contingência, ela a arranca do cul- xo, ao mesmo tempo de natureza econômica, política to das origens, para afirmar a potência de um ‘meio’ e cultural. (...). Enfim, ela arranca a história de si mesma para Na dimensão da perspectiva econômica pode- descobrir os devires, que não são a história mesmo mos observar que não é a maior tradição nos debates quando nela recaem (...)”. Ora, se a Geografia menos- sobre território assim analisando três pontos de vista prezou as dinâmicas desreterritorializadoras como cen- econômicos que afetam a desterritorialização: tro de sua análise, trata-se de recuperar os estudos es- a) a desterritorialização é vista como sinônimo de paciais em torno dos fenômenos de deslocamento e das globalização econômica, esta situação econômica desconexões, especialmente diante da nossa nova ex- acontece quando se forma um mercado mundial periência “pós-moderna” de espaço-tempo, diz com fluxos comercias e financeiros e de informa- Haesbaert. ções cada vez mais independentes de base Pós-modernidade e Geometrias do Poder. Ana- territoriais bem definidas, como a dos Estados lisa-se desterritorialização, no sentindo de que não nações: representa mais uma extinção de território, e sim uma dificuldade de definir o novo tipo de território muito b) em um sentido mais complexo podemos dar ênfa- mais múltiplo e descontínuo, que está surgindo. No se a um dos momentos do processo de globalização âmbito da historicidade fica complexo analisar a con- ou ao mais típico, aquele chamado capitalismo pós- cepção de desterritorialização, especialmente quan- fordista ou capitalismo de acumulação flexível, fle- do relaciona a experiência entre espaço-tempo, xibilidade esta que seria responsável pelo enfraque- modernidade e a pós-modernidade. Após rompimen- cimento das bases territoriais; to com uma época, o pós-modernismo estabelece uma c) em um sentido mais específico citamos ainda a nova sensibilidade, uma nova leitura e uma nova ex- desterritorialização como um processo vinculado 10 periência de mundo, diretamente vinculada aos no- pela economia globalizada, o setor financeiro, onde Nº 18 vos paradigmas tecnológicos que balançam as anti- a tecnologia informacional tornaria mais evidente MAIO/2006 gas certezas e os antigos laços da sociedade com o tanto a imaterialidade quanto a instantaneidade.
  • 11. Dentro da perspectiva política pode-se delimitar Dentro da sociedade percebe-se o tamanho do valor seus aspectos onde território é aquele que vincula dado à sociedade contemporânea, ou seja, não signi- espaço e soberania estatal, ou seja, território como a ficando obrigatoriamente que a mobilidade social num área ou espaço de exercício da soberania de um Esta- mundo onde o movimento é regra, a fixidez e a esta- do. Através do aparecimento do Estado vê-se que ele bilidade podem acabar, de alguma forma, transfor- é o primeiro responsável pelo primeiro grande movi- mando-se também numa espécie de triunfo ou de mento de desterritorialização, na medida em que ele recurso. imprime a divisão de terra pela organização adminis- Territórios, Redes e Aglomerados de Exclusão. trativa, fundiária e residencial. Pode-se identificar território no movimento ou pelo No quadro da desterritorialização numa perspec- movimento. Talvez esta seja a grande novidade da tiva cultural, pode-se pensar o território ao longo da nossa experiência espaço-temporal dita pós-moder- história do pensamento nas Ciências Sociais, especi- na, onde controlar o espaço indispensável à nossa almente entre geógrafos e cientistas políticos. Partin- reprodução não significa apenas controlar áreas e do do par História-mito e da herança helenística, en- definir fronteiras. Com a globalização a comunicação quanto as “potências regem o mundo” produz histó- revoluciona a formação de territórios pela configura- ria, as cidades e seus territórios produzem e se ali- ção de redes que podem mesmo prescindir de alguns mentam de mitos. de seus componentes materiais fundamentais, como Desterritorialização e Mobilidade. Os processos linhas de energia ou até mesmo cabos telefônicos. O de territorialização classificam como fruto de interação território hoje, mais do que nunca, considera-se tam- entre relações sociais e controle do/pelo espaço, rela- bém movimento, ritmo, fluxo, rede não se trata de ções de poder em sentido amplo, ao mesmo tempo um movimento qualquer, ou de um movimento de de forma mais concreta (dominação) e mais simbóli- feições meramente funcionais: ele é também um ca (um tipo de apropriação). Em uma visão mais tra- movimento dotado de significado, de expressividade, dicional desterritorializar significa então, diminuir ou isto é, que tem um significado determinado para quem enfraquecer o controle das fronteiras, aumentando constrói ou dele usufrui. As redes participam de um assim a dinâmica, a fluidez, em suma, em suma, a jogo ambivalente com os fluidos, ao mesmo tempo mobilidade, seja ela de pessoas, bens materiais, capi- tentando canalizá-los e/ou sendo desestruturadas por tal ou informações. A desterritorialização em conse- eles, cria-se então a noção de aglomerados que sur- qüência do território torna-se assim discurso da mo- ge pela necessidade de dar conta de outros tipos de bilidade tanto da mobilidade material quanto da mo- espaços que não se encaixavam claramente na lógi- bilidade imaterial, especialmente aquele diretamente ca zonal, nem na lógica reticular. ligado aos fenômenos de compressão tempo-espa- Esta noção de aglomerados de exclusão traduz a ço, propagado pela informatização através do chamado dimensão geográfica ou espacial dos processos mais ciberespaço. Os frutos da sociedade sem territoria- extremos de exclusão social porque ela parece expres- lidade, sem local, torna a mobilidade generalizada, ou sar bem a condição de desterritorialização ou de seja, os territórios são construídos a partir do movi- territorialização precária a que estamos nos referin- mento e onde o local se fundamenta na diferença das do. Em um sentido mais amplo, podemos considerar mobilidades. Em um ângulo mais complexo da que “aglomerados de exclusão” seriam o exemplo mais desterritorialização vemos freqüentemente uma cres- representativo especificamente no caso dos aglome- cente mobilidade das pessoas, seja como, novos nô- rados de massa impostos pela sociedade capitalista, mades, vagabundos, viajantes, turistas, imigrantes presentes em maior ou menor grau praticamente em refugiados ou como exilados – expressões cujo signi- todos os espaços do nosso tempo. ficado costuma ir muito além de seu sentido literal. Da Desterritorialização à Multiterritorialidade. Aqui No contexto geográfico, segundo o Haesbaert, Haesbaert defende a tese de que desterritorialização é, “podemos definir mobilidade como uma relação so- na verdade, uma nova forma de territorialização, a que cial ligada à mudança de lugar, isto é, como conjun- chamamos de “multiterritorialidade”: um processo to de mobilidades pelas quais os membros de uma concomitante de destruição e construção de territóri- sociedade tratam a possibilidade de eles próprios ou os mesclando diferentes modalidades territoriais, como outros ocuparem sucessivamente vários lugares”. é o caso dos “territórios-zona” e os “territórios-rede”, Busca-se através de uma análise níveis para a em múltiplas escalas e novas formas de articulação desterritorialização para cada grupo ou classe social, territorial. Segundo Rogério Haesbaert, “o mundo ‘mo- percebe-se claramente que aquilo que é denominado derno’ das territorialidades contínuas/contíguas regidas desterritorialização para a elite planetária que se pelo princípio da exclusividade (...) estaria cedendo locomove com facilidade nada tem a ver com o des- lugar hoje ao mundo das múltiplas territorialidades locamento compulsório das classes mais pobres. Na ativadas de acordo com os interesses, o momento e o classe que compõe os ricos a desterritorialização para lugar em que nos encontramos”. Trata-se então, de os ricos, pode ser confundida com uma multiterrito- um “mosaico-padrão” de unidades territoriais em área, 11 rialidade segura, mergulhada na flexibilidade e em seu convívio com uma miríade de territórios-rede mar- Nº 18 experiências múltiplas de mobilidade. cados pela descontinuidade e pela fragmentação que MAIO/2006
  • 12. os possibilita a passagem de um território a outro, num a) desmaterialização ou domínio de relações simbóli- jogo que denomina-se multiterritorialidade humana. cas ou “virtuais”; b) “não-presença” ou desvinculação Desterritorialização: é a reterritorialização complexa, do aqui e do agora; c) aceleração do movimento ou em rede e com fortes conotações rizomáticas, ou seja, predomínio da fluidez sobre a estabilidade; d) enfra- não-hierárquicas. quecimento dos controles espaciais através de limi- Neste contexto, destaca-se a “globalização”, isto tes-fronteiras e áreas; e) aumento da hibridização cul- é, a dialética entre o global e o local combinados, ao tural; f) justaposição e imbricação de territórios. As- mesmo tempo: “o global e o local são processos, sim, a desterritorialização é um mito. não localizações. Globalização e localização produ- Não obstante, muitas vezes, o pano de fundo dos zem todos os espaços como híbridos, como sítios discursos sobre a desterritorialização é o movimento ‘globais’ tanto de diferenciação quanto de integração. neoliberal que prega o “fim das fronteiras” e o “fim O local e o global não são entidades fixas, mas são do Estado” para a livre atuação das forças do merca- produzidas de forma contingente, sempre em pro- do. Assim, desterritorialização, referida aí à elite pla- cessos de re-produção, nunca completados”. Assim, netária, é um mito. Não passa, para Haesbaert, de a presença de territórios-rede proporciona as condi- um rearranjo territorial sob condições de grande com- ções para a existência da multiterritorialidade. Esta preensão do espaço-tempo, em que as transforma- depende, sobretudo do contexto social, econômico, ções nas relações ligadas à distância e à presença- político e cultural em que estamos situados. Multiter- ausência tornam-se ainda mais intensas as dinâmi- ritorialidade contemporânea pode ser altamente com- cas de desigualdade e de diferenciação do espaço pla- plexa e dotada de ampla flexibilidade, como também, netário. Trata-se, neste sentido, da forma “versátil de ser ativada e desativada numa incrível velocidade. reterritorialização dos ‘de cima’ que se forja, por ou- Portanto, segundo Haesbaert, quem tiver mais opções tro lado, grande parte da desterritorialização dos ‘de para ativar e comandar a riqueza da multiterritorialidade baixo’, através do agravamento da desigualdade e que potencialmente se encontre a seu dispor, seja atra- da exclusão pela concentração de renda, do capital vés de movimentos progressistas (movimento Zapatista (dos investimentos) e da infra-estrutura, associada à de Chiapas), seja através de movimentos retrógrados ausência de políticas efetivas de redistribuição, aos ou conservadores (Al Qaeda), consegue maior poder investimentos mais na especulação financeira do que para produzir mudanças sociais (“linhas de fuga”), no no setor produtivo gerador de empregos, e à sentido de um movimento concomitante de desterrito- globalização da cultura do status e do valor contábil rialização e reterritorialização. em uma sociedade de consumo estendida a todas Desterritorialização como Mito. O discurso da as esferas da vida humana”. desterritorialização se coloca, segundo Haesbaert, como Entretanto, para além de hierarquizar as pedras, um “discurso eurocêntrico ou ‘primeiro-mundista’, plantas, animais, pessoas deve-se considerar o “par- atento muito mais à realidade das elites efetivamente lamento das coisas” (Bruno Latour), no qual “não globalizadas e alheio à ebulição da diversidade de admite nenhuma hierarquia ontológica entre as coi- experiências e reconstruções do espaço em curso não sas existentes”. Portanto, deve-se ter “amor por tudo só nas chamadas periferias do planeta como no inte- o que existe” (Gualandi). Este amor deve estar no cen- rior das próprias metrópoles centrais. Com certeza, o tro de nossos processos de territorialização, pela “cons- desprezo de algumas correntes filosóficas pela trução de territórios que não fossem simples territó- materialidade do mundo (elaboradas em países ‘cen- rios funcionais de re-produção (exploração) econô- trais’) contribuiu para essa difusão da idéia de um mica e dominação política, mas efetivamente espa- mundo de extinção dos territórios ou mergulhado numa ços de apropriação e identificação social, em cuja dinâmica crescente de desterritorialização”. transformação nos sentíssemos efetivamente identi- O fenômeno da desterritorialização e reterritoria- ficados e comprometidos” (Haesbaert). É “o espaço lização não é um fenômeno pós-moderno ou da soci- do prazer” (Lefevre). Mas, como “amar tudo o que edade pós-industrial ou da sociedade informacional, existe”, num mundo de crescente e abominável desi- visto que o próprio império romano, medieval e o pró- gualdade, exclusão, segregação, violência e insegu- prio Marx como Durkheim já falavam destes fenôme- rança? Para tanto - para poder “amar tudo o que existe” nos. Também o é de longa data a questão do espaço e construir territórios efetivamente/afetivamente apro- como esfera de possibilidade da existência da priados - é necessário “acabar com toda exploração multiplicidade. Assim, o espaço é a condição múltipla e indiferença dos homens entre si e dos homens para de possibilidade tanto de desterritorialização e com a própria natureza”, diz Haesbaert. reterritorialização, simultâneos. Não obstante, Haes- Para que os territórios não sejam mais instrumen- baert acrescenta ainda o fenômeno da Multiterrito- tos de alienação, segregação, opressão e “in-seguran- rialidade, para manter e enfatizar a idéia de processo, ça”, mas espaços estimuladores, ao mesmo tempo, de permanente movimento e devir. Multiterrito- da diversidade e da igualdade sociais. O tempo denota 12 rialização: é a condensação de um processo que re- que, segundo Santos, “a força dos fracos é o seu tem- Nº 18 presenta a territorialização através da própria po lento”. Mesmo que a corrente ideológica do capita- MAIO/2006 desterritorialização. Desterritorialização não é apenas: lismo volátil tente destruir as referências territoriais ou
  • 13. que constrói multiterritorialidades num sentido Antes de ser a desterritorialização a grande ques- destabilizador fragmentador de falta de liberdade, da tão da passagem de século (como quer Virilo), o que dinâmica do consumo desenfreado, do correr o risco está dominando, segundo Haesbaert, é a complexi- de perder todos os nosso referenciais e fragilizarmos dade das reterritorializações, “numa multiplicidade até “desmanchar irremediavelmente” (Guattari), por de territorialidades nunca antes vista, dos limites mais outro lado, já no universo dos “espaços lentos” e do fechados e fixos da guetoficação e dos ‘neoterritórios’ “reenraizamento” cabe reconhecer e lutar por essa da globalização”. unidade das coisas do mundo e do território no interior Portanto, conclui-se com singular maestria dessa unidade, estimular o potencial “invencionático”, Haesbaert: “O grande dilema deste novo século será criativo, de multiplicidade. Trata-se de lutar concreta- o da desigualdade entre as múltiplas velocidades, mente para, segundo Haesbaert, construir uma socie- ritmos e níveis de des-re-territorialização, especial- dade onde não só esteja muito mais democratizado o mente aquela entre a minoria que tem pleno acesso acesso à mais ampla multiterritorialidade – e a convi- e usufrui dos territórios-rede capitalistas globais que vência de múltiplas territorialidades, onde estejam sem- asseguram sua multiterritorialidade, e a massa ou pre abertas, também, as possibilidades para a os ‘aglomerados’ crescentes de pessoas que vivem reavaliação de nossas escolhas e a conseqüente cria- na mais precária territorialização ou, em outras pa- ção de outras territorialidades ainda mais igualitárias e lavras, mais incisivas, na mais violenta exclusão e/ respeitadoras da diferença humana. ou reclusão socioespacial”. SANTOS, Milton & SILVEIRA, Laura Maria. O Brasil Território e sociedade no início do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2001. Elaborada pela Profa. Joyce Regina da Silva Magalhães Bozzi Graduada em Letras – Especialista em Ensino Superior – UNOPAR-PR 1. A questão: o uso do território. to de suas partes, reconhecendo as respectivas complementaridades. A partir do século XXI, dá-se uma dimensão às pa- Para o contexto geográfico, a palavra território tam- lavras com mais ênfase, devido à diversidade lingüísti- bém é definida como: implantação de infra-estrutura, ca e assim são atribuídos novos sentidos e o aumento de ciência, técnica e informação, estudo do povoa- de vocábulos. Estas mudanças freqüentes na lingua- mento, e, sobretudo, com a ocupação econômica. O gem fazem com que dificulte a interpretação das pala- grande crescimento urbano demonstra como os sis- vras, por exemplo, território e espaço. Pode-se atribuir temas de movimento de homens, capitais, produtos, a estas palavras as seguintes significações: território, mercadorias, serviços, mensagens, ordens contribu- extensão apropriada e usada, visto que se define es- em para o fluído de território. paço como extensão indefinida. Território segundo os Com as cidades crescendo e o número maior de autores é um nome político de um país, é difícil falar- pessoas em um número cada vez menor de lugares, a mos de um Estado sem um território. urbanização significa uma maior divisão de trabalho O território é visto como unidade e diversidade resultando em melhor qualidade de território. como uma questão central da história humana. Cada Para obtenção da qualidade de território há uma período pode, assim, perguntar o que é novo no es- necessidade de regulação política do território, ou seja, paço e como se combina com que já existe. O pano resultado é a criação de regiões do mandar e regiões de fundo de cada país constitui o estudo das suas do fazer. diversas etapas e do momento atual, que marca o iní- A criação deste vínculo do mandar e fazer obser- cio da divisão territorial do trabalho. vamos como as técnicas são desenvolvidas para me- A partir da criação da divisão do trabalho estabe- lhor eficácia, divisão e a especialização do trabalho lece uma hierarquia entre as pessoas e lugares jul- nos lugares como: a incorporação de técnicas ao solo gando a capacidade de agir das pessoas, das firmas e (rodovias, ferrovias, hidrelétricas, telecomunicações, das instituições, assim instaura-se nos dias atuais um emissora de rádios e TV, etc.), objetos técnicos liga- novo conjunto de técnicas que constroem uma a base dos à produção (veículos, implementos), insumos téc- material da vida da sociedade transformando em um nico-científicos (sementes, adubos, propaganda, meio técnico-científico informacional, sendo a expres- consultoria). são geográfica mais utilizada da globalização. Ensi- As técnicas desenvolvidas ao longo do tempo per- 13 nando a olhar a constituição do território a partir dos cebem que há uma preocupação muito maior para o Nº 18 seus usos, do seu movimento, formando um conjun- entendimento das diferenças regionais e com o novo MAIO/2006
  • 14. dinamismo para busca de uma interpretação geográ- tos industriais no Brasil, sendo as áreas de mais com- fica da sociedade brasileira. plexos industriais as regiões Sul, alguns pontos do Cen- tro-Oeste, Nordeste e do Norte (Manaus). 2. A formação da Região Concentrada Ainda neste período podemos destacar o avanço e as inovações na agricultura tratando de uma nova e a urbanização interior. geografia feita de belts que são heranças e cristaliza- Na década de 1930, houve o momento da ções de fronts próprios de uma divisão do trabalho integração nacional, sendo descoberta São Paulo como anterior; áreas que ocupadas em outro momento, hoje a metrópole industrial, pois estavam presentes todos se densificam e se tecnificam. Constitucionalmente os tipos de fabricação. integradas a estes novos avanços as terras ganham A revolução de 1932 trouxe a necessidade do avan- nova valorização que acabam por “expulsar” certos ço, e o crescimento para o transporte que facilitaria a produtos para áreas ainda não utilizadas. circulação de mercadorias entre os Estados e a União. Podemos ver que, nas áreas privilegiadas pela con- O transporte foi um grande marco neste período, prin- centração, o trabalho adquire maior especialização e cipalmente o marítimo onde se localizavam os mer- cresce a necessidade de intercâmbios. As cidades tor- cados permitindo um tráfego mais intenso. nam-se especializadas reforçando a capacidade de Os migrantes dos estados que provinham da Bahia, conhecimento e informação. Minas Gerais, Pernambuco, Alagoas, Ceará e Sergipe começaram a chegar entre 1935 e 1939, ultrapassando os números de estrangeiros, assim fazendo um mo- 5. Por uma geografia do movimento. Não basta apenas produzir, precisa por a produ- mento preliminar da integração territorial dado por ção em movimento. Para esta circulação acontecer é uma integração regional do Sudeste e do Sul. preciso a dialética entre a freqüência e a espessura dos movimentos no período contemporâneo e a cons- 3. A integração nacional. trução e a modernização dos aeroportos, portos, es- No período de 1945 a 1950, São Paulo se firma tradas, ferrovias e hidrovias. como grande metrópole fabril do país, o que Milton Os fluxos aéreos. A concentração maior destes flu- Braga Furtado chama de crescimento industrial in- xos acontece entre São Paulo e o Rio de Janeiro onde tencional, para diferenciá-lo do crescimento industri- a divisão de trabalho é extrema e a vida de relações al não intencional dos anos 30. assume especial relevo. Além da facilidade podemos Estabelece um domínio paulista, com um aumen- classificar a utilidade da aviação na agricultura para o to grande nos investimentos que se iniciava no regi- controle e a aplicação de fertilizantes e pesticidas de me de Getúlio Vargas facilitando a concentração eco- forma rápida nas grandes fazendas. nômica e espacial, desenvolvendo o mercado não ape- As ferrovias são resultado de conflitos e acordos nas fora, mas sim dentro do país. sempre provisórios entre o Estado e as empresas fa- Neste período da história acontece a Segunda Guerra zendo assim que o seu fluxo seja sempre datado au- Mundial, favorecendo São Paulo como centro produ- mentando as cargas transportadas. O uso das ferro- tor, e ao mesmo tempo, distribuição primária. A difi- vias não serve apenas para o transporte de cargas e culdade financeira dos transportes marítimos acelera a sim de pessoas também, entre os anos de 1970 e instalação do império do caminhão em São Paulo. 1994 foi criado nos estados de São Paulo e Rio de Neste período de transição econômica e a criação Janeiro as companhias de trens metropolitanos. de uma indústria automobilística conflui com a cons- A expansão das grandes metrópoles fez com que trução de Brasília que foi um passo importante para as houvesse uma integração do território através das estra- rodovias, pois sem o desenvolvimento industrial de São das, assim aumentando o fluxo rodoviário levando a dis- Paulo seria impossível a construção de Brasília. puta com as ferrovias e favorecendo o aumento de gran- A partir deste período também ocorreu o golpe de des empresas no sistema rodoviário dando autonomia Estado de 1964 que foi considerado como um “novo ao poder público e domínio mercantil completo. passo” para internacionalização da economia brasi- As hidrovias classificam-se através das cinco baci- leira. Os movimentos reforçam os demais, enquanto as brasileiras tendo como critérios os elementos soci- a economia e a sociedade se renovam. ais e econômicos diversos. Podemos citar a Amazô- nia que a maior parte da população utiliza transporte 4. Uma reorganização produtiva do território. fluvial, ou seja, é uma pequena camada da sociedade O desenvolvimento da ciência, da técnica e o ace- que tem acesso aos transportes aéreo e ao rodoviário lerado mundo das informações, fazem com que au- assim torna-se o meio mais acessível de transporte. mente a especialização do trabalho nos lugares. Atra- vés deste momento surge uma nova divisão territorial, 6. O território brasileiro: fundada na ocupação de áreas até então periféricas e 14 na remodelação de regiões já ocupadas. do passado ao presente. Nº 18 Nos anos 70 e 80, amplia-se a descentralização As tendências para uma dinâmica de um país que MAIO/2006 industrial devido o grande número de estabelecimen- se industrializa começaram a partir do século XX, que
  • 15. já vinha revelando o crescimento industrial que se deum verdadeira gangorra constante, pois o território é “uno” a partir dos estados como Bahia, Pernambuco, Rio e seu movimento é solidário, desta maneira a desvalo- de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. Nestas rização e revalorização obedecem a uma lógica. regiões é implantado o sistema ferroviário, e depois A quantificação do valor do território que a lógica estradas de rodagem facilitando a vida agrícola e pa- obedece, é dado pelo tipo de produto fabricado. No ralelamente a população urbana crescia de maneira ano de 1950 observa-se um grande movimento mi- mais rápida. gratório no país, e a diversidade de origens vão cada Com a evolução vertiginosa da cidade de São Pau- vez mais se misturando sobre o território. lo, cresce também a sua base industrial, estabelecen- Este aglomerado de pessoas tentava a sua estabi- do uma aliança com outras indústrias, desse modo lidade, no campo, segundo Milton Santos, no ano de fortalecendo um denso tecido industrial, do qual vão 1997 foram registrados pela Comissão Pastoral da valer as atividades comerciais, de serviços, de trans- Terra 622 conflitos pela terra brasileira, em uma quantia porte, do governo e as próprias indústrias presentes aproximadamente de 16 milhões de hectares produti- ali e em outros pontos do Brasil, inclusive, em muitos vos não utilizados pelo Brasil. casos, o próprio Rio de Janeiro. Os processos de valorização da terra por consoli- dação das frentes pioneiras tiveram, certamente, um 7. Uma ordem espacial: papel detonador em vários movimentos migratórios do país. a economia política do território. Ao falarmos de ordem espacial, nos referimos no- vamente ao explicado em uso, ou seja, cada momen- 9. Neoliberalismo e uso do território. As mudanças importantes para a utilização do terri- to da história tende a produzir sua ordem espacial, tório começam a partir da prática do neoliberalismo, que se associa a uma ordem econômica e uma or- tornando o uso do território mais seletivo, assim pu- dem social, sendo necessário entender sua realidade nindo as populações mais pobres, isoladas, mais dis- a partir de forças que, freqüentemente, não são visí- persas e mais distantes de grandes centros produtivos. veis a olho nu. O monopólio criado pelo neoliberalismo afastan- Caracterizamos o espaço como um conjunto do as populações mais carentes, assim aumentando indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações. o êxodo rural, aumentando a concentração de pesso- Trata-se de caracterizar uma situação na qual, em cada as nos grandes centros, atrás de empregos, desleal- área, os objetos tendem a exercer certas funções e os mente a concorrência é grande e cada vez a diminui- respectivos processos são em grande parte, submeti- ção no salário dos trabalhadores. Só conferir o au- dos ao papel regulador de instituições e empresas. mento de incidência de trabalho escravo. O crescimento do território leva o desenvolvimen- Dentro da divisão geográfica o neoliberalismo to de atividades econômicas modernas que permite conduz a uma seletividade dos provedores de bens e uma cooperação entre empresas que facilita o pro- serviços, que geram a acumulação e a competitividade cesso de privatização do território. Este comportamen- assim causando uma maior dificuldade para as to influencia também outras empresas, industriais, pessoas mais pobres e isoladas, mostrando que os agrícolas e de serviços, influenciando fortemente o grandes centros também criam gente pobre, pois há comportamento do poder público, na União, nos Es- um grande número de mão de obra que precisa de tados e nos Municípios. trabalho. O uso do território é objeto de divisões de traba- As grandes metrópoles seguem o padrão da lho, as empresas produzem atividades e produzem a globalização onde novas fontes de riqueza e novas sua própria divisão de trabalho. Através das lógicas razões de pobreza se estabelecem nas grandes cida- globais, percebemos que os circuitos de cooperação des. A globalização amplia a variedade econômica, são também circuitos de competição, o que conduz à cultural, religiosa e lingüística multiplicando os mo- questão explicativa maior de saber quem, em deter- delos produtivos de circulação e de consumo. minadas circunstâncias, regula quem. O valor dado ao território é caracterizado pela no- ção de espaço, que inclui uma utilização privilegiada 10. A racionalidade do espaço: da solidariedade dos bens públicos e uma utilização hierárquica dos orgânica à solidariedade organizacional. bens privados. Neste aspecto as empresas tornam a A racionalidade dentro do espaço pode-se carac- desempenhar um papel central na produção e no fun- terizar pelos aspectos cujas condições materiais e cionamento do território e da economia. políticas permitem um uso considerado produtivo pelos atores econômicos, sociais, culturais e políticos dota- 8. Desvalorizações e dos de racionalidade. Só pode haver racionalidade de revalorizações do território. espaço quando o território oferece as condições ne- O território é palco de grandes disputas comerciais cessárias. 15 sendo as maiores delas o espaço, que se torna um objeto No auge da globalização, em nossos atuais dias, Nº 18 de articulações entre grandes empresas. Existe uma podemos afirmar que racionalidade de espaço está a MAIO/2006
  • 16. serviço das grandes empresas privadas, fazendo com próprio dinamismo, tenham uma evolução e recons- que estas empresas constituam em território as ade- trução locais relativamente autônomas e apontando quações técnicas e políticas necessárias para que usu- para um destino comum. fruam uma maior produtividade e uma maior A solidariedade organizacional supõe uma lucratividade. interdependência até certo ponto mecânica, produto O neoliberalismo faz com que a racionalidade pri- de normas presididas por interesses de modo geral vada tenha benefícios sobre os recursos públicos, le- mercantis, mutáveis em função de fatores do merca- vando com que os setores sociais sejam prejudicados do. Dentro deste contexto verificamos que a solidari- para manter o setor privado. edade organizacional é paralela à produção de uma A solidariedade orgânica parte do ponto em que racionalidade que não interessa à maior parte das suas atividades exercidas em território usado, fruto do empresas nem da população. SANTOS, Milton (org). Novos rumos da geografia brasileira. São Paulo: Hucitec, 1982. Claudemir Lopes Bozzi Filósofo, especialista em Filosofia Política e Jurídica – UEL Num primeiro momento apontaremos as princi- superação. Esta cultura da crise se relaciona como o pais contribuições brasileiras à teoria da geografia; em poder na medida em que questiona a ideologia do seguida, veremos a geografia e o espaço brasileiro. poder e re-funda os fundamentos teóricos críticos da própria geografia no sentido de explicar e transfor- I – Contribuições brasileiras mar o real. Num segundo momento, passar da crise da totali- à teoria da geografia. dade aos espaços da geografia. Nem o progresso nem Contribuição à crítica da crise da geografia, de as riquezas naturais são infinitos. Portanto o sonho do Armando Corrêa da Silva. A crise da geografia se con- consumo infinito acabou. Que fazer? Há condições figura como a crise da cultura que gerou a expansão materiais para realizar objetivos que a própria humani- do capitalismo. Da idéia de espaço totalmente livre, dade se põe em seus vários espaços: da prática, da planeta terra, passou-se para a noção de solo frag- técnica, da pesquisa, da ciência, do trabalho intelectu- mentado. Compreender o espaço global é consciên- al, das opções possíveis e os espaços da geografia. O cia de suas partes (unidades), como um todo de rela- espaço da prática é o mais imediato, empírico e coti- ção. É tensão dialética entre o todo e a parte. Assim, diano. O espaço das soluções práticas do dia a dia. Já a geografia atual é uma cultura em crise e na consci- o espaço da técnica faz a codificação e formalização ência, cultura da crise. Como a cultura contemporâ- do empírico. É saber elaborado. O espaço da pesqui- nea é a composição de um mosaico, também a geo- sa implica razão e técnica, imaginação ordenada e fa- grafia atual é um mosaico (indivíduo e grupo social). zer metódico. É investigação analítica (hipótese, ob- A crise da geografia é parte da cultura da crise. Sur- servação, análise de dados e generalização). Implica gem, então, vários obstáculos: a) a crise da geogra- operações mentais mais complexas do que o homem fia, a ideologia do fim das ideologias; b) crise dos prático e homem técnico. O espaço da ciência ultra- geógrafos, renovação e multiplicidade de ideologias; passa a relação racionalismo-empirismo. É a elabora- c) crise da universidade como lugar de produção da ção rigorosa de conexão interna de seus saberes, es- geografia, abalo dos fundamentos empíricos das ide- paços da prática, técnica e pesquisa. O espaço do tra- ologias; d) a crise do ensino, síntese e fim das ideolo- balho intelectual se depara com a contradição da divi- gias. Portanto, é a crise efetivada como crise de con- são social do trabalho (intelectuais e técnicos versus sumo e consumo de crise. O que fazer? No dia se- trabalhadores manuais) e diante desta fragmentação guinte inquirir a liberdade da consciência da necessi- social põe-se como opção entre dicotomia social e dade. A liberdade da consciência e consciência da li- unidade. O espaço das opções possíveis deve definir berdade. Consciência da necessidade individual e so- os objetivos a serem alcançados e descobrir as condi- cial. Consciência da sobre determinação. Vem o pro- ções reais de sua efetivação. Assim, os espaços da ge- jeto! Efetivar a continuidade, mas com a técnica e a ografia se põem como espaços plurais. O espaço da metodologia analítica a serviço da coletividade do tra- geografia, espaço: a) da ciência e ideologia que se re- balho. Assim, a objetividade do real é posta sob o laciona com a interdisciplinaridade; b) de seu próprio teleológico: serviço da humanidade. A metodologia espaço interno; c) referido ao segmento do real; d) do 16 analítica se instrumentaliza como libertação: põe a subespaço do real que remete à subtotalidade em seu Nº 18 cultura da crise e se torna ciência da cultura em crise. conjunto; e) do discurso que extrapola a subtotalidade, MAIO/2006 Pela contradição já possuem em si o germe de sua como consciência do real no todo e na parte.
  • 17. Algumas considerações do espaço geográfico, faz o homem, pelo trabalho, e a ação da natureza so- de Roberto Lobato Corrêa. Que é espaço? Para o bre o homem o faz sujeito natural. Segundo Moreira, geógrafo é a superfície da terra vista enquanto mora- “é a estrutura econômica da formação econômico- da, do homem e de sua história. Trata-se de pensar o social que determina a organização espacial, mas é espaço-morada do homem. Qual a natureza do espa- a conjuntura política que comanda seus movimen- ço geográfico? Como o geógrafo pensa este espaço e tos (processos e formas)”. Pensemos, por exemplo, qual o conceito de processo espacial? O conceito de nas classes sociais e seus lugares geográficos: o ca- espaço (Harvey) tem variado historicamente: espaço ráter de classe determina o caráter do lugar, seu ar- absoluto, espaço relativo e espaço relacional. No con- ranjo espacial: a estética da moradia, a natureza dos ceito de espaço absoluto: o espaço é uma coisa em serviços, a “política pública” de infra-estrutura espa- si mesma e associado às idéias de áreas ou região e de cial, a geometria. O espaço geográfico, portanto é unicidade, associado à geografia regional (Hartshorne). condição da reprodução econômico-social da socie- Já o espaço relativo: entendido a partir de “relacio- dade. A organização do espaço, enquanto reprodu- namentos entre objetos, só existe porque os objetos ção da produção capitalista, desempenha papel de existem e se relacionam mutuamente. Assim, o movi- mediação de espaço enquanto arranjo: econômico mento de pessoas, bens, serviços e informações veri- como uma formação de múltiplos espaços desiguais ficam-se em um espaço relativo porque custa dinhei- (espaços industriais; instrumentos de trabalho; meios ro, tempo, energia para se vencer a fricção da distân- de consumo individuais e coletivos;), jurídico-político cia” (Harvey). Pode cair no perigo de geografia como (aparelhos ideológicos e repressivos do Estado), ide- conexão, direção e distância sem referência com o so- ológico (aparelhos ideológicos de prescrição da ideo- cial ou a serviço do “custo-benefício” do capitalismo. logia dominante: escola, igreja, quartel, tribunais). Por fim, o espaço relacional: como existindo nos ob- Necessário desenvolver um método específico para a jetos – “no sentido de que um objeto somente pode geografia: a partir do arranjo social, apreender a existir na medida em que ele contenha e represente dialética social da formação econômico-social. Assim, dentro de si relações com outros objetos” (Harvey). Mas a teoria crítica do espaço deve possui três facetas: a porque três conceitos de espaço? Porque: a) espaço formação econômico-social, o modo de produção e como valor de uso, no qual o homem valoriza a fertili- a formação sócio-espacial. Por fim, sobre a análise dade e amenidades físicas; b) no mercado capitalista o geográfica deve-se argüir a direção das determinações espaço possui valor de troca – espaço como extração e descobrir a essência da aparência. Portanto, o ca- de renda (espaço é mercadoria), monopólio de classe; minho seguro do método é, segundo Moreira, o da c) espaço como conteúdo relacional do qual extrai ren- imersão no arranjo espacial no jogo das suas deter- da de monopólio. Portanto, trata-se de estudar o espa- minações múltiplas, sobretudo as determinações de ço-morada a partir da formação social de uma deter- classe. Conhecer para transformar! minada sociedade. O espaço-morada do homem é de Repensando a teoria das localidades centrais, natureza social. Neste sentido, destaca Corrêa, a ação de Roberto Lobato Corrêa. Repensar a teoria da loca- humana tem papel fundamental na organização do lidade criticando-a e recuperá-la em um nível mais espaço. Pensa-se nos atores que monopolizam os meios elevado. Primeiro: a rede hierarquizada de localida- de produção e o Estado. De um lado, a acumulação des centrais constitui-se em uma forma de organiza- do capital e, de outro, a reprodução da força-de-traba- ção do espaço vinculado ao capitalismo, sendo de lho. Os processos espaciais são efetivados para res- natureza histórica. Segundo: a rede de localidades ponder, numa sociedade de mercado, estas duas for- centrais cumpre simultaneamente dois papéis que são ças antagônicas. Por elas ocorrem a concentração e complementares: de um lado, constitui-se em um meio dispersão da ação humana-tempo-espaço-mudança. para o processo de acumulação capitalista, e de ou- Assim, o espaço reflete valores socialmente enraizados tro, constitui-se em um meio para a reprodução das na comunidade. Portanto, trata-se de pensar o espa- classes sociais. Isto significa que a rede de localida- ço-morada do homem em suas conexões com tempo des centrais constitui-se em um meio através do qual e espaço, pois são experiências humanas. a reprodução do modo de produção capitalista se ve- Repensando a geografia, de Ruy Moreira. O pro- rifica. Terceiro: as redes de localidades centrais apre- cesso de socialização na natureza pelo trabalho soci- sentam-se caracterizadas por arranjos estruturais e al, i. é, a transformação da história natural em histó- espaciais diversos, isto porque o capitalismo se verifi- ria dos homens implica uma estrutura de relações sob ca de modo desigual. Quarto: a rede de localidades determinação do social. É esta estrutura complexa e centrais constitui-se em uma estrutura territorial cuja em perpétuo movimento dialético que conhecemos análise possibilita a compreensão do sistema urbano sob a designação de espaço geográfico. História dos de países não industrializados ou onde a industrializa- homens e história da natureza são inseparáveis. Há ção se verifica espacialmente concentrada. Quinto: múltiplas determinações na relação dialética entre o possibilidade da conexão entre rede de localidades homem e a natureza na qual, pela ação do trabalho centrais e capitalismo monopolítico. A emergência de 17 humano sobre a forma-natureza, gera a forma-socie- outro arranjo estrutural e espacial da distribuição de Nº 18 dade. Portanto, o modo de socialização da natureza bens e serviços caracterizados pela especialização dos MAIO/2006