A lei 10.639,sancionada em 2003 no Brasil, traz em seu texto a obrigatoriedade do ensino de história e cultura
afro-brasileira dentro de todas as disciplinas que fazem parte da grade curricular. Além de estabelecer o dia 20
de novembro como o dia da consciência negra no calendário escolar.
O intuito da educação antirracista é fortalecer a valorização da identidade negra e da importante trajetória dos
negros em nossa cultura, ao invés de trazer a equivocada visão do colonizador. E isso vai muito além de aplicar
a lei em sala de aula. Quando falamos dessa educação antirracista, não estamos falando apenas em coibir as
falas e ações preconceituosas, mas em fortalecer a valorização da identidade africana, afro-brasileira e
indígena na escola durante todo o ano, de janeiro a dezembro, em todas as disciplinas e espaços escolares.
Para que exista uma educação antirracista precisamos aceitar que vivemos em uma sociedade racista. E que é
imprescindível que ocorra mudanças em nosso discurso e também no currículo escolar. E para isso, é
importante trabalharmos questões raciais, culturais e de representatividade, além de trabalhar com a
diversidade como um valor.
Muitas vezes, nós professores reclamamos da falta de materiais de referência, há também relatos de docentes
que não se sentem confortáveis em abordar o tema por não terem domínio sobre o mesmo. O educador
precisa estar bem preparado para debater e problematizar o assunto na escola. E por isso, um material de
referência, para que o professor possa se apropriar de alguns conceitos iniciais para posteriormente
aprofundar sua formação.
3.
Em primeiro lugar,precisamos diferenciar fato de opinião. Para isso, é preciso se formar e informar sobre
o assunto de maneira ampla, através da análise de séries, filmes, livros, hqs, documentários, podcasts,
vlogs, reportagens, noticiários, estudos acadêmicos, entre outros. Conectando os conteúdos de sala de
aula com a realidade dos alunos. Para isso, vamos deixar no final desse material, uma porção de
sugestões para você.
Depois de se envolver e se inteirar do assunto, precisamos conhecer alguns conceitos acerca do tema,
para que possamos falar sobre ele com propriedade. Mas não se preocupe, daremos uma pincelada neles
por aqui.
Após essa formação inicial, iremos pensar em como o tema atinge a nossa comunidade, nossa escola e os
nossos alunos. E trazer um debate inicial na sala dos professores, junto aos alunos, na escola e também
fora dela. É preciso falar sobre para ter a real dimensão do problema onde estamos inseridos.
E por fim, chega a hora de pensar em projetos, atividades e estratégias a serem trabalhadas, visando a
erradicação da “cultura racista” na comunidade escolar em que atuamos.
4.
Cada vez mais,estamos vendo protestos antirracistas tomarem as ruas de vários países, puxados pelo
movimento Black Lives Matter (que quer dizer, Vidas Negras Importam), discussões sobre casos de
racismo ganham mais espaço na mídia e nas redes sociais a cada dia.
Mas o que é o movimento Black Lives Matter?
É um movimento político e social que se originou nos Estados Unidos em 2013, por
3 ativistas negras americanas: Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi. O que começou como uma luta
contra a brutalidade policial norte-americana contra negros, se transformou em um movimento mundial
pelos direitos da população preta.
A luta do movimento se dá em forma de protestos e pressão política contra a violência dirigida ao povo negro,
além da cobrança de posicionamento da sociedade em geral. Se expressam por meio de marchas, protestos e
também nas redes sociais com o uso das seguintes hashtags: #blacklivesmatter, #vidasnegrasimportam ou
#BLM.
As ações do grupo inspiraram também discussões sobre racismo e violência policial em todas as partes do
mundo. Os protestos, em geral, são pacíficos, mas casos de depredação, reações violentas das forças policiais
e conflitos costumam ganhar atenção da mídia. Além de apoio de artistas, famosos, esportistas, pessoas
públicas, empresas, etc.
5.
No Brasil, tivemostrês séculos de escravidão e foi o último grande país ocidental a extinguir a escravidão. E
como aconteceu na maioria dos outros países, o Estado não criou um sistema de políticas públicas para
inserção dos escravos libertos e seus descendentes na sociedade. Ou seja, não houve uma preocupação
com a garantia de moradia, saúde, alimentação, estudo formal e inserção no mercado de trabalho. Os
escravos recém libertos foram habitados em locais onde ninguém queria morar, como os morros, formando
assim as favelas, sem nenhuma condição básica para sua sobrevivência. Hoje, cerca de 130 anos depois, os
reflexos desse abandono ainda se fazem presentes e essa população ainda é marginalizada.
O Brasil é o país com a maior população negra fora da África. No entanto, essa população está sub-
representada em todos os âmbitos da vida social, ou seja, são minoria na política, nos cargos públicos, nas
universidades, na televisão, etc.
A luta dos movimentos negros organizados contra o racismo no Brasil, já tem uma longa história, mas
inspirados pelo movimento americano, passaram a também fazer uso das hashtags e a se organizar pelas
redes sociais para suas manifestações sob o grito de “VIDAS PRETAS IMPORTAM”, ampliando o alance nas
mídias.
6.
O debate sobrea discriminação e o racismo é urgente e necessário em todas as esferas da sociedade. A
discriminação racial é crime previsto na legislação brasileira e também está nos principais documentos
internacionais de direitos humanos. Ainda assim, não ajudam a erradicar os impactos sofridos pelo povo
negro.
Sabemos que 56% da população brasileira se autodeclara negra ou parda. Diante disso, vamos a alguns
dados:
Os negros são apenas 29% nos cargos de chefia.
Dentre os deputados federais, os negros somam 24% .
No emprego informal temos 47% de negros.
Os negros são 65% da população carcerária no país.
Dados da CPI do Senado Federal informam que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos no país.
Sabemos ainda, que cerca de 80% das pessoas assassinadas pela polícia em 2019 eram negras, segundo o
Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
Onde está a igualdade?
7.
De acordo como filósofo e jurista Silvio Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama (ONG que atua pela
igualdade racial), quando se admite a existência do racismo, cria-se automaticamente a obrigação moral de
agir contra ele:
— A negação é essencial para a continuidade do racismo. Ele só consegue funcionar e se reproduzir sem
embaraço quando é negado, naturalizado, incorporado ao nosso cotidiano como algo normal. Não sendo o
racismo reconhecido, é como se o problema não existisse e nenhuma mudança fosse necessária. A tomada
de consciência, portanto, é um ponto de partida fundamental.
— Os brasileiros entendem que é lá fora que existe ódio racial, não aqui. Acreditam que no Brasil vivemos
numa democracia racial, miscigenados, felizes e sem conflito. Essa é a perversidade do nosso racismo. Ele
foi construído de uma forma tão habilidosa que os brasileiros chegam ao ponto de não quererem ou não
conseguirem enxergar a realidade gritante que está bem diante dos seus olhos.
8.
As origens dessedia estão relacionadas aos esforços de movimentos sociais para evidenciar as desigualdades
históricas que ainda hoje afetam o povo negro no Brasil. A data escolhida, 20 de novembro, coincide com a data
da morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), líder do Quilombo dos Palmares, no período colonial
brasileiro.Desde a década de 70, essa data vem sendo utilizada para relembrar as condições desumanas da
escravidão no Brasil e as formas de resistencia dos povos escravizados.
Os quilombos eram agrupamentos de escravos foragidos das fazendas coloniais, lá os ex-escravos se
organizavam para garantir sua subsistência e a reprodução de sua cultura. Esses locais eram frequentemente
alvo da violência dos senhores de escravos, que tentavam retomar o controle desses foragidos.
O quilombo dos Palmares fica localizado no estado de Alagoas e é a mais famosa comunidade de escravos
foragidos de nossa história. Seu último líder foi Zumbi, que assumiu a liderança quando o governo da Capitania
de Pernambuco negociava a submissão dos quilombolas à Coroa Portuguesa. Por não concordar com essa
Proposta Zumbi, desafiou Canga Zumba (que era o atual líder). Canga Zumba foi envenenado por um aliado de
Zumbi e este então assumiu a liderança. No final do século 17, o quilombo foi alvo de diversos ataques de
bandeirantes, Zumbi foi caçado e morto e sua cabeça foi exibida em praça pública para desencorajar os demais
escravos.
9.
O que é,afinal, racismo estrutural?
Segundo o pensador contemporâneo Silvio de Almeida, o racismo não é uma questão individual ou
comportamental, mas um assunto fundamental para a compreensão da nossa sociedade e de suas
desigualdades.
Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que a sociedade é estruturada com base na
discriminação e que privilegia uma raça em detrimento de outras. Assim, pode se dizer que o racismo
estrutural é a naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que fazem parte da vida
cotidiana do povo brasileiro, e que promovem direta ou indiretamente a segregação e o preconceito.
O THINK TANK Aspen Institute, define o racismo estrutural como: “Um sistema no qual políticas públicas,
práticas institucionais, representações e outras normas funcionam de várias maneiras, muitas vezes
reforçando, para perpetuar desigualdade de grupos raciais identificando dimensões de nossa história e
cultura que permitem privilégios associados à “brancura” e desvantagens associadas à “cor negra”. O
racismo estrutural não é algo que poucas pessoas ou instituições optam praticar, mas uma característica
dos sistemas sociais, econômicos e políticos.
10.
Levar para adiscussão em sala de aula reportagens (escritas e em vídeo), manchetes de jornal, debates
sobre o tema (trechos do Roda-viva, por exemplo) sobre:
- Casos de assassinatos de pessoas negras que mobilizaram as redes sociais e noticiários recentemente.
- Os protestos antirracista noticiados nos EUA e no Brasil.
- Assuntos com questões raciais que já aconteceram dentro da escola.
- Debates entre os alunos.
- Notícias de sites ou veículos jornalísticos confiáveis, pesquisas, documentos históricos são bons pontos de
partida para a discussão nas aulas.
- Trazer pessoas que possam falar aos alunos com propriedade, pessoas de referência em movimentos
sociais e na luta anti racista.
- Indicar séries, livros, documentários, filmes e podcasts.
11.
Ou seja, amaioria da população se
autodenomina preta ou parda, somando 56,2%
segundo o IBGE.
Segundo o gráfico, 47,4% dos
trabalhadores sem registro em
carteira são negros.
12.
Nesse gráfico, temosum dado que mostra a
falta de acesso da população negra a cargos de
liderança: nenhum dos longas de 2016 tinha
uma mulher negra como diretora e apenas 2,1%
foram dirigidos por homes negros..
Neste segundo gráfico, vemos como os brancos
dominam os elencos dos filmes brasileiros.
13.
Segundo dados doSaeb (2017) 74% dos jovens brancos concluem o Ensino Médio com até 19 anos, contra
apenas 53,9% dos negros conseguem o mesmo feito. Outro dado traz a seguinte situação, 59,5% dos
estudantes brancos cursando o 5 ano tiveram uma aprendizagem adequada no ensino da matemática,
enquanto somente 29,9% dos negro se encaixam nesse quadro.
15.
- Utilize osgráficos considerando os saberes já adquiridos pelos estudantes em relação ao tema, propondo
um diálogo para que observem e analisem os gráficos.
- Use os gráficos para problematizar o tema por meio de questões disparadoras (Por que a população
brasileira não se declara mais como branca? O que levou a população brasileira a se declarar como parda?
O que leva a população preta e parda a procurar empregos informais?).
- Uma boa sugestão é apresentar os gráficos e montar com os alunos uma tempestade de ideias que irá ser
a base para a produção de um texto argumentativo.
- Em um momento de problematização, é possível utilizar os gráficos para problematizar o tema por meio
de questões disparadoras (Quantos youtubers/influenciadores digitais negros você conhece? Quais negros
você lembra ter representatividade atualmente na mídia? Quais papéis são destinados aos negros nas
telenovelas brasileiras?).
16.
1. Lovecraft Country:racismo e terror
Questões em foco: Racismo e História dos
Estados Unidos (Leis de Jim Crow, Direitos
Civis)
Onde assistir: HBO Brasil
2. Watchmen: super-heróis contra a
supremacia branca
Questões em foco: Violência racial e
grupos extremistas da supremacia branca
Onde assistir: HBO Brasil
3. Olhos que condenam: a história real da
luta por justiça
Questões em foco: Erro judicial e
preconceito racial
Onde assistir: Netflix
17.
4. Cara gentebranca
Questões em foco: Apropriação cultural e
discurso antirracista
Onde assistir: Netflix
5. AFRONTA!: breves depoimentos de
personalidades negras no Brasil Questões
em foco: Representatividade, autonomia e
igualdade racialOnde assistir: Netflix
6. 13ª Emenda: um documentário sobre o
encarceramento em massa
Questões em foco: Injustiça racial e
encarceramento em massa
Onde assistir: Netflix
18.
7. Libertem AngelaDavis: mulher, raça e
classe em foco
Questões em foco: tensão racial,
preconceito, representatividade
Onde assistir:
Disponível em DVD e também no Youtube p
8. Pantera Negra: um clássico
contemporâneo
Questões em foco: representatividade e
luta antirracista
Onde assistir: Disponível em DVD ou no
Disney +
9. Corra!: o terror do racismo estrutural
Questões em foco: Racismo estrutural e
preconceito velado
Onde assistir: Telecine