MIA COUTO
Mia Couto
Nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. É
biólogo, jornalista e autor de mais de trinta
livros, entre prosa e poesia. Seu romance
Terra sonâmbula é considerado um dos dez
melhores livros africanos do século XX.
Recebeu uma série de prêmios literários e,
em 2013, foi vencedor do Prêmio Camões, o
mais prestigioso da língua portuguesa. É
membro correspondente da Academia
Brasileira de Letras.
Algumas
característ
icas da
sua escrita
A particular e, igualmente, importante escrita
de Mia Couto passa pela criação de
neologismos como Abensonhar= sonhar bem.
Opta pelo uso de gerúndio para fazer prolongar
a acção e a partir de adjectivos constrói verbos
como longear.
Tenta recriar a língua portuguesa tal como é
falada, utilizando o léxico de várias regiões de
Moçambique.
POESIA
Raiz de Orvalho, publicado em
1983 em em Portugal em 1999.
Horário do Fim
morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde
já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo
momento
e não é nunca
esse momento
Promessa de uma
noite
cruzo as mãos
sobre as
montanhas
um rio esvai-se
ao fogo do gesto
que inflamo
a lua eleva-se
na tua fronte
enquanto tateias a
pedra
até ser flor
O Espelho
Esse que em mim
envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou
eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a
imagem,
deixaram-me a sós,
perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da
luz
com que nos vemos.
Idades cidades divindades
(2007)
Contos Nos anos 80, Mia Couto estreou-se nos contos com Vozes Anoitecidas.
Seguiram-se Cada Homem é uma Raça de 1990 ou Estórias Abensonhadas
1994, entre outros.
“O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si
mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se
do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existem no nada
essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as
vozes”. (Vozes anoitecidas).
“Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque
dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha
única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema.
Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças,
mas de existências”. (Senhor doutor, lhe conheço ).
Em 1992 estreou-se com Terra Sonâmbula que lhe valeu o
Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores
Moçambicanos em 1995.
Seguiu-se A Varanda do Frangipani entre outros.
Romances
O livro Terra Sonâmbula foi escrito em 1992 por Mia Couto, um
renomado autor de Moçambique. Esse livro traz para nós, um
português diferente, cheio de toques regionalistas desse pais
lusofono e de raízes africanas. Em toda obra, a linguagem chama
a atenção do leitor, seja pelos termos comuns a Moçambique, seja
pelos neologismos e criações poéticas do autor.
"Desconsigo de dormir"
"Fidamãe desse Kindzu"
TERRA SONÂMBULA
O cenário da obra em questão é a devastação de Moçambique
por sucessivos conflitos armados. De 1965 a 1975, o
confronto foi contra o domínio português e pela
Independência do país. Após a conquista da liberdade de
Portugal, em 1975, iniciam-se disputas internas pelo
poder entre os partidos Renamo e Frelimo. Tais
conflitos ocorreram de 1976 a 1992, fazendo milhares
de vítimas e arrasando o país. Terra Sonâmbula retrata o
último período dessa guerra civil, o livro foi publicado pela
primeira no ano em que foi assinado o Acordo Geral de Paz
entre os dois grupos, que hoje disputam pacificamente as
eleições.
TERRA SONÂMBULA- Referências a:
Caminhos: em todo o livro há referências ao
fato de que o caminho que conduz o viajante,
que não são apenas as pernas e desejo dele,
mas sim uma questão do destino:
" Me surgiam agora alucinadas visões de uma
estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma
estranha picada: não estava imóvel, esperando a
viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo
de paisagem em paisagem. A estrada me
descaminhou. O destino o que é senão um
embriagado conduzido por um cego?"
Violência e Falta de Esperança
nos tempos de Guerra: em todos
o livro é mostrada a perda da
humanidade num conflito
armado, numa guerra civil com
guerrilhas disputando o poder
todos são vítimas e também
algozes. Na foto abaixo, o trecho
revela que o que tem valor
naquele lugar era a Arma, não a
caneta (representando os
estudos), nem a enxada
(simbolizando o trabalho,
investir na terra).
TERRA SONÂMBULA- Referências a:
Paisagem: várias vezes durante o livro, há a
referência da terra mudando da noite para o
dia, a vegetação da paisagem se altera e os
personagens percebem isso, os trechos abaixo
são um exemplo disso:
"Era como se a terra esperasse por aldeias,
habitações para abrigar futuros e felicidades."
Estrangeiro e Xenofobia: em
algumas passagens, mostra-se
evidente o conflito entre classes e
etnias. Um português era o
grande patrão da cidade, um
indiano não era bem vindo como
comerciante na cidade, o
preconceito com Kindzu em
Matimati que não era sua terra
natal:
"Seria preciso esperar séculos para
que cada homem fosse visto sem o
peso de sua raça."
Crônicas
Publicou em livros algumas das suas
crónicas, que continuam a ser coluna
num dos semanários publicados em
Maputo.
Estreou-se com Cronicando de 1988
que lhe valeu o Prémio Nacional de
Jornalismo Areosa Pena, em 1989.
A mais recente intitula-se E se Obama
fosse Africano? E Outras Interinvenções
de 2009.
E se Obama fosse africano? (Trechos)
1. Se Obama fosse africano, um seu
concorrente (um qualquer George
Bush das Áfricas) inventaria mudanças
na Constituição para prolongar o
seu mandato para além do previsto.
2. Se Obama fosse
africano, o mais provável
era que, sendo um
candidato do partido da
oposição, não teria
espaço para fazer
campanha.
3. Se Obama fosse africano, não
seria sequer elegível em grande
parte
dos países porque as elites no poder
inventaram leis restritivas que
fecham as portas da presidência a
filhos de estrangeiros e a
descendentes de imigrantes.
Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos:
é
lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no
nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam
também
vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com
esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora
festejamos

Obras de Mia couto

  • 1.
  • 2.
    Mia Couto Nasceu em1955, na Beira, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários e, em 2013, foi vencedor do Prêmio Camões, o mais prestigioso da língua portuguesa. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.
  • 3.
    Algumas característ icas da sua escrita Aparticular e, igualmente, importante escrita de Mia Couto passa pela criação de neologismos como Abensonhar= sonhar bem. Opta pelo uso de gerúndio para fazer prolongar a acção e a partir de adjectivos constrói verbos como longear. Tenta recriar a língua portuguesa tal como é falada, utilizando o léxico de várias regiões de Moçambique.
  • 4.
    POESIA Raiz de Orvalho,publicado em 1983 em em Portugal em 1999. Horário do Fim morre-se nada quando chega a vez é só um solavanco na estrada por onde já não vamos morre-se tudo quando não é o justo momento e não é nunca esse momento Promessa de uma noite cruzo as mãos sobre as montanhas um rio esvai-se ao fogo do gesto que inflamo a lua eleva-se na tua fronte enquanto tateias a pedra até ser flor O Espelho Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos. Idades cidades divindades (2007)
  • 5.
    Contos Nos anos80, Mia Couto estreou-se nos contos com Vozes Anoitecidas. Seguiram-se Cada Homem é uma Raça de 1990 ou Estórias Abensonhadas 1994, entre outros. “O que mais dói na miséria é a ignorância que ela tem de si mesma. Confrontados com a ausência de tudo, os homens abstêm-se do sonho, desarmando-se do desejo de serem outros. Existem no nada essa ilusão de plenitude que faz parar a vida e anoitecer as vozes”. (Vozes anoitecidas). “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências”. (Senhor doutor, lhe conheço ).
  • 6.
    Em 1992 estreou-secom Terra Sonâmbula que lhe valeu o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995. Seguiu-se A Varanda do Frangipani entre outros. Romances O livro Terra Sonâmbula foi escrito em 1992 por Mia Couto, um renomado autor de Moçambique. Esse livro traz para nós, um português diferente, cheio de toques regionalistas desse pais lusofono e de raízes africanas. Em toda obra, a linguagem chama a atenção do leitor, seja pelos termos comuns a Moçambique, seja pelos neologismos e criações poéticas do autor. "Desconsigo de dormir" "Fidamãe desse Kindzu"
  • 7.
    TERRA SONÂMBULA O cenárioda obra em questão é a devastação de Moçambique por sucessivos conflitos armados. De 1965 a 1975, o confronto foi contra o domínio português e pela Independência do país. Após a conquista da liberdade de Portugal, em 1975, iniciam-se disputas internas pelo poder entre os partidos Renamo e Frelimo. Tais conflitos ocorreram de 1976 a 1992, fazendo milhares de vítimas e arrasando o país. Terra Sonâmbula retrata o último período dessa guerra civil, o livro foi publicado pela primeira no ano em que foi assinado o Acordo Geral de Paz entre os dois grupos, que hoje disputam pacificamente as eleições.
  • 8.
    TERRA SONÂMBULA- Referênciasa: Caminhos: em todo o livro há referências ao fato de que o caminho que conduz o viajante, que não são apenas as pernas e desejo dele, mas sim uma questão do destino: " Me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego?" Violência e Falta de Esperança nos tempos de Guerra: em todos o livro é mostrada a perda da humanidade num conflito armado, numa guerra civil com guerrilhas disputando o poder todos são vítimas e também algozes. Na foto abaixo, o trecho revela que o que tem valor naquele lugar era a Arma, não a caneta (representando os estudos), nem a enxada (simbolizando o trabalho, investir na terra).
  • 9.
    TERRA SONÂMBULA- Referênciasa: Paisagem: várias vezes durante o livro, há a referência da terra mudando da noite para o dia, a vegetação da paisagem se altera e os personagens percebem isso, os trechos abaixo são um exemplo disso: "Era como se a terra esperasse por aldeias, habitações para abrigar futuros e felicidades." Estrangeiro e Xenofobia: em algumas passagens, mostra-se evidente o conflito entre classes e etnias. Um português era o grande patrão da cidade, um indiano não era bem vindo como comerciante na cidade, o preconceito com Kindzu em Matimati que não era sua terra natal: "Seria preciso esperar séculos para que cada homem fosse visto sem o peso de sua raça."
  • 10.
    Crônicas Publicou em livrosalgumas das suas crónicas, que continuam a ser coluna num dos semanários publicados em Maputo. Estreou-se com Cronicando de 1988 que lhe valeu o Prémio Nacional de Jornalismo Areosa Pena, em 1989. A mais recente intitula-se E se Obama fosse Africano? E Outras Interinvenções de 2009.
  • 11.
    E se Obamafosse africano? (Trechos) 1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. 2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. 3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos