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Uma
vida no
Radio
É uma casa confortável. Fotos dos filhos, netos, amigos e da família estão por
toda parte. Mas uma sala com janela para a calçada chama atenção. As fotos
são substituídas por discos, CDs e fitas. São milhares, por toda a parte, desde
o chão até o teto, de todos os estilos, épocas e gostos. Clássicos de Beethoven
e o último lançamento de Roberto Carlos dividem espaço com vitrolas e uma
infinidade de aparelhos para executar gravações.


Texto Max Melo
Fotos Patrícia Banuth
Diagramação Fábio Tito




E    ste é o santuário de José da Cu­
     nha, o popular Seu Cunha, um
     dos mais ilustres moradores da
próspera e pacata Anápolis, a 150 Km
                                            da cidade guardados em seu santuário.
                                            “Quem precisa de alguma grava­
                                            ção antiga, de algum acontecimento
                                            importante, vem procurar comigo”,
de Brasília. A cidade não possui mu­        conta orgulhoso, com uma voz ainda
seus, o santuário assume um pouco           possante de homem do rádio.
essa função. Nele, os discos dividem            “Não são só fatos históricos que ele
espaço com uma mesa onde dona Vera          guarda aqui, muitas vezes pessoas que
serve o café com biscoitos para os visi­    perderam algum parente e querem
tantes vindos de longe.                     relembrar da maneira de falar dessa
   Hoje, afastado da rádio Imprensa         pessoa, vêm aqui ver se ele tem algo
AM, onde entrou ainda menino e              guardado”, conta Mauro Gonzaga, o
trabalhou por 50 anos, Cunha, como          Pastinha, amigo próximo, de décadas,
é chamado pelos amigos íntimos, se          que chega para tomar um café na ma­
dedica a preservar fragmentos da vida       nhã de sábado.
Cunha relembra agora, aos 63 anos,         simples: os seis candidatos teriam que dati­
                  como começou a paixão pela vida em Am­         lografar um texto à maquina. José estava
                  plitude Modulada, quando, moleque de tre­      com sorte, parecia que o curso de datilogra­
                  ze anos, viu ser inaugurada a Rádio Impren-    fia finalmente lhe seria útil. Não deu outra,
                  sa AM. O fascínio pelos programas que          no dia seguinte começaria a trabalhar. “Não
                  a família ouvia em volta do rádio passou       sei se foi a rapidez nos dedos, ou a secre­
                  a ter endereço certo. Uma salinha onde o       tária que foi com a minha cara, só sei que
                  enviado do Rio de Janeiro para administrar     quando o chefe perguntou a ela quem escol­
                  a emissora dormia e dividia com o estúdio.     heria, foi pra mim que ela apontou”, relem­
                  O menino, que a mãe ainda vestia com as        bra com um olhar de quem já viveu muito,
                  calças cortadas dos mais velhos, sonhava       mas ainda guarda na lembrança aquele dia
                  em ser um dos ídolos da cidade que acor­       em que o moleque de calça curta, começou a
                  dava e dormia ao som do rádio.                 realizar seu sonho. “Meu único registro na
                      Em julho de 1958 um anúncio busca­         Carteira de Trabalho, é o da rádio. É difícil
                  va um jovem auxiliar de escritório para a      encontrar alguém com um só emprego por
                  Rádio Imprensa e José foi um dos primeiros     tanto tempo”, afirma Cunha, ao lembrar que
                  na fila para disputar o emprego. O teste foi   só não trabalhou na Imprensa quando seu




                                                                      Cunha em foto de 1962,
                                                                      operando o microfone ­ e o
                                                                      telefone ­ durante apresentação
                                                                      do programa Peça
Arquivo Pessoal




                  16
pai o mandou para internato de padres em        Uma voz na cidade
Silvânia, cidade a 60 km de Anápolis, pois,         “Um dia o diretor da emissora me
para seu Gabriel, antes de tudo vinham          chamou: Zé, você vai ser locutor. Com medo,
os estudos. Tudo ia bem até que o garoto        disse que não sabia falar no rádio. ”Você não
repetiu duas vezes de ano na escola. A ra­      sabe conversar? Então senta aí e conversa
zão? Com tanto por fazer na rádio não so­       com o povo”. Era o nascimento do “Peça e
brou muito tempo para estudar. A solução        Ouça”, o primeiro programa apresentado
foi drástica e, por pelo menos um ano, ele      por José Cunha. “Foi por causa desse pro­
teria de ir para um lugar onde os discos do     grama que eu conheci a Vera”, contou ele,
Roberto Carlos, então febre entre a moçada,     chamando a esposa para a conversa.
não poderiam chegar.                                “Quando eu falei que queria conhecer o
    Sem ter como exercer a profissão que        Zé, mamãe ficou muito brava e me falou: ­
tanto o fascinava, e sabendo que por um         Homem do rádio não presta, se afasta desse
bom tempo não poderia mais ir para a rá­        povo minha filha,” relembra Vera Lúcia. Na
dio, criou a própria “emissora”, em Silvânia.   época, tinha 13 anos e queria conhecer o
Com o alto falante que dava para o pátio,       homem que falava na rádio. Todo dia era a
todos os dias no intervalo entre as aulas       mesma ladainha, ouvido colado no aparelho
apresentava programas e lia textos. Aquele      e vontade de usar o telefone. O programa
ano, 1961, seria o único em que Cunha fi­       era um dos mais populares da cidade.
caria fora da Rádio Imprensa, mas não. “Nas         Era 1965, Anápolis seguia o progresso
férias eu dava um jeito de escapulir do meu     trazido pela construção de Brasília logo ali
pai e ir trabalhar lá o dia todo”.              do lado. Alheia a isso, Vera Lúcia queria


                                                                                         17
k
mesmo era conhecer o tal locutor José. Um
                                                 m                                l
                                                 adultos e netos para mimar, entre uma xícara
dia, no passeio em frente a rádio, deu de cara   e outra do café preparado por dona Vera,
com seu locutor preferido. A moça imagi­         eles contam como o rádio foi o responsável
nava que aquela voz possante viria acom­         pela união, pela família e pela vida que cons­
panhada de um homem alto, forte, bonito.         truíram depois daquele encontro na calçada
O rapaz não era nada disso. “Magricela, es­      em frente a rádio.
tatura mediana, e nenhuma beleza especial,
não era nada do que eu esperava”, relembra       De locutor a diretor
Vera, entre risos.                                    Em 1972, já casado e com filhos, Cunha
    O primeiro encontro aconteceu. José          tinha feito quase tudo na emissora. “Fui dis­
Cunha, o locutor da rádio Imprensa, de 20        cotecário, técnico de som, operador de áudio


o    anos, e Vera Lúcia, moça bonita com
        seus 13 anos. O diálogo ainda en­
       cabulado foi curto e terminou com
      uma promessa de José: “Amanhã o pro­
                                                 e locutor. A gente fazia as coisas por amor,
                                                 ficava no lugar do colega, mesmo que não
                                                 fosse nossa função”, relembra ele de uma
                                                 época em que o rádio ainda era quase artesa­
     grama será todinho pra você”. Cerca de      nal e a programação local. Muitas transfor­
uma hora de músicas em sua homenagem foi         mações aconteceram desde então.
mais que suficiente. Vera já se esquecera do          Um dia o diretor da rádio foi para outro
desapontamento do dia anterior e suspirava       estado.“Ele foi ver se dava certo no novo em­
de amor pelo apresentador Cunha.                 prego, eu fiquei no cargo temporariamente”.
    Depois de vencer a família que achava        Mas durou 36 anos. Nesse tempo, José Cu­
que gente do rádio “não prestava”, eles con­     nha tratou de cuidar da rádio e modernizá­
seguiram autorização para namorar. Foi o         la. “Quando o Zé assumiu, até o carpete era
primeiro namoro dos dois, que nunca mais         cheio de rasgados” relembra Vera, com ar de
se separaram. 43 anos depois, três filhos        dona­de­casa zelosa.

O amigo Pastinha, Vera e seu Cunha ao fundo




18
Não foi só da parte física que José mo­
    der nizou. Um contrato com a Rede LC de
    São Paulo pôs de vez Anápolis na rota da
    integração nacional. “A gente exibia rádio­
    novelas feitas por grandes atores do Rio,
    programas esotéricos, programação de alto
    nível”. Nesse tempo virou preferência abso­




N
    luta entre as emissoras da cidade. “A gente
    chegou a ter 75% da audiência”. Era um tem­
    po em que a televisão não tinha ganhado o
    gosto dos anapolinos, a internet só chegaria
    mais de duas décadas depois e o rádio, junto
    com o cinema, eram as principais formas de
    divertimento. “Quando exibíamos a rádio­
    novela ‘O Direito de Nascer’ a cidade parava.
    Bares não abriam e as sessões do cinema só
    começavam depois que o capítulo acabava”,
    rememora Cunha saudosamente.
        Mesmo com a programação de rede na­
    cional, a Imprensa AM não perdeu o seu ca­
    ráter local. “Nós tínhamos janelas na pro­
    gramação para falarmos de assuntos daqui.       prada por uma igreja evangélica. No caso da
    Mostrar nossos talentos sempre foi um           Imprensa AM, foi a Igreja Inter nacional da
    compromisso que eu tive”. Se reinventando       Graça de Deus, que adquiriu seu controle.
    a cada ano, mostrando o povo da cidade, os      A utilidade pública deu lugar a religião e
    debates nas eleições locais, e dando uma        a equipe montada com primor foi desfeita.
    visão que a pequena mídia local não tinha       “Antes de sair, ajudamos os funcionários a
    estrutura para oferecer o tempo foi passan­     conseguir outras colocações e indicamos
    do. “Quando a moda era Axé, nós tocáva­         muitos para continuar lá. Vender a rádio era
    mos, quando o povo queria era jor nalismo, a    nossa última opção e todos que estavam lá
    gente também exibia. Nossa rádio tinha essa     sabiam disso”, relembra.
    função de ser o porta voz dos moradores de           Ao falar do fim do sonho que começou
    Anápolis”. Ficaram famosos na cidade os         ainda criança, não notamos no olhar de José
    programas especiais reunindo música, cul­       Cunha abatimento, ou mesmo nostalgia, e
    tura, cinema e artes, entre outros, produzi­    sim serenidade. O que Cunha transmite é a
    dos pelo pessoal da rádio e amigos de Cunha,    sensação de que cumpriu o seu dever, viveu
    como Pastinha.                                  intensamente cada um dos dias de meio
        Com o tempo, a emissora não suportou        século. A definição para todo esse tempo,
    a concorrência com a TV e a internet, cada      José Cunha tem na ponta da língua. “Não sei
    vez mais populares, e teve o mesmo fim que      se o rádio foi a melhor ou a pior coisa que eu
    todas as outras rádios da cidade, foi com­      fiz, mas com certeza foi a maior”.

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Contra a Banalização
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Rumo à Cura
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Uma Vida no Rádio

  • 2. É uma casa confortável. Fotos dos filhos, netos, amigos e da família estão por toda parte. Mas uma sala com janela para a calçada chama atenção. As fotos são substituídas por discos, CDs e fitas. São milhares, por toda a parte, desde o chão até o teto, de todos os estilos, épocas e gostos. Clássicos de Beethoven e o último lançamento de Roberto Carlos dividem espaço com vitrolas e uma infinidade de aparelhos para executar gravações. Texto Max Melo Fotos Patrícia Banuth Diagramação Fábio Tito E ste é o santuário de José da Cu­ nha, o popular Seu Cunha, um dos mais ilustres moradores da próspera e pacata Anápolis, a 150 Km da cidade guardados em seu santuário. “Quem precisa de alguma grava­ ção antiga, de algum acontecimento importante, vem procurar comigo”, de Brasília. A cidade não possui mu­ conta orgulhoso, com uma voz ainda seus, o santuário assume um pouco possante de homem do rádio. essa função. Nele, os discos dividem “Não são só fatos históricos que ele espaço com uma mesa onde dona Vera guarda aqui, muitas vezes pessoas que serve o café com biscoitos para os visi­ perderam algum parente e querem tantes vindos de longe. relembrar da maneira de falar dessa Hoje, afastado da rádio Imprensa pessoa, vêm aqui ver se ele tem algo AM, onde entrou ainda menino e guardado”, conta Mauro Gonzaga, o trabalhou por 50 anos, Cunha, como Pastinha, amigo próximo, de décadas, é chamado pelos amigos íntimos, se que chega para tomar um café na ma­ dedica a preservar fragmentos da vida nhã de sábado.
  • 3. Cunha relembra agora, aos 63 anos, simples: os seis candidatos teriam que dati­ como começou a paixão pela vida em Am­ lografar um texto à maquina. José estava plitude Modulada, quando, moleque de tre­ com sorte, parecia que o curso de datilogra­ ze anos, viu ser inaugurada a Rádio Impren- fia finalmente lhe seria útil. Não deu outra, sa AM. O fascínio pelos programas que no dia seguinte começaria a trabalhar. “Não a família ouvia em volta do rádio passou sei se foi a rapidez nos dedos, ou a secre­ a ter endereço certo. Uma salinha onde o tária que foi com a minha cara, só sei que enviado do Rio de Janeiro para administrar quando o chefe perguntou a ela quem escol­ a emissora dormia e dividia com o estúdio. heria, foi pra mim que ela apontou”, relem­ O menino, que a mãe ainda vestia com as bra com um olhar de quem já viveu muito, calças cortadas dos mais velhos, sonhava mas ainda guarda na lembrança aquele dia em ser um dos ídolos da cidade que acor­ em que o moleque de calça curta, começou a dava e dormia ao som do rádio. realizar seu sonho. “Meu único registro na Em julho de 1958 um anúncio busca­ Carteira de Trabalho, é o da rádio. É difícil va um jovem auxiliar de escritório para a encontrar alguém com um só emprego por Rádio Imprensa e José foi um dos primeiros tanto tempo”, afirma Cunha, ao lembrar que na fila para disputar o emprego. O teste foi só não trabalhou na Imprensa quando seu Cunha em foto de 1962, operando o microfone ­ e o telefone ­ durante apresentação do programa Peça Arquivo Pessoal 16
  • 4. pai o mandou para internato de padres em Uma voz na cidade Silvânia, cidade a 60 km de Anápolis, pois, “Um dia o diretor da emissora me para seu Gabriel, antes de tudo vinham chamou: Zé, você vai ser locutor. Com medo, os estudos. Tudo ia bem até que o garoto disse que não sabia falar no rádio. ”Você não repetiu duas vezes de ano na escola. A ra­ sabe conversar? Então senta aí e conversa zão? Com tanto por fazer na rádio não so­ com o povo”. Era o nascimento do “Peça e brou muito tempo para estudar. A solução Ouça”, o primeiro programa apresentado foi drástica e, por pelo menos um ano, ele por José Cunha. “Foi por causa desse pro­ teria de ir para um lugar onde os discos do grama que eu conheci a Vera”, contou ele, Roberto Carlos, então febre entre a moçada, chamando a esposa para a conversa. não poderiam chegar. “Quando eu falei que queria conhecer o Sem ter como exercer a profissão que Zé, mamãe ficou muito brava e me falou: ­ tanto o fascinava, e sabendo que por um Homem do rádio não presta, se afasta desse bom tempo não poderia mais ir para a rá­ povo minha filha,” relembra Vera Lúcia. Na dio, criou a própria “emissora”, em Silvânia. época, tinha 13 anos e queria conhecer o Com o alto falante que dava para o pátio, homem que falava na rádio. Todo dia era a todos os dias no intervalo entre as aulas mesma ladainha, ouvido colado no aparelho apresentava programas e lia textos. Aquele e vontade de usar o telefone. O programa ano, 1961, seria o único em que Cunha fi­ era um dos mais populares da cidade. caria fora da Rádio Imprensa, mas não. “Nas Era 1965, Anápolis seguia o progresso férias eu dava um jeito de escapulir do meu trazido pela construção de Brasília logo ali pai e ir trabalhar lá o dia todo”. do lado. Alheia a isso, Vera Lúcia queria 17
  • 5. k mesmo era conhecer o tal locutor José. Um m l adultos e netos para mimar, entre uma xícara dia, no passeio em frente a rádio, deu de cara e outra do café preparado por dona Vera, com seu locutor preferido. A moça imagi­ eles contam como o rádio foi o responsável nava que aquela voz possante viria acom­ pela união, pela família e pela vida que cons­ panhada de um homem alto, forte, bonito. truíram depois daquele encontro na calçada O rapaz não era nada disso. “Magricela, es­ em frente a rádio. tatura mediana, e nenhuma beleza especial, não era nada do que eu esperava”, relembra De locutor a diretor Vera, entre risos. Em 1972, já casado e com filhos, Cunha O primeiro encontro aconteceu. José tinha feito quase tudo na emissora. “Fui dis­ Cunha, o locutor da rádio Imprensa, de 20 cotecário, técnico de som, operador de áudio o anos, e Vera Lúcia, moça bonita com seus 13 anos. O diálogo ainda en­ cabulado foi curto e terminou com uma promessa de José: “Amanhã o pro­ e locutor. A gente fazia as coisas por amor, ficava no lugar do colega, mesmo que não fosse nossa função”, relembra ele de uma época em que o rádio ainda era quase artesa­ grama será todinho pra você”. Cerca de nal e a programação local. Muitas transfor­ uma hora de músicas em sua homenagem foi mações aconteceram desde então. mais que suficiente. Vera já se esquecera do Um dia o diretor da rádio foi para outro desapontamento do dia anterior e suspirava estado.“Ele foi ver se dava certo no novo em­ de amor pelo apresentador Cunha. prego, eu fiquei no cargo temporariamente”. Depois de vencer a família que achava Mas durou 36 anos. Nesse tempo, José Cu­ que gente do rádio “não prestava”, eles con­ nha tratou de cuidar da rádio e modernizá­ seguiram autorização para namorar. Foi o la. “Quando o Zé assumiu, até o carpete era primeiro namoro dos dois, que nunca mais cheio de rasgados” relembra Vera, com ar de se separaram. 43 anos depois, três filhos dona­de­casa zelosa. O amigo Pastinha, Vera e seu Cunha ao fundo 18
  • 6. Não foi só da parte física que José mo­ der nizou. Um contrato com a Rede LC de São Paulo pôs de vez Anápolis na rota da integração nacional. “A gente exibia rádio­ novelas feitas por grandes atores do Rio, programas esotéricos, programação de alto nível”. Nesse tempo virou preferência abso­ N luta entre as emissoras da cidade. “A gente chegou a ter 75% da audiência”. Era um tem­ po em que a televisão não tinha ganhado o gosto dos anapolinos, a internet só chegaria mais de duas décadas depois e o rádio, junto com o cinema, eram as principais formas de divertimento. “Quando exibíamos a rádio­ novela ‘O Direito de Nascer’ a cidade parava. Bares não abriam e as sessões do cinema só começavam depois que o capítulo acabava”, rememora Cunha saudosamente. Mesmo com a programação de rede na­ cional, a Imprensa AM não perdeu o seu ca­ ráter local. “Nós tínhamos janelas na pro­ gramação para falarmos de assuntos daqui. prada por uma igreja evangélica. No caso da Mostrar nossos talentos sempre foi um Imprensa AM, foi a Igreja Inter nacional da compromisso que eu tive”. Se reinventando Graça de Deus, que adquiriu seu controle. a cada ano, mostrando o povo da cidade, os A utilidade pública deu lugar a religião e debates nas eleições locais, e dando uma a equipe montada com primor foi desfeita. visão que a pequena mídia local não tinha “Antes de sair, ajudamos os funcionários a estrutura para oferecer o tempo foi passan­ conseguir outras colocações e indicamos do. “Quando a moda era Axé, nós tocáva­ muitos para continuar lá. Vender a rádio era mos, quando o povo queria era jor nalismo, a nossa última opção e todos que estavam lá gente também exibia. Nossa rádio tinha essa sabiam disso”, relembra. função de ser o porta voz dos moradores de Ao falar do fim do sonho que começou Anápolis”. Ficaram famosos na cidade os ainda criança, não notamos no olhar de José programas especiais reunindo música, cul­ Cunha abatimento, ou mesmo nostalgia, e tura, cinema e artes, entre outros, produzi­ sim serenidade. O que Cunha transmite é a dos pelo pessoal da rádio e amigos de Cunha, sensação de que cumpriu o seu dever, viveu como Pastinha. intensamente cada um dos dias de meio Com o tempo, a emissora não suportou século. A definição para todo esse tempo, a concorrência com a TV e a internet, cada José Cunha tem na ponta da língua. “Não sei vez mais populares, e teve o mesmo fim que se o rádio foi a melhor ou a pior coisa que eu todas as outras rádios da cidade, foi com­ fiz, mas com certeza foi a maior”.