N.Cham. CE 981.35 P3721J.'
Autor: Pedrosa, José Femando de Maya.
Ti~º H'iiH1~~1Hífn1
1452()6 Ac. 25348
8L' "1° Pat.:5S429
HISTÓRIAS DO VELHO JARAGUÁ
MACEIÓ, t 998
Copyriglh @ .José Fernando de Maya Pedrosa, Maceió,
Alngons, Brasil.
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
P 372h Pedrosa, José Fernando de Maya
Histórias do Velho Jaraguá/ José Fernando de Maya Pedrosa.
Maceió, 1998.
221p.: il.
Bibliografiia: p. 219- 221.
1. Jaraguá (Maceió, AL) - História. 2.Jaraguã
(Maceió, AL) -Vida e costumes sociais.
1. Título.
CDU: 981 .35
Revisão: Astréa Romero Bandeira de Mello Pedrosa, Teíta.
Composição: José Fernando de Maya Pedrosa.
Capa do próprio autor.
Impressão: GRÁFICA E EDITORA TALENTO
Rua João Nogueira, 37 - Farol - Maceió-AI. - 1998
Impresso no Brasil Printed in Brazil
Em Jaraguá, arde a eternidade.
De "Jaraguá", poesia de Rasalvo Acioli Jr.
Bairro boêmio de casas e lendas antigas
Quando derrubam uma de suas casas
Não caem apenas as paredes, caem também
Histórias de amor e bonitas cantigas.
Marcos Vinícios. médico e poeta
Na parede da Só e Albuquerque. 726.
DEDICATÓRIA:
Dedico este livro à memória de Félix Lima Júnior, cuja
1•11deira no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas tive a
honra de ocupar.
Queira Deus que ele, de onde se encontra, me perdoe a
nudácia de sair do rigorismo que me ensinou no trato com a
trndição, e ter feito dela também motivo de devaneio.
Quando o destino nos colocar de novo um diante do outro,
cu lhe perguntarei:
- Por acaso, meu caro professor e amigo de tantos
encontros, para atrair o leitor, não farias agora o mesmo?
PALAVRAS DE UM FILHO:
F.stimado Pedrosa. Saudações à Teíta.
Antes e durante a Semana Santa, debrucei-me sobre o original de seu livro,
11w1 mtnte que à página quatro existe uma dedicatória a uma pessoa que sempre
t~lrH romigo e, ainda hoje, ele e "My Lord" , o nosso Deus, se debruçam sobre mim,
"" 1111oltecer.
No deserto de desatenções e esquecimentos que o colunismo literário derrama
~uh1t 11 obra dele - "x" livros sobre a nossa Maceió e o Estado, escritos por Félix -
a•t1ll' 11 0tus que surge essa dedicatória.
lo;lr no~ espera e a todos, mas será grato ao Maya Pedrosa. você, José Fernando,
11111 "'~" presente sincero, limpo, de dentro d'alma, sem espera de rttompensas.
Luiz Fernando Oiticica Lima. 04 de maio de 1998.
A<~ RADECIMENTOS:
M 111l11h11 esposa Teíta, revisora e orientadora deste livro;
1111a que me estimularam e deram apoio nas pesquisas, na rcdaçã·o e edição do
tli~IO 1>11111tl11s Aprlltto Tenórío e sua esposa Ivone, Ednor Valente Bittencourt, Luíz
1"'10111111h 11 llart'OR, lb Gatto Falci'ío, Franklin Casado de Lima, Jaime de Altavilla
1llhu, lll'rlíHrdlno Nogueira Lima, Paulo Mascarenhas, Laelson Moreira de Oliveira,
lctl111 W. Uuyers Jr, Helena Cristina Pimentel do Vale, Antônio Ricardo de N1mes
1•lt•, Mant•lh1 C'1uado de Lima;
• "" a116nhno~ popuJ11res que depuseram suas histórias e contaram tradições do
h•lrro, dtnlrc- o• quais destaco todo o pessoal do Sindicato dos Estivadores d'
Ala1ua• e .Jo~I c;omta lo'llho, o "Deca", proprietbio da Barbearia Jara&uá, t atu
aml10 l'tdru Alvt~ dt Araujo.
..
'
SlJMAl~IO:
• Ao l,,eifor. 7
.. Primeira Parte: O PRINCÍPIO. 11
Apresentação de Luiz Nogueira Barros. 13
lJ111 navegador cansado que nada viu ou não quis registrar. 17
Como a ambição de riqueza fez um pioneiro. 19
nc um diário de viagem e das suposições lógicas. 21
• Qunndo um mapa mostra mais do que mil palavras. 23
• Um governador fora do tempo deixa a sua marca. 28
• Qunndo Jaraguá não era mais um simples arruado. 37
• Vinte e oito anos em preto e branco. 43
• A revolução industrial chega em Jaraguá. 54
. egunda Parte: O AMBIENTE. 63
Apresentação de Douglas Apratto Tenório. 65
·Como as doenças e os esgotos andavam juntos. 69
Cento e cinqüenta anos de uma obra feia escoando riqueza. 71
Como uma obra serve ao riso e ao choro. 85
Aquelas saudosas máquinas de levar gente. 88
O fim de um veículo antigo e o surgimento de um novo. 91
· Dn loita na Rede e de como assinavam carteira. 93
·Como se entrava ná Rede e lá se passava uma vida. 97
• Os ruídos também fazem memórias. 100
- Como a propaganda vira uma piada. 105
- O choro do rico e do pobre em Jaraguá. 108
- A visão de um padre jovem sobre o namoro. 110
- A natureza mostra a pequenez do homem e de suas obras. 111
- Como a fúria popular deu em genocídio na igreja. 118
- Os urubus na pena dos críticos. 122
- Quando um casal de gansos evitou uma tragédia política. 125
- Um barco diferente chamado Wanda. 133
- Aqui chegaram e daqui se foram os guerreiros do Sul. 135
5
,.
-Terceira Parte: O HOMEM. 139
Apresentação de Ednor Valente Bittencourt. 140
- Um garoto efeminado e um pai intolerante. 145
- A ironia de um alemão e a ingenuidade de um exportador. 147
- Quando um governador quis ser gentil e se deu mal. 149
- Como se passa da infeliz expectativa para a cruel
desventura.155
- Confusão na mente de um rico simplório. 157
- Onde o sexo e a imundície conviviam. 158
- Como se erradicou a venérea em Alagoas. 162
- O ardil de uma prostituta e dois policiais pusilânimes. 166
- Um seixeiro safado e uma prostituta de prestígio. 167
- O anjo da guarda salva um mancebo da síflis. 170
- Como uma rapariga da vida venceu a parada. 171
- Uma obscura mulher tem o seu dia de glória. 172
- A comovente história de uma injustiça não reparada. 175
- Do alto caiu um dançarino famoso. 177
- Um sujeito que acordou pensando que estava morto. 179
- Um jovem sonhador passa do deleite ao pesadelo. 181
- Quando o piso de um prostíbulo era o teto de um negócio. 185
- Um marinheiro que desembarcou e venceu. 187
- Um homem que correu da injustiça e nela foi morto. 189
- Uma pessoa feliz na ignorância e na espontaneidade. 193
- Um ingênuo ambicioso fez um delegado rir por dentro. 196
- Um inglês celibatário e excêntrico que ficou na lembrança do
povo. 198
- Retrato de um homem cansado de trabalhar em vão. 202
- Como a força física fez uma fama. 205
- A mentira no "black-out". 210
- Um trapicheii:-o atordoado fez o que não devia. 212
- Um raquítico e malvado que justificou o inferno. 215
BIBLIOGRAFIA. 219
6
AO LEITOR
O meu caro leitor saiba que não tive a intenção de escrever a
1la~tória de Jaraguá. Na verdade, o fato de se tomar conhecimento,
um pouco mais que fosse, do povo desse bairro antigo foi para mim
111nis importante do que uma segura e fria descrição dos
ucontccimentos à luz das estatísticas e documentos. Além disso,
ll•vci também em conta que as informações das testemunhas e
p1otagonistas da vida local estariam sujeitas ao definitivo
desoparecimento se não fossem colhidas em tempo, e que, se
perdidas, mais uma vez teríamos de viver na escuridão sobre nossa
1h n humanidade.
Usei como principais fontes de pesquisa a tradição oral,
111111u1scritos. revistas e jornais, em especial ·'o Bacurau'', editado
c111 J,1rnguá por Lafayctte Pacheco e dedicado à sátira e à crítica
11i.::i11l na década dos anos vinte e a revista '~O ~atai", editada
11111111lmcnte, de 1939 a 1945, o mais interessante repositório da vida
11l'i11I cm Alagoas. C~nsultei também livros de mestres cronistas
t1111m Félix Lima Júnior, Ednor Valente Bittencourt, Floriano Ivo
l1111u11 . seu irmão romancista Ledo Ivo e outros.
1p1uvcitando estes escritos e depoimentos. aprendi a formular
~h 1111!.t11ncias para emoldurar e movimentar as narrativas, de
1 111d11 mm o espírito da época.
1hs1111, apesar das histórias deste livro estarem longe da ficção,
pc11q1tl' penso que são autênticas no essencial, resolvi desprender-
""' 11d11s do rigorismo tão necessário ao historiador para chegar
111111.. perto da vida e construir um cenário onde a alma das pessoas
111 p110,t.' 111Uis luminosa, numa narrativa intere5sante. ·
Al11111I de contas, como sempre acontece com quem trabalha
l:lllll 11 trndição oral, quando eu escutava dois ou três depoimentos
Nohrc um fnto, ou um personagem qualquer de Jaraguá, nunca
11._n111ruv11 uma narrativa igual a outra, o que me deu certa.
llhcHtndc de formular a minha própria versão e de dar-lhe um
7
colorido atraente e o mais circunstanciado possível, mantendo, no
entanto, o cuidado em não desvirtuar o sentido das histórias.
De tanto ouvir e pensar no que era Jaraguá antigo, o que fiz
d~ante' três anos, além de ter vivido minha juventude no
barrr~ (arrabalde Pajuçara, ali no início da Rua do Araçá), onde
tambem trabalharam meu pai Paulo Pedrosa fabricando mosaicos e
meu avô matemo Alfredo de Maya administrando açúcar e
finanças, acabei por assimilar a maneira de ser e de falar das
pessoas, assim como as coisas que eram possíveis de acontecer.
Sabemos todos também que boa dose de cores e contornos das
~istó:ias ~uardadas na memória do povo são em parte produto da
1magmaçao, naquele processo que não se pode desprezar porque
tem profunda identidade com a própria alma alagoana, no ambiente
cultural que ainda hoje nos motiva. É preciso que o leitor leve em
conta ainda que o popular alagoano é muito crítico, irreverente e
jocoso, principalmente quando quer rir dos outros e de suas
próprias desventuras e atropelos. Para isso cria, improvisa, aumenta
ou diminui o que lhe parece conveniente numa história, é capaz de
esconder aspecto negativo quando gosta da pessoa focalizada ou
, '
exagera-lo quando não lhe tem simpatia, inventar coisas ruins
quando dela guarda rancor, e tudo isso tem que ser levado em
conta, na medida em que as históriasJescoarem pela sua crítica.
É possível até que uma dúzia ou mais dessas histórias tenham
como ponto de origem o anedotário popular transportado para o
cotidiano do imaginário, e que, portanto, algumas delas não tenham
acontecido de fato. Mesmo assim, considerei que deveria contá-las,
porque mostrariam a mente e a cultura do povo de Jaraguá, e 0 que
era capaz de pensar e produzir.
Foi despoTltando, no correr das pesquisas, urna maior fixação
nas histórias de tipos e situações populares do que de pessoas no
tope da pirâmide social. Observei que seria dificil contar histórias
de homens importantes porque notei, nos seus descendentes, uma
certa reserva e reticência, certamente menos por razões morais do
que pelo formalismo da família alagoana de elite, trancada
exclusivista e um tanto vaidosa. Ao contrário, a memória social do~
humildes é muitas vezes mais aberta em colorido e formas talvez
8 '
divido A !iimplicidudc e à informalidade do nosso povo, 11011111
u11t.1u1ia menos impregnada pelas influências intelectuais e culturnil'i
Llo c1ttr1111gciro. Mas reconheço que o progresso do bairro se deve ao
fot~o e t competência de pessoas que lideraram Jaraguá. Eram
l111111c:11~ KCtnlmente honestos e voltados de corpo e alma para o
111111ccmtimcnto, seja industrial, seja comercial, seja na área dos
li 1 vi~o!'i ou atividades liberais, cujos nomes marcaram a vida do
1)111110 ncflte século que vai passando, e que formaram cepas de
ltu11U111!t 11nportantes: Teixeira Basto, Leão, Goulart, Pereira, Paiva,
t•r11wto, Nunes Leite, Maia Gomes, Gracindo, Lins, Lima,
Mndmdu, Lages, Wanderley, Lavenere, Wuckerer, Lyra,
l lt111111ullcs. Simões, Fortes, Carnaúba, Pedrosa, Mascarenhas,
1npcs, Clama, Ferreira Fernandes, Mello, Galvão. Maya, Omena,
H1111111mto, Morais Cabral. Loureiro Barbosa, Rosa Oiticica, Pádua,
Vlt'll nncclos, Pacheco, Azevedo e outros mais, inclusive
' 111111l(c1ros que por aqui trabalharam com muito vigor.
Pnru emoldurar o bairro no início deste século, onde se
l!t1t11.:c11trum as histórias do cotidiano ("O Ambiente" e "O
ll11111cm"), resolvi escrever primeiro sobre um passado mais
1c11ioto, para que o leitor conhecesse as origens e a evolução de
lr11nsu11. fambém nesta primeira parte ("O Princípio") não tive a
p1clc!m1no de ser completo senão a de dar uma idéia ao leitor do
c 11fü 10 cm que vai transitar para reviver as histórias seguintes. E
h1tul11 espero a compreensão de todos para que passem por esta
p111ll' Inicial sem se cansarem porque, em seguida, o texto se tomará
111111 vc1 mais interessante naquilo que diz respeito à vida do
!mino nos tempos recentes. Até mesmo não sei ao certo o motivo
il'-'tilll primeira parte do livro ser tão diferente das outras. Talvez
eoi11 porque tenha morrido com o tempo a tradição oral dos
p111nciros séculos de Jaraguá, enquanto que, de época mais recente,
11111tla se guarda a sua memória viva e, portanto, mais atraente.
No que se refere à forma, abandonei as referências de pé de
p(1~im1 ma bibliográficas para apresentar um texto leve e fora de
qunlqucr limitação, em crônicas organizadas de acordo com os
1111s1111tos a que se referissem. Quem o desejar que verifique a
l11hliografia consultada para ir mais fundo no assunto.
9
..
Algumas crônicas deste livro já foram publicadas no jornal "O
Diário" (hoje lamentavelmente fora de circulação), por especial
deferência de meu amigo Eduardo Davino, o que muito me
estimulou a seguir em frente na idéia de publicá-las em forma de
livro.
É fácil imaginar como seria interessante narrar também os
acontecimentos de Jaraguá e seus personagens durante as
epidemias, quando a Alfândega se transformou em hospital, os
choques entre marinheiros, policiais, soldados e populares no
meretrício, a passagem meteórica da Segunda Guerra trazendo
gente de fora, americanos, paulistas, pernambucanos, a Festa de
Bom Jesus dos Navegantes na Praça da Recebedoria e nas
procissões marítimas pela enseada, os hábitos de uma elite social
que regula.va a riqueza e exercia o poder, as. manifestações dos
habitantes do Poço e Pajuçara, as festas de São João na Estrada
Nova, os bailes da Fênix e no Tênis, o que se falava na sucursal da
DIVA - Departamento de Investigação da Vida Alheia, no
escritório de Dionísio Sobrinho na Sá e Albuquerque, bem em
frente da Associação Comercial, os fatos da construção do Porto
pela Geobra, as coisas que fazia ou mandava fazer o Delegado
Eurico Ayres, as histórias do comerciante Sebastião Sabararu, as
incríveis façanhas sociais do Mosso1ó, do Codá e tantos outros
momentos de convivência entre os habitantes do bairro e os
forasteiros que eram muitos. Mas nem sempre as páginas de um
livro podem contar tudo e, por isso, reconheço que fiquei muito
longe de esgotar o assunto porque Jaraguá social era wn mundo
complexo e vasto, não podendo exaurir-se em duas ou três centenas
de páginas. Quem quiser que aprofunde o tema, mas certo de que
nunca chegará a esgotá-lo.
No momento tudo parece oportuno, já que dois prefeitos
seguidos - Ronaldo Lessa e Kátia Bom - estão cuidando de limpar e
revitalizar o bairro, tomando-o a sala de visitas de Maceió,
justamente onde a cidade deitava o seu lixo e boa parte de sua
humanidade vivia no abandono e na luxúria.
Ao leitor muito obrigado pela atenção, e boa viagem pelo
tempo do Velho Jaraguá.
JF Maya Pedrosa.
10
l'l'iml'int Parte: O PRINCÍPIC).
Doado a casa que Manoel Antônio Duro construiu em
Ju1gu , por volta de 1609, andaram trezentos e oitenta
íl v no . Foi quando o calendário teceu a Historia
d .,_Alrro om três etapas: o surgimento de Maceió que
dilam no início do Século XVIII, a marcante
Administração do Governador Póvoas, entre 1819 e
1822, o finalmente a arrancada que a Revolução
lnllll triai promoveu aqui a partir da segundâ metade do
1 culo passado, criando trapiches e sobrados,
furrovias e guindastes, navegação a vapor e depois os
ho11dos olétricos. Y,ieram as ~yerras Mundiais e a
onatruçao do Porto que marcaram uma mudança
r~dlcal em quase tudo que havia em Jaraguá.
Podemos dizer também que estamos numa outra
tipa dessa evolução quando a Prefeitura de Maceió
Iniciou a restauração do bairro. No mais, é só sentir
doravante a metamorfose que o tempo imprimirá nesta
•11toada portuária e comercial.
Quanto mais valerem o sol quente e a terra úmrda no
ooaao Irreversível das jazidas de combustível fóssil, os
Vivos verao sair de Jaraguá navios e dutos de álcool
gigantescos, enquanto levas de homens, crianças e
mulhoros de nossos descendentes partirão ricos e
1urrldontes para visitarem a extensão do planeta.
11
APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRA PARTE:
Maya Pedrosa não é noviço em matéria de produção cultural,
literária e histórica: já nos deu "A Saga do Barcaceiro", tomando-
se, portanto, em Alagoas, outro escritor ligado ao ciclo das águas,
com seus personagens. Antes Octávio Brandão Rego nos havia
escrito "Canais e Lagoas". E antes dos dois os escritores alagoanos
estão muito mais com os pés fincados na terra.
Agora sua saga é dirigida para Jaraguá (também com suas
óguas), abordando o bucólico, o folclórico e os dados históricos
possíveis, coligidos entre antigas documentações ainda existentes,
numa recomposição que inclui tanto os elementos de natureza
ílsico-geográficos, como arquitetônicos, comerciais, religiosos,
jdcológicos e tantos outros que vão se descortinando à nossa
leitura.
Trata-se de uma viagem no tempo. As novas gerações hão de
-ic deleitar ao saberem que Pajuçara teria uma ponte para ligar-se
cnm o Cais do Porto. E que, em lugar dela, a região foi aterrada
cm prejuízo do fluxo das águas do mar provocando ~rutal
ll:Ol'eamento. Vai, outrossim, ficar sabendo que a orla marítima
t111ha três segmentos: o primeiro, que vinha de Pajuçara e
' ' 1minava mais ou menos à altura do Museu da Imagem e do Som,
111nis apropriadamente conhecido como Ponta de Jaraguá; o
·~·~undo, que ia daí até o início da atual Avenida da Paz; e o
h'rcciro, que constituía a Avenida da Paz com término onde hoje se
i.tt11a a Praça Sinimbu, onde existia uma ponte fazendo a ligação
t: Olll o centro da cidade.
Na Primeira Parte o leitor vai localizar o Forte (Bateria) de São
Pl·dro, o Armazém Real e, provavelmente, a Escola de Aprendizes
11l•Marinheiro, além, claro, de uma fábrica de sabão, da firma Basto
M11chado & Cia. Para as gerações que não sabem o que significa
11111 trapiche, jamais ouviram falar numa sumaca e outros tantos
l1pos de embarcações, o livro de Maya Pedrosa além de
111nstrnr tais embarcações, com alguns desenhos, lega
aos leitores noções da atividade comercial, mormente da atividade
açucareira, fumageira, madeireira e algodoeira, por mais volumosas
e importantes na época.
Algumas coisas vão ficando claras na obra: por exemplo, a
imensa participação da burguesia nascente, com seu faro l?Mª-º
desenvolvimento, na edificação do bairro, da vila e, claro, depois,
da cidade. A ideologia historiográfica de dominação, do processo
colonizatório, também vai ficando bem definida, baseada em três
componentes fundamentais: a defesa, a exploração econômica e a
atividade religiosa, interligadas, indissolúveis, uma trindade da
Coroa Portuguesa. E em tomo da trindade vão surgindo os bancos,
a via férrea, a estação telegráfica, os jornais, o porto, o farol que
orienta os navios, os prédios governamentais, o telefone, a energia
elétrica, as igrejas, etc ... etc, compondo uma retaguarda logística.
Para quem se detiver na leitura .os engenhos e as usinas de
açúcar estão mais ou menos enumerados na obra do escritor,
dispensando aqui citações de nomes uma vez que nossa intenção
não é fazer um relatório, mas enunciar a intenção do livro.
Despreocupado, nesta simples apresentação, de datas, nomes
de personagens e números, com que o leitor irá se defrontar, prefiro
a viagem sobre wn passado raramente tratado de tal modo, corno
faz Maya Pedrosa, ao constatar que um desenho panorâmico de
Maceió, feito pelos ingleses, tem forte preocupação de natureza
comercial, notificando mais os pontos de interesse financeiro,
enquanto o dos franceses (mais românticos) salienta alguns
aspectos da beleza local, como se o "cartão postal" também tivesse
atrativo para os negócios, prefiguração, diríamos, do que hoje faz a
atividade turística.
Vale a pena saber que Américo Vespúcio, num dos três navios
da Expedição Manuelina de 1501, costeou Maceió (provavelmente
durante a noite ), embora seu relatório, por sono ou preguiça, ou até
por ter pvaliado mal o potencial da região e também por não ter
podido desenhar seus contornos, não faça registros sobre essa
passagem.
Na leitura alguns personagem famosos aportam em Maceió,
como o General Labatut, a serviço do Imperador, para combater o
General Madeira, que se insubordinara contra as ordens reais.
14
E então Maya Pedrosa vai desfiando o fio do novelo que nos
'onduz à certeza de que em Maceió foram construídas fragatas, e
drlns. algumas incorporadas à Marinha Brasileira, e que um dos
uh11.;tivos do General Madeira era contra a novel atividade de
11111strução de embarcações de grande porte, capazes até de
.11 ividade militar, guerreira, portanto.
Os primeiros governadores provincianos, sobretudo Melo
l'nvoas, primeiro edificador da futura cidade, merecem trânsito
1.;·.pccial por dentro da história alagoana.
Aos poucos vamos vendo o mecanismo dos preços e dos juros
que interferiam no mercado nascente. O ano de 1902 tem marcas
111tlcléveis: a moda experimenta muitas novidades; as companhias
dl• navegação se multiplicam; cresce a presença de navios, que, já
1·111 1671, em número de 64 saíram carregados de nosso porto e
1 hcgaram a 1.479 entre 1901 e 1902, entre estrangeiros e nacionais.
Noutro momento o leitor ficará sabendo que o atual Museu da
1111.1gcm e do Som foi a antiga Recebedoria, que ali numa das
pontes de trapichc desembarcou Dom Pedro fl, em visita a Alagoas,
11pmtunidade na qual inaugurou a nossa Igreja Matriz, a Catedral de
M.1ceió.
A leitura da obra também nos vai permitindo compreender
pu1 que Jaraguá foi se tornando, por ser um ancoradouro mais
.1·µ11ro. ponto comercial de alto interesse econômico, a ponto de
111111ar espaço da Praia do Francês e das lagoas situadas ao sul,
111111rn das quais está Marechal Deodoro - primeira capital da
1'1 uvíncia. Outrossim porque os sentimentos separatistas levaram à
1H:'-cssidade de emancipação de Alagoas de Pernambuco.
A leitura do livro de Maya Pedrosa tanto poderá ser feita por
l'"l1 uturas, por pa11es, pelo leitor que está preocupado com datas,
l ui11 pcdagogias históricas, como pelo leitor comum, numa leitura
l lllcidoscópica, capaz de provocar saudades, montando p~rinhas
lllll pedrinhas e deleitando-se na fantasia que o tema oferece,
l'lllbora lastreado em realidades históricas. Lido numa varanda
"oprnda por ventos suaves o livro remonta ao passado, recompõe a
-..1g:1 e a poesia de uma cidade que foi emergindo da terra e das
i1g11as, uma época capaz de dcspc11ar os poetas, os cronistas e os
pi11tt>1L'S, lal o seu efeito hipnótico sohrc o leitor.
O livro, finalmente, preencherá um espaço ainda não tentado
por outro escritor: a fantasia que corre sobre os trilhos de uma
realidade histórica que um dia estruturou wna cidade - Maceió -
para os tempos futuros ...
16
Luiz Nogueira Barros, médico, cronista e
sócio efetivo do IHGA.
........_____________________________________________________________________________
Um navegador cansado que nada viu ou não quis
t l'gistrar.
Américo Vespúcio navegou ao largo da Ponta de Jaraguá num
lh'' três navios da Expedição Manuelina de 1501. tão próximo que
ll h0
110 visto.
A frota zarpou no dia 29 de setembro, depois de uma semana
1111 Morros de Camaragibe, tomando possivelmente o rumo
11111K11ético de 250 graus para seguir a costa sem dela se afastar
11111110, com a proa ao largo de duas saliências de terra que os índios
Utl'tês chamavam de loçara e Jaraguá.
Se naquele dia os ventos eram favoráveis, como dizem o
111ndcrno Roteiro do Litoral Leste e a Carta-Piloto da Marinha para
" 111ês de setembro, a frota andou o suficiente para avistar no
ltc1111onte aquela nesga de terra quase perpendicular ao seu rumo,
1111111 perfil baixo, coberta de vegetação nativa e infletindo a costa
p1111 sudeste. Era um areal discretamente dourado com capim
1111lµndo, cajueiros brabos, palmeiras delgadas, trepadeiras, muricis
• l'·'lllfllS, avançando de mar a dentro.
Vcspúcj9 era_Q_Çoill!.Qg_rafo da expedição (uma mi~tura de
li 1hgt1dor, geógrafo e escriba) e, por certo, devia ser alertado sobr.e
ll1j11l'l.1s pontas que, embora menos marcantes do que as
m:onlradas desde o Cabo do Calcanhar, deviam merecer registro.
I• de nada escreveu sobre elas em suas famosas ''letteras" e nos
11•g10.,lros de navegação. Por quê?
l'nlvez por ter zarpado em hora avançada do dia, passando ao
1111 f.1º de Jaraguá durante a noite. afastado o suficiente para que
.1q11~·las terras baixas tenham sido confundidas com os tabuleiros
qm• acompanham a costa desde Pernambuco, naquela perspectiva
til• quem navega suficientemente longe da costa (digamos, dez
11tllhns), jú iniciando o "alagamento" da faixa praieira do litoral, a
p11111cirn u desaparecer no horizonte terrestre.
'i: pussivcl tnmbém que niio tenha dado importância ao acidente
gc11g1úlico porque desfilava numa longa costa e não tinha p01
11111111:1 assinalar ludo, e sim os pontos proeminentes 011
•8,11ilk,1tiv11s parn 111111wgaç o,
Viria a assinalar a foz do Rio São Francisco, o primeiro
acidente da costa desde Morros de Camaragibe, segundo sua
percepção. O fundeio de Camaragibe ou Enseada de São Migue],
trinta milhas ao norte de Jaraguá, seria utilizado para aguada e
descanso em apoio aos navegantes de mais de cem anos depois, em
mar abrigado, boa água de beber. Ou Vespúcio não assinalou
Jaraguá porque estava tão fatigadÓ que não desejou "dar mais
detalhes a respeito da navegação efetuada" como alude Moacyr
Soares Pereira em "A Navegação de 1501 ao Brasil e Américo
Vespúcio'·, e nosso futuro porto foi ficando para depois.
Apesar da omissão do grande cosmógrafo, a Ponta de Jaraguá
seria vista por outros navegadores e assinalada no "Tratado
Descritivo do Brasil", de 1587, por Gabriel Soares e Souza, assim:
"... o Rio da Alagoa (canais lacustres da Manguaba e da Mundau
ou do Norte) onde também entram caraveJões, o qual se diz
da Alagoa, que nasce de uma que está afastada da costa, o qual
rio chamam os índios o porto de Jaraguá". Na visão espacial do
caeté, a Enseada de Jaraguá estava ligada ao Rio das Alagoas,
porque as anfractuosidades do terreno em volta das águas onde
viviam eram por eles relacionadas de perto.
Se os índios chamavam Jaraguá de um porto era porque ele já
era usado para o tráfego com os europeus, precisamente os
franceses, que por aqui passavam desde o início do século. Eram
os mesmos que Dom Rodrigues D'Acufia avistou em 1526 quando
deu na Praia do Pontal de Coruripe, náufrago, depois que sua nau
rSão Gabriel" foi ao fundo. E, como se sabe, lá encontrou dois
navios franceses embarcando p~u-J?rasil.
Estão aí os primórdios da vocação de Jaraguá como porto,
onde podemos imaginar os_@ arrastando os troncos de
ibirapitanga até a beira da praia, ao lado de batelões a remo que os
levavam aos navios, tudo isto bem ali onde está a Associação
Comercial. É uma bela coincidência para início de uma História de
intercâmbio e navegação.
18
-----·---
orno a ambição de riqueza fez um pioneiro.
Certamente a fortuna perambulava na cabeça de Manuel
ntônio Duro quando, por volta de 1609, construiu uma casa de
11julo e telha na Ponta de Jaraguá, local jnteiramcnte desabitado,
11cg11ndo Craveiro Costa "longe das vistas dos dizimeiros ávidos,
oferecendo aos produtores maiores compensações" .
Ele estava informado de que o local fora antes utilizado pelos
l11dios para o comércio, o que faziam também um pouco ao sul,
1111ma praia que chamavam de Porto Novo dos Franceses. e no
Pontal de Coruripe, visitado pelos mesmos mercadores.
O Porto Novo dos Franceses era então freqüentado pelos
ltscais de Sua Majestade o Rei de Portugal, numa incômoda
presença, e que moravam em Santa Maria Madalena de. Alagoa do
Sul ou em Santa Luzia do Norte, Potto Calvo, Penedo, onde se
formava uma sociedade canavieira e administrativa.
Em· Jaraguá. pelo contrário, as autoridades não chegavam.
penas havia por lá uma vegetação rala e 1.Jrejos dificultando as
lt~ações e distraindo para outras bandas as autoridades fiscais.
( ..,. Como cada época é uma época. naqueles anos distantes as
) p1aias não pareciam atrativa.~.-e nelas não se encontra:a beleza
11lguma nem refrigério. Ao contrário, as pessoas se fixavam mais
110 interior, em busca de terra·s doces e férteis do massapê para o
plantio da cana, numa paisagem mais verde e fresca,_amplas matas
<' córr~g.Qs limpos. E fixavam-se em Po1to Calvo, Penedo, Santa
Madalena e Santa Luzia, em tomo dos engenhos e fazendas por ali
l'Spalhados.
Por tudo isso, não teria Manoel Antônio Duro a menor
i11tenção de plantar cana-de-açúcar e montar engenho em terra
1mlgada, arenosa e pouco fértil, onde tudo pelas redondezas era
lc11na de mangue ou dunas baixas que represavam as águas da
chuva ou descidas do tabuleiro, elevações discretas recobertas de
capoeira baixa e feia. Boa água doce não havia para abastecer de
todo um engenho. Mas lá estava a casa, cc1tamente.cercada por
umas poucas choças de palha~ imaginemos (pelas distâncias antes
19
...
na escritura da sesmaria) próxima do início da Enseada de Ioçara,
de onde se podia ver o horizonte desde o nordeste até o sudoeste,
sabendo-se logo dali qualquer aproximação de um veleiro no
horizonte. Conforme foi percebido pelos índios e pelos traficantes
franceses, por trás desta língua de terra - a Ponta de Jaraguá - havia
águas tranqüilas a sotavento, oferecendo excelentes condições para
abicagem de botes e pequenas chalupas, até jangadas para carga e
descarga de mercadorias e gente durante quase todos os meses do
ano, menos no inverno, quando os ventos sopravam do sul e as
ondas chegavam perigosas na praia.
Não se temia mais o gentio caeté, dizimado ou fugido para
lugares distantes na campanha contra eles movida pela Coroa há
cinqüenta anos, em represália pelo banquete, segundo alegavam, do
Bispo Sardinha e de uma centena de passageiros e tripulantes do
"Nossa Senhora D'Ajuda," no ano fatídico de 1556.
Quem viria a Jaraguá para saquear Manoel Antônio Duro?
Desde o início do século anterior que os bretões visitantes eram
de boa paz e sempre chegavam falando em negócios, quase nunca
em guerras e tropelias próprias da política, mostrando-se amigos e
até merecendo confiança, com a vantagem de não desejarem
montar estabelecimento algum em terra.
-i!> Mas, se era mercantil a intenção de Manoel Duro, como tudo
indica, deparou-se ele com uma séria dificuldade de ordem
financeira que o levaria ao desastre. A sesmaria que recebera de
Diogo Soares da Cunha, sesmeiro maior na área desde 1591, era,
segundo sua escritura de 1611, para ser cultivada, povoada e
construída no espaço de um ano, o que tomou o homem por certo
descumpridor de seu contrato. E foi forçado ou mesmo quis passar
a sesmaria para Apolinário Fernandes Padilha e possivelmente
tenha-se retirado para Santa Luzia do Norte, onde há reg.istros de
sua existência já muito velho.
Por duas coisas Manoel Duro ficou na História: foi o padrinho
de batismo de Do~ingos Calabar e construiu aquela casa na beira
da praia, longe da "tristeza esmagadora da solidão ambiente" ~o
"deserto cabralino", no dizer de Craveiro Costa quando se refena
Aos interiores.
20
t..Jc não deixara semente para o futuro. Tudo morreu em
fo111v.11á por muitos anos depois daquela casa de alvenaria em cuja
 11.111da se podia ver o tabuleiro próximo descendo em degraus para
11 l.11.Jos da Lagoa do Norte. Ninguém imaginara que, mais tarde
11111 século, teria início ali o povoamento da região, o Engenho
~l.1tció e a Capela de São Gonçalo, depois a de Nossa Senhora dos
l'1.11cres e finalmente a Catedral. E que a expansão deste núcleo
h1.1 finalmente valorizar o porto que fora seu, onde construiu a
1111111cira casa do bairro, pensando nas exportações e importações
1, t111ação maior de Jaraguá até hoje c uma das razões da existência
d1 110-;sa cidade capital.
···-~---------------------------------------------------------------------------
l>t' um diário de viagem e das suposições lógicas.
No distante ano de 1640, uma tropa de reconhecimento
l111l,111desa percorreu a pé toda esta costa fazendo anotações da
1·rngrafia ao alcance dos olhos. Era seu comandante um capitão
, 11mluzindo uns poucos soldados e índios aliados.
Pode ser que tenham feito algum relatório secreto sobre o valor
111iht.tr de cada acidente do terreno que influísse numa operação de
r111. Ira ao longo das praias: ancoradouros, elevações dominantes,
1'l ursos locais. passagens d~ rio, pontos de desembarque. Mas as
11111tações que foram do conhecimento geral mais parecem as de um
~1111clor de imóveis bisbilhotando detalhes que servissem para
lll'~úc.:io de compra e arrendamento, desde Olinda até Penedo.
Os papéis cuidadosamente escritos levaram o selo do Arquivo
1'111ticular de Sua .Majestade o Rei da Holanda e continham três
d11dos simples: local, tempo de percurso e observações julgadas de
111i1idade geral.
Nas andanças desde Olinda, depois de passarem em Po110
C'uivo (segundo Moacyr Soares Pereira, Barra Grande), chegaram
''° Rio Mangaguaba (Manguaba, Porto de Pedras) tendo sido
111wtado assim: "Vadeia-se de baixa-mar por uma ponte ."
Adiante: "Rio Tatuaimunha : uma hora e meia do Rio
Mocabita", onde anotaram: "Vadeia-se". Passaram pelo Engenho
Novo de Camury, pelo Engenho do Espírito Santo, pelo
21
Engenho de São João, e finalmente pelo Camugi (ou Camaragibe)
com "água potável em um vale. Do outro lado de um monte,
chamado de Limão, onde há água à mão direita e mato a um
tiro de mosquete do caminho." Cruzaram depois o Rio Santo
Antônio Grande onde "Atravessa-se de canoa ...". Depois ainda
passaram pelo Rio Jaçapucaia e, em Paripoeira, avançaram numa
"grande enseada onde ~á também água potável, mas ruim", os
rios Santo Antônio Mirim, Paratii (Pratagi) e Doce. E seguiram daí
a marcha pela praia, desprezando o tradicional caminho do Poço e
Mangabeira (atual) sobre o sul, foram pelo Carrapato (depois
chamada de Jatiúca por Teo Brandão) e, de repente, encontraram-se
numa ponta de terra onde a linha da costa infletia para o sudoeste.
Estavam na Ponta Verde, início, como logo viram, de uma enseada
linda de água transparente como esmeralda, e tranqüila. Era a
nossa querida Pajuçara.
N~ngu~m pode ter dúvidas de que havia um batedor ou guia
para identificar os nomes e mostrar caminhos e passagens,
possivelmente um índio ou mameluco, velho conhecedor da reoião.
~aí ser válido supor que, ao lado do escriba e do capitão, t:nha
dito, conforme as palavra.s do relatório:
- Aqui é Ioçara. Ali é Jaraguá, onde tem um passo,
levantando os braços na direção de uma ponta de dunas arenosas e
alvas, cobe1tas de vegetação rasteira e rala avançando para o mar e
delimitando a larga enseada pela frente. Era a Ponta de Jaraguá.
E então ditara o capitão ao seu escriba:
- Anote: "Praia de loçara. Uma grande enseada junto ao
passo de Jaraguá."
Quando reiniciaram a marcha, já haviam caminhado desde o
. _Rio Manguaba até ali numa marcha de dezoito horas, afora o tempo
destinado ao descanso da tropa.
Como a maré estava cheia, fizeram uma hora de marcha da
Ponta Verde até Jaraguá, do contrário o fariam em meia hora pela
areia dura da praia, e chegaram onde havia um passo, ou um
armazé~? Seria a casa de Manoel Antônio Duro, de telha e tijolo,
constrmda em 1609 e transformada em depósito?
O capitão procurou então examinar o terreno e mandou
escrever:
22
' l"IT~ ~ "'-.,
CO..L o '·• r'?~L
ç -"' ' ...,f"c: 1 /
... ·~ "
" Aqui não há água, mas pode-se abrir cacimbas; a água é
nrnl.-i sulobt'a, o pasto sofrível mais um pouco para o interior
tU1·1~ clu mata."
b prosseguiram.
De Jaraguá até a Barra das Lagoas a tropa levou apenas uma
h111n de marcha pela praia chegando numa área onde havia uns
l111t~·s para transposição da Lagoa Manguaba e um quartel numa
111111111 cm frente. Daí seguiram para Santa Madalena. Seria então
[111• o "passo" a que se referiu o relatório quando assinalava
l 11,114uá?
Quanto à aridez da terra e à falta de boa água, estaria enganado
11 <'npitão. Lá pelos idos de 1819-1820, o Almirante francês
lt1111ssain assinalou uma excelente fonte na Praia de Pajuçara que
1 1vin para os navios surtos no porto. É de se supor que esta fonte
1 tivesse a pouca distância da Ponta de Jaraguá e que existisse
1h ·~de muito tempo, já que não se tratava de obra feita pelo homem.
1.tlvcz, quem sabe ? desse boa água de beber suficiente a Manoel
111onio Duro e seus familiares e escravos. O holandês não a teria
'1110 porque o filete da fonte correria para o interior ao encontro
.111~ alagadiços, ou a preamar impediu que o percebesse escoando
p11
IHpraia.
C.)uando um mapa mostra mais do que mil palavras.
O português José Fernandes Po1tugal desenhou, em 1803, o
' l'luno das Enseadas de Jaraguá e Pajuçara'', certamente com o
11hjctivo de facilitar a navegação referindo-a peJos pontos notáveis
1ltt costa mostrando os locais de bom fundeio (que chamavam de
11111'gidouros) e a natureza dos fund~s para ancoragem,
profundidades, correntezas, tabela de maré, perigos ao largo como
1~·1.: iíes e baixos fundos, e uma rosa dos ventos que abrangia todo o
dl!scnho. Era um autêntico documento hidrográfico com
11111arrações em terra.
No rodapé do Plano há uma descrição de como os navegantes
deviam proceder para que os navios tivessem segurança na
23
aproxi":ação e na ancoragem ao largo. Dizia: "No Porto de
Jaragua podem surgir e carregar navios com cômodo desde
sete.mbro até abril, que reinam 0 nórdeste e são muito
abrigados. De maio até agosto que assopram os ventos do
qu.adrante sueste não podem ali estar sem grande perigo
po~que a .corrente da maré não os deixa filar ao vento puxando
assim mmto pela amarra."
./
6l'.
. O leitor encontrará nesta figura as informações que precisa .
c~nb~cer nosso Jaraguá no início do século passado. Trata-se de um tr::,::
su~phficado pelo autor deste livro, do "Plano das Enseadas ele Jara uá e
~i?~óç~ra", ~José,Fernandes Portugal, ano de 1803, arquivado no lns;ituto
s rico e eografico de Alagoas, contendo:- A "Fortaleza" na Ponta d
.Jllraguá·- O Armazém R J · e
M . ló·' ea 'aproXJmadamente na entrada do atual Porto de
> .11cc ,- Trecho ~o centro de Maceió, entre a Jgreja Nossa Senhora dos
1'11~crr~ (on~e foi co_nstruída a Catedral) e a praia;- A embocadura do
~Uii~h1o Mnc;ió, na Praia do Sobral (está no documento original)·- Locais de
une t• o c.•m rente de Jaraguá e na Pajuçara, este último para e:Ubarcações
1111•111u n (sunu1cas).
•.i1
( 'oercntc com a sua fixação marítima e servindo ts
11111h1trcações que demandavam Jaraguá, José Pernandes Portugal
11~ l'llhou algumas edi ficações na costa que servem atualmente para
11~11t11dioso visualizar o baiJTo naquela época, pelo menos na faixa
111 qul.!, do mar, se pode ver a praia.
Nesse contexto, três edificações estão nominadas assim: a
l 11t1aleza", na Ponta de Jaraguá, que parece um desenho pomposo
til· uma construção quadrangular, com guaritas nas pontas, na
rnlnde wha simples bateria cuja existência na época ainda é hoje
t 1111tcstada, o Armazém Real " de recolher aduelas e demais
nuulciras", um pouco máis para o noroeste, e a futura Igreja Nossa
s,·nhora dos Prazeres, no centro de Maceió. atualmente a Catedral.
.. Estavam assim representados no Plano os três componentes
fundamentais da Colônia: a defesa, a exploração econômica e a
ll~ll gião.
Não havia no mapa nenhuma representação de trapiches e suas
p1111les que seriam constru.ídos logo depois da emancipação de
Al11goas e que viriam proliferar na segunda metade daquele século.
Pelos lados do nordeste, estavam as casas da Pajuçara, em
1111111cro de onze, possivelmente em apoio da pesca e do transporte
lll' mercadorias pelas sumacas, uma espécie de veleiro de pequena
1 .1botagem, precursoras das barcaças e iates que chegaram até quase
,,~ llOSSOS dias.
Em Jaragu~ apareciam apenas oito edificações.
Ao sul vê-se no mapa a foz do Riacho Maceió, depois
l<cginaldo ou Salgadinho; entretanto está omitida a representação
1k seu curso paralelo à praia desde a Boca de Maceió (atual Barão
de Anadia) até o oceano. Mas aparece um braço de mar se
ndcntrando, possivelmente até a Lagoa Mundaú, desde a Praia que
.'11amamos hoje de Sobral até a Levada, onde recebia as águas da
l,ngoa.
Por um documento cartográfico mandado fazer pelo
<iovemador Póvoas, datado de 1820, existia desde Jaraguá até a
Boca de Maceió uma lagoa com a mesma denominação. Era
1.ercada de terreno arenoso e de nível superior, sem canal de
escoamento algum para o mar, e que também não despertou a
atenção de José Fernandes Portugal dezessete anos antes.
25
Quando teria então surgido aquele pequeno braço do mar que
vimos correr por trás da Fênix para desembocar no Sobral? Como
teria sido cavado aquele Salgadinho onde a geração dos anos trinta
pescava de tarrafa e pegava caranguejo? Por força da própria
natureza mutável por excelência? Sem nenhuma pretensão de
resolver o enigma, existe ai um fato que deve intrigar o pesquisador
porque, salvo melhor juízo, surge a hipótese daquele curso ter sido
cavado pela mão humana, a menos que as plantas de 1803 e de
1820· tenham omitido sua representação por um engano ou por um
motivo qualquer.
Desta forma, não haveria outro desaguadouro para a Lagoa
Maceió (a menos que fosse um grande pântano), do que pela Lagoa
D'Água Negra e seu encontro com o Riacho Maceió, pelas bandas
da Levada, como é traçado em José Fernandes Portugal.
Posteriormente foi aquele curso d'água, que passava pela Praça
Sinimbu, desviado para o oitão do Hotel Atlântico, por onde sai
toda a poluição de parte da Cidade infestando a Praia da Avenida e
toda a Enseada de Jaraguá, num autêntico desastre ecológico que
parece estar com os dias contados pelas obras que a Prefeitura
realiza na área.
No que se refere à topografia marítima, vê-se que, ao largo da
Ponta de Jaraguá, havia recifes que se adentravam no mar, por
baixo do que é hoje o Porto de Maceió, feito por um grande aterro e
obras plantadas em recifes de coral ao largo, numa construção
inaugurada em 1940. . Onde é hoje este aterro enorme, José
Fernandes Portugal assinalou em seu Plano a expressão
"Surgidouro de Sumacas". Era o local de carregar e descarregar.
~ Devia ser, como disse Félix Lima Júnfor em seu "Maceió de
Outrora", assim: "... negros escravos conduziam, na cabeça,
sacos de açúcar e fardos de algodão, jogando-os em botes e
barcaças ancoradas o mais perto possível da praia", ou abicadas
na maré seca para saírem carregadas na preamar. As águas
chegavam aos peitos dos escravos provocando-lhes enfermidades e
morte. -..
Os botes eram de fundo chato e seguiam a remo para os navios
que, segundo o Plano, ficavam fundeados a quatro metros de
26
prolundidade entre os recifes e a praia, onde é hoje a "Barra da
Mude", uma saída natural da Enseada da Pajuçara para o sul. Esses
~1t · também serviam para as sumacas carregarem ou
íh 111 regarem mais próximas e ao abrigo da Ponta de Jaraguá ou
''" 1~11scada de Pajuçara, um ótimo "surgidouro" com profundidade
~ ilc1. palmos. O desenhista, entretanto, omitiu a famosa Barra de
fto Luiz em frente da Pajuçara, pois o recife que vem da Ponta
v~11lc é representado no mapa como sendo contínuo até a altura da
11rn1ln de Jaraguá.
Constata-se ainda que a carga vinda do potto e destinada ao
1111trn passava pela Lagoa Maceió por embarcação apropriada
tloilcz. uma balsa ou canoa grande), e daí prosseguia por uma ponte
11h1c a Lagoa D'Água Negra, depois da "Boca de Maceió''.
Quanto à tal "fortaleza., persistem as controvérsias.
As plantas de fortificações que o Governador da Capitania de
l'rn111mbuco Luiz Diogo Lobo e Silva mandou fazer para Jaraguá, e
lllll' datam de 1762, não parecem ter passado do papel, na opinião
th l•élix Lima Júnior em seu "Fortificações Históricas de Alagoas".
"Fortaleza" de Jaraguá, 1803, segundo concepção do autor
desse livro, com base no plano de José Fernandes
Portugal, posteriormente cooslderndo como um exagero.
27
I

Teriam sido construídas na segunda metade do século XVIlI?
Mesmo que lá estivessem às vistas de José Fernandes Portugal
em 1803, não seria a "Fortaleza" mais do que uma singela sapa ou
"baterias montadas em parapeitos de madeira, de terra batida
ou coisa que o valha", como disse Félix.
Não era raro que os portugueses exagerassem o aparato militar
de suas colônias para impressionarem os seus possíveis agressores.
Teria feito assim o cartógrafo português?
Um governador fora do tempo d~ixa a sua marca.
O leitor verá corno certos acontecimentos infletiram a História
de Jaraguá no fim da segunda década do século passado. Tal é o
caso da chegada em Alagoas de um administrador imprensado
pelas tendências de sua época, mas que entrou para o rol dos
homens marcantes. Era o fidalgo da Casa Real e Tenente-Coronel
'Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, um homem obstinado e
voluntarioso que desembarcou em Jaraguá no dia 27 de dezembro
de 1818 para governar Alagoas. A Província já estava emancipada
de Pernambuco há um ano e três meses, depois de um período de
instabilidade instituído pela Revolução de 1817.
Quando ele assumiu o cargo no dia 22 de janeiro, na Matriz de
Nossa Senhora da Conceição das Alagoas, talvez não vislumbrasse
que o Brasil ficaria independente menos de quatro anos depois, do
contrário não teria feito tanto empenho pela grandeza da Coroa
Portuguesa.
Seu desembarque ocorreu por transbordo entre um veleiro
chegado do Sul e as areias de Jaraguá, onde havia urna razoável
concentração de armazéns e instalações para embarque e
desembarque de mercadorias, estando Maceió com apenas 35 mil
habitantes, elevada à condição de vila há três anos.
4 Naquele dia histórico do desembarque, a importância de
Jaraguá como povoação era pequena e o porto sequer apareceu na
Planta de 1820 que o novo governante mandou fazer por José da
28
Ih 1 Pinto. com o intuito de desenvolver Maceió. Mas, como se
11h~ , l hcgavam na Enseada, vindas do interior, tropas de burro,
Ht111·, de boi e escravos transportando carga para os navios, em
p l:llll ;u,.Ú<.:éH. algodão e madeiras.
N.-1.1 íl~ura o leitor compreeenderá como eram as ligações entre o centro de
~tiln•ió e Jaraguá quando Póvoas governava Alagoas. Trata-se de um
111 nuho elaborado por um desconhecido com base na Planta de José da
~Ih M Pinto, ano 1820, atualmente arquivada no Instituto Histórico e
f,, o~nfico de Alagoas, que contém: Estrada entre Jaraguá e a Boca de
~titn•ló, boje Barão de Anadia; Fortaleza de São João, onde fica a 20!
t !M; Pequeno atracadouro onde havia uma estiva nas margens da Lagoa
MM''dc'1; Ponte de madeira sobre a Lagoa D'Água Negra. A larga avenida
llr~1'11hatln na Pl11nh1 (diagonal ao trecho) ~ra parle do plano urbanístico
llo {10'Crnador Póvoas e um prolongamento do <1ue é hoje a Rua Barão de
l'1•11t•iln até a atual Avenida da Paz, trecho que não foi construído. Nota-se
11111• u Lagoa Maceió não tem escoamento por aí.
ludo tivera início com uma povoação do Engenho Maceió,
1g11ido no fim do Século XVll ou início do seguinte.
29
.,
..
(
Isto faria mudar a vida social e econômica da Província até suas
aspir~ções políticas. Não fora construído apenas pelos b~ns solos
que tmha, nem pela visão magnífica do mar que dele se desfrutava. , . ,
e sim por estar prox1mo de um porto abrigado.
~ .Como disse Craveiro Costa: para a "fundação do engenho
devia ter concorrido a excelência do local, à margem do
an.coradouro, com que se deparava, franco e vasto, 0 atual
Porto de Jaraguá, até a Enseada da Pajuçara ..." . Só não seria
construído na baixada antes da praia porque Já os solos eram
salgados para a cana e faltava a boa água doce suficiente para um
engenho moer bem.
Pelas estatísticas, em 1824, pouco depois de Póvoas, entrariam
no po.rto s~s~e?ta e duas embarcações, das quais um terço de
bandeira bntamca, embora o comércio de Maceió com Recife e
Salvador ainda ocupasse o primeiro lugar no movimento de cargas.
Em pouco tempo já seriam relacionados em volta de Maceió
trinta ~ r. de a · . eles_o~;
Caçhoeua e Riacho Doce. Estávamos nas p011as de uma inflexão
rn~tivada ~ela a;i.dez da Grã Bretanha pelo algodão e depois
açucar, ~feito. pratico da Revolução Industrial na Europa, como
fi~ou evidenciado mais adiante, em_!!!L, numa planta detalhada
fe1t~ pelo ªngenheiro Mornay, onde a praia aparece com dois
trapiches e ruas para todos os Iãdos.
.Assim, pensando num futuro brilhante, imaginemos bem
v~stido como de circunstância, Póvoas teve alguns contatos locais
ah em Jaraguá, onde fervilhava a vida econômica, e para onde
certamente a?uíram as ,autoridades de toda Maceió e Alagoa do
Sul, talvez vindas tambem de Santa Luzia, Penedo e Porto Calvo,
somente para a ocasião, já pensando em influírem nas questões
locais, a mais importante delas a da presença do novo governante
'.rnma_sede fixa. Afinal, também não se conhecera homem tão
importante, um Comendador da Ordem de Cristo Cavaleiro da
Torre e da Espada, na linha familiar do Marquês de Pombal.
Antes ?1esmo daquele dia do desembarque, nas conversas do
Paço l~1pcnal, ou navegando à vela, Póvoas devia ter pensado em
como lidar com pessoas que disputavam hegemonia na Província.
:rn
00111 ~cmm lhe diria que ficasse morando onde o futuro lhe
, 1c11sc mais, e não no descanso do passado já incômodo,
u~ 111ln-se num local distante do movimento co~ercial, pelas
~ , tl.t!J lagoas, com entrada de barra difícil, escoando seus
t~ut11· por um porto menos abrigado que chamavam de. ~ovo
tll 11anceses. E consultaria sobre o assunto os seus auxiliares,
ti ddl·~ o fiscal de rendas Floriano Vieira Perdigão, cujo parecer
li uva que ficasse mesmo em Maceió, proposta confirmada por
UUI p.11l'Ccr idêntico do Ouvidor Batalha.
S~·gundo Craveiro Costa, o Senado da Câmara ~in~a solicitou a
t•1h11as que elegesse Maceió como sede provmc1al. E. ele,
1111tdl•11tcmente, alegou que ficaria no litoral ape~~s para fiscalizar o
11ul11111ento as obras militares sob sua responsab1hdade.
l'óvoas, como parece, depois das cerimônias e primeiros
11111talos no ancoradouro, dirigiu-se de carruagem ou carroça, ou no
l11111bo de um cavalo, de Jaraguá para o centro da Vila, percorrendo
11111 extenso areal, praia a sua esquerda, diante de umas poucas
 1..1s de teto baixo, na maioria residências modestas de frente para
u 111ar.
Chegou num local à margem da Lagoa Maceió, que transpôs
lllll alo-uns minutos cm canoa ou batelão para a estiva na outra
11i.1rge~1 distante cinqüenta ou sessenta braças. Era o sítio .onde,
, 111te anos depoi::., cobravam-se quarenta réis por travessia em
111ngada, segundo Craveiro Costa.
Em seguida, percorreu uma rua yoltada para o sul, casas
ulinhadas urnas pelas outras, da estiva até o córrego que chamavam
de Lagoa D'Água Negra ou Lagoa Manoel Fernandes, também de
Olho D'Água. Era a BoGa de Maceió onde até há pouco estava o
Arcebispado e onde ficam a Estação de Ferro e a 20ª CSM,
antigamente Forte de São João, caminho natural entre Jaraguá e a
Vila.
Havia, naquele final de rua, uma ponte de madeira lig~d~ o
ancoradouro ao centro da Vila, onde despontavam ed1fic1os
maiores uns de três ou quatro pisos, a Igreja Matriz Nossa Senhora
, 3l
dos Prazeres, mais adiante, pela Rua do Rosário (depois do Sol), a
Igreja Nova de Nossa Senhora do Rosário, ao lado da velha
capelinha do mesmo nome a ser demolida, terminando num largo
em frente da Igreja de Nosso Senhor dos Martírios.
Segundo Craveiro Costa, Póvoas encontrou aqui em Maceió
/ "um conjunto de ruelas e habitações rústicas, com a mata à
beira do casario, o pântano da Boca de Maceió e as margens da
lagoa, que se não era de animar o cortesão, não seria de
escandalizar o Governador". Afinal de contas, ele governara a
Capitania do Rio Grande do Norte e estava ajustado "à rudeza da
terra e dos homens", nas palavras do Historiador.
E iniciou o seu trabalho.
Mas, que sociedade Póvoas encontrou aqui?
Supõe ainda Craveiro Costa que em Maceió, e certamente
Jaraguá, já existiam progressistas desde 1730-quando Duarte José
Pereira, Governador de Pernambuco, assinalou em Alagoas grande
surto de progresso com quarenta e sete engenhos de açúcar e dez
freguesias.
Quando Póvoas transpôs a ponte de madein1 sobre a Lagoa
D'Água Negra, a sociedade local passava por um daqueles smtos
de modificação e Jaraguá devia interpretar o novo quadro devido ao
seu comercio. Já era próspera a classe dos burocratas,
administradores e dos homens do Fisco, da Justiça, do Clero, das
tropas de Linha e Milícia, dos comerciantes.que tomavam o lugar
dos senhores-de-engenho distantes em suas terras e afazeres,
mergulhados numa certa carapaça de poder, mas afastados das
fortunas e do prestígio dos novos tempos. Endividados 11~..sta
época, davam lu ar à p~dalguia_dos-desccndentes ~
masc es, os ;Lue amealhav~ULf~~aJxpor~ação de COl!ro,
algodão, açúcar, aguardente, ~<letras, fumo.;.. E foi cst~ gente que
edificou o bairro QOrtuário da Vila, antes um ílJUnlamento
desordenaêTo, local de botes, ~traiã"S: estaleiros velhos, alguns
.armazéns, mclUsiVe o Real, e um rudimento de foiiificnção militar,
ql!erendo isso izer que foram os burgueses e a /dminislraç~Q.
Colomãlrnãôos proprietários deterras os construtores de Jaragua.
A esta altllra dos acontecimentos, a sociedade nflo cm mais tão
acanhada como dantes, e os ventos da independência jú sopravam
cm brisa, prestes a tornarem-se uma tempcstndc. / Vila tomava
--32
t'•PL'dos novos a cada ano e crescia também o Poço, anliga cstrndu
qm· lcv1wa os portt~g~1eses ..mascates e os mercadores e soldados
p,1111 Porto Cafvo e Olinda, e ~mostrava ser um bQDl local de
li111:11rns e resiêfêncías. Por ali haviam ficado na crença de que o
11111,11.; o solo bom para frutas favoreciam a vida desde o tempo em
qrn: o Alferes Antônio Fernandes Teixeira doara o sítio a sua
1111llhc l' Dona Maria de Aguiar.
Além disso, Póvoas preocupou-se com a construção de
. ddicoções próximas do porto como a Alfândega, Casa do
1 1111!->ulado e Rendas, estaleiros e fortificações, o que fez com
ililiµência e determinação.
Na verdade, a preocupação com a defesa era antiga. Póvoas
1l11lrn notícias detalhadas de que houvera recentemente incursões de
plrntas no Rio São Francisco, quando roubaram a sumaca São João
1l11igente e desembarcaram na Barra do Coruripe onde provocaram
1ll)l,Ufls danos.
Desde l67J.!.~uase cent~qüell1ª_Jfil_os._us_pot:tugueses-
111• deram çonta du...v.aloup_!H1ª1" daYonta deJara~u~J2ªULi1 defesa .
do porto contra as incursões de Qirata~, corsários,_contr.abandist.a.s.,,.
l'or isso, ~emador_Qa__C.apitmia çle Pernambuco, Capitão
el~neral Af(QJJSO fil:rtado de Mendonça, V1Sêond~at_:~
11•1.Jcbeu orden1 de fortificar Jaraguá e-~~pQvJ2á::.lo corn...açgrian~
que não Jõi cumpndo a rigor. Mas_h~ citaç~
t•ont~g~eles tempos, umafõrtíftcação guarnecida.
De qualquer m~ira,~trãcfo~óvoas construiu ali a
!loteria de São Pedro fazendO" sistema com a Bateria Real de São
lono na Boca de Maceió, por ele também construída, mostrando a
Intenção defensiva de seu governo e do Reino.
'
Félix Lima Júnior em "Fo11ificações Militares de Alagoas"
identificou mais{ggas bat~~Jaraguá e Pajuçara, a Bateria da
Imperatriz, na atual Sá ?'Xíbuq~erque, e uma na Ponta Verde,
ombas mandadas construir pelo Coronel Oliveira Belo na
Ciuerra da Independência. Foi a~ da Imperatriz vitima da
decadência em 1826 e, quatro anos depois, completamente
ubandonada. A Bateria da Po~ta Verde, que se tornou célebre por
ler abrigado cento e cinqüenta índios de Viçosa armados para
33
defenderem a Independência do Brasil, apresentava seus canhões
abandonados até meados do século passado, durante a baixamar.
Na verdade, a Bateria de São Pedro teve vida pacífica
resumindo-se a disparar sal~ servir... de presidio---® ~a
formaturas patrióticas como a do primeiro hasteamento_dQ..fayilhão
do Império em Alagoas, no dia 24 de fevereiro de 1823., pelo
Coronel Oliveira Belo, Comandante das Ar.mas, da for.ma desçrita
por Félix Lima Júnior:
"Formada a guarnição do forte, os soldados de baioneta
calada, oficiais de espada em punho, foi o Pavilhão Brasileiro
levado à ponta do mastro com uma salva de 21 tiros de canhão
do forte, correspondidos pelos navios de guerra surtos no porto
e pelo Forte de São João."
Entrou também para a 1Iistória a salva que a Bateria deu, junto
com sua coirmã de São João, para saudar a Corveta Maceió, na
tarde do dia 23 de setembro de 1823, quando se despedia depois de
lançada ao mar, terminado o almoço de cinqüenta talheres a bordo,
oferecido na Enseada da Pajuçara à sociedade local pelo seu
Comandante D. Francisco de Souza Coutinho.
O destino algumas vezes trata o administrador e o militar com
surpresas e amarguras. É bem o caso de Póvoas e das fortificações
que construiu com tanto carinho para a glória de Portugal, que,
mais tarde, quase foram usadas para defender as terras de Alagoas
contra seus patrícios da esquadra de Félix dos Campos, braço naval
de Madeira de Mcllo na Bahia, na Guerra de 1823, e que se pensava
por aqui surgma. Os habitantes de Maceió aguardavam aquela
esquadra, na expectativa de que incendiaria o Porto de Jaraguá e o
estaleiro da Pajuçara onde ainda se ultimava a construção da
corveta Maceió, que poderia cair nas mãos dos portugueses.
J laveria batalha sangrenta, assim se esperava, no momento em que
despontou no horizonte marítimo do sul um conjunto de oito velas.
Fra a manhã do dia 18 de agosto de 1823, quando o sobressalto na
cidade foi enorme e todos os homens mobilizáveis correram às
111 mns, guameceram-se os fortes, formou-se a artilharia móvel,
di 11ibuíram-se munições.
Qunse a um tiro de canhão, aquelas oito velas já estavam tão
peno que se divisava nelas o Pavilhão do Imperador tendo início
..._______.·!
t1n• onda de alegria para os que já estavam de mechas acesas nas
MAoll para o duelo de artilharia que se aproximava. Tratava-se .da
01titão Naval de De Lamare, transportando as tropas de Labatut
11111· não puderam desembarcar na Bahia e para lá marcharam por
11111 desde Jaraguá.
A Bateria de São Pedro perdera a oportunidade de seu batismo
&11 fogo e nosso bairro de ganhar nome de batalha, a "Batalha de
J1u11guá".
De resto, ficaria na História como prisão de revoltosos e
1111 rcnqueiros da política como no caso do Conselheiro Manoel
J1111q1Lim Pereira, em 1824, e do Escrivão Deputado Joaquim da
lha Freire, em 1827, "por desavenças com algumas
111eoridades" e que passou a ter, logo depois, guarda reforçada
1111111 "evitar a fuga de um preso de semelhante natureza".
Al11dn se desconfiava da fidelidade da guarnição possivelmente
"'olvida em conspirações, numa "época de indisciplina, de
drrmrdem, de intrigas, de fuxicadas e de politicalha", segundo
1éllx Lima Júnior.
Na verdade, a Bateria era de tal natureza frágil que o povo
p11dcria ter cantado para ela o que cantou para o Forte São João, seu
1111~ênere:
Maceió, meu Maceió
Fortaleza de Mamão
Foi a Bateria demolida e111 1847.
Dei um tiro em Maceió
Botei Maceió no chão.
Durante a Guerra da Independência, Jaraguá foi palco de
h111111ltos inesperados como o desembarque anárquico de tropas de
"''V'OS de Pernambuco, conhecidos como "monta-brechas", que, na
N111lc de Reis, a 6 de janeiro de 1823, desobedecendo ordens de seu
l 1111111ndante, espalharam-se por todos os lados e entraram em luta
l'.<•111 nossos soldados e milicianos, no momento em que
Lll·•m1ontavam suas !apinhas.
Mas voltemos a 1820.·
A Bateria de Póvoas foi edificada possivelmente no mesmo
lrn·;1I de suas antecessoras, ou seja, na Ponta de Jaraguá, cm vista
JS
dos campos de tiro que devia bater para os lados da Pajuçara,
também propícia ao desembarque do possível agressor.
Na verdade, não passava de uma precária fortificação de
madeira com a diminuta guarnição de um tenente-coronel, um cabo
e nove soldados. embora fosse dotada de dezenove peças de
artilharia, segundo Moreno Brandão em sua "História das
Alagoas".
Adiante, Póvoas proibiria a utilização do Porto Novo dos
Franceses, o que foi uma segunda definição por Maceió, tudo
devido ao Porto de Jaraguá, razão de ser da Vila escolhida por ele
sede do governo e confirmada em maio de 1821 como tal, depois
que o Ouvidor Batalha e o Juiz Vieira Perdigão deram aquele
parecer contrário a uma representação da Câmara de Alagoas para
que lá fosse residir o Governador.
No final das contas, Póvoas lá residiria no tempo final de seu
governo à frente de uma Junta e saiu-se muito bem da encrenca
que os tempos iam montando para ele como autoridade da Coroa e
português sem maiores vínculos com a gente daqui. Foi assim que
logo depois que raiou o ano da Independência, ele passou seus
encargos a 31 de janeiro e tratou de viajar, quase nas vésperas da
revolta de Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque, com quatrocentos
homens armados proclamando, em Alagoas, Dom Pedro l protetor
e perpétuo defensor do Brasil.
A esta altura, Póvoas já estava de costas para a Província,
possivelmente para o Brasil, por certo pensando em como e tão
rápido se passaram os tempos desde janeiro de 1819, período de
sua vida em que ainda sonhava com a grandeza do Reino, e quando
tanto trabalhara pelo progresso da Província.
Pelo relatório de Antônio Coelho de Sá e Albuquerque - que
deu o nome à mais importante rua de Jaraguá - Presidente da
Província, ano 1857, a Assembléia Legislativa Provincial tomou
conhecimento das opiniões do Tenente-Coronel Engenheiro
Cristiano Pereira de Azeredo Coutinho, que trabalhava para nossa
defosa. Ele argumentava que a cidade estava indefesa e sujeita a
qualquer insulto vindo do mar, apesar de possuir algumas posições
favoráveis para a construção de fortificações.
36
Passaram-se quase quarenta anos desde Póvoas e as
lortificações que construíra estavam destruídas. Azeredo Coutinho
...1bia dos danos que uma belonave poderia provocar com sua
t1rtilharia disparando nas instalações do porto e mesmo no centro da
cidade. Segundo ele, a população sentia sua fraqueza quando era
-1nlvada por canhões dos navios estrangeiros e não tinha como
1csponder:
"... saudando a terra como é de etiqueta entre as nações
nmigas, não encontram ele nossa parte correspondência a esse
nto de civilidade e cortejo, provindo disso, quando não
tlcsgostos, uma espécie de desprezo para o povo, cuja fraqueza
~ ussim claramente revelada." E propôs a construção de um forte
lcchado com duas baterias de dez peças cada uma, de terra
1cvcstida "cruzando os fogos em toda a extensão do porto".
Sabe-se também que foi um ideal de Floriano Peixoto fortificar
Joraguá, tendo para isso mandado a Maceió, no ano de 1893, o
Capitão Engenheiro José Joaquim Firmino e o Segundo-Tenente
João Gomes Ribeiro Filho, sem resultado algum, dada a situação
linanceira do País com as tropelias da Revolução Federalista.
E nunca mais se pensou nisso, nem parece mais necessário
pensar. Imagine-se um forte em Jaraguá!
·------------------------------------------------------~---------------------
Quando Jaraguá não era mais um simples arruado.
Em março de 1841, três anos depois da mudança da capital
pura Maceió, surgiu uma planta baixa de Jaraguá desenhada pelo
l~cnheiro Carlos Momay, encarregado da~ obras públicas .da,
Província, mandada fazer pelo Coronel Francisco Manuel Martins
Ramos, secretário de governo na mesma época, cujo interesse devia
'{Cr o de representar as instalações mais importantes do bairro
portuário e comercial de Maceió)
Segundo o rodapé da planta, Momay contou então em Jaraguá
cento e setenta construções, das quais sessenta e nove crnm
cobertas de palha e cento e urna de alvenaria e telha. Pelos
n(m1cros, ele encontrara vinte vc1cs mais do (jllC José
F 1·111.U'UI•·~
Portugal em 1803, o que mostra o progresso de Jaraguá em pouco
menos de quarenta anos, apesar das imprecisões que esta planta
mais antiga sugere. No mesmo lugar da "Fortaleza" de 1803 estava
a Bateria de São Pedro construída pelo Governador Póvoas e,
também, em idêntica posição, o "telheiro do Governo onde se
recolhem madeiras", que era o antigo Armazém Real.
Pela primeira vez comprova-se a existência de duas pontes de
trapiches, que se chamavam de Novo e de Velho.
O leitor tem diante dos olhos um trecho, retocado por desenhista
desconhecido, da "Planta da Povoação de Jaraguá'', de Carlos de Mornay,
no ano de 1841 e que se encontra no Instituto Histórico e Geográfico de
Alagoas. É um retrato do bairro nos meados do século passado, indicando
o seguinte:1- Bateria de São Pedro; 2 e 3- Trapiches e pontes, os primeiros a
serem construídos; 4- Igreja Nossa Senhora da Conceição, Pajuçara; 5-
lgrcja Nossa Senhora Mãe do Povo, a antiga; 6- Atual Avenid;i da Paz; 7-
Cemitério dos Ingleses; 8-Primeira e segunda pontes ligando Jaraguá ao
centro de Maceió.
71
O mais oriental deles é o Trapiche Novo "onde se acham
colocadas a Alfândega (também construída na época de Póvoas),
e a mesa do Consulado e de Diversas Rendas". Chamavam-no
ck· novo porque. cios dois, ele fora o segundo a ser construído, mas
llin ckwmos c.:nnlimdi-lo com o Trapiche Novo comprado por
'X
<111 ln~ t,yrn aos Vasconcellos, cm 1913, e sobre o qual o leitor terá
111t11111111çõcs com a história recente do bairro.
Pela posição relativa do Trapiche Velho desenhado por
Mo111:1v, vê-se que ficava próximo do local em que seria construída
1 P1111I.: de De~embarque de Jaraguá, ao lado da Recebedoria, hoje
Mll'•l'U da Imagem e do Som. onde as pessoas chegavam ou saíam
111 viagem marítima.
Momay representou na planta o Cemitério dos Ingleses que
11 11pnva uma curiosa posição entre Jaraguá e o centro de Maceió,
N1tgl·ri11do que aqui já moravam súditos britânicos, certamente
111pcnhados no comércio atacadista, e que eles queriam isolamen~o
1l1·pois da morte, por questões religiosas. Aliás, por isso, já
llllllllvam aqui com uma igreja anglicana para seu culto. Lá ficaram
•ll'pultados marinheiros de um navio britânico cuja tripulação foi
l 1111tnminada pela febre amarela, tendo suas almas infortunadas,
!lq 11111do Ledo Ivo em "Ninho de Cobras", o costume de assombrar
1• 1uns e praias procurando os botes para um reembarque tãc
1l11lnrosamente esperado, quando alguma bandeira inglesa
t1r11111lava em Jaraguá.
• Curioso é que Momay se referia à Pajuçara como uma grande <;--
h.1t- in de assoreamento que, segundo consta também no rodapé de
,11.1 Planta, era devido à construção de currais de peixe nos recifes
d 11.osta. de sorte que "atualmente só entram sumacas com maré
d1t'in". Aliás, ao longo da evolução de Jaraguá e Pajuçara, o
1,.nreamento é uma queixa constante, a partir de Momay. O
e .1pitão dos Portos de Alagoas, Francisco José de Oliveira, em
documento oficial ao Presidente da Província, em 1872, disse que o
p1a11de assoreamento local era causado pelo lançamento ao mar da
.11cin de lastro das embarcações que demandavam Maceió.
1'11juçara, seg~do ele, estava assoreada "de forma a não dar mais
p1111sagem na baixa-mar às embarcações do tráfico do Porto".
ll11via coroas de areia por toda parte.
Quinze anos mais tarde, o Presidente da Província Dr José
Moreira Alves da Silva abriu a legislatura da Assembléia Provincial
de 1887 referindo-se aos currais de peixe dizendo assim: "
prejudicial e detrimentosa se há mostrado na Província
Mt•melhante armadilha que, a juízo do Capitão do Porto,
39
concorre diretamente não só para a obstrução da costa, barra,
rios, portos e lagoas, como também pâra o asfixiamento da
classe dos pescadores que de certo não podem competir com os
possuidores de currais".
! Bem mais tarde, o assoreamento da Pajuçara e de Jaraguá
agravou-se pelo fechamento do canal que ligava as duas enseadas,
no aterro para a construção do Cais do Porto, final da década dos
anos trinta, segundo opinião de Felix Lima Junior 'em seu "Maceió
de Outrora". A lembrança do povo diz que o Interventor do Estado
atendeu a uma solicitação da companhia construtora Geobra para
substituir a ponte sobre aquele canal por um simples aterro,
contrariando assim o fluxo das águas.
Atualmente estão atribuindo a continuação deste brutal
assoreamento ao Alagoas Iate Clube que edificou sua sede por
sobre o mar, com áreas em forma de diques de contenção por cima
dos recifes impedindo as águas de passarem livremente, desviando-
as em parte, tal qual os antigos atribuíam aos currais de peixe.
Entretanto, nada disso está cientificamente provado porque não se
fizeram experiências em modelo reduzido, único método eficiente e
reconhecido pela hidráulica para identificar os efeitos dos líquidos
em movimento. Como se vê também, tudo isso mostra a falta de
·11basamento técnico com que foram realizadas aquelas obras no
mar, como prolongamento artificial da Ponta Verde, sem que se
mensurasse perfeitamente o seu efeito hidrodinâmico nas
vizinhanças. Apesar de todos os argumentos de ordem prática que
seus idealizadores tenham apresentado, com base no empirismo ou
em pareceres técnicos de pouco embasamento na mecânica dos
fluidos, constata-se que, até hoje, não se tratou o problema com a
seriedade que merece, em modelo reduzido.
Mas os fatos mandam acreditar que o assoreamento, tal qual se
apresenta hoje, foi anterior à extensão do Clube, tendo ele
possivelmente agravado o fenômeno. _Ou ainda, quem sabe?, trata-
se de um fenômeno natural o avanço de todas as praias para os
recifes em frente, onde terminam por chegar.
Outro detalhe da Planta de Momay é ter ele referenciado seu
trabalho a wna meridiana arbitrária AB traçada na Planta de
Povoas, tornando-se por ela fácil concluir por algumas ocon-ências
•IO .
111nstram a evolução do bairro. Vê-se que foi construída en~e
1 o r 1841 uma ponte sobre os alagadiços e a Lagoa Maceió
111110 Jaraguá ao Centro, em torno do que é hoje a Praça
h11111hu. Esta ponte foi a predecessora da Ponte dos Fonsecas, uma
htu 'll ferro reconstruída em alvenaria no Governo Costa Rego,
11111111 hoje lá existente, quase imperceptív~l ao, homem ~ouco
h11c1 vndor, porque por baixo dela, em vez de agua do Riacho
Ahtndmho, existe areia de aterro. Sabe-se que a primitiva de ferro
n1l ilm1truída pela tromba d'água da Sexta-feira Santa de 1924 e que
, v.11nda veio em seu lúgar pouco depois, ainda no Governo Costa
"'"'1. 'V~·se também que ambas as plantas representam areas
alttv,•11liças desde a. Boca de Maceió (atual Barão de Anadia) até ~
hth 111 das instalações po1tuárias, daí o recente Aterro de Jaragua
""e .11.:abou com os pântanos, aplainou e mo_dificou apaisagem da
A~1111da da Paz, disciplinou o Riacho Salgadmho.
Identifica-se também na Planta de Momay o esboço daquela
,.,,.11 ida um casario de linhas retas, algo mais habitado do que
~11~111:1lo
1
u José Fernandes Portugal no início do século. Vêem-~~
111111,1, com clareza, as construções maiores voltadas para o mar e Jª
111 pleno centro do bairro. Eram armazéns e trapiches. a
,lt.111dega, casas comerciais e outros prédios sem nenhuma !igação
11
111
os fundos através de becos ou ruas, até a Rua da Alfandega,
1tl1t1ll Sá e Albuquerque. É fácil concluir portanto que a construção
p•l'lltJl'ior dos trapiches dificultou o trânsito pelos lados da ~r~ia,
 11lc11 i1ando, depois de 1841 , aquela rua pelos fundos dos pred10s,
q111111do as duas pontes de embarque que de lá partiam já
111.1palhavam a circulação. . ,
t>ode-se dizer mesmo que o tráfico pelos lados da praia, atraves
1111 atual Avenida Cícero Toledo, só foi restabelecido depois da
lki11olição das pontes dos trapiches, já na segunda metade deste
lll1
l lllO.
O Po1to de Jaraguá estava consolidado desde Póvoas, segundo
"" liscritos do Almirante Roussin, da corveta francesa La Bayadcrc,
flu passar por aqui entre maio de 1819 e fevereiro do ano seguinte.
c111 miss:)o hidrográficn de seu Pnís.
41
Imaginei:nos que tão alta autoridade naval européia, em missão
oficial, tenha conversado com o homem que assumira o mando da
Província recentemente, como seu primeiro governador, militar
como ele, interessados em saber das coisas e querendo quebrar a
monotonia; o marinheiro, do mar; o governante, a de terra.
E sobre o que conversaram, se é que conversaram, isto só Deu
sabe, mas possivelmente tenham iniciado com as amenidades d
sempre, a beleza da costa, o caráter bucólico da vila, o bom fundeio
em Jaraguá, a singeleza do povo.
Depois, as últimas da Europa, as modernidades, as
experiências com o vapor e, finalmente, o mais importante: a
política, os movimentos emancipacionistas, a imprensa mais ágil,
as mudanças no mapa do mundo. De lado, ouvindo, possivelmente
estivesse o Ouvidor Batalha, o mais chegado auxiliar do
Governador que, imaginemos, quando lhe deram a palavra criticou
o espírito de revolta que se propalava e os perigos que c~rriam os
portugueses naquelas circunstâncias.
Mas, deixemos de conjecturas e voltemos ao p01to, sobre o
qual escreveu Roussin: "A gente de terra diz que se pode fazer
boa aguada no ancoradouro (...) com bom tempo se pode
fundear em qualquer parte".
Pouco mais adiante, em 1835, o marinheiro britânico Sir Ross
cfeclarou o que se sabia por aqui: "Maceió é a única ancorage~
conveniente que existe entre a Baía de Todos os Santos e
Pernambuco". E se referiu à importância de Jaraguá no conjunto
da Província assim: no porto "se faz um comércio muito .
considerável e se têm relações muito extensas com o interior.
Os víveres e os refrescos são obtidos a um preço moderado e se
pode facilmente arranjar água excelente em uma pequena font~
junto da praia, na Enseada da Pajuçara". E ainda se referiu a
um ~1estre de porto, certamente um predessesor de nossos práticos,
que ta ao latgo para guiar os navios, mediante o chamado'com um
tiro de canhão. Referiu-se também aos recifes de rnadrepérolas que
ficavam ao largo, o que não parece uma realidade, e às jangadas
manobradas por pescadores com grande habilidade. Recomendava
aos navegadores que botassem olho num pequeno edificio branco
que chamou de Paiol, muito provavelmente aquela construção no
42
Alto da Jacutinga e nas proximidades do antigo farol, pelos fundos
dn Igreja, hoje Catedral.
A Planta mostra como era Jaraguá pouco menos de vinte anos
cli.~pois da Independência. O aspecto das edificações não apenas
confirma o grande avanço que Maceió teve com a chegada
do Governador Póvoas, como as motivações econom1cas
promovidas desde 1822, pela exportação de açúcar, algodão e fumo
para os portos da Europa, especialmente da Inglaterra.
Como se sabe, grande importância teve para nosso progresso a
chegada entre nós de ingleses para o comércio e representações,
tomando a primazia dos portugueses.,
5} O esforço do Barão de Sinimbu e seus aliados para trazerem a
capital para Maceió" em 1839, pode ser entendido pelo progresso
que Jaraguá teve nesta fase. O local já tomava aspecto de bairro ou
arrabalde de Maceió, pelo porte de suas edificações e ruas. Era a
marcha inexorável do tempo e o início de uma arrancada de
progresso na esteira da Revolução Industrial.
Vinte e oito anos em preto e branco.
Datam de 1869 e de 1897 dois desenhos panorâmicos de
Jaraguá feitos por navegantes estrangeiros documentando a
evolução fisica do bairro, ambos "from the ancorage".
O mais antigo deles foi publicado por Manoel Ricardo Pink na
Impressora Lamercier, em Paris, sob o título "Vista do
Ancoradouro de Jaraguá, 1869", com a asssinatura de Muller et
Cluc Lith. Em boas condições de conservação, a gravura encontra-
se no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
O segundo desenho pertence ao Almirantado Britânico sob o
protocolo V 1054-1 O Nov/1897 de seu arquivo, cuja cópia está
emoldurada no Salão de Honra do 59Q Bl Mtz, por ter sido doada
àquela unidade militar por um Comandante de Fragata inglesa cm
visita a Maceió, cm 1989.
Parece de muita valia estudar a evolução do bairro nos 28·anos
que separam os dois desenhos feitos ao largo, justamente numa
época de grandes modificações no mundo inteiro.
Sob o aspecto artístico, o desenho francês de Muller é de
qualidade superior, apresentando as edificações na faixa da praia
como uma paisagem bem elaborada, romântica, detalhada e
harmoniosa, onde o artista mostra com graça seis embarcações
ancoradas, todas à vela, duas das quais atracadas a contrabordo e
quase abicadas na praia, pouco ao sul de uma edificação de três
pisos, a mais importante da área.
Muller retratou uma embarcação pequena de duas velas
navegando para o sul, diante da atual Avenida da Paz, uns trezentos
metros ao largo, o que serviu para aprimorar a composição da obra.
O desenho inglês, por sua vez, não parece ter inspiração· artística,
porque foi elaborado para mostrar os trapiches e instalações
comerciais do porto, na atividade de exportação, percebendo-se
claramente que o restante da paisagem não foi valorizado. Quanto
à representação das embarcações, o inglês fixou-se apenas nos
botes e pequenas barcaças, talvez pelo seu navio ser o único no_
porto, ou por ter eliminado aspectos que não estivessem dentro de
seu interesse desenhar.
Para o melhor entendimento dos desenhos e da evolução do
bairro durante a segunda metade do Século XIX, é necessário
dividi-los em três partes iguais e examiná-las separadamente.
A Ponta de Jaraguá:
1Kti9: À direita do observador, é possível distingüir ao fundo a
1é111h1 da Pajuçara com uma linha de coqueiros até a Ponta
r t O extremo da Ponta de Jaraguá aparece baixa e arenosa,
t 1111 de vegetação rasteira,  vindo em seguida um casario
it11h.1do onde ficava a Bateria de São Pedro, demolida há vinte
'º"~l·gue-se o velho Annazém Real e dois conjuntos de
fdllh m;ões de porte, possivelmente trapiches e armazéns.
1897: No primeiro plano, lançando-se para os lados da
f'Rlr•.ira. está uma ponte com guindaste na extremidade, muito
I"'"una de um edificio com chaminé no tel~1ado, por certo a
f111 kn de sabão da firma Basto Machado & C1a, que aparece no
l111hcndor Geral do Estado de Alagoas - 1902", depois pertencente
1 111mciro Barbosa & Cia.
l~m seguida, está o velho prédio do Annazém Real e os fundos
d11 b icola de Aprendizes Marinheiros inaugurada um ano antes.
As novidades do trecho. além da Escola e da fábrica de sabão.
,u us três pontes de embarque com aspecto singelo. Em frente da
p11utc pertencente a um trapiche em terra, está ancorada uma
hi11caça de três paus.
O Centro de Jaraguá:
1869: Lá estão quatro pontes de trapiches que se adentram na
111nré, todas sobre pilotis, as primeiras duas geminadas. Está
.111corado. a lcslc das pontes geminadas, um navio misto portando
111nstrn<.; e unrn chaminé cm seu convés centrnl. Em a navegação
~~~~~4~~~~~~
a vapor que, desde os. anos quarenta, já fazia travessias do
Atlântico.
No início do trecho está um prédio de três andares e três
janelas nos dois pisos superiores, possivelmente uma repa1tição ,
pública, talvez a Alfiindega, ou a sede de uma grande firm~
exportadora.
1 l
fMlll'lll·Se uma série de casas e alguns trapiches pequenos, um
lltll ln'1s da ponte mais ao sul, possivelmente postado no local
tllva o Trapiche Jaraguá. de Leão & Cia, e onde tem início a
li I • d.1 Paz. Não se notam sinais da construção da Ponte de
1111t111que que seria inaugurada no ano seguinte de 1870, e que
lu, 1wRtc desenho francês, um pouco ao norte dos trapiches
h1111lu11.
l'u111 tuna referência dessa época de grandes modificações na
1ttMl'lll de Jaraguá, convém recordar o arrolamento dos prédios
l lil1'" do bairro feito por Tomás Espíndola: Alfündega com a
ttlll1111 do selo, Conselho Provincial, Mesa de Rendas
l 1111 l:tis, armazém e depósito de madeiras do Estado, Capitania
11 l1111tos, quatro trapiches particulares sendo três grandes, em um
q1111i"I esteve a Alfândega (seria o prédio de três pisos no centro
!1111110 e na praia?).
l l11via outros prédios como a agência da Companhia Geral e
11 h:1111 de barcos a vapor, a estação da estrada de ferro, a antiga
111 1111;õo Comercial. Mais para trás, escondido do desenhista,
t 1 11 o jardim da Praça Nossa Senhora do Povo, em frente ao
t til• .idudo, depois Recebedoria. Ao fundo e à direita estava
t1111, .1111, continua Tomás Espíndola, um "aglomerado de mais de
d1t1"11los e cinqüenta casebres de palha e telha habitados por
ftii-'111lorcs, a Capelinha Nossa Senhora da Conceição".
l X'>7: Lá aparece a Ponte de Jaraguá, para embarque e
1lil'lllhnrque de pessoal, com sua elegante cobertura, bem à direita
111 1 k'lénho, já com vinte e sete anos de vida, entrando ao lado do
1111 tl111 da Recebedoria Central e de um grande armazém, no local',
1h1 1n1piche Novo, aquele que posteriormente viria a ser a sede do
1Cti11lo Produban e que seria de propriedade de Carlos Lyra a p~rtir
(1 11) 13. Seguem-se cinco trapiches e suas pontes, até que tem
lllll in uma área descampada ( vista no próximo desenho ) onde
c11l11t pequenas casas residenciais da at_y.al Avenida da Paz. No
llll'lll do trecho observa-se uma chaminé cortando o céu de Jaraguá,
11 q111: indica a existência de pelo n1enos mais um estabelecimento
1111l11i.1rinl no bairro, além da fábrica de sabão da Ponta de Jaraguá.
"'l't 111 n 1'11ndiçõo de ferro?
47
,,J_
•Vt'::.-_....
Pela existência de muitos trapiches, é fácil concluir que, j
nesta época, o tráfico em Jaraguá era feito pela Rua da Alfandega,
depois Sá e Albuquerque, e não como na Planta de Momay, de
1841, que só apresentava dois trapiches.
Convém observar que os desenhos panoranucos ora
apresentados não permitem a identificação dos prédios e
residências recuadas, mas eles lá estavam desde muitos anos, pelo
menos é o que diz a Planta de Momay de 1841, que é uma
representação topográfica, portanto mais completa.
De quatro pontes de embarque em 1869 para sete em 1897, ~
pela construção de inúmeros trapiches, verifica-se que em um
quarto de século houve esforço para acompanhar o aumento de
mercadorias em movimento. Mas, apesar disso, os documentos da
época atestam que eram evidentes as deficiências da estrutur~
portuária daquele final de século e os melhoramentos materiais do
porto estavam , na pauta da Associação Comercial e do;
governantes. E ·que as mercadorias que vin11am do exterior
desembarcavam em Recife ou Salvador, e "não é de fácil trabalho ·
a remoção desse mal-estar," devendo a Província atirar-se para as
negociações diretas com o estrangeiro, como reclamou com
48
f1 111 o Presidente da Província Dr Silvino Elvídio Carneiro
1 ,111 sua fala para a Assembléia, no ano de 1872. De fato,
10111 depois, foi firmado um contrato com a Mala Real
Qlll d.ivia mandar um vapor mensalmente a Maceió, durante
IOlll'i tanto em viagens procedentes da Europa como para o
•• l111pório, por empenho dos exportadores reunidos na
lih11 l 'omercial.
'11ifi1 011-se que esta medida foi animadora para a Província
11 Hl'll Presidente, Dr José Eustáquio Ferreira Jacobina, na
li 111 para a Assembléia Provincial de 1881 citou docwnento
A111u1liação Comercial dizendo que "... semelhante
ttumcnto trouxe vantagens complexas ao comércio que
tni ''ondições de libertar-se da tutela que ainda a liga a
1111111donais (...) a navegação direta pode haver despertado
.. . t "
"'"''' cometimen os.
Nu a110 de 1874 o Engenheiro Andréas Cemadack foi
ftt'V,íldO pelo Ministro da Agricultura, Comércio e O,b~as
Ih 1111 do Império de estudar os melhoramentos neccssanos
1011 orudouros de Pajuçara e Jaraguá, trabalho concluído em
111hro do mesmo ano. Passou também por Jaraguá o
tt11 11hciro inglês John Hawkshan incumbido pelo Imperador de
111111111 diversos portos do Nordeste, sendo iniciada na mesma
ttllil 11 demanda que se arrastaria até a terceira década do século
Mlll1th. assim como para a construção da P?nte de Jaraguá que já
IA tnl.1da em J8'i7. inaugurada 23 anos depois.
Ancoradouro de Jaraguâ visto da praia, 1870,
segundo concrpção do autor de~te livro.
49
Ancoradouro de Jaraguá, 1932, segundo concepção.do autor
deste livro, para que o leitor tenha uma idéia da evolução dos
meios flutuantes antigos (vela) para os modernos (motor).
Mesmo antes do incentivo da Mala Real, Jaraguá já recebia um
bom volume de barcos de outros países. Em 1871 saíram
carregados de Maceió 64 navios estrangeiros, 52 dos quais à vela e
12 a vapor. Na cabotagem foram 235 nacionais, sendo 93 à vela e
142 a vapor, ou seja, presença média mensal de cinco estrangeiros e
vinte nacionais, com maior freqüência na safra do açúcar.
Quatro anos depois, o Almanach Literário Alagoano, de 1901~
assinala alguns prédios públicos em Jaraguá: Recebedoria e sua
casa de guarda, colocada ao lado do mar, atual Museu da Imagem e
do Som, Ponte de Jaraguá , " bem feita, sólida, bastante extensa e
tem escadarias de ferro...", a Alfândega com casa de guarda, o
quartel do 33Q Batalhão de Infantaria do Exército (hoje necrotério)
e a Enfermaria Militar (estes já próximos da Boca de Maceió),
depósitos de artigos bélicos, correio, Delegacia Fiscal, vastíssimo
prédio onde funcionava a Escola de Aprendizes Marinheiros,
inaugurada em 7 de setembro de 1897, "todos lindos e
modernos".
E mais ainda, a Estação Telegráfica, Estação Marítima da Via
rérrea de Alagoas, Associação Comercial (antiga), agências dos
bancos de Pernambuco e da Bahia, consulados estrangeiros,
escritórios, trapiches, uma fundição de ferro, pontes de embarque
cm número de dez.
) ()
-... .,..;
A Avenida da Paz:
h)iS desenhos do que é atualmente a Avenida da ~az
Ulll trecho residencial pitoresco, onde ~asas de um piso
1111 e lado a lado por baixo de um coqueiral e~tcnso. Ao
t Nll'1o Alto do Jacutinga, conhecido como Tabuleiro.
Nu desenho inglês não há sinais das gameleira_s derrubadas na
1 , , .·~orma de 191 l, feita pelo Intendente Luiz Mascarenhas,
~· 1111l.t H! . . • d d 11 as Talve7
"I ~nndo exterminar um foco de transm1sso1es e oc Ç · . d
1. , t to pelas dimensões reduzidas u
f. ln 1111~c11c 1 • possa se cxp 1c.tr an · .
i1111 do tlc~cnho do Almirnnhclo ( 1897) como pelo c.lcs1ntcrc~~c
de seu ª.utor pelos detalhes da paisagem.
. ~o fi~al da Avenida, próximos da atual Praça Sinim
ex1st1am d1ve_rs~s prédios maiores, por certo de utilização
firmas, repart1çoes do Governo ou residências de gente abasta
mostradas no desenho de 1869.
~-- --
,, .:
de No ~~d.o, plantado no Alto do Jacutinga, estava 0 antigo Farol
Macc10, inaugurado em 1857 e demolido em 1955 devido aos
desbarrancamentos da'enchente de 1949 e logo . 1 d
d J · t'nh ' unp ru1ta o no Altoo acrn 1 o.
>. Mais ao poente, próximo do Farol, estão a célebre Casa da
1olvora e os fundos da Igreja da Catedral, no canto esquerdo
superior.
5)
O Panorama Atual:
UIUd11 hoje o navegante passa pelo mesmo ponto estação dos
ltl l 1 Muller e do Almirru1tado inglês, quase nada lhe resta
~li 11
1·111 dos lrapiches'', nenhum prédio, mas o Trapiche Velho
'"ln Cl.,IC. Verifica-se que alguns foram demolidos como o da
1 1 1k Subão e sua ponte com guindaste no início da Pajuçara.
Ptt11li1 dL• Jaraguá foi ampliada para o mar por um aterro onde
hlcm o Porto de Maceió, o terminal açucareiro, o pier
mi 1111, os depósitos de combustível da Petrobrás e os amplos
1til 11s, onde ficava a Escola de Aprendizes. Ao fundo, os
ltll 1111 da Pajuçara cortam o céu. Uma ampla favela formou-se na
lttl 1 dt• Jaraguá, desde a entrada do Porto até quase a altura da
111~11 Ponte de Desembarque, inclusive ocupando as instalações da
11111.1 ( 'ibrazém, mostrando a evolução social do bairro e as
11 '"'' de uma população desamparada e que cresceu
111~·111osamente neste século que passa:
'wguem-se a sede da Federação Alagoana de Vela e Motor,
1111 .1 casas de favela e um coqueiral entre os velhos armazéns da
, Albuquerque. Mais ao fundo está o prédio da Alfândega que
1 ll1111c11te ainda testemunha o Velho Jaraguá. O prédio da
.11l1ação Comercial, inaugurado em 1928, domina a paisagem e,
1111.1 os que estão familiarizados com os desenhos, vê-se o que resta
i1,, l rnpiche Novo, um longo prédio que ocupa todo um quarteirão
1h ·de o extinto Produban com sua caixa d'água e até o Banco do
Jl1.1'iil. O Trapiche Faustino era onde fica o Bradesco, e nele se
'11111cleu a incrível façanha de deformar uma edificação vetusta e
, li~·w de beleza, que de nada atrapalhada a disposição interna de
11111.1 casa financeira. O Trapiche Segundo tem os fundos também
1ltl·1·ndos por estranho desenho circulante e feio. Por deformação
d11 arquitetura origi.nal, não se vêem com clareza os fundos do
l 1,1piche Jaraguá que era bem definido no final da Sá e
lhuquerque. Segue-se a Avenida da Paz cheia de edifícios que em
q11csc nada lembram o passado.
. O tão falado e pouco conhecido Aterro de Jarnguá foi feito por
111:1õcs sanitárias e para promover acesso do porto até n cidade,
lhcilitando n passagem dus carroças e suas mcrcndorins. A ohra nilo
é vist_a do ~ar e abrangeu a área pantanosa por trás das casas
A~emda ate as margens do SaJgadinho, e o nome Avenida da p
foi urna homenagem ao fim da Primeira Grande Guerra.
O Farol de Mac~ió: lampejando branco e encarnado, aparec
ag~a no Alt? do Jacmtmho e, mais para dentro no nível da praia,
estao.os moinhos de trigo, edifícios. No tabuleiro alto estão as
torres de TV e os grandes edifícios do Farol. Uma dessas torres de
aço, a da TV Gazeta, tem uma luz cintilante tão potente e alta que
u11:1 navegante avista. ao passar ao largo de São Miguel dos
Mtla~r~s, algumas milhas antes de boiar para ele 0 Farol de
Mace10, apenas quando passa ao largo de Barra de Santo Antônio.
~--;~~~;~~-~~--i~:i~~;;~~i-~~~;~--~~--~~~~;~~-----------
r 4 Jaraguá de 1902 tinha oito mil habitantes, quatro vezes mais <lo
q~e nos meados do século anterior. Havia no bairro quarenta e
cm~o ruas, duas praças e três mil edificações diversas/ Não havia
mais e~cravos e os. tempos eram de novidades mecânicas,
?1~der:11smo e velocidade antes desconhecida, palavra solta,
mutaya~ da moda estrange,ira, vontade de ficar livre do contrôle
econom~co ?e Pernambuco e da Bahia, para exportar tudo que
~esse dmhe1ro, negoci~r diretamente com ~ _Inglaterra, França,
Alemanha e Estados Uii.tdos. - ·
. O prog.ress~--iiavia chegado em todas as partes. O porto estava
ligado ao mtenor por 314 quilômetros de estradas de ferro da-
Cent:al Alagoana (Alagoas Railway) até União dos Palmares, com
rama~s ?e outras companhias para Viçosa, Glicério e Paulo Afonso,
esta ultima por concluir. '
Em 1.8~9, somente neste trecho de União correram 2.349 trens
numa ~ed1a mensal de vinte composições, levando I 09.781
pa~sage1ros ~ muita carga. Ligando Jaraguá ao éentro e outros
bairros da Cidade havia doze quilômetros de trilhos de bonde
burro,, e uma das estações da rede ficava no bairro. As exportaçõe:
de nçucar cresciam no índice de 2 em 1880, para 6 em 1890 e para
Hcm 1900. O algodão, que vinha subindo muito desde meados do
Ci4
lu p11i;1mdo, descera do índice 5,4 em 1890 para 1,2 em 1900.
Nu "Indicador Geral do Estado de Alagoas'', Edição M J
1ftlho e Murta, Maceió, ) 902, o Dr Francisco Isidoro assinalou
t • 11111'.iiasmo o progresso acelerado de Alagoas nas indústrias,
li 11 101 ngricultm·a, navegação e letras, mostrando que o Porto de
•Mllll era freqüentado diariamente pelos vapores de carga e
•ll~l·iros e que a Alfândega, satisfeita com as rendas, assinalava
1111111111 e saída de mercadorias numa escala nunca vista. Assim,
110ln se o sibilar das locomotivas nas linhas férreas e de
ltrlrn'l industriais'', e as lagoas eram singradas por uma frota
lh1tl1111tc de navios a vapor.
Wu'ins companhias de navegação freqüentavam Jaraguá, a Cia
lmd Brasileiro,"·éoin íil-ilias· 'para o norte e para o sul, Cia
P,11111111h11cana"'ê.lê Nai~€~i~?-~-Y~~.r1··cia Paraense da Navegação
V11prn , Cia gi:an: Pa@ fl~tl.!YWÇão, Ciá Náêional d.e NavegaÇão ·
11Mh·1111, Cia de Navegação a Vapor do Maranhão, Cia Baiana de
"' l'p11ção, clã"l age e "FrÍgÕrffiêos, Diq'ues Flutuantes, todas elas
11111 llHência em Jaraguá, na Rua da Alfandega.
t navegação estrangeira também estava presente: Hamburg
11d111m!riknfacne: ágente Brostelmãnn; Royal Mail Steam Packet~~- . ,.. ~ ···-·· .---~----.. - - ..
1 11111pnny, agente Williams & Cia, com subvensão do Estado
1 , l 11h:mentc suspensa~ Lamport & Hoolt, agente Pohlman & Cia e
N1111·d1;tscher Lloyd Bremen, agente Hans Seeger, com um paquete
11111 111ês e única com estritór1o no Centro. Mas somente no segundo
lllll''ltrc de 1901 e primeiro de 1902 chegaram a Jaraguá 1.479
1111!11rcações, das quais 263 de linhas regulares a vapor, num total
tl1 1/.113 tripulantes.
Pelo "Almanach Literário Alagoano" de 190l, o Porto de
l 11.1g11:í já era o sétimo do Brasil, "centro de comércio em grosso.
1 Iludo o seu panorama ao se avistar do mar, salientam-no
11~ M111s elegantes p-rédios e pontes (de embarque dos trapiches) e
o~ Inúmeros coqueiros com suas prãías e_o-farol ao cimo de mn.~
ttllo.0
Expo1tavarn-se açúcar, algodão, ~ilho,· feijão, arroz, fumo,
l111 l11ha de mandioca, coco, couro, cigarros~ ·sabão, álcool, frutas,
111.11ld1·ns, sal, tecid~s e produtos quín~icos. ~I~portá~a~m-s~-fariilhâ .,
dl· trigo, xarque, querosene, bacalhau, fazendas, quinquilharias, •
' 111hoH, annns, fen-agens, louças, produtos químicos e mecânicos,
11hj1.·tos de luxo.
55
"'
Para apoiar a presença aqui de estrangeiros residentes ou
passagem, e para atender às exigências comerciais, formou-se e
Jaraguá uma rica comunidade consular na Rua da Alfânde
Consulado da Alemanha e Dinamarca, F. Umbebaguem; Bélgi
José Rippel; Inglaterra, Charles Globe; ~u~~a e Noruega, K.
Macray; e m·ais Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, País
Baixos, Itália e Portugal, este na Rua do Comércio.
..... No que se refere ao açúcar, éramos o segundo Estado produt
e os melhores purgados estavam sendo produzidos na Região Nort
e escoados pelo porto de Recife, de onde seguiam para o Sul d
País levando marcas pernambucanas, o que era considerado u
"prática antipatriótica."
Apesar do mercado de São Paulo se encontrar em expans-
porque o café continuava contribuindo para o seu aument
demográfico e a diminuição dos canaviais, o Estado do Rio vinh
despontando como um sério concorrente. Vivia-se uma crise d
preço junto com alta de câmbio para dificultar as exportações
propiciar o abastecimento interno. Havia muitas queixas da
indústria e do comércio contra os pesados impostos, carestia do~
fretes, altas tarifas nas ferrovias, especuJação comercial e formação
de estoques considerados perigosos para a saúde das finanças.
Faltava capital aos negociantes, agricultores e industriais, o porto
da cidade era considerado deficiente para escoar a crescente
demanda de mercadorias.
-t> Havia também uma gue1Ta de tarifas de Estado a Estado e a
falta de bancos freiava a produção e o comércio, segundo queixas
da Associação Comercial com sede em Jaraguá.
> Mesmo com todas essas queixas proliferaram as agências
bancárias: Banco de Pernambuco, Banco do Recife, Banco Emissor
da Bahia, Caixa Comercial, Caixa de Montepio dbs Servidores do
Estado, Caixa Econômica, e o mais rico deles, o London and
Brasilian Bank, agente Pohlman & Cia, todos em Jaraguá, onde
havia também uma representação do Banco da República. As
firmas de consignações e representações eram nove, as de
corretores quatro, de seguros seis, de fazendas três, de moer café
1rês, mercearias três, padarias duas, refinarias de açúcar uma,
snpntnria uma, tavernas três, barbeiros dois, despachantes sete,
'(!
um 0 Dr Virgílio Tavares. Havia em Jaraguá os escritórios
..,~1tiois de açúcar: Leão, Sinimbu, Brasileiro, Appolinário
tlry, e de cinco fábricas de tecidos, uma indústria
' ,·bpalhada pelo Estado.
mllili importantes prédios de Jaraguá daqueles tempos e~am
H•mll•gn recém-construída, a Escola de Aprendizes
h liu~. a Ponte de Desembarque, a ~ecebedoria Central, a
1to11 Fonsecas, o Cemitério Nossa Senhora Mãe do Povo,
11~, ugência postal e telegráfica, agências de seguro, sedes ?e
~u111crciais, trapiches, bancos, fundições e uma refinana,
, Murítima da Via Férrea, Associação Comercial (a antiga),
ltnlnccte do Clube Phenix Alagoana,. Conse~h? Provincial
a111 do guarda. Despontava em prestígio o pred.10 da Es~ola
ptt1111lizes Marinheiros, onde estu~avam c:nto e vmte menmos
11 pnra o serviço da Armada Nacional, CUJa frente dava para a
l l'nt'.11 Manoel Duarte. , . . .
l>ttnlhc curioso é que não havia ainda em Jaragua comercio de .,.-
il'-""· modas e novidades, perfumaria, joalheria, farm~cia:,
1
1111• que, de certo modo, ainda hoje se observa, exceção feita as
Jr111'. .
Nr~1mdo Adalberto Marroquim, em "Terra das Alagoas", havia
Mlt• 111111wrn inusitado de jornais cm Jaraguá por volta dos anos
hH 11 trinta, sem se falar no "O Bacurau". Eram eles '_'A
llUtih1t'il'lo", de 1891, periódico crítico e noticioso, que saía nos dias
IV () e 30, e cujo diretor era Lúcio José de Souza, Rua
l~ll'dhciro Sá e Albuquerque, 69; "Democrata'', 1891 , órgão
Httu111l que se dizia defensor do povo, na Rua Barão de Jaraguá, 8;
C) l'1olctário", 1893, na defesa da classe operária; "Lyrio", 1901,
HllUtt11rio literário e noticioso, semanal, Rua da Igreja, 70; "O
t rrlnho", 1901, quinzenal de crítica; "Semana Comercial", de
11111 Lnvcnere, 1913.
l lnvia apenas um hotel anunciado, o "Comercial", de
p«>1mcdadc de José Simões & Cia, na Rua da ~lfündega .60,
ll ll"fonc 66. As firmas mais importantes do Comércio eram: Silva
l'crcirn Pinto (álcool, farinha de trigo e aguardente), e as de
portação de açúcar ou algodão: Cia Centro ~omercial, ~osé de
Amorim Leão, Polhman & Cia, Williams & Cia, de fannha de
hlKº· secos e molhados, sal, xarquc e bacalhau como José Maitins
57
Ferreira, Marques & Pereira Pinto, Silva Costa & Cia, Olive'
Lima & Cia, José Pereira Diegues, João Nunes Leite, Marcoli
Macedo, Brasileiro & Cia, Rafael Vaz & Cia, drogas e produt
químicos como Arthur Botelho, de louças como Pedro Vi
Padaria da Viúva Duarte, Sapataria de Canuto Passos, Fundição
Jacynto Nunes Leite, José Rippel e Tito Brandão, todas
proximidades da Estrada Nova e da Rua da Alfândega e Rua
Igreja. Não havia no bairro colégio particular, os do Governo n
constavam nas listas, nenhum alfaiate, apenas uma farmác'
chamada Popular, na Rua da Alfândega, 32. Existia uma fábrica
sabão da firma Basto Machado & Cia vendendo 600 caixas
semana, com 22 operários, dois prédios e trapiche na Pajuçara.
Usava-se eletricidade, mas o seu fornecimento pela "Empre
Luz Elétrica de Alagoas" deixava muito a desejar, pelo menos
opinião do povo. O capital da firma era nacional. Fazia ainda
iluminação de acetileno das ruas que eram consideradas escuras
apesar dos dois dínamos de 50 quilowats instalados em l 00 volts.
,1 Desde 1885 que a cidade tinha uma rede telefônica de dois
números, muitos dos quais, certamente, estavam em Jaraguá qu
era um dos quatro bairros da Cidade e o segundo em importância,
sendo Maceió (centro) o maior. Seguiam-se a Levada, Jacutinga
(atual Farol), e os subúrbios de Mangabeiras, Bom Parto, Mutange,
Trapiche e Bebedouro. Jaraguá por sua vez tinha dois arrabaldes:
Pajuçara e Poço. Pajuçara era um arrabalde "marítimo'', bastante
habitado, boas edificações de residências, a Capela de Nossa
Senhora da Conceição. No verão, ''é o refrigério das famílias
abastadas de Maceió para uso de banhos salgados", segundo o
Almanach 1901. O Poço era servido por linha de bonde a burro e
iluminado com luz elétrica, onde havia muitos sítios, chácaras e
residências com fruteiras, e apresentava um clima florescente e
aprazível, na opinião da época.
A humanidade de Jaraguá era a mais volátil de todas e por isto
vivia uma vida de trabalho. Os que lá passavam o dia, logo
pegavam um bonde, automóvel particular ou uma charrete para os
nrrnhaldes e bairros residenciais. Mesmo assim, havia razoável
c:onccntrnção de residências de classe alta e média na atual
Avcnido dn Paz. na Rua Santo Amaro, hoje Uruguai, ou no Poço, e
58
tlc 11111is pobre na Estrada Nova, Ouricuri ou Rato, próximo
fltlth1110 Nossa Senhora Mãe do Povo ou por dentro da Pontn
cr111 Foi justamente esta configuração dos mocambos,
ht1 l'nsas de porta e janela e boas residências do tipo casarão,
tt<l111i11 chácara, que ampliou o mapa de Jaraguá para os confins
Pu11t11 Verde, Mangabeiras e Cruz das Almas.
Mr11'fvcl modificação ocorreu na arquitetura do baino, se
111lli'i111 mos que ele termina'a nas proximidades da Praça
11111t11 Foi. como vimos, a Ponte <los Fonsccas que caiu nas
h llll''l <la Semana Santa de 1924, aqueb tromba d'dágua em
,. Rua do Imperador tomou tanta água que as casas foram
11d1d11" por sacos de areia. A poute era de ferro como as de )
Ih-, 111as as aguas arrancaram tudo trazendo para a cidade o .AJ
llhll' drama da falta de ligação com o porto e o arrabalde da
111".11.1.
e> <iovemador Costa Rego tentou um auxílio do Govemo
th 1.ll (c::,tá no seu relatório de Governo) mas nada conseguiu.
t 1 obra de reparação com o erário estadual. contratando o
ti~ 11hdro francês Sigaud. ex_i~i~do , no c_ontrato, que se
tlltM1111sse antes wna ponte provisona de madeira. Mas o bonde,
p1 ....ar por ela tinha que se livrar dos passa~~iros, porque a obra
t 11111nvn perigosamente nesses momentos. ro1 quando, no velho
1~l1 t11 hem alagoano de criticar sem conhecimento de causa, um
l lll'lllnr, ao ter que descer do b?nrle: chan1ou o Governador de
l1111 n, tendo quem o defendesse imediatamente afirmando que ~lc
11 honesto, que houve concorrência pública e que o engenheiro
111111 ntodo era competente, restando ao acusador rebater: " ... mas
1111111 ~·oisa está certa, ele não dá a ponte no prazo!" .
/ essa altura dos acontecimentos, progredia a civilização para
t• Lidos da Pajuçara. Iam surgindo os tipos famosos como_Al_yaro
r1111 llio, proprietário das terras do lugar sem saber o seu ~alor r~al,
1111111<1 especialmente num futuro que não demoraria muito.
J111111cm vermelhão, extrovertido, gordo, exuberante? que gostava
illl vestir-se de branco e de reunir os amigos debaixo de um enorme
üitlpio de palha para tomar água de coco e co~~rar peix:. Havia
111111h~m os proprietários da Ponta Verde, a Famtha Zu. Chico Z~1 e
Nl"lO Zu. Veio chegando então a moda de morar na prma.
~ ()
em veraneio, mas que eram para morar o tempo todo: Demócri
Gracindo na Vila Atlântica, Alfredo de Maya na Balança,
Jucá e Alfredo Oiticica nos Sete Coquefros, Fernandes Lima Filh
os Guimarães. os Reis, os Lessa, os Gonzaga, os Carnaúbas ...
Não esquecer que surgiu na época (1928) o prédio novo
Associação Comercial (alagado poucos dias depois no "rebojo"
_julho), depois da iarga polêmica sobre qual das plantás devia s
-escolhida cm dois ou três desenhos de sua fachada. Havia u
imposto sobre o volume exportado para a construção do prédi
motivo pelo qual todos os comerciantes tinham razões pa
polemizar a respeito. sendo finalmente escolhido o desenho q
hoje lá se encontra com aquelas colunas lembrando as cidade
gregas. Mas, na época, só havia em Maceió um ou doi
engenheiros capazes de construir prédio tão diferente, e nenhu
pedreiro para a empreitada, motivo de terem ido buscá-los e
-1~., Po1tugal. E aqui chegaram alguns como Manuel Teixe·

Medalhas, gordo, moreno e de hábitos rudes, que ficou prestigiad
na cidade a ponto de botar anúncio de construtor nos jornais;
pedreiro Manuel Almeida, que também se transformou em
construtor e que morreu afogado na Praia da Avenida, onde surgem
aqueles redemoinhos de água funda que leva o sujeito para fora. o
Almeida deixou saudades porque se tornou popular pelas suas
frases como aquela: "água não presta, só tomo cerveja".
Eles também construíram o prédio dos Leões na Sá e
Albuquerque com a Comendador Leão.
 .- No inexorável rolar do tempo, o que se vê atualmente é um
novo surto de modificações na paisagem de Jaraguá. A tecnologia e
o desenvolvimento econômico vão marcando o bairro com nova
roupagem: terminal açucareiro jogando açúcar direto nos porões
dos navios, tanques de petróleo em grande quantidade nos aterros
do po1to, a fábrica da Salgema no Sobral, Estação de Tratamento
de Esgotos, instalações para barcos de oceano na Federaçã9
llagoana de Vela e Motor, prenúncio de uma futura marina
moderna, guindastes imensos, moinhos de trigo, escritórios de
firmas de computador, .bancos e seus caixas eletrônicos, enormes
caminhões e carretas de açúcar, estranhas antenas de TV nunca ·
imagi11udas na época dos comandadores como Gustavo Paiva que ;
(1{)
Vlt til• rádio, volta e meia um avião a jato riscando os ares onde
,. fi11 HC avistava urubu, gente seminua andando na praia em
l111llcos, fazendo lembrar os índios caetés na época pré-
lln.1 1.. muitos anos antes da primeira casa de Jaraguá, feita por
un 1Antônio Duro.
61
Segunda Parte: O AMBIENTE
Está na penumbra do tempo como era Jaraguá antes
do Descobrimento. Na idéia de Moacyr Soares Pereira,
oa caetés não tinham morada fixa, sendo possível que
vivessem uma certa época entre os tabuleiros e outeiros
do interior e as pontas de Pajuçara e Jaraguá, nas
margens das lagoas e riachos próximos das baixas
dunas da praia.
Nos sobrados e trapiches da Sá e Albuquerque, não
dove a vida ter sido muito diferente do que foi no porto
do Recife ou no da Bahia de Todos os Santos,
guardadas as devidas proporções e diferenças do meio.
Jaraguá era um bairro portuário por excelência,
mbora com algumas áreas residenciais. Sua vocação
ora mais para o trabalho de exportar e importar, receber
visitantes marítimos, construir embarcações, armazenar,
obter lucros, promover a orgia e a luxúria, do que um
local de morar em palacetes como foi, por exemplo,
Bebedouro.
Aqui o mar se encontrava com a terra através de
navio's, botes, alvarengas, barcaças, catraias e pontes
cfo embarque, onde se fazia a vida fervilhar e se firmava
o progresso.
Félix Lima Júnior foi o homem que mais percebeu
Jaraguá social do século anterior e deste século que
J>assa, em seu livro "Maceió de Outrora", onde se vê
com clareza a alma da cidade e, certamente, a do bairro.
Seu trabalho só merece gratidão dos alagoanos.
l,llESENTAÇÃO DA SEGUNDA PARTE:
Segundo a historiadora Ivone dos Santos, a área onde se situa o
li1111 10 de Jaraguá é uma planície quaternária, de origem marinha,
11111· possuía formações antigas de dunas, hoje já aplainadas pelo
l111111cm. O topônimo Jaraguá, herança indígena, tem os seguintes
1t;,11ificados: iara (senhor) e iguá (bom) ou guá (pintado) - João
rvoriano da Fonseca; jara (senhor) e guá (enseada), enseada do
~•·11hor - Dias Cabral; yara-guá, enseada do ancoradouro ou yara-
11.1 enseada das canoas - Moreira e Silva.
l ~m 1818, quando da chegada do primeiro governador da
p111vincia, Sebastião de Melo Póvoas, Jaraguá era um local ermo.
1l, irmãos J~sé,. ~agaj_!!l ~-A.~!ô~io .Q?:ries ~~ Amorim,
p11dugueses, foram os J?rimeiro~ a _.constrúir. casas definifivàit no
li11frro, junta~~riiê c~~ JÔ~é·~A~tônio M~rtins, o responsável pela
•dtficação ·dá· ...éàpeÍa ·"Nôss--;.· ·senhora Mãe · do. Povo, qúe
p111v~velmeôte- "'se situava ~ e m "frente à igreja atual, pois
ilt1l'llmentãÇaó foto~áfi~i· ~te~ta existência de uma capela naquele
lm·111.
Falar ou escrever sobre Jaraguá é enfrentar o risco irreversível
tl1 cair no tópico."Desde que o ancoradouro incrementou o
1 omércio caeté no inicio do Século XIX, propiciando o aumento e a
1'1!)<1nsão econômica e demográfica do antigo povoado, dividido ao
1udo pelo riacho Maceió,)um torvelinho de literatura de todos os
11111tizes tem ~ido escrito sobre o arraial que era inicialmente um
w• unde areal. Poetas, cronistas, historiadores, memorialistas,
1111delistas têm escrito sobre o tema.
Já muito antes há ..burocráticos informes das autoridades
rnloniais sobre as excelências dos arrecifes que, além de servir de
11poio como um cais natural, formam uma barreira de proteção
l lllltra a ação das correntes marinhas, proporcionando segurança às
l'lllbarcações. Mas nem de longe esgotaram o veio brilhante do
65
bairro. São muitas as vertentes a explorar: o humano, o geográfico,
o arquitetônico, o antropológico, o folclórico, o econom1co, o
social, o político, o administrativo, o sanitário, o literário, o
poético, o boêmio. etc.
Que mistério, afinal, tem esse lugar de ruas apertadas, de
atmosfera romântica, onde se respira pura história? Por que essa
atração por um sítio que se apresenta como a própria síntese da
civilização das Alagoas, usando um termo cunhado por Jayme de
Altavila? Parece uma predestinação resistir à fúria destruidora de
nosso partimônio histórico e artístico esse enclave de monumentos
que - mesmo desgastados pelo tempo, modificados alguns prédios
pelas reformas urbanísticas - ainda mostram de forma nítida parte
de sua estrutura original. Tantos são os seus cantadores!
A história oral do bairro é riquíssima mas faltava algo, um
livro que - sem aquela característica de monografia erudita,
acadêmica, pesada, burocrática, factual - servisse para o leitor de
hoje. Faltava alguém com sólida formação historiográfica, e
experiência didática comprovada, que anancasse das narrações dos
mais antigos ou das páginas esmaecidas dos jornais e revistas os
enigmas de Jaraguá, as suas melhores recordações. Alguém que
fizesse isso de forma atraente, preservando a força dos muitos casos
e acontecimentos lembrados não só pela pesquisa bibliográfica mas
igualmente pela história popular, segredos que não estão escritos
cm nenhum livro. Seria possível? Sim. Finalmente encontramos
essa pessoa, que nos brinda com uma obra incomum. Vamos falar,
portanto, do pesquisador que ao procmar decifrar Jaraguá o fez
com uma vivência íntima e pessoal.
José Fernando de Maya Pedrosa, respeitado intelectual
conterrâneo, autor da mais completa obra sobre a segunda fase da
República Velha em Alagoas e, mais recentemente, da
interessantíssima ''Saga do Barcaceiro", nos oferece agora
''Histórias do Velho Jaraguá". Desde a publicação de sua última
obra percebe-se que o coração verde e amarelo do brioso soldado
sucumbiu à sedução do velho bairro, porto de muitas histórias.
Parafraseando Walter Benjamin, ele perfila-se aqui como o cronista
que narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e
pequenos, leva ein conta a verdade de que nada do que um dia
aconteceu pode ser considerado perdido para a história.
66
Variados assuntos são abordados - os trapiches, doenças e
r. gotos, o atentado a ~osta Rego, a velha ponte de desembarque, os
hondes de burro, os tipos exóticos, os novos costumes em conflito
1 om os velhos, acontecimentos da época da Il Guerra etc. _ , nurn
rmaranhado bem definido e articulado do historiador moderno que
11ba.ndona a rigidez metodológica tradicional e adota uma postura
111a1s aberta, dando ao leitor condições de compreender o
1111..>v~mento daq_uele burgo como um todo, de forma mais agradável
poss1vel. O hvro constitui uma imagem sem retoques de UIT1
pedaço importante de Alagoas.
Ele tem não só a importância devida como história social da
a1clhor qualidade mas ainda extrema atualidade nesse momento em
q11c se desenvolve a pleno vapor um projeto da Prefeitura
Municipal no sentido de dar vida nova ao bairro. Com efeito não é
.11fici.en~e o processo de restauração tisica de suas ruas e ~rédios
p1111c1pais, preservando o conjunto arquitetônico. É elogiável o
pwcesso de restauração, sim. Mas é necessário um cuidado especial
l lllll a memória histórica, com a presença do homem e os fatos
morridos naquele lugar; com as fonnas e padrões culturais de um
1111111do .que continua ainda presente nas narrativas populares, mas
ljlll' vai P?uco a pouco se tornando inaudível com a distância
11
111pora:. E _preciso u.~ trabalho de reconstituição para que essas
 111cs nao sejam defiruttvamente silenciadas.
~ trabalho de Maya Pedrosa é um toque de clarim para as
flllloridades que em boa hora decidiram revitalizar Jaraguá. Mostra
11 quanto se pode realizar também para reconstituir a história social
1h1 bairro. Há muito o que fazer para preservar a nossa memória. E
1111d11 mel?or do que . ~proveitar o momento atual, 0 grande
111prcendm1ento da ed1ltdade, antes que as lembranças de muitos
ll11·, que viveram a época dos negócios, da boemia da
11111tl~~iz~ção port~ária local, cessem para sempre. O proje~o de
ll'11h1htaçao do Recife velho serve como exemplo para nós. Lá foi
r111111ada uma equip_e interdisciplinar com o objetivo de projetar um
rla1111:0 ~a~a o bairro, ,resgatando não só seu valioso quadro
r11q111tetonico, mas tambem o urbanístico e cultural.
Vamos agora à leitura da obra de José Fernando. Vamos
ltt tl nrrer as ruas de Jaraguá, contemplando seus prédios, casas e
fU 111111,éns, lembrando que nqui viveram homens e mulheres cm
'ª-------
diferentes fases da história da província. Vamos resgatar a
produção de um denso lllÚverso, da vida alagoana, da realidade
alagoana. Jaraguá não é só um capítulo da nossa história - como já
foi dito, é a própria síntese da idiossincrasia alagoana.
Douglas Apratto Tenório, professor
aposentado da UFAL, historiador, sócio
efetivo do IHGA e da Academia Alagoana de
Letras.
( 'orno as doenças e esgotos andavam juntos.
No início do século, os médicos consideravam o litoral uma
'' 1•1ao doentia e lá estava Jaraguá com suas febres palustres,
1111:rmitentes e biliares, erisipelas, defluxos coqueluches e ainda
. ' '
111hcrculose, varíola e beribéri. Tudo seria conseqüência dos
p.1111anos que marcavam a paisagem, tanto os naturais como os
t111111ados pelo escoamento das águas fluviais e esgotos, das casas
•l'lll fossa que lançavam fezes e urina nas sarjetas a céu aberto,
1t11nção agravada pelas enxurradas de inverno, inundando ruas,
q11111tais e pátios, e que foi denunciada por Craveiro Costa na Parte
'111 do "Indicador 1902" assim: "Nada é mais prejudicial à
11lstência da população do que o armazenamento de nossas
1•t-reções lançadas·a ermo no terreno."
Segundo ele, o ar era viciado, o solo poluído e a situação das
1111ctas simplesmente imoral, podendo-se imaginar o que acontecia
l'111 Jaraguá portuário, região alagadiça por natureza.
._,
Muitas residências tinham seus poços de água de beber e
1111.inhar ao lado das fossas. Pela água ser incolor, julgavam que era
!.11a, mas "o seu uso lhe traz incômodos que são manifestos pela
1 or macilenta e doentia das pessoas". Era preciso também
~ ombater as epidemias palustres através da secagem de todas as
.1~uas expostas.
Cogitava-se de destruir os resíduos domésticos nas próprias
1 nsas, entregando depois à rede pública "um líquido quase puro
1lt• materiais orgânicos'', sendo este o "princípio mais simpático"
que já era adotado nas cidades européias através de reservatórios
.a11itários hermeticamente fechados, um em cada residência, sendo
"" fossas consideradas "deletérias", apesar de ainda estarem na
111oda.
Recomendava o Dr Alfredo Rego, na Parte V daquele
Indicador de 1902, um serviço regular de esgotos, a remoção do
lixo urbano, o saneamento da atmosfera através de praças
111 borizadas que seriam os pulmões da cidade, arborização,
1rntamento da água, motivo de contaminações, por ineficiência da
69
Companhia de Águas de Maceió que era "teimosa e acanhada de
cxigêncins de uma capital. que progride a cada dia". Havia
clamor popular pela falta de água, numa rede com apenas 900 ·
ligações, deis chafarizes e uma cai~a de água, tudo entregue a mãos
imperitas.
Não era por mais nem por menos que Jaraguá tinha um aspecto
desagradável. Muito progresso, muita mudança, muita gente
trabalhando junta e confinada, trapicheiros, estivadores, barcaceiros
no porto, escriturários, comerciantes grandes e pequenos,
funcionários aduaneiros, biscateiros, cocheiros e cobradores,
carroceiros, raparigas da vida e seus fregueses, os vagabundos 'de
rua, os desocupados e facadistas, viajantes e marinheiros querendo
viver o início do século, como se tudo agora fosse diferente e
prazenteiro, que tinha de ser gozado com sofreguidão.
Essa história nos faz lembrar as impressões da raposa andante
de Ledo Ivo, em "Ninho de Cobras", defrontando-se com as ruas e
sobrados do bairro antes de voltar ao centro da Cidade, onde foi
morta a pauladas: "Era como se ali, naqueles sobrados e gradis
ferrugentos e nas calçadas tortas e em declive, o homem se
tivesse empenhado em construir o seu primeiro e mais
resistente baluarte contra o mar e a evasão, levantando um
monumento que, mesmo à noite, cheirava a mercância e lucro
(...) janelas escondiam o amor e o ódio, a expiação e o terror, o
adultério e a sodomia (...) e dia e noite os relógios marcavam o
fluir do tédio e da espera insensata (...) nas portas cerradas das
fachadas leprosas, que o vento do mar fora ulcerando, jaziam
sacos de açúcar de banguê e de cebola, fardos de algodão,
aguardente, milho, coco, fibras têxteis ..."
E assim Jaraguá recebeu o Século XX. Por muito tempo não
seria tão diferente, porque novos agentes modificadores do
ambiente só chegariam quarenta anos depois - a guerra, o Cais do
Porto, as estradas, a industrialização do País, o aumento do
consumo e da produção do açúcar apenas pelas centrais, com a
trnnsformação dos engenhos em usinas, gerando a demolição das
pontes e dos trapiches, fazendo uma recomposição geral do
70
t 'omércio, o Governo Federal metido nas exportações, como se
11vcsse passado no bairro wn furacão modemizador. E a paisagem
, nmeçou novamente a mudar, terminada a fase de Manoel Antônio
1luro quando ergueu a primeira casa precisamente na Ponta de
lnruguá, por voHa de 1609, e a dos trapiches e suas pontes.
e'coto e cinqüenta anos de uma obra feia escoando
riqueza.
Olhando bem, Floriano Ivo Júnior tinha razão quando
111mparou as pontes de trapiche a "impassíveis lagartos colossais
,. tirando-se pela praia e mar adentro" (em "Crônicas e
1>cpoimentos'').
Podemos dizer que era como se estivessem tomando banho
d'ligua salgada, de sol e de lua, comessem bacalhau, secos e
111olhados e vomitassem açúcar, algodão, fumo e toras de madeira,
1111 mando uma exótica ecologia entre os seus pilares, na sombra
p~nnanente dos estrados, local de vícios, das necessidades
t1Hiológicas, dos urubus disputando detritos, carniça e lixo, peixe
1r.1t,tdo apodrecendo junto com cachorros, galinhas e gatos mortos,
111111hirus, guaiamuns, grauçás dorminhocos, lagartixas e cassacos.
Sentia-se, como escreveu seu irmão Ledo Ivo: o "odor de
t•vnsão e maresia (...), lixo acumulado como de fedor de
poliédricas e gosmentas defecações ... ", que se transmitia para
hdo o bairro, terra a dentro. Era o cheiro de Jaraguá, vindo da
p1aia, misturado ao dos trapiches e armazéns e suas mercadorias,
l hciro quase doce pelo açúcar que o temperava, e que penetrava em
111<10, " ••• entranhado nas pedras das ruas, nos retratos dos
1mtcpassados (...), prostitutas degredadas (...) , nos estribos dos
houd~s, no hálito dos despachantes, nas platibandas dos
!tOhrados, nos azulejos das igrejas, nas paredes sujas das casas
11ue abrigam aranhas e lacraias (...) até mesmo na alma das
t•1·inturas". jE lá estavam os trapiches, avançando "para o mar em estacas
"'·de-negras que, presumivelmente, haveriam de entrar para a
rternidade com sua imemor,vel solidez".
Jaraguá dos trapiches e de suas pontes teve início na segunda
década do século passado, acabando com a prática do transbordo de
carga na praia, como se fazia na época de Manuel Antônio Duro, no
contrabando, no descaminho e no comércio de pau-brasil.
-
Ponte do Trapicbe Jaraguá, de Leão e Cia,
1919, desenhada pelo autor.
Trapicbe Jaraguá e sua ponte, de Leão e Cia,
1919, desenhados pelo autor.
Como vimos, foi a Revolução Industrial na Europa que
permitiu tal mudança, pelo aumento do consumo de algodão,
72
li íacar e fumo, matérias primas das fábricas da Inglaterra e da
l•annça, e o aparecimento da força a vapor dos guindastes, dos
1111vios mais rápidos propulsados por hélice, e dos troles Decouville
11hre trilhos de aço, a transportarem as mercadorias dos trapiches
pura o porão das alvarengas, ou delas para os trapiches e armazéns,
1llntvés de atracações nas pontes, dando-se assim continuidade ao
lluxo de comércio.
Algumas pontes eram cobertas de telha ou folhas de zinco,
pn1edes de alvenaria ou madeira em longas áreas protegidas, onde
-.e estocava toda espécie de mercadorias acima das pontes de
pAlafitas de grossos troncos de massaranduba e sucupira para
depois embarcá-las nas alvarengas, obra sem elegância e beleza,
i.:i11zentas ou negras, descuidadas, edificações "monstrengas (...)
nota dissonante na beleza harmônica de nossas praias", na
imagem de Rita Palmeira na revista "O Natal" de 1943.
Ponte de Goulart e Cia, 1919, trecho
desenhado pelo autor.
Outros trapiches e pontes eram mais pobres, como se fossem
111scridos na escala social de seus próprios donos. Algumas não
tinham cobertura, eram singelas e pelo menos não enfeiavam tanto
11 paisagem, reduzindo-se a simples plataformas dos vagonetes e
~cus frilhos. Outras eram simples demais, como a Ponte do Sabão,
de Loureiro Barbosa e Cia, a única voltada para a Pajuçara, ou a
Ponte de Desembarque construída por Hugo Wilson em 1870. As
maiores chegavam a ser imponentes como a do Trapiche Jaraguá
dos Leões, a primeira de todas, vista desde longe, coberta. alta.
larga e comprida, no topo da hicrur.~q~u:iª:·--~---~--~-----;:-
Trapiche Julius Von Sohsten e Cia, ponte ·
descoberta, 1919, desenhado pelo autor.
Ponte do Sabão, de Loureiro Barbosa e Cia,
1919, descoberta, desenhada pelo autor. Ao
fundo, a fábrica.
" Segundo Félix Lima· Júnior em "Maceió de Outrora", . o
primeiro trapiche (com sua respectiva ponte, certamente) foi
construído p~lo português José Antônio de Aguiar, o mesmo que
morreu de susto ou de enfarte ouvindo os gritos da multidão no
"mata marinheiro" de 1831, quando se refugiou na Igreja Nossa
Senhora Mãe do Povo, a velha, por ele mandada construir também.
Este primeiro trapiche era o "Velho" da planta de Momay,,
11.lndo o ''Novo'.' surgido pouco antes de 1841, seguido do Trapiche
Faustino, o terceiro deles, construído por Faustino Fogaça da
Silveira.
No Desenho de Muller, datado de 1869, como vimos, já
1tpmcn:m quatro pontes e é bem possível que esta última tenha sido
110 l 111pichc Segundo. Na opinião do nosso Félix, havia em
11
lem•MUá, no ano de 1896, apenas quatro lrapicbcs: Segundo. Novo,
'"r"Mná e Faustino, podendo ter havido mudanças do suas
d~11on1inações ou alguma demolição.
No Desenho do Almirantado Britânico, também "from the
111 i>rnge", um ano depois, 1897, há cinco grandes trapiches e
1111ntro pontes, inclusive a Ponte de Desembarque, ~~~ ~an_s?ord~
til' passageiros, demolida em 1943, depois de 73 anos de vida
t11111úntica e operosa. ~
A Em 1902 havia outros cinco: Bandeira, Dois Irmãos, Pholman,
1'1·1cira Pinto e Williams e Cia, tendo alguns deles sofrido mudança
1k proprietário e de nome. Observa-se, então, que, em cinco anos
(1897-1902) dobrou-se o número de pontes, no enorme progresso
n 011ômico de Alagoas, tendo em Jaraguá o seu pulmão . Outras
1111un1 cedo demolidas por imprestáveis, como a de Pholman e Cia,
w1 19~7, e todas porque se tomaram inúteis com a construção do
l1111lo de Maceió inaugurado pelo1~esid~ri.te_Vargas, em outubro de
l1>·10. A ponte do Trapiche Faustino foi demolida em 1953, mas
llt'Oll na Históna porques erviu para o desembarque de Dcnn Pedro
-- - ~
11 t• da I~peratriz Th~za_Ç~is!ina no Ano Bom de l859. )(_
Um mapa de Maceió, ano 1932, dá um retrato do apogeu desta
piliSagem com nada menos de onze trapiches e suas pontes. E o
1·111·0 leitor poderá saber do local de alguns dos trapiches que se
11ulvaram e estão deformados pelo modernismo. ·
O T~apiche Jaraguá saía pelos fundos do seu armazém que lá ;
ltl' encontra, logo no início da Avenida da Paz, último da Sá e
Albuquerque, com os fundos para a praia, em cujo final está urna
dl•pendência de dois pisos, local do famoso Consulado Britânico,
1 c1'lamente preservado por ter pem1anecido '"i1as mãos de uma
l11mília conservadora e de apurada visão social, os Leões de Utinga.
Segue-se o Trapiche Segundo, cujo letreiroainda por lá existe.
l'lll sua fachada velha e carcomida, que nos comove somente ao
olhar. O Trapiche Faustino saía de trás do armazém do mesmo
uome, ou seja, daquele prédio do Bradesco. O Trapiche Novo tem
i11fcio no Banco do Brasil e termina no extinto Produban, o maior,
mais harmonioso e conservado de Jaraguá, porém um tanto
"modernizado".
75
•
Jaraguá, 1932, seus trapicbes e pontes, visão topográfica de uma gravura
época. Da direita para a esquerda: Trapiche Jaraguá, Trapicbe Seguod
Trapiche da Alfândega, Trapicbe Faustino, Trapiche Novo, Ponte d
Jaraguá, Trapicbe Williams, Trapicbe Pohlman, Trapiche da Grea
Western e um trapicbe não identificado. o mais à esquerda.
Trapicbe Novo, 1925.
Armazém de Goulart e Cia, 1919.
O trapiche da Firma era o Segundo.
Trnpichc de Williams e Cia, 1919.
Armazém e escritório de
Rosa e Borges e Cia, 1919.
Casa Suissa, 1919.
77
.lscritório de Williams e Cia, 1919.
ArmaLém de lona e Cia, 1919.
78
Armazém de Loureiro
Barbosa e Cia, 1919
Armazém de Julius Von
Sobsten e Cia, 1919.
Armazém de PC Vilela e Cia, 1919.
• " ·ritório de Peixoto e Cia, 1919.
Oh~: Todas as ilustrações de armazéns e trapiches nesse ano de 1.919 foram
1111hllcndas em "Tbe United Statrs of Braúl", "Tbe Soutb Amcrlcao
hth'lligtncc Co''. 1919, Londres.
A Ponte de Desembarque, já demolida, tinha início entre o
atual Museu da Imagem e do Som e o extinto Produban, numa
construção de bom gosto com três entradas sem porta, e em cujos
fundos começava o estrado sobre pilotis metálicos até um galpão
elegante, coberto com aprumo, de onde desciam as escadas para
transbordo dos passageiros, tudo infelizmente demolido. Dali, via-
se em terra a.Estátua da Liberdade, por trás da Recebedoria, aquel~
que migrou por algum tempo para a Praça Manoel Duarte e a que
ninguém dá hoje a menor importância.
Mais para o norte, pode-se identificar o Trapiche da Great
Westem para dentro e na curva que a linha de ferro faz para entrar
no Porto de Jaraguá. A Ponte do Sabão foi a que mais resistiu ao
tempo, ficando como monumento ao passado ainda há poucos anos
no início da Pajuçara, comido aos poucos pela maresia e soterrado
pelo incrível assoreamento da enseada, mostrando para a meninada
um passado que se perdia. E outros trapiches poderão ter sua
posição reconstituída entre aqueles prédios que existem desde a
cui:a da rua Epaminodas Gracindo, antiga do Araçá, até a Praça
Dois Leões, e que lá estão relativamente conservados. .
O pecado vivia bem na Sá e Albuquerque, pior nos becos e
ruas do Duque, Verde, Urubu, mais para dentro, muito pior pelos
fundos dos trapiches até a beira do mar, por baixo das pontes, ondç
se escondia tudo, desde a rapariga rampeira aos que praticavam o
sexo exótico na escuridão e no disfarce de uma floresta de troncos e
debaixo de tetos enormes, tendo como piso a areia salgada nem
sempre limpa pelas ondas do mar.
. Muitos freqüentadores daquelas paragens eram gente
~port~te, alguns recém-saídos dos bailes da Fênix, rondando por
ah movidos pelo apetite de suas perversões ou preferências sexuais.
E era uma tradição antiga, como assinalou Félix Lima Júnior em
"Maceió de Outrora'', assim: " ... certos cavalheiros, apreciadores
da lua cheia ou imitadores de Bilac, costumavam ouvir
"ti" . .es re as nas nmtes escuras e passeavam debaixo das pontes
dos trapiches de Jaraguá verificando se alguma baleia ou
algum peixão qualquer havia dado na praia ...", gente que foi
pnra a Ponte dõ Sabão ou ruínas da Igrejinha·da Ponta Verde
quando os trapiches foram demolidos, ou "passaram a se
80
rtunir à doce e convidativa sombra do Gogó da Ema e de
oulros coqueiros da família Zu ...".
Nas madrugadas boêmias, as raparigas que ficavam em
l111nguá, enquanto as companheiras iam até o Catolé com seus
f1t'Kueses ricos, costumavam tomar banhos matutinos de mar por
h1mco ou entre os trapiches, e alguns curiosos escondiam-se por trás
1111" estacas num anfiteatro clandestino.
Os trapiches e pontes marcaram cento e cinqüentª anos a
pulsagem de Jaraguá, no desfolhar interminável do calendário.
/ IMuma coisa restou de sua arquitetura um tanto bizarra e urnas
111111cas histórias ficaram além das que foram levadas para o túmulo
.11111 seus protagonistas.
Como não podia deixar de ser, a humanidade dos trapiches era
L'll(Ótica, desde o administrador melhorado, ou do proprietário
111stocrata, até os arrtimadores, trapicheiros, estivadores, vigias,
up~radores de guindaste, barcaceiros e marinheiros de alvarengas
1111l1cadas que se defrontavam com enormes portas corrediças.
Os trapicheiros, vistos de longe, pareciam um formigueiro em
111ividade. Todos eram da mesma cor, faziam movimentos iguais,
1ttl mesmo sentido ou no sentido contrário,·laborando sem parar,
Ageis e irrequietos, como se alguma coisa os fizesse agir por
1111tomatismo. Vestiam calça curta até os joelhos, invariávelrnente
ilt 111botada, com um bolso grande embutido do lado direito e às
v 1.cs surgindo depois da boca, de peito nu ou com uma camisa de
itnco de· estopa furado em três lugares, um deles no centro para
l'lllrar a cabeça e ficar mostrando a nuca, clavículas e parte superior
dn busto, os outros dois eram para os braços, mostrando os ombros,
l'l'Çn folgada por inteiro e chegando por baixo da cintura. Na
l 11hcça, um turbante de pano enrolado para proteger do peso dos
111cos e fardos, um lenço à moda dos piratas ou simplesmente o
11111 o dos cabelos encarapinhados, sempre melados de garapa e suor
•nlgado do corpo. Eram os trapicheiros "internados" que
trnhalhavarn "fixos", recebendo financiamento dos patrões no
1( rmino da safra para não fugirem antes de chegar o açúcar do
wnlo seguinte. Na safra, eles trabalhavam duro e sem parar no
trnnsporte braçal desde os trens da Great Western, caminhões
" carroças até os trapichcs, ou ainda dos trapiches para os
81
caminhões e carroças, em grupos de vinte e quatro a cinqüema
seis, dependendo do tamanho da firma, divididos invariavelme
em "temos" de oito.
Enquanto isso, faziam sua própria comida em panelas de b
fumaçando por trás dos trapiches ou na sombra das ponte
colocando nelas o que traziam de casa - um pedaço de charq
duas mãos de feijão, algum maxixe, colorau, couve, jerimum
uma quarta de toicinho, às vezes tripa frita, bucho de boi ou um
de porco salgado. Para o trabalho noturno levavam o seu lanche
pão crioulo com mariola embrulhado em papel de jornal, que
vezes nein tinham tempo de comer.
Quando a carga era muita e o navio tinha que zarpar log
emendavam a noite no dia, não se sabendo até hoje on
arranjavam tanta energia e disposição para agüentarem aquel
repuxo, mesmo comendo carne três vezes, café, almoço e jantar.
Como o exportador era obrigado a beneficiar o açúcar, ne
todos os trapicheiros ficavam no carrego dos sacos o tempo todo
Em levas de turno, retiravam o "bruto" dos sacos para espalhar tud
no sol numa área cimentada por trás dos trapiches, onde
deslocava o "boi" que era um rolo compressor de ferro, empurrad
para lá e para cá, quebrando os torrões e transformando tudo n
pasta úmida e pegajosa, depois seca pelos movimentos continuado
das pás virando o produto, para ser depois novamente ensacado e
pesado, na mesma balança romana, em sessenta quilos para
exportação.
Em alguns tipos, classificados com os nomes de cada firma,
havia mistura de mascavo com demerara, constando no papelório
dos despachantes, nominados nos escritórios comerciais, nos
bancos e nos importadores de fora, criando fama, preferência e
novas freguesias.
Depois de ensacado, o açúcar era colocado nos troles e
empurrado na rampa por dois ou três homens até a ponta do
lrapiche, naquele "pa, rá, pra, pá" que se ouvia longe. E, no fim da
ponte, vindo nos mesmos troles para os armazéns, chegava o açúcar
das barcaças que, na pequena cabotagem, transportavam o produto
desde os engenhos até Jaraguá, para preparo, reensacamento e
cmharquc nos navios.
K2
No final das pontes também estavam atracadas as alvarengas e
""11ças menores esperando carga ou descarregando. Mas, quando
t 11111ré estava seca ou a carga era muito pesada, os guindastes
111.w:un em trabalho porque ficava grande a distância entre o cais
di- ponte e o convés para embarque.
Não era só o açúcar que transitava nos trapiches. Havia o
•h1111ldo em fardos de noventa quilos, os pacotes de carga geral, de
h.tl1tlhau, fumo, couro, mamona, lã, madeira, cigarro, tonéis de
ml.u;o de duzentos litros, parafina, tecidos e algumas cargas
Ofll11cs que exigiam trato cuidadoso como louça e perfumaria,
~111111do os fiscais de turno, administradores e contratantes
tPil11bravam o controle dos trapicheiros para que não houvesse
&1111•lw~ nem no peso, nem na quantidade, nem avarias nas
fllllwlagens.
Curiosa diferença havia entre os trapicheiros, hoje chamados
li .irrumadores, e os homens da estiva. Como diziam eles mesmos,
(1 trnpicheiro trabalhava em terra enquanto o estivador ficava nos
tlhvtos, embarcado, arrumando ou aprontando a carga para
111•.,l·mbarque, metido nos seus porões ou no convés. Era por isso
11111· se costumava dizer que: "Quem trabalha embaixo não
1111holha em cima." Muita gente dizia também que tuna loita de
~ 11110 e quatro homens fazia melhor que se fossem trinta e dois
l111halhando, numa exótica matemática humana.
Volta e meia um rebocador fumacento dava chegada e levava
p111a os navios ao largo duas, três ou quatro alvarengas de uma vez,
ill' lá transportava outras tantas para atracar nas pontes, às vezes
1!111c11do mercadorias importadas.
Na loita havia agitação e gritaria. Lá para dentro ficavam o
11d111inistrador, preposto do proprietário do negócio, e um mundo de
wr11tc, como os contratantes e fiscais de turno, os "zangões" que
1111,iliavarn os despachantes colhendo amostras e pesando as
11wn.:ndorias chegadas ou para exportar, anotando tudo para o
l'"f'Clório. Nas portas dos armazéns ou escritórios, juntavam-se os
1111l!tores, agentes dos intermediários, como se fossem numa bolsa
<lc valores ao ar livre, ou dentro dos trapiches da Sá e Albuquerque
1 dn Barão de Jaraguá, negociando, adquirindo o açúcar para
83
depois vendê-lo aos exportadores do bairro.
Nos escritórios ficavam os empresários da exportação
quase nunca apareciam nos armazéns e trapiches porque o trab
braçal não combinava com eles, num ambiente grosseiro,
cheiroso, pegajoso, azedo, com abelhas pelos ares e pousando
cima dos sacos ou no chão onde meia polegada de um tapete d
de areia e melado formava uma massa adesiva e quente, como
resto todo o ar que se respirava.
Mas havia os armazéns de secos e molhados que eram limp
anumados, onde as cargas chegadas e saídas nos troles ficav
colocadas em pilhas ou lotes definidos, num visual agradável.
Nos escritórios se faziam os negócios e se administrava'
ambiente mais refinado de escriturários, contadores, geren
comandatários, afora os serviçais da limpeza, os que dav
recados, despachavam correspondência e faziam mandados.
Muitos anos se passaram nesse lufa-lufa de armazéns
trapiches, carroças, trens chegando do Vale do Mundaú, caminh
chegando de Murici, União, São Luiz do Quitunde e Ç.amaragi
portos e barrancas de rio, navios ao largo pegando açúcar
alvarengas em meio de barcaças, rebocadores, trotes, guindast
catraias. Até que um dia chegou uma nova onda de progresso ji
com a guerra e a constmção do cais do porto.
t Os caminhões vieram em quantidade, substituíram as carroç
ficaram maiores, as estradas melhoraram, as cargas movimentar
se direto para os navios atracados e chegou forte e poderoso o
- lnstituto do Açúcar e do Álcool com seus enormes armazéns p
um milhão de sàcos de demerara de exportação, construídos
Avenida Maceió esquina com Santa Leopoldina, -enquant
adormeciam os armazéns antigos, mudavam de ramo quase todo
os exportadores, o açúcar deixou de ser preparado naquela faina d
''boi" e da pá, enquanto morreram também os banguês, cresceram
as centrais açucareiras e o -Governo passou a cuidar de tudo isso,
até mesmo do comércio. Era o ocaso dos trapiches e pontes e o
surgimento de Jaraguá segunda metade do Século XX com o C~is
do Porto, depois o Terminal Açucareiro, Píer Petroleiro, tanques de
petróleo gigantescos. ~~ .
84
1h1s trapiches não se ouve mais falar. Um ou outro velho
u 1il111 do bairro, algum trapicheiro ou barcaceiro aposentado
11ul.1 m1 memória a movimentação da humanidade de Jaraguá até
1 11.0 superada, naqueles anos de muita vida, sofrimento e
Ah ,11io. Continua a loita do porto, mas ninguém da rua sente a
h11111o1111dade da estiva e da resistência, porque ficaram longe e
1111dns as áreas de trabalho, lá pelos lados da cabeça do cais, os
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Cumo uma obra serve ao riso e ao choro.
Longa e estreita como um caminho suspenso sobre colunas de
ti 11 o e estrado de madeira, lá estava a velha Ponte de Jaraguá, cuja
111.111Huração ocorreu no dia 7 de setembro de 1870. O fato
,, 1111lcceu depois de longos esforços dos governantes anteriores,
111.1'1 afinal foi José Bento da Cunha Figueiredo Júnior quem a
111.111dou construir pelo Engenheiro Hugo Wilson. Diziam que era
h1111ila e que enfeitava Maceió logo em sua entrada. Fim1ou-se
umo um ponto de reunião da sociedade, ricos e remediados, em
1111110 dos que se despediam ou chegavam de longas viagens
11u1rítimas que sempre acabavam por mudar suas vidas.
Ponte de Jaraguá, 1925. Fotografia retocada
pelo autor desse livro.
Distante umas quatrocentas braças da Ponta de Jaraguá ou da
Escola de Aprendizes Marinheiros, ela começava ao lado da
u..c
Recebedoria, antigo Consulado, e do Trapiche Novo e se adentrava
pelo mar até umas cem braças na maré baixa, muito próximo da
Estátua da Liberdade que dominava o cenário da praia.
Por ocasião de seu desmonte em 1943, deixou duas dezenas de
colunas de ferro plantadas nas areias da praia como monumentos
retos e escuros, desmoronando aos poucos pela ferrugem ou sendo
aterrados pelo violento assoreamento que chegou com o cais do
porto represando as correntezas do mar. Hoje, no mesmo local,
estão os barcos de oceano e lanchas em carretas de encalhe,
próximos da entrada do Porto de Maceió.
Quando foi enfim demolida. chegou a comover Rita Palmares
que escreveu na revista "O Natal" daquele ano " uma peça que viu
passar pelos seu lastro tantas aspirações, tantas saudades,
tantas emoções(...) e também tantas alegrias".
Eram os noivos que viajavam cm busca de situação melhor.
bacharéis que conseguiam cargos de promotor e até de juiz no distante
Pará, jovens aventureiros que iam sentar praça no Rio de Janeiro.
estudantes nos colégios e faculdades da Bahia e do Recife ou até mais
distantes, deixando lágrimas "sentidas e sinceras"; Era uma velhinha
mãe acenando lenço ensopado de lágrimas para os lados do filho
querido que, descendo as escadas da ponte para o bote, olhava para
cima quase a chorar, sofrendo assim para um dia "ser gente, fazer
figura".
Muitos saíam da província num clima de desconfiança, um
desfalque em que ficaram suspeitos, um defloramento onde não
queriam casar, uma dívida muito atrasada, uma acusação qualquer de
conspirador numa daquelas arruaças, uma briga com o pai. Mas
sempre lá estavam as mocinhas, noivas, amigas, irmãs, primas
chorosas, despedidas, flores, corações partidos, independente mesmo
do motivo da viagem.
Nem sempre os vapores fundeados ao largo levavam saudades.
De lá chegavam os viajantes, a remo. lentamente, em direção da
plataforma de atracação da ponte, chapéus nas mãos em aceno,
cabeleiras ao vento. retomados ao convívio. Em cima. esperando,
corações aos saltos, as mocinhas não tiravam os olhos do recém-
chcgado, o parente ou noivo diplomado doutor (vocábulo pronunciado
com emoção).
86
co... Çt.J.J
• 1
Quase rotina, iam e vinhflm os políticos, scmpro bem vc!'itldo!t,
AM vc1.cs de fraque e cartola, para conseguirem no Rio de Janeiro
u111 "reconhecimento de poderes", cansados de tanla campanha, atas
flls11~ e duplicatas de Câmara ou Senado Estadual seguindo no
ur.·11110 navio dois eleitos e diplomados para cada vaga no
l 1111wesso.
As vezes vinham em férias parlamentares para reverem o
;h-1lorado e a família no fim do ano. Era quando gemia o
111111lclrame sob os passos dos "chaleiras'', cabos eleitorais e amigos.
1 11
110 rol da ponte, guarita de zinco que abrigava os
111111111ngeiros de um sol causticante de dezembro ou de uma fria
thuva de agosto, era logo promovido o primeiro discurso",
t »undo Rita Palmeira.
,Imagine-se, irrompiam as manifestações sinceras ou insinceras:
- Viva o Senador Clementino ! gritou um animador.
- Alagoas se sente orgulhosa aos pés de seu filho ilustre e
l11victo! verberou um cabo eleitoral de Penedo.
E até hoje ninguém sabe se.o nome da Ponte devesse ser de
l 111barque ou de Desembarque. Os que gostavam mais da alegria
'"' chegada chamavam-na de Desembarque, mas a maioria preferia
1 denominação de "Ponte de Jaraguá". Tomou-se inútil, não pelo
111vclhecimento que até mesmo todas as coisas têm, mas porque o
1.1is do Porto permitiu o movimento direto e rápido dos
pm111ageiros entre a terra e os navios atracados, cujos capitães até
pt'Imitiam o embarque dos parentes e amigos para despedida dos
'lnjantes a bordo. Mas a Ponte era romântica, com o bote a se
ui.1star em remadas de ritmo, levando para cada vez mais longe,
lh·vagar, o viajante.
Tudo era charmoso e combinava com a arquitetura da obra e
t 11111 a n;mpagem das pessoas, enfim como se a sua cobertura final,
1111de a .rampa de bagagem e a escada de passageiros terminavam
111111 ondas do mar, fosse um quiosque de Paris, nas margens do
~rna, ou uma estação londrina no Tâmisa.
87
---------------------------------------------------------------------------------
Aquelas saudosas máquinas de levar gente.
Passou a época dos bondes de burro, cuja concessão d
governo já previa a mudança da tração·animal para a elétr~ca, fat
que aconteceu no dia 12 de outubro de 1913. A c.oncessao ago
era para uma firma particular chamada Companhia Alagoana d
Trilhos Urbanos, a famosa CATU, com sócios importantes no
comércio em Jaraguá e na indústria de tecidos: os Machados, ot
Leões, os Paivas, os Teixeira Basto, sobrenome de um patriar~a e
proprietário dos antigos bondes de burro que tantos serviços
vinham prestando à Cidade.
Mais adiante, em 1931, a "Trilhos Urbanos" passou às mãos ~
American Anford and Foreing Power Co, do Canadá, cuja
subsidiária aqui era a famosa Cê-Fê-Lê-Nê~Bê - .cFL:m -
Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil que, atr~v~s da
Tramway and Power Company Limited, explorava eletnc1dade,
telefones e transportes urbanos no Nordeste quase todo. E foi aqui
mesmo na Serraria Modelo, na·Avenida da Paz, que os dezesseis
primeiros bondes elétricos foram montados e pintados de marrom,
depois de amarelo, quando já eram vinte e seis. . _ .
Apesar das reclamações, o bonde era uma hgaçao eficiente
para o transporte de pessoal na linha Ponta da Terra-Cen~o,
passando por Jaraguá, estendendo-se depois até Bebedouro, assim
como a "Promotora" servia do Poço até a Levada, circulando no
Centro com transbordo para outras linhas. Construía-se, então, a
"Jacutinguense" para o alto do Farol. · .
Em 1890, a linha de bondes levou 598.768 passageuos
pagantes e 29.711 gratuitos por força das d~t~r~inaç~es. legais,
certamente soldados de polícia, guardas mumc1pa1s e indigentes.
Foi uma média de 1.722 passageiros por dia em 86 viagens de vinte
pessoas, num cálculo aproximativo, para que se tenha uma idéia do
esforço dos pobres asnos por cima dos trilhos.
Em meados do século, os bondes elétricos entraram em
decadência por falta de renovação dos equipamentos pela "Força e
Luz,, que já previa a concorrência avassaladora do ônibus. Havia
uma campanha contra os atrasos e élescuidos da Companhia que em
88
11nda correspondia à proverbial pontualidade e limpeza dos
cnnadenses. Foi feita também uma campanha popular liderada
pelo Vereador Paulo Pedrosa para que não acabassem com os
hondes, mas eles desapareceram de vez, deixando saudades de uma
pnisagem de tantos romances, jogos de futebol entre CSA e CRB
110 Mutange e na Pajuçara, Dia do Estudante a 8 de agosto,
l'Onvivência social sobre trilhos, encontros e desencontros.
1nmbém atropelamentos e mutilações, tiros e facadas, figuras
lolclóricas de seus motomeiros como o Bernardino, o Dezessete
1número de seu quepe), Catuaba e Pedrinho Colírio, depois zelador
do Garagem do CRB, e que, num dia de março de 1923, perdeu o
l·ontrole de seu bonde na Ladeira do Brito e entrou na primeira casa
tio Beco de São José, indo quase até a sua cozinha. E mereceu a
l''lcandalosa manchete de "O Bacurau" de 7 de abril : "Bonde
Versus Casa", revelando que o dono do imóvel se chamava
Antônio Bento Coelho e que a CATU o processaria por ter
l onstrufdo residência bem ali na curva final da ladeira, quando
1h.:via respeitar a possibilidade sempre presente de um
tlescarrilhamento ou perda de freio dos bondes!
Era como recordou emocionado o nosso Luiz Fernando, filho
ilo Velho Félix, o Dia do Estudante: " Nossa, quantas saudades:
nós meninos nunca saíamos, vez que três xerifes dominavam:
c;craldo Mota, Hélio China e um homão estrangeiro, um tal de
Urnyner (filho do Major do 4QRAN) ." Como disse, até sabão
1 olocavam na subida do Brito para o bonde "ir voltando,
'Oltando, voltando ..."
Seria uma pretensão escrev.er sobre os bondes sem consultar
1'1oriano Ivo Jr em suas "Crônicas e Depoimentos". Ele é um
r'lpirito de bondade, alma exuberante, cabeleira branca e leonina,
hnnspassada por óculos de fundo de garrafa que fazem de seus
olhos verdadeiras bolas de bilhar brancas e percutentes. Veremos
rutilo o bonde das doze com a estudantada do Liceu, do São José e
tio Diocesano, turminhas de mancebos, geralmente no reboque,
~ntpinhos de lindas mocinhas - hoje elegantes senhoras da
'locicdade - ali na frente, bancos uns virados para os outros, falando
1 umo periquitos irrequietos, mudando de lugar, levantando mnas,
'll'lllando-sc outras o tempo todo cm cochichos e sorrisos, ílertando
--~-
mais do que a namorar.
Vamos ainda mais para trás no tempo dos bondes de burro e
que os mortos ilustres eram sepultados na Piedade depois
uma viagem fúnebre naqueles carros negros passando na Rua
Alfândega, decorados com "cortinas de crepe e uma eça fori:ada
de veludo ao centro para o esquife", como ele mesmo, Flon
Ivo, escreveu, os acompanhantes, homens vestidos de preto (OI
mortos daquela época eram mais chorados) deixando as m~lh~rea
em casa ou na igreja rezando e chorando com as carp1deuas,
crianças afastadas o mais que fosse possível do defunto.
Mas os pobres que não tinham como alugar bonde,
transportavam seus mortos a braço ou em carroça de burro em
longos cortejos até o Cemitério de Nossa Senhora Mãe do Povo,
um sítio que, há anos atrás, era uma praia. E lá os deixavam,em
paz deitados para sempre no areal quente transpassado pelas ra1zes
do coqueiral em volta das sepulturas. Veremos também passarem
os bondes de segunda classe, com bancos laterais e espaço central,
mais feios e no entanto mais engraçados, com suas lotações
completas da criadagem, traQicheiros, prestamistas, gazeteiros,
estafetas da Western, contínuos, guardas-civis, raparigas da vida
fácil, soldados rasos, carregadores, biscateiros, vendedores
ambulantes com suas mercadorias: patos, galinhas, perus, latas de
sururu, caranguejos, peixe, embrulhos disformes com carne de
porco, ganchos com toicinho pendurado, verduras em cestos,
legumes e frutas, sarnburás, rolos de fumo, sacos de estopa,
quinquilharias. E, por isso:
- Lá vai a gaiola da CATU !, diziam.
Se tomássemos o bonde desfilaríamos pela Sá e Albuquerque e
entrarían1os na Avenida da Paz, felizmente já distantes do
cruzamento da linha com a Great Westem, onde havia o perigo da
cancela aberta para a composição prestes a desfilar pelo cruzamento
da rua, instantes depois levando o bonde de lado e fora dos trilhos,
gritos das mulheres, gemidos dos machucados. . ,
Mas chegamos incólumes perto da curva que nos levaria a
ponte sobre o Salgadinho, na Praça Sinimbu, e escutamos algJ.ns
gritos:
- Olha o poste! Olha o poste! Cuida do coco!
90
l 111 um poste que, fincado durante
111111tos anos no meio-fio, esperou e
1•111:ontrou o crânio de vanos
1m nulos e distraídos, pendurados
11•1 c::.tribo, que foram dormir no
11
1onto Socorro com as pernas
1 111 tadas ou no Cemitério da
l'1cdade com os pés juntos. O
pl•iigo ficava plantado a um metro
d.1 linha e a poucos centímetros
pl'lus costas dos "morcegos" como
1pclidaram os pingentes
•tl llmulados e pendurados uns
.obre os outros nos estribos,
111oçcegando".
I
Cenas como essas inspiraram a irnaguldl(âo popular para ouíta~
l11~tórias incríveis e difíceis de acreditar, como a do movimento das
l11boas que fonnavam os bancos, abrindo espaços momentâneos
rntre elas, beliscando e prendendo dedos, gorduras e partes
pr oeminentes do corpo dos passageiros do sexo masculino que
11 avam calças mais folgadas.
Naquel& curva da Rua do Araçá para a Sá e Albuquerque,
111uita gente tinha os testículos amassados por não escutar ou não
ncreditar nas advertências do povo:
- Olhe a curva! Olhe a curva!
·-------------------------------------------------------------------------------
e) fim de um veículo antigo e o surgimento de um novo.
Quantas carroças giravam em Maceió dos anos c.inqüenta?
lJns dizem que eram mil, ou até mais; outros que eram quinhentas e
tantas não se sabe ao certo.
Elas circulavam em toda a cidade, desde Bebedouro e Fernão
Velho até Cruz da Almas e Garça Torta com aquelas rodas
l'llOrmes e aro de metal fino, chegando em Jaraguá desde o
91
Trapiche da Barra e da Levada, trazendo invariavelmente dez sa
de açúcar de sessenta quilos ou seis de cem, até os armazéns onde
carroceiro manobrava pela rampa, descarregava e saía l'ogo e
seguida.
De um vagão de trem ou de um armazém mais distante,
carroça ..puxava" açúcar para outros trapiches de Jaraguá, ou p
embarque na Pajuçara.
Nos terrenos em volta dos trapiches, como aquele em frente
depósito da Sambra, próximo da linha de ferro e da Estação
Great Westem, pelos fundos dos trapiches da Sá e Albuquerque, o
em qualquer outro lugar, lá estavam elas esperando a ve
juntinhas, para carregar ou descarregar, seus muares balançando
rabo, naquela paciência de sempre, ajudados pela viseira q
limitava a comunicação lateral entre eles. Os carroceiros, e
grupos ao lado ou mesmo sentados na própria carroça ou pel
meio-fio das calçadas, com os relhos no colo ou por cima d
ombros, chapéus de palha defendendo o crânio do sol forte, fac
queimadas pela herança genética ou pelas vidas que levavam a cé
aberto.
Quase não se podiam distingüir umas carroças das outra
senão pelos pequenos sinais diferenciativos, pelo animal que
tracionava ou pelos seus carroceiros, porque eram quase iguai
entre si. Porém, quem as conhecesse bem tinha ciência de se
proprietários possuindo cinco ou dez - as carroças do Paiva,
carroças do Sadoc, as carroças do Atahyde (este um homem d
dinheiro), as do luzinha, sendo comum que o carroceiro fosse
próprio dono delas.
Mas eis que um dia qualquer, logo depois da guerra, percebe
se que os pequenos caminhões que traziam o açúcar do interio
também serviam para "puxar", e as carroças foram condenadas
morte. Por isso, fizeram os carroceiros um protesto e pedidos aos
donos do comércio, mas depois se confonnaram com o destino
inevitável que tiveram.
Alguns donos de carroça conseguiram ajuda dos amigos
endinheirados como Mauro Paiva, Tércio Wanderley, os Leões"
Brasileiro Galvão, os irmãos Borges, e compraram um ou dois
cominhões, dentre eles o Sadoc, o Paiva, o Mátio Beleza. Muitos
fornm sufocados, mudaram de ramo, pegaram cargas diversas por
C)l
1t1tlll a cidade, mas sempre reclamando:
- Vão acabar com as carroças e nós vamos morrer de fome!
Um daqueles caminhões Ford, Chevrolet, Dodge ou Studbaker
ll vuva setenta sacos de açúcar em duas pilhas de trinta e cinco,
t•paradas por um intervalo por onde os ajudantes penetravam com
"111ochilas," furavam os sacos e dele subtraíam dois ou três quilos,
11 que fez os exportadores detenninarem que a carga fosse arrumada
1·111 uma única pilha, depois aumentada para cem sacos, ou até
l l' IHO e vinte.
Modernizadas com pneumáticos de automóvel, ficaram as
1 111roças até hoje para contar sua história, pegando cargas de
qualquer espécie, atrapalhando o trânsito sem sofrerem os insultos
dos motoristas, no meio dos carros, ônibus, caminhões e enormes
 .1rretas, como se fossem espectros simpáticos, pacientes como o
l .irroceiro e o burro, ambos com cara de humilhados pelo seu atraso
ll'cnológico. Seria possível dizer:
- Morreram e não os avisaram ainda.
··-----------------------------------------,----------------------------------
l>a loita na Rede e de como assinavam carteira.
De um cubículo onde funcionava o escritório da Great
Wcstem, no "Trapiche da Rede", surgiu um funcionário com as
11111os em forma de cometa diante da boca:
- Olha aí, rapaziada, o SS 1 partiu de Maceió!
Na plataforma havia um aglomerado de gente banhada pelas
h11.es mortiças que penetravam na penumbra da noite, entre o vão e
o interior do trapiche. Eram os "ternos" de trapicheiros espalhados
no longo do alpendre que defendia a plataforma da chuva e do sol.
Lá estava também, erecto como um poste, o Contratante
8apucaia que fazia revista de uma ponta a outra da plataforma
lotando aqui e acolá com ,os fiscais, tomando nota dos homens,
liCparando em cada caderneta os contratados dos que eram "camisa
hrnnca" ou biscateiros,da safra. Na verdade, já estava preparando a
folha do sábado que nada mais era do que o somatório do salário
mm a produção de cada um, que lhe era entregue de madrugada
Ol
pelos fiscais. Agora seria só acompanhar a loita e ver se algum
homem não correspondia nem se desviava para conversar fiado no
descuido da fiscalização.
:'1º primei~o vão de uma porta corrediça gigantesca,
ficariam os três últimos vagões do trem, um temo de oito
trapicheiros falava calmamente sobre as coisas da vida deles,
notando-se logo que eram maiores e mais fortes do que os dos
outros grupos distribuídos ao longo da plataforma. Eram do "temo
avoador".
Ao lado, entre o primeiro e o segundo temos, um pouco
afastado, estava o Conferente Lauro Chagas com dois fiscais
acertando a descarga do SS 1, disposta numa folha de papel de
telegrafista, onde se lia wn memorial em várias vias de carbono:
- O SX 458 é o primeiro. Tome aqui ... carrega de São José
e União. O SX 401 também. É o segundo. O SX 856 também.
Depois de olhar novamente o memorial, continuou:
- Tome aqui, do quarto ao sétimo: Campo Verde no Nicho.
Veja os números direito. Veja se a cópia tá boa: SX 504, SX
832, SX 032, confere ? Os três do fim ficam para os
"avoadores". Carregam de Utinga Leão. Olhe, o SS 2 vai
passar na estação antes das nove. Olho nas pilhas e cuidado no
atraso. Sentido onde vão botar os sacos!
O "temo avoador" só tinha "dragão", uma outra espécie de
gente ~ue de~carregava um vagão de 41 7 sacos de sessenta quilos
em qumze minutos, enquanto os outros temos pouco iam além da
metade. Era tanta a força daquela gente que o pessoal de fora falava
de língua solta:
. - T~ tudo é maconhado! Mas o juízo não passava de engano
ou mveJa, porque entre eles mesmos a fama de muita força era da
carne em todas as refeições e feijão no almoço, "sustança" que não
tinha igual.
O grupo esperava o trem que apitou longo quando fez o
cruzamento da Ponte do Salgadinbo, também na Curva do
Oi.tizeiro, che~ando em segui.da à Estação, onde parou com aquele
ruido soprado Junto com o chiado arranhado dos freios e os passos
94
llijciros do manobreiro olhando a linha, já com o apito na boca,
quepe inglês da Rede empurrado na cabeça, como sempre
11prcssado, olhando de vez em quando para trás. E apitou,
11·-;pondido pelos ''triques" de um vagão batendo no outro, depois
tlu passar o trem no desvio para os armazéns, surgiu de ré, devagar,
desfilando na plataforma com as batidas compassadas e surdas das
111das nas emendas dos trilhos, largando vapor chiado dos freios. E
11.1rou obedecendo ao apito de advertência em silvo curto do
111nnobreiro. Ouviu-se então wn grito:
- Vamo lá, bando de macaco! Era alguém do "temo avoador"
para os lados dos novatos que compunham outros temos de
t.nmisa branca", gente inferior e verde como folha de cajarana no
111fcio do inverno. E correram no rumo das portas corrediças ou
husculhantes dos vagões, já autorizados pelo Chefe do Trem.
Imediatamente, quatro trapicheiros do temo galgaram da
pl,llaforma para o piso do último vagão, onde estavam as pilhas de
·111cos bem arrumados, seguidos por um conferente de prancheta na
mflo. Na plataforma estavam quatro "cabeceiros" em linha, prontos
pura receberem os sacos. E começava a loita.
Em poucos minutos, os homens ficaram com a musculatura
r...tufada brilhando pelo suor abundante e os reflexos da luz amarela
do armazém, ressaltando as formas de corpos bronzeados, sólidos e
h•mbrando gigantes de circo.
Pela distância entre o vagão e as pilhas no interior do armazém,
que era em média de vinte metros, e pelo tempo de quatro homens
descarregarem cada um cento e quatro sacos em quinze minutos, é
de se supor que trabalhassem numa média de doze a vinte
quilômetros por hora, dependendo se carregados ou retomando. Era
l lllCO vezes mais que o passo descansado de um contínuo da
Associação Comercial ou de um telegrafista do cabo submarino
itnindo do trabalho e indo pegar o bonde no ponto.
A cena era de beleza humana invulgar, ao mesmo tempo que
nos faz admirar hoje a marca da modernidade, na época do
rnmputador, das empilhadeiras e do tenninal açucareiro, cuja
...ithueta vista do mar aberto mais parece a de dinossauros
gigantescos lutando.
95
Tinham tanto desprezo pela força da gravidade e tão pouca
preguiça na alma, que se dedicavam, na folga, a curiosas
demonstrações em busca de fama, corridas de velocidade dentro
dos armazéns carregando vários sacos de uma só vez. como o
Severino que se deixou fotografar com dois na cabeça, um em cada
sovaco e um nos dentes, somando trezentos quilos. Um trapicheiro
conhecido por "Horrível" descolava com os dentes os sacos do
chão pegajoso numa pilha de dois metros. O trapicheiro Paraná,
vulgo "Foca", um negrão lustroso de um metro e oitenta, que
terminou a vida envenenado pela mulher e que comia dois quilos de
carne por dia, tinha o máximo prazer de mostrar sua força e
agilidade dentro do armazém, pedindo assim aos visitantes que por
lá chegavam:
- Fique aí sentado, camarada, para ver eu trabalhar.
Ele foi o dono do cadáver que Duda Calado, depois de fazer a
autópsia em busca do veneno que o abatera, cansou de dizer que se
tratava de um esqueleto de marfim. .
Havia também o Luiz Elefante, o Cirilo, o Antônio Fidolino, o
Pichilau, o Colomi, o Zé Miguel que saiu de Maceió queixando-se
de pouco desafio e mudou-se para Recife onde a "resistência" era
mais pesada ainda. Lá ganhou wn prêmio especial porque
trabalhou durante todos os turnos de um armazém, dia e noite,
durante trinta dias seguidos.
Não se pode dizer até hoje, e nunca se saberá, como aqueles
trapicheiros suportavam trabalhar das sete da noite às cinco da
manhã, prosseguindo depois de um café, das oito às treze, sem
pararem, durante toda a safra de setembro até abril ou maio.
O contratado de carteira assinada tinha a certeza de que, depoi
do trabalho maneiro das cargas de inverno, teria o ganha-pã
assegurado. Mas o "camisa branca'', que não era "infetivo", semp
recebia do Contramestre Sapucaia, todos os anos, uma sent~nç
arrasadora:
- Vá tirá o inverno. Não tem vaga, seguida de uma frase curta
e vagamente confortante:
- Volte em setembro, menino. Pode tê um biscaite ...
Cada trapicheiro velho tem uma história de como sua
carteiro foi assinada e dos desafios que venceu nos arrochos
C)(
Iniciais da vida.
O de Cirilo foi passar um dia e uma noite, jllllto com Fidolino,
ill''i~arregando de um vagão do SS 3, último trem da noite, uma
11.1111da velha de charque gordo prensado de Recife, com meia
pl)legada de gordura derretida no piso, cuidando para não deslizar e
110ndo os dedos do pé como ganchos, sem parar um instante
ll'Cebendo finalmente um veredicto do Contratante Sapucaia: '
- Vou assinar a carteira dele que dá pru trabalho!
.u ma outra prova do desprendimento pelo rude sofrer na
1cs1stência" era descarregar pacotes de couro cru que vinham
1podrecendo pelo interior quente do vagão "catacumba".
Vá descarregar a catacumba, meu velho, dizia 0
1 nntratante.
E nã~ ~a!ia aquele extra depois da loita, quando alguém gritava
111 cio escntono:
- Ai~~a ~em um "meio-carro" por aí, depois que a estação
ili Mace~o avisava pelo telégrafo que se devia deixar o trem de
ulta vazio de carga. Não seria por menos que os tapicheiros novos
1
·11111~ chamados também de "macacos" pelos mais velhos no
-t11
v1ço. E que fossem designados para as tarefas mais complicadas
1111110 aquela de subir numa escada de madeira de seis braças
111
l~cada P~~ cima de um monte de demerara e lá deixar um saco
l11fc1ro que Jª subia aberto, como se fosse um bruguelo de jumento
1111
colo para não cair açúcar dele antes da hora, e sob a
u·rnmendação do fiscal lá em baixo:
- Quebra em cima!
------------------------------------
('omo se entrava na Rede ~~i-;~-;~s;~~~-~~~--~~da.
.Um rapaz chamado Farias morava numa casinha na beira do
l nu1tnho por onde os trapicheiros, estivadores e ferroviários
111wmva~ de madrugada n~ rumo do trabalho, chegando pelo oitão
do Matriz ou da Sambra, vindos da Pajuçara.
~~asinha aqui, .casinha acolá, quase todas da mesma gente
h111111ld~ de Jaragua, moradores apreciando aquele espetáculo de
lollu dia, os rapazes nada mais pensando, como Farias. do ou
ser um portuário ou funcionário da Rede.
Para trapicheiro ou estivador ele não dava porque era franz'
e pequeno, embora sua musculatura fosse bem distribuída e sóli
sua agilidade fácil sugerindo que procurasse um trabalho m
maneiro e inteligente. E foi o que fez durante um certo tem
quando lhe disseram que queriam gente na Fábrica de Mosaicos
Paulo Pedrosa, ali na Avenida da Paz, e na Great Western, que
povo chamava de Rede. Mais próxima, a Rede também oferecia
atrativos do uniforme, coisa que o povo gostava de olhar e
funcionários de vestir, e, por isso mesmo, para lá se dirigiu logo
man11ã seguinte, melhor do que fazer mosaico de cimento bran
com aquelas prensas de dois pesos nas pontas, rodadas com força
girando no ar. Ainda apreensivo, Farias entrou pelo portão da Re
e foi encaminhado para as proximidades de um galpão on
trabalhavam vestidos de macacão mescla alguns .mecânicos, coi
que penetrou em seu espírito porque nunca tinha visto e fico
olhando. Aproximou-se dele, então, um funcionário gordo e baix
branqueio e cansado pela idade, que o povo chamava de ''Se
Bolão", metido numa túnica que segurava o ventre em forma d
saco, fechada até o pescoço por meia dúzia de botões amarelos d
tamanho de um tostão, que foi logo lhe perguntando sem mesmo
interessar pelo seu nome:
- Sabe ler e escrever?
- Dá pro gasto, seu moço, respondeu Farias com timidez.
Depois de um ditado que fez ali mesmo na rampa, usando um
lápis e um papel de embrufüo que o homem de túnica lhe deu,
Farias escutou depois o veredicto:
- Vosmicê não é analfabeto mas é desletrado.
amanhã com uma roupa limpa e outra para sujar.
Como Farias não era burro, logo concluiu que pegaria no
pesado por .muito tempo. De fato, quando voltou na madrugada
seguinte, lá estava o sujeito gordo que o levou para um desvio nos
fundos da oficina, onde havia um tênder, vagonete para transporte
de carvão. Diante dele, o homem explicou a razão de lá estarem:
- Olhe aqui, menino, eu peguei a Rede ainda novinha
<>8
nao menina-moça. Havia muito gringo mandando e muito
'r•1tileiro aprendendo aqui, trabalhan~o duro~ e tinha gente
til"" casava com a Rede e não saía mais daq~•· Pra e~trá na
Ih.te tinha que sê macho e brigar com o diabo no rnferno,
euviste? Fizeram comigo o que todo novato tem que fazer, e se
nAo vencê vai trabalhar noutras bandas.
Interrompeu um pouco a palavra para enrolar ~ cigarro de
t•nlhinha de milho verde, e acendê-lo bafor~ndo para cima e para_os
111itos, às vezes para baixo, continuando o discurso, enquanto Fanas
111i111t1rdava as surpresas do destino:
. ... tá vendo aquela pedra ali no chão? apontando para wn
l"·dnço de carvão do tamanho de uma jaca média: apois av~e ela
ih•ntro do tende. Se cair direitinho o emprego e seu. Se vier de
I~ de cima pra cair na sua cabeça você quebre de lado e pegue a
u1ln pela linha até o portão, pra nunca mais voltar.
No caminho de casa, Farias retirou do bolso o papel amassado
1111dc na véspera tinha escrito assim para seu examinador: .
_ Ditado! (lembrou-se de "Seu Bolão" com ares de autondade,
1iluilando o uniforme como que apertando a cintura c~m. os ~raços,
, ditando solene): O trem de ferro é a máquina mais mtehgente
llt•,huaguá. De tudo só não é boa de ladeira, mas o que arrasta
ttl'ln duzentas juntas de boi ...
Diante do fato, concluiu o Farias: é isto que vou ser, ~er:oviário
ilu Rede. E o serviço de Farias durante cinco anos fo~ limpar ~
1 h~o da oficina, lavar vagão e locomotiva, abastecer os tenderes _d~
1 urvão de pedra usando pá e até as mãos, carregar cepos de madeira
lirnndo as mãos de ferpas, dormentes, trilhos, ferran-:ientas,
11111cacos, cabos de aço. Depois Farias passou para a oficma de
upoio como apr~ndiz, onde foi mai_s cin~o anos mão-de-obra pa~a
1 urrcgar e descarregar vagão-oficina, limpar ferramentas, pohr
d. 't' a apertar um parafuso11uquinas, tempo em que apren ta na pra ica
1111 porca, bater um cravo, desmontar uma roda ou um trem de rodas
mm mola, barras, amortecedores, pinos e eixos ~om parafusos
~rundes, porcas e chaves pesadas, a~é que um dia chegou um
homem chamado Manoel Sarmento e disse para os presentes:
99
- O baixinho dá mesmo pro serviço.
Daí por diante, já com dez anos de Rede, foi levado p
auxiliar e logo depois chefiar turma para colocar trem na li
naqueles destemperos dos descarrilhos, e consertar vagões
locomotivas que chegavam em Jaraguá com uma placa vermelha
frente, com ordem superior de rodarem na manhã seguin
chovesse ou não chovesse.
Assim. trinta anos depois, Farias tomou-se o homem m
importante na manutenção da Rede. Mas, de tudo só alimenta u
mágoa: seu contracheque de aposentado, com trinta e cinco anos
serviço duro, é menor do que o do vizinho que, com apenas cin
de contínuo de banco, servindo cafezinho pros "dotô", sai para
trabalho às oito, almoça em casa, volta do trabalho às cinco
tarde.
E diz:
- No meu tempo eu saía às quatro e meia e nã_o tinha ho
de chegar.
Os ruídos também fazem memórias.
Jaraguá chegava a ser barulhento. Ouvia-se o ranger d
bondes em marcha, freando, fazendo a curva, passageiros baten
nas sinetas, motorneiro acionando a alavanca de movimentar
veículo em curtas travadas e destravadas, mas com os se
"triques'' perceptíveis de centelha rompendo o dielétrico da chav
servindo de alerta a quem estivesse adiante nos trilhos.
Do Cais do Po1to, ouviam-se os apitos dos rebocadores,
ranger dos guindastes e o assovio de seus vapores, os troles d
trapiches chiando por cima de seus trilhos, surdos quan
carregados ou suaves e quase musicais quando vazios, um ou out
fordeco de comendador ou coronel de engenho com aquela buzi
"aüa'', e a pancada compassada de seus motores, navios anunciand
chegada, partida ou pedindo prático.
Na Sá e Albuquerque e na Barão de Jaraguá ouviam-se
ti1intar das rodas das carroças a bun-o, com aqueles elos metálico
percutindo nas sobras dos paralalepípedos, carros de boi chiand
pela Estrada Nova e pelo Ouricuri para entregas vindas de lpioca,
100
U...·,L :·i ~ : , ·1 : -. ' i' .: •:T)"- • -' • 1 .. j  J-· ~...
CO~L t;;L).:,;.; t SPíCl.13
Mnngabeiras, Cruz das Almas, Trapiche da Barra, trazendo coco,
11111lerial de construção, madeiras, mudanças. Ouviam-se os
11noladores de faca, os soldadores de panela a percutirem nas peças
, ferramentas. apitando e gritando suas profissões, quase como
11·11ores ensaiando num teatro.
Jlavia os ambulantes de frutas, legumes, peixe, sururu, chapéus
l~ objetos de palha, raiz de remédio, galinha, caranguejo uçá ou
11.11uiamun, pato, galinha e peru, em incômodas posições pendurados
p •las pernas em longas varas de madeira, picolé e sorvete,
, 11chorro-quente, tapioca. cuscus. bolo de milho.
Na noite Já estavam as pensões da Sá e Albuquerque de cujas
j1111clas altas saíam amplificados os boleros, tangos e valsas de suas
v1trolas ou conjuntos ao vivo, de onde se destacavam pistões e
l lnrinetes, intercalados pelas palmas e vivas e às vezes tiros de
1cvólver de seus ruidosos freqüentadores e os gritos de mulheres se
111ostrando.
Muito perto dali, na Great Westem, chegavam três
rnmposições de dez vagões de açúcar por noite e um ou mais trens
1.·0111 carga avulsa do interior, apitando invariavelmente na Ponte do
"nlgadinho, na curva do Atayde e nas proximidades, ao romper a
murcha nos sinais, com os silvos estridentes dos manobreiros
1cspondidos pelos maquinistas em curtas apitadas de vapor, sons de
uviso e advertência que sempre eram seguidos pelas batidas
111ctálicas de um vagão no outro pelos seus engates folgados, e o
·11ssopro" da locomotiva ao romper a inércia que era percebida pelo
l hiar das rodas deslizando nos trilhos úmidos ou ensebados de
1111.:laço e gordura de xarque.
A Fundição Alagoana, que fabricava camas de ferro, arame,
l npachos, carrinhos para crianças, velocípedes, carretas, moendas,
·1111os, âncoras, etc, ali na Barão de Jaraguá, 65, praticamente no
l L'ntro do bairro, certa época deu para apitar a toda hora abusando
do povo, ficando p·or conta de "O Bacurau'' reclamar: "A Fundição
lugoana está bancando a locomotiva" com aquela enorme
"~nrganta metálica" desafinada.
Não era apenas a Fundição que apitava todos os dias nos
1111vidos de Jaraguá. Havia bem perto a Fábrica de Tecidos Santa
Murgarida, na Sá e Albuquerque com Mato Grosso, que despc11nva
1.l'do toda a população inocente desde a Pajuçarn até C'ntl dns
·~~-~
Almas, Avenida da Paz, Praça Sinimbu. Como era de se esperar, o
fato gerou descontentamento agravado por um motor barulhento
que chamavam de ''treme-terra", tamanha era a vibração qu•
transmitia ao solo, chegando o povo a dizer que era sentida no
Bonde da Mangabeira e ouvida pelos moleques da Rua das
Verduras quando botavam os ouvidos no trilho do trem.
Diante das reclamações, Luiz de Vasconcellos, seu dono,
mandara o funcionário Argemiro à redação de "O Bacurau", onde
prestara declarações irreverentes ou inventadas pelo Lafayette
Pacheco:
- O primeiro apito é para acordar os oitocentos operários, o
segundo é para tomarem banho, o terceiro é para tomarem
uma xícara de água quente com bolacha, e o quarto é para
darem entrada na fábrica. Os incomodados que se mudem.
O inglês Kenneth Macray reclamou no jornalzinho dizendo que
Londres tinha madrugadas silenciosas, apesar das suas centenas de
fábricas, porque os apitos de lá eram para o início do trabalho e não
para despertar os trabalhadores junto com a população da cidade.
como se fazia na Santa Margarida. Certa vez o motor "treme-terra"
da fábrica parou e se pôde dormir bem no bairro. Enquanto os
engenheiros debatiam-se com o problema, um grupo de moradores
da Praça do Rayol, conforme disseram ao "O Bacurau", liderados
por Jaime Daltavila (fantasia do Lafayette?), procurou uma
feiticeira do Pontal da Barra para que, através de um "serviço",
impedisse o motor de funcionar para sempre ... amém.
Havia, quase no Trapiche Jaraguá e em frente da Santa
Margarida, um prédio de amplas portas, onde funcionou muitos
anos a Fábrica de Mosaicos de Paulo Pedrosa. Todos os velhos e
maduros de Maceió sabem que seu proprietário era o homem mais
loquaz de Jaraguá (disputava com Dionísio Sobrinho) e que,
gargalhando junto com o Paulo Silveira ou comentando futebol
com Ib Gatto Falcão (ambos eram do CSA), era capaz de ser
ouvido na Recebedoria, quando os bondes não estavam passando.
Antes da Fábrica de Paulo Pedrosa se instalar, funcionava no
local a Serraria Modelo, a maior da cidade. Logo no início da
Avcnida da Paz, todos os sons que de lá partiam chegavam nas
l'lrc-as críticas do bairro, quais sejam: a Praça do Rayol e a Rua
102
"i1111lo Amaro, na antiga Estrada Nova e no início da Sá e
Alhuquerque, onde ficavam as residências e as principais
•~pnrtições bancárias, consulados, lojas e escritórios.
feve-se que suportar anos e anos aquele som cortante e
1q1cntino das serras circulares na madeira, irritando os ouvintes, o
1111c era um verdadeiro inferno de Dante, na hora em que os
1kmônios queriam torturar pelos ouvidos.
No segundo semestre de l922, o farol da cidade, posto no
lnl'Utinga, pelos . fundos da Catedral, lampejando branco e
rncarnado. andou fazendo tanto ruído noite a dentro que provocou
11•clamações da população porque gemia sem parar, bem alto e mais
11111da em certa área de seu círculo de trabalho, quando adquiria uma
1t111alidade grave, diferente por instantes, tendo um famoso
111.1tcmático, professor de muitas gerações, calculado, com base no
fl•mpo que demorava para fazer uma volta em velocidade constante,
que, nesse trecho de seu círculo, media-se trinta e dois graus. Era
ouvido no Aterro de Jaraguá e, diziam, nos dias de vento terra!,
também nos trapiches e no Porto. "Pobre farol ! Azeitai-o!",
implorava Lafayette Pacheco que fez publicar um bilhete escrito
pelo próprio farol e dirigido à Capitania dos Portos, no dia 9 de
cll'lembro: "... gemo a noite inteira (Senhor Capitão dos Portos),
h1I quase um ano, uma lamentação infinitamente dolorosa,
pedindo que me dêem azeite, que é a única bebida que trago
(...) incomodo, sem o querer, toda a cidade com meus chiados
111tcrmináveis, a ponto de já me detestarem", e a invencionice
popular ia adiante: "levarem-me no ridículo, comparando-me a
11111 carro de boi e me apelidando de farol arranhado".
Além dos ruídos poluidores de Jaraguá e seus arrabaldes, ainda
havia os que saíam da imaginação fértil de algumas pessoas. Os
•impos da Praça do Rayol inspiraram um gaiato que imaginou ter
"lido criado um conjunto intitulado de "Batutas do Rayol", um
1111têntico grêmio córeo-musical de batráquios para incomodar os
moradores enquanto ficavam escondidos na vegetação abundante
de um pântano lá existente. Era um composto aquático com as
1iguas de inverno ligando-se, pelo nascente, ao esgoto a céu aberto
ljllC vinha pela Rua da Igreja e, pelo poente, por um canal
_ltl..1,--~-
fedorento até o Salgadinho, ou escoando por cima do calçament
da Rua Santo Amaro. O povo organizara um grupo para solicit
providências das autoridades da Intendência e da Profilaxia
Higiene.
Inventaram que, na Chácara do Comendador Gustavo Paiva. n
Mangabeira, ocorreu uma história de certo rádio ondas curtas qu
deixou de falar para emitir sons esquisitos. chiados, pipoco
assovios, no momento em que seu dono e o amigo visitante Manoel
Afonso Viana, sócio da Dispensa Familiar e Cônsul de Portugal.
queriam ouvir as novidades daquele ano revolucionário de 1927
Diante da dificuldade momentânea de sintonizar o aparelho,
português cogitou de que os sons vinham de uma quartelada no Rio
de Janeiro, possivelmente o cerco do Catete ou do Palácio
Guanabara por agitadores solidários com os revoltosos da Coluna
Prestes. No som das granadas, depois de percorrerem os céus
cariocas com aquele assovio de advertência, e no matraquear das
metralhadoras e fuzilaria, o negociante lusitano, com aquela voz
gostosa de se imitar nas anedotas sobre seus patrícios, dissera
agitado assim: " Não, Seu Paiva, é Lisboa! Lisboa! Minha
Lisboa qii erida em chamas! Caiu o governo!"
Neste precioso instante, uma doméstica gorda, escura e cheia
de iniciativa, que servia café com bolo de goma aos dois amigos,
interrompeu a conversa assim:
- Seu Comendadô, não é nada não. É dois aribu que tão
atrapado nos fio do aparêio (a antena) brigando pru mode as
tripas do piru.
Na Rua Santo Amaro de 1925, havia uma família dada ao
piano, uma senhora mãe, duas filhas moças e uma tia idosa.
Naquela rua de casarões antigos, os sons do instrumento
reverberavam nas fachadas e nos telhados, depois de saírem de
duas amplas janelas do primeiro piso, ganhando dimensão e
ficando cada vez mais graves, na medida em que penetravam e
saíam novamente das salas de teto alto da vizinhança. Ninguém
ouvia mais nada, a não ser os acordes do piano (quase sempre em
repetidos e monótonos ensaios) em meio de um ou outro choro de
crinnçn querendo dormir. E veio a crítica sutil, uma forma de
ridículo, algo que as famílias abastadas mais temiam em sociedade.
104
Convenhamos que esta sinfonia tomou a Santo Amaro um
lnforno, principalmente quando tocavam aquelas baquianas de Villa
l 11hos consideradas por muitos como música de ninar defunto. Foi
pu1 isso que "O Bacurau'', de 22 de agosto, recebeu a visita de um
l(lltpo de moradores pedindo providências para que o proprietário
tll casa mandasse afinar o piano, e fizesse "o grande favor de
tomcçarem os ensaios às sete da noite e terminarem às nove, a
n111 de não perturbarem a vizinhança e não acordarem as
uhmças assustadas", e rehateu finalmente: "Aí fica o pedido."
E não era raro a população sofrer pela divina música. Os
moradores da Rua Santo Antônio e adjacências sofriam com os
r1111<tios de sábado e domingo da Banda Patriótica do Coronel João
'1·11uto, título honorífico não oficial para um conhecido
pruprietário de redes de pesca que as lançava por baixo dos
h11piches, merecendo também o apelido de "Almirante das Redes".
1 para ficarem livres, foram falar com o Delegado Domingos Lima,
1111hecido como "Sherlock de Jaraguá".
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eorno a propaganda vira uma piada.
Por volta dos meados do século, com a vulgarização do rádio e
1111 tipografia, desenfreiou-se a propaganda, e uma empresa
111111.:rária manifestou-se assim: "Se é nervoso, não leia. Se não é,
nc1uc sabendo que J. Barros Lima, estabelecido em casa
nwrtuâria na Rua Barão de Jaraguá, é agente de navegação
111•ra a Eternidade, fornece passagem de ida por preços à
vontade dos que ficam." Aproveitava o mote das propagandas de
llKCllcias de viagem e o prestígio de seus donos e usuários, sendo
l11111bém a mais perfeita demonstração de "status" passar por uma
1lrl11s e comprar passagem num paquete para a Europa ou mesmo
I' "•' o Rio de Janeiro. No caso do anúncio, o destino era o além,
1111dc ninguém queria ir, mas para onde, um dia qualquer, teriam
lodos que viajar.
As bebidas se transformavam em remédio: " Eduardo Melo,
nrnrn de beneficiamento, en~arrafamento e cxportaçno de
11uardente, estabelecida na Rua Comendador Leão, 740,
Ul'"-----
bebidas estas que quem experimenta gosta porque
conhecidas do povo. Beber Segura o Tombo, Gengibirra
Sensação é viver disposto para o trabalho e enfrentar a pró
vida". Ou então: "Liberdade! Alegria! É de que precisa t
essa gente para passar o Nata) Feliz . Por isso andou muito
avisado o Sr. João Davino enchendo a praça dessas d
afamadas marcas de aguardente . Viva-se bebendo Liberdad
Alegria. Nada de Tristeza!".
Outra: Armaz.ém Brasileiro, de João Batista Mendes, na S'Albuquerque, 201, "ze)a pelos vossos embarques precavend
contra futuros prejuízos! As vossas cargas são sempre b
cuidadas e a embarcaremos quer chova ou faça sol, com
maior solicitude e presteza". Isto combinava muito com
indumentária daquela gente operosa, de paletó, gravata e colete.
Exportação/Importação era atividade séria no vaivém
mercadorias e nenhuma firma promoveria jamais uma inve.rda
onde todos se conheciam e qualquer falha dava em ressentimentos
mágoas para o resto da vida. A garantia era, portanto, o fator m ·
valorizado por quem desejava vender bem e ter freguês certo.
A lucratividade era outro grande atrativo, pois a participa
do intermediário estava sempre presente entre o fabricante, o agen
no grosso do atacado para o fino do varejo, e o usuário comprado
E isto tinha que ser divulgado: "Armazém de Estiva - José Soar
~ Irmãos, Estabelecidos em l923, é o líder da praça, e
virtude de seus bons e baixos preços, qualidade de seus artig
e sobretudo pela modalidade de suas vendas. Proporcionam
bons lucros aos nossos fregueses e fazemos o maior empenh
por merecer a sua confiança." A firma tinha escritório no Cen
mas estava ligada a Jaraguá na sua estiva de charque, farinha de
trigo, manteiga, vinhos e conservas e ainda uma fábrica de massas.
alimentícias.
Havia os agradecimentos anuais pela preferência do freguês
certo, desinteressado em tomar preço em outras firmas só porque
contava com as atenções dos balconistas, com os quais estava
acostumado a tratar, e com o proprietário de longas décadas de
compra, fornece e paga: "José Simons & Cia, importadores de
ferragem, miudezas e artigos para navegação, agradecem aos
~cui1 clientes a preferência de suas compras durante o ano de
10()
144. E esperam merecer a mesma preferência no próximo ano,
pruveitando o ensejo para desejar a todos muito boas festas e
..,, l945. Jaraguá, Alagoas, dezembro de J944."
A liquidez também era um assunto sério, como no Armazém
df !•erro Velho, de Antônio Almeida, estabelecido na Rua Sá e
Alhuquerque, 650, onde se praticava o pagamento imediato.
O vocábulo "vantagem" (no bom sentido) aparece numa
ptopaganda da Fábrica de Mosaicos de Paulo Pedrosa, na Avenida
d1t Paz, 878, telefone 225, porque aquele piso dava: "higiene,
fftmomia, impermeabilização do solo, completo
dr111parecimento de pulgas ..." além da durabilidade, conforto e
t:l·gância.
Remédios e cosméticos eram fontes inesgotáveis de
f11t1paganda. O fabricante de remédios Gesteira pagou matéria para
11 Jornal de Alagoas, de 26 de julho de 1928, no que chamou de
Anúncio Protesto! Homens sem Honra! referindo-se às
l1tl11ificações de seus produtos cujos nomes aparecem em destaque:
"Ventre Livre"> infalível para prisão de ventre renitente, "Uterina"
r ''Regulador Gesteira", incomparáveis para curar o descomposto
d11~ mulheres. O tipo dizia-se representado em Nova York na
M111den Lane I 29 e garantiu que "tão grande ia a procura no
r•tr4tngeiro (de seus produtos) e tão exagerados e exorbitantes
110 os impostos no Brasil que me vi obrigado a manter outro
laboratório na América do Norte para poder fabricá-los e
nndê-los em outras nações por preços mais baratos"... mentira
1ll0
slavada.
A Perfumaria Lar Feliz aproveitou o mote para dizer que
11:ndia o medicamento "A Saúde da Mulher", aliás bastante famoso
nos anos vinte porque, segundo o anunciante, "Mulher Sadia,
Mitrido Contente, Lar Feliz".
Como as rugas foram sempre muito temidas, eis um anúncio
n>nvincente: "Adeus Rugas! 2 mil dólares de prêmio se elas não
desaparecerem. Experimente hoje mesmo Rugol."
O vennífugo "Tiro Seguro" é uma fórmula do Dr H.F. Peery.
O Pó de Arroz Gilka é o "único que não estraga a cutis".
Quanto aos restaurantes eram raros os anúncios, mas o Ponto
< hic afirmou que "já se pode rcfeiçoar magnificamente em
Maceió".
107
..
O periódico jaraguaense "O Bacurau", que se dizia órgã
ultra-social, antipolítico e humorístico, costumava, em se
números do ano de 1928, mostrar em um canto de página ce
vocação para autopropaganda assim: "Quem empresta O Bacura
não é filho de casal", ou "Bom ou Mau, O Bacurau", ou ain
"Enganar O Bacurau é enganar a própria velha", "Ler
Bacurau é viver no paraíso", "Desgraçado seja quem
Bacurau empresta".
E havia os diálogos ilustrados por desenhos que mais parecia
caricaturas:
CLIENTE (bolinhas num rosto de quem comeu e não gostou):
- Doutor, os mosquitos me desgraçaram a pele. E o qu
devo fazer? , MÉDICO (com cara de revoltado):
- Mosquito?!! Isto é Sífilis! Tome LUETYL.
Ou, a propósito ainda da temida sífilis, tem a do sujeit
desesperado que apontava um revólver para o próprio ouvido, co
os olhos já fechados, enquanto um amigo em frente, com a ca
mais indiferente do mundo, dizia:
- Calma, não se desespere, já existe o Elixir 914!
Era na época em que se fazia propaganda até do consumo de
energia: "Use Eletricidade! Companhia Força e Luz Nordestt
do Brasil".
E, càro leitor, por último vem um anúncio pertinente ao bai
em que a boemia era o forte nas longas noites tropicais das pensões
ruas da zona ou por baixo dos trapiches onde, por certo
campeavam as venéreas: "Que inferno! Útero doente. Qu
sofrimentos horríveis (...) arrepios, dormências, zumbido n
ouvidos, frio nos pés, coceiras, certas
hemorróidas:
- Regulador Gesteira é o remédio!"
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O choro do rico e do pobre em Jaraguá.
.;/ O povo de Jaraguá nunca deixou de chorar a vida. Os
comendadores choravam a queda do açúcar, o bloqueio, a crise
monetária, os atrasos na construção da "ponte'' (cais do porto)
108
e os 2% em ouro descontados do produto para sua construção, a
planta "rocambolesca"· da Associação Comercial, a inação do
Intendente, o Empréstimo Externo, o abandono das ruas do bairro,
11 ponto de surgir à luz do dia um jacaré correndo atrás das galinhas
e gente nas sarjetas da Rua da Igreja, a regularização da criadagem,
os mosquitos, os urubus, ratos e abelhas dos trapiches, o câmbio, a
hurocracia alfandegária, a derrubada das gameleiras do Aterro de
Jaraguá destrnídas pelo machado voraz da Intendência Municipal,
os atrasos na coleta de lixo, as visitas da Profilaxia Rural com os
luncionários metendo a mão nos potes de água de beber das casas.
Mas quem tinha mesmo razão de chorar eram os populares que
i-ofriam os efeitos daninhos das constantes crises econômicas, do
ntraso, da falta de higiene e inação das autoridades. E então
reclamavam de tudo: do Mercado São José sempre.'sujo e cercado
de restos de verdura, carne podre, lama e águas servidas, fezes e
mijo. dos ratos que uma vez mataram e comeram um porco velho
preso de sábado para segunda-feira, sem poder gritar, coitado,
porque lhe amordaçaram o queixo. Reclamavam dos
paralelepípedos proeminentes, das horas desacertadas dos relógios
públicos, das sarjetas onde cresciam piabas e carás, larvas de
mosquito, das más-criações dos vendedores de peixe e da ganância
dos pombeiros (intermediários), da falta de emprego, dos boateiros,
dos atrasos dos bondes da CATU, do impaludismo, da brutalidade
dos carroceiros, dos moleques e maloqueiros que se juntavam para
rnaconhar na praia e nos quintais baldios, dos perigos de
atropelamento pelos bondes e trens na famosa cancela da Great
Westem, das enchentes como a de 1924 e das autênticas lagoas que
se formavam no inverno, como a do Rayol e da Rua do Araçá com
a Rua do Cravo, da incapacidade da Profilaxia Rural e do preço dos
alimentos, passagens, tecidos.
Na linha de frente dos observadores da vida alheia e dos
satíricos estava ''O Bacurau", em busca do falatório das ruas e
reclamações, críticas e ironias. Dele se anotaram os registros para a
história: nos invernos brabos da década dos anos vinte, formaram-
sc verdadeiras lagoas em Jaraguá. Falaram até que o Luiz de
Vasconcellos iria construir uma represa no Rayol para fabricar
energia elétrica para a Fábrica Santa Margarida, dispensando o
motor "treme-terra" e !Cll wmbustivcl. A Rua do Queimado era
---~-
um desastre e muitas vezes seus moradores usavam até jangadas e
canoas para chegarem nos bondes, o que mereceu uma charge
daquele jomalzinho, onde um pobre carregava um gereré nas c~s~s
e um puçá nas mãos, sendo altercado por um guarda que o pr01bira
de pescar, por não possuir licença de pescador, no que respondera:
- Eu vou pescar camarão num brejo que tem na Rua do
Queimado e tenho consentimento do Dr. Firmino (de
Vasconcellos, prefeito).
Devido aos constantes atropelamentos pelos trens da Great
Westem, principalmente próximo da cancela da Sá e Albuquerque,
um popular chamado Aloísio, exaltado, dizendo-se indignado com
a omissão das autoridades, deu vários tiros de revólver numa
composição ferroviária que cortara os pés de uma criança, ctias
depois de atropelar um burro e de matar uma senhora distraída. O
povo chegou a apelidar a locomotiva de "sanguinolenta".
Reclamavam da falta de assistência do Pronto Socorro que às
vezes atrasava horas para atender como no caso de um marinheiro
do vapor Borborema que, em 1923, teve que ser transportado a
braço depois de ficar três horas na calçada do Trapiche Novo
agonizando por falta de transporte.
Lá pelos idos da guerra, o pessoal reclamou do racionamento
de comida, da escuridão da cidade para que não fosse bombardeada
pelos submarinos, das três inaugurações do cais da Geobra, wna
quase no fim das obras, outra quando foi possível atracar algum
navio e, fmalmente, pelo Presidente Yargas, mesmo assim antes de
terminada a construção. Mas, no final, confirmava-se, o alagoano é
assim mesmo, chora. chora, mas logo vai sorrir, uns com as tolices
dos outros. Ninguém jamais morreu porque chorava nessas bandas
de Jaraguá.
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A visão de um padre jovem sobre o namoro.
Padre Orestes, desde a época da Segunda Guerra Mundial, já
estranhava a devassidão imposta pelo cinema e pela liberalização
dos costumes numa sociedade conservadora e por muitos anos
imut:lvcl como granito.
110
Diante do espetáculo que testemunhava nas areias da Pajuçara,
nas praças e nos bondes que passavam em Jaraguá, no Cinema
REX ou nos postes e no coreto da Avenida, no colégio, no salão de
bAile, na rua, o sacerdote, novinho ainda, lançou o seu protesto
contra a tão violenta transformação nos costumes: "Os tempos
nndam bem mudados. Antigamente era muito diferente de hoje.
Não se falava em namoro nem se namorava com tanta
displicência como em nossos dias. Namorar era coisa muito
.-iéria, reservada a quem pretendia se casar. E sabe Deus como
-ie fazia isto. Com muita decência, muita reserva."
Recordou então para a Revista "O Natal", de 1944, que os
namorados antigamente andavam separados, mas agora ficavam
1untos o tempo todo - "Ela não pode mais viver sem ele", disse.
E mais, vão para o colégio com a cabeça cheia, um pensando
110 outro, enquanto os pais estão aprovando tudo corno é, e triste de
quem afim1ar o contrário.
O namoro seria assim como um passatempo: "Namorar é
hrincar, dizem os apologistas do amor livre" (nem de longe a
utual interpretação). E o futuro desta geração nada prometia de
hom, porque nesta escola paganizada "facilmente empenhará o
wu coração por qualquer sorriso, qualquer olhar, qualquer
nmversa...". Mostra também os perigos de brincar com o coração,
l~·111brando a todos que teremos outra vida e que o rodízio entre
 111 ios amores acaba sendo como usar vários perfumes, alertando
para a qualidade de uma futura esposa, "se triunfar este amor
Ih1·e que tanto ameaça destruir" .
Será que Orestes não tinlia razão? Pelo menos quando previu o
tl1°'injuste familiar dos dias atuais, os sentimentos mais nobres
1rduzidos ao passageiro orgasmo? Quando homem muda de
11111lher e mulher muda de homem sem casamento novo, como se
1 -.o Deus aprovasse ...
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natureza mostra a pequenez do homem e de suas obras.
Nnvegnntcs antigos fizeram referência aos perigos do
1111u1rndouro de Juragun nos meses invemosos. Além do u~c. cou111n
no rodapé do Plano de José Fernandes Portugal, de 1803, o Contra
Almirante de França e Barão de Roussin, em missão hidrográfi
de seu rei, escreveu, em 1820, a respeito de nosso porto: "... mi
os recifes que os resguardam dos ventos do largo, não há cont
eles sobre esta costa nenhum refúgio para a monção do sul."
Adiante, em 1835, o almirante britânico Sir Ross comentou
ancoradouro de Jaraguá dizendo que era perigoso no inverno e qu
nele "... os navios brasileiros naufragavam freqüentemente".
que um brigue inglês, não fazia muito tempo. "... perdeu suas
âncoras e rompeu o seu leme em um golpe de vento".
Muitos anos se passaram sem que a estação das chuvas des
perigo sério para as embarcações que procuravam Jaraguá. E at6
hoje, muitos invernos se passam, anos e anos, décadas, e os
"rebojos" de inverno não chegam a provocar danos e perdas de--
pessoal. Muitas vezes ocorrem chuvas torrenciais como as de
Sexta-Feira da Paixão de 1924, ou a famosa tromba d'água de
1949, sem que o mar sinta as tensões da natureza. Mas há vezes,
como em 1904 e 1928, em que as chuvas aparecem discretas mas o
mar apresenta ondas ftu"iosas.
Um jovem de nossos dias talvez permaneça incrédulo se
alguém lhe disser que, num ano qualquer, ondas de dois ou mesmo
três metros poderão escalar a Avenida da Paz.
Mas, num determinado inverno, a natureza resolve mostrar sua
fúria e o fundeio em Jaraguá toma-se pesadelo repentino e
insuportável, quando o vento sopra forte e penetra na enseada
desabrigada, levantando um mar de força descomunal. É quando os
vagalhões, que viajam milhares de milhas dos mares altos e
distantes, chegam nos recifes da Pajuçara e se rebentam em
espumas ou penetram arvorados na Enseada de Jaraguá,
encurralados em profundidades menores, como línguas
monstruosas de água e cristas brancas a desabarem de uma vez,
provocando ruído de trovão.
Daí por diante, seus rolões brancos formam um quase contínuo
turbilhão, prenunciando a morte e a destruição em seu caminho.
Não há embarcação que resista, não há homem, por melhor
nadador que seja, que possa ílutuar neste inferno líquido por mais
do que alguns poucos minutos. E as águas desobedecem a
112
limites naturais de contenção na praia e escalam o seco, passam
pl!las ruas laterais de Jaraguá e vão colidir nos prédios da Sá e
 lbuquerque para inundar armazéns e porões, arrastar pelo chão
l" ssoas e animais, entortar postes de luz, derrubar muros e paredes,
111undar os porões da Associação Comercial.
Na tarde do dia 24 de julho de 19~8, quem estivesse na
 vcnida da Paz olhando o horizonte teria pela frente um mar
L lllmo, com pequenas ondas esparsas deslizando na areia em longas
lilas de espuma branca. Era uma terça-fe,ira de trabalho, mas os
passageiros ci2.s bondes para o Cengo, sempre de caras vÕltadas
para o leste, gostariam de tomar um banho de mar. Há dois dias os
1omais da Cidade anunciavam tempo bom e despejado.
Ao largo estavam os navios de cabotagem fundeados ou
lcrindo a linha do horizonte chegando em Maceió, o Borborema, o
C'ubatão do Lloyd Brasileiro, o sueco Orania, o Itaipu do Lloyd
Nncional e o Baron Kelvin, nos quais as alvarengas atracavam a
t ontrabordo para carga e descarga.
Da praia se divisavam os sacos de açúcar e fardos de
111crcadorias, latas · de querosene e gasolina empilhados,
11111spendidos ou abaixados pelos guindastes de bordo em sua faina
1otineira. Do Orania desciam fardos de bacalhau em cinco mil
harricas importadas por Brasileiro Galvão e Cia. Os rebocadores
lumacentos levavam de vez em quando alvarengas para o largo, e
lra:Liam outras para as pontes, onde ficavam atracadas a
contrabordo e ligadas por pranchas, esperando os trapicheiros da
1csistência e estivadores, levando e trazendo na cabeça a carga
1ctirada de troles pequenos por cima de longos trilhos, desde os
trupiches até os guindastes ou diretamente nos porões.
Pela tardinha, as embarcações se recolheram ao ancoradouro
lim frente ou pennaneceram atracadas, iluminadas discretamente
pelo sol vermelho e invernoso caindo pelos lados do Pontal da
Bnrra. As pessoas foram para casa descansar, alguns marinheiros
11caram nas alvarengas para vigilância, os rebocadores pararam os
111otores, cobriram-se de lona as mercadorias ao relento nos
lrnpiches e troles, fecharam-se as portas dos trapiches, as raparigas
dn vida despertaram do sono vespertino para fazerem a cútis,
porque a freguesia logo estaria encostando nas pensões de sobrado.
Eram 22.30 horas quando as primeiras lufadas de vento sul
percorreram a enseada e fizeram as proas das alvarengas o
rebocadores voltarem-se para lá. Em poucos minutos, o vento
~~n~ou st.. muito fo~e, seguido de um trem de onda:, qm, quebrnva
m1c1almente na beira da praia, depois no meio das embarcações
mais ao largo, em seguida antes delas, promovendo a desordem e
fazendo-as bater umas nas outras ou contra os trapiches, quando
atracadas. Não demorou muito tempo, as alvarengas mais pesadas
e carregadas arrastaram suas âncoras e colidiram com as outras
mais a sotavento e com os rebocadores também próximos, presas
umas nas outras pelas amarras que se cruzavam na confusão. Os
lançantes e traveses das que estavam atracadas já não suportavam
mais os trancões das ondas, escariando-se no roçar dos moirões e
nos próprios cscovéns e corrimões, e se rompiam, deixando que as
embarcações dessem na praia, numa posição de través para as águas
e vento. o que fazia com que os vagalhões robustos, ao subirem na
rampa da praia, por cima delas passassem cm esguichos que:
chegavam a alguns metros de altura. As ondas desfeitas, numa fila
que tomava igualmente todas as pontes, provocavam unânime ruido
nos seus pilares em linha, como uma serra gigantesca trabalhando,
e o choque das águas mais acima nos muros de contenção do~
trap1ches. algo semelhante a uma explosão.
Por volta da meia-noite, correu o alarme por mensageiros e
pelo telefone da Delegacia do Distrito de Jaraguá, onde estava 0
delegado Eduardo Silveira, e do pessoal de serviço no prédio da
Es.cola de Aprendizes Marinheiros, logo ali na Ponta de Jaraguá,
acionando a Guarda-Civil, o Inspetor e o pessoal da Algândega, o
Guarda-Mor, a Polícia Militar, de tal modo que se conseguiu
estabelecer uma vigilância e controle da área antes mesmo do
amanhecer, sob a escuridão da noite, porque a Companhia de Força
e Luz, para evitar incêndio, havia desligado a energia pouco antes
de uma hora da manhã, quando desabou uma chuva tão intensa que
não se viam mais que dez metros em frente.
No mar estabeleceu-se o caos a partir da meia-noite. Não se
sabe como, marinheiros foram vistos atirando-se ao mar para
.al;11cm seus companheiros infortunados que tentavam sobreviver,
l'llquanto dcsahavam as pontes, guindastes, cobertura de zinco e de
111.1dci1a. tnlhos e caixas de mercadoria formando verdadeiras facas
l ljl
1 rasgarem tudo que passava por perto.
Os navios ao largo entraram em emergência e acionaram sem
pilrar aquele apito lúgubre de embarcação em perigo marcando suas
posições em visibilidade quase nula. O Borborema garrou e foi
wlando para a praia, quase encalhando. Seu comandant~. o Capitão
<>scar Miranda, ajudado pelo prático do porto Ulisses de França, ao
'l''ªI foi atribuído o salvamento do navio, conseguiu acionar os
motores e fazer-se ao largo. Os demais navios também levantaram
1s âncoras e se afastaram da praia, onde estariam mais seguros do
que na Enseada.
Como a Pajuçara era totalmente defendida pelos recifes,
ulgumas alvarengas foram levadas até lá por rebocadores, cujas
li ipulações conseguiram embarcar antes da meia-noite, e passaram
"ºb perigo através de um canal que ligava as duas enseadas. Mas o
l{cbocador Carlos Broad, de Goulart e Cia, durante sua faina, teve
que dar o costado ao mar numa manobra e foi colhido por "um
impetuoso vagalhão" que o levou até o trapiche da Great Westem,
1111de encontrou o seu madeirame pelo costado de boreste e ficou
1·ncalhado com avarias graves no casco, ganhando o qualificativo
·k ''heróico'' do Jornal de Alagoas do dia 26 seguinte.
Quando o dia ficou claro, o  ento acalmou e o mar acomodou-
.! mais, já se podia chegar na praia sem perigo de ser colhido pelas
1111das. e a lu.l do dia trouxe a revelação do desastre e restituiu a
•l'~•urança contra as surpresas do mar.
Umas poucas embarcações flutuavam na enseada.
Ao largo, e bem distante, via-se um único navio fundeado. Em
l11:11te dos armazéns estava uma fila de marinheiros e policiais. Por
ti,'is deles wna multidão, " meia população da cidade movida pela
·1t•11sação de curiosidade e de tristeza", como disse um repó1ter do
lomal de Alagoas dois dias depois. Um quadro triste e
111csquecível - "O Porto de Jaraguá apresentava um aspecto
1h•,olador:", qualificativo daquele repórter. Vinte e seis alvarengas,
dl'11tre elas a Marieta, Deusderit, Veado, Alice que nunca foram
' ncontradas. a barcaça Nova Aurora e o rebocador Carlos Broad
' ,1avam encalhados na praia ou afundados.
O madeirame dos trapiches éonfundia-se com os destroços e
11111!ÍS de bacalhau abertos, caixas ou latas de querosene por todn
11'i
parte, águas coloridas de petróleo, mercadorias de
mercadorias de todo tipo. perfüme. secos e molhados.
Ressaca ou "rebojo" de 1928. Destruição do Trapicbe da Great Weste
mercadorias na praia, enquanto o povo assiste a cena em cima do·que rest
da ponte. Base em fotos do arquivo pessoal do Coronel Sílvio Von Sõshst
Gama.
Os guindastes estavam tombados; as folhas de zinco
trapiches cobriam a praia meio enterradas na areia. E foram salv
2.358 caixas e 1.360 latas avulsas de querosene, 1.278 caixas e 68
latas avulsas de gasolina, 571 volumes diversos.
Às 09.00 horas do dia seguinte, em frente da garagem d
barcos do CRB, apareceu o corpo do marinheiro Antônio Jo
Miguel, um dos quatro desaparecidos e vigia de uma alvarenga, 5
anos, cor parda, sepultado no Cemitério de Jaraguá pela tardinha,
Três corpos permaneceram desaparecidos.
l(cssacn de l928. Alvarengas destruídas na praia.
fll'S'IOUI do Coronel Sílvio Von Sõshsten Gama.
116
-G::.---
ltcssaca de 1928. Alvarenga no seco, salva do temporal. As fotos são do
1m1uivo pessoal do Coronel Sylvio Von Sõbsten Gama.
A Imprensa esteve presente nos acontecimentos, lembrando
que tivemos o temporal do século, este muito mais forte do que o
de 1904. O mar foi classificado de "Monstro Verde" e a culpa pelo
desastre parecia ser do governo que não construíra ainda o porto
para abrigar a enseada das violências da natureza, tudo por causa
das disputas de prestígio e poder entre Alagoas e Pernambuco, este
interessado em que nossos produtos do norte do Estado por lá
escoassem.
Poetas populares entraram em ação para contarem o sinistro:
Muito mais de três mil conto
Foi o instrago gerá
Somente mostrado ao podê
Se eu fosse a natureza
Derrubava os coquerá
Que margeia a linda praia
Dessa nossa capitã
Qui balança as suas gaia
Com vento norte a soprá
A grande farsa que á
De não se ter se fazido
O Porto de Jaraguá
Parece pedindo a Deus
O Porto de Jaraguá
E plantava bananêra
Cum banana a carregá
Pra dá a quem tá trasando
O Porto de Jaraguá
( O Bacurau, 28/07/28 )
117
Não ficou muito clara a ocorrência de saques na praia
devido à presença policial e alguns repórteres noticiaram que a
ordem foi mantida. Se ocorreu saque na escuridão da noite foi pura
temeridade devido à fúria do mar.
Alguém calculou a multidão em 25.000 pessoas na manhl
seguinte, diante dos estragos do cataclismo, o que parece um
exagero.
E ainda ficou na mente do povo que a responsável pelo rebojo
foi a prostituta Lagartixa, que andava comendo fígado do
criancinhas lá pelas bandas do Beco do Urubu, presa pela Polícia
nas vésperas.
Como autênticos monumentos do "Monstro Verde", lá ficaram
na linha de recifes do Francês e da Barra de São Miguel enormes
monolitos arrancados do quebra-mar e atirados para sotavento sem
piedade, uma das quais foi medida pelo barcaceiro Sebastião
Eleutério da Silva, o Lotério da Barra de São Miguel, como tendo
6m x 4m x 1m, aquele que disse e perguntou:
- O mar é o elemento mais forte do mundo, é
superior. Quem pode com a força do mar, seu moço?
~-------------------------,---------------------------,-----------------------
Como a fúria popular deu em genocídio na igreja.
Não se sabe bem ao certo porque o povo de Alagoas briga com
tanta facilidade. E quando se trata de ajuntamento, parece até que
o magote se contitui numa autêntica tropa de choque, disposta às
mais surpreeendentes atrocidades de pau, faca e arma de fogo.
Imaginem os leitores quando esta gente assim perturbada por
um passado de lutas e extermínios - os caetés, os quilombos, os
cabanos, os revolucionários das lutas políticas - veste farda de uma
corporação militar cujos graduados e oficiais guardam suas raízes
no próprio povo irrequieto e valente, desrespeitoso por natureza,
contido apenas pelo medo da força e pelo verniz tênue de uma
civilização incompleta, que não chega ao zé povinho. E ainda
hnvia o tempero do momento porque, lá pelos idos da Proclamação
l.' dn Federalista, uma guerra civil irradiava atmosfera de
1ksunião e desconfiança, a República perigando, a unidade do
11 X
Brasil e a autoridade postas em dúvida.
O próprio Governador Gabino Bezouro, um oficial militar,
nqui estava para sustentar o andor da ordem, por cima de uma
população indisciplinada e entre os políticos que protagonizavam
luta atroz pelo poder, tão antiga quanto os primórdios da
colonização da terra. Foi quando um alagoano chamado Floriano
Peixoto ficaria conhecido no País como o arauto da ordem forte
contra o descontrole social generalizado pela anarquia reinante em
toda parte onde se chegasse.
No amplo espaço em frente da Igreja antiga de Nossa Senhora
Mãe do Povo, aquela em que faleceu de susto o português José
Antônio de Aguíãr, - seu cõnstrutor, perseguido. pela.. málta
dcsorcf'ei~ã·e-sãngüiiiária do "Mata MarinheuÕ" de 183 1, apinhava-
sc uma t1l,ultidão para festejar a Padroeira de sua Freguesi~.
Os atos religiosos deram oportunidade aos mais piedosos para
elevarem-se ao patamar da santidade, mas depois do escurecer do
Dia Santo, começou a festa pagã da Virgem, com seus sons e
odores de povo, chamando os demônios e afastando os anjos que,
como aves de arribação, batiam asas tomando distância de Jaraguá.
Na praça descoberta armaram tendas, palanques de leilão e estrados
onde se jogava e dançava por toda parte, junto dos pequenos
botequins improvisados para servir aguardente, gengibirra, vinho
de jenipapo e cerveja a qualquer freguês, fosse mulher, homem ou
1.:riança. Na Igreja, nas ruas do oitão, por trás dela, muitas casas de
fomília transformavam-se em salões de festa, onde o coco alagoano
embalava a alegria completa do povo, ao som das palmas que se
espalhavam pelos ares e por todas as bandas.
Era como se cada casa fosse uma outra festa, no meio da festa
maior de rua, e onde as classes e famílias se agrupavam em
conjunto para se protegerem da sanha anarquista e insultosa que
'iCmpre surgia da porta para fora, onde circulavam os "pés
descalços" que se classificam de "terceira classe", o rebotalho,
nnônima gente incontrolável da· multidão, onde tudo podia
,1contecer. Dir-se-ia que todo Maceió lá estava, não apenas os
l'csteiros como seus apreciadores que por ali ficavam olhando.
_ __.._. lü -~--
Pelo diário particular que costumava fazer o Tenente-Corone
da Guarda Nacional e Subcomissário de Polícia Olympio Di
Ferreira Ether, a festa era "alegria e prazer completo". E dei
nada se esperava mais que costumeiras brigas de bêbados ou de urn
desafeto com outro. Mas, pelas dez para as onze da noite, do
repente surgiu um tumulto popular com correria, tiros, gritos,
pedidos de socorro. Como depois se soube, foi porque quatro
praças da Força Policial acharam de forçar a entrada de uma casa
onde os matriculados do porto, trapicheiros e estivadores faziam
um baile, e toparam com um homem forte que se dizia o dono.
plantado com firmeza na porta.
- Dá licença ... disse o soldado mais adiantado, querendo entrar
sem antes obter a devida permissão, topando no matriculado em sua
frente.
- Pretende alguma coisa, camarada? perguntou. Agora
parado muito próximo de seu interlocutor, como dois galos de briga
se estranhando, o soldado disse:
- A festa é para todos, queremos dançar, 'recebendo em
resposta:
- Não, companheiro, aqui é um distraimento familiar. São
as meninas de família que se divertem e não é brinquedo pra
soldado. Procurem outro lugar.
- Então vocês são melhores que os soldados? Apois nós
garante que entramos já! disse o militar arrastando os demais no
caminho da Praça à procura de outros companheiros de farda
enquanto os matriculados, por sua vez, organizaram-se para a
resistência como a única solução, do contrário tinham que deixar os
soldados entrarem, o que seria inoportuno e fonte certa de brigas e
humilhações. E esperaram a agressão com armas de fogo, facas e
cacetes.
Meia hora depois, lá vêm os soldados como uma turba
desorganizada e nervosa, um grupo de mais ou menos vinte, que se
postaram juntos na porta do baile, e o líder deles, que antes forçara
a entrada, disse:
- Nós vamo dançar ou não, canalha? e a resposta foi uma
descarga de pistola:pelas janelas, provocando a queda de alguns
soldados e a debandada geral com todos precipitando-se para fora,
pclns portas, janelas, muros do quintal e até telhado dos vizinhos.
120
Foi quando a besta humana de cada um emergiu com toda
h1ria, de um lado pelo sentimento coletivo de desprestígio de uma
1111pa sem comando e compostura, de outro pela intolerância de um
~1 upo de homens trabalhados na dureza dos trapiches e porões de
1111vio, zelosos de seus direitos e da proteção que deviam dar às
1.1mílias, num reduto de sua classe.
A essa altura, os dois homens de juízo que podiam moderar os
oldados e pôr ordem ao caos estavam ausentes da cidade. Eram o
próprio Governador Gabino Bezouro, que se encontrava em Fernão
Velho na residência do Coronel da Guarda Francisco Domingues, e
11 Subcomissário e chefe político Ether (o do diário onde tudo isso
loi escrito), descansando num sítio que tinha na Mangabeira.
Para má sorte de todos, a festa ficava na área do Comissário de
l'olícia Antônio Sobral, um homem fanático e precipitado, que
l onfundia a força da lei com a lei da força, porque truculento,
11ouco inteligente e dado ao delírio nas emoções de sua profissão.
Foram justamente ele e mais um tenente da Força Pública cheio de
huna de arbitrário que chegaram na praça com um piquete de
u1valaria e vários soldados a pé, armados de carabinas e pistolas,
lrnzidos pelos remanescentes companheiros em fuga, e com ordem
de varrerem do mapa os que ficassem na frente deles, sem respeitar
pessoa alguma, invadindo casas, quebrando tudo, disparando a
l'ltnO ou para matar, enquanto os festeiros vagueavam pela praça às
~urreiras, escapando para os lados dos trapiches, da Pajuçara ou
pelas bandas do Oitizeiro.
Enquanto isso, alguns populares que nada tinham a ver com o
conflito, músicos, pessoal do jogo e dos leilões, dançarinos,
vendedores, acharam refúgio no interior da igreja pensando que
,.criam finalmente respeitados e que lhes poupariam a vida. Ledo
1.:ngano, pois a turba de soldados arrombou as portas e aí penetrou
disparando contra pessoas de joelho pedindo clemência, arrancados
de trás dos altares, alguns deles baleados dentro de caixões de
defunto que esperavam os seus verdadeiros donos, ficando lá
mesmo sem vida.
A tudo isso assistia cheio de fanfarronice o Comissário Sobral,
olé que, pelas duas horas da manhã, cansaram-se os algozes,
desistiram do massacre e se foram na escuridão das.vielas.
121
No final da madrugada, amontoados nos trotes de bondes
carga e em carroças estavam os corpos que foram apanhados
toda parte, disformes, vermelhos de sangue, uns por cima
outros, enterrados logo depois em valas comuns no Trapiche
Barra ou no Cemitério de Jaraguá.
Não se contou o número de mortos, pelo menos nada const
nos arquivos e no diário do Subcomissário Ether que n
também a visita do Governador Bezouro ao local da tragédia, lo
pela manhã, junto com ele e muitos "bezouristas" consternados
procurando informações sobre como tudo ocorrera.
No inquérito acusaram a Polícia de desenfreada, mas
Comjssário Sobral classificou a multidão e os matriculados
desordeiros.
O Comércio de Maceió, incorporado, visitou o Governad
para manifestar sua repulsa pelos atos dos policiais.
Magistrados da Capital, dentre eles_os Doutores Juízes Leopoldi
Neto e Aucedino Cavalcante manifestaram-se indignados com "Ai
Hecatombe de Jaraguá", atribuindo como causa dos aconteciment
a indisciplina do Corpo Policial do Estado.
Pelo genocídio dentro do Templo Sagrado, a Cúria interditou a
Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo por vinte anos, segundo diz 1
tradição oral. Alguns escritos minimizaram tempos depois a
tragédia contada por Ether, dizendo que a referida interdição foi
devida ao fato de um soldado ter morto certo popular que se
escondera debaixo do altar.
Os urubus na pena dos críticos.
Somente a Levada podia competir com Jaraguá em uru
1
bus
pelos ares e pousados em esgotos, quintais, estacas, muros, areia da
praia, telhados, e até nas calçadas. Aqui ficavam o paraíso da
sujeira: o porto, os terrenos baldios, areias da praia com dejetos
ferm'entados da Fábrica de Coco de Seu Atahyde, a incrível lixeira
por baixo dos trapiches, um mercado público infecto e um curtume,
mercadorias de mau cheiro, açougues e matadouros clandestinos, o
permanente tratamento que se fazia do peixe, enfim, a imundície
lflo no gosto daquela ave injustiçada e desgraçadamente agourenta,
l ll
1111111 que fazia cotidianamcntc a limpeza urbana deixada pela folt11
lk educação da gente e pela omissão do Intendente Municipal.
Nos dias quentes e nublados, quando parava a atmosfera e as
1111 entes de ar subiam na vertical, uma nuvem negra de urubus
, .1h1ta o céu sem bater asas, não se sabendo ao certo se toda aquela
11opulação morava lá mesmo, ou se vinha de outras bandas para
1 11memorar algum acontecimento, como fazia a "aviação de
( oqueiro Seco", os próprios abutres do outro lado da Lagoa
M11ndaú que chegavam aos montes.
Foi num destes dias quentes do ano de 1927, possivelmente na
quaresma, que uma escritora pernambucana chamada de Débora de
l'nl afirmou que Maceió era a "Cidade dos Urubus", em crônica
publicada num jornal de Recife.
Muitos anos depois, o fato ainda impressionava a mente
popular e motivou a imaginação do cronista colaborador da revista
"0 Natal'', 1944, com o pseudônimo de Junius, que, cheio de
11unia, criou uma conversa entre dois urubus pousados num muro
Invado de sol, suponhamos no Beco do Urubu, zona do baixo
111cretrício, onde eles se concentravam mais da conta, botando
·1:ntido num esgoto a céu aberto por onde escoavam dejetos
humanos e restos de comida e de lavagem de um açougue.
Na época os urubus foram transformado~ em bode expiatório,
.11cm das queixas contra a escritora pernambucana e a inércia dos
ti<>vemantes na limpeza urbana e na proteção sanitária da população
.uneaçada pela colossal lixeira que era nosso bairro.
Apesar de tanta comida à disposição, ali estavam os nossos
urubus lamentando:
- É como lhe estou dizendo: nunca vivemos uma época tão
dificil.
- Realmente, mas temos vivido outras épocas igualmente
graves, continuou o outro.
- Concordo, mas nunca nenhuma como esta, insistiu o
primeiro.
E passaram a recordar as adversidades: a moda moderna de se
matar urubus com cianureto de potássio ou Formicida Tatu e as
difamações contra eles. E continuaram:
- É que nós esquecemos facilmente o passado.
- Qual o que! Antigamente podiam as donas de casa não
123
nos dar apreço. Os jornais nos atacarem. Os homens ter-
antipatia. Mas nós tínhamos o que comer, e chegaram então
críticas aos tempos modernos e à falta de boa carniça, rcst
animais mortos ao relento, tudo como conseqüência de um perí
de carência de gêneros de primeira necessidade iniciada com
racionamento da Guerra, ... quem perde um bezerrro não n
entrega porque faz carne salgada. Quem vê um porco mor
não o deixa transformar-se em carniça porque lingül
atualmente comporta tudo (...) as lixeiras agora vivem vazi
(...) porque mesmo os respectivos patrões não têm o que comer
E ficaram silenciosos, desalentados, solenes nas suas vest
negras, saudosos dos bons tempos de carne podre à vontade
antes do conflito mundial. Eram os tempos do crescimento
pobreza pelos lados do Poço, da Mangabeira, por trás da antiga R
do Oitizeiro, na Estrada Nova, enquanto, lá mesmo em Jarag
teve início a reação ao qualificativo que Dona Débora fez
Maceió. Soube-se depois que se encheu de arrependimento.
Quem tomou as dores e mostrou a asneira da recifence foi Lu'
Lavenere, professor ilustre, intelectual e sócio· da Livrari
Machado, na Rua Sá e Albuquerque 644, fone 197. Ele disse que
Dona Débora nunca havia olhado para o céu da Mauricéia, lá pelo
lados do Pina, onde avião não podia voar entre uma e cinco ~
tarde, sob pena de abicar no solo depois de colidir numa núvem d
abutres. E compôs vários versos satirizando a escritora, alguns dot
quais, como o "Urubu Trot" e "Dança do Urubu" foram cantado!
nos carnavais de rua por estudantes e populares, já com música bem
ritmada:
Maceió é coisa boa
Tem cocada e sururu
Eu fui a Maceió,
E só vi urubu.
O que mais impressionou
· Foi o cheiro de urubu.
O que mais impressionou
Foi o cheiro de urubu.
O povo apelídou a pernambucana de "A Moça do Urubu" e
"Odor Cinzento", em livretos vendidos por 200 réis, aludindo-se aí
no qualificativo que deu diante de uma enonne concentração da
nvc, o declamavam assim:
124
Nas ruas por onde andou
V. Excelência a passeio
Um cheiro estranho ficou
Segundo nos jornais leio.
Alguns citaram também o fato de um negro ter sido d~vorado
1101 urubus na Fazenda Albion, Município de Leopo~dma, ~m
Minas Gerais, 0 que servia de alerta_ de que era preciso mmto
111idado por aqui.
Q~~~-~-~---~-;;;--~~~~i--~~--;~~~~~--~;i;~~---~~~---;~~;~dia
(lolítica.
Corria em Maceió uma noite quente, escura, sem vento e o Rio
Salgadinho deslizava devagar naquela curva que ràzii:t na direção da
'iinimbu.
Um homem corpulento, estatura média,
com cara de caboclo, pele clara, idade
beirando os quarenta, atravessava
furtivamente a ponte de ferro sobre o rio,
entrando em Jarag)á. Estava fardado, vestia
uma capa escura e por dentro dela portava
uma parebellum e um rifle 44 de papo
nmarelo.
Era 0 Guarda Civil 136, Felismino Hugo Ja:tobá, um cearense
que andava por Viçosa, Rio Largo e Maceió há alguns anos e que
fora contratado para mandar ao outro mundo o Governador Costa
Rego que, pela noitinha, recolhia-se à cas~ de. sua amante. francesa,
M1le. Sigaud, para descansar, jantar, ouvir piano e depo1~ ~eceber
um ou outro amigo íntimo para conversa. O casarão de tres Janelas
altas e um corredor lateral, ainda hoje de pé, ficava no 29~ da ~~a
Silvério Jorge, onde recentemente instalou-se em frente o Jornal O
Diário".
Era um serviço que Felismino relutou por duas vezes para
aceitar mandado pelo agente de seguros da firma ''A São Paulo'',_
em Jar~guá, inimigo político do primeiro mandatário do Estado.
Quanto ao casarão não haveria o menor obstáculo. O matador
' 125
conhecia todas as suas dependências e fundos para a margem d
rio, onde vicejavam velhas mangueiras, um pé de cajarana e um o
outro coqueiro, chão batido até um muro baixo e uma ce
baixa de arame que delimitavam o quintal do vizinho, residênc·
do conhecido médico Dr Ezequias da Rocha. Afinal de contas, hj
muito tempo andava de serviço noturno naquelas bandas e até era o
seu dever patrulhar as proximidades e vadear pelos mangues à hei
dos quintais. Quanto ao Governador, nenhuma dificulda~
encontrava também porque era um de seus guarda-costas e com ele
andara sozinho na boléia de um automóvel, a autoridade dando suas
costumeiras voltinhas na cidade, plantado no volante e com aquele
chapéu elegante e caro na cabeça.
Era o dia 13, oito horas da noite de uma segunda-feira
insignificante de dezembro de 1926, segundo ano do governo, e
pouco depois de ter o funcionário estadual Jonas Feitosa colocado
Felismino na Guarda Civil, sob recomendação do Coronel Eduardo
Maia, respeitável proprietário em Viçosa, de quem fora vaqueiro.
Além disso, tirava leite numa vacaria em Bebedouro, de
propriedade de Feitosa, que era wn homem importante na
Secretaria do Interior do Estado, e que não .tivera a menor
dificuldade em dizer das boas qualidades do seu candidato ao
Inspetor da Guarda, o velho Tenente-Coronel Manoel Pinto, oficial
direito e crédulo, que não sabia do passado de seu novo
subordinado, autor de um crime no Cariri, motivo pelo qual buscara
proteção na distância e boas graças de um coronel do interior
alagoano.
126
Mas, voltemos aos acontecimentos da
Silvério Jorge.
Depois de cruzar a ponte, lá estava
felismino ganhando o mangue e alcançando o
quintal do Dr Ezequias, subindo numa
mangueira e fazendo ponto no Governador que
lia calmamente um jornal ao lado de Mlle
Sigaud e em frente de outra pessoa que não
reconheceu (na verdade era o Dr Eugênio
Soares), por certo ao som de uma boa vitrola
tocando alguma sonata de Mozart.
Mas, naquele momento de grande tensão, Felismino, cm sun
11l111u de sicário, teve um lampejo de consciência, como declamu
d~·pois, e achou também a distância grande demais para um disparo
r1tciro, ou teve medo das conseqüências de seu ato. E resolveu
1ctroceder furtivamente como chegara pelas lamas do Salgadinho.
No dia seguinte. terça-feira, foi até o escritório do mandante,
1111 mesmo em Jaraguá, e confidenciou-lhe seu arrependimento,
tkando surpreso com a reação dele. por trás de uma escrivaninha:
- É mesmo, Seu Cuarda Felismino. Até eu me arrependi
tnmbém. Afinal de contas eu posso esquecer tudo isso e fazer
1111 pazes com o Costa, amanhã ou depois ....
Sobre os fatos daqueles dias emocionantes, Felismino ficou
pensando no porquê de seu companheiro, o Guarda Pedro Vilar de
Araújo, ter desistido de acompanhá-lo no serviço, não se sabendo
.1té hoje a razão e como as coisas evoluíram daí por diante, porque,
110 dia 15, quarta-feira, contrariando a lógica dos fatos, lá estava ele
11ovamente com seu rifle agora no próprio quintal do Governador,
ut1dc penetrou por uma cerca de arame cortada com alicate,
deixando no chão o seu quepe e sapatos, subindo depois numa
outra mangueira mais próxima, de cujos galhos avistou Costa Rego
umversando na varanda com seu velho amigo Adalberto
Marroquim. E titubeou mais urna vez. Seria mesmo a hora do
"icrviço? Enquanto pensava se o tiro sairia certeiro, certamente
balançando levemente os galhos e procurando uma posição boa de
ponto, o seu movimento estranho despertou a atenção de um casal
de gansos do Dr Ezequias que, passando por baixo da cerca de
arame, deu chegada alarmando sem parar um instante, aturdindo
Fclismino que teve de descer ligeiro mas em tempo de revelar sua
posição, inclusive para uns guardas que foram chamados pela frente
do casarão e que chegaram a tempo de reconhecê-lo quando
mergulhava na escuridão do mangue.
Depois de lavar as pernas sujas de lama, de um jeito qualquer,
chegou em casa muito nervoso e tratou de enterrar o rifle no
quintal, dizendo para a esposa Maria Macena:
- Estou servindo a dois partidos ..não quero ser descoberto.
Segundo disse a mulher num interrogatório, a razão que o
127
marido alegou para trazer a arma, nas vésperas do atentado,
que ~gora estava no serviço secreto do governo, no que
~c~ed1tou prontamente, dado o seu comportamento esquisito
ultimas semanas.
Diante da fúria de vários policiais, Felismino foi localizado
levado preso para a 1ª Delegacia de Polícia, onde encontrou lo
~ela ,~ente o Dr Manoel Buarque de Gusmão, encarregado
tnquento como 1Q Delegado da Capital e o Dr Emande Basto
como Secretário do Interior. Anexo ao processo estava 0 rifle q
fora desenterrado do quintal de sua casa, como pro
incriminatória.
? epois das formalidades, foi o escrivão anotando 0 primeiro
depo1me~to que colheram lá para dentro, quando, segundo a ironia
de um Jornal, o criminoso "confessara o crime depois dt
habilmente interrogado".
O depoimento constou no Diário Oficial do Estado, e no Jornal
de ~lagoa~ de 19 de dezembro, assim: "Perguntado por que
motivo QUJS o depoente assassinar o Exmo Sr Governador do
Est.ado Pedro da Costa Rego, respondeu que há quatro meses
mais ou menos o Sr José Fernandes de Barros Lima Filho falou
co~ o depoente na Praça l3 de Maio, cerca de oito horas da
noite para assassinar o Exmo Sr Governador Pedro da Costa
; Reg~, ao que o ~epoente respondeu que ia pensar a respeito".
1 ,. .í
Prosseguindo, Felismino disse que o
pagamento pelo serviço foi uma apólice de
seguro de vida de dez contos de réis que o
mandante entregara a sua esposa. Confessou
. também que apanhara o rifle três dias antes na
garagem de uma casa do mandante na Silvério
Jorge mesmo, por orientação de Jonas Feitosa
e o escondera por algumas horas no manguezai
até levá-lo para casa.
Muita coisa mais disse Felismino1
segundo os autos do
inquérito, de seu arrepend1'mento e que d ·
128 po ena ter matado 0
Cluvcrnador quando esteve a sós com ele, mas revelou que li11h11
tul·tlo porque freqüentemente o homem metia a mão no cabo de 11111
fl'Vúlver enorme que levava na cintura e por baixo do paletó, cujo
11llbre 44 fazia um buraco medonho no cristão. Afirmou ainda que
111111 contara tudo a sua esposa porque "toda mulher tem língua
romprida". Afinal de contas, disse, se o executante não fosse ele,
1111lros pistoleiros já estavam querendo trabalhar para o Doutor
1h.lputado, e até citou um tal de Manoel Capitão, de São Luiz do
C)11itunde, e outro Manoel da Lica que estava de olho no Dr
idnlberto Marroquim, muito amigo do Governador, serviço que só
dependia do montante do dinheiro oferecido.
Aquele tal de Manoel Capitão era o homem que alisava sua
111-;tola Comblain de cano duplo, enquanto dizia orgulhoso:
- Nunca ninguém escapou dos dois beijos dessa margarida!
Vivia-se uma década nervosa e revolucionária no Brasil. Os
r'ipíritos andavam em estado de alerta e a tentativa de atentado
passou a ser um crime hediondo, segundo alguns dos quinhentos e
lontos telegramas individuais e coletivos de pessoas e entidades que
foram sendo publicados integralmente no Jornal de Alagoas em
l'Oluna aberta para este fim: "... traição sacrílega de malditos da
Pátria"; "... bastardia de espíritos obscuros"; "... matar um
homem de talento é um crime nefando"; ~'... por ter ficado
livre do trabuco da hydra canibalesca"; "... tentativa sinistra";
'.. plano hediondo e satânico"; prestando " apoio e
liOlidariedade política"; "... mais um atestado da morbidez da
ntual mentalidade política republicana"; "... nas democracias
modernas as lutas políticas são lutas de opinião".
Ainda botaram mais fogo na fogueira quando, na manhã de
sábado, foi preso Jonas Feitosa como suspeito de envolvimento no
crime e feita uma acareação entre ele e Felismino. As declarações e
conclusões do Delegado não podiam ser divulgadas porque o
acusado de mandante era um deputado estadual com imunidades.
Mas o fato de ser o mandante filho do ex-governador
Fernandes Lima, inimigo político de Costa Rego, foi uma
verdadeira bomba, e as emoções tomaram conta de tudo.
129
O Inspetor da Guarda Civil foi substituído imediatamente po
Major José Lucena de Albuquerque Maranhão e Jonas Feito
envergonhado, em refúgio na residência do amigo Waldemar Li
meteu quatro balas na cabeça, o que seria estranho não houvesse
fato sido testemunhado por três pessoas da casa. O suicíd
aconteceu enquanto o anfitrião ia apanhar um sabonete para
vítima, pouco depois de recomendar-lhe um banho quente p
acalmar os nervos. Por este motivo, o jornal governista "A Gaz
de Notícias" disse que o fato era uma confirmação de s
responsabilidade.
A esposa do falecido, Dona Maria Edithe, foi levada
Delegacia para prestar seu depoimento sob lágrimas e logo depo
posta em liberdade, nos termos do Jornal de Alagoas do dia 22.
neste mesmo dia, Felismino confessara que Jonas Feitosa sabia
"empeleitada" como intermediário no trato.
Para complicar mais ainda a situação de Felismino, o Guar
Vilar afirmou em depoimento que fora por ele sondado para
serviço e que não o aceitara porque tinha uma família grande e q
o seu companheiro já entrara para a Guarda Civil pensando n
crime.
O Deputado José Fernandes Filho negou que tivesse fornecid
armas a Felismino, muito menos tratado com ele o crime, e que a
pistola que portava quando foi preso tinha sido emprestada, sem
intenções criminosas, por Jonas Feitosa, a quem ele a dera de
presente muito tempo antes, terminando por declarar que tudo não
passava de intriga política. Da acareação entre ele e Felismino
nada ficou de concreto, porque era um acusando e o outro negando.
Um popular chamado João Nunes declarou à Polícia que fora
também abordado por Felismino e que simplesmente respondera
que "o Governador não dev.ia ser assassinado e sim garantido e
estimado como um bom governo."
No dia 23, quinta-feira, Felismino alimentou-se pela primeira
vez desde sua prisão no dia 18, segundo o Jornal de Alagoas, "em
vista das providências tomadas pelo Dr Secretário do Interior
sobre o caso". Na terça-feira, dia 28, procedeu-se à reconstituição
dos fatos, com as presenças do Delegado Gusmão, de um escrivão
de polícia, um fotógrafo e do funcionário Carlos Rego, do Gabinete
de Identificação do Estado. Os convidados lá estavam esperando
110 '
1 ~prcsontantes da Imprensa, o Cônego Valente, de "O Scmcmlo1",
1111 nalistas da ''Gazeta de Notícias", jornal governista, do ''Jornal de
Alagoas", também governista, de "O Jornal". do Rio de Janeiro. e
d1• uma agência internacional de notícias. Foram convidados
1.11Hbém o Dr Ezequias da Rocha, alguns vizinhos da Silvério Jorge
~1 outros curiosos de categoria, todos concentrados em frente da
1•11sa 290 esperando o início dos trabalhos.
Em certo momento, chegou um carro da Polícia trazendo três
'4l'~uranças e o Guarda Felismino que saltou fardado, um tanto
lhlrbado, abatido e ''antipático", segundo os termos da
tl'COnstituição. Mas estava calmo e seguro do que declarava em
tl'!!posta às perguntas que iam sendo escritas numa prancheta pelo
1''1Crivão, e o fotógrafo oficial fotografando, uma chapa da cerca
l'01tada pelo alicate, duas da mangueira, duas da cadeira do
Clovemador, várias da varanda e do muro, três da casa.
Antes, no dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, enorme
1•oncentração popular fazia um desagravo diante da Catedral. onde
11 13ispo Dom José Maurício rezou uma missa de Te Deum, com a
presença de todas as entidades de classe, autoridades, corpo
consular, colégios e bandas de música do Exército, Polícia Militar,
Orfanato São Domingos, Legião de Escoteiros 143 e Ginásio
Adriano Jorge.
Dentro da Catedral, depois da subida triunfal do Governador
pela escadaria em frente, saudado calorosamente pelas entidades
i11corporadas, Eneas Ramos cantou o "Salve Rainha'', de
Marcadante, acompanhado por sua esposa no órgão, depois o dueto
Httcro "O Cor Amoris", de Faure, com a soprano Senhorita
/ lexandra Ramalho, depois ainda o ''Agnus Dei", de Bizet, pelo
violino da Senhora Enaura Melo.
Desde a manhã, quando o carro do Governador aproximou-se
da Ladeira da Catedral, as luzes da cidade ainda estavam acesas. E
quando terminou a missa, ouviram-se dez minutos de sirenes e
buzinas de fábricÇts, usinas e automóveis, às quais aderiu, com seu
npito fantástico, o navio "Belém'' do Lloyd Nacional ancorado ao
largo do Porto de Jaraguá.
Fonnou-se depois da missa um cortejo de automóveis pela Rua
do Sol até os Ma11írios onde se concentraram a multidão na praça e
os homens importantes dentro de palácio, para o discurso de
131
desagravo de Demócrito Gracindo que teve início assim: "Não 6
boca de ouro da lisonja, nem mesmo a palavra inflamada
paixão partidária que ouvis", é o comércio que paga imposto,
operário humilde que não aprendeu a mentir. o pescador indômi
etc, etc. Falara o Presidente da Academia Alagoana de Letras,
mais cotado orador das Alagoas.
Costa Rego, imponente, parecendo remoçado de dez an
respondeu por um discurso de menos de oito minutos que te
início assim: "Eu poderia neste momento abrir o peito a tod
as balas homicidas: elas me haveriam dado uma hora feliz pa
morrer". Falou então sobre o lema dos frades trapistas que,
pa~sarem uns pelos outros, dizem: "Irmão, é preciso morrer!" ,
rebateu: "Precisamos morrer!"
Contado no discurso o verbo morrer, em vários tempos
modos, foi citado nove vezes e o substantivo morte nada menos do
que dez. A morte e a vida sucederam-se na oração que terminou
assim: " Não é na minha vida, mas na minha morte que pense
todos os dias; e de cada ato de minha vida procuro fazer uma
boa preparação para a morte".
E desceram para assistir a um desfile militar em continência ao
Governador, depois dos cumprimentos das autoridades e
associações.
Até hoje não se sabe ao certo se o atentado, que não passou de
uma te~tativa mal explicada, foi verdadeiro ou falso. As evidências
aí estão, mas até que ponto caracterizam a verdade? O fato é que,
no dia 7 de janeiro de 1927, Felismino foi denunciado na la Vara
po: tentativa de homicídio (Art 294 e Art 13 do Código PenaJ),
deixando de serem denunciados Jonas Feitosa por estar morto e
José Fernandes de Barros Lima Filho por ser deputado estadual,
mas estava escrito que o processo devia ser encaminhado à Câmara
com um pedido de licença para processá-lo.
Numa das conversas irônicas de fim de tarde, na frente da
Alfândega, no velho Jaraguá, houve quem imaginasse uma
manchete de jornal assim: "Dois gansos mudaram o curso da
História Alagoana". E um outro ao lado rebateu com
hipótese: "Morre vilmente assassinado o Governador, nos
braços da francesa".
112
"Mais uma vez os gansos salvaram a humanidade dos tro1•e,·o~
do destino, a primeira no Capitólio de Roma, agora, na Rua
Sílvério Jorge". E redobrou-se em Maceió o falatório sobre Mlle
Sigaud e Costa Rego que, depois de jogar no Jaraguá Tênis Clube
uma ou duas partidinhas, tomava todos os dias a reta de sua alegria
e descanso, o casarão da Silvério Jorge, onde encontrava a paz
1cconfortante do amor. enquanto sua filha Senhorita Rosinha
tomava conta dos afazeres de Palácio, já que primeira dama não
havia. Teria sido uma noite muito melancólica morrer ali naquela
varanda de tantas recordações boas, crivado de balas por um
pistoleiro da Guarda Civil e seu próprio guarda-costas. Mas, pelo
seu discurso do dia 23, regado de lágrimas no piso encerado do
Palácio dos Martírios, ele até que gostaria de ter morrido.
Os desdobramentos políticos e jurídicos desse rumoroso caso
ocorreram por fora dos limites de Jaraguá. Fiquemos por aqui
mesmo, meu caro leitor.
Um barco diferente chamado Wanda.
Um mês antes do rebojo de 1928, ancorou em Jaraguá uma
embarcação diferente das outras. Mesmo assim, as pessoas que
estavam na velha Ponte de Desembarque para receber os seus
tripulantes quase não conseguiam distingui-la das barcaças e botes
uncorados na enseada em frente, porque se tratava de um veleiro de
pouco mais de dez metros, como muitos que navegavam por aqui e
descarregavam nos trapiches açúcar dos engenhos desta costa. No
entanto, era uma embarcação de recreio que se notabilizara na
Imprensa depois de um famoso cruzeiro Santos-Aracaju, cujo porto
ficara por ele divulgado no Brasil, em razão dos feitos de sua
lripulação de quatro homens, comandada pelo Capitão Amador
Pedro Barros.
Pelas descrições, o '·Wanda" fora construído em madeira e
armado com uma vela carangueja e duas bujarronas num gurupés
prolongado, armação em cutter, com cabine para pessoal em vez de
porão de carga. Ou poderia ser um perné pequeno, armado com
dois mastros, o traquete sensivelmente menor do que a mezena,
uma ou duas velas de proa, também adriçadas num longo gurupês.
133
Na Ponte estavam concentrados os sergipanos residentes e
Maceió, algumas pessoas do mundo social e jornalistas, entre el
Floro Dória e Virgílio Cabral, que receberam a tripulação co
abraços e palmas, acompanhando-a em seguida numa visita
Clube de Regatas Brasil e ao Instituto Arqueológico de Alagou.
onde foram recebidos em sessão extraordinária. Visitaram depois o
Governador Alvaro Paes nos Martírios, entregando-lhe, duran
um almoço formal, mensagem de congratulações e votos de
felicidade do Governador de Sergipe pelo seu novo mandato.
~ato t~bém notório no local ocorreu com a partida , em 1922,
de Jangadeiros que navegaram até o Rio de Janeiro, n~
comemorações do Centenário da Independência, enchendo o céu de
foguetes, o mar de todo tipo de embarcação e a Ponte de Jaraguá da
autoridades e gente ilustre.
. Com o Wanda estava iniciada a vela de oceano em Alagoas.
muitos anos antes de Eduardo Mafra ter o primeiro veleiro desta
classe em Maceió, um albatroz de 28 pés, o "Stoppa", com Jaraguá
completamente mudado, com a Ponte onde o pessoal do Wanda
desem?arcou j~ demolida, trapiches também desaparecidos,
armazens que viraram bancos e empresas diversas, cais do porto
dando proteção para a cabotagem, barcos de pesca e de recreio
fundeados por ali.
Apesar de ter chegado na boca do inverno, certamente o
Wanda encontro~ á~uas mais limpas e cristalinas do que as de hoje,
sem sacos de plasttco flutuando em manchas de óleo jogadas ao
mar pelos próprios pescadores sem. nenhuma fiscalização nem
e~ucação ambiental, poluindo o mar onde vão depois pescar, nela
atirando seus excrementos diários, tonelad~s de lixo, cabeça de
camarão e peixe podre.
Agora existe no local uma favela que dizem ser de pescadores,
m~s que, na verdade, abriga toda a classe de desamparados urbanos
e, m~asores de uma construção de porte, um grande frigorífico
~ubhco abandonado que apoiava pescadores, hoje uma favela
imunda, sem instalação sanitária, onde ficam empilhadas centenas
de pessoas cujos excrementos são percebidos duzentos metros do
local, rememorando o tempo das pontes e trapiches.
114
Os barcos arrastões e suas pesadas redes de caman)o prn1rns c111
11 '411stadores tangões retiram do mar, diariamente, milhares du
11n1ucnos peixes que de nada servem, e que, na época do Wandn,
ll1sciam e serviam de alimento para outros peixes maiores que
li ~tentavam, pelo anzol honesto, centenas de pescadores de linha
.ll· fundo. E, com isso, em nome do sustento para o pescador de
1.11narão, configura-se uma das maiores contradições na política
11111bicntal na área.
Volta e meia, quando a natureza bota para chover, o
'-1,1lgadinho traz para a Enseada toneladas de detritos que ficam
ll11tuando por perto dias e mais dias, finalmente afundando para se
rll·comporern durante duzentos anos, no local onde antes os peixes
1ksovavam. ou navegando até as praias entre Coruripe e o São
1 rnncisco.
Depois do pioneiro segipano, muitos anos se passaram para
que surgisse a Flotilha Alagoana de Veleiros de Oceano, com sede
11.1 f cdcração Alagoana de Vela e Motor, justamente no local onde
L'ta a Ponte de Desembarque.
Felizmente, no meio de tanta desventura, a Prefeitura de
Maceió está providenciando a despoluição do Riacho Salgadinho e
11 saneamento do bairro, visando restaurar assim a pureza das águas
de Jaraguá.
·-----------------------------------~-------------------------------------------
Aqui chegaram e daqui se foram os guerreiros do Sul.
Na noite do dia 15 de outubro de 1942, a voz feminina da Rosa
de Berlim, uma rádioemissora nazista, colocou no éter notícia mais
ou menos assim: "Desembarcou no Porto de Recife o Segundo
Grupo do Quarto Regimento de Artilharia Motorizado,
trazendo uma dúzia de canhões Krupp 75 fabricados na
Alemanha. O navio foi o Almirante Alexandrino construído em
llarnburgo, e o Comandante do Grupo é o Major Brayner que
é filho de alemães comandando soldados descendentes de
germânicos e italianos."
O navio partira da Guanabara no início do mês, compondo um
comboio, cujo "trem", além das belonaves de escolta, foi
constituído nesta ordem: la fila - Almirante Alexandrino, que era o
135
comodoro dos mercantes, seguido do Emília e Afonso Pena; 2a
- Brasilóide, Araranguá, Itaimbé; 3a fila - Bandeirante, Cari
Aníbal Mendonça, todos transportando tropa e seus materiais
o Nordeste, especialmente artilharia e tanques. Seus tripulantes
passageiros sabiam que mais de seiscentos brasileiros jaziam
fundo do mar afogados nos destroços dos navios torpedeados
agosto último, nas águas de Sergipe e Bahia. E por isso viajav
tensos, porque poderiam encontrar a morte a qualquer momen
até que avistaram Boa Viagem e Olinda.
O Il/4o RAM chegou de ltu por via ferroviária até a Doca
11 do Porto do Rio de Janeiro, onde embarcou no Almiran
Alexandrino e depois numa composição ferroviária de Recife
Maceió.
Três meses antes da chegada do comboio, uma matilha de de
submarinos alemães flutuou em volta dos Rochedos de São Pedro
São Paulo, duzentas e cinqüenta milhas a nordeste do Arquipélag
de Fernando de Noronha, e um deles, o grande U-460, conhecido.
como "Vaca Leiteira'', abasteceu todos com o óleo necessário.
tendo alguns seguido imediatamente para a costa norte até o
Oiapoque, enquanto outros desceram a corrente equatorial sul até o
saliente nordestino, e uns poucos chegaram a Guanabara ou até
mesmo a São Francisco do Sul, com a missão de impedir o fluxo de
navios para a América do Norte levando matérias primas e
alimentos. Um deles, o U-507, do Capitão Scharht, encontrou e
afundou o Baependi (270 mortos), o Araraquara (130 mortos), o
Aníbal Benévolo (150 mortos), o Itagiba (37 mortos) e o Arará
(20 mortos), num total de 607, tudo sem declaração de guerra e em
apenas três dias daquele agosto sinistro. ·
O País ficou condoído. Aqui em Jaraguá, na Rua Silvério
Jorge, estudantes e moleques enfurecidos invadiram a residência de
uma família pacífica e operosa de descendentes de italianos
promovendo as mais descabidas cenas de vandalismo, praticada~
por amigos das vítimas, com os quais jogavam futebol na Praia da
Avenida, a menos de duzentos metros do local.
Veio então o Estado de Beligerância e Maceió transformou-se
numa base militar de patrulhamento aéreo e de treinamento dos
136
norte-americanos, de defesa do litoral pelas unidades do Exército -
'ºº BC, 22Q BC e Il/4Q RAM, estabelecendo-se uma curiosa
:OlVivência na Cidade entre a infantaria de nordestinos, a artilharia
llr paulistas e a aviação dos americanos, no meio da juventude
e'lludantil, mocinhas, marinheiros e povo.
O Grupo aquartelou-se de improviso no velho prédio da
hbrica Santa Margarida, Rua Sá e Albuqll:erque com Mato Grosso,
qunse na Avenida da Paz e bem em frente da Fábrica de Mosaicos
ilt3 Paulo Pedrosa, despontando para os largos espaços da praia,
nnde os soldados faziam exercícios de campo, colocavam seus
l anhões em posição, construíam trincheiras e instalavam teodolitos,
prnnchetas de tiro, balizas, fios de telefone, em constantes vozes de
l·omando, apitos, toques de cometa, desfiles, disparos de festim.
Depois da "Ordem de Vigilância" de 3 de novembro, do
('omandante do Grupo, a tropa ocupou Porto de Pedras e Coruripe,
licando urna bateria de tiro e o Comando em Maceió, naqueles
11lojamentos "onde o calor era grande e foram improvisados
gabinetes, secretaria, sala de comando, cozinha, refeitório de
oficiais, rancho de praças, enfermaria, alojamentos, corpo da
guarda e xadrez, usando-se divisões e alvenaria singela de dois
metros de altura", nas palavras do Aspirante de Artilharia Sylvio
Von Sõhsten Gama em seu livro de memórias.
Homens desgarrados de suas famílias foram cair na velha
nrmadilha de toda campanha militar, as prostitutas. Distante menos
de trezentos metros do quartel estava a boemia de Jaraguá, onde se
fazia sexo e se dava expansão às almas reprimidas pela disciplina e
pelo dever. Por isso, mais da metade dos soldados, logo nos quinze
primeiros dias, foram à visita médica queixar-se de gonorréia,
numa fila que pareceu maior do que a do rancho matinal. Diante da
realidade, os Comandantes de Bateria receberam ordem do
Comando do Grupo para dizerem à tropa:
- Venérea, trinta dias de xadrez, com instrução!
Mas não adiantou muito porque a soldadesca estava sempre às
voltas com as enfermidades do amor e com as patrulhas do Exército
e dos americanos das base do Vergel e do Tabuleiro, em brigas só
terminadas pelos cassetetes e camburões. E o motivo era quase
137
sempre o mesmo: uma rapariga que deixava brasileiro pobre pe
gringos pagando em dólar, muitas vezes apenas para beber e ti
carinho.
Dizem que a situação ficou insuportável quando
ambulância americana atropelou e matou dois soldados do 20Q
numa coluna de marcha do Capitão Ferrão, ferindo também out
quinze, o motorista desapareceu na escuridão da noite, se
viram. bêbado, e a viatura foi totalmente destruída por coronha
da tropa. Houve também o caso de um soldado de boa família 1
que metralhou as prateleiras do Clube dos Oficiais Americanos,
USO. onde é hoje a Fênix Alagoana, deixando em pedaços
centena de garrafas de whisky. Mas havia os momentos debele
quando o Grupo desfilava na Avenida da Paz, Dia da Pátria, e
continência ao Interventor lsmar de Góis Monteiro, com o Teneni.
Barnabé Oiticica conduzindo o Pavilhão Nacional, com garbo
insuperável, embarcado com sua escolta numa Dodge "Maria
Gorda", com os canhões atrelados logo depois.
E, terminada a guerra, se foram numa bela despedida, de volta
para ltu, quando muita gente chorou as saudades de Jaraguá.
138
Tl·rceira Parte: O llOMEM.
Em Jaraguá quase todos trabalhavam para o
comércio de importação e exportação, restando para o
aontro de Maceió as demais atividades econômicas.
Em algumas partes do bairro, as pessoas se
divertiam nos clubes e nas festas de rua, como a de São
João na Estrada Nova, e a da Padroeira Nossa Senhora
Mãe do Povo.
Alguns residiam nas boas casas da Avenida da Paz,
na Rua Santo Amaro, depois na Pajuçara, ficando os
humildes nos biombos de palha para além do trilho do
trem, em torno do Cemitério de Jaraguá e ruas interiores
da Ponta da Terra. .
Pelo fato de os homens estarem marcados pela
hierarquização e estratificação sociais, sua fauna era
elmples: no topo os comendadores, ricos comerciantes,
os servidores em direção; no meio os contadores,
fiscais, funcionários, despachantes, comerciantes
menores; embaixo ficavam os trapicheiros, estivad~res,
catraieiros, barcaceiros, biscateiros, motornearos,
soldados, guardas, ganhadores, vendedores
ambulantes, carpinteiros, postalistas, trabalhando no
porto, nos trapiches e armazéns, escritórios e
Instalações alfandegárias e fiscais.
Havia a prostituição nos sobrados das pensões da
Sá e Albuquerque para a "primeira classe", as de rua no
Duque e no Verde para a "segunda", e os canos de
esgoto dos becos do Urubu, Onça, Queimado e da
Facada, para o rebotalho da "terceira classe", pontos de
encontro informais entre as pessoas daqui e do outro
lado da terra. O tempo passou e, quase escondidos na
neblina do esquecimento, ficaram na memória do povo
os tipos sociais característicos e suas história~, com as
quais se pode reconstituir o ambiente em que viveram.
139
•
APRESENTAÇÃO DA TERCEIRA PARTE:
José Fernando de Maya Pedrosa, mais conhecido como Zé
l•crnando nos círculos sociais a que pertence: intelectual, artístico,
militar e esportivo, pede-me. para prefaciar a terceira parte - O
l lomem - de seu novo livro "Histórias do Velho Jaraguá".
Trata-se de um convite que me deixou exultante, por dois
111otivos: Zé Fernando é um primo de quem muito gosto, e segundo,
por se tratar de wna rara personalidade polivalente, verdadeiro
homem dos sete ofícios e que, por onde passa, cria uma leva de
.1dmiradores e amigos, graças à maneira envolvente que o
caracteriza.
Quando militar, desempenhou com galhardia suas funções de
infante, no Brasil e no exterior; aproveitando as horas de folga,
esculpia, pintava suas marinas e escrevia sobre a nossa história.
1oi nessa época que lançou, em 1963, o seu primeiro livro, a
hiograíia de meu saudoso parente e seu avô materno, "Alfredo de
Maya e seu Tempo'·, muito elogiado pela crítica e pelos leitores.
Reformado como coronel, não cortou o vínculo com a classe e,
dentro em breve, lançará uma importante obra solicitada pelos seus
colegas de anna.
Ao pendurar o fuzil, o sabre e outros apetrechos bélicos, Zé
tornou-se um arrojado marinheiro adquirindo um barco, o célebre
"Mestre Rosalina'', movido à vela e motor. Com ele veio do Rio
de Janeiro e daqui navegou várias vezes para Fernando de Noronha,
e quando lhe perguntava o porquê das viagens, dizia-me:
- É para desenferrujar as juntas.
Sobre essa fase marítima de sua existência, escreveu o seu
segundo livro: "A Saga do Barcaceiro", no qual demonstra ser um
exímio navegante, um lobo do mar, como diz a marinhagem.
141
Reformado, passa a esculpir, pintar e escrever com ma
intensidade e já tem pronto esse novo livro onde descreve co
maestria o importante bairro portuário de Jaraguá, o ambiente
existente nas primeiras décadas desse século e o homem que ne
VlVta .
Analisando a parte a mim solicitada para apresentação - O
Homem - quero ressaltar que Zé Fernando transfere para aa
dissertações históricas o estilo usado em suas telas e esculturas.
como se estivesse utilizando o pincel e a goiva para nos transmitir,
com detalhes, ~s figuras por ele descritas: o hercúleo Zé Guindaste,
contrastando com a magreza do inglês Macgray, dono da égua puro
sangue que muito deu o que falar na paróquia, Põe Mesa, bela
caricatura do terrível freqüentador da zona onde botava pra correr
as putas com seu respéitável falo, por elas comparado ao de uin
jumento.
Assim, Zé Fernando continua descrevendo, com habilidade,
dezenas de criaturas que "loitavam" como se dizia em Jaraguá,
algumas décadas passadas, procurando nos transmitir, além do
perfil das figuras ilustres, os tipos populares e outras pessoas
comuns que apresentavam um comportamento que as caracterizava:
altos comerciantes, autoridades, funcionários públicos, marinheiros,
trapicheiros, carregadores, desordeiros, estivadores, soldados e
barcaceiros, dentre outras categorias. Não esquece as raparigas grã-
finas da Sá e Albuquerque, entre outras, e as do baixo meretrício:
Duque, Verde, becos do Urubu, Onça, Queimado e da Facada, com
seus célebres seixeiros, focos de moléstias venéreas, brigas e muita
cachaça. Há, em tudo isso, por parte do Zé Fernando, uma dose de
denúncia social por apontar as angústias e sofrimentos dos mais
pobres, a prepotência das autoridades e as diferenças na escala
humana, alguns ricos, os remediados sem brilho, os miseráveis
desamparados, constatando-se a sensibilidade do autor e seu
registro para o estudioso.
Inicia essa terceira parte de sua obra contando a história de um
coronel que aguardava, com entusiasmo, na Ponte de Jaraguá, a
chegada do filho estudante em Londres, como um cabra macho,
mas, ao pisar em terra firme, pintou logo como um efeminado pra
ninguém botar defeito, e o Zé narra o fato com perfeição.
142
llistoriador por excelência, o autor demonstra grande poder""'
p ,quisa, suas narrativas são explícitas e muitas delas parecem sei
º'"" de ficção, embora sejam a pura realidade. A mais rica fonte
d1 i.,lus histórias foi a venerável figura do velho Alfredo de Maya,
d1 lluem ouvi grande parte do que o Zé conta no seu livro; outro
111tormante de peso foi o seu genitor, ex-industrial e conceituado
11111hientalista Paulo Pedrosa, dono de uma fábrica de mosaicos no
111lcio da Avenida da Paz por muitos anos.
Durante a leitura de seu belo trabalho que deve ser lido por
111do alagoano, descobri que o prezado primo dá uma de mágico e
piocura escamotear os autores de certas façanhas: o mancebo salvo
il.1 sífilis por um anjo da guarda é o próprio Zé Fernando, e o João
·ll' Jade que aparece em mais de uma estripulia é o nosso velho
mnigo comum João Simões, conhecido mais recentemente por
"João Bardal", isso para não falar dos ricos comendadores e
1•portadores que cometeram atos falhos inimagináveis pelas suas
posições sociais e econômicas, e cujos nomes não se pode revelar
dt• maneira alguma.
Finalizando, quero apenas lembrar que Mossoró começou a
mia como cortador de cana na Usina Santa Clotilde e, quando veio
pnra Maceió, passou a ser pintor de parede. Logo depois, juntou-se
, 0111 Gedalva, a dona da Pensão Tabaris, ponto de partida para a
onquista do título de "rei da noite" de Maceió.
Edoor Valente Bittencourt, médico,
memorialista, professor aposentado da
UFAL e sócio honorário do Instituto
Histórico e Geográfico de Alagoas.
143
. 1'
~~ 
~~~~~~~.?~_:;:
?
Tipos do Velho Jaraguá. Burocratas de trapiche, 1935, detalhe
retocado de fotografias da época. Populares, desenhos do
autor do livro.
144
..------~-----------------~--------------------------------------------------
llm garoto efeminado e um pai intolerante.
Estava chegando de Londres o garoto. É fácil imaginar a
nll!gria e o orgulho de seu pai, um coronel de engenho, postado para
11..•cepção no palanque da Ponte de Jaraguá, cercado de familiares e
111nigos, olhando a atracação de um bote vindo do largo. Havia três
1111os desde o embarque do filho num paquete internacional em
Recife, indo estudar no Velho Continente.
Para aquele proprietário, educar seu primogênito na Europa era
o grande sonho, porque habituou-se a admirar a cultura e o aprwno
de um velho tio que chegara de lá falando inglês e francês,
pontificando ciência e literatura da Bela Época em Paris e Londres,
depois eleito com brilhantismo para a Academia Pernambucana de
Letras. Era o que mais desejava fazer e não pôde.
Mas executou o sonho mandando o menino de quatorze anos,
um estudante quieto e de boas notas, recomendado do colégio
interno em Recife, elogiado pelo seu comportamento exemplar,
asseado, estudioso e aprumado no vestir, até por que não dizer?
com modos europeus, sabia-se aprendidos com um dos seus
mentores no internato. E passaram-se os tempos, três longos anos.
O jovem mandava notícias com freqüência e o correspondente
de seu pai na capital britânica dizia por carta que aprendera em dez
meses a língua, seu rendimento no colégio era bom, e que gostava
do internato, de onde pouco se afastava. Da última vez que o vira
estava górdo e alegre.
Por isso, disse o Coronel orgulhoso e olhando o bote de quatro
remos de voga já chegando:
- Meu próximo sonho é que seja um Deputado da
República pelo Partido Republicano Conservador! Tudo farei
... será o caçula da Câmara!
E um amigo ao lado somou firme e pausado:
- Senador ... Senador, Senhor Coronel, que mais merece ...
Enquanto os catraieiros amarravam os lançantes do bote na
ponte) o Coronel não sabia ainda que teria tanta raiva numa semana
a ponto de perder o aprumo.
145
É que, ao desembarcar o garoto do bote e pisar na escada
ponte, espalhou-se, em todos os presentes, uma surpresa diflcil
descrever naqueles tempos de machismo, rigidez moral, cadavéri
indiferença de uma realidade, repulsão ferrenha à modali
amorosa que já estava em moda na Europa, sem muito pud
diziam como conseqüência das trincheiras da Grande Guerra,
amor entre pessoas do mesmo sexo.
Desembarcou vestido como um almofadinha, cheiroso
perfume francês, um pouco de tako nas faces rosadas pelo
marinho, calças muito justas, blusa com rendas proeminentes q
balançavam ao vento, enquanto falava virando os olhos e juntan
as mãos, torcendo o rosto para os lados e para cima, contrário a
braços. Além do mais, dedicou-se quase que exclusivamente 80I
grupo feminino de suas irmãs, primas, tias e amiguinhas, dando
conhecimento e comentando a última moda da Europa, aquela
saias curtas e coladas demais, chapéus que nem casca de ovo ou
meia bola de borracha, de onde saíam enormes penas de pavão,
meias pesadas e acima dos joelhos, enfim, um sucesso. Sequer
ligou a menor importância quando o irmão menor lhe deu notíciaa
de seu potro pampo com sela comprada em Caruaru especialmente
para sua chegada, domado, correndo na campina da fazenda,
subindo fogoso nas éguas da redondeza. Enquanto isso se passava,
crescia a estupefação do velho patriarca que mal se disfarçava em
sua sizudez instantânea e pétrea, fervendo de indignação, at6
evitando olhar o garoto de frente, e muito menos os amigos que
foram abrilhantar a recepção. Depois de percorrerem toda a ponte
até o chalé de saída ao lado da Recebedoria, fim de desembarque, o
garoto quase na ponta dos pés e meio curvado, com voz delicada e
doce, virou-se para o pai e fez sua primeira pergunta arranhando a
garganta como inglês que aprende nossa língua:
- Papi, papi. Que árvore lindíssima é aquela? apontando
para os lados da Capitania dos Portos. E respondeu o pai um tanto
ríspido:
- Num tá vendo que é coqueiro? Já esqueceu? Oxente!
E continuaram, o Coronel com pressão por certo de 21x12 e
pescoço azul de tanta veia estufada, enquanto sua esposa, tentando
146
di~fnrçar os constrangimentos. afastava parn longe o filho 011
llcnva entre ele e o pai, mudando de assunto, desconvc111umlo
li licadamente.
E, uns quatro dias depois, veio a explosão do pobre homem
111contido em seu descontentamento, perguntando, dentro de sua
.1lma máscula e rígida (e que se chamaria hoje de preconceituosa),
.linda na esperança de estar enganado: " será que ele é ? "
Indo de automóvel com a família para uma de suas
pl'Opriedades perto de Maceió, teve a viagem paralizada por um
pedido de sua esposa ao motorista para o garoto satisfazer sua
vontade de urinar.
E então ele se afastou do carro com delicadeza, o cotovelo
l'Squerdo alto como vértice de um ângulo reto, mão posada de
costas no quadril, como se levasse uma ânfora em baixo do braço,
l.lnquanto o outro cotovelo mostrava uma ligeira e feminina
curvatura entre o braço e o antebraço que quase roçava ao passar
pela cintura, num conjunto realmente harmonioso como o de uma
modelo desfilando em passarela, rebolando os qua1tos em torno da
cintura, quase que flutuando - uma autêntica gazela virgem. Foi
quando, não se controlando mais o Coronel, e com vergonha do
motorista, do banco dianteiro sacou o seu revolver cano longo e
gritou para o filho:
- Psiu ... Psiu ...
O garoto voltou-se então para trás, atendendo, e o velho
verberou bem alto, apontando o revólver para ele:
- Se mijar de cócoras eu atiro. Seja macho!
E não teve mais dúvida. Não era.
______________________________,_____________________,___,____________________________
A ironia de um alemão e a ingenuidade de um
exportador.
Depois de navegarem de bote desde o vapor ao largo até a
Ponte de Jaraguá, o Comendador e sua família foram cercados por
uma comitiva de parentes e amigos. Todos procuravam captar as
atenções e alegrar a vaidade daquele homem importante no
comércio de exportação.
147
Enquanto esperava o desembarque da bagagem pesada,
família mostrava algumas compras, entregava pequenas lembr
da viagem e o Comendador dava asas a sua Hngua. Elogiou
hospitalidade dos ingleses e dos alemães, principalmente de
ultimos, com os quais mantinha vultosos negócios de açú1,;ar
muitos anos.
Volta e meia mirava seu algibeira de ouro pendurado
grossa corrente também de ouro e posto no bolso superior do col
que usava escuro, mesmo naquele calor da quaresma. Foi quan
por cima dos bigodes, falou para a audiência atenta que
parecia a de um ministro ou senador, diante da indagação de co
fora recebido nas europas:
- Imaginem. No almoço que um diretor - parece que er1
tal de Herr, sei lá o nome direito - o.fereceu para mim naque
refinaria em Hamburgo, eu na cabeceira, vinho da melb
qualidade rolando com carneiro assado no repolho ... mui
gente em volta ...
- E como foi a homenagem, Senhor Comendador-
adiantou-se um funcionário de sua firma, com voz de
quando quer pedir bombom ao avô pouco antes do almoço.
- Ora (continuou), escutem só, o tal de Herr ... parece q
tinha um sobrenome depois ... como foi mesmo o sobrenom
dele? oh, memória fraca! ... só sei que ele falou que tin
mandado fazer nos lados da fábrica uma rua que batizou d
Avenida Brasil. O lugar ficava no recreio dos operários ...
imagine, os operários todos brancos de olhos azuis. Vocês i•
viram uma coisa dessa, operário de olho azul ? Branquelos!
Narrando as iguarias do dia, o homem, sempre loquaz, disse
em seguida que manifestou ao Sr Herr, através de um intérprete,
sua vontade e honra em conhecer a tal avenida com nome de seu
saudoso e querido país, que tanto açúcar mandava para Hamburgo.
E foi atendido. Depois do licor de fim de banquete, chegaram ao
local numa caminhada digestiva e alegre, séquito de funcionários
graduados da fábrica atrás, respeitosamente, lembrando uma
procissão, daquelas que chegam e saem da Catedral pela Rua do
Sol.
148
Contou então o Comendador, com a cara mais i11occnh.', tllll.'
1;1.1 um aterro pilado de barro e areia como a do Rio MW1daú cm
M111 ici. ou mesmo do Camaragibe, adiantando em seguida:
- O homem foi logo dizendo e o intérprete falando em
português que aquela avenida aprumada era feita com areia
11nc vinha no açúcar de Jaraguá. E eu disse então agradecendo
11 ~cntileza: muito obrigado pelo Estado de Alagoas ... o senhor
(• muito educado, como todo mundo daqui ... e, empinando o
1..mpo e balançando a cabeça com as mãos agarrando as abas do
pnlctó semi-aberto, perguntou:
- É muita honra, não é? essa tal de Avenida Brasil na
Alemanha! E ficaram os ouvintes fazendo que não entenderam
nada. E perceberam que o próprio Comendador não cap.tou a ironia
do alemão, do contrário não teria contado a história. Afinal, a
vergonhosa mistura não era feita no trapichc e sim nos engenhos ...
uem todos, é verdade.
Depois das despedidas e agradecimentos, aquele grupo de
viajantes tomou feliz o Ford 29 estacionado logo pertinho, e se foi
o Comendador olhando para frente como um general em desfile
motorizado, família atrás formada em estado-maior.
Quando um Governador quis ser gentil e se deu mal.
Corria o ano de 1906.
Depois de muitas visitas, solenidades e discursos, reuniram-se
as autoridades em frente da entrada da Ponte de Jaraguá para as
despedidas ao Presidente eleito Afonso Pena e sua comitiva, pelo
Governador Euclydes Malta, seu secretariado, personalidades civis,
militares e eclesiásticas, as mais importantes colocadas para uma
fotografia no último degrau da calçada e em frente do acesso
central, um dos três lá existentes. Ao lado do visitante ilustre
estava um capitão da Força Policial em posição de sentido, erecto e
aprumado como um guarda real. Era muito alto e espadaúdo,
portando no ombro direito alamares cor de ouro, a espada em
talabarte do lado esquerdo da cintura, quepe novo e reluzente
149
enfiado com aprumo na cabeça, duas medalhas milita
penduradas no peito esquerdo.
Ele fora o ajudante de ordens qut
o Governo do Estado pusera à disposição
do visitante para que, ao seu lado pelo
protocolo, desfilasse, abrisse a porta do
coche presidencial, coordenasse as
medidas para atender às necessidades
básicas da autoridade e de seu conforto e
segurança.
Teve também que ser um bom jarrão naquelas circunstâncias,
trazendo o sentido de força e prestígio a quem seguraria os destinos
do País em breves dias e muito poderia fazer por Alagoas e seus
políticos do partido situacionista, o Republicano Conservador.
Ocorreu que o Presidente ficou impressionado com a eficiência
d::tquele oficial limpo, discreto, marcial, solícito e atento, quase
mudo, extremamente discreto como devem os militares ser para as
autoridades civis em governo. Os únicos sons que emitia vinham
das pontas metálicas de seus alamares, batendo umas nas outras e
marcando o passo firme e cadenciado de seu portador, naquele
tilintar próprio dos estados-maiores e gabinetes, e o choque de seus
calcanhares quando fazia continência sempre perfeita, dizendo
depois com voz firme e um tanto sonora:
- Sim, Excelência ..., ou então:
- Por favor, Excelência, por este lado, Excelência ... está em
frente o chefe do protocolo, adiante, o Dr Euclydes ... ou ainda:
-Água fresca para Vossa Excelência? ... garçon!
Alguns críticos da visita presidencial, inclusive jornalistas
acompanhantes do Rio de Janeiro, disseram que melhor teria sido
que designassem para a função de ajudante um homem mais baixo
para que não despertasse no público a idéia de que o Dr. Pena era
150
1l1111muto. Mas reconheciam que a dupla impressionou pela sisudc1
, compostura e que a diferença entre o Ajudante e ? Primeiro
Mandatário eleito, o militar com um metro e oitenta e sete e a
•1111oridade com pouco mais de um metro e sessenta e quatro,
poderia ter sido até motivo de ridículo, mas que não fora.
Constatou-se também para o público que o oficial era filho de
11111 imigrante alemão chegado aqui depois da Franco-Prussiana de
11 • um sapateiro que fazia chinelos e botava meia-sola num
quiosque do Mercado Público, herdeiro de um físico invejável e
proporcional, ainda não atingido pela verminose e pelo
11npaludismo de gerações e gerações passadas nos trópicos úmidos.
Na verdade, o Governador Euclydes desconhecera tais
diferenças de altura porque obedeceu a dois critérios que lhe
pnrcceram mais corretos: o militar devia ter boa apresentação e
licha disciplinar limpa. Mas, segundo tomou conhecimento pelo
e'omandante da Força, todos os capitães, inclusive os mais
preparados, examinados cuidadosamente um a um, eram baixos
demais ou muito magros, ou muito gordos e barrigudos, e a
111aioria, apesar de bons de volante contra os bandoleiros do
111terior, não tinha o menor traquejo para vestir uma farda de gala,
muito menos acompanhando uma autoridade tão importante.
O melhor deles, lido e até dado à poesia, mancava de uma
perna, o seguinte na ordem intelectual (gostava de fazer discursos)
carregava uma cadeia por comportamento irrregular, questão de
dívidas, um defloramento quando era delegado em Piranhas, etc,
etc. inclusive uns dois ou três sequer sabiam escrever uma parte de
ocorrência. Quase todos eram moreno-corpados, encéfalo grande
demais sustentando cabelos carapinhados e duros, segundo pensava
o Governador, contrariando a leveza mineira e educada do
Presidente por acompanhar.
Em meio de tão grandes dificuldades e na ausência de um
capitão em condições, informaram ao Governador que um certo
tenente que o povo chamava de "Galego da Lagoa" além do porte
militar de sua raça prussiana, aprendia as coisas com muita
facilidade, estava sempre calado e nunca fora intrometido e folgado
com seus superiores, e nada havia em sua folha corrida que o
desabonasse, nem encrencas no quartel, nem truculência policial,
151
nem envolvimento com política, questão que o Dr Euclydes le
a sério.
Entretanto, avisaram, o tenente não cursara mais do que
segundo primário e fora sargento até o ano anterior, promov
mais pela marcialidade e bom exemplo de militarismo do que
sua antiguidade e nível de escolaridade, concurso muito men
Era muito bom de desfile, num meio em que a marcialidade s
quase ridícula na tribo policial.
- Mesmo assim pouco letrado, é esse que eu quero (decidi&&
Governador no despacho) ... no entanto, é preciso prepar'
para a tarefa. Se for necessário, mande-o fazer um treiname
de sinais de respeito no quartel do Exército. Desejo tamb'
que seu uniforme seja preparado no Recife sob medid
Mande-o de trem ... fica hospedado no Quartel do Derby. E
falo com o Governador ... e, voltando-se para o ajudan
militar, detenninou ainda: - Quero também que o Tenen
seja promovido a capitão - prepare o decreto - e que lhe sej•
apostas duas ou três medalhas. Posso pedir uma a Pernambu
outra ao Rio Grande, em Natal. T raga-o a palácio para u
conversa na próxima audiência militar.
Depois da tal audiência, O Governador confirmou para si
mesmo que estava no caminho certo e deu outra ordem a
Ajudante:
- Mande botar uma chapa dentária nele por conta
Estado. Ele perdeu a segunda dentição e não fica bem aparecer
com a boca murcha diante do Presidente. É bom. Foi o único
defeito que encontrei nele ... mas isso o erário resolve. Obl
Também quero que corte curto o cabelo, como nas tropas
policiais do Rio de J aneiro ... me pareceu que não dá banho na
cabeça há algum tempo! Mas isso a ele se impõe ...
Terminado o estágio e já com os uniformes prontos, dentes
novos, cabelos retos e limpos, como convém a um militar de
carreira, foi o capitão colocado a par de todo o protocolo e
programa da visita, vendo-se mais uma vez que fora uma boa
escolha, sobretudo porque as pessoas louras e de olhos
transmitiam algo de superior e elegante. E logo ele
152
fltmiliurizado com os procedimentos palacianos, apesar de culmlo
111110 um jabuti.
Mas, voltemos à Ponte de Jaraguá _ .
No final da visita, todos ali deslocados para o galpao de zmco,
11
1)r Euclydes mal disfarçava sua alegria. O protoco~o correra ?em,
i:
111 nenhum deslize grave, os discursos foram ?1~1to aplaudidos.
liiclusive 0 do Dr Alfredo de Maya, dígno Secret~no da Faz~nda, o
l'il·sidente fora gentil e solícito aos ped1dos, elo~1~ra a
lui-.pitalidade e até a pontualidade dos alagoanos!, e o Cap1tao seu
,11udante não cometera nenhum lapso. Mas, naqueles mom~n~os
llllnis, já reunidos todos no palanque da Ponte, Banda. de Musica
postada para 0 Hino Nacional de praxe, o bote especial atracado
Hll1l marinheiros de escolta em gala, remos para. o alto, .deu-se o
11
nprevisto no último diálogo da visita, com o Presidente dizendo:
_ Governador Euclydes. Devo manifestar a Vossa
Excelência que estou muito bem impressionado., co.m ~cu
1
ijudante-de-ordens aqui no Estado, e assinalo. que Jª ~~ mmtos
1
;or aí por isso ouso pedi-lo para o meu Gabmete M1htar. Se
Vossa'Excelência concorda, mando providenciar o embarque
tlcle em Recife, quando o paquete voltar da visita ao Piauí.
Formou-se então um ambiente de estupefação, mais ainda no
Ciovernador e no Comandante do Batalhão Policial ao .lado, todos
suados pelo calor do dia e pelo imediato constr~ng1mento que
surgiu. E ficaram petrificados por instantes, sem sa1da para o c.a:o
e diante da hipótese de mandarem para o Rio de Janci~o um cap1tao
semi-alfabetizado e que há um ano era um humilde sargento
seleiro-currieiro nas baias do Comando Geral, depois subtenente
chefe das baias, tratando com animais e arreamentos, como lhe
havia ensinado 0 pai também um experiente ex-sargento de
cavalaria do Cáiser! .
E 0
Dr Afonso Pena, percebendo algum constragimento, abnu
novamente a palavra:
_ Já sei, Doutor Euclydes, ele parece indispensável em seu
serviço de ordens no palácio, não é? Mas, de ~ualqucr
maneira, mantenho o meu pedido, dada a necessidade de
formar logo um bom gabinete .
153
Foi quando um político palaciano, que se poderia chamar
intrometido e inoportuno, em vez de esperar que as coisas fluis
para depois tudo se resolver, como é usual no jogo entre
autoridades, intentou uma solução atravessada, a qual o
Euclydes não ousou contrariar, porque ainda não conseguira sair
torpor gerado pela situação:
- Sr Governador - com licença, Excelentíssimo Presiden
por que não perguntar ao próprio Capitão se aceita o hon
convite? E foi o que o Dr Euclydes fez, voltando-se para o ofici
- Então, ilustre capitão, o senhor aceita ir para
Presidência com o Doutor Pena?
E deu-se, mais uma vez, o inesperado. O oficial, pensando q
jamais seria digno de tamanha honra e responsabilidade, demo
mais da conta para responder ao Governador a pergunta. F
ficando vermelho arroxicado, as veias do pescoço saltaram
andaram como que imprensadas pela corda de uma forca, arregal
mais da conta os olhos azuis, parecendo agora maiores e mais az
ainda, e para fora das órbitas como se fossem saltar, estico
desmesuradamente o pescoço afinado para fora da gola e largou s
resposta em voz bem alta e trêmula:
- Seu Excelença, eu não posso porque sou um bosta! E
solução foi fazerem todos que nada tinham escutado, enquanto o
chefe do protocolo corria por trás das autoridades para ordenar l
Banda que iniciasse o Hino Nacional imediatamente.
Durante o Hino tiveram tempo de colocar as cabeças nos
devidos lugares para, em seguida, apertarem as mãos uns dos outros
e se separarem. E lá foi o bote presidencial na voga dos remos até
o navio ao largo, não se sabendo o que passou pela cabeça do
Presidente, talvez um certo sentimento de culpa por não ter
percebido o tamanho da ignorância que a estampa do seu ajudante
escondia.
- Meu Deus, que vexame foi esse? perguntou por sua vez o
Governador sem saber para quem, talvez para si mesmo. Melhor
teria sido escolher um baixinho daqueles, até mesmo um cabeçudo
indisciplinado, ou o capitão que mancava, cuja esperteza alagoana,
apesar da ausência de beleza e pompa, superaria plenarnente a
marcialidade prussiana do "Galego da Lagoa".
154
l r
C.:O.t.1,.Ô
__________________________________________________________________,_ _____ -·--
( ·01110 se passa da feliz expectativa para a cruel
th~svcntura.
Na alma de Marieta, carinhosamente chamada de Sinhá Moça,
iovcm esbelta e bonita, o noivo era como a própria vida porque
llll:lf)irava 0 perfume de suas lembranças e cartas de amor,
nlunentava-se com suas deferências e recordações. quando outras
1ovcns estavam por ali, muitas, e logo e~a a preferida. . _ ,
A distância que os separava parecia agravar sua pa1xao,. ate.~
1
hn cm que recebeu um aviso: ele chegaria de navio e~ de~ dias, Jª
l'tHn os papéis prontos para o casamento brev~, _dm~1eiro para
111iciarem a vida juntos, emprego numa repart1çao federal em
Maceió.
No dia da chegada lá estava a moça na Ponte de Jaraguá, só
Deus sabia quanta emoção fervilhava em sua alma. sonha~?ra e
,1paixonada. Dali mesmo sairiam para oficiar o no1:ado, Jª que
nntes ocorrera por correspondência, tudo combinado e os
preparativos da festa encaminhados pela família, presença dos
parentes, tanto dela como do noivo. Contudo, ela não estav~ pronta
para 0 que iria viver desde o momento em que um bote vmd.o do
paquete ao largo atracou no batente da ponte, sem passageiro a
bordo, apenas os quatro remadores e um homem fardado de
marinha mercante de pé, ao lado de um pacote longo como um
esquife, tomando mais da metade do comprimento do bote. de proa
a popa, com uma mala de viagem e dois pacotes de papel de
embrulho ao lado.
_ Quem vai receber o corpo do rapaz? foi a pergunta do
médico de bordo do paquete, certo de que alguém fora avisado pelo
agente de viagem sobre o seu desenlace a bordo por uma febre
galopante de três dias. .
A pergunta veio como uma mensagem de tristeza, mas l?nge
de Marieta pensar que tamanha desventura ocorresse com o noivo e
com ela própria, e desviou a vista para o mar, onde outros .botes
iguais se aproximavam com passageiros e bagagens, senhoritas e
senhoras de guarda-chuva, homens de paletó e gravata, colete,
chapéu meninos vestidos à moda marinheira, sorrisos e acenos de
, 155
braço, beijos jogados com as mãos, gritos de alegria do pessoal
terra. Mas não avistou o noivo nem no último bote que atr
com passageiros, e ficaram ela e seus acompanhantes olhando
para os outros, quando se aproximou aquele mercante pergunt
se eram da família do desafortunado, cujo nome anunciou.
corpo tinha de ser entregue junto com os papéis: atestado de ób
cópia carbono do oficio do Capitão do Navio às autoridades
terra, o inquérito sanitário de bordo, mediante um longo recibo
duas páginas, inclusive contendo uma relação de pertences
morto. E tudo isso ia falando o homem, como que
desincumbindo friamente de uma tarefa exclusivame
burocrática, interrompida por um grito de horror da moça.
Dos vinte anos que vivera, até a sua morte quase centenári
nada mais fez a jovem Marieta, depois uma mulher madu
finalmente uma velha, do que chorar silenciosamente e vestir-se
preto. Sua beleza foi desaparecendo logo, sua elegante altura foi-
transformando em queda tisica, pela curvatura da espinha, omb
caídos e postos um pouco para frente. Sua tez alva e rosada n
dias de sol, como aquele da espera, logo tomou-se pintura fosca
um rosto macerado e triste, sua voz foi emudecendo, os cabei
ficaram alvos e desalinhados antes do tempo, criou olheiras
fundas rugas na face, a curiosidade que tinha virou contemplaçã
indiferente do nada, enquanto olhava em frente através das coisas tJ
pessoas, como se fossem transparentes.
Os que dela gostavam desistiram ao longo dos anos de
conversar com quem demonstrava total apatia, até mesmo dianto-
das coisas mais interessantes da vida, como que se morresse
lentamente enquanto passava semanas inteiras comendo papa de
maisena assentada numa cadeira que passou a fazer parte dela, de
tão ligadas.
Muitos anos depois, o sobrinho Caubi Dâmaso, gente da Boca
da Mata e Anadia, que fora estudar no Sul, sob a lembrança triste
daquele figura cinzenta, sugerindo sofrimento, escreveu
homenagem a quem costumava olhar cheio de comiseração:
156
"º111rnte 1>ara recordar,
111111ovcnte história de amor,
,. lt1111f!inação do leitor,
t1111jrcturas dessa tragédia:
IJ11111 tia querida ... faz anos ...
11t1111rda'a o noivo vindo do Rio
p 1ir:1 o tão ansiado casamento.
No transbordo do bote 1>llf'11 o ''"'~
o corpo sem vida do inditoso jonm
falecido dias antes em alto mar ...
Ela, Sinhá Moça, tomou luto
nos dias todos da longa existência
Viveu ncnenta e i.eis anos
Jamais namorou outro homem ..•
Hoje não se vê mais dessas coisas
Meu tiucrido e saudoso Jaraguá! ...
··---------------------------------------------------------------------------
( 'oofusão na mente de um rico simplório.
Costumavam chamar o trem de ''vapor", talvez em alusão aos
navios que chegavam em Jaraguá soltando fumaça pelas chaminés.
t final, tanto um como outro usavam carvão de pedra ou lenha e
suas caldeiras criavam o vapor que até nos apitos era o mesmo.
Ce110 dia estava na Ponte de Jaraguá um expo1tador de
algodão, prestes a tomar um bote para viajar pela primeira vez num
da~queles paquetes de linha. Cidadão importante de Viçosa, tinha
renome de próspero e sobretudo pacífico. incapaz de um ato de
maldade ou de uma desconfiança. Em volta estavam outras pessoas
para a mesma viagem e alguns parentes e amigos em despedida,
naquele ambiente de certa ansiedade e expectativas.
Foi quando a indumentária do ilustre comerciante chamou a
atenção de um amigo curioso e irreverente, por estar ele com um
guarda-pó que usava nas viagens de trem, tanto para Recife como
na linha de Palmeira, e indagou:
- Seu (fulano), boa tarde. O senhor acabou de chegar
direto de Viçosa?
- Por que perguntas isso, oh Aristides'?
- Estou vendo que o senhor ainda não tirou o guarda-pé> da
viagem. Guardando a elegância de Viçosa, não é ... elegância,
viageiro de Deus ... e então respondeu ele com a cara mais séria:
- E você não está sabendo então, Aristides, que o navio
também é a v~por? E fez-se o silêncio.
157
Onde o sexo e a imundície conviviam.
... Jaraguá era ponto de encontro dos mundos, como de re
todos os cantos portuários. Era a velha tradição da boemia, como
freqüentar a zona fosse componente tindispensável
masculinidade maceioense/E não era a posição social e econômi
ou o cargo que impediam a tradição da Rua da Lama ou Rua
Capim, no centro da Cidade, e de outros locais da boemia. Pel
contrário, parecia até uma fom1a de mostrar poder e independênci
encontrar-se descontraidamente com pessoas importantes, e co
elas se nivelar, pelo menos uma vez por semana e sair-se um pouc
da sizudez dos matrimônios petrificados pelo costume e pela
religião. E o faziam aos grupos. amigos do peito, pessou
engraçadas e cheias de personalidade, tipos muitas vezes diferentes,
alguns grotescos pelos modos de andar e de conversar, predisposto1
à alegria. Eram políticos, fazendeiros, funcionários, tenentes e
capitães do Exército, despachantes, telegrafistas, comerciantes.
promotores, médicos, advogados, professores, contadores, agiotas.
Formava-se então um ambiente que algumas vezes caminhava
para os exageros, quando alguém influente resolvia fechar a pensão
e promover uma orgia: "... homens e mulheres bem comidos e
bebidos tiravam as roupas e ( ... ) se divertiam e rebolavam até
quando as raias do amanhecer clareavam os céus." (Ledo Ivo,
em "Ninho de Cobras").
Lá pelos idos dos anos cinqüenta, deu para freqüentar os
sobrados de Jaraguá uma turma de tenentes solteiros do 20Q BC,
cuja passagem em Maceió seria efêmera, todos liderados ou
seguindo o exemplo do Capitão Camarão, um cearense amigo,
engenhoso, inteligente e cheio de simpatia, todos com os "quartos"
estufados por enormes revólveres Smith 45 por baixo de camisas de
manga curta para fora das calças, a quem se juntou um deputado de
Coruripe que, como seus amigos oficiais, costumava fazer
exercícios de pontaria nas luminárias da Sá e Albuquerque, nas
luzes internas das pensões e, certa vez, zangados com uma música
repetitiva, em lugar de certo bolero ou tango que queriam,
1 ~8
11,1 clctrola da pensão da Dina, que silenciou imediatamente, tunto
l1lu quanto todos os presentes no salão. . ..
· Tudo isto era visto com certa naturalidade pela Pohcta que se
negava ou não podia prender oficial nem deputad_o, ficando por
lOnta do Major Mário Lima resolver os constrangimentos com a
mais absoluta impunidade devido ao seu coração bovino. Mas dava
nos seus comandados conselhos e os mandava pedir desculpas e
pagar imediatamente à cafetina os prejuízo~. O Deputado, p~r sua
vez não havia quem o contivesse. Ele sabia que suas tropelias na
1011~ do meretrício somavam votos na capital e no interior, por~~e
0 eleitor gostava de truculências como demonstrações de prestigio
1w impunidade desejada por todos, no intimo de suas almas de
oprimidos sociais.
Na zona mais baixa, a promiscuidade era total, a marujada
..,
0
lta os soldados, toda sorte de assalariados e de autônomos,
nlgu~s chegados do interior onde o sexo era re~rimido_ p~l~ medo
de casamento na polícia, pela vigilância das tias, pro1b1çoes dos
pais e repressão do vigário.
Estavam por todas as partes as mulheres de vida fácil que,
segundo se dizia, levavam a existência mais difí~il do mundo. E a
humana hierarquia era aplicada também nesse umverso do amor de
aluguel, segundo a beleza, a idade, a educação, a origem, a saúde e
a fortuna. Assim, havia as mulheres reservadas, de casa montada,
atendendo a um pequeno naipe de fregueses selec~onados que
procuravam diretamente em seus biombos a alegna do, sex~.
ficavam espalhadas em quase todas as ruas pobres de Jar~gua, mais
para dentro da Estrada Nova, na antiga Trave~sa do Que1'.n~~o, na
Rua do Rato, na Estrada do Oitizeiro, na antiga do Cem1teno, no
Beco do Vilela, pelos arruados de dentro na Pajuçara. Esta c!asse
de mulher recebia sem alarde seus fregueses depois de um dia de
trabalho digno no Mercado, no comércio, em casas d~ famí.lia, ou
costurando para fora, com a tolerância e até a s1mp~t1a dos
vizinhos, porque em geral eram gente honesta ganhando a vida.
~ De vida 1ivre havia também o lote das raparigas de pensão na
Sá e Albuquerque, naqueles sobrados de dois ou três andares~~~
escada alta de madeira impondo certo isolamento. Eram mulhe
de boa qual;dade, jovens, de educação que às vezes surpreend
(algumas cursaram o ginásio), bem vestidas, em certas ocasiões
com roupa de baile, mostrando cerimônia e refmamento em vol
das mesas e balcões, onde o respeito era bom que se tivesse, até q
uma orgia revelasse o lado verdadeiro da zona.
Nos sobrados da Sá e Albuquerque, as "pensões" conviviam em harmonl1
com escritórios, lojas, repartições públicas e consulados. Fotogra8*
retocada pelo autor.
Ficaram na memória a Dina, a São Jorge, a Joaninha e a
Tabaris, onde o pintor de parede Mossoró fez sua aprendizagem do
ramo com sua amante cafetina.
Mas até na zona havia um certo romantismo. Era costume
convidar-se a rapariga escolhida para dançar primeiro, dando-lhe
direito à negativa, indo para o quarto depois de umas rodadas de
samba .e bolero no salão, com orquestra ao vivo, onde
predominavam o saxofone e o clarinete. Tomava-se ''cuba libre"
160 ,
ou rum com coca-cola, whisky com guaraná, moscatel, quinado e
cerveja.
Um nível abaixo, estavam o Duque de Caxias (mais conhecido
1.omo Duque), o Verde, o Beco da Onça e outros becos de Jaraguá.
Eram ruas estreitas com biombos de parede com parede, um, dois
ou três cubículos sem banheiro, corredores estreitos depois de urna
salinha na frente onde ficavam as putas cansadas de guerra,
despedidas da Sá e Albuquerque, junto com as rapariguinhas
chegadas do interior, novinhas, "de primeira mão'', como diziam as
cafetinas, sem suficiente instrução para conseguirem uma vaga nos
sobrados. Perambulava por ali um enxame de gente da pior
espécie, onde a pura cachaça rolava como água e, volta e meia,
formava-se um bolo gigantesco de homens annados de facas em
corre-corre geral, polícia chegando logo depois e prendendo todos
que encontrava por perto.
Não era raro que por lá chegassem os rapazes de boa família
atrás das emoções do sexo, trazendo de lado seus guarda-costas,
quase sempre trapicheiros monumentais como o Presília e o
Colomi. E sumiam sem muita demora nos cubículos fedorentos e
tão diferentes de suas casas na Pajuçara como eram as raparigas da
zona de suas namoradinhas do Cinema Rex, sessão de domingo
pela tarde, quando se ensaiava o namoro romântico de pegar na
mão e dar w11 beijinho furtivo.
E ainda havia as quengas dos becos do Urubu, da Facada, do
Queimado, e de outros, onde as mulheres, segundo ficou na
memória popular, já andavam de pernas abertas de tanta venérea
incubada de meses, razão de chamarem de "urubu" os raparigueiros
que por lá passavam eni. sua vocação de comer carniça.
Algumas daquelas casas queriam ser discretas e disfarçadas de
pensões de verdade, como a que foi inaugurada em julho de 1926
com o nome de "Pensão 31", possuindo jardim externo e
sambambaias penduradas no teto, logo denunciada pelo "O
Bacurau" como tendo um vasto estoque de plantas tropicais
importadas do Recife.
161
11
-----------,------------------------~~-~-
Como se erradicou a venérea em Alagoas.
Poucas pessoas podem recordar o tempo do Dr CJá
Magalhães como Diretor de Saúde Pública de Alagoas e do
Barca Pelon, encarregado, pelo Governo Federal de erradicar. ,
venerea do pós-guerra no Brasil redemocratizado mas ai
vivendo os cacoetes da ditadura do Estado Novo. E o'resultado
o que veremos nessa história.
Os médicos da campanha em Alagoas eram Ednor Bittenco
Antõnio Gerbase e Radjalma Rego, gente cheia de entusiasmo
co~np~tência ~~o~ada por muito dinheiro para mover uma pode
m_aq~1ma sanitana em Jaraguá, com a cooperação dos órgl
pu?licos de Saúde e o apoio irrestrito do delegado policial
bairro.
Aban:otara~-s·e· os postos sanitários com muito medicamento.
em especial pemc1lma, sulfamida, arsenox, conhecido como 914,
permanganato, profil, camisas-de-vênus.
O Hospital Constança, no Prado, montou uma enfermaria
chamada CTR- Centro de Tratamento Rápido - para tratar mulheres
contaminadas, com internação, de onde só saíam completamente
~uradas. Seu horário era seguido à risca: atendimento pela manhl
as mulheres casadas; pela tarde, prostitutas; pela noite, h'6mens. E
as preocupações principais estavam na sífilis, na gonorréia, na
qua11a venérea, que o povo chamava de ''mula'', outros "denite",
nos cancros mole, duro e misto, no papiloma ou ''crista de galo" e
~rnr~ tal de ''chuveirinho'', isto sem falar na sarna, no chato e na
11np1gem que dava em forma de enormes manchas.
As recomendações das autoridades eram de guerra santa contra
? ma~, no sentido da prevenção do contágio, sem contudo
impedirem as atividades do meretrício, consideradas por todos não
apenas como um mal necessário, mas uma fonte inesgotável de
~ra~eres'. um~ g~rantia de que não se ficaria doido por estar o
ms.tt~to msattsfe1to, contido nas normas sociais e de conveniência
rclig1osa, palavras de vigário.
Havia no bairro, perto da rua do Duque, um Posto de Profilaxia
que deixou muitas recordações porque o trabalho por lá era ágil
16! '
proveitoso e animado, onde chegavam os mais prudentes parn
tomar banho com sabão e depois uma lavagem do enfenneiro com
permanganato de potássio. Outros se antecipavam recebendo grátis
uma ou mais camisas de vênus, e um tubinho de Profil,
medicamento eficiente e ardido para depositar no canal do membro
depois do ato.
Naquela época, o piolhinho chato, que dava em camadas até
nas sobrancelhas do pessoal, era combatido com um preparado de
Jair Uchoa, competente farn1acêutico estabelecido na cidade. Ele ia
logo avisando que o preparado devia ser diluído antes do uso, para
o paciente não reclamar do ardor nas virilhas e não ficar andando
de pernas abertas pela queimadura do remédio. E era bom que dele
o indivíduo se livrasse porque também traJ1Smitiam a sífilis,
segundo pensavam.
Havia obrigações a cumprir por todas as bandas. As cafetinas
tinham o dever de comunicar e encaminhar as novas meninas ao
Posto Central do Serviço de Doenças Venéreas na Praça das
Graças, Centro, para exame e fichamento, de onde já saíam com a
respectiva carteira de saúde.
Também a cafetina era obrigada a levar as novatas para
fichamento na 2ª Delegacia porque se tinha como certo um caso
policial qualquer com aquela espécie de gente potencialmente
predisposta, segundo as autoridades, ao roubo e arruaças com
marinheiros, militares em trânsito e desordeiros.
O Delegado de Jaraguá percorria as zonas com certa
freqüência, verificando o cumprimento das ordens, uma das quais a
de colocar cartazes dentro dos quartos: " Peça a Carteira de Saúde",
verificar se havia alguma rapariga sem a carteira, ou se estava o
documento em dia, no que era ajudado pela cafetina.
Havia ainda a obrigação de patrulhar todo o bairro onde
minasse o negócio da prostituição, havendo também uma rede de
informantes da Polícia e do Serviço:
- Doutor, tem uma casa de mulheres e é clandestina, disse
um deles no Posto da Praça das Graças.
- Avise à Polícia, ordenou o médico ao funcionário.
163
'I
E para lá se dirigia o delegado intimando todo mundo a
apresentar no Posto, o que ocorria com alarde, pois a pra
amanhecia cheia de mulheres, cafetina à frente providencian
atendimento.
Num dia comum. Carlos Mantiqueira, fiscal do Posto Ccnt
de Combate às Doenças Venéreas. passou pelo Posto de Profilax
de Jaraguá, ao lado do Verde e do Duque, onde um indivíd
apresentava uma gonorréia. Ele fora trazido por um policial porq
uma rapariga do Verde, seguindo instruções rigorosas pa
examinar o freguês. negou-se a ficar com ele. apontando-o
cafetina que logo foi até o Posto, para a obrigatória denúncia.
Foi quando, diante da comissão de ''combate", disse:
- Veja, Doutor, só agora notei que estou desse jeito!
homem disse para o médico, enquanto abaixava as calças e
mostrava seu membro avariado que apertava e de onde escoava
abundante um líquido amarelo-limão gotejando no mosaico do
piso.
- Essa é "de bico"! exclamou admirado o enfermeiro ao lado.
Mantiqueira abriu então a conve1·sa perguntando ao queixoso:
- Você andou com quem? Agora você tem que ajudar
porque é ordem do Governo. Onde você andou, rapaz?
- Não, doutor, (respondeu amedrontado) não fiquei com
puta não, quem me passou a desgraça foi a Samica, em Cruz
das Almas. E Mantiqueira. ainda imbuído do Estado Novo e seu
espírito inquisitório, saiu incontinente atrás da fonte de contágio,
com as referências que lhe foram dadas, e voltou horas depois
trazendo a mulher que chegou chorosa e indignada, jlizendo-se a
toda hora família. Mas, examinada, estava doente, de fato.
E Mantiqueira, tenaz em seu moralismo sanitário, procedeu a
novo interrogatório com a mulher:
- E você andou com quem? Vamo logo dizendo! É ordem do
Governo!
Muito constrangida. mas diante da evidência dos exames
procedidos e da insistência autoritária a que se submetia,
confidenciou para um enfermeiro, um médico e o fiscal
Mantiqueira:
- Eu fiquei com o sargento delegado de Riacho Doce,
164
1toutor, mas pelo amor de Deus, eu sou amigada!
- Com ele? indagou Mantiqueira.
- Não senhor! Acuda-me meu protetor Santo Amaro ...
ngora tenho que dizer ... ele é casado.
- O seu amázio é casado ou é o sargento? perguntou
Mantiqueira.
- Não, Seu Moço, é o sargento, respondeu a coitada.
- É o tal sargento que é casado, não é assim? ... mas então
c1uem é o seu amázio ? insistiu o investigador.
- É o Dedé. Chamam ele de Dedé. Ele é postalista e mora no
oitão da Igreja de São Francisco. Eu fico com ele mais ou
menos infetiva, esclareceu novamente a mulher. E então
Mantiqueira, no espírito de erradicação da epidemia, saiu em
diligência pela terceira vez para buscar o sargento policial que veio
logo dizendo:
- Doutor, não precisa nem examinar, por coincidência
infeliz o membro está "esquentado".
Por via de conseqüência. pegaram também o enganado Dedé1
um homem quieto, rotineiro e pouco conhecido até da vizinhança.
Mas. examinado, lá estava também o gonococo, porém Mantiqueira
logo concluiu que o homem era de uma mulher só, e que, com ela
pegara a gonorréia do sargento, ou do tal rapaz infectado do início
das investigações.
Verificando que tinha que esgotar o assunto, porque parecia
que não teria fim. Mantiqueira fez comparecer ainda ao Posto a
esposa do sargento que se queixou de urina ardida como sr
esti'esse misturada com areia fina, e foi imediatamente
encaminhada para o Hospital Constança, mas antes disse que rrn
muito fiel ao marido e po11anto não contaminara ninguém, j{1 qt1l' n
funcionário Mantiqueira estava tão preocupado com o assunto qm•
até chegou a perguntar pela sua conduta como esposa.
Contou também um detalhe curioso, referindo-se ao 111:11 iclu:
- Ele me disse que esquentamento se pega no hnnht•irn
quando o piso tá frio de manhã cedo, e me mandou lom11r dui
de limão e um pingo de arnica todo dia unh.·11 elo t•nfio,
terminando, assim, a incrível seqüência policial su11i1111111 iniciada
com um queixoso no Posto de Profilaxia de Doc11ç111; Vc11é1c11q eh.·
1()"
Jaraguá, mas ainda restava uma dúvida ao Mantiqueira: quem
verdad~, contaminou Samica? E quantos possivelmente '
.contarrunou?
Direitos humanos à parte, foi assim que se erradicou a vcne
em Alagoas ... por alguns tempos.
~uas raparigas do Beco da Onça entabularam discussão
termn~aram ind~ ~s vias de fato, coisa que acontecia todos os di
no baixo meretncro. Mas, desta vez, ia passando um guarda civf
zelos.o que achou de levar a sério o que poderia deixar por conta
cafetina resolver, e conduziu as duas mulheres para 0 Delegado
que mandou fazer a competente investigação.
Dois assistentes do Comissariado de Jaraguá deram início ao
trab~lho, ma~ logo pe~deram a paciência porque as mulheres só
quenam. c~ntmuar a discussão em vez de responder às perguntas
sobre o mc1~ente, e po.r isso resolveram atalhar caminho apontando
a que devena ser pwuda com prisão temporária Jogo a ·
h · , . ' que maas
ac aram ant1pat1ca e também porque gritava tanto que era ouvida
na Rua do Araçá.
Em seg.uida, .no momento de ser empunada para as grades, 8
mulher reagm assim:
-. Vosmicês me dê liçença de falar primeiro com 0 meu
padrmho, que ele me dá soltura já.
. - E quem é este teu padrinho para te soltar? Diz lá!
mterpelou_um dos assistentes um tanto displicente e ilÍérédulo.
E entao respondeu a mulher:
- É o Governador Doutor Fernandes. Meu pai é compadre
dele.
Acalmaram-se em seguida os dois policiais e, depois de
parlamentarem reservadamente, um deles falou:
. - O meu coração bem estava dizendo que esta mulher era
m~cen.te. A cara dessa outra não nega o que é ..., e apontou para
a m~e~rz q~e há pouco mandaram embora por inocente e foi posta
no xalmdro sem dó nem piedade, enquanto sua rival desfilava pela
porta da Delegacia com o garbo de vencedora
166 .
Nesta mesma semana ··o Bacurau" publicou uma ch1u·sc n
11·...pcito de certa proibição das prostitutas andarem nas ruas depois
lm; nove da noite. Surgem três mulheres juntas e, em frente, um
1•11.1rda com o cassetete apontando para elas, recebendo em resposta
de sua ordem de recolhimento a seguinte frase:
- Home, sai-te!...Então tu pensa que a gente não semos
"lindas com esse povo grande, não? Vai dar um giro na rodage
11 deixa de inveja!
Um seixeiro safado e uma prostituta de prestígio.
Segundo Mestre Aurélio, o seixo, além de pequenas pedras que
miam nos rios, é também o calote que se passa em prostitutas,
como praticou certo marinheiro de cabotagem com a Nega Anita,
que fazia a vida na zona do Verde.
Como era de praxe, o tipo foi logo conhecido, porque cometera
o maior desaforo que uma mulher podia sofrer cm sua profissão,
tomar um seixo: nome - José Apolinário das Seixas (por
coincidência); apelido - "Siri de Coceira"; tipo fisico - baixo, de
meia idade, troncudo, nariz pra dentro, cabelo liso de óleo de coco,
olho puxado pra fora, pele do rosto amarelada e cheia de bolinhas
escuras numa cara chata como uma broa, de grandes orelhas
distantes uma da outra mais do que do cabelo ao queixo; origem e
profissão - oriundo de Niquim da Barra, ex-barcaceiro de Seu
Agcnor, marinheiro da Pará de Navegação depois da Costeira;
família e amizades - pai desconhecido, mãe fugida com um
vendedor de estopa, amigo de um sujeito chamado por ''Carapeba",
que exercia a profissão de pombeiro de peixe no Mercado São José,
e que vinha matar o seus instintos na zona como bom pagante e
fácil de encontrar.
Em vista desses conhecimentos sobre Siri de Coceira, alguém
lembrou que o seixeiro poderia ser encontrado pelo Carapeba, e
foram procurar a ajuda policial do Velho Fidelis, ex-guarda civil,
que ainda trabalhava na Delegacia de Jaraguá e gozava de certa
consideração do Delegado Dr Jairo.
Fidelis, encontrado na Praça Lavenere, jogando gamão com os
167
amigos, tomou logo interesse em ajudar no caso porque, volta
meia, ele contava com os serviços facilitados de Anita e
pensava que tinha dela carinhos especiais como se fosse u
sobrinha devassa e caridosa com o tio. E deu início às primei
investigações interrogando o Carapeba num dos reservado!>
Verde, depois de ter sido preso quando visitava um biombo por tr
do armazém do Instituto, pertinho dali.
Ao lado do Velho Fidelis estava Anita com cara de vítima
um estupro, e foram logo sabendo das coisas assim: O Siri, segund
Carapeba, passava seixo em toda a Costa Norte, na época da Guerra
Mundial, quando, juntos, navegavam num navio pequeno na lin
Belém - Fortaleza, às vezes Recife, aplicando várias artimanh
para escapar do pagamento do serviço, no que era facilitado pela
sua vida errante e um tanto irresponsável de embarcadiço
descasado.
- E como era isso, Seu Carapeba'? perguntou Fidelis.
- Ah, seu moço, ele sempre vareia, como inté hoje ...
- Mas vá contando, seu moço, tudinho, viu ... ordenou sério
o inquisidor, logo atendido, porque o inquirido estava amedrontado
com uma palmatória que Fidelis portava em sua grossa mão, e que
até então a ela não se referira, mas ali estava, ameaçadora, às vezes
erguida a meia altura, outras vezes movimentada com arte,
devagarinho, passando tão perto do nariz do Carapeba que postava
nele uma sombra difusa de uma luz que entrava pela janela do
reservado e iluminava a reunião. E foi sabendo: a arte do Siri,
sempre diferente da vez anterior, era dizer que perdeu a carteira,
possivelmente para um batedor, procurando-a avidamente até pelo
quarto, em seguida sumindo Jogo que sentisse um d"escuido de sua
parceira, evaporar-se quando havia uma briga com corre-corre,
pagar com nota falsa, deixar um vale frio, amarrar o bolinho de
dinheiro numa linha preta, colocá-lo em pagamento na mesinha e
depois puxá-lo, ajudando sua procura por baixo dos móveis do
quarto e jurando que viu a rapariga apanhá-lo. Certa vez,
continuou contando o Carapeba, na Zona de Parnaíba, no Piauí,
fez-se de desacordado (até tossia de vez em quando) e foi trancado
pela rapariga por tempo suficiente para escapar por um buraco do
telhado. Mas soube depois por um marinheiro que a mulher ficara
com pena por tê-lo forçado a subir sem escada numa parede tão
168
nlla em busca da liberdade e ar fresco a que tinha direito.
- Na certa ela viu que tinha me feito uma desfeita ... disse
~iri para o informante.
E prosseguiu o narrador contando ainda q~e, c~rta vez, num
'íObrado de Recife, junto com um magote de mannheITos, e sendo a
luz do prédio apagada pelo contador (no segundo vão da esca~a),
iiaiu numa correria louca na escuridão até o Cais de Santa Rita,
onde tomou um bote alugado para embarcar em seu navio.
Foi quando Fidelis, indignado com tanta safadeza de um
tndivíduo só, interrompeu Carapeba:
- Aquilo é um cabra sem-vergonho ... vou pedir ao Doutor
Jairo uma patrulha, e você vai com ela (apontando c_o~ a
palmatória para o rosto de seu depoente) pra trazer esse Siri da
molesta, seixeiro da bixiga. Ele vai se coçar nas grades da
cadeia!
No tempo seguinte, entraram no Gabinete do ~elegado o
Fidelis e a Anita (o Carapeba permaneceu na sala de tnagem); ele
com a mão direita naqueles ombros nus e rechonchudos de sua
amiga, brilhando cor de chocolate, disse:
- Seu Jairo, o Senhor conhece a Anita aqui, não conhece?
O homem, sem levantar a cabeça direito, olhando ~ cena por
cima de seus grossos óculos de aros e lentes diminutas, disse:
- Sim, sim ... já ouvi falar, Fidelis. Toca pandeiro com você
na rua do Verde, não é ?
- Apois é, Seu Jairo ... o seguinte é esse ... um seixe~ro
debochado da mercante não pagou nem o quarto nem o serviço
da Anita. É um seixeiro conhecido no Ceará e anda
desafrontando as mulheres daqui. Ele saiu de fininho dizendo
que ia comprar uma caixa de fósforo e sumiu.
Depois de ouvir de Fidelis um relato circunstanciado com base
nas informações de Carapeba (vez por outra o denunciante estendia
0 braço para a porta de entrada dizendo que a testemunha estava
ali), o Dr Jairo, parecendo que queria ficar livre da dupla, verberou:
- Fidelis, se a nega é sua, prenda esse seixeiro safado .,.e
mande ele indenizar a vítima .. e o dono do quarto .. voce
169
mesmo, Fidelis, nem precisa trazer mais aqui ... v' na cm
prego imprensar o maliente!, conversa que chegou aos ouvidot
Siri de Coceira que tomou uma passagem de terceira da Rede
escapuliu para destino até hoje ignorado por todos. Deixou,
entanto, para trás uma espécie de salvo-conduto em dois pac
diferentes entregues pelo seu amigo aos destinatários: um caniv
de cortar laranja para pagar o quarto e um corte de chita para An
que há dois dias tentava vender e não conseguira.
E assim terminaram a indignação geral na zona, as amarg
do Carapeba e a interesseira ajuda do Velho Fidelis. Na verda~e,
larápio do amor conhecido por Siri de Coceira pagou tarde com
exílio por muitos delitos que, de longas datas, vinha cometendo.
O anjo da guarda salva um mancebo da síflis.
Um conhecido industrial de Jaraguá estava preocupado com
seu filho mancebo que, aos quatorze anos, ainda nem havia
contraído nenhum "esquentamento", como prova inconteste de seu
gosto pelo sexo oposto e nunca foi visto com os olhos nu
empregadas domésticas lá pelos lados da cozinha.
Em busca de uma solução para essa indiferença do garoto,
procurou o gerente da firma que era profundo conhecedor das
mulheres do bairro e disse num particular, depois do trabalho:
- Escute aqui, (fulano), cu tenho um problema para você me
ajudar nessa emergência. O meu filho rapazyiho...(etc, etc) e
você leve ele na Pensão da Dina que tem mulher limpa e ... (etc,
etc) mas tenha cuidado. Veja se a carteira dela está em dia,
viu? Leve aqui a quantia necessária e tome conta dele, viu?
Na tarde seguinte, lá estavam o gerente e o garoto, só que na
zona do Verde, cano de esgoto das pensões de sobrado da Rua Sá e
Albuquerque, tudo ao contrário das recomendações do patrão.
Mesmo assim, o principiante estava entusiasmado com a nova
experiência mas sequer desconfiava do trato entre seu pai e o guia
que resolvera dividir por dois o dinheiro do serviço, pensando em
nssim cobrar sua comissão no negócio enquanto também satisfazia
170
ttuns necessidades. Mas teve o cuidado de dizer para a rapariga <-Ili'-'
ji'I cobria com seus braços o mancebo:
- Olhe aqui, menina! O filho do patrão quer coisa limpa. E
você, como está agora?, e recebeu a resposta:
- Tô limpa, in inhô, mas uma sifilizinha ele pega comigo.
Pela proteção do anjo da guarda do garoto, tal coisa não
nconteceu.
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Como uma rapariga da vida venceu a parada.
Uma rapariga da Pensão São Jorge, conhecida como Neném,
chegara do interior recentemente (dizia-se da vilazinha de
Curralinho) e desconhecia as manhas da vida na zona de Jaraguá.
Por essa razão e por demonstrar certo grau de ingenuidade no que
fazia Neném aceitou o estudante "Põe Mesa'·, um sujeito magro e
pálid~, quase verde, que andava um pouco curvado para ~rente,
apresentando grandes olhos pretos e um tanto careca para sua idade,
destacando-se em sua face a mínima distância que havia entre o
nariz e os lábios.
Desconhecia Neném a fama que ele desfrutava entre suas
companheiras porque sempre chegava de mansinho, entrava na
pensão como se fosse um sacristão chegando na sacristia, ~em dizer
nada mais do que aquela velha expressão tantas vezes ouvida:
- Vamos pru quarto?
Se a incauta mulher caía no descuido de aceitar, cedo veria.
Aos poucos, depois daquele ritual introdutório, Põe Mesa
transfigurava-se num jegue de cambito, como aqueles que ficavam
descaradamente se masturbando enquanto esperavam carga no
largo do Mercado São José. E aí então já era tarde ...
Mas, voltando à história, o leitor verá que Neném venceu
galhardamente a parada, e ficou na tradição contar assim o
desenfecho do drama e as expectativas do público na Pensão:
Diante da porta da rapariga, juntou-se uma dúzia de
companheiras esperando um pedido de socorro ou um grito de d~r,
até que, para surpresa geral, os dois saíram meia hora depois,
171
Neném tranqüila como uma cabra velha pastando, enquanto
estudante deslizava macio pelas escadas da pensão ganhando 11 ,
Albuquerque. E foi a rapariga cercada por aquela turmu
perguntas das mais variadas direções:
- Mas, mulher. como foi que você aguentou
jumento? ... aquilo é um jegue!
- Tá sentindo alguma coisa? Doeu muito?
- ... e você fazendo papel de égua!
Havia até as que queriam escorá-la pelos sovacos ei,:iquan
andava devagarinho para o salão pelo corredor dos quartos, co
se estivesse prestes a desfalecer, o que não aconteceu. A
contrário, Neném sentou-se calmamente numa mesa com ..
companheiras em volta e olhou demoradamente as estrelas do cóll
pela varanda dos fundos, enquanto esperava uma garrafa de gazosa
que pediu e escutava embevecida um bolero arrastado, depois um
tango meloso. Mas, quem prestasse bem atenção nela veria que
esboçava um ar de vitória e incl!ferença, e parecia tomada de um
torpor facial diferente, como se estivesse mastigando uma pimenta
do reino inteira.
- Usou toalha? E a grossura dele? E o tamanho? ... pelo
amor de São Culodino ... continuaram as raparigas enquanto
Neném sorvia a bebida fresca e espumante com extrema volúpia.
- Fala mulher! disse alguém mais impaciente, cutucando-a
com o cotovelo nas costelas, até com certa força.
E então, depois de beber o último gole da garrafa, pronunciou-
se a corajosa rapariga: J
- Num foi nada ... só num gostei foi da quintura ... vôte!
Uma obscura mulher tem o seu dia de glória.
No tempo da guerra havia uma rapariga humilde que nunca foi
escolhida pelos freqüentadores de mais categoria do Duque,
funcionários, · praças, motoristas, motomeiros, vigias. Era
conhecida por "Sapinho" porque era pequenina, redonda,
morcninha, de pele enrugada de bexiga, nádegas muito redondas,
112
pornas curtas o grosas, cabelos esticados de óleo de coco prc1-tmlos
110 crânio embutido nos ombros, como uma meia bola de ~orrnchn
!moldurando olhos redondos, salientes e separados, n~1z quase
imperceptível de tão chato, lábios finos e demas1ad~ente
próximos das narinas, bochechas gordas. parecendo sornr sem
parar. . .
Sapinho era estimada por todos, mas raram~nte tmha s~r:1ço
fora daquela camada de humildes trapiche~ros, ~atr_aieJTos,
ganhadores e biscateiros. Ninguém lhe dava 1mportancia ~ as
outras mulheres mais procuradas quase que a tratavam como cnada
a fazer favores para lá e para cá e só estava naquela zona porque era
prestativa e despertava piedade. Na verdade devia estar no Beco do
Urubu ou da Onça, e por muito favor. .
Pois bem, eis que tudo isso veio a formar a cena mais
inacreditável que se presenciou na zona de Jaraguá, e que pode ser
contada assim: .
Marinheiros americanos de um comboio no Porto surguam por
lá, num magote de mais de cinqüenta em grupinhos de três, cinco,
sete com seus uniformes brancos e engomados, laços de fita como
gra~atas finas com nó abaixo da gola, aqueles caxa?g~s entortados
na cabeça sem a menor uniformidade, uns para a direita ou para_a
esquerda encostados nas orelhas, alguns tão atr~s da cabeça que ~ao
se viam de frente, outros tão na testa que cobriam parte do nariz e
dos olhos, empurrados por inteiro ou flutuando no tope dos cabelos
arrepiados que tinham. . .
Curioso apesar de fortes e grandes em sua ma1ona, eles eram
pacíficos e ~medrontados com os MP- ''Military ~olice" de seus
próprios navios ou das bases americanas do Tabuleiro e do Vergel
que surgiam em acordo com o pessoal de nossas polícias e Guar~a
Civil, patrulhas da Capitania ou do Exército. No que se refere as
mulheres, quase nunca iam para os quartos porque, se~do eles
mesmo diziam. tinham medo mortal de doença venerea, mas
gastavam bom dinheiro ,e não davam trabalho. Até que eram
apreciados e preferidos.
Depois que deram chegada, acomodaram-s~ aos p~ucos nos
bares da zona, sentando-se e consumindo cerveja, convidando as
meninas para companhia.
173
Num certo momento, no Bar Meu Cantinho, a rotina
quebrada com uma cena curiosa que despertou imediata atenção,
parando todos para acompanharem aquilo que parecia furtivo, mu
que não foi. Sapinho estava sentada no balcão, com um caxanp
na cabeça, cercada do que havia de melhor, porque eram sargentos.
Um deles, que parecia liderar o grupo, abraçava-se carinhosamente
com ela, colocando-lhe nas mãos alguns dólares arrecadados, todo1
olhando a coitada como se fosse uma deusa, algo estranho para
aquela gente superior aos olhos dos humildes daqui.
Estariam galhofando de Sapinho? Ela, a mais feia da zona,
pelo menos uma das mais desprezadas? Não, não foi assim, porque
aos poucos todos os presentes viram que era a simpatia da pobre
rapariga que encantara os gringos, satisfazendo-lhes aquele
recôndito desejo de recompensar os desamparados pela sorte, e o
sentimento que se apoderou do pequeno grupo de graduados
contaminou os demais marinheiros que foram deixando tudo para
se colocarem em volta dela, rindo, querendo levá-la no colo para lá
e para cá, oferecendo-lhe o que havia de melhor no bar para servir,
deixando-lhe lembranças, broches militares, canivete, chaveiro,
carteira de notas e até um relógio.
Não demorou muito o rosto da mulher passou do obscuro para
o radioso. Sua face contida na feiura de traços pesados
transfom1ou-se, ficou leve e radiante, mostrando o que tinha dentro
da alma, um misto de bondade e resignação, uma espécie de
sublimação da adversidade imposta pela sua estética e pelo
reconhecimento de que, afinal, havia nela alguma coisa de
aproveitável, talvez uma beleza que não fora aipda descoberta,
senão naquele momento. Dentro de seu sonho repentino, Sapinho
pareceu até bonita, se não engraçada, feliz no meio daqueles
homens limpos e ricos que a reconheciam digna de agrados e
presentes. E assim correu a noite do único reinado que tivera em
toda sua vida. Dizem que ganhou mais do que todas as mulheres
juntas, os donos dos bares, as cafetinas, sem ir sequer uma vez para
o quarto e nem ter sido convidada para um instante de carinho
reservado.
E despertou na rua as mais incontidas invejas.
No dia seguinte, cercada de gente pedindo-lhe dinheiro
emprestado ou cobrando velhas dívidas, algumas das quais
17·t
esquecidas, seu reino foi aos poucos desabando e tcnninou por
completo quando se encontrou novamente a mesma, lisa, levando
para o quarto um ou outro antigo freguês daqui mesmo.
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A comovente história de uma injustiça não reparada.
Pelos idos de 1939, Maria Patinha era uma rapariga do Verde.
Seu apelido veio da Zona de Flecheiras quando entrou na vida
aos treze anos e acharam-na parecida com uma marreca porque era
baixinJ1a, de pernas curtas e finas, pés grandes, corpo ac~chapado
com cabeça projetada para frente e prolongada por um nanz chato e
apontando para baixo. Era uma pessoa resignada e predi~posta a
sofrer passivamente as adversidades da zo~a ~a cob1ç~ .das
cafetinas, e na grosseria dos fregueses, arroganc1a da pohc1a e
covardia de todos.
Numa noite qualquer de sua vida, Patinha apanhava freguês no
Trapiche da Great Western, onde o trilho do bonde cr.uzava com o
do trem, encostada displicentemente na cancela da linha, quando
foi abordada por um embarcadiço que se destacou de um magote
deles. Era um sujeito branqueio, mais para bem vestido, com
palavra enrolada que Patinha nada entendeu. Parecia um homem
educado e um freguês decente. E prosseguiram, como de costume
ela ligeiramente na frente, indicando o rumo a seguir.
No caminho entre a cancela e a zona, ela procurou um detalhe
material qualquer que chamasse sua atenção para o ~mbarcadiço, j.á
que conhecera tantos e com caras tão inexpressivas que mais
aparecia neles a roupa, a forma do chapéu, qualquer adorno, o
perfume ou o que levava nas mãos. Foi neste momento, quando
pegavam a Praça General Lavenere, que Patinha interessou-se pelo
anel do marinheiro cheio de relevos de ouro reluzente como se
fosse imitando a cabeça de um animal que não conhecia.
Para ajudá-la, o homem esticou o braço em direção aos seus
olhos, facilitando-lhe o exame da jóia por baixo da luz de um poste.
Patinha então conformou-se com o que não entendeu, e perguntou:
- Bonito! Que bicho é este ? mas não recebeu nenhuma
175
resposta. Na verdade, conforme se soube depois, o marinhei
notou em sua parceira um certo ar de cobiça que na verdade 1
coitada não tinha. E prosseguiram internando-se no oitão da lgroja
de Jaraguá, dobraram duas esquinas e chegaram no casario do
Verde, onde foram para o quartinho debaixo de duas mtençôo•
diferentes: a dela, sobreviver, a dele, de descarregru·
necesidades acumuladas em vários dias de loita no mar.
Pela madrugada, quando Patinha dormia a sono solto, irrompeu
em seu quarto um policial barulhento e grosseiro, acompanhado da
cafetina em siJêncio, que logo meteu-se a cascavulhar tudo de ponta
a ponta, a gavetinha da mesa, por baixo da cama, dentro do
travesseiro, os baldes e bacias, toalhinhas, trouxas, o agente policial
perguntando sempre, entre um sopapo e outro:
- Cadê o anel do home, sua puta? Diga logo!
Atordoada, a pobre rapariga passou do torpor que se segue ao
sono desfeito para o pavor e o pânico da realidade, porque de nada
sabia. Levada aos arrastões para o xadrez da Delegacia, a mulher
sofreu horas de interrogatório com pancadas e insultos até que
admitiu, para ficar livre dos sofrimentos, e nem sabe como, que
havia engolido o anel na véspera. E veio a saber que era de um
capitão de mercante grego muito relacionado em Jaraguá, onde
aportava regularmente para levar açúcar.
Venceu então o maior castigo de sua vida pois teve que
mergulhar até mais da cintura e esgotar a fossa do Verde, balde por
balde, peneirada por peneirada, suja até a raiz dos cabelos, durante
dois dias seguidos, sob as vistas de um comissário, assistida por
suas companheiras colocadas em anfiteatro, para nada encontrar
nos excrementos a não ser a confirmação de que sfSfrer era a sua
vida.
Terminado o serviço, estava o mercante grego zarpando, os
policiais se aquietando ou andando por outras bandas e Maria
Patinha novamente na cancela da Great Western, administrada pela
mesma cafetina, pegando os mesmos fregueses, vivendo os mesmos
riscos e misérias da "vida fácil".
176
·-------------------------~~-~-~------------------------~~~----------
Do alto caiu um dançarino famoso.
O Prático Gilberto era estimado em Jaraguá pela naturalidade
com que fazia as coisas e pela beleza de seu rosto franco, corado do
sol marinho. Homem alto, ilustrado, amigo dos amigos, tinha
admiradores por toda parte.
Certo dia, depois de uma solenidade na Capitania dos Portos,
onde constava invariavelmente da lista para convites, Gilberto
chamou os amigos para passar as mulheres em revista na boemia do
bairro, e escolheu a Boate São Jorge como a primeira.
Vestia um terno branco de linho
irlandês Taylor 120, confeccionado pelo
Mestre Dória. que estava também com ele
nesta noite, e seguiram em frente pela Sá e
Albuquerque, já um tanto alegres pelos
ponches da Capitania, andando como
soldado de cavalaria, pernas um tanto
arqueadas, gingar de ginete, como aprendeu
quando era praça do Regimento Dragões da
Independência, na Capital da República.
Na frente da Alfândega cruzaram a rua '.
e chegaram.
Logo em cima, a São Jorge estava sendo preparada para o
aniversário da cafetina Marieta com mesas ornadas de toalha
bordada e jarros de flores no centro, mulheres vestidas com o que
tinham de melhor, aprumadas para uma noitada diferente com
muitas pessoas convidadas especialmente para o bolo e frisante,
despesas por conta da casa. O salão estava impecável com piso
vermelho de muita cera e escovão (ninguém havia ainda dançado),
paredes pintadas de novo, tudo pronto e gostoso de se ver naquela
iluminação feérica. Já havia por lá muita gente e a eletrola tocava
um tango arrastado quando a turma começou a subir três lances de
escada. No tempo seguinte, surgiu no salão o grupo, depois de
gerar a devida expectativa pelo matraquear dos caminhantes nos
177
degraus, e Gilberto foi o primeiro a ser visto, engomado, calç
cromo alemão de duas cores, chapéu de panamá que retirou
cabeça no salão, imponente e escultural.
E pararam, primeiro as
raparigas que estavam escoradas no bar,
sentadas nas mesas ou chegando do
corredor que levava aos quartos, depois
o grupo recém-chegado em volta. Todos
estavam fixados no Gilberto já postado
no meio do salão. chapéu agora na mão
direita mais adiantada e braço
correspondente imóvel como os de uma
estátua, erguido até quase a cintura em
saudação, formando uma cena algo
parecida com a entrada triunfal de uma
ópera.
Ali estava o homem que fazia entrar no Porto os navioe.
generoso e valente, que ia a nado cumprir sua tarefa quando lh•
faltava a lancha, dançarino de mão cheia, especialista em boleroa,
valsas e tangos seguidos sempre do pedido de bis quando a música
parava, muitas vezes acompanhado de oficiais navais do País e do
estrangeiro em trânsito, amigo do Capitão dos Portos.
Para que melhor entrada?
Segue-se outra breve pausa. um cerimonial improvisado mas
não menos comovente, raparigas em deslumbramento, quando
Gilberto entregou tun presente para Marieta e dançou com ela, a
pedido de todos, um bolero, inaugurando o salão.
Depois de acomodados numa mesa ao lado da que estava
reservada para sua dama aniversariante, o grupo espreitou o
ambiente com troca de olhares e pose parecida com aquelas de
filme de farwest numa cantina, só que com intenções de prazer e
safadeza.
Gilberto resolveu então convidar para a dança a mulata
Conceição, grande como ele, 100 kg de peso bem distribuídos,
famosa como boa de cama e de salão, pernas enormes e grossas,
n(1degas proporcionais, e saíram numa valsa que Gilberto pediu ao
discotecário Javali que fizesse tocar.
178
Aqui vale a pena registrar que o mesmo perguntou:
- Seu Gilberto, boto o Biniu Azu?
- Danúbio Azul, seu ignorante! Por isso chamam você de
javali, um bicho burro que não olha pra cima! Bote logo!
respondeu. E deslizou o casal sob os aplausos gerais, uma volta,
outra volta completa, meia volta. agora mais ligeiro e quase
levitando apesar da tonelagem que movimentavam. Foi quando,
inesperadamente, numa daquelas inclinadas do casal para o lado,
quando faziam um círculo quase completo no ar, o Gilberto patinou
um dos pés no encerado mais da conta e, flexionando rapidamente
o outro joelho para equilibrar-se, não encontrou mais o chão, e a
inércia circular de seu corpo o levou para a horizontal, um metro
acima do piso, depois que um de seus pés deslizou novamente nos
tacos encerados. Como nessas ocasiões ninguém solta a parceira,
Gilberto arrastou Conceição com ele, sem querer girando o corpo
para cima como um·:tato que cai de uma janela para encontrar
melhor o chão, o que ·~.~~eu no inst~nte segu.inte. Sem outro
reflexo, Gilberto teve que "'esperar la de baixo o corpo da
Conceição, inicialmente cinco palmos mais acima, depois em
choque descomunal, pranchado sobre o dele. Ouviu-se então um
grande gemido de dor, e lá ficaram por uns instantes, Gilberto meio
desfalecido, braços agora abertos, temo branco quase todo sttio de
, crmelho da cera do piso. E trabalho deu aos amigos para tirar
Conceição de cima dele, depois Marieta e suas auxiliares
consolando os desventurados dançarinos e trazendo gelo e amica
para reanimá-los.
Recuperado e querendo desfazer o vexame que o arrancara de
seu pedestal, Gilberto, de bom humor e passado das dores,
comparou a sua situação com a de uma defensa entre um cargueiro
e o cais do porto num dia de rebojo.
Daí por diante passaram a chamá-lo de "Pé de Valsa".
-----------------------------------------------------------------------------
Um sujeito que acordou pensando que estava morto.
Ele era rotineiro como quase todo contador de firma
comercial. Conhecido também como "Siqueirinha' o galego Galha
(trabalhava na Fábrica de Sabão) até nas farras prolongadas que
179
11
costumava fazer era previsível em seu ritual de sempre, mais p
calado, ouvidos atentos, sem participar muito.
Passava a semana mergulhado nos números de s
contabilidade, receita e despesa, caixa, saldo, pagamcnt
numerário, dívidas vencidas a cobrar, e tudo elaborava co
aprumo, embora sua cabeça desde a segunda-feira demonstras
enorme predileção para pensar na sexta quando viveria novamen
a boemia de Jaraguá. Era quando esquecia seu trabalho enfadonho
repetitivo, num ambiente que cheirava a sebo de boi e soda, pa
encontrar os amigos e as mulheres que desciam das boates SI
Jorge, Dina. Tabajara circulando um pouco por ali, antes dos sal
abrirem.
Quando terminava o expediente daquele dia sagrado, o Galha
tomava o primeiro bonde para sua casa a fim de fazer o aprumo,
mudar de roupa e retomar ao bairro, penetrando logo no local de
sua preferência, o Bar Tartaruga, onde era sempre o primeiro e
último freguês. Do que mais gostava era do ambiente que se
formava no Bar e na Sá e Albuquerque, ouvindo e vendo gente
engraçada e amigável, tomando cerveja, tira-gosto de sarapatel,
uma sopa de cabeça de peixe ou uma "cabeça de galo" lá pelas
duas, papinho com os amigos e raparigas. Do que menos gostava
era do sono que ia chegando, ao qual resistia com toda força de
vontade, ajudado por um café quente com mascavo.
Certo dia conseguiu resistir até que os galos deixassem de
cantar, o sol passasse de vermelho para amarelo e depois branco
quente nas paredes do Trapiche Faustino bem perto, os urubus
soprassem brigando na praia pela carniça desjejum de todos os dias,
com suas asas e garras riscando as areias em disputa, embaixo dos
trapiches. Não havia mais freguês no bar nem na rua e um ou outro
boêmio passava pelas calçadas.
Pois bem, nesta manhã de sábado, ele se aproveitou da boa
vo~1tade do proprietário Lourival e sentou-se acomodado, cabeça
deitada de lado, a boca aberta babando na mesa, bochechas aderidas
ao taboado, dormindo profundamente, talvez na esperança de
emendar noutra farra ali mesmo, depois de descansar.
Os empregados limparam o salão com água e sabão de coco
Vílssoura de piaçaba arran1'1ando no chão e os baldes de latão'
180
tilintando para lá e para cá respeitando-se as pernas pendidas do
Galba. Foi quando chegou o Zé Morais, conhecido como
"Ceguinho da Cooperativa", certamente vindo de outras boemias e
viu, através de seus óculos de fundo de garrafa, o Galba naquela
posição desprevenida, perguntando então ao dono do bar:
- Louro, faz muito tempo que o galego tá dormindo?
- Desde as seis da manhã, respondeu o Lourival.
- Porra, já são dez horas, oh Louro! O homem morreu!
Você tem vela aí?
- Pra que, Zé? Deixa o homem dormir em paz! ponderou o
dono do bar.
Zé Morais então foi dar uma volta na rua e retomou com um
pacote de velas que espalhou pela mesa do dorminhoco e acendeu
com alguns fósforos.
Diante do calor e do cheiro de parafina queimada, o Galba, sob
as vistas dos curiosos que se acomodavam em seu redor como se
num velório, despertou devagarinho de seu sono profundo e foi
abrindo os olhos aos poucos, terminando por fazê-los esbugalhados
de susto. Levantou então a cabeça e ficou olhando fixo aquela gente
ali em volta, por uns instantes também as vela~ em chamas naquele
bailado macabro, depois deu um grito de pavor caindo para trás
junto com a cadeira, desmaiado por algum tempo, porque pensou
que havia morrido sem saber.
Um jovem sonhador passa do deleite ao pesadelo.
Chamavam-no de "João de Jade" porque trabalhava na Fábrica
de Refrigerantes Jade situada numa mansão antiga que tinha um
letreiro de cimento na parede da frente: Vila Bcnita, na
Comendador Leão.
Seu desejo mais envolvente era andar armado nas pensões e
zonas de Jaraguá, imitando os figurões importantes que passavam
por ali com os "quartos" estufados e p.dctó p1ocmi11e11te, onde
potentes revólveres lá estavam, no mínimo como demonstração de
prestígio junto às autoridades, mulheres e público em geral. Na
verdade, andar armado era o êxtase de sua geração. especialmente
l Rl
em local de dançar, quando a arma mais se sobressaiu n
movimentos e no enlevo de uma rapariga da zona a despe
virilidade e coragem, tradição, poder e até elegância.
Certa tarde festiva deu na veneta de João comprar u1
cartucheira de couro e nela introduzir um revólver cano longo
baquelite negro adquirido numa loja de brinquedos. E lá foi
andando solene na direção do Duque, onde chegou ainda cedo
começou a dançar como havia antes planejado. A rapariga q
João escolheu estava orgulhosa de bailar com um valentão assim,
cano longo da arma descendo volta e meia quase um palmo para
baixo. Foi quando, em certo momento em que João estava d1
costas para a porta do salão, a parceira alarmou baixinho em seu
ouvido direito aquela advertência: "chegou a puliça!"
No rodopio seguinte, João divisou um dos soldados com
olhares inquisidores para seu revólver e o outro de lado rompendo o
passo e chegando-se a ele e, no instante seguinte, casal agora
parado, o homem da lei perguntou a cu1ta distância:
- Ei, rapaz, cadê o porte? , e João rapidamente retirou do
bolso wn documento por dentro de sua ca11eirinha de couro e o
entregou ao soldado, permanecendo lívido de surpresa,
rapariguinha já procurando distância da patrulha que cercava o
dançarino agora sem reação alguma, enquanto o pessoal
comprimia-se pelos cantos da sala com os olhos pregados na cena,
felizmente música ainda tocando para disfarçar. Mas o papel
apresentado ao soldado nada mais era do que uma carteira de
estudante, único documento que João levava nas andanças. e que
usou na esperança de retardar um pouco o desfecho da realidade em
que se metera, cérebro já confuso e alma inteiramente entregue aos
acontecimentos que certamente viveria naquela encrenca que
arranjou, ele um sujeito pacífico e legal, cheio de boas intenções!
- Mas isso não é licença de arma coisa nenhuma, vamos
falar com o sargento, disse o cabo, cujas divisas enfeitavam o
uniforme cáqui, meio roto e recoberto de cinto e cartucheira
daquele tipo que se usou na guerra, quase cobrindo todo o ventre
de seu portador. E lá se foram ao encontro do resto da patrulha
com o João já ''desarmado" e conduzido preso pelos braços, quase
aliviado de pisar no chão, encontrando a autoridade que, informada
da~ coisas pelo seu auxiliar imediato, examinou a arma como
llllC
IM2
-;urpreendido pelo ineditismo do caso, cm vez de entrar pelo bom
humor, irritou-se:
- Levem o homem pra Delegacia.
Mal sabia o João de seus sofrimentos futuros, quando de
repente. ele, um rapaz de família, encontrou-se sozinho numa cela
com wn desordeiro conhecido como Bagre (que diziam ser doido),
um sttjeito grande, gordo e pardacento, com os olhos redondos,
proeminentes e avermelhados para fora, que não trabalhava
importunando a polícia quase toda semana. seboso como um porco,
urinando e obrando a toda hora pelos cantos, sem nenhum interesse
pela sua limpeza, muito menos da própria cela, calado e de maus
bofes. Que situação! Mas, neste ínterim, Augusto Castro, amigo da
família de João, sabendo do fato, correu até a Vila Benita e foi
pedir ajuda ao Dr Almir Pita que era o chefe de João no trabalho.
Enquanto isso, nosso herói procurava conformar-se com a
desgraça sem que ninguém lhe desse a menor importância, pior
ainda porque ia ficando escuro, sentado diante do Bagre e
preparando-se para o que desse e viesse naquela cela fedorenta e
cheia de mosquitos agressivos zunindo mais da conta. Foi quando
sentiu sede, fato que comunicou a um soldado. desses que têm raiva
dos remediados e que entram cm delírio quando alguém desta
camada superior deles depende. E colocou o copo de água em cima
de uma mesa pregada nas grades, onde se depositavam as refeições
dos presos, mas de tal forma distante de João que, por mais que
esticasse o braço, encostando o ombro nas grades do xadrez,
chegava apenas com sua mão a meio palmo do precioso líquido.
Foi nessa agonia que, aliviado, avistou uma comitiva de boa
aparência entrando na Delegacia, o próprio Delegado, Antônio
Castro, Almir Pita, o carcereiro e dois soldados, um dos quais
aquele da água.
- Botem o garoto na sala de espera, ordenou o Delegado,
prolongando sua frase com uma pergunta aos policiais:
- ... e cadê o revólver ?
Aconteceu então o inusitado: os soldados não encontraram a
arma, o que serviu de motivo para a autoridade, até com vergonha
183
de seus subordinados da Delegacia, ordenar a imediata soltura
preso, para alívio de todos, já que a prova do delito não extia
mais. E nosso personagem, depois de agradecer aos seus padrinh
e ao Delegado, comemorou o alívio tomando o ônibus Jaraguit
Ponta Grossa e fazendo várias viagens de wn fim de linha ao outfOt
antes de ir para casa altas horas da noite.
Estava tão descontraído depois o João que ainda pensou ell
voltar à Delegacia para procurar o seu revólver de mentira.
João de Jade foi também protagonista de algumas cenas que
Jaraguá não esqueceu, dentre elas a da "Bomba do Bar Tartaruga"
nas festas juninas de 1956.
Era o local de uma antiga loja de pentes, caixinhas de jóia,
leques e outros objetos feitos com o casco daquele animal. Fica
ainda hoje na Sá e Albuquerque, em frente ao antigo Trapicht
Novo, local preferido pelos que trabalhavam em Jaraguá ou vinham
fazer compras, tomando umas e outras junto dos embarcadiços do
categoria, passageiros em trânsito, militares de folga, forasteiros.
Estavam numa mesa alguns companheiros de farra, dentre eles
Ciço Penugem, Gilberto Santos, Dedé Lessa, José Marcos e outros,
quando João de Jade levantou-se com um embrulho na mão e
dirigiu-se para o balcão onde o depositou na frente do dono do bar,
o Lourival, sob as vistas dos demais. Passou a desembrulhar o
pacote de onde apareceu uma bomba grande, parecida com uma lata
de leite, toda enrolada de barbante grosso, recoberta em cima e por
baixo com cera de abelha, de onde aflorava wn pavio de duas
polegadas e meia e grosso como um dedo polegar.
Diante da cena todos ficaram congelados de susto, enquanto
João da Jade, sem esperar que reagissem, acendeu um fósforo e,
aproximando-o do pavio da bomba, disse na direção dos amigos:
- Olhe aqui um presente de São João para vocês! e afastou-
se pela porta da frente, enquanto o pavio, depois de lançar umas
fagulhas para cima, queimou em fumaça cinzenta e nervosa,
assobiando discretamente. E João postou-se com a cara para
dentro do salão do bar, enquanto os circunstantes colocavam-se por
trás das mesas e cadeiras, amontoados uns nos outros, alguns deles
184
deitados, mãos nos ouvidos e olhos fechados, Lourival saltando
para fora do balcão, uns tantos para o lado da rua, e o tempo
passando. Depois veio wn intervalo de expectativa ... e a bomba
funcionou baixinho e surda como se fosse um "traque" abafado,
dando um pequeno salto de meio palmo para cair emborcada no
balcão, ainda inteira, soltando de dentro um filete de fumaça
branca, enquanto João contorcia-se e chorava de tanto rir e seus
amigos refaziam-se do susto arrumando novamente as mesas e o
Lourival esboçava uma reclamação tímida para não perder a
freguesia:
- Mas, rapaz, que merda é essa?
Curiosamente ninguém havia saído do susto, mesmo diante das
contorções de João de Jade que, a esta altura, já estava no meio dos
outros, vermelho de tanto que o riso lhe roubava oxigênio, os dois
braços cruzados contendo o ventre, olhos fechados lacrimejando
abundantemente.
------------------,------~~----,~~~~--------------------------------
Quando o piso de um prostíbulo era o teto de um
negócio.
, Era incômoda a conv1vencia entre os escritórios da Sá e
Albuquerque e as pensões de sobrado logo em cima, com uma
escada lateral em cada oitão, algumas vezes até por dentro da
própria repartição do térreo.
Trabalhavam, é bem verdade, em horários diferentes, mas nem
sempre as raparigas dormiam o dia todo e por lá andavam no
madeirame com sapatos de salto alto ou tamancos, fazendo com
que seus passos fossem acompanhados de baixo com irritação pelos
escriturários, contadores, gerentes, diretores e o próprio Presidente
da ftnna.
No caso da história, tratava-se de um ilustre comandalário de
projeção em São Miguel dos Campos, empenhado no fabrico de
demerara expo1tação para uma grande refinaria na Inglaterra.
Não havia por lá música durante o dia mas, volta e meia, uma
mulher soltava um daqueles acordes de Vicente Celestino:
- Aquela ingrata que me amava e me abandonou ... , ou
185
- Disse um campônio a sua amada, minha idolatrada ...
todos tinham que assimilar a intromissão auditiva, enq
escreviam cartas comerciais e telegramas pela Western, acertav
um negócio grosso, recebiam um cliente, faziam cobranyn
manipulavam o cofre.
Ainda incomodava ouvir os passos de um freguês csca
acima, coisa que prenunciou certo dia um sério incidente co
interveniência do Delegado, pedidos dos fregueses importante•
muito constrangimento.
Rua Sá e Albuquerque, onde os sobrados eram a zona do mcretrício de
1>rimeira classe. Fotografia retocada. Arquivo pessoal do autor.
É que, sem o desejar, depois de alguns momentos de silêncio,
no enlevo do sexo vespertino, ele meteu inadvertidamente um pé
meio por baixo da cama de sua parceira, emborcando um penico
~um o que nele fora depositado por uns cinco fregueses da noite
186
,111lerior e que, por rcloxumcnto, ainda se cnconlravn onde 11110
ch.wia isto é descansado de uma noite e um dia, impuro e' , • 1 •
malcheiroso. Mas, como o piso da pensão era o teto do escntono
daquela central açucareira, a urina deslizou pelos intervalos das
t.boas de peroba do campo, calafetadas há muito tempo com breu,
e tomou o espaço aéreo até a mesa do Presidente inundando papéis,
tinteiros, blocos, documentos e notas, inclusive as mãos e braços do
Comendador que, mesmo depois de cheirar as mangas do paletó.
interrogou seu irmão que estava em pé ao lado, agora já um pouco
afastado:
- Antônio, está chovendo aqui dentro ?
- Não, Benedito, isto é mijo da pensão aí de cima! Ainda
não sentiu a catinga?
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Um marinheiro que desembarcou e venceu.
Por volta do ano de 1873, um mercante à vela inglês
desembarcou em Jaraguá um marinheiro pequeno, de cabelos e
olhos claros, urna guitan-a a tiracolo e nada a declarar a não ser o
seu próprio nome: Francisco Pereira da Silva, português dos
,çores. Não era um renegado da lei nem devia aos cofres de ~ordo
ou de sua companhia de navegação um pence sequer, nao se
sabendo até hoje a razão que alegou o capitão do bergantim para
deixá-lo assim desamparado na beira da praia, sem uma carta de
apresentaçã0 nem queixa formal às autoridades do Po1:0, e ainda
com algum dinheirinho na carteira. Mas, con10 havia algunrns
famílias impo11antes morando entre a Ponta de Jaraguá e a cidade,
nas bandas da Rua Santo Amaro (hoje Uruguai), pareceu natural
que o forasteiro ficasse na mira da curiosidade pública, depois de
saberem que o navio dele vinha com bacalhau da Terra Nova para a
Argentina, e que a1Tibara em Maceió apenas para deixá-lo em tcrr~.
- Deve ter sido por alguma coisa que não fosse tão séraa,
senão seria enforcado, disse um homem comentando sobre o fato.
- Ou levado para responder pelo crime cm Liverpool,
completou alguém. E, na ausência de acusações. e na tolcrâ1~cia do
alagoano o rapaz foi assimilado pela sociedade, pois era
, 187
11
comunicativo, trabalhador e inteligente, afora outras qualida
ainda mais apreci.adas de cantador de fados, amante das serenatas
longas conversas, principalmente com o próprio Capitão do Porto
o Comandante Pontes de Miranda, chegado à vida noturna t
aos assuntos do mar: correr mundo, conhecer gente nova, go~ar dt
liberdade na solidão das ondas. E :ficaram amigos depois de muitaa
conversas nas calçadas de Jaraguá.
Aos poucos foi correndo no bairro que ele passara quinze anoa
no mar, primeiro na Marinha Britânica, depois numa linha de
navegação de alto bordo para o Mar das Arábias e da China,
naquele comércio de chá e mercâncias pelo mundo afora, tendo
alcançado a posição de primeiro piloto, depois de mourejar a meio·
soldo como simples grumete, marinheiro de convés, taifeiro, etc.
Era sofrido e cheio de destemor, qualidades muito apreciadas por
aqui. Souberam também que deixara sua terra ainda menino,
nadando com sua trouxinha até um navio inglês, que costumava
recrutar grumetes da Ilha das Flores, a mais ao poente do
arquipélago.
Depois de alguns anos, Francisco conseguiu a invejável
posição de prático do porto (nomeação do Capitão Pontes de
,Miranda) e de exportador de açúcar, proprietário de cinco saveiros
para transbordo e ainda dono de urna IoJa onde, diziam, vendia
fiado e não cobrava. Era muito bem recebido pelas famílias ricas,
os Calazans, os Custódios, os Pontes de Miranda, os Marques e
outras, todas residindo na Santo Amaro, logo acima de um estaleiro
da praia, depois dos trapiches como quem vai para Maceió. E
assim casou-se com a senhorita Maria Marques, com a qual teve
quatro filhos·varões, José, que foi marítimo como ele, Francisco, o
mais parecido, Joaquim e finalmente Ezequiel, o único a fazer
fortuna no mesmo ramo dos negócios.
Mas, por que terminara Francisco carregando o apelido de
"Chico Pancada"? Não era por ser doido, porque não era. Foi por
não suportar desaforo sem ir às vias de fato e revidar a socos, na
primeira oportunidade, qualquer ofensa.
Assim ocorreu quando jogou um seu concorrente de cima de
uma ponte de embarque nas ondas do mar, um tal de Mendes, em
mt.ão de insultos que recebera indevidamente. Logo depois foi
188
lJf /L IJ/fJL 1Trr:
GO..t.ço . / ,.,_'',•f?,L
- ..> '-.:>t'f..;J4/ '
processado por sua Majestade Britânica, por ter virtido sangue do
seu Cônsul Kenneth Macray, na sede do Consulado em Jaraguá,
território inglês. E teve que gastar trinta contos de réis no processo
que finalmente não lhe custou cadeia.
O tempo foi passando e Chico Pancada envelhecendo, a provar
que o Brasil i uma ten'a maravilhosa, onde o ~ortu~ês traba!hador
e fiel aos seus compromissos sempre fica nco e nnportante por
~w. .
Pelo apelido de Chico Pancada, agora se pode supor o motivo
de seu desembarque, qual seja, uma formidável briga a bordo, em
alto-mar. Se tivesse brigado num porto da Terra Nova, teria
vencido a vida no Canadá, tristemente como tudo que é gelado.
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Um homem que correu da injustiça e nela foi morto.
Lá pelos idos de 1923, João Coco ganhou fama de valente
depois que brigou sozinho com uma patrulha da Marinha de Guerra
e só foi preso na manhã seguinte, na Praia do Carrapato, correndo
no rumo do Matagarrote, depois de furar um cerco na casa velha de
Seu Zu e na Capela do Gogó da Ema. Estava dentro de uma moita
de gajuru acuado por wn guenzo de sítio que, latindo
desesperadamente, ajudou a seus perseguidores.
A busca para encontrá~lo empenhou meia centena de
marinheiros e dez remadores da Capitania, além de grumetes de um
navio de guerra fundeado ao largo de Jaraguií
Todos sabiam que João Coco jogava
capoeira, mergulhava por baixo das
barcaças, subia num coqueiro alto sem
nenhunrn peia e lá se pendurava em duas
palhas novas fazendo que ia cair, só para
se mostrar ao povo.
Falavam até que ensinava guaiamuns a dançar coco aos p<1r~s,
a fumar cigarro e se balançar em rede, para depois vendê-los
189
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111
111
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no Mercado São José. Enfim, era um sujeito diferente.
Apesar de muito conhecido pelos policiais de Jaraguá, pelai
visitas que fazia ao Comissariado, João Coco até que foi por algum
tempo estimado pela sua valentia e independência, agilidade t
presença Jovial naquele corpo de caboclo forte e flexível, músculos
saltados, pele de bronze, sempre vestido com a mesma calça de
estopa desbotada, que não passava de seu joelho mais do que um
palmo, camisa de manga comprida por fora das calças, tão folgada
que mais parecia uma saia de baiana pouco acima da cintura,
muitas vezes com um grande chapéu de palha empw-rado na
cabeça.
Quando lhe dava na veneta,
ajudava um tio velho no carreto como
ganhador, mas logo voltava a sua
atividade de andarilho, sem amor pela
fortuna nem apego à rotina da vida. Para
ele, cada dia era um dia diferente, já que,
ao despertar, segundo diziam, nunca
tomava caminho de volta nem andava
nos lugares do dia anterior.
Dizem que morava num beco da Rua do Oitizeiro debaixo de
uma meiágua, mas havia quem falasse que não tinha teto, outros
garantiam que tinha uma maloca pelas bandas de Cruz das Almas
ou no Alto de Jacarecica junto com outros caboclos e negros
descendentes de quilombos, gente que vivia da caça e da pesca ou
tirando fruta. Mas, o certo mesmo é que comia de uma vitalina que
se fizera de sua protetora desde que era um menino enjeitado e
sozinho no mundo. Descansava no chão de qualquer sombra, ou
debaixo dos trapiches onde sempre fazia suas necessidade maiores.
Seu avô, perdido no tempo, e seu pai um homem com cara de índio
corpado e silencioso que vivia numa tropa de burro pelos sertões
afora, eram suas únicas referências de família, porque ninguém
dãva notícia de quem nascera e onde, talvez lá pelas bandas da
Serra do Araçá, ou na Serra da Mariquita, ou nas nascentes do
Jitiluba, ou pelas bandas do Coronha. E foi criando lenda.
l<>O
Um certo dia, João Coco estava no Beco do Urubu quando teve
que rebater com tapas insulto de um maloqueiro a sua preferida, e
recebeu de uma patrulha voz de prisão, coisa que nunca obedeceu
durante toda a vida. Correu então na frente da polícia na direção
do Trapiche Novo, passando pelo Beco do Mijo como um quati
apavorado fugindo de cachorro, atravessando a Sá e Albuquerque
(quase atropelado por um bonde) e sumindo por trás daquelas
enormes pilhas de sacos de açúcar, quando anoiteceu.
No meio da tarde do dia seguinte, a Polícia já havia mobilizado
os trapicheiros por serem eles conhecedores dos meandros do
trapiche, e João Coco foi encontrado, mas, aos saltos, pulou por
cima de gente e pegou a reta de uma ponte, sumindo outra vez por
trás das fileiras de sacos de açúcar, barricas de bacalhau, pacotes de
secos e molhados, troles, táboas de madeira. E procuraram-no em
baixo do estrado, nos zincos do teto, nos porões das alvarengas
atracadas, no guindaste, por baixo das longarinas, travessas, já o dia
escurecendo novamente. Foi quando alguns curiosos que se
juntaram na praia e nas ruas foram se transformando na manhã
seguinte numa multidão, os boatos correndo Jaraguá de ponta a
ponta, pessoas chegando de toda parte, dando ao fato uma
dimensão surpreendente, enquanto um cantador já anunciava no
Mercado São José, de viola nos braços e por cima de uma caixa de
sabão:
Corra quem não for valente,
O João Coco está nas armas,
Não é homem, é uma serpente!
Mentira, João estava desarmado, amedrontado e aturdido, mas,
aonde andava ele? Na verdade aproveitou-se da escuridão da noite
e da maré enchente e saltou do alto da ponte, nadando em seguida
até uma barcaça fundeada ao largo, onde tomou refúgio mas foi
logo encontrado. Novo alarme!
Diante do rebuliço, o Secretário do InteriQr Dr Augusto GaJvão
designou como chefe da diligência o policial Manoel Basto que
determinou a abordagem da barcaça com seis homens fortemente
armados num bote de quatro remadores, o que foi feito diante das
vistas de mais de cinco mil pessoas, inclusive por muita gente que
191
1
invadiu as pontes para ver tudo de perto, e entre eles estavam
vendedores de picolé, cachorro quente e raspadinha de carrapicho,
E, por isso, a questão passou a ser um ponto de honra para 01
encarregados da ordem pública. Daqueles seis homens pronto1
para um combate naval iminente, nem todos sabiam nadar nem lhes
fo~ perguntado, se sabiam, mas deram chegada à embarcação, logo
avistando Jose Coco quase nu, de pé na borda, dizendo que
morreria lutando, mas só se entregava ao Dr Galvão.
Na hora da abordagem, e diante da fama do perseguido, um dos
guardas, certamente um daqueles que não sabiam nadar, teve tanto
medo que deu para tremer dos pés a cabeça, merecendo um verso
de um companheiro de missão:
Vi um guarda com sezão,
Tremeu e bateu os dentes,
Dizia um soldado preto:
Você não diz que é valente?
Pegue o homem, camarada,
Isto é vergonha pra gente.
~~tes que a tropa escalasse por completo o convés da barcaça,
o fugitivo saltou n'água e nadou em direção da praia dizendo:
- Estou com muito frio ... levar paulada não quero.
Na praia, sob palmas e vaias, João Coco entregou-se
pessoalmente ao Secretário Galvão, depois de dois dias sem comer
nada, para contar uma história besta que aconteceu no Beco do
Urubu quando quis defender a honra de sua rapariga.
A partir dessa história, João Coco foi perdendo a graça e
ganhando fama de aTTuaceiro perigoso para as autoridades e seus
executantes, terminando por reagir como uma espécie de ódio a
todo braço da lei.
Devido aos constantes encontros com os homens da Guarda
Civil, ele foi ajudando na própria fama de não gostar de policial. E
foi assim que se criou o ambiente favorável ao seu fim, por uma
razão de so!idariedade e de um recolhido desejo de eliminar aquele
que aparecia aos olhos do povo como invulnerável e superior à
própria autoridade, sentimentos que volta e meia dominam as
coletividades disciplinadas.
192
Parece que a gota d'água veio com uma história vergonhosa
que se soube ocorrida na Praia da Pajuçara, -quando um guurdu
novato e medroso, com farda e tudo, avistou João Coco vindo de lá
para cá e, apavorado, subiu de botina numa gameleira, deixando
passar primeiro o herói para depois descer e continuar sua
caminhada, fato que deu nos ouvidos do pessoal da Guarda como
se fosse um insulto irreparável.
Logo depois, numa tarde masmorrenta de segunda-feira, João
Coco foi encontrado obrando por trás de umas carrapateiras no
oitão do Cemitério de Jaraguá e logo correu perseguido por meia
dúzia de guardas armados que o fuzilaram quando tentava pular de
um telhado para a casa do vizinho, depois de consumado o cerco.
Ele mostrou então que correu da injustiça a vida toda, para
morrer desprevenido e sem defesa, onde não merecia pela sua vida
desarrumada.
Muito tempo depois, a figura de João Coco servia ainda para
alguns como referência de insensatez; para outros, de coragem;
para muitos, de loucura e ignorância. Na verdade é que não fora
domado. Seu recessivo de caeté indômito e de algwn quilombola
guerreiro fazia-o dormir ao relento em sua juventude, desobedecer
a todos os liames da conveniência civilizada quando adulto, e
terminar como uma espécie de revoltoso contra tudo que parecia
tirar a sua conduta selvagem e altiva. Ele sempre foi um "bugre."
E quando um menino teimava e desobedecia, a vovozinha dos
tempos antigos dizia:
- Esse menino parece o João Coco!
------~-----~--------------~--·~~~--~--~--~---~------~-----~-~--
Uma pessoa feliz na ignorância e na espontaneidade.
Um mulato do povo chamado Mário Beleza, na verdade Amaro
José da Costa, era um pândego que nada devia a ninguém. Pelo
contrário, vivia como se o mw1do todo fosse criado para ele só,
mesmo que não desfrutasse de uma posição social elevada como
era de seu intenso desejo. Gostava de cantar e tocar no conjunto
"Regional dos Professores" com funcionários do Banco do Brasil e
da Westem nas festas estudantis e na boemia de Jaraguá.
193
Vivia dizendo o que bem queria, geralmente em voz alta, co
se todos estivessem obrigados a ouvi-lo.
Não sentia nem um pouco os dramas do prostíbulo do 1>uqut
em seu bar " Meu Cantinho," onde trabalhava a noite quase toda f
encontrava com quem conversar e rir, fazendo humor ate mesmo
com as misérias e desventuras dos outros.
Naquela existência alegre de Jaraguá, Beleza parecia dançll
com a vida e, naturalmente, era muito chegado às mulheres, na•
quais gerou, segundo dizem, cinqüenta e três filhos, quinze do1
quais com as quatro esposas que teve. Havia até quem contas11t
que. desde Jaraguá ao Yergel do Lago, quem não fosse filho de
Mário Beleza nem de família montada. vivia dizendo que era,
somente para ser irmão do povo. Notava-se que suas mulhcrci
eram invariavelmente brancas e trocadas com uma freqüência
impressionante, a ponto de dizerem: " Mário Beleza troca mais de
mulher do que de roupa."
Apesar de dispor de tantas condições para ser um cafajeste
como muitos do bairro, não o era, de fato. Negou-se certa vez a dar
uma carona de motocicleta para uma rapariga da Dina porque ela
queria escanchar-se no acento, dizendo-lhe:
- Ande de lado, menina. Assim não, fica feio para as
famílias.
Quando apareceram os primeiros caminhões ''puxando" açúcar
cm Jaraguá. I3eleza comprou um deles de segunda mão e mandóu
instalar em cima do pára-brisa uma buzina diferente que emitia
uma seqüência de sons melódicos associados por todos ao anúncio:
- Lá vem o Mário Beleza!
Pensando cm tirar partido de sua popularidade, candidatou-s~ a
ver~ador contando com os votos das raparigas, de seus fregueses,
amigos aos montes, o dele e os de sua família, e mais ainda pelo
fato de ser um dos cabos eleitorais do Deputado Oséias Cardoso de
quem dizia ter no nome o "O" de honestidade e o ''C" de
sinceridade. Outros afirmam que, durante a campanha política,
quando lhe perguntavam o que ia dizer no palanque, respondia:
- O meu discurso de improviso está pronto aqui no bolso.
1'>4
E apontava para o peito esquerdo, onde guardava um pupcl
rabiscado.
Beleza, no último dia das apurações, concluiu que estava eleito
e, eufórico, correu para casa onde encontrou a esposa deitada numa
rede e bem desprevenida. Abriu então aquela boca grande cortando
seu rosto redondo e escuro, sobre um corpo que lhe sobrava por
todas as partes, e disse bem alto em tom impositivo, quase imperial,
com os braços abertos balançando para o céu:
- Mulher! Mulher! Prepare-se para dormir com um
vereador! Hoje mesmo! ouviste? E a esposa, na maior
naturalidade, respondeu:
- Esse vereador vem pra aqui ou eu vou pra lá ?
E se o leitor quer saber se a premonição de Beleza se realizou,
cu direi que não. Mas ficou por alguns votos, restando a queixa de
que fora roubado nas apurações por uma senhora de boa família,
dizendo para o resto da vida:
- O povo do meu barro (bairro) me atraiu (traiu). E ainda
fui roubado pela Nitinha ...
Eis que Mário Beleza, apesar de ter recursos para comprar um
ingresso nem que fosse na geral do campo do CRB, preferia wna
solução original para assistir àquelas partidas disputadíssimas do
Campeonato Alagoano, em especial o clássico CSA x CRB, este
último seu time de coração. Quem cruzasse pelos fundos do
Cemitério de Jaraguá naquele beco sem saída que dava acesso ao
campo, logo avistava nosso personagem plantado nwn assento
dianteiro de automóvel amarrado a uns cinco metros de altura no
tronco de um coqueiro, com uma escada de pedreiro ao lado que
saía do quintal de sua casa, "irradiando" o jogo para a molecada lá
em baixo.
Na falta de glórias políticas e acesso social, Beleza realizava-se
na presidência do Synclair, um clube de segunda divisão no futebol,
chamada de esporte menor, e que usava camisa rubro-negra,
disputando com outros clubes um movimentado campeonato
municipal, o 13 de Maio (preto e branco), o Imperial (azul e
branco), o Clube dos Estivadores e mais meia dúzia deles.
195
Levando assim a vida, num dia infeliz qualquer, Belo
encontrou-se com um derrame cerebral que o deixou inválido, rnat
na esperança de um dia recuperar a fala e o andar, retomando pari
as alegrias da rua.
Disseram-lhe então que Santo Amaro era dado às cur1•
milagrosas desde que o suplicante lhe mostrasse humildade t
penitência, motivo pelo qual enrolou-se todo num fita de pano,
como se fosse uma grande múmia, só com os olhos de fora, e 16 11
foi pagar ao Santo na Paripueira sua promessa, onde causou na rua
o maior espanto. porque pensaram que era um leproso.
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Um ingênuo ambicioso fez um delegado rir por dentro.
Morava no início da Avenida da Paz, como quem vai para a
cidade, um gordo comerciante de algodão mais conhecido pela sua
ingenuidade do que pela esperteza nos negócios. Tinha uma
família grande, inclu~ive várias filhas moças, e por isso gozava de
renome em Jaraguá. Seu sonho era amealhar mais ainda, dizendo-
se predestinado a ser um homem rico como os comendadores
Teixeira Basto, Gustavo Paiva - este com palacete na Mangabeira -
e os Leões da Utinga, prósperos e primeiros a possuírem frota de
automóvel com garagem própria por aqui, numa cidade cheia de
carroças e bondes de burro, recentemente dotada de bondes
elétricos da CATU.
Ce110 dia, o homem entrou na Delegacia de Jaraguá ' levando,
debaixo do braço. uma geringonça parecida com caixa de charutos,
de onde saía uma manivela discreta como as de máquina de costura,
portinhola de entrada e outra de saída, além de pequenas alças para
carregar, tudo pintado com muito aprumo de verde musgo, onde se
lia um título em negrito: ''A Máquina da Fo11una", e mais em baixo
num cantinho, em letras pequenas e douradas: Made in Suiça -
lmpo11ed.
O Delegado era Modesto Lins, que andava empenhado em
cumprir os seus deveres de proteger a sociedade, o que fazia com
muito cuidado para não deixar fugir pelas malhas da lei os faltosos
que por lá batiam com os costados. Mas viu-se, naquele dia, diante
196
de uma situação inteiramente nova porque aquele comcrcruntc,
insuspeito de qualquer deslize até então, pousou sua geringonça cm
cima da mesa diante dele e reclamou assim:
- Doutor Modesto, pelo que me chega aos ouvidos o
ilustre guardião da lei protege os enganados e oprimidos pelo
crime. Tenho neste momento o desprazer de vir denunciar a
Vossa Senhoria ...
- Muito obrigado ao senhor pelos elogios, interrompeu a
autoridade.
- ... de nada, de nada ... mas, como dizia, desloquei-me de
meu domicílio para apresentar a queixa de que um senhor bem
vestido, parecendo de família, chegado aqui num paquete da
Costeira, me vendeu esta máquina que julguei ser a salvação
dos meus sonhos. E o pior, Doutor Delegado, tive que pagar à
vista pela peça dez contos de réis, porque o gajo me jurou que
tinha que tomar o trem e seguir logo viagem de negócios para
Palmares e Ribeirão, onde tinha um encontro para vender isto
aqui (neste momento apontando para a geringonça) a uns
comerciantes e proprietários da mata em Pernambuco ...
- E afinal, homem de Deus, qual é mesmo a queixa?
perguntou o Delegado já um tanto impaciente.
- É o seguinte: é que o gajo me mostrou que, girando esta
manivela aqui (e deu uma giradinha nela), saía pelo outro lado o
dinheiro que eu quisesse, e saíram de dentro dela três notas de
cinco. Estava tudo certo, Doutor Delegado, e eu ainda
fabriquei mais duas depois, mos daí em diante só saiu este
papel branco aqui, em vez de dinheiro vivo como era o
combinado ...
Foi quando Modesto Lins interrompeu a narrativa e perguntou
com evidente esforço para não rir:
- Mas, Seu (fulano) , o senhor queria manter em casa uma
fábrica de dinheiro falso? Sabia que isso é crime capitulado?
Diante do silêncio de estupefação do queixoso, passou a
examinar as notas que estavam nas suas mãos e que ele trouxera
como prova, acabando por concluir:
- E são notas falsas. O senhor já fabricou dinheiro falso.
197
E, bem seno, o homem, enquanto saía vagarosamente pcl1
porta em frente deixando para trás a geringonça, certamente
pensava mais no prejuízo que tivera do que na tolice que acnbava
de fazer.
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Um inglês celibatário e excêntrico que ficou nq
lernbrança do povo.
Passados muitos anos quase ninguém sabe a razão de se
comparar uma pessoa andarilha e irrequieta assim:
- Parece o Cavalo de Macray.
Kenneth C. Macray era um inglês como outros patrícios e
súditos de Sua Majestade que aqui chegaram e viveram
representando firmas e fazendo trabalho consular. Foi representante
de William e Cia para exportação de açúcar, cônsul e vice-cônsul
britânico, cônsul da Suécia e da Noruega desde l902 e um dos
primeiros presidentes da Fênix Alagoana, cuja sede ficava na Rua
da Igreja, também fundador e presidente do Tênis.
Era um homem que se via de longe,
porque muito alto, magro, cabelos de milho
verde, pele avermelhada no rosto e
branqueia no resto do corpo, quase
transparente como catenga de parede, olhos
azuis, diferente dos outros, principalmente
pelo pescoço longo que tinha e que,
conforme disseram, era 33 e pegava
colarinho 48, com trinta de comprimento.
Nas festas oficiais e quando posava para retratos, como aquele
da galeria da Fénix, Macray usava uniforme colonial de seu País
como oficial que fora em outros tempos, o que combinava també~
com seu sobrenome Courage. Dizem que, depois de aposentado,
tentou residir de volta na Inglaterra, mas regressou ao Jaraguá pelas
snudades de uma vida muito mais animada à qual se acostumara
lC)8
plenamente e onde encontrava calor humano, alegria e gente
descontraída, em vez de "fog" e frio, sentindo falta do Brasil
enquanto tomava bebidas destiladas naqueles "pubs" e comia
picadinho de frango temperado nas tabernas tristes numa cidade
praieira da Cornuália. Desta vez comprou uma casa em Bebedouro
e lá viveu seus últimos anos reunindo amigos e bebendo com eles.
Mas, e a história do cavalo?
Desde os velhos tempos até os anos quarenta, muitas pessoas
que trabalhavam em Jaraguá vinham de casa montadas em cavalos
ou chan-etes que ficavam em estrebarias nas ruas e vielas do bairro.
Não se sabe se por capricho ou por economia, Macray não dispunha
de estrebaria nem própria nem alugada para sua montaria. Por isso,
lhe eram concedidos descanso e ração na Chácara Britânia, nome
de um sítio com bangalô onde morava na .Mangabeira, no final da
Estrada Nova, tendo como cocheiro um empregado humilde para
seu serviço rotineiro de transporte.
Pela manhã cedo, depois do café, Macray fazia sua primeira
viagem até Jaraguá, de onde o cocheiro e os cavalos voltavam para
a Mangabeira, ein passo Jento e desanimado, sem o garbo britânico
e militar do inglês em sua passagem para o trabalho. Antes do
meio-dia, lá vinha a mesma tropa para conduzir Macray ao almoço
na Chácara, retornando depois da sesta até a Sá e Albuquerque,
onde ele entregava novamente as rédeas do animal ao cocheiro e se
adentrava no Consulado Britânico ao lado do Armazém Jaraguá e
exatamente em frente da Estrada Nova. Os dois cavalos e o
cocheiro retornavam ao devido descanso, desfilando pela quarta
vez nas mesmas ruas de sempre.
Lá pelas quatro da tarde, o cocheiro e os dois cavalos faziam
sua penúltima viagem seguida da úJtima, quando o inglês montava
no rumo da Mangabeira, depois de um dia de trabalh,o, empinando-
se na sela, seguido pelo humilde serviçal, também montado, que
terminava sua faina diária e rotineira desencilhando os dois animais
e permitindo-lhes a última ração. Aí então, já um tanto cansados,
poderiam parecer Dom Quixote e Sancho Pança, fosse o cocheiro
um homem roliço e baixo, e sua montada uma mula velha. Mister
Macray, de sua parte, até que lembrava o sonhador e enlouquecido
cavaleiro andante criado por Cervantes.
199
Se alguém se desse ao trabalho de calcular o quanto andavam
cavaleiros e cavalos, em apenas uma jornada, chegaria à conclusão
de que o inglês percorria dezesseis quilômetros e o cocheiro e 01
dois cavalos nada menos do que trinta e dois, porque a distâ11ci1
entre o Consulado e a Chácara era de quatro quilômetros. Assim,
tantas vezes por dia, semanas, meses e anos repetia-se com incrível
semelhança e regularidade aquela cena; que o povo fixou a
expressão: "Parece o Cavalo de Macray" para and<:trilhos.
Macray era um homem tão excêntrico que o fizeram de padrão
de britânico em Alagoas, dentre alguns deles que ficaram na
memória do povo e que tanto contribuíram para criar uma
referência de boa conduta. Na enchente da noite de Sexta-feira da
Paixão, 18 de abril de 1924, que disseram ter ocorrido como castigo
de Deus porque mataram um porco naquele dia sagrado, "o
segundo dilúvio'' que levou a Ponte dos Fonsecas sobre o Riacho
Salgadinho, derrubando 117 casas e avariando outras 4 12, com
cinco mortos e vários feridos, água transbordando em cachoeira,
um outro inglês, cercado e temeroso de nadar, inspirou um versinho
que terminava assim:
Gritava o povo: Seu Patton!
Deixa o dia amanhecer.
Responde o inglês já rouco
Mande chamar o Macray,
Só ele é quem toma pé
Tenho medo de morrer!
Com aquele corpanzil que mais parecia uma vara de bambu,
Macray (que apelidaram de "O Mastro") se destacava de imediato
numa humanidade de pequena altura. É de se imaginar sua figura
comandando o "Tanque de Guerra", nome que dera a seu carro
alegórico na Micarême de 1924, guarnecido também pelos seus
patrícios e cuja munição era um grande pacote com três caixas de
puro White Horse.
Aliás aquelas Micarêmes de Carnaval, com automóveis e
caminhões ornamentados, nunca mais se repetiram em Jaraguá. Os
carros tinham seus exóticos nomes ou apelidos jocosos botados
~cio povo (e pelo "O Bacurau") à ~·evelia: "Faraó do Egito'', do Dr
f•sdras Duarte, "Uma Caçada na Africano Bojo de um Elefante",
do Coronel Cláudio Dubeux," Cabeção ", de Tércio Wanderley
200 '
"Propaganda de Mosquito", "Erupção do Vesúvio", "Ovo de
Colombo". Havia o carro do Dr. Pereira, de Goulart e Cia, Cônsul
da Bolívia, filho do português Chico Pancada que aqui
desembarcou e venceu, decorado em forma de torre de petróleo que
atirava lá de cima papel picado, significando que jorrava o precioso
líquido. Havia uns gritos de animação que eletrizavam os
carnavalescos, dentre os quais um era alusivo ao próprio Macray,
folião e feniano fanático, apesar de sua pose britânica:
Viva! Viva o Carnflval!
Phenianos, evoché!
Pega o pão amolecido!
Ali right! Eu sou o Macray!
Assim, com esse evidente espírito associativo de que todo
inglês dispõe, Macray foi o primeiro Presidente do Jaraguá Tênis
Club, fundado no dia 6 de março de 1922 e cuja diretoria é bem
uma mostra das relações da colônia britânica entre nós: Walter W.
Cox, Edward G. Patton, Philip G. Nicholls, Robert W.B. Paterson e
Ener H. Johansen. Macray voltou a ser Presidente do Clube em
1926 e Vice em 1928. Se jogava mesmo tênis, é possível imaginar
como era engraçado na quadra, vestido de branco e fino como uma
garça.
Esquisito como quase todo inglês, Macray criava, na Chácara
Britânia, dois grandes cachorros de raça estranha, um grande
macaco, cuja venda vivia sendo anunciada pelo "O Bacurau", e
outros animais selvagens como saguis, raposas, onças e, para
alguns exagerados, também dinossauros e megatérios, sob os
cuidados de uma senhora idosa.
Porque gostava muito de cavalos, disseram que sua atividade
na Inglaterra teria sido de jóquei e que, nas batalhas em que
participara, mereceu, do Rei Jorge V, várias cruzes de guerra,
dentre elas a "Cruz das Almas", por coincidência distante de sua
chácara uns dois quilômetros, e mais o título de nobreza
"Cavaleiro da Mangabeira". De fato, este cavaleiro se destacava
pelo garbo com que montava seu corcel, parecendo um guarda de
Sua Majestade a Rainha, por ocasião do "Zé Pereira" promovido
pela Fênix Alagoana no Carnaval. Era uma fila de diretores e
beneméritos do Clube, dentre eles Macray, que ficavam em forma,
fila por um, vestidos de uniforme branco com faixa
201
vermelha na cintura, no que chamavam "Comissão de Frente", sob
o toque de clarins tocados por músicos da Polícia Militar.
O cortejo percorria o bairro e dava-se início ao baile.
De fato, o homem gostava muito de cavalos e, certa vez.
encantou-se por uma égua que comprou pelo dinheiro que lht
cobraram, somente para andar nos feriados num animal mala
descansado e de melhor apresentação. Certo dia, porém, passou
pelo maior vexame de sua vida, num fato que foi comentado por
muito tempo em Jaraguá.
Foi assim, segundo a memória do povo:
Vinha Macray cavalgando sua potranca lustrosa e feminina
pela Mangabeira a dentro, no rumo de Cruz das Almas, num
domingo luminoso, daqueles que acontecem por aqui antes da
quaresma chegar. Tinha na cabeça um chapéu, ou melhor, um
quepe militar de massa, branco, abas em todas as direções da
cobertura, igual aos que seus patrícios em campanha usavam na
Índia (quem for curioso veja-o naquela galeria de Presidentes da
f.'ênix), símbolo imponente da colonização e da severidade
vitoriana. Vestia um temo também branco, tendo em vez de paletó
apenas wn blusão aliviado, daqueles de guia caçador de leões ou
explorador na África, com enormes bolsos que quase pareciam
mochilas laterais cm seu corpo de varapau, uma linda tabica
importada na mão direita, cujo brilho do cabo sugeria que fosse de
ouro.
É claro que aquela figura rara, embora já muito conhecida, ia
despertando a atenção dos caminhantes domingueiros e do povo
sentado nas calçadas e varandas. Andava ele ao passo, corpo
espigado como se estivesse espetado por um cabo de vassoura nas
costas, sempre olhando para frente, nw1ca para os lados.
Foi quando veio o imprevisto.
De repente, irrompe, de um buraco de cerca, um cavalo
raquítico, pequeno e sarnento, com visíveis falhas da enfermidade
cutânea em seus pelos descoloridos, relinchando nervosamente e
cujo impulso que mostrou na direção da égua de Macray não
correspondia absolutamente ao seu porte ridículo, principalmente
quando comparado à beleza nobre de sua desejada parceira. Mas
demonstrava tanto desejo que logo atropelou a égua e seu
202
cavaleiro, mesmo sobre as tabicadas vigorosas que recebia do
inglês, agora posto numa defensiva frenética e muito distante do
aprumo com que vinha cavalgando. E percebeu desolado que a sua
égua aceitou o convite ao sexo, ela, um lindo animal de raça, caro e
de linhagem, que safada!, ele, um pangaré jovem, mas subnutrido,
sem nenhuma apresentação, enfim, wn animal pobre,
desclassificado. Como ousava?
Mantendo-se montado, Macray, desesperado (via-se pelos
movimentos de sua tabica), ainda alimentava a esperança de evitar
o pior, o que não conseguiu, porque o pangaré, aproveitando-se de
que a jovem égua flexionou as pernas traseiras abaixando
carinhosamente as ancas (colocando a cauda de lado) subiu com
sofreguidão.
E aí ocorreu o incrível. Tudo foi consumado ali mesmo, sem
que o cavaleiro pudesse desmontar, simplesmente porque a pata
dianteira do cavalo enfiou-se em seu bolso adentro, ficando os três
no enlevo daquele curioso momento.
E aí veio a brincadeira dos populares:
- Pior foi o bafo do cavalo no pescoço do inglês!
De tão popular que ficou o Macray quiseram candidatá-lo nas
eleições de 1922 a deputado estadual pelo Partido Democrata, junto
com alguns de seus amigos da colônia inglesa em Maceió: sob os
lemas Macray, "Inglês para Sempre''; J.G. Nicholls, "Ex-Prefeito
de Cork"; Cel Sharp Plate Bank (imaginário ?) e Major Gore Lion.
Como era celibatário, toda espécie de maledicência popular
caiu sobre ele, inclusive a de que gostava mais dos animais de sua
chácara do que de mulher, e de que nunca havia conhecido a sós
um só espécime deste sexo, vivendo a dizer : "Oh! Love is vcry
dangerous. God savc me! (Oh, Amor é muito perigoso. Deus me
salve!). E não precisava ter tantos cuidados, pois até as vitalinas
dele se afastavam por esquisito que surgia, parecendo uma esfinge
varapau.
203
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Retrato de um homem cansado de trabalbar em vão.
Era um velho moreno, alto e magro, que trabalhou duro cm
Jaraguá pegando pequenas cargas como "ganhador". Cansado,
passava os seus dias no mesmo lugar onde sempre viveu pela forçn
dos músculos.
Como os demais humildes de "terceira classe", pela roupa que
vestia, ele se destacava logo dos comerciários. escriturários,
balconistas, apontadores, pequenos funcionários, gente de "segunda
classe" que circulava em Jaraguá, muitos de suspensórios a
segurarem as calças de cintura frouxa. Distância maior havia então
de Melquíades para a "primeira classe": industriais e comendadores
do comércio, altos funcionários da Administração do Porto e da
Alfândega, e doutores, todos vestidos de temo, colete, gravata e
chapéu panamá.
Melquíades vestia uma camisa clara, folgada e sem colarinho,
mangas compridas de punho abotoado, calça com cinto de cordão
ou de couro cru. "cotó", onde o fim das canelas aparecia antes dos
tamancos bem um palmo e meio de fora. Tudo parecia amassado
como se acabasse de sair de uma garrafa.
Ce1to dia, o fotógrafo José Simões Filho o flagrou sentado, de
dedos entrelaçados e olhar tristonho, um tanto interrogativos,
braços apoiados nos joelhos que estavam distantes um do outro de
quase um metro, chapéu de massa colocado bem no meio da
cabeça. E dele ficou o registro ("O Natal", 1944), sob o título -
"ESTE É O MELQUIADES, velho ganhador que servia a Deus
e ao Mundo em .Jaraguá. Sentado na calçada do Trapichc
Novo, está ele dizendo: "Corri muito, lutei muito e nada fiz.
Agora quem quiser que corra".
É o que diz também sua face de olhos amortecidos pelo tempo
e pela desilusão e estafa sem fim, numa vida de acorda e dorme,
entre uma coisa e outra comendo um prato de feijão com charque e
farinha, e alguma carga para transportar em sua carrocinha quando
1111m dia de s011e.
204
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Como a força física fez uma fama.
Por que José Leôncio do Nascimento (l.88m de altura, 110 kg
de peso) era chamado de Zé Guindaste?
Quem responde é a sua viúva Dona Cannelinda contando a
história de mn circo que se apresentava no Aterro de Jaraguá e
encomendou na Fundição Alagoana wn daqueles pesos de barra
para espetáculo de levantador.
Certo dia, seu marido, barcaceiro de profissão, na época
conhecido como Leôncio, passou pelo Beco da Estrela, andou um
pouco na Estrada Nova, dobrou à direita e entrou na Rua da Igreja,
encontrando uma carroça defronte da Fundição Alagoana, onde se
desejava colocar a tal barra de ferro com mais de cem quilos em
cada ponta, uns quatro homens sem jeito, e nada.
Como sempre muito prestativo e disposto a ajudar qualquer
necessitado, Leôncio pediu licença, colocou-se por trás da barra
abarcando-a com as duas mãos~ acocorou-se, ajeitou-se como
aqueles atletas de levantamento de peso em cima de um palco,
prendeu a respiração, engrossou o pescoço e lá foi o aparelho para
cima da carroça.
Espantado com o que vira, o gerente do circo passou a insistir
com Leôncio para que aceitasse um número no espetáculo do
próximo domingo, a um preço bem compensador, prometendo
levá-lo com a ''troupe'' num trabalho fixo e bem rernw1erado,
contanto que levantasse a barra uma vez por dia, duas aos
domingos e feriados, depois de uma encenação com anunciante,
música e mulheres musculosas e scminuas de lado alisando em
aquecimento os seus possantes braços, todos vestindo um maiô
parecido com pele de leopardo. E assim o agente foi mostrando cm
detalhes o que faria Leôncio que relutava em aceitar o novo
emprego, dizendo-se embarcadiço de convés da "Indiana", de Seu
Atahide, levando coco de Seu Eráclito Lima para a Bahia e de lá
trazendo cimento para Jaraguá. Não podia deixar o patrão sozinho
nessa emergência, sem aviso nenhum.
Nesta hora, diante de um auditório de uma dúzia de pessoas, o
gerente, para convencê-lo melhor, ditou o anúncio que seria posto
205
nos jornais e falado aos quatro ventos da cidade por um palhaço cm
cima de uma carroça e num bonde alugado pelo circo: "Próximo
domingo no Circo Sofia não percam o espetáculo. Z~
Guindaste, o homem mais forte do Brasil, vai levantar um11
barra de duzentos e oitenta quilos".
Leôncio continuou barcaceiro por mais vinte anos, mas passou
quarenta atendendo pela alcunha de Zé Guindaste.
Por que seria tão forte assim, a ponto de carregar um saco de
demerara de sessenta quilos na cabeça e um debaixo de cada braço'!
Dizem que ele foi criado por uma senhora chamada Dona Augusta,
de Porto de Pedras, onde nasceu, e que seu padrinho era um
armador remediado e bondoso, que terminou colocando-o como
moço em uma de suas barcaças. Aí, então, comendo bem e
vivendo as durezas do mar, tornou-se cada dia mais forte e grande.
Nascido em 1907, faleceu aos sessenta e oito anos porque
tornou-se diabético, terminando melancolicamente os seus dias
depois de amputar uma perna e sofrer um ataque do coração. Foi
como ele mesmo disse durante toda a vida, quando se referia a um
possível perigo pela frente:
- Morreu, morreu, expressão que fez sua marca pessoal.
Encontra-se enterrado no Cemitério de Jaraguá, numa
catacumba da família, o homem que desatolava carroça,
desencalhava barcaça com os ombros, abria um coco verde com
um aperto de mãos, pipocava barbante grosso em volta do pulmão
quando respirava, prendia com o polegar e o indicador da mão
direita o pulso de qualquer um, sem deixá-lo se soltar, por mais
esforço que pudesse fazer, carregava cento e oitenta quilos de
açúcar mas que, inexplicavelmente, perdeu uma quebra-de-braço
com o José Auto Guimarães. Apesar disso tudo, era incapaz de
agredir quem quer que fosse, desde que não lhe pisasse nos calos.
Mas, diante da derrota, ele pendurou o Zé Auto numa prateleira do
bar, por alguns minutos.
Dizem que certo sábado de inverno, Zé Guindaste estava
fa~endo compras no Mercado São José quando despertou sua
ntcnção uma velha carroça carregada, com suas enormes rodas de
mndcira de banda fina e aro de metal, atolada até quase o eixo.
206
O pobre carroceiro estava desesperado e apelando para a njudu
dos circunstantes, uma dúzia dos quais acudia o animal que bufava
e espumava de tanto fazer força para nada, levando doloridas
chibatadas. Tudo inútil. A carroça lá estava.
Impaciente com o que via, Zé Guindaste aproximou-se da cena
no momento em que todos gozavam de um descanso merecido,
antes de ter início nova tentativa de saírem dali. E disse ao
carroceiro:
- Espere, meu nego, tire essa burra da carroça!
Diante da surpresa e sem entender direito, o carroceiro ficou de
boca aberta olhando aquele homem a lhe dar ordem sem sentido,
ele que tanto desejava entregar em Bebedouro sua carga de inhame
ainda antes do almoço.
E insistiu mais claro ainda o Zé Guindaste:
- Quem vai desatolar é eu. Vamo, tire a burra! E foi
obedecido. Em seguida, colocou-se na posição do animal, amarrou-
se pelas cordas e tiras de couro, empunhou as prolongas da carroça
com suas enom1es mãos, aprumou-se, respirou fundo enquanto
baixava a cabeça inclinando-se para frente, e andou devagar tendo
pelas costas a carroça cada vez mais acima de seu corpo, enquanto
ia para frente.
Em Coruripe, tempos em que o Capitão Saraiva era o
Delegado, havia na Delegacia de Polícia uma inscrição em letras
grandes na parede em frente da porta de entrada: "Preso que sair
daqui dizendo que não apanhou ou é mentiroso ou é safado''.
Vejam só.
Como toda regra tem pelo menos uma exceção, aqui vai a que
viveu José Guindaste quando foi morar naquela cidade.
Numa tarde violenta, no campo de futebo] da Barreira, bem
próximo, irrompeu uma briga de torcedores e jo~adores co~
pancadaria e ferimentos. Duas dezenas de contundidos foram a
Delegacia dar pa1te de Zé Guindaste como o principal protagonista
dos acontecimentos e autor das agressões, com uma das vítimas
derramando sem parar sangue pelo nariz. E o Delegado, alegando
que "verteram sangue", mandou uma patrulha prender o agressor
em sua própria casa, depois de perguntar:
207
- Isto é um homem ou é um leão? Foi aquele que uma v1
jogou a trave fora do campo no Miaí de Cima ?
Parece que o cabo da patrulha, já amedrontado com a missão
que ia cumprir, ao invés de agir com humildade, resolveu dai uni
demonstração de violência logo de entrada, confiado na farda o
pensando em aturdir o preso até que ficasse por trás das grades. 1
chegou na casa dele arrastando atrás dois soldados, onde fez logo
um susto em Dona Carmelinda, que, abrindo a porta da frente,
depois da pancadaria de vários socos, ouviu:
- Cadê o valentão?
Mas, antes mesmo que a mulher respondesse, Zé Guindaste
saiu da rede onde cochilava e surgiu diante da patrulha com tanto
volume, altura e grossura (estava nu da cintura para cima) que o
cabo de um metro e sessenta e dois, com voz agora humilde,
olhando o pescoço do homem, que mais parecia um toco de
coqueiro, e vendo que ele e os soldados juntos não dariam conta de
seus deveres, perguntou, para dentro de sua goela, com voz de
menino sacristão quando chega a visita do bispo:
- Vosmicê é o Sanção da Barreira? aquele que ganhou de
vinte? falando assim com ar de admiração e lisonja, mas,
percebendo a situação e sabendo que não se bate em juiz, nem em
padre, nem em soldado, Zé Guindaste aceitou a prisão, mas com
uma advertência:
- Eu vou acompanhar vosmicê, Seu Cabo, mas se baterem
em mim, o diabo vai sair do caminho! ao mesmo tempo que se
voltava para a esposa, girando o corpo para ela, e advertindo:
- Se eu não voltar, muié, pode comprar vestido preto
porque vou fazê uma bagaceira medonha, e ficou dois dias preso
e bem tratado, até conversando com os policiais, e não deixou de
dar o seu recado quando foi solto e apontou para a frase escrita na
parede da Delegacia, referindo-se a um ladrãozinho preso na cela
ao lado, perguntando:
- Botaro essa placa aí, pru que? Donte pra oje vomicês
batero o tempo todo neste ladrãozinho e deixaro ele todo
pustemado de fedê qui ninguém aguentaro. Não se faz uma
coisa dessa... E virou as costas para os policiais saindo para casa.
208
Zé Guindaste era fiel segurança e uma espécie de sombrn de
Dedé Lessa, freqüentador assíduo do meretrício nas tardes de vc!·no.
Era quando os paralelepípedos ainda estavam quentes e as ra~angas
despertavam do sono vespertino para compensar as canseiras da
noite anterior.
Certo dia ao descerem a escada da pensão Night and Day,
acharam de ~ornar uma saideira qualquer, de preferência de
jenipapina, quando toparam com o boteco do Anãozinh~, que
também chamavam de "Corcundinha". Era um pequeno qmos~ue
de madeira, que mais parecia reboque de bonde c~rtado n~ me10 e
plantado no oitão esquerdo da Associação Comer~1al. Servia fr~1tas,
bebidas destiladas, peixe frito de tira-gosto, caJarana e toucinho
assado e, segundo os mais informados, maco~lrn para. os
marinheiros, sob um letreiro tão insignificante que mnguem amda
hoje sabe descrever.
Naquele vão de lado a lado do boteco despontava .so~ente a
cabeça avantajada do Anãozinho, um tipo pouco comumcattvo que
trabalhava como uma máquina sem risos nem conversas com
freguês, sequer reclamações dos que dele debochavam de vez em
quando.
Dedé Lessa, depois de pedir dois grogues de aguardente
Manjerona e um prato de corvina frita, recebeu dele uma resposta
seca e contundente:
- Não dá mais porque está fechado.
Surpreendido e descontente, Lessa voltou-se para José
Guindaste que vinha chegando próximo o suficiente para escutar o
veredicto do Anão e a proposta de seu amigo:
_Tá aí, Zé, o homem disse que está fechado, e o que vamos
fazer agora ? e adiantou: vamos virar o boteco ?
Incontinente, José Guindaste usou da força com que Deus o
premiou e, inclinando-se para baixo sem sequer dobrar os joel.hos,
atendeu a sugestão do amigo, virando o quiosque com o Anãozinho
dentro. "Bem feito", disse, espanando uma mão na outra.
Havia um grupo de ganhadores esperando a hora de fazer.u~
carrego de velocípedes, âncoras e rol~s de ara~1e na Fund1çao
Alagoana, Rua Barão de Jaraguá, 65, antiga da Igreja.
209
Na falta do que fazer, debaixo daquele calor de duas da tarde,
logo na segunda rua da praia para dentro, lugar sem vento, aqucle11
homens se displlllham por ali encostados com os pés na parede,
braços cruzados, alguns poucos na sombra das grossas portas do11
trapiches vizinhos.
Bem na frente da Fundição concentravam-se alguns deles a
ouvirem um dos maiores contadores de história de Jaraguá, o
fenomenal Zé Guindaste que se destacava do grupo pelo seu
tamanho e pelas amplas gesticulações para cima e para os lados,
dando a entender, para o observador distante, que imitava um
macaco nervoso que ficava no Mercado São José, ou que contava
uma ''bulha" ocorrida recentemente no meretrício do Verde entre
um bando de marinheiros de um certo cruzador da Marinha de
Guerra e as praças do Exército.
Estava preparado o desastre que logo ocorreria.
Surgindo da porta principal da Fundição, após um papinho com
o S1: Wuckerer, saiu andando um sujeito mais para pequeno, bem
vestido, cam·egando na mão esquerda uma pasta de como,
parecendo tão distraído que sequer percebera em seu caminho a
ruidosa voz de Zé Guindaste e seu corpo enorme.
No exato momento em que entrou pelas costas e no alcance do
c?ntador de histórias, este levantou com força seus braços e punhos
?1gantescos par~ cima, atingindo em cheio o pobre homem que, por
isso, passou mais de uma hora dormindo e cheirando a.mica.
A mentira no "black-out".
Todo mundo conhecia as histórias de Jocão, o Barão de
Muc~ausen de Maceió. Não pertencia àquela categoria de
~ent1~osos que acreditam nas próprias mentiras. Mentia para
d~vertir-se .c~m a estupefação alheia diante das invenções de seu
cereb~o cnatlvo e gozador. Era o assunto de muita gente, em
especial nos momentos em que se desejava rir de suas histórias
mais recentes, sem saberem que era o Jocão quem ria deles.
. Como, . sempre nesses tipos, Jocão fazia uma figura
1nconfund1vel. Era moreno claro de cabelos lisos alto um tanto
210 ' '
grande por não ser magro, rosto volumoso e de traços rcg11lan.:s,
nariz grande, boca grande, olhos grandes, queixo também grande.
Usava sempre um chapéu elegante, paletó e gravata, andando
devagar e se chegando às pessoas importantes que gostava de
cumprimentar e por quem queria ser ouvido. Nunca iniciava um
"caso" de sua vida sem ser provocado por alguém mais impaciente
do grupo, com a frase: "Joca, qual é a última novidade?".
Seu lugar predileto era a Rua do Comércio, por volta do
Relógio Oficial, ou os bares do centro da Cidade, mas algumas
vezes tomava um bonde para freqüentar reunião informal de fim
de tarde que se fazia nos degraus da Associação Comercial em
Jaraguá, quando se juntava o que havia de melhor no mundo dos
negócios e da burocracia fiscal.
Estavam ali conversando sobre um exercício de "black-out" da
noite anterior, tempos de guerra mundial, quando tudo ficou no
escuro, os automóveis e bondes pararam de circular, as janelas
ficaram fechadas para o maJ, nem mesmo vela se podia acender.
Aviões percorriam os ares o tempo todo e os fiscais da defesa civil,
inclusive escoteiros mobilizados, circulavam pelas ruas em busca
de alguma falha lmninosa no breu do exercício militar.
Foi quando alguém perguntou pelas novas. E ele então fez
uma discursiva dissertação dos aviões que sobrevoaram sua casa
insistentemente, alguns até querendo pousar próximo no campo
velho do Aeroclube, parecendo que algo andava errado em volta
dele e de sua família, continuando assim:
- Olhe, um avião passou tão baixo que o meu vizinho
acendeu um cigarro no fogo do motor dele.
E prosseguiu dizendo que escutou no rádio que havia um foco
de luz muito grande na rua em que morava, e que os popul:ires
ajudassem a identificá-lo porque os submarinos alemães podiam
bombardear a cidade, principalmente o Porto de Jaraguá rccém-
inaugurado e as instalações e depósitos dali. Nesse meio tempo,
chegou em sua casa uma patrulha do Exército intimando-o a que
comparecesse imediatamente para explicações no quartel do 20Q
BC porque o tal "holofote" vinha de sua janela. Surpreso, mudou
de roupa e acompanhou o sargento até lá.
211
- E ai então, o que era? perguntou o mais curioso,
respondendo Jocão:
- Imagine. O foco de luz que ninguém de casa estava vendo
era do anel de brilhante de minha esposa que refletia n hu: da
lua lá pras bandas do céu e do alto-mar. Trabalho deu...
A luz, segundo disse mais tarde, foi identificada na casa dele
por um oficial em posição na cabeça do cais do porto, depois que
os aviões deram o alarme.
----------------------------------------------------------------------------------
Um trapicbeiro atordoado fez o que não devia.
De um ônibus "sopa" que estacionou no ponto do Bar Gaivota
surgiu meio aturdido o trapicheiro Codá. Atrás dele saltou uma
turba que procurava atingi-lo com murros, guarda-chuvas, bengalas
e bolsas, um ou outro malvado atirando-lhe objetos de longe.
Como era um homem pesado e baixo levava desvantagem de seus
perseguidores que, aproveitando-se de uma oportunidade furtiva,
conseguiam molestá-lo. Mas, vez por outra, ele abria um vazio nos
seus agressores, quando procurava acertar em alguém seu possante
murro de um braço curto mas grosso como um tacape. A cena
parecia daquelas de formigas carnívoras atacando um preá indefeso
porque cercado, sem poder evitar as mordidas todas de uma vez.
Mas. o que teria ocorrido dentro daquela "sopa''?
Foi assim:
Vinha Codá de um dia pesado no Trapiche Segundo, onde
carregara cento e vinte sacos de açúcar passando por uma escada na
ponte, equilibrando-se depois numa prancha do convés de uma
alvarenga e descendo entortado até o seu porão, tudo sem perder o
bom humor.
Para compensar a loita, corria entre eles toda espécie de
brincadeiras para aliviar suas almas sofridas de trabalhadores
braçais da resistência e da estiva (o que fizera durante muitos anos),
num ambiente pegajoso e quente de melaço misturado com areia,
labuta diária que nunca tinha fim e onde a única realização era
1cccber alguns trocados no sábado, segundo a sua produção.
21:>
Depois de ouvir a sirene de largar, tomou um banho pelos
fundos do trapiche de Goulart & Cia, trocou a tanga de estopa por
uma roupa, desceu à praia para apanhar uma lata que passou a noite
anterior aparando melaço dos sacos empilhados no estrado da
ponte, vendeu o apurado ao dono de uma vacaria e foi para o ponto
de ônibus.
Neste momento, seu espírito foi perturbado pela notícia de que
houvera uma batida policial no Trapiche Faustino para revistar os
trapicheiros e dois foram presos porque levavam escondido entre a
roupa e a cintura meia banda de bacalhau da Terra Nova, coisa
desagradável, mas que acontecia na miséria do pobre e no costume
dos descuidistas.
Apesar do barulho do motor e da presença de gente bem
vestida no interior do veículo, Codá certamente tinha a sua alma
ainda vagando no dia todo de vozes desencontradas, quando uns
enfileirados pelos outros com as cabeças empurradas em turbantes
de pano grosso enrolado onde pousavam os sacos, ainda tinham
forças para contar tolices e potocas, falarem da vida alheia e da mãe
dos outros, dos chifrudos que por ali diziam existir e até contar
absurdos como aquele do trapicheiro que dera um salto dos zincos
para o mar e enfiara a cabeça na boca de um mero, trabalho dando
para tirá-la de dentro dele. Ou das redes do ··coronel" João Venuto
colocadas por baixo dos trapiches, recolhendo os peixes que
ficavam tontos e perdidos no madeirame confuso das estacas e de lá
não conseguiam sair, a não ser quando a maré seca os levasse.
Bombardeavam de impropérios os pares ou trincas de
empurradores que faziam os troles descerem suavemente mas com
firmeza pelos trilhos do trapiche, com vinte ou mais sacos, ou levá-
los de volta ao armazém, gente diferente que fazia mais força com
as pernas de que com o pescoço. /diante, havia também troca de
impropérios ao passarem pelos misturadores de mascavo e
demerara, formando as marcas de Açúcar Goulart Il, ou Açúcar
Napoleão, tipos finos de exportação. E agora terminara tudo
aquilo, mas restava voltar à calma do descanso e chegar em casa
para tomar um café com carne seca e esquecer o dia.
Pouco antes do Bar Gaivota, Codá, assim aturdido, puxou
demoradamente a campainha talvez pelo peso de sua mão
entumescida de tanto segurar ponta de saco. E disse em voz alta:
213
- Motorista! Pare aí que vai saltar um corno!
Como? como? aquela figura ridícula com dois chifres 1111
cabeça e cuja mulher costumava variar de preferência, foi a idéia
qu~ certamente passou pelas mentes dos passageiros. E mais, quem
sena o corno a saltar na parada?
Todos olhavam aquele homem volumoso e cheio de músculos,
pescoço redondo, grosso e embutido, crânio em forma de fruta-pão,
braços que se inclinavam para os lados impedidos de descer pela
musculatura do sovaco, parecendo o Capitão Marvel depois da
engorda.
Foi quando, feito o pagamento e recebido o troco o homem
, '
diante do silêncio geral e da estranheza dos passageiros, gritou
novamente, quase que saltando do veículo:
- Motorista. Tá bom. Agora leve pra casa o resto dos corno!
apontando com aquele dedo indicador volumoso para os fundos do
ônibus, percorrendo a audiência em frente.
E teve início o tumulto.
Vale lembrar que, logo que apareceram os ônibus concorrendo
com os bondes decadentes, misturou-se como numa gaiola toda
espécie de gente (talvez venha daí o apelido de "sopa") nem sempre
satisfeita com a promiscuidade que se formava. Era uma incômoda
experiênci~ nova e os pobres ficavam irritados com a esnobação
dos remediados, e estes com a irreverência, o mau cheiro e o
deboche dos desafortunados. E Codá era um deles, conhecido já por
algw1s passageiros pelo apelido de "Quebra Poste." E mais ainda,
Codá não era nenhuma figura rara em seu meio. Entre estivadores
e trapicheiros eram costume as piadas de mau gosto para a mente
de um remediado do trabalho maneiro, mas que para eles eram
apenas humor e manifestação de apreço. Uma das fixações
daqueles homens musculosos era com o vocábulo "corno" que
~razia um sentido jocoso nos repentes em público, sem que, para
isto, se des~jasse ofender alguém, talvez por uma razão psicológica
não percebida claramente: um chifrudo jamais poderia levar um
saco de açúcar na cabeça.
Foi por isso que, num dia de casamento na Igreja Nossa
Senhora Mãe do Povo, nada aconteceu a um estivador que, postado
11a porta e estando o noivo (filho de trapicheiro) prestes a entrar
21·t
para a cerimônia, gritou a plenos pulmões:
- Lá vai mais um corno assinar o livro!
------------------------------- ---------------------
Um raquítico e malvado que justificou o inferno.
José Paulino era um sargento de polícia, graduação para a qual
não se fazia exame escrito rigoroso, bastando ter uma certa prática
policial de prender, tomar conta de presos, fazer uma investigação
ou um registro de ocorrência ditado para um escrivão um tanto
mais instruído na língua de Camões.
Era um homem pequeno que teria de ficar nas pontas dos pés
para olhar por cima de um muro baixo. Magro, moreno claro, rosto
comprido, chato e fino, com olhos maiores da conta, um pouco
prognata, queixo pontudo para baixo passando pelo gogó de seu
pescoço longo como de um jaboti comendo folha de favela.
Quem não o conhecesse pelo qualificativo e o avistasse pela
primeira vez, certamente pensaria que fosse algum daqueles
engraxates subnutridos da Rua do Comércio. Mas era muito raro
quem não o conhecesse em Jaraguá e no Centro, porque estava
sempre presente com aquele jeito elétrico e nervoso,
invariavelmente levando um revólver pendurado na cintura da
mesma túnica apertada, e que nunca abotoava direito, feita com
nada mais do que um pedaço de cáqui cor de tijolo que emoldurava
o seu busto e ventre chatos, ao descer justa como se fosse uma
camisa de força, terminando como uma saia aberta por trás e na
frente, com o cano da arma surgindo do fim da cartucheira para
baixo, a ponto de quase atingir o seu joelho direito.
Um certo telegrafista jocoso, que freqüentava o escritório de
Dionísio Sobrinho na Sá e Albuquerque todas as tardes, disse que o
cinto de couro e o talabarte do sargento ficariam muito bem no
macaquinho "salamandra" que brincava por cima das barracas do
Mercado São José, e que seu quepe, sempre de lado, era a cópia
ampliada de uma chapuleta de jumento apontando para o céu.
Disseram que sua prática policial vinha da 1ª Delegacia da
Capital, que ficava entre a Farmácia do Ramos e a esquina, onde
exercia o papel de tirano no Beco da Lama e aprendera toda
215
espécie de cacoetes autoritários, um deles o de prender tanto a
namorada quanto o namorado que andassem depois das hove horlll
da noite nas ruas do Centro.
Conversando com ele, notava-se que considerava o submundo
dós prostíbulos um lugar tão maligno que, como dizia: "nenhuma
moça passava por lá pela noite", onde perambulavam as
"querencas" no vício mais abjeto do mundo.
Transferido para a Delegacia de Jaraguá, José Paulino deu para
prender casais que surpreendia no Beco da Facada, a tal ponto que
surgiu uma advertência entre as raparigas:
- Tira, querenca, o teu macho da encrenca.
Naquele clima de delírio cívico do Estado Novo, e prestigiado
pelo Delegado do Distrito, José Paulino desenvolveu uma técnica
de controlar os suspeitos na vida noturna de Jaraguá, através de um
passe provisório que assinava ele mesmo, autorizando o portador a
sair de casa depois do toque de recolher que o Delegado
determinava ou por ordem do Secretário do Interior, quando
julgasse ameaçada a ordem pública.
Era assim, escrito à mão num cartão de papel grosso:
PASSE PROVISÓRIO DE TRÂNSITO
~UTORIZADO O PORTADOR...( FULANO DE TAL)...
SAIR DE CASA DEPOIS DO RECOLHIMENTO E
TRANSITAR NAS RUAS ATÉ ÀS QUATRO, SOB PENA
DE PRISÃO SE NÃO PORTAR O DITO PASSE.
PORTE OBRIGATÓRIO. SELO DO ESTADO.
ASSINADO: JOSÉ PAlfLINO DA CONCEIÇÃO,
SARGENTO COMISSARIO DA 2a DELEGACIA DE
JARAGUÁ. -
Dizia-se também que na sua época de lªDelegacia, as casas do
Farol e os sobrados do Centro ficavam sempre de janelas e portas
abertas e que ladrão em Maceió só mesmo os que chegavam de fora
sem conheceram a fama do Sargento.
216
Curiosa diferença ele fazia entre um homicida e um hu.lrlo,
mesmo que este fosse um tímido desc~idista. Par~ os matadores, àH
vezes pistoleiros da maior periculos1dade, cadeia por ordem do
Meretíssimo Juiz; para estes larápios, além das grades por ~empo
indeterminado cachações, "telefones", "mastigado de alicate",
"fubafo de sat~az''," ver o mundo de cabeça pra baixo", "~~o
de bagre" e "acocha na tomada", termos que ele inventou e praticas
que foi aprimorando com a vida.
Certa vez ele trouxe preso um ventanista sergipano que caiu na
besteira de acender as luzes da casa em que furtava,.e o d~no do
imóvel, cristão piedoso e caritativo, segui~ com os d01s pedmdo ao
Sargento o tempo todo que não fosse o c01tado espan~ad,o. Mas: ~o
deixar a dupla entrar na lª Delegacia, resolveu tr a Farmacia
Globo de onde escutou um pedido de socorro no mesmo tom de
um ba~orinho apavorado sendo levado para longe da mãe..
Nas suas rondas diárias, ia abordando os desconhecidos e os
que queria desconhecer, com uma pergunta que fazia sempre no
mesmo tom de voz:
- Cadê o passe de trânsito ?
Mas, segundo disseram, protegia os entregadores de pão e
jornal que iniciavam ainda escuro a sua faina.
Tratando-se de crueldade, ele era um fiel executor das orde~
de seus superiores, como a de fazer um ladrão de lâm~a~as subir
num poste para restabelecer a iluminação, e do alto prec1p1tar-se no
chão. . . · b
É até bom que não se vá mais adiante nest.as ~1stonas s~ re o
homem que, de tão cruel, veio ao mundo para J.ust1ficar, ma~s uma
vez, que de fato existe o inferno para puntr os que viveram
maltratando os outros.
E assim, meu caro leitor, fico por aqui nessas histórias. do
Velho Jaraguá, pensando na marcha dos tempos, em como as c01sas
vão mudando enquanto a humanidade caminha. ,
No caso do sargento malvado confirma-se que, alem do
inferno, é aqui mesmo que o sujeito Pª?ª os ~eus pecados.
Terminou espetado pela quicé de uma rapariga da vida no Beco e
217
l
do M..
um talJº que estava zangada
. , . pa na cara de porque ele deu
invalido por seu amante .
mang d uns dez an . Ficou
a o pelos os até m
devido ao meninos do 0;1-: . orrer,
seu aspe t . ...zeiro que
sua arzn c o tisico e · · ·
apelido deª" pendurada, col a •magem de
macaco pistola". OCaram-lhe 0
BIBLIOGRAFIA:
.. Altavila, Jaime de; "História da Civilização das Alagoas",
Departamento Estadual de Cultura, Maceió, 1962.
- Barros, Theodir Augusto de; "O Processo de Mudança da Capital
(Alagoas - Maceió, Uma Abordagem Histórica, 1819- 1859)",
Departamento de História da UFAL, Maceió, 1995.
- Brandão, Moreno; "História de Alagoas", Til>ografia Penedo,
Penedo, 1909.
- Cascudo, Luiz da Câmara; "Geografia do Brasil Holandês",
Coleção Documentos Brasileiros, José Olympio Editora, Rio de
Janeiro,1956.
- Costa, Craveiro; "Maceió'', José Olympio Editora, Rio de Janeiro,
1939.
------, Craveiro; "A Emancipação Política de Alagoas" - Arquivo
Público de Alagoas, Maceió, 1969.
· Espíndola, Tomaz do Bomfun; "Geografia Alagoana ou
Descripção Phisica, Política e Histórica da Província de Alagoas",
Tipografia do Liberal, Maceió, 1871.
- Lima Junior, Felix; "Maceió de Outrora", Arquivo Público de
Al11KOas, Maceió, 1976.
-··-·--. Felix; "Memórias de Minha Rua", TELASA, Maceió, 1981.
- Rego, Pedro da Costa; Na Terra Natal ( 1924-1928 ), Imprensa
Oficial, Maceió, 1928.
219
wí e
l>A
VA
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CATÁLOGOS E ALMANAQUES:
- Cardoso, Álvaro (organizado por); "Album llustrado do Estado de
Alagoas''. Maceió, 1908.
- Costa, Craveiro e Torquato Cabral; "Indicador Geral do Estado do
Alagoas'', Typografia Comercial, Maceió, 1902.
- Dantas Filho, Francisco; "Almanach Literário Alagoano",
Tipografia Oriental, Maceió, sd.
- Departamento Estadual de Estatística; "Alagoas, 150 Anos, 1817-
1967", Maceió, sd.
- Ivo Jr, Floriano (coordenado por); "Anais de um Centenário",
Associação Comercial de Maceió, Maceió, 1967.
- Marroquim, Adalberto; "Terra das Alagoas'', Editora Maglione e
Strini, Roma, 1922.
- The South American Intelligence Co; "Os Estados Unidos do
Brasil, sua História, Seu Povo, Comércio, Indústria e Recursos",
Londres, Buenos Ayres, Rio de Janeiro, São Páulo, 1919.
REVISTAS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE
ALAGOAS:
- Alagoas em 1922 - "Estudo Histórico, Econômico, Político,
Literário, Artístico e Social'', 1955.
- "Centenário da Emancipação de Alagoas'', Instituto Histórico e
Arqueológico de Alagoas, 1919.
- Costa, Craveiro; "Maceió, Seu Desenvolvimento, I, O Povoado",
Instituto Histórico e Arqueológico de Alagoas, 1955.
- Oiticica, Jarbas; "Emancipação Política de Alagoas'', v. 41,
1986/87.
- Pereira, Moacir Soares; "O Litoral da Prov(ncia de Alagoas em
Roteiro Francês do Início do Século XIX", v. 41 , 1986/87.
DOCUMENTOS CARTOGRÁFICOS:
- Momay, Carlos; Planta da Povoação de Jaraguá, março de 1840,
Arq do THGA.
- Pinto, José da Silva; Planta da Vila de Maceió, 1820, mandada
fazer pelo Gov Mello e Póvoas, Arq IHGA.
220
Pmtugal, José Fernandes; Plano das Lluscud11H de .ln111~111·1 e
P11juçnra, 1803, Arq 11lGA.
lWLATÓRJOS APRESENTADOS PELOS ~RESIDENTES l>J
PROVÍNCIA DE ALAGOAS À ASSEMBLEIA LbGISLA l IY J
PROVINCIAL:
- Anos de 1857,1862,1864,1872,1875,1880,1881, 1886,1887, Arq
IHGA.
PERIÓDICOS:
- O Natal, de 1939 a 1945.
- O Bacurau, anos 1920
- Coleções de jornais do IHGA.
l
1
Quanto mais valerem o sol
quente e a terra úmida no
ocaso irreversível das jazidas
de combustível fóssU, os vivos
verão sair de Jaraguá navios
e dutos de álcool gigantescos,
enquanto levas de homens,
crianças e mulheres de nossos
descendentes partirão ricos e
sorridentes para visitaren1 a
extensão do planeta.,
O Autor.
'
"VlSTA DO AllCORWOURO DE JARAGUÁ",
(Trecho retocado) Muller Et Cluc Litb, Paris, 1869.
Arqv. lHGAL, Maceió.
•

Pedrosa histórias do velho jaraguá 2

  • 1.
    N.Cham. CE 981.35P3721J.' Autor: Pedrosa, José Femando de Maya. Ti~º H'iiH1~~1Hífn1 1452()6 Ac. 25348 8L' "1° Pat.:5S429
  • 2.
    HISTÓRIAS DO VELHOJARAGUÁ MACEIÓ, t 998
  • 3.
    Copyriglh @ .JoséFernando de Maya Pedrosa, Maceió, Alngons, Brasil. Catalogação na fonte Universidade Federal de Alagoas Biblioteca Central Divisão de Tratamento Técnico P 372h Pedrosa, José Fernando de Maya Histórias do Velho Jaraguá/ José Fernando de Maya Pedrosa. Maceió, 1998. 221p.: il. Bibliografiia: p. 219- 221. 1. Jaraguá (Maceió, AL) - História. 2.Jaraguã (Maceió, AL) -Vida e costumes sociais. 1. Título. CDU: 981 .35 Revisão: Astréa Romero Bandeira de Mello Pedrosa, Teíta. Composição: José Fernando de Maya Pedrosa. Capa do próprio autor. Impressão: GRÁFICA E EDITORA TALENTO Rua João Nogueira, 37 - Farol - Maceió-AI. - 1998 Impresso no Brasil Printed in Brazil Em Jaraguá, arde a eternidade. De "Jaraguá", poesia de Rasalvo Acioli Jr. Bairro boêmio de casas e lendas antigas Quando derrubam uma de suas casas Não caem apenas as paredes, caem também Histórias de amor e bonitas cantigas. Marcos Vinícios. médico e poeta Na parede da Só e Albuquerque. 726.
  • 4.
    DEDICATÓRIA: Dedico este livroà memória de Félix Lima Júnior, cuja 1•11deira no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas tive a honra de ocupar. Queira Deus que ele, de onde se encontra, me perdoe a nudácia de sair do rigorismo que me ensinou no trato com a trndição, e ter feito dela também motivo de devaneio. Quando o destino nos colocar de novo um diante do outro, cu lhe perguntarei: - Por acaso, meu caro professor e amigo de tantos encontros, para atrair o leitor, não farias agora o mesmo? PALAVRAS DE UM FILHO: F.stimado Pedrosa. Saudações à Teíta. Antes e durante a Semana Santa, debrucei-me sobre o original de seu livro, 11w1 mtnte que à página quatro existe uma dedicatória a uma pessoa que sempre t~lrH romigo e, ainda hoje, ele e "My Lord" , o nosso Deus, se debruçam sobre mim, "" 1111oltecer. No deserto de desatenções e esquecimentos que o colunismo literário derrama ~uh1t 11 obra dele - "x" livros sobre a nossa Maceió e o Estado, escritos por Félix - a•t1ll' 11 0tus que surge essa dedicatória. lo;lr no~ espera e a todos, mas será grato ao Maya Pedrosa. você, José Fernando, 11111 "'~" presente sincero, limpo, de dentro d'alma, sem espera de rttompensas. Luiz Fernando Oiticica Lima. 04 de maio de 1998. A<~ RADECIMENTOS: M 111l11h11 esposa Teíta, revisora e orientadora deste livro; 1111a que me estimularam e deram apoio nas pesquisas, na rcdaçã·o e edição do tli~IO 1>11111tl11s Aprlltto Tenórío e sua esposa Ivone, Ednor Valente Bittencourt, Luíz 1"'10111111h 11 llart'OR, lb Gatto Falci'ío, Franklin Casado de Lima, Jaime de Altavilla 1llhu, lll'rlíHrdlno Nogueira Lima, Paulo Mascarenhas, Laelson Moreira de Oliveira, lctl111 W. Uuyers Jr, Helena Cristina Pimentel do Vale, Antônio Ricardo de N1mes 1•lt•, Mant•lh1 C'1uado de Lima; • "" a116nhno~ popuJ11res que depuseram suas histórias e contaram tradições do h•lrro, dtnlrc- o• quais destaco todo o pessoal do Sindicato dos Estivadores d' Ala1ua• e .Jo~I c;omta lo'llho, o "Deca", proprietbio da Barbearia Jara&uá, t atu aml10 l'tdru Alvt~ dt Araujo.
  • 5.
    .. ' SlJMAl~IO: • Ao l,,eifor.7 .. Primeira Parte: O PRINCÍPIO. 11 Apresentação de Luiz Nogueira Barros. 13 lJ111 navegador cansado que nada viu ou não quis registrar. 17 Como a ambição de riqueza fez um pioneiro. 19 nc um diário de viagem e das suposições lógicas. 21 • Qunndo um mapa mostra mais do que mil palavras. 23 • Um governador fora do tempo deixa a sua marca. 28 • Qunndo Jaraguá não era mais um simples arruado. 37 • Vinte e oito anos em preto e branco. 43 • A revolução industrial chega em Jaraguá. 54 . egunda Parte: O AMBIENTE. 63 Apresentação de Douglas Apratto Tenório. 65 ·Como as doenças e os esgotos andavam juntos. 69 Cento e cinqüenta anos de uma obra feia escoando riqueza. 71 Como uma obra serve ao riso e ao choro. 85 Aquelas saudosas máquinas de levar gente. 88 O fim de um veículo antigo e o surgimento de um novo. 91 · Dn loita na Rede e de como assinavam carteira. 93 ·Como se entrava ná Rede e lá se passava uma vida. 97 • Os ruídos também fazem memórias. 100 - Como a propaganda vira uma piada. 105 - O choro do rico e do pobre em Jaraguá. 108 - A visão de um padre jovem sobre o namoro. 110 - A natureza mostra a pequenez do homem e de suas obras. 111 - Como a fúria popular deu em genocídio na igreja. 118 - Os urubus na pena dos críticos. 122 - Quando um casal de gansos evitou uma tragédia política. 125 - Um barco diferente chamado Wanda. 133 - Aqui chegaram e daqui se foram os guerreiros do Sul. 135 5
  • 6.
    ,. -Terceira Parte: OHOMEM. 139 Apresentação de Ednor Valente Bittencourt. 140 - Um garoto efeminado e um pai intolerante. 145 - A ironia de um alemão e a ingenuidade de um exportador. 147 - Quando um governador quis ser gentil e se deu mal. 149 - Como se passa da infeliz expectativa para a cruel desventura.155 - Confusão na mente de um rico simplório. 157 - Onde o sexo e a imundície conviviam. 158 - Como se erradicou a venérea em Alagoas. 162 - O ardil de uma prostituta e dois policiais pusilânimes. 166 - Um seixeiro safado e uma prostituta de prestígio. 167 - O anjo da guarda salva um mancebo da síflis. 170 - Como uma rapariga da vida venceu a parada. 171 - Uma obscura mulher tem o seu dia de glória. 172 - A comovente história de uma injustiça não reparada. 175 - Do alto caiu um dançarino famoso. 177 - Um sujeito que acordou pensando que estava morto. 179 - Um jovem sonhador passa do deleite ao pesadelo. 181 - Quando o piso de um prostíbulo era o teto de um negócio. 185 - Um marinheiro que desembarcou e venceu. 187 - Um homem que correu da injustiça e nela foi morto. 189 - Uma pessoa feliz na ignorância e na espontaneidade. 193 - Um ingênuo ambicioso fez um delegado rir por dentro. 196 - Um inglês celibatário e excêntrico que ficou na lembrança do povo. 198 - Retrato de um homem cansado de trabalhar em vão. 202 - Como a força física fez uma fama. 205 - A mentira no "black-out". 210 - Um trapicheii:-o atordoado fez o que não devia. 212 - Um raquítico e malvado que justificou o inferno. 215 BIBLIOGRAFIA. 219 6 AO LEITOR O meu caro leitor saiba que não tive a intenção de escrever a 1la~tória de Jaraguá. Na verdade, o fato de se tomar conhecimento, um pouco mais que fosse, do povo desse bairro antigo foi para mim 111nis importante do que uma segura e fria descrição dos ucontccimentos à luz das estatísticas e documentos. Além disso, ll•vci também em conta que as informações das testemunhas e p1otagonistas da vida local estariam sujeitas ao definitivo desoparecimento se não fossem colhidas em tempo, e que, se perdidas, mais uma vez teríamos de viver na escuridão sobre nossa 1h n humanidade. Usei como principais fontes de pesquisa a tradição oral, 111111u1scritos. revistas e jornais, em especial ·'o Bacurau'', editado c111 J,1rnguá por Lafayctte Pacheco e dedicado à sátira e à crítica 11i.::i11l na década dos anos vinte e a revista '~O ~atai", editada 11111111lmcnte, de 1939 a 1945, o mais interessante repositório da vida 11l'i11I cm Alagoas. C~nsultei também livros de mestres cronistas t1111m Félix Lima Júnior, Ednor Valente Bittencourt, Floriano Ivo l1111u11 . seu irmão romancista Ledo Ivo e outros. 1p1uvcitando estes escritos e depoimentos. aprendi a formular ~h 1111!.t11ncias para emoldurar e movimentar as narrativas, de 1 111d11 mm o espírito da época. 1hs1111, apesar das histórias deste livro estarem longe da ficção, pc11q1tl' penso que são autênticas no essencial, resolvi desprender- ""' 11d11s do rigorismo tão necessário ao historiador para chegar 111111.. perto da vida e construir um cenário onde a alma das pessoas 111 p110,t.' 111Uis luminosa, numa narrativa intere5sante. · Al11111I de contas, como sempre acontece com quem trabalha l:lllll 11 trndição oral, quando eu escutava dois ou três depoimentos Nohrc um fnto, ou um personagem qualquer de Jaraguá, nunca 11._n111ruv11 uma narrativa igual a outra, o que me deu certa. llhcHtndc de formular a minha própria versão e de dar-lhe um 7
  • 7.
    colorido atraente eo mais circunstanciado possível, mantendo, no entanto, o cuidado em não desvirtuar o sentido das histórias. De tanto ouvir e pensar no que era Jaraguá antigo, o que fiz d~ante' três anos, além de ter vivido minha juventude no barrr~ (arrabalde Pajuçara, ali no início da Rua do Araçá), onde tambem trabalharam meu pai Paulo Pedrosa fabricando mosaicos e meu avô matemo Alfredo de Maya administrando açúcar e finanças, acabei por assimilar a maneira de ser e de falar das pessoas, assim como as coisas que eram possíveis de acontecer. Sabemos todos também que boa dose de cores e contornos das ~istó:ias ~uardadas na memória do povo são em parte produto da 1magmaçao, naquele processo que não se pode desprezar porque tem profunda identidade com a própria alma alagoana, no ambiente cultural que ainda hoje nos motiva. É preciso que o leitor leve em conta ainda que o popular alagoano é muito crítico, irreverente e jocoso, principalmente quando quer rir dos outros e de suas próprias desventuras e atropelos. Para isso cria, improvisa, aumenta ou diminui o que lhe parece conveniente numa história, é capaz de esconder aspecto negativo quando gosta da pessoa focalizada ou , ' exagera-lo quando não lhe tem simpatia, inventar coisas ruins quando dela guarda rancor, e tudo isso tem que ser levado em conta, na medida em que as históriasJescoarem pela sua crítica. É possível até que uma dúzia ou mais dessas histórias tenham como ponto de origem o anedotário popular transportado para o cotidiano do imaginário, e que, portanto, algumas delas não tenham acontecido de fato. Mesmo assim, considerei que deveria contá-las, porque mostrariam a mente e a cultura do povo de Jaraguá, e 0 que era capaz de pensar e produzir. Foi despoTltando, no correr das pesquisas, urna maior fixação nas histórias de tipos e situações populares do que de pessoas no tope da pirâmide social. Observei que seria dificil contar histórias de homens importantes porque notei, nos seus descendentes, uma certa reserva e reticência, certamente menos por razões morais do que pelo formalismo da família alagoana de elite, trancada exclusivista e um tanto vaidosa. Ao contrário, a memória social do~ humildes é muitas vezes mais aberta em colorido e formas talvez 8 ' divido A !iimplicidudc e à informalidade do nosso povo, 11011111 u11t.1u1ia menos impregnada pelas influências intelectuais e culturnil'i Llo c1ttr1111gciro. Mas reconheço que o progresso do bairro se deve ao fot~o e t competência de pessoas que lideraram Jaraguá. Eram l111111c:11~ KCtnlmente honestos e voltados de corpo e alma para o 111111ccmtimcnto, seja industrial, seja comercial, seja na área dos li 1 vi~o!'i ou atividades liberais, cujos nomes marcaram a vida do 1)111110 ncflte século que vai passando, e que formaram cepas de ltu11U111!t 11nportantes: Teixeira Basto, Leão, Goulart, Pereira, Paiva, t•r11wto, Nunes Leite, Maia Gomes, Gracindo, Lins, Lima, Mndmdu, Lages, Wanderley, Lavenere, Wuckerer, Lyra, l lt111111ullcs. Simões, Fortes, Carnaúba, Pedrosa, Mascarenhas, 1npcs, Clama, Ferreira Fernandes, Mello, Galvão. Maya, Omena, H1111111mto, Morais Cabral. Loureiro Barbosa, Rosa Oiticica, Pádua, Vlt'll nncclos, Pacheco, Azevedo e outros mais, inclusive ' 111111l(c1ros que por aqui trabalharam com muito vigor. Pnru emoldurar o bairro no início deste século, onde se l!t1t11.:c11trum as histórias do cotidiano ("O Ambiente" e "O ll11111cm"), resolvi escrever primeiro sobre um passado mais 1c11ioto, para que o leitor conhecesse as origens e a evolução de lr11nsu11. fambém nesta primeira parte ("O Princípio") não tive a p1clc!m1no de ser completo senão a de dar uma idéia ao leitor do c 11fü 10 cm que vai transitar para reviver as histórias seguintes. E h1tul11 espero a compreensão de todos para que passem por esta p111ll' Inicial sem se cansarem porque, em seguida, o texto se tomará 111111 vc1 mais interessante naquilo que diz respeito à vida do !mino nos tempos recentes. Até mesmo não sei ao certo o motivo il'-'tilll primeira parte do livro ser tão diferente das outras. Talvez eoi11 porque tenha morrido com o tempo a tradição oral dos p111nciros séculos de Jaraguá, enquanto que, de época mais recente, 11111tla se guarda a sua memória viva e, portanto, mais atraente. No que se refere à forma, abandonei as referências de pé de p(1~im1 ma bibliográficas para apresentar um texto leve e fora de qunlqucr limitação, em crônicas organizadas de acordo com os 1111s1111tos a que se referissem. Quem o desejar que verifique a l11hliografia consultada para ir mais fundo no assunto. 9
  • 8.
    .. Algumas crônicas destelivro já foram publicadas no jornal "O Diário" (hoje lamentavelmente fora de circulação), por especial deferência de meu amigo Eduardo Davino, o que muito me estimulou a seguir em frente na idéia de publicá-las em forma de livro. É fácil imaginar como seria interessante narrar também os acontecimentos de Jaraguá e seus personagens durante as epidemias, quando a Alfândega se transformou em hospital, os choques entre marinheiros, policiais, soldados e populares no meretrício, a passagem meteórica da Segunda Guerra trazendo gente de fora, americanos, paulistas, pernambucanos, a Festa de Bom Jesus dos Navegantes na Praça da Recebedoria e nas procissões marítimas pela enseada, os hábitos de uma elite social que regula.va a riqueza e exercia o poder, as. manifestações dos habitantes do Poço e Pajuçara, as festas de São João na Estrada Nova, os bailes da Fênix e no Tênis, o que se falava na sucursal da DIVA - Departamento de Investigação da Vida Alheia, no escritório de Dionísio Sobrinho na Sá e Albuquerque, bem em frente da Associação Comercial, os fatos da construção do Porto pela Geobra, as coisas que fazia ou mandava fazer o Delegado Eurico Ayres, as histórias do comerciante Sebastião Sabararu, as incríveis façanhas sociais do Mosso1ó, do Codá e tantos outros momentos de convivência entre os habitantes do bairro e os forasteiros que eram muitos. Mas nem sempre as páginas de um livro podem contar tudo e, por isso, reconheço que fiquei muito longe de esgotar o assunto porque Jaraguá social era wn mundo complexo e vasto, não podendo exaurir-se em duas ou três centenas de páginas. Quem quiser que aprofunde o tema, mas certo de que nunca chegará a esgotá-lo. No momento tudo parece oportuno, já que dois prefeitos seguidos - Ronaldo Lessa e Kátia Bom - estão cuidando de limpar e revitalizar o bairro, tomando-o a sala de visitas de Maceió, justamente onde a cidade deitava o seu lixo e boa parte de sua humanidade vivia no abandono e na luxúria. Ao leitor muito obrigado pela atenção, e boa viagem pelo tempo do Velho Jaraguá. JF Maya Pedrosa. 10 l'l'iml'int Parte: O PRINCÍPIC). Doado a casa que Manoel Antônio Duro construiu em Ju1gu , por volta de 1609, andaram trezentos e oitenta íl v no . Foi quando o calendário teceu a Historia d .,_Alrro om três etapas: o surgimento de Maceió que dilam no início do Século XVIII, a marcante Administração do Governador Póvoas, entre 1819 e 1822, o finalmente a arrancada que a Revolução lnllll triai promoveu aqui a partir da segundâ metade do 1 culo passado, criando trapiches e sobrados, furrovias e guindastes, navegação a vapor e depois os ho11dos olétricos. Y,ieram as ~yerras Mundiais e a onatruçao do Porto que marcaram uma mudança r~dlcal em quase tudo que havia em Jaraguá. Podemos dizer também que estamos numa outra tipa dessa evolução quando a Prefeitura de Maceió Iniciou a restauração do bairro. No mais, é só sentir doravante a metamorfose que o tempo imprimirá nesta •11toada portuária e comercial. Quanto mais valerem o sol quente e a terra úmrda no ooaao Irreversível das jazidas de combustível fóssil, os Vivos verao sair de Jaraguá navios e dutos de álcool gigantescos, enquanto levas de homens, crianças e mulhoros de nossos descendentes partirão ricos e 1urrldontes para visitarem a extensão do planeta. 11
  • 9.
    APRESENTAÇÃO DA PRIMEIRAPARTE: Maya Pedrosa não é noviço em matéria de produção cultural, literária e histórica: já nos deu "A Saga do Barcaceiro", tomando- se, portanto, em Alagoas, outro escritor ligado ao ciclo das águas, com seus personagens. Antes Octávio Brandão Rego nos havia escrito "Canais e Lagoas". E antes dos dois os escritores alagoanos estão muito mais com os pés fincados na terra. Agora sua saga é dirigida para Jaraguá (também com suas óguas), abordando o bucólico, o folclórico e os dados históricos possíveis, coligidos entre antigas documentações ainda existentes, numa recomposição que inclui tanto os elementos de natureza ílsico-geográficos, como arquitetônicos, comerciais, religiosos, jdcológicos e tantos outros que vão se descortinando à nossa leitura. Trata-se de uma viagem no tempo. As novas gerações hão de -ic deleitar ao saberem que Pajuçara teria uma ponte para ligar-se cnm o Cais do Porto. E que, em lugar dela, a região foi aterrada cm prejuízo do fluxo das águas do mar provocando ~rutal ll:Ol'eamento. Vai, outrossim, ficar sabendo que a orla marítima t111ha três segmentos: o primeiro, que vinha de Pajuçara e ' ' 1minava mais ou menos à altura do Museu da Imagem e do Som, 111nis apropriadamente conhecido como Ponta de Jaraguá; o ·~·~undo, que ia daí até o início da atual Avenida da Paz; e o h'rcciro, que constituía a Avenida da Paz com término onde hoje se i.tt11a a Praça Sinimbu, onde existia uma ponte fazendo a ligação t: Olll o centro da cidade. Na Primeira Parte o leitor vai localizar o Forte (Bateria) de São Pl·dro, o Armazém Real e, provavelmente, a Escola de Aprendizes 11l•Marinheiro, além, claro, de uma fábrica de sabão, da firma Basto M11chado & Cia. Para as gerações que não sabem o que significa 11111 trapiche, jamais ouviram falar numa sumaca e outros tantos l1pos de embarcações, o livro de Maya Pedrosa além de 111nstrnr tais embarcações, com alguns desenhos, lega
  • 10.
    aos leitores noçõesda atividade comercial, mormente da atividade açucareira, fumageira, madeireira e algodoeira, por mais volumosas e importantes na época. Algumas coisas vão ficando claras na obra: por exemplo, a imensa participação da burguesia nascente, com seu faro l?Mª-º desenvolvimento, na edificação do bairro, da vila e, claro, depois, da cidade. A ideologia historiográfica de dominação, do processo colonizatório, também vai ficando bem definida, baseada em três componentes fundamentais: a defesa, a exploração econômica e a atividade religiosa, interligadas, indissolúveis, uma trindade da Coroa Portuguesa. E em tomo da trindade vão surgindo os bancos, a via férrea, a estação telegráfica, os jornais, o porto, o farol que orienta os navios, os prédios governamentais, o telefone, a energia elétrica, as igrejas, etc ... etc, compondo uma retaguarda logística. Para quem se detiver na leitura .os engenhos e as usinas de açúcar estão mais ou menos enumerados na obra do escritor, dispensando aqui citações de nomes uma vez que nossa intenção não é fazer um relatório, mas enunciar a intenção do livro. Despreocupado, nesta simples apresentação, de datas, nomes de personagens e números, com que o leitor irá se defrontar, prefiro a viagem sobre wn passado raramente tratado de tal modo, corno faz Maya Pedrosa, ao constatar que um desenho panorâmico de Maceió, feito pelos ingleses, tem forte preocupação de natureza comercial, notificando mais os pontos de interesse financeiro, enquanto o dos franceses (mais românticos) salienta alguns aspectos da beleza local, como se o "cartão postal" também tivesse atrativo para os negócios, prefiguração, diríamos, do que hoje faz a atividade turística. Vale a pena saber que Américo Vespúcio, num dos três navios da Expedição Manuelina de 1501, costeou Maceió (provavelmente durante a noite ), embora seu relatório, por sono ou preguiça, ou até por ter pvaliado mal o potencial da região e também por não ter podido desenhar seus contornos, não faça registros sobre essa passagem. Na leitura alguns personagem famosos aportam em Maceió, como o General Labatut, a serviço do Imperador, para combater o General Madeira, que se insubordinara contra as ordens reais. 14 E então Maya Pedrosa vai desfiando o fio do novelo que nos 'onduz à certeza de que em Maceió foram construídas fragatas, e drlns. algumas incorporadas à Marinha Brasileira, e que um dos uh11.;tivos do General Madeira era contra a novel atividade de 11111strução de embarcações de grande porte, capazes até de .11 ividade militar, guerreira, portanto. Os primeiros governadores provincianos, sobretudo Melo l'nvoas, primeiro edificador da futura cidade, merecem trânsito 1.;·.pccial por dentro da história alagoana. Aos poucos vamos vendo o mecanismo dos preços e dos juros que interferiam no mercado nascente. O ano de 1902 tem marcas 111tlcléveis: a moda experimenta muitas novidades; as companhias dl• navegação se multiplicam; cresce a presença de navios, que, já 1·111 1671, em número de 64 saíram carregados de nosso porto e 1 hcgaram a 1.479 entre 1901 e 1902, entre estrangeiros e nacionais. Noutro momento o leitor ficará sabendo que o atual Museu da 1111.1gcm e do Som foi a antiga Recebedoria, que ali numa das pontes de trapichc desembarcou Dom Pedro fl, em visita a Alagoas, 11pmtunidade na qual inaugurou a nossa Igreja Matriz, a Catedral de M.1ceió. A leitura da obra também nos vai permitindo compreender pu1 que Jaraguá foi se tornando, por ser um ancoradouro mais .1·µ11ro. ponto comercial de alto interesse econômico, a ponto de 111111ar espaço da Praia do Francês e das lagoas situadas ao sul, 111111rn das quais está Marechal Deodoro - primeira capital da 1'1 uvíncia. Outrossim porque os sentimentos separatistas levaram à 1H:'-cssidade de emancipação de Alagoas de Pernambuco. A leitura do livro de Maya Pedrosa tanto poderá ser feita por l'"l1 uturas, por pa11es, pelo leitor que está preocupado com datas, l ui11 pcdagogias históricas, como pelo leitor comum, numa leitura l lllcidoscópica, capaz de provocar saudades, montando p~rinhas lllll pedrinhas e deleitando-se na fantasia que o tema oferece, l'lllbora lastreado em realidades históricas. Lido numa varanda "oprnda por ventos suaves o livro remonta ao passado, recompõe a -..1g:1 e a poesia de uma cidade que foi emergindo da terra e das i1g11as, uma época capaz de dcspc11ar os poetas, os cronistas e os pi11tt>1L'S, lal o seu efeito hipnótico sohrc o leitor.
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    O livro, finalmente,preencherá um espaço ainda não tentado por outro escritor: a fantasia que corre sobre os trilhos de uma realidade histórica que um dia estruturou wna cidade - Maceió - para os tempos futuros ... 16 Luiz Nogueira Barros, médico, cronista e sócio efetivo do IHGA. ........_____________________________________________________________________________ Um navegador cansado que nada viu ou não quis t l'gistrar. Américo Vespúcio navegou ao largo da Ponta de Jaraguá num lh'' três navios da Expedição Manuelina de 1501. tão próximo que ll h0 110 visto. A frota zarpou no dia 29 de setembro, depois de uma semana 1111 Morros de Camaragibe, tomando possivelmente o rumo 11111K11ético de 250 graus para seguir a costa sem dela se afastar 11111110, com a proa ao largo de duas saliências de terra que os índios Utl'tês chamavam de loçara e Jaraguá. Se naquele dia os ventos eram favoráveis, como dizem o 111ndcrno Roteiro do Litoral Leste e a Carta-Piloto da Marinha para " 111ês de setembro, a frota andou o suficiente para avistar no ltc1111onte aquela nesga de terra quase perpendicular ao seu rumo, 1111111 perfil baixo, coberta de vegetação nativa e infletindo a costa p1111 sudeste. Era um areal discretamente dourado com capim 1111lµndo, cajueiros brabos, palmeiras delgadas, trepadeiras, muricis • l'·'lllfllS, avançando de mar a dentro. Vcspúcj9 era_Q_Çoill!.Qg_rafo da expedição (uma mi~tura de li 1hgt1dor, geógrafo e escriba) e, por certo, devia ser alertado sobr.e ll1j11l'l.1s pontas que, embora menos marcantes do que as m:onlradas desde o Cabo do Calcanhar, deviam merecer registro. I• de nada escreveu sobre elas em suas famosas ''letteras" e nos 11•g10.,lros de navegação. Por quê? l'nlvez por ter zarpado em hora avançada do dia, passando ao 1111 f.1º de Jaraguá durante a noite. afastado o suficiente para que .1q11~·las terras baixas tenham sido confundidas com os tabuleiros qm• acompanham a costa desde Pernambuco, naquela perspectiva til• quem navega suficientemente longe da costa (digamos, dez 11tllhns), jú iniciando o "alagamento" da faixa praieira do litoral, a p11111cirn u desaparecer no horizonte terrestre. 'i: pussivcl tnmbém que niio tenha dado importância ao acidente gc11g1úlico porque desfilava numa longa costa e não tinha p01 11111111:1 assinalar ludo, e sim os pontos proeminentes 011 •8,11ilk,1tiv11s parn 111111wgaç o,
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    Viria a assinalara foz do Rio São Francisco, o primeiro acidente da costa desde Morros de Camaragibe, segundo sua percepção. O fundeio de Camaragibe ou Enseada de São Migue], trinta milhas ao norte de Jaraguá, seria utilizado para aguada e descanso em apoio aos navegantes de mais de cem anos depois, em mar abrigado, boa água de beber. Ou Vespúcio não assinalou Jaraguá porque estava tão fatigadÓ que não desejou "dar mais detalhes a respeito da navegação efetuada" como alude Moacyr Soares Pereira em "A Navegação de 1501 ao Brasil e Américo Vespúcio'·, e nosso futuro porto foi ficando para depois. Apesar da omissão do grande cosmógrafo, a Ponta de Jaraguá seria vista por outros navegadores e assinalada no "Tratado Descritivo do Brasil", de 1587, por Gabriel Soares e Souza, assim: "... o Rio da Alagoa (canais lacustres da Manguaba e da Mundau ou do Norte) onde também entram caraveJões, o qual se diz da Alagoa, que nasce de uma que está afastada da costa, o qual rio chamam os índios o porto de Jaraguá". Na visão espacial do caeté, a Enseada de Jaraguá estava ligada ao Rio das Alagoas, porque as anfractuosidades do terreno em volta das águas onde viviam eram por eles relacionadas de perto. Se os índios chamavam Jaraguá de um porto era porque ele já era usado para o tráfego com os europeus, precisamente os franceses, que por aqui passavam desde o início do século. Eram os mesmos que Dom Rodrigues D'Acufia avistou em 1526 quando deu na Praia do Pontal de Coruripe, náufrago, depois que sua nau rSão Gabriel" foi ao fundo. E, como se sabe, lá encontrou dois navios franceses embarcando p~u-J?rasil. Estão aí os primórdios da vocação de Jaraguá como porto, onde podemos imaginar os_@ arrastando os troncos de ibirapitanga até a beira da praia, ao lado de batelões a remo que os levavam aos navios, tudo isto bem ali onde está a Associação Comercial. É uma bela coincidência para início de uma História de intercâmbio e navegação. 18 -----·--- orno a ambição de riqueza fez um pioneiro. Certamente a fortuna perambulava na cabeça de Manuel ntônio Duro quando, por volta de 1609, construiu uma casa de 11julo e telha na Ponta de Jaraguá, local jnteiramcnte desabitado, 11cg11ndo Craveiro Costa "longe das vistas dos dizimeiros ávidos, oferecendo aos produtores maiores compensações" . Ele estava informado de que o local fora antes utilizado pelos l11dios para o comércio, o que faziam também um pouco ao sul, 1111ma praia que chamavam de Porto Novo dos Franceses. e no Pontal de Coruripe, visitado pelos mesmos mercadores. O Porto Novo dos Franceses era então freqüentado pelos ltscais de Sua Majestade o Rei de Portugal, numa incômoda presença, e que moravam em Santa Maria Madalena de. Alagoa do Sul ou em Santa Luzia do Norte, Potto Calvo, Penedo, onde se formava uma sociedade canavieira e administrativa. Em· Jaraguá. pelo contrário, as autoridades não chegavam. penas havia por lá uma vegetação rala e 1.Jrejos dificultando as lt~ações e distraindo para outras bandas as autoridades fiscais. ( ..,. Como cada época é uma época. naqueles anos distantes as ) p1aias não pareciam atrativa.~.-e nelas não se encontra:a beleza 11lguma nem refrigério. Ao contrário, as pessoas se fixavam mais 110 interior, em busca de terra·s doces e férteis do massapê para o plantio da cana, numa paisagem mais verde e fresca,_amplas matas <' córr~g.Qs limpos. E fixavam-se em Po1to Calvo, Penedo, Santa Madalena e Santa Luzia, em tomo dos engenhos e fazendas por ali l'Spalhados. Por tudo isso, não teria Manoel Antônio Duro a menor i11tenção de plantar cana-de-açúcar e montar engenho em terra 1mlgada, arenosa e pouco fértil, onde tudo pelas redondezas era lc11na de mangue ou dunas baixas que represavam as águas da chuva ou descidas do tabuleiro, elevações discretas recobertas de capoeira baixa e feia. Boa água doce não havia para abastecer de todo um engenho. Mas lá estava a casa, cc1tamente.cercada por umas poucas choças de palha~ imaginemos (pelas distâncias antes 19
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    ... na escritura dasesmaria) próxima do início da Enseada de Ioçara, de onde se podia ver o horizonte desde o nordeste até o sudoeste, sabendo-se logo dali qualquer aproximação de um veleiro no horizonte. Conforme foi percebido pelos índios e pelos traficantes franceses, por trás desta língua de terra - a Ponta de Jaraguá - havia águas tranqüilas a sotavento, oferecendo excelentes condições para abicagem de botes e pequenas chalupas, até jangadas para carga e descarga de mercadorias e gente durante quase todos os meses do ano, menos no inverno, quando os ventos sopravam do sul e as ondas chegavam perigosas na praia. Não se temia mais o gentio caeté, dizimado ou fugido para lugares distantes na campanha contra eles movida pela Coroa há cinqüenta anos, em represália pelo banquete, segundo alegavam, do Bispo Sardinha e de uma centena de passageiros e tripulantes do "Nossa Senhora D'Ajuda," no ano fatídico de 1556. Quem viria a Jaraguá para saquear Manoel Antônio Duro? Desde o início do século anterior que os bretões visitantes eram de boa paz e sempre chegavam falando em negócios, quase nunca em guerras e tropelias próprias da política, mostrando-se amigos e até merecendo confiança, com a vantagem de não desejarem montar estabelecimento algum em terra. -i!> Mas, se era mercantil a intenção de Manoel Duro, como tudo indica, deparou-se ele com uma séria dificuldade de ordem financeira que o levaria ao desastre. A sesmaria que recebera de Diogo Soares da Cunha, sesmeiro maior na área desde 1591, era, segundo sua escritura de 1611, para ser cultivada, povoada e construída no espaço de um ano, o que tomou o homem por certo descumpridor de seu contrato. E foi forçado ou mesmo quis passar a sesmaria para Apolinário Fernandes Padilha e possivelmente tenha-se retirado para Santa Luzia do Norte, onde há reg.istros de sua existência já muito velho. Por duas coisas Manoel Duro ficou na História: foi o padrinho de batismo de Do~ingos Calabar e construiu aquela casa na beira da praia, longe da "tristeza esmagadora da solidão ambiente" ~o "deserto cabralino", no dizer de Craveiro Costa quando se refena Aos interiores. 20 t..Jc não deixara semente para o futuro. Tudo morreu em fo111v.11á por muitos anos depois daquela casa de alvenaria em cuja 11.111da se podia ver o tabuleiro próximo descendo em degraus para 11 l.11.Jos da Lagoa do Norte. Ninguém imaginara que, mais tarde 11111 século, teria início ali o povoamento da região, o Engenho ~l.1tció e a Capela de São Gonçalo, depois a de Nossa Senhora dos l'1.11cres e finalmente a Catedral. E que a expansão deste núcleo h1.1 finalmente valorizar o porto que fora seu, onde construiu a 1111111cira casa do bairro, pensando nas exportações e importações 1, t111ação maior de Jaraguá até hoje c uma das razões da existência d1 110-;sa cidade capital. ···-~--------------------------------------------------------------------------- l>t' um diário de viagem e das suposições lógicas. No distante ano de 1640, uma tropa de reconhecimento l111l,111desa percorreu a pé toda esta costa fazendo anotações da 1·rngrafia ao alcance dos olhos. Era seu comandante um capitão , 11mluzindo uns poucos soldados e índios aliados. Pode ser que tenham feito algum relatório secreto sobre o valor 111iht.tr de cada acidente do terreno que influísse numa operação de r111. Ira ao longo das praias: ancoradouros, elevações dominantes, 1'l ursos locais. passagens d~ rio, pontos de desembarque. Mas as 11111tações que foram do conhecimento geral mais parecem as de um ~1111clor de imóveis bisbilhotando detalhes que servissem para lll'~úc.:io de compra e arrendamento, desde Olinda até Penedo. Os papéis cuidadosamente escritos levaram o selo do Arquivo 1'111ticular de Sua .Majestade o Rei da Holanda e continham três d11dos simples: local, tempo de percurso e observações julgadas de 111i1idade geral. Nas andanças desde Olinda, depois de passarem em Po110 C'uivo (segundo Moacyr Soares Pereira, Barra Grande), chegaram ''° Rio Mangaguaba (Manguaba, Porto de Pedras) tendo sido 111wtado assim: "Vadeia-se de baixa-mar por uma ponte ." Adiante: "Rio Tatuaimunha : uma hora e meia do Rio Mocabita", onde anotaram: "Vadeia-se". Passaram pelo Engenho Novo de Camury, pelo Engenho do Espírito Santo, pelo 21
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    Engenho de SãoJoão, e finalmente pelo Camugi (ou Camaragibe) com "água potável em um vale. Do outro lado de um monte, chamado de Limão, onde há água à mão direita e mato a um tiro de mosquete do caminho." Cruzaram depois o Rio Santo Antônio Grande onde "Atravessa-se de canoa ...". Depois ainda passaram pelo Rio Jaçapucaia e, em Paripoeira, avançaram numa "grande enseada onde ~á também água potável, mas ruim", os rios Santo Antônio Mirim, Paratii (Pratagi) e Doce. E seguiram daí a marcha pela praia, desprezando o tradicional caminho do Poço e Mangabeira (atual) sobre o sul, foram pelo Carrapato (depois chamada de Jatiúca por Teo Brandão) e, de repente, encontraram-se numa ponta de terra onde a linha da costa infletia para o sudoeste. Estavam na Ponta Verde, início, como logo viram, de uma enseada linda de água transparente como esmeralda, e tranqüila. Era a nossa querida Pajuçara. N~ngu~m pode ter dúvidas de que havia um batedor ou guia para identificar os nomes e mostrar caminhos e passagens, possivelmente um índio ou mameluco, velho conhecedor da reoião. ~aí ser válido supor que, ao lado do escriba e do capitão, t:nha dito, conforme as palavra.s do relatório: - Aqui é Ioçara. Ali é Jaraguá, onde tem um passo, levantando os braços na direção de uma ponta de dunas arenosas e alvas, cobe1tas de vegetação rasteira e rala avançando para o mar e delimitando a larga enseada pela frente. Era a Ponta de Jaraguá. E então ditara o capitão ao seu escriba: - Anote: "Praia de loçara. Uma grande enseada junto ao passo de Jaraguá." Quando reiniciaram a marcha, já haviam caminhado desde o . _Rio Manguaba até ali numa marcha de dezoito horas, afora o tempo destinado ao descanso da tropa. Como a maré estava cheia, fizeram uma hora de marcha da Ponta Verde até Jaraguá, do contrário o fariam em meia hora pela areia dura da praia, e chegaram onde havia um passo, ou um armazé~? Seria a casa de Manoel Antônio Duro, de telha e tijolo, constrmda em 1609 e transformada em depósito? O capitão procurou então examinar o terreno e mandou escrever: 22 ' l"IT~ ~ "'-., CO..L o '·• r'?~L ç -"' ' ...,f"c: 1 / ... ·~ " " Aqui não há água, mas pode-se abrir cacimbas; a água é nrnl.-i sulobt'a, o pasto sofrível mais um pouco para o interior tU1·1~ clu mata." b prosseguiram. De Jaraguá até a Barra das Lagoas a tropa levou apenas uma h111n de marcha pela praia chegando numa área onde havia uns l111t~·s para transposição da Lagoa Manguaba e um quartel numa 111111111 cm frente. Daí seguiram para Santa Madalena. Seria então [111• o "passo" a que se referiu o relatório quando assinalava l 11,114uá? Quanto à aridez da terra e à falta de boa água, estaria enganado 11 <'npitão. Lá pelos idos de 1819-1820, o Almirante francês lt1111ssain assinalou uma excelente fonte na Praia de Pajuçara que 1 1vin para os navios surtos no porto. É de se supor que esta fonte 1 tivesse a pouca distância da Ponta de Jaraguá e que existisse 1h ·~de muito tempo, já que não se tratava de obra feita pelo homem. 1.tlvcz, quem sabe ? desse boa água de beber suficiente a Manoel 111onio Duro e seus familiares e escravos. O holandês não a teria '1110 porque o filete da fonte correria para o interior ao encontro .111~ alagadiços, ou a preamar impediu que o percebesse escoando p11 IHpraia. C.)uando um mapa mostra mais do que mil palavras. O português José Fernandes Po1tugal desenhou, em 1803, o ' l'luno das Enseadas de Jaraguá e Pajuçara'', certamente com o 11hjctivo de facilitar a navegação referindo-a peJos pontos notáveis 1ltt costa mostrando os locais de bom fundeio (que chamavam de 11111'gidouros) e a natureza dos fund~s para ancoragem, profundidades, correntezas, tabela de maré, perigos ao largo como 1~·1.: iíes e baixos fundos, e uma rosa dos ventos que abrangia todo o dl!scnho. Era um autêntico documento hidrográfico com 11111arrações em terra. No rodapé do Plano há uma descrição de como os navegantes deviam proceder para que os navios tivessem segurança na 23
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    aproxi":ação e naancoragem ao largo. Dizia: "No Porto de Jaragua podem surgir e carregar navios com cômodo desde sete.mbro até abril, que reinam 0 nórdeste e são muito abrigados. De maio até agosto que assopram os ventos do qu.adrante sueste não podem ali estar sem grande perigo po~que a .corrente da maré não os deixa filar ao vento puxando assim mmto pela amarra." ./ 6l'. . O leitor encontrará nesta figura as informações que precisa . c~nb~cer nosso Jaraguá no início do século passado. Trata-se de um tr::,:: su~phficado pelo autor deste livro, do "Plano das Enseadas ele Jara uá e ~i?~óç~ra", ~José,Fernandes Portugal, ano de 1803, arquivado no lns;ituto s rico e eografico de Alagoas, contendo:- A "Fortaleza" na Ponta d .Jllraguá·- O Armazém R J · e M . ló·' ea 'aproXJmadamente na entrada do atual Porto de > .11cc ,- Trecho ~o centro de Maceió, entre a Jgreja Nossa Senhora dos 1'11~crr~ (on~e foi co_nstruída a Catedral) e a praia;- A embocadura do ~Uii~h1o Mnc;ió, na Praia do Sobral (está no documento original)·- Locais de une t• o c.•m rente de Jaraguá e na Pajuçara, este último para e:Ubarcações 1111•111u n (sunu1cas). •.i1 ( 'oercntc com a sua fixação marítima e servindo ts 11111h1trcações que demandavam Jaraguá, José Pernandes Portugal 11~ l'llhou algumas edi ficações na costa que servem atualmente para 11~11t11dioso visualizar o baiJTo naquela época, pelo menos na faixa 111 qul.!, do mar, se pode ver a praia. Nesse contexto, três edificações estão nominadas assim: a l 11t1aleza", na Ponta de Jaraguá, que parece um desenho pomposo til· uma construção quadrangular, com guaritas nas pontas, na rnlnde wha simples bateria cuja existência na época ainda é hoje t 1111tcstada, o Armazém Real " de recolher aduelas e demais nuulciras", um pouco máis para o noroeste, e a futura Igreja Nossa s,·nhora dos Prazeres, no centro de Maceió. atualmente a Catedral. .. Estavam assim representados no Plano os três componentes fundamentais da Colônia: a defesa, a exploração econômica e a ll~ll gião. Não havia no mapa nenhuma representação de trapiches e suas p1111les que seriam constru.ídos logo depois da emancipação de Al11goas e que viriam proliferar na segunda metade daquele século. Pelos lados do nordeste, estavam as casas da Pajuçara, em 1111111cro de onze, possivelmente em apoio da pesca e do transporte lll' mercadorias pelas sumacas, uma espécie de veleiro de pequena 1 .1botagem, precursoras das barcaças e iates que chegaram até quase ,,~ llOSSOS dias. Em Jaragu~ apareciam apenas oito edificações. Ao sul vê-se no mapa a foz do Riacho Maceió, depois l<cginaldo ou Salgadinho; entretanto está omitida a representação 1k seu curso paralelo à praia desde a Boca de Maceió (atual Barão de Anadia) até o oceano. Mas aparece um braço de mar se ndcntrando, possivelmente até a Lagoa Mundaú, desde a Praia que .'11amamos hoje de Sobral até a Levada, onde recebia as águas da l,ngoa. Por um documento cartográfico mandado fazer pelo <iovemador Póvoas, datado de 1820, existia desde Jaraguá até a Boca de Maceió uma lagoa com a mesma denominação. Era 1.ercada de terreno arenoso e de nível superior, sem canal de escoamento algum para o mar, e que também não despertou a atenção de José Fernandes Portugal dezessete anos antes. 25
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    Quando teria entãosurgido aquele pequeno braço do mar que vimos correr por trás da Fênix para desembocar no Sobral? Como teria sido cavado aquele Salgadinho onde a geração dos anos trinta pescava de tarrafa e pegava caranguejo? Por força da própria natureza mutável por excelência? Sem nenhuma pretensão de resolver o enigma, existe ai um fato que deve intrigar o pesquisador porque, salvo melhor juízo, surge a hipótese daquele curso ter sido cavado pela mão humana, a menos que as plantas de 1803 e de 1820· tenham omitido sua representação por um engano ou por um motivo qualquer. Desta forma, não haveria outro desaguadouro para a Lagoa Maceió (a menos que fosse um grande pântano), do que pela Lagoa D'Água Negra e seu encontro com o Riacho Maceió, pelas bandas da Levada, como é traçado em José Fernandes Portugal. Posteriormente foi aquele curso d'água, que passava pela Praça Sinimbu, desviado para o oitão do Hotel Atlântico, por onde sai toda a poluição de parte da Cidade infestando a Praia da Avenida e toda a Enseada de Jaraguá, num autêntico desastre ecológico que parece estar com os dias contados pelas obras que a Prefeitura realiza na área. No que se refere à topografia marítima, vê-se que, ao largo da Ponta de Jaraguá, havia recifes que se adentravam no mar, por baixo do que é hoje o Porto de Maceió, feito por um grande aterro e obras plantadas em recifes de coral ao largo, numa construção inaugurada em 1940. . Onde é hoje este aterro enorme, José Fernandes Portugal assinalou em seu Plano a expressão "Surgidouro de Sumacas". Era o local de carregar e descarregar. ~ Devia ser, como disse Félix Lima Júnfor em seu "Maceió de Outrora", assim: "... negros escravos conduziam, na cabeça, sacos de açúcar e fardos de algodão, jogando-os em botes e barcaças ancoradas o mais perto possível da praia", ou abicadas na maré seca para saírem carregadas na preamar. As águas chegavam aos peitos dos escravos provocando-lhes enfermidades e morte. -.. Os botes eram de fundo chato e seguiam a remo para os navios que, segundo o Plano, ficavam fundeados a quatro metros de 26 prolundidade entre os recifes e a praia, onde é hoje a "Barra da Mude", uma saída natural da Enseada da Pajuçara para o sul. Esses ~1t · também serviam para as sumacas carregarem ou íh 111 regarem mais próximas e ao abrigo da Ponta de Jaraguá ou ''" 1~11scada de Pajuçara, um ótimo "surgidouro" com profundidade ~ ilc1. palmos. O desenhista, entretanto, omitiu a famosa Barra de fto Luiz em frente da Pajuçara, pois o recife que vem da Ponta v~11lc é representado no mapa como sendo contínuo até a altura da 11rn1ln de Jaraguá. Constata-se ainda que a carga vinda do potto e destinada ao 1111trn passava pela Lagoa Maceió por embarcação apropriada tloilcz. uma balsa ou canoa grande), e daí prosseguia por uma ponte 11h1c a Lagoa D'Água Negra, depois da "Boca de Maceió''. Quanto à tal "fortaleza., persistem as controvérsias. As plantas de fortificações que o Governador da Capitania de l'rn111mbuco Luiz Diogo Lobo e Silva mandou fazer para Jaraguá, e lllll' datam de 1762, não parecem ter passado do papel, na opinião th l•élix Lima Júnior em seu "Fortificações Históricas de Alagoas". "Fortaleza" de Jaraguá, 1803, segundo concepção do autor desse livro, com base no plano de José Fernandes Portugal, posteriormente cooslderndo como um exagero. 27
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    I Teriam sido construídasna segunda metade do século XVIlI? Mesmo que lá estivessem às vistas de José Fernandes Portugal em 1803, não seria a "Fortaleza" mais do que uma singela sapa ou "baterias montadas em parapeitos de madeira, de terra batida ou coisa que o valha", como disse Félix. Não era raro que os portugueses exagerassem o aparato militar de suas colônias para impressionarem os seus possíveis agressores. Teria feito assim o cartógrafo português? Um governador fora do tempo d~ixa a sua marca. O leitor verá corno certos acontecimentos infletiram a História de Jaraguá no fim da segunda década do século passado. Tal é o caso da chegada em Alagoas de um administrador imprensado pelas tendências de sua época, mas que entrou para o rol dos homens marcantes. Era o fidalgo da Casa Real e Tenente-Coronel 'Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, um homem obstinado e voluntarioso que desembarcou em Jaraguá no dia 27 de dezembro de 1818 para governar Alagoas. A Província já estava emancipada de Pernambuco há um ano e três meses, depois de um período de instabilidade instituído pela Revolução de 1817. Quando ele assumiu o cargo no dia 22 de janeiro, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição das Alagoas, talvez não vislumbrasse que o Brasil ficaria independente menos de quatro anos depois, do contrário não teria feito tanto empenho pela grandeza da Coroa Portuguesa. Seu desembarque ocorreu por transbordo entre um veleiro chegado do Sul e as areias de Jaraguá, onde havia urna razoável concentração de armazéns e instalações para embarque e desembarque de mercadorias, estando Maceió com apenas 35 mil habitantes, elevada à condição de vila há três anos. 4 Naquele dia histórico do desembarque, a importância de Jaraguá como povoação era pequena e o porto sequer apareceu na Planta de 1820 que o novo governante mandou fazer por José da 28 Ih 1 Pinto. com o intuito de desenvolver Maceió. Mas, como se 11h~ , l hcgavam na Enseada, vindas do interior, tropas de burro, Ht111·, de boi e escravos transportando carga para os navios, em p l:llll ;u,.Ú<.:éH. algodão e madeiras. N.-1.1 íl~ura o leitor compreeenderá como eram as ligações entre o centro de ~tiln•ió e Jaraguá quando Póvoas governava Alagoas. Trata-se de um 111 nuho elaborado por um desconhecido com base na Planta de José da ~Ih M Pinto, ano 1820, atualmente arquivada no Instituto Histórico e f,, o~nfico de Alagoas, que contém: Estrada entre Jaraguá e a Boca de ~titn•ló, boje Barão de Anadia; Fortaleza de São João, onde fica a 20! t !M; Pequeno atracadouro onde havia uma estiva nas margens da Lagoa MM''dc'1; Ponte de madeira sobre a Lagoa D'Água Negra. A larga avenida llr~1'11hatln na Pl11nh1 (diagonal ao trecho) ~ra parle do plano urbanístico llo {10'Crnador Póvoas e um prolongamento do <1ue é hoje a Rua Barão de l'1•11t•iln até a atual Avenida da Paz, trecho que não foi construído. Nota-se 11111• u Lagoa Maceió não tem escoamento por aí. ludo tivera início com uma povoação do Engenho Maceió, 1g11ido no fim do Século XVll ou início do seguinte. 29 .,
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    .. ( Isto faria mudara vida social e econômica da Província até suas aspir~ções políticas. Não fora construído apenas pelos b~ns solos que tmha, nem pela visão magnífica do mar que dele se desfrutava. , . , e sim por estar prox1mo de um porto abrigado. ~ .Como disse Craveiro Costa: para a "fundação do engenho devia ter concorrido a excelência do local, à margem do an.coradouro, com que se deparava, franco e vasto, 0 atual Porto de Jaraguá, até a Enseada da Pajuçara ..." . Só não seria construído na baixada antes da praia porque Já os solos eram salgados para a cana e faltava a boa água doce suficiente para um engenho moer bem. Pelas estatísticas, em 1824, pouco depois de Póvoas, entrariam no po.rto s~s~e?ta e duas embarcações, das quais um terço de bandeira bntamca, embora o comércio de Maceió com Recife e Salvador ainda ocupasse o primeiro lugar no movimento de cargas. Em pouco tempo já seriam relacionados em volta de Maceió trinta ~ r. de a · . eles_o~; Caçhoeua e Riacho Doce. Estávamos nas p011as de uma inflexão rn~tivada ~ela a;i.dez da Grã Bretanha pelo algodão e depois açucar, ~feito. pratico da Revolução Industrial na Europa, como fi~ou evidenciado mais adiante, em_!!!L, numa planta detalhada fe1t~ pelo ªngenheiro Mornay, onde a praia aparece com dois trapiches e ruas para todos os Iãdos. .Assim, pensando num futuro brilhante, imaginemos bem v~stido como de circunstância, Póvoas teve alguns contatos locais ah em Jaraguá, onde fervilhava a vida econômica, e para onde certamente a?uíram as ,autoridades de toda Maceió e Alagoa do Sul, talvez vindas tambem de Santa Luzia, Penedo e Porto Calvo, somente para a ocasião, já pensando em influírem nas questões locais, a mais importante delas a da presença do novo governante '.rnma_sede fixa. Afinal, também não se conhecera homem tão importante, um Comendador da Ordem de Cristo Cavaleiro da Torre e da Espada, na linha familiar do Marquês de Pombal. Antes ?1esmo daquele dia do desembarque, nas conversas do Paço l~1pcnal, ou navegando à vela, Póvoas devia ter pensado em como lidar com pessoas que disputavam hegemonia na Província. :rn 00111 ~cmm lhe diria que ficasse morando onde o futuro lhe , 1c11sc mais, e não no descanso do passado já incômodo, u~ 111ln-se num local distante do movimento co~ercial, pelas ~ , tl.t!J lagoas, com entrada de barra difícil, escoando seus t~ut11· por um porto menos abrigado que chamavam de. ~ovo tll 11anceses. E consultaria sobre o assunto os seus auxiliares, ti ddl·~ o fiscal de rendas Floriano Vieira Perdigão, cujo parecer li uva que ficasse mesmo em Maceió, proposta confirmada por UUI p.11l'Ccr idêntico do Ouvidor Batalha. S~·gundo Craveiro Costa, o Senado da Câmara ~in~a solicitou a t•1h11as que elegesse Maceió como sede provmc1al. E. ele, 1111tdl•11tcmente, alegou que ficaria no litoral ape~~s para fiscalizar o 11ul11111ento as obras militares sob sua responsab1hdade. l'óvoas, como parece, depois das cerimônias e primeiros 11111talos no ancoradouro, dirigiu-se de carruagem ou carroça, ou no l11111bo de um cavalo, de Jaraguá para o centro da Vila, percorrendo 11111 extenso areal, praia a sua esquerda, diante de umas poucas 1..1s de teto baixo, na maioria residências modestas de frente para u 111ar. Chegou num local à margem da Lagoa Maceió, que transpôs lllll alo-uns minutos cm canoa ou batelão para a estiva na outra 11i.1rge~1 distante cinqüenta ou sessenta braças. Era o sítio .onde, , 111te anos depoi::., cobravam-se quarenta réis por travessia em 111ngada, segundo Craveiro Costa. Em seguida, percorreu uma rua yoltada para o sul, casas ulinhadas urnas pelas outras, da estiva até o córrego que chamavam de Lagoa D'Água Negra ou Lagoa Manoel Fernandes, também de Olho D'Água. Era a BoGa de Maceió onde até há pouco estava o Arcebispado e onde ficam a Estação de Ferro e a 20ª CSM, antigamente Forte de São João, caminho natural entre Jaraguá e a Vila. Havia, naquele final de rua, uma ponte de madeira lig~d~ o ancoradouro ao centro da Vila, onde despontavam ed1fic1os maiores uns de três ou quatro pisos, a Igreja Matriz Nossa Senhora , 3l
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    dos Prazeres, maisadiante, pela Rua do Rosário (depois do Sol), a Igreja Nova de Nossa Senhora do Rosário, ao lado da velha capelinha do mesmo nome a ser demolida, terminando num largo em frente da Igreja de Nosso Senhor dos Martírios. Segundo Craveiro Costa, Póvoas encontrou aqui em Maceió / "um conjunto de ruelas e habitações rústicas, com a mata à beira do casario, o pântano da Boca de Maceió e as margens da lagoa, que se não era de animar o cortesão, não seria de escandalizar o Governador". Afinal de contas, ele governara a Capitania do Rio Grande do Norte e estava ajustado "à rudeza da terra e dos homens", nas palavras do Historiador. E iniciou o seu trabalho. Mas, que sociedade Póvoas encontrou aqui? Supõe ainda Craveiro Costa que em Maceió, e certamente Jaraguá, já existiam progressistas desde 1730-quando Duarte José Pereira, Governador de Pernambuco, assinalou em Alagoas grande surto de progresso com quarenta e sete engenhos de açúcar e dez freguesias. Quando Póvoas transpôs a ponte de madein1 sobre a Lagoa D'Água Negra, a sociedade local passava por um daqueles smtos de modificação e Jaraguá devia interpretar o novo quadro devido ao seu comercio. Já era próspera a classe dos burocratas, administradores e dos homens do Fisco, da Justiça, do Clero, das tropas de Linha e Milícia, dos comerciantes.que tomavam o lugar dos senhores-de-engenho distantes em suas terras e afazeres, mergulhados numa certa carapaça de poder, mas afastados das fortunas e do prestígio dos novos tempos. Endividados 11~..sta época, davam lu ar à p~dalguia_dos-desccndentes ~ masc es, os ;Lue amealhav~ULf~~aJxpor~ação de COl!ro, algodão, açúcar, aguardente, ~<letras, fumo.;.. E foi cst~ gente que edificou o bairro QOrtuário da Vila, antes um ílJUnlamento desordenaêTo, local de botes, ~traiã"S: estaleiros velhos, alguns .armazéns, mclUsiVe o Real, e um rudimento de foiiificnção militar, ql!erendo isso izer que foram os burgueses e a /dminislraç~Q. Colomãlrnãôos proprietários deterras os construtores de Jaragua. A esta altllra dos acontecimentos, a sociedade nflo cm mais tão acanhada como dantes, e os ventos da independência jú sopravam cm brisa, prestes a tornarem-se uma tempcstndc. / Vila tomava --32 t'•PL'dos novos a cada ano e crescia também o Poço, anliga cstrndu qm· lcv1wa os portt~g~1eses ..mascates e os mercadores e soldados p,1111 Porto Cafvo e Olinda, e ~mostrava ser um bQDl local de li111:11rns e resiêfêncías. Por ali haviam ficado na crença de que o 11111,11.; o solo bom para frutas favoreciam a vida desde o tempo em qrn: o Alferes Antônio Fernandes Teixeira doara o sítio a sua 1111llhc l' Dona Maria de Aguiar. Além disso, Póvoas preocupou-se com a construção de . ddicoções próximas do porto como a Alfândega, Casa do 1 1111!->ulado e Rendas, estaleiros e fortificações, o que fez com ililiµência e determinação. Na verdade, a preocupação com a defesa era antiga. Póvoas 1l11lrn notícias detalhadas de que houvera recentemente incursões de plrntas no Rio São Francisco, quando roubaram a sumaca São João 1l11igente e desembarcaram na Barra do Coruripe onde provocaram 1ll)l,Ufls danos. Desde l67J.!.~uase cent~qüell1ª_Jfil_os._us_pot:tugueses- 111• deram çonta du...v.aloup_!H1ª1" daYonta deJara~u~J2ªULi1 defesa . do porto contra as incursões de Qirata~, corsários,_contr.abandist.a.s.,,. l'or isso, ~emador_Qa__C.apitmia çle Pernambuco, Capitão el~neral Af(QJJSO fil:rtado de Mendonça, V1Sêond~at_:~ 11•1.Jcbeu orden1 de fortificar Jaraguá e-~~pQvJ2á::.lo corn...açgrian~ que não Jõi cumpndo a rigor. Mas_h~ citaç~ t•ont~g~eles tempos, umafõrtíftcação guarnecida. De qualquer m~ira,~trãcfo~óvoas construiu ali a !loteria de São Pedro fazendO" sistema com a Bateria Real de São lono na Boca de Maceió, por ele também construída, mostrando a Intenção defensiva de seu governo e do Reino. ' Félix Lima Júnior em "Fo11ificações Militares de Alagoas" identificou mais{ggas bat~~Jaraguá e Pajuçara, a Bateria da Imperatriz, na atual Sá ?'Xíbuq~erque, e uma na Ponta Verde, ombas mandadas construir pelo Coronel Oliveira Belo na Ciuerra da Independência. Foi a~ da Imperatriz vitima da decadência em 1826 e, quatro anos depois, completamente ubandonada. A Bateria da Po~ta Verde, que se tornou célebre por ler abrigado cento e cinqüenta índios de Viçosa armados para 33
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    defenderem a Independênciado Brasil, apresentava seus canhões abandonados até meados do século passado, durante a baixamar. Na verdade, a Bateria de São Pedro teve vida pacífica resumindo-se a disparar sal~ servir... de presidio---® ~a formaturas patrióticas como a do primeiro hasteamento_dQ..fayilhão do Império em Alagoas, no dia 24 de fevereiro de 1823., pelo Coronel Oliveira Belo, Comandante das Ar.mas, da for.ma desçrita por Félix Lima Júnior: "Formada a guarnição do forte, os soldados de baioneta calada, oficiais de espada em punho, foi o Pavilhão Brasileiro levado à ponta do mastro com uma salva de 21 tiros de canhão do forte, correspondidos pelos navios de guerra surtos no porto e pelo Forte de São João." Entrou também para a 1Iistória a salva que a Bateria deu, junto com sua coirmã de São João, para saudar a Corveta Maceió, na tarde do dia 23 de setembro de 1823, quando se despedia depois de lançada ao mar, terminado o almoço de cinqüenta talheres a bordo, oferecido na Enseada da Pajuçara à sociedade local pelo seu Comandante D. Francisco de Souza Coutinho. O destino algumas vezes trata o administrador e o militar com surpresas e amarguras. É bem o caso de Póvoas e das fortificações que construiu com tanto carinho para a glória de Portugal, que, mais tarde, quase foram usadas para defender as terras de Alagoas contra seus patrícios da esquadra de Félix dos Campos, braço naval de Madeira de Mcllo na Bahia, na Guerra de 1823, e que se pensava por aqui surgma. Os habitantes de Maceió aguardavam aquela esquadra, na expectativa de que incendiaria o Porto de Jaraguá e o estaleiro da Pajuçara onde ainda se ultimava a construção da corveta Maceió, que poderia cair nas mãos dos portugueses. J laveria batalha sangrenta, assim se esperava, no momento em que despontou no horizonte marítimo do sul um conjunto de oito velas. Fra a manhã do dia 18 de agosto de 1823, quando o sobressalto na cidade foi enorme e todos os homens mobilizáveis correram às 111 mns, guameceram-se os fortes, formou-se a artilharia móvel, di 11ibuíram-se munições. Qunse a um tiro de canhão, aquelas oito velas já estavam tão peno que se divisava nelas o Pavilhão do Imperador tendo início ..._______.·! t1n• onda de alegria para os que já estavam de mechas acesas nas MAoll para o duelo de artilharia que se aproximava. Tratava-se .da 01titão Naval de De Lamare, transportando as tropas de Labatut 11111· não puderam desembarcar na Bahia e para lá marcharam por 11111 desde Jaraguá. A Bateria de São Pedro perdera a oportunidade de seu batismo &11 fogo e nosso bairro de ganhar nome de batalha, a "Batalha de J1u11guá". De resto, ficaria na História como prisão de revoltosos e 1111 rcnqueiros da política como no caso do Conselheiro Manoel J1111q1Lim Pereira, em 1824, e do Escrivão Deputado Joaquim da lha Freire, em 1827, "por desavenças com algumas 111eoridades" e que passou a ter, logo depois, guarda reforçada 1111111 "evitar a fuga de um preso de semelhante natureza". Al11dn se desconfiava da fidelidade da guarnição possivelmente "'olvida em conspirações, numa "época de indisciplina, de drrmrdem, de intrigas, de fuxicadas e de politicalha", segundo 1éllx Lima Júnior. Na verdade, a Bateria era de tal natureza frágil que o povo p11dcria ter cantado para ela o que cantou para o Forte São João, seu 1111~ênere: Maceió, meu Maceió Fortaleza de Mamão Foi a Bateria demolida e111 1847. Dei um tiro em Maceió Botei Maceió no chão. Durante a Guerra da Independência, Jaraguá foi palco de h111111ltos inesperados como o desembarque anárquico de tropas de "''V'OS de Pernambuco, conhecidos como "monta-brechas", que, na N111lc de Reis, a 6 de janeiro de 1823, desobedecendo ordens de seu l 1111111ndante, espalharam-se por todos os lados e entraram em luta l'.<•111 nossos soldados e milicianos, no momento em que Lll·•m1ontavam suas !apinhas. Mas voltemos a 1820.· A Bateria de Póvoas foi edificada possivelmente no mesmo lrn·;1I de suas antecessoras, ou seja, na Ponta de Jaraguá, cm vista JS
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    dos campos detiro que devia bater para os lados da Pajuçara, também propícia ao desembarque do possível agressor. Na verdade, não passava de uma precária fortificação de madeira com a diminuta guarnição de um tenente-coronel, um cabo e nove soldados. embora fosse dotada de dezenove peças de artilharia, segundo Moreno Brandão em sua "História das Alagoas". Adiante, Póvoas proibiria a utilização do Porto Novo dos Franceses, o que foi uma segunda definição por Maceió, tudo devido ao Porto de Jaraguá, razão de ser da Vila escolhida por ele sede do governo e confirmada em maio de 1821 como tal, depois que o Ouvidor Batalha e o Juiz Vieira Perdigão deram aquele parecer contrário a uma representação da Câmara de Alagoas para que lá fosse residir o Governador. No final das contas, Póvoas lá residiria no tempo final de seu governo à frente de uma Junta e saiu-se muito bem da encrenca que os tempos iam montando para ele como autoridade da Coroa e português sem maiores vínculos com a gente daqui. Foi assim que logo depois que raiou o ano da Independência, ele passou seus encargos a 31 de janeiro e tratou de viajar, quase nas vésperas da revolta de Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque, com quatrocentos homens armados proclamando, em Alagoas, Dom Pedro l protetor e perpétuo defensor do Brasil. A esta altura, Póvoas já estava de costas para a Província, possivelmente para o Brasil, por certo pensando em como e tão rápido se passaram os tempos desde janeiro de 1819, período de sua vida em que ainda sonhava com a grandeza do Reino, e quando tanto trabalhara pelo progresso da Província. Pelo relatório de Antônio Coelho de Sá e Albuquerque - que deu o nome à mais importante rua de Jaraguá - Presidente da Província, ano 1857, a Assembléia Legislativa Provincial tomou conhecimento das opiniões do Tenente-Coronel Engenheiro Cristiano Pereira de Azeredo Coutinho, que trabalhava para nossa defosa. Ele argumentava que a cidade estava indefesa e sujeita a qualquer insulto vindo do mar, apesar de possuir algumas posições favoráveis para a construção de fortificações. 36 Passaram-se quase quarenta anos desde Póvoas e as lortificações que construíra estavam destruídas. Azeredo Coutinho ...1bia dos danos que uma belonave poderia provocar com sua t1rtilharia disparando nas instalações do porto e mesmo no centro da cidade. Segundo ele, a população sentia sua fraqueza quando era -1nlvada por canhões dos navios estrangeiros e não tinha como 1csponder: "... saudando a terra como é de etiqueta entre as nações nmigas, não encontram ele nossa parte correspondência a esse nto de civilidade e cortejo, provindo disso, quando não tlcsgostos, uma espécie de desprezo para o povo, cuja fraqueza ~ ussim claramente revelada." E propôs a construção de um forte lcchado com duas baterias de dez peças cada uma, de terra 1cvcstida "cruzando os fogos em toda a extensão do porto". Sabe-se também que foi um ideal de Floriano Peixoto fortificar Joraguá, tendo para isso mandado a Maceió, no ano de 1893, o Capitão Engenheiro José Joaquim Firmino e o Segundo-Tenente João Gomes Ribeiro Filho, sem resultado algum, dada a situação linanceira do País com as tropelias da Revolução Federalista. E nunca mais se pensou nisso, nem parece mais necessário pensar. Imagine-se um forte em Jaraguá! ·------------------------------------------------------~--------------------- Quando Jaraguá não era mais um simples arruado. Em março de 1841, três anos depois da mudança da capital pura Maceió, surgiu uma planta baixa de Jaraguá desenhada pelo l~cnheiro Carlos Momay, encarregado da~ obras públicas .da, Província, mandada fazer pelo Coronel Francisco Manuel Martins Ramos, secretário de governo na mesma época, cujo interesse devia '{Cr o de representar as instalações mais importantes do bairro portuário e comercial de Maceió) Segundo o rodapé da planta, Momay contou então em Jaraguá cento e setenta construções, das quais sessenta e nove crnm cobertas de palha e cento e urna de alvenaria e telha. Pelos n(m1cros, ele encontrara vinte vc1cs mais do (jllC José F 1·111.U'UI•·~
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    Portugal em 1803,o que mostra o progresso de Jaraguá em pouco menos de quarenta anos, apesar das imprecisões que esta planta mais antiga sugere. No mesmo lugar da "Fortaleza" de 1803 estava a Bateria de São Pedro construída pelo Governador Póvoas e, também, em idêntica posição, o "telheiro do Governo onde se recolhem madeiras", que era o antigo Armazém Real. Pela primeira vez comprova-se a existência de duas pontes de trapiches, que se chamavam de Novo e de Velho. O leitor tem diante dos olhos um trecho, retocado por desenhista desconhecido, da "Planta da Povoação de Jaraguá'', de Carlos de Mornay, no ano de 1841 e que se encontra no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. É um retrato do bairro nos meados do século passado, indicando o seguinte:1- Bateria de São Pedro; 2 e 3- Trapiches e pontes, os primeiros a serem construídos; 4- Igreja Nossa Senhora da Conceição, Pajuçara; 5- lgrcja Nossa Senhora Mãe do Povo, a antiga; 6- Atual Avenid;i da Paz; 7- Cemitério dos Ingleses; 8-Primeira e segunda pontes ligando Jaraguá ao centro de Maceió. 71 O mais oriental deles é o Trapiche Novo "onde se acham colocadas a Alfândega (também construída na época de Póvoas), e a mesa do Consulado e de Diversas Rendas". Chamavam-no ck· novo porque. cios dois, ele fora o segundo a ser construído, mas llin ckwmos c.:nnlimdi-lo com o Trapiche Novo comprado por 'X <111 ln~ t,yrn aos Vasconcellos, cm 1913, e sobre o qual o leitor terá 111t11111111çõcs com a história recente do bairro. Pela posição relativa do Trapiche Velho desenhado por Mo111:1v, vê-se que ficava próximo do local em que seria construída 1 P1111I.: de De~embarque de Jaraguá, ao lado da Recebedoria, hoje Mll'•l'U da Imagem e do Som. onde as pessoas chegavam ou saíam 111 viagem marítima. Momay representou na planta o Cemitério dos Ingleses que 11 11pnva uma curiosa posição entre Jaraguá e o centro de Maceió, N1tgl·ri11do que aqui já moravam súditos britânicos, certamente 111pcnhados no comércio atacadista, e que eles queriam isolamen~o 1l1·pois da morte, por questões religiosas. Aliás, por isso, já llllllllvam aqui com uma igreja anglicana para seu culto. Lá ficaram •ll'pultados marinheiros de um navio britânico cuja tripulação foi l 1111tnminada pela febre amarela, tendo suas almas infortunadas, !lq 11111do Ledo Ivo em "Ninho de Cobras", o costume de assombrar 1• 1uns e praias procurando os botes para um reembarque tãc 1l11lnrosamente esperado, quando alguma bandeira inglesa t1r11111lava em Jaraguá. • Curioso é que Momay se referia à Pajuçara como uma grande <;-- h.1t- in de assoreamento que, segundo consta também no rodapé de ,11.1 Planta, era devido à construção de currais de peixe nos recifes d 11.osta. de sorte que "atualmente só entram sumacas com maré d1t'in". Aliás, ao longo da evolução de Jaraguá e Pajuçara, o 1,.nreamento é uma queixa constante, a partir de Momay. O e .1pitão dos Portos de Alagoas, Francisco José de Oliveira, em documento oficial ao Presidente da Província, em 1872, disse que o p1a11de assoreamento local era causado pelo lançamento ao mar da .11cin de lastro das embarcações que demandavam Maceió. 1'11juçara, seg~do ele, estava assoreada "de forma a não dar mais p1111sagem na baixa-mar às embarcações do tráfico do Porto". ll11via coroas de areia por toda parte. Quinze anos mais tarde, o Presidente da Província Dr José Moreira Alves da Silva abriu a legislatura da Assembléia Provincial de 1887 referindo-se aos currais de peixe dizendo assim: " prejudicial e detrimentosa se há mostrado na Província Mt•melhante armadilha que, a juízo do Capitão do Porto, 39
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    concorre diretamente nãosó para a obstrução da costa, barra, rios, portos e lagoas, como também pâra o asfixiamento da classe dos pescadores que de certo não podem competir com os possuidores de currais". ! Bem mais tarde, o assoreamento da Pajuçara e de Jaraguá agravou-se pelo fechamento do canal que ligava as duas enseadas, no aterro para a construção do Cais do Porto, final da década dos anos trinta, segundo opinião de Felix Lima Junior 'em seu "Maceió de Outrora". A lembrança do povo diz que o Interventor do Estado atendeu a uma solicitação da companhia construtora Geobra para substituir a ponte sobre aquele canal por um simples aterro, contrariando assim o fluxo das águas. Atualmente estão atribuindo a continuação deste brutal assoreamento ao Alagoas Iate Clube que edificou sua sede por sobre o mar, com áreas em forma de diques de contenção por cima dos recifes impedindo as águas de passarem livremente, desviando- as em parte, tal qual os antigos atribuíam aos currais de peixe. Entretanto, nada disso está cientificamente provado porque não se fizeram experiências em modelo reduzido, único método eficiente e reconhecido pela hidráulica para identificar os efeitos dos líquidos em movimento. Como se vê também, tudo isso mostra a falta de ·11basamento técnico com que foram realizadas aquelas obras no mar, como prolongamento artificial da Ponta Verde, sem que se mensurasse perfeitamente o seu efeito hidrodinâmico nas vizinhanças. Apesar de todos os argumentos de ordem prática que seus idealizadores tenham apresentado, com base no empirismo ou em pareceres técnicos de pouco embasamento na mecânica dos fluidos, constata-se que, até hoje, não se tratou o problema com a seriedade que merece, em modelo reduzido. Mas os fatos mandam acreditar que o assoreamento, tal qual se apresenta hoje, foi anterior à extensão do Clube, tendo ele possivelmente agravado o fenômeno. _Ou ainda, quem sabe?, trata- se de um fenômeno natural o avanço de todas as praias para os recifes em frente, onde terminam por chegar. Outro detalhe da Planta de Momay é ter ele referenciado seu trabalho a wna meridiana arbitrária AB traçada na Planta de Povoas, tornando-se por ela fácil concluir por algumas ocon-ências •IO . 111nstram a evolução do bairro. Vê-se que foi construída en~e 1 o r 1841 uma ponte sobre os alagadiços e a Lagoa Maceió 111110 Jaraguá ao Centro, em torno do que é hoje a Praça h11111hu. Esta ponte foi a predecessora da Ponte dos Fonsecas, uma htu 'll ferro reconstruída em alvenaria no Governo Costa Rego, 11111111 hoje lá existente, quase imperceptív~l ao, homem ~ouco h11c1 vndor, porque por baixo dela, em vez de agua do Riacho Ahtndmho, existe areia de aterro. Sabe-se que a primitiva de ferro n1l ilm1truída pela tromba d'água da Sexta-feira Santa de 1924 e que , v.11nda veio em seu lúgar pouco depois, ainda no Governo Costa "'"'1. 'V~·se também que ambas as plantas representam areas alttv,•11liças desde a. Boca de Maceió (atual Barão de Anadia) até ~ hth 111 das instalações po1tuárias, daí o recente Aterro de Jaragua ""e .11.:abou com os pântanos, aplainou e mo_dificou apaisagem da A~1111da da Paz, disciplinou o Riacho Salgadmho. Identifica-se também na Planta de Momay o esboço daquela ,.,,.11 ida um casario de linhas retas, algo mais habitado do que ~11~111:1lo 1 u José Fernandes Portugal no início do século. Vêem-~~ 111111,1, com clareza, as construções maiores voltadas para o mar e Jª 111 pleno centro do bairro. Eram armazéns e trapiches. a ,lt.111dega, casas comerciais e outros prédios sem nenhuma !igação 11 111 os fundos através de becos ou ruas, até a Rua da Alfandega, 1tl1t1ll Sá e Albuquerque. É fácil concluir portanto que a construção p•l'lltJl'ior dos trapiches dificultou o trânsito pelos lados da ~r~ia, 11lc11 i1ando, depois de 1841 , aquela rua pelos fundos dos pred10s, q111111do as duas pontes de embarque que de lá partiam já 111.1palhavam a circulação. . , t>ode-se dizer mesmo que o tráfico pelos lados da praia, atraves 1111 atual Avenida Cícero Toledo, só foi restabelecido depois da lki11olição das pontes dos trapiches, já na segunda metade deste lll1 l lllO. O Po1to de Jaraguá estava consolidado desde Póvoas, segundo "" liscritos do Almirante Roussin, da corveta francesa La Bayadcrc, flu passar por aqui entre maio de 1819 e fevereiro do ano seguinte. c111 miss:)o hidrográficn de seu Pnís. 41
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    Imaginei:nos que tãoalta autoridade naval européia, em missão oficial, tenha conversado com o homem que assumira o mando da Província recentemente, como seu primeiro governador, militar como ele, interessados em saber das coisas e querendo quebrar a monotonia; o marinheiro, do mar; o governante, a de terra. E sobre o que conversaram, se é que conversaram, isto só Deu sabe, mas possivelmente tenham iniciado com as amenidades d sempre, a beleza da costa, o caráter bucólico da vila, o bom fundeio em Jaraguá, a singeleza do povo. Depois, as últimas da Europa, as modernidades, as experiências com o vapor e, finalmente, o mais importante: a política, os movimentos emancipacionistas, a imprensa mais ágil, as mudanças no mapa do mundo. De lado, ouvindo, possivelmente estivesse o Ouvidor Batalha, o mais chegado auxiliar do Governador que, imaginemos, quando lhe deram a palavra criticou o espírito de revolta que se propalava e os perigos que c~rriam os portugueses naquelas circunstâncias. Mas, deixemos de conjecturas e voltemos ao p01to, sobre o qual escreveu Roussin: "A gente de terra diz que se pode fazer boa aguada no ancoradouro (...) com bom tempo se pode fundear em qualquer parte". Pouco mais adiante, em 1835, o marinheiro britânico Sir Ross cfeclarou o que se sabia por aqui: "Maceió é a única ancorage~ conveniente que existe entre a Baía de Todos os Santos e Pernambuco". E se referiu à importância de Jaraguá no conjunto da Província assim: no porto "se faz um comércio muito . considerável e se têm relações muito extensas com o interior. Os víveres e os refrescos são obtidos a um preço moderado e se pode facilmente arranjar água excelente em uma pequena font~ junto da praia, na Enseada da Pajuçara". E ainda se referiu a um ~1estre de porto, certamente um predessesor de nossos práticos, que ta ao latgo para guiar os navios, mediante o chamado'com um tiro de canhão. Referiu-se também aos recifes de rnadrepérolas que ficavam ao largo, o que não parece uma realidade, e às jangadas manobradas por pescadores com grande habilidade. Recomendava aos navegadores que botassem olho num pequeno edificio branco que chamou de Paiol, muito provavelmente aquela construção no 42 Alto da Jacutinga e nas proximidades do antigo farol, pelos fundos dn Igreja, hoje Catedral. A Planta mostra como era Jaraguá pouco menos de vinte anos cli.~pois da Independência. O aspecto das edificações não apenas confirma o grande avanço que Maceió teve com a chegada do Governador Póvoas, como as motivações econom1cas promovidas desde 1822, pela exportação de açúcar, algodão e fumo para os portos da Europa, especialmente da Inglaterra. Como se sabe, grande importância teve para nosso progresso a chegada entre nós de ingleses para o comércio e representações, tomando a primazia dos portugueses., 5} O esforço do Barão de Sinimbu e seus aliados para trazerem a capital para Maceió" em 1839, pode ser entendido pelo progresso que Jaraguá teve nesta fase. O local já tomava aspecto de bairro ou arrabalde de Maceió, pelo porte de suas edificações e ruas. Era a marcha inexorável do tempo e o início de uma arrancada de progresso na esteira da Revolução Industrial. Vinte e oito anos em preto e branco. Datam de 1869 e de 1897 dois desenhos panorâmicos de Jaraguá feitos por navegantes estrangeiros documentando a evolução fisica do bairro, ambos "from the ancorage". O mais antigo deles foi publicado por Manoel Ricardo Pink na Impressora Lamercier, em Paris, sob o título "Vista do Ancoradouro de Jaraguá, 1869", com a asssinatura de Muller et Cluc Lith. Em boas condições de conservação, a gravura encontra- se no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. O segundo desenho pertence ao Almirantado Britânico sob o protocolo V 1054-1 O Nov/1897 de seu arquivo, cuja cópia está emoldurada no Salão de Honra do 59Q Bl Mtz, por ter sido doada àquela unidade militar por um Comandante de Fragata inglesa cm visita a Maceió, cm 1989.
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    Parece de muitavalia estudar a evolução do bairro nos 28·anos que separam os dois desenhos feitos ao largo, justamente numa época de grandes modificações no mundo inteiro. Sob o aspecto artístico, o desenho francês de Muller é de qualidade superior, apresentando as edificações na faixa da praia como uma paisagem bem elaborada, romântica, detalhada e harmoniosa, onde o artista mostra com graça seis embarcações ancoradas, todas à vela, duas das quais atracadas a contrabordo e quase abicadas na praia, pouco ao sul de uma edificação de três pisos, a mais importante da área. Muller retratou uma embarcação pequena de duas velas navegando para o sul, diante da atual Avenida da Paz, uns trezentos metros ao largo, o que serviu para aprimorar a composição da obra. O desenho inglês, por sua vez, não parece ter inspiração· artística, porque foi elaborado para mostrar os trapiches e instalações comerciais do porto, na atividade de exportação, percebendo-se claramente que o restante da paisagem não foi valorizado. Quanto à representação das embarcações, o inglês fixou-se apenas nos botes e pequenas barcaças, talvez pelo seu navio ser o único no_ porto, ou por ter eliminado aspectos que não estivessem dentro de seu interesse desenhar. Para o melhor entendimento dos desenhos e da evolução do bairro durante a segunda metade do Século XIX, é necessário dividi-los em três partes iguais e examiná-las separadamente. A Ponta de Jaraguá: 1Kti9: À direita do observador, é possível distingüir ao fundo a 1é111h1 da Pajuçara com uma linha de coqueiros até a Ponta r t O extremo da Ponta de Jaraguá aparece baixa e arenosa, t 1111 de vegetação rasteira, vindo em seguida um casario it11h.1do onde ficava a Bateria de São Pedro, demolida há vinte 'º"~l·gue-se o velho Annazém Real e dois conjuntos de fdllh m;ões de porte, possivelmente trapiches e armazéns. 1897: No primeiro plano, lançando-se para os lados da f'Rlr•.ira. está uma ponte com guindaste na extremidade, muito I"'"una de um edificio com chaminé no tel~1ado, por certo a f111 kn de sabão da firma Basto Machado & C1a, que aparece no l111hcndor Geral do Estado de Alagoas - 1902", depois pertencente 1 111mciro Barbosa & Cia. l~m seguida, está o velho prédio do Annazém Real e os fundos d11 b icola de Aprendizes Marinheiros inaugurada um ano antes. As novidades do trecho. além da Escola e da fábrica de sabão. ,u us três pontes de embarque com aspecto singelo. Em frente da p11utc pertencente a um trapiche em terra, está ancorada uma hi11caça de três paus. O Centro de Jaraguá: 1869: Lá estão quatro pontes de trapiches que se adentram na 111nré, todas sobre pilotis, as primeiras duas geminadas. Está .111corado. a lcslc das pontes geminadas, um navio misto portando 111nstrn<.; e unrn chaminé cm seu convés centrnl. Em a navegação ~~~~~4~~~~~~
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    a vapor que,desde os. anos quarenta, já fazia travessias do Atlântico. No início do trecho está um prédio de três andares e três janelas nos dois pisos superiores, possivelmente uma repa1tição , pública, talvez a Alfiindega, ou a sede de uma grande firm~ exportadora. 1 l fMlll'lll·Se uma série de casas e alguns trapiches pequenos, um lltll ln'1s da ponte mais ao sul, possivelmente postado no local tllva o Trapiche Jaraguá. de Leão & Cia, e onde tem início a li I • d.1 Paz. Não se notam sinais da construção da Ponte de 1111t111que que seria inaugurada no ano seguinte de 1870, e que lu, 1wRtc desenho francês, um pouco ao norte dos trapiches h1111lu11. l'u111 tuna referência dessa época de grandes modificações na 1ttMl'lll de Jaraguá, convém recordar o arrolamento dos prédios l lil1'" do bairro feito por Tomás Espíndola: Alfündega com a ttlll1111 do selo, Conselho Provincial, Mesa de Rendas l 1111 l:tis, armazém e depósito de madeiras do Estado, Capitania 11 l1111tos, quatro trapiches particulares sendo três grandes, em um q1111i"I esteve a Alfândega (seria o prédio de três pisos no centro !1111110 e na praia?). l l11via outros prédios como a agência da Companhia Geral e 11 h:1111 de barcos a vapor, a estação da estrada de ferro, a antiga 111 1111;õo Comercial. Mais para trás, escondido do desenhista, t 1 11 o jardim da Praça Nossa Senhora do Povo, em frente ao t til• .idudo, depois Recebedoria. Ao fundo e à direita estava t1111, .1111, continua Tomás Espíndola, um "aglomerado de mais de d1t1"11los e cinqüenta casebres de palha e telha habitados por ftii-'111lorcs, a Capelinha Nossa Senhora da Conceição". l X'>7: Lá aparece a Ponte de Jaraguá, para embarque e 1lil'lllhnrque de pessoal, com sua elegante cobertura, bem à direita 111 1 k'lénho, já com vinte e sete anos de vida, entrando ao lado do 1111 tl111 da Recebedoria Central e de um grande armazém, no local', 1h1 1n1piche Novo, aquele que posteriormente viria a ser a sede do 1Cti11lo Produban e que seria de propriedade de Carlos Lyra a p~rtir (1 11) 13. Seguem-se cinco trapiches e suas pontes, até que tem lllll in uma área descampada ( vista no próximo desenho ) onde c11l11t pequenas casas residenciais da at_y.al Avenida da Paz. No llll'lll do trecho observa-se uma chaminé cortando o céu de Jaraguá, 11 q111: indica a existência de pelo n1enos mais um estabelecimento 1111l11i.1rinl no bairro, além da fábrica de sabão da Ponta de Jaraguá. "'l't 111 n 1'11ndiçõo de ferro? 47 ,,J_ •Vt'::.-_....
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    Pela existência demuitos trapiches, é fácil concluir que, j nesta época, o tráfico em Jaraguá era feito pela Rua da Alfandega, depois Sá e Albuquerque, e não como na Planta de Momay, de 1841, que só apresentava dois trapiches. Convém observar que os desenhos panoranucos ora apresentados não permitem a identificação dos prédios e residências recuadas, mas eles lá estavam desde muitos anos, pelo menos é o que diz a Planta de Momay de 1841, que é uma representação topográfica, portanto mais completa. De quatro pontes de embarque em 1869 para sete em 1897, ~ pela construção de inúmeros trapiches, verifica-se que em um quarto de século houve esforço para acompanhar o aumento de mercadorias em movimento. Mas, apesar disso, os documentos da época atestam que eram evidentes as deficiências da estrutur~ portuária daquele final de século e os melhoramentos materiais do porto estavam , na pauta da Associação Comercial e do; governantes. E ·que as mercadorias que vin11am do exterior desembarcavam em Recife ou Salvador, e "não é de fácil trabalho · a remoção desse mal-estar," devendo a Província atirar-se para as negociações diretas com o estrangeiro, como reclamou com 48 f1 111 o Presidente da Província Dr Silvino Elvídio Carneiro 1 ,111 sua fala para a Assembléia, no ano de 1872. De fato, 10111 depois, foi firmado um contrato com a Mala Real Qlll d.ivia mandar um vapor mensalmente a Maceió, durante IOlll'i tanto em viagens procedentes da Europa como para o •• l111pório, por empenho dos exportadores reunidos na lih11 l 'omercial. '11ifi1 011-se que esta medida foi animadora para a Província 11 Hl'll Presidente, Dr José Eustáquio Ferreira Jacobina, na li 111 para a Assembléia Provincial de 1881 citou docwnento A111u1liação Comercial dizendo que "... semelhante ttumcnto trouxe vantagens complexas ao comércio que tni ''ondições de libertar-se da tutela que ainda a liga a 1111111donais (...) a navegação direta pode haver despertado .. . t " "'"''' cometimen os. Nu a110 de 1874 o Engenheiro Andréas Cemadack foi ftt'V,íldO pelo Ministro da Agricultura, Comércio e O,b~as Ih 1111 do Império de estudar os melhoramentos neccssanos 1011 orudouros de Pajuçara e Jaraguá, trabalho concluído em 111hro do mesmo ano. Passou também por Jaraguá o tt11 11hciro inglês John Hawkshan incumbido pelo Imperador de 111111111 diversos portos do Nordeste, sendo iniciada na mesma ttllil 11 demanda que se arrastaria até a terceira década do século Mlll1th. assim como para a construção da P?nte de Jaraguá que já IA tnl.1da em J8'i7. inaugurada 23 anos depois. Ancoradouro de Jaraguâ visto da praia, 1870, segundo concrpção do autor de~te livro. 49
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    Ancoradouro de Jaraguá,1932, segundo concepção.do autor deste livro, para que o leitor tenha uma idéia da evolução dos meios flutuantes antigos (vela) para os modernos (motor). Mesmo antes do incentivo da Mala Real, Jaraguá já recebia um bom volume de barcos de outros países. Em 1871 saíram carregados de Maceió 64 navios estrangeiros, 52 dos quais à vela e 12 a vapor. Na cabotagem foram 235 nacionais, sendo 93 à vela e 142 a vapor, ou seja, presença média mensal de cinco estrangeiros e vinte nacionais, com maior freqüência na safra do açúcar. Quatro anos depois, o Almanach Literário Alagoano, de 1901~ assinala alguns prédios públicos em Jaraguá: Recebedoria e sua casa de guarda, colocada ao lado do mar, atual Museu da Imagem e do Som, Ponte de Jaraguá , " bem feita, sólida, bastante extensa e tem escadarias de ferro...", a Alfândega com casa de guarda, o quartel do 33Q Batalhão de Infantaria do Exército (hoje necrotério) e a Enfermaria Militar (estes já próximos da Boca de Maceió), depósitos de artigos bélicos, correio, Delegacia Fiscal, vastíssimo prédio onde funcionava a Escola de Aprendizes Marinheiros, inaugurada em 7 de setembro de 1897, "todos lindos e modernos". E mais ainda, a Estação Telegráfica, Estação Marítima da Via rérrea de Alagoas, Associação Comercial (antiga), agências dos bancos de Pernambuco e da Bahia, consulados estrangeiros, escritórios, trapiches, uma fundição de ferro, pontes de embarque cm número de dez. ) () -... .,..; A Avenida da Paz: h)iS desenhos do que é atualmente a Avenida da ~az Ulll trecho residencial pitoresco, onde ~asas de um piso 1111 e lado a lado por baixo de um coqueiral e~tcnso. Ao t Nll'1o Alto do Jacutinga, conhecido como Tabuleiro. Nu desenho inglês não há sinais das gameleira_s derrubadas na 1 , , .·~orma de 191 l, feita pelo Intendente Luiz Mascarenhas, ~· 1111l.t H! . . • d d 11 as Talve7 "I ~nndo exterminar um foco de transm1sso1es e oc Ç · . d 1. , t to pelas dimensões reduzidas u f. ln 1111~c11c 1 • possa se cxp 1c.tr an · . i1111 do tlc~cnho do Almirnnhclo ( 1897) como pelo c.lcs1ntcrc~~c
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    de seu ª.utorpelos detalhes da paisagem. . ~o fi~al da Avenida, próximos da atual Praça Sinim ex1st1am d1ve_rs~s prédios maiores, por certo de utilização firmas, repart1çoes do Governo ou residências de gente abasta mostradas no desenho de 1869. ~-- -- ,, .: de No ~~d.o, plantado no Alto do Jacutinga, estava 0 antigo Farol Macc10, inaugurado em 1857 e demolido em 1955 devido aos desbarrancamentos da'enchente de 1949 e logo . 1 d d J · t'nh ' unp ru1ta o no Altoo acrn 1 o. >. Mais ao poente, próximo do Farol, estão a célebre Casa da 1olvora e os fundos da Igreja da Catedral, no canto esquerdo superior. 5) O Panorama Atual: UIUd11 hoje o navegante passa pelo mesmo ponto estação dos ltl l 1 Muller e do Almirru1tado inglês, quase nada lhe resta ~li 11 1·111 dos lrapiches'', nenhum prédio, mas o Trapiche Velho '"ln Cl.,IC. Verifica-se que alguns foram demolidos como o da 1 1 1k Subão e sua ponte com guindaste no início da Pajuçara. Ptt11li1 dL• Jaraguá foi ampliada para o mar por um aterro onde hlcm o Porto de Maceió, o terminal açucareiro, o pier mi 1111, os depósitos de combustível da Petrobrás e os amplos 1til 11s, onde ficava a Escola de Aprendizes. Ao fundo, os ltll 1111 da Pajuçara cortam o céu. Uma ampla favela formou-se na lttl 1 dt• Jaraguá, desde a entrada do Porto até quase a altura da 111~11 Ponte de Desembarque, inclusive ocupando as instalações da 11111.1 ( 'ibrazém, mostrando a evolução social do bairro e as 11 '"'' de uma população desamparada e que cresceu 111~·111osamente neste século que passa: 'wguem-se a sede da Federação Alagoana de Vela e Motor, 1111 .1 casas de favela e um coqueiral entre os velhos armazéns da , Albuquerque. Mais ao fundo está o prédio da Alfândega que 1 ll1111c11te ainda testemunha o Velho Jaraguá. O prédio da .11l1ação Comercial, inaugurado em 1928, domina a paisagem e, 1111.1 os que estão familiarizados com os desenhos, vê-se o que resta i1,, l rnpiche Novo, um longo prédio que ocupa todo um quarteirão 1h ·de o extinto Produban com sua caixa d'água e até o Banco do Jl1.1'iil. O Trapiche Faustino era onde fica o Bradesco, e nele se '11111cleu a incrível façanha de deformar uma edificação vetusta e , li~·w de beleza, que de nada atrapalhada a disposição interna de 11111.1 casa financeira. O Trapiche Segundo tem os fundos também 1ltl·1·ndos por estranho desenho circulante e feio. Por deformação d11 arquitetura origi.nal, não se vêem com clareza os fundos do l 1,1piche Jaraguá que era bem definido no final da Sá e lhuquerque. Segue-se a Avenida da Paz cheia de edifícios que em q11csc nada lembram o passado. . O tão falado e pouco conhecido Aterro de Jarnguá foi feito por 111:1õcs sanitárias e para promover acesso do porto até n cidade, lhcilitando n passagem dus carroças e suas mcrcndorins. A ohra nilo
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    é vist_a do~ar e abrangeu a área pantanosa por trás das casas A~emda ate as margens do SaJgadinho, e o nome Avenida da p foi urna homenagem ao fim da Primeira Grande Guerra. O Farol de Mac~ió: lampejando branco e encarnado, aparec ag~a no Alt? do Jacmtmho e, mais para dentro no nível da praia, estao.os moinhos de trigo, edifícios. No tabuleiro alto estão as torres de TV e os grandes edifícios do Farol. Uma dessas torres de aço, a da TV Gazeta, tem uma luz cintilante tão potente e alta que u11:1 navegante avista. ao passar ao largo de São Miguel dos Mtla~r~s, algumas milhas antes de boiar para ele 0 Farol de Mace10, apenas quando passa ao largo de Barra de Santo Antônio. ~--;~~~;~~-~~--i~:i~~;;~~i-~~~;~--~~--~~~~;~~----------- r 4 Jaraguá de 1902 tinha oito mil habitantes, quatro vezes mais <lo q~e nos meados do século anterior. Havia no bairro quarenta e cm~o ruas, duas praças e três mil edificações diversas/ Não havia mais e~cravos e os. tempos eram de novidades mecânicas, ?1~der:11smo e velocidade antes desconhecida, palavra solta, mutaya~ da moda estrange,ira, vontade de ficar livre do contrôle econom~co ?e Pernambuco e da Bahia, para exportar tudo que ~esse dmhe1ro, negoci~r diretamente com ~ _Inglaterra, França, Alemanha e Estados Uii.tdos. - · . O prog.ress~--iiavia chegado em todas as partes. O porto estava ligado ao mtenor por 314 quilômetros de estradas de ferro da- Cent:al Alagoana (Alagoas Railway) até União dos Palmares, com rama~s ?e outras companhias para Viçosa, Glicério e Paulo Afonso, esta ultima por concluir. ' Em 1.8~9, somente neste trecho de União correram 2.349 trens numa ~ed1a mensal de vinte composições, levando I 09.781 pa~sage1ros ~ muita carga. Ligando Jaraguá ao éentro e outros bairros da Cidade havia doze quilômetros de trilhos de bonde burro,, e uma das estações da rede ficava no bairro. As exportaçõe: de nçucar cresciam no índice de 2 em 1880, para 6 em 1890 e para Hcm 1900. O algodão, que vinha subindo muito desde meados do Ci4 lu p11i;1mdo, descera do índice 5,4 em 1890 para 1,2 em 1900. Nu "Indicador Geral do Estado de Alagoas'', Edição M J 1ftlho e Murta, Maceió, ) 902, o Dr Francisco Isidoro assinalou t • 11111'.iiasmo o progresso acelerado de Alagoas nas indústrias, li 11 101 ngricultm·a, navegação e letras, mostrando que o Porto de •Mllll era freqüentado diariamente pelos vapores de carga e •ll~l·iros e que a Alfândega, satisfeita com as rendas, assinalava 1111111111 e saída de mercadorias numa escala nunca vista. Assim, 110ln se o sibilar das locomotivas nas linhas férreas e de ltrlrn'l industriais'', e as lagoas eram singradas por uma frota lh1tl1111tc de navios a vapor. Wu'ins companhias de navegação freqüentavam Jaraguá, a Cia lmd Brasileiro,"·éoin íil-ilias· 'para o norte e para o sul, Cia P,11111111h11cana"'ê.lê Nai~€~i~?-~-Y~~.r1··cia Paraense da Navegação V11prn , Cia gi:an: Pa@ fl~tl.!YWÇão, Ciá Náêional d.e NavegaÇão · 11Mh·1111, Cia de Navegação a Vapor do Maranhão, Cia Baiana de "' l'p11ção, clã"l age e "FrÍgÕrffiêos, Diq'ues Flutuantes, todas elas 11111 llHência em Jaraguá, na Rua da Alfandega. t navegação estrangeira também estava presente: Hamburg 11d111m!riknfacne: ágente Brostelmãnn; Royal Mail Steam Packet~~- . ,.. ~ ···-·· .---~----.. - - .. 1 11111pnny, agente Williams & Cia, com subvensão do Estado 1 , l 11h:mentc suspensa~ Lamport & Hoolt, agente Pohlman & Cia e N1111·d1;tscher Lloyd Bremen, agente Hans Seeger, com um paquete 11111 111ês e única com estritór1o no Centro. Mas somente no segundo lllll''ltrc de 1901 e primeiro de 1902 chegaram a Jaraguá 1.479 1111!11rcações, das quais 263 de linhas regulares a vapor, num total tl1 1/.113 tripulantes. Pelo "Almanach Literário Alagoano" de 190l, o Porto de l 11.1g11:í já era o sétimo do Brasil, "centro de comércio em grosso. 1 Iludo o seu panorama ao se avistar do mar, salientam-no 11~ M111s elegantes p-rédios e pontes (de embarque dos trapiches) e o~ Inúmeros coqueiros com suas prãías e_o-farol ao cimo de mn.~ ttllo.0 Expo1tavarn-se açúcar, algodão, ~ilho,· feijão, arroz, fumo, l111 l11ha de mandioca, coco, couro, cigarros~ ·sabão, álcool, frutas, 111.11ld1·ns, sal, tecid~s e produtos quín~icos. ~I~portá~a~m-s~-fariilhâ ., dl· trigo, xarque, querosene, bacalhau, fazendas, quinquilharias, • ' 111hoH, annns, fen-agens, louças, produtos químicos e mecânicos, 11hj1.·tos de luxo. 55 "'
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    Para apoiar apresença aqui de estrangeiros residentes ou passagem, e para atender às exigências comerciais, formou-se e Jaraguá uma rica comunidade consular na Rua da Alfânde Consulado da Alemanha e Dinamarca, F. Umbebaguem; Bélgi José Rippel; Inglaterra, Charles Globe; ~u~~a e Noruega, K. Macray; e m·ais Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, País Baixos, Itália e Portugal, este na Rua do Comércio. ..... No que se refere ao açúcar, éramos o segundo Estado produt e os melhores purgados estavam sendo produzidos na Região Nort e escoados pelo porto de Recife, de onde seguiam para o Sul d País levando marcas pernambucanas, o que era considerado u "prática antipatriótica." Apesar do mercado de São Paulo se encontrar em expans- porque o café continuava contribuindo para o seu aument demográfico e a diminuição dos canaviais, o Estado do Rio vinh despontando como um sério concorrente. Vivia-se uma crise d preço junto com alta de câmbio para dificultar as exportações propiciar o abastecimento interno. Havia muitas queixas da indústria e do comércio contra os pesados impostos, carestia do~ fretes, altas tarifas nas ferrovias, especuJação comercial e formação de estoques considerados perigosos para a saúde das finanças. Faltava capital aos negociantes, agricultores e industriais, o porto da cidade era considerado deficiente para escoar a crescente demanda de mercadorias. -t> Havia também uma gue1Ta de tarifas de Estado a Estado e a falta de bancos freiava a produção e o comércio, segundo queixas da Associação Comercial com sede em Jaraguá. > Mesmo com todas essas queixas proliferaram as agências bancárias: Banco de Pernambuco, Banco do Recife, Banco Emissor da Bahia, Caixa Comercial, Caixa de Montepio dbs Servidores do Estado, Caixa Econômica, e o mais rico deles, o London and Brasilian Bank, agente Pohlman & Cia, todos em Jaraguá, onde havia também uma representação do Banco da República. As firmas de consignações e representações eram nove, as de corretores quatro, de seguros seis, de fazendas três, de moer café 1rês, mercearias três, padarias duas, refinarias de açúcar uma, snpntnria uma, tavernas três, barbeiros dois, despachantes sete, '(! um 0 Dr Virgílio Tavares. Havia em Jaraguá os escritórios ..,~1tiois de açúcar: Leão, Sinimbu, Brasileiro, Appolinário tlry, e de cinco fábricas de tecidos, uma indústria ' ,·bpalhada pelo Estado. mllili importantes prédios de Jaraguá daqueles tempos e~am H•mll•gn recém-construída, a Escola de Aprendizes h liu~. a Ponte de Desembarque, a ~ecebedoria Central, a 1to11 Fonsecas, o Cemitério Nossa Senhora Mãe do Povo, 11~, ugência postal e telegráfica, agências de seguro, sedes ?e ~u111crciais, trapiches, bancos, fundições e uma refinana, , Murítima da Via Férrea, Associação Comercial (a antiga), ltnlnccte do Clube Phenix Alagoana,. Conse~h? Provincial a111 do guarda. Despontava em prestígio o pred.10 da Es~ola ptt1111lizes Marinheiros, onde estu~avam c:nto e vmte menmos 11 pnra o serviço da Armada Nacional, CUJa frente dava para a l l'nt'.11 Manoel Duarte. , . . . l>ttnlhc curioso é que não havia ainda em Jaragua comercio de .,.- il'-""· modas e novidades, perfumaria, joalheria, farm~cia:, 1 1111• que, de certo modo, ainda hoje se observa, exceção feita as Jr111'. . Nr~1mdo Adalberto Marroquim, em "Terra das Alagoas", havia Mlt• 111111wrn inusitado de jornais cm Jaraguá por volta dos anos hH 11 trinta, sem se falar no "O Bacurau". Eram eles '_'A llUtih1t'il'lo", de 1891, periódico crítico e noticioso, que saía nos dias IV () e 30, e cujo diretor era Lúcio José de Souza, Rua l~ll'dhciro Sá e Albuquerque, 69; "Democrata'', 1891 , órgão Httu111l que se dizia defensor do povo, na Rua Barão de Jaraguá, 8; C) l'1olctário", 1893, na defesa da classe operária; "Lyrio", 1901, HllUtt11rio literário e noticioso, semanal, Rua da Igreja, 70; "O t rrlnho", 1901, quinzenal de crítica; "Semana Comercial", de 11111 Lnvcnere, 1913. l lnvia apenas um hotel anunciado, o "Comercial", de p«>1mcdadc de José Simões & Cia, na Rua da ~lfündega .60, ll ll"fonc 66. As firmas mais importantes do Comércio eram: Silva l'crcirn Pinto (álcool, farinha de trigo e aguardente), e as de portação de açúcar ou algodão: Cia Centro ~omercial, ~osé de Amorim Leão, Polhman & Cia, Williams & Cia, de fannha de hlKº· secos e molhados, sal, xarquc e bacalhau como José Maitins 57
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    Ferreira, Marques &Pereira Pinto, Silva Costa & Cia, Olive' Lima & Cia, José Pereira Diegues, João Nunes Leite, Marcoli Macedo, Brasileiro & Cia, Rafael Vaz & Cia, drogas e produt químicos como Arthur Botelho, de louças como Pedro Vi Padaria da Viúva Duarte, Sapataria de Canuto Passos, Fundição Jacynto Nunes Leite, José Rippel e Tito Brandão, todas proximidades da Estrada Nova e da Rua da Alfândega e Rua Igreja. Não havia no bairro colégio particular, os do Governo n constavam nas listas, nenhum alfaiate, apenas uma farmác' chamada Popular, na Rua da Alfândega, 32. Existia uma fábrica sabão da firma Basto Machado & Cia vendendo 600 caixas semana, com 22 operários, dois prédios e trapiche na Pajuçara. Usava-se eletricidade, mas o seu fornecimento pela "Empre Luz Elétrica de Alagoas" deixava muito a desejar, pelo menos opinião do povo. O capital da firma era nacional. Fazia ainda iluminação de acetileno das ruas que eram consideradas escuras apesar dos dois dínamos de 50 quilowats instalados em l 00 volts. ,1 Desde 1885 que a cidade tinha uma rede telefônica de dois números, muitos dos quais, certamente, estavam em Jaraguá qu era um dos quatro bairros da Cidade e o segundo em importância, sendo Maceió (centro) o maior. Seguiam-se a Levada, Jacutinga (atual Farol), e os subúrbios de Mangabeiras, Bom Parto, Mutange, Trapiche e Bebedouro. Jaraguá por sua vez tinha dois arrabaldes: Pajuçara e Poço. Pajuçara era um arrabalde "marítimo'', bastante habitado, boas edificações de residências, a Capela de Nossa Senhora da Conceição. No verão, ''é o refrigério das famílias abastadas de Maceió para uso de banhos salgados", segundo o Almanach 1901. O Poço era servido por linha de bonde a burro e iluminado com luz elétrica, onde havia muitos sítios, chácaras e residências com fruteiras, e apresentava um clima florescente e aprazível, na opinião da época. A humanidade de Jaraguá era a mais volátil de todas e por isto vivia uma vida de trabalho. Os que lá passavam o dia, logo pegavam um bonde, automóvel particular ou uma charrete para os nrrnhaldes e bairros residenciais. Mesmo assim, havia razoável c:onccntrnção de residências de classe alta e média na atual Avcnido dn Paz. na Rua Santo Amaro, hoje Uruguai, ou no Poço, e 58 tlc 11111is pobre na Estrada Nova, Ouricuri ou Rato, próximo fltlth1110 Nossa Senhora Mãe do Povo ou por dentro da Pontn cr111 Foi justamente esta configuração dos mocambos, ht1 l'nsas de porta e janela e boas residências do tipo casarão, tt<l111i11 chácara, que ampliou o mapa de Jaraguá para os confins Pu11t11 Verde, Mangabeiras e Cruz das Almas. Mr11'fvcl modificação ocorreu na arquitetura do baino, se 111lli'i111 mos que ele termina'a nas proximidades da Praça 11111t11 Foi. como vimos, a Ponte <los Fonsccas que caiu nas h llll''l <la Semana Santa de 1924, aqueb tromba d'dágua em ,. Rua do Imperador tomou tanta água que as casas foram 11d1d11" por sacos de areia. A poute era de ferro como as de ) Ih-, 111as as aguas arrancaram tudo trazendo para a cidade o .AJ llhll' drama da falta de ligação com o porto e o arrabalde da 111".11.1. e> <iovemador Costa Rego tentou um auxílio do Govemo th 1.ll (c::,tá no seu relatório de Governo) mas nada conseguiu. t 1 obra de reparação com o erário estadual. contratando o ti~ 11hdro francês Sigaud. ex_i~i~do , no c_ontrato, que se tlltM1111sse antes wna ponte provisona de madeira. Mas o bonde, p1 ....ar por ela tinha que se livrar dos passa~~iros, porque a obra t 11111nvn perigosamente nesses momentos. ro1 quando, no velho 1~l1 t11 hem alagoano de criticar sem conhecimento de causa, um l lll'lllnr, ao ter que descer do b?nrle: chan1ou o Governador de l1111 n, tendo quem o defendesse imediatamente afirmando que ~lc 11 honesto, que houve concorrência pública e que o engenheiro 111111 ntodo era competente, restando ao acusador rebater: " ... mas 1111111 ~·oisa está certa, ele não dá a ponte no prazo!" . / essa altura dos acontecimentos, progredia a civilização para t• Lidos da Pajuçara. Iam surgindo os tipos famosos como_Al_yaro r1111 llio, proprietário das terras do lugar sem saber o seu ~alor r~al, 1111111<1 especialmente num futuro que não demoraria muito. J111111cm vermelhão, extrovertido, gordo, exuberante? que gostava illl vestir-se de branco e de reunir os amigos debaixo de um enorme üitlpio de palha para tomar água de coco e co~~rar peix:. Havia 111111h~m os proprietários da Ponta Verde, a Famtha Zu. Chico Z~1 e Nl"lO Zu. Veio chegando então a moda de morar na prma. ~ ()
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    em veraneio, masque eram para morar o tempo todo: Demócri Gracindo na Vila Atlântica, Alfredo de Maya na Balança, Jucá e Alfredo Oiticica nos Sete Coquefros, Fernandes Lima Filh os Guimarães. os Reis, os Lessa, os Gonzaga, os Carnaúbas ... Não esquecer que surgiu na época (1928) o prédio novo Associação Comercial (alagado poucos dias depois no "rebojo" _julho), depois da iarga polêmica sobre qual das plantás devia s -escolhida cm dois ou três desenhos de sua fachada. Havia u imposto sobre o volume exportado para a construção do prédi motivo pelo qual todos os comerciantes tinham razões pa polemizar a respeito. sendo finalmente escolhido o desenho q hoje lá se encontra com aquelas colunas lembrando as cidade gregas. Mas, na época, só havia em Maceió um ou doi engenheiros capazes de construir prédio tão diferente, e nenhu pedreiro para a empreitada, motivo de terem ido buscá-los e -1~., Po1tugal. E aqui chegaram alguns como Manuel Teixe· Medalhas, gordo, moreno e de hábitos rudes, que ficou prestigiad na cidade a ponto de botar anúncio de construtor nos jornais; pedreiro Manuel Almeida, que também se transformou em construtor e que morreu afogado na Praia da Avenida, onde surgem aqueles redemoinhos de água funda que leva o sujeito para fora. o Almeida deixou saudades porque se tornou popular pelas suas frases como aquela: "água não presta, só tomo cerveja". Eles também construíram o prédio dos Leões na Sá e Albuquerque com a Comendador Leão. .- No inexorável rolar do tempo, o que se vê atualmente é um novo surto de modificações na paisagem de Jaraguá. A tecnologia e o desenvolvimento econômico vão marcando o bairro com nova roupagem: terminal açucareiro jogando açúcar direto nos porões dos navios, tanques de petróleo em grande quantidade nos aterros do po1to, a fábrica da Salgema no Sobral, Estação de Tratamento de Esgotos, instalações para barcos de oceano na Federaçã9 llagoana de Vela e Motor, prenúncio de uma futura marina moderna, guindastes imensos, moinhos de trigo, escritórios de firmas de computador, .bancos e seus caixas eletrônicos, enormes caminhões e carretas de açúcar, estranhas antenas de TV nunca · imagi11udas na época dos comandadores como Gustavo Paiva que ; (1{) Vlt til• rádio, volta e meia um avião a jato riscando os ares onde ,. fi11 HC avistava urubu, gente seminua andando na praia em l111llcos, fazendo lembrar os índios caetés na época pré- lln.1 1.. muitos anos antes da primeira casa de Jaraguá, feita por un 1Antônio Duro. 61
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    Segunda Parte: OAMBIENTE Está na penumbra do tempo como era Jaraguá antes do Descobrimento. Na idéia de Moacyr Soares Pereira, oa caetés não tinham morada fixa, sendo possível que vivessem uma certa época entre os tabuleiros e outeiros do interior e as pontas de Pajuçara e Jaraguá, nas margens das lagoas e riachos próximos das baixas dunas da praia. Nos sobrados e trapiches da Sá e Albuquerque, não dove a vida ter sido muito diferente do que foi no porto do Recife ou no da Bahia de Todos os Santos, guardadas as devidas proporções e diferenças do meio. Jaraguá era um bairro portuário por excelência, mbora com algumas áreas residenciais. Sua vocação ora mais para o trabalho de exportar e importar, receber visitantes marítimos, construir embarcações, armazenar, obter lucros, promover a orgia e a luxúria, do que um local de morar em palacetes como foi, por exemplo, Bebedouro. Aqui o mar se encontrava com a terra através de navio's, botes, alvarengas, barcaças, catraias e pontes cfo embarque, onde se fazia a vida fervilhar e se firmava o progresso. Félix Lima Júnior foi o homem que mais percebeu Jaraguá social do século anterior e deste século que J>assa, em seu livro "Maceió de Outrora", onde se vê com clareza a alma da cidade e, certamente, a do bairro. Seu trabalho só merece gratidão dos alagoanos.
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    l,llESENTAÇÃO DA SEGUNDAPARTE: Segundo a historiadora Ivone dos Santos, a área onde se situa o li1111 10 de Jaraguá é uma planície quaternária, de origem marinha, 11111· possuía formações antigas de dunas, hoje já aplainadas pelo l111111cm. O topônimo Jaraguá, herança indígena, tem os seguintes 1t;,11ificados: iara (senhor) e iguá (bom) ou guá (pintado) - João rvoriano da Fonseca; jara (senhor) e guá (enseada), enseada do ~•·11hor - Dias Cabral; yara-guá, enseada do ancoradouro ou yara- 11.1 enseada das canoas - Moreira e Silva. l ~m 1818, quando da chegada do primeiro governador da p111vincia, Sebastião de Melo Póvoas, Jaraguá era um local ermo. 1l, irmãos J~sé,. ~agaj_!!l ~-A.~!ô~io .Q?:ries ~~ Amorim, p11dugueses, foram os J?rimeiro~ a _.constrúir. casas definifivàit no li11frro, junta~~riiê c~~ JÔ~é·~A~tônio M~rtins, o responsável pela •dtficação ·dá· ...éàpeÍa ·"Nôss--;.· ·senhora Mãe · do. Povo, qúe p111v~velmeôte- "'se situava ~ e m "frente à igreja atual, pois ilt1l'llmentãÇaó foto~áfi~i· ~te~ta existência de uma capela naquele lm·111. Falar ou escrever sobre Jaraguá é enfrentar o risco irreversível tl1 cair no tópico."Desde que o ancoradouro incrementou o 1 omércio caeté no inicio do Século XIX, propiciando o aumento e a 1'1!)<1nsão econômica e demográfica do antigo povoado, dividido ao 1udo pelo riacho Maceió,)um torvelinho de literatura de todos os 11111tizes tem ~ido escrito sobre o arraial que era inicialmente um w• unde areal. Poetas, cronistas, historiadores, memorialistas, 1111delistas têm escrito sobre o tema. Já muito antes há ..burocráticos informes das autoridades rnloniais sobre as excelências dos arrecifes que, além de servir de 11poio como um cais natural, formam uma barreira de proteção l lllltra a ação das correntes marinhas, proporcionando segurança às l'lllbarcações. Mas nem de longe esgotaram o veio brilhante do 65
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    bairro. São muitasas vertentes a explorar: o humano, o geográfico, o arquitetônico, o antropológico, o folclórico, o econom1co, o social, o político, o administrativo, o sanitário, o literário, o poético, o boêmio. etc. Que mistério, afinal, tem esse lugar de ruas apertadas, de atmosfera romântica, onde se respira pura história? Por que essa atração por um sítio que se apresenta como a própria síntese da civilização das Alagoas, usando um termo cunhado por Jayme de Altavila? Parece uma predestinação resistir à fúria destruidora de nosso partimônio histórico e artístico esse enclave de monumentos que - mesmo desgastados pelo tempo, modificados alguns prédios pelas reformas urbanísticas - ainda mostram de forma nítida parte de sua estrutura original. Tantos são os seus cantadores! A história oral do bairro é riquíssima mas faltava algo, um livro que - sem aquela característica de monografia erudita, acadêmica, pesada, burocrática, factual - servisse para o leitor de hoje. Faltava alguém com sólida formação historiográfica, e experiência didática comprovada, que anancasse das narrações dos mais antigos ou das páginas esmaecidas dos jornais e revistas os enigmas de Jaraguá, as suas melhores recordações. Alguém que fizesse isso de forma atraente, preservando a força dos muitos casos e acontecimentos lembrados não só pela pesquisa bibliográfica mas igualmente pela história popular, segredos que não estão escritos cm nenhum livro. Seria possível? Sim. Finalmente encontramos essa pessoa, que nos brinda com uma obra incomum. Vamos falar, portanto, do pesquisador que ao procmar decifrar Jaraguá o fez com uma vivência íntima e pessoal. José Fernando de Maya Pedrosa, respeitado intelectual conterrâneo, autor da mais completa obra sobre a segunda fase da República Velha em Alagoas e, mais recentemente, da interessantíssima ''Saga do Barcaceiro", nos oferece agora ''Histórias do Velho Jaraguá". Desde a publicação de sua última obra percebe-se que o coração verde e amarelo do brioso soldado sucumbiu à sedução do velho bairro, porto de muitas histórias. Parafraseando Walter Benjamin, ele perfila-se aqui como o cronista que narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e pequenos, leva ein conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. 66 Variados assuntos são abordados - os trapiches, doenças e r. gotos, o atentado a ~osta Rego, a velha ponte de desembarque, os hondes de burro, os tipos exóticos, os novos costumes em conflito 1 om os velhos, acontecimentos da época da Il Guerra etc. _ , nurn rmaranhado bem definido e articulado do historiador moderno que 11ba.ndona a rigidez metodológica tradicional e adota uma postura 111a1s aberta, dando ao leitor condições de compreender o 1111..>v~mento daq_uele burgo como um todo, de forma mais agradável poss1vel. O hvro constitui uma imagem sem retoques de UIT1 pedaço importante de Alagoas. Ele tem não só a importância devida como história social da a1clhor qualidade mas ainda extrema atualidade nesse momento em q11c se desenvolve a pleno vapor um projeto da Prefeitura Municipal no sentido de dar vida nova ao bairro. Com efeito não é .11fici.en~e o processo de restauração tisica de suas ruas e ~rédios p1111c1pais, preservando o conjunto arquitetônico. É elogiável o pwcesso de restauração, sim. Mas é necessário um cuidado especial l lllll a memória histórica, com a presença do homem e os fatos morridos naquele lugar; com as fonnas e padrões culturais de um 1111111do .que continua ainda presente nas narrativas populares, mas ljlll' vai P?uco a pouco se tornando inaudível com a distância 11 111pora:. E _preciso u.~ trabalho de reconstituição para que essas 111cs nao sejam defiruttvamente silenciadas. ~ trabalho de Maya Pedrosa é um toque de clarim para as flllloridades que em boa hora decidiram revitalizar Jaraguá. Mostra 11 quanto se pode realizar também para reconstituir a história social 1h1 bairro. Há muito o que fazer para preservar a nossa memória. E 1111d11 mel?or do que . ~proveitar o momento atual, 0 grande 111prcendm1ento da ed1ltdade, antes que as lembranças de muitos ll11·, que viveram a época dos negócios, da boemia da 11111tl~~iz~ção port~ária local, cessem para sempre. O proje~o de ll'11h1htaçao do Recife velho serve como exemplo para nós. Lá foi r111111ada uma equip_e interdisciplinar com o objetivo de projetar um rla1111:0 ~a~a o bairro, ,resgatando não só seu valioso quadro r11q111tetonico, mas tambem o urbanístico e cultural. Vamos agora à leitura da obra de José Fernando. Vamos ltt tl nrrer as ruas de Jaraguá, contemplando seus prédios, casas e fU 111111,éns, lembrando que nqui viveram homens e mulheres cm 'ª-------
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    diferentes fases dahistória da província. Vamos resgatar a produção de um denso lllÚverso, da vida alagoana, da realidade alagoana. Jaraguá não é só um capítulo da nossa história - como já foi dito, é a própria síntese da idiossincrasia alagoana. Douglas Apratto Tenório, professor aposentado da UFAL, historiador, sócio efetivo do IHGA e da Academia Alagoana de Letras. ( 'orno as doenças e esgotos andavam juntos. No início do século, os médicos consideravam o litoral uma '' 1•1ao doentia e lá estava Jaraguá com suas febres palustres, 1111:rmitentes e biliares, erisipelas, defluxos coqueluches e ainda . ' ' 111hcrculose, varíola e beribéri. Tudo seria conseqüência dos p.1111anos que marcavam a paisagem, tanto os naturais como os t111111ados pelo escoamento das águas fluviais e esgotos, das casas •l'lll fossa que lançavam fezes e urina nas sarjetas a céu aberto, 1t11nção agravada pelas enxurradas de inverno, inundando ruas, q11111tais e pátios, e que foi denunciada por Craveiro Costa na Parte '111 do "Indicador 1902" assim: "Nada é mais prejudicial à 11lstência da população do que o armazenamento de nossas 1•t-reções lançadas·a ermo no terreno." Segundo ele, o ar era viciado, o solo poluído e a situação das 1111ctas simplesmente imoral, podendo-se imaginar o que acontecia l'111 Jaraguá portuário, região alagadiça por natureza. ._, Muitas residências tinham seus poços de água de beber e 1111.inhar ao lado das fossas. Pela água ser incolor, julgavam que era !.11a, mas "o seu uso lhe traz incômodos que são manifestos pela 1 or macilenta e doentia das pessoas". Era preciso também ~ ombater as epidemias palustres através da secagem de todas as .1~uas expostas. Cogitava-se de destruir os resíduos domésticos nas próprias 1 nsas, entregando depois à rede pública "um líquido quase puro 1lt• materiais orgânicos'', sendo este o "princípio mais simpático" que já era adotado nas cidades européias através de reservatórios .a11itários hermeticamente fechados, um em cada residência, sendo "" fossas consideradas "deletérias", apesar de ainda estarem na 111oda. Recomendava o Dr Alfredo Rego, na Parte V daquele Indicador de 1902, um serviço regular de esgotos, a remoção do lixo urbano, o saneamento da atmosfera através de praças 111 borizadas que seriam os pulmões da cidade, arborização, 1rntamento da água, motivo de contaminações, por ineficiência da 69
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    Companhia de Águasde Maceió que era "teimosa e acanhada de cxigêncins de uma capital. que progride a cada dia". Havia clamor popular pela falta de água, numa rede com apenas 900 · ligações, deis chafarizes e uma cai~a de água, tudo entregue a mãos imperitas. Não era por mais nem por menos que Jaraguá tinha um aspecto desagradável. Muito progresso, muita mudança, muita gente trabalhando junta e confinada, trapicheiros, estivadores, barcaceiros no porto, escriturários, comerciantes grandes e pequenos, funcionários aduaneiros, biscateiros, cocheiros e cobradores, carroceiros, raparigas da vida e seus fregueses, os vagabundos 'de rua, os desocupados e facadistas, viajantes e marinheiros querendo viver o início do século, como se tudo agora fosse diferente e prazenteiro, que tinha de ser gozado com sofreguidão. Essa história nos faz lembrar as impressões da raposa andante de Ledo Ivo, em "Ninho de Cobras", defrontando-se com as ruas e sobrados do bairro antes de voltar ao centro da Cidade, onde foi morta a pauladas: "Era como se ali, naqueles sobrados e gradis ferrugentos e nas calçadas tortas e em declive, o homem se tivesse empenhado em construir o seu primeiro e mais resistente baluarte contra o mar e a evasão, levantando um monumento que, mesmo à noite, cheirava a mercância e lucro (...) janelas escondiam o amor e o ódio, a expiação e o terror, o adultério e a sodomia (...) e dia e noite os relógios marcavam o fluir do tédio e da espera insensata (...) nas portas cerradas das fachadas leprosas, que o vento do mar fora ulcerando, jaziam sacos de açúcar de banguê e de cebola, fardos de algodão, aguardente, milho, coco, fibras têxteis ..." E assim Jaraguá recebeu o Século XX. Por muito tempo não seria tão diferente, porque novos agentes modificadores do ambiente só chegariam quarenta anos depois - a guerra, o Cais do Porto, as estradas, a industrialização do País, o aumento do consumo e da produção do açúcar apenas pelas centrais, com a trnnsformação dos engenhos em usinas, gerando a demolição das pontes e dos trapiches, fazendo uma recomposição geral do 70 t 'omércio, o Governo Federal metido nas exportações, como se 11vcsse passado no bairro wn furacão modemizador. E a paisagem , nmeçou novamente a mudar, terminada a fase de Manoel Antônio 1luro quando ergueu a primeira casa precisamente na Ponta de lnruguá, por voHa de 1609, e a dos trapiches e suas pontes. e'coto e cinqüenta anos de uma obra feia escoando riqueza. Olhando bem, Floriano Ivo Júnior tinha razão quando 111mparou as pontes de trapiche a "impassíveis lagartos colossais ,. tirando-se pela praia e mar adentro" (em "Crônicas e 1>cpoimentos''). Podemos dizer que era como se estivessem tomando banho d'ligua salgada, de sol e de lua, comessem bacalhau, secos e 111olhados e vomitassem açúcar, algodão, fumo e toras de madeira, 1111 mando uma exótica ecologia entre os seus pilares, na sombra p~nnanente dos estrados, local de vícios, das necessidades t1Hiológicas, dos urubus disputando detritos, carniça e lixo, peixe 1r.1t,tdo apodrecendo junto com cachorros, galinhas e gatos mortos, 111111hirus, guaiamuns, grauçás dorminhocos, lagartixas e cassacos. Sentia-se, como escreveu seu irmão Ledo Ivo: o "odor de t•vnsão e maresia (...), lixo acumulado como de fedor de poliédricas e gosmentas defecações ... ", que se transmitia para hdo o bairro, terra a dentro. Era o cheiro de Jaraguá, vindo da p1aia, misturado ao dos trapiches e armazéns e suas mercadorias, l hciro quase doce pelo açúcar que o temperava, e que penetrava em 111<10, " ••• entranhado nas pedras das ruas, nos retratos dos 1mtcpassados (...), prostitutas degredadas (...) , nos estribos dos houd~s, no hálito dos despachantes, nas platibandas dos !tOhrados, nos azulejos das igrejas, nas paredes sujas das casas 11ue abrigam aranhas e lacraias (...) até mesmo na alma das t•1·inturas". jE lá estavam os trapiches, avançando "para o mar em estacas "'·de-negras que, presumivelmente, haveriam de entrar para a rternidade com sua imemor,vel solidez".
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    Jaraguá dos trapichese de suas pontes teve início na segunda década do século passado, acabando com a prática do transbordo de carga na praia, como se fazia na época de Manuel Antônio Duro, no contrabando, no descaminho e no comércio de pau-brasil. - Ponte do Trapicbe Jaraguá, de Leão e Cia, 1919, desenhada pelo autor. Trapicbe Jaraguá e sua ponte, de Leão e Cia, 1919, desenhados pelo autor. Como vimos, foi a Revolução Industrial na Europa que permitiu tal mudança, pelo aumento do consumo de algodão, 72 li íacar e fumo, matérias primas das fábricas da Inglaterra e da l•annça, e o aparecimento da força a vapor dos guindastes, dos 1111vios mais rápidos propulsados por hélice, e dos troles Decouville 11hre trilhos de aço, a transportarem as mercadorias dos trapiches pura o porão das alvarengas, ou delas para os trapiches e armazéns, 1llntvés de atracações nas pontes, dando-se assim continuidade ao lluxo de comércio. Algumas pontes eram cobertas de telha ou folhas de zinco, pn1edes de alvenaria ou madeira em longas áreas protegidas, onde -.e estocava toda espécie de mercadorias acima das pontes de pAlafitas de grossos troncos de massaranduba e sucupira para depois embarcá-las nas alvarengas, obra sem elegância e beleza, i.:i11zentas ou negras, descuidadas, edificações "monstrengas (...) nota dissonante na beleza harmônica de nossas praias", na imagem de Rita Palmeira na revista "O Natal" de 1943. Ponte de Goulart e Cia, 1919, trecho desenhado pelo autor. Outros trapiches e pontes eram mais pobres, como se fossem 111scridos na escala social de seus próprios donos. Algumas não tinham cobertura, eram singelas e pelo menos não enfeiavam tanto 11 paisagem, reduzindo-se a simples plataformas dos vagonetes e ~cus frilhos. Outras eram simples demais, como a Ponte do Sabão, de Loureiro Barbosa e Cia, a única voltada para a Pajuçara, ou a Ponte de Desembarque construída por Hugo Wilson em 1870. As maiores chegavam a ser imponentes como a do Trapiche Jaraguá dos Leões, a primeira de todas, vista desde longe, coberta. alta. larga e comprida, no topo da hicrur.~q~u:iª:·--~---~--~-----;:-
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    Trapiche Julius VonSohsten e Cia, ponte · descoberta, 1919, desenhado pelo autor. Ponte do Sabão, de Loureiro Barbosa e Cia, 1919, descoberta, desenhada pelo autor. Ao fundo, a fábrica. " Segundo Félix Lima· Júnior em "Maceió de Outrora", . o primeiro trapiche (com sua respectiva ponte, certamente) foi construído p~lo português José Antônio de Aguiar, o mesmo que morreu de susto ou de enfarte ouvindo os gritos da multidão no "mata marinheiro" de 1831, quando se refugiou na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, a velha, por ele mandada construir também. Este primeiro trapiche era o "Velho" da planta de Momay,, 11.lndo o ''Novo'.' surgido pouco antes de 1841, seguido do Trapiche Faustino, o terceiro deles, construído por Faustino Fogaça da Silveira. No Desenho de Muller, datado de 1869, como vimos, já 1tpmcn:m quatro pontes e é bem possível que esta última tenha sido 110 l 111pichc Segundo. Na opinião do nosso Félix, havia em 11 lem•MUá, no ano de 1896, apenas quatro lrapicbcs: Segundo. Novo, '"r"Mná e Faustino, podendo ter havido mudanças do suas d~11on1inações ou alguma demolição. No Desenho do Almirantado Britânico, também "from the 111 i>rnge", um ano depois, 1897, há cinco grandes trapiches e 1111ntro pontes, inclusive a Ponte de Desembarque, ~~~ ~an_s?ord~ til' passageiros, demolida em 1943, depois de 73 anos de vida t11111úntica e operosa. ~ A Em 1902 havia outros cinco: Bandeira, Dois Irmãos, Pholman, 1'1·1cira Pinto e Williams e Cia, tendo alguns deles sofrido mudança 1k proprietário e de nome. Observa-se, então, que, em cinco anos (1897-1902) dobrou-se o número de pontes, no enorme progresso n 011ômico de Alagoas, tendo em Jaraguá o seu pulmão . Outras 1111un1 cedo demolidas por imprestáveis, como a de Pholman e Cia, w1 19~7, e todas porque se tomaram inúteis com a construção do l1111lo de Maceió inaugurado pelo1~esid~ri.te_Vargas, em outubro de l1>·10. A ponte do Trapiche Faustino foi demolida em 1953, mas llt'Oll na Históna porques erviu para o desembarque de Dcnn Pedro -- - ~ 11 t• da I~peratriz Th~za_Ç~is!ina no Ano Bom de l859. )(_ Um mapa de Maceió, ano 1932, dá um retrato do apogeu desta piliSagem com nada menos de onze trapiches e suas pontes. E o 1·111·0 leitor poderá saber do local de alguns dos trapiches que se 11ulvaram e estão deformados pelo modernismo. · O T~apiche Jaraguá saía pelos fundos do seu armazém que lá ; ltl' encontra, logo no início da Avenida da Paz, último da Sá e Albuquerque, com os fundos para a praia, em cujo final está urna dl•pendência de dois pisos, local do famoso Consulado Britânico, 1 c1'lamente preservado por ter pem1anecido '"i1as mãos de uma l11mília conservadora e de apurada visão social, os Leões de Utinga. Segue-se o Trapiche Segundo, cujo letreiroainda por lá existe. l'lll sua fachada velha e carcomida, que nos comove somente ao olhar. O Trapiche Faustino saía de trás do armazém do mesmo uome, ou seja, daquele prédio do Bradesco. O Trapiche Novo tem i11fcio no Banco do Brasil e termina no extinto Produban, o maior, mais harmonioso e conservado de Jaraguá, porém um tanto "modernizado". 75
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    • Jaraguá, 1932, seustrapicbes e pontes, visão topográfica de uma gravura época. Da direita para a esquerda: Trapiche Jaraguá, Trapicbe Seguod Trapiche da Alfândega, Trapicbe Faustino, Trapiche Novo, Ponte d Jaraguá, Trapicbe Williams, Trapicbe Pohlman, Trapiche da Grea Western e um trapicbe não identificado. o mais à esquerda. Trapicbe Novo, 1925. Armazém de Goulart e Cia, 1919. O trapiche da Firma era o Segundo. Trnpichc de Williams e Cia, 1919. Armazém e escritório de Rosa e Borges e Cia, 1919. Casa Suissa, 1919. 77
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    .lscritório de Williamse Cia, 1919. ArmaLém de lona e Cia, 1919. 78 Armazém de Loureiro Barbosa e Cia, 1919 Armazém de Julius Von Sobsten e Cia, 1919. Armazém de PC Vilela e Cia, 1919. • " ·ritório de Peixoto e Cia, 1919. Oh~: Todas as ilustrações de armazéns e trapiches nesse ano de 1.919 foram 1111hllcndas em "Tbe United Statrs of Braúl", "Tbe Soutb Amcrlcao hth'lligtncc Co''. 1919, Londres.
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    A Ponte deDesembarque, já demolida, tinha início entre o atual Museu da Imagem e do Som e o extinto Produban, numa construção de bom gosto com três entradas sem porta, e em cujos fundos começava o estrado sobre pilotis metálicos até um galpão elegante, coberto com aprumo, de onde desciam as escadas para transbordo dos passageiros, tudo infelizmente demolido. Dali, via- se em terra a.Estátua da Liberdade, por trás da Recebedoria, aquel~ que migrou por algum tempo para a Praça Manoel Duarte e a que ninguém dá hoje a menor importância. Mais para o norte, pode-se identificar o Trapiche da Great Westem para dentro e na curva que a linha de ferro faz para entrar no Porto de Jaraguá. A Ponte do Sabão foi a que mais resistiu ao tempo, ficando como monumento ao passado ainda há poucos anos no início da Pajuçara, comido aos poucos pela maresia e soterrado pelo incrível assoreamento da enseada, mostrando para a meninada um passado que se perdia. E outros trapiches poderão ter sua posição reconstituída entre aqueles prédios que existem desde a cui:a da rua Epaminodas Gracindo, antiga do Araçá, até a Praça Dois Leões, e que lá estão relativamente conservados. . O pecado vivia bem na Sá e Albuquerque, pior nos becos e ruas do Duque, Verde, Urubu, mais para dentro, muito pior pelos fundos dos trapiches até a beira do mar, por baixo das pontes, ondç se escondia tudo, desde a rapariga rampeira aos que praticavam o sexo exótico na escuridão e no disfarce de uma floresta de troncos e debaixo de tetos enormes, tendo como piso a areia salgada nem sempre limpa pelas ondas do mar. . Muitos freqüentadores daquelas paragens eram gente ~port~te, alguns recém-saídos dos bailes da Fênix, rondando por ah movidos pelo apetite de suas perversões ou preferências sexuais. E era uma tradição antiga, como assinalou Félix Lima Júnior em "Maceió de Outrora'', assim: " ... certos cavalheiros, apreciadores da lua cheia ou imitadores de Bilac, costumavam ouvir "ti" . .es re as nas nmtes escuras e passeavam debaixo das pontes dos trapiches de Jaraguá verificando se alguma baleia ou algum peixão qualquer havia dado na praia ...", gente que foi pnra a Ponte dõ Sabão ou ruínas da Igrejinha·da Ponta Verde quando os trapiches foram demolidos, ou "passaram a se 80 rtunir à doce e convidativa sombra do Gogó da Ema e de oulros coqueiros da família Zu ...". Nas madrugadas boêmias, as raparigas que ficavam em l111nguá, enquanto as companheiras iam até o Catolé com seus f1t'Kueses ricos, costumavam tomar banhos matutinos de mar por h1mco ou entre os trapiches, e alguns curiosos escondiam-se por trás 1111" estacas num anfiteatro clandestino. Os trapiches e pontes marcaram cento e cinqüentª anos a pulsagem de Jaraguá, no desfolhar interminável do calendário. / IMuma coisa restou de sua arquitetura um tanto bizarra e urnas 111111cas histórias ficaram além das que foram levadas para o túmulo .11111 seus protagonistas. Como não podia deixar de ser, a humanidade dos trapiches era L'll(Ótica, desde o administrador melhorado, ou do proprietário 111stocrata, até os arrtimadores, trapicheiros, estivadores, vigias, up~radores de guindaste, barcaceiros e marinheiros de alvarengas 1111l1cadas que se defrontavam com enormes portas corrediças. Os trapicheiros, vistos de longe, pareciam um formigueiro em 111ividade. Todos eram da mesma cor, faziam movimentos iguais, 1ttl mesmo sentido ou no sentido contrário,·laborando sem parar, Ageis e irrequietos, como se alguma coisa os fizesse agir por 1111tomatismo. Vestiam calça curta até os joelhos, invariávelrnente ilt 111botada, com um bolso grande embutido do lado direito e às v 1.cs surgindo depois da boca, de peito nu ou com uma camisa de itnco de· estopa furado em três lugares, um deles no centro para l'lllrar a cabeça e ficar mostrando a nuca, clavículas e parte superior dn busto, os outros dois eram para os braços, mostrando os ombros, l'l'Çn folgada por inteiro e chegando por baixo da cintura. Na l 11hcça, um turbante de pano enrolado para proteger do peso dos 111cos e fardos, um lenço à moda dos piratas ou simplesmente o 11111 o dos cabelos encarapinhados, sempre melados de garapa e suor •nlgado do corpo. Eram os trapicheiros "internados" que trnhalhavarn "fixos", recebendo financiamento dos patrões no 1( rmino da safra para não fugirem antes de chegar o açúcar do wnlo seguinte. Na safra, eles trabalhavam duro e sem parar no trnnsporte braçal desde os trens da Great Western, caminhões " carroças até os trapichcs, ou ainda dos trapiches para os 81
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    caminhões e carroças,em grupos de vinte e quatro a cinqüema seis, dependendo do tamanho da firma, divididos invariavelme em "temos" de oito. Enquanto isso, faziam sua própria comida em panelas de b fumaçando por trás dos trapiches ou na sombra das ponte colocando nelas o que traziam de casa - um pedaço de charq duas mãos de feijão, algum maxixe, colorau, couve, jerimum uma quarta de toicinho, às vezes tripa frita, bucho de boi ou um de porco salgado. Para o trabalho noturno levavam o seu lanche pão crioulo com mariola embrulhado em papel de jornal, que vezes nein tinham tempo de comer. Quando a carga era muita e o navio tinha que zarpar log emendavam a noite no dia, não se sabendo até hoje on arranjavam tanta energia e disposição para agüentarem aquel repuxo, mesmo comendo carne três vezes, café, almoço e jantar. Como o exportador era obrigado a beneficiar o açúcar, ne todos os trapicheiros ficavam no carrego dos sacos o tempo todo Em levas de turno, retiravam o "bruto" dos sacos para espalhar tud no sol numa área cimentada por trás dos trapiches, onde deslocava o "boi" que era um rolo compressor de ferro, empurrad para lá e para cá, quebrando os torrões e transformando tudo n pasta úmida e pegajosa, depois seca pelos movimentos continuado das pás virando o produto, para ser depois novamente ensacado e pesado, na mesma balança romana, em sessenta quilos para exportação. Em alguns tipos, classificados com os nomes de cada firma, havia mistura de mascavo com demerara, constando no papelório dos despachantes, nominados nos escritórios comerciais, nos bancos e nos importadores de fora, criando fama, preferência e novas freguesias. Depois de ensacado, o açúcar era colocado nos troles e empurrado na rampa por dois ou três homens até a ponta do lrapiche, naquele "pa, rá, pra, pá" que se ouvia longe. E, no fim da ponte, vindo nos mesmos troles para os armazéns, chegava o açúcar das barcaças que, na pequena cabotagem, transportavam o produto desde os engenhos até Jaraguá, para preparo, reensacamento e cmharquc nos navios. K2 No final das pontes também estavam atracadas as alvarengas e ""11ças menores esperando carga ou descarregando. Mas, quando t 11111ré estava seca ou a carga era muito pesada, os guindastes 111.w:un em trabalho porque ficava grande a distância entre o cais di- ponte e o convés para embarque. Não era só o açúcar que transitava nos trapiches. Havia o •h1111ldo em fardos de noventa quilos, os pacotes de carga geral, de h.tl1tlhau, fumo, couro, mamona, lã, madeira, cigarro, tonéis de ml.u;o de duzentos litros, parafina, tecidos e algumas cargas Ofll11cs que exigiam trato cuidadoso como louça e perfumaria, ~111111do os fiscais de turno, administradores e contratantes tPil11bravam o controle dos trapicheiros para que não houvesse &1111•lw~ nem no peso, nem na quantidade, nem avarias nas fllllwlagens. Curiosa diferença havia entre os trapicheiros, hoje chamados li .irrumadores, e os homens da estiva. Como diziam eles mesmos, (1 trnpicheiro trabalhava em terra enquanto o estivador ficava nos tlhvtos, embarcado, arrumando ou aprontando a carga para 111•.,l·mbarque, metido nos seus porões ou no convés. Era por isso 11111· se costumava dizer que: "Quem trabalha embaixo não 1111holha em cima." Muita gente dizia também que tuna loita de ~ 11110 e quatro homens fazia melhor que se fossem trinta e dois l111halhando, numa exótica matemática humana. Volta e meia um rebocador fumacento dava chegada e levava p111a os navios ao largo duas, três ou quatro alvarengas de uma vez, ill' lá transportava outras tantas para atracar nas pontes, às vezes 1!111c11do mercadorias importadas. Na loita havia agitação e gritaria. Lá para dentro ficavam o 11d111inistrador, preposto do proprietário do negócio, e um mundo de wr11tc, como os contratantes e fiscais de turno, os "zangões" que 1111,iliavarn os despachantes colhendo amostras e pesando as 11wn.:ndorias chegadas ou para exportar, anotando tudo para o l'"f'Clório. Nas portas dos armazéns ou escritórios, juntavam-se os 1111l!tores, agentes dos intermediários, como se fossem numa bolsa <lc valores ao ar livre, ou dentro dos trapiches da Sá e Albuquerque 1 dn Barão de Jaraguá, negociando, adquirindo o açúcar para 83
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    depois vendê-lo aosexportadores do bairro. Nos escritórios ficavam os empresários da exportação quase nunca apareciam nos armazéns e trapiches porque o trab braçal não combinava com eles, num ambiente grosseiro, cheiroso, pegajoso, azedo, com abelhas pelos ares e pousando cima dos sacos ou no chão onde meia polegada de um tapete d de areia e melado formava uma massa adesiva e quente, como resto todo o ar que se respirava. Mas havia os armazéns de secos e molhados que eram limp anumados, onde as cargas chegadas e saídas nos troles ficav colocadas em pilhas ou lotes definidos, num visual agradável. Nos escritórios se faziam os negócios e se administrava' ambiente mais refinado de escriturários, contadores, geren comandatários, afora os serviçais da limpeza, os que dav recados, despachavam correspondência e faziam mandados. Muitos anos se passaram nesse lufa-lufa de armazéns trapiches, carroças, trens chegando do Vale do Mundaú, caminh chegando de Murici, União, São Luiz do Quitunde e Ç.amaragi portos e barrancas de rio, navios ao largo pegando açúcar alvarengas em meio de barcaças, rebocadores, trotes, guindast catraias. Até que um dia chegou uma nova onda de progresso ji com a guerra e a constmção do cais do porto. t Os caminhões vieram em quantidade, substituíram as carroç ficaram maiores, as estradas melhoraram, as cargas movimentar se direto para os navios atracados e chegou forte e poderoso o - lnstituto do Açúcar e do Álcool com seus enormes armazéns p um milhão de sàcos de demerara de exportação, construídos Avenida Maceió esquina com Santa Leopoldina, -enquant adormeciam os armazéns antigos, mudavam de ramo quase todo os exportadores, o açúcar deixou de ser preparado naquela faina d ''boi" e da pá, enquanto morreram também os banguês, cresceram as centrais açucareiras e o -Governo passou a cuidar de tudo isso, até mesmo do comércio. Era o ocaso dos trapiches e pontes e o surgimento de Jaraguá segunda metade do Século XX com o C~is do Porto, depois o Terminal Açucareiro, Píer Petroleiro, tanques de petróleo gigantescos. ~~ . 84 1h1s trapiches não se ouve mais falar. Um ou outro velho u 1il111 do bairro, algum trapicheiro ou barcaceiro aposentado 11ul.1 m1 memória a movimentação da humanidade de Jaraguá até 1 11.0 superada, naqueles anos de muita vida, sofrimento e Ah ,11io. Continua a loita do porto, mas ninguém da rua sente a h11111o1111dade da estiva e da resistência, porque ficaram longe e 1111dns as áreas de trabalho, lá pelos lados da cabeça do cais, os --------------------------------------------------------------------- Cumo uma obra serve ao riso e ao choro. Longa e estreita como um caminho suspenso sobre colunas de ti 11 o e estrado de madeira, lá estava a velha Ponte de Jaraguá, cuja 111.111Huração ocorreu no dia 7 de setembro de 1870. O fato ,, 1111lcceu depois de longos esforços dos governantes anteriores, 111.1'1 afinal foi José Bento da Cunha Figueiredo Júnior quem a 111.111dou construir pelo Engenheiro Hugo Wilson. Diziam que era h1111ila e que enfeitava Maceió logo em sua entrada. Fim1ou-se umo um ponto de reunião da sociedade, ricos e remediados, em 1111110 dos que se despediam ou chegavam de longas viagens 11u1rítimas que sempre acabavam por mudar suas vidas. Ponte de Jaraguá, 1925. Fotografia retocada pelo autor desse livro. Distante umas quatrocentas braças da Ponta de Jaraguá ou da Escola de Aprendizes Marinheiros, ela começava ao lado da u..c
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    Recebedoria, antigo Consulado,e do Trapiche Novo e se adentrava pelo mar até umas cem braças na maré baixa, muito próximo da Estátua da Liberdade que dominava o cenário da praia. Por ocasião de seu desmonte em 1943, deixou duas dezenas de colunas de ferro plantadas nas areias da praia como monumentos retos e escuros, desmoronando aos poucos pela ferrugem ou sendo aterrados pelo violento assoreamento que chegou com o cais do porto represando as correntezas do mar. Hoje, no mesmo local, estão os barcos de oceano e lanchas em carretas de encalhe, próximos da entrada do Porto de Maceió. Quando foi enfim demolida. chegou a comover Rita Palmares que escreveu na revista "O Natal" daquele ano " uma peça que viu passar pelos seu lastro tantas aspirações, tantas saudades, tantas emoções(...) e também tantas alegrias". Eram os noivos que viajavam cm busca de situação melhor. bacharéis que conseguiam cargos de promotor e até de juiz no distante Pará, jovens aventureiros que iam sentar praça no Rio de Janeiro. estudantes nos colégios e faculdades da Bahia e do Recife ou até mais distantes, deixando lágrimas "sentidas e sinceras"; Era uma velhinha mãe acenando lenço ensopado de lágrimas para os lados do filho querido que, descendo as escadas da ponte para o bote, olhava para cima quase a chorar, sofrendo assim para um dia "ser gente, fazer figura". Muitos saíam da província num clima de desconfiança, um desfalque em que ficaram suspeitos, um defloramento onde não queriam casar, uma dívida muito atrasada, uma acusação qualquer de conspirador numa daquelas arruaças, uma briga com o pai. Mas sempre lá estavam as mocinhas, noivas, amigas, irmãs, primas chorosas, despedidas, flores, corações partidos, independente mesmo do motivo da viagem. Nem sempre os vapores fundeados ao largo levavam saudades. De lá chegavam os viajantes, a remo. lentamente, em direção da plataforma de atracação da ponte, chapéus nas mãos em aceno, cabeleiras ao vento. retomados ao convívio. Em cima. esperando, corações aos saltos, as mocinhas não tiravam os olhos do recém- chcgado, o parente ou noivo diplomado doutor (vocábulo pronunciado com emoção). 86 co... Çt.J.J • 1 Quase rotina, iam e vinhflm os políticos, scmpro bem vc!'itldo!t, AM vc1.cs de fraque e cartola, para conseguirem no Rio de Janeiro u111 "reconhecimento de poderes", cansados de tanla campanha, atas flls11~ e duplicatas de Câmara ou Senado Estadual seguindo no ur.·11110 navio dois eleitos e diplomados para cada vaga no l 1111wesso. As vezes vinham em férias parlamentares para reverem o ;h-1lorado e a família no fim do ano. Era quando gemia o 111111lclrame sob os passos dos "chaleiras'', cabos eleitorais e amigos. 1 11 110 rol da ponte, guarita de zinco que abrigava os 111111111ngeiros de um sol causticante de dezembro ou de uma fria thuva de agosto, era logo promovido o primeiro discurso", t »undo Rita Palmeira. ,Imagine-se, irrompiam as manifestações sinceras ou insinceras: - Viva o Senador Clementino ! gritou um animador. - Alagoas se sente orgulhosa aos pés de seu filho ilustre e l11victo! verberou um cabo eleitoral de Penedo. E até hoje ninguém sabe se.o nome da Ponte devesse ser de l 111barque ou de Desembarque. Os que gostavam mais da alegria '"' chegada chamavam-na de Desembarque, mas a maioria preferia 1 denominação de "Ponte de Jaraguá". Tomou-se inútil, não pelo 111vclhecimento que até mesmo todas as coisas têm, mas porque o 1.1is do Porto permitiu o movimento direto e rápido dos pm111ageiros entre a terra e os navios atracados, cujos capitães até pt'Imitiam o embarque dos parentes e amigos para despedida dos 'lnjantes a bordo. Mas a Ponte era romântica, com o bote a se ui.1star em remadas de ritmo, levando para cada vez mais longe, lh·vagar, o viajante. Tudo era charmoso e combinava com a arquitetura da obra e t 11111 a n;mpagem das pessoas, enfim como se a sua cobertura final, 1111de a .rampa de bagagem e a escada de passageiros terminavam 111111 ondas do mar, fosse um quiosque de Paris, nas margens do ~rna, ou uma estação londrina no Tâmisa. 87
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    --------------------------------------------------------------------------------- Aquelas saudosas máquinasde levar gente. Passou a época dos bondes de burro, cuja concessão d governo já previa a mudança da tração·animal para a elétr~ca, fat que aconteceu no dia 12 de outubro de 1913. A c.oncessao ago era para uma firma particular chamada Companhia Alagoana d Trilhos Urbanos, a famosa CATU, com sócios importantes no comércio em Jaraguá e na indústria de tecidos: os Machados, ot Leões, os Paivas, os Teixeira Basto, sobrenome de um patriar~a e proprietário dos antigos bondes de burro que tantos serviços vinham prestando à Cidade. Mais adiante, em 1931, a "Trilhos Urbanos" passou às mãos ~ American Anford and Foreing Power Co, do Canadá, cuja subsidiária aqui era a famosa Cê-Fê-Lê-Nê~Bê - .cFL:m - Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil que, atr~v~s da Tramway and Power Company Limited, explorava eletnc1dade, telefones e transportes urbanos no Nordeste quase todo. E foi aqui mesmo na Serraria Modelo, na·Avenida da Paz, que os dezesseis primeiros bondes elétricos foram montados e pintados de marrom, depois de amarelo, quando já eram vinte e seis. . _ . Apesar das reclamações, o bonde era uma hgaçao eficiente para o transporte de pessoal na linha Ponta da Terra-Cen~o, passando por Jaraguá, estendendo-se depois até Bebedouro, assim como a "Promotora" servia do Poço até a Levada, circulando no Centro com transbordo para outras linhas. Construía-se, então, a "Jacutinguense" para o alto do Farol. · . Em 1890, a linha de bondes levou 598.768 passageuos pagantes e 29.711 gratuitos por força das d~t~r~inaç~es. legais, certamente soldados de polícia, guardas mumc1pa1s e indigentes. Foi uma média de 1.722 passageiros por dia em 86 viagens de vinte pessoas, num cálculo aproximativo, para que se tenha uma idéia do esforço dos pobres asnos por cima dos trilhos. Em meados do século, os bondes elétricos entraram em decadência por falta de renovação dos equipamentos pela "Força e Luz,, que já previa a concorrência avassaladora do ônibus. Havia uma campanha contra os atrasos e élescuidos da Companhia que em 88 11nda correspondia à proverbial pontualidade e limpeza dos cnnadenses. Foi feita também uma campanha popular liderada pelo Vereador Paulo Pedrosa para que não acabassem com os hondes, mas eles desapareceram de vez, deixando saudades de uma pnisagem de tantos romances, jogos de futebol entre CSA e CRB 110 Mutange e na Pajuçara, Dia do Estudante a 8 de agosto, l'Onvivência social sobre trilhos, encontros e desencontros. 1nmbém atropelamentos e mutilações, tiros e facadas, figuras lolclóricas de seus motomeiros como o Bernardino, o Dezessete 1número de seu quepe), Catuaba e Pedrinho Colírio, depois zelador do Garagem do CRB, e que, num dia de março de 1923, perdeu o l·ontrole de seu bonde na Ladeira do Brito e entrou na primeira casa tio Beco de São José, indo quase até a sua cozinha. E mereceu a l''lcandalosa manchete de "O Bacurau" de 7 de abril : "Bonde Versus Casa", revelando que o dono do imóvel se chamava Antônio Bento Coelho e que a CATU o processaria por ter l onstrufdo residência bem ali na curva final da ladeira, quando 1h.:via respeitar a possibilidade sempre presente de um tlescarrilhamento ou perda de freio dos bondes! Era como recordou emocionado o nosso Luiz Fernando, filho ilo Velho Félix, o Dia do Estudante: " Nossa, quantas saudades: nós meninos nunca saíamos, vez que três xerifes dominavam: c;craldo Mota, Hélio China e um homão estrangeiro, um tal de Urnyner (filho do Major do 4QRAN) ." Como disse, até sabão 1 olocavam na subida do Brito para o bonde "ir voltando, 'Oltando, voltando ..." Seria uma pretensão escrev.er sobre os bondes sem consultar 1'1oriano Ivo Jr em suas "Crônicas e Depoimentos". Ele é um r'lpirito de bondade, alma exuberante, cabeleira branca e leonina, hnnspassada por óculos de fundo de garrafa que fazem de seus olhos verdadeiras bolas de bilhar brancas e percutentes. Veremos rutilo o bonde das doze com a estudantada do Liceu, do São José e tio Diocesano, turminhas de mancebos, geralmente no reboque, ~ntpinhos de lindas mocinhas - hoje elegantes senhoras da 'locicdade - ali na frente, bancos uns virados para os outros, falando 1 umo periquitos irrequietos, mudando de lugar, levantando mnas, 'll'lllando-sc outras o tempo todo cm cochichos e sorrisos, ílertando --~-
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    mais do quea namorar. Vamos ainda mais para trás no tempo dos bondes de burro e que os mortos ilustres eram sepultados na Piedade depois uma viagem fúnebre naqueles carros negros passando na Rua Alfândega, decorados com "cortinas de crepe e uma eça fori:ada de veludo ao centro para o esquife", como ele mesmo, Flon Ivo, escreveu, os acompanhantes, homens vestidos de preto (OI mortos daquela época eram mais chorados) deixando as m~lh~rea em casa ou na igreja rezando e chorando com as carp1deuas, crianças afastadas o mais que fosse possível do defunto. Mas os pobres que não tinham como alugar bonde, transportavam seus mortos a braço ou em carroça de burro em longos cortejos até o Cemitério de Nossa Senhora Mãe do Povo, um sítio que, há anos atrás, era uma praia. E lá os deixavam,em paz deitados para sempre no areal quente transpassado pelas ra1zes do coqueiral em volta das sepulturas. Veremos também passarem os bondes de segunda classe, com bancos laterais e espaço central, mais feios e no entanto mais engraçados, com suas lotações completas da criadagem, traQicheiros, prestamistas, gazeteiros, estafetas da Western, contínuos, guardas-civis, raparigas da vida fácil, soldados rasos, carregadores, biscateiros, vendedores ambulantes com suas mercadorias: patos, galinhas, perus, latas de sururu, caranguejos, peixe, embrulhos disformes com carne de porco, ganchos com toicinho pendurado, verduras em cestos, legumes e frutas, sarnburás, rolos de fumo, sacos de estopa, quinquilharias. E, por isso: - Lá vai a gaiola da CATU !, diziam. Se tomássemos o bonde desfilaríamos pela Sá e Albuquerque e entrarían1os na Avenida da Paz, felizmente já distantes do cruzamento da linha com a Great Westem, onde havia o perigo da cancela aberta para a composição prestes a desfilar pelo cruzamento da rua, instantes depois levando o bonde de lado e fora dos trilhos, gritos das mulheres, gemidos dos machucados. . , Mas chegamos incólumes perto da curva que nos levaria a ponte sobre o Salgadinho, na Praça Sinimbu, e escutamos algJ.ns gritos: - Olha o poste! Olha o poste! Cuida do coco! 90 l 111 um poste que, fincado durante 111111tos anos no meio-fio, esperou e 1•111:ontrou o crânio de vanos 1m nulos e distraídos, pendurados 11•1 c::.tribo, que foram dormir no 11 1onto Socorro com as pernas 1 111 tadas ou no Cemitério da l'1cdade com os pés juntos. O pl•iigo ficava plantado a um metro d.1 linha e a poucos centímetros pl'lus costas dos "morcegos" como 1pclidaram os pingentes •tl llmulados e pendurados uns .obre os outros nos estribos, 111oçcegando". I Cenas como essas inspiraram a irnaguldl(âo popular para ouíta~ l11~tórias incríveis e difíceis de acreditar, como a do movimento das l11boas que fonnavam os bancos, abrindo espaços momentâneos rntre elas, beliscando e prendendo dedos, gorduras e partes pr oeminentes do corpo dos passageiros do sexo masculino que 11 avam calças mais folgadas. Naquel& curva da Rua do Araçá para a Sá e Albuquerque, 111uita gente tinha os testículos amassados por não escutar ou não ncreditar nas advertências do povo: - Olhe a curva! Olhe a curva! ·------------------------------------------------------------------------------- e) fim de um veículo antigo e o surgimento de um novo. Quantas carroças giravam em Maceió dos anos c.inqüenta? lJns dizem que eram mil, ou até mais; outros que eram quinhentas e tantas não se sabe ao certo. Elas circulavam em toda a cidade, desde Bebedouro e Fernão Velho até Cruz da Almas e Garça Torta com aquelas rodas l'llOrmes e aro de metal fino, chegando em Jaraguá desde o 91
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    Trapiche da Barrae da Levada, trazendo invariavelmente dez sa de açúcar de sessenta quilos ou seis de cem, até os armazéns onde carroceiro manobrava pela rampa, descarregava e saía l'ogo e seguida. De um vagão de trem ou de um armazém mais distante, carroça ..puxava" açúcar para outros trapiches de Jaraguá, ou p embarque na Pajuçara. Nos terrenos em volta dos trapiches, como aquele em frente depósito da Sambra, próximo da linha de ferro e da Estação Great Westem, pelos fundos dos trapiches da Sá e Albuquerque, o em qualquer outro lugar, lá estavam elas esperando a ve juntinhas, para carregar ou descarregar, seus muares balançando rabo, naquela paciência de sempre, ajudados pela viseira q limitava a comunicação lateral entre eles. Os carroceiros, e grupos ao lado ou mesmo sentados na própria carroça ou pel meio-fio das calçadas, com os relhos no colo ou por cima d ombros, chapéus de palha defendendo o crânio do sol forte, fac queimadas pela herança genética ou pelas vidas que levavam a cé aberto. Quase não se podiam distingüir umas carroças das outra senão pelos pequenos sinais diferenciativos, pelo animal que tracionava ou pelos seus carroceiros, porque eram quase iguai entre si. Porém, quem as conhecesse bem tinha ciência de se proprietários possuindo cinco ou dez - as carroças do Paiva, carroças do Sadoc, as carroças do Atahyde (este um homem d dinheiro), as do luzinha, sendo comum que o carroceiro fosse próprio dono delas. Mas eis que um dia qualquer, logo depois da guerra, percebe se que os pequenos caminhões que traziam o açúcar do interio também serviam para "puxar", e as carroças foram condenadas morte. Por isso, fizeram os carroceiros um protesto e pedidos aos donos do comércio, mas depois se confonnaram com o destino inevitável que tiveram. Alguns donos de carroça conseguiram ajuda dos amigos endinheirados como Mauro Paiva, Tércio Wanderley, os Leões" Brasileiro Galvão, os irmãos Borges, e compraram um ou dois cominhões, dentre eles o Sadoc, o Paiva, o Mátio Beleza. Muitos fornm sufocados, mudaram de ramo, pegaram cargas diversas por C)l 1t1tlll a cidade, mas sempre reclamando: - Vão acabar com as carroças e nós vamos morrer de fome! Um daqueles caminhões Ford, Chevrolet, Dodge ou Studbaker ll vuva setenta sacos de açúcar em duas pilhas de trinta e cinco, t•paradas por um intervalo por onde os ajudantes penetravam com "111ochilas," furavam os sacos e dele subtraíam dois ou três quilos, 11 que fez os exportadores detenninarem que a carga fosse arrumada 1·111 uma única pilha, depois aumentada para cem sacos, ou até l l' IHO e vinte. Modernizadas com pneumáticos de automóvel, ficaram as 1 111roças até hoje para contar sua história, pegando cargas de qualquer espécie, atrapalhando o trânsito sem sofrerem os insultos dos motoristas, no meio dos carros, ônibus, caminhões e enormes .1rretas, como se fossem espectros simpáticos, pacientes como o l .irroceiro e o burro, ambos com cara de humilhados pelo seu atraso ll'cnológico. Seria possível dizer: - Morreram e não os avisaram ainda. ··-----------------------------------------,---------------------------------- l>a loita na Rede e de como assinavam carteira. De um cubículo onde funcionava o escritório da Great Wcstem, no "Trapiche da Rede", surgiu um funcionário com as 11111os em forma de cometa diante da boca: - Olha aí, rapaziada, o SS 1 partiu de Maceió! Na plataforma havia um aglomerado de gente banhada pelas h11.es mortiças que penetravam na penumbra da noite, entre o vão e o interior do trapiche. Eram os "ternos" de trapicheiros espalhados no longo do alpendre que defendia a plataforma da chuva e do sol. Lá estava também, erecto como um poste, o Contratante 8apucaia que fazia revista de uma ponta a outra da plataforma lotando aqui e acolá com ,os fiscais, tomando nota dos homens, liCparando em cada caderneta os contratados dos que eram "camisa hrnnca" ou biscateiros,da safra. Na verdade, já estava preparando a folha do sábado que nada mais era do que o somatório do salário mm a produção de cada um, que lhe era entregue de madrugada Ol
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    pelos fiscais. Agoraseria só acompanhar a loita e ver se algum homem não correspondia nem se desviava para conversar fiado no descuido da fiscalização. :'1º primei~o vão de uma porta corrediça gigantesca, ficariam os três últimos vagões do trem, um temo de oito trapicheiros falava calmamente sobre as coisas da vida deles, notando-se logo que eram maiores e mais fortes do que os dos outros grupos distribuídos ao longo da plataforma. Eram do "temo avoador". Ao lado, entre o primeiro e o segundo temos, um pouco afastado, estava o Conferente Lauro Chagas com dois fiscais acertando a descarga do SS 1, disposta numa folha de papel de telegrafista, onde se lia wn memorial em várias vias de carbono: - O SX 458 é o primeiro. Tome aqui ... carrega de São José e União. O SX 401 também. É o segundo. O SX 856 também. Depois de olhar novamente o memorial, continuou: - Tome aqui, do quarto ao sétimo: Campo Verde no Nicho. Veja os números direito. Veja se a cópia tá boa: SX 504, SX 832, SX 032, confere ? Os três do fim ficam para os "avoadores". Carregam de Utinga Leão. Olhe, o SS 2 vai passar na estação antes das nove. Olho nas pilhas e cuidado no atraso. Sentido onde vão botar os sacos! O "temo avoador" só tinha "dragão", uma outra espécie de gente ~ue de~carregava um vagão de 41 7 sacos de sessenta quilos em qumze minutos, enquanto os outros temos pouco iam além da metade. Era tanta a força daquela gente que o pessoal de fora falava de língua solta: . - T~ tudo é maconhado! Mas o juízo não passava de engano ou mveJa, porque entre eles mesmos a fama de muita força era da carne em todas as refeições e feijão no almoço, "sustança" que não tinha igual. O grupo esperava o trem que apitou longo quando fez o cruzamento da Ponte do Salgadinbo, também na Curva do Oi.tizeiro, che~ando em segui.da à Estação, onde parou com aquele ruido soprado Junto com o chiado arranhado dos freios e os passos 94 llijciros do manobreiro olhando a linha, já com o apito na boca, quepe inglês da Rede empurrado na cabeça, como sempre 11prcssado, olhando de vez em quando para trás. E apitou, 11·-;pondido pelos ''triques" de um vagão batendo no outro, depois tlu passar o trem no desvio para os armazéns, surgiu de ré, devagar, desfilando na plataforma com as batidas compassadas e surdas das 111das nas emendas dos trilhos, largando vapor chiado dos freios. E 11.1rou obedecendo ao apito de advertência em silvo curto do 111nnobreiro. Ouviu-se então wn grito: - Vamo lá, bando de macaco! Era alguém do "temo avoador" para os lados dos novatos que compunham outros temos de t.nmisa branca", gente inferior e verde como folha de cajarana no 111fcio do inverno. E correram no rumo das portas corrediças ou husculhantes dos vagões, já autorizados pelo Chefe do Trem. Imediatamente, quatro trapicheiros do temo galgaram da pl,llaforma para o piso do último vagão, onde estavam as pilhas de ·111cos bem arrumados, seguidos por um conferente de prancheta na mflo. Na plataforma estavam quatro "cabeceiros" em linha, prontos pura receberem os sacos. E começava a loita. Em poucos minutos, os homens ficaram com a musculatura r...tufada brilhando pelo suor abundante e os reflexos da luz amarela do armazém, ressaltando as formas de corpos bronzeados, sólidos e h•mbrando gigantes de circo. Pela distância entre o vagão e as pilhas no interior do armazém, que era em média de vinte metros, e pelo tempo de quatro homens descarregarem cada um cento e quatro sacos em quinze minutos, é de se supor que trabalhassem numa média de doze a vinte quilômetros por hora, dependendo se carregados ou retomando. Era l lllCO vezes mais que o passo descansado de um contínuo da Associação Comercial ou de um telegrafista do cabo submarino itnindo do trabalho e indo pegar o bonde no ponto. A cena era de beleza humana invulgar, ao mesmo tempo que nos faz admirar hoje a marca da modernidade, na época do rnmputador, das empilhadeiras e do tenninal açucareiro, cuja ...ithueta vista do mar aberto mais parece a de dinossauros gigantescos lutando. 95
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    Tinham tanto desprezopela força da gravidade e tão pouca preguiça na alma, que se dedicavam, na folga, a curiosas demonstrações em busca de fama, corridas de velocidade dentro dos armazéns carregando vários sacos de uma só vez. como o Severino que se deixou fotografar com dois na cabeça, um em cada sovaco e um nos dentes, somando trezentos quilos. Um trapicheiro conhecido por "Horrível" descolava com os dentes os sacos do chão pegajoso numa pilha de dois metros. O trapicheiro Paraná, vulgo "Foca", um negrão lustroso de um metro e oitenta, que terminou a vida envenenado pela mulher e que comia dois quilos de carne por dia, tinha o máximo prazer de mostrar sua força e agilidade dentro do armazém, pedindo assim aos visitantes que por lá chegavam: - Fique aí sentado, camarada, para ver eu trabalhar. Ele foi o dono do cadáver que Duda Calado, depois de fazer a autópsia em busca do veneno que o abatera, cansou de dizer que se tratava de um esqueleto de marfim. . Havia também o Luiz Elefante, o Cirilo, o Antônio Fidolino, o Pichilau, o Colomi, o Zé Miguel que saiu de Maceió queixando-se de pouco desafio e mudou-se para Recife onde a "resistência" era mais pesada ainda. Lá ganhou wn prêmio especial porque trabalhou durante todos os turnos de um armazém, dia e noite, durante trinta dias seguidos. Não se pode dizer até hoje, e nunca se saberá, como aqueles trapicheiros suportavam trabalhar das sete da noite às cinco da manhã, prosseguindo depois de um café, das oito às treze, sem pararem, durante toda a safra de setembro até abril ou maio. O contratado de carteira assinada tinha a certeza de que, depoi do trabalho maneiro das cargas de inverno, teria o ganha-pã assegurado. Mas o "camisa branca'', que não era "infetivo", semp recebia do Contramestre Sapucaia, todos os anos, uma sent~nç arrasadora: - Vá tirá o inverno. Não tem vaga, seguida de uma frase curta e vagamente confortante: - Volte em setembro, menino. Pode tê um biscaite ... Cada trapicheiro velho tem uma história de como sua carteiro foi assinada e dos desafios que venceu nos arrochos C)( Iniciais da vida. O de Cirilo foi passar um dia e uma noite, jllllto com Fidolino, ill''i~arregando de um vagão do SS 3, último trem da noite, uma 11.1111da velha de charque gordo prensado de Recife, com meia pl)legada de gordura derretida no piso, cuidando para não deslizar e 110ndo os dedos do pé como ganchos, sem parar um instante ll'Cebendo finalmente um veredicto do Contratante Sapucaia: ' - Vou assinar a carteira dele que dá pru trabalho! .u ma outra prova do desprendimento pelo rude sofrer na 1cs1stência" era descarregar pacotes de couro cru que vinham 1podrecendo pelo interior quente do vagão "catacumba". Vá descarregar a catacumba, meu velho, dizia 0 1 nntratante. E nã~ ~a!ia aquele extra depois da loita, quando alguém gritava 111 cio escntono: - Ai~~a ~em um "meio-carro" por aí, depois que a estação ili Mace~o avisava pelo telégrafo que se devia deixar o trem de ulta vazio de carga. Não seria por menos que os tapicheiros novos 1 ·11111~ chamados também de "macacos" pelos mais velhos no -t11 v1ço. E que fossem designados para as tarefas mais complicadas 1111110 aquela de subir numa escada de madeira de seis braças 111 l~cada P~~ cima de um monte de demerara e lá deixar um saco l11fc1ro que Jª subia aberto, como se fosse um bruguelo de jumento 1111 colo para não cair açúcar dele antes da hora, e sob a u·rnmendação do fiscal lá em baixo: - Quebra em cima! ------------------------------------ ('omo se entrava na Rede ~~i-;~-;~s;~~~-~~~--~~da. .Um rapaz chamado Farias morava numa casinha na beira do l nu1tnho por onde os trapicheiros, estivadores e ferroviários 111wmva~ de madrugada n~ rumo do trabalho, chegando pelo oitão do Matriz ou da Sambra, vindos da Pajuçara. ~~asinha aqui, .casinha acolá, quase todas da mesma gente h111111ld~ de Jaragua, moradores apreciando aquele espetáculo de lollu dia, os rapazes nada mais pensando, como Farias. do ou
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    ser um portuárioou funcionário da Rede. Para trapicheiro ou estivador ele não dava porque era franz' e pequeno, embora sua musculatura fosse bem distribuída e sóli sua agilidade fácil sugerindo que procurasse um trabalho m maneiro e inteligente. E foi o que fez durante um certo tem quando lhe disseram que queriam gente na Fábrica de Mosaicos Paulo Pedrosa, ali na Avenida da Paz, e na Great Western, que povo chamava de Rede. Mais próxima, a Rede também oferecia atrativos do uniforme, coisa que o povo gostava de olhar e funcionários de vestir, e, por isso mesmo, para lá se dirigiu logo man11ã seguinte, melhor do que fazer mosaico de cimento bran com aquelas prensas de dois pesos nas pontas, rodadas com força girando no ar. Ainda apreensivo, Farias entrou pelo portão da Re e foi encaminhado para as proximidades de um galpão on trabalhavam vestidos de macacão mescla alguns .mecânicos, coi que penetrou em seu espírito porque nunca tinha visto e fico olhando. Aproximou-se dele, então, um funcionário gordo e baix branqueio e cansado pela idade, que o povo chamava de ''Se Bolão", metido numa túnica que segurava o ventre em forma d saco, fechada até o pescoço por meia dúzia de botões amarelos d tamanho de um tostão, que foi logo lhe perguntando sem mesmo interessar pelo seu nome: - Sabe ler e escrever? - Dá pro gasto, seu moço, respondeu Farias com timidez. Depois de um ditado que fez ali mesmo na rampa, usando um lápis e um papel de embrufüo que o homem de túnica lhe deu, Farias escutou depois o veredicto: - Vosmicê não é analfabeto mas é desletrado. amanhã com uma roupa limpa e outra para sujar. Como Farias não era burro, logo concluiu que pegaria no pesado por .muito tempo. De fato, quando voltou na madrugada seguinte, lá estava o sujeito gordo que o levou para um desvio nos fundos da oficina, onde havia um tênder, vagonete para transporte de carvão. Diante dele, o homem explicou a razão de lá estarem: - Olhe aqui, menino, eu peguei a Rede ainda novinha <>8 nao menina-moça. Havia muito gringo mandando e muito 'r•1tileiro aprendendo aqui, trabalhan~o duro~ e tinha gente til"" casava com a Rede e não saía mais daq~•· Pra e~trá na Ih.te tinha que sê macho e brigar com o diabo no rnferno, euviste? Fizeram comigo o que todo novato tem que fazer, e se nAo vencê vai trabalhar noutras bandas. Interrompeu um pouco a palavra para enrolar ~ cigarro de t•nlhinha de milho verde, e acendê-lo bafor~ndo para cima e para_os 111itos, às vezes para baixo, continuando o discurso, enquanto Fanas 111i111t1rdava as surpresas do destino: . ... tá vendo aquela pedra ali no chão? apontando para wn l"·dnço de carvão do tamanho de uma jaca média: apois av~e ela ih•ntro do tende. Se cair direitinho o emprego e seu. Se vier de I~ de cima pra cair na sua cabeça você quebre de lado e pegue a u1ln pela linha até o portão, pra nunca mais voltar. No caminho de casa, Farias retirou do bolso o papel amassado 1111dc na véspera tinha escrito assim para seu examinador: . _ Ditado! (lembrou-se de "Seu Bolão" com ares de autondade, 1iluilando o uniforme como que apertando a cintura c~m. os ~raços, , ditando solene): O trem de ferro é a máquina mais mtehgente llt•,huaguá. De tudo só não é boa de ladeira, mas o que arrasta ttl'ln duzentas juntas de boi ... Diante do fato, concluiu o Farias: é isto que vou ser, ~er:oviário ilu Rede. E o serviço de Farias durante cinco anos fo~ limpar ~ 1 h~o da oficina, lavar vagão e locomotiva, abastecer os tenderes _d~ 1 urvão de pedra usando pá e até as mãos, carregar cepos de madeira lirnndo as mãos de ferpas, dormentes, trilhos, ferran-:ientas, 11111cacos, cabos de aço. Depois Farias passou para a oficma de upoio como apr~ndiz, onde foi mai_s cin~o anos mão-de-obra pa~a 1 urrcgar e descarregar vagão-oficina, limpar ferramentas, pohr d. 't' a apertar um parafuso11uquinas, tempo em que apren ta na pra ica 1111 porca, bater um cravo, desmontar uma roda ou um trem de rodas mm mola, barras, amortecedores, pinos e eixos ~om parafusos ~rundes, porcas e chaves pesadas, a~é que um dia chegou um homem chamado Manoel Sarmento e disse para os presentes: 99
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    - O baixinhodá mesmo pro serviço. Daí por diante, já com dez anos de Rede, foi levado p auxiliar e logo depois chefiar turma para colocar trem na li naqueles destemperos dos descarrilhos, e consertar vagões locomotivas que chegavam em Jaraguá com uma placa vermelha frente, com ordem superior de rodarem na manhã seguin chovesse ou não chovesse. Assim. trinta anos depois, Farias tomou-se o homem m importante na manutenção da Rede. Mas, de tudo só alimenta u mágoa: seu contracheque de aposentado, com trinta e cinco anos serviço duro, é menor do que o do vizinho que, com apenas cin de contínuo de banco, servindo cafezinho pros "dotô", sai para trabalho às oito, almoça em casa, volta do trabalho às cinco tarde. E diz: - No meu tempo eu saía às quatro e meia e nã_o tinha ho de chegar. Os ruídos também fazem memórias. Jaraguá chegava a ser barulhento. Ouvia-se o ranger d bondes em marcha, freando, fazendo a curva, passageiros baten nas sinetas, motorneiro acionando a alavanca de movimentar veículo em curtas travadas e destravadas, mas com os se "triques'' perceptíveis de centelha rompendo o dielétrico da chav servindo de alerta a quem estivesse adiante nos trilhos. Do Cais do Po1to, ouviam-se os apitos dos rebocadores, ranger dos guindastes e o assovio de seus vapores, os troles d trapiches chiando por cima de seus trilhos, surdos quan carregados ou suaves e quase musicais quando vazios, um ou out fordeco de comendador ou coronel de engenho com aquela buzi "aüa'', e a pancada compassada de seus motores, navios anunciand chegada, partida ou pedindo prático. Na Sá e Albuquerque e na Barão de Jaraguá ouviam-se ti1intar das rodas das carroças a bun-o, com aqueles elos metálico percutindo nas sobras dos paralalepípedos, carros de boi chiand pela Estrada Nova e pelo Ouricuri para entregas vindas de lpioca, 100 U...·,L :·i ~ : , ·1 : -. ' i' .: •:T)"- • -' • 1 .. j J-· ~... CO~L t;;L).:,;.; t SPíCl.13 Mnngabeiras, Cruz das Almas, Trapiche da Barra, trazendo coco, 11111lerial de construção, madeiras, mudanças. Ouviam-se os 11noladores de faca, os soldadores de panela a percutirem nas peças , ferramentas. apitando e gritando suas profissões, quase como 11·11ores ensaiando num teatro. Jlavia os ambulantes de frutas, legumes, peixe, sururu, chapéus l~ objetos de palha, raiz de remédio, galinha, caranguejo uçá ou 11.11uiamun, pato, galinha e peru, em incômodas posições pendurados p •las pernas em longas varas de madeira, picolé e sorvete, , 11chorro-quente, tapioca. cuscus. bolo de milho. Na noite Já estavam as pensões da Sá e Albuquerque de cujas j1111clas altas saíam amplificados os boleros, tangos e valsas de suas v1trolas ou conjuntos ao vivo, de onde se destacavam pistões e l lnrinetes, intercalados pelas palmas e vivas e às vezes tiros de 1cvólver de seus ruidosos freqüentadores e os gritos de mulheres se 111ostrando. Muito perto dali, na Great Westem, chegavam três rnmposições de dez vagões de açúcar por noite e um ou mais trens 1.·0111 carga avulsa do interior, apitando invariavelmente na Ponte do "nlgadinho, na curva do Atayde e nas proximidades, ao romper a murcha nos sinais, com os silvos estridentes dos manobreiros 1cspondidos pelos maquinistas em curtas apitadas de vapor, sons de uviso e advertência que sempre eram seguidos pelas batidas 111ctálicas de um vagão no outro pelos seus engates folgados, e o ·11ssopro" da locomotiva ao romper a inércia que era percebida pelo l hiar das rodas deslizando nos trilhos úmidos ou ensebados de 1111.:laço e gordura de xarque. A Fundição Alagoana, que fabricava camas de ferro, arame, l npachos, carrinhos para crianças, velocípedes, carretas, moendas, ·1111os, âncoras, etc, ali na Barão de Jaraguá, 65, praticamente no l L'ntro do bairro, certa época deu para apitar a toda hora abusando do povo, ficando p·or conta de "O Bacurau'' reclamar: "A Fundição lugoana está bancando a locomotiva" com aquela enorme "~nrganta metálica" desafinada. Não era apenas a Fundição que apitava todos os dias nos 1111vidos de Jaraguá. Havia bem perto a Fábrica de Tecidos Santa Murgarida, na Sá e Albuquerque com Mato Grosso, que despc11nva 1.l'do toda a população inocente desde a Pajuçarn até C'ntl dns ·~~-~
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    Almas, Avenida daPaz, Praça Sinimbu. Como era de se esperar, o fato gerou descontentamento agravado por um motor barulhento que chamavam de ''treme-terra", tamanha era a vibração qu• transmitia ao solo, chegando o povo a dizer que era sentida no Bonde da Mangabeira e ouvida pelos moleques da Rua das Verduras quando botavam os ouvidos no trilho do trem. Diante das reclamações, Luiz de Vasconcellos, seu dono, mandara o funcionário Argemiro à redação de "O Bacurau", onde prestara declarações irreverentes ou inventadas pelo Lafayette Pacheco: - O primeiro apito é para acordar os oitocentos operários, o segundo é para tomarem banho, o terceiro é para tomarem uma xícara de água quente com bolacha, e o quarto é para darem entrada na fábrica. Os incomodados que se mudem. O inglês Kenneth Macray reclamou no jornalzinho dizendo que Londres tinha madrugadas silenciosas, apesar das suas centenas de fábricas, porque os apitos de lá eram para o início do trabalho e não para despertar os trabalhadores junto com a população da cidade. como se fazia na Santa Margarida. Certa vez o motor "treme-terra" da fábrica parou e se pôde dormir bem no bairro. Enquanto os engenheiros debatiam-se com o problema, um grupo de moradores da Praça do Rayol, conforme disseram ao "O Bacurau", liderados por Jaime Daltavila (fantasia do Lafayette?), procurou uma feiticeira do Pontal da Barra para que, através de um "serviço", impedisse o motor de funcionar para sempre ... amém. Havia, quase no Trapiche Jaraguá e em frente da Santa Margarida, um prédio de amplas portas, onde funcionou muitos anos a Fábrica de Mosaicos de Paulo Pedrosa. Todos os velhos e maduros de Maceió sabem que seu proprietário era o homem mais loquaz de Jaraguá (disputava com Dionísio Sobrinho) e que, gargalhando junto com o Paulo Silveira ou comentando futebol com Ib Gatto Falcão (ambos eram do CSA), era capaz de ser ouvido na Recebedoria, quando os bondes não estavam passando. Antes da Fábrica de Paulo Pedrosa se instalar, funcionava no local a Serraria Modelo, a maior da cidade. Logo no início da Avcnida da Paz, todos os sons que de lá partiam chegavam nas l'lrc-as críticas do bairro, quais sejam: a Praça do Rayol e a Rua 102 "i1111lo Amaro, na antiga Estrada Nova e no início da Sá e Alhuquerque, onde ficavam as residências e as principais •~pnrtições bancárias, consulados, lojas e escritórios. feve-se que suportar anos e anos aquele som cortante e 1q1cntino das serras circulares na madeira, irritando os ouvintes, o 1111c era um verdadeiro inferno de Dante, na hora em que os 1kmônios queriam torturar pelos ouvidos. No segundo semestre de l922, o farol da cidade, posto no lnl'Utinga, pelos . fundos da Catedral, lampejando branco e rncarnado. andou fazendo tanto ruído noite a dentro que provocou 11•clamações da população porque gemia sem parar, bem alto e mais 11111da em certa área de seu círculo de trabalho, quando adquiria uma 1t111alidade grave, diferente por instantes, tendo um famoso 111.1tcmático, professor de muitas gerações, calculado, com base no fl•mpo que demorava para fazer uma volta em velocidade constante, que, nesse trecho de seu círculo, media-se trinta e dois graus. Era ouvido no Aterro de Jaraguá e, diziam, nos dias de vento terra!, também nos trapiches e no Porto. "Pobre farol ! Azeitai-o!", implorava Lafayette Pacheco que fez publicar um bilhete escrito pelo próprio farol e dirigido à Capitania dos Portos, no dia 9 de cll'lembro: "... gemo a noite inteira (Senhor Capitão dos Portos), h1I quase um ano, uma lamentação infinitamente dolorosa, pedindo que me dêem azeite, que é a única bebida que trago (...) incomodo, sem o querer, toda a cidade com meus chiados 111tcrmináveis, a ponto de já me detestarem", e a invencionice popular ia adiante: "levarem-me no ridículo, comparando-me a 11111 carro de boi e me apelidando de farol arranhado". Além dos ruídos poluidores de Jaraguá e seus arrabaldes, ainda havia os que saíam da imaginação fértil de algumas pessoas. Os •impos da Praça do Rayol inspiraram um gaiato que imaginou ter "lido criado um conjunto intitulado de "Batutas do Rayol", um 1111têntico grêmio córeo-musical de batráquios para incomodar os moradores enquanto ficavam escondidos na vegetação abundante de um pântano lá existente. Era um composto aquático com as 1iguas de inverno ligando-se, pelo nascente, ao esgoto a céu aberto ljllC vinha pela Rua da Igreja e, pelo poente, por um canal _ltl..1,--~-
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    fedorento até oSalgadinho, ou escoando por cima do calçament da Rua Santo Amaro. O povo organizara um grupo para solicit providências das autoridades da Intendência e da Profilaxia Higiene. Inventaram que, na Chácara do Comendador Gustavo Paiva. n Mangabeira, ocorreu uma história de certo rádio ondas curtas qu deixou de falar para emitir sons esquisitos. chiados, pipoco assovios, no momento em que seu dono e o amigo visitante Manoel Afonso Viana, sócio da Dispensa Familiar e Cônsul de Portugal. queriam ouvir as novidades daquele ano revolucionário de 1927 Diante da dificuldade momentânea de sintonizar o aparelho, português cogitou de que os sons vinham de uma quartelada no Rio de Janeiro, possivelmente o cerco do Catete ou do Palácio Guanabara por agitadores solidários com os revoltosos da Coluna Prestes. No som das granadas, depois de percorrerem os céus cariocas com aquele assovio de advertência, e no matraquear das metralhadoras e fuzilaria, o negociante lusitano, com aquela voz gostosa de se imitar nas anedotas sobre seus patrícios, dissera agitado assim: " Não, Seu Paiva, é Lisboa! Lisboa! Minha Lisboa qii erida em chamas! Caiu o governo!" Neste precioso instante, uma doméstica gorda, escura e cheia de iniciativa, que servia café com bolo de goma aos dois amigos, interrompeu a conversa assim: - Seu Comendadô, não é nada não. É dois aribu que tão atrapado nos fio do aparêio (a antena) brigando pru mode as tripas do piru. Na Rua Santo Amaro de 1925, havia uma família dada ao piano, uma senhora mãe, duas filhas moças e uma tia idosa. Naquela rua de casarões antigos, os sons do instrumento reverberavam nas fachadas e nos telhados, depois de saírem de duas amplas janelas do primeiro piso, ganhando dimensão e ficando cada vez mais graves, na medida em que penetravam e saíam novamente das salas de teto alto da vizinhança. Ninguém ouvia mais nada, a não ser os acordes do piano (quase sempre em repetidos e monótonos ensaios) em meio de um ou outro choro de crinnçn querendo dormir. E veio a crítica sutil, uma forma de ridículo, algo que as famílias abastadas mais temiam em sociedade. 104 Convenhamos que esta sinfonia tomou a Santo Amaro um lnforno, principalmente quando tocavam aquelas baquianas de Villa l 11hos consideradas por muitos como música de ninar defunto. Foi pu1 isso que "O Bacurau'', de 22 de agosto, recebeu a visita de um l(lltpo de moradores pedindo providências para que o proprietário tll casa mandasse afinar o piano, e fizesse "o grande favor de tomcçarem os ensaios às sete da noite e terminarem às nove, a n111 de não perturbarem a vizinhança e não acordarem as uhmças assustadas", e rehateu finalmente: "Aí fica o pedido." E não era raro a população sofrer pela divina música. Os moradores da Rua Santo Antônio e adjacências sofriam com os r1111<tios de sábado e domingo da Banda Patriótica do Coronel João '1·11uto, título honorífico não oficial para um conhecido pruprietário de redes de pesca que as lançava por baixo dos h11piches, merecendo também o apelido de "Almirante das Redes". 1 para ficarem livres, foram falar com o Delegado Domingos Lima, 1111hecido como "Sherlock de Jaraguá". ·--·------------------------------------------------------------------------- eorno a propaganda vira uma piada. Por volta dos meados do século, com a vulgarização do rádio e 1111 tipografia, desenfreiou-se a propaganda, e uma empresa 111111.:rária manifestou-se assim: "Se é nervoso, não leia. Se não é, nc1uc sabendo que J. Barros Lima, estabelecido em casa nwrtuâria na Rua Barão de Jaraguá, é agente de navegação 111•ra a Eternidade, fornece passagem de ida por preços à vontade dos que ficam." Aproveitava o mote das propagandas de llKCllcias de viagem e o prestígio de seus donos e usuários, sendo l11111bém a mais perfeita demonstração de "status" passar por uma 1lrl11s e comprar passagem num paquete para a Europa ou mesmo I' "•' o Rio de Janeiro. No caso do anúncio, o destino era o além, 1111dc ninguém queria ir, mas para onde, um dia qualquer, teriam lodos que viajar. As bebidas se transformavam em remédio: " Eduardo Melo, nrnrn de beneficiamento, en~arrafamento e cxportaçno de 11uardente, estabelecida na Rua Comendador Leão, 740, Ul'"-----
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    bebidas estas quequem experimenta gosta porque conhecidas do povo. Beber Segura o Tombo, Gengibirra Sensação é viver disposto para o trabalho e enfrentar a pró vida". Ou então: "Liberdade! Alegria! É de que precisa t essa gente para passar o Nata) Feliz . Por isso andou muito avisado o Sr. João Davino enchendo a praça dessas d afamadas marcas de aguardente . Viva-se bebendo Liberdad Alegria. Nada de Tristeza!". Outra: Armaz.ém Brasileiro, de João Batista Mendes, na S'Albuquerque, 201, "ze)a pelos vossos embarques precavend contra futuros prejuízos! As vossas cargas são sempre b cuidadas e a embarcaremos quer chova ou faça sol, com maior solicitude e presteza". Isto combinava muito com indumentária daquela gente operosa, de paletó, gravata e colete. Exportação/Importação era atividade séria no vaivém mercadorias e nenhuma firma promoveria jamais uma inve.rda onde todos se conheciam e qualquer falha dava em ressentimentos mágoas para o resto da vida. A garantia era, portanto, o fator m · valorizado por quem desejava vender bem e ter freguês certo. A lucratividade era outro grande atrativo, pois a participa do intermediário estava sempre presente entre o fabricante, o agen no grosso do atacado para o fino do varejo, e o usuário comprado E isto tinha que ser divulgado: "Armazém de Estiva - José Soar ~ Irmãos, Estabelecidos em l923, é o líder da praça, e virtude de seus bons e baixos preços, qualidade de seus artig e sobretudo pela modalidade de suas vendas. Proporcionam bons lucros aos nossos fregueses e fazemos o maior empenh por merecer a sua confiança." A firma tinha escritório no Cen mas estava ligada a Jaraguá na sua estiva de charque, farinha de trigo, manteiga, vinhos e conservas e ainda uma fábrica de massas. alimentícias. Havia os agradecimentos anuais pela preferência do freguês certo, desinteressado em tomar preço em outras firmas só porque contava com as atenções dos balconistas, com os quais estava acostumado a tratar, e com o proprietário de longas décadas de compra, fornece e paga: "José Simons & Cia, importadores de ferragem, miudezas e artigos para navegação, agradecem aos ~cui1 clientes a preferência de suas compras durante o ano de 10() 144. E esperam merecer a mesma preferência no próximo ano, pruveitando o ensejo para desejar a todos muito boas festas e ..,, l945. Jaraguá, Alagoas, dezembro de J944." A liquidez também era um assunto sério, como no Armazém df !•erro Velho, de Antônio Almeida, estabelecido na Rua Sá e Alhuquerque, 650, onde se praticava o pagamento imediato. O vocábulo "vantagem" (no bom sentido) aparece numa ptopaganda da Fábrica de Mosaicos de Paulo Pedrosa, na Avenida d1t Paz, 878, telefone 225, porque aquele piso dava: "higiene, fftmomia, impermeabilização do solo, completo dr111parecimento de pulgas ..." além da durabilidade, conforto e t:l·gância. Remédios e cosméticos eram fontes inesgotáveis de f11t1paganda. O fabricante de remédios Gesteira pagou matéria para 11 Jornal de Alagoas, de 26 de julho de 1928, no que chamou de Anúncio Protesto! Homens sem Honra! referindo-se às l1tl11ificações de seus produtos cujos nomes aparecem em destaque: "Ventre Livre"> infalível para prisão de ventre renitente, "Uterina" r ''Regulador Gesteira", incomparáveis para curar o descomposto d11~ mulheres. O tipo dizia-se representado em Nova York na M111den Lane I 29 e garantiu que "tão grande ia a procura no r•tr4tngeiro (de seus produtos) e tão exagerados e exorbitantes 110 os impostos no Brasil que me vi obrigado a manter outro laboratório na América do Norte para poder fabricá-los e nndê-los em outras nações por preços mais baratos"... mentira 1ll0 slavada. A Perfumaria Lar Feliz aproveitou o mote para dizer que 11:ndia o medicamento "A Saúde da Mulher", aliás bastante famoso nos anos vinte porque, segundo o anunciante, "Mulher Sadia, Mitrido Contente, Lar Feliz". Como as rugas foram sempre muito temidas, eis um anúncio n>nvincente: "Adeus Rugas! 2 mil dólares de prêmio se elas não desaparecerem. Experimente hoje mesmo Rugol." O vennífugo "Tiro Seguro" é uma fórmula do Dr H.F. Peery. O Pó de Arroz Gilka é o "único que não estraga a cutis". Quanto aos restaurantes eram raros os anúncios, mas o Ponto < hic afirmou que "já se pode rcfeiçoar magnificamente em Maceió". 107 ..
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    O periódico jaraguaense"O Bacurau", que se dizia órgã ultra-social, antipolítico e humorístico, costumava, em se números do ano de 1928, mostrar em um canto de página ce vocação para autopropaganda assim: "Quem empresta O Bacura não é filho de casal", ou "Bom ou Mau, O Bacurau", ou ain "Enganar O Bacurau é enganar a própria velha", "Ler Bacurau é viver no paraíso", "Desgraçado seja quem Bacurau empresta". E havia os diálogos ilustrados por desenhos que mais parecia caricaturas: CLIENTE (bolinhas num rosto de quem comeu e não gostou): - Doutor, os mosquitos me desgraçaram a pele. E o qu devo fazer? , MÉDICO (com cara de revoltado): - Mosquito?!! Isto é Sífilis! Tome LUETYL. Ou, a propósito ainda da temida sífilis, tem a do sujeit desesperado que apontava um revólver para o próprio ouvido, co os olhos já fechados, enquanto um amigo em frente, com a ca mais indiferente do mundo, dizia: - Calma, não se desespere, já existe o Elixir 914! Era na época em que se fazia propaganda até do consumo de energia: "Use Eletricidade! Companhia Força e Luz Nordestt do Brasil". E, càro leitor, por último vem um anúncio pertinente ao bai em que a boemia era o forte nas longas noites tropicais das pensões ruas da zona ou por baixo dos trapiches onde, por certo campeavam as venéreas: "Que inferno! Útero doente. Qu sofrimentos horríveis (...) arrepios, dormências, zumbido n ouvidos, frio nos pés, coceiras, certas hemorróidas: - Regulador Gesteira é o remédio!" ----------------------------------------------------------------------------- O choro do rico e do pobre em Jaraguá. .;/ O povo de Jaraguá nunca deixou de chorar a vida. Os comendadores choravam a queda do açúcar, o bloqueio, a crise monetária, os atrasos na construção da "ponte'' (cais do porto) 108 e os 2% em ouro descontados do produto para sua construção, a planta "rocambolesca"· da Associação Comercial, a inação do Intendente, o Empréstimo Externo, o abandono das ruas do bairro, 11 ponto de surgir à luz do dia um jacaré correndo atrás das galinhas e gente nas sarjetas da Rua da Igreja, a regularização da criadagem, os mosquitos, os urubus, ratos e abelhas dos trapiches, o câmbio, a hurocracia alfandegária, a derrubada das gameleiras do Aterro de Jaraguá destrnídas pelo machado voraz da Intendência Municipal, os atrasos na coleta de lixo, as visitas da Profilaxia Rural com os luncionários metendo a mão nos potes de água de beber das casas. Mas quem tinha mesmo razão de chorar eram os populares que i-ofriam os efeitos daninhos das constantes crises econômicas, do ntraso, da falta de higiene e inação das autoridades. E então reclamavam de tudo: do Mercado São José sempre.'sujo e cercado de restos de verdura, carne podre, lama e águas servidas, fezes e mijo. dos ratos que uma vez mataram e comeram um porco velho preso de sábado para segunda-feira, sem poder gritar, coitado, porque lhe amordaçaram o queixo. Reclamavam dos paralelepípedos proeminentes, das horas desacertadas dos relógios públicos, das sarjetas onde cresciam piabas e carás, larvas de mosquito, das más-criações dos vendedores de peixe e da ganância dos pombeiros (intermediários), da falta de emprego, dos boateiros, dos atrasos dos bondes da CATU, do impaludismo, da brutalidade dos carroceiros, dos moleques e maloqueiros que se juntavam para rnaconhar na praia e nos quintais baldios, dos perigos de atropelamento pelos bondes e trens na famosa cancela da Great Westem, das enchentes como a de 1924 e das autênticas lagoas que se formavam no inverno, como a do Rayol e da Rua do Araçá com a Rua do Cravo, da incapacidade da Profilaxia Rural e do preço dos alimentos, passagens, tecidos. Na linha de frente dos observadores da vida alheia e dos satíricos estava ''O Bacurau", em busca do falatório das ruas e reclamações, críticas e ironias. Dele se anotaram os registros para a história: nos invernos brabos da década dos anos vinte, formaram- sc verdadeiras lagoas em Jaraguá. Falaram até que o Luiz de Vasconcellos iria construir uma represa no Rayol para fabricar energia elétrica para a Fábrica Santa Margarida, dispensando o motor "treme-terra" e !Cll wmbustivcl. A Rua do Queimado era ---~-
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    um desastre emuitas vezes seus moradores usavam até jangadas e canoas para chegarem nos bondes, o que mereceu uma charge daquele jomalzinho, onde um pobre carregava um gereré nas c~s~s e um puçá nas mãos, sendo altercado por um guarda que o pr01bira de pescar, por não possuir licença de pescador, no que respondera: - Eu vou pescar camarão num brejo que tem na Rua do Queimado e tenho consentimento do Dr. Firmino (de Vasconcellos, prefeito). Devido aos constantes atropelamentos pelos trens da Great Westem, principalmente próximo da cancela da Sá e Albuquerque, um popular chamado Aloísio, exaltado, dizendo-se indignado com a omissão das autoridades, deu vários tiros de revólver numa composição ferroviária que cortara os pés de uma criança, ctias depois de atropelar um burro e de matar uma senhora distraída. O povo chegou a apelidar a locomotiva de "sanguinolenta". Reclamavam da falta de assistência do Pronto Socorro que às vezes atrasava horas para atender como no caso de um marinheiro do vapor Borborema que, em 1923, teve que ser transportado a braço depois de ficar três horas na calçada do Trapiche Novo agonizando por falta de transporte. Lá pelos idos da guerra, o pessoal reclamou do racionamento de comida, da escuridão da cidade para que não fosse bombardeada pelos submarinos, das três inaugurações do cais da Geobra, wna quase no fim das obras, outra quando foi possível atracar algum navio e, fmalmente, pelo Presidente Yargas, mesmo assim antes de terminada a construção. Mas, no final, confirmava-se, o alagoano é assim mesmo, chora. chora, mas logo vai sorrir, uns com as tolices dos outros. Ninguém jamais morreu porque chorava nessas bandas de Jaraguá. ----------------------------------------------------------------------------- A visão de um padre jovem sobre o namoro. Padre Orestes, desde a época da Segunda Guerra Mundial, já estranhava a devassidão imposta pelo cinema e pela liberalização dos costumes numa sociedade conservadora e por muitos anos imut:lvcl como granito. 110 Diante do espetáculo que testemunhava nas areias da Pajuçara, nas praças e nos bondes que passavam em Jaraguá, no Cinema REX ou nos postes e no coreto da Avenida, no colégio, no salão de bAile, na rua, o sacerdote, novinho ainda, lançou o seu protesto contra a tão violenta transformação nos costumes: "Os tempos nndam bem mudados. Antigamente era muito diferente de hoje. Não se falava em namoro nem se namorava com tanta displicência como em nossos dias. Namorar era coisa muito .-iéria, reservada a quem pretendia se casar. E sabe Deus como -ie fazia isto. Com muita decência, muita reserva." Recordou então para a Revista "O Natal", de 1944, que os namorados antigamente andavam separados, mas agora ficavam 1untos o tempo todo - "Ela não pode mais viver sem ele", disse. E mais, vão para o colégio com a cabeça cheia, um pensando 110 outro, enquanto os pais estão aprovando tudo corno é, e triste de quem afim1ar o contrário. O namoro seria assim como um passatempo: "Namorar é hrincar, dizem os apologistas do amor livre" (nem de longe a utual interpretação). E o futuro desta geração nada prometia de hom, porque nesta escola paganizada "facilmente empenhará o wu coração por qualquer sorriso, qualquer olhar, qualquer nmversa...". Mostra também os perigos de brincar com o coração, l~·111brando a todos que teremos outra vida e que o rodízio entre 111 ios amores acaba sendo como usar vários perfumes, alertando para a qualidade de uma futura esposa, "se triunfar este amor Ih1·e que tanto ameaça destruir" . Será que Orestes não tinlia razão? Pelo menos quando previu o tl1°'injuste familiar dos dias atuais, os sentimentos mais nobres 1rduzidos ao passageiro orgasmo? Quando homem muda de 11111lher e mulher muda de homem sem casamento novo, como se 1 -.o Deus aprovasse ... •••w••••••••••••••••••---••-••-·•--••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••·•~·••• natureza mostra a pequenez do homem e de suas obras. Nnvegnntcs antigos fizeram referência aos perigos do 1111u1rndouro de Juragun nos meses invemosos. Além do u~c. cou111n
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    no rodapé doPlano de José Fernandes Portugal, de 1803, o Contra Almirante de França e Barão de Roussin, em missão hidrográfi de seu rei, escreveu, em 1820, a respeito de nosso porto: "... mi os recifes que os resguardam dos ventos do largo, não há cont eles sobre esta costa nenhum refúgio para a monção do sul." Adiante, em 1835, o almirante britânico Sir Ross comentou ancoradouro de Jaraguá dizendo que era perigoso no inverno e qu nele "... os navios brasileiros naufragavam freqüentemente". que um brigue inglês, não fazia muito tempo. "... perdeu suas âncoras e rompeu o seu leme em um golpe de vento". Muitos anos se passaram sem que a estação das chuvas des perigo sério para as embarcações que procuravam Jaraguá. E at6 hoje, muitos invernos se passam, anos e anos, décadas, e os "rebojos" de inverno não chegam a provocar danos e perdas de-- pessoal. Muitas vezes ocorrem chuvas torrenciais como as de Sexta-Feira da Paixão de 1924, ou a famosa tromba d'água de 1949, sem que o mar sinta as tensões da natureza. Mas há vezes, como em 1904 e 1928, em que as chuvas aparecem discretas mas o mar apresenta ondas ftu"iosas. Um jovem de nossos dias talvez permaneça incrédulo se alguém lhe disser que, num ano qualquer, ondas de dois ou mesmo três metros poderão escalar a Avenida da Paz. Mas, num determinado inverno, a natureza resolve mostrar sua fúria e o fundeio em Jaraguá toma-se pesadelo repentino e insuportável, quando o vento sopra forte e penetra na enseada desabrigada, levantando um mar de força descomunal. É quando os vagalhões, que viajam milhares de milhas dos mares altos e distantes, chegam nos recifes da Pajuçara e se rebentam em espumas ou penetram arvorados na Enseada de Jaraguá, encurralados em profundidades menores, como línguas monstruosas de água e cristas brancas a desabarem de uma vez, provocando ruído de trovão. Daí por diante, seus rolões brancos formam um quase contínuo turbilhão, prenunciando a morte e a destruição em seu caminho. Não há embarcação que resista, não há homem, por melhor nadador que seja, que possa ílutuar neste inferno líquido por mais do que alguns poucos minutos. E as águas desobedecem a 112 limites naturais de contenção na praia e escalam o seco, passam pl!las ruas laterais de Jaraguá e vão colidir nos prédios da Sá e lbuquerque para inundar armazéns e porões, arrastar pelo chão l" ssoas e animais, entortar postes de luz, derrubar muros e paredes, 111undar os porões da Associação Comercial. Na tarde do dia 24 de julho de 19~8, quem estivesse na vcnida da Paz olhando o horizonte teria pela frente um mar L lllmo, com pequenas ondas esparsas deslizando na areia em longas lilas de espuma branca. Era uma terça-fe,ira de trabalho, mas os passageiros ci2.s bondes para o Cengo, sempre de caras vÕltadas para o leste, gostariam de tomar um banho de mar. Há dois dias os 1omais da Cidade anunciavam tempo bom e despejado. Ao largo estavam os navios de cabotagem fundeados ou lcrindo a linha do horizonte chegando em Maceió, o Borborema, o C'ubatão do Lloyd Brasileiro, o sueco Orania, o Itaipu do Lloyd Nncional e o Baron Kelvin, nos quais as alvarengas atracavam a t ontrabordo para carga e descarga. Da praia se divisavam os sacos de açúcar e fardos de 111crcadorias, latas · de querosene e gasolina empilhados, 11111spendidos ou abaixados pelos guindastes de bordo em sua faina 1otineira. Do Orania desciam fardos de bacalhau em cinco mil harricas importadas por Brasileiro Galvão e Cia. Os rebocadores lumacentos levavam de vez em quando alvarengas para o largo, e lra:Liam outras para as pontes, onde ficavam atracadas a contrabordo e ligadas por pranchas, esperando os trapicheiros da 1csistência e estivadores, levando e trazendo na cabeça a carga 1ctirada de troles pequenos por cima de longos trilhos, desde os trupiches até os guindastes ou diretamente nos porões. Pela tardinha, as embarcações se recolheram ao ancoradouro lim frente ou pennaneceram atracadas, iluminadas discretamente pelo sol vermelho e invernoso caindo pelos lados do Pontal da Bnrra. As pessoas foram para casa descansar, alguns marinheiros 11caram nas alvarengas para vigilância, os rebocadores pararam os 111otores, cobriram-se de lona as mercadorias ao relento nos lrnpiches e troles, fecharam-se as portas dos trapiches, as raparigas dn vida despertaram do sono vespertino para fazerem a cútis, porque a freguesia logo estaria encostando nas pensões de sobrado.
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    Eram 22.30 horasquando as primeiras lufadas de vento sul percorreram a enseada e fizeram as proas das alvarengas o rebocadores voltarem-se para lá. Em poucos minutos, o vento ~~n~ou st.. muito fo~e, seguido de um trem de onda:, qm, quebrnva m1c1almente na beira da praia, depois no meio das embarcações mais ao largo, em seguida antes delas, promovendo a desordem e fazendo-as bater umas nas outras ou contra os trapiches, quando atracadas. Não demorou muito tempo, as alvarengas mais pesadas e carregadas arrastaram suas âncoras e colidiram com as outras mais a sotavento e com os rebocadores também próximos, presas umas nas outras pelas amarras que se cruzavam na confusão. Os lançantes e traveses das que estavam atracadas já não suportavam mais os trancões das ondas, escariando-se no roçar dos moirões e nos próprios cscovéns e corrimões, e se rompiam, deixando que as embarcações dessem na praia, numa posição de través para as águas e vento. o que fazia com que os vagalhões robustos, ao subirem na rampa da praia, por cima delas passassem cm esguichos que: chegavam a alguns metros de altura. As ondas desfeitas, numa fila que tomava igualmente todas as pontes, provocavam unânime ruido nos seus pilares em linha, como uma serra gigantesca trabalhando, e o choque das águas mais acima nos muros de contenção do~ trap1ches. algo semelhante a uma explosão. Por volta da meia-noite, correu o alarme por mensageiros e pelo telefone da Delegacia do Distrito de Jaraguá, onde estava 0 delegado Eduardo Silveira, e do pessoal de serviço no prédio da Es.cola de Aprendizes Marinheiros, logo ali na Ponta de Jaraguá, acionando a Guarda-Civil, o Inspetor e o pessoal da Algândega, o Guarda-Mor, a Polícia Militar, de tal modo que se conseguiu estabelecer uma vigilância e controle da área antes mesmo do amanhecer, sob a escuridão da noite, porque a Companhia de Força e Luz, para evitar incêndio, havia desligado a energia pouco antes de uma hora da manhã, quando desabou uma chuva tão intensa que não se viam mais que dez metros em frente. No mar estabeleceu-se o caos a partir da meia-noite. Não se sabe como, marinheiros foram vistos atirando-se ao mar para .al;11cm seus companheiros infortunados que tentavam sobreviver, l'llquanto dcsahavam as pontes, guindastes, cobertura de zinco e de 111.1dci1a. tnlhos e caixas de mercadoria formando verdadeiras facas l ljl 1 rasgarem tudo que passava por perto. Os navios ao largo entraram em emergência e acionaram sem pilrar aquele apito lúgubre de embarcação em perigo marcando suas posições em visibilidade quase nula. O Borborema garrou e foi wlando para a praia, quase encalhando. Seu comandant~. o Capitão <>scar Miranda, ajudado pelo prático do porto Ulisses de França, ao 'l''ªI foi atribuído o salvamento do navio, conseguiu acionar os motores e fazer-se ao largo. Os demais navios também levantaram 1s âncoras e se afastaram da praia, onde estariam mais seguros do que na Enseada. Como a Pajuçara era totalmente defendida pelos recifes, ulgumas alvarengas foram levadas até lá por rebocadores, cujas li ipulações conseguiram embarcar antes da meia-noite, e passaram "ºb perigo através de um canal que ligava as duas enseadas. Mas o l{cbocador Carlos Broad, de Goulart e Cia, durante sua faina, teve que dar o costado ao mar numa manobra e foi colhido por "um impetuoso vagalhão" que o levou até o trapiche da Great Westem, 1111de encontrou o seu madeirame pelo costado de boreste e ficou 1·ncalhado com avarias graves no casco, ganhando o qualificativo ·k ''heróico'' do Jornal de Alagoas do dia 26 seguinte. Quando o dia ficou claro, o ento acalmou e o mar acomodou- .! mais, já se podia chegar na praia sem perigo de ser colhido pelas 1111das. e a lu.l do dia trouxe a revelação do desastre e restituiu a •l'~•urança contra as surpresas do mar. Umas poucas embarcações flutuavam na enseada. Ao largo, e bem distante, via-se um único navio fundeado. Em l11:11te dos armazéns estava uma fila de marinheiros e policiais. Por ti,'is deles wna multidão, " meia população da cidade movida pela ·1t•11sação de curiosidade e de tristeza", como disse um repó1ter do lomal de Alagoas dois dias depois. Um quadro triste e 111csquecível - "O Porto de Jaraguá apresentava um aspecto 1h•,olador:", qualificativo daquele repórter. Vinte e seis alvarengas, dl'11tre elas a Marieta, Deusderit, Veado, Alice que nunca foram ' ncontradas. a barcaça Nova Aurora e o rebocador Carlos Broad ' ,1avam encalhados na praia ou afundados. O madeirame dos trapiches éonfundia-se com os destroços e 11111!ÍS de bacalhau abertos, caixas ou latas de querosene por todn 11'i
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    parte, águas coloridasde petróleo, mercadorias de mercadorias de todo tipo. perfüme. secos e molhados. Ressaca ou "rebojo" de 1928. Destruição do Trapicbe da Great Weste mercadorias na praia, enquanto o povo assiste a cena em cima do·que rest da ponte. Base em fotos do arquivo pessoal do Coronel Sílvio Von Sõshst Gama. Os guindastes estavam tombados; as folhas de zinco trapiches cobriam a praia meio enterradas na areia. E foram salv 2.358 caixas e 1.360 latas avulsas de querosene, 1.278 caixas e 68 latas avulsas de gasolina, 571 volumes diversos. Às 09.00 horas do dia seguinte, em frente da garagem d barcos do CRB, apareceu o corpo do marinheiro Antônio Jo Miguel, um dos quatro desaparecidos e vigia de uma alvarenga, 5 anos, cor parda, sepultado no Cemitério de Jaraguá pela tardinha, Três corpos permaneceram desaparecidos. l(cssacn de l928. Alvarengas destruídas na praia. fll'S'IOUI do Coronel Sílvio Von Sõshsten Gama. 116 -G::.--- ltcssaca de 1928. Alvarenga no seco, salva do temporal. As fotos são do 1m1uivo pessoal do Coronel Sylvio Von Sõbsten Gama. A Imprensa esteve presente nos acontecimentos, lembrando que tivemos o temporal do século, este muito mais forte do que o de 1904. O mar foi classificado de "Monstro Verde" e a culpa pelo desastre parecia ser do governo que não construíra ainda o porto para abrigar a enseada das violências da natureza, tudo por causa das disputas de prestígio e poder entre Alagoas e Pernambuco, este interessado em que nossos produtos do norte do Estado por lá escoassem. Poetas populares entraram em ação para contarem o sinistro: Muito mais de três mil conto Foi o instrago gerá Somente mostrado ao podê Se eu fosse a natureza Derrubava os coquerá Que margeia a linda praia Dessa nossa capitã Qui balança as suas gaia Com vento norte a soprá A grande farsa que á De não se ter se fazido O Porto de Jaraguá Parece pedindo a Deus O Porto de Jaraguá E plantava bananêra Cum banana a carregá Pra dá a quem tá trasando O Porto de Jaraguá ( O Bacurau, 28/07/28 ) 117
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    Não ficou muitoclara a ocorrência de saques na praia devido à presença policial e alguns repórteres noticiaram que a ordem foi mantida. Se ocorreu saque na escuridão da noite foi pura temeridade devido à fúria do mar. Alguém calculou a multidão em 25.000 pessoas na manhl seguinte, diante dos estragos do cataclismo, o que parece um exagero. E ainda ficou na mente do povo que a responsável pelo rebojo foi a prostituta Lagartixa, que andava comendo fígado do criancinhas lá pelas bandas do Beco do Urubu, presa pela Polícia nas vésperas. Como autênticos monumentos do "Monstro Verde", lá ficaram na linha de recifes do Francês e da Barra de São Miguel enormes monolitos arrancados do quebra-mar e atirados para sotavento sem piedade, uma das quais foi medida pelo barcaceiro Sebastião Eleutério da Silva, o Lotério da Barra de São Miguel, como tendo 6m x 4m x 1m, aquele que disse e perguntou: - O mar é o elemento mais forte do mundo, é superior. Quem pode com a força do mar, seu moço? ~-------------------------,---------------------------,----------------------- Como a fúria popular deu em genocídio na igreja. Não se sabe bem ao certo porque o povo de Alagoas briga com tanta facilidade. E quando se trata de ajuntamento, parece até que o magote se contitui numa autêntica tropa de choque, disposta às mais surpreeendentes atrocidades de pau, faca e arma de fogo. Imaginem os leitores quando esta gente assim perturbada por um passado de lutas e extermínios - os caetés, os quilombos, os cabanos, os revolucionários das lutas políticas - veste farda de uma corporação militar cujos graduados e oficiais guardam suas raízes no próprio povo irrequieto e valente, desrespeitoso por natureza, contido apenas pelo medo da força e pelo verniz tênue de uma civilização incompleta, que não chega ao zé povinho. E ainda hnvia o tempero do momento porque, lá pelos idos da Proclamação l.' dn Federalista, uma guerra civil irradiava atmosfera de 1ksunião e desconfiança, a República perigando, a unidade do 11 X Brasil e a autoridade postas em dúvida. O próprio Governador Gabino Bezouro, um oficial militar, nqui estava para sustentar o andor da ordem, por cima de uma população indisciplinada e entre os políticos que protagonizavam luta atroz pelo poder, tão antiga quanto os primórdios da colonização da terra. Foi quando um alagoano chamado Floriano Peixoto ficaria conhecido no País como o arauto da ordem forte contra o descontrole social generalizado pela anarquia reinante em toda parte onde se chegasse. No amplo espaço em frente da Igreja antiga de Nossa Senhora Mãe do Povo, aquela em que faleceu de susto o português José Antônio de Aguíãr, - seu cõnstrutor, perseguido. pela.. málta dcsorcf'ei~ã·e-sãngüiiiária do "Mata MarinheuÕ" de 183 1, apinhava- sc uma t1l,ultidão para festejar a Padroeira de sua Freguesi~. Os atos religiosos deram oportunidade aos mais piedosos para elevarem-se ao patamar da santidade, mas depois do escurecer do Dia Santo, começou a festa pagã da Virgem, com seus sons e odores de povo, chamando os demônios e afastando os anjos que, como aves de arribação, batiam asas tomando distância de Jaraguá. Na praça descoberta armaram tendas, palanques de leilão e estrados onde se jogava e dançava por toda parte, junto dos pequenos botequins improvisados para servir aguardente, gengibirra, vinho de jenipapo e cerveja a qualquer freguês, fosse mulher, homem ou 1.:riança. Na Igreja, nas ruas do oitão, por trás dela, muitas casas de fomília transformavam-se em salões de festa, onde o coco alagoano embalava a alegria completa do povo, ao som das palmas que se espalhavam pelos ares e por todas as bandas. Era como se cada casa fosse uma outra festa, no meio da festa maior de rua, e onde as classes e famílias se agrupavam em conjunto para se protegerem da sanha anarquista e insultosa que 'iCmpre surgia da porta para fora, onde circulavam os "pés descalços" que se classificam de "terceira classe", o rebotalho, nnônima gente incontrolável da· multidão, onde tudo podia ,1contecer. Dir-se-ia que todo Maceió lá estava, não apenas os l'csteiros como seus apreciadores que por ali ficavam olhando. _ __.._. lü -~--
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    Pelo diário particularque costumava fazer o Tenente-Corone da Guarda Nacional e Subcomissário de Polícia Olympio Di Ferreira Ether, a festa era "alegria e prazer completo". E dei nada se esperava mais que costumeiras brigas de bêbados ou de urn desafeto com outro. Mas, pelas dez para as onze da noite, do repente surgiu um tumulto popular com correria, tiros, gritos, pedidos de socorro. Como depois se soube, foi porque quatro praças da Força Policial acharam de forçar a entrada de uma casa onde os matriculados do porto, trapicheiros e estivadores faziam um baile, e toparam com um homem forte que se dizia o dono. plantado com firmeza na porta. - Dá licença ... disse o soldado mais adiantado, querendo entrar sem antes obter a devida permissão, topando no matriculado em sua frente. - Pretende alguma coisa, camarada? perguntou. Agora parado muito próximo de seu interlocutor, como dois galos de briga se estranhando, o soldado disse: - A festa é para todos, queremos dançar, 'recebendo em resposta: - Não, companheiro, aqui é um distraimento familiar. São as meninas de família que se divertem e não é brinquedo pra soldado. Procurem outro lugar. - Então vocês são melhores que os soldados? Apois nós garante que entramos já! disse o militar arrastando os demais no caminho da Praça à procura de outros companheiros de farda enquanto os matriculados, por sua vez, organizaram-se para a resistência como a única solução, do contrário tinham que deixar os soldados entrarem, o que seria inoportuno e fonte certa de brigas e humilhações. E esperaram a agressão com armas de fogo, facas e cacetes. Meia hora depois, lá vêm os soldados como uma turba desorganizada e nervosa, um grupo de mais ou menos vinte, que se postaram juntos na porta do baile, e o líder deles, que antes forçara a entrada, disse: - Nós vamo dançar ou não, canalha? e a resposta foi uma descarga de pistola:pelas janelas, provocando a queda de alguns soldados e a debandada geral com todos precipitando-se para fora, pclns portas, janelas, muros do quintal e até telhado dos vizinhos. 120 Foi quando a besta humana de cada um emergiu com toda h1ria, de um lado pelo sentimento coletivo de desprestígio de uma 1111pa sem comando e compostura, de outro pela intolerância de um ~1 upo de homens trabalhados na dureza dos trapiches e porões de 1111vio, zelosos de seus direitos e da proteção que deviam dar às 1.1mílias, num reduto de sua classe. A essa altura, os dois homens de juízo que podiam moderar os oldados e pôr ordem ao caos estavam ausentes da cidade. Eram o próprio Governador Gabino Bezouro, que se encontrava em Fernão Velho na residência do Coronel da Guarda Francisco Domingues, e 11 Subcomissário e chefe político Ether (o do diário onde tudo isso loi escrito), descansando num sítio que tinha na Mangabeira. Para má sorte de todos, a festa ficava na área do Comissário de l'olícia Antônio Sobral, um homem fanático e precipitado, que l onfundia a força da lei com a lei da força, porque truculento, 11ouco inteligente e dado ao delírio nas emoções de sua profissão. Foram justamente ele e mais um tenente da Força Pública cheio de huna de arbitrário que chegaram na praça com um piquete de u1valaria e vários soldados a pé, armados de carabinas e pistolas, lrnzidos pelos remanescentes companheiros em fuga, e com ordem de varrerem do mapa os que ficassem na frente deles, sem respeitar pessoa alguma, invadindo casas, quebrando tudo, disparando a l'ltnO ou para matar, enquanto os festeiros vagueavam pela praça às ~urreiras, escapando para os lados dos trapiches, da Pajuçara ou pelas bandas do Oitizeiro. Enquanto isso, alguns populares que nada tinham a ver com o conflito, músicos, pessoal do jogo e dos leilões, dançarinos, vendedores, acharam refúgio no interior da igreja pensando que ,.criam finalmente respeitados e que lhes poupariam a vida. Ledo 1.:ngano, pois a turba de soldados arrombou as portas e aí penetrou disparando contra pessoas de joelho pedindo clemência, arrancados de trás dos altares, alguns deles baleados dentro de caixões de defunto que esperavam os seus verdadeiros donos, ficando lá mesmo sem vida. A tudo isso assistia cheio de fanfarronice o Comissário Sobral, olé que, pelas duas horas da manhã, cansaram-se os algozes, desistiram do massacre e se foram na escuridão das.vielas. 121
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    No final damadrugada, amontoados nos trotes de bondes carga e em carroças estavam os corpos que foram apanhados toda parte, disformes, vermelhos de sangue, uns por cima outros, enterrados logo depois em valas comuns no Trapiche Barra ou no Cemitério de Jaraguá. Não se contou o número de mortos, pelo menos nada const nos arquivos e no diário do Subcomissário Ether que n também a visita do Governador Bezouro ao local da tragédia, lo pela manhã, junto com ele e muitos "bezouristas" consternados procurando informações sobre como tudo ocorrera. No inquérito acusaram a Polícia de desenfreada, mas Comjssário Sobral classificou a multidão e os matriculados desordeiros. O Comércio de Maceió, incorporado, visitou o Governad para manifestar sua repulsa pelos atos dos policiais. Magistrados da Capital, dentre eles_os Doutores Juízes Leopoldi Neto e Aucedino Cavalcante manifestaram-se indignados com "Ai Hecatombe de Jaraguá", atribuindo como causa dos aconteciment a indisciplina do Corpo Policial do Estado. Pelo genocídio dentro do Templo Sagrado, a Cúria interditou a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo por vinte anos, segundo diz 1 tradição oral. Alguns escritos minimizaram tempos depois a tragédia contada por Ether, dizendo que a referida interdição foi devida ao fato de um soldado ter morto certo popular que se escondera debaixo do altar. Os urubus na pena dos críticos. Somente a Levada podia competir com Jaraguá em uru 1 bus pelos ares e pousados em esgotos, quintais, estacas, muros, areia da praia, telhados, e até nas calçadas. Aqui ficavam o paraíso da sujeira: o porto, os terrenos baldios, areias da praia com dejetos ferm'entados da Fábrica de Coco de Seu Atahyde, a incrível lixeira por baixo dos trapiches, um mercado público infecto e um curtume, mercadorias de mau cheiro, açougues e matadouros clandestinos, o permanente tratamento que se fazia do peixe, enfim, a imundície lflo no gosto daquela ave injustiçada e desgraçadamente agourenta, l ll 1111111 que fazia cotidianamcntc a limpeza urbana deixada pela folt11 lk educação da gente e pela omissão do Intendente Municipal. Nos dias quentes e nublados, quando parava a atmosfera e as 1111 entes de ar subiam na vertical, uma nuvem negra de urubus , .1h1ta o céu sem bater asas, não se sabendo ao certo se toda aquela 11opulação morava lá mesmo, ou se vinha de outras bandas para 1 11memorar algum acontecimento, como fazia a "aviação de ( oqueiro Seco", os próprios abutres do outro lado da Lagoa M11ndaú que chegavam aos montes. Foi num destes dias quentes do ano de 1927, possivelmente na quaresma, que uma escritora pernambucana chamada de Débora de l'nl afirmou que Maceió era a "Cidade dos Urubus", em crônica publicada num jornal de Recife. Muitos anos depois, o fato ainda impressionava a mente popular e motivou a imaginação do cronista colaborador da revista "0 Natal'', 1944, com o pseudônimo de Junius, que, cheio de 11unia, criou uma conversa entre dois urubus pousados num muro Invado de sol, suponhamos no Beco do Urubu, zona do baixo 111cretrício, onde eles se concentravam mais da conta, botando ·1:ntido num esgoto a céu aberto por onde escoavam dejetos humanos e restos de comida e de lavagem de um açougue. Na época os urubus foram transformado~ em bode expiatório, .11cm das queixas contra a escritora pernambucana e a inércia dos ti<>vemantes na limpeza urbana e na proteção sanitária da população .uneaçada pela colossal lixeira que era nosso bairro. Apesar de tanta comida à disposição, ali estavam os nossos urubus lamentando: - É como lhe estou dizendo: nunca vivemos uma época tão dificil. - Realmente, mas temos vivido outras épocas igualmente graves, continuou o outro. - Concordo, mas nunca nenhuma como esta, insistiu o primeiro. E passaram a recordar as adversidades: a moda moderna de se matar urubus com cianureto de potássio ou Formicida Tatu e as difamações contra eles. E continuaram: - É que nós esquecemos facilmente o passado. - Qual o que! Antigamente podiam as donas de casa não 123
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    nos dar apreço.Os jornais nos atacarem. Os homens ter- antipatia. Mas nós tínhamos o que comer, e chegaram então críticas aos tempos modernos e à falta de boa carniça, rcst animais mortos ao relento, tudo como conseqüência de um perí de carência de gêneros de primeira necessidade iniciada com racionamento da Guerra, ... quem perde um bezerrro não n entrega porque faz carne salgada. Quem vê um porco mor não o deixa transformar-se em carniça porque lingül atualmente comporta tudo (...) as lixeiras agora vivem vazi (...) porque mesmo os respectivos patrões não têm o que comer E ficaram silenciosos, desalentados, solenes nas suas vest negras, saudosos dos bons tempos de carne podre à vontade antes do conflito mundial. Eram os tempos do crescimento pobreza pelos lados do Poço, da Mangabeira, por trás da antiga R do Oitizeiro, na Estrada Nova, enquanto, lá mesmo em Jarag teve início a reação ao qualificativo que Dona Débora fez Maceió. Soube-se depois que se encheu de arrependimento. Quem tomou as dores e mostrou a asneira da recifence foi Lu' Lavenere, professor ilustre, intelectual e sócio· da Livrari Machado, na Rua Sá e Albuquerque 644, fone 197. Ele disse que Dona Débora nunca havia olhado para o céu da Mauricéia, lá pelo lados do Pina, onde avião não podia voar entre uma e cinco ~ tarde, sob pena de abicar no solo depois de colidir numa núvem d abutres. E compôs vários versos satirizando a escritora, alguns dot quais, como o "Urubu Trot" e "Dança do Urubu" foram cantado! nos carnavais de rua por estudantes e populares, já com música bem ritmada: Maceió é coisa boa Tem cocada e sururu Eu fui a Maceió, E só vi urubu. O que mais impressionou · Foi o cheiro de urubu. O que mais impressionou Foi o cheiro de urubu. O povo apelídou a pernambucana de "A Moça do Urubu" e "Odor Cinzento", em livretos vendidos por 200 réis, aludindo-se aí no qualificativo que deu diante de uma enonne concentração da nvc, o declamavam assim: 124 Nas ruas por onde andou V. Excelência a passeio Um cheiro estranho ficou Segundo nos jornais leio. Alguns citaram também o fato de um negro ter sido d~vorado 1101 urubus na Fazenda Albion, Município de Leopo~dma, ~m Minas Gerais, 0 que servia de alerta_ de que era preciso mmto 111idado por aqui. Q~~~-~-~---~-;;;--~~~~i--~~--;~~~~~--~;i;~~---~~~---;~~;~dia (lolítica. Corria em Maceió uma noite quente, escura, sem vento e o Rio Salgadinho deslizava devagar naquela curva que ràzii:t na direção da 'iinimbu. Um homem corpulento, estatura média, com cara de caboclo, pele clara, idade beirando os quarenta, atravessava furtivamente a ponte de ferro sobre o rio, entrando em Jarag)á. Estava fardado, vestia uma capa escura e por dentro dela portava uma parebellum e um rifle 44 de papo nmarelo. Era 0 Guarda Civil 136, Felismino Hugo Ja:tobá, um cearense que andava por Viçosa, Rio Largo e Maceió há alguns anos e que fora contratado para mandar ao outro mundo o Governador Costa Rego que, pela noitinha, recolhia-se à cas~ de. sua amante. francesa, M1le. Sigaud, para descansar, jantar, ouvir piano e depo1~ ~eceber um ou outro amigo íntimo para conversa. O casarão de tres Janelas altas e um corredor lateral, ainda hoje de pé, ficava no 29~ da ~~a Silvério Jorge, onde recentemente instalou-se em frente o Jornal O Diário". Era um serviço que Felismino relutou por duas vezes para aceitar mandado pelo agente de seguros da firma ''A São Paulo'',_ em Jar~guá, inimigo político do primeiro mandatário do Estado. Quanto ao casarão não haveria o menor obstáculo. O matador ' 125
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    conhecia todas assuas dependências e fundos para a margem d rio, onde vicejavam velhas mangueiras, um pé de cajarana e um o outro coqueiro, chão batido até um muro baixo e uma ce baixa de arame que delimitavam o quintal do vizinho, residênc· do conhecido médico Dr Ezequias da Rocha. Afinal de contas, hj muito tempo andava de serviço noturno naquelas bandas e até era o seu dever patrulhar as proximidades e vadear pelos mangues à hei dos quintais. Quanto ao Governador, nenhuma dificulda~ encontrava também porque era um de seus guarda-costas e com ele andara sozinho na boléia de um automóvel, a autoridade dando suas costumeiras voltinhas na cidade, plantado no volante e com aquele chapéu elegante e caro na cabeça. Era o dia 13, oito horas da noite de uma segunda-feira insignificante de dezembro de 1926, segundo ano do governo, e pouco depois de ter o funcionário estadual Jonas Feitosa colocado Felismino na Guarda Civil, sob recomendação do Coronel Eduardo Maia, respeitável proprietário em Viçosa, de quem fora vaqueiro. Além disso, tirava leite numa vacaria em Bebedouro, de propriedade de Feitosa, que era wn homem importante na Secretaria do Interior do Estado, e que não .tivera a menor dificuldade em dizer das boas qualidades do seu candidato ao Inspetor da Guarda, o velho Tenente-Coronel Manoel Pinto, oficial direito e crédulo, que não sabia do passado de seu novo subordinado, autor de um crime no Cariri, motivo pelo qual buscara proteção na distância e boas graças de um coronel do interior alagoano. 126 Mas, voltemos aos acontecimentos da Silvério Jorge. Depois de cruzar a ponte, lá estava felismino ganhando o mangue e alcançando o quintal do Dr Ezequias, subindo numa mangueira e fazendo ponto no Governador que lia calmamente um jornal ao lado de Mlle Sigaud e em frente de outra pessoa que não reconheceu (na verdade era o Dr Eugênio Soares), por certo ao som de uma boa vitrola tocando alguma sonata de Mozart. Mas, naquele momento de grande tensão, Felismino, cm sun 11l111u de sicário, teve um lampejo de consciência, como declamu d~·pois, e achou também a distância grande demais para um disparo r1tciro, ou teve medo das conseqüências de seu ato. E resolveu 1ctroceder furtivamente como chegara pelas lamas do Salgadinho. No dia seguinte. terça-feira, foi até o escritório do mandante, 1111 mesmo em Jaraguá, e confidenciou-lhe seu arrependimento, tkando surpreso com a reação dele. por trás de uma escrivaninha: - É mesmo, Seu Cuarda Felismino. Até eu me arrependi tnmbém. Afinal de contas eu posso esquecer tudo isso e fazer 1111 pazes com o Costa, amanhã ou depois .... Sobre os fatos daqueles dias emocionantes, Felismino ficou pensando no porquê de seu companheiro, o Guarda Pedro Vilar de Araújo, ter desistido de acompanhá-lo no serviço, não se sabendo .1té hoje a razão e como as coisas evoluíram daí por diante, porque, 110 dia 15, quarta-feira, contrariando a lógica dos fatos, lá estava ele 11ovamente com seu rifle agora no próprio quintal do Governador, ut1dc penetrou por uma cerca de arame cortada com alicate, deixando no chão o seu quepe e sapatos, subindo depois numa outra mangueira mais próxima, de cujos galhos avistou Costa Rego umversando na varanda com seu velho amigo Adalberto Marroquim. E titubeou mais urna vez. Seria mesmo a hora do "icrviço? Enquanto pensava se o tiro sairia certeiro, certamente balançando levemente os galhos e procurando uma posição boa de ponto, o seu movimento estranho despertou a atenção de um casal de gansos do Dr Ezequias que, passando por baixo da cerca de arame, deu chegada alarmando sem parar um instante, aturdindo Fclismino que teve de descer ligeiro mas em tempo de revelar sua posição, inclusive para uns guardas que foram chamados pela frente do casarão e que chegaram a tempo de reconhecê-lo quando mergulhava na escuridão do mangue. Depois de lavar as pernas sujas de lama, de um jeito qualquer, chegou em casa muito nervoso e tratou de enterrar o rifle no quintal, dizendo para a esposa Maria Macena: - Estou servindo a dois partidos ..não quero ser descoberto. Segundo disse a mulher num interrogatório, a razão que o 127
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    marido alegou paratrazer a arma, nas vésperas do atentado, que ~gora estava no serviço secreto do governo, no que ~c~ed1tou prontamente, dado o seu comportamento esquisito ultimas semanas. Diante da fúria de vários policiais, Felismino foi localizado levado preso para a 1ª Delegacia de Polícia, onde encontrou lo ~ela ,~ente o Dr Manoel Buarque de Gusmão, encarregado tnquento como 1Q Delegado da Capital e o Dr Emande Basto como Secretário do Interior. Anexo ao processo estava 0 rifle q fora desenterrado do quintal de sua casa, como pro incriminatória. ? epois das formalidades, foi o escrivão anotando 0 primeiro depo1me~to que colheram lá para dentro, quando, segundo a ironia de um Jornal, o criminoso "confessara o crime depois dt habilmente interrogado". O depoimento constou no Diário Oficial do Estado, e no Jornal de ~lagoa~ de 19 de dezembro, assim: "Perguntado por que motivo QUJS o depoente assassinar o Exmo Sr Governador do Est.ado Pedro da Costa Rego, respondeu que há quatro meses mais ou menos o Sr José Fernandes de Barros Lima Filho falou co~ o depoente na Praça l3 de Maio, cerca de oito horas da noite para assassinar o Exmo Sr Governador Pedro da Costa ; Reg~, ao que o ~epoente respondeu que ia pensar a respeito". 1 ,. .í Prosseguindo, Felismino disse que o pagamento pelo serviço foi uma apólice de seguro de vida de dez contos de réis que o mandante entregara a sua esposa. Confessou . também que apanhara o rifle três dias antes na garagem de uma casa do mandante na Silvério Jorge mesmo, por orientação de Jonas Feitosa e o escondera por algumas horas no manguezai até levá-lo para casa. Muita coisa mais disse Felismino1 segundo os autos do inquérito, de seu arrepend1'mento e que d · 128 po ena ter matado 0 Cluvcrnador quando esteve a sós com ele, mas revelou que li11h11 tul·tlo porque freqüentemente o homem metia a mão no cabo de 11111 fl'Vúlver enorme que levava na cintura e por baixo do paletó, cujo 11llbre 44 fazia um buraco medonho no cristão. Afirmou ainda que 111111 contara tudo a sua esposa porque "toda mulher tem língua romprida". Afinal de contas, disse, se o executante não fosse ele, 1111lros pistoleiros já estavam querendo trabalhar para o Doutor 1h.lputado, e até citou um tal de Manoel Capitão, de São Luiz do C)11itunde, e outro Manoel da Lica que estava de olho no Dr idnlberto Marroquim, muito amigo do Governador, serviço que só dependia do montante do dinheiro oferecido. Aquele tal de Manoel Capitão era o homem que alisava sua 111-;tola Comblain de cano duplo, enquanto dizia orgulhoso: - Nunca ninguém escapou dos dois beijos dessa margarida! Vivia-se uma década nervosa e revolucionária no Brasil. Os r'ipíritos andavam em estado de alerta e a tentativa de atentado passou a ser um crime hediondo, segundo alguns dos quinhentos e lontos telegramas individuais e coletivos de pessoas e entidades que foram sendo publicados integralmente no Jornal de Alagoas em l'Oluna aberta para este fim: "... traição sacrílega de malditos da Pátria"; "... bastardia de espíritos obscuros"; "... matar um homem de talento é um crime nefando"; ~'... por ter ficado livre do trabuco da hydra canibalesca"; "... tentativa sinistra"; '.. plano hediondo e satânico"; prestando " apoio e liOlidariedade política"; "... mais um atestado da morbidez da ntual mentalidade política republicana"; "... nas democracias modernas as lutas políticas são lutas de opinião". Ainda botaram mais fogo na fogueira quando, na manhã de sábado, foi preso Jonas Feitosa como suspeito de envolvimento no crime e feita uma acareação entre ele e Felismino. As declarações e conclusões do Delegado não podiam ser divulgadas porque o acusado de mandante era um deputado estadual com imunidades. Mas o fato de ser o mandante filho do ex-governador Fernandes Lima, inimigo político de Costa Rego, foi uma verdadeira bomba, e as emoções tomaram conta de tudo. 129
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    O Inspetor daGuarda Civil foi substituído imediatamente po Major José Lucena de Albuquerque Maranhão e Jonas Feito envergonhado, em refúgio na residência do amigo Waldemar Li meteu quatro balas na cabeça, o que seria estranho não houvesse fato sido testemunhado por três pessoas da casa. O suicíd aconteceu enquanto o anfitrião ia apanhar um sabonete para vítima, pouco depois de recomendar-lhe um banho quente p acalmar os nervos. Por este motivo, o jornal governista "A Gaz de Notícias" disse que o fato era uma confirmação de s responsabilidade. A esposa do falecido, Dona Maria Edithe, foi levada Delegacia para prestar seu depoimento sob lágrimas e logo depo posta em liberdade, nos termos do Jornal de Alagoas do dia 22. neste mesmo dia, Felismino confessara que Jonas Feitosa sabia "empeleitada" como intermediário no trato. Para complicar mais ainda a situação de Felismino, o Guar Vilar afirmou em depoimento que fora por ele sondado para serviço e que não o aceitara porque tinha uma família grande e q o seu companheiro já entrara para a Guarda Civil pensando n crime. O Deputado José Fernandes Filho negou que tivesse fornecid armas a Felismino, muito menos tratado com ele o crime, e que a pistola que portava quando foi preso tinha sido emprestada, sem intenções criminosas, por Jonas Feitosa, a quem ele a dera de presente muito tempo antes, terminando por declarar que tudo não passava de intriga política. Da acareação entre ele e Felismino nada ficou de concreto, porque era um acusando e o outro negando. Um popular chamado João Nunes declarou à Polícia que fora também abordado por Felismino e que simplesmente respondera que "o Governador não dev.ia ser assassinado e sim garantido e estimado como um bom governo." No dia 23, quinta-feira, Felismino alimentou-se pela primeira vez desde sua prisão no dia 18, segundo o Jornal de Alagoas, "em vista das providências tomadas pelo Dr Secretário do Interior sobre o caso". Na terça-feira, dia 28, procedeu-se à reconstituição dos fatos, com as presenças do Delegado Gusmão, de um escrivão de polícia, um fotógrafo e do funcionário Carlos Rego, do Gabinete de Identificação do Estado. Os convidados lá estavam esperando 110 ' 1 ~prcsontantes da Imprensa, o Cônego Valente, de "O Scmcmlo1", 1111 nalistas da ''Gazeta de Notícias", jornal governista, do ''Jornal de Alagoas", também governista, de "O Jornal". do Rio de Janeiro. e d1• uma agência internacional de notícias. Foram convidados 1.11Hbém o Dr Ezequias da Rocha, alguns vizinhos da Silvério Jorge ~1 outros curiosos de categoria, todos concentrados em frente da 1•11sa 290 esperando o início dos trabalhos. Em certo momento, chegou um carro da Polícia trazendo três '4l'~uranças e o Guarda Felismino que saltou fardado, um tanto lhlrbado, abatido e ''antipático", segundo os termos da tl'COnstituição. Mas estava calmo e seguro do que declarava em tl'!!posta às perguntas que iam sendo escritas numa prancheta pelo 1''1Crivão, e o fotógrafo oficial fotografando, uma chapa da cerca l'01tada pelo alicate, duas da mangueira, duas da cadeira do Clovemador, várias da varanda e do muro, três da casa. Antes, no dia 23 de dezembro, antevéspera de Natal, enorme 1•oncentração popular fazia um desagravo diante da Catedral. onde 11 13ispo Dom José Maurício rezou uma missa de Te Deum, com a presença de todas as entidades de classe, autoridades, corpo consular, colégios e bandas de música do Exército, Polícia Militar, Orfanato São Domingos, Legião de Escoteiros 143 e Ginásio Adriano Jorge. Dentro da Catedral, depois da subida triunfal do Governador pela escadaria em frente, saudado calorosamente pelas entidades i11corporadas, Eneas Ramos cantou o "Salve Rainha'', de Marcadante, acompanhado por sua esposa no órgão, depois o dueto Httcro "O Cor Amoris", de Faure, com a soprano Senhorita / lexandra Ramalho, depois ainda o ''Agnus Dei", de Bizet, pelo violino da Senhora Enaura Melo. Desde a manhã, quando o carro do Governador aproximou-se da Ladeira da Catedral, as luzes da cidade ainda estavam acesas. E quando terminou a missa, ouviram-se dez minutos de sirenes e buzinas de fábricÇts, usinas e automóveis, às quais aderiu, com seu npito fantástico, o navio "Belém'' do Lloyd Nacional ancorado ao largo do Porto de Jaraguá. Fonnou-se depois da missa um cortejo de automóveis pela Rua do Sol até os Ma11írios onde se concentraram a multidão na praça e os homens importantes dentro de palácio, para o discurso de 131
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    desagravo de DemócritoGracindo que teve início assim: "Não 6 boca de ouro da lisonja, nem mesmo a palavra inflamada paixão partidária que ouvis", é o comércio que paga imposto, operário humilde que não aprendeu a mentir. o pescador indômi etc, etc. Falara o Presidente da Academia Alagoana de Letras, mais cotado orador das Alagoas. Costa Rego, imponente, parecendo remoçado de dez an respondeu por um discurso de menos de oito minutos que te início assim: "Eu poderia neste momento abrir o peito a tod as balas homicidas: elas me haveriam dado uma hora feliz pa morrer". Falou então sobre o lema dos frades trapistas que, pa~sarem uns pelos outros, dizem: "Irmão, é preciso morrer!" , rebateu: "Precisamos morrer!" Contado no discurso o verbo morrer, em vários tempos modos, foi citado nove vezes e o substantivo morte nada menos do que dez. A morte e a vida sucederam-se na oração que terminou assim: " Não é na minha vida, mas na minha morte que pense todos os dias; e de cada ato de minha vida procuro fazer uma boa preparação para a morte". E desceram para assistir a um desfile militar em continência ao Governador, depois dos cumprimentos das autoridades e associações. Até hoje não se sabe ao certo se o atentado, que não passou de uma te~tativa mal explicada, foi verdadeiro ou falso. As evidências aí estão, mas até que ponto caracterizam a verdade? O fato é que, no dia 7 de janeiro de 1927, Felismino foi denunciado na la Vara po: tentativa de homicídio (Art 294 e Art 13 do Código PenaJ), deixando de serem denunciados Jonas Feitosa por estar morto e José Fernandes de Barros Lima Filho por ser deputado estadual, mas estava escrito que o processo devia ser encaminhado à Câmara com um pedido de licença para processá-lo. Numa das conversas irônicas de fim de tarde, na frente da Alfândega, no velho Jaraguá, houve quem imaginasse uma manchete de jornal assim: "Dois gansos mudaram o curso da História Alagoana". E um outro ao lado rebateu com hipótese: "Morre vilmente assassinado o Governador, nos braços da francesa". 112 "Mais uma vez os gansos salvaram a humanidade dos tro1•e,·o~ do destino, a primeira no Capitólio de Roma, agora, na Rua Sílvério Jorge". E redobrou-se em Maceió o falatório sobre Mlle Sigaud e Costa Rego que, depois de jogar no Jaraguá Tênis Clube uma ou duas partidinhas, tomava todos os dias a reta de sua alegria e descanso, o casarão da Silvério Jorge, onde encontrava a paz 1cconfortante do amor. enquanto sua filha Senhorita Rosinha tomava conta dos afazeres de Palácio, já que primeira dama não havia. Teria sido uma noite muito melancólica morrer ali naquela varanda de tantas recordações boas, crivado de balas por um pistoleiro da Guarda Civil e seu próprio guarda-costas. Mas, pelo seu discurso do dia 23, regado de lágrimas no piso encerado do Palácio dos Martírios, ele até que gostaria de ter morrido. Os desdobramentos políticos e jurídicos desse rumoroso caso ocorreram por fora dos limites de Jaraguá. Fiquemos por aqui mesmo, meu caro leitor. Um barco diferente chamado Wanda. Um mês antes do rebojo de 1928, ancorou em Jaraguá uma embarcação diferente das outras. Mesmo assim, as pessoas que estavam na velha Ponte de Desembarque para receber os seus tripulantes quase não conseguiam distingui-la das barcaças e botes uncorados na enseada em frente, porque se tratava de um veleiro de pouco mais de dez metros, como muitos que navegavam por aqui e descarregavam nos trapiches açúcar dos engenhos desta costa. No entanto, era uma embarcação de recreio que se notabilizara na Imprensa depois de um famoso cruzeiro Santos-Aracaju, cujo porto ficara por ele divulgado no Brasil, em razão dos feitos de sua lripulação de quatro homens, comandada pelo Capitão Amador Pedro Barros. Pelas descrições, o '·Wanda" fora construído em madeira e armado com uma vela carangueja e duas bujarronas num gurupés prolongado, armação em cutter, com cabine para pessoal em vez de porão de carga. Ou poderia ser um perné pequeno, armado com dois mastros, o traquete sensivelmente menor do que a mezena, uma ou duas velas de proa, também adriçadas num longo gurupês. 133
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    Na Ponte estavamconcentrados os sergipanos residentes e Maceió, algumas pessoas do mundo social e jornalistas, entre el Floro Dória e Virgílio Cabral, que receberam a tripulação co abraços e palmas, acompanhando-a em seguida numa visita Clube de Regatas Brasil e ao Instituto Arqueológico de Alagou. onde foram recebidos em sessão extraordinária. Visitaram depois o Governador Alvaro Paes nos Martírios, entregando-lhe, duran um almoço formal, mensagem de congratulações e votos de felicidade do Governador de Sergipe pelo seu novo mandato. ~ato t~bém notório no local ocorreu com a partida , em 1922, de Jangadeiros que navegaram até o Rio de Janeiro, n~ comemorações do Centenário da Independência, enchendo o céu de foguetes, o mar de todo tipo de embarcação e a Ponte de Jaraguá da autoridades e gente ilustre. . Com o Wanda estava iniciada a vela de oceano em Alagoas. muitos anos antes de Eduardo Mafra ter o primeiro veleiro desta classe em Maceió, um albatroz de 28 pés, o "Stoppa", com Jaraguá completamente mudado, com a Ponte onde o pessoal do Wanda desem?arcou j~ demolida, trapiches também desaparecidos, armazens que viraram bancos e empresas diversas, cais do porto dando proteção para a cabotagem, barcos de pesca e de recreio fundeados por ali. Apesar de ter chegado na boca do inverno, certamente o Wanda encontro~ á~uas mais limpas e cristalinas do que as de hoje, sem sacos de plasttco flutuando em manchas de óleo jogadas ao mar pelos próprios pescadores sem. nenhuma fiscalização nem e~ucação ambiental, poluindo o mar onde vão depois pescar, nela atirando seus excrementos diários, tonelad~s de lixo, cabeça de camarão e peixe podre. Agora existe no local uma favela que dizem ser de pescadores, m~s que, na verdade, abriga toda a classe de desamparados urbanos e, m~asores de uma construção de porte, um grande frigorífico ~ubhco abandonado que apoiava pescadores, hoje uma favela imunda, sem instalação sanitária, onde ficam empilhadas centenas de pessoas cujos excrementos são percebidos duzentos metros do local, rememorando o tempo das pontes e trapiches. 114 Os barcos arrastões e suas pesadas redes de caman)o prn1rns c111 11 '411stadores tangões retiram do mar, diariamente, milhares du 11n1ucnos peixes que de nada servem, e que, na época do Wandn, ll1sciam e serviam de alimento para outros peixes maiores que li ~tentavam, pelo anzol honesto, centenas de pescadores de linha .ll· fundo. E, com isso, em nome do sustento para o pescador de 1.11narão, configura-se uma das maiores contradições na política 11111bicntal na área. Volta e meia, quando a natureza bota para chover, o '-1,1lgadinho traz para a Enseada toneladas de detritos que ficam ll11tuando por perto dias e mais dias, finalmente afundando para se rll·comporern durante duzentos anos, no local onde antes os peixes 1ksovavam. ou navegando até as praias entre Coruripe e o São 1 rnncisco. Depois do pioneiro segipano, muitos anos se passaram para que surgisse a Flotilha Alagoana de Veleiros de Oceano, com sede 11.1 f cdcração Alagoana de Vela e Motor, justamente no local onde L'ta a Ponte de Desembarque. Felizmente, no meio de tanta desventura, a Prefeitura de Maceió está providenciando a despoluição do Riacho Salgadinho e 11 saneamento do bairro, visando restaurar assim a pureza das águas de Jaraguá. ·-----------------------------------~------------------------------------------- Aqui chegaram e daqui se foram os guerreiros do Sul. Na noite do dia 15 de outubro de 1942, a voz feminina da Rosa de Berlim, uma rádioemissora nazista, colocou no éter notícia mais ou menos assim: "Desembarcou no Porto de Recife o Segundo Grupo do Quarto Regimento de Artilharia Motorizado, trazendo uma dúzia de canhões Krupp 75 fabricados na Alemanha. O navio foi o Almirante Alexandrino construído em llarnburgo, e o Comandante do Grupo é o Major Brayner que é filho de alemães comandando soldados descendentes de germânicos e italianos." O navio partira da Guanabara no início do mês, compondo um comboio, cujo "trem", além das belonaves de escolta, foi constituído nesta ordem: la fila - Almirante Alexandrino, que era o 135
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    comodoro dos mercantes,seguido do Emília e Afonso Pena; 2a - Brasilóide, Araranguá, Itaimbé; 3a fila - Bandeirante, Cari Aníbal Mendonça, todos transportando tropa e seus materiais o Nordeste, especialmente artilharia e tanques. Seus tripulantes passageiros sabiam que mais de seiscentos brasileiros jaziam fundo do mar afogados nos destroços dos navios torpedeados agosto último, nas águas de Sergipe e Bahia. E por isso viajav tensos, porque poderiam encontrar a morte a qualquer momen até que avistaram Boa Viagem e Olinda. O Il/4o RAM chegou de ltu por via ferroviária até a Doca 11 do Porto do Rio de Janeiro, onde embarcou no Almiran Alexandrino e depois numa composição ferroviária de Recife Maceió. Três meses antes da chegada do comboio, uma matilha de de submarinos alemães flutuou em volta dos Rochedos de São Pedro São Paulo, duzentas e cinqüenta milhas a nordeste do Arquipélag de Fernando de Noronha, e um deles, o grande U-460, conhecido. como "Vaca Leiteira'', abasteceu todos com o óleo necessário. tendo alguns seguido imediatamente para a costa norte até o Oiapoque, enquanto outros desceram a corrente equatorial sul até o saliente nordestino, e uns poucos chegaram a Guanabara ou até mesmo a São Francisco do Sul, com a missão de impedir o fluxo de navios para a América do Norte levando matérias primas e alimentos. Um deles, o U-507, do Capitão Scharht, encontrou e afundou o Baependi (270 mortos), o Araraquara (130 mortos), o Aníbal Benévolo (150 mortos), o Itagiba (37 mortos) e o Arará (20 mortos), num total de 607, tudo sem declaração de guerra e em apenas três dias daquele agosto sinistro. · O País ficou condoído. Aqui em Jaraguá, na Rua Silvério Jorge, estudantes e moleques enfurecidos invadiram a residência de uma família pacífica e operosa de descendentes de italianos promovendo as mais descabidas cenas de vandalismo, praticada~ por amigos das vítimas, com os quais jogavam futebol na Praia da Avenida, a menos de duzentos metros do local. Veio então o Estado de Beligerância e Maceió transformou-se numa base militar de patrulhamento aéreo e de treinamento dos 136 norte-americanos, de defesa do litoral pelas unidades do Exército - 'ºº BC, 22Q BC e Il/4Q RAM, estabelecendo-se uma curiosa :OlVivência na Cidade entre a infantaria de nordestinos, a artilharia llr paulistas e a aviação dos americanos, no meio da juventude e'lludantil, mocinhas, marinheiros e povo. O Grupo aquartelou-se de improviso no velho prédio da hbrica Santa Margarida, Rua Sá e Albuqll:erque com Mato Grosso, qunse na Avenida da Paz e bem em frente da Fábrica de Mosaicos ilt3 Paulo Pedrosa, despontando para os largos espaços da praia, nnde os soldados faziam exercícios de campo, colocavam seus l anhões em posição, construíam trincheiras e instalavam teodolitos, prnnchetas de tiro, balizas, fios de telefone, em constantes vozes de l·omando, apitos, toques de cometa, desfiles, disparos de festim. Depois da "Ordem de Vigilância" de 3 de novembro, do ('omandante do Grupo, a tropa ocupou Porto de Pedras e Coruripe, licando urna bateria de tiro e o Comando em Maceió, naqueles 11lojamentos "onde o calor era grande e foram improvisados gabinetes, secretaria, sala de comando, cozinha, refeitório de oficiais, rancho de praças, enfermaria, alojamentos, corpo da guarda e xadrez, usando-se divisões e alvenaria singela de dois metros de altura", nas palavras do Aspirante de Artilharia Sylvio Von Sõhsten Gama em seu livro de memórias. Homens desgarrados de suas famílias foram cair na velha nrmadilha de toda campanha militar, as prostitutas. Distante menos de trezentos metros do quartel estava a boemia de Jaraguá, onde se fazia sexo e se dava expansão às almas reprimidas pela disciplina e pelo dever. Por isso, mais da metade dos soldados, logo nos quinze primeiros dias, foram à visita médica queixar-se de gonorréia, numa fila que pareceu maior do que a do rancho matinal. Diante da realidade, os Comandantes de Bateria receberam ordem do Comando do Grupo para dizerem à tropa: - Venérea, trinta dias de xadrez, com instrução! Mas não adiantou muito porque a soldadesca estava sempre às voltas com as enfermidades do amor e com as patrulhas do Exército e dos americanos das base do Vergel e do Tabuleiro, em brigas só terminadas pelos cassetetes e camburões. E o motivo era quase 137
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    sempre o mesmo:uma rapariga que deixava brasileiro pobre pe gringos pagando em dólar, muitas vezes apenas para beber e ti carinho. Dizem que a situação ficou insuportável quando ambulância americana atropelou e matou dois soldados do 20Q numa coluna de marcha do Capitão Ferrão, ferindo também out quinze, o motorista desapareceu na escuridão da noite, se viram. bêbado, e a viatura foi totalmente destruída por coronha da tropa. Houve também o caso de um soldado de boa família 1 que metralhou as prateleiras do Clube dos Oficiais Americanos, USO. onde é hoje a Fênix Alagoana, deixando em pedaços centena de garrafas de whisky. Mas havia os momentos debele quando o Grupo desfilava na Avenida da Paz, Dia da Pátria, e continência ao Interventor lsmar de Góis Monteiro, com o Teneni. Barnabé Oiticica conduzindo o Pavilhão Nacional, com garbo insuperável, embarcado com sua escolta numa Dodge "Maria Gorda", com os canhões atrelados logo depois. E, terminada a guerra, se foram numa bela despedida, de volta para ltu, quando muita gente chorou as saudades de Jaraguá. 138 Tl·rceira Parte: O llOMEM. Em Jaraguá quase todos trabalhavam para o comércio de importação e exportação, restando para o aontro de Maceió as demais atividades econômicas. Em algumas partes do bairro, as pessoas se divertiam nos clubes e nas festas de rua, como a de São João na Estrada Nova, e a da Padroeira Nossa Senhora Mãe do Povo. Alguns residiam nas boas casas da Avenida da Paz, na Rua Santo Amaro, depois na Pajuçara, ficando os humildes nos biombos de palha para além do trilho do trem, em torno do Cemitério de Jaraguá e ruas interiores da Ponta da Terra. . Pelo fato de os homens estarem marcados pela hierarquização e estratificação sociais, sua fauna era elmples: no topo os comendadores, ricos comerciantes, os servidores em direção; no meio os contadores, fiscais, funcionários, despachantes, comerciantes menores; embaixo ficavam os trapicheiros, estivad~res, catraieiros, barcaceiros, biscateiros, motornearos, soldados, guardas, ganhadores, vendedores ambulantes, carpinteiros, postalistas, trabalhando no porto, nos trapiches e armazéns, escritórios e Instalações alfandegárias e fiscais. Havia a prostituição nos sobrados das pensões da Sá e Albuquerque para a "primeira classe", as de rua no Duque e no Verde para a "segunda", e os canos de esgoto dos becos do Urubu, Onça, Queimado e da Facada, para o rebotalho da "terceira classe", pontos de encontro informais entre as pessoas daqui e do outro lado da terra. O tempo passou e, quase escondidos na neblina do esquecimento, ficaram na memória do povo os tipos sociais característicos e suas história~, com as quais se pode reconstituir o ambiente em que viveram. 139
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    • APRESENTAÇÃO DA TERCEIRAPARTE: José Fernando de Maya Pedrosa, mais conhecido como Zé l•crnando nos círculos sociais a que pertence: intelectual, artístico, militar e esportivo, pede-me. para prefaciar a terceira parte - O l lomem - de seu novo livro "Histórias do Velho Jaraguá". Trata-se de um convite que me deixou exultante, por dois 111otivos: Zé Fernando é um primo de quem muito gosto, e segundo, por se tratar de wna rara personalidade polivalente, verdadeiro homem dos sete ofícios e que, por onde passa, cria uma leva de .1dmiradores e amigos, graças à maneira envolvente que o caracteriza. Quando militar, desempenhou com galhardia suas funções de infante, no Brasil e no exterior; aproveitando as horas de folga, esculpia, pintava suas marinas e escrevia sobre a nossa história. 1oi nessa época que lançou, em 1963, o seu primeiro livro, a hiograíia de meu saudoso parente e seu avô materno, "Alfredo de Maya e seu Tempo'·, muito elogiado pela crítica e pelos leitores. Reformado como coronel, não cortou o vínculo com a classe e, dentro em breve, lançará uma importante obra solicitada pelos seus colegas de anna. Ao pendurar o fuzil, o sabre e outros apetrechos bélicos, Zé tornou-se um arrojado marinheiro adquirindo um barco, o célebre "Mestre Rosalina'', movido à vela e motor. Com ele veio do Rio de Janeiro e daqui navegou várias vezes para Fernando de Noronha, e quando lhe perguntava o porquê das viagens, dizia-me: - É para desenferrujar as juntas. Sobre essa fase marítima de sua existência, escreveu o seu segundo livro: "A Saga do Barcaceiro", no qual demonstra ser um exímio navegante, um lobo do mar, como diz a marinhagem. 141
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    Reformado, passa aesculpir, pintar e escrever com ma intensidade e já tem pronto esse novo livro onde descreve co maestria o importante bairro portuário de Jaraguá, o ambiente existente nas primeiras décadas desse século e o homem que ne VlVta . Analisando a parte a mim solicitada para apresentação - O Homem - quero ressaltar que Zé Fernando transfere para aa dissertações históricas o estilo usado em suas telas e esculturas. como se estivesse utilizando o pincel e a goiva para nos transmitir, com detalhes, ~s figuras por ele descritas: o hercúleo Zé Guindaste, contrastando com a magreza do inglês Macgray, dono da égua puro sangue que muito deu o que falar na paróquia, Põe Mesa, bela caricatura do terrível freqüentador da zona onde botava pra correr as putas com seu respéitável falo, por elas comparado ao de uin jumento. Assim, Zé Fernando continua descrevendo, com habilidade, dezenas de criaturas que "loitavam" como se dizia em Jaraguá, algumas décadas passadas, procurando nos transmitir, além do perfil das figuras ilustres, os tipos populares e outras pessoas comuns que apresentavam um comportamento que as caracterizava: altos comerciantes, autoridades, funcionários públicos, marinheiros, trapicheiros, carregadores, desordeiros, estivadores, soldados e barcaceiros, dentre outras categorias. Não esquece as raparigas grã- finas da Sá e Albuquerque, entre outras, e as do baixo meretrício: Duque, Verde, becos do Urubu, Onça, Queimado e da Facada, com seus célebres seixeiros, focos de moléstias venéreas, brigas e muita cachaça. Há, em tudo isso, por parte do Zé Fernando, uma dose de denúncia social por apontar as angústias e sofrimentos dos mais pobres, a prepotência das autoridades e as diferenças na escala humana, alguns ricos, os remediados sem brilho, os miseráveis desamparados, constatando-se a sensibilidade do autor e seu registro para o estudioso. Inicia essa terceira parte de sua obra contando a história de um coronel que aguardava, com entusiasmo, na Ponte de Jaraguá, a chegada do filho estudante em Londres, como um cabra macho, mas, ao pisar em terra firme, pintou logo como um efeminado pra ninguém botar defeito, e o Zé narra o fato com perfeição. 142 llistoriador por excelência, o autor demonstra grande poder""' p ,quisa, suas narrativas são explícitas e muitas delas parecem sei º'"" de ficção, embora sejam a pura realidade. A mais rica fonte d1 i.,lus histórias foi a venerável figura do velho Alfredo de Maya, d1 lluem ouvi grande parte do que o Zé conta no seu livro; outro 111tormante de peso foi o seu genitor, ex-industrial e conceituado 11111hientalista Paulo Pedrosa, dono de uma fábrica de mosaicos no 111lcio da Avenida da Paz por muitos anos. Durante a leitura de seu belo trabalho que deve ser lido por 111do alagoano, descobri que o prezado primo dá uma de mágico e piocura escamotear os autores de certas façanhas: o mancebo salvo il.1 sífilis por um anjo da guarda é o próprio Zé Fernando, e o João ·ll' Jade que aparece em mais de uma estripulia é o nosso velho mnigo comum João Simões, conhecido mais recentemente por "João Bardal", isso para não falar dos ricos comendadores e 1•portadores que cometeram atos falhos inimagináveis pelas suas posições sociais e econômicas, e cujos nomes não se pode revelar dt• maneira alguma. Finalizando, quero apenas lembrar que Mossoró começou a mia como cortador de cana na Usina Santa Clotilde e, quando veio pnra Maceió, passou a ser pintor de parede. Logo depois, juntou-se , 0111 Gedalva, a dona da Pensão Tabaris, ponto de partida para a onquista do título de "rei da noite" de Maceió. Edoor Valente Bittencourt, médico, memorialista, professor aposentado da UFAL e sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. 143
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    . 1' ~~ ~~~~~~~.?~_:;: ? Tiposdo Velho Jaraguá. Burocratas de trapiche, 1935, detalhe retocado de fotografias da época. Populares, desenhos do autor do livro. 144 ..------~-----------------~-------------------------------------------------- llm garoto efeminado e um pai intolerante. Estava chegando de Londres o garoto. É fácil imaginar a nll!gria e o orgulho de seu pai, um coronel de engenho, postado para 11..•cepção no palanque da Ponte de Jaraguá, cercado de familiares e 111nigos, olhando a atracação de um bote vindo do largo. Havia três 1111os desde o embarque do filho num paquete internacional em Recife, indo estudar no Velho Continente. Para aquele proprietário, educar seu primogênito na Europa era o grande sonho, porque habituou-se a admirar a cultura e o aprwno de um velho tio que chegara de lá falando inglês e francês, pontificando ciência e literatura da Bela Época em Paris e Londres, depois eleito com brilhantismo para a Academia Pernambucana de Letras. Era o que mais desejava fazer e não pôde. Mas executou o sonho mandando o menino de quatorze anos, um estudante quieto e de boas notas, recomendado do colégio interno em Recife, elogiado pelo seu comportamento exemplar, asseado, estudioso e aprumado no vestir, até por que não dizer? com modos europeus, sabia-se aprendidos com um dos seus mentores no internato. E passaram-se os tempos, três longos anos. O jovem mandava notícias com freqüência e o correspondente de seu pai na capital britânica dizia por carta que aprendera em dez meses a língua, seu rendimento no colégio era bom, e que gostava do internato, de onde pouco se afastava. Da última vez que o vira estava górdo e alegre. Por isso, disse o Coronel orgulhoso e olhando o bote de quatro remos de voga já chegando: - Meu próximo sonho é que seja um Deputado da República pelo Partido Republicano Conservador! Tudo farei ... será o caçula da Câmara! E um amigo ao lado somou firme e pausado: - Senador ... Senador, Senhor Coronel, que mais merece ... Enquanto os catraieiros amarravam os lançantes do bote na ponte) o Coronel não sabia ainda que teria tanta raiva numa semana a ponto de perder o aprumo. 145
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    É que, aodesembarcar o garoto do bote e pisar na escada ponte, espalhou-se, em todos os presentes, uma surpresa diflcil descrever naqueles tempos de machismo, rigidez moral, cadavéri indiferença de uma realidade, repulsão ferrenha à modali amorosa que já estava em moda na Europa, sem muito pud diziam como conseqüência das trincheiras da Grande Guerra, amor entre pessoas do mesmo sexo. Desembarcou vestido como um almofadinha, cheiroso perfume francês, um pouco de tako nas faces rosadas pelo marinho, calças muito justas, blusa com rendas proeminentes q balançavam ao vento, enquanto falava virando os olhos e juntan as mãos, torcendo o rosto para os lados e para cima, contrário a braços. Além do mais, dedicou-se quase que exclusivamente 80I grupo feminino de suas irmãs, primas, tias e amiguinhas, dando conhecimento e comentando a última moda da Europa, aquela saias curtas e coladas demais, chapéus que nem casca de ovo ou meia bola de borracha, de onde saíam enormes penas de pavão, meias pesadas e acima dos joelhos, enfim, um sucesso. Sequer ligou a menor importância quando o irmão menor lhe deu notíciaa de seu potro pampo com sela comprada em Caruaru especialmente para sua chegada, domado, correndo na campina da fazenda, subindo fogoso nas éguas da redondeza. Enquanto isso se passava, crescia a estupefação do velho patriarca que mal se disfarçava em sua sizudez instantânea e pétrea, fervendo de indignação, at6 evitando olhar o garoto de frente, e muito menos os amigos que foram abrilhantar a recepção. Depois de percorrerem toda a ponte até o chalé de saída ao lado da Recebedoria, fim de desembarque, o garoto quase na ponta dos pés e meio curvado, com voz delicada e doce, virou-se para o pai e fez sua primeira pergunta arranhando a garganta como inglês que aprende nossa língua: - Papi, papi. Que árvore lindíssima é aquela? apontando para os lados da Capitania dos Portos. E respondeu o pai um tanto ríspido: - Num tá vendo que é coqueiro? Já esqueceu? Oxente! E continuaram, o Coronel com pressão por certo de 21x12 e pescoço azul de tanta veia estufada, enquanto sua esposa, tentando 146 di~fnrçar os constrangimentos. afastava parn longe o filho 011 llcnva entre ele e o pai, mudando de assunto, desconvc111umlo li licadamente. E, uns quatro dias depois, veio a explosão do pobre homem 111contido em seu descontentamento, perguntando, dentro de sua .1lma máscula e rígida (e que se chamaria hoje de preconceituosa), .linda na esperança de estar enganado: " será que ele é ? " Indo de automóvel com a família para uma de suas pl'Opriedades perto de Maceió, teve a viagem paralizada por um pedido de sua esposa ao motorista para o garoto satisfazer sua vontade de urinar. E então ele se afastou do carro com delicadeza, o cotovelo l'Squerdo alto como vértice de um ângulo reto, mão posada de costas no quadril, como se levasse uma ânfora em baixo do braço, l.lnquanto o outro cotovelo mostrava uma ligeira e feminina curvatura entre o braço e o antebraço que quase roçava ao passar pela cintura, num conjunto realmente harmonioso como o de uma modelo desfilando em passarela, rebolando os qua1tos em torno da cintura, quase que flutuando - uma autêntica gazela virgem. Foi quando, não se controlando mais o Coronel, e com vergonha do motorista, do banco dianteiro sacou o seu revolver cano longo e gritou para o filho: - Psiu ... Psiu ... O garoto voltou-se então para trás, atendendo, e o velho verberou bem alto, apontando o revólver para ele: - Se mijar de cócoras eu atiro. Seja macho! E não teve mais dúvida. Não era. ______________________________,_____________________,___,____________________________ A ironia de um alemão e a ingenuidade de um exportador. Depois de navegarem de bote desde o vapor ao largo até a Ponte de Jaraguá, o Comendador e sua família foram cercados por uma comitiva de parentes e amigos. Todos procuravam captar as atenções e alegrar a vaidade daquele homem importante no comércio de exportação. 147
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    Enquanto esperava odesembarque da bagagem pesada, família mostrava algumas compras, entregava pequenas lembr da viagem e o Comendador dava asas a sua Hngua. Elogiou hospitalidade dos ingleses e dos alemães, principalmente de ultimos, com os quais mantinha vultosos negócios de açú1,;ar muitos anos. Volta e meia mirava seu algibeira de ouro pendurado grossa corrente também de ouro e posto no bolso superior do col que usava escuro, mesmo naquele calor da quaresma. Foi quan por cima dos bigodes, falou para a audiência atenta que parecia a de um ministro ou senador, diante da indagação de co fora recebido nas europas: - Imaginem. No almoço que um diretor - parece que er1 tal de Herr, sei lá o nome direito - o.fereceu para mim naque refinaria em Hamburgo, eu na cabeceira, vinho da melb qualidade rolando com carneiro assado no repolho ... mui gente em volta ... - E como foi a homenagem, Senhor Comendador- adiantou-se um funcionário de sua firma, com voz de quando quer pedir bombom ao avô pouco antes do almoço. - Ora (continuou), escutem só, o tal de Herr ... parece q tinha um sobrenome depois ... como foi mesmo o sobrenom dele? oh, memória fraca! ... só sei que ele falou que tin mandado fazer nos lados da fábrica uma rua que batizou d Avenida Brasil. O lugar ficava no recreio dos operários ... imagine, os operários todos brancos de olhos azuis. Vocês i• viram uma coisa dessa, operário de olho azul ? Branquelos! Narrando as iguarias do dia, o homem, sempre loquaz, disse em seguida que manifestou ao Sr Herr, através de um intérprete, sua vontade e honra em conhecer a tal avenida com nome de seu saudoso e querido país, que tanto açúcar mandava para Hamburgo. E foi atendido. Depois do licor de fim de banquete, chegaram ao local numa caminhada digestiva e alegre, séquito de funcionários graduados da fábrica atrás, respeitosamente, lembrando uma procissão, daquelas que chegam e saem da Catedral pela Rua do Sol. 148 Contou então o Comendador, com a cara mais i11occnh.', tllll.' 1;1.1 um aterro pilado de barro e areia como a do Rio MW1daú cm M111 ici. ou mesmo do Camaragibe, adiantando em seguida: - O homem foi logo dizendo e o intérprete falando em português que aquela avenida aprumada era feita com areia 11nc vinha no açúcar de Jaraguá. E eu disse então agradecendo 11 ~cntileza: muito obrigado pelo Estado de Alagoas ... o senhor (• muito educado, como todo mundo daqui ... e, empinando o 1..mpo e balançando a cabeça com as mãos agarrando as abas do pnlctó semi-aberto, perguntou: - É muita honra, não é? essa tal de Avenida Brasil na Alemanha! E ficaram os ouvintes fazendo que não entenderam nada. E perceberam que o próprio Comendador não cap.tou a ironia do alemão, do contrário não teria contado a história. Afinal, a vergonhosa mistura não era feita no trapichc e sim nos engenhos ... uem todos, é verdade. Depois das despedidas e agradecimentos, aquele grupo de viajantes tomou feliz o Ford 29 estacionado logo pertinho, e se foi o Comendador olhando para frente como um general em desfile motorizado, família atrás formada em estado-maior. Quando um Governador quis ser gentil e se deu mal. Corria o ano de 1906. Depois de muitas visitas, solenidades e discursos, reuniram-se as autoridades em frente da entrada da Ponte de Jaraguá para as despedidas ao Presidente eleito Afonso Pena e sua comitiva, pelo Governador Euclydes Malta, seu secretariado, personalidades civis, militares e eclesiásticas, as mais importantes colocadas para uma fotografia no último degrau da calçada e em frente do acesso central, um dos três lá existentes. Ao lado do visitante ilustre estava um capitão da Força Policial em posição de sentido, erecto e aprumado como um guarda real. Era muito alto e espadaúdo, portando no ombro direito alamares cor de ouro, a espada em talabarte do lado esquerdo da cintura, quepe novo e reluzente 149
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    enfiado com aprumona cabeça, duas medalhas milita penduradas no peito esquerdo. Ele fora o ajudante de ordens qut o Governo do Estado pusera à disposição do visitante para que, ao seu lado pelo protocolo, desfilasse, abrisse a porta do coche presidencial, coordenasse as medidas para atender às necessidades básicas da autoridade e de seu conforto e segurança. Teve também que ser um bom jarrão naquelas circunstâncias, trazendo o sentido de força e prestígio a quem seguraria os destinos do País em breves dias e muito poderia fazer por Alagoas e seus políticos do partido situacionista, o Republicano Conservador. Ocorreu que o Presidente ficou impressionado com a eficiência d::tquele oficial limpo, discreto, marcial, solícito e atento, quase mudo, extremamente discreto como devem os militares ser para as autoridades civis em governo. Os únicos sons que emitia vinham das pontas metálicas de seus alamares, batendo umas nas outras e marcando o passo firme e cadenciado de seu portador, naquele tilintar próprio dos estados-maiores e gabinetes, e o choque de seus calcanhares quando fazia continência sempre perfeita, dizendo depois com voz firme e um tanto sonora: - Sim, Excelência ..., ou então: - Por favor, Excelência, por este lado, Excelência ... está em frente o chefe do protocolo, adiante, o Dr Euclydes ... ou ainda: -Água fresca para Vossa Excelência? ... garçon! Alguns críticos da visita presidencial, inclusive jornalistas acompanhantes do Rio de Janeiro, disseram que melhor teria sido que designassem para a função de ajudante um homem mais baixo para que não despertasse no público a idéia de que o Dr. Pena era 150 1l1111muto. Mas reconheciam que a dupla impressionou pela sisudc1 , compostura e que a diferença entre o Ajudante e ? Primeiro Mandatário eleito, o militar com um metro e oitenta e sete e a •1111oridade com pouco mais de um metro e sessenta e quatro, poderia ter sido até motivo de ridículo, mas que não fora. Constatou-se também para o público que o oficial era filho de 11111 imigrante alemão chegado aqui depois da Franco-Prussiana de 11 • um sapateiro que fazia chinelos e botava meia-sola num quiosque do Mercado Público, herdeiro de um físico invejável e proporcional, ainda não atingido pela verminose e pelo 11npaludismo de gerações e gerações passadas nos trópicos úmidos. Na verdade, o Governador Euclydes desconhecera tais diferenças de altura porque obedeceu a dois critérios que lhe pnrcceram mais corretos: o militar devia ter boa apresentação e licha disciplinar limpa. Mas, segundo tomou conhecimento pelo e'omandante da Força, todos os capitães, inclusive os mais preparados, examinados cuidadosamente um a um, eram baixos demais ou muito magros, ou muito gordos e barrigudos, e a 111aioria, apesar de bons de volante contra os bandoleiros do 111terior, não tinha o menor traquejo para vestir uma farda de gala, muito menos acompanhando uma autoridade tão importante. O melhor deles, lido e até dado à poesia, mancava de uma perna, o seguinte na ordem intelectual (gostava de fazer discursos) carregava uma cadeia por comportamento irrregular, questão de dívidas, um defloramento quando era delegado em Piranhas, etc, etc. inclusive uns dois ou três sequer sabiam escrever uma parte de ocorrência. Quase todos eram moreno-corpados, encéfalo grande demais sustentando cabelos carapinhados e duros, segundo pensava o Governador, contrariando a leveza mineira e educada do Presidente por acompanhar. Em meio de tão grandes dificuldades e na ausência de um capitão em condições, informaram ao Governador que um certo tenente que o povo chamava de "Galego da Lagoa" além do porte militar de sua raça prussiana, aprendia as coisas com muita facilidade, estava sempre calado e nunca fora intrometido e folgado com seus superiores, e nada havia em sua folha corrida que o desabonasse, nem encrencas no quartel, nem truculência policial, 151
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    nem envolvimento compolítica, questão que o Dr Euclydes le a sério. Entretanto, avisaram, o tenente não cursara mais do que segundo primário e fora sargento até o ano anterior, promov mais pela marcialidade e bom exemplo de militarismo do que sua antiguidade e nível de escolaridade, concurso muito men Era muito bom de desfile, num meio em que a marcialidade s quase ridícula na tribo policial. - Mesmo assim pouco letrado, é esse que eu quero (decidi&& Governador no despacho) ... no entanto, é preciso prepar' para a tarefa. Se for necessário, mande-o fazer um treiname de sinais de respeito no quartel do Exército. Desejo tamb' que seu uniforme seja preparado no Recife sob medid Mande-o de trem ... fica hospedado no Quartel do Derby. E falo com o Governador ... e, voltando-se para o ajudan militar, detenninou ainda: - Quero também que o Tenen seja promovido a capitão - prepare o decreto - e que lhe sej• apostas duas ou três medalhas. Posso pedir uma a Pernambu outra ao Rio Grande, em Natal. T raga-o a palácio para u conversa na próxima audiência militar. Depois da tal audiência, O Governador confirmou para si mesmo que estava no caminho certo e deu outra ordem a Ajudante: - Mande botar uma chapa dentária nele por conta Estado. Ele perdeu a segunda dentição e não fica bem aparecer com a boca murcha diante do Presidente. É bom. Foi o único defeito que encontrei nele ... mas isso o erário resolve. Obl Também quero que corte curto o cabelo, como nas tropas policiais do Rio de J aneiro ... me pareceu que não dá banho na cabeça há algum tempo! Mas isso a ele se impõe ... Terminado o estágio e já com os uniformes prontos, dentes novos, cabelos retos e limpos, como convém a um militar de carreira, foi o capitão colocado a par de todo o protocolo e programa da visita, vendo-se mais uma vez que fora uma boa escolha, sobretudo porque as pessoas louras e de olhos transmitiam algo de superior e elegante. E logo ele 152 fltmiliurizado com os procedimentos palacianos, apesar de culmlo 111110 um jabuti. Mas, voltemos à Ponte de Jaraguá _ . No final da visita, todos ali deslocados para o galpao de zmco, 11 1)r Euclydes mal disfarçava sua alegria. O protoco~o correra ?em, i: 111 nenhum deslize grave, os discursos foram ?1~1to aplaudidos. liiclusive 0 do Dr Alfredo de Maya, dígno Secret~no da Faz~nda, o l'il·sidente fora gentil e solícito aos ped1dos, elo~1~ra a lui-.pitalidade e até a pontualidade dos alagoanos!, e o Cap1tao seu ,11udante não cometera nenhum lapso. Mas, naqueles mom~n~os llllnis, já reunidos todos no palanque da Ponte, Banda. de Musica postada para 0 Hino Nacional de praxe, o bote especial atracado Hll1l marinheiros de escolta em gala, remos para. o alto, .deu-se o 11 nprevisto no último diálogo da visita, com o Presidente dizendo: _ Governador Euclydes. Devo manifestar a Vossa Excelência que estou muito bem impressionado., co.m ~cu 1 ijudante-de-ordens aqui no Estado, e assinalo. que Jª ~~ mmtos 1 ;or aí por isso ouso pedi-lo para o meu Gabmete M1htar. Se Vossa'Excelência concorda, mando providenciar o embarque tlcle em Recife, quando o paquete voltar da visita ao Piauí. Formou-se então um ambiente de estupefação, mais ainda no Ciovernador e no Comandante do Batalhão Policial ao .lado, todos suados pelo calor do dia e pelo imediato constr~ng1mento que surgiu. E ficaram petrificados por instantes, sem sa1da para o c.a:o e diante da hipótese de mandarem para o Rio de Janci~o um cap1tao semi-alfabetizado e que há um ano era um humilde sargento seleiro-currieiro nas baias do Comando Geral, depois subtenente chefe das baias, tratando com animais e arreamentos, como lhe havia ensinado 0 pai também um experiente ex-sargento de cavalaria do Cáiser! . E 0 Dr Afonso Pena, percebendo algum constragimento, abnu novamente a palavra: _ Já sei, Doutor Euclydes, ele parece indispensável em seu serviço de ordens no palácio, não é? Mas, de ~ualqucr maneira, mantenho o meu pedido, dada a necessidade de formar logo um bom gabinete . 153
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    Foi quando umpolítico palaciano, que se poderia chamar intrometido e inoportuno, em vez de esperar que as coisas fluis para depois tudo se resolver, como é usual no jogo entre autoridades, intentou uma solução atravessada, a qual o Euclydes não ousou contrariar, porque ainda não conseguira sair torpor gerado pela situação: - Sr Governador - com licença, Excelentíssimo Presiden por que não perguntar ao próprio Capitão se aceita o hon convite? E foi o que o Dr Euclydes fez, voltando-se para o ofici - Então, ilustre capitão, o senhor aceita ir para Presidência com o Doutor Pena? E deu-se, mais uma vez, o inesperado. O oficial, pensando q jamais seria digno de tamanha honra e responsabilidade, demo mais da conta para responder ao Governador a pergunta. F ficando vermelho arroxicado, as veias do pescoço saltaram andaram como que imprensadas pela corda de uma forca, arregal mais da conta os olhos azuis, parecendo agora maiores e mais az ainda, e para fora das órbitas como se fossem saltar, estico desmesuradamente o pescoço afinado para fora da gola e largou s resposta em voz bem alta e trêmula: - Seu Excelença, eu não posso porque sou um bosta! E solução foi fazerem todos que nada tinham escutado, enquanto o chefe do protocolo corria por trás das autoridades para ordenar l Banda que iniciasse o Hino Nacional imediatamente. Durante o Hino tiveram tempo de colocar as cabeças nos devidos lugares para, em seguida, apertarem as mãos uns dos outros e se separarem. E lá foi o bote presidencial na voga dos remos até o navio ao largo, não se sabendo o que passou pela cabeça do Presidente, talvez um certo sentimento de culpa por não ter percebido o tamanho da ignorância que a estampa do seu ajudante escondia. - Meu Deus, que vexame foi esse? perguntou por sua vez o Governador sem saber para quem, talvez para si mesmo. Melhor teria sido escolher um baixinho daqueles, até mesmo um cabeçudo indisciplinado, ou o capitão que mancava, cuja esperteza alagoana, apesar da ausência de beleza e pompa, superaria plenarnente a marcialidade prussiana do "Galego da Lagoa". 154 l r C.:O.t.1,.Ô __________________________________________________________________,_ _____ -·-- ( ·01110 se passa da feliz expectativa para a cruel th~svcntura. Na alma de Marieta, carinhosamente chamada de Sinhá Moça, iovcm esbelta e bonita, o noivo era como a própria vida porque llll:lf)irava 0 perfume de suas lembranças e cartas de amor, nlunentava-se com suas deferências e recordações. quando outras 1ovcns estavam por ali, muitas, e logo e~a a preferida. . _ , A distância que os separava parecia agravar sua pa1xao,. ate.~ 1 hn cm que recebeu um aviso: ele chegaria de navio e~ de~ dias, Jª l'tHn os papéis prontos para o casamento brev~, _dm~1eiro para 111iciarem a vida juntos, emprego numa repart1çao federal em Maceió. No dia da chegada lá estava a moça na Ponte de Jaraguá, só Deus sabia quanta emoção fervilhava em sua alma. sonha~?ra e ,1paixonada. Dali mesmo sairiam para oficiar o no1:ado, Jª que nntes ocorrera por correspondência, tudo combinado e os preparativos da festa encaminhados pela família, presença dos parentes, tanto dela como do noivo. Contudo, ela não estav~ pronta para 0 que iria viver desde o momento em que um bote vmd.o do paquete ao largo atracou no batente da ponte, sem passageiro a bordo, apenas os quatro remadores e um homem fardado de marinha mercante de pé, ao lado de um pacote longo como um esquife, tomando mais da metade do comprimento do bote. de proa a popa, com uma mala de viagem e dois pacotes de papel de embrulho ao lado. _ Quem vai receber o corpo do rapaz? foi a pergunta do médico de bordo do paquete, certo de que alguém fora avisado pelo agente de viagem sobre o seu desenlace a bordo por uma febre galopante de três dias. . A pergunta veio como uma mensagem de tristeza, mas l?nge de Marieta pensar que tamanha desventura ocorresse com o noivo e com ela própria, e desviou a vista para o mar, onde outros .botes iguais se aproximavam com passageiros e bagagens, senhoritas e senhoras de guarda-chuva, homens de paletó e gravata, colete, chapéu meninos vestidos à moda marinheira, sorrisos e acenos de , 155
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    braço, beijos jogadoscom as mãos, gritos de alegria do pessoal terra. Mas não avistou o noivo nem no último bote que atr com passageiros, e ficaram ela e seus acompanhantes olhando para os outros, quando se aproximou aquele mercante pergunt se eram da família do desafortunado, cujo nome anunciou. corpo tinha de ser entregue junto com os papéis: atestado de ób cópia carbono do oficio do Capitão do Navio às autoridades terra, o inquérito sanitário de bordo, mediante um longo recibo duas páginas, inclusive contendo uma relação de pertences morto. E tudo isso ia falando o homem, como que desincumbindo friamente de uma tarefa exclusivame burocrática, interrompida por um grito de horror da moça. Dos vinte anos que vivera, até a sua morte quase centenári nada mais fez a jovem Marieta, depois uma mulher madu finalmente uma velha, do que chorar silenciosamente e vestir-se preto. Sua beleza foi desaparecendo logo, sua elegante altura foi- transformando em queda tisica, pela curvatura da espinha, omb caídos e postos um pouco para frente. Sua tez alva e rosada n dias de sol, como aquele da espera, logo tomou-se pintura fosca um rosto macerado e triste, sua voz foi emudecendo, os cabei ficaram alvos e desalinhados antes do tempo, criou olheiras fundas rugas na face, a curiosidade que tinha virou contemplaçã indiferente do nada, enquanto olhava em frente através das coisas tJ pessoas, como se fossem transparentes. Os que dela gostavam desistiram ao longo dos anos de conversar com quem demonstrava total apatia, até mesmo dianto- das coisas mais interessantes da vida, como que se morresse lentamente enquanto passava semanas inteiras comendo papa de maisena assentada numa cadeira que passou a fazer parte dela, de tão ligadas. Muitos anos depois, o sobrinho Caubi Dâmaso, gente da Boca da Mata e Anadia, que fora estudar no Sul, sob a lembrança triste daquele figura cinzenta, sugerindo sofrimento, escreveu homenagem a quem costumava olhar cheio de comiseração: 156 "º111rnte 1>ara recordar, 111111ovcnte história de amor, ,. lt1111f!inação do leitor, t1111jrcturas dessa tragédia: IJ11111 tia querida ... faz anos ... 11t1111rda'a o noivo vindo do Rio p 1ir:1 o tão ansiado casamento. No transbordo do bote 1>llf'11 o ''"'~ o corpo sem vida do inditoso jonm falecido dias antes em alto mar ... Ela, Sinhá Moça, tomou luto nos dias todos da longa existência Viveu ncnenta e i.eis anos Jamais namorou outro homem ..• Hoje não se vê mais dessas coisas Meu tiucrido e saudoso Jaraguá! ... ··--------------------------------------------------------------------------- ( 'oofusão na mente de um rico simplório. Costumavam chamar o trem de ''vapor", talvez em alusão aos navios que chegavam em Jaraguá soltando fumaça pelas chaminés. t final, tanto um como outro usavam carvão de pedra ou lenha e suas caldeiras criavam o vapor que até nos apitos era o mesmo. Ce110 dia estava na Ponte de Jaraguá um expo1tador de algodão, prestes a tomar um bote para viajar pela primeira vez num da~queles paquetes de linha. Cidadão importante de Viçosa, tinha renome de próspero e sobretudo pacífico. incapaz de um ato de maldade ou de uma desconfiança. Em volta estavam outras pessoas para a mesma viagem e alguns parentes e amigos em despedida, naquele ambiente de certa ansiedade e expectativas. Foi quando a indumentária do ilustre comerciante chamou a atenção de um amigo curioso e irreverente, por estar ele com um guarda-pó que usava nas viagens de trem, tanto para Recife como na linha de Palmeira, e indagou: - Seu (fulano), boa tarde. O senhor acabou de chegar direto de Viçosa? - Por que perguntas isso, oh Aristides'? - Estou vendo que o senhor ainda não tirou o guarda-pé> da viagem. Guardando a elegância de Viçosa, não é ... elegância, viageiro de Deus ... e então respondeu ele com a cara mais séria: - E você não está sabendo então, Aristides, que o navio também é a v~por? E fez-se o silêncio. 157
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    Onde o sexoe a imundície conviviam. ... Jaraguá era ponto de encontro dos mundos, como de re todos os cantos portuários. Era a velha tradição da boemia, como freqüentar a zona fosse componente tindispensável masculinidade maceioense/E não era a posição social e econômi ou o cargo que impediam a tradição da Rua da Lama ou Rua Capim, no centro da Cidade, e de outros locais da boemia. Pel contrário, parecia até uma fom1a de mostrar poder e independênci encontrar-se descontraidamente com pessoas importantes, e co elas se nivelar, pelo menos uma vez por semana e sair-se um pouc da sizudez dos matrimônios petrificados pelo costume e pela religião. E o faziam aos grupos. amigos do peito, pessou engraçadas e cheias de personalidade, tipos muitas vezes diferentes, alguns grotescos pelos modos de andar e de conversar, predisposto1 à alegria. Eram políticos, fazendeiros, funcionários, tenentes e capitães do Exército, despachantes, telegrafistas, comerciantes. promotores, médicos, advogados, professores, contadores, agiotas. Formava-se então um ambiente que algumas vezes caminhava para os exageros, quando alguém influente resolvia fechar a pensão e promover uma orgia: "... homens e mulheres bem comidos e bebidos tiravam as roupas e ( ... ) se divertiam e rebolavam até quando as raias do amanhecer clareavam os céus." (Ledo Ivo, em "Ninho de Cobras"). Lá pelos idos dos anos cinqüenta, deu para freqüentar os sobrados de Jaraguá uma turma de tenentes solteiros do 20Q BC, cuja passagem em Maceió seria efêmera, todos liderados ou seguindo o exemplo do Capitão Camarão, um cearense amigo, engenhoso, inteligente e cheio de simpatia, todos com os "quartos" estufados por enormes revólveres Smith 45 por baixo de camisas de manga curta para fora das calças, a quem se juntou um deputado de Coruripe que, como seus amigos oficiais, costumava fazer exercícios de pontaria nas luminárias da Sá e Albuquerque, nas luzes internas das pensões e, certa vez, zangados com uma música repetitiva, em lugar de certo bolero ou tango que queriam, 1 ~8 11,1 clctrola da pensão da Dina, que silenciou imediatamente, tunto l1lu quanto todos os presentes no salão. . .. · Tudo isto era visto com certa naturalidade pela Pohcta que se negava ou não podia prender oficial nem deputad_o, ficando por lOnta do Major Mário Lima resolver os constrangimentos com a mais absoluta impunidade devido ao seu coração bovino. Mas dava nos seus comandados conselhos e os mandava pedir desculpas e pagar imediatamente à cafetina os prejuízo~. O Deputado, p~r sua vez não havia quem o contivesse. Ele sabia que suas tropelias na 1011~ do meretrício somavam votos na capital e no interior, por~~e 0 eleitor gostava de truculências como demonstrações de prestigio 1w impunidade desejada por todos, no intimo de suas almas de oprimidos sociais. Na zona mais baixa, a promiscuidade era total, a marujada .., 0 lta os soldados, toda sorte de assalariados e de autônomos, nlgu~s chegados do interior onde o sexo era re~rimido_ p~l~ medo de casamento na polícia, pela vigilância das tias, pro1b1çoes dos pais e repressão do vigário. Estavam por todas as partes as mulheres de vida fácil que, segundo se dizia, levavam a existência mais difí~il do mundo. E a humana hierarquia era aplicada também nesse umverso do amor de aluguel, segundo a beleza, a idade, a educação, a origem, a saúde e a fortuna. Assim, havia as mulheres reservadas, de casa montada, atendendo a um pequeno naipe de fregueses selec~onados que procuravam diretamente em seus biombos a alegna do, sex~. ficavam espalhadas em quase todas as ruas pobres de Jar~gua, mais para dentro da Estrada Nova, na antiga Trave~sa do Que1'.n~~o, na Rua do Rato, na Estrada do Oitizeiro, na antiga do Cem1teno, no Beco do Vilela, pelos arruados de dentro na Pajuçara. Esta c!asse de mulher recebia sem alarde seus fregueses depois de um dia de trabalho digno no Mercado, no comércio, em casas d~ famí.lia, ou costurando para fora, com a tolerância e até a s1mp~t1a dos vizinhos, porque em geral eram gente honesta ganhando a vida. ~ De vida 1ivre havia também o lote das raparigas de pensão na Sá e Albuquerque, naqueles sobrados de dois ou três andares~~~
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    escada alta demadeira impondo certo isolamento. Eram mulhe de boa qual;dade, jovens, de educação que às vezes surpreend (algumas cursaram o ginásio), bem vestidas, em certas ocasiões com roupa de baile, mostrando cerimônia e refmamento em vol das mesas e balcões, onde o respeito era bom que se tivesse, até q uma orgia revelasse o lado verdadeiro da zona. Nos sobrados da Sá e Albuquerque, as "pensões" conviviam em harmonl1 com escritórios, lojas, repartições públicas e consulados. Fotogra8* retocada pelo autor. Ficaram na memória a Dina, a São Jorge, a Joaninha e a Tabaris, onde o pintor de parede Mossoró fez sua aprendizagem do ramo com sua amante cafetina. Mas até na zona havia um certo romantismo. Era costume convidar-se a rapariga escolhida para dançar primeiro, dando-lhe direito à negativa, indo para o quarto depois de umas rodadas de samba .e bolero no salão, com orquestra ao vivo, onde predominavam o saxofone e o clarinete. Tomava-se ''cuba libre" 160 , ou rum com coca-cola, whisky com guaraná, moscatel, quinado e cerveja. Um nível abaixo, estavam o Duque de Caxias (mais conhecido 1.omo Duque), o Verde, o Beco da Onça e outros becos de Jaraguá. Eram ruas estreitas com biombos de parede com parede, um, dois ou três cubículos sem banheiro, corredores estreitos depois de urna salinha na frente onde ficavam as putas cansadas de guerra, despedidas da Sá e Albuquerque, junto com as rapariguinhas chegadas do interior, novinhas, "de primeira mão'', como diziam as cafetinas, sem suficiente instrução para conseguirem uma vaga nos sobrados. Perambulava por ali um enxame de gente da pior espécie, onde a pura cachaça rolava como água e, volta e meia, formava-se um bolo gigantesco de homens annados de facas em corre-corre geral, polícia chegando logo depois e prendendo todos que encontrava por perto. Não era raro que por lá chegassem os rapazes de boa família atrás das emoções do sexo, trazendo de lado seus guarda-costas, quase sempre trapicheiros monumentais como o Presília e o Colomi. E sumiam sem muita demora nos cubículos fedorentos e tão diferentes de suas casas na Pajuçara como eram as raparigas da zona de suas namoradinhas do Cinema Rex, sessão de domingo pela tarde, quando se ensaiava o namoro romântico de pegar na mão e dar w11 beijinho furtivo. E ainda havia as quengas dos becos do Urubu, da Facada, do Queimado, e de outros, onde as mulheres, segundo ficou na memória popular, já andavam de pernas abertas de tanta venérea incubada de meses, razão de chamarem de "urubu" os raparigueiros que por lá passavam eni. sua vocação de comer carniça. Algumas daquelas casas queriam ser discretas e disfarçadas de pensões de verdade, como a que foi inaugurada em julho de 1926 com o nome de "Pensão 31", possuindo jardim externo e sambambaias penduradas no teto, logo denunciada pelo "O Bacurau" como tendo um vasto estoque de plantas tropicais importadas do Recife. 161 11
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    -----------,------------------------~~-~- Como se erradicoua venérea em Alagoas. Poucas pessoas podem recordar o tempo do Dr CJá Magalhães como Diretor de Saúde Pública de Alagoas e do Barca Pelon, encarregado, pelo Governo Federal de erradicar. , venerea do pós-guerra no Brasil redemocratizado mas ai vivendo os cacoetes da ditadura do Estado Novo. E o'resultado o que veremos nessa história. Os médicos da campanha em Alagoas eram Ednor Bittenco Antõnio Gerbase e Radjalma Rego, gente cheia de entusiasmo co~np~tência ~~o~ada por muito dinheiro para mover uma pode m_aq~1ma sanitana em Jaraguá, com a cooperação dos órgl pu?licos de Saúde e o apoio irrestrito do delegado policial bairro. Aban:otara~-s·e· os postos sanitários com muito medicamento. em especial pemc1lma, sulfamida, arsenox, conhecido como 914, permanganato, profil, camisas-de-vênus. O Hospital Constança, no Prado, montou uma enfermaria chamada CTR- Centro de Tratamento Rápido - para tratar mulheres contaminadas, com internação, de onde só saíam completamente ~uradas. Seu horário era seguido à risca: atendimento pela manhl as mulheres casadas; pela tarde, prostitutas; pela noite, h'6mens. E as preocupações principais estavam na sífilis, na gonorréia, na qua11a venérea, que o povo chamava de ''mula'', outros "denite", nos cancros mole, duro e misto, no papiloma ou ''crista de galo" e ~rnr~ tal de ''chuveirinho'', isto sem falar na sarna, no chato e na 11np1gem que dava em forma de enormes manchas. As recomendações das autoridades eram de guerra santa contra ? ma~, no sentido da prevenção do contágio, sem contudo impedirem as atividades do meretrício, consideradas por todos não apenas como um mal necessário, mas uma fonte inesgotável de ~ra~eres'. um~ g~rantia de que não se ficaria doido por estar o ms.tt~to msattsfe1to, contido nas normas sociais e de conveniência rclig1osa, palavras de vigário. Havia no bairro, perto da rua do Duque, um Posto de Profilaxia que deixou muitas recordações porque o trabalho por lá era ágil 16! ' proveitoso e animado, onde chegavam os mais prudentes parn tomar banho com sabão e depois uma lavagem do enfenneiro com permanganato de potássio. Outros se antecipavam recebendo grátis uma ou mais camisas de vênus, e um tubinho de Profil, medicamento eficiente e ardido para depositar no canal do membro depois do ato. Naquela época, o piolhinho chato, que dava em camadas até nas sobrancelhas do pessoal, era combatido com um preparado de Jair Uchoa, competente farn1acêutico estabelecido na cidade. Ele ia logo avisando que o preparado devia ser diluído antes do uso, para o paciente não reclamar do ardor nas virilhas e não ficar andando de pernas abertas pela queimadura do remédio. E era bom que dele o indivíduo se livrasse porque também traJ1Smitiam a sífilis, segundo pensavam. Havia obrigações a cumprir por todas as bandas. As cafetinas tinham o dever de comunicar e encaminhar as novas meninas ao Posto Central do Serviço de Doenças Venéreas na Praça das Graças, Centro, para exame e fichamento, de onde já saíam com a respectiva carteira de saúde. Também a cafetina era obrigada a levar as novatas para fichamento na 2ª Delegacia porque se tinha como certo um caso policial qualquer com aquela espécie de gente potencialmente predisposta, segundo as autoridades, ao roubo e arruaças com marinheiros, militares em trânsito e desordeiros. O Delegado de Jaraguá percorria as zonas com certa freqüência, verificando o cumprimento das ordens, uma das quais a de colocar cartazes dentro dos quartos: " Peça a Carteira de Saúde", verificar se havia alguma rapariga sem a carteira, ou se estava o documento em dia, no que era ajudado pela cafetina. Havia ainda a obrigação de patrulhar todo o bairro onde minasse o negócio da prostituição, havendo também uma rede de informantes da Polícia e do Serviço: - Doutor, tem uma casa de mulheres e é clandestina, disse um deles no Posto da Praça das Graças. - Avise à Polícia, ordenou o médico ao funcionário. 163 'I
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    E para láse dirigia o delegado intimando todo mundo a apresentar no Posto, o que ocorria com alarde, pois a pra amanhecia cheia de mulheres, cafetina à frente providencian atendimento. Num dia comum. Carlos Mantiqueira, fiscal do Posto Ccnt de Combate às Doenças Venéreas. passou pelo Posto de Profilax de Jaraguá, ao lado do Verde e do Duque, onde um indivíd apresentava uma gonorréia. Ele fora trazido por um policial porq uma rapariga do Verde, seguindo instruções rigorosas pa examinar o freguês. negou-se a ficar com ele. apontando-o cafetina que logo foi até o Posto, para a obrigatória denúncia. Foi quando, diante da comissão de ''combate", disse: - Veja, Doutor, só agora notei que estou desse jeito! homem disse para o médico, enquanto abaixava as calças e mostrava seu membro avariado que apertava e de onde escoava abundante um líquido amarelo-limão gotejando no mosaico do piso. - Essa é "de bico"! exclamou admirado o enfermeiro ao lado. Mantiqueira abriu então a conve1·sa perguntando ao queixoso: - Você andou com quem? Agora você tem que ajudar porque é ordem do Governo. Onde você andou, rapaz? - Não, doutor, (respondeu amedrontado) não fiquei com puta não, quem me passou a desgraça foi a Samica, em Cruz das Almas. E Mantiqueira. ainda imbuído do Estado Novo e seu espírito inquisitório, saiu incontinente atrás da fonte de contágio, com as referências que lhe foram dadas, e voltou horas depois trazendo a mulher que chegou chorosa e indignada, jlizendo-se a toda hora família. Mas, examinada, estava doente, de fato. E Mantiqueira, tenaz em seu moralismo sanitário, procedeu a novo interrogatório com a mulher: - E você andou com quem? Vamo logo dizendo! É ordem do Governo! Muito constrangida. mas diante da evidência dos exames procedidos e da insistência autoritária a que se submetia, confidenciou para um enfermeiro, um médico e o fiscal Mantiqueira: - Eu fiquei com o sargento delegado de Riacho Doce, 164 1toutor, mas pelo amor de Deus, eu sou amigada! - Com ele? indagou Mantiqueira. - Não senhor! Acuda-me meu protetor Santo Amaro ... ngora tenho que dizer ... ele é casado. - O seu amázio é casado ou é o sargento? perguntou Mantiqueira. - Não, Seu Moço, é o sargento, respondeu a coitada. - É o tal sargento que é casado, não é assim? ... mas então c1uem é o seu amázio ? insistiu o investigador. - É o Dedé. Chamam ele de Dedé. Ele é postalista e mora no oitão da Igreja de São Francisco. Eu fico com ele mais ou menos infetiva, esclareceu novamente a mulher. E então Mantiqueira, no espírito de erradicação da epidemia, saiu em diligência pela terceira vez para buscar o sargento policial que veio logo dizendo: - Doutor, não precisa nem examinar, por coincidência infeliz o membro está "esquentado". Por via de conseqüência. pegaram também o enganado Dedé1 um homem quieto, rotineiro e pouco conhecido até da vizinhança. Mas. examinado, lá estava também o gonococo, porém Mantiqueira logo concluiu que o homem era de uma mulher só, e que, com ela pegara a gonorréia do sargento, ou do tal rapaz infectado do início das investigações. Verificando que tinha que esgotar o assunto, porque parecia que não teria fim. Mantiqueira fez comparecer ainda ao Posto a esposa do sargento que se queixou de urina ardida como sr esti'esse misturada com areia fina, e foi imediatamente encaminhada para o Hospital Constança, mas antes disse que rrn muito fiel ao marido e po11anto não contaminara ninguém, j{1 qt1l' n funcionário Mantiqueira estava tão preocupado com o assunto qm• até chegou a perguntar pela sua conduta como esposa. Contou também um detalhe curioso, referindo-se ao 111:11 iclu: - Ele me disse que esquentamento se pega no hnnht•irn quando o piso tá frio de manhã cedo, e me mandou lom11r dui de limão e um pingo de arnica todo dia unh.·11 elo t•nfio, terminando, assim, a incrível seqüência policial su11i1111111 iniciada com um queixoso no Posto de Profilaxia de Doc11ç111; Vc11é1c11q eh.· 1()"
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    Jaraguá, mas aindarestava uma dúvida ao Mantiqueira: quem verdad~, contaminou Samica? E quantos possivelmente ' .contarrunou? Direitos humanos à parte, foi assim que se erradicou a vcne em Alagoas ... por alguns tempos. ~uas raparigas do Beco da Onça entabularam discussão termn~aram ind~ ~s vias de fato, coisa que acontecia todos os di no baixo meretncro. Mas, desta vez, ia passando um guarda civf zelos.o que achou de levar a sério o que poderia deixar por conta cafetina resolver, e conduziu as duas mulheres para 0 Delegado que mandou fazer a competente investigação. Dois assistentes do Comissariado de Jaraguá deram início ao trab~lho, ma~ logo pe~deram a paciência porque as mulheres só quenam. c~ntmuar a discussão em vez de responder às perguntas sobre o mc1~ente, e po.r isso resolveram atalhar caminho apontando a que devena ser pwuda com prisão temporária Jogo a · h · , . ' que maas ac aram ant1pat1ca e também porque gritava tanto que era ouvida na Rua do Araçá. Em seg.uida, .no momento de ser empunada para as grades, 8 mulher reagm assim: -. Vosmicês me dê liçença de falar primeiro com 0 meu padrmho, que ele me dá soltura já. . - E quem é este teu padrinho para te soltar? Diz lá! mterpelou_um dos assistentes um tanto displicente e ilÍérédulo. E entao respondeu a mulher: - É o Governador Doutor Fernandes. Meu pai é compadre dele. Acalmaram-se em seguida os dois policiais e, depois de parlamentarem reservadamente, um deles falou: . - O meu coração bem estava dizendo que esta mulher era m~cen.te. A cara dessa outra não nega o que é ..., e apontou para a m~e~rz q~e há pouco mandaram embora por inocente e foi posta no xalmdro sem dó nem piedade, enquanto sua rival desfilava pela porta da Delegacia com o garbo de vencedora 166 . Nesta mesma semana ··o Bacurau" publicou uma ch1u·sc n 11·...pcito de certa proibição das prostitutas andarem nas ruas depois lm; nove da noite. Surgem três mulheres juntas e, em frente, um 1•11.1rda com o cassetete apontando para elas, recebendo em resposta de sua ordem de recolhimento a seguinte frase: - Home, sai-te!...Então tu pensa que a gente não semos "lindas com esse povo grande, não? Vai dar um giro na rodage 11 deixa de inveja! Um seixeiro safado e uma prostituta de prestígio. Segundo Mestre Aurélio, o seixo, além de pequenas pedras que miam nos rios, é também o calote que se passa em prostitutas, como praticou certo marinheiro de cabotagem com a Nega Anita, que fazia a vida na zona do Verde. Como era de praxe, o tipo foi logo conhecido, porque cometera o maior desaforo que uma mulher podia sofrer cm sua profissão, tomar um seixo: nome - José Apolinário das Seixas (por coincidência); apelido - "Siri de Coceira"; tipo fisico - baixo, de meia idade, troncudo, nariz pra dentro, cabelo liso de óleo de coco, olho puxado pra fora, pele do rosto amarelada e cheia de bolinhas escuras numa cara chata como uma broa, de grandes orelhas distantes uma da outra mais do que do cabelo ao queixo; origem e profissão - oriundo de Niquim da Barra, ex-barcaceiro de Seu Agcnor, marinheiro da Pará de Navegação depois da Costeira; família e amizades - pai desconhecido, mãe fugida com um vendedor de estopa, amigo de um sujeito chamado por ''Carapeba", que exercia a profissão de pombeiro de peixe no Mercado São José, e que vinha matar o seus instintos na zona como bom pagante e fácil de encontrar. Em vista desses conhecimentos sobre Siri de Coceira, alguém lembrou que o seixeiro poderia ser encontrado pelo Carapeba, e foram procurar a ajuda policial do Velho Fidelis, ex-guarda civil, que ainda trabalhava na Delegacia de Jaraguá e gozava de certa consideração do Delegado Dr Jairo. Fidelis, encontrado na Praça Lavenere, jogando gamão com os 167
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    amigos, tomou logointeresse em ajudar no caso porque, volta meia, ele contava com os serviços facilitados de Anita e pensava que tinha dela carinhos especiais como se fosse u sobrinha devassa e caridosa com o tio. E deu início às primei investigações interrogando o Carapeba num dos reservado!> Verde, depois de ter sido preso quando visitava um biombo por tr do armazém do Instituto, pertinho dali. Ao lado do Velho Fidelis estava Anita com cara de vítima um estupro, e foram logo sabendo das coisas assim: O Siri, segund Carapeba, passava seixo em toda a Costa Norte, na época da Guerra Mundial, quando, juntos, navegavam num navio pequeno na lin Belém - Fortaleza, às vezes Recife, aplicando várias artimanh para escapar do pagamento do serviço, no que era facilitado pela sua vida errante e um tanto irresponsável de embarcadiço descasado. - E como era isso, Seu Carapeba'? perguntou Fidelis. - Ah, seu moço, ele sempre vareia, como inté hoje ... - Mas vá contando, seu moço, tudinho, viu ... ordenou sério o inquisidor, logo atendido, porque o inquirido estava amedrontado com uma palmatória que Fidelis portava em sua grossa mão, e que até então a ela não se referira, mas ali estava, ameaçadora, às vezes erguida a meia altura, outras vezes movimentada com arte, devagarinho, passando tão perto do nariz do Carapeba que postava nele uma sombra difusa de uma luz que entrava pela janela do reservado e iluminava a reunião. E foi sabendo: a arte do Siri, sempre diferente da vez anterior, era dizer que perdeu a carteira, possivelmente para um batedor, procurando-a avidamente até pelo quarto, em seguida sumindo Jogo que sentisse um d"escuido de sua parceira, evaporar-se quando havia uma briga com corre-corre, pagar com nota falsa, deixar um vale frio, amarrar o bolinho de dinheiro numa linha preta, colocá-lo em pagamento na mesinha e depois puxá-lo, ajudando sua procura por baixo dos móveis do quarto e jurando que viu a rapariga apanhá-lo. Certa vez, continuou contando o Carapeba, na Zona de Parnaíba, no Piauí, fez-se de desacordado (até tossia de vez em quando) e foi trancado pela rapariga por tempo suficiente para escapar por um buraco do telhado. Mas soube depois por um marinheiro que a mulher ficara com pena por tê-lo forçado a subir sem escada numa parede tão 168 nlla em busca da liberdade e ar fresco a que tinha direito. - Na certa ela viu que tinha me feito uma desfeita ... disse ~iri para o informante. E prosseguiu o narrador contando ainda q~e, c~rta vez, num 'íObrado de Recife, junto com um magote de mannheITos, e sendo a luz do prédio apagada pelo contador (no segundo vão da esca~a), iiaiu numa correria louca na escuridão até o Cais de Santa Rita, onde tomou um bote alugado para embarcar em seu navio. Foi quando Fidelis, indignado com tanta safadeza de um tndivíduo só, interrompeu Carapeba: - Aquilo é um cabra sem-vergonho ... vou pedir ao Doutor Jairo uma patrulha, e você vai com ela (apontando c_o~ a palmatória para o rosto de seu depoente) pra trazer esse Siri da molesta, seixeiro da bixiga. Ele vai se coçar nas grades da cadeia! No tempo seguinte, entraram no Gabinete do ~elegado o Fidelis e a Anita (o Carapeba permaneceu na sala de tnagem); ele com a mão direita naqueles ombros nus e rechonchudos de sua amiga, brilhando cor de chocolate, disse: - Seu Jairo, o Senhor conhece a Anita aqui, não conhece? O homem, sem levantar a cabeça direito, olhando ~ cena por cima de seus grossos óculos de aros e lentes diminutas, disse: - Sim, sim ... já ouvi falar, Fidelis. Toca pandeiro com você na rua do Verde, não é ? - Apois é, Seu Jairo ... o seguinte é esse ... um seixe~ro debochado da mercante não pagou nem o quarto nem o serviço da Anita. É um seixeiro conhecido no Ceará e anda desafrontando as mulheres daqui. Ele saiu de fininho dizendo que ia comprar uma caixa de fósforo e sumiu. Depois de ouvir de Fidelis um relato circunstanciado com base nas informações de Carapeba (vez por outra o denunciante estendia 0 braço para a porta de entrada dizendo que a testemunha estava ali), o Dr Jairo, parecendo que queria ficar livre da dupla, verberou: - Fidelis, se a nega é sua, prenda esse seixeiro safado .,.e mande ele indenizar a vítima .. e o dono do quarto .. voce 169
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    mesmo, Fidelis, nemprecisa trazer mais aqui ... v' na cm prego imprensar o maliente!, conversa que chegou aos ouvidot Siri de Coceira que tomou uma passagem de terceira da Rede escapuliu para destino até hoje ignorado por todos. Deixou, entanto, para trás uma espécie de salvo-conduto em dois pac diferentes entregues pelo seu amigo aos destinatários: um caniv de cortar laranja para pagar o quarto e um corte de chita para An que há dois dias tentava vender e não conseguira. E assim terminaram a indignação geral na zona, as amarg do Carapeba e a interesseira ajuda do Velho Fidelis. Na verda~e, larápio do amor conhecido por Siri de Coceira pagou tarde com exílio por muitos delitos que, de longas datas, vinha cometendo. O anjo da guarda salva um mancebo da síflis. Um conhecido industrial de Jaraguá estava preocupado com seu filho mancebo que, aos quatorze anos, ainda nem havia contraído nenhum "esquentamento", como prova inconteste de seu gosto pelo sexo oposto e nunca foi visto com os olhos nu empregadas domésticas lá pelos lados da cozinha. Em busca de uma solução para essa indiferença do garoto, procurou o gerente da firma que era profundo conhecedor das mulheres do bairro e disse num particular, depois do trabalho: - Escute aqui, (fulano), cu tenho um problema para você me ajudar nessa emergência. O meu filho rapazyiho...(etc, etc) e você leve ele na Pensão da Dina que tem mulher limpa e ... (etc, etc) mas tenha cuidado. Veja se a carteira dela está em dia, viu? Leve aqui a quantia necessária e tome conta dele, viu? Na tarde seguinte, lá estavam o gerente e o garoto, só que na zona do Verde, cano de esgoto das pensões de sobrado da Rua Sá e Albuquerque, tudo ao contrário das recomendações do patrão. Mesmo assim, o principiante estava entusiasmado com a nova experiência mas sequer desconfiava do trato entre seu pai e o guia que resolvera dividir por dois o dinheiro do serviço, pensando em nssim cobrar sua comissão no negócio enquanto também satisfazia 170 ttuns necessidades. Mas teve o cuidado de dizer para a rapariga <-Ili'-' ji'I cobria com seus braços o mancebo: - Olhe aqui, menina! O filho do patrão quer coisa limpa. E você, como está agora?, e recebeu a resposta: - Tô limpa, in inhô, mas uma sifilizinha ele pega comigo. Pela proteção do anjo da guarda do garoto, tal coisa não nconteceu. ----~-------------------------------------------------------------------------- Como uma rapariga da vida venceu a parada. Uma rapariga da Pensão São Jorge, conhecida como Neném, chegara do interior recentemente (dizia-se da vilazinha de Curralinho) e desconhecia as manhas da vida na zona de Jaraguá. Por essa razão e por demonstrar certo grau de ingenuidade no que fazia Neném aceitou o estudante "Põe Mesa'·, um sujeito magro e pálid~, quase verde, que andava um pouco curvado para ~rente, apresentando grandes olhos pretos e um tanto careca para sua idade, destacando-se em sua face a mínima distância que havia entre o nariz e os lábios. Desconhecia Neném a fama que ele desfrutava entre suas companheiras porque sempre chegava de mansinho, entrava na pensão como se fosse um sacristão chegando na sacristia, ~em dizer nada mais do que aquela velha expressão tantas vezes ouvida: - Vamos pru quarto? Se a incauta mulher caía no descuido de aceitar, cedo veria. Aos poucos, depois daquele ritual introdutório, Põe Mesa transfigurava-se num jegue de cambito, como aqueles que ficavam descaradamente se masturbando enquanto esperavam carga no largo do Mercado São José. E aí então já era tarde ... Mas, voltando à história, o leitor verá que Neném venceu galhardamente a parada, e ficou na tradição contar assim o desenfecho do drama e as expectativas do público na Pensão: Diante da porta da rapariga, juntou-se uma dúzia de companheiras esperando um pedido de socorro ou um grito de d~r, até que, para surpresa geral, os dois saíram meia hora depois, 171
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    Neném tranqüila comouma cabra velha pastando, enquanto estudante deslizava macio pelas escadas da pensão ganhando 11 , Albuquerque. E foi a rapariga cercada por aquela turmu perguntas das mais variadas direções: - Mas, mulher. como foi que você aguentou jumento? ... aquilo é um jegue! - Tá sentindo alguma coisa? Doeu muito? - ... e você fazendo papel de égua! Havia até as que queriam escorá-la pelos sovacos ei,:iquan andava devagarinho para o salão pelo corredor dos quartos, co se estivesse prestes a desfalecer, o que não aconteceu. A contrário, Neném sentou-se calmamente numa mesa com .. companheiras em volta e olhou demoradamente as estrelas do cóll pela varanda dos fundos, enquanto esperava uma garrafa de gazosa que pediu e escutava embevecida um bolero arrastado, depois um tango meloso. Mas, quem prestasse bem atenção nela veria que esboçava um ar de vitória e incl!ferença, e parecia tomada de um torpor facial diferente, como se estivesse mastigando uma pimenta do reino inteira. - Usou toalha? E a grossura dele? E o tamanho? ... pelo amor de São Culodino ... continuaram as raparigas enquanto Neném sorvia a bebida fresca e espumante com extrema volúpia. - Fala mulher! disse alguém mais impaciente, cutucando-a com o cotovelo nas costelas, até com certa força. E então, depois de beber o último gole da garrafa, pronunciou- se a corajosa rapariga: J - Num foi nada ... só num gostei foi da quintura ... vôte! Uma obscura mulher tem o seu dia de glória. No tempo da guerra havia uma rapariga humilde que nunca foi escolhida pelos freqüentadores de mais categoria do Duque, funcionários, · praças, motoristas, motomeiros, vigias. Era conhecida por "Sapinho" porque era pequenina, redonda, morcninha, de pele enrugada de bexiga, nádegas muito redondas, 112 pornas curtas o grosas, cabelos esticados de óleo de coco prc1-tmlos 110 crânio embutido nos ombros, como uma meia bola de ~orrnchn !moldurando olhos redondos, salientes e separados, n~1z quase imperceptível de tão chato, lábios finos e demas1ad~ente próximos das narinas, bochechas gordas. parecendo sornr sem parar. . . Sapinho era estimada por todos, mas raram~nte tmha s~r:1ço fora daquela camada de humildes trapiche~ros, ~atr_aieJTos, ganhadores e biscateiros. Ninguém lhe dava 1mportancia ~ as outras mulheres mais procuradas quase que a tratavam como cnada a fazer favores para lá e para cá e só estava naquela zona porque era prestativa e despertava piedade. Na verdade devia estar no Beco do Urubu ou da Onça, e por muito favor. . Pois bem, eis que tudo isso veio a formar a cena mais inacreditável que se presenciou na zona de Jaraguá, e que pode ser contada assim: . Marinheiros americanos de um comboio no Porto surguam por lá, num magote de mais de cinqüenta em grupinhos de três, cinco, sete com seus uniformes brancos e engomados, laços de fita como gra~atas finas com nó abaixo da gola, aqueles caxa?g~s entortados na cabeça sem a menor uniformidade, uns para a direita ou para_a esquerda encostados nas orelhas, alguns tão atr~s da cabeça que ~ao se viam de frente, outros tão na testa que cobriam parte do nariz e dos olhos, empurrados por inteiro ou flutuando no tope dos cabelos arrepiados que tinham. . . Curioso apesar de fortes e grandes em sua ma1ona, eles eram pacíficos e ~medrontados com os MP- ''Military ~olice" de seus próprios navios ou das bases americanas do Tabuleiro e do Vergel que surgiam em acordo com o pessoal de nossas polícias e Guar~a Civil, patrulhas da Capitania ou do Exército. No que se refere as mulheres, quase nunca iam para os quartos porque, se~do eles mesmo diziam. tinham medo mortal de doença venerea, mas gastavam bom dinheiro ,e não davam trabalho. Até que eram apreciados e preferidos. Depois que deram chegada, acomodaram-s~ aos p~ucos nos bares da zona, sentando-se e consumindo cerveja, convidando as meninas para companhia. 173
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    Num certo momento,no Bar Meu Cantinho, a rotina quebrada com uma cena curiosa que despertou imediata atenção, parando todos para acompanharem aquilo que parecia furtivo, mu que não foi. Sapinho estava sentada no balcão, com um caxanp na cabeça, cercada do que havia de melhor, porque eram sargentos. Um deles, que parecia liderar o grupo, abraçava-se carinhosamente com ela, colocando-lhe nas mãos alguns dólares arrecadados, todo1 olhando a coitada como se fosse uma deusa, algo estranho para aquela gente superior aos olhos dos humildes daqui. Estariam galhofando de Sapinho? Ela, a mais feia da zona, pelo menos uma das mais desprezadas? Não, não foi assim, porque aos poucos todos os presentes viram que era a simpatia da pobre rapariga que encantara os gringos, satisfazendo-lhes aquele recôndito desejo de recompensar os desamparados pela sorte, e o sentimento que se apoderou do pequeno grupo de graduados contaminou os demais marinheiros que foram deixando tudo para se colocarem em volta dela, rindo, querendo levá-la no colo para lá e para cá, oferecendo-lhe o que havia de melhor no bar para servir, deixando-lhe lembranças, broches militares, canivete, chaveiro, carteira de notas e até um relógio. Não demorou muito o rosto da mulher passou do obscuro para o radioso. Sua face contida na feiura de traços pesados transfom1ou-se, ficou leve e radiante, mostrando o que tinha dentro da alma, um misto de bondade e resignação, uma espécie de sublimação da adversidade imposta pela sua estética e pelo reconhecimento de que, afinal, havia nela alguma coisa de aproveitável, talvez uma beleza que não fora aipda descoberta, senão naquele momento. Dentro de seu sonho repentino, Sapinho pareceu até bonita, se não engraçada, feliz no meio daqueles homens limpos e ricos que a reconheciam digna de agrados e presentes. E assim correu a noite do único reinado que tivera em toda sua vida. Dizem que ganhou mais do que todas as mulheres juntas, os donos dos bares, as cafetinas, sem ir sequer uma vez para o quarto e nem ter sido convidada para um instante de carinho reservado. E despertou na rua as mais incontidas invejas. No dia seguinte, cercada de gente pedindo-lhe dinheiro emprestado ou cobrando velhas dívidas, algumas das quais 17·t esquecidas, seu reino foi aos poucos desabando e tcnninou por completo quando se encontrou novamente a mesma, lisa, levando para o quarto um ou outro antigo freguês daqui mesmo. ---------------------------------------------------------------------------------- A comovente história de uma injustiça não reparada. Pelos idos de 1939, Maria Patinha era uma rapariga do Verde. Seu apelido veio da Zona de Flecheiras quando entrou na vida aos treze anos e acharam-na parecida com uma marreca porque era baixinJ1a, de pernas curtas e finas, pés grandes, corpo ac~chapado com cabeça projetada para frente e prolongada por um nanz chato e apontando para baixo. Era uma pessoa resignada e predi~posta a sofrer passivamente as adversidades da zo~a ~a cob1ç~ .das cafetinas, e na grosseria dos fregueses, arroganc1a da pohc1a e covardia de todos. Numa noite qualquer de sua vida, Patinha apanhava freguês no Trapiche da Great Western, onde o trilho do bonde cr.uzava com o do trem, encostada displicentemente na cancela da linha, quando foi abordada por um embarcadiço que se destacou de um magote deles. Era um sujeito branqueio, mais para bem vestido, com palavra enrolada que Patinha nada entendeu. Parecia um homem educado e um freguês decente. E prosseguiram, como de costume ela ligeiramente na frente, indicando o rumo a seguir. No caminho entre a cancela e a zona, ela procurou um detalhe material qualquer que chamasse sua atenção para o ~mbarcadiço, j.á que conhecera tantos e com caras tão inexpressivas que mais aparecia neles a roupa, a forma do chapéu, qualquer adorno, o perfume ou o que levava nas mãos. Foi neste momento, quando pegavam a Praça General Lavenere, que Patinha interessou-se pelo anel do marinheiro cheio de relevos de ouro reluzente como se fosse imitando a cabeça de um animal que não conhecia. Para ajudá-la, o homem esticou o braço em direção aos seus olhos, facilitando-lhe o exame da jóia por baixo da luz de um poste. Patinha então conformou-se com o que não entendeu, e perguntou: - Bonito! Que bicho é este ? mas não recebeu nenhuma 175
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    resposta. Na verdade,conforme se soube depois, o marinhei notou em sua parceira um certo ar de cobiça que na verdade 1 coitada não tinha. E prosseguiram internando-se no oitão da lgroja de Jaraguá, dobraram duas esquinas e chegaram no casario do Verde, onde foram para o quartinho debaixo de duas mtençôo• diferentes: a dela, sobreviver, a dele, de descarregru· necesidades acumuladas em vários dias de loita no mar. Pela madrugada, quando Patinha dormia a sono solto, irrompeu em seu quarto um policial barulhento e grosseiro, acompanhado da cafetina em siJêncio, que logo meteu-se a cascavulhar tudo de ponta a ponta, a gavetinha da mesa, por baixo da cama, dentro do travesseiro, os baldes e bacias, toalhinhas, trouxas, o agente policial perguntando sempre, entre um sopapo e outro: - Cadê o anel do home, sua puta? Diga logo! Atordoada, a pobre rapariga passou do torpor que se segue ao sono desfeito para o pavor e o pânico da realidade, porque de nada sabia. Levada aos arrastões para o xadrez da Delegacia, a mulher sofreu horas de interrogatório com pancadas e insultos até que admitiu, para ficar livre dos sofrimentos, e nem sabe como, que havia engolido o anel na véspera. E veio a saber que era de um capitão de mercante grego muito relacionado em Jaraguá, onde aportava regularmente para levar açúcar. Venceu então o maior castigo de sua vida pois teve que mergulhar até mais da cintura e esgotar a fossa do Verde, balde por balde, peneirada por peneirada, suja até a raiz dos cabelos, durante dois dias seguidos, sob as vistas de um comissário, assistida por suas companheiras colocadas em anfiteatro, para nada encontrar nos excrementos a não ser a confirmação de que sfSfrer era a sua vida. Terminado o serviço, estava o mercante grego zarpando, os policiais se aquietando ou andando por outras bandas e Maria Patinha novamente na cancela da Great Western, administrada pela mesma cafetina, pegando os mesmos fregueses, vivendo os mesmos riscos e misérias da "vida fácil". 176 ·-------------------------~~-~-~------------------------~~~---------- Do alto caiu um dançarino famoso. O Prático Gilberto era estimado em Jaraguá pela naturalidade com que fazia as coisas e pela beleza de seu rosto franco, corado do sol marinho. Homem alto, ilustrado, amigo dos amigos, tinha admiradores por toda parte. Certo dia, depois de uma solenidade na Capitania dos Portos, onde constava invariavelmente da lista para convites, Gilberto chamou os amigos para passar as mulheres em revista na boemia do bairro, e escolheu a Boate São Jorge como a primeira. Vestia um terno branco de linho irlandês Taylor 120, confeccionado pelo Mestre Dória. que estava também com ele nesta noite, e seguiram em frente pela Sá e Albuquerque, já um tanto alegres pelos ponches da Capitania, andando como soldado de cavalaria, pernas um tanto arqueadas, gingar de ginete, como aprendeu quando era praça do Regimento Dragões da Independência, na Capital da República. Na frente da Alfândega cruzaram a rua '. e chegaram. Logo em cima, a São Jorge estava sendo preparada para o aniversário da cafetina Marieta com mesas ornadas de toalha bordada e jarros de flores no centro, mulheres vestidas com o que tinham de melhor, aprumadas para uma noitada diferente com muitas pessoas convidadas especialmente para o bolo e frisante, despesas por conta da casa. O salão estava impecável com piso vermelho de muita cera e escovão (ninguém havia ainda dançado), paredes pintadas de novo, tudo pronto e gostoso de se ver naquela iluminação feérica. Já havia por lá muita gente e a eletrola tocava um tango arrastado quando a turma começou a subir três lances de escada. No tempo seguinte, surgiu no salão o grupo, depois de gerar a devida expectativa pelo matraquear dos caminhantes nos 177
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    degraus, e Gilbertofoi o primeiro a ser visto, engomado, calç cromo alemão de duas cores, chapéu de panamá que retirou cabeça no salão, imponente e escultural. E pararam, primeiro as raparigas que estavam escoradas no bar, sentadas nas mesas ou chegando do corredor que levava aos quartos, depois o grupo recém-chegado em volta. Todos estavam fixados no Gilberto já postado no meio do salão. chapéu agora na mão direita mais adiantada e braço correspondente imóvel como os de uma estátua, erguido até quase a cintura em saudação, formando uma cena algo parecida com a entrada triunfal de uma ópera. Ali estava o homem que fazia entrar no Porto os navioe. generoso e valente, que ia a nado cumprir sua tarefa quando lh• faltava a lancha, dançarino de mão cheia, especialista em boleroa, valsas e tangos seguidos sempre do pedido de bis quando a música parava, muitas vezes acompanhado de oficiais navais do País e do estrangeiro em trânsito, amigo do Capitão dos Portos. Para que melhor entrada? Segue-se outra breve pausa. um cerimonial improvisado mas não menos comovente, raparigas em deslumbramento, quando Gilberto entregou tun presente para Marieta e dançou com ela, a pedido de todos, um bolero, inaugurando o salão. Depois de acomodados numa mesa ao lado da que estava reservada para sua dama aniversariante, o grupo espreitou o ambiente com troca de olhares e pose parecida com aquelas de filme de farwest numa cantina, só que com intenções de prazer e safadeza. Gilberto resolveu então convidar para a dança a mulata Conceição, grande como ele, 100 kg de peso bem distribuídos, famosa como boa de cama e de salão, pernas enormes e grossas, n(1degas proporcionais, e saíram numa valsa que Gilberto pediu ao discotecário Javali que fizesse tocar. 178 Aqui vale a pena registrar que o mesmo perguntou: - Seu Gilberto, boto o Biniu Azu? - Danúbio Azul, seu ignorante! Por isso chamam você de javali, um bicho burro que não olha pra cima! Bote logo! respondeu. E deslizou o casal sob os aplausos gerais, uma volta, outra volta completa, meia volta. agora mais ligeiro e quase levitando apesar da tonelagem que movimentavam. Foi quando, inesperadamente, numa daquelas inclinadas do casal para o lado, quando faziam um círculo quase completo no ar, o Gilberto patinou um dos pés no encerado mais da conta e, flexionando rapidamente o outro joelho para equilibrar-se, não encontrou mais o chão, e a inércia circular de seu corpo o levou para a horizontal, um metro acima do piso, depois que um de seus pés deslizou novamente nos tacos encerados. Como nessas ocasiões ninguém solta a parceira, Gilberto arrastou Conceição com ele, sem querer girando o corpo para cima como um·:tato que cai de uma janela para encontrar melhor o chão, o que ·~.~~eu no inst~nte segu.inte. Sem outro reflexo, Gilberto teve que "'esperar la de baixo o corpo da Conceição, inicialmente cinco palmos mais acima, depois em choque descomunal, pranchado sobre o dele. Ouviu-se então um grande gemido de dor, e lá ficaram por uns instantes, Gilberto meio desfalecido, braços agora abertos, temo branco quase todo sttio de , crmelho da cera do piso. E trabalho deu aos amigos para tirar Conceição de cima dele, depois Marieta e suas auxiliares consolando os desventurados dançarinos e trazendo gelo e amica para reanimá-los. Recuperado e querendo desfazer o vexame que o arrancara de seu pedestal, Gilberto, de bom humor e passado das dores, comparou a sua situação com a de uma defensa entre um cargueiro e o cais do porto num dia de rebojo. Daí por diante passaram a chamá-lo de "Pé de Valsa". ----------------------------------------------------------------------------- Um sujeito que acordou pensando que estava morto. Ele era rotineiro como quase todo contador de firma comercial. Conhecido também como "Siqueirinha' o galego Galha (trabalhava na Fábrica de Sabão) até nas farras prolongadas que 179 11
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    costumava fazer eraprevisível em seu ritual de sempre, mais p calado, ouvidos atentos, sem participar muito. Passava a semana mergulhado nos números de s contabilidade, receita e despesa, caixa, saldo, pagamcnt numerário, dívidas vencidas a cobrar, e tudo elaborava co aprumo, embora sua cabeça desde a segunda-feira demonstras enorme predileção para pensar na sexta quando viveria novamen a boemia de Jaraguá. Era quando esquecia seu trabalho enfadonho repetitivo, num ambiente que cheirava a sebo de boi e soda, pa encontrar os amigos e as mulheres que desciam das boates SI Jorge, Dina. Tabajara circulando um pouco por ali, antes dos sal abrirem. Quando terminava o expediente daquele dia sagrado, o Galha tomava o primeiro bonde para sua casa a fim de fazer o aprumo, mudar de roupa e retomar ao bairro, penetrando logo no local de sua preferência, o Bar Tartaruga, onde era sempre o primeiro e último freguês. Do que mais gostava era do ambiente que se formava no Bar e na Sá e Albuquerque, ouvindo e vendo gente engraçada e amigável, tomando cerveja, tira-gosto de sarapatel, uma sopa de cabeça de peixe ou uma "cabeça de galo" lá pelas duas, papinho com os amigos e raparigas. Do que menos gostava era do sono que ia chegando, ao qual resistia com toda força de vontade, ajudado por um café quente com mascavo. Certo dia conseguiu resistir até que os galos deixassem de cantar, o sol passasse de vermelho para amarelo e depois branco quente nas paredes do Trapiche Faustino bem perto, os urubus soprassem brigando na praia pela carniça desjejum de todos os dias, com suas asas e garras riscando as areias em disputa, embaixo dos trapiches. Não havia mais freguês no bar nem na rua e um ou outro boêmio passava pelas calçadas. Pois bem, nesta manhã de sábado, ele se aproveitou da boa vo~1tade do proprietário Lourival e sentou-se acomodado, cabeça deitada de lado, a boca aberta babando na mesa, bochechas aderidas ao taboado, dormindo profundamente, talvez na esperança de emendar noutra farra ali mesmo, depois de descansar. Os empregados limparam o salão com água e sabão de coco Vílssoura de piaçaba arran1'1ando no chão e os baldes de latão' 180 tilintando para lá e para cá respeitando-se as pernas pendidas do Galba. Foi quando chegou o Zé Morais, conhecido como "Ceguinho da Cooperativa", certamente vindo de outras boemias e viu, através de seus óculos de fundo de garrafa, o Galba naquela posição desprevenida, perguntando então ao dono do bar: - Louro, faz muito tempo que o galego tá dormindo? - Desde as seis da manhã, respondeu o Lourival. - Porra, já são dez horas, oh Louro! O homem morreu! Você tem vela aí? - Pra que, Zé? Deixa o homem dormir em paz! ponderou o dono do bar. Zé Morais então foi dar uma volta na rua e retomou com um pacote de velas que espalhou pela mesa do dorminhoco e acendeu com alguns fósforos. Diante do calor e do cheiro de parafina queimada, o Galba, sob as vistas dos curiosos que se acomodavam em seu redor como se num velório, despertou devagarinho de seu sono profundo e foi abrindo os olhos aos poucos, terminando por fazê-los esbugalhados de susto. Levantou então a cabeça e ficou olhando fixo aquela gente ali em volta, por uns instantes também as vela~ em chamas naquele bailado macabro, depois deu um grito de pavor caindo para trás junto com a cadeira, desmaiado por algum tempo, porque pensou que havia morrido sem saber. Um jovem sonhador passa do deleite ao pesadelo. Chamavam-no de "João de Jade" porque trabalhava na Fábrica de Refrigerantes Jade situada numa mansão antiga que tinha um letreiro de cimento na parede da frente: Vila Bcnita, na Comendador Leão. Seu desejo mais envolvente era andar armado nas pensões e zonas de Jaraguá, imitando os figurões importantes que passavam por ali com os "quartos" estufados e p.dctó p1ocmi11e11te, onde potentes revólveres lá estavam, no mínimo como demonstração de prestígio junto às autoridades, mulheres e público em geral. Na verdade, andar armado era o êxtase de sua geração. especialmente l Rl
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    em local dedançar, quando a arma mais se sobressaiu n movimentos e no enlevo de uma rapariga da zona a despe virilidade e coragem, tradição, poder e até elegância. Certa tarde festiva deu na veneta de João comprar u1 cartucheira de couro e nela introduzir um revólver cano longo baquelite negro adquirido numa loja de brinquedos. E lá foi andando solene na direção do Duque, onde chegou ainda cedo começou a dançar como havia antes planejado. A rapariga q João escolheu estava orgulhosa de bailar com um valentão assim, cano longo da arma descendo volta e meia quase um palmo para baixo. Foi quando, em certo momento em que João estava d1 costas para a porta do salão, a parceira alarmou baixinho em seu ouvido direito aquela advertência: "chegou a puliça!" No rodopio seguinte, João divisou um dos soldados com olhares inquisidores para seu revólver e o outro de lado rompendo o passo e chegando-se a ele e, no instante seguinte, casal agora parado, o homem da lei perguntou a cu1ta distância: - Ei, rapaz, cadê o porte? , e João rapidamente retirou do bolso wn documento por dentro de sua ca11eirinha de couro e o entregou ao soldado, permanecendo lívido de surpresa, rapariguinha já procurando distância da patrulha que cercava o dançarino agora sem reação alguma, enquanto o pessoal comprimia-se pelos cantos da sala com os olhos pregados na cena, felizmente música ainda tocando para disfarçar. Mas o papel apresentado ao soldado nada mais era do que uma carteira de estudante, único documento que João levava nas andanças. e que usou na esperança de retardar um pouco o desfecho da realidade em que se metera, cérebro já confuso e alma inteiramente entregue aos acontecimentos que certamente viveria naquela encrenca que arranjou, ele um sujeito pacífico e legal, cheio de boas intenções! - Mas isso não é licença de arma coisa nenhuma, vamos falar com o sargento, disse o cabo, cujas divisas enfeitavam o uniforme cáqui, meio roto e recoberto de cinto e cartucheira daquele tipo que se usou na guerra, quase cobrindo todo o ventre de seu portador. E lá se foram ao encontro do resto da patrulha com o João já ''desarmado" e conduzido preso pelos braços, quase aliviado de pisar no chão, encontrando a autoridade que, informada da~ coisas pelo seu auxiliar imediato, examinou a arma como llllC IM2 -;urpreendido pelo ineditismo do caso, cm vez de entrar pelo bom humor, irritou-se: - Levem o homem pra Delegacia. Mal sabia o João de seus sofrimentos futuros, quando de repente. ele, um rapaz de família, encontrou-se sozinho numa cela com wn desordeiro conhecido como Bagre (que diziam ser doido), um sttjeito grande, gordo e pardacento, com os olhos redondos, proeminentes e avermelhados para fora, que não trabalhava importunando a polícia quase toda semana. seboso como um porco, urinando e obrando a toda hora pelos cantos, sem nenhum interesse pela sua limpeza, muito menos da própria cela, calado e de maus bofes. Que situação! Mas, neste ínterim, Augusto Castro, amigo da família de João, sabendo do fato, correu até a Vila Benita e foi pedir ajuda ao Dr Almir Pita que era o chefe de João no trabalho. Enquanto isso, nosso herói procurava conformar-se com a desgraça sem que ninguém lhe desse a menor importância, pior ainda porque ia ficando escuro, sentado diante do Bagre e preparando-se para o que desse e viesse naquela cela fedorenta e cheia de mosquitos agressivos zunindo mais da conta. Foi quando sentiu sede, fato que comunicou a um soldado. desses que têm raiva dos remediados e que entram cm delírio quando alguém desta camada superior deles depende. E colocou o copo de água em cima de uma mesa pregada nas grades, onde se depositavam as refeições dos presos, mas de tal forma distante de João que, por mais que esticasse o braço, encostando o ombro nas grades do xadrez, chegava apenas com sua mão a meio palmo do precioso líquido. Foi nessa agonia que, aliviado, avistou uma comitiva de boa aparência entrando na Delegacia, o próprio Delegado, Antônio Castro, Almir Pita, o carcereiro e dois soldados, um dos quais aquele da água. - Botem o garoto na sala de espera, ordenou o Delegado, prolongando sua frase com uma pergunta aos policiais: - ... e cadê o revólver ? Aconteceu então o inusitado: os soldados não encontraram a arma, o que serviu de motivo para a autoridade, até com vergonha 183
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    de seus subordinadosda Delegacia, ordenar a imediata soltura preso, para alívio de todos, já que a prova do delito não extia mais. E nosso personagem, depois de agradecer aos seus padrinh e ao Delegado, comemorou o alívio tomando o ônibus Jaraguit Ponta Grossa e fazendo várias viagens de wn fim de linha ao outfOt antes de ir para casa altas horas da noite. Estava tão descontraído depois o João que ainda pensou ell voltar à Delegacia para procurar o seu revólver de mentira. João de Jade foi também protagonista de algumas cenas que Jaraguá não esqueceu, dentre elas a da "Bomba do Bar Tartaruga" nas festas juninas de 1956. Era o local de uma antiga loja de pentes, caixinhas de jóia, leques e outros objetos feitos com o casco daquele animal. Fica ainda hoje na Sá e Albuquerque, em frente ao antigo Trapicht Novo, local preferido pelos que trabalhavam em Jaraguá ou vinham fazer compras, tomando umas e outras junto dos embarcadiços do categoria, passageiros em trânsito, militares de folga, forasteiros. Estavam numa mesa alguns companheiros de farra, dentre eles Ciço Penugem, Gilberto Santos, Dedé Lessa, José Marcos e outros, quando João de Jade levantou-se com um embrulho na mão e dirigiu-se para o balcão onde o depositou na frente do dono do bar, o Lourival, sob as vistas dos demais. Passou a desembrulhar o pacote de onde apareceu uma bomba grande, parecida com uma lata de leite, toda enrolada de barbante grosso, recoberta em cima e por baixo com cera de abelha, de onde aflorava wn pavio de duas polegadas e meia e grosso como um dedo polegar. Diante da cena todos ficaram congelados de susto, enquanto João da Jade, sem esperar que reagissem, acendeu um fósforo e, aproximando-o do pavio da bomba, disse na direção dos amigos: - Olhe aqui um presente de São João para vocês! e afastou- se pela porta da frente, enquanto o pavio, depois de lançar umas fagulhas para cima, queimou em fumaça cinzenta e nervosa, assobiando discretamente. E João postou-se com a cara para dentro do salão do bar, enquanto os circunstantes colocavam-se por trás das mesas e cadeiras, amontoados uns nos outros, alguns deles 184 deitados, mãos nos ouvidos e olhos fechados, Lourival saltando para fora do balcão, uns tantos para o lado da rua, e o tempo passando. Depois veio wn intervalo de expectativa ... e a bomba funcionou baixinho e surda como se fosse um "traque" abafado, dando um pequeno salto de meio palmo para cair emborcada no balcão, ainda inteira, soltando de dentro um filete de fumaça branca, enquanto João contorcia-se e chorava de tanto rir e seus amigos refaziam-se do susto arrumando novamente as mesas e o Lourival esboçava uma reclamação tímida para não perder a freguesia: - Mas, rapaz, que merda é essa? Curiosamente ninguém havia saído do susto, mesmo diante das contorções de João de Jade que, a esta altura, já estava no meio dos outros, vermelho de tanto que o riso lhe roubava oxigênio, os dois braços cruzados contendo o ventre, olhos fechados lacrimejando abundantemente. ------------------,------~~----,~~~~-------------------------------- Quando o piso de um prostíbulo era o teto de um negócio. , Era incômoda a conv1vencia entre os escritórios da Sá e Albuquerque e as pensões de sobrado logo em cima, com uma escada lateral em cada oitão, algumas vezes até por dentro da própria repartição do térreo. Trabalhavam, é bem verdade, em horários diferentes, mas nem sempre as raparigas dormiam o dia todo e por lá andavam no madeirame com sapatos de salto alto ou tamancos, fazendo com que seus passos fossem acompanhados de baixo com irritação pelos escriturários, contadores, gerentes, diretores e o próprio Presidente da ftnna. No caso da história, tratava-se de um ilustre comandalário de projeção em São Miguel dos Campos, empenhado no fabrico de demerara expo1tação para uma grande refinaria na Inglaterra. Não havia por lá música durante o dia mas, volta e meia, uma mulher soltava um daqueles acordes de Vicente Celestino: - Aquela ingrata que me amava e me abandonou ... , ou 185
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    - Disse umcampônio a sua amada, minha idolatrada ... todos tinham que assimilar a intromissão auditiva, enq escreviam cartas comerciais e telegramas pela Western, acertav um negócio grosso, recebiam um cliente, faziam cobranyn manipulavam o cofre. Ainda incomodava ouvir os passos de um freguês csca acima, coisa que prenunciou certo dia um sério incidente co interveniência do Delegado, pedidos dos fregueses importante• muito constrangimento. Rua Sá e Albuquerque, onde os sobrados eram a zona do mcretrício de 1>rimeira classe. Fotografia retocada. Arquivo pessoal do autor. É que, sem o desejar, depois de alguns momentos de silêncio, no enlevo do sexo vespertino, ele meteu inadvertidamente um pé meio por baixo da cama de sua parceira, emborcando um penico ~um o que nele fora depositado por uns cinco fregueses da noite 186 ,111lerior e que, por rcloxumcnto, ainda se cnconlravn onde 11110 ch.wia isto é descansado de uma noite e um dia, impuro e' , • 1 • malcheiroso. Mas, como o piso da pensão era o teto do escntono daquela central açucareira, a urina deslizou pelos intervalos das t.boas de peroba do campo, calafetadas há muito tempo com breu, e tomou o espaço aéreo até a mesa do Presidente inundando papéis, tinteiros, blocos, documentos e notas, inclusive as mãos e braços do Comendador que, mesmo depois de cheirar as mangas do paletó. interrogou seu irmão que estava em pé ao lado, agora já um pouco afastado: - Antônio, está chovendo aqui dentro ? - Não, Benedito, isto é mijo da pensão aí de cima! Ainda não sentiu a catinga? ----------------------------------------------------------------------------- Um marinheiro que desembarcou e venceu. Por volta do ano de 1873, um mercante à vela inglês desembarcou em Jaraguá um marinheiro pequeno, de cabelos e olhos claros, urna guitan-a a tiracolo e nada a declarar a não ser o seu próprio nome: Francisco Pereira da Silva, português dos ,çores. Não era um renegado da lei nem devia aos cofres de ~ordo ou de sua companhia de navegação um pence sequer, nao se sabendo até hoje a razão que alegou o capitão do bergantim para deixá-lo assim desamparado na beira da praia, sem uma carta de apresentaçã0 nem queixa formal às autoridades do Po1:0, e ainda com algum dinheirinho na carteira. Mas, con10 havia algunrns famílias impo11antes morando entre a Ponta de Jaraguá e a cidade, nas bandas da Rua Santo Amaro (hoje Uruguai), pareceu natural que o forasteiro ficasse na mira da curiosidade pública, depois de saberem que o navio dele vinha com bacalhau da Terra Nova para a Argentina, e que a1Tibara em Maceió apenas para deixá-lo em tcrr~. - Deve ter sido por alguma coisa que não fosse tão séraa, senão seria enforcado, disse um homem comentando sobre o fato. - Ou levado para responder pelo crime cm Liverpool, completou alguém. E, na ausência de acusações. e na tolcrâ1~cia do alagoano o rapaz foi assimilado pela sociedade, pois era , 187 11
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    comunicativo, trabalhador einteligente, afora outras qualida ainda mais apreci.adas de cantador de fados, amante das serenatas longas conversas, principalmente com o próprio Capitão do Porto o Comandante Pontes de Miranda, chegado à vida noturna t aos assuntos do mar: correr mundo, conhecer gente nova, go~ar dt liberdade na solidão das ondas. E :ficaram amigos depois de muitaa conversas nas calçadas de Jaraguá. Aos poucos foi correndo no bairro que ele passara quinze anoa no mar, primeiro na Marinha Britânica, depois numa linha de navegação de alto bordo para o Mar das Arábias e da China, naquele comércio de chá e mercâncias pelo mundo afora, tendo alcançado a posição de primeiro piloto, depois de mourejar a meio· soldo como simples grumete, marinheiro de convés, taifeiro, etc. Era sofrido e cheio de destemor, qualidades muito apreciadas por aqui. Souberam também que deixara sua terra ainda menino, nadando com sua trouxinha até um navio inglês, que costumava recrutar grumetes da Ilha das Flores, a mais ao poente do arquipélago. Depois de alguns anos, Francisco conseguiu a invejável posição de prático do porto (nomeação do Capitão Pontes de ,Miranda) e de exportador de açúcar, proprietário de cinco saveiros para transbordo e ainda dono de urna IoJa onde, diziam, vendia fiado e não cobrava. Era muito bem recebido pelas famílias ricas, os Calazans, os Custódios, os Pontes de Miranda, os Marques e outras, todas residindo na Santo Amaro, logo acima de um estaleiro da praia, depois dos trapiches como quem vai para Maceió. E assim casou-se com a senhorita Maria Marques, com a qual teve quatro filhos·varões, José, que foi marítimo como ele, Francisco, o mais parecido, Joaquim e finalmente Ezequiel, o único a fazer fortuna no mesmo ramo dos negócios. Mas, por que terminara Francisco carregando o apelido de "Chico Pancada"? Não era por ser doido, porque não era. Foi por não suportar desaforo sem ir às vias de fato e revidar a socos, na primeira oportunidade, qualquer ofensa. Assim ocorreu quando jogou um seu concorrente de cima de uma ponte de embarque nas ondas do mar, um tal de Mendes, em mt.ão de insultos que recebera indevidamente. Logo depois foi 188 lJf /L IJ/fJL 1Trr: GO..t.ço . / ,.,_'',•f?,L - ..> '-.:>t'f..;J4/ ' processado por sua Majestade Britânica, por ter virtido sangue do seu Cônsul Kenneth Macray, na sede do Consulado em Jaraguá, território inglês. E teve que gastar trinta contos de réis no processo que finalmente não lhe custou cadeia. O tempo foi passando e Chico Pancada envelhecendo, a provar que o Brasil i uma ten'a maravilhosa, onde o ~ortu~ês traba!hador e fiel aos seus compromissos sempre fica nco e nnportante por ~w. . Pelo apelido de Chico Pancada, agora se pode supor o motivo de seu desembarque, qual seja, uma formidável briga a bordo, em alto-mar. Se tivesse brigado num porto da Terra Nova, teria vencido a vida no Canadá, tristemente como tudo que é gelado. ---------------------------------------------------------------------------------- Um homem que correu da injustiça e nela foi morto. Lá pelos idos de 1923, João Coco ganhou fama de valente depois que brigou sozinho com uma patrulha da Marinha de Guerra e só foi preso na manhã seguinte, na Praia do Carrapato, correndo no rumo do Matagarrote, depois de furar um cerco na casa velha de Seu Zu e na Capela do Gogó da Ema. Estava dentro de uma moita de gajuru acuado por wn guenzo de sítio que, latindo desesperadamente, ajudou a seus perseguidores. A busca para encontrá~lo empenhou meia centena de marinheiros e dez remadores da Capitania, além de grumetes de um navio de guerra fundeado ao largo de Jaraguií Todos sabiam que João Coco jogava capoeira, mergulhava por baixo das barcaças, subia num coqueiro alto sem nenhunrn peia e lá se pendurava em duas palhas novas fazendo que ia cair, só para se mostrar ao povo. Falavam até que ensinava guaiamuns a dançar coco aos p<1r~s, a fumar cigarro e se balançar em rede, para depois vendê-los 189 li li ~ 111 111 111 1 i 1
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    no Mercado SãoJosé. Enfim, era um sujeito diferente. Apesar de muito conhecido pelos policiais de Jaraguá, pelai visitas que fazia ao Comissariado, João Coco até que foi por algum tempo estimado pela sua valentia e independência, agilidade t presença Jovial naquele corpo de caboclo forte e flexível, músculos saltados, pele de bronze, sempre vestido com a mesma calça de estopa desbotada, que não passava de seu joelho mais do que um palmo, camisa de manga comprida por fora das calças, tão folgada que mais parecia uma saia de baiana pouco acima da cintura, muitas vezes com um grande chapéu de palha empw-rado na cabeça. Quando lhe dava na veneta, ajudava um tio velho no carreto como ganhador, mas logo voltava a sua atividade de andarilho, sem amor pela fortuna nem apego à rotina da vida. Para ele, cada dia era um dia diferente, já que, ao despertar, segundo diziam, nunca tomava caminho de volta nem andava nos lugares do dia anterior. Dizem que morava num beco da Rua do Oitizeiro debaixo de uma meiágua, mas havia quem falasse que não tinha teto, outros garantiam que tinha uma maloca pelas bandas de Cruz das Almas ou no Alto de Jacarecica junto com outros caboclos e negros descendentes de quilombos, gente que vivia da caça e da pesca ou tirando fruta. Mas, o certo mesmo é que comia de uma vitalina que se fizera de sua protetora desde que era um menino enjeitado e sozinho no mundo. Descansava no chão de qualquer sombra, ou debaixo dos trapiches onde sempre fazia suas necessidade maiores. Seu avô, perdido no tempo, e seu pai um homem com cara de índio corpado e silencioso que vivia numa tropa de burro pelos sertões afora, eram suas únicas referências de família, porque ninguém dãva notícia de quem nascera e onde, talvez lá pelas bandas da Serra do Araçá, ou na Serra da Mariquita, ou nas nascentes do Jitiluba, ou pelas bandas do Coronha. E foi criando lenda. l<>O Um certo dia, João Coco estava no Beco do Urubu quando teve que rebater com tapas insulto de um maloqueiro a sua preferida, e recebeu de uma patrulha voz de prisão, coisa que nunca obedeceu durante toda a vida. Correu então na frente da polícia na direção do Trapiche Novo, passando pelo Beco do Mijo como um quati apavorado fugindo de cachorro, atravessando a Sá e Albuquerque (quase atropelado por um bonde) e sumindo por trás daquelas enormes pilhas de sacos de açúcar, quando anoiteceu. No meio da tarde do dia seguinte, a Polícia já havia mobilizado os trapicheiros por serem eles conhecedores dos meandros do trapiche, e João Coco foi encontrado, mas, aos saltos, pulou por cima de gente e pegou a reta de uma ponte, sumindo outra vez por trás das fileiras de sacos de açúcar, barricas de bacalhau, pacotes de secos e molhados, troles, táboas de madeira. E procuraram-no em baixo do estrado, nos zincos do teto, nos porões das alvarengas atracadas, no guindaste, por baixo das longarinas, travessas, já o dia escurecendo novamente. Foi quando alguns curiosos que se juntaram na praia e nas ruas foram se transformando na manhã seguinte numa multidão, os boatos correndo Jaraguá de ponta a ponta, pessoas chegando de toda parte, dando ao fato uma dimensão surpreendente, enquanto um cantador já anunciava no Mercado São José, de viola nos braços e por cima de uma caixa de sabão: Corra quem não for valente, O João Coco está nas armas, Não é homem, é uma serpente! Mentira, João estava desarmado, amedrontado e aturdido, mas, aonde andava ele? Na verdade aproveitou-se da escuridão da noite e da maré enchente e saltou do alto da ponte, nadando em seguida até uma barcaça fundeada ao largo, onde tomou refúgio mas foi logo encontrado. Novo alarme! Diante do rebuliço, o Secretário do InteriQr Dr Augusto GaJvão designou como chefe da diligência o policial Manoel Basto que determinou a abordagem da barcaça com seis homens fortemente armados num bote de quatro remadores, o que foi feito diante das vistas de mais de cinco mil pessoas, inclusive por muita gente que 191 1
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    invadiu as pontespara ver tudo de perto, e entre eles estavam vendedores de picolé, cachorro quente e raspadinha de carrapicho, E, por isso, a questão passou a ser um ponto de honra para 01 encarregados da ordem pública. Daqueles seis homens pronto1 para um combate naval iminente, nem todos sabiam nadar nem lhes fo~ perguntado, se sabiam, mas deram chegada à embarcação, logo avistando Jose Coco quase nu, de pé na borda, dizendo que morreria lutando, mas só se entregava ao Dr Galvão. Na hora da abordagem, e diante da fama do perseguido, um dos guardas, certamente um daqueles que não sabiam nadar, teve tanto medo que deu para tremer dos pés a cabeça, merecendo um verso de um companheiro de missão: Vi um guarda com sezão, Tremeu e bateu os dentes, Dizia um soldado preto: Você não diz que é valente? Pegue o homem, camarada, Isto é vergonha pra gente. ~~tes que a tropa escalasse por completo o convés da barcaça, o fugitivo saltou n'água e nadou em direção da praia dizendo: - Estou com muito frio ... levar paulada não quero. Na praia, sob palmas e vaias, João Coco entregou-se pessoalmente ao Secretário Galvão, depois de dois dias sem comer nada, para contar uma história besta que aconteceu no Beco do Urubu quando quis defender a honra de sua rapariga. A partir dessa história, João Coco foi perdendo a graça e ganhando fama de aTTuaceiro perigoso para as autoridades e seus executantes, terminando por reagir como uma espécie de ódio a todo braço da lei. Devido aos constantes encontros com os homens da Guarda Civil, ele foi ajudando na própria fama de não gostar de policial. E foi assim que se criou o ambiente favorável ao seu fim, por uma razão de so!idariedade e de um recolhido desejo de eliminar aquele que aparecia aos olhos do povo como invulnerável e superior à própria autoridade, sentimentos que volta e meia dominam as coletividades disciplinadas. 192 Parece que a gota d'água veio com uma história vergonhosa que se soube ocorrida na Praia da Pajuçara, -quando um guurdu novato e medroso, com farda e tudo, avistou João Coco vindo de lá para cá e, apavorado, subiu de botina numa gameleira, deixando passar primeiro o herói para depois descer e continuar sua caminhada, fato que deu nos ouvidos do pessoal da Guarda como se fosse um insulto irreparável. Logo depois, numa tarde masmorrenta de segunda-feira, João Coco foi encontrado obrando por trás de umas carrapateiras no oitão do Cemitério de Jaraguá e logo correu perseguido por meia dúzia de guardas armados que o fuzilaram quando tentava pular de um telhado para a casa do vizinho, depois de consumado o cerco. Ele mostrou então que correu da injustiça a vida toda, para morrer desprevenido e sem defesa, onde não merecia pela sua vida desarrumada. Muito tempo depois, a figura de João Coco servia ainda para alguns como referência de insensatez; para outros, de coragem; para muitos, de loucura e ignorância. Na verdade é que não fora domado. Seu recessivo de caeté indômito e de algwn quilombola guerreiro fazia-o dormir ao relento em sua juventude, desobedecer a todos os liames da conveniência civilizada quando adulto, e terminar como uma espécie de revoltoso contra tudo que parecia tirar a sua conduta selvagem e altiva. Ele sempre foi um "bugre." E quando um menino teimava e desobedecia, a vovozinha dos tempos antigos dizia: - Esse menino parece o João Coco! ------~-----~--------------~--·~~~--~--~--~---~------~-----~-~-- Uma pessoa feliz na ignorância e na espontaneidade. Um mulato do povo chamado Mário Beleza, na verdade Amaro José da Costa, era um pândego que nada devia a ninguém. Pelo contrário, vivia como se o mw1do todo fosse criado para ele só, mesmo que não desfrutasse de uma posição social elevada como era de seu intenso desejo. Gostava de cantar e tocar no conjunto "Regional dos Professores" com funcionários do Banco do Brasil e da Westem nas festas estudantis e na boemia de Jaraguá. 193
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    Vivia dizendo oque bem queria, geralmente em voz alta, co se todos estivessem obrigados a ouvi-lo. Não sentia nem um pouco os dramas do prostíbulo do 1>uqut em seu bar " Meu Cantinho," onde trabalhava a noite quase toda f encontrava com quem conversar e rir, fazendo humor ate mesmo com as misérias e desventuras dos outros. Naquela existência alegre de Jaraguá, Beleza parecia dançll com a vida e, naturalmente, era muito chegado às mulheres, na• quais gerou, segundo dizem, cinqüenta e três filhos, quinze do1 quais com as quatro esposas que teve. Havia até quem contas11t que. desde Jaraguá ao Yergel do Lago, quem não fosse filho de Mário Beleza nem de família montada. vivia dizendo que era, somente para ser irmão do povo. Notava-se que suas mulhcrci eram invariavelmente brancas e trocadas com uma freqüência impressionante, a ponto de dizerem: " Mário Beleza troca mais de mulher do que de roupa." Apesar de dispor de tantas condições para ser um cafajeste como muitos do bairro, não o era, de fato. Negou-se certa vez a dar uma carona de motocicleta para uma rapariga da Dina porque ela queria escanchar-se no acento, dizendo-lhe: - Ande de lado, menina. Assim não, fica feio para as famílias. Quando apareceram os primeiros caminhões ''puxando" açúcar cm Jaraguá. I3eleza comprou um deles de segunda mão e mandóu instalar em cima do pára-brisa uma buzina diferente que emitia uma seqüência de sons melódicos associados por todos ao anúncio: - Lá vem o Mário Beleza! Pensando cm tirar partido de sua popularidade, candidatou-s~ a ver~ador contando com os votos das raparigas, de seus fregueses, amigos aos montes, o dele e os de sua família, e mais ainda pelo fato de ser um dos cabos eleitorais do Deputado Oséias Cardoso de quem dizia ter no nome o "O" de honestidade e o ''C" de sinceridade. Outros afirmam que, durante a campanha política, quando lhe perguntavam o que ia dizer no palanque, respondia: - O meu discurso de improviso está pronto aqui no bolso. 1'>4 E apontava para o peito esquerdo, onde guardava um pupcl rabiscado. Beleza, no último dia das apurações, concluiu que estava eleito e, eufórico, correu para casa onde encontrou a esposa deitada numa rede e bem desprevenida. Abriu então aquela boca grande cortando seu rosto redondo e escuro, sobre um corpo que lhe sobrava por todas as partes, e disse bem alto em tom impositivo, quase imperial, com os braços abertos balançando para o céu: - Mulher! Mulher! Prepare-se para dormir com um vereador! Hoje mesmo! ouviste? E a esposa, na maior naturalidade, respondeu: - Esse vereador vem pra aqui ou eu vou pra lá ? E se o leitor quer saber se a premonição de Beleza se realizou, cu direi que não. Mas ficou por alguns votos, restando a queixa de que fora roubado nas apurações por uma senhora de boa família, dizendo para o resto da vida: - O povo do meu barro (bairro) me atraiu (traiu). E ainda fui roubado pela Nitinha ... Eis que Mário Beleza, apesar de ter recursos para comprar um ingresso nem que fosse na geral do campo do CRB, preferia wna solução original para assistir àquelas partidas disputadíssimas do Campeonato Alagoano, em especial o clássico CSA x CRB, este último seu time de coração. Quem cruzasse pelos fundos do Cemitério de Jaraguá naquele beco sem saída que dava acesso ao campo, logo avistava nosso personagem plantado nwn assento dianteiro de automóvel amarrado a uns cinco metros de altura no tronco de um coqueiro, com uma escada de pedreiro ao lado que saía do quintal de sua casa, "irradiando" o jogo para a molecada lá em baixo. Na falta de glórias políticas e acesso social, Beleza realizava-se na presidência do Synclair, um clube de segunda divisão no futebol, chamada de esporte menor, e que usava camisa rubro-negra, disputando com outros clubes um movimentado campeonato municipal, o 13 de Maio (preto e branco), o Imperial (azul e branco), o Clube dos Estivadores e mais meia dúzia deles. 195
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    Levando assim avida, num dia infeliz qualquer, Belo encontrou-se com um derrame cerebral que o deixou inválido, rnat na esperança de um dia recuperar a fala e o andar, retomando pari as alegrias da rua. Disseram-lhe então que Santo Amaro era dado às cur1• milagrosas desde que o suplicante lhe mostrasse humildade t penitência, motivo pelo qual enrolou-se todo num fita de pano, como se fosse uma grande múmia, só com os olhos de fora, e 16 11 foi pagar ao Santo na Paripueira sua promessa, onde causou na rua o maior espanto. porque pensaram que era um leproso. -------------------------------------------------------·~-------------------------- Um ingênuo ambicioso fez um delegado rir por dentro. Morava no início da Avenida da Paz, como quem vai para a cidade, um gordo comerciante de algodão mais conhecido pela sua ingenuidade do que pela esperteza nos negócios. Tinha uma família grande, inclu~ive várias filhas moças, e por isso gozava de renome em Jaraguá. Seu sonho era amealhar mais ainda, dizendo- se predestinado a ser um homem rico como os comendadores Teixeira Basto, Gustavo Paiva - este com palacete na Mangabeira - e os Leões da Utinga, prósperos e primeiros a possuírem frota de automóvel com garagem própria por aqui, numa cidade cheia de carroças e bondes de burro, recentemente dotada de bondes elétricos da CATU. Ce110 dia, o homem entrou na Delegacia de Jaraguá ' levando, debaixo do braço. uma geringonça parecida com caixa de charutos, de onde saía uma manivela discreta como as de máquina de costura, portinhola de entrada e outra de saída, além de pequenas alças para carregar, tudo pintado com muito aprumo de verde musgo, onde se lia um título em negrito: ''A Máquina da Fo11una", e mais em baixo num cantinho, em letras pequenas e douradas: Made in Suiça - lmpo11ed. O Delegado era Modesto Lins, que andava empenhado em cumprir os seus deveres de proteger a sociedade, o que fazia com muito cuidado para não deixar fugir pelas malhas da lei os faltosos que por lá batiam com os costados. Mas viu-se, naquele dia, diante 196 de uma situação inteiramente nova porque aquele comcrcruntc, insuspeito de qualquer deslize até então, pousou sua geringonça cm cima da mesa diante dele e reclamou assim: - Doutor Modesto, pelo que me chega aos ouvidos o ilustre guardião da lei protege os enganados e oprimidos pelo crime. Tenho neste momento o desprazer de vir denunciar a Vossa Senhoria ... - Muito obrigado ao senhor pelos elogios, interrompeu a autoridade. - ... de nada, de nada ... mas, como dizia, desloquei-me de meu domicílio para apresentar a queixa de que um senhor bem vestido, parecendo de família, chegado aqui num paquete da Costeira, me vendeu esta máquina que julguei ser a salvação dos meus sonhos. E o pior, Doutor Delegado, tive que pagar à vista pela peça dez contos de réis, porque o gajo me jurou que tinha que tomar o trem e seguir logo viagem de negócios para Palmares e Ribeirão, onde tinha um encontro para vender isto aqui (neste momento apontando para a geringonça) a uns comerciantes e proprietários da mata em Pernambuco ... - E afinal, homem de Deus, qual é mesmo a queixa? perguntou o Delegado já um tanto impaciente. - É o seguinte: é que o gajo me mostrou que, girando esta manivela aqui (e deu uma giradinha nela), saía pelo outro lado o dinheiro que eu quisesse, e saíram de dentro dela três notas de cinco. Estava tudo certo, Doutor Delegado, e eu ainda fabriquei mais duas depois, mos daí em diante só saiu este papel branco aqui, em vez de dinheiro vivo como era o combinado ... Foi quando Modesto Lins interrompeu a narrativa e perguntou com evidente esforço para não rir: - Mas, Seu (fulano) , o senhor queria manter em casa uma fábrica de dinheiro falso? Sabia que isso é crime capitulado? Diante do silêncio de estupefação do queixoso, passou a examinar as notas que estavam nas suas mãos e que ele trouxera como prova, acabando por concluir: - E são notas falsas. O senhor já fabricou dinheiro falso. 197
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    E, bem seno,o homem, enquanto saía vagarosamente pcl1 porta em frente deixando para trás a geringonça, certamente pensava mais no prejuízo que tivera do que na tolice que acnbava de fazer. ---------------------------------------------------------------------------------· Um inglês celibatário e excêntrico que ficou nq lernbrança do povo. Passados muitos anos quase ninguém sabe a razão de se comparar uma pessoa andarilha e irrequieta assim: - Parece o Cavalo de Macray. Kenneth C. Macray era um inglês como outros patrícios e súditos de Sua Majestade que aqui chegaram e viveram representando firmas e fazendo trabalho consular. Foi representante de William e Cia para exportação de açúcar, cônsul e vice-cônsul britânico, cônsul da Suécia e da Noruega desde l902 e um dos primeiros presidentes da Fênix Alagoana, cuja sede ficava na Rua da Igreja, também fundador e presidente do Tênis. Era um homem que se via de longe, porque muito alto, magro, cabelos de milho verde, pele avermelhada no rosto e branqueia no resto do corpo, quase transparente como catenga de parede, olhos azuis, diferente dos outros, principalmente pelo pescoço longo que tinha e que, conforme disseram, era 33 e pegava colarinho 48, com trinta de comprimento. Nas festas oficiais e quando posava para retratos, como aquele da galeria da Fénix, Macray usava uniforme colonial de seu País como oficial que fora em outros tempos, o que combinava també~ com seu sobrenome Courage. Dizem que, depois de aposentado, tentou residir de volta na Inglaterra, mas regressou ao Jaraguá pelas snudades de uma vida muito mais animada à qual se acostumara lC)8 plenamente e onde encontrava calor humano, alegria e gente descontraída, em vez de "fog" e frio, sentindo falta do Brasil enquanto tomava bebidas destiladas naqueles "pubs" e comia picadinho de frango temperado nas tabernas tristes numa cidade praieira da Cornuália. Desta vez comprou uma casa em Bebedouro e lá viveu seus últimos anos reunindo amigos e bebendo com eles. Mas, e a história do cavalo? Desde os velhos tempos até os anos quarenta, muitas pessoas que trabalhavam em Jaraguá vinham de casa montadas em cavalos ou chan-etes que ficavam em estrebarias nas ruas e vielas do bairro. Não se sabe se por capricho ou por economia, Macray não dispunha de estrebaria nem própria nem alugada para sua montaria. Por isso, lhe eram concedidos descanso e ração na Chácara Britânia, nome de um sítio com bangalô onde morava na .Mangabeira, no final da Estrada Nova, tendo como cocheiro um empregado humilde para seu serviço rotineiro de transporte. Pela manhã cedo, depois do café, Macray fazia sua primeira viagem até Jaraguá, de onde o cocheiro e os cavalos voltavam para a Mangabeira, ein passo Jento e desanimado, sem o garbo britânico e militar do inglês em sua passagem para o trabalho. Antes do meio-dia, lá vinha a mesma tropa para conduzir Macray ao almoço na Chácara, retornando depois da sesta até a Sá e Albuquerque, onde ele entregava novamente as rédeas do animal ao cocheiro e se adentrava no Consulado Britânico ao lado do Armazém Jaraguá e exatamente em frente da Estrada Nova. Os dois cavalos e o cocheiro retornavam ao devido descanso, desfilando pela quarta vez nas mesmas ruas de sempre. Lá pelas quatro da tarde, o cocheiro e os dois cavalos faziam sua penúltima viagem seguida da úJtima, quando o inglês montava no rumo da Mangabeira, depois de um dia de trabalh,o, empinando- se na sela, seguido pelo humilde serviçal, também montado, que terminava sua faina diária e rotineira desencilhando os dois animais e permitindo-lhes a última ração. Aí então, já um tanto cansados, poderiam parecer Dom Quixote e Sancho Pança, fosse o cocheiro um homem roliço e baixo, e sua montada uma mula velha. Mister Macray, de sua parte, até que lembrava o sonhador e enlouquecido cavaleiro andante criado por Cervantes. 199
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    Se alguém sedesse ao trabalho de calcular o quanto andavam cavaleiros e cavalos, em apenas uma jornada, chegaria à conclusão de que o inglês percorria dezesseis quilômetros e o cocheiro e 01 dois cavalos nada menos do que trinta e dois, porque a distâ11ci1 entre o Consulado e a Chácara era de quatro quilômetros. Assim, tantas vezes por dia, semanas, meses e anos repetia-se com incrível semelhança e regularidade aquela cena; que o povo fixou a expressão: "Parece o Cavalo de Macray" para and<:trilhos. Macray era um homem tão excêntrico que o fizeram de padrão de britânico em Alagoas, dentre alguns deles que ficaram na memória do povo e que tanto contribuíram para criar uma referência de boa conduta. Na enchente da noite de Sexta-feira da Paixão, 18 de abril de 1924, que disseram ter ocorrido como castigo de Deus porque mataram um porco naquele dia sagrado, "o segundo dilúvio'' que levou a Ponte dos Fonsecas sobre o Riacho Salgadinho, derrubando 117 casas e avariando outras 4 12, com cinco mortos e vários feridos, água transbordando em cachoeira, um outro inglês, cercado e temeroso de nadar, inspirou um versinho que terminava assim: Gritava o povo: Seu Patton! Deixa o dia amanhecer. Responde o inglês já rouco Mande chamar o Macray, Só ele é quem toma pé Tenho medo de morrer! Com aquele corpanzil que mais parecia uma vara de bambu, Macray (que apelidaram de "O Mastro") se destacava de imediato numa humanidade de pequena altura. É de se imaginar sua figura comandando o "Tanque de Guerra", nome que dera a seu carro alegórico na Micarême de 1924, guarnecido também pelos seus patrícios e cuja munição era um grande pacote com três caixas de puro White Horse. Aliás aquelas Micarêmes de Carnaval, com automóveis e caminhões ornamentados, nunca mais se repetiram em Jaraguá. Os carros tinham seus exóticos nomes ou apelidos jocosos botados ~cio povo (e pelo "O Bacurau") à ~·evelia: "Faraó do Egito'', do Dr f•sdras Duarte, "Uma Caçada na Africano Bojo de um Elefante", do Coronel Cláudio Dubeux," Cabeção ", de Tércio Wanderley 200 ' "Propaganda de Mosquito", "Erupção do Vesúvio", "Ovo de Colombo". Havia o carro do Dr. Pereira, de Goulart e Cia, Cônsul da Bolívia, filho do português Chico Pancada que aqui desembarcou e venceu, decorado em forma de torre de petróleo que atirava lá de cima papel picado, significando que jorrava o precioso líquido. Havia uns gritos de animação que eletrizavam os carnavalescos, dentre os quais um era alusivo ao próprio Macray, folião e feniano fanático, apesar de sua pose britânica: Viva! Viva o Carnflval! Phenianos, evoché! Pega o pão amolecido! Ali right! Eu sou o Macray! Assim, com esse evidente espírito associativo de que todo inglês dispõe, Macray foi o primeiro Presidente do Jaraguá Tênis Club, fundado no dia 6 de março de 1922 e cuja diretoria é bem uma mostra das relações da colônia britânica entre nós: Walter W. Cox, Edward G. Patton, Philip G. Nicholls, Robert W.B. Paterson e Ener H. Johansen. Macray voltou a ser Presidente do Clube em 1926 e Vice em 1928. Se jogava mesmo tênis, é possível imaginar como era engraçado na quadra, vestido de branco e fino como uma garça. Esquisito como quase todo inglês, Macray criava, na Chácara Britânia, dois grandes cachorros de raça estranha, um grande macaco, cuja venda vivia sendo anunciada pelo "O Bacurau", e outros animais selvagens como saguis, raposas, onças e, para alguns exagerados, também dinossauros e megatérios, sob os cuidados de uma senhora idosa. Porque gostava muito de cavalos, disseram que sua atividade na Inglaterra teria sido de jóquei e que, nas batalhas em que participara, mereceu, do Rei Jorge V, várias cruzes de guerra, dentre elas a "Cruz das Almas", por coincidência distante de sua chácara uns dois quilômetros, e mais o título de nobreza "Cavaleiro da Mangabeira". De fato, este cavaleiro se destacava pelo garbo com que montava seu corcel, parecendo um guarda de Sua Majestade a Rainha, por ocasião do "Zé Pereira" promovido pela Fênix Alagoana no Carnaval. Era uma fila de diretores e beneméritos do Clube, dentre eles Macray, que ficavam em forma, fila por um, vestidos de uniforme branco com faixa 201
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    vermelha na cintura,no que chamavam "Comissão de Frente", sob o toque de clarins tocados por músicos da Polícia Militar. O cortejo percorria o bairro e dava-se início ao baile. De fato, o homem gostava muito de cavalos e, certa vez. encantou-se por uma égua que comprou pelo dinheiro que lht cobraram, somente para andar nos feriados num animal mala descansado e de melhor apresentação. Certo dia, porém, passou pelo maior vexame de sua vida, num fato que foi comentado por muito tempo em Jaraguá. Foi assim, segundo a memória do povo: Vinha Macray cavalgando sua potranca lustrosa e feminina pela Mangabeira a dentro, no rumo de Cruz das Almas, num domingo luminoso, daqueles que acontecem por aqui antes da quaresma chegar. Tinha na cabeça um chapéu, ou melhor, um quepe militar de massa, branco, abas em todas as direções da cobertura, igual aos que seus patrícios em campanha usavam na Índia (quem for curioso veja-o naquela galeria de Presidentes da f.'ênix), símbolo imponente da colonização e da severidade vitoriana. Vestia um temo também branco, tendo em vez de paletó apenas wn blusão aliviado, daqueles de guia caçador de leões ou explorador na África, com enormes bolsos que quase pareciam mochilas laterais cm seu corpo de varapau, uma linda tabica importada na mão direita, cujo brilho do cabo sugeria que fosse de ouro. É claro que aquela figura rara, embora já muito conhecida, ia despertando a atenção dos caminhantes domingueiros e do povo sentado nas calçadas e varandas. Andava ele ao passo, corpo espigado como se estivesse espetado por um cabo de vassoura nas costas, sempre olhando para frente, nw1ca para os lados. Foi quando veio o imprevisto. De repente, irrompe, de um buraco de cerca, um cavalo raquítico, pequeno e sarnento, com visíveis falhas da enfermidade cutânea em seus pelos descoloridos, relinchando nervosamente e cujo impulso que mostrou na direção da égua de Macray não correspondia absolutamente ao seu porte ridículo, principalmente quando comparado à beleza nobre de sua desejada parceira. Mas demonstrava tanto desejo que logo atropelou a égua e seu 202 cavaleiro, mesmo sobre as tabicadas vigorosas que recebia do inglês, agora posto numa defensiva frenética e muito distante do aprumo com que vinha cavalgando. E percebeu desolado que a sua égua aceitou o convite ao sexo, ela, um lindo animal de raça, caro e de linhagem, que safada!, ele, um pangaré jovem, mas subnutrido, sem nenhuma apresentação, enfim, wn animal pobre, desclassificado. Como ousava? Mantendo-se montado, Macray, desesperado (via-se pelos movimentos de sua tabica), ainda alimentava a esperança de evitar o pior, o que não conseguiu, porque o pangaré, aproveitando-se de que a jovem égua flexionou as pernas traseiras abaixando carinhosamente as ancas (colocando a cauda de lado) subiu com sofreguidão. E aí ocorreu o incrível. Tudo foi consumado ali mesmo, sem que o cavaleiro pudesse desmontar, simplesmente porque a pata dianteira do cavalo enfiou-se em seu bolso adentro, ficando os três no enlevo daquele curioso momento. E aí veio a brincadeira dos populares: - Pior foi o bafo do cavalo no pescoço do inglês! De tão popular que ficou o Macray quiseram candidatá-lo nas eleições de 1922 a deputado estadual pelo Partido Democrata, junto com alguns de seus amigos da colônia inglesa em Maceió: sob os lemas Macray, "Inglês para Sempre''; J.G. Nicholls, "Ex-Prefeito de Cork"; Cel Sharp Plate Bank (imaginário ?) e Major Gore Lion. Como era celibatário, toda espécie de maledicência popular caiu sobre ele, inclusive a de que gostava mais dos animais de sua chácara do que de mulher, e de que nunca havia conhecido a sós um só espécime deste sexo, vivendo a dizer : "Oh! Love is vcry dangerous. God savc me! (Oh, Amor é muito perigoso. Deus me salve!). E não precisava ter tantos cuidados, pois até as vitalinas dele se afastavam por esquisito que surgia, parecendo uma esfinge varapau. 203
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    -----------------------~-------------------------------------~~------------- Retrato de umhomem cansado de trabalbar em vão. Era um velho moreno, alto e magro, que trabalhou duro cm Jaraguá pegando pequenas cargas como "ganhador". Cansado, passava os seus dias no mesmo lugar onde sempre viveu pela forçn dos músculos. Como os demais humildes de "terceira classe", pela roupa que vestia, ele se destacava logo dos comerciários. escriturários, balconistas, apontadores, pequenos funcionários, gente de "segunda classe" que circulava em Jaraguá, muitos de suspensórios a segurarem as calças de cintura frouxa. Distância maior havia então de Melquíades para a "primeira classe": industriais e comendadores do comércio, altos funcionários da Administração do Porto e da Alfândega, e doutores, todos vestidos de temo, colete, gravata e chapéu panamá. Melquíades vestia uma camisa clara, folgada e sem colarinho, mangas compridas de punho abotoado, calça com cinto de cordão ou de couro cru. "cotó", onde o fim das canelas aparecia antes dos tamancos bem um palmo e meio de fora. Tudo parecia amassado como se acabasse de sair de uma garrafa. Ce1to dia, o fotógrafo José Simões Filho o flagrou sentado, de dedos entrelaçados e olhar tristonho, um tanto interrogativos, braços apoiados nos joelhos que estavam distantes um do outro de quase um metro, chapéu de massa colocado bem no meio da cabeça. E dele ficou o registro ("O Natal", 1944), sob o título - "ESTE É O MELQUIADES, velho ganhador que servia a Deus e ao Mundo em .Jaraguá. Sentado na calçada do Trapichc Novo, está ele dizendo: "Corri muito, lutei muito e nada fiz. Agora quem quiser que corra". É o que diz também sua face de olhos amortecidos pelo tempo e pela desilusão e estafa sem fim, numa vida de acorda e dorme, entre uma coisa e outra comendo um prato de feijão com charque e farinha, e alguma carga para transportar em sua carrocinha quando 1111m dia de s011e. 204 ----------------------------------------~-~--------------------------·---·---- Como a força física fez uma fama. Por que José Leôncio do Nascimento (l.88m de altura, 110 kg de peso) era chamado de Zé Guindaste? Quem responde é a sua viúva Dona Cannelinda contando a história de mn circo que se apresentava no Aterro de Jaraguá e encomendou na Fundição Alagoana wn daqueles pesos de barra para espetáculo de levantador. Certo dia, seu marido, barcaceiro de profissão, na época conhecido como Leôncio, passou pelo Beco da Estrela, andou um pouco na Estrada Nova, dobrou à direita e entrou na Rua da Igreja, encontrando uma carroça defronte da Fundição Alagoana, onde se desejava colocar a tal barra de ferro com mais de cem quilos em cada ponta, uns quatro homens sem jeito, e nada. Como sempre muito prestativo e disposto a ajudar qualquer necessitado, Leôncio pediu licença, colocou-se por trás da barra abarcando-a com as duas mãos~ acocorou-se, ajeitou-se como aqueles atletas de levantamento de peso em cima de um palco, prendeu a respiração, engrossou o pescoço e lá foi o aparelho para cima da carroça. Espantado com o que vira, o gerente do circo passou a insistir com Leôncio para que aceitasse um número no espetáculo do próximo domingo, a um preço bem compensador, prometendo levá-lo com a ''troupe'' num trabalho fixo e bem rernw1erado, contanto que levantasse a barra uma vez por dia, duas aos domingos e feriados, depois de uma encenação com anunciante, música e mulheres musculosas e scminuas de lado alisando em aquecimento os seus possantes braços, todos vestindo um maiô parecido com pele de leopardo. E assim o agente foi mostrando cm detalhes o que faria Leôncio que relutava em aceitar o novo emprego, dizendo-se embarcadiço de convés da "Indiana", de Seu Atahide, levando coco de Seu Eráclito Lima para a Bahia e de lá trazendo cimento para Jaraguá. Não podia deixar o patrão sozinho nessa emergência, sem aviso nenhum. Nesta hora, diante de um auditório de uma dúzia de pessoas, o gerente, para convencê-lo melhor, ditou o anúncio que seria posto 205
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    nos jornais efalado aos quatro ventos da cidade por um palhaço cm cima de uma carroça e num bonde alugado pelo circo: "Próximo domingo no Circo Sofia não percam o espetáculo. Z~ Guindaste, o homem mais forte do Brasil, vai levantar um11 barra de duzentos e oitenta quilos". Leôncio continuou barcaceiro por mais vinte anos, mas passou quarenta atendendo pela alcunha de Zé Guindaste. Por que seria tão forte assim, a ponto de carregar um saco de demerara de sessenta quilos na cabeça e um debaixo de cada braço'! Dizem que ele foi criado por uma senhora chamada Dona Augusta, de Porto de Pedras, onde nasceu, e que seu padrinho era um armador remediado e bondoso, que terminou colocando-o como moço em uma de suas barcaças. Aí, então, comendo bem e vivendo as durezas do mar, tornou-se cada dia mais forte e grande. Nascido em 1907, faleceu aos sessenta e oito anos porque tornou-se diabético, terminando melancolicamente os seus dias depois de amputar uma perna e sofrer um ataque do coração. Foi como ele mesmo disse durante toda a vida, quando se referia a um possível perigo pela frente: - Morreu, morreu, expressão que fez sua marca pessoal. Encontra-se enterrado no Cemitério de Jaraguá, numa catacumba da família, o homem que desatolava carroça, desencalhava barcaça com os ombros, abria um coco verde com um aperto de mãos, pipocava barbante grosso em volta do pulmão quando respirava, prendia com o polegar e o indicador da mão direita o pulso de qualquer um, sem deixá-lo se soltar, por mais esforço que pudesse fazer, carregava cento e oitenta quilos de açúcar mas que, inexplicavelmente, perdeu uma quebra-de-braço com o José Auto Guimarães. Apesar disso tudo, era incapaz de agredir quem quer que fosse, desde que não lhe pisasse nos calos. Mas, diante da derrota, ele pendurou o Zé Auto numa prateleira do bar, por alguns minutos. Dizem que certo sábado de inverno, Zé Guindaste estava fa~endo compras no Mercado São José quando despertou sua ntcnção uma velha carroça carregada, com suas enormes rodas de mndcira de banda fina e aro de metal, atolada até quase o eixo. 206 O pobre carroceiro estava desesperado e apelando para a njudu dos circunstantes, uma dúzia dos quais acudia o animal que bufava e espumava de tanto fazer força para nada, levando doloridas chibatadas. Tudo inútil. A carroça lá estava. Impaciente com o que via, Zé Guindaste aproximou-se da cena no momento em que todos gozavam de um descanso merecido, antes de ter início nova tentativa de saírem dali. E disse ao carroceiro: - Espere, meu nego, tire essa burra da carroça! Diante da surpresa e sem entender direito, o carroceiro ficou de boca aberta olhando aquele homem a lhe dar ordem sem sentido, ele que tanto desejava entregar em Bebedouro sua carga de inhame ainda antes do almoço. E insistiu mais claro ainda o Zé Guindaste: - Quem vai desatolar é eu. Vamo, tire a burra! E foi obedecido. Em seguida, colocou-se na posição do animal, amarrou- se pelas cordas e tiras de couro, empunhou as prolongas da carroça com suas enom1es mãos, aprumou-se, respirou fundo enquanto baixava a cabeça inclinando-se para frente, e andou devagar tendo pelas costas a carroça cada vez mais acima de seu corpo, enquanto ia para frente. Em Coruripe, tempos em que o Capitão Saraiva era o Delegado, havia na Delegacia de Polícia uma inscrição em letras grandes na parede em frente da porta de entrada: "Preso que sair daqui dizendo que não apanhou ou é mentiroso ou é safado''. Vejam só. Como toda regra tem pelo menos uma exceção, aqui vai a que viveu José Guindaste quando foi morar naquela cidade. Numa tarde violenta, no campo de futebo] da Barreira, bem próximo, irrompeu uma briga de torcedores e jo~adores co~ pancadaria e ferimentos. Duas dezenas de contundidos foram a Delegacia dar pa1te de Zé Guindaste como o principal protagonista dos acontecimentos e autor das agressões, com uma das vítimas derramando sem parar sangue pelo nariz. E o Delegado, alegando que "verteram sangue", mandou uma patrulha prender o agressor em sua própria casa, depois de perguntar: 207
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    - Isto éum homem ou é um leão? Foi aquele que uma v1 jogou a trave fora do campo no Miaí de Cima ? Parece que o cabo da patrulha, já amedrontado com a missão que ia cumprir, ao invés de agir com humildade, resolveu dai uni demonstração de violência logo de entrada, confiado na farda o pensando em aturdir o preso até que ficasse por trás das grades. 1 chegou na casa dele arrastando atrás dois soldados, onde fez logo um susto em Dona Carmelinda, que, abrindo a porta da frente, depois da pancadaria de vários socos, ouviu: - Cadê o valentão? Mas, antes mesmo que a mulher respondesse, Zé Guindaste saiu da rede onde cochilava e surgiu diante da patrulha com tanto volume, altura e grossura (estava nu da cintura para cima) que o cabo de um metro e sessenta e dois, com voz agora humilde, olhando o pescoço do homem, que mais parecia um toco de coqueiro, e vendo que ele e os soldados juntos não dariam conta de seus deveres, perguntou, para dentro de sua goela, com voz de menino sacristão quando chega a visita do bispo: - Vosmicê é o Sanção da Barreira? aquele que ganhou de vinte? falando assim com ar de admiração e lisonja, mas, percebendo a situação e sabendo que não se bate em juiz, nem em padre, nem em soldado, Zé Guindaste aceitou a prisão, mas com uma advertência: - Eu vou acompanhar vosmicê, Seu Cabo, mas se baterem em mim, o diabo vai sair do caminho! ao mesmo tempo que se voltava para a esposa, girando o corpo para ela, e advertindo: - Se eu não voltar, muié, pode comprar vestido preto porque vou fazê uma bagaceira medonha, e ficou dois dias preso e bem tratado, até conversando com os policiais, e não deixou de dar o seu recado quando foi solto e apontou para a frase escrita na parede da Delegacia, referindo-se a um ladrãozinho preso na cela ao lado, perguntando: - Botaro essa placa aí, pru que? Donte pra oje vomicês batero o tempo todo neste ladrãozinho e deixaro ele todo pustemado de fedê qui ninguém aguentaro. Não se faz uma coisa dessa... E virou as costas para os policiais saindo para casa. 208 Zé Guindaste era fiel segurança e uma espécie de sombrn de Dedé Lessa, freqüentador assíduo do meretrício nas tardes de vc!·no. Era quando os paralelepípedos ainda estavam quentes e as ra~angas despertavam do sono vespertino para compensar as canseiras da noite anterior. Certo dia ao descerem a escada da pensão Night and Day, acharam de ~ornar uma saideira qualquer, de preferência de jenipapina, quando toparam com o boteco do Anãozinh~, que também chamavam de "Corcundinha". Era um pequeno qmos~ue de madeira, que mais parecia reboque de bonde c~rtado n~ me10 e plantado no oitão esquerdo da Associação Comer~1al. Servia fr~1tas, bebidas destiladas, peixe frito de tira-gosto, caJarana e toucinho assado e, segundo os mais informados, maco~lrn para. os marinheiros, sob um letreiro tão insignificante que mnguem amda hoje sabe descrever. Naquele vão de lado a lado do boteco despontava .so~ente a cabeça avantajada do Anãozinho, um tipo pouco comumcattvo que trabalhava como uma máquina sem risos nem conversas com freguês, sequer reclamações dos que dele debochavam de vez em quando. Dedé Lessa, depois de pedir dois grogues de aguardente Manjerona e um prato de corvina frita, recebeu dele uma resposta seca e contundente: - Não dá mais porque está fechado. Surpreendido e descontente, Lessa voltou-se para José Guindaste que vinha chegando próximo o suficiente para escutar o veredicto do Anão e a proposta de seu amigo: _Tá aí, Zé, o homem disse que está fechado, e o que vamos fazer agora ? e adiantou: vamos virar o boteco ? Incontinente, José Guindaste usou da força com que Deus o premiou e, inclinando-se para baixo sem sequer dobrar os joel.hos, atendeu a sugestão do amigo, virando o quiosque com o Anãozinho dentro. "Bem feito", disse, espanando uma mão na outra. Havia um grupo de ganhadores esperando a hora de fazer.u~ carrego de velocípedes, âncoras e rol~s de ara~1e na Fund1çao Alagoana, Rua Barão de Jaraguá, 65, antiga da Igreja. 209
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    Na falta doque fazer, debaixo daquele calor de duas da tarde, logo na segunda rua da praia para dentro, lugar sem vento, aqucle11 homens se displlllham por ali encostados com os pés na parede, braços cruzados, alguns poucos na sombra das grossas portas do11 trapiches vizinhos. Bem na frente da Fundição concentravam-se alguns deles a ouvirem um dos maiores contadores de história de Jaraguá, o fenomenal Zé Guindaste que se destacava do grupo pelo seu tamanho e pelas amplas gesticulações para cima e para os lados, dando a entender, para o observador distante, que imitava um macaco nervoso que ficava no Mercado São José, ou que contava uma ''bulha" ocorrida recentemente no meretrício do Verde entre um bando de marinheiros de um certo cruzador da Marinha de Guerra e as praças do Exército. Estava preparado o desastre que logo ocorreria. Surgindo da porta principal da Fundição, após um papinho com o S1: Wuckerer, saiu andando um sujeito mais para pequeno, bem vestido, cam·egando na mão esquerda uma pasta de como, parecendo tão distraído que sequer percebera em seu caminho a ruidosa voz de Zé Guindaste e seu corpo enorme. No exato momento em que entrou pelas costas e no alcance do c?ntador de histórias, este levantou com força seus braços e punhos ?1gantescos par~ cima, atingindo em cheio o pobre homem que, por isso, passou mais de uma hora dormindo e cheirando a.mica. A mentira no "black-out". Todo mundo conhecia as histórias de Jocão, o Barão de Muc~ausen de Maceió. Não pertencia àquela categoria de ~ent1~osos que acreditam nas próprias mentiras. Mentia para d~vertir-se .c~m a estupefação alheia diante das invenções de seu cereb~o cnatlvo e gozador. Era o assunto de muita gente, em especial nos momentos em que se desejava rir de suas histórias mais recentes, sem saberem que era o Jocão quem ria deles. . Como, . sempre nesses tipos, Jocão fazia uma figura 1nconfund1vel. Era moreno claro de cabelos lisos alto um tanto 210 ' ' grande por não ser magro, rosto volumoso e de traços rcg11lan.:s, nariz grande, boca grande, olhos grandes, queixo também grande. Usava sempre um chapéu elegante, paletó e gravata, andando devagar e se chegando às pessoas importantes que gostava de cumprimentar e por quem queria ser ouvido. Nunca iniciava um "caso" de sua vida sem ser provocado por alguém mais impaciente do grupo, com a frase: "Joca, qual é a última novidade?". Seu lugar predileto era a Rua do Comércio, por volta do Relógio Oficial, ou os bares do centro da Cidade, mas algumas vezes tomava um bonde para freqüentar reunião informal de fim de tarde que se fazia nos degraus da Associação Comercial em Jaraguá, quando se juntava o que havia de melhor no mundo dos negócios e da burocracia fiscal. Estavam ali conversando sobre um exercício de "black-out" da noite anterior, tempos de guerra mundial, quando tudo ficou no escuro, os automóveis e bondes pararam de circular, as janelas ficaram fechadas para o maJ, nem mesmo vela se podia acender. Aviões percorriam os ares o tempo todo e os fiscais da defesa civil, inclusive escoteiros mobilizados, circulavam pelas ruas em busca de alguma falha lmninosa no breu do exercício militar. Foi quando alguém perguntou pelas novas. E ele então fez uma discursiva dissertação dos aviões que sobrevoaram sua casa insistentemente, alguns até querendo pousar próximo no campo velho do Aeroclube, parecendo que algo andava errado em volta dele e de sua família, continuando assim: - Olhe, um avião passou tão baixo que o meu vizinho acendeu um cigarro no fogo do motor dele. E prosseguiu dizendo que escutou no rádio que havia um foco de luz muito grande na rua em que morava, e que os popul:ires ajudassem a identificá-lo porque os submarinos alemães podiam bombardear a cidade, principalmente o Porto de Jaraguá rccém- inaugurado e as instalações e depósitos dali. Nesse meio tempo, chegou em sua casa uma patrulha do Exército intimando-o a que comparecesse imediatamente para explicações no quartel do 20Q BC porque o tal "holofote" vinha de sua janela. Surpreso, mudou de roupa e acompanhou o sargento até lá. 211
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    - E aientão, o que era? perguntou o mais curioso, respondendo Jocão: - Imagine. O foco de luz que ninguém de casa estava vendo era do anel de brilhante de minha esposa que refletia n hu: da lua lá pras bandas do céu e do alto-mar. Trabalho deu... A luz, segundo disse mais tarde, foi identificada na casa dele por um oficial em posição na cabeça do cais do porto, depois que os aviões deram o alarme. ---------------------------------------------------------------------------------- Um trapicbeiro atordoado fez o que não devia. De um ônibus "sopa" que estacionou no ponto do Bar Gaivota surgiu meio aturdido o trapicheiro Codá. Atrás dele saltou uma turba que procurava atingi-lo com murros, guarda-chuvas, bengalas e bolsas, um ou outro malvado atirando-lhe objetos de longe. Como era um homem pesado e baixo levava desvantagem de seus perseguidores que, aproveitando-se de uma oportunidade furtiva, conseguiam molestá-lo. Mas, vez por outra, ele abria um vazio nos seus agressores, quando procurava acertar em alguém seu possante murro de um braço curto mas grosso como um tacape. A cena parecia daquelas de formigas carnívoras atacando um preá indefeso porque cercado, sem poder evitar as mordidas todas de uma vez. Mas. o que teria ocorrido dentro daquela "sopa''? Foi assim: Vinha Codá de um dia pesado no Trapiche Segundo, onde carregara cento e vinte sacos de açúcar passando por uma escada na ponte, equilibrando-se depois numa prancha do convés de uma alvarenga e descendo entortado até o seu porão, tudo sem perder o bom humor. Para compensar a loita, corria entre eles toda espécie de brincadeiras para aliviar suas almas sofridas de trabalhadores braçais da resistência e da estiva (o que fizera durante muitos anos), num ambiente pegajoso e quente de melaço misturado com areia, labuta diária que nunca tinha fim e onde a única realização era 1cccber alguns trocados no sábado, segundo a sua produção. 21:> Depois de ouvir a sirene de largar, tomou um banho pelos fundos do trapiche de Goulart & Cia, trocou a tanga de estopa por uma roupa, desceu à praia para apanhar uma lata que passou a noite anterior aparando melaço dos sacos empilhados no estrado da ponte, vendeu o apurado ao dono de uma vacaria e foi para o ponto de ônibus. Neste momento, seu espírito foi perturbado pela notícia de que houvera uma batida policial no Trapiche Faustino para revistar os trapicheiros e dois foram presos porque levavam escondido entre a roupa e a cintura meia banda de bacalhau da Terra Nova, coisa desagradável, mas que acontecia na miséria do pobre e no costume dos descuidistas. Apesar do barulho do motor e da presença de gente bem vestida no interior do veículo, Codá certamente tinha a sua alma ainda vagando no dia todo de vozes desencontradas, quando uns enfileirados pelos outros com as cabeças empurradas em turbantes de pano grosso enrolado onde pousavam os sacos, ainda tinham forças para contar tolices e potocas, falarem da vida alheia e da mãe dos outros, dos chifrudos que por ali diziam existir e até contar absurdos como aquele do trapicheiro que dera um salto dos zincos para o mar e enfiara a cabeça na boca de um mero, trabalho dando para tirá-la de dentro dele. Ou das redes do ··coronel" João Venuto colocadas por baixo dos trapiches, recolhendo os peixes que ficavam tontos e perdidos no madeirame confuso das estacas e de lá não conseguiam sair, a não ser quando a maré seca os levasse. Bombardeavam de impropérios os pares ou trincas de empurradores que faziam os troles descerem suavemente mas com firmeza pelos trilhos do trapiche, com vinte ou mais sacos, ou levá- los de volta ao armazém, gente diferente que fazia mais força com as pernas de que com o pescoço. /diante, havia também troca de impropérios ao passarem pelos misturadores de mascavo e demerara, formando as marcas de Açúcar Goulart Il, ou Açúcar Napoleão, tipos finos de exportação. E agora terminara tudo aquilo, mas restava voltar à calma do descanso e chegar em casa para tomar um café com carne seca e esquecer o dia. Pouco antes do Bar Gaivota, Codá, assim aturdido, puxou demoradamente a campainha talvez pelo peso de sua mão entumescida de tanto segurar ponta de saco. E disse em voz alta: 213
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    - Motorista! Pareaí que vai saltar um corno! Como? como? aquela figura ridícula com dois chifres 1111 cabeça e cuja mulher costumava variar de preferência, foi a idéia qu~ certamente passou pelas mentes dos passageiros. E mais, quem sena o corno a saltar na parada? Todos olhavam aquele homem volumoso e cheio de músculos, pescoço redondo, grosso e embutido, crânio em forma de fruta-pão, braços que se inclinavam para os lados impedidos de descer pela musculatura do sovaco, parecendo o Capitão Marvel depois da engorda. Foi quando, feito o pagamento e recebido o troco o homem , ' diante do silêncio geral e da estranheza dos passageiros, gritou novamente, quase que saltando do veículo: - Motorista. Tá bom. Agora leve pra casa o resto dos corno! apontando com aquele dedo indicador volumoso para os fundos do ônibus, percorrendo a audiência em frente. E teve início o tumulto. Vale lembrar que, logo que apareceram os ônibus concorrendo com os bondes decadentes, misturou-se como numa gaiola toda espécie de gente (talvez venha daí o apelido de "sopa") nem sempre satisfeita com a promiscuidade que se formava. Era uma incômoda experiênci~ nova e os pobres ficavam irritados com a esnobação dos remediados, e estes com a irreverência, o mau cheiro e o deboche dos desafortunados. E Codá era um deles, conhecido já por algw1s passageiros pelo apelido de "Quebra Poste." E mais ainda, Codá não era nenhuma figura rara em seu meio. Entre estivadores e trapicheiros eram costume as piadas de mau gosto para a mente de um remediado do trabalho maneiro, mas que para eles eram apenas humor e manifestação de apreço. Uma das fixações daqueles homens musculosos era com o vocábulo "corno" que ~razia um sentido jocoso nos repentes em público, sem que, para isto, se des~jasse ofender alguém, talvez por uma razão psicológica não percebida claramente: um chifrudo jamais poderia levar um saco de açúcar na cabeça. Foi por isso que, num dia de casamento na Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, nada aconteceu a um estivador que, postado 11a porta e estando o noivo (filho de trapicheiro) prestes a entrar 21·t para a cerimônia, gritou a plenos pulmões: - Lá vai mais um corno assinar o livro! ------------------------------- --------------------- Um raquítico e malvado que justificou o inferno. José Paulino era um sargento de polícia, graduação para a qual não se fazia exame escrito rigoroso, bastando ter uma certa prática policial de prender, tomar conta de presos, fazer uma investigação ou um registro de ocorrência ditado para um escrivão um tanto mais instruído na língua de Camões. Era um homem pequeno que teria de ficar nas pontas dos pés para olhar por cima de um muro baixo. Magro, moreno claro, rosto comprido, chato e fino, com olhos maiores da conta, um pouco prognata, queixo pontudo para baixo passando pelo gogó de seu pescoço longo como de um jaboti comendo folha de favela. Quem não o conhecesse pelo qualificativo e o avistasse pela primeira vez, certamente pensaria que fosse algum daqueles engraxates subnutridos da Rua do Comércio. Mas era muito raro quem não o conhecesse em Jaraguá e no Centro, porque estava sempre presente com aquele jeito elétrico e nervoso, invariavelmente levando um revólver pendurado na cintura da mesma túnica apertada, e que nunca abotoava direito, feita com nada mais do que um pedaço de cáqui cor de tijolo que emoldurava o seu busto e ventre chatos, ao descer justa como se fosse uma camisa de força, terminando como uma saia aberta por trás e na frente, com o cano da arma surgindo do fim da cartucheira para baixo, a ponto de quase atingir o seu joelho direito. Um certo telegrafista jocoso, que freqüentava o escritório de Dionísio Sobrinho na Sá e Albuquerque todas as tardes, disse que o cinto de couro e o talabarte do sargento ficariam muito bem no macaquinho "salamandra" que brincava por cima das barracas do Mercado São José, e que seu quepe, sempre de lado, era a cópia ampliada de uma chapuleta de jumento apontando para o céu. Disseram que sua prática policial vinha da 1ª Delegacia da Capital, que ficava entre a Farmácia do Ramos e a esquina, onde exercia o papel de tirano no Beco da Lama e aprendera toda 215
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    espécie de cacoetesautoritários, um deles o de prender tanto a namorada quanto o namorado que andassem depois das hove horlll da noite nas ruas do Centro. Conversando com ele, notava-se que considerava o submundo dós prostíbulos um lugar tão maligno que, como dizia: "nenhuma moça passava por lá pela noite", onde perambulavam as "querencas" no vício mais abjeto do mundo. Transferido para a Delegacia de Jaraguá, José Paulino deu para prender casais que surpreendia no Beco da Facada, a tal ponto que surgiu uma advertência entre as raparigas: - Tira, querenca, o teu macho da encrenca. Naquele clima de delírio cívico do Estado Novo, e prestigiado pelo Delegado do Distrito, José Paulino desenvolveu uma técnica de controlar os suspeitos na vida noturna de Jaraguá, através de um passe provisório que assinava ele mesmo, autorizando o portador a sair de casa depois do toque de recolher que o Delegado determinava ou por ordem do Secretário do Interior, quando julgasse ameaçada a ordem pública. Era assim, escrito à mão num cartão de papel grosso: PASSE PROVISÓRIO DE TRÂNSITO ~UTORIZADO O PORTADOR...( FULANO DE TAL)... SAIR DE CASA DEPOIS DO RECOLHIMENTO E TRANSITAR NAS RUAS ATÉ ÀS QUATRO, SOB PENA DE PRISÃO SE NÃO PORTAR O DITO PASSE. PORTE OBRIGATÓRIO. SELO DO ESTADO. ASSINADO: JOSÉ PAlfLINO DA CONCEIÇÃO, SARGENTO COMISSARIO DA 2a DELEGACIA DE JARAGUÁ. - Dizia-se também que na sua época de lªDelegacia, as casas do Farol e os sobrados do Centro ficavam sempre de janelas e portas abertas e que ladrão em Maceió só mesmo os que chegavam de fora sem conheceram a fama do Sargento. 216 Curiosa diferença ele fazia entre um homicida e um hu.lrlo, mesmo que este fosse um tímido desc~idista. Par~ os matadores, àH vezes pistoleiros da maior periculos1dade, cadeia por ordem do Meretíssimo Juiz; para estes larápios, além das grades por ~empo indeterminado cachações, "telefones", "mastigado de alicate", "fubafo de sat~az''," ver o mundo de cabeça pra baixo", "~~o de bagre" e "acocha na tomada", termos que ele inventou e praticas que foi aprimorando com a vida. Certa vez ele trouxe preso um ventanista sergipano que caiu na besteira de acender as luzes da casa em que furtava,.e o d~no do imóvel, cristão piedoso e caritativo, segui~ com os d01s pedmdo ao Sargento o tempo todo que não fosse o c01tado espan~ad,o. Mas: ~o deixar a dupla entrar na lª Delegacia, resolveu tr a Farmacia Globo de onde escutou um pedido de socorro no mesmo tom de um ba~orinho apavorado sendo levado para longe da mãe.. Nas suas rondas diárias, ia abordando os desconhecidos e os que queria desconhecer, com uma pergunta que fazia sempre no mesmo tom de voz: - Cadê o passe de trânsito ? Mas, segundo disseram, protegia os entregadores de pão e jornal que iniciavam ainda escuro a sua faina. Tratando-se de crueldade, ele era um fiel executor das orde~ de seus superiores, como a de fazer um ladrão de lâm~a~as subir num poste para restabelecer a iluminação, e do alto prec1p1tar-se no chão. . . · b É até bom que não se vá mais adiante nest.as ~1stonas s~ re o homem que, de tão cruel, veio ao mundo para J.ust1ficar, ma~s uma vez, que de fato existe o inferno para puntr os que viveram maltratando os outros. E assim, meu caro leitor, fico por aqui nessas histórias. do Velho Jaraguá, pensando na marcha dos tempos, em como as c01sas vão mudando enquanto a humanidade caminha. , No caso do sargento malvado confirma-se que, alem do inferno, é aqui mesmo que o sujeito Pª?ª os ~eus pecados. Terminou espetado pela quicé de uma rapariga da vida no Beco e 217 l
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    do M.. um talJºque estava zangada . , . pa na cara de porque ele deu invalido por seu amante . mang d uns dez an . Ficou a o pelos os até m devido ao meninos do 0;1-: . orrer, seu aspe t . ...zeiro que sua arzn c o tisico e · · · apelido deª" pendurada, col a •magem de macaco pistola". OCaram-lhe 0 BIBLIOGRAFIA: .. Altavila, Jaime de; "História da Civilização das Alagoas", Departamento Estadual de Cultura, Maceió, 1962. - Barros, Theodir Augusto de; "O Processo de Mudança da Capital (Alagoas - Maceió, Uma Abordagem Histórica, 1819- 1859)", Departamento de História da UFAL, Maceió, 1995. - Brandão, Moreno; "História de Alagoas", Til>ografia Penedo, Penedo, 1909. - Cascudo, Luiz da Câmara; "Geografia do Brasil Holandês", Coleção Documentos Brasileiros, José Olympio Editora, Rio de Janeiro,1956. - Costa, Craveiro; "Maceió'', José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1939. ------, Craveiro; "A Emancipação Política de Alagoas" - Arquivo Público de Alagoas, Maceió, 1969. · Espíndola, Tomaz do Bomfun; "Geografia Alagoana ou Descripção Phisica, Política e Histórica da Província de Alagoas", Tipografia do Liberal, Maceió, 1871. - Lima Junior, Felix; "Maceió de Outrora", Arquivo Público de Al11KOas, Maceió, 1976. -··-·--. Felix; "Memórias de Minha Rua", TELASA, Maceió, 1981. - Rego, Pedro da Costa; Na Terra Natal ( 1924-1928 ), Imprensa Oficial, Maceió, 1928. 219 wí e l>A VA rq
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    CATÁLOGOS E ALMANAQUES: -Cardoso, Álvaro (organizado por); "Album llustrado do Estado de Alagoas''. Maceió, 1908. - Costa, Craveiro e Torquato Cabral; "Indicador Geral do Estado do Alagoas'', Typografia Comercial, Maceió, 1902. - Dantas Filho, Francisco; "Almanach Literário Alagoano", Tipografia Oriental, Maceió, sd. - Departamento Estadual de Estatística; "Alagoas, 150 Anos, 1817- 1967", Maceió, sd. - Ivo Jr, Floriano (coordenado por); "Anais de um Centenário", Associação Comercial de Maceió, Maceió, 1967. - Marroquim, Adalberto; "Terra das Alagoas'', Editora Maglione e Strini, Roma, 1922. - The South American Intelligence Co; "Os Estados Unidos do Brasil, sua História, Seu Povo, Comércio, Indústria e Recursos", Londres, Buenos Ayres, Rio de Janeiro, São Páulo, 1919. REVISTAS DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE ALAGOAS: - Alagoas em 1922 - "Estudo Histórico, Econômico, Político, Literário, Artístico e Social'', 1955. - "Centenário da Emancipação de Alagoas'', Instituto Histórico e Arqueológico de Alagoas, 1919. - Costa, Craveiro; "Maceió, Seu Desenvolvimento, I, O Povoado", Instituto Histórico e Arqueológico de Alagoas, 1955. - Oiticica, Jarbas; "Emancipação Política de Alagoas'', v. 41, 1986/87. - Pereira, Moacir Soares; "O Litoral da Prov(ncia de Alagoas em Roteiro Francês do Início do Século XIX", v. 41 , 1986/87. DOCUMENTOS CARTOGRÁFICOS: - Momay, Carlos; Planta da Povoação de Jaraguá, março de 1840, Arq do THGA. - Pinto, José da Silva; Planta da Vila de Maceió, 1820, mandada fazer pelo Gov Mello e Póvoas, Arq IHGA. 220 Pmtugal, José Fernandes; Plano das Lluscud11H de .ln111~111·1 e P11juçnra, 1803, Arq 11lGA. lWLATÓRJOS APRESENTADOS PELOS ~RESIDENTES l>J PROVÍNCIA DE ALAGOAS À ASSEMBLEIA LbGISLA l IY J PROVINCIAL: - Anos de 1857,1862,1864,1872,1875,1880,1881, 1886,1887, Arq IHGA. PERIÓDICOS: - O Natal, de 1939 a 1945. - O Bacurau, anos 1920 - Coleções de jornais do IHGA.
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    l 1 Quanto mais valeremo sol quente e a terra úmida no ocaso irreversível das jazidas de combustível fóssU, os vivos verão sair de Jaraguá navios e dutos de álcool gigantescos, enquanto levas de homens, crianças e mulheres de nossos descendentes partirão ricos e sorridentes para visitaren1 a extensão do planeta., O Autor. ' "VlSTA DO AllCORWOURO DE JARAGUÁ", (Trecho retocado) Muller Et Cluc Litb, Paris, 1869. Arqv. lHGAL, Maceió. •