LIMA BARRETO
∗ A biografia de Lima Barreto explica o terreno ideológico de sua
obra: a origem humilde, a cor, a vida penosa de jornalista pobre e
de pobre funcionário público, aliadas à viva consciência da própria
situação social, motivaram seu socialismo emotivo nas raízes e nas
análises.
Lima Barreto e a sua biografia
∗ Foi um escritor do seu tempo e de sua terra. Anotou, registrou,
fixou asperamente quase todos os acontecimentos da República.
Entretanto, o destruidor de tabus detestava algumas formas típicas
de modernização que o Rio de Janeiro conheceu nas primeiras
décadas do século XX: o cinema, o futebol, o arranha-céu e, o que
parece mais grave, a própria ascensão profissional da mulher!
Lima Barreto e suas contradições
ideológicas:
∗ Chegava, às vezes, a confrontar o sistema republicano
desfavoravelmente com o regime monárquico no Brasil.
∗ Origens de suas contradições ideológicas:
∗ A origem suburbana;
∗ O instinto de defesa étnica;
∗ Ojeriza pelos homens e pelos processos da República Velha
(oligarquia escravocrata).
Lima Barreto e suas contradições
ideológicas:
∗ Rompendo com as convenções literárias de sua época, buscou
revelar sobretudo a tristeza dos subúrbios e sua gente humilde:
funcionários públicos aposentados, jornalistas pobretões,
tocadores de violão, raparigas sonhadoras, etc. Impregna sua obra
de uma justa preocupação com os fatos históricos e com os
costumes sociais, tornando-se uma espécie de cronista apaixonado
da antiga capital federal.
O cronista do Rio de Janeiro
∗ O caráter de denúncia social dos textos de Lima Barreto tem
originalidade: ele vê o mundo com o olhar dos “derrotados”,
dos injustiçados, dos que são feridos pelo preconceito. O
preconceito de cor, especialmente, é o motivo central de sua
indignação. Conhecedor da estrutura discriminatória da
sociedade brasileira sentiu, muitas vezes, a rejeição aberta ou
sutil. Por essa razão protesta com veemência (Ex.: Clara dos
Anjos + Recordações do escrivão Isaías Caminha).
Denúncia social e caricatura
∗ O detalhado registro dos subúrbios e de suas criaturas ofendidas
tem um contraponto: a caricatura, com a qual fulmina os
poderosos, os burgueses e os intelectuais da época. Usa e abusa
dessa técnica, ridicularizando o grand monde cultural e social do Rio
de Janeiro. A caricatura aparece tanto nas narrativas longas quanto
nas crônicas publicadas em jornais alternativos. Trata-se da parte
mais datada de sua obra, embora algumas de suas farpas sejam
eficientes ainda hoje.
Denúncia social e caricatura
A FICÇÃO
LIMA BARRETO
∗ O drama da pobreza e do preconceito racial constitui o núcleo da
obra. Romance inacabado, apresenta o drama de Clara, jovem
mulata suburbana de origem humilde, que é vítima de um sedutor
profissional, Cassi Jones. Esse grotesco galã dos arrabaldes, apesar
de sua extração social mais elevada, cria galos de rinha e aproveita-
se de donzelas ingênuas. Sua principal arma de sedução é o violão.
Hábil intérprete de modinhas, revira os olhos ao tocá-las e, assim,
desperta amores ardentes.
Clara dos Anjos (1924)
∗ Criada de forma inocente pela família, Clara torna-se presa fácil do
desprezível sedutor e termina por engravidar. Sua mãe descobre a
gravidez e, juntas, as duas vão até a casa de Cassi para exigir o
casamento. Na cena mais forte do relato, a mãe do rapaz as
expulsa. Desoladas, Clara e a mãe retornam para o subúrbio. A
narrativa é interrompida nesse ponto, e o autor não a conclui, por
razões jamais esclarecidas.
Clara dos Anjos (1924)
Espaço
O romance passa-se no subúrbio carioca e Lima Barreto descreve
o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários
tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das
pessoas que ali vivem.
Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos
“bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam
a conquistar novos fiéis para seu culto:
“Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos
proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham
retirado para fora e alugado aos "bíblias"… O povo não os via
com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres
raparigas dos arredores frequentavam-nos, já por encontrar nisso
um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por
procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo
para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem
toda e qualquer existência humana.”
Personagens
Marrameque - Poeta modesto, semiparalisado, Marramaque
frequentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia
ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat.
Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência
das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a
cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de
ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo uma
cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não
conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”.
Clara: a “natureza elementar” - Clara era a segunda filha do
casal, “o único filho sobrevivente… os demais… haviam
morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada
“com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe
ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria,
que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e
costuras.”.
O autor reitera sempre a personalidade frágil da moça – sua “alma
amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso,
mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá-
lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor”
– como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas
modinhas:
Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos
fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes
disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer;
limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus
afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda
entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas
por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da
morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado
de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”
Cassi: o corruptor - Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a
receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que
pertencia a uma posição social melhor. Assim o descreve Lima Barreto:
“Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento,
insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como
consumado "modinhoso", além de o ser também por outras façanhas
verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão,
nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as
modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé
suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que
teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo "Brandão", das
margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem,
adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo
ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito
exatamente ao meio — a famosa "pastinha". Não usava topete, nem
bigode. O calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos
exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas
com o seu irresistível violão.”
Joaquim dos Anjos - carteiro acredita-se músico escreveu a polca,
valsas, tangos e acompanhamentos de modinha. polca: siri sem
unhas; valsa: mágoas do coração.
Dona Engrácia - era católica, romana, filhos trazidos na mesma
religião, era caseira, insegura, e rude.
Eduardo Lafões - religiosamente ia aos domingos à casa de Joaquim
para jogar o solo. Eduardo Lafões gostava dos assuntos do comércio.
Era um homem simplório, que só tinha agudeza de sentidos para o
dinheiro. Manuel Borges de Azevedo e Salustiana Baeta de Azevedo
- pais de Cassi. O pai não gostava dos procedimentos do filho,
enquanto a mãe cobria-lhe as desfeitas com as proteções.
Dona Margarida Weber Pestana - viúva, mãe de Ezequiel,
descendente de Alemão; ela, russa. Casou no Brasil com tipógrafo
que falecera dois anos após o casamento.
D. Laurentina Jácone - gostava de rezar, ficar zelando a igreja.
D. Vicêntina - cartomante.
Praxedes Maria dos Santos - "gostava de ser tratado por doutor
Praxedes.
Etelvina - crioula, colega de Clara, notou a impaciência de Clara
porque o rapaz Cassi ainda não chegara à festa.
Leonardo Flores - grande poeta.
Barcelos - um português fichado na detenção.
Arnaldo - era um colega do grupo dos valdevinos (desocupados que
andava com Cassi).
Menezes - o dentista da família. Intermediário dos bilhetes e cartas de
Cassi para Clara.
Helena - tia de Marramaque, econômica, prendada, costurava para o
arsenal do governo.
D. Castolina - mulher de Meneses.
Imagens do Ângelo Agostini, um grande cronista do seu tempo, das
personas Joaquim dos Anjos (pai de Clara) e Cassi Jones
Ao encontrar com a sua suposta “sogra”, Clara é humilhada e
profundamente ofendida – tudo isso por ser mulata e pobre.
Para a mãe do rapaz, era um absurdo uma mulata pobre ter
coragem de ir cobrar um casamento com seu filho branco.
Somente após se deparar com cena e sentir-se menosprezada,
Clara tomou noção da sua posição na sociedade e da sua
diferença em relação as outras jovens. O autor representa, na
figura de Clara e no seu drama, a condição social desprezível da
mulher, pobre e negra, geração após geração.
No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a
sua situação: “O que era preciso, tanto a ela como às suas
iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como
possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi
e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por
este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e
moralmente. Nada a fazia inferior às outras, se não o conceito
geral e a covardia com que elas o admitiam...”
Em Clara e Engrácia está recriada um pouco da condição da
mulher na ordem social pós escravatura, principalmente a
condição da mulher negra e mestiça.
A culpa da sedução de Clara dos Anjos pelo malandro Cassi
Jones, tema central do romance, é atribuída, em parte, pelo
narrador à educação que a família dá à moça e em parte à
ordem social que ratifica a relação entre o homem branco e
as mulheres negras e mestiças. Em oposição à Engrácia e à
sua filha, está uma personagem viúva chamada Margarida
Weber Pestana. Margarida era uma senhora teuto-eslava,
cuja altivez é exaltada pelo narrador. Nesse contraste está um
dado lógico e importante em relação à questão do negro na
sociedade pós-escravatura de sonhos bellepoquianos: a
absorção dos discursos preconceituosos e massacrantes acaba
se diferenciando dependo da condição daquele que os ouve.
Margarida era mulher, viúva e suburbana, porém altiva e de forte
alicerce moral. Sua experiência de vida permitia a ela não
absorver discursos que a inferiorizassem socialmente. No decorrer
do romance, o narrador expõe vários traços do perfil de Joaquim e
de sua família que remetem a uma leitura dos discursos da
organização social nos primórdios da pós-escravatura brasileira.
Descreve Joaquim como alguém que se acomoda, que não se
informa e que absorve os mandamentos branco-burgueses e as
duas personagens femininas – Engrácia e a jovem Clara dos
Anjos – como pessoas sem condição de se defenderem na
sociedade arrivista e excludente. Além da crítica ao contexto
social, o narrador de Lima Barreto critica a educação que é dada à
moça Clara: uma educação branco-burguesa para uma moça
mestiça.
Infere-se na obra “Clara dos Anjos” a adoção, por parte de seu
narrador, de um escrito pautado em um discurso de enfrentamento
das hipocrisias e das disparidades sociais existentes no Brasil,
assim como combate aos preconceitos raciais que vigiam. Lima
Barreto passa a dar voz à população silenciada que habitava os
subúrbios cariocas, em um momento que a elite do Rio de Janeiro,
que se encontrava vexada, “tentava esconder, qual sujeira, essa
população embaixo do tapete, isto é, empurrava-a para os lugares
mais recônditos da cidade, com a justificativa da necessidade de
modernizar a cidade” Ao lado disso, a ambientação no subúrbio da
cidade do Rio de Janeiro traz à tona uma realidade, qual seja: tais
áreas eram os lugares que aninhavam uma classe social carente que,
diariamente, era devorada pelas demais.
Trata-se de um refúgio aos desprovidos de ambição, vencidos pela
caminhada, suplantados pelas dificuldades, frutos de uma sociedade
sufocante para os despidos de dinheiro, posse e influência. O subúrbio
segundo o próprio Lima Barreto é “o refúgio dos infelizes. Os que
perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim,
todos os que perderam [ou nunca tiveram poder econômico] vão se
aninhar lá”. Na obra em exame, Lima Barreto retrata a história da
jovem mulata, Clara dos Anjos, proveniente de uma família simples
do subúrbio carioca, filha de um carteiro e de uma dona de casa,
Joaquim dos Anjos e Engrácia dos Anjos, sem grandes ambições na
vida, a não ser contrair um matrimônio. Ao contrário do que a
Literatura até então descrevia e narrava, consagrando em suas páginas
mulatas sinuosas e sedutoras, com corpos que convidavam os homens
ao prazer, Lima Barreto, ao estruturar a denúncia, coloca à mostra a
realidade de uma sociedade preconceituosa, ranços do período
imperial em que havia uma nítida distinção entre as camadas mais
abastadas e as mais carentes, assim como a situação de inferioridade
do negro e do mulato em relação ao branco.
A peculiaridade a ser observada está nos contrastes entre o título da
obra e a personagem homônima, posto que Clara, na realidade, não é
clara, mas sim uma mulata; ao lado disso, o nome dos Anjos que
transparece a concepção de pureza, de inocência também será
colocado em contradição, quando é seduzida por Cassi Jones. “A
contradição do nome também serve para reafirmar a crítica à
fatalidade sócio racial na obra. Dessa forma o nome Claro dos Anjos
e as referências evocadas assumem o papel de polo contraditório da
denúncia”. Trata-se de uma ironia estruturada, com o escopo de
despertar a reflexão no leitor.
A personagem central da obra se apresenta como uma jovem
pálida, inexpressiva e que reunia os estigmas próprios do início do
século XX, notadamente o de ser uma pobre mulata. A falta de
expressão de Clara dos Anjos retrata, cabalmente, a ausência de voz
dos excluídos, marginalizados e da população da classe menos
abastada, que se aninhava nos subúrbios, sufocados e achatados pela
exploração da elite.
Neste diapasão, cuida trazer à tona a descrição ofertada pelo
autor acerca de sua personagem, havendo que se destacar a
forma expressiva com que estrutura críticas à formação de
Clara dos Anjos: Em um exame acurado, infere-se que Lima
Barreto, ao traçar os aspectos característicos de sua
personagem, aborda a educação e a proteção exacerbada da
família que atalha a inteligência, cerra a visão para a vida e os
perigos existentes. Além disso, o emprego dos adjetivos
“amorfa” e “pastosa” são comumente utilizados para descrever
mulheres no início do século XX, transparecendo a necessidade
de um homem, com mãos fortes, para moldá-las, adequá-las à
vida. Sem dúvidas, Clara dos Anjos reúne em sua estrutura o
arquétipo da mulher, sob o ângulo de uma sociedade machista,
agravado, de maneira rotunda, por ser mulata e pobre
desprovida de grande inteligência.
“Clara não possui uma ideia transparente sobre a sua situação
dentro da sociedade, em parte pela educação que recebera de seus
pais”[9]. O despertar de Clara dos Anjos para as auguras da vida e
o preconceito racial e social se dão após funesto episódio de sua
defloração, quando confrontada com a realidade da vida, o que se
dá no deslinde da obra, em um diálogo carregado de emoção e
preconceito, com D. Salustiana, genitora de Cassi Jones. Nas
páginas finais do romance, Lima Barreto, como um grito seco,
contrapõem realidades distintas, trazendo o leitor para a
ambientação: Clara dos Anjos, a mulata pobre, e D.Salustiana, a
mulher branca de família supostamente tradicional; a moradora do
subúrbio pobre carioca, de ruas de terra batida e a moradora de
uma rua calçada, localizada em ponto tido como elegante num
mesmo subúrbio; a mulher apática, deflorada e sem quaisquer
expectativas e a mulher imponente, enérgica, símbolo dos ranços
imperiais.

Lima barreto

  • 1.
  • 2.
    ∗ A biografiade Lima Barreto explica o terreno ideológico de sua obra: a origem humilde, a cor, a vida penosa de jornalista pobre e de pobre funcionário público, aliadas à viva consciência da própria situação social, motivaram seu socialismo emotivo nas raízes e nas análises. Lima Barreto e a sua biografia
  • 3.
    ∗ Foi umescritor do seu tempo e de sua terra. Anotou, registrou, fixou asperamente quase todos os acontecimentos da República. Entretanto, o destruidor de tabus detestava algumas formas típicas de modernização que o Rio de Janeiro conheceu nas primeiras décadas do século XX: o cinema, o futebol, o arranha-céu e, o que parece mais grave, a própria ascensão profissional da mulher! Lima Barreto e suas contradições ideológicas:
  • 4.
    ∗ Chegava, àsvezes, a confrontar o sistema republicano desfavoravelmente com o regime monárquico no Brasil. ∗ Origens de suas contradições ideológicas: ∗ A origem suburbana; ∗ O instinto de defesa étnica; ∗ Ojeriza pelos homens e pelos processos da República Velha (oligarquia escravocrata). Lima Barreto e suas contradições ideológicas:
  • 5.
    ∗ Rompendo comas convenções literárias de sua época, buscou revelar sobretudo a tristeza dos subúrbios e sua gente humilde: funcionários públicos aposentados, jornalistas pobretões, tocadores de violão, raparigas sonhadoras, etc. Impregna sua obra de uma justa preocupação com os fatos históricos e com os costumes sociais, tornando-se uma espécie de cronista apaixonado da antiga capital federal. O cronista do Rio de Janeiro
  • 6.
    ∗ O caráterde denúncia social dos textos de Lima Barreto tem originalidade: ele vê o mundo com o olhar dos “derrotados”, dos injustiçados, dos que são feridos pelo preconceito. O preconceito de cor, especialmente, é o motivo central de sua indignação. Conhecedor da estrutura discriminatória da sociedade brasileira sentiu, muitas vezes, a rejeição aberta ou sutil. Por essa razão protesta com veemência (Ex.: Clara dos Anjos + Recordações do escrivão Isaías Caminha). Denúncia social e caricatura
  • 7.
    ∗ O detalhadoregistro dos subúrbios e de suas criaturas ofendidas tem um contraponto: a caricatura, com a qual fulmina os poderosos, os burgueses e os intelectuais da época. Usa e abusa dessa técnica, ridicularizando o grand monde cultural e social do Rio de Janeiro. A caricatura aparece tanto nas narrativas longas quanto nas crônicas publicadas em jornais alternativos. Trata-se da parte mais datada de sua obra, embora algumas de suas farpas sejam eficientes ainda hoje. Denúncia social e caricatura
  • 8.
  • 9.
    ∗ O dramada pobreza e do preconceito racial constitui o núcleo da obra. Romance inacabado, apresenta o drama de Clara, jovem mulata suburbana de origem humilde, que é vítima de um sedutor profissional, Cassi Jones. Esse grotesco galã dos arrabaldes, apesar de sua extração social mais elevada, cria galos de rinha e aproveita- se de donzelas ingênuas. Sua principal arma de sedução é o violão. Hábil intérprete de modinhas, revira os olhos ao tocá-las e, assim, desperta amores ardentes. Clara dos Anjos (1924)
  • 10.
    ∗ Criada deforma inocente pela família, Clara torna-se presa fácil do desprezível sedutor e termina por engravidar. Sua mãe descobre a gravidez e, juntas, as duas vão até a casa de Cassi para exigir o casamento. Na cena mais forte do relato, a mãe do rapaz as expulsa. Desoladas, Clara e a mãe retornam para o subúrbio. A narrativa é interrompida nesse ponto, e o autor não a conclui, por razões jamais esclarecidas. Clara dos Anjos (1924)
  • 11.
    Espaço O romance passa-seno subúrbio carioca e Lima Barreto descreve o ambiente suburbano com riqueza de detalhes, como os vários tipos de “casas, casinhas, casebres, barracões, choças” e a vida das pessoas que ali vivem. Ao descrever o subúrbio, Lima Barreto aborda o advento dos “bíblias”, os protestantes que alugam uma antiga chácara e passam a conquistar novos fiéis para seu culto: “Joaquim dos Anjos ainda conhecera a "chácara" habitada pelos proprietários respectivos; mas, ultimamente, eles se tinham retirado para fora e alugado aos "bíblias"… O povo não os via com hostilidade, mesmo alguns humildes homens e pobres raparigas dos arredores frequentavam-nos, já por encontrar nisso um sinal de superioridade intelectual sobre os seus iguais, já por procurarem, em outra casa religiosa que não a tradicional, lenitivo para suas pobres almas alanceadas, além das dores que seguem toda e qualquer existência humana.”
  • 12.
    Personagens Marrameque - Poetamodesto, semiparalisado, Marramaque frequentara uma pequena roda de boêmios e literatos e dizia ter conhecido Paula Nei e ser amigo pessoal de Luís Murat. Lima Barreto denuncia, na figura de Marramaque, a influência das rodas literárias, grupos fechados que abundam no Brasil; a cultura da oralidade, dos que aprendem “muita coisa de ouvido e, de ouvido, falava de muitas delas”, tendo uma cultura superficial, de verniz; e o azedume dos que não conseguem brilhar nas “rodas de gente fina”. Clara: a “natureza elementar” - Clara era a segunda filha do casal, “o único filho sobrevivente… os demais… haviam morrido.” Tinha dezessete anos, era ingênua e fora criada “com muito desvelo, recato e carinho; e, a não ser com a mãe ou pai, só saía com Dona Margarida, uma viúva muito séria, que morava nas vizinhanças e ensinava a Clara bordados e costuras.”.
  • 13.
    O autor reiterasempre a personalidade frágil da moça – sua “alma amolecida, capaz de render-se às lábias de um qualquer perverso, mais ou menos ousado, farsante e ignorante, que tivesse a animá- lo o conceito que os bordelengos fazem das raparigas de sua cor” – como resultado de sua educação reclusa e “temperada” pelas modinhas: Clara era uma natureza amorfa, pastosa, que precisava mãos fortes que a modelassem e fixassem. Seus pais não seriam capazes disso. A mãe não tinha caráter, no bom sentido, para o fazer; limitava-se a vigiá-la caninamente; e o pai, devido aos seus afazeres, passava a maioria do tempo longe dela. E ela vivia toda entregue a um sonho lânguido de modinhas e descantes, entoadas por sestrosos cantores, como o tal Cassi e outros exploradores da morbidez do violão. O mundo se lhe representava como povoado de suas dúvidas, de queixumes de viola, a suspirar amor.”
  • 14.
    Cassi: o corruptor- Por intermédio de Lafões, o carteiro Joaquim passa a receber em casa o pretendente de Clara, Cassi Jones de Azevedo, que pertencia a uma posição social melhor. Assim o descreve Lima Barreto: “Era Cassi um rapaz de pouco menos de trinta anos, branco, sardento, insignificante, de rosto e de corpo; e, conquanto fosse conhecido como consumado "modinhoso", além de o ser também por outras façanhas verdadeiramente ignóbeis, não tinha as melenas do virtuose do violão, nem outro qualquer traço de capadócio. Vestia-se seriamente, segundo as modas da rua do Ouvidor; mas, pelo apuro forçado e o degagé suburbanos, as suas roupas chamavam a atenção dos outros, que teimavam em descobrir aquele aperfeiçoadíssimo "Brandão", das margens da Central, que lhe talhava as roupas. A única pelintragem, adequada ao seu mister, que apresentava, consistia em trazer o cabelo ensopado de óleo e repartido no alto da cabeça, dividido muito exatamente ao meio — a famosa "pastinha". Não usava topete, nem bigode. O calçado era conforme a moda, mas com os aperfeiçoamentos exigidos por um elegante dos subúrbios, que encanta e seduz as damas com o seu irresistível violão.”
  • 15.
    Joaquim dos Anjos- carteiro acredita-se músico escreveu a polca, valsas, tangos e acompanhamentos de modinha. polca: siri sem unhas; valsa: mágoas do coração. Dona Engrácia - era católica, romana, filhos trazidos na mesma religião, era caseira, insegura, e rude. Eduardo Lafões - religiosamente ia aos domingos à casa de Joaquim para jogar o solo. Eduardo Lafões gostava dos assuntos do comércio. Era um homem simplório, que só tinha agudeza de sentidos para o dinheiro. Manuel Borges de Azevedo e Salustiana Baeta de Azevedo - pais de Cassi. O pai não gostava dos procedimentos do filho, enquanto a mãe cobria-lhe as desfeitas com as proteções. Dona Margarida Weber Pestana - viúva, mãe de Ezequiel, descendente de Alemão; ela, russa. Casou no Brasil com tipógrafo que falecera dois anos após o casamento.
  • 16.
    D. Laurentina Jácone- gostava de rezar, ficar zelando a igreja. D. Vicêntina - cartomante. Praxedes Maria dos Santos - "gostava de ser tratado por doutor Praxedes. Etelvina - crioula, colega de Clara, notou a impaciência de Clara porque o rapaz Cassi ainda não chegara à festa. Leonardo Flores - grande poeta. Barcelos - um português fichado na detenção. Arnaldo - era um colega do grupo dos valdevinos (desocupados que andava com Cassi). Menezes - o dentista da família. Intermediário dos bilhetes e cartas de Cassi para Clara. Helena - tia de Marramaque, econômica, prendada, costurava para o arsenal do governo. D. Castolina - mulher de Meneses.
  • 17.
    Imagens do ÂngeloAgostini, um grande cronista do seu tempo, das personas Joaquim dos Anjos (pai de Clara) e Cassi Jones
  • 19.
    Ao encontrar coma sua suposta “sogra”, Clara é humilhada e profundamente ofendida – tudo isso por ser mulata e pobre. Para a mãe do rapaz, era um absurdo uma mulata pobre ter coragem de ir cobrar um casamento com seu filho branco. Somente após se deparar com cena e sentir-se menosprezada, Clara tomou noção da sua posição na sociedade e da sua diferença em relação as outras jovens. O autor representa, na figura de Clara e no seu drama, a condição social desprezível da mulher, pobre e negra, geração após geração. No final do romance, consciente e lúcida, Clara reflete sobre a sua situação: “O que era preciso, tanto a ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para se defender de Cassi e semelhantes, e bater-se contra todos os que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras, se não o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam...”
  • 20.
    Em Clara eEngrácia está recriada um pouco da condição da mulher na ordem social pós escravatura, principalmente a condição da mulher negra e mestiça. A culpa da sedução de Clara dos Anjos pelo malandro Cassi Jones, tema central do romance, é atribuída, em parte, pelo narrador à educação que a família dá à moça e em parte à ordem social que ratifica a relação entre o homem branco e as mulheres negras e mestiças. Em oposição à Engrácia e à sua filha, está uma personagem viúva chamada Margarida Weber Pestana. Margarida era uma senhora teuto-eslava, cuja altivez é exaltada pelo narrador. Nesse contraste está um dado lógico e importante em relação à questão do negro na sociedade pós-escravatura de sonhos bellepoquianos: a absorção dos discursos preconceituosos e massacrantes acaba se diferenciando dependo da condição daquele que os ouve.
  • 21.
    Margarida era mulher,viúva e suburbana, porém altiva e de forte alicerce moral. Sua experiência de vida permitia a ela não absorver discursos que a inferiorizassem socialmente. No decorrer do romance, o narrador expõe vários traços do perfil de Joaquim e de sua família que remetem a uma leitura dos discursos da organização social nos primórdios da pós-escravatura brasileira. Descreve Joaquim como alguém que se acomoda, que não se informa e que absorve os mandamentos branco-burgueses e as duas personagens femininas – Engrácia e a jovem Clara dos Anjos – como pessoas sem condição de se defenderem na sociedade arrivista e excludente. Além da crítica ao contexto social, o narrador de Lima Barreto critica a educação que é dada à moça Clara: uma educação branco-burguesa para uma moça mestiça.
  • 22.
    Infere-se na obra“Clara dos Anjos” a adoção, por parte de seu narrador, de um escrito pautado em um discurso de enfrentamento das hipocrisias e das disparidades sociais existentes no Brasil, assim como combate aos preconceitos raciais que vigiam. Lima Barreto passa a dar voz à população silenciada que habitava os subúrbios cariocas, em um momento que a elite do Rio de Janeiro, que se encontrava vexada, “tentava esconder, qual sujeira, essa população embaixo do tapete, isto é, empurrava-a para os lugares mais recônditos da cidade, com a justificativa da necessidade de modernizar a cidade” Ao lado disso, a ambientação no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro traz à tona uma realidade, qual seja: tais áreas eram os lugares que aninhavam uma classe social carente que, diariamente, era devorada pelas demais.
  • 23.
    Trata-se de umrefúgio aos desprovidos de ambição, vencidos pela caminhada, suplantados pelas dificuldades, frutos de uma sociedade sufocante para os despidos de dinheiro, posse e influência. O subúrbio segundo o próprio Lima Barreto é “o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam [ou nunca tiveram poder econômico] vão se aninhar lá”. Na obra em exame, Lima Barreto retrata a história da jovem mulata, Clara dos Anjos, proveniente de uma família simples do subúrbio carioca, filha de um carteiro e de uma dona de casa, Joaquim dos Anjos e Engrácia dos Anjos, sem grandes ambições na vida, a não ser contrair um matrimônio. Ao contrário do que a Literatura até então descrevia e narrava, consagrando em suas páginas mulatas sinuosas e sedutoras, com corpos que convidavam os homens ao prazer, Lima Barreto, ao estruturar a denúncia, coloca à mostra a realidade de uma sociedade preconceituosa, ranços do período imperial em que havia uma nítida distinção entre as camadas mais abastadas e as mais carentes, assim como a situação de inferioridade do negro e do mulato em relação ao branco.
  • 24.
    A peculiaridade aser observada está nos contrastes entre o título da obra e a personagem homônima, posto que Clara, na realidade, não é clara, mas sim uma mulata; ao lado disso, o nome dos Anjos que transparece a concepção de pureza, de inocência também será colocado em contradição, quando é seduzida por Cassi Jones. “A contradição do nome também serve para reafirmar a crítica à fatalidade sócio racial na obra. Dessa forma o nome Claro dos Anjos e as referências evocadas assumem o papel de polo contraditório da denúncia”. Trata-se de uma ironia estruturada, com o escopo de despertar a reflexão no leitor. A personagem central da obra se apresenta como uma jovem pálida, inexpressiva e que reunia os estigmas próprios do início do século XX, notadamente o de ser uma pobre mulata. A falta de expressão de Clara dos Anjos retrata, cabalmente, a ausência de voz dos excluídos, marginalizados e da população da classe menos abastada, que se aninhava nos subúrbios, sufocados e achatados pela exploração da elite.
  • 25.
    Neste diapasão, cuidatrazer à tona a descrição ofertada pelo autor acerca de sua personagem, havendo que se destacar a forma expressiva com que estrutura críticas à formação de Clara dos Anjos: Em um exame acurado, infere-se que Lima Barreto, ao traçar os aspectos característicos de sua personagem, aborda a educação e a proteção exacerbada da família que atalha a inteligência, cerra a visão para a vida e os perigos existentes. Além disso, o emprego dos adjetivos “amorfa” e “pastosa” são comumente utilizados para descrever mulheres no início do século XX, transparecendo a necessidade de um homem, com mãos fortes, para moldá-las, adequá-las à vida. Sem dúvidas, Clara dos Anjos reúne em sua estrutura o arquétipo da mulher, sob o ângulo de uma sociedade machista, agravado, de maneira rotunda, por ser mulata e pobre desprovida de grande inteligência.
  • 26.
    “Clara não possuiuma ideia transparente sobre a sua situação dentro da sociedade, em parte pela educação que recebera de seus pais”[9]. O despertar de Clara dos Anjos para as auguras da vida e o preconceito racial e social se dão após funesto episódio de sua defloração, quando confrontada com a realidade da vida, o que se dá no deslinde da obra, em um diálogo carregado de emoção e preconceito, com D. Salustiana, genitora de Cassi Jones. Nas páginas finais do romance, Lima Barreto, como um grito seco, contrapõem realidades distintas, trazendo o leitor para a ambientação: Clara dos Anjos, a mulata pobre, e D.Salustiana, a mulher branca de família supostamente tradicional; a moradora do subúrbio pobre carioca, de ruas de terra batida e a moradora de uma rua calçada, localizada em ponto tido como elegante num mesmo subúrbio; a mulher apática, deflorada e sem quaisquer expectativas e a mulher imponente, enérgica, símbolo dos ranços imperiais.