Gêneros como unidade estético-cultural do enunciado e do textoDentre os vários aspectos das abordagens de Bakhtin,  aquele que propõe uma implicação direta para a teoria do texto são as reflexões que entendem a composição textual como uma combinação de uma diversidade de formas.
    Barthes via o texto como “um tecido de citações saídas dos mil focos da cultura”, cabendo ao escritor “imitar um gesto sempre anterior, jamais original [...] (p.234)
                     Metáfora têxtilA metáfora do texto com o ato de tecer há muito é utilizada pela teoria da literatura para explicar a arte de produção de textos e de sentidos.Mito de AracneTrês ParcasPenélopeAriadneMoça Tecelã (Marina Colassanti)Alice e Ulisses (Ana Maria Machado)
Bakhtin nos permite compreender a questão textual a partir de outro campo de visão. Os gêneros discursivos [...] são a mais autêntica representação do texto-tecido concebido por Barthes.
Se etimologicamente, o termo texto reporta-se à antiga técnica de tecer, o que justifica a propriedade da metáfora têxtil aplicada ao signo textual está longe de ser a hierarquia dos fios; o ponto de analogia é antes a ação de combinar, de enredear, de construir redes de relações cuja somatória resulta no tecido, que é também sentido. (p. 235)
Para Bakhtin texto é todo o sistema de signo cuja coerência e unidade se deve à capacidade de compreensão do homem na sua vida comunicativa e expressiva. O texto não é uma coisa sem voz; é, sobretudo, ato humano, “diz respeito a toda a produção cultural fundada na linguagem”. (p. 235)
TEXTOS TEXTOSTEXTOSmalditas placas feníciascobertas de riscos rabiscoscomo me deixastes os olhos piscosa mente torta de malíciasciscos                                      (Paulo Leminski)
Todo texto é articulado de discurso-língua que se  manifestam nas enunciações concretas cujas formas são determinadas pelos gêneros discursivos. Vale dizer que texto está para a língua assim como o enunciado está para os gêneros discursivos. (p. 237)
Seria muito ingênuo acreditar que os textos se limitam às palavras. Como nos adverte Púchkin:  “Todas as palavras estão no léxico, mas os livros que surgem a cada momento não são repetição do léxico” (p.237).
   Pela ótica de Bakhtin, a textualidade se define pelo enunciado e pelos gêneros discursivos que o constitui. O enunciado é a unidade concreta do texto; uma unidade resultante das combinações dos gêneros discursivos – formas específicas de usos das variedades virtuais de uma língua.
Assim, a noção de textualidade na teoria  bakhtiniana do enunciado não se desvincula da noção de gêneros discursivos:
“O texto como enunciação. O problema das funções dos textos e dos gêneros textuais. Dois aspectos definem o texto como uma enunciação: seu projeto (a intenção) e a realização desse projeto. A interrelação dinâmica desses aspectos, a luta entre eles, é o que determina a natureza dos textos.” (BAKHTIN, apud Machado, p.238).
Durante o processo de sua formação, os gêneros secundário absorvem e assimilam os gêneros primários (simples) que se constituíram na comunicação discursiva imediata. Os gênero primários, ao integrarem os gêneros secundários, transformam-se e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade dos enunciados alheios. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 239).
vozes a maisvozes a menosa máquina em nós que gera provérbiosé a mesma que faz poemas,somas com vida própriaque podem mais que podemos(Paulo Leminski)
             Grande sertão: veredasE vim vindo, para a beira da vereda. Consegui com o frio, esperei a escuridão se afastar. Mas, quando o dia clareou de todo, eu estava diante do buritizal. Um buriti – tetéia enorme. Aí sendo que eu completei outros versos, para ajuntar com os antigos, porque num homem que eu nem conheci – aquele Siruiz – eu estava pensando. Versos ditos que foram estes, conforme na memória ainda guardo, descontente de que sejam sem razoável valor:
Trouxe tanto este dinheiroo quanto, no meu surrão,p’ra comprar o fim do mundono meio do Chapadão.Urucuia – rio bravocantando à minha feição:é o dizer das claras águasque turvam na perdição.Vida é sorte perigosapassada na obrigação:toda noite é rio-abaixo,todo dia é escuridão..
Mas estes versos não cantei para ninguém ouvir, não valesse a pena. Nem eles me deram refrigério. Acho que porque eu mesmo tinha inventado o inteiro deles (ROSA, apud MACHADO, p. 239)
             Grande sertão: veredashttp://www.youtube.com/watch?v=-D3Ec1HDGws&feature=relatedTrecho da  obra na voz de Maria Bethania
A partir do texto de Rosa, Machado mostra que o movimento entre gêneros primários e secundários se fundem, transformam-se e “perdem sua relação imediata com a realidade” (BAKHTIN, apud MACHADO, 239).
A enunciação, o texto e os gêneros discursivos não se constituem na marginalidade dos códigos culturais. Na literatura brasileira são muitos  os textos que procuram fazer da entonação expressiva a representação tátil, em que os gêneros discursivos imprimem uma marca extra-verbal que leva o enunciado a interagir com fenômenos amplos e complexos dos códigos culturais. (p.244)
              Quincas berro d’água.Quincas reanimou-se mesmo foi com um bom trago. Continuava a beber daquela maneira esquisita: cuspindo parte da cachaça, num desperdício. Não fosse dia de seu aniversário e Cabo Martim chamar-lhe-ia a atenção delicadamente. Dirigiram-se ao cais. Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada, comida ali mesmo na rampa, não iria sair barra afora quando apenas marítimos rodeavam o caldeirão de barro. No fundo, ele não chegara em nenhum momento a acreditar na notícia da morte de Quincas e, assim, não podia falecer em terra, num leito qualquer. (capítulo XI, p. 99)
              Quincas berro d’água.
Na narrativa encontram-se duas focalizações: a morte oficial séria e a morte alegre grotesca. Uma legal e enunciada pela família. Outra é falação que corre pela boca do povo, ou seja, é prosa.[...]	É ela que se encarrega de oferecer o romance como matéria verbal falante, cujas vozes ecoam até mesmo numa leitura silenciosa. (p. 246)   Jorge Amado mostra não só como a língua é falada, mas como ela pode ser escrita graças à combinação de gêneros primários e secundários. (p.246)
Aquele que usa a língua não é o primeiro falante que rompeu pela primeira vez o eterno silêncio de um mundo mudo. Ele pode contar não apenas com o sistema da língua que utiliza, mas também a existência de enunciados anteriores [...] cada enunciado é um elo na cadeia complexa e organiza outros enunciados. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 247)
O que podemos dizer do objeto – texto -  a partir do ponto de vista das ideias Bakhtinianas? (p. 232)     Como se comportam os seus conceitos quando ambientados no conjunto da cultura em que texto impresso convive com o texto eletrônico?  (p.232)    É a ideia de gênero como rede discursiva o grande saldo das formulações para as teorias da textualidade contemporâneas (p. 248)

Os gêneros e a ciência dialógica do texto ii

  • 1.
    Gêneros como unidadeestético-cultural do enunciado e do textoDentre os vários aspectos das abordagens de Bakhtin, aquele que propõe uma implicação direta para a teoria do texto são as reflexões que entendem a composição textual como uma combinação de uma diversidade de formas.
  • 2.
    Barthes via o texto como “um tecido de citações saídas dos mil focos da cultura”, cabendo ao escritor “imitar um gesto sempre anterior, jamais original [...] (p.234)
  • 4.
    Metáfora têxtilA metáfora do texto com o ato de tecer há muito é utilizada pela teoria da literatura para explicar a arte de produção de textos e de sentidos.Mito de AracneTrês ParcasPenélopeAriadneMoça Tecelã (Marina Colassanti)Alice e Ulisses (Ana Maria Machado)
  • 5.
    Bakhtin nos permitecompreender a questão textual a partir de outro campo de visão. Os gêneros discursivos [...] são a mais autêntica representação do texto-tecido concebido por Barthes.
  • 6.
    Se etimologicamente, otermo texto reporta-se à antiga técnica de tecer, o que justifica a propriedade da metáfora têxtil aplicada ao signo textual está longe de ser a hierarquia dos fios; o ponto de analogia é antes a ação de combinar, de enredear, de construir redes de relações cuja somatória resulta no tecido, que é também sentido. (p. 235)
  • 7.
    Para Bakhtin textoé todo o sistema de signo cuja coerência e unidade se deve à capacidade de compreensão do homem na sua vida comunicativa e expressiva. O texto não é uma coisa sem voz; é, sobretudo, ato humano, “diz respeito a toda a produção cultural fundada na linguagem”. (p. 235)
  • 8.
    TEXTOS TEXTOSTEXTOSmalditas placasfeníciascobertas de riscos rabiscoscomo me deixastes os olhos piscosa mente torta de malíciasciscos (Paulo Leminski)
  • 9.
    Todo texto éarticulado de discurso-língua que se manifestam nas enunciações concretas cujas formas são determinadas pelos gêneros discursivos. Vale dizer que texto está para a língua assim como o enunciado está para os gêneros discursivos. (p. 237)
  • 10.
    Seria muito ingênuoacreditar que os textos se limitam às palavras. Como nos adverte Púchkin: “Todas as palavras estão no léxico, mas os livros que surgem a cada momento não são repetição do léxico” (p.237).
  • 11.
    Pela ótica de Bakhtin, a textualidade se define pelo enunciado e pelos gêneros discursivos que o constitui. O enunciado é a unidade concreta do texto; uma unidade resultante das combinações dos gêneros discursivos – formas específicas de usos das variedades virtuais de uma língua.
  • 12.
    Assim, a noçãode textualidade na teoria bakhtiniana do enunciado não se desvincula da noção de gêneros discursivos:
  • 13.
    “O texto comoenunciação. O problema das funções dos textos e dos gêneros textuais. Dois aspectos definem o texto como uma enunciação: seu projeto (a intenção) e a realização desse projeto. A interrelação dinâmica desses aspectos, a luta entre eles, é o que determina a natureza dos textos.” (BAKHTIN, apud Machado, p.238).
  • 14.
    Durante o processode sua formação, os gêneros secundário absorvem e assimilam os gêneros primários (simples) que se constituíram na comunicação discursiva imediata. Os gênero primários, ao integrarem os gêneros secundários, transformam-se e adquirem uma característica particular: perdem sua relação imediata com a realidade dos enunciados alheios. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 239).
  • 15.
    vozes a maisvozesa menosa máquina em nós que gera provérbiosé a mesma que faz poemas,somas com vida própriaque podem mais que podemos(Paulo Leminski)
  • 16.
    Grande sertão: veredasE vim vindo, para a beira da vereda. Consegui com o frio, esperei a escuridão se afastar. Mas, quando o dia clareou de todo, eu estava diante do buritizal. Um buriti – tetéia enorme. Aí sendo que eu completei outros versos, para ajuntar com os antigos, porque num homem que eu nem conheci – aquele Siruiz – eu estava pensando. Versos ditos que foram estes, conforme na memória ainda guardo, descontente de que sejam sem razoável valor:
  • 17.
    Trouxe tanto estedinheiroo quanto, no meu surrão,p’ra comprar o fim do mundono meio do Chapadão.Urucuia – rio bravocantando à minha feição:é o dizer das claras águasque turvam na perdição.Vida é sorte perigosapassada na obrigação:toda noite é rio-abaixo,todo dia é escuridão..
  • 18.
    Mas estes versosnão cantei para ninguém ouvir, não valesse a pena. Nem eles me deram refrigério. Acho que porque eu mesmo tinha inventado o inteiro deles (ROSA, apud MACHADO, p. 239)
  • 19.
    Grande sertão: veredashttp://www.youtube.com/watch?v=-D3Ec1HDGws&feature=relatedTrecho da obra na voz de Maria Bethania
  • 20.
    A partir dotexto de Rosa, Machado mostra que o movimento entre gêneros primários e secundários se fundem, transformam-se e “perdem sua relação imediata com a realidade” (BAKHTIN, apud MACHADO, 239).
  • 21.
    A enunciação, otexto e os gêneros discursivos não se constituem na marginalidade dos códigos culturais. Na literatura brasileira são muitos os textos que procuram fazer da entonação expressiva a representação tátil, em que os gêneros discursivos imprimem uma marca extra-verbal que leva o enunciado a interagir com fenômenos amplos e complexos dos códigos culturais. (p.244)
  • 22.
    Quincas berro d’água.Quincas reanimou-se mesmo foi com um bom trago. Continuava a beber daquela maneira esquisita: cuspindo parte da cachaça, num desperdício. Não fosse dia de seu aniversário e Cabo Martim chamar-lhe-ia a atenção delicadamente. Dirigiram-se ao cais. Mestre Manuel já não os esperava àquela hora. Estava no fim da peixada, comida ali mesmo na rampa, não iria sair barra afora quando apenas marítimos rodeavam o caldeirão de barro. No fundo, ele não chegara em nenhum momento a acreditar na notícia da morte de Quincas e, assim, não podia falecer em terra, num leito qualquer. (capítulo XI, p. 99)
  • 23.
    Quincas berro d’água.
  • 24.
    Na narrativa encontram-seduas focalizações: a morte oficial séria e a morte alegre grotesca. Uma legal e enunciada pela família. Outra é falação que corre pela boca do povo, ou seja, é prosa.[...] É ela que se encarrega de oferecer o romance como matéria verbal falante, cujas vozes ecoam até mesmo numa leitura silenciosa. (p. 246) Jorge Amado mostra não só como a língua é falada, mas como ela pode ser escrita graças à combinação de gêneros primários e secundários. (p.246)
  • 25.
    Aquele que usaa língua não é o primeiro falante que rompeu pela primeira vez o eterno silêncio de um mundo mudo. Ele pode contar não apenas com o sistema da língua que utiliza, mas também a existência de enunciados anteriores [...] cada enunciado é um elo na cadeia complexa e organiza outros enunciados. (BAKHTIN, apud MACHADO, p. 247)
  • 26.
    O que podemosdizer do objeto – texto - a partir do ponto de vista das ideias Bakhtinianas? (p. 232) Como se comportam os seus conceitos quando ambientados no conjunto da cultura em que texto impresso convive com o texto eletrônico? (p.232) É a ideia de gênero como rede discursiva o grande saldo das formulações para as teorias da textualidade contemporâneas (p. 248)