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Saúde
19 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, quarta-feira, 11 de novembro de 2009
                                                                                                                                                                                             Editora: Ana Paula Macedo //
                                                                                                                                                                                                 anapaula.df@dabr.com.br
                                                                                                                                                                                    3214-1195 • 3214-1172 / fax: 3214-1155




                                                                                                                                  Arquivo Pessoal




Efeitos                                                                                                                                                                                                  Lúcia* toma quatro
                                                                                                                                                                                                         remédios
                                                                                                                                                                                                         diariamente. Fica
                                                                                                                                                                                                         nervosa sempre




inesperados
                                                                                                                                                                                                         que os remédios
                                                                                                                                                                                                         estão perto de
                                                                                                                                                                                                         terminar. A
                                                                                                                                                                                                         necessidade deles
                                                                                                                                                                                                         para tratar a
                                                                                                                                                                                                         depressão crônica
                                                                                                                                                                                                         já virou
                                                                                                                                                                                                         dependência



Estudo apresentado na USP mostra como o uso de baixas doses de antidepressivos provocou melhoras de humor mesmo em
pacientes saudáveis. Pesquisadora e especialista, porém, alertam para os riscos de dependência química com a automedicação

          ma pesquisa realizada na Faculdade de                                                               dicamentos. O uso deve ser sempre acompanha-


U
                                                                                                                                                                        www.correiobraziliense.com.br
          Medicina da Universidade de São Paulo                                                               do de perto para evitar problemas”, completa.
          (USP) chegou a um resultado inespera-                                                                  Esse é o caso da estudante Priscila*, 21 anos.
          do sobre o uso de antidepressivos. De-          Nosso objetivo é produzir                           Portadora de transtorno bipolar, ela toma regu-
pois de analisar o comportamento de 120 volun-                                                                larmente até quatro medicamentos. “Um anti-            Ouça entrevista de Antônio Bala Barbosa da Silva,
tários, os pesquisadores descobriram que pa-              conhecimento, entender                              depressivo ‘principal’ pela manhã, um repositor     conselheiro do DF no Conselho Federal de Farmácia (CFF)
ciente saudáveis que tomavam baixas doses de              melhor o que esses                                  de lítio, um para controlar a ansiedade, que só
medicamentos contra a depressão apresentavam                                                                  tomo em caso de emergência, e outro mais leve,
melhoras no humor e se tornavam mais toleran-             medicamentos fazem e como.                          que tomo pra dormir melhor, ter menos pesade-
tes quanto aos problemas do dia a dia.                    As indicações clínicas são de                       los”, relata.
   Na pesquisa paulista, os voluntários recebe-                                                                  Ela conta que seu organismo apresenta rea-
ram doses de clomipramina, um antidepressivo              outra natureza e não foram                          ções quando ela permanece sem os remédios.
popular no tratamento de pacientes depressivos            tema deste estudo. Não                              “Eu sinto mais abstinência do que efeitos colate-
e com comportamentos obsessivos. Os resulta-              incentivamos a prescrição de                        rais mesmo. Se ficar sem tomar os remédios por
dos foram positivos em 30% dos casos. Os demais                                                               dois dias seguidos, meu metabolismo fica desre-
pacientes, que tomaram placebos (substâncias              antidepressivos a pessoas                           gulado. Eu como demais ou não como nada, por
sem qualquer princípio ativo), não relataram al-          saudáveis”                                          exemplo. Ou então, dá desespero, angústia. E o
terações de humor ou disposição.                                                                              humor oscila demais, de um dia para o outro, e às
   Para uma das coordenadoras da pesquisa, a              Clarice Gorenstein,                                 vezes até menos”, lamenta a estudante.
farmacêutica e professora do departamento de              uma das coordenadoras da pesquisa                      Outra que relata a mesma dificuldade é a pro-
farmacologia da USP Clarice Gorenstein, os pa-                                                                fessora Lúcia*, 49 anos. Os quatro medicamentos
cientes saudáveis tiveram efeitos que não são es-                                                             que toma, dois deles de venda controlada, tam-
perados para esse tipo de medicamento. “Os re-                                                                bém causam uma relação de dependência. “Quan-
sultados obtidos evidenciaram a presença do            tos sempre gera curiosidade. A automedicação,          do o remédio está acabando, eu começo a ficar
efeito extraterapêutico em boa parcela dos sujei-      porém, é sempre indesejável, independentemen-          nervosa, só de imaginar que eu posso ficar sem
tos normais que receberam clomipramina. Esse           te do tipo de medicamento envolvido”, explica          ele”, conta Lúcia, que tem um caso de de-
efeito caracterizou-se pelo aumento da tolerân-        Gorenstein. “Não incentivamos a automedicação          pressão crônica. “Se eu não tomá-los,
cia, pela diminuição da irritação, tensão e preo-      nem a prescrição de antidepressivos a pessoas          não consigo nem levantar da cama,
cupação, além do aumento de eficiência”, conta.        saudáveis”, conclui, lembrando que, mesmo com          perco totalmente as forças”, conta.
   Segundo ela, os voluntários que ingeriram o         bons resultados, todos os pacientes relataram             Sempre com os remédios na bolsa,
medicamento relataram aumento do sentimento            efeitos colaterais . Entre eles, boca seca e consti-   Lúcia não consegue imaginar um fu-
de segurança e disseram que passaram a lidar           pação intestinal, os mesmos de pacientes doen-         turo sem eles. “Pelo menos por en-
melhor com a necessidade de priorização de ta-         tes que usam antidepressivos.                          quanto, não vejo a possibilidade de
refas e de tomada de decisões. “Eles relataram             Conselheiro do Distrito Federal no Conselho        parar de tomá-los. Eles são real-
ainda uma sensação de bem-estar, e disseram se         Federal de Farmácia (CFF), Antônio Bala Barbosa        mente importantes para que
sentir diferentes do habitual. Chegaram a afirmar      da Silva alerta que a automedicação pode provo-        eu continue bem”, completa.
que não se reconheciam em algumas atitudes,            car sérios problemas. “As pessoas não percebem
contando, por exemplo, que em situações adver-         que a diferença entre um medicamento e um ve-          * Nomes fictícios
sas não tinham reações de fúria”, explica Clarice.     neno é apenas a dose. Algo que pode curar tam-         a pedidos das
   “As conclusões de nossos estudos — de que           bém pode ser fatal”, conta. Para ele, tomar remé-      entrevistadas
aproximadamente 30% das pessoas sem trans-             dios por conta própria é uma questão cultural.
tornos psiquiátricos mencionam melhora do              “Está muito arraigado em nossa cultura esse há-
bem-estar — não corroboram que a administra-           bito de ir a qualquer farmácia e comprar um re-
ção de antidepressivos é indicada para pessoas         medinho para resolver o problema de imediato.
sem queixas de sintomas psíquicos. Nosso objeti-       Até os balconistas das drogarias são treinados pa-
vo é produzir conhecimento, entender melhor o          ra incentivar a automedicação.”
que esses medicamentos fazem e como. As indi-              Ele alerta que, no caso dos remédios contra a
cações clínicas são de outra natureza e não foram      depressão, o perigo é ainda maior, pois eles po-
tema deste estudo.”                                    dem causar dependência química e psicológica.
                                                       “Muitos pacientes desenvolvem depressão por
Cuidados                                               usar indevidamente antidepressivos. São pessoas
                                                       que tinham outros problemas, mas que acabam
   Apesar dos bons resultados, a pesquisadora          se prejudicando com o uso do medicamento.” Pa-
não estimula o uso do medicamento por pessoas          ra os pacientes doentes, o risco é o mesmo.
saudáveis . “Não há como negar que a divulgação        “Mesmo nos casos diagnosticados, o médico
de resultados positivos associados a medicamen-        deve ter cautela na hora de receitar esses me-




                                                                            CMYK

Efeitos Inesperados

  • 1.
    CMYK Saúde 19 • CORREIOBRAZILIENSE • Brasília, quarta-feira, 11 de novembro de 2009 Editora: Ana Paula Macedo // anapaula.df@dabr.com.br 3214-1195 • 3214-1172 / fax: 3214-1155 Arquivo Pessoal Efeitos Lúcia* toma quatro remédios diariamente. Fica nervosa sempre inesperados que os remédios estão perto de terminar. A necessidade deles para tratar a depressão crônica já virou dependência Estudo apresentado na USP mostra como o uso de baixas doses de antidepressivos provocou melhoras de humor mesmo em pacientes saudáveis. Pesquisadora e especialista, porém, alertam para os riscos de dependência química com a automedicação ma pesquisa realizada na Faculdade de dicamentos. O uso deve ser sempre acompanha- U www.correiobraziliense.com.br Medicina da Universidade de São Paulo do de perto para evitar problemas”, completa. (USP) chegou a um resultado inespera- Esse é o caso da estudante Priscila*, 21 anos. do sobre o uso de antidepressivos. De- Nosso objetivo é produzir Portadora de transtorno bipolar, ela toma regu- pois de analisar o comportamento de 120 volun- larmente até quatro medicamentos. “Um anti- Ouça entrevista de Antônio Bala Barbosa da Silva, tários, os pesquisadores descobriram que pa- conhecimento, entender depressivo ‘principal’ pela manhã, um repositor conselheiro do DF no Conselho Federal de Farmácia (CFF) ciente saudáveis que tomavam baixas doses de melhor o que esses de lítio, um para controlar a ansiedade, que só medicamentos contra a depressão apresentavam tomo em caso de emergência, e outro mais leve, melhoras no humor e se tornavam mais toleran- medicamentos fazem e como. que tomo pra dormir melhor, ter menos pesade- tes quanto aos problemas do dia a dia. As indicações clínicas são de los”, relata. Na pesquisa paulista, os voluntários recebe- Ela conta que seu organismo apresenta rea- ram doses de clomipramina, um antidepressivo outra natureza e não foram ções quando ela permanece sem os remédios. popular no tratamento de pacientes depressivos tema deste estudo. Não “Eu sinto mais abstinência do que efeitos colate- e com comportamentos obsessivos. Os resulta- incentivamos a prescrição de rais mesmo. Se ficar sem tomar os remédios por dos foram positivos em 30% dos casos. Os demais dois dias seguidos, meu metabolismo fica desre- pacientes, que tomaram placebos (substâncias antidepressivos a pessoas gulado. Eu como demais ou não como nada, por sem qualquer princípio ativo), não relataram al- saudáveis” exemplo. Ou então, dá desespero, angústia. E o terações de humor ou disposição. humor oscila demais, de um dia para o outro, e às Para uma das coordenadoras da pesquisa, a Clarice Gorenstein, vezes até menos”, lamenta a estudante. farmacêutica e professora do departamento de uma das coordenadoras da pesquisa Outra que relata a mesma dificuldade é a pro- farmacologia da USP Clarice Gorenstein, os pa- fessora Lúcia*, 49 anos. Os quatro medicamentos cientes saudáveis tiveram efeitos que não são es- que toma, dois deles de venda controlada, tam- perados para esse tipo de medicamento. “Os re- bém causam uma relação de dependência. “Quan- sultados obtidos evidenciaram a presença do tos sempre gera curiosidade. A automedicação, do o remédio está acabando, eu começo a ficar efeito extraterapêutico em boa parcela dos sujei- porém, é sempre indesejável, independentemen- nervosa, só de imaginar que eu posso ficar sem tos normais que receberam clomipramina. Esse te do tipo de medicamento envolvido”, explica ele”, conta Lúcia, que tem um caso de de- efeito caracterizou-se pelo aumento da tolerân- Gorenstein. “Não incentivamos a automedicação pressão crônica. “Se eu não tomá-los, cia, pela diminuição da irritação, tensão e preo- nem a prescrição de antidepressivos a pessoas não consigo nem levantar da cama, cupação, além do aumento de eficiência”, conta. saudáveis”, conclui, lembrando que, mesmo com perco totalmente as forças”, conta. Segundo ela, os voluntários que ingeriram o bons resultados, todos os pacientes relataram Sempre com os remédios na bolsa, medicamento relataram aumento do sentimento efeitos colaterais . Entre eles, boca seca e consti- Lúcia não consegue imaginar um fu- de segurança e disseram que passaram a lidar pação intestinal, os mesmos de pacientes doen- turo sem eles. “Pelo menos por en- melhor com a necessidade de priorização de ta- tes que usam antidepressivos. quanto, não vejo a possibilidade de refas e de tomada de decisões. “Eles relataram Conselheiro do Distrito Federal no Conselho parar de tomá-los. Eles são real- ainda uma sensação de bem-estar, e disseram se Federal de Farmácia (CFF), Antônio Bala Barbosa mente importantes para que sentir diferentes do habitual. Chegaram a afirmar da Silva alerta que a automedicação pode provo- eu continue bem”, completa. que não se reconheciam em algumas atitudes, car sérios problemas. “As pessoas não percebem contando, por exemplo, que em situações adver- que a diferença entre um medicamento e um ve- * Nomes fictícios sas não tinham reações de fúria”, explica Clarice. neno é apenas a dose. Algo que pode curar tam- a pedidos das “As conclusões de nossos estudos — de que bém pode ser fatal”, conta. Para ele, tomar remé- entrevistadas aproximadamente 30% das pessoas sem trans- dios por conta própria é uma questão cultural. tornos psiquiátricos mencionam melhora do “Está muito arraigado em nossa cultura esse há- bem-estar — não corroboram que a administra- bito de ir a qualquer farmácia e comprar um re- ção de antidepressivos é indicada para pessoas medinho para resolver o problema de imediato. sem queixas de sintomas psíquicos. Nosso objeti- Até os balconistas das drogarias são treinados pa- vo é produzir conhecimento, entender melhor o ra incentivar a automedicação.” que esses medicamentos fazem e como. As indi- Ele alerta que, no caso dos remédios contra a cações clínicas são de outra natureza e não foram depressão, o perigo é ainda maior, pois eles po- tema deste estudo.” dem causar dependência química e psicológica. “Muitos pacientes desenvolvem depressão por Cuidados usar indevidamente antidepressivos. São pessoas que tinham outros problemas, mas que acabam Apesar dos bons resultados, a pesquisadora se prejudicando com o uso do medicamento.” Pa- não estimula o uso do medicamento por pessoas ra os pacientes doentes, o risco é o mesmo. saudáveis . “Não há como negar que a divulgação “Mesmo nos casos diagnosticados, o médico de resultados positivos associados a medicamen- deve ter cautela na hora de receitar esses me- CMYK