Profe Dr. Colângelo
                                                               Fundamentos Naturais da Geografia
                                                               Texto              /    n_     Cópias



     ERNEST NAGEL



      Ciência:
Natureza e Objetivo
                                                            G,    T ERALMENTE, o Homem não dá atenção às técni-
                                                 cas de que se vale para solucionar problemas, a não ser que os
                                                 métodos habituais venham t revelar-se insatisfatórios face a
                                                 questões novas. Na história da Ciência, pelo menos, preocupa-
                                                 ção maior com problemas de ordem metodológica emerge, fre-
                                                 quentemente, do fato de formas costumeiras de análise mos-
                                                 trarem-se inadequadas ou de apresentarem imperfeições os mo-
                                                 dos tradicionais de apreciar a evidência e de interpretar as con-
                                                 clusões da investigação. Nos dias atuais, tão fortemente mar-
                                                 cados pelas comoções sociais, não surpreende, portanto, que os
   ERNEST NAGEL, que está presentemente          cientistas e filósofos profissionais estejam obrigados a dar grande
 na Columbia Universittf {onde é ':john Dewcy
 Professor of Fhihsophu"), nasceu cm Novc-       atenção à lógica da Gência e ao significado amplo das conquistas
 mestc, Checoslováquia, em 1901. Foi para        científicas. A literatura contemporânea acerca da filosofia da
os Estados Unidos cm 1911, estudando no          Ciência é, basicamente, uma resposta crítica a algumas das difi-
Collc^c of the Cittf of New VorJt e na Co-
lumb;a Vniversitu. O Dr. Nagel pertence ao       culdades intelectuais criadas pelos recentes desenvolvimentos cien-
corpo docente desta universidade, desde 1931.    tíficos.
Presidiu a Association for Symbolic Logíc c a          Há, em verdade, três aspectos da Ciência atual que nos con-
Amer-can Philosophícai Association. É mem-
bro da Association for íhc Advanccment of        vidam a séria reflexão e nos auxiliam a definir-lhe a natureza
Science c vice-presidente do Institute for the   e os objetivos; tenciono abordar superficialmente cada um desses
Unity of Science. Desde 1940 é editor do         aspectos, embora reconhecendo que as limitações de espaço tor-
Journal of Philosophv. Recebeu, cm duas          nam impossível tratar adequadamente indá que de um só.
ocasices, as "Gu&Renneim fellowships". Au-
tor c co-autor de numerosos trabalhos de Fi-           1. Talvez o traço mais saliente da Ciência — c, por cer-
losofia.                                         to, o que mais comumente se realça — seja o de que permite
l


          controle prático da Natureza. Tornar-se-ia enfadonho realçar                     2. A Ciência assume outro aspecto quando concebida como
          as grandes contribuições da investigação científica em prol do             algo que se propõe atingir conhecimento sistemático e seguro»
          bem-estar humano ou mesmo aludir aos ramos principais da                   de sorte que seus resultados possam ser tomados como conclu-
          Tecnologia, como por exemplo a Medicina, que tiraram proveito              sões certas a propósito de condições mais ou menos amplas e
          dos avanços da pesquisa fundamental, teórica e experimental.               uniformes sob as quais ocorrem os vários tipos de acontecimen-
          Baste assinalar que a Ciência aplicada transformou a face da Ter-          tos. Em verdade, segundo fórmula antiga e ainda aceitável, o
          ra e traçou os contornos da civilização ocidental contemporânea.     01    objetivo da Ciência é "preservar os fenómenos" — isto é, apre-
               Sendo esses frutos tecnológicos da investigação científica            sentar acontecimentos e processos como especificações de leis e
~i                                                                                   teorias gerais que enunciam padrões invariáveis de relações entre
          os que os homens sem treino científico ou interesses teóricos po-
         dem roais facilmente apreciar, o domínio sobre a Natureza, que              coisas. Perseguindo esse objetivo, a Ciência busca tornar inte-
          muitas vezes decorre da pesquisa fundamental, é a justificação             ligível o mundo; e sempre que o alcança, em alguma área de in-
          última da Ciência para a maioria das pessoas. Como a realiza-              vestigação, satisfaz o anseio de saber e compreender que é, tal-
         cio de investigações científicas demanda, hoje em dia, grandes              vez, o Impulso mais poderoso a levar o boroem a empenhar-se
         investimentos, que dependem, largamente, de fundos públicos,                em estudos metódicos. Sabe-se que é por ter colimado, de ma-
         muitos pesquisadores, quimdo descrevem a natureza da Ciência               .neíra usualmente bem sucedida, seus fins, que a atividade inicia-
         a auditórios de leigos, aos quais caberá, afinal, custear a maior           da na antiguidade grega e atualmente chamada "Ciência" tem-sc
         parte dos gastos necessários, tendem a acentuar, quase que ex-              mostrado fator importante no desenvolvimento da civilização
         clusivamente, os benefício:; práticos a esperar de estudos básicos.         liberal: serviu para eliminar crenças e práticas supersticiosas, para
               Embora, eu, nem par um momento, subestime a importân-                 afastar temores brotados da ignorância e para fornecer base in-
         cia da Ciência como fonte de recursos tecnológicos que, aperfei-            telectual de avaliação de costumes herdados e de normas tradi-
         çoados e disseminados, contribuem para a melhoria da vida hu-               cionais de conduta.
         mana, creio, não obstante, que a concepção da Qência como algo                    Seria, naturalmente, afrontar a evidência, negar que muito
         que produz, incessantemente, novos meios de dominar a Natu-                 antes do início da pesquisa sistemática os homens dispunham de
         reza, tem sido sublinhada com demasiada ênfase, levando a es-               conhecimentos razoavelmente aceitáveis acerca de muitas das ca-
         quecer outros de seus asfxxtos. De modo algum se dá que a                   racterísticas do ambiente físico, biológico e social. Em verdade,
         conquista de bens e vantagens de caráter prático seja o único               ainda hoje, boa parte das informações de que necessitamos para
         ou o principal motivo que incentiva o homem a entregar-se à                 orientação normal de nossas vidas não é produto de investigação
         Investigação científica; e quando esse motivo se torna o prin-              científica sistemática, mas é o que normalmente se chama conhe-
         cipal, surge um quadro fortemente distorcido tanto dos objetivos            cimento nascido do "bom senso".
         complexos da Qência como de sua própria história.                                 Não obstante, esse tipo de conhecimento está sujeito a
               Além disso, aquela ênfase pode levar a sociedade a encarar            numerosas limitações saías, algumas das quais devem ser apon-
         de maneira perigosamente errónea o cientista, vendo-o como ho-              tadas. Assim, as crenças baseadas no bom senso são, em geral,
         mem miraculoso, capaz de resposta infalível para todas as ma-               imprecisas, e, frequentes vezes, aproximam coisas e processos
         zelas humanas. Não se deve esquecer também a generalizada                   que diferem de maneira essencial; não raro, são incoerentes de
         tendência de considerar a Ciência como responsável pela maneira             modo que a preferência por uma de duas crenças incompatíveis,
         bárbara por que, is vezes, são utilizadas as suas conquistas —              como base para a ação, é arbitrária; tendem a ser fragmentárias,
         imputação indubitavelmente injusta, que pode levar a despreza-              em consequência do que as relações lógicas e substantivas entre
         -Ia, mas que se torna plausível quando ela é identificada as suas           enunciados independentes são, de hábito, ignoradas; são geral-
         consequências tecnológicas                                                  mente aceitas com reduzida consciência do alcance de sua legíti-

         14
necessárias premissas que não podem ser demonstradas, essa              fv-:":.
    ma aplicação; são, via de regra, mlopemente utititaristas, preocu-
    padas, em boa porção, com assuntos diretamente relacionados com      corrente entendia que as premissas básicas de uma Ciência devem
    interesses práticos Imediatos e normalmente aplicáveis apenas a      ser suscetíveis de apreensão como nutoevidentes e necessaria-
l   áreas de experiência rotineira; por fim, e acima de tudo, as cren-
    ças baseadas no bom senso desprezam possibilidades outras para
                                                                         mente verdadeiras.
                                                                               Essa concepção da natureza da Ciência era plausível, enquan-                - r - : f-r*&
                                                                                                                                                                 , '* i?
    enfrentar problemas concretos, mantendo vigência por força da        to a geometria euclidiana constituía o único exemplo de co-
                                                                                                                                                       • - •
                                                                                                                                                               * • • *-^h
    autoridade conferida por um costume que não se critica e que,        nhecimento sistematizado; continua a ser defendida por muitos
    portanto, não pode ser prontamente modificado de modo a tor-         pensadores contemporâneos que admitem que "o universo é ra-
    nar as crenças guias seguros para enfrentar situações novas.         cional" e, assim, "não pode haver resíduo de fatos irracionais
          Embora não se possa traçar Unha nítida entre as asserções      (isto é, contingentemente verdadeiros) no conjunto da Ciência".
    baseadas no bom senso e as conclusões da pesquisa cientifica —       Todavia, à luz da história da Ciência, tal concepção é insusten-
    pois é* certo que toda investigação científica parte de crenças      tável. Com efeito, não há Ciência alguma cujos pressupostos
    e distinções oriundas do bom senso e, ao fim, a ele refere as        básicos relativos a questões de fato sejam realmente auto-evi-
    suas descobertas — a Ciência tem como sinal distintivo o de          dentes e o progresso da investigação, em todos os ramos da Ciên-         -J?.- • • ''* v^í***^
    tentar deliberadamente alcançar resultados total ou parcialmen-      cia, revelou que princípios tidos como basilares em certa época          '-:;i;/"-ti** v?r
    te livres das limitações do í enso comum.                            tiveram de ser modificados ou substituídos para manter adequa-
          Conquanto a amplitude com que se alcançam tais conclu-         ção a fatos revelados por novas descobertas. A tese de que os
    sões varie nos diferentes íamos da Ciência, e conquanto seja         chamados primeiros princípios da Ciência são passíveis de alte-
    indubitavelmente maior nas ciências naturais, nenhum campo de        ração é claramente ilustrada por desenvolvimentos atuais da Fí-
    investigação sistemática foi inteiramente mal sucedido nessa ten-    sica, onde se tem procedido a revisões radicais em pressupostos
    tativa. Em geral, as conclusões da investigação científica são       teóricos que haviam sido considerados indubitáveis.
    apoiadas por evidência mais adequada e apresentam melhores                 Não sucede, porém, que essas revisões de pressupostos bá-
    razões para serem consideradas conhecimento certo do que as          sicos possam ser corretamente interpretadas como sinais da "fa-
    crenças baseadas no bom senso. Adiante direi alguma coisa            lência" da Ciência moderna — tal como a têm frequentemente
    mais a esse respeito. De momento, contudo, desejo tornar cla-        caracterizado pensadores presos à errónea noção do racionalismo
    ro que embora as descobertas científicas sejam, costumeiramen-       clássico, segundo a qual a Ciência que não pode garantir serem
    te, dignas de crédito, não são, em princípio, infalivelmente ver-    suas conclusões indiscutivelmente certas falhou em seu objetívo
    dadeiros nem insuscetíveir de emenda os relatórios científicos       de conduzir a conhecimento genuíno. E, mais ainda, essas re-
    acerca de específicas questões de fato ou as leis e teorias elabo-   visões não justificam um ceticismo global cora relação à possi-
    radas para indicar as condições invariáveis sob as quais os fenó-    bilidade de obter conhecimento seguro acerca do mundo por
    menos ocorrem.                                                       meio da pesquisa científica — ceticismo que, por sua vez, sur-
         Houve tempo em que se admitiu que para ser genuinamen-          ge a partir da insustentável hipótese de que, sendo todas as con-
    te científica, uma proposição deveria ser reconhecida como in-       clusões da pesquisa científica passíveis, em tese, de correção,       f /v-í' .-X^âa
                                                                                                                                              4-^^?^
    questionavelmente certa : absolutamente necessária. Toman-           nenhuma conclusão é, verdadeiramente, um acréscimo estável
    do a Geometria dedutiva como paradigma, esse modo de ver             ao corpo de conhecimento. Seja-me permitido citar um exem-            f.- -í-.:?s?
    sustentava que à Ciência não basta simplesmente atestar quais        plo que desmente essa última hipótese e que, ao mesmo tempo,          t-Vvi** 1 ^
                                                                                                                                               F ^v^jsi ^»:-'
                                                                         mostra que, fornecendo explicações bem fundadas para os fenó-         K;.-:-Jfe&>:
    são os fatos, cabendo-lhe demonstrar que os fatos devem ser
    como são e não poderiam ocorrer de outra maneira; mas, uma           menos observados, a Gência atende ao perene anseio de conhe-
    vez que, para estabelecer demonstrativamente um enunciado, são       cimento e compreensão sistemáticos.

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Galileu assinalou que, aparentemente» há am limite supe-         xás, aceitas de maneira geral e orientadas a proporcionar a des-
rior para o tamanho de animais tais como o homem e levantou            coberta de soluções para qualquer problema. Não há dúvida
* questio de saber se, • despeito do que se possa julgar, houve        de que a análise histórica do método científico leva a colocar ên-
tempo em que homens de proporções gigantescas pisassem •               fase considerável, se não exclusiva, na tarefa de formular pre-
face da Tetra. Mostrou ele, através de cuidadoso experimen-            ceitos para desvendar as causas ou efeitos dos fenómenos e para
to, que a resistência de uma estrutura varia de acordo com sua         elaborar leis e teorias a partir dos resultados da observação. En-
secção transversal e admitiu, com fundadas razões, que a capaci-       tretanto, nenhuma das regras propostas para orientar descober-
dade de os ossos animais suportarem forças de pressão também           tas atinge o propósito visado; e a maioria dos estudiosos do as-
varia proporcionalmente i área de suas secções transversais. Por       sunto concorda em que pretender estabelecer tais regras é em-
outro lado, o peso de um animal terrestre (que deve ser supor-         preendimento sem esperança.
tado pelos membros) é proporcional ao volume do mesmo ani-
mal. Em consonância com isso, cabe dizer que a resistência dos               Que é, então, método científico? Devo esclarecer, preli-
ossos animais é proporcional ao quadrado das dimensões lineares        minarmente, que o vocábulo "método" não é sinónimo do vo-
do animal, enquanto o peso que esses ossos devem suportar é pro-      ,cabulo "técnica". A técnica de mensuração de comprimentos
porcional ao cubo tks dimensões lineares. Em consequência, há          de ondas luminosas por meio do cspectroscópio é patentemente
limites definidos para o tamanho dos animais terrestres e, as-         diversa da técnica de mensuração da velocidade de um impulso
sim, gigantes com membros proporcionais aos dos homens co-             nervoso e ambas diferem das técnicas empregadas para deter-
muns não poderiam existi:-, pois tais criaturas sucumbiriam sob        minação dos efeitos de um tipo de organização empresarial so-
o próprio peso.                                                        bre a produtividade. As técnicas, via de regra, variam de acor-
                                                                       do com o assunto de que se trata e podem alterar-se rapidamen-
      Investigações levadas a efeito nos três séculos seguintes re-    te com o progresso tecnológico. De outro lado, todas as ciên-
finaram e tomaram mais precisa a conclusão de Galileu, e as            cias empregam um método comum em suas investigações, na
presunções em que ele a baseou, mas não chegaram a modifi-             medida em que utilizam os mesmos princípios de avaliação da
cá-la substancialmente. O "exemplo sustenta, pois, a tese de           evidência; os mesmos cânones para julgar da adequação das ex-
que, embora sejam passíveis de correçSo as descobertas cientí-         plicações propostas; e os mesmos critérios para selecionar uma       k ..JÍCíÇSÍíS
ficas, o conteúdo da Ciência não é um fluxo instável de opiniões,      dentre várias hipóteses.                                             RVí^rJÍS
                                                                                                                                            E > *"í<» J^-V^K
                                                                                                                                            l-    • «->• ..i" «*"-»«!«
mas, ao contrário, a Ciência pode alcançar êxito no seu propó-                                                                                    V^tíáSS
                                                                                                                                                - - ' •*"- -T :^&£
sito de fornecer explicações dignas de confiança, bem fundadas               Em suma, método científico é a lógica geral, tácita ou ex-           • --*i:,JCÍS
                                                                       plicitamente empregada para apreciar os méritos de uma pes-              >.-*^"%Sfe
e sistemáticas para numerosos fenómenos.                                                                                                      -'-" í'««S
                                                                       quisa. Convém, portanto, imaginar o método da Ciência co-            tfl-.V^V^
                                                                                                                                            f
                                                                                                                                              . .'-'-í^íár
                                                                                                                                                 . • -.< V^KíT^

      3. É tempo de considerar o terceiro aspecto que a Ciên-          mo um conjunto de normas padrão que devem ser satisfeitas,
cia apresenta: seu método de investigação. Aspecto muitas ve-          caso se deseje que a pesquisa seja tida por adequadamente con-       í : í
                                                                                                                                             ^^
zes mal interpretado e sempre difícil de descrever com brevi-          duzida e capaz de levar a conclusões merecedoras de adesão ra-
dade, mas que é, talvez, seu traço mais permanente e garantia          cional. Pretendo, agora, examinar, ligeiramente, alguns ele-
última do crédito que merecem as conclusões da investigação            mentos do método científico assim entendido.
científica.
                                                                             Comecemos lembrando que a Gência é uma instituição so-
      Afirmação frequente, subscrita, às vezes, por eminentes          cial e que o cientista é membro de uma comunidade intelectual
dentistas, é a de que "não há, como tal, um método científico*',       dedicada à perseguição da verdade, segundo padrões que evol-
mas apenas "a utilização livre e ampla da inteligência". Essa          veram e se mostraram satisfatórios, ao longo de um contínuo
afirmação terá procedência, caso a expressão "método cientifico"       processo de crítica. Muitos pensadores imaginaram que a ob-
seja considerada como equivalente a um conjunto de regras íi-         jetividade das conclusões alcançadas pela Ciência estaria asse-
u                                                                                                                                     19
t'-- '* /*!~" •í-v-yO'
                                                                                                                                                                 S"'. *>vf?--v3S
guradâ, se os cientistas deliberassem não aceitar qualquer pro-
posição a respeito da qual pairasse sombra de dúvida ou que
                                                                                significativa coleta de fatos para fins de pesquisa é controlada
                                                                                por pressupostos de vários tipos, dependentes do cientista e não             I   . -•-.-!-.i-j
                                                                                                                                                                          ••'***2$
                                                                                                                                                                     '-' •í-ÍTfe
não fosse transparentemente verdadeira. Os homens» raramen-
te se dão conta de que há muito de hipotético no que têm por
                                                                              , do assunto investigado. Como os fatos não são relevantes ou
                                                                            /irrelevantes por. si mesmos, o cientista está obrigado a adotar                 >;«H
indubitável e, muitas vezes, acredium-se livres de compromis-               i algumas hipóteses preliminares acerca de quais os fatos de in*
sos intelectuais de qualquer espécie, quando, na verdade, estio             Í terásse para o problema que enfrenta — a determinar, por exêrii-
endossando tacitamente muito de falso.                                          pio, quais dentre os numerosos fatôres que podem estar pre-
                                                                                sentes, ligam-se causalmente ao fenómeno em exame — e até
      Embora a deliberação de adotar atitude crítica relativamen-        A,rr? que essas hipóteses sejam alteradas são elas que orientam a in-
te às presunções possa ter certo valor, a objetividade da Gên-                  vestigação.
cia não é consequência chia. Ao contrário, a objetividade de-
ve-se a uma comunidade de pensadores, cada qual deles a cri-                         _Ausentes essas hipóteses, a pesquisa é cega e sem objetivp.
ticar severamente as afirmações dos demais. Nenhum cientista                    Não há, porém, regras para fazer surgirem hipóteses frutíferas;                              /'•s^í
                                                                                                                                                                         • -vr>&-v
                                                                                                                                                                            " <>?.?
é infalível e todos apresentam sua? peculiares deformações in-                  como Albert Einstein observou repetidamente, as hipóteses que
telectuais ou emocionais. As deformações raramente são as                       constituem as modernas teorias da Fisíca são "livres criações
meirn**; e «s ideia* que sobrevivem às críticas de numerosos                    da mente", cuja invenção e elaboração requerem dotes imagi-
espíritos independentes revelam maior probabilidade de serem                    nativos análogos aos que permitem a criação artística.
legítimas do que as concepções tidas por válidas simplesmente                         Não obstante, ainda que se deva admitir que a imaginação
pelo fato de parecerem auio-evidentes a um pensador isolado.                     criadora tem um papel a desempenhar no campo da investigação
      Seja-me permitido, a seguir, discorrer sobre a maneira po-                científica, a Ciência não é poesia nem especulação; as hipóteses     '/-.
pular, algumas vezes endossada por cientistas, de imaginar que                   levantadas durante a pesquisa, assim como outras explicações
a pesquisa científica deve principiar com a coleta de dados; os      n          propostas para certa^dasse de fenômenps, devem ser jubmetí-
dados assim coligidos passariam por um crivo lógico, dai resul-                 dasLA.teste. Em geral, este teste requer que se examine i com-
tando formulação univocamente determinada de certa regula-                      patibilidade de uma hipótese (ou de suas consequências lógi-
ridade entre os acontecimentos estudados. A improcedência                       cas) simultaneamente com estados de coisas observáveis e com
dessa versão torna-se evidente quando constatamos que não é                     outras hipóteses cuja concordância com fatos observados já tenha
fácil precisar quais os fatos a coletar para resolver dado proble-              sido assentada.
ma, nem á fácil saber se é realmente fato aquilo que é apresen-
tado como tal.                                                                        Não cabe aqui uma pormenorizada análise da lógica empre-
                                                                                gada para submeter a teste as hipóteses; mas cabe referência,
      Para exemplificar, qjais os fatos que deveriam ser reu-                   ainda que breve, à noção de controlada — que é(
nidos para pesquisa das causas da leucemia? É a lua maior                        talvez, de todos os elementos de uma lógica desse tipo, o mais     coti r
quando está próxima do lorizonte do que quando se encontra                      importante. Um exemplo simples deve ser bastante para indi-
no zénite? Õ número de fatos que se poderia reunir é enorme                     car a maneira como se caracterizam tais investigações. A cren-
e seria impossível examiná-los todos; e o que se tem como fato                  ça outrora multo comum de que banhos com água fria e sal-
pode não passar de uma ilusão. Faz-se claro, portanto, que os                   gada eram benéficos para os pacientes atacados de febres altas
fatos devem ser selecion:idos segundo pressupostos que indi-                    parece ter-se baseado em repetidas observações de que melhoras
quem os relevantes para a solução dê um dado problema; e as                     resultavam desse tratamento. Entretanto, independentemente
observações devem ser realizadas segundo condições que se pre-                  de indagar se a crença é ou não legítima — e na verdade não
suma excluírem a possibilidade de que relatórios do que se alega                o é — a evidencia em que se baseava é insuficiente para sus-/                       ; -'•'-''-£&&
                                                                                                                                                                           í->ST£r
ter sido observado incidam em erro grosseiro. Assim, qualquer                   tentá-la. Aparentemente, não ocorreu aos que aceitavam essa

20                                                                                                                                          21


                                                                                                                                                                    i- *-fe£S
                                                                                                                                                                    t- •• -••-•?<>
crença indagar se pacientes não submetidos ao mesmo tratamen-                       entre as coisas. É, portanto, erróneo sustentar, como ocorre
      to poderiam mostrar melhoria semelhante. Em suma, a cren-                          muitas vezes, que as chamadas ciências quantitativas, fazendo
     ça n2o era o resultado de uma investigação controlada — ou                          amplo uso da mensuração, ignoram, por isso mesmo, os aspec-
     seja, o curso da moléstia em pacientes submetidos ao tratamen-                      tos qualitativos da realidade. Quão despida de base é essa po-
     to não era comparado ao seu curso num grupo "de controle",                          siçSo, será evidenciado por um exemplo simples.
     constituído por pacientes que não o recebiam, de modo que não                            Os seres humanos estão capacitados a distinguir certo nú-
     havia base racional para decidir se o tratamento produzia ai*                       mero de diferenças na temperatura dos objetos e termos tais
     gum efeito.
                                                                                        como "quente", "morno", "tépido", "frio" e "gelado" corres-
           De maneira mais genJ, uma investigação é controlada so-                       pondem a distinções reconhecidas. Mas essas diferenças não
     mente se, criando alguma espécie de processo de eliminação                         foram ignoradas ou negadas quando, no século XVII, se inven-
     torna possível determinar os efeitos diferenciais de um fator que                   tou o termómetro; ao contrário, a invenção desse instrumrnto
     se considera relevante paca a ocorrência de dado fenómeno.                          traduziu o fato de que as variações de temperatura que eram
     São esses processos de eliminação, algumas vezes, mas não ne-                      experimentadas, em relação a muitas substâncias, estavam liga-
     cessariamente, experimentdmente viáveis; em muitos setores                         das a alterações dos volumes relativos dessas substâncias. Em        v~
     e em sua maioria, não o são, de modo que recursos analíticos                       consequência, variações de volume podem ser utilizadas para in-
     sutis e complicados devem ser, frequentemente, empregados pa-                      dicar alterações no estado físico de um corpo, alterações que,
     ra que se extraia da evidência existente a informação que se faz                   em alguns casos, correspondem a diferenças de temperatura sen-
     necessária e que tornará poisívettPácional tomada de posição acer-                 tidas pelo homem. A par disso, é possível assinalar diferen-
     ca dos méritos de uma hipótese. De uma forma ou de outra, a                        ças menores nas variações de volume do que nas alterações de       fc-••»&*
     noção de controle é elemento essencial da lógica do método ci-                                                                                        f* l ••&£&
                                                                                        temperatura, diretarnente percebidas; e há extremos de calor
     entífico — pois, via de regra, a confiança merecida pelos resul-                   e frio além da capacidade de discriminação dos seres humanos,      'f"-J T-^felfc
                                                                                                                                                           L ;ii?-;-:«L.3SE
     tados científico» é função da multiplicidade e do rigor dos con-       W/rtiTtW    embora, nesses extremos, possam ser ainda apontadas as alte-
     troles a que foram submetidos.                                     /               rações de volume. Por isso mesmo, cabe dizer que, usando
           Gostaria, por fim, de fazer ligeiro comentário acerca do A                   uma escala termométrica, não somos levados a ignorar diferen-
     papel das distinções quantitativas e da mensuração no ampliar                      ças qualitativas: o uso da escala permite-nos assinalar diferen-
     os objetivos da Ciência e no aumentar o grau de confiança a                        ças de qualidade que, de outra forma, nos passariam desperce-
     depositar nas conclusões por ela alcançadas. Embora haja im-                       bidas, habilitando-nos, ao mesmo tempo, a ordenar essas quali-
     portantes diferenças estruturais entre as várias determinações                     dades de maneira clara e uniforme.
     quantitativas, todos os tipos de mensuração desempenham fun-                             Concluirei com um sumário. A força básica, geradora da
     ção tripla. A primeira é a de aumentar a precisão, reduzindo                      Ciência, é o desejo de obter explanações simultaneamente sis-       Í*<£$*yL
     assim a fluidez, com que os fatos produzidos e as explicações                      temáticas e controláveis pela evidência fatual. O fim especí-      fe£«
                                                                                                                                                           fc-.-á • ."*_->''' 'V-*
     para eles propostas podem ser apresentados, de maneira que a                      fico da Gência é, portanto, a descoberta e a formulação, em
     forma de apresentação sejs, mais facilmente, submetida a teste. f VtfCA            termos gerais, das condições sob as quais ocorrem os diversos
     A segunda é a de tornar f*o$síveis discriminações mais minucio-                    tipos de acontecimento, servindo os enunciados generalizados
     sas dos traços dos vários assuntos, de modo que enunciados a                      dessas condições determinantes como explicações dos fatos cor-
     respeito deles tenham condição de ser submetidos a controles                      respondentes. Esse objetivo só pode ser atingido identificando
     mais rigorosos. A terceira é a de permitir comparações mais                       ou isolando certas propriedades do assunto estudado e estabe-
     gerais entre os diversos acontecimentos a fim de possibilitar                     lecendo quais os reiterados padrões de dependência que gover-
     que sejam formuladas, sistemática e acuradamente, as relações                     nam a inter-rclação daquelas propriedades. Em razão disso,
     22                                                                                                                                            23



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 quando uma investigação alcança êxito, proposições que, até                   f A •]}   '
 então, pareciam independentes, surgem como liga as umas as
 outras de maneira determinada, em (anelo do lugar que vêm
 a ocupar num sistema de explicações.                                    , l /U '
      £ de importância primordial, entretanto, encarar esses sis-
 temas explicativos não como corpo de conclusões fixas e indu-
                                                                    í'   f/1 P      "
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 bitáveis, mas como resultados não definitivos de um contínuo
processo de investigação que envolve incessante uso de um par-
ticular método intelectual de crítica. Esse método lógico é a
                                                                         S/•

glória específica da Ciência moderna e o alicerce espiritual de
toda civilização genuinamente liberal. Nada pode substituí-lo
na tarefa de atingir conclusões fundadas acerca do mundo em
que os homens vivem e do lugar que nele ocupam.

Ernest b agel ciência natureza e objetivo

  • 1.
    Profe Dr. Colângelo Fundamentos Naturais da Geografia Texto / n_ Cópias ERNEST NAGEL Ciência: Natureza e Objetivo G, T ERALMENTE, o Homem não dá atenção às técni- cas de que se vale para solucionar problemas, a não ser que os métodos habituais venham t revelar-se insatisfatórios face a questões novas. Na história da Ciência, pelo menos, preocupa- ção maior com problemas de ordem metodológica emerge, fre- quentemente, do fato de formas costumeiras de análise mos- trarem-se inadequadas ou de apresentarem imperfeições os mo- dos tradicionais de apreciar a evidência e de interpretar as con- clusões da investigação. Nos dias atuais, tão fortemente mar- cados pelas comoções sociais, não surpreende, portanto, que os ERNEST NAGEL, que está presentemente cientistas e filósofos profissionais estejam obrigados a dar grande na Columbia Universittf {onde é ':john Dewcy Professor of Fhihsophu"), nasceu cm Novc- atenção à lógica da Gência e ao significado amplo das conquistas mestc, Checoslováquia, em 1901. Foi para científicas. A literatura contemporânea acerca da filosofia da os Estados Unidos cm 1911, estudando no Ciência é, basicamente, uma resposta crítica a algumas das difi- Collc^c of the Cittf of New VorJt e na Co- lumb;a Vniversitu. O Dr. Nagel pertence ao culdades intelectuais criadas pelos recentes desenvolvimentos cien- corpo docente desta universidade, desde 1931. tíficos. Presidiu a Association for Symbolic Logíc c a Há, em verdade, três aspectos da Ciência atual que nos con- Amer-can Philosophícai Association. É mem- bro da Association for íhc Advanccment of vidam a séria reflexão e nos auxiliam a definir-lhe a natureza Science c vice-presidente do Institute for the e os objetivos; tenciono abordar superficialmente cada um desses Unity of Science. Desde 1940 é editor do aspectos, embora reconhecendo que as limitações de espaço tor- Journal of Philosophv. Recebeu, cm duas nam impossível tratar adequadamente indá que de um só. ocasices, as "Gu&Renneim fellowships". Au- tor c co-autor de numerosos trabalhos de Fi- 1. Talvez o traço mais saliente da Ciência — c, por cer- losofia. to, o que mais comumente se realça — seja o de que permite
  • 2.
    l controle prático da Natureza. Tornar-se-ia enfadonho realçar 2. A Ciência assume outro aspecto quando concebida como as grandes contribuições da investigação científica em prol do algo que se propõe atingir conhecimento sistemático e seguro» bem-estar humano ou mesmo aludir aos ramos principais da de sorte que seus resultados possam ser tomados como conclu- Tecnologia, como por exemplo a Medicina, que tiraram proveito sões certas a propósito de condições mais ou menos amplas e dos avanços da pesquisa fundamental, teórica e experimental. uniformes sob as quais ocorrem os vários tipos de acontecimen- Baste assinalar que a Ciência aplicada transformou a face da Ter- tos. Em verdade, segundo fórmula antiga e ainda aceitável, o ra e traçou os contornos da civilização ocidental contemporânea. 01 objetivo da Ciência é "preservar os fenómenos" — isto é, apre- Sendo esses frutos tecnológicos da investigação científica sentar acontecimentos e processos como especificações de leis e ~i teorias gerais que enunciam padrões invariáveis de relações entre os que os homens sem treino científico ou interesses teóricos po- dem roais facilmente apreciar, o domínio sobre a Natureza, que coisas. Perseguindo esse objetivo, a Ciência busca tornar inte- muitas vezes decorre da pesquisa fundamental, é a justificação ligível o mundo; e sempre que o alcança, em alguma área de in- última da Ciência para a maioria das pessoas. Como a realiza- vestigação, satisfaz o anseio de saber e compreender que é, tal- cio de investigações científicas demanda, hoje em dia, grandes vez, o Impulso mais poderoso a levar o boroem a empenhar-se investimentos, que dependem, largamente, de fundos públicos, em estudos metódicos. Sabe-se que é por ter colimado, de ma- muitos pesquisadores, quimdo descrevem a natureza da Ciência .neíra usualmente bem sucedida, seus fins, que a atividade inicia- a auditórios de leigos, aos quais caberá, afinal, custear a maior da na antiguidade grega e atualmente chamada "Ciência" tem-sc parte dos gastos necessários, tendem a acentuar, quase que ex- mostrado fator importante no desenvolvimento da civilização clusivamente, os benefício:; práticos a esperar de estudos básicos. liberal: serviu para eliminar crenças e práticas supersticiosas, para Embora, eu, nem par um momento, subestime a importân- afastar temores brotados da ignorância e para fornecer base in- cia da Ciência como fonte de recursos tecnológicos que, aperfei- telectual de avaliação de costumes herdados e de normas tradi- çoados e disseminados, contribuem para a melhoria da vida hu- cionais de conduta. mana, creio, não obstante, que a concepção da Qência como algo Seria, naturalmente, afrontar a evidência, negar que muito que produz, incessantemente, novos meios de dominar a Natu- antes do início da pesquisa sistemática os homens dispunham de reza, tem sido sublinhada com demasiada ênfase, levando a es- conhecimentos razoavelmente aceitáveis acerca de muitas das ca- quecer outros de seus asfxxtos. De modo algum se dá que a racterísticas do ambiente físico, biológico e social. Em verdade, conquista de bens e vantagens de caráter prático seja o único ainda hoje, boa parte das informações de que necessitamos para ou o principal motivo que incentiva o homem a entregar-se à orientação normal de nossas vidas não é produto de investigação Investigação científica; e quando esse motivo se torna o prin- científica sistemática, mas é o que normalmente se chama conhe- cipal, surge um quadro fortemente distorcido tanto dos objetivos cimento nascido do "bom senso". complexos da Qência como de sua própria história. Não obstante, esse tipo de conhecimento está sujeito a Além disso, aquela ênfase pode levar a sociedade a encarar numerosas limitações saías, algumas das quais devem ser apon- de maneira perigosamente errónea o cientista, vendo-o como ho- tadas. Assim, as crenças baseadas no bom senso são, em geral, mem miraculoso, capaz de resposta infalível para todas as ma- imprecisas, e, frequentes vezes, aproximam coisas e processos zelas humanas. Não se deve esquecer também a generalizada que diferem de maneira essencial; não raro, são incoerentes de tendência de considerar a Ciência como responsável pela maneira modo que a preferência por uma de duas crenças incompatíveis, bárbara por que, is vezes, são utilizadas as suas conquistas — como base para a ação, é arbitrária; tendem a ser fragmentárias, imputação indubitavelmente injusta, que pode levar a despreza- em consequência do que as relações lógicas e substantivas entre -Ia, mas que se torna plausível quando ela é identificada as suas enunciados independentes são, de hábito, ignoradas; são geral- consequências tecnológicas mente aceitas com reduzida consciência do alcance de sua legíti- 14
  • 3.
    necessárias premissas quenão podem ser demonstradas, essa fv-:":. ma aplicação; são, via de regra, mlopemente utititaristas, preocu- padas, em boa porção, com assuntos diretamente relacionados com corrente entendia que as premissas básicas de uma Ciência devem interesses práticos Imediatos e normalmente aplicáveis apenas a ser suscetíveis de apreensão como nutoevidentes e necessaria- l áreas de experiência rotineira; por fim, e acima de tudo, as cren- ças baseadas no bom senso desprezam possibilidades outras para mente verdadeiras. Essa concepção da natureza da Ciência era plausível, enquan- - r - : f-r*& , '* i? enfrentar problemas concretos, mantendo vigência por força da to a geometria euclidiana constituía o único exemplo de co- • - • * • • *-^h autoridade conferida por um costume que não se critica e que, nhecimento sistematizado; continua a ser defendida por muitos portanto, não pode ser prontamente modificado de modo a tor- pensadores contemporâneos que admitem que "o universo é ra- nar as crenças guias seguros para enfrentar situações novas. cional" e, assim, "não pode haver resíduo de fatos irracionais Embora não se possa traçar Unha nítida entre as asserções (isto é, contingentemente verdadeiros) no conjunto da Ciência". baseadas no bom senso e as conclusões da pesquisa cientifica — Todavia, à luz da história da Ciência, tal concepção é insusten- pois é* certo que toda investigação científica parte de crenças tável. Com efeito, não há Ciência alguma cujos pressupostos e distinções oriundas do bom senso e, ao fim, a ele refere as básicos relativos a questões de fato sejam realmente auto-evi- suas descobertas — a Ciência tem como sinal distintivo o de dentes e o progresso da investigação, em todos os ramos da Ciên- -J?.- • • ''* v^í***^ tentar deliberadamente alcançar resultados total ou parcialmen- cia, revelou que princípios tidos como basilares em certa época '-:;i;/"-ti** v?r te livres das limitações do í enso comum. tiveram de ser modificados ou substituídos para manter adequa- Conquanto a amplitude com que se alcançam tais conclu- ção a fatos revelados por novas descobertas. A tese de que os sões varie nos diferentes íamos da Ciência, e conquanto seja chamados primeiros princípios da Ciência são passíveis de alte- indubitavelmente maior nas ciências naturais, nenhum campo de ração é claramente ilustrada por desenvolvimentos atuais da Fí- investigação sistemática foi inteiramente mal sucedido nessa ten- sica, onde se tem procedido a revisões radicais em pressupostos tativa. Em geral, as conclusões da investigação científica são teóricos que haviam sido considerados indubitáveis. apoiadas por evidência mais adequada e apresentam melhores Não sucede, porém, que essas revisões de pressupostos bá- razões para serem consideradas conhecimento certo do que as sicos possam ser corretamente interpretadas como sinais da "fa- crenças baseadas no bom senso. Adiante direi alguma coisa lência" da Ciência moderna — tal como a têm frequentemente mais a esse respeito. De momento, contudo, desejo tornar cla- caracterizado pensadores presos à errónea noção do racionalismo ro que embora as descobertas científicas sejam, costumeiramen- clássico, segundo a qual a Ciência que não pode garantir serem te, dignas de crédito, não são, em princípio, infalivelmente ver- suas conclusões indiscutivelmente certas falhou em seu objetívo dadeiros nem insuscetíveir de emenda os relatórios científicos de conduzir a conhecimento genuíno. E, mais ainda, essas re- acerca de específicas questões de fato ou as leis e teorias elabo- visões não justificam um ceticismo global cora relação à possi- radas para indicar as condições invariáveis sob as quais os fenó- bilidade de obter conhecimento seguro acerca do mundo por menos ocorrem. meio da pesquisa científica — ceticismo que, por sua vez, sur- Houve tempo em que se admitiu que para ser genuinamen- ge a partir da insustentável hipótese de que, sendo todas as con- te científica, uma proposição deveria ser reconhecida como in- clusões da pesquisa científica passíveis, em tese, de correção, f /v-í' .-X^âa 4-^^?^ questionavelmente certa : absolutamente necessária. Toman- nenhuma conclusão é, verdadeiramente, um acréscimo estável do a Geometria dedutiva como paradigma, esse modo de ver ao corpo de conhecimento. Seja-me permitido citar um exem- f.- -í-.:?s? sustentava que à Ciência não basta simplesmente atestar quais plo que desmente essa última hipótese e que, ao mesmo tempo, t-Vvi** 1 ^ F ^v^jsi ^»:-' mostra que, fornecendo explicações bem fundadas para os fenó- K;.-:-Jfe&>: são os fatos, cabendo-lhe demonstrar que os fatos devem ser como são e não poderiam ocorrer de outra maneira; mas, uma menos observados, a Gência atende ao perene anseio de conhe- vez que, para estabelecer demonstrativamente um enunciado, são cimento e compreensão sistemáticos. 16 17
  • 4.
    Galileu assinalou que,aparentemente» há am limite supe- xás, aceitas de maneira geral e orientadas a proporcionar a des- rior para o tamanho de animais tais como o homem e levantou coberta de soluções para qualquer problema. Não há dúvida * questio de saber se, • despeito do que se possa julgar, houve de que a análise histórica do método científico leva a colocar ên- tempo em que homens de proporções gigantescas pisassem • fase considerável, se não exclusiva, na tarefa de formular pre- face da Tetra. Mostrou ele, através de cuidadoso experimen- ceitos para desvendar as causas ou efeitos dos fenómenos e para to, que a resistência de uma estrutura varia de acordo com sua elaborar leis e teorias a partir dos resultados da observação. En- secção transversal e admitiu, com fundadas razões, que a capaci- tretanto, nenhuma das regras propostas para orientar descober- dade de os ossos animais suportarem forças de pressão também tas atinge o propósito visado; e a maioria dos estudiosos do as- varia proporcionalmente i área de suas secções transversais. Por sunto concorda em que pretender estabelecer tais regras é em- outro lado, o peso de um animal terrestre (que deve ser supor- preendimento sem esperança. tado pelos membros) é proporcional ao volume do mesmo ani- mal. Em consonância com isso, cabe dizer que a resistência dos Que é, então, método científico? Devo esclarecer, preli- ossos animais é proporcional ao quadrado das dimensões lineares minarmente, que o vocábulo "método" não é sinónimo do vo- do animal, enquanto o peso que esses ossos devem suportar é pro- ,cabulo "técnica". A técnica de mensuração de comprimentos porcional ao cubo tks dimensões lineares. Em consequência, há de ondas luminosas por meio do cspectroscópio é patentemente limites definidos para o tamanho dos animais terrestres e, as- diversa da técnica de mensuração da velocidade de um impulso sim, gigantes com membros proporcionais aos dos homens co- nervoso e ambas diferem das técnicas empregadas para deter- muns não poderiam existi:-, pois tais criaturas sucumbiriam sob minação dos efeitos de um tipo de organização empresarial so- o próprio peso. bre a produtividade. As técnicas, via de regra, variam de acor- do com o assunto de que se trata e podem alterar-se rapidamen- Investigações levadas a efeito nos três séculos seguintes re- te com o progresso tecnológico. De outro lado, todas as ciên- finaram e tomaram mais precisa a conclusão de Galileu, e as cias empregam um método comum em suas investigações, na presunções em que ele a baseou, mas não chegaram a modifi- medida em que utilizam os mesmos princípios de avaliação da cá-la substancialmente. O "exemplo sustenta, pois, a tese de evidência; os mesmos cânones para julgar da adequação das ex- que, embora sejam passíveis de correçSo as descobertas cientí- plicações propostas; e os mesmos critérios para selecionar uma k ..JÍCíÇSÍíS ficas, o conteúdo da Ciência não é um fluxo instável de opiniões, dentre várias hipóteses. RVí^rJÍS E > *"í<» J^-V^K l- • «->• ..i" «*"-»«!« mas, ao contrário, a Ciência pode alcançar êxito no seu propó- V^tíáSS - - ' •*"- -T :^&£ sito de fornecer explicações dignas de confiança, bem fundadas Em suma, método científico é a lógica geral, tácita ou ex- • --*i:,JCÍS plicitamente empregada para apreciar os méritos de uma pes- >.-*^"%Sfe e sistemáticas para numerosos fenómenos. -'-" í'««S quisa. Convém, portanto, imaginar o método da Ciência co- tfl-.V^V^ f . .'-'-í^íár . • -.< V^KíT^ 3. É tempo de considerar o terceiro aspecto que a Ciên- mo um conjunto de normas padrão que devem ser satisfeitas, cia apresenta: seu método de investigação. Aspecto muitas ve- caso se deseje que a pesquisa seja tida por adequadamente con- í : í ^^ zes mal interpretado e sempre difícil de descrever com brevi- duzida e capaz de levar a conclusões merecedoras de adesão ra- dade, mas que é, talvez, seu traço mais permanente e garantia cional. Pretendo, agora, examinar, ligeiramente, alguns ele- última do crédito que merecem as conclusões da investigação mentos do método científico assim entendido. científica. Comecemos lembrando que a Gência é uma instituição so- Afirmação frequente, subscrita, às vezes, por eminentes cial e que o cientista é membro de uma comunidade intelectual dentistas, é a de que "não há, como tal, um método científico*', dedicada à perseguição da verdade, segundo padrões que evol- mas apenas "a utilização livre e ampla da inteligência". Essa veram e se mostraram satisfatórios, ao longo de um contínuo afirmação terá procedência, caso a expressão "método cientifico" processo de crítica. Muitos pensadores imaginaram que a ob- seja considerada como equivalente a um conjunto de regras íi- jetividade das conclusões alcançadas pela Ciência estaria asse- u 19
  • 5.
    t'-- '* /*!~"•í-v-yO' S"'. *>vf?--v3S guradâ, se os cientistas deliberassem não aceitar qualquer pro- posição a respeito da qual pairasse sombra de dúvida ou que significativa coleta de fatos para fins de pesquisa é controlada por pressupostos de vários tipos, dependentes do cientista e não I . -•-.-!-.i-j ••'***2$ '-' •í-ÍTfe não fosse transparentemente verdadeira. Os homens» raramen- te se dão conta de que há muito de hipotético no que têm por , do assunto investigado. Como os fatos não são relevantes ou /irrelevantes por. si mesmos, o cientista está obrigado a adotar >;«H indubitável e, muitas vezes, acredium-se livres de compromis- i algumas hipóteses preliminares acerca de quais os fatos de in* sos intelectuais de qualquer espécie, quando, na verdade, estio Í terásse para o problema que enfrenta — a determinar, por exêrii- endossando tacitamente muito de falso. pio, quais dentre os numerosos fatôres que podem estar pre- sentes, ligam-se causalmente ao fenómeno em exame — e até Embora a deliberação de adotar atitude crítica relativamen- A,rr? que essas hipóteses sejam alteradas são elas que orientam a in- te às presunções possa ter certo valor, a objetividade da Gên- vestigação. cia não é consequência chia. Ao contrário, a objetividade de- ve-se a uma comunidade de pensadores, cada qual deles a cri- _Ausentes essas hipóteses, a pesquisa é cega e sem objetivp. ticar severamente as afirmações dos demais. Nenhum cientista Não há, porém, regras para fazer surgirem hipóteses frutíferas; /'•s^í • -vr>&-v " <>?.? é infalível e todos apresentam sua? peculiares deformações in- como Albert Einstein observou repetidamente, as hipóteses que telectuais ou emocionais. As deformações raramente são as constituem as modernas teorias da Fisíca são "livres criações meirn**; e «s ideia* que sobrevivem às críticas de numerosos da mente", cuja invenção e elaboração requerem dotes imagi- espíritos independentes revelam maior probabilidade de serem nativos análogos aos que permitem a criação artística. legítimas do que as concepções tidas por válidas simplesmente Não obstante, ainda que se deva admitir que a imaginação pelo fato de parecerem auio-evidentes a um pensador isolado. criadora tem um papel a desempenhar no campo da investigação Seja-me permitido, a seguir, discorrer sobre a maneira po- científica, a Ciência não é poesia nem especulação; as hipóteses '/-. pular, algumas vezes endossada por cientistas, de imaginar que levantadas durante a pesquisa, assim como outras explicações a pesquisa científica deve principiar com a coleta de dados; os n propostas para certa^dasse de fenômenps, devem ser jubmetí- dados assim coligidos passariam por um crivo lógico, dai resul- dasLA.teste. Em geral, este teste requer que se examine i com- tando formulação univocamente determinada de certa regula- patibilidade de uma hipótese (ou de suas consequências lógi- ridade entre os acontecimentos estudados. A improcedência cas) simultaneamente com estados de coisas observáveis e com dessa versão torna-se evidente quando constatamos que não é outras hipóteses cuja concordância com fatos observados já tenha fácil precisar quais os fatos a coletar para resolver dado proble- sido assentada. ma, nem á fácil saber se é realmente fato aquilo que é apresen- tado como tal. Não cabe aqui uma pormenorizada análise da lógica empre- gada para submeter a teste as hipóteses; mas cabe referência, Para exemplificar, qjais os fatos que deveriam ser reu- ainda que breve, à noção de controlada — que é( nidos para pesquisa das causas da leucemia? É a lua maior talvez, de todos os elementos de uma lógica desse tipo, o mais coti r quando está próxima do lorizonte do que quando se encontra importante. Um exemplo simples deve ser bastante para indi- no zénite? Õ número de fatos que se poderia reunir é enorme car a maneira como se caracterizam tais investigações. A cren- e seria impossível examiná-los todos; e o que se tem como fato ça outrora multo comum de que banhos com água fria e sal- pode não passar de uma ilusão. Faz-se claro, portanto, que os gada eram benéficos para os pacientes atacados de febres altas fatos devem ser selecion:idos segundo pressupostos que indi- parece ter-se baseado em repetidas observações de que melhoras quem os relevantes para a solução dê um dado problema; e as resultavam desse tratamento. Entretanto, independentemente observações devem ser realizadas segundo condições que se pre- de indagar se a crença é ou não legítima — e na verdade não suma excluírem a possibilidade de que relatórios do que se alega o é — a evidencia em que se baseava é insuficiente para sus-/ ; -'•'-''-£&& í->ST£r ter sido observado incidam em erro grosseiro. Assim, qualquer tentá-la. Aparentemente, não ocorreu aos que aceitavam essa 20 21 i- *-fe£S t- •• -••-•?<>
  • 6.
    crença indagar sepacientes não submetidos ao mesmo tratamen- entre as coisas. É, portanto, erróneo sustentar, como ocorre to poderiam mostrar melhoria semelhante. Em suma, a cren- muitas vezes, que as chamadas ciências quantitativas, fazendo ça n2o era o resultado de uma investigação controlada — ou amplo uso da mensuração, ignoram, por isso mesmo, os aspec- seja, o curso da moléstia em pacientes submetidos ao tratamen- tos qualitativos da realidade. Quão despida de base é essa po- to não era comparado ao seu curso num grupo "de controle", siçSo, será evidenciado por um exemplo simples. constituído por pacientes que não o recebiam, de modo que não Os seres humanos estão capacitados a distinguir certo nú- havia base racional para decidir se o tratamento produzia ai* mero de diferenças na temperatura dos objetos e termos tais gum efeito. como "quente", "morno", "tépido", "frio" e "gelado" corres- De maneira mais genJ, uma investigação é controlada so- pondem a distinções reconhecidas. Mas essas diferenças não mente se, criando alguma espécie de processo de eliminação foram ignoradas ou negadas quando, no século XVII, se inven- torna possível determinar os efeitos diferenciais de um fator que tou o termómetro; ao contrário, a invenção desse instrumrnto se considera relevante paca a ocorrência de dado fenómeno. traduziu o fato de que as variações de temperatura que eram São esses processos de eliminação, algumas vezes, mas não ne- experimentadas, em relação a muitas substâncias, estavam liga- cessariamente, experimentdmente viáveis; em muitos setores das a alterações dos volumes relativos dessas substâncias. Em v~ e em sua maioria, não o são, de modo que recursos analíticos consequência, variações de volume podem ser utilizadas para in- sutis e complicados devem ser, frequentemente, empregados pa- dicar alterações no estado físico de um corpo, alterações que, ra que se extraia da evidência existente a informação que se faz em alguns casos, correspondem a diferenças de temperatura sen- necessária e que tornará poisívettPácional tomada de posição acer- tidas pelo homem. A par disso, é possível assinalar diferen- ca dos méritos de uma hipótese. De uma forma ou de outra, a ças menores nas variações de volume do que nas alterações de fc-••»&* noção de controle é elemento essencial da lógica do método ci- f* l ••&£& temperatura, diretarnente percebidas; e há extremos de calor entífico — pois, via de regra, a confiança merecida pelos resul- e frio além da capacidade de discriminação dos seres humanos, 'f"-J T-^felfc L ;ii?-;-:«L.3SE tados científico» é função da multiplicidade e do rigor dos con- W/rtiTtW embora, nesses extremos, possam ser ainda apontadas as alte- troles a que foram submetidos. / rações de volume. Por isso mesmo, cabe dizer que, usando Gostaria, por fim, de fazer ligeiro comentário acerca do A uma escala termométrica, não somos levados a ignorar diferen- papel das distinções quantitativas e da mensuração no ampliar ças qualitativas: o uso da escala permite-nos assinalar diferen- os objetivos da Ciência e no aumentar o grau de confiança a ças de qualidade que, de outra forma, nos passariam desperce- depositar nas conclusões por ela alcançadas. Embora haja im- bidas, habilitando-nos, ao mesmo tempo, a ordenar essas quali- portantes diferenças estruturais entre as várias determinações dades de maneira clara e uniforme. quantitativas, todos os tipos de mensuração desempenham fun- Concluirei com um sumário. A força básica, geradora da ção tripla. A primeira é a de aumentar a precisão, reduzindo Ciência, é o desejo de obter explanações simultaneamente sis- Í*<£$*yL assim a fluidez, com que os fatos produzidos e as explicações temáticas e controláveis pela evidência fatual. O fim especí- fe£« fc-.-á • ."*_->''' 'V-* para eles propostas podem ser apresentados, de maneira que a fico da Gência é, portanto, a descoberta e a formulação, em forma de apresentação sejs, mais facilmente, submetida a teste. f VtfCA termos gerais, das condições sob as quais ocorrem os diversos A segunda é a de tornar f*o$síveis discriminações mais minucio- tipos de acontecimento, servindo os enunciados generalizados sas dos traços dos vários assuntos, de modo que enunciados a dessas condições determinantes como explicações dos fatos cor- respeito deles tenham condição de ser submetidos a controles respondentes. Esse objetivo só pode ser atingido identificando mais rigorosos. A terceira é a de permitir comparações mais ou isolando certas propriedades do assunto estudado e estabe- gerais entre os diversos acontecimentos a fim de possibilitar lecendo quais os reiterados padrões de dependência que gover- que sejam formuladas, sistemática e acuradamente, as relações nam a inter-rclação daquelas propriedades. Em razão disso, 22 23 -i
  • 7.
    ^- r ,'"/(*-("; - /A l / / • •'• quando uma investigação alcança êxito, proposições que, até f A •]} ' então, pareciam independentes, surgem como liga as umas as outras de maneira determinada, em (anelo do lugar que vêm a ocupar num sistema de explicações. , l /U ' £ de importância primordial, entretanto, encarar esses sis- temas explicativos não como corpo de conclusões fixas e indu- í' f/1 P " -•) bitáveis, mas como resultados não definitivos de um contínuo processo de investigação que envolve incessante uso de um par- ticular método intelectual de crítica. Esse método lógico é a S/• glória específica da Ciência moderna e o alicerce espiritual de toda civilização genuinamente liberal. Nada pode substituí-lo na tarefa de atingir conclusões fundadas acerca do mundo em que os homens vivem e do lugar que nele ocupam.