Caderno de Conservação e Restauro de Obras de

Arte Popular Brasileira
UNESCO

Representação da UNESCO no Brasil
Representante
Vincent Defourny

Coordenação para a área de Cultura
Coordenadora
Jurema Machado




Museu Casa do Pontal

Diretora-presidente
Angela Mascelani

Vice-presidente
Jacqueline Van de Beuque

Patrocínio Institucional
Ministério da Cultura
BNDES
Petrobras
Light

Parceria Institucional
IPHAN / Departamento de Museus e Centros Culturais




Museu Casa do Pontal
Estrada do Pontal, nº 3295, Recreio dos Bandeirantes
Rio de Janeiro – RJ – Brasil – CEP: 22785-580
Tel/fax: (55) (21) 2490-3278 2490-4013
institucional@museucasadopontal.com.br
www.museucasadopontal.com.br
www.popular.art.br
Caderno de Conservação e Restauro de Obras de

Arte Popular Brasileira
                    ______
                    1a edição




              Rio de janeiro | 2008
Caderno de Conservação e Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira
© Associação de Amigos da Arte Popular Brasileira - Museu Casa do Pontal / Unesco




Coordenação
Museu Casa do Pontal                                                   Documentação fotográfica
                                                                       Lucas Van de Beuque
Pesquisa e textos
Ana Gabriela Dickstein                                                 Revisão de conteúdos
Angela Mascelani                                                       Simone Mesquita
Joana Ortigão Corrêa
Moana Van de Beuque                                                    Revisão de textos
Sergio dos Santos                                                      Sergio Lamarão
                                                                       Elisa Rosa
Produção Editorial
Ana Gabriela Dickstein                                                 Projeto gráfico
Joana Ortigão Corrêa                                                   Clarice Soter
                                                                       Eneida Déchery
Consultoria
Ione H. Pereira Couto                                                  Agradecimentos
                                                                       COPPE/UFRJ, CECOR/UFMG, Museu Nacional/UFRJ,
Procedimentos museológicos                                             Museu de Folclore Edison Carneiro, Museu Histórico
Sergio dos Santos                                                      Nacional, Museu do Índio e Museu da Chácara do Céu.




                              Caderno de Conservação e Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira /
                              Museu Casa do Pontal. Rio de Janeiro: Associação dos Amigos da Arte Popular
                              Brasileira; Brasília: UNESCO, 2008
                                  60 pp. ; 19,5 x 26,8 cm
                                  ISBN 978-85-60346-01-1
                                  1. Museologia. 2. Conservação e Restauro. 3. Arte Popular Brasileira.
                                  I. Museu Casa do Pontal. II. UNESCO




Este caderno foi produzido no Contexto de Cooperação UNESCO / Associação dos Amigos da Arte Popular Brasileira – Museu Casa
do Pontal, Projeto “Caderno de Conservação e Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira”, contrato nº CLT05999/2006. As opi-
niões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a visão da UNESCO sobre o assunto.
07   Abertura | UNESCO - Vincent Defourny
09   Abertura | Museu Casa do Pontal - Angela Mascelani
13   O diálogo com os parceiros:
     implantação de uma política de conservação participativa - Ione H. Pereira Couto

19   I. Considerações sobre conservação e restauro na arte popular brasileira
19   1. As múltiplas interfaces dos processos de conservação e restauro
22   2. Documentação de acervos
24   3. Conservação preventiva
27   4. Conservação e restauro

31   II. Procedimentos básicos de conservação e restauro
31   1. Procedimentos iniciais
32   2. Limpeza
32   2.1. A seco	
32   2.2. Em meio aquoso
33   2.3. Com solvente
33   2.4. Com tolueno
34   3. Imunização
34   4. Restauração de partes danificadas
35   4.1. Colagem de partes que se quebram ou se descolam 			
     sem comprometer a sustentação
35   4.2. Colagem de partes em que houve fragmentação
35   4.3. Recuperação da sustentação
36   4.4. Recomposição estética
37   4.5. Recuperação da estrutura
38   4.6. Faceamento

39   III. Conservação e restauro em obras do acervo do Museu Casa do Pontal
40   1. Lavadeira, de Zé Caboclo
42   2. Casal com bebê, de Noemisa
44   3. Eletricista Trabalhando, de Luiz Antonio
46   4. Aguadeiro, de Domingos
48   5. Cidade baixa com dois grandes prédios, de Dadinho
50   6. Lampião e Maria Bonita, de Manuel Graciano
52   7. Escravidão, de Saúba
54   8. Serra Pelada, de Adalton

56   Bibliografia consultada
Obra de Mestre Vitalino, Alto do Moura, PE – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini
Abertura | UNESCO
     Assim como o conhecimento transcende, cada vez mais, as fronteiras das especialidades, o desafio
atual da UNESCO tem sido tratar de maneira articulada e complementar seus programas e instrumentos
normativos na área da Cultura. E nesse ambiente de interdisciplinaridade, os Museus são vistos como
um espaço-síntese para um enfoque integrado do patrimônio e da diversidade cultural, uma vez que re-
presentam, por excelência, espaços educadores para a compreensão mútua e a coesão social. Com base
nesses pressupostos, a UNESCO tem optado por focalizar sua ação na área de Museus nos países menos
desenvolvidos, nas regiões de conflito e nas coleções mais significativas para a compreensão integrada
do patrimônio e sua potencial contribuição para o desenvolvimento econômico, social e humano.
     Elemento central dessa estratégia é a construção de programas de formação para profissionais que
atuam nos mais diversos contextos, muitos deles demandados a gerir ou a agir diretamente sobre temas que
requerem uma vasta gama de áreas de conhecimento e de habilidades, desde a promoção de programas
educativos, até a conservação preventiva e a segurança das coleções. Por essa razão, os programas de
formação promovidos ou apoiados pela UNESCO têm privilegiado as técnicas simples e eficazes para a sal-
vaguarda das obras, produzido material pedagógico e reforçado as redes de profissionais e de associações.
     A contribuição da UNESCO ao Museu Casa do Pontal para a sistematização e difusão do seu
conhecimento sobre conservação de sua coleção de arte popular alinha-se perfeitamente com as
preocupações e prioridades que descrevemos.
     O Museu reúne um conjunto de práticas exemplares, a começar pela origem da coleção, resultado do
rigor e da persistência de anos de um particular, situação ainda tão rara no Brasil. Jacques Van de Beuque
reuniu, e hoje estão disponíveis ao público, peças de arte popular de todo o país, objetos até então condena-
dos à efemeridade, não apenas pelo seu suporte físico, mas por não serem considerados arte, menos ainda
merecedores de tratamento museológico. Essa origem se relaciona diretamente com a vocação do Museu
do Pontal para as parcerias, para o trabalho integrado com a comunidade e para a educação.
     Por utilizarem os materiais que se tem à mão, sobretudo o barro e a madeira, ou outros ainda mais
frágeis e diversos, como a areia, palha, contas, tecidos, latões, penas de aves, e, ainda, por não terem sido
produzidos com a intenção consciente de perenidade, os objetos de arte popular desafiam as técnicas de
conservação. Somente o enfrentamento cotidiano de uma variedade de situações concretas poderia dar sub-
sídio a um mínimo de generalização, se não de técnicas, pelo menos de critérios que possam ser transporta-
dos para outras situações. Esse é o resultado imediato que almejamos ter alcançado com esse caderno.
     Mas, além de um manual que possa ser disseminado entre os museus com vistas à conservação de
coleções análogas, pretende-se um pouco mais.
     É importante estimular a conservação de acervos existentes, não disponibilizados ou precariamente
disponibilizados ao público, valorizando e ampliando o acesso à produção de arte popular em um país
tão vasto e diverso como o Brasil. Segundo Angela Mascelani, diretora do Museu Casa do Pontal, essa
produção que “apresenta os principais temas da vida social e do imaginário - seja por meio da criação de
seres fantásticos ou de simples cenas do cotidiano - numa linguagem em que o bom humor, a perspicácia
e a determinação têm lugar de destaque. (...) tem um “forte poder de comunicação, que ultrapassa as
fronteiras de estilos de vida, situação socioeconômica e visão de mundo, interessando a todos de maneira
indistinta.” Além do seu valor em si, pode desempenhar um papel importante na valorização das práticas,
dos conhecimentos e das visões de mundo de parcela da população cujas expressões são pouco ou nada
visíveis, apartada dos museus e das oportunidades de trocas culturais mais justas e equilibradas.

                                                                                     Vincent Defourny
                                                                    Representante da UNESCO no Brasil
Obra de de Manuel Galdino, Alto do Moura, PE – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Aníbal Sciarretta
Abertura | Museu Casa do Pontal
    O Museu Casa do Pontal é considerado            des de pesquisa, educação, preservação e di-
atualmente o maior e mais significativo mu-         vulgação. Dessa forma, a instituição construiu
seu de arte popular do país. Está instalado em      alicerces que permitem que o acervo seja so-
um sítio de 12.000 m² localizado no bairro do       cialmente protegido e amplamente usufruído.
Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste da          Em 1991, parte significativa da coleção e da
cidade do Rio de Janeiro, a poucos metros do        edificação foram tombadas pelo Conselho de
mar. Seus amplos jardins foram especialmente        Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural do
desenhados para promover a integração entre         Rio de Janeiro. O Museu já promoveu mais de
a vegetação, as galerias do museu e a reserva       quarenta exposições no Brasil e em 13 diferen-
ecológica que se estende em torno.                  tes países. Desde 1996, desenvolve um Pro-
    Seu acervo, resultado de 40 anos de pes-        grama Educacional e Social que, em 12 anos
quisas e viagens por todo país do designer          de atuação, já atendeu a mais de cento e cin-
francês Jacques Van de Beuque, é composto           qüenta mil participantes por meio de visitas
por oito mil obras, feitas por mais de duzen-       teatralizadas, exposições itinerantes e capa-
tos artistas brasileiros e produzidas a partir de   citação de educadores e gestores de projetos
meados do século XX. A exposição permanen-          sócio-culturais. A partir de 2006, a instituição
te exibe, em seus 1.500 m² de galerias, cerca       ampliou o leque de atividades culturais, ofe-
de 4.500 obras organizadas tematicamente. A         recendo, com maior regularidade, seminários,
mostra abrange conteúdos relativos às ativi-        oficinas e espetáculos.
dades cotidianas, festivas, imaginárias e reli-          A atuação do Museu Casa do Pontal em
giosas, com obras representativas de variadas       prol da divulgação e da democratização do
culturas rurais e urbanas do Brasil.                acesso à arte popular brasileira rendeu-lhe
    A missão do Museu é trabalhar pela me-          diversas premiações. Em 1996, recebeu o
mória, pelo reconhecimento e pela valorização       Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, con-
da arte popular do país, promovendo ativida-        cedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional, por sua ação a favor da      conta desses ou de outros métodos de limpeza.
preservação histórica e artística do acervo. Em         O que importa ressaltar é que houve um
2000, foi agraciado com o Prêmio D. Sebastião      “processo”, tumultuado e negociado, através
de Cultura outorgado pela Arquidiocese do Rio      do qual as próprias pessoas da família – além
de Janeiro. Em 2005, o Museu foi condecora-        dos empregados, e seguramente, o coleciona-
do com a Ordem do Mérito Cultural, principal       dor – aprenderam a lidar com os objetos. Por
comenda de caráter nacional que é oferecida        se tratar de um gênero novo, suas regras de
pelo governo federal e o Ministério da Cultura a   conservação foram aparecendo à medida que
pessoas e instituições com relevantes serviços     a própria coleção avançava e se instituía en-
prestados à cultura. Em 2006, a Assembléia         quanto tal. Isso também mostra que havia uma
Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ofertou    técnica a ser aprendida.
à instituição a Medalha Tiradentes.                     O período de profissionalização da coleção
    É importante não perder de vista que essa      – quando ela muda de grandeza e estatuto,
atuação é o resultado de um processo no qual       passando de uma ordem simbólica à outra –
está implícita a disposição permanente para        inaugura um outro momento, no qual o acervo
a aprendizagem. Este caderno é fruto, exata-       torna-se público e novas formas de tratamento
mente, da longa trajetória do museu em prol da     se impõem.
conservação e preservação de seu acervo.                A especificidade e a variedade das maté-
    Um dia, essa coleção foi pequena. Cabia        rias-primas, presentes no conjunto total das
no espaço de uma pequena sala, mas, mesmo          obras, fizeram com que o Museu aprimorasse
assim, teve que receber cuidados especiais         técnicas e sistematizasse suas práticas.
para chegar até nós hoje. Recuperar alguns              Contudo, nem sempre é fácil falar sobre
dados acerca da história da formação dessa         a construção de certos conhecimentos que
coleção pode ter uma dimensão didática im-         passam ao largo da escolaridade formal e
portante. Iniciada como uma coleção privada        da vida acadêmica. Quando Jacques Van de
em 1952, as obras começaram a ser acumu-           Beuque criou este acervo, ele o fez, em parte,
ladas, sem muita reflexão, como parte de um        maravilhado com a destreza, a capacidade e
projeto de ordem íntima. Integrante do universo    a fluidez dos artesãos e artistas na feitura de
essencialmente doméstico, os objetos ainda         obras sobre os mais variados temas e formas.
transitavam um pouco ingenuamente pelos            Ele estabeleceu uma relação de identidade
cômodos da casa, sem um lugar determinado.         com os artistas populares e também assumiu,
Os cuidados que eles recebiam também eram          sem nenhum constrangimento, que não dese-
muito simples e visavam, sobretudo, evitar o       java teorizar sobre o assunto: apenas compra-
acúmulo de poeira.                                 va as obras que o instigavam, deixando sua
    Qualquer pessoa que tenha tido objetos         imaginação fluir em consonância com o que
desse gênero em casa, especialmente as ce-         concebia como sendo a própria essência desse
râmicas, pode testemunhar o quanto é difícil       fazer. A construção do acervo uniu-se à cons-
mantê-las “inteiras” por longo tempo. No caso      trução de sua própria vida. Assim, Jacques
em questão, as regras sobre a conservação das      olhou para si e para os artistas e, desse modo,
esculturas e modelagens foram sendo “desco-        cuidou para que esse acervo chegasse íntegro
bertas” através da prática. Ou seja, é provável    aos dias atuais.
que os objetos tenham passado por uma limpe-            Pode parecer paradoxal que Jacques Van
za geral em algum momento, assim como é pos-       de Beuque não fosse um homem de museus.
sível que muitas peças tenham se quebrado por      Não havia trabalhado em um, nem havia es-


                                  10
tudado na universidade para isso. A coleção        grando exposições itinerantes e na exposição
se deu a partir de seu investimento afetivo, de    permanente. Além disso, com o passar do
seu “apaixonamento” pela arte popular, de seu      tempo, aparecem os desgastes maiores, tanto
interesse em produzir algo que viesse a suprir     para o próprio acervo como para a edificação
uma lacuna na sociedade, de sua obstinação         que o abriga, para os jardins e para as áreas
em aprender de maneira autodidata. Contudo,        sombreadas. Até o aumento de público impli-
embora não tenha estudado museologia, fre-         ca em tempo maior de luzes acesas sobre as
qüentava museus e especializou-se nesse mé-        obras e em providências a serem tomadas no
tier durante a vida por meio de sua profissão de   sentido de minimizar sua deterioração.
designer de exposições.                                 As técnicas de vanguarda existem, mas
     Reunindo sua curiosidade intelectual, sua     também é sabido que os recursos para ma-
capacidade analítica, seu interesse pela siste-    nutenção de acervos não são abundantes.
matização, colocou-os, todos, a trabalhar para     Portanto, é necessário contar com o trabalho
a consecução de seu objetivo: criar um acervo      de pessoas habilidosas, que colaborem com a
e um espaço no qual as pessoas pudessem co-        preservação dos objetos ao longo dos tempos.
nhecer a arte feita pelo povo brasileiro em toda   Isso não implica em descartar a importância
sua grandeza.                                      dos especialistas, dos estudantes que fizeram
     Essa mesma inspiração esteve radical-         a universidade e foram se aperfeiçoando pouco
mente presente no projeto deste museu. Em-         a pouco porque esse tipo de conhecimento é
bora, inicialmente, não houvesse nem restau-       cumulativo e os problemas que ocorrem podem
radores nem museólogos, isso não quer dizer        sempre se apresentar de novas maneiras. Uma
que Jacques Van de Beuque tenha se colocado        quebra nunca é exatamente igual à outra.
à parte das discussões que se travavam nes-             Como na vida dos homens, a diversidade
ses ambientes. Além de assinante de revistas       também prepondera na vida dos objetos. Aliar
e publicações especializadas em museus e ex-       os saberes é a maior virtude que conservadores
posições, sempre que possível ele consultava       de uma instituição ou colecionadores podem
e contratava profissionais brasileiros, quando     ter. O que se deseja é que todos os trabalha-
a necessidade e o dinheiro apresentavam-se         dores do museu possam colaborar na manu-
juntos, coincidiam. Mas essas ocasiões eram        tenção preventiva de seu acervo. O objetivo do
raras. Na maior parte das vezes, cercou-se de      Caderno de Conservação e Restauro de Obras
pessoas não formalmente especializadas, de         de Arte Popular Brasileira é transmitir a expe-
marceneiros, pintores, mestres de obras, estu-     riência adquirida pelo Museu Casa do Pontal
dantes de arte e arquitetura, desenhistas, de-     ao longo de trinta anos. Temos sempre o que
signers – autodidatas na arte da restauração.      aprender e trocar. Aqui, compartilhamos o co-
     A lição que esse caderno traz é justamente    nhecimento que adquirimos, e que tem sido
que se podem unir saberes de origens muito         aplicado em favor da proteção do patrimônio
diversas e obter bons resultados. É evidente       cultural brasileiro que nasce das camadas
que não defendemos a precarização do tra-          populares e representa parte fundamental da
balho de conservação e restauro, entre outros      memória, do imaginário e do potencial criativo
motivos porque as múltiplas funções desem-         de nosso país.
penhadas na atualidade pelos museus trazem
maiores desgastes para as obras. Hoje, os
acervos estão mais dinamizados: em viagens,                                    Angela Mascelani
emprestados para instituições locais, inte-                     Diretora do Museu Casa do Pontal


                                                              11
Obra de Nhozim, São Luís, MA - acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Lucas Van de Beque
                                           12
O diálogo com os parceiros:
implantação de uma política
de conservação participativa

    Os museus não são lugares naturais. Foram – e são – construídos com vários objetivos, sendo
uma de suas premissas básicas preservar os objetos para perpetuar sua existência. O ato de
preservar inclui coleta, aquisição, acondicionamento e conservação dos bens materiais. Porém, o
simples fato de serem objetos de museus não garante, a princípio, sua sobrevivência, visto que
vários deles foram e são elaborados com materiais cuja permanência só é alcançada devido ao
trabalho constante de conservação. Devido a esta característica, quando o processo de deteriora-
ção se instaura por fatores endógenos ou exógenos é necessário intervir, sendo a restauração um
dos caminhos mais comuns.
    A variada tipologia de objetos existentes em acervos museológicos é um dos grandes proble-
mas enfrentados pelos profissionais dos museus quanto à adoção de política de preservação de
seus bens materiais. Assim sendo, as informações levantadas a partir de cada objeto da coleção
tornam-se reducionistas, pois não basta registrar a autoria do objeto, a matéria-prima emprega-
da, fazer um estudo sobre o produtor (indivíduo ou grupo), conhecer o contexto de produção ou
levantar os significados práticos e metafísicos que acompanham os objetos. Inserido em coleções,
sua existência e permanência vão demandar outros níveis informacionais, associados a uma sis-
temática de procedimentos concretos por parte daqueles que os conservam.
    Mas por que é necessário preservar os objetos de coleção? Muito se vem falando sobre
“coleções”. Para o historiador alemão Philipp Blom, as coleções ajudam a livrar os indivíduos
da impotência de não poder coordenar tudo, inclusive suas próprias vidas. Tal afirmação remete
a uma observação feita por Auguste Comte1 sobre o equilíbrio mental promovido pelos objetos.
Para ele, os objetos com os quais estamos em contato diário ajudam-nos a manter o equilíbrio
mental, visto que mudam pouco e oferecem-nos uma sensação de permanência e estabilidade.
Assemelham-se a uma sociedade silenciosa e imóvel, indiferente à nossa agitação e às nossas
                                                                                                   1. In: HALBWACHS, Maurice. A
mudanças, dando-nos a impressão de ordem e quietude. Mesmo estando alheios ao entorno,
                                                                                                   memória coletiva. São Paulo:
os objetos levam, ao mesmo tempo, a nossa marca e a dos outros; eles nos prendem a uma             Vértice, Editora Revista dos
determinada sociedade, sensível e invisível, pois servem como elementos de distinção social,       Tribunais, 1990. p.131.



                                                            13
revelam os nossos gostos, reportam-nos a costumes e tradições, evocam-nos o passado, tanto
pessoal como coletivo.
    As coleções também são comparadas a “retratos instantâneos”, visto que congelam momen-
tos que a investigação histórica é capaz de revelar, apontando as situações nas quais os objetos
se encontravam envolvidos quando da sua confecção. Vista dessa perspectiva, principalmente
pelo olhar daquele que contempla e que busca conhecer sua estrutura mais profunda, a coleção
revela que os objetos se encontram conectados a vários domínios, tanto aqueles relacionados
ao produtor do objeto, indivíduos ou grupos, como aqueles relacionados a quem os coleciona e
os conserva.
    Quanto ao produtor, podemos levantar informação sobre o meio social, econômico, seus valo-
res morais e religiosos. Podemos estudar questões referentes ao gosto, à estética e às preferências
no uso de determinadas matérias-primas. Podemos ainda, a partir de cada objeto, falar sobre os
significados práticos e simbólicos que ele carrega. Sondar estas produções significa olhá-las de
modo diverso, buscando esgotar a pluralidade de informações que acompanham cada objeto de
coleção, visto que estes se encontram relacionados a outros tantos que foram elaborados isolada-
mente e em momentos diferentes.
    Assim sendo, as informações obtidas a partir de cada item da coleção ampliam sua comuni-
cação, revelando o quanto cada objeto suporta de informação, uma vez que eles possuem marcas
específicas de memória, reveladoras da vida de seus produtores e usuários originais. Como es-
tas marcas não são imanentes, cabe à instituição que o abriga tanto preservar o objeto quanto
recuperar a informação que cada um carrega, qualificando-o como documento. Dessa forma, é
papel das instituições que abrigam acervos criarem métodos, mecanismos e práticas capazes de
garantir a conservação dos seus bens culturais. Daí a importância de preservar.
    A tarefa de preservar é central na gestão das instituições detentoras de acervos. A fim de ga-
rantir a existência e a permanência dos objetos colecionados, sobretudo em instituições pequenas,
é preciso conseguir a adesão de todos os profissionais que nela atuam. A adoção de medidas pre-
ventivas simples auxilia, de maneira fundamental, o trabalho especializado exercido pelos conser-
vadores, restauradores e museólogos. Este ponto é nevrálgico, pois envolve uma série de medidas
que requerem, por parte da instituição, a adoção de políticas de conservação que abarquem as
seguintes iniciativas: o treinamento do conjunto de trabalhadores, visando conscientizá-los do
“valor” dos bens culturais que ali se encontram depositados; a qualificação dos profissionais di-
retamente envolvidos com a preservação do acervo; a adoção de medidas de segurança mediante
a instalação de equipamentos contra furtos e sinistros; e por último, mas não menos importante,
a execução de melhoria das condições físicas dos locais onde os acervos se encontram. Essas
providências são fundamentais para assegurar a longevidade do acervo.
    Independente dos motivos que levam um determinado objeto ser selecionado em detrimento
de outro, o fato é que ser coletado significa ser valorizado e lembrado institucionalmente e ser
exposto significa ser incorporado à memória, extra-institucional, dos visitantes do museu. São mo-
vimentos realizados sobre o objeto por agentes públicos ou privados, que, por meio de um capital
simbólico ou político, viabilizaram a escolha. Quando nos detemos na análise das circunstâncias
que motivaram a reunião de um grupo de objetos em coleção, vemos que, na maioria das vezes,
as motivações foram orientadas pelo valor sentimental, pelo gosto, pelo valor científico ou ainda
pelo valor financeiro que cada objeto pode alcançar. Reunidos em coleções de museus, em centros
de memória, em casas de cultura, em projetos científicos, os objetos têm seu público ampliado


                                 14
e passam, então, pela primeira transformação, aquela que os organiza, tendendo a reuni-los de
forma a apresentar conteúdos de identidade cultural ou de conhecimento científico. É o caso de
muitos acervos particulares que se tornaram públicos ou passaram a constituir museus. No Rio de
Janeiro, temos como exemplos o Museu Casa do Pontal, o Museu Chácara do Céu e o Sítio Roberto
Burle Marx, entre outros.
    Temos ainda coleções que, montadas inicialmente como parte de uma pesquisa, foram, mais
tarde, integradas a instituições públicas, sendo os colecionadores orientados por variados obje-
tivos. Como exemplo, temos as coleções do Museu do Índio, reunidas por diversos antropólogos,
etnólogos e sertanistas que trabalharam, ou não, na instituição. Temos ainda museus ligados à
história dos países, como é o caso do Museu Nacional, que nasceu da coleção particular de D.
Pedro II e que hoje possui coleções de diversas origens e temas, ou do Museu Histórico Nacional,
que constituiu seu núcleo principal a partir de um projeto de construção de nação. Atualmente, os
museus comunitários inovam nas formas de constituição de acervos, reunindo objetos expressivos
na história e memória de grupos socialmente marginalizados.
    Os objetos inseridos em coleções acabam determinando investimentos de conservação, exi-
gindo daqueles que os conservam a implementação de práticas rotineiras de manejo e exposição.
Daí a necessidade da utilização de “soluções” corretas para a higienização das peças, associadas
a uma constante vigilância dos locais de acondicionamento e exposição, a fim de evitar a ação
de agentes deletérios como insetos, roedores, fungos e outros microorganismos que se ali se ins-
talam, seja devido à precariedade ou às características próprias dos ambientes de exposição, do
acondicionamento ou do mobiliário. Há que se considerar ainda os fatores climáticos que colabo-
ram para a deterioração das peças, como a umidade, a temperatura e a luminosidade.
    Por que é difícil conservar? Primeiro, porque os objetos, independente de estarem reunidos em
coleção, não foram concebidos para “durar para sempre”. Um segundo fator está relacionado à
ampla diversidade desse campo, cujas especificidades não são inteiramente contempladas pela
bibliografia existente, o que acarreta conseqüências para o trabalho exercido pelos profissionais,
que nem sempre têm a quem recorrer para esclarecer suas dúvidas. Um outro fator está ligado
às descontinuidades de recursos financeiros disponibilizados nas instituições, os quais, às vezes,
não são suficientes sequer para a manutenção de suas atividades.
    O diálogo proposto por esse Caderno de Conservação e Restauração de Obras de Arte Popular
Brasileira é bem-vindo, sobretudo porque se assumiu como premissa a tendência atual de agir
sobre o acervo utilizando-se de técnicas de conservação preventiva. Tais técnicas evitam trata-
mentos mais drásticos, enfatizando a prevenção em detrimento da cura, principalmente dos acer-
vos de arte popular e etnográficos, cuja bibliografia é mais restrita. O caderno também responde
ao crescente interesse pela conservação preventiva dos bens culturais, fazendo dela um campo
de trabalho interdisciplinar. Com efeito, a conversação preventiva vem sendo considerada como a
solução mais eficaz e econômica para a realidade brasileira.
    Consultando a literatura recente, percebemos que as técnicas, assim como os métodos em-
pregados, não se esgotam, do mesmo modo que não se esgotam os procedimentos adotados por
cada instituição. Isso se deve, em grande parte, à especificidade de cada acervo, o que acaba por
exigir o emprego diferenciado de técnicas de conservação; ao mesmo tempo, verifica-se que elas
não são nem únicas nem definitivas. Na medida em que novas pesquisas sobre materiais vão
sendo divulgadas, oriundas dos centros de ensino bem como de publicações especializadas, novas
práticas podem ser gradativamente implementadas.


                                                              15
Hoje já contamos com alguns cursos voltados para a formação profissional nas áreas de
                                   pesquisa, conservação e restauração, oferecidos por universidades, associações especializadas
                                   e entidades de classe, tanto em nível de graduação quanto em pós-graduação. O diálogo entre
                                   cientistas e profissionais de museus é elemento decisivo para o avanço nesta área. Notamos,
                                   tanto nos programas dos cursos que são oferecidos pelas instituições supracitadas como nos
                                   programas dos congressos, que o público-alvo são profissionais de áreas distintas, como museo-
                                   logia, química, física, engenharia, arquitetura e biologia, entre outros. A reunião de uma gama tão
                                   variada de pesquisadores oriundos das ciências exatas, biológicas e humanas, levou à geração
                                   de conhecimento sobre materiais e produtos que foram aproveitados, tanto no acondicionamento
                                   dos acervos quanto na higienização. Assim, podemos afirmar que o aperfeiçoamento dos métodos
                                   e técnicas empregadas na área de conservação e restauração é fruto da interdisciplinaridade, na
                                   busca de soluções técnicas e práticas para os mais distintos problemas.
                                        Atualmente, a conservação preventiva vem sendo apontada como a medida mais eficaz para
                                   os problemas enfrentados pelos profissionais da área de preservação de acervos museológicos.
                                   O conhecimento produzido nas mais distintas áreas visa identificar os fatores que interferem
                                   na estabilidade, assim como aqueles que danificam a estrutura dos objetos de coleção. O le-
                                   vantamento bibliográfico sumário das publicações recentes e a rápida leitura das referências
                                   bibliográficas dos textos e artigos voltados para a conservação de acervos museológicos reve-
                                   lam, o que não deixa de ser surpreendente, como a maioria dos textos está direcionada para a
                                   conservação e a restauração de acervos tradicionalmente ligados às práticas culturais ditas
                                   eruditas, oficiais ou mais refinadas.
                                        Esses textos encontram-se voltados para a conservação de telas, cuja base é o têxtil, princi-
                                   palmente o algodão, de esculturas de madeira ou pedra, de obras sobre papel, mobiliário e metal.
                                   Outros elementos surgem em menor escala, tais como as cerâmicas, os couros e as fibras vege-
                                   tais. Examinemos mais de perto estas últimas. As fibras vegetais mais abordadas são o algodão
                                   e o linho, além de outras, como o sisal, a juta e o líber, amplamente empregadas em várias partes
                                   do mundo, e também entre as populações regionais e indígenas do Brasil. Quando se tratam de
                                   cerâmicas, termo que abrange somente as cozidas, destacam-se principalmente a terracota, a
                                   louça, as faianças, as porcelanas e os arenitos. Por outro lado, a argila – simples ou decorada,
                                   com incisões ou pinturas – não vem sendo abordada, o mesmo ocorrendo com as peças de ces-
                                   taria, couro, borracha, sementes, espinhos, miçangas, penas, entre outros materiais. A plumária
                                   também serve como exemplo, uma vez que são poucos os artigos disponíveis a seu respeito e,
                                   além disso, a maioria deles está publicada em língua estrangeira, o que restringe muitas vezes a
                                   assimilação da informação.
                                        São estas matérias-primas comumente empregadas na elaboração de objetos de arte popular,
                                   utilizadas de maneira combinada ou não com outros elementos, que fazem da sua conservação
                                   um verdadeiro trabalho de pesquisa, associado à experiência pessoal que cada profissional ad-
                                   quire no contato diário com o acervo. A diversidade de acervos e de instituições museológicas está
        2. A coleção Museologia
– roteiros práticos, publicada
                                   diretamente relacionada à diversidade de profissionais de conservação e restauro, mas isso não
  originalmente pelo Museums,      resultou ainda em diversidade de textos que abranjam os mais distintos materiais. Até mesmo a
Libraries and Archives Council,    conservação de arquivos digitais já encontra espaço nas publicações. Com base neste levanta-
 foi traduzida para o português
                                   mento verifica-se que o maior número de textos são traduções, cujos autores tiveram seus textos
     numa edição da Editora da
Universidade de São Paulo com      impressos originalmente em publicações especializadas, editadas por institutos de conservação
               a Fundação Vitae.   internacionais tais como o Museums, Libraries and Archives Council2.


                                                                    16
Essas publicações são organizadas pela iniciativa de profissionais e de agências que se res-
sentem da carência de informação que afeta a atividade de conservação dos acervos brasileiros.
Hoje, mesmo dispondo de um maior número de publicações, as traduções nem sempre atendem
a nossa realidade. Os fatores climáticos também constituem um sério problema. Temos acervos
distribuídos em todo o território nacional, com variações climáticas consideráveis, que vão de clima
tropical úmido, seco e árido ao subtropical, variações que fazem enorme diferença na adoção de
medidas preventivas. Essas diferenças climáticas não são apontadas nas publicações disponíveis,
visto que são frutos de realidades distintas.
    Pode-se verificar, entretanto, que os profissionais que atuam nos museus brasileiros pos-
suem conhecimento, farto e abrangente, sobre os acervos com os quais lidam. Encontram-se
atualizados a respeito das medidas preventivas na conservação e restauração. Essas informa-
ções são adquiridas mediante a participação em congressos, workshops, jornadas e conferên-
cias, tanto no Brasil quanto no exterior. Outra forma de troca de informações são as visitas que
os profissionais fazem a outras instituições com o objetivo de conhecer as instalações, tais como
reservas técnicas e laboratórios de restauração. Nessas oportunidades, é possível saber sobre
bibliografia especializada, sem deixar de conferir ou confirmar dados sobre novos materiais,
produtos e equipamentos.
    Não podemos esquecer também toda a atualização tornada possível pelo acesso à web, ins-
trumento cada vez mais importante na disseminação do conhecimento. Algumas revistas especia-
lizadas encontram-se disponíveis por meio eletrônico. Mesmo que a busca não seja rápida e fácil,
a disponibilidade da informação é um fato. Entretanto, as dificuldades relacionadas à aquisição
dos materiais indicados ainda não foram superadas, seja por se tratarem de artigos importados,
cuja substituição por similar nacional nem sempre é possível, seja devido à falta de verbas insti-
tucionais para sua aquisição.
    É interessante assinalar que a maioria dos textos sobre a conservação ou restauração de obje-
tos museológicos enfatiza a necessidade do estudo do imóvel, do controle climático e dos materiais
a serem utilizados no acondicionamento, informando que são estes elementos a chave para a con-
servação preventiva. Essas medidas, associadas ao conhecimento da natureza de cada objeto da
coleção, servem como ponto de partida para garantir a longevidade dos acervos museológicos. En-
tretanto, poucos destes textos destacam que o fator humano é a coluna vertebral de toda conserva-
ção, pois são as equipes de conservação que levarão a cabo as tarefas necessárias à preservação.




                                                                              Ione H. Pereira Couto
   Museóloga do Serviço de Museologia do Museu do Índio/RJ e doutoranda do Programa de Pós-Graduação
                        em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO




                                                                17
Nhô Caboclo, Águas Belas, PE - acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini



                                          18
I.                                                                                                        3. Noemisa Batista dos Santos
                                                                                                          (1947 - ). Nasceu em Caraí, no

Considerações                                                                                             Vale do Jequitinhonha, MG, onde
                                                                                                          vive e trabalha como ceramista.


sobre conservação
                                                                                                          Com estilo singular, tornou-se
                                                                                                          referência na arte popular brasi-
                                                                                                          leira. Utiliza o próprio barro, em

e restauro na arte                                                                                        suas muitas tonalidades, para
                                                                                                          pintar as obras que cria.


popular brasileira                                                                                        4. Adalton Fernandes Lopes
                                                                                                          (1938- 2005). Nasceu em Niterói,
                                                                                                          RJ, onde passou toda a sua vida.
                                                                                                          Autor de obra vasta e diversifica-
1. As múltiplas interfaces dos processos de          que imprimiu aos personagens em suas “gerin-         da, privilegiou os tipos populares,
conservação e restauro                               gonças”5, contrariando as expectativas sobre a       compondo uma verdadeira
                                                     capacidade do barro de suportar movimentos me-       etnografia da vida fluminense.
                                                                                                          Criou engenhocas imensas, nas
     A arte popular apresenta uma ampla diversi-     cânicos quando queimado de forma tradicional.        quais centenas de personagens
dade de matérias-primas e de técnicas aplicadas           As variações entre o método de trabalho e as    se movimentam animadamente.
em seu processamento. Os artistas empregam           técnicas adotadas são enormes e mesmo os ma-
                                                                                                          5. A geringonça é um tipo de
– às vezes, simultaneamente – métodos sim-           teriais usados por cada um deles, em uma única       máquina de fabricação caseira,
ples associados a procedimentos complexos, o         obra, podem ser bastante diversos. Nhô Caboclo6,     inventada por alguns artistas para
que configura um campo dinâmico, marcado por         um dos grandes artistas com obras em exposição       dotar de movimento suas criações
                                                                                                          escultóricas. Em sua feitura são
experimentações e pelo uso de materiais alter-       no Museu Casa do Pontal, usava madeira, ferro,
                                                                                                          utilizados diversos materiais,
nativos, em alguns casos orgânicos e de baixo        penas, linhas, tecidos e folha de flandres em seus   como peças e engrenagens
custo. Nessa produção, a criatividade não está       trabalhos. A originalidade deste artista popular é   industrializadas, arames, fios e
necessariamente ligada a profundas informa-          assim destacada por Sílvia Coimbra:                  quaisquer outros produtos que,
                                                                                                          reciclados, possam vir a contribuir
ções de técnicas e à destreza nos modos de fazer;
                                                                                                          para a criação de um sistema que
autores que pouco dominam os materiais que           O instrumental de Caboclo, com o qual conse-         permita a articulação das figuras
utilizam convivem com artistas que são exímios       gue os mais precisos efeitos, faz parte de sua       e personagens. Por ser uma
                                                                                                          criação única, e não obedecer a
conhecedores da madeira, seus cortes e diferen-      produção própria, é quase todo construído por
                                                                                                          projetos e planos prévios, poucos,
tes possibilidades de emprego, ou das etapas de      ele: velhas facas de mesa, com apenas 3 cm de        além de seus próprios idealizado-
processamento da argila. Alguns se aprofundam        gume, afiadíssimas; hastes de guarda-chuva           res, são capazes de consertá-las.
nessa relação e nas possibilidades de uso de de-     improvisadas em estiletes; um monte de tam-          Embora o significado da palavra,
                                                                                                          no dicionário Aurélio, remeta a
terminados materiais, fazem experimentações e        pas de latas de filmes recortadas, esperando
                                                                                                          “objeto de estrutura precária”, as
descobrem caminhos próprios. Outros se mantêm        a vez de servirem como cata-vento; marretas,         geringonças ou “engenhocas”,
fiéis às técnicas aprendidas no ambiente familiar    martelos, pregos e parafusos de todos os tama-       podem ser criações complexas.
ou comunitário, reproduzindo na atualidade for-      nhos; prensa, pua, grosas, serrotes, tesouras;
                                                                                                          6. Nhô Caboclo (? – 1976). Sabe-
mas de fazer cujas origens se perdem no tempo.       extrato de nogueira, bugigangas que ele não          se que ele é descendente direto
     Noemisa Batista3, por exemplo, apesar de ter    pode ver passar sem pegar, no desejo de, um          de índios e que nasceu na aldeia
inovado em formas e temas, dá prosseguimento à       dia, aproveitá-las em uma invenção.                  de Águas Belas, no interior de
                                                                                                          Pernambuco. Trabalhou basica-
mesma técnica de modelagem e ao processo de          (Coimbra, 1980, p. 277)                              mente com madeira e sucata,
queima ensinado por sua mãe. Adalton Fernandes                                                            alcançando resultados surpre-
Lopes4 não parou de inventar misturas de mate-           Além de inventar seu próprio instrumental,       endentes e estilo original. Em
                                                                                                          suas composições, privilegiou o
riais, acrescentando cimento ao barro e, às vezes,   certos artistas populares chegam a criar, com
                                                                                                          movimento, em obras em que os
incorporando nas esculturas produtos diferentes,     materiais mais acessíveis, produtos que, mesmo       diversos elementos perseguem o
como o papel machê. Isso sem falar na animação       sem conservantes ou fixadores, produzem efeitos      equilíbrio. Explorou a temática



                                                                 19
semelhantes a outros, desenvolvidos pela indús-             Adalton Lopes foi um dos artistas que
                            (cont.)
                                      tria química com largo uso no mercado.                 passou vários períodos no Museu, consertando
  marítima, com navios de guerrei-
   ros e escravos acorrentados. In-
                                           A freqüente mistura de clara de ovo com pig-      suas geringonças. As trocas realizadas durante
ventou linhas temáticas, nas quais    mento em algumas obras, por exemplo, produz o          essas visitas permitiram que se adquirisse in-
 se destacam os torés e os rachos.    mesmo resultado que a têmpera7. A cola branca          timidade e se acumulassem informações sobre
Seu trabalho é caracterizado ainda
                                      diluída com pigmento pode ser comparada à tinta        o funcionamento dos mecanismos criados por
 pelo uso intenso de penas de aves
     e das cores negra e vermelha.    acrílica, enquanto o breu8 diluído em querosene e      ele, como a determinação das velocidades com
                                      misturado com pigmento, tal como usado por Mes-        que se movimentam as variadas hastes, as ra-
          7. Pintura normalmente
 feita à base de pigmento e com       tre Vitalino9, seria uma espécie de tinta a óleo. Em   zões pelas quais cada uma delas se move num
adesivo orgânico, como gelatina       alguns casos, materiais aparentemente reprová-         sentido diferente, os recursos utilizados para
    e clara de ovo, ou inorgânico,    veis podem vir a se tornar recursos interessantes      que cada personagem tivesse uma dinâmica
                     como a cera.
                                      nos processos de conservação e restauração. Ma-        própria e os materiais preferidos do artista.
  8. Sólido usado na fabricação       nuel Galdino10, por exemplo, usava durepox para             Embora nem sempre a presença viva dos
  de uma resina que tanto dilui       colar suas peças, o que é mais eficiente no caso de    criadores das obras seja acessível, existem
  em solvente de petróleo como
                       no calor.
                                      estruturas pesadas do que a cola branca. Embora        outras maneiras de se obter informações rele-
                                      seu uso não seja recomendado, sendo preciso mui-       vantes sobre o acervo, que incluem a consulta
9. Mestre Vitalino (1909-1963).       ta experiência para saber avaliar corretamente sua     a instituições ou colecionadores de acervos si-
   Nasceu na vila de Ribeira dos
      Santos, próximo a Caruaru,
                                      necessidade, o artista lançava mão desse recurso       milares, a pesquisadores da área e a parceiros
 PE. Criado em ambiente oleiro,       porque já havia tentado outras soluções, todas         técnicos, além da investigação em publicações.
 cedo começa a modelar louças         malsucedidas. Ele tornou-se um especialista em         Especialmente no caso de instituições, é reco-
     e brinquedos em miniatura.
                                      sua própria arte, conquistando uma grande sabe-        mendável reunir e organizar as publicações exis-
 Dotado de forte senso estético,
     produziu obras que, na ma-       doria com relação aos materiais nela utilizados.       tentes sobre os artistas e obras que fazem parte
    turidade, atraíram a atenção           Como se vê, um dos grandes desafios da            do acervo e tornar este material disponível para
     de críticos e colecionadores     instituição ou do colecionador de arte popular é       os profissionais de conservação e restauro.
      de arte. Em 1947, algumas
                                      conhecer as técnicas desenvolvidas ou utilizadas            Essa soma de conhecimentos vai orientar a
        de suas esculturas foram
expostas no Rio de Janeiro. Esta      originalmente pelos artistas. Cada trabalho é          construção de indicadores para as intervenções de
   exposição foi considerada um       realizado com diferentes gradações de materiais,       conservação e restauro. Isso vale tanto para cole-
  marco na história do interesse      técnicas de preparo específicas e muitas experi-       cionadores como para instituições; no caso destas
    pela arte popular, não só por
      revelar ao grande público a
                                      mentações. Portanto, todos esses aspectos pre-         últimas, esse processo integrado deve reunir di-
 obra de Vitalino, como também        cisam ser identificados antes do início das ações      versos tipos de profissionais e colaboradores.
     por chamar a atenção sobre       de preservação, conservação e restauro, num                 Livros como O mundo encantado de Antônio
    a existência desse gênero de
                                      conhecimento que deve agregar atualização téc-         de Oliveira11 (Guimarães, 1983), no qual o próprio
   criação em diferentes regiões
   do país. Foi reconhecido como      nica, vivência, disciplina e curiosidade. E, como      artista fala da sua obra e do contexto em que
  Mestre por sua virtuose e pela      cada obra tem a sua história, cada acervo de arte      criou seus trabalhos, foram essenciais para nor-
  liderança que exerceu entre os      popular apresenta características próprias, que        tear os procedimentos que o Museu Casa do Pon-
    ceramistas do Alto do Moura,
                                      devem orientar a maneira como será cuidado.            tal adotou na catalogação e na manutenção das
               bairro de Caruaru. 
                                           As particularidades da composição do              peças. Da mesma forma, o acesso aos materiais
      10. Manuel Galdino (1929-
                                      acervo do Museu Casa do Pontal – no qual a             e tipos de pintura utilizados por Mestre Vitalino
1996). Nasceu na cidade de São
 Caetano, PE. Em 1940, mudou-
                                      aquisição das obras passou, muitas vezes, por          foi resultado de processos formais de pesquisa.
se para Caruaru, onde tornou-se       relações diretas entre o colecionador Jacques               Mesmo quando não há publicações específi-
 funcionário municipal. Sua tra-      Van de Beuque e os artistas – permitiram que           cas sobre os artistas, vale a pena buscar livros e
  jetória como artista teve início
                                      diversas técnicas adotadas por seus autores            artigos periféricos, que falem sobre os contextos
 em 1974, quando foi destacado
    pela prefeitura para executar     fossem conhecidas e levadas em consideração            culturais, a região de origem e os recursos natu-
       serviços no Alto do Moura.     no processo de conservação das obras.                  rais disponíveis. Um exemplo desse tipo de relação


                                                                          20
aconteceu no restauro da “Casa de Farinha”, de        trajetória desse museu tem mostrado que existe
João José12, obra que chegou ao Museu Casa do         uma íntima correlação entre a eficácia obtida e o
Pontal com várias partes descoladas. Nesse caso,      comprometimento dos trabalhadores. Daí a im-
                                                                                                          (cont.) Lá fez amigos que o
foi necessário entender a dinâmica de funciona-       portância da experiência acumulada. Contudo,        introduziram na arte de “bone-
mento de uma casa de farinha verdadeira para que      é recomendável adotar um manual de procedi-         cos”, principal atividade local.
a obra pudesse ser adequadamente reconstituída.       mentos para os encarregados da manutenção e         Apaixonou-se de tal maneira
                                                                                                          pela modelagem em cerâmica,
     As metodologias resultantes da sistemati-        limpeza do espaço, de modo que a substituição       que abandonou o serviço públi-
zação de conhecimentos não só permitem acom-          de pessoas não resulte em perda de memória dos      co e mudou-se definitivamente
panhar as ações como ajudam a tomar decisões          processos e nem acarrete a queda na qualidade       para o Alto do Moura. Suas
                                                                                                          criações formam um repertório
sobre os tipos de intervenção adotados pelas di-      do serviço prestado. Além disso, o manual pode
                                                                                                          de obras delirantes e originais,
ferentes instituições. No Museu Casa do Pontal,       colaborar para a minimização de acidentes, que      consagrando os monstros auto-
o setor de pesquisa foi responsável por sistema-      também podem acontecer.                             fágicos, e outros personagens
tizar e organizar as informações e os documen-             Um manual não suprime, entretanto, a ne-       de forte conteúdo onírico, como
                                                                                                          Lampião-Sereia e São Francisco
tos sobre as obras e os artistas que fazem parte      cessidade de diálogo permanente. A troca de
                                                                                                          Cangaceiro.
da coleção reunida por Jacques Van de Beuque.         informações sobre métodos e técnicas de con-
                                                                                                          11. Antônio de Oliveira (1912-
Portanto, os pesquisadores também integram            servação, a adoção de diferentes práticas de
                                                                                                          1996). Nasceu em Belmiro Braga,
os processos de conservação e restauração,            limpeza e de segurança e a introdução do uso de     Minas Gerais. Aos seis anos,
contribuindo com conteúdos sobre os aspectos          materiais mais eficientes e comprovadamente         começou a esculpir carrinhos
históricos, sociológicos e formais. Além disso, os    testados compõem um conjunto de medidas e           de bois e outras peças com as
                                                                                                          quais brincava. Na adolescên-
profissionais desse setor podem ser responsáveis      práticas que, aplicadas de maneira integrada,
                                                                                                          cia, trabalhava consertando
por definir, por exemplo, que obras participarão      colaboram decisivamente para o sucesso da           móveis durante o dia e esculpindo
de exposições itinerantes. As peças selecionadas      conservação e manutenção do acervo.                 “bonecos” à noite. Seduzido pela
deverão passar por um processo de avaliação e,             No Museu Casa do Pontal, são feitos plane-     possibilidade de contar histórias
                                                                                                          com seus conjuntos de esculturas
se necessário, por uma intervenção prioritária.       jamentos constantes para definir as obras que       miniaturizadas, Antônio de Oliveira
     Os encarregados pelos procedimentos de           devem prioritariamente passar por tratamento        entregou-se com paixão à recria-
manutenção e limpeza do espaço físico onde um         preventivo e de restauro. Esses critérios são       ção de cenas reais ou imaginárias,
                                                                                                          que compunham o que chamava
acervo está exposto ou em reserva também de-          definidos em intercâmbio com os profissionais
                                                                                                          de “meu mundo encantado”.
vem estabelecer comunicação direta com os pro-        responsáveis pela elaboração dos projetos de-       Refletiu sobre seu processo de
fissionais de conservação. Quase sempre são os        senvolvidos pela instituição. No planejamento       criação, deixando muitas observa-
responsáveis pela limpeza diária os primeiros a       também são definidas as readequações do mo-         ções escritas e gravadas.

identificar o aparecimento de infestação por in-      biliário e das dependências físicas, bem como
                                                                                                          12. João José Paiva (1928 – ). Nas-
setos, o que não se mostra facilmente. Por isso, a    a aquisição de novos equipamentos.                  ceu em Cajá, próximo a Caruaru,
preservação das obras depende da colaboração e             Essas relações inter-institucionais desem-     PE. Na adolescência transferiu-se
do trabalho integrado entre vários profissionais. A   penham um papel relevante porque nem sempre         para o Alto do Moura, PE, onde
                                                                                                          vive até hoje. Aprendeu a modelar
agilidade na comunicação dos problemas encon-         profissionais, mesmo os mais experientes, têm       o barro observando o trabalho de
trados é fundamental, porque permite interromper      isoladamente soluções capazes de abranger           artistas da região, especialmente
processos de deterioração com menores danos.          tudo. Quando se trata de um acervo composto         o de Mestre Vitalino. Com ele,
                                                                                                          chegou a vender seus bonecos
     No Museu Casa do Pontal, são feitas ins-         por materiais extremamente variados, como é o
                                                                                                          na feira de Caruaru. Gostava de
peções periódicas e conjuntas pelas equipes           caso da arte popular brasileira, as necessidades    fazer principalmente obras que
de limpeza e conservação, nas quais ambas as          podem ser muito diferentes. Os processos de con-    reproduziam cenas de famílias:
áreas podem aportar novos procedimentos num           servação e restauro, dessa maneira, são multi-      retirantes, trabalho e casamento.
                                                                                                          Atualmente, não trabalha mais
intercâmbio saudável e necessário. Embora a           facetados, incluindo uma gama de pessoas com
                                                                                                          com o barro, mas transmitiu seus
limpeza e a conservação do espaço físico não          diferentes formações, que devem cultivar uma        conhecimentos aos filhos, que dão
sejam consideradas funções especializadas, a          atitude aberta em relação às novas descobertas.     continuidade à arte cerâmica.



                                                                 21
2. Documentação de acervos                           garismos ou do número total, neste caso quatro
                                                                                            algarismos, relativo ao ano em que o objeto deu
                                            A documentação constitui-se como um             entrada no museu, seguindo-se de um elemen-
                                       ponto primordial para o trabalho de conser-          to de separação e, então, a numeração comum,
                                       vação, pois identifica e registra o histórico da     de forma seqüencial, composta por quatro dí-
                                       obra. A catalogação de acervos pode ser feita        gitos (Cândido, 2006, p. 40).
                                       de muitas maneiras e a partir de diversos su-             No caso do Museu, mesmo com a colabo-
                                       portes. Fichas catalográficas, livros de registro,   ração do colecionador, verificou-se a impos-
                                       fotografias e desenhos de diferentes ângulos         sibilidade de precisar as datas de aquisição
                                       facilitam a identificação do estado das peças.       das obras e, por conseguinte, decidiu-se não
                                            A catalogação das obras que compõem o           adotar o uso desta informação. A numeração
                                       acervo do Museu Casa do Pontal foi iniciada          das obras do acervo do Museu Casa do Pontal
                                       muitos anos após o princípio da coleção. Jacques     é, portanto, composta somente por numeração
                                       Van de Beuque começou seu acervo na década           seqüencial acrescida de uma letra quando se
                                       de 1950, e posteriormente adquiriu peças de ou-      tratam de conjuntos de obras que não se en-
                                       tros colecionadores que abarcavam produções          contram sobre base comum.
                                       feitas a partir da década de 1930. Em princípio,          Como a arte popular se constitui, via de re-
                                       ele não dimensionava a representatividade e          gra, por representações e criações envolvendo
                                       a abrangência que a coleção alcançaria. Seus         conjuntos de peças que descrevem cenas do
                                       anseios voltavam-se para o apreço e a admira-        cotidiano ou do fantástico, as peças do acer-
                                       ção que passou a nutrir sobre o universo da arte     vo foram classificadas em conjuntos e obras.
                                       popular. Dessa forma, o processo de catalogação      Assim, um conjunto é fichado inicialmente em
                                       só teve início na década de 1990, quando a Casa      sua totalidade e, em seguida, cada obra recebe
                                       do Pontal adotou um novo perfil, que veio a soli-    individualmente uma ficha especial.
                                       dificar seu papel museológico.                            O número de identificação das obras e con-
                                            Na instituição, o processo de catalogação       juntos do acervo é fixado em suas bases, ou
                                       foi iniciado na mesma época que o de infor-          quaisquer outros pontos menos acessíveis à
                                       matização. Os dados sobre as obras foram,            vista. A mesma numeração identifica suas fi-
                                       em primeiro lugar, cadastrados em plataforma         chas de catalogação. O Museu Casa do Pontal
                                       digital e, posteriormente, geraram documen-          adota na ficha de conjunto os seguintes itens:
                                       tação impressa. Na época, foi feito um amplo         Número, Nome do Conjunto13, Artista, Localidade
                                       levantamento acerca de bases de informações          (Região), Tema, Década de Aquisição, Aquisi-
                                       adotadas por outras instituições e tais análises     ção, Ano Provável de feitura, Número de Partes,
                                       levaram à adoção da plataforma Macintosh e           Número de Obras, Peso, Altura, Largura, Com-
                                       ao uso do software File Maker Pro, indicado por      primento, Situação Atual, Conjunto (Fixo, Livre
   13. No caso da arte popular, são    permitir agilidade e cruzamento de informa-          etc.), Gênero, Suporte, Assinatura (Tem ou Não
comuns os casos em que o próprio       ções mesmo em consultas complexas.                   Tem), Tipo de Assinatura (Manuscrito, Carimbo
  autor não atribui um título à sua
                                            De um modo mais amplo, a numeração das          etc.), Texto da Assinatura (o que foi escrito pelo
obra, entretanto, mesmo as peças
    que originalmente não tenham
                                       obras é um dos pontos de partida do processo         artista), Estado de Conservação (com cam-
     sido nomeadas pelos artistas,     de catalogação. Segundo Maria Inez Cândido,          po para laudo resumido), Defeito (com campo
recebem um título descritivo, para     não existe uma normatização rígida quanto à          para laudo resumido), Descrição do Conjunto,
  facilitar sua identificação. Esses
                                       padronização da numeração. O mais comum,             Material Principal, Características do Material
    títulos nunca devem se repetir,
 especialmente quando se tratam        no entanto, é a utilização de registro binário       Principal, Outros Materiais, Localização do Con-
        de obras do mesmo artista.     seqüencial, que compreende o uso de três al-         junto no Museu (Reserva Técnica ou Exposição


                                                                          22
Permante, incluindo Módulo e Setor). E na ficha   bem-vindos, quando as instituições ou colecio-
de obra, os itens: Número, Nome da Obra, Peso,    nadores possuem muitos diferentes gêneros de
Altura, Largura, Comprimento, Situação Atual      objeto (objetos de arte, artesanato, utilitários,
(onde está localizada no momento, por exem-       festivos, rituais, indumentária etc.). Especifica-
plo: em Exposição Temporária ou em Restauro),     mente no Museu Casa do Pontal, como o acervo
Situação Padrão (qual a localização padrão da     é majoritariamente constituído por objetos de
obra), Estado de Conservação (com campo para      arte, essa opção classificatória não foi adota-
laudo resumido), Defeito (com campo para lau-     da. Vale ainda acrescentar a possibilidade de
do resumido), Descrição da Obra. A carência de    documentar os objetos por coleções, de modo a
dados de campo consistentes e das caracte-        recuperar as histórias de formação do acervo.
rísticas específicas da arte popular brasileira        As obras do acervo do Museu Casa do Pon-
dificultou o trabalho de sistematização na fase   tal também foram classificadas em 12 temas
de catalogação das obras. Além disso, a inten-    principais, obedecendo grosso modo a organi-
ção de atender a vários objetivos simultâneos     zação do roteiro da exposição permanente es-
tornou esse processo bastante complexo. A idéia   tabelecida por Jacques: profissões, vida rural,
era, ao mesmo tempo, produzir uma informação      ciclo da vida, festas, jogos e diversões, areias
direta, em linguagem elegante, mas coloquial,     e bichos, arte incomum, arte erótica, cangaço,
incorporando, sempre que possível, as informa-    história do Brasil, religião e ex-votos, carnaval.
ções geradas nos diferentes meios onde se ori-    Cada um destes temas, por sua vez, foi repar-
ginaram as produções que integram o acervo do     tido em 79 subtemas e estes em 380 assuntos.
Museu e respeitando o longo trabalho de pes-      Com essa classificação, é possível, por meio
quisa empreendido por Jacques Van de Beuque.      de uma busca tipológica no banco de dados,
     A partir dessa experiência, algumas so-      conhecer rapidamente a quais obras, artistas
luções mostraram-se mais eficientes. Para         ou regiões se referem cada um desses temas,
                                                                                                       14. Recentemente, o campo
determinar um nome para as obras, por exem-       subtemas ou assuntos. Para facilitar os me-          da arte e da cultura popular
plo, e para padronizar a descrição dos temas      canismos de busca, muitas obras mereceram            brasileira ganhou duas novas
abordados, recomenda-se a adoção de dicioná-      dupla ou tripla classificação.                       publicações que contribuem
                                                                                                       para a normatização de vocabu-
rios, tesauros e bibliografia de referência so-        Os procedimentos de conservação e res-
                                                                                                       lário específico: o Pequeno
bre a temática específica de cada acervo14. Na    tauração pelos quais passam as obras tam-            dicionário da arte do povo
época, foram adotadas como referência obras       bém devem ser documentados. Esses dados              brasileiro (2005), de Lélia
como Dicionário do folclore brasileiro (Cascu-    podem ser agregados à ficha de catalogação ou        Coelho Frota, e o Tesauro de
                                                                                                       Folclore e Cultura Popular Bra-
do, 1988), Folclore Nacional (Araújo, 1964) e O   apontados separadamente. Neste caso, pode-           sileira (2006), organizado pelo
Reinado da Lua (Coimbra, 1980). A base con-       se criar uma ficha de restauro, na qual serão        Centro Nacional de Folclore e
ceitual adotada foi posteriormente publicada      registrados laudos do estado de conservação          Cultura Popular. A classificação
                                                                                                       das obras do Museu Casa do
pelo Museu Casa do Pontal em O Mundo da Arte      da peça, incluindo constatação de sujidades,
                                                                                                       Pontal foi feita, entretanto,
Popular Brasileira (Mascelani, 2002).             detritos e interferências físicas, como quebras      antes destas publicações, com
     A ficha catalográfica pode ainda conter      e perdas, a data em que a obra foi retirada da       o suporte integral da área de
outros diferentes campos, inseridos de acor-      exposição ou da reserva técnica15 e uma pro-         pesquisa para o controle da
                                                                                                       terminologia.
do com a especificidade de cada acervo. Um        gramação de atividades a serem realizadas
recurso visualmente interessante é indicar        a cada processo de recuperação. Quando as            15. Espaço onde se armazenam
os dados da obra diretamente sobre imagens        ações previstas são finalizadas, o ideal é voltar    as obras que não estão em
                                                                                                       exposição, com condições
fotográficas (ou desenhos), com setas expli-      à ficha de catalogação para atualizá-la com
                                                                                                       específicas de conservação,
cando o estado de conservação de cada parte.      observações sucintas sobre os procedimentos          como armários especiais e
Esquemas classificatórios também podem ser        e datas de realização.                               climatização.



                                                              23
O Museu Casa do Pontal adota os seguin-        3. Conservação preventiva
                                  tes itens nas fichas de restauro: Número, Nome,
                                  Artista, Data de Início do Restauro, Data de Fim        Para qualquer coleção, o ideal é que se mi-
                                  do Restauro, Restaurador, Estado do Conjunto e      nimize a necessidade de realizar intervenções.
                                  informações sobre cada tratamento realizado         Uma conservação preventiva eficiente, ou seja,
                                  (Data, Colaboradores, Tratamento, Material Utili-   aquela que se antecipa à necessidade de agir
                                  zado, Equipamentos Utilizados).                     diretamente sobre as obras, adia o processo
                                       Quando as obras forem emprestadas para         natural de deterioração das peças. Segundo
                                  exposições em outros locais, também é recomen-      Maria Cecília Drummond,
                                  dável preencher fichas de saída. Este documento
                                  deve registrar o local de destino das obras, as     [...] o desafio para o conservador de museu
                                  datas de deslocamentos entre a instituição de       é estabelecer procedimentos que conciliem,
                                  origem e a de destino (e vice-versa) e a ocasião    harmonicamente, exposição e conservação.
                                  para as quais foram emprestadas. Outros dados       Procurando alcançar condições próximas das
                                  também podem ser importantes, inclusive para a      ideais de preservação, o profissional deve estar
                                  eventual realização de seguro nas obras, como os    sempre ciente de todos os riscos aos quais os
                                  responsáveis pela recepção da obra nos locais de    objetos freqüentemente se acham sujeitos...
                                  destino, especificações sobre embalagens, danos     (Drummond, 2006, p. 111)
                                  identificados durante o processo, entre outros.
                                       Finalmente, arquivar de maneira prática e          As condições ambientais – como tempe-
                                  eficiente todas essas fichas deve ser uma prio-     ratura, umidade, luminosidade – situam-se
                                  ridade da instituição e do colecionador, já que     entre os principais agentes de degradação das
                                  esses dados são utilizados com freqüência. Os       peças. Por isso, para a adoção de medidas pre-
                                  meios digitais auxiliam o processo de armazena-     ventivas, é fundamental conhecer o comporta-
                                  mento de dados, seja para construir bancos de       mento dos materiais utilizados nas obras diante
                                  fichas catalográficas, seja para obter registros    das condições às quais estão submetidas. Por
                                  visuais dos objetos, a partir das câmeras digi-     exemplo, quando não há condições econômicas
                                  tais. No entanto, como a tecnologia encontra-se     de se manter o ar-condicionado permanente-
                                  em rápida evolução, as demandas de reade-           mente ligado, sobretudo em regiões de clima
                                  quação são constantes, sob pena dos suportes        quente e úmido, o emprego de ventilação me-
                                  tornarem-se obsoletos e inoperantes. O banco        cânica, associado ao uso de desumidificador16
                                  de dados do Museu Casa do Pontal, por diversas      para controle da umidade, pode ser uma opção
                                  razões, teve que ser transposto de Machintosh       mais segura, já que evita a oscilação drástica
                                  para PC, alterando o programa de armazena-          e recorrente de temperatura.
                                  mento de dados para SQL, em base especial-              Da mesma forma, é necessário avaliar os
                                  mente desenvolvida para o acervo. A nova base       tipos de iluminação adotados. A luz natural,
                                  trouxe novas possibilidades de pesquisa, combi-     que pode ser economicamente mais viável e
                                  nação e armazenamento de dados. Entretanto, o       ambientalmente mais correta, é quase sempre
                                  processo de migração de dados, como é de pra-       uma boa opção, desde que se tenha o cuidado
                                  xe, precisou ser revisado com base nos arquivos     de utilizar filtros que impeçam a incidência di-
                                  originais. Desta forma, é importante alertar para   reta dos raios solares sobre as obras.
    16. Aparelho que serve pra
                                  o fato de que sejam mantidos arquivos físicos,          Já a poluição atmosférica e a poeira podem
controlar a umidade relativa do
  ar em ambientes caseiros ou     pois ainda não se sabe muito sobre a durabilida-    causar manchas nas peças, modificando o as-
                   industriais.   de e confiabilidade dos arquivos digitais.          pecto original delas. Esses agentes são prati-


                                                                    24
camente inevitáveis, mas seus efeitos podem           raramente uma instituição dispõe de peritos
ser suavizados com sistemas de filtragem do           em todas as áreas necessárias. Embora, em
ar e controle de ventilação.                          geral, os responsáveis pelas coleções e pelos
     Agentes biológicos – como fungos, micro-         projetos saibam avaliar corretamente os pro-
organismos, roedores e insetos, principalmente        blemas existentes e seus efeitos no dia-a-dia,
baratas, traças, cupins e brocas – também são         é de grande valia a presença de observadores
grandes inimigos no processo de preservação           externos, atualizados em relação aos avanços
de acervos. Algumas soluções recomendadas             tecnológicos e voltados para uma reflexão mais
são a imunização, a dedetização e a desratiza-        sistemática sobre determinados temas.
ção periódicas das dependências que abrigam                Com o objetivo de aperfeiçoar sua atua-
as coleções. Morcegos e pássaros, comuns em           ção, o Museu Casa do Pontal, com a parceria
locais onde as janelas são mantidas abertas,          do Laboratório de Ciências da Conservação da
também devem ser evitados, pois suas fezes            Universidade Federal de Minas Gerais e o incen-
podem danificar as obras.                             tivo da Secretaria de Patrimônio, Museus e Artes
     Além desses agentes, deve-se levar em conta      Plásticas do Ministério da Cultura, realizou no
o efeito da ação humana sobre as obras. Quando        biênio 2000/2001 um completo levantamento de
não estão protegidas por vitrines ou por outro tipo   suas instalações. Nessa ocasião, foram levadas
de isolante, as peças correm o risco de serem to-     em conta, inclusive, as condições ambientais
cadas e os contatos físicos, mesmo quando não         do Rio de Janeiro, onde o calor e a umidade são
provocam acidentes visíveis, depositam sobre as       extremos, e da região específica onde se encon-
obras partículas de gordura do corpo, que progres-    tra a instituição, entre o mar e a Mata Atlântica.
sivamente danificam os materiais. Mais ainda, a       A experiência contou com a participação de toda
fumaça de cigarro e os flashes de máquinas foto-      a equipe da instituição e de profissionais de en-
gráficas também constituem fatores prejudiciais       genharia civil, mecânica e elétrica, arquitetura,
à preservação das obras de arte.                      restauração, museografia e ciência da conser-
     Portanto, todo projeto de conservação pre-       vação. Foram projetadas novas soluções para
ventiva eficaz deve levar em conta uma multi-         vitrines, pisos, alvenarias, telhados, drenagem
plicidade de fatores. Embora o foco principal         e entorno, bem como a readequação das insta-
seja dirigido às obras, muitos outros itens           lações elétricas e hidráulicas.
devem ser analisados, a maior parte deles de               Esse diagnóstico orientou a elaboração do
fácil execução e ligados à observação criteriosa      plano museológico17 da instituição, visando uma
do ambiente e à capacidade de implantar roti-         ação global em prol da conservação e da melho-
nas que não sofram descontinuidades.                  ria de seus espaços e do desempenho de suas
     Em relação ao ambiente, todas as infor-          funcionalidades, compreendida no âmbito da
                                                                                                           17. De acordo com o art. 1º.
mações são relevantes, desde os suportes e            multidisciplinaridade de ações que caracterizam      da Portaria Normativa/IPHAN
vitrines utilizados até as características da         o museu contemporâneo. No ano de 2005, esse          n° 01, de 5.7.2006, o plano
localidade onde se encontra a instituição, bem        planejamento foi revisado e atualizado, em par-      museológico é a “ferramenta
                                                                                                           básica de planejamento
como os níveis de umidade relativa do ar, a           ceria com a Fundação Coordenação de Projetos,
                                                                                                           estratégico, de sentido global e
incidência solar, os sistemas de ventilação,          Pesquisas e Estudos Tecnológicos (COPPETEC),         integrador, indispensável para
os tipos de materiais utilizados na edificação,       da Universidade Federal do Rio de Janeiro.           a identificação da missão da
as peculiaridades do seu entorno, a quantida-              Nesse planejamento, três ambientes me-          instituição museal e para a
                                                                                                           definição, o ordenamento e a
de e a freqüência do público etc. Todos esses         receram atenção mais cuidadosa porque esta-
                                                                                                           priorização dos objetivos e das
aspectos podem ser investigados com a parce-          vam diretamente associados à conservação e à         ações de cada uma de suas
ria de equipes técnicas especializadas, já que        restauração do acervo: o espaço e o mobiliário       áreas de funcionamento”.



                                                                  25
expositivo, a reserva técnica e o laboratório. A    reserva técnica, um colecionador pode contar
                                     substituição progressiva das vitrines do circuito   apenas com um depósito para armazenar suas
                                     expositivo, por exemplo, tem sido um importante     peças; um laboratório pode ser uma pequena
                                     passo para a conservação das obras. Os novos        mesa disponível, e assim por diante. O impor-
                                     modelos respeitam o design original, mas são        tante é estudar esses espaços de modo a en-
                                     mais adequados para a limpeza de rotina por-        contrar suas melhores possibilidades. É certo
                                     que o sistema de fechamento foi modificado.         que algumas soluções que, na atualidade, pa-
                                     Além disso, no lugar das madeiras antigas, mui-     recem convenientes serão futuramente ultra-
                                     to suscetíveis aos freqüentes ataques de cupins,    passadas, em virtude de novos experimentos
                                     foram adotados na estrutura o cedro e outras        e descobertas. Assim, a experiência, a inves-
                                     madeiras nobres, em associação com o MDF18.         tigação e a troca de informações constituem
                                          Na reserva técnica, a circulação de funcio-    elementos importantes na atualização dos cui-
                                     nários para a retirada da água acumulada no         dados com o acervo.
                                     desumidificador foi reduzida a partir da criação         Qualquer instituição ou colecionador pode
                                     de uma saída direta. Isso permitiu que o apare-     aplicar medidas de segurança simples nos
                                     lho ficasse ligado ininterruptamente, jogando a     espaços que abrigam obras de arte popular.
                                     água nos jardins. Os armários têm uma espécie       Além de uma vigilância constante das condi-
                                     de forro com Ph neutro, que é trocado periodi-      ções de umidade, temperatura e luminosidade,
     18. Placa fabricada a partir    camente, evitando o contato da obra com o me-       é necessário atentar para fatores que muitas
    da aglomeração e prensa de       tal das prateleiras.                                vezes passam despercebidos. Certos sinais po-
    madeira moída e resina, que
                                          No caso do laboratório de conservação e        dem indicar a necessidade de adequação dos
   apresenta grande resistência
a insetos como o cupim. A eficá-     restauro, a elaboração do projeto de adequação      espaços, como ferrugem, manchas, goteiras e
cia de seu uso, contudo, ainda é     foi realizada com o auxílio das informações e       respingos de água nas paredes ou no piso, o
                   experimental.     experiências colhidas durante visitas técnicas      que pode esconder rachaduras, umidade, mofo
      19. Aparelho utilizado para
                                     ao Museu Histórico Nacional, ao Museu da Chá-       etc. Todos os materiais que constituem o abri-
 desinfestar obras atacadas por      cara do Céu, ao Museu do Índio e ao Museu de        go das obras, externa e internamente, como en-
  insetos e fungos, com o auxílio    Folclore Edison Carneiro. Como um dos princi-       canamentos, telhado, fiação e calhas, devem
   de um inseticida. Seu aspecto
                                     pais agentes deteriorantes do acervo do Museu       ser vistoriados. Porém, ainda que se observem
assemelha-se ao de um armário
     e possui um compartimento       Casa do Pontal é o cupim, foi adquirida a maior     todas essas medidas preventivas, procedimen-
 vedado com borracha, onde são       câmara de fumigação19 disponível no mercado,        tos de conservação sempre serão necessários.
             colocadas as obras.     capacitada para a imunização de obras de            Grande parte das obras vai para o laboratório
 20. Espécie de prateleira, com
                                     quaisquer formatos e dimensões. Foram utili-        porque é necessário realizar uma manutenção
espaço para a higienização das       zadas duas máquinas nas etapas de higieni-          periódica: fezes e urina de insetos, teias de
   obras a vácuo. Uma entrada        zação: uma de sucção de sólidos20 e outra de        aranha, poeira, partículas sólidas, rastros de
    com um filtro de feltro e um
                                     sucção de líquidos21. A climatização é feita com    lagartixas, ovos de baratas, asas de cupins,
  mecanismo de sucção suga e
 retêm as partículas sólidas da      desumidificadores e ventiladores, que, juntos,      por exemplo, devem ser retirados constante-
                     superfície.     equilibram umidade e temperatura. Optou-se          mente da superfície das obras. Certos proce-
                                     por um controle padrão de umidade que favo-         dimentos preventivos também podem garantir
    21. Mesa perfurada de metal.
  Tem um duto para a sucção de
                                     recesse a ambientação da variedade de mate-         uma grande longevidade às obras, tais como a
líquidos, ligado a um aspirador.     riais que passam pelo laboratório.                  adoção de regras de conduta nos espaços que
       A umidade é sugada pelos           Outros espaços que abrigam coleções de         abrigam os acervos. Fumar, comer, beber ou
 poros da mesa e depositada no
                                     arte popular certamente terão outras necessi-       mesmo portar alimentos e bebida, por exemplo,
   interior do aspirador, evitando
     que a umidade produzida se      dades e, em muitos casos, a própria separação       são atitudes que devem ser evitadas em todas
           espalhe pelo ambiente.    dos espaços pode ser diferente. No lugar da         essas áreas.


                                                                       26
Por tudo isso, é importante organizar me-            Uma maneira de estabelecer critérios para a
todicamente os procedimentos de vigilância.          conservação e a restauração é atentar para pelo
Apenas inspeções periódicas no ambiente per-         menos três aspectos da obra: o histórico, o estéti-
mitem a identificação imediata de alterações         co e o funcional. O primeiro trata da originalidade
que podem vir a provocar danos nas obras.            do trabalho, da fidelidade a seus materiais e ele-
     No Museu Casa do Pontal, são feitas rondas      mentos tais como foram inicialmente produzidos
diárias no circuito expositivo para observar se      pelos artistas. O segundo refere-se ao caráter
houve algum problema com as obras e com as           visual dos objetos do acervo, à maneira como
vitrines. Às segundas-feiras, quando o Museu         eles se apresentam. Já o terceiro trata da funcio-
fica fechado para o público, além da limpeza         nalidade da obra, ou seja, se todos os materiais
geral, são feitas inspeções mais detalhadas          estão “cumprindo o seu papel” – um arame que
em conjuntos pré-determinados de vitrines.           ligava a cabeça ao corpo de uma escultura deve
Abertas as vitrines escolhidas, são analisadas       continuar atuando desse modo, por exemplo.
as condições de segurança e estética dos vi-              Em todos os procedimentos de conservação
dros e acrílicos e efetuados trabalhos de limpe-     e restauro, deve-se buscar atender ao máximo o
za das obras, com o auxílio da mesa de sucção        sentido original das obras, assim como sua ori-
de sólidos e de um aspirador de pó. Essa vigi-       ginalidade estética e funcional. No entanto, em
lância é contínua e rotativa, ou seja, quando        muitos casos, um ou mais aspectos são enfati-
todas as vitrines são verificadas, reinicia-se o     zados. O que fazer, por exemplo, se um artista
processo de inspeção. Uma manutenção sema-           usa em sua obra materiais pouco resistentes,
nal também é feita na reserva técnica, com a         que precisam ser constantemente substituí-
abertura de todos os armários e a ventilação         dos? Devem-se trocar os materiais relacionados
do ambiente.                                         à estrutura do trabalho? O livro do Museums,
                                                                                                           22. O teatro de mamulengo é
     Durante as inspeções, se for constatada a       Libraries and Archives Council (2005) sobre
                                                                                                           um tipo de encenação popular.
incidência de insetos, fungos ou qualquer outro      conservação de coleções destaca as difíceis de-       Conta histórias com forte
problema que possa comprometer as obras, elas        cisões a serem tomadas nessa etapa:                   traço de humor, sobre temas
são deslocadas da exposição ou da reserva técni-                                                           variados. Tem um universo rico
                                                                                                           de personagens, definido pelos
ca para o laboratório. Instituições e colecionado-   Quando o restauro é necessário, até que ponto         diferentes tipos de bonecos
res que não possuem laboratório devem ao menos       ele deve ir? É aqui que as visões diferem, o de-      de mamulengo. Está presente
isolar as obras em um outro ambiente para evitar     bate começa a esquentar e as respostas simples        especialmente na Zona da Mata
                                                                                                           de Pernambuco.
contaminações. Obras cujos danos encontrados         são enganosas. O restauro ganhou uma reputa-
não reclamem uma ação urgente podem ser rela-        ção ruim no passado por conta de higienizações        23. Integrado ao ciclo natalino, o
cionadas para intervenções futuras.                  ‘zelosas demais’, renovações e reconstruções de       Reisado refere-se aos ranchos que
                                                     edifícios e pinturas. (Museums, Libraries and         festejam o nascimento do Menino
                                                                                                           Jesus e a visita que lhe fizeram
4. Conservação e Restauro                            Archives Council, 2005, p. 115)                       os três Reis Magos. Essa festa
                                                                                                           apresenta uma variante no estado
     Em primeiro lugar, é bom lembrar que os pro-        Por isso, além das normas que uma institui-       de Alagoas, que recebe o nome
                                                                                                           de Guerreiros, e se destaca pela
cedimentos de conservação e restauro são ado-        ção ou profissional vão elaborando, as soluções
                                                                                                           suntuosidade da indumentária dos
tados a partir de delimitações focadas, e não em     para cada peça precisam ser estudadas caso a          participantes na qual chama aten-
um terreno onde se pode expandir a criatividade      caso. Há situações em que a degradação de de-         ção o uso de chapéus decorados
para além do trabalho dos artistas. Deve-se evi-     terminado material implica a contaminação de          por espelhos e fitas multicoloridas,
                                                                                                           muitos deles representando igre-
tar, por exemplo, inventar maneiras de recuperar     outros materiais que compõem uma mesma obra.
                                                                                                           jas. Há quem atribua aos espelhos
as obras que escapem aos trabalhos prévios de        Em algumas peças da coleção de mamulengos22           o poder mágico de fazer retornar os
pesquisa e conhecimento técnico.                     do Museu Casa do Pontal, a oxidação de pregos         maus desejos a quem os enviou.



                                                                 27
danificou o tecido das roupas dos personagens,        que passou, os diferentes locais onde se ins-
com rasgos irreparáveis. A instituição optou por      talou e os eventuais manuseios que recebeu,
substituir os pregos por pregos de cobre, além de     sendo assim, não podem sair do laboratório
trocar integralmente os tecidos. Para isso, foram     como se tivesse sido comprada no dia anterior.
usados os mesmos moldes, porém com estampas           É importante tentar manter as referências tem-
diferentes, já que as antigas não foram encon-        porais do objeto, respeitando suas peculiarida-
tradas, mas procurando manter o máximo de             des e sua trajetória social (Appadurai, 1986).
similaridade com as estampas originais.
     A substituição de fitas dos chapéus de rei-           Em obras que apresentam quebras, ra-
sado23 seguiu um caminho semelhante. Foram            chaduras ou perdas que comprometem sua
identificados fungos nas fitas originais, além do     estrutura física, realiza-se uma restauração
esmaecimento das cores. Inicialmente, optou-se        estrutural. Embora cada caso seja específico, o
pela substituição parcial das fitas, sobretudo        mais comum é que seja feito um tratamento de
daquelas que se encontravam com partes rasga-         recomposição da estrutura, como uma parte do
das e comprometidas. Desta forma, a instituição       corpo de uma escultura que foi perdida (mas
manteve dois conjuntos distintos: um em que o         da qual se têm informações precisas) ou de re-
aspecto estético das obras foi privilegiado, já que   constituição (quando se preenchem espaços de
originalmente estes chapéus possuíam cores vi-        partes que foram comidas por microorganismos
brantes, e outro no qual a visão das obras, com       e/ou insetos). Já situações de perdas que se re-
cores opacas, remetia à sua historicidade. Em         ferem a danos na superfície das peças, como o
um segundo momento, entretanto, foi necessário        desprendimento de camadas de pintura, preci-
fazer a substituição completa das fitas, porque       sam de uma restauração estética, feita a partir
sua decomposição mostrou-se irreversível.             de uma recomposição da tinta nas áreas com
     Deve-se aceitar, assim, que alguns ma-           perda de leitura. Uma mesma obra pode preci-
teriais são auto-degenerativos. É o caso dos          sar desses dois tipos de restauração.
fios de nylon, que possibilitam os movimentos              Apesar da variedade de soluções possíveis,
dos personagens das geringonças de Adalton,           algumas sugestões podem evitar problemas
promovendo a ligação com as engrenagens.              futuros. Em primeiro lugar, deve-se trabalhar
Pensou-se em substituí-los por materiais mais         apenas em locais onde houve perdas, e não an-
duráveis e foram feitas experiências com linha        tecipando possíveis danos. Se o braço de uma
sintética, arame, corda de violão, cabo de aço,       escultura estiver deteriorado, mas houver vestí-
fio de pescaria e outros fios industriais. Con-       gios desse braço, aproveitam-se todas as pos-
tudo, verificou-se que a precisão dos movi-           sibilidades de encontrar a forma e o movimento
mentos determinados pelo artista ficaria com-         originais, para que ele seja redesenhado. Porém,
prometida e concluiu-se que a melhor solução          se não houver quaisquer maneiras de reconhecer
seria aceitar essa característica, substituindo       as características do braço, deve-se lidar com a
os fios de nylon de tempos em tempos.                 impossibilidade de recuperar a obra. Uma perna
                                                      da qual nada se sabe não deve ser reconstruída,
Por outro lado, mesmo que os materiais sejam          assim como uma cor que se desgastou e da qual
trocados, o processo histórico que faz parte da       nada se sabe não deve ser repintada.
obra não deve ser apagado. No caso de obras                É recomendável também o uso de materiais
pintadas, isso significa que uma peça que foi         que permitem a reversibilidade do processo,
produzida há décadas e carregou consigo a de-         uma vez que o campo está sempre sujeito às
gradação natural adquirida com as viagens por         novas descobertas. A minuciosa avaliação do


                                    28
material utilizado é muito importante porque         taculares”, de Dadinho24, por exemplo, teve o
produtos aparentemente eficazes podem trazer         verniz original trocado por outro, de remoção
problemas futuros, como a cola branca, que,          mais fácil e que oferecia maior porosidade e
por ser mais estável do que a cerâmica e do          maior resistência à oxidação.
que a madeira, provoca movimentações mole-               De toda forma, ainda que circunscritos a
culares diferentes numa mesma obra.                  limites rígidos, as instituições e os profissionais
     Na recuperação estética, geralmente feita por   que atuam na conservação devem estimular
meio do retoque, é importante conhecer a teoria e    sempre a criatividade e a inovação como fato-
as técnicas de pintura. Mas esse saber precisa se    res essenciais para a preservação das obras.
aliar à experiência e à sensibilidade que o conta-   É necessário que os profissionais reúnam, em
to com as obras desenvolve. A sutileza da combi-     todas as etapas da conservação e do restauro,
nação adequada de tintas para a recomposição         não apenas técnica e curiosidade, mas também
de cores e da seleção do material específico para    capacidade inventiva, adaptativa e ousadia,
determinado tipo de retoque só é possível a partir   seja no tratamento respeitoso às diferentes
de uma grande familiaridade com os materiais.        técnicas encontradas, seja na capacidade de
No caso da arte popular, o uso de pigmentações       reconstituir minuciosamente uma peça com
não convencionais implica uma necessidade pri-       grande deterioração, seja ainda na criação e na
mordial de realizar uma grande quantidade de         investigação de novos instrumentos de trabalho
testes antes da aplicação da pintura.                para determinadas obras, como a construção de
     A primeira opção de tinta são aquelas que       ferramentas específicas para certas peças.
podem ser diluídas em meio aquoso, como a                Mas se o processo de restauração de uma
aquarela, o acrílico ou outros tipos de pig-         peça é tão particular, como saber quando ele ter-
mento. Isso permite que se consiga o efeito          mina? Cada etapa demanda uma determinada
visual desejado, com a possibilidade de fazer        quantidade de tempo, que precisa ser respeita-
alterações posteriores, caso haja necessidade,       da para que o processo seja bem-sucedido. Mais
que não comprometam a peça, tal como pode            ainda, certas peças de grandes dimensões têm
ocorrer com a aplicação de tinta a óleo, cuja        que ser levadas ao laboratório por partes e a in-
remoção é feita freqüentemente com o solvente        tervenção nelas é um processo realmente longo,
de petróleo, que é mais agressivo. Além disso,       que pode durar mais de um ano, dependendo do
o óleo demora mais tempo a se estabilizar na         tipo de ruptura, de seu tamanho, da necessida-
peça e sua secagem, feita sempre ao natural,         de de preenchimento da estrutura etc. Portanto,
pode demorar meses para terminar completa-           obedecer o tempo da espera é um fator primordial
mente, dadas as várias camadas de pintura. Já        para o resultado. Muitas vezes, a última olhada
o acrílico tem uma secagem quase imediata.           não é a final porque o retoque é geralmente fei-
     Quanto à impermeabilização, se o objetivo       to em um ambiente controlado, com condições           24. Geraldo Marçal dos Reis
                                                                                                           (1931 – 2005). Nasceu em Dia-
é respeitar a estética original da peça, não se      específicas de luz e temperatura, que difere do       mantina, MG. Conhecido como
deve envernizar uma obra que não tenha sido          ambiente de exposição. Nesse caso, leva-se a          Dadinho, viveu e trabalhou em
originalmente envernizada. No entanto, como os       palheta e a mesa de trabalho para o local de          Nova Iguaçu, RJ, onde esculpiu
                                                                                                           imensas cidades, usando como
materiais estão em constante transformação, é        exposição e completa-se o retoque. A verdadeira
                                                                                                           matéria-prima raízes de árvores
possível mudar o tipo de verniz no caso de uma       “olhada final” acontece apenas quando a obra          mortas. Deu forma e imagem
obra que originalmente usou esse recurso. No         está na vitrine, iluminada da maneira como será       à complexidade da arquitetura
Museu Casa do Pontal, a obra “Cidades ten-           vista pelo público.                                   urbana contemporânea.




                                                                 29
Obra de Antonio de Oliveira, Belmiro Braga, MG – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini



                                                  30
II.
Procedimentos
básicos de
conservação
e restauro
1. Procedimentos iniciais                         :: Avaliação do estado da peça
                                                       Uma vez no laboratório, a obra deve ser cui-
:: Deslocamento de obras                          dadosamente manuseada pelo profissional, que
     Com o uso de luvas cirúrgicas ou de algo-    identifica os principais problemas encontrados
dão, as peças devem ser acomodadas em cai-        a partir dessa análise visual. É recomendável
xas acolchoadas para que seja feito o transpor-   anotar todos os danos localizados na peça,
te até o laboratório de conservação e restauro.   assim como os procedimentos que serão reali-
Mesmo que a distância a percorrer seja curta,     zados. Testes simples, que serão descritos nos
vale a pena tomar esses cuidados. Uma caixa       procedimentos a seguir, são essenciais porque,
de papelão pode ser uma opção, desde que ela      ao invés de ajudar a conservar uma obra, proce-
tenha uma boa sustentação e que seja feito um     dimentos feitos às pressas podem acabar pio-
isolamento entre as obras.                        rando seu estado de deterioração – por exemplo,
                                                  partes que pareciam firmes podem se soltar da
:: Organização do laboratório ou espaço des-      obra e certos materiais podem se diluir, inespe-
tinado à conservação e restauro                   radamente, em contato com a água.
     Organização é uma regra importante para
qualquer processo de conservação e restauro.      :: Indumentária
No local onde se realizarão as ações nas pe-           Para o manuseio das peças, devem ser
ças, como um laboratório ou outros espaços,       usadas luvas cirúrgicas ou antiderrapantes e,
a reposição antecipada dos materiais básicos      em casos que exigem precisão, pode-se optar
– solventes, detergente neutro, algodão bran-     pelo contato direto mediante a higienização
co, espátulas, pincéis variados, tintas, serra-   das mãos, já que o uso de luvas pode dificultar
gem, colas, massa à base de PVA, entre outros     a sensação de tato com as obras. Além disso,
– agiliza os processos de trabalho. A organi-     os profissionais devem vestir uma indumen-
zação também se relaciona ao uso correto das      tária que mantenha as condições higiênicas
ferramentas disponíveis. No caso dos pincéis,     adequadas – no caso do laboratório, por exem-
por exemplo, a ampla variedade de tamanhos        plo, o encarregado pelos procedimentos de
e usos, além dos diferentes processos de lava-    conservação e restauro deve utilizar guarda-pó
gem, demanda uma separação criteriosa, com        e máscara de filtro básico para o rosto. Essa
etiquetas ou por cores. Os produtos químicos      indumentária protege mutuamente as obras e o
devem sempre ser assinalados quando abertos       próprio profissional, em contato recorrente com
ou transferidos para vidros menores.              materiais tóxicos.



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2. Limpeza                                           de água, como guaches e outros pigmentos,
                                                                                         devem ser manuseadas com luvas para que
                                    2.1. A seco                                          se evite a diluição da tinta em contato com o
                                                                                         suor das mãos. Já em obras pintadas a óleo ou
                                    :: Aplicação                                         acrílico, deve-se atentar para a possibilidade da
                                        O depósito de sujidades – tais como poeira,      peça ter camadas de tinta se desprendendo e, se
                                    teias de aranha e detritos de lagartixas, mor-       esse processo estiver muito acentuado, o melhor
                                    cegos e cupins sobre a superfície da peça ou         é evitar a limpeza a seco.
                                    em fendas e saliências de uma obra – retém a
                                    umidade existente no ar, e uma simples cama-         2.2. Em meio aquoso
                                    da de poeira pode se tornar uma crosta mais re-
                                    sistente. Por esse motivo, a primeira ação pela      :: Aplicação
                                    qual as obras devem passar é a higienização               A higienização hidratada ou hidratação é
                                    mecânica, processo que consiste na retirada a        feita em obras que já passaram pela limpeza a
                                    seco dessas partículas sólidas. Isso é realizado     seco e que não sofreram qualquer tipo de dete-
                                    com o auxílio de pincéis, trinchas de cerdas fi-     rioração nesse processo. Sua aplicação é reco-
                                    nas ou espátulas, preferencialmente sobre uma        mendada em casos de manchas causadas pelo
                                    mesa de sucção. No caso de obras ocas, deve-         acúmulo de sujeira mais resistente, como poeira
                                    se observar também o interior dessas peças.          originária de teias de aranha, toques de dedo,
                                                                                         partículas de gordura, detritos de morcegos e
                                    :: Materiais e equipamentos                          insetos ou mesmo suor. Antes da hidratação é
                                        Para obras mais delicadas, pincéis longos,       necessário realizar um teste, aplicando sobre
                                    de cerdas finas e macias. No caso de obras de        uma pequena parte da peça água e detergente
                                    grande porte, pincéis ou trinchas de cerdas          neutro, com o auxílio de um algodão, uma estopa
                                    mais resistentes.                                    ou escovas. Nesse teste, os pigmentos e outros
                                        O laboratório do Museu Casa do Pontal            materiais não podem se diluir. Caso contrário, a
                                    possui uma câmara de sucção de sólidos. A            limpeza em meio aquoso não deve ser realizada.
                                    sucção é feita através de um duto com filtros        Pode-se também usar um vaporizador manual25
                                    de feltro, que suga e retém partículas sólidas       para obras de maior porte e de superfície resis-
                                    desprendidas do objeto, evitando também              tente, como madeiras envernizadas.
                                    que o conservador entre em contato com elas.
                                    Quando não se tem câmara de sucção, uma so-          :: Materiais e equipamentos
                                    lução para esse tipo de limpeza é o uso de um             Palito de madeira ou bambu, água, de-
                                    aspirador de pó.                                     tergente neutro, algodão e estopa. Pode-se
                                                                                         optar, em alguns casos, pelo uso de pincéis
                                    :: Processos e cuidados                              de variados tipos (cerdas macias e/ou mais
                                         Nas obras mais delicadas, deve-se passar o      resistentes), escova de dente, borrifador e, se
                                    pincel suavemente pela superfície, pelos cantos      necessário, bisturi.
                                    e pelas saliências da obra. Em peças mais resis-          No laboratório do Museu Casa do Pontal,
25. Trata-se de qualquer frasco     tentes, pode-se utilizar uma escova de dente ou      esse processo é realizado com a ajuda de uma
 que possa borrifar gotículas de    um aspirador de pó para a limpeza de ranhuras ou     mesa de sucção de líquidos, composta por um
 líquido por meio de um gatilho.
                                    fendas. Se a obra for pintada na superfície, deve-   aspirador que, através de um duto flexível, liga-
   É aconselhável a utilização de
 frascos novos, sem resíduos de     se analisar quais foram as técnicas utilizadas       se a uma mesa de metal oca, que é uma super-
                outros produtos.    pelo artista. Obras pintadas com tintas à base       fície de alumínio duro com várias perfurações.


                                                                       32
Após ser ligado, o aspirador suga as partículas    :: Materiais e equipamentos
de água ao redor da obra. Esse equipamento é           Palito de madeira ou bambu, algodão, sol-
prático e móvel. Pode, por exemplo, ser coloca-    vente e estopa. Para obras maiores, usam-se
do sobre uma mesa, para a realização de lim-       também pincéis, escovas de dente e, se neces-
pezas no interior da galeria. Se o conservador     sário, bisturi ou estilete.
não tiver esse equipamento, a limpeza pode ser
feita sobre uma folha de papel mata-borrão.26      :: Processos e cuidados
                                                        Antes dos procedimentos, é necessário rea-
:: Processos e cuidados                            lizar um teste para observar a solubilidade da
     Antes dos procedimentos, é necessário         tinta ou do verniz, aplicando-se um palito com
que sejam realizados testes com palitos de         um pouco de algodão molhado no solvente em
algodão, umedecidos numa solução de água e         uma pequena área da peça. Se houver diluição
detergente neutro, em pequenas áreas da obra,      de tinta, deve-se evitar a limpeza com solvente.
preferencialmente de cores diferentes. Se as            Na realização da limpeza, molha-se no solven-
tintas diluírem, a obra deve ser limpa apenas a    te um palito com algodão enrolado na extremida-
seco. Caso as obras não sofram danos, inicia-      de e aplica-se essa substância unicamente sobre
se a limpeza em meio aquoso.                       a área do dejeto, ou mancha, a ser removido. Em
     Com um pouco de algodão enrolado na           obras maiores, utiliza-se um pincel levemente ume-
extremidade, o palito de madeira ou bambu é        decido no solvente, no lugar do palito com algodão.
molhado numa solução de água com detergente        Para áreas de maior resistência ou que apresentem
neutro e friccionado cuidadosamente sobre a        maior dificuldade de alcance, como frestas e can-
peça. Esse algodão deve ser constantemente         tos, pode-se usar uma escova de dente.
trocado, de modo que permaneça limpo. Em al-            A secagem do excesso de solvente deve
gumas obras, usam-se palitos longos, capazes       ser feita com estopa ou algodão seco. Pode-se
de atingir o interior das peças sem provocar da-   também usar o bisturi, se houver a necessida-
nos. Para obras de maior porte, pode-se aplicar    de de fazer raspagens.
a solução de água e detergente com o auxílio
de um borrifador e a fricção deve ser feita com    2.4. Com tolueno27
pincéis de cerdas mais resistentes. Terminada
esta etapa, a umidade restante na obra deve            Solventes à base de carbono, como o tolue-
ser removida com algodão seco ou com um pou-       no, só deverão ser aplicados se as manchas e
co de estopa. Quando sobrarem excessos ou em       dejetos resistirem a todas as ações anteriores.
casos de partículas mais calcificadas, pode-se     Trata-se de um procedimento muito perigoso,
utilizar o bisturi para fazer raspagens.           usado em casos extremos e que deve ser realiza-
                                                   do em lugares arejados ou com exaustores. Além
2.3. Com solvente                                  disso, não existem doses exatas para a solução        26. Papel de alto nível de poro-
                                                   usada nesse processo. Cada caso deve passar           sidade, que serve para absorver
:: Aplicação                                       por uma série de experimentações e, portanto, a       líquidos.

    Se as manchas forem ainda mais resis-          aplicação de tolueno deve ser realizada apenas        27. O tolueno também pode ser
tentes, como no caso de respingos de pintura       por um profissional qualificado e experiente.         utilizado para a remoção do ex-
ou verniz, resíduos de cera, fungos ou mesmo           No Museu Casa do Pontal, esse solvente foi        cesso de cola branca nas obras
                                                                                                         em que houve descolamento,
aquelas que não foram removidas com os pro-        usado uma única vez, quando uma obra em ce-
                                                                                                         mas o uso dessa substância
cessos anteriores, a obra recebe uma higieni-      râmica policromada – “Casal de noivos” (Vale          deve ser feito por um profissio-
zação com solvente.                                do Jetiquitinhonha – MG, autor desconhecido)          nal especializado.



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– foi acidentalmente atingida por uma caneta           que fica ligada, em processo de aquecimento,
esferográfica. Nessa ocasião, foi feito um teste de    por cerca de 45 minutos. A porta do equipa-
solubilidade da tinta original com o solvente. Pos-    mento deve permanecer fechada, com as obras,
teriormente, um palito de bambu com algodão foi        por no mínimo 72 horas, para que o preparado
molhado numa solução de tolueno com álcool etí-        reaja sobre as peças. Depois, o ar da câmara
lico hidratado (duas porções de tolueno para uma       deve ser expurgado por aproximadamente duas
de álcool). O tolueno foi diretamente aplicado sobre   horas e meia, com as obras ainda no interior
a mancha e, para que ele parasse de reagir, seu        da câmara. É imprescindível que este tempo e
excesso foi retirado da peça inúmeras vezes com o      as quantidades sejam respeitados porque pro-
auxílio de um algodão umedecido em solvente.           cedimentos inadequados podem prejudicar não
     Em muitos casos, no entanto, a proporção          apenas as obras, mas também o profissional,
dessa solução é diferente e a dificuldade na re-       que se expõe a produtos tóxicos. Os cuidados,
moção da mancha é tão grande que continuar             dessa maneira, devem ser redobrados nesse
o processo pode causar danos irreversíveis à           momento e a abertura da câmara deve ser feita
obra. Por esse motivo, o Museu Casa do Pontal          com o uso de máscara para solventes orgâ-
recomenda que se contrate um profissional es-          nicos, luva e guarda-pó. Devem ser evitadas
pecializado se houver necessidade de aplicar o         também excessivas entradas e saídas do labo-
tolueno. Vale lembrar que o tolueno é extrema-         ratório, principalmente durante essa etapa.
mente tóxico e, portanto, deve ser utilizado de             Se o profissional não dispuser de uma câmara
forma segura, com máscaras especiais e luvas.          de fumigação ou se a obra imunizada não couber
                                                       dentro dela, outra possibilidade de procedimento
3. Imunização                                          seria a aplicação de inseticida solúvel em pontos
                                                       específicos da obra, com a ajuda de agulhas de
:: Aplicação                                           seringa ou de pincéis. Logo depois, a obra deve ser
    Imunizam-se obras que foram atacadas               fechada hermeticamente com um plástico – reco-
por insetos e microorganismos ou que tiveram           menda-se o uso de sacos grandes –, para que o
peças vizinhas a elas diretamente atingidas.           produto reaja sobre a peça. Esse procedimento é
                                                       conhecido como “envelope”. Neste caso, deve-se
:: Materiais e equipamentos                            deixar o produto agir sobre as obras por aproxima-
    O ideal é dispor de uma câmara de fumiga-          damente 48 horas. Depois, os mesmos cuidados
ção, mas também é possível imunizar as obras           para a abertura da câmara de fumigação devem
com um inseticida solúvel, aplicado com serin-         ser seguidos para a abertura do “envelope”, in-
gas e pincéis e, finalmente, lacrado com plásticos     cluindo o uso de máscara, luva e guarda-pó. As
(como sacos grandes) e fita adesiva. Para o ma-        obras, então, devem ser colocadas em um local
nuseio das obras, recomenda-se o uso de másca-         isolado, com pouca circulação de pessoas, por
ra para solventes orgânicos, luva e guarda-pó.         cerca de dois dias. Recomenda-se também que
                                                       se realize, como um último procedimento, uma
:: Processos e cuidados                                limpeza de superfície em meio aquoso.
    Quando se dispõe de uma câmara de fu-
migação, as obras são colocadas dentro dela,           4. Restauração de partes danificadas
que deve ser preparada de acordo com o tipo                Em virtude da variedade de materiais, téc-
de material a ser imunizado. Essas instruções          nicas e proporções utilizados em cada acervo, os
precisam ser analisadas por um profissional            danos encontrados nas peças poderão receber
experiente. Posteriormente, fecha-se a câmara,         diferentes tipos de tratamentos. Neste caderno,


                                    34
abordaremos as situações mais comumente en-       mas sem comprometimento da sustentação
contradas em obras de cerâmica e madeira.         da obra ou de algum membro. Isso acontece
                                                  principalmente nas extremidades de uma obra,
4.1. Colagem de partes que se quebram ou se       quando há impacto acidental.
descolam sem comprometer a sustentação
                                                  :: Materiais e equipamentos
:: Aplicação                                          Cola branca à base de PVA, massa à base
     Adota-se esse procedimento em casos de       de PVA, palito de bambu, algodão, água, lixa
descolamento de partes que foram unidas em        fina (nº 150 a 180), bisturi, lentes de aumento
intervenções anteriores ou de quebras simples,    e pigmentos minerais, pratos e potes.
ou seja, quando a estrutura de sustentação da
obra ou de um determinado membro dela não         :: Processos e cuidados
fica comprometida. Essa situação é mais co-            Em primeiro lugar, todos os fragmentos da
mum em peças de cerâmica do que de madeira        obra devem ser recolhidos. Depois, como num
e pode ser causada por acidentes e por falta de   quebra-cabeças, esses pedaços serão seleciona-
manutenção ou de transporte adequados.            dos, agrupados e encaixados. Nessa etapa, é ne-
                                                  cessária muita paciência; em alguns casos, lentes
:: Materiais e equipamentos                       de aumento podem auxiliar o trabalho. Quando se
    Cola branca à base de PVA, algodão, água      souber com exatidão a posição dos fragmentos
e espátula de metal ou bambu (para a aplica-      aproveitáveis, inicia-se a colagem das partes.
ção da cola).                                          O processo começa pelas partes internas até
                                                  chegar às camadas mais superficiais da obra.
:: Processos e cuidados                           Portanto, é importante atentar para que a superfí-
     A colagem deve ser feita apenas se o con-    cie esteja plana, sem desnível entre as colagens.
servador souber a posição exata de encaixe das          Depois que os produtos secam, a retirada
partes comprometidas. Neste caso, a primei-       do excesso e o nivelamento da superfície devem
ra etapa consiste em limpar bem a obra e as       ser feitos com um pouco de algodão enrolado no
peças, por meio dos processos anteriormente       palito de bambu e molhado na água, a partir de
descritos.                                        movimentos de fricção circular. Podem-se utili-
     Depois, deve-se aplicar cola branca à base   zar também lixas finas ou um bisturi para remo-
de PVA nas partes a serem recompostas. A co-      ver o excesso da cola com cuidado, sem danificar
lagem deve ser feita sempre sem excesso.          partes originais da obra ao redor da perda.
     Após a colagem, as partes devem perma-
necer unidas por aproximadamente 12 horas,        4.3. Recuperação da sustentação
a partir de uma tensão feita, por exemplo, com
elásticos ou com uma prensa de mesa, encon-       :: Aplicação
trada em lojas de marcenaria.                          Casos de quebras que comprometem a sus-
                                                  tentação da obra ou de algum membro. Uma
4.2. Colagem de partes em que houve frag-         peça com sua estrutura de sustentação com-
mentação                                          prometida pode sofrer queda e disso resultar
                                                  em rupturas e danos ainda maiores. Trata-se,
:: Aplicação                                      portanto, de um problema que deve ser resolvido
     Utilizada em casos de deterioração em que    assim que identificado, mas essa solução preci-
há dano estético e/ou até mesmo estrutural        sa de experimentação e verificação caso a caso.


                                                              35
No Museu Casa do Pontal, foram feitas            membro que se deteriorou for muito pesado, pode-
                                     tentativas com diferentes materiais na res-          se usar uma prótese, que ficará na parte interna
                                     tauração de cerâmica, como a cola extraforte         da obra. Essa prótese pode ser um pino de madei-
                                     à base de PVA, mas foi a resina epóxi que mais       ra ou de cobre, dependendo do peso da parte a ser
                                     bem se adaptou à necessidade das peças. Vale         colada. O Museu Casa do Pontal costuma utilizar
                                     lembrar que esse material só vem sendo testa-        próteses de cobre, material que não oxida, ou de
                                     do, em casos extremos e de maneira comedida,         madeira de lei, que é resistente aos cupins.
                                     quando o artista já o havia utilizado original-          Primeiramente, furam-se as partes a serem
                                     mente. Manoel Galdino e Adalton Lopes usaram         coladas, de modo que a prótese possa transpas-
                                     esse material para unir partes ou membros de         sar de um lado para o outro da obra. Por isso, é
                                     barro já queimados28. Em alguns casos, esse          aconselhável que se marque um dos lados no eixo
                                     tipo de interferência é harmonizado com o uso        da madeira com um pequeno pingo de tinta. Fura-
                                     de ranhuras e pigmentos no acabamento.               se com cuidado para não atravessar a superfície
                                                                                          da obra. Mede-se a profundidade dos dois furos,
                                     :: Materiais e equipamentos                          que, somados, devem ser do tamanho da próte-
                                         Colas extrafortes, no caso da cerâmica.          se. Executa-se a colagem com a cola à base de
                                     Para obras em madeira, além de colas extra-          PVA, aplicada em ambas as partes. Em seguida,
                                     fortes, usa-se em alguns casos uma prótese,          coloca-se a prótese em um dos furos e liga-se a
                                     que pode ser um pino de madeira ou de cobre.         outra extremidade ao segundo furo, mantendo as
                                     A tensão entre as partes é feita com elástico,       partes unidas até a secagem da cola. Deve haver
                                     grampos ou escoras.                                  uma atenção constante para evitar o excesso de
                                                                                          cola, a ser removido quando a cola ainda está
                                     :: Processos e cuidados                              fresca, mediante o uso de algodão ou estopa le-
                                          O uso de colas muito resistentes é irrever-     vemente umedecido. Em obras de grande porte,
                                     sível. Depois de aplicada, a resina só poderá        pode-se usar mais de uma prótese.
                                     ser retirada da peça se as partes comprome-
                                     tidas forem movimentadas. Além disso, esses          4.4. Recomposição estética
                                     adesivos atingem lentamente o efeito desejado
                                     e as partes comprometidas de grande porte po-        :: Aplicação
                                     dem tornar o conjunto da obra instável durante            A recomposição estética ou retoque é usa-
                                     o processo. Dessa maneira, esse procedimento         da em obras pintadas ou policromadas, princi-
    28. Manoel Galdino utiliza a     deve ser utilizado de forma moderada e sempre        palmente em casos nos quais tenham ocorrido
     resina epóxi principalmente     com a consulta de especialistas.                     perdas superficiais ou de estrutura por motivo
 quando compõe obras de gran-
                                          Para as obras em cerâmica, uma vez deci-        de queda ou de desprendimento de camada
  de porte, queimadas em duas
partes. Já Adalton utiliza o epóxi
                                     dida a aplicação da resina, o adesivo deve ser       pictórica, o que pode acontecer, inclusive, pela
 em elementos que são serrados       colocado no centro da quebra em quantidade mí-       movimentação natural das partículas da peça.
   ou furados para utilização de     nima, para se evitar o excesso. Depois, é neces-
molas e arames ou ainda quan-
                                     sário encontrar o equilíbrio da parte a ser colada   :: Materiais e equipamentos
do compõe elementos separados
da base, como na série “Jogos e      e, em alguns casos, imobilizá-la ou tencioná-la,          Para obras com superfícies sem brilho e den-
                      Diversões”     de modo que a colagem se estabilize com as par-      sidade, que geralmente foram realizadas com
                                     tes nas suas posições exatas. Essa tensão pode       tintas à base de água, o retoque costuma ser feito
29. Aquelas que têm a camada
                                     ser feita com elástico, grampos ou escoras.          com aquarela. Já superfícies encorpadas29 e com
pictórica mais densa, principal-
mente no caso das tintas a óleo,          No caso de obras em madeira, utiliza-se         brilho podem ser recuperadas com tinta acrílica.
   acrílica ou esmalte sintético.    a uma cola extraforte à base de PVA. Quando o        As características de brilho e volume da tinta


                                                                        36
acrílica são semelhantes às do esmalte sintético       ocas por dentro, o que é provocado pela ação
e da tinta a óleo, mas aquela tem as vantagens         de insetos. Neste caso, a peça precisa antes
de diluir em água e ser menos tóxica, o que per-       ser imunizada.
mite uma remoção mais segura, caso seja preci-              Para obras em cerâmica, esse procedimen-
so. Para esse processo, são necessários também         to é realizado quando a obra perdeu parte de
pincéis para retoque, palito e algodão.                sua estrutura como conseqüência de fragmen-
                                                       tações e quebras.
:: Processos e cuidados
     Em primeiro lugar, nesse procedimento,            :: Materiais e equipamentos
as características das tintas originalmente                 Para obras em madeira, usa-se uma mis-
utilizadas pelo artista devem ser respeitadas.         tura de cola branca à base de PVA e serragem.
Para isso, além de uma grande sensibilidade            Em alguns casos, são necessários pedaços de
e de um conhecimento profundo do acervo, o             madeira de qualidade, menos sensíveis à ação
profissional deve ser experiente e estar capa-         de cupins, como o ipê e o cedro. Para obras em
citado a perceber os tons das cores originais,         cerâmica, aplica-se uma mistura de cola e mas-
a justaposição de tintas e as diferentes formas        sa, ambas à base de PVA. Recomenda-se o uso,
de composição criadas pelos artistas.                  tanto para a cerâmica quanto para a madeira,
     Uma regra geral é o cuidado para que não          de lixas finas para o nivelamento da superfície e
se sobreponham diferentes camadas de pin-              de algodão umedecido para a retirada de even-
tura. Mas como cada caso tem as suas espe-             tuais excessos das substâncias utilizadas.
cificidades, a obra deve ser cuidadosamente
estudada antes do início do retoque.                   :: Processos e cuidados
     Quando a obra apresenta manchas causa-                 Em primeiro lugar, é necessário remover os
das por fungos ou por oxidação, uma solução            detritos no interior da obra, seja aspirando ou
usada por alguns artistas é o uso de pintura           virando a peça de cabeça para baixo.
em tons de barro. No entanto, esse procedimen-              Depois, utiliza-se cola branca à base de PVA
to só deverá ser adotado se foi originalmente          misturada com serragem e um pouco de água,
usado pelo autor da peça. Geralmente nesses            no caso da madeira, ou com massa à base de
casos não há muito a se fazer, porque as inter-        PVA, no caso da cerâmica. Essa mistura deve
venções podem piorar a deterioração da obra.           ser colocada na obra por etapas: espera-se que
     O mesmo acontece quando há perda de pin-          cada camada seque para se colocar a seguinte,
tura em áreas grandes e não há qualquer referên-       até chegar à superfície.
cia a ser seguida – por exemplo, se a obra perde            No caso da madeira, as primeiras camadas
um detalhe com uma estampa sem seqüência               podem ter uma mistura de cola com serragem
lógica. Nessa situação, o restaurador não deve         mais grossa, enquanto a superfície deve contar
tentar criar ou imitar a obra original, mas utilizar   com uma serragem peneirada, que facilita o
o tom de fundo dessa parte, a partir de vestígios      acabamento.
aparentes em outros pedaços da peça.                        Em casos de grande sensibilidade e risco
                                                       de perda de superfície, essas ações devem ser
4.5. Recuperação da estrutura                          evitadas, adotando-se em seu lugar o proces-
                                                       so conhecido como faceamento, detalhado no
:: Aplicação                                           item seguinte.
     Para obras em madeira, a recuperação da                No caso da cerâmica, usa-se a mistura de
estrutura é necessária quando as obras estão           cola e massa à base de PVA e preenchem-se


                                                                  37
os espaços onde houve a perda, também por         em “banho Maria”, com o auxílio de um vidro e
camadas, até que se atinja a superfície. Depois   uma panela.
de seca, a massa deve ser nivelada com o au-
xílio de uma lixa fina, removendo-se o excesso    :: Processos e cuidados
com algodão umedecido.                                 Em primeiro lugar, deve-se testar a solu-
     Outra situação usual é o comprometimento     bilidade da tinta que compõe a obra com uma
de uma estrutura diretamente relacionada ao       pequena quantidade de algodão umedecido em
movimento de uma obra, como um braço ou           água, enrolado na ponta de um palito. A apli-
uma perna. Nesse caso, o primeiro procedimen-     cação é feita em pequenos pontos da obra. Se
to a se seguir é a retirada dessa estrutura da    a tinta não for resistente à água, o faceamento
peça. Depois, um profissional habilidoso, como    não pode ser realizado.
um bom marceneiro, pode usar essa estrutura            Caso a tinta não dilua, inicia-se o proces-
como molde e construir uma cópia, respeitando     so. Assim, coloca-se uma película de papel ja-
as formas e os volumes do original.               ponês (ou papel de seda) sobre a superfície da
                                                  peça. Em cima do papel e com o auxílio de um
4.6. Faceamento                                   pincel de cerdas macias, pincela-se gelatina
                                                  neutra, diluída em água. Depois que a gelati-
:: Aplicação                                      na seca – o que demora de seis a 12 horas –,
     O faceamento é aplicado apenas em obras      devem ser abertas, pouco a pouco, pequenas
feitas em madeira que perderam parte da es-       “janelas” na superfície da estrutura, retirando
trutura, mas cuja superfície manteve-se intac-    partes do papel com a gelatina seca. Quando
ta. Essa situação é causada principalmente por    se tem acesso ao interior, a estrutura deve
ataques de cupins. O objetivo desse procedi-      ser recomposta tal como descrito no processo
mento é chegar ao interior da obra, preservando   anterior (recuperação da estrutura). A cola da
sua superfície original, sem o risco de danos.    mistura servirá para colar a superfície nova-
                                                  mente, fechando a “janela”. A cola deve secar
:: Materiais e equipamentos                       totalmente e, depois, o papel é umedecido com
    Palito de bambu, algodão, água, papel ja-     água. Com isso, a gelatina se dilui e o papel se
ponês (ou de seda), gelatina neutra e pincéis     solta. O excesso de gelatina deve ser retirado
de cerdas macias. A gelatina deve ser aquecida    com algodão e água.




                                 38
III.
Conservação e restauro
em obras do acervo do
Museu Casa do Pontal




                         39
1.
                Lavadeira




Obra com partes descoladas                     Mesa de sucção                Limpeza em mesa                    Colagem
                                               de sólidos                    de sucção de sólidos




                                          Título da Obra    Laudo Técnico
                                               Lavadeira    A obra estava em exposição permanen-
                                                            te, dentro da vitrine, com acúmulo de
                                                 Artista    sujidades. A figura principal descolou-
                                            Zé Caboclo*     se da base (quebra simples).

                                       Região de Origem     Ações de Conservação e Restauro
                             Alto do Moura, Caruaru – PE    :: Limpeza de superfície a seco:
                                                            processo cuidadoso, devido ao
                                   Década de Aquisição      desprendimento da camada pictórica
                                                 1960       (o que impediu a limpeza em meio
                                                            aquoso); uso da mesa de sucção de
                                             Dimensões      sólidos.
                                         15 x 20 x 11 cm
                                                            :: Colagem das partes soltas: com cola
                                                   Peso     branca; a tensão das partes foi feita
                                                   685 g    com elástico.

                                                Materiais
                                 Barro cozido policromado




                                                                * José Antônio da Silva (1921-1973). Nasceu no Alto do Moura, Caruaru, PE. Aprendeu a trabalhar o
                                                                barro nas brincadeiras infantis, observando a mãe e uma irmã que se dedicavam ao artesanato uti-
                                                                litário. Conhecido pelo apelido Zé Caboclo, tornou-se um dos mais conceituados artistas de Caruaru.
                                                                Contribuiu de maneira decisiva, junto com Vitalino e Manuel Eudócio, seu cunhado, para marcar um
                                                                estilo na arte dos bonecos de barro daquela região. Em parceria com esse último, inovou técnicas e
                                                                formas, adotando o uso do arame na estrutura das esculturas e a feitura do olho em alto relevo, ao in-
                                                                vés de fazê-los furadinhos. Seus filhos, Antônio, Zé Antônio, Paulo, Horácio, Marliete, Socorro, Carmélia
                                                                e Helena são artistas reconhecidos.



                                                                                       40
Encaixe        Tensão feita com elástico




          41
2.
                Casal com bebê




Interferências aparentes          Limpeza em mesa de        Remoção de antigos retoques            Preparação da tinta com pigmentos     Pintura
de restaurações anteriores        sucção de líquidos        e emassamentos




                                          Título do Conjunto     Laudo Técnico                                      Ações de Conservação e Restauro
                                             Casal com bebê      A obra estava na reserva técnica.                  :: Limpeza de superfície a seco: uso
                                                                 Foram encontradas interferências                   de pincéis de cerdas finas e mesa de
                                                     Artista     aparentes de restauros anteriores: o pé            sucção de sólidos.
                                                   Noemisa*      de uma figura havia se descolado, e o
                                                                 emassamento para recompor a estru-                 :: Limpeza de superfície em meio
                                          Região de Origem       tura havia sido excessivo, aumentando              aquoso: uso de palito (nas áreas mais
                                Vale do Jequitinhonha – MG       o volume; a pintura também estava                  delicadas) e vaporização (na estrutu-
                                                                 diferente, com cores alteradas.                    ra); realizada sobre a mesa de sucção
                                       Década de Aquisição                                                          de líquidos.
                                           Não identificada
                                                                                                                    :: Remoção de antigos retoques e
                                                 Dimensões                                                          emassamentos: com palito, algodão,
                                        26,5 x 16,5 x 6,5 cm                                                        água e bisturi.

                                                         Peso                                                       :: Recomposição estética: com tinta à
                                                       1.050 g                                                      base de PVA, em tons de barro.

                                                   Materiais
                             Barro cozido com pintura natural
                                     (à base do próprio barro)




                                                                 * Ver nota biográfica na página 19.



                                                                                          42
43
3.
              Eletricista Trabalhando




Descolamento de parte da        Mistura de cola, massa e pigmento                Colagem                                                   Acabamento
sustentação originalmente
ligada à estrutura
                                          Título da Obra       Laudo Técnico
                                Eletricista Trabalhando        A obra estava na reserva técnica, com               :: Limpeza com solvente: em determi-
                                                               sujidades e uma grande quebra de                    nados pontos da estrutura.
                                                 Artista       estrutura na parte superior. Além disso,
                                           Luiz Antônio*       houve o descolamento de uma parte                   :: Colagem das partes quebradas e
                                                               de sustentação diretamente ligada à                 descoladas: com uma mistura de cola
                                      Região de Origem         estrutura de base, decorrente de uma                branca, massa e pigmento com tons
                            Alto do Moura, Caruaru – PE        restauração anterior.                               de barro.

                                  Década de Aquisição          Uma dificuldade para esta restauração               :: Recomposição estética: uso de tinta
                                                1970           foi a presença de uma madeira no                    acrílica diluída em água.
                                                               interior da obra, colocada pelo artista
                                            Dimensões          para a sustentação, que não podia ser
                                        90 x 50 x 13 cm        retirada porque isso comprometeria a
                                                               sua estrutura.
                                                    Peso
                                                  6.830 g      Ações de Conservação e Restauro
                                                               :: Limpeza de superfície a seco: uso
                                              Materiais        de pincéis e, nas figuras e áreas de di-
                     Barro cozido policromado. Materiais       fícil acesso, de um palito com algodão.
                           secundários: arame, madeira
                                (na sustentação interna)       :: Limpeza de superfície em meio
                                                               aquoso: uso de palito (nas áreas mais
                                                               delicadas) e vaporização (na estrutu-
                                                               ra); realizada sobre a mesa de sucção
                                                               de líquidos.

                                                               * Luís Antônio da Silva (1935 – ). Nasceu no Alto do Moura, em Caruaru, PE. Com a mãe louceira,
                                                               aprendeu a modelar o barro, mas atribui sua iniciação profissional a Mestre Vitalino, com quem apri-
                                                               morou a técnica. Além de criar tipos regionais, especializou-se na representação de temas urbanos,
                                                               especialmente aqueles ligados ao progresso e ao uso das máquinas.


                                                                                     44
45
4.
               Aguadeiro




Detalhe do descolamento                          Limpeza de superfície a seco                        Imunização em câmara                Colagem
                                                 com uso de pincel                                   de fumigação


                            Título do Conjunto   Laudo Técnico                                       Ações de Conservação e Restauro
                                     Aguadeiro   A obra estava em exposição perma-                   :: Limpeza de superfície a seco: uso
                                                 nente e fora da vitrine. Como fica em               de pincéis (não foi necessário realizar
                                      Artista    uma área que já havia sido reformada,               limpeza em meio aquoso porque a obra
                                   Domingos*     o acúmulo de sujidades era pequeno.                 estava relativamente limpa).
                                                 Numa restauração anterior, um dos
                            Região de Origem     dedos do pé da figura foi totalmente                :: Imunização: na câmara de fumigação.
                                 Joaima – MG     devorado por cupins e teve que ser
                                                 refeito. Desta vez, o dedo refeito foi              :: Recomposição do braço ataca-
                          Década de Aquisição    encontrado descolado da peça e o coto-              do por cupins: com cola branca e
                                        1970     velo esquerdo tinha sido parcialmente               serragem.
                                                 atacado por cupins.
                                    Dimensões                                                        :: Colagem do dedo solto: com cola
                              28 x 32 x 104 cm                                                       branca.

                                        Peso
                                      2.945 g

                                    Materiais
                               Madeira natural




                                                 * Domingos Siqueira (? – ). Nasceu em Joaima, cidade localizada no Vale do Jequitinhonha, MG.
                                                 Entalha a madeira e desenvolve, com elegância de traços, temáticas ligadas à vida rural dessa região.
                                                 Seus personagens capturam com detalhes as vestimentas e os adereços de caçadores, aguadeiros e
                                                 outras figuras do campo. Reproduz animais com fidelidade.



                                                                       46
47
5.
                  Cidade baixa com dois grandes prédios




Verniz alterado                    Limpeza em meio aquoso                           Remoção de excesso de vernizes                            Aplicação de novo verniz
                                   com uso de vaporizador




                                     Título do Conjunto     Laudo Técnico                                        Ações de Conservação e Restauro
                  Cidade baixa com dois grandes prédios     A obra estava em exposição permanen-                 :: Limpeza de superfície a seco: com
                                                            te, fora da vitrine e numa área úmida                pincéis e trinchas.
                                                Artista     do Museu, com presença de muitos
                                              Dadinho*      insetos. Por esse motivo, era grande o               :: Limpeza de superfície em meio
                                                            acúmulo de sujidades (poeira, teias de               aquoso: uso de pincel, trincha, vaporiza-
                                     Região de Origem       aranha, detritos de insetos etc.). Além              dor, estopa e algodão.
                                      Nova Iguaçu - RJ      disso, o verniz estava alterado, com
                                                            aspecto esbranquiçado por causa da                   :: Limpeza de superfície com
                                  Década de Aquisição       umidade e da sujeira.                                solvente: para retirar o excesso de
                                                1980                                                             vernizes alterados.

                                            Dimensões                                                            :: Aplicação de um novo verniz: à base
                                    140 x 160 x 110 cm                                                           de resina de damar**.

                                                  Peso
                                               26.000 g

                                              Materiais
                                    Madeira envernizada




                                                            * Ver nota biográfica na página 29.
                                                            ** Damar é uma resina vegetal, diluível em solvente. É usado para produzir um verniz, que é resistente
                                                            à luz e oferece fácil remoção.



                                                                                  48
49
6.
     Lampião e Maria Bonita




Estrutura devorada    Imunização com injeção.              Envelope                                    Recomposição com serragem e cola branca
por cupins

                         Título do Conjunto     Laudo Técnico                                      Ações de Conservação e Restauro
                     Lampião e Maria Bonita     A obra estava em exposição permanen-               :: Limpeza de superfície a seco: com
                                                te, fora da vitrine, em uma área que               pincéis.
                                    Artista     ainda não havia passado pela reforma
                          Manuel Graciano*      atual. A vitrine era muito antiga e                :: Limpeza de superfície em meio
                                                próxima à saída do Museu, local de                 aquoso: uso de vaporizador, pincel e
                          Região de Origem      passagem constante de veículos, o                  estopa.
                                        CE      que provocou um grande acúmulo de
                                                sujidades. Além disso, os cupins devo-             :: Imunização: com pinceladas e
                       Década de Aquisição      raram parte da estrutura da obra (do               injeção nas áreas atacadas por ou com
                                     1970       lado direito da saia de Maria Bonita) e            vestígios de cupins; “envelope”, com
                                                atacaram partes da base.                           plástico e fita adesiva.
                                 Dimensões
                            136 x 42 x 32 cm                                                       :: Recomposição da estrutura: com
                                                                                                   serragem e cola branca.
                                        Peso
                                     77.500 g                                                      :: Retoque das áreas perdidas: com
                                                                                                   tinta à base de PVA.
                                   Materiais
                        Madeira policromada,
                      pregos e pinos de metal




                                                * Manuel Graciano Cardoso (1923 – ). Nasceu em Santana do Cariri, CE. Na infância, fazia brinquedos
                                                em madeira e os vendia para outras crianças. Posteriormente, passou a produzir presépios e ex-votos,
                                                criando um estilo pessoal, com destaque para a pintura, bastante original. Muitas de suas esculturas
                                                têm grandes proporções e, com freqüência, representam figuras de animais. Vive em Juazeiro do Norte.
                                                Francisco Graciano Cardoso, seu filho, e Edinaldo, neto, seguem-lhe na profissão e no estilo.




                                                                      50
51
7.
               Escravidão




Limpeza de superfície a seco                    Substituição das roupas          Moldes dos membros originais   Membros originais ao lado de membros novos, antes
                                                                                                                da realização de acabamento e pintura




                                      Título do Conjunto          Laudo Técnico                                 Ações de Conservação e Restauro
                                  Lampião e Maria Bonita          A obra estava em exposição perma-             :: Limpeza de superfície a seco: uso
                                                                  nente, fora da vitrine, e com acúmulo         de trinchas e pincéis e, para a estrutu-
                                                      Artista     de sujidades. Além disso, os cupins           ra, de aspirador de pó.
                                                     Saúba*       devoraram vários membros e deixaram
                                                                  vestígios em diversas outras partes. Os       :: Imunização: com injeção, pinceladas
                                        Região de Origem          tecidos das roupas estavam acidifi-           e “envelope”.
                                        Recife/Olinda – PE        cados e rompidos, e houve quebra da
                                                                  haste do mecanismo de movimento.              :: Limpeza de superfície em meio
                                    Década de Aquisição                                                         aquoso: com vaporizador, pincéis,
                                                  1970                                                          trincha e palito de bambu.

                                                Dimensões                                                       :: Substituição dos tecidos: tentou-se
                                          75 x 130 x 35 cm                                                      lavar as roupas, mas, como a resistên-
                                                                                                                cia foi baixa, optou-se pela troca total
                                                      Peso                                                      dos tecidos (de algodão, em branco e
                                        Não identificado**                                                      preto), com base nos moldes originais.

                                                Materiais                                                       :: Substituição dos membros devora-
               Madeira policromada. Materiais secundá-                                                          dos: com base nos membros restantes
                rios: tecidos, ferro, barbante de algodão,                                                      (optou-se por trocar a madeira original,
                                          motor e arames.                                                       pinho, pelo cedro, que tem mais resis-
                                                                                                                tência aos cupins).

                                                                                                                :: Recomposição da estrutura dos
                    * Saúba (1953- ). Antônio Elias da Silva nasceu em Carpina, Pernambuco. Aprendeu a          membros reaproveitáveis: com cola e
                    confeccionar bonecos de mamulengo ainda jovem. Considerado um dos melhores escultores       serragem.
                    do gênero no Brasil, ficou famoso por algumas de suas criações, como a boneca em tamanho
                    de gente com quem dançava junto, os conjuntos de mamulengos articulados (geringonças) e
                    os bonecos em cima da bicicleta que se movimentam sob orientação da mão.                    :: Recuperação estética: pintura e
                    ** As dimensões da obras dificultam a sua pesagem.                                          retoque com tinta acrílica.



                                                                                        52
53
8.
               Serra Pelada




Exemplo de fio de nylon partido                       Retirada de fio                  Colocação de fio de nylon novo                        Idem
                                                      de nylon partido


                                            Título da Obra       Laudo Técnico
                                              Serra Pelada       A obra ficou durante dez anos na                  :: Substituição dos fios de nylon que
                                                                 exposição Brasil através da moeda, do             ligavam o mecanismo às partes com
                                                    Artista      Centro Cultural do Banco do Brasil. No            movimento.
                                                  Adalton*       final de 1999, voltou para o Museu Casa
                                                                 do Pontal, com grande acúmulo de su-              :: Recomposição das estruturas que-
                                       Região de Origem          jidades, como poeira e teias de aranha.           bradas: com cola branca e massa.
                                             Niterói – RJ        Além disso, foram encontrados outros
               	                                                 problemas: fios de nylon arrebentados,            :: Recomposição estética: com tinta
                                    Década de Aquisição          madeira com vestígios de cupins, motor            acrílica.
                                        Não identificada         queimado, engrenagens danificadas
               	                                                 e figuras quebradas. A maior parte da
                                               Dimensões         estrutura pôde ser aproveitada.
                                        102 x 85 x 110 cm
                                                                 Ações de Conservação e Restauro
                                                     Peso        :: Limpeza de superfície a seco: com
                                       Não identificado**        pincéis de cerdas finas para a superfí-
                                                                 cie e aspirador de pó para a estrutura.
                                                  Materiais
                   Barro cozido policromado sobre base de        :: Limpeza de superfície em meio
                    resina, tinta acrílica. Materiais secun-     aquoso: uso de palito de bambu nas
                    dários: fios de nylon, madeira, arames,      figuras mais delicadas e vaporizador
                        mecanismo de movimento (motor).          manual na base.

                                                                 :: Substituição de todo o mecanismo
                                                                 de movimento: construção de um novo
                                                                 motor e colocação de corrente e roda
                                                                 dentada no lugar da engrenagem.


                                                                 * Ver nota biográfica na página 19.
                                                                 ** As dimensões da obras dificultam a sua pesagem.


                                                                                      54
Amarração de fio de nylon novo à estrutura        Testes feitos com a peça   Idem
                                                  em movimento




                                             55
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                                                              57
Este livro foi impresso pela Gráfica York,
   com o miolo em papel off set 90g
    e capa em cartão supremo 250g
         com o tipo trade gothic.

Conserva restauro

  • 1.
    Caderno de Conservaçãoe Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira
  • 2.
    UNESCO Representação da UNESCOno Brasil Representante Vincent Defourny Coordenação para a área de Cultura Coordenadora Jurema Machado Museu Casa do Pontal Diretora-presidente Angela Mascelani Vice-presidente Jacqueline Van de Beuque Patrocínio Institucional Ministério da Cultura BNDES Petrobras Light Parceria Institucional IPHAN / Departamento de Museus e Centros Culturais Museu Casa do Pontal Estrada do Pontal, nº 3295, Recreio dos Bandeirantes Rio de Janeiro – RJ – Brasil – CEP: 22785-580 Tel/fax: (55) (21) 2490-3278 2490-4013 institucional@museucasadopontal.com.br www.museucasadopontal.com.br www.popular.art.br
  • 3.
    Caderno de Conservaçãoe Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira ______ 1a edição Rio de janeiro | 2008
  • 4.
    Caderno de Conservaçãoe Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira © Associação de Amigos da Arte Popular Brasileira - Museu Casa do Pontal / Unesco Coordenação Museu Casa do Pontal Documentação fotográfica Lucas Van de Beuque Pesquisa e textos Ana Gabriela Dickstein Revisão de conteúdos Angela Mascelani Simone Mesquita Joana Ortigão Corrêa Moana Van de Beuque Revisão de textos Sergio dos Santos Sergio Lamarão Elisa Rosa Produção Editorial Ana Gabriela Dickstein Projeto gráfico Joana Ortigão Corrêa Clarice Soter Eneida Déchery Consultoria Ione H. Pereira Couto Agradecimentos COPPE/UFRJ, CECOR/UFMG, Museu Nacional/UFRJ, Procedimentos museológicos Museu de Folclore Edison Carneiro, Museu Histórico Sergio dos Santos Nacional, Museu do Índio e Museu da Chácara do Céu. Caderno de Conservação e Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira / Museu Casa do Pontal. Rio de Janeiro: Associação dos Amigos da Arte Popular Brasileira; Brasília: UNESCO, 2008 60 pp. ; 19,5 x 26,8 cm ISBN 978-85-60346-01-1 1. Museologia. 2. Conservação e Restauro. 3. Arte Popular Brasileira. I. Museu Casa do Pontal. II. UNESCO Este caderno foi produzido no Contexto de Cooperação UNESCO / Associação dos Amigos da Arte Popular Brasileira – Museu Casa do Pontal, Projeto “Caderno de Conservação e Restauro de Obras de Arte Popular Brasileira”, contrato nº CLT05999/2006. As opi- niões aqui expressas são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a visão da UNESCO sobre o assunto.
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    07 Abertura | UNESCO - Vincent Defourny 09 Abertura | Museu Casa do Pontal - Angela Mascelani 13 O diálogo com os parceiros: implantação de uma política de conservação participativa - Ione H. Pereira Couto 19 I. Considerações sobre conservação e restauro na arte popular brasileira 19 1. As múltiplas interfaces dos processos de conservação e restauro 22 2. Documentação de acervos 24 3. Conservação preventiva 27 4. Conservação e restauro 31 II. Procedimentos básicos de conservação e restauro 31 1. Procedimentos iniciais 32 2. Limpeza 32 2.1. A seco 32 2.2. Em meio aquoso 33 2.3. Com solvente 33 2.4. Com tolueno 34 3. Imunização 34 4. Restauração de partes danificadas 35 4.1. Colagem de partes que se quebram ou se descolam sem comprometer a sustentação 35 4.2. Colagem de partes em que houve fragmentação 35 4.3. Recuperação da sustentação 36 4.4. Recomposição estética 37 4.5. Recuperação da estrutura 38 4.6. Faceamento 39 III. Conservação e restauro em obras do acervo do Museu Casa do Pontal 40 1. Lavadeira, de Zé Caboclo 42 2. Casal com bebê, de Noemisa 44 3. Eletricista Trabalhando, de Luiz Antonio 46 4. Aguadeiro, de Domingos 48 5. Cidade baixa com dois grandes prédios, de Dadinho 50 6. Lampião e Maria Bonita, de Manuel Graciano 52 7. Escravidão, de Saúba 54 8. Serra Pelada, de Adalton 56 Bibliografia consultada
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    Obra de MestreVitalino, Alto do Moura, PE – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini
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    Abertura | UNESCO Assim como o conhecimento transcende, cada vez mais, as fronteiras das especialidades, o desafio atual da UNESCO tem sido tratar de maneira articulada e complementar seus programas e instrumentos normativos na área da Cultura. E nesse ambiente de interdisciplinaridade, os Museus são vistos como um espaço-síntese para um enfoque integrado do patrimônio e da diversidade cultural, uma vez que re- presentam, por excelência, espaços educadores para a compreensão mútua e a coesão social. Com base nesses pressupostos, a UNESCO tem optado por focalizar sua ação na área de Museus nos países menos desenvolvidos, nas regiões de conflito e nas coleções mais significativas para a compreensão integrada do patrimônio e sua potencial contribuição para o desenvolvimento econômico, social e humano. Elemento central dessa estratégia é a construção de programas de formação para profissionais que atuam nos mais diversos contextos, muitos deles demandados a gerir ou a agir diretamente sobre temas que requerem uma vasta gama de áreas de conhecimento e de habilidades, desde a promoção de programas educativos, até a conservação preventiva e a segurança das coleções. Por essa razão, os programas de formação promovidos ou apoiados pela UNESCO têm privilegiado as técnicas simples e eficazes para a sal- vaguarda das obras, produzido material pedagógico e reforçado as redes de profissionais e de associações. A contribuição da UNESCO ao Museu Casa do Pontal para a sistematização e difusão do seu conhecimento sobre conservação de sua coleção de arte popular alinha-se perfeitamente com as preocupações e prioridades que descrevemos. O Museu reúne um conjunto de práticas exemplares, a começar pela origem da coleção, resultado do rigor e da persistência de anos de um particular, situação ainda tão rara no Brasil. Jacques Van de Beuque reuniu, e hoje estão disponíveis ao público, peças de arte popular de todo o país, objetos até então condena- dos à efemeridade, não apenas pelo seu suporte físico, mas por não serem considerados arte, menos ainda merecedores de tratamento museológico. Essa origem se relaciona diretamente com a vocação do Museu do Pontal para as parcerias, para o trabalho integrado com a comunidade e para a educação. Por utilizarem os materiais que se tem à mão, sobretudo o barro e a madeira, ou outros ainda mais frágeis e diversos, como a areia, palha, contas, tecidos, latões, penas de aves, e, ainda, por não terem sido produzidos com a intenção consciente de perenidade, os objetos de arte popular desafiam as técnicas de conservação. Somente o enfrentamento cotidiano de uma variedade de situações concretas poderia dar sub- sídio a um mínimo de generalização, se não de técnicas, pelo menos de critérios que possam ser transporta- dos para outras situações. Esse é o resultado imediato que almejamos ter alcançado com esse caderno. Mas, além de um manual que possa ser disseminado entre os museus com vistas à conservação de coleções análogas, pretende-se um pouco mais. É importante estimular a conservação de acervos existentes, não disponibilizados ou precariamente disponibilizados ao público, valorizando e ampliando o acesso à produção de arte popular em um país tão vasto e diverso como o Brasil. Segundo Angela Mascelani, diretora do Museu Casa do Pontal, essa produção que “apresenta os principais temas da vida social e do imaginário - seja por meio da criação de seres fantásticos ou de simples cenas do cotidiano - numa linguagem em que o bom humor, a perspicácia e a determinação têm lugar de destaque. (...) tem um “forte poder de comunicação, que ultrapassa as fronteiras de estilos de vida, situação socioeconômica e visão de mundo, interessando a todos de maneira indistinta.” Além do seu valor em si, pode desempenhar um papel importante na valorização das práticas, dos conhecimentos e das visões de mundo de parcela da população cujas expressões são pouco ou nada visíveis, apartada dos museus e das oportunidades de trocas culturais mais justas e equilibradas. Vincent Defourny Representante da UNESCO no Brasil
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    Obra de deManuel Galdino, Alto do Moura, PE – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Aníbal Sciarretta
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    Abertura | MuseuCasa do Pontal O Museu Casa do Pontal é considerado des de pesquisa, educação, preservação e di- atualmente o maior e mais significativo mu- vulgação. Dessa forma, a instituição construiu seu de arte popular do país. Está instalado em alicerces que permitem que o acervo seja so- um sítio de 12.000 m² localizado no bairro do cialmente protegido e amplamente usufruído. Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste da Em 1991, parte significativa da coleção e da cidade do Rio de Janeiro, a poucos metros do edificação foram tombadas pelo Conselho de mar. Seus amplos jardins foram especialmente Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural do desenhados para promover a integração entre Rio de Janeiro. O Museu já promoveu mais de a vegetação, as galerias do museu e a reserva quarenta exposições no Brasil e em 13 diferen- ecológica que se estende em torno. tes países. Desde 1996, desenvolve um Pro- Seu acervo, resultado de 40 anos de pes- grama Educacional e Social que, em 12 anos quisas e viagens por todo país do designer de atuação, já atendeu a mais de cento e cin- francês Jacques Van de Beuque, é composto qüenta mil participantes por meio de visitas por oito mil obras, feitas por mais de duzen- teatralizadas, exposições itinerantes e capa- tos artistas brasileiros e produzidas a partir de citação de educadores e gestores de projetos meados do século XX. A exposição permanen- sócio-culturais. A partir de 2006, a instituição te exibe, em seus 1.500 m² de galerias, cerca ampliou o leque de atividades culturais, ofe- de 4.500 obras organizadas tematicamente. A recendo, com maior regularidade, seminários, mostra abrange conteúdos relativos às ativi- oficinas e espetáculos. dades cotidianas, festivas, imaginárias e reli- A atuação do Museu Casa do Pontal em giosas, com obras representativas de variadas prol da divulgação e da democratização do culturas rurais e urbanas do Brasil. acesso à arte popular brasileira rendeu-lhe A missão do Museu é trabalhar pela me- diversas premiações. Em 1996, recebeu o mória, pelo reconhecimento e pela valorização Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, con- da arte popular do país, promovendo ativida- cedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico
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    e Artístico Nacional,por sua ação a favor da conta desses ou de outros métodos de limpeza. preservação histórica e artística do acervo. Em O que importa ressaltar é que houve um 2000, foi agraciado com o Prêmio D. Sebastião “processo”, tumultuado e negociado, através de Cultura outorgado pela Arquidiocese do Rio do qual as próprias pessoas da família – além de Janeiro. Em 2005, o Museu foi condecora- dos empregados, e seguramente, o coleciona- do com a Ordem do Mérito Cultural, principal dor – aprenderam a lidar com os objetos. Por comenda de caráter nacional que é oferecida se tratar de um gênero novo, suas regras de pelo governo federal e o Ministério da Cultura a conservação foram aparecendo à medida que pessoas e instituições com relevantes serviços a própria coleção avançava e se instituía en- prestados à cultura. Em 2006, a Assembléia quanto tal. Isso também mostra que havia uma Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ofertou técnica a ser aprendida. à instituição a Medalha Tiradentes. O período de profissionalização da coleção É importante não perder de vista que essa – quando ela muda de grandeza e estatuto, atuação é o resultado de um processo no qual passando de uma ordem simbólica à outra – está implícita a disposição permanente para inaugura um outro momento, no qual o acervo a aprendizagem. Este caderno é fruto, exata- torna-se público e novas formas de tratamento mente, da longa trajetória do museu em prol da se impõem. conservação e preservação de seu acervo. A especificidade e a variedade das maté- Um dia, essa coleção foi pequena. Cabia rias-primas, presentes no conjunto total das no espaço de uma pequena sala, mas, mesmo obras, fizeram com que o Museu aprimorasse assim, teve que receber cuidados especiais técnicas e sistematizasse suas práticas. para chegar até nós hoje. Recuperar alguns Contudo, nem sempre é fácil falar sobre dados acerca da história da formação dessa a construção de certos conhecimentos que coleção pode ter uma dimensão didática im- passam ao largo da escolaridade formal e portante. Iniciada como uma coleção privada da vida acadêmica. Quando Jacques Van de em 1952, as obras começaram a ser acumu- Beuque criou este acervo, ele o fez, em parte, ladas, sem muita reflexão, como parte de um maravilhado com a destreza, a capacidade e projeto de ordem íntima. Integrante do universo a fluidez dos artesãos e artistas na feitura de essencialmente doméstico, os objetos ainda obras sobre os mais variados temas e formas. transitavam um pouco ingenuamente pelos Ele estabeleceu uma relação de identidade cômodos da casa, sem um lugar determinado. com os artistas populares e também assumiu, Os cuidados que eles recebiam também eram sem nenhum constrangimento, que não dese- muito simples e visavam, sobretudo, evitar o java teorizar sobre o assunto: apenas compra- acúmulo de poeira. va as obras que o instigavam, deixando sua Qualquer pessoa que tenha tido objetos imaginação fluir em consonância com o que desse gênero em casa, especialmente as ce- concebia como sendo a própria essência desse râmicas, pode testemunhar o quanto é difícil fazer. A construção do acervo uniu-se à cons- mantê-las “inteiras” por longo tempo. No caso trução de sua própria vida. Assim, Jacques em questão, as regras sobre a conservação das olhou para si e para os artistas e, desse modo, esculturas e modelagens foram sendo “desco- cuidou para que esse acervo chegasse íntegro bertas” através da prática. Ou seja, é provável aos dias atuais. que os objetos tenham passado por uma limpe- Pode parecer paradoxal que Jacques Van za geral em algum momento, assim como é pos- de Beuque não fosse um homem de museus. sível que muitas peças tenham se quebrado por Não havia trabalhado em um, nem havia es- 10
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    tudado na universidadepara isso. A coleção grando exposições itinerantes e na exposição se deu a partir de seu investimento afetivo, de permanente. Além disso, com o passar do seu “apaixonamento” pela arte popular, de seu tempo, aparecem os desgastes maiores, tanto interesse em produzir algo que viesse a suprir para o próprio acervo como para a edificação uma lacuna na sociedade, de sua obstinação que o abriga, para os jardins e para as áreas em aprender de maneira autodidata. Contudo, sombreadas. Até o aumento de público impli- embora não tenha estudado museologia, fre- ca em tempo maior de luzes acesas sobre as qüentava museus e especializou-se nesse mé- obras e em providências a serem tomadas no tier durante a vida por meio de sua profissão de sentido de minimizar sua deterioração. designer de exposições. As técnicas de vanguarda existem, mas Reunindo sua curiosidade intelectual, sua também é sabido que os recursos para ma- capacidade analítica, seu interesse pela siste- nutenção de acervos não são abundantes. matização, colocou-os, todos, a trabalhar para Portanto, é necessário contar com o trabalho a consecução de seu objetivo: criar um acervo de pessoas habilidosas, que colaborem com a e um espaço no qual as pessoas pudessem co- preservação dos objetos ao longo dos tempos. nhecer a arte feita pelo povo brasileiro em toda Isso não implica em descartar a importância sua grandeza. dos especialistas, dos estudantes que fizeram Essa mesma inspiração esteve radical- a universidade e foram se aperfeiçoando pouco mente presente no projeto deste museu. Em- a pouco porque esse tipo de conhecimento é bora, inicialmente, não houvesse nem restau- cumulativo e os problemas que ocorrem podem radores nem museólogos, isso não quer dizer sempre se apresentar de novas maneiras. Uma que Jacques Van de Beuque tenha se colocado quebra nunca é exatamente igual à outra. à parte das discussões que se travavam nes- Como na vida dos homens, a diversidade ses ambientes. Além de assinante de revistas também prepondera na vida dos objetos. Aliar e publicações especializadas em museus e ex- os saberes é a maior virtude que conservadores posições, sempre que possível ele consultava de uma instituição ou colecionadores podem e contratava profissionais brasileiros, quando ter. O que se deseja é que todos os trabalha- a necessidade e o dinheiro apresentavam-se dores do museu possam colaborar na manu- juntos, coincidiam. Mas essas ocasiões eram tenção preventiva de seu acervo. O objetivo do raras. Na maior parte das vezes, cercou-se de Caderno de Conservação e Restauro de Obras pessoas não formalmente especializadas, de de Arte Popular Brasileira é transmitir a expe- marceneiros, pintores, mestres de obras, estu- riência adquirida pelo Museu Casa do Pontal dantes de arte e arquitetura, desenhistas, de- ao longo de trinta anos. Temos sempre o que signers – autodidatas na arte da restauração. aprender e trocar. Aqui, compartilhamos o co- A lição que esse caderno traz é justamente nhecimento que adquirimos, e que tem sido que se podem unir saberes de origens muito aplicado em favor da proteção do patrimônio diversas e obter bons resultados. É evidente cultural brasileiro que nasce das camadas que não defendemos a precarização do tra- populares e representa parte fundamental da balho de conservação e restauro, entre outros memória, do imaginário e do potencial criativo motivos porque as múltiplas funções desem- de nosso país. penhadas na atualidade pelos museus trazem maiores desgastes para as obras. Hoje, os acervos estão mais dinamizados: em viagens, Angela Mascelani emprestados para instituições locais, inte- Diretora do Museu Casa do Pontal 11
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    Obra de Nhozim,São Luís, MA - acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Lucas Van de Beque 12
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    O diálogo comos parceiros: implantação de uma política de conservação participativa Os museus não são lugares naturais. Foram – e são – construídos com vários objetivos, sendo uma de suas premissas básicas preservar os objetos para perpetuar sua existência. O ato de preservar inclui coleta, aquisição, acondicionamento e conservação dos bens materiais. Porém, o simples fato de serem objetos de museus não garante, a princípio, sua sobrevivência, visto que vários deles foram e são elaborados com materiais cuja permanência só é alcançada devido ao trabalho constante de conservação. Devido a esta característica, quando o processo de deteriora- ção se instaura por fatores endógenos ou exógenos é necessário intervir, sendo a restauração um dos caminhos mais comuns. A variada tipologia de objetos existentes em acervos museológicos é um dos grandes proble- mas enfrentados pelos profissionais dos museus quanto à adoção de política de preservação de seus bens materiais. Assim sendo, as informações levantadas a partir de cada objeto da coleção tornam-se reducionistas, pois não basta registrar a autoria do objeto, a matéria-prima emprega- da, fazer um estudo sobre o produtor (indivíduo ou grupo), conhecer o contexto de produção ou levantar os significados práticos e metafísicos que acompanham os objetos. Inserido em coleções, sua existência e permanência vão demandar outros níveis informacionais, associados a uma sis- temática de procedimentos concretos por parte daqueles que os conservam. Mas por que é necessário preservar os objetos de coleção? Muito se vem falando sobre “coleções”. Para o historiador alemão Philipp Blom, as coleções ajudam a livrar os indivíduos da impotência de não poder coordenar tudo, inclusive suas próprias vidas. Tal afirmação remete a uma observação feita por Auguste Comte1 sobre o equilíbrio mental promovido pelos objetos. Para ele, os objetos com os quais estamos em contato diário ajudam-nos a manter o equilíbrio mental, visto que mudam pouco e oferecem-nos uma sensação de permanência e estabilidade. Assemelham-se a uma sociedade silenciosa e imóvel, indiferente à nossa agitação e às nossas 1. In: HALBWACHS, Maurice. A mudanças, dando-nos a impressão de ordem e quietude. Mesmo estando alheios ao entorno, memória coletiva. São Paulo: os objetos levam, ao mesmo tempo, a nossa marca e a dos outros; eles nos prendem a uma Vértice, Editora Revista dos determinada sociedade, sensível e invisível, pois servem como elementos de distinção social, Tribunais, 1990. p.131. 13
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    revelam os nossosgostos, reportam-nos a costumes e tradições, evocam-nos o passado, tanto pessoal como coletivo. As coleções também são comparadas a “retratos instantâneos”, visto que congelam momen- tos que a investigação histórica é capaz de revelar, apontando as situações nas quais os objetos se encontravam envolvidos quando da sua confecção. Vista dessa perspectiva, principalmente pelo olhar daquele que contempla e que busca conhecer sua estrutura mais profunda, a coleção revela que os objetos se encontram conectados a vários domínios, tanto aqueles relacionados ao produtor do objeto, indivíduos ou grupos, como aqueles relacionados a quem os coleciona e os conserva. Quanto ao produtor, podemos levantar informação sobre o meio social, econômico, seus valo- res morais e religiosos. Podemos estudar questões referentes ao gosto, à estética e às preferências no uso de determinadas matérias-primas. Podemos ainda, a partir de cada objeto, falar sobre os significados práticos e simbólicos que ele carrega. Sondar estas produções significa olhá-las de modo diverso, buscando esgotar a pluralidade de informações que acompanham cada objeto de coleção, visto que estes se encontram relacionados a outros tantos que foram elaborados isolada- mente e em momentos diferentes. Assim sendo, as informações obtidas a partir de cada item da coleção ampliam sua comuni- cação, revelando o quanto cada objeto suporta de informação, uma vez que eles possuem marcas específicas de memória, reveladoras da vida de seus produtores e usuários originais. Como es- tas marcas não são imanentes, cabe à instituição que o abriga tanto preservar o objeto quanto recuperar a informação que cada um carrega, qualificando-o como documento. Dessa forma, é papel das instituições que abrigam acervos criarem métodos, mecanismos e práticas capazes de garantir a conservação dos seus bens culturais. Daí a importância de preservar. A tarefa de preservar é central na gestão das instituições detentoras de acervos. A fim de ga- rantir a existência e a permanência dos objetos colecionados, sobretudo em instituições pequenas, é preciso conseguir a adesão de todos os profissionais que nela atuam. A adoção de medidas pre- ventivas simples auxilia, de maneira fundamental, o trabalho especializado exercido pelos conser- vadores, restauradores e museólogos. Este ponto é nevrálgico, pois envolve uma série de medidas que requerem, por parte da instituição, a adoção de políticas de conservação que abarquem as seguintes iniciativas: o treinamento do conjunto de trabalhadores, visando conscientizá-los do “valor” dos bens culturais que ali se encontram depositados; a qualificação dos profissionais di- retamente envolvidos com a preservação do acervo; a adoção de medidas de segurança mediante a instalação de equipamentos contra furtos e sinistros; e por último, mas não menos importante, a execução de melhoria das condições físicas dos locais onde os acervos se encontram. Essas providências são fundamentais para assegurar a longevidade do acervo. Independente dos motivos que levam um determinado objeto ser selecionado em detrimento de outro, o fato é que ser coletado significa ser valorizado e lembrado institucionalmente e ser exposto significa ser incorporado à memória, extra-institucional, dos visitantes do museu. São mo- vimentos realizados sobre o objeto por agentes públicos ou privados, que, por meio de um capital simbólico ou político, viabilizaram a escolha. Quando nos detemos na análise das circunstâncias que motivaram a reunião de um grupo de objetos em coleção, vemos que, na maioria das vezes, as motivações foram orientadas pelo valor sentimental, pelo gosto, pelo valor científico ou ainda pelo valor financeiro que cada objeto pode alcançar. Reunidos em coleções de museus, em centros de memória, em casas de cultura, em projetos científicos, os objetos têm seu público ampliado 14
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    e passam, então,pela primeira transformação, aquela que os organiza, tendendo a reuni-los de forma a apresentar conteúdos de identidade cultural ou de conhecimento científico. É o caso de muitos acervos particulares que se tornaram públicos ou passaram a constituir museus. No Rio de Janeiro, temos como exemplos o Museu Casa do Pontal, o Museu Chácara do Céu e o Sítio Roberto Burle Marx, entre outros. Temos ainda coleções que, montadas inicialmente como parte de uma pesquisa, foram, mais tarde, integradas a instituições públicas, sendo os colecionadores orientados por variados obje- tivos. Como exemplo, temos as coleções do Museu do Índio, reunidas por diversos antropólogos, etnólogos e sertanistas que trabalharam, ou não, na instituição. Temos ainda museus ligados à história dos países, como é o caso do Museu Nacional, que nasceu da coleção particular de D. Pedro II e que hoje possui coleções de diversas origens e temas, ou do Museu Histórico Nacional, que constituiu seu núcleo principal a partir de um projeto de construção de nação. Atualmente, os museus comunitários inovam nas formas de constituição de acervos, reunindo objetos expressivos na história e memória de grupos socialmente marginalizados. Os objetos inseridos em coleções acabam determinando investimentos de conservação, exi- gindo daqueles que os conservam a implementação de práticas rotineiras de manejo e exposição. Daí a necessidade da utilização de “soluções” corretas para a higienização das peças, associadas a uma constante vigilância dos locais de acondicionamento e exposição, a fim de evitar a ação de agentes deletérios como insetos, roedores, fungos e outros microorganismos que se ali se ins- talam, seja devido à precariedade ou às características próprias dos ambientes de exposição, do acondicionamento ou do mobiliário. Há que se considerar ainda os fatores climáticos que colabo- ram para a deterioração das peças, como a umidade, a temperatura e a luminosidade. Por que é difícil conservar? Primeiro, porque os objetos, independente de estarem reunidos em coleção, não foram concebidos para “durar para sempre”. Um segundo fator está relacionado à ampla diversidade desse campo, cujas especificidades não são inteiramente contempladas pela bibliografia existente, o que acarreta conseqüências para o trabalho exercido pelos profissionais, que nem sempre têm a quem recorrer para esclarecer suas dúvidas. Um outro fator está ligado às descontinuidades de recursos financeiros disponibilizados nas instituições, os quais, às vezes, não são suficientes sequer para a manutenção de suas atividades. O diálogo proposto por esse Caderno de Conservação e Restauração de Obras de Arte Popular Brasileira é bem-vindo, sobretudo porque se assumiu como premissa a tendência atual de agir sobre o acervo utilizando-se de técnicas de conservação preventiva. Tais técnicas evitam trata- mentos mais drásticos, enfatizando a prevenção em detrimento da cura, principalmente dos acer- vos de arte popular e etnográficos, cuja bibliografia é mais restrita. O caderno também responde ao crescente interesse pela conservação preventiva dos bens culturais, fazendo dela um campo de trabalho interdisciplinar. Com efeito, a conversação preventiva vem sendo considerada como a solução mais eficaz e econômica para a realidade brasileira. Consultando a literatura recente, percebemos que as técnicas, assim como os métodos em- pregados, não se esgotam, do mesmo modo que não se esgotam os procedimentos adotados por cada instituição. Isso se deve, em grande parte, à especificidade de cada acervo, o que acaba por exigir o emprego diferenciado de técnicas de conservação; ao mesmo tempo, verifica-se que elas não são nem únicas nem definitivas. Na medida em que novas pesquisas sobre materiais vão sendo divulgadas, oriundas dos centros de ensino bem como de publicações especializadas, novas práticas podem ser gradativamente implementadas. 15
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    Hoje já contamoscom alguns cursos voltados para a formação profissional nas áreas de pesquisa, conservação e restauração, oferecidos por universidades, associações especializadas e entidades de classe, tanto em nível de graduação quanto em pós-graduação. O diálogo entre cientistas e profissionais de museus é elemento decisivo para o avanço nesta área. Notamos, tanto nos programas dos cursos que são oferecidos pelas instituições supracitadas como nos programas dos congressos, que o público-alvo são profissionais de áreas distintas, como museo- logia, química, física, engenharia, arquitetura e biologia, entre outros. A reunião de uma gama tão variada de pesquisadores oriundos das ciências exatas, biológicas e humanas, levou à geração de conhecimento sobre materiais e produtos que foram aproveitados, tanto no acondicionamento dos acervos quanto na higienização. Assim, podemos afirmar que o aperfeiçoamento dos métodos e técnicas empregadas na área de conservação e restauração é fruto da interdisciplinaridade, na busca de soluções técnicas e práticas para os mais distintos problemas. Atualmente, a conservação preventiva vem sendo apontada como a medida mais eficaz para os problemas enfrentados pelos profissionais da área de preservação de acervos museológicos. O conhecimento produzido nas mais distintas áreas visa identificar os fatores que interferem na estabilidade, assim como aqueles que danificam a estrutura dos objetos de coleção. O le- vantamento bibliográfico sumário das publicações recentes e a rápida leitura das referências bibliográficas dos textos e artigos voltados para a conservação de acervos museológicos reve- lam, o que não deixa de ser surpreendente, como a maioria dos textos está direcionada para a conservação e a restauração de acervos tradicionalmente ligados às práticas culturais ditas eruditas, oficiais ou mais refinadas. Esses textos encontram-se voltados para a conservação de telas, cuja base é o têxtil, princi- palmente o algodão, de esculturas de madeira ou pedra, de obras sobre papel, mobiliário e metal. Outros elementos surgem em menor escala, tais como as cerâmicas, os couros e as fibras vege- tais. Examinemos mais de perto estas últimas. As fibras vegetais mais abordadas são o algodão e o linho, além de outras, como o sisal, a juta e o líber, amplamente empregadas em várias partes do mundo, e também entre as populações regionais e indígenas do Brasil. Quando se tratam de cerâmicas, termo que abrange somente as cozidas, destacam-se principalmente a terracota, a louça, as faianças, as porcelanas e os arenitos. Por outro lado, a argila – simples ou decorada, com incisões ou pinturas – não vem sendo abordada, o mesmo ocorrendo com as peças de ces- taria, couro, borracha, sementes, espinhos, miçangas, penas, entre outros materiais. A plumária também serve como exemplo, uma vez que são poucos os artigos disponíveis a seu respeito e, além disso, a maioria deles está publicada em língua estrangeira, o que restringe muitas vezes a assimilação da informação. São estas matérias-primas comumente empregadas na elaboração de objetos de arte popular, utilizadas de maneira combinada ou não com outros elementos, que fazem da sua conservação um verdadeiro trabalho de pesquisa, associado à experiência pessoal que cada profissional ad- quire no contato diário com o acervo. A diversidade de acervos e de instituições museológicas está 2. A coleção Museologia – roteiros práticos, publicada diretamente relacionada à diversidade de profissionais de conservação e restauro, mas isso não originalmente pelo Museums, resultou ainda em diversidade de textos que abranjam os mais distintos materiais. Até mesmo a Libraries and Archives Council, conservação de arquivos digitais já encontra espaço nas publicações. Com base neste levanta- foi traduzida para o português mento verifica-se que o maior número de textos são traduções, cujos autores tiveram seus textos numa edição da Editora da Universidade de São Paulo com impressos originalmente em publicações especializadas, editadas por institutos de conservação a Fundação Vitae. internacionais tais como o Museums, Libraries and Archives Council2. 16
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    Essas publicações sãoorganizadas pela iniciativa de profissionais e de agências que se res- sentem da carência de informação que afeta a atividade de conservação dos acervos brasileiros. Hoje, mesmo dispondo de um maior número de publicações, as traduções nem sempre atendem a nossa realidade. Os fatores climáticos também constituem um sério problema. Temos acervos distribuídos em todo o território nacional, com variações climáticas consideráveis, que vão de clima tropical úmido, seco e árido ao subtropical, variações que fazem enorme diferença na adoção de medidas preventivas. Essas diferenças climáticas não são apontadas nas publicações disponíveis, visto que são frutos de realidades distintas. Pode-se verificar, entretanto, que os profissionais que atuam nos museus brasileiros pos- suem conhecimento, farto e abrangente, sobre os acervos com os quais lidam. Encontram-se atualizados a respeito das medidas preventivas na conservação e restauração. Essas informa- ções são adquiridas mediante a participação em congressos, workshops, jornadas e conferên- cias, tanto no Brasil quanto no exterior. Outra forma de troca de informações são as visitas que os profissionais fazem a outras instituições com o objetivo de conhecer as instalações, tais como reservas técnicas e laboratórios de restauração. Nessas oportunidades, é possível saber sobre bibliografia especializada, sem deixar de conferir ou confirmar dados sobre novos materiais, produtos e equipamentos. Não podemos esquecer também toda a atualização tornada possível pelo acesso à web, ins- trumento cada vez mais importante na disseminação do conhecimento. Algumas revistas especia- lizadas encontram-se disponíveis por meio eletrônico. Mesmo que a busca não seja rápida e fácil, a disponibilidade da informação é um fato. Entretanto, as dificuldades relacionadas à aquisição dos materiais indicados ainda não foram superadas, seja por se tratarem de artigos importados, cuja substituição por similar nacional nem sempre é possível, seja devido à falta de verbas insti- tucionais para sua aquisição. É interessante assinalar que a maioria dos textos sobre a conservação ou restauração de obje- tos museológicos enfatiza a necessidade do estudo do imóvel, do controle climático e dos materiais a serem utilizados no acondicionamento, informando que são estes elementos a chave para a con- servação preventiva. Essas medidas, associadas ao conhecimento da natureza de cada objeto da coleção, servem como ponto de partida para garantir a longevidade dos acervos museológicos. En- tretanto, poucos destes textos destacam que o fator humano é a coluna vertebral de toda conserva- ção, pois são as equipes de conservação que levarão a cabo as tarefas necessárias à preservação. Ione H. Pereira Couto Museóloga do Serviço de Museologia do Museu do Índio/RJ e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO 17
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    Nhô Caboclo, ÁguasBelas, PE - acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini 18
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    I. 3. Noemisa Batista dos Santos (1947 - ). Nasceu em Caraí, no Considerações Vale do Jequitinhonha, MG, onde vive e trabalha como ceramista. sobre conservação Com estilo singular, tornou-se referência na arte popular brasi- leira. Utiliza o próprio barro, em e restauro na arte suas muitas tonalidades, para pintar as obras que cria. popular brasileira 4. Adalton Fernandes Lopes (1938- 2005). Nasceu em Niterói, RJ, onde passou toda a sua vida. Autor de obra vasta e diversifica- 1. As múltiplas interfaces dos processos de que imprimiu aos personagens em suas “gerin- da, privilegiou os tipos populares, conservação e restauro gonças”5, contrariando as expectativas sobre a compondo uma verdadeira capacidade do barro de suportar movimentos me- etnografia da vida fluminense. Criou engenhocas imensas, nas A arte popular apresenta uma ampla diversi- cânicos quando queimado de forma tradicional. quais centenas de personagens dade de matérias-primas e de técnicas aplicadas As variações entre o método de trabalho e as se movimentam animadamente. em seu processamento. Os artistas empregam técnicas adotadas são enormes e mesmo os ma- 5. A geringonça é um tipo de – às vezes, simultaneamente – métodos sim- teriais usados por cada um deles, em uma única máquina de fabricação caseira, ples associados a procedimentos complexos, o obra, podem ser bastante diversos. Nhô Caboclo6, inventada por alguns artistas para que configura um campo dinâmico, marcado por um dos grandes artistas com obras em exposição dotar de movimento suas criações escultóricas. Em sua feitura são experimentações e pelo uso de materiais alter- no Museu Casa do Pontal, usava madeira, ferro, utilizados diversos materiais, nativos, em alguns casos orgânicos e de baixo penas, linhas, tecidos e folha de flandres em seus como peças e engrenagens custo. Nessa produção, a criatividade não está trabalhos. A originalidade deste artista popular é industrializadas, arames, fios e necessariamente ligada a profundas informa- assim destacada por Sílvia Coimbra: quaisquer outros produtos que, reciclados, possam vir a contribuir ções de técnicas e à destreza nos modos de fazer; para a criação de um sistema que autores que pouco dominam os materiais que O instrumental de Caboclo, com o qual conse- permita a articulação das figuras utilizam convivem com artistas que são exímios gue os mais precisos efeitos, faz parte de sua e personagens. Por ser uma criação única, e não obedecer a conhecedores da madeira, seus cortes e diferen- produção própria, é quase todo construído por projetos e planos prévios, poucos, tes possibilidades de emprego, ou das etapas de ele: velhas facas de mesa, com apenas 3 cm de além de seus próprios idealizado- processamento da argila. Alguns se aprofundam gume, afiadíssimas; hastes de guarda-chuva res, são capazes de consertá-las. nessa relação e nas possibilidades de uso de de- improvisadas em estiletes; um monte de tam- Embora o significado da palavra, no dicionário Aurélio, remeta a terminados materiais, fazem experimentações e pas de latas de filmes recortadas, esperando “objeto de estrutura precária”, as descobrem caminhos próprios. Outros se mantêm a vez de servirem como cata-vento; marretas, geringonças ou “engenhocas”, fiéis às técnicas aprendidas no ambiente familiar martelos, pregos e parafusos de todos os tama- podem ser criações complexas. ou comunitário, reproduzindo na atualidade for- nhos; prensa, pua, grosas, serrotes, tesouras; 6. Nhô Caboclo (? – 1976). Sabe- mas de fazer cujas origens se perdem no tempo. extrato de nogueira, bugigangas que ele não se que ele é descendente direto Noemisa Batista3, por exemplo, apesar de ter pode ver passar sem pegar, no desejo de, um de índios e que nasceu na aldeia inovado em formas e temas, dá prosseguimento à dia, aproveitá-las em uma invenção. de Águas Belas, no interior de Pernambuco. Trabalhou basica- mesma técnica de modelagem e ao processo de (Coimbra, 1980, p. 277) mente com madeira e sucata, queima ensinado por sua mãe. Adalton Fernandes alcançando resultados surpre- Lopes4 não parou de inventar misturas de mate- Além de inventar seu próprio instrumental, endentes e estilo original. Em suas composições, privilegiou o riais, acrescentando cimento ao barro e, às vezes, certos artistas populares chegam a criar, com movimento, em obras em que os incorporando nas esculturas produtos diferentes, materiais mais acessíveis, produtos que, mesmo diversos elementos perseguem o como o papel machê. Isso sem falar na animação sem conservantes ou fixadores, produzem efeitos equilíbrio. Explorou a temática 19
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    semelhantes a outros,desenvolvidos pela indús- Adalton Lopes foi um dos artistas que (cont.) tria química com largo uso no mercado. passou vários períodos no Museu, consertando marítima, com navios de guerrei- ros e escravos acorrentados. In- A freqüente mistura de clara de ovo com pig- suas geringonças. As trocas realizadas durante ventou linhas temáticas, nas quais mento em algumas obras, por exemplo, produz o essas visitas permitiram que se adquirisse in- se destacam os torés e os rachos. mesmo resultado que a têmpera7. A cola branca timidade e se acumulassem informações sobre Seu trabalho é caracterizado ainda diluída com pigmento pode ser comparada à tinta o funcionamento dos mecanismos criados por pelo uso intenso de penas de aves e das cores negra e vermelha. acrílica, enquanto o breu8 diluído em querosene e ele, como a determinação das velocidades com misturado com pigmento, tal como usado por Mes- que se movimentam as variadas hastes, as ra- 7. Pintura normalmente feita à base de pigmento e com tre Vitalino9, seria uma espécie de tinta a óleo. Em zões pelas quais cada uma delas se move num adesivo orgânico, como gelatina alguns casos, materiais aparentemente reprová- sentido diferente, os recursos utilizados para e clara de ovo, ou inorgânico, veis podem vir a se tornar recursos interessantes que cada personagem tivesse uma dinâmica como a cera. nos processos de conservação e restauração. Ma- própria e os materiais preferidos do artista. 8. Sólido usado na fabricação nuel Galdino10, por exemplo, usava durepox para Embora nem sempre a presença viva dos de uma resina que tanto dilui colar suas peças, o que é mais eficiente no caso de criadores das obras seja acessível, existem em solvente de petróleo como no calor. estruturas pesadas do que a cola branca. Embora outras maneiras de se obter informações rele- seu uso não seja recomendado, sendo preciso mui- vantes sobre o acervo, que incluem a consulta 9. Mestre Vitalino (1909-1963). ta experiência para saber avaliar corretamente sua a instituições ou colecionadores de acervos si- Nasceu na vila de Ribeira dos Santos, próximo a Caruaru, necessidade, o artista lançava mão desse recurso milares, a pesquisadores da área e a parceiros PE. Criado em ambiente oleiro, porque já havia tentado outras soluções, todas técnicos, além da investigação em publicações. cedo começa a modelar louças malsucedidas. Ele tornou-se um especialista em Especialmente no caso de instituições, é reco- e brinquedos em miniatura. sua própria arte, conquistando uma grande sabe- mendável reunir e organizar as publicações exis- Dotado de forte senso estético, produziu obras que, na ma- doria com relação aos materiais nela utilizados. tentes sobre os artistas e obras que fazem parte turidade, atraíram a atenção Como se vê, um dos grandes desafios da do acervo e tornar este material disponível para de críticos e colecionadores instituição ou do colecionador de arte popular é os profissionais de conservação e restauro. de arte. Em 1947, algumas conhecer as técnicas desenvolvidas ou utilizadas Essa soma de conhecimentos vai orientar a de suas esculturas foram expostas no Rio de Janeiro. Esta originalmente pelos artistas. Cada trabalho é construção de indicadores para as intervenções de exposição foi considerada um realizado com diferentes gradações de materiais, conservação e restauro. Isso vale tanto para cole- marco na história do interesse técnicas de preparo específicas e muitas experi- cionadores como para instituições; no caso destas pela arte popular, não só por revelar ao grande público a mentações. Portanto, todos esses aspectos pre- últimas, esse processo integrado deve reunir di- obra de Vitalino, como também cisam ser identificados antes do início das ações versos tipos de profissionais e colaboradores. por chamar a atenção sobre de preservação, conservação e restauro, num Livros como O mundo encantado de Antônio a existência desse gênero de conhecimento que deve agregar atualização téc- de Oliveira11 (Guimarães, 1983), no qual o próprio criação em diferentes regiões do país. Foi reconhecido como nica, vivência, disciplina e curiosidade. E, como artista fala da sua obra e do contexto em que Mestre por sua virtuose e pela cada obra tem a sua história, cada acervo de arte criou seus trabalhos, foram essenciais para nor- liderança que exerceu entre os popular apresenta características próprias, que tear os procedimentos que o Museu Casa do Pon- ceramistas do Alto do Moura, devem orientar a maneira como será cuidado. tal adotou na catalogação e na manutenção das bairro de Caruaru.  As particularidades da composição do peças. Da mesma forma, o acesso aos materiais 10. Manuel Galdino (1929- acervo do Museu Casa do Pontal – no qual a e tipos de pintura utilizados por Mestre Vitalino 1996). Nasceu na cidade de São Caetano, PE. Em 1940, mudou- aquisição das obras passou, muitas vezes, por foi resultado de processos formais de pesquisa. se para Caruaru, onde tornou-se relações diretas entre o colecionador Jacques Mesmo quando não há publicações específi- funcionário municipal. Sua tra- Van de Beuque e os artistas – permitiram que cas sobre os artistas, vale a pena buscar livros e jetória como artista teve início diversas técnicas adotadas por seus autores artigos periféricos, que falem sobre os contextos em 1974, quando foi destacado pela prefeitura para executar fossem conhecidas e levadas em consideração culturais, a região de origem e os recursos natu- serviços no Alto do Moura. no processo de conservação das obras. rais disponíveis. Um exemplo desse tipo de relação 20
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    aconteceu no restauroda “Casa de Farinha”, de trajetória desse museu tem mostrado que existe João José12, obra que chegou ao Museu Casa do uma íntima correlação entre a eficácia obtida e o Pontal com várias partes descoladas. Nesse caso, comprometimento dos trabalhadores. Daí a im- (cont.) Lá fez amigos que o foi necessário entender a dinâmica de funciona- portância da experiência acumulada. Contudo, introduziram na arte de “bone- mento de uma casa de farinha verdadeira para que é recomendável adotar um manual de procedi- cos”, principal atividade local. a obra pudesse ser adequadamente reconstituída. mentos para os encarregados da manutenção e Apaixonou-se de tal maneira pela modelagem em cerâmica, As metodologias resultantes da sistemati- limpeza do espaço, de modo que a substituição que abandonou o serviço públi- zação de conhecimentos não só permitem acom- de pessoas não resulte em perda de memória dos co e mudou-se definitivamente panhar as ações como ajudam a tomar decisões processos e nem acarrete a queda na qualidade para o Alto do Moura. Suas criações formam um repertório sobre os tipos de intervenção adotados pelas di- do serviço prestado. Além disso, o manual pode de obras delirantes e originais, ferentes instituições. No Museu Casa do Pontal, colaborar para a minimização de acidentes, que consagrando os monstros auto- o setor de pesquisa foi responsável por sistema- também podem acontecer. fágicos, e outros personagens tizar e organizar as informações e os documen- Um manual não suprime, entretanto, a ne- de forte conteúdo onírico, como Lampião-Sereia e São Francisco tos sobre as obras e os artistas que fazem parte cessidade de diálogo permanente. A troca de Cangaceiro. da coleção reunida por Jacques Van de Beuque. informações sobre métodos e técnicas de con- 11. Antônio de Oliveira (1912- Portanto, os pesquisadores também integram servação, a adoção de diferentes práticas de 1996). Nasceu em Belmiro Braga, os processos de conservação e restauração, limpeza e de segurança e a introdução do uso de Minas Gerais. Aos seis anos, contribuindo com conteúdos sobre os aspectos materiais mais eficientes e comprovadamente começou a esculpir carrinhos históricos, sociológicos e formais. Além disso, os testados compõem um conjunto de medidas e de bois e outras peças com as quais brincava. Na adolescên- profissionais desse setor podem ser responsáveis práticas que, aplicadas de maneira integrada, cia, trabalhava consertando por definir, por exemplo, que obras participarão colaboram decisivamente para o sucesso da móveis durante o dia e esculpindo de exposições itinerantes. As peças selecionadas conservação e manutenção do acervo. “bonecos” à noite. Seduzido pela deverão passar por um processo de avaliação e, No Museu Casa do Pontal, são feitos plane- possibilidade de contar histórias com seus conjuntos de esculturas se necessário, por uma intervenção prioritária. jamentos constantes para definir as obras que miniaturizadas, Antônio de Oliveira Os encarregados pelos procedimentos de devem prioritariamente passar por tratamento entregou-se com paixão à recria- manutenção e limpeza do espaço físico onde um preventivo e de restauro. Esses critérios são ção de cenas reais ou imaginárias, que compunham o que chamava acervo está exposto ou em reserva também de- definidos em intercâmbio com os profissionais de “meu mundo encantado”. vem estabelecer comunicação direta com os pro- responsáveis pela elaboração dos projetos de- Refletiu sobre seu processo de fissionais de conservação. Quase sempre são os senvolvidos pela instituição. No planejamento criação, deixando muitas observa- responsáveis pela limpeza diária os primeiros a também são definidas as readequações do mo- ções escritas e gravadas. identificar o aparecimento de infestação por in- biliário e das dependências físicas, bem como 12. João José Paiva (1928 – ). Nas- setos, o que não se mostra facilmente. Por isso, a a aquisição de novos equipamentos. ceu em Cajá, próximo a Caruaru, preservação das obras depende da colaboração e Essas relações inter-institucionais desem- PE. Na adolescência transferiu-se do trabalho integrado entre vários profissionais. A penham um papel relevante porque nem sempre para o Alto do Moura, PE, onde vive até hoje. Aprendeu a modelar agilidade na comunicação dos problemas encon- profissionais, mesmo os mais experientes, têm o barro observando o trabalho de trados é fundamental, porque permite interromper isoladamente soluções capazes de abranger artistas da região, especialmente processos de deterioração com menores danos. tudo. Quando se trata de um acervo composto o de Mestre Vitalino. Com ele, chegou a vender seus bonecos No Museu Casa do Pontal, são feitas ins- por materiais extremamente variados, como é o na feira de Caruaru. Gostava de peções periódicas e conjuntas pelas equipes caso da arte popular brasileira, as necessidades fazer principalmente obras que de limpeza e conservação, nas quais ambas as podem ser muito diferentes. Os processos de con- reproduziam cenas de famílias: áreas podem aportar novos procedimentos num servação e restauro, dessa maneira, são multi- retirantes, trabalho e casamento. Atualmente, não trabalha mais intercâmbio saudável e necessário. Embora a facetados, incluindo uma gama de pessoas com com o barro, mas transmitiu seus limpeza e a conservação do espaço físico não diferentes formações, que devem cultivar uma conhecimentos aos filhos, que dão sejam consideradas funções especializadas, a atitude aberta em relação às novas descobertas. continuidade à arte cerâmica. 21
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    2. Documentação deacervos garismos ou do número total, neste caso quatro algarismos, relativo ao ano em que o objeto deu A documentação constitui-se como um entrada no museu, seguindo-se de um elemen- ponto primordial para o trabalho de conser- to de separação e, então, a numeração comum, vação, pois identifica e registra o histórico da de forma seqüencial, composta por quatro dí- obra. A catalogação de acervos pode ser feita gitos (Cândido, 2006, p. 40). de muitas maneiras e a partir de diversos su- No caso do Museu, mesmo com a colabo- portes. Fichas catalográficas, livros de registro, ração do colecionador, verificou-se a impos- fotografias e desenhos de diferentes ângulos sibilidade de precisar as datas de aquisição facilitam a identificação do estado das peças. das obras e, por conseguinte, decidiu-se não A catalogação das obras que compõem o adotar o uso desta informação. A numeração acervo do Museu Casa do Pontal foi iniciada das obras do acervo do Museu Casa do Pontal muitos anos após o princípio da coleção. Jacques é, portanto, composta somente por numeração Van de Beuque começou seu acervo na década seqüencial acrescida de uma letra quando se de 1950, e posteriormente adquiriu peças de ou- tratam de conjuntos de obras que não se en- tros colecionadores que abarcavam produções contram sobre base comum. feitas a partir da década de 1930. Em princípio, Como a arte popular se constitui, via de re- ele não dimensionava a representatividade e gra, por representações e criações envolvendo a abrangência que a coleção alcançaria. Seus conjuntos de peças que descrevem cenas do anseios voltavam-se para o apreço e a admira- cotidiano ou do fantástico, as peças do acer- ção que passou a nutrir sobre o universo da arte vo foram classificadas em conjuntos e obras. popular. Dessa forma, o processo de catalogação Assim, um conjunto é fichado inicialmente em só teve início na década de 1990, quando a Casa sua totalidade e, em seguida, cada obra recebe do Pontal adotou um novo perfil, que veio a soli- individualmente uma ficha especial. dificar seu papel museológico. O número de identificação das obras e con- Na instituição, o processo de catalogação juntos do acervo é fixado em suas bases, ou foi iniciado na mesma época que o de infor- quaisquer outros pontos menos acessíveis à matização. Os dados sobre as obras foram, vista. A mesma numeração identifica suas fi- em primeiro lugar, cadastrados em plataforma chas de catalogação. O Museu Casa do Pontal digital e, posteriormente, geraram documen- adota na ficha de conjunto os seguintes itens: tação impressa. Na época, foi feito um amplo Número, Nome do Conjunto13, Artista, Localidade levantamento acerca de bases de informações (Região), Tema, Década de Aquisição, Aquisi- adotadas por outras instituições e tais análises ção, Ano Provável de feitura, Número de Partes, levaram à adoção da plataforma Macintosh e Número de Obras, Peso, Altura, Largura, Com- ao uso do software File Maker Pro, indicado por primento, Situação Atual, Conjunto (Fixo, Livre 13. No caso da arte popular, são permitir agilidade e cruzamento de informa- etc.), Gênero, Suporte, Assinatura (Tem ou Não comuns os casos em que o próprio ções mesmo em consultas complexas. Tem), Tipo de Assinatura (Manuscrito, Carimbo autor não atribui um título à sua De um modo mais amplo, a numeração das etc.), Texto da Assinatura (o que foi escrito pelo obra, entretanto, mesmo as peças que originalmente não tenham obras é um dos pontos de partida do processo artista), Estado de Conservação (com cam- sido nomeadas pelos artistas, de catalogação. Segundo Maria Inez Cândido, po para laudo resumido), Defeito (com campo recebem um título descritivo, para não existe uma normatização rígida quanto à para laudo resumido), Descrição do Conjunto, facilitar sua identificação. Esses padronização da numeração. O mais comum, Material Principal, Características do Material títulos nunca devem se repetir, especialmente quando se tratam no entanto, é a utilização de registro binário Principal, Outros Materiais, Localização do Con- de obras do mesmo artista. seqüencial, que compreende o uso de três al- junto no Museu (Reserva Técnica ou Exposição 22
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    Permante, incluindo Móduloe Setor). E na ficha bem-vindos, quando as instituições ou colecio- de obra, os itens: Número, Nome da Obra, Peso, nadores possuem muitos diferentes gêneros de Altura, Largura, Comprimento, Situação Atual objeto (objetos de arte, artesanato, utilitários, (onde está localizada no momento, por exem- festivos, rituais, indumentária etc.). Especifica- plo: em Exposição Temporária ou em Restauro), mente no Museu Casa do Pontal, como o acervo Situação Padrão (qual a localização padrão da é majoritariamente constituído por objetos de obra), Estado de Conservação (com campo para arte, essa opção classificatória não foi adota- laudo resumido), Defeito (com campo para lau- da. Vale ainda acrescentar a possibilidade de do resumido), Descrição da Obra. A carência de documentar os objetos por coleções, de modo a dados de campo consistentes e das caracte- recuperar as histórias de formação do acervo. rísticas específicas da arte popular brasileira As obras do acervo do Museu Casa do Pon- dificultou o trabalho de sistematização na fase tal também foram classificadas em 12 temas de catalogação das obras. Além disso, a inten- principais, obedecendo grosso modo a organi- ção de atender a vários objetivos simultâneos zação do roteiro da exposição permanente es- tornou esse processo bastante complexo. A idéia tabelecida por Jacques: profissões, vida rural, era, ao mesmo tempo, produzir uma informação ciclo da vida, festas, jogos e diversões, areias direta, em linguagem elegante, mas coloquial, e bichos, arte incomum, arte erótica, cangaço, incorporando, sempre que possível, as informa- história do Brasil, religião e ex-votos, carnaval. ções geradas nos diferentes meios onde se ori- Cada um destes temas, por sua vez, foi repar- ginaram as produções que integram o acervo do tido em 79 subtemas e estes em 380 assuntos. Museu e respeitando o longo trabalho de pes- Com essa classificação, é possível, por meio quisa empreendido por Jacques Van de Beuque. de uma busca tipológica no banco de dados, A partir dessa experiência, algumas so- conhecer rapidamente a quais obras, artistas luções mostraram-se mais eficientes. Para ou regiões se referem cada um desses temas, 14. Recentemente, o campo determinar um nome para as obras, por exem- subtemas ou assuntos. Para facilitar os me- da arte e da cultura popular plo, e para padronizar a descrição dos temas canismos de busca, muitas obras mereceram brasileira ganhou duas novas abordados, recomenda-se a adoção de dicioná- dupla ou tripla classificação. publicações que contribuem para a normatização de vocabu- rios, tesauros e bibliografia de referência so- Os procedimentos de conservação e res- lário específico: o Pequeno bre a temática específica de cada acervo14. Na tauração pelos quais passam as obras tam- dicionário da arte do povo época, foram adotadas como referência obras bém devem ser documentados. Esses dados brasileiro (2005), de Lélia como Dicionário do folclore brasileiro (Cascu- podem ser agregados à ficha de catalogação ou Coelho Frota, e o Tesauro de Folclore e Cultura Popular Bra- do, 1988), Folclore Nacional (Araújo, 1964) e O apontados separadamente. Neste caso, pode- sileira (2006), organizado pelo Reinado da Lua (Coimbra, 1980). A base con- se criar uma ficha de restauro, na qual serão Centro Nacional de Folclore e ceitual adotada foi posteriormente publicada registrados laudos do estado de conservação Cultura Popular. A classificação das obras do Museu Casa do pelo Museu Casa do Pontal em O Mundo da Arte da peça, incluindo constatação de sujidades, Pontal foi feita, entretanto, Popular Brasileira (Mascelani, 2002). detritos e interferências físicas, como quebras antes destas publicações, com A ficha catalográfica pode ainda conter e perdas, a data em que a obra foi retirada da o suporte integral da área de outros diferentes campos, inseridos de acor- exposição ou da reserva técnica15 e uma pro- pesquisa para o controle da terminologia. do com a especificidade de cada acervo. Um gramação de atividades a serem realizadas recurso visualmente interessante é indicar a cada processo de recuperação. Quando as 15. Espaço onde se armazenam os dados da obra diretamente sobre imagens ações previstas são finalizadas, o ideal é voltar as obras que não estão em exposição, com condições fotográficas (ou desenhos), com setas expli- à ficha de catalogação para atualizá-la com específicas de conservação, cando o estado de conservação de cada parte. observações sucintas sobre os procedimentos como armários especiais e Esquemas classificatórios também podem ser e datas de realização. climatização. 23
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    O Museu Casado Pontal adota os seguin- 3. Conservação preventiva tes itens nas fichas de restauro: Número, Nome, Artista, Data de Início do Restauro, Data de Fim Para qualquer coleção, o ideal é que se mi- do Restauro, Restaurador, Estado do Conjunto e nimize a necessidade de realizar intervenções. informações sobre cada tratamento realizado Uma conservação preventiva eficiente, ou seja, (Data, Colaboradores, Tratamento, Material Utili- aquela que se antecipa à necessidade de agir zado, Equipamentos Utilizados). diretamente sobre as obras, adia o processo Quando as obras forem emprestadas para natural de deterioração das peças. Segundo exposições em outros locais, também é recomen- Maria Cecília Drummond, dável preencher fichas de saída. Este documento deve registrar o local de destino das obras, as [...] o desafio para o conservador de museu datas de deslocamentos entre a instituição de é estabelecer procedimentos que conciliem, origem e a de destino (e vice-versa) e a ocasião harmonicamente, exposição e conservação. para as quais foram emprestadas. Outros dados Procurando alcançar condições próximas das também podem ser importantes, inclusive para a ideais de preservação, o profissional deve estar eventual realização de seguro nas obras, como os sempre ciente de todos os riscos aos quais os responsáveis pela recepção da obra nos locais de objetos freqüentemente se acham sujeitos... destino, especificações sobre embalagens, danos (Drummond, 2006, p. 111) identificados durante o processo, entre outros. Finalmente, arquivar de maneira prática e As condições ambientais – como tempe- eficiente todas essas fichas deve ser uma prio- ratura, umidade, luminosidade – situam-se ridade da instituição e do colecionador, já que entre os principais agentes de degradação das esses dados são utilizados com freqüência. Os peças. Por isso, para a adoção de medidas pre- meios digitais auxiliam o processo de armazena- ventivas, é fundamental conhecer o comporta- mento de dados, seja para construir bancos de mento dos materiais utilizados nas obras diante fichas catalográficas, seja para obter registros das condições às quais estão submetidas. Por visuais dos objetos, a partir das câmeras digi- exemplo, quando não há condições econômicas tais. No entanto, como a tecnologia encontra-se de se manter o ar-condicionado permanente- em rápida evolução, as demandas de reade- mente ligado, sobretudo em regiões de clima quação são constantes, sob pena dos suportes quente e úmido, o emprego de ventilação me- tornarem-se obsoletos e inoperantes. O banco cânica, associado ao uso de desumidificador16 de dados do Museu Casa do Pontal, por diversas para controle da umidade, pode ser uma opção razões, teve que ser transposto de Machintosh mais segura, já que evita a oscilação drástica para PC, alterando o programa de armazena- e recorrente de temperatura. mento de dados para SQL, em base especial- Da mesma forma, é necessário avaliar os mente desenvolvida para o acervo. A nova base tipos de iluminação adotados. A luz natural, trouxe novas possibilidades de pesquisa, combi- que pode ser economicamente mais viável e nação e armazenamento de dados. Entretanto, o ambientalmente mais correta, é quase sempre processo de migração de dados, como é de pra- uma boa opção, desde que se tenha o cuidado xe, precisou ser revisado com base nos arquivos de utilizar filtros que impeçam a incidência di- originais. Desta forma, é importante alertar para reta dos raios solares sobre as obras. 16. Aparelho que serve pra o fato de que sejam mantidos arquivos físicos, Já a poluição atmosférica e a poeira podem controlar a umidade relativa do ar em ambientes caseiros ou pois ainda não se sabe muito sobre a durabilida- causar manchas nas peças, modificando o as- industriais. de e confiabilidade dos arquivos digitais. pecto original delas. Esses agentes são prati- 24
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    camente inevitáveis, masseus efeitos podem raramente uma instituição dispõe de peritos ser suavizados com sistemas de filtragem do em todas as áreas necessárias. Embora, em ar e controle de ventilação. geral, os responsáveis pelas coleções e pelos Agentes biológicos – como fungos, micro- projetos saibam avaliar corretamente os pro- organismos, roedores e insetos, principalmente blemas existentes e seus efeitos no dia-a-dia, baratas, traças, cupins e brocas – também são é de grande valia a presença de observadores grandes inimigos no processo de preservação externos, atualizados em relação aos avanços de acervos. Algumas soluções recomendadas tecnológicos e voltados para uma reflexão mais são a imunização, a dedetização e a desratiza- sistemática sobre determinados temas. ção periódicas das dependências que abrigam Com o objetivo de aperfeiçoar sua atua- as coleções. Morcegos e pássaros, comuns em ção, o Museu Casa do Pontal, com a parceria locais onde as janelas são mantidas abertas, do Laboratório de Ciências da Conservação da também devem ser evitados, pois suas fezes Universidade Federal de Minas Gerais e o incen- podem danificar as obras. tivo da Secretaria de Patrimônio, Museus e Artes Além desses agentes, deve-se levar em conta Plásticas do Ministério da Cultura, realizou no o efeito da ação humana sobre as obras. Quando biênio 2000/2001 um completo levantamento de não estão protegidas por vitrines ou por outro tipo suas instalações. Nessa ocasião, foram levadas de isolante, as peças correm o risco de serem to- em conta, inclusive, as condições ambientais cadas e os contatos físicos, mesmo quando não do Rio de Janeiro, onde o calor e a umidade são provocam acidentes visíveis, depositam sobre as extremos, e da região específica onde se encon- obras partículas de gordura do corpo, que progres- tra a instituição, entre o mar e a Mata Atlântica. sivamente danificam os materiais. Mais ainda, a A experiência contou com a participação de toda fumaça de cigarro e os flashes de máquinas foto- a equipe da instituição e de profissionais de en- gráficas também constituem fatores prejudiciais genharia civil, mecânica e elétrica, arquitetura, à preservação das obras de arte. restauração, museografia e ciência da conser- Portanto, todo projeto de conservação pre- vação. Foram projetadas novas soluções para ventiva eficaz deve levar em conta uma multi- vitrines, pisos, alvenarias, telhados, drenagem plicidade de fatores. Embora o foco principal e entorno, bem como a readequação das insta- seja dirigido às obras, muitos outros itens lações elétricas e hidráulicas. devem ser analisados, a maior parte deles de Esse diagnóstico orientou a elaboração do fácil execução e ligados à observação criteriosa plano museológico17 da instituição, visando uma do ambiente e à capacidade de implantar roti- ação global em prol da conservação e da melho- nas que não sofram descontinuidades. ria de seus espaços e do desempenho de suas Em relação ao ambiente, todas as infor- funcionalidades, compreendida no âmbito da 17. De acordo com o art. 1º. mações são relevantes, desde os suportes e multidisciplinaridade de ações que caracterizam da Portaria Normativa/IPHAN vitrines utilizados até as características da o museu contemporâneo. No ano de 2005, esse n° 01, de 5.7.2006, o plano localidade onde se encontra a instituição, bem planejamento foi revisado e atualizado, em par- museológico é a “ferramenta básica de planejamento como os níveis de umidade relativa do ar, a ceria com a Fundação Coordenação de Projetos, estratégico, de sentido global e incidência solar, os sistemas de ventilação, Pesquisas e Estudos Tecnológicos (COPPETEC), integrador, indispensável para os tipos de materiais utilizados na edificação, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. a identificação da missão da as peculiaridades do seu entorno, a quantida- Nesse planejamento, três ambientes me- instituição museal e para a definição, o ordenamento e a de e a freqüência do público etc. Todos esses receram atenção mais cuidadosa porque esta- priorização dos objetivos e das aspectos podem ser investigados com a parce- vam diretamente associados à conservação e à ações de cada uma de suas ria de equipes técnicas especializadas, já que restauração do acervo: o espaço e o mobiliário áreas de funcionamento”. 25
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    expositivo, a reservatécnica e o laboratório. A reserva técnica, um colecionador pode contar substituição progressiva das vitrines do circuito apenas com um depósito para armazenar suas expositivo, por exemplo, tem sido um importante peças; um laboratório pode ser uma pequena passo para a conservação das obras. Os novos mesa disponível, e assim por diante. O impor- modelos respeitam o design original, mas são tante é estudar esses espaços de modo a en- mais adequados para a limpeza de rotina por- contrar suas melhores possibilidades. É certo que o sistema de fechamento foi modificado. que algumas soluções que, na atualidade, pa- Além disso, no lugar das madeiras antigas, mui- recem convenientes serão futuramente ultra- to suscetíveis aos freqüentes ataques de cupins, passadas, em virtude de novos experimentos foram adotados na estrutura o cedro e outras e descobertas. Assim, a experiência, a inves- madeiras nobres, em associação com o MDF18. tigação e a troca de informações constituem Na reserva técnica, a circulação de funcio- elementos importantes na atualização dos cui- nários para a retirada da água acumulada no dados com o acervo. desumidificador foi reduzida a partir da criação Qualquer instituição ou colecionador pode de uma saída direta. Isso permitiu que o apare- aplicar medidas de segurança simples nos lho ficasse ligado ininterruptamente, jogando a espaços que abrigam obras de arte popular. água nos jardins. Os armários têm uma espécie Além de uma vigilância constante das condi- de forro com Ph neutro, que é trocado periodi- ções de umidade, temperatura e luminosidade, 18. Placa fabricada a partir camente, evitando o contato da obra com o me- é necessário atentar para fatores que muitas da aglomeração e prensa de tal das prateleiras. vezes passam despercebidos. Certos sinais po- madeira moída e resina, que No caso do laboratório de conservação e dem indicar a necessidade de adequação dos apresenta grande resistência a insetos como o cupim. A eficá- restauro, a elaboração do projeto de adequação espaços, como ferrugem, manchas, goteiras e cia de seu uso, contudo, ainda é foi realizada com o auxílio das informações e respingos de água nas paredes ou no piso, o experimental. experiências colhidas durante visitas técnicas que pode esconder rachaduras, umidade, mofo 19. Aparelho utilizado para ao Museu Histórico Nacional, ao Museu da Chá- etc. Todos os materiais que constituem o abri- desinfestar obras atacadas por cara do Céu, ao Museu do Índio e ao Museu de go das obras, externa e internamente, como en- insetos e fungos, com o auxílio Folclore Edison Carneiro. Como um dos princi- canamentos, telhado, fiação e calhas, devem de um inseticida. Seu aspecto pais agentes deteriorantes do acervo do Museu ser vistoriados. Porém, ainda que se observem assemelha-se ao de um armário e possui um compartimento Casa do Pontal é o cupim, foi adquirida a maior todas essas medidas preventivas, procedimen- vedado com borracha, onde são câmara de fumigação19 disponível no mercado, tos de conservação sempre serão necessários. colocadas as obras. capacitada para a imunização de obras de Grande parte das obras vai para o laboratório 20. Espécie de prateleira, com quaisquer formatos e dimensões. Foram utili- porque é necessário realizar uma manutenção espaço para a higienização das zadas duas máquinas nas etapas de higieni- periódica: fezes e urina de insetos, teias de obras a vácuo. Uma entrada zação: uma de sucção de sólidos20 e outra de aranha, poeira, partículas sólidas, rastros de com um filtro de feltro e um sucção de líquidos21. A climatização é feita com lagartixas, ovos de baratas, asas de cupins, mecanismo de sucção suga e retêm as partículas sólidas da desumidificadores e ventiladores, que, juntos, por exemplo, devem ser retirados constante- superfície. equilibram umidade e temperatura. Optou-se mente da superfície das obras. Certos proce- por um controle padrão de umidade que favo- dimentos preventivos também podem garantir 21. Mesa perfurada de metal. Tem um duto para a sucção de recesse a ambientação da variedade de mate- uma grande longevidade às obras, tais como a líquidos, ligado a um aspirador. riais que passam pelo laboratório. adoção de regras de conduta nos espaços que A umidade é sugada pelos Outros espaços que abrigam coleções de abrigam os acervos. Fumar, comer, beber ou poros da mesa e depositada no arte popular certamente terão outras necessi- mesmo portar alimentos e bebida, por exemplo, interior do aspirador, evitando que a umidade produzida se dades e, em muitos casos, a própria separação são atitudes que devem ser evitadas em todas espalhe pelo ambiente. dos espaços pode ser diferente. No lugar da essas áreas. 26
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    Por tudo isso,é importante organizar me- Uma maneira de estabelecer critérios para a todicamente os procedimentos de vigilância. conservação e a restauração é atentar para pelo Apenas inspeções periódicas no ambiente per- menos três aspectos da obra: o histórico, o estéti- mitem a identificação imediata de alterações co e o funcional. O primeiro trata da originalidade que podem vir a provocar danos nas obras. do trabalho, da fidelidade a seus materiais e ele- No Museu Casa do Pontal, são feitas rondas mentos tais como foram inicialmente produzidos diárias no circuito expositivo para observar se pelos artistas. O segundo refere-se ao caráter houve algum problema com as obras e com as visual dos objetos do acervo, à maneira como vitrines. Às segundas-feiras, quando o Museu eles se apresentam. Já o terceiro trata da funcio- fica fechado para o público, além da limpeza nalidade da obra, ou seja, se todos os materiais geral, são feitas inspeções mais detalhadas estão “cumprindo o seu papel” – um arame que em conjuntos pré-determinados de vitrines. ligava a cabeça ao corpo de uma escultura deve Abertas as vitrines escolhidas, são analisadas continuar atuando desse modo, por exemplo. as condições de segurança e estética dos vi- Em todos os procedimentos de conservação dros e acrílicos e efetuados trabalhos de limpe- e restauro, deve-se buscar atender ao máximo o za das obras, com o auxílio da mesa de sucção sentido original das obras, assim como sua ori- de sólidos e de um aspirador de pó. Essa vigi- ginalidade estética e funcional. No entanto, em lância é contínua e rotativa, ou seja, quando muitos casos, um ou mais aspectos são enfati- todas as vitrines são verificadas, reinicia-se o zados. O que fazer, por exemplo, se um artista processo de inspeção. Uma manutenção sema- usa em sua obra materiais pouco resistentes, nal também é feita na reserva técnica, com a que precisam ser constantemente substituí- abertura de todos os armários e a ventilação dos? Devem-se trocar os materiais relacionados do ambiente. à estrutura do trabalho? O livro do Museums, 22. O teatro de mamulengo é Durante as inspeções, se for constatada a Libraries and Archives Council (2005) sobre um tipo de encenação popular. incidência de insetos, fungos ou qualquer outro conservação de coleções destaca as difíceis de- Conta histórias com forte problema que possa comprometer as obras, elas cisões a serem tomadas nessa etapa: traço de humor, sobre temas são deslocadas da exposição ou da reserva técni- variados. Tem um universo rico de personagens, definido pelos ca para o laboratório. Instituições e colecionado- Quando o restauro é necessário, até que ponto diferentes tipos de bonecos res que não possuem laboratório devem ao menos ele deve ir? É aqui que as visões diferem, o de- de mamulengo. Está presente isolar as obras em um outro ambiente para evitar bate começa a esquentar e as respostas simples especialmente na Zona da Mata de Pernambuco. contaminações. Obras cujos danos encontrados são enganosas. O restauro ganhou uma reputa- não reclamem uma ação urgente podem ser rela- ção ruim no passado por conta de higienizações 23. Integrado ao ciclo natalino, o cionadas para intervenções futuras. ‘zelosas demais’, renovações e reconstruções de Reisado refere-se aos ranchos que edifícios e pinturas. (Museums, Libraries and festejam o nascimento do Menino Jesus e a visita que lhe fizeram 4. Conservação e Restauro Archives Council, 2005, p. 115) os três Reis Magos. Essa festa apresenta uma variante no estado Em primeiro lugar, é bom lembrar que os pro- Por isso, além das normas que uma institui- de Alagoas, que recebe o nome de Guerreiros, e se destaca pela cedimentos de conservação e restauro são ado- ção ou profissional vão elaborando, as soluções suntuosidade da indumentária dos tados a partir de delimitações focadas, e não em para cada peça precisam ser estudadas caso a participantes na qual chama aten- um terreno onde se pode expandir a criatividade caso. Há situações em que a degradação de de- ção o uso de chapéus decorados para além do trabalho dos artistas. Deve-se evi- terminado material implica a contaminação de por espelhos e fitas multicoloridas, muitos deles representando igre- tar, por exemplo, inventar maneiras de recuperar outros materiais que compõem uma mesma obra. jas. Há quem atribua aos espelhos as obras que escapem aos trabalhos prévios de Em algumas peças da coleção de mamulengos22 o poder mágico de fazer retornar os pesquisa e conhecimento técnico. do Museu Casa do Pontal, a oxidação de pregos maus desejos a quem os enviou. 27
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    danificou o tecidodas roupas dos personagens, que passou, os diferentes locais onde se ins- com rasgos irreparáveis. A instituição optou por talou e os eventuais manuseios que recebeu, substituir os pregos por pregos de cobre, além de sendo assim, não podem sair do laboratório trocar integralmente os tecidos. Para isso, foram como se tivesse sido comprada no dia anterior. usados os mesmos moldes, porém com estampas É importante tentar manter as referências tem- diferentes, já que as antigas não foram encon- porais do objeto, respeitando suas peculiarida- tradas, mas procurando manter o máximo de des e sua trajetória social (Appadurai, 1986). similaridade com as estampas originais. A substituição de fitas dos chapéus de rei- Em obras que apresentam quebras, ra- sado23 seguiu um caminho semelhante. Foram chaduras ou perdas que comprometem sua identificados fungos nas fitas originais, além do estrutura física, realiza-se uma restauração esmaecimento das cores. Inicialmente, optou-se estrutural. Embora cada caso seja específico, o pela substituição parcial das fitas, sobretudo mais comum é que seja feito um tratamento de daquelas que se encontravam com partes rasga- recomposição da estrutura, como uma parte do das e comprometidas. Desta forma, a instituição corpo de uma escultura que foi perdida (mas manteve dois conjuntos distintos: um em que o da qual se têm informações precisas) ou de re- aspecto estético das obras foi privilegiado, já que constituição (quando se preenchem espaços de originalmente estes chapéus possuíam cores vi- partes que foram comidas por microorganismos brantes, e outro no qual a visão das obras, com e/ou insetos). Já situações de perdas que se re- cores opacas, remetia à sua historicidade. Em ferem a danos na superfície das peças, como o um segundo momento, entretanto, foi necessário desprendimento de camadas de pintura, preci- fazer a substituição completa das fitas, porque sam de uma restauração estética, feita a partir sua decomposição mostrou-se irreversível. de uma recomposição da tinta nas áreas com Deve-se aceitar, assim, que alguns ma- perda de leitura. Uma mesma obra pode preci- teriais são auto-degenerativos. É o caso dos sar desses dois tipos de restauração. fios de nylon, que possibilitam os movimentos Apesar da variedade de soluções possíveis, dos personagens das geringonças de Adalton, algumas sugestões podem evitar problemas promovendo a ligação com as engrenagens. futuros. Em primeiro lugar, deve-se trabalhar Pensou-se em substituí-los por materiais mais apenas em locais onde houve perdas, e não an- duráveis e foram feitas experiências com linha tecipando possíveis danos. Se o braço de uma sintética, arame, corda de violão, cabo de aço, escultura estiver deteriorado, mas houver vestí- fio de pescaria e outros fios industriais. Con- gios desse braço, aproveitam-se todas as pos- tudo, verificou-se que a precisão dos movi- sibilidades de encontrar a forma e o movimento mentos determinados pelo artista ficaria com- originais, para que ele seja redesenhado. Porém, prometida e concluiu-se que a melhor solução se não houver quaisquer maneiras de reconhecer seria aceitar essa característica, substituindo as características do braço, deve-se lidar com a os fios de nylon de tempos em tempos. impossibilidade de recuperar a obra. Uma perna da qual nada se sabe não deve ser reconstruída, Por outro lado, mesmo que os materiais sejam assim como uma cor que se desgastou e da qual trocados, o processo histórico que faz parte da nada se sabe não deve ser repintada. obra não deve ser apagado. No caso de obras É recomendável também o uso de materiais pintadas, isso significa que uma peça que foi que permitem a reversibilidade do processo, produzida há décadas e carregou consigo a de- uma vez que o campo está sempre sujeito às gradação natural adquirida com as viagens por novas descobertas. A minuciosa avaliação do 28
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    material utilizado émuito importante porque taculares”, de Dadinho24, por exemplo, teve o produtos aparentemente eficazes podem trazer verniz original trocado por outro, de remoção problemas futuros, como a cola branca, que, mais fácil e que oferecia maior porosidade e por ser mais estável do que a cerâmica e do maior resistência à oxidação. que a madeira, provoca movimentações mole- De toda forma, ainda que circunscritos a culares diferentes numa mesma obra. limites rígidos, as instituições e os profissionais Na recuperação estética, geralmente feita por que atuam na conservação devem estimular meio do retoque, é importante conhecer a teoria e sempre a criatividade e a inovação como fato- as técnicas de pintura. Mas esse saber precisa se res essenciais para a preservação das obras. aliar à experiência e à sensibilidade que o conta- É necessário que os profissionais reúnam, em to com as obras desenvolve. A sutileza da combi- todas as etapas da conservação e do restauro, nação adequada de tintas para a recomposição não apenas técnica e curiosidade, mas também de cores e da seleção do material específico para capacidade inventiva, adaptativa e ousadia, determinado tipo de retoque só é possível a partir seja no tratamento respeitoso às diferentes de uma grande familiaridade com os materiais. técnicas encontradas, seja na capacidade de No caso da arte popular, o uso de pigmentações reconstituir minuciosamente uma peça com não convencionais implica uma necessidade pri- grande deterioração, seja ainda na criação e na mordial de realizar uma grande quantidade de investigação de novos instrumentos de trabalho testes antes da aplicação da pintura. para determinadas obras, como a construção de A primeira opção de tinta são aquelas que ferramentas específicas para certas peças. podem ser diluídas em meio aquoso, como a Mas se o processo de restauração de uma aquarela, o acrílico ou outros tipos de pig- peça é tão particular, como saber quando ele ter- mento. Isso permite que se consiga o efeito mina? Cada etapa demanda uma determinada visual desejado, com a possibilidade de fazer quantidade de tempo, que precisa ser respeita- alterações posteriores, caso haja necessidade, da para que o processo seja bem-sucedido. Mais que não comprometam a peça, tal como pode ainda, certas peças de grandes dimensões têm ocorrer com a aplicação de tinta a óleo, cuja que ser levadas ao laboratório por partes e a in- remoção é feita freqüentemente com o solvente tervenção nelas é um processo realmente longo, de petróleo, que é mais agressivo. Além disso, que pode durar mais de um ano, dependendo do o óleo demora mais tempo a se estabilizar na tipo de ruptura, de seu tamanho, da necessida- peça e sua secagem, feita sempre ao natural, de de preenchimento da estrutura etc. Portanto, pode demorar meses para terminar completa- obedecer o tempo da espera é um fator primordial mente, dadas as várias camadas de pintura. Já para o resultado. Muitas vezes, a última olhada o acrílico tem uma secagem quase imediata. não é a final porque o retoque é geralmente fei- Quanto à impermeabilização, se o objetivo to em um ambiente controlado, com condições 24. Geraldo Marçal dos Reis (1931 – 2005). Nasceu em Dia- é respeitar a estética original da peça, não se específicas de luz e temperatura, que difere do mantina, MG. Conhecido como deve envernizar uma obra que não tenha sido ambiente de exposição. Nesse caso, leva-se a Dadinho, viveu e trabalhou em originalmente envernizada. No entanto, como os palheta e a mesa de trabalho para o local de Nova Iguaçu, RJ, onde esculpiu imensas cidades, usando como materiais estão em constante transformação, é exposição e completa-se o retoque. A verdadeira matéria-prima raízes de árvores possível mudar o tipo de verniz no caso de uma “olhada final” acontece apenas quando a obra mortas. Deu forma e imagem obra que originalmente usou esse recurso. No está na vitrine, iluminada da maneira como será à complexidade da arquitetura Museu Casa do Pontal, a obra “Cidades ten- vista pelo público. urbana contemporânea. 29
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    Obra de Antoniode Oliveira, Belmiro Braga, MG – acervo Museu Casa do Pontal / Fotógrafo: Rômulo Fialdini 30
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    II. Procedimentos básicos de conservação e restauro 1.Procedimentos iniciais :: Avaliação do estado da peça Uma vez no laboratório, a obra deve ser cui- :: Deslocamento de obras dadosamente manuseada pelo profissional, que Com o uso de luvas cirúrgicas ou de algo- identifica os principais problemas encontrados dão, as peças devem ser acomodadas em cai- a partir dessa análise visual. É recomendável xas acolchoadas para que seja feito o transpor- anotar todos os danos localizados na peça, te até o laboratório de conservação e restauro. assim como os procedimentos que serão reali- Mesmo que a distância a percorrer seja curta, zados. Testes simples, que serão descritos nos vale a pena tomar esses cuidados. Uma caixa procedimentos a seguir, são essenciais porque, de papelão pode ser uma opção, desde que ela ao invés de ajudar a conservar uma obra, proce- tenha uma boa sustentação e que seja feito um dimentos feitos às pressas podem acabar pio- isolamento entre as obras. rando seu estado de deterioração – por exemplo, partes que pareciam firmes podem se soltar da :: Organização do laboratório ou espaço des- obra e certos materiais podem se diluir, inespe- tinado à conservação e restauro radamente, em contato com a água. Organização é uma regra importante para qualquer processo de conservação e restauro. :: Indumentária No local onde se realizarão as ações nas pe- Para o manuseio das peças, devem ser ças, como um laboratório ou outros espaços, usadas luvas cirúrgicas ou antiderrapantes e, a reposição antecipada dos materiais básicos em casos que exigem precisão, pode-se optar – solventes, detergente neutro, algodão bran- pelo contato direto mediante a higienização co, espátulas, pincéis variados, tintas, serra- das mãos, já que o uso de luvas pode dificultar gem, colas, massa à base de PVA, entre outros a sensação de tato com as obras. Além disso, – agiliza os processos de trabalho. A organi- os profissionais devem vestir uma indumen- zação também se relaciona ao uso correto das tária que mantenha as condições higiênicas ferramentas disponíveis. No caso dos pincéis, adequadas – no caso do laboratório, por exem- por exemplo, a ampla variedade de tamanhos plo, o encarregado pelos procedimentos de e usos, além dos diferentes processos de lava- conservação e restauro deve utilizar guarda-pó gem, demanda uma separação criteriosa, com e máscara de filtro básico para o rosto. Essa etiquetas ou por cores. Os produtos químicos indumentária protege mutuamente as obras e o devem sempre ser assinalados quando abertos próprio profissional, em contato recorrente com ou transferidos para vidros menores. materiais tóxicos. 31
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    2. Limpeza de água, como guaches e outros pigmentos, devem ser manuseadas com luvas para que 2.1. A seco se evite a diluição da tinta em contato com o suor das mãos. Já em obras pintadas a óleo ou :: Aplicação acrílico, deve-se atentar para a possibilidade da O depósito de sujidades – tais como poeira, peça ter camadas de tinta se desprendendo e, se teias de aranha e detritos de lagartixas, mor- esse processo estiver muito acentuado, o melhor cegos e cupins sobre a superfície da peça ou é evitar a limpeza a seco. em fendas e saliências de uma obra – retém a umidade existente no ar, e uma simples cama- 2.2. Em meio aquoso da de poeira pode se tornar uma crosta mais re- sistente. Por esse motivo, a primeira ação pela :: Aplicação qual as obras devem passar é a higienização A higienização hidratada ou hidratação é mecânica, processo que consiste na retirada a feita em obras que já passaram pela limpeza a seco dessas partículas sólidas. Isso é realizado seco e que não sofreram qualquer tipo de dete- com o auxílio de pincéis, trinchas de cerdas fi- rioração nesse processo. Sua aplicação é reco- nas ou espátulas, preferencialmente sobre uma mendada em casos de manchas causadas pelo mesa de sucção. No caso de obras ocas, deve- acúmulo de sujeira mais resistente, como poeira se observar também o interior dessas peças. originária de teias de aranha, toques de dedo, partículas de gordura, detritos de morcegos e :: Materiais e equipamentos insetos ou mesmo suor. Antes da hidratação é Para obras mais delicadas, pincéis longos, necessário realizar um teste, aplicando sobre de cerdas finas e macias. No caso de obras de uma pequena parte da peça água e detergente grande porte, pincéis ou trinchas de cerdas neutro, com o auxílio de um algodão, uma estopa mais resistentes. ou escovas. Nesse teste, os pigmentos e outros O laboratório do Museu Casa do Pontal materiais não podem se diluir. Caso contrário, a possui uma câmara de sucção de sólidos. A limpeza em meio aquoso não deve ser realizada. sucção é feita através de um duto com filtros Pode-se também usar um vaporizador manual25 de feltro, que suga e retém partículas sólidas para obras de maior porte e de superfície resis- desprendidas do objeto, evitando também tente, como madeiras envernizadas. que o conservador entre em contato com elas. Quando não se tem câmara de sucção, uma so- :: Materiais e equipamentos lução para esse tipo de limpeza é o uso de um Palito de madeira ou bambu, água, de- aspirador de pó. tergente neutro, algodão e estopa. Pode-se optar, em alguns casos, pelo uso de pincéis :: Processos e cuidados de variados tipos (cerdas macias e/ou mais Nas obras mais delicadas, deve-se passar o resistentes), escova de dente, borrifador e, se pincel suavemente pela superfície, pelos cantos necessário, bisturi. e pelas saliências da obra. Em peças mais resis- No laboratório do Museu Casa do Pontal, 25. Trata-se de qualquer frasco tentes, pode-se utilizar uma escova de dente ou esse processo é realizado com a ajuda de uma que possa borrifar gotículas de um aspirador de pó para a limpeza de ranhuras ou mesa de sucção de líquidos, composta por um líquido por meio de um gatilho. fendas. Se a obra for pintada na superfície, deve- aspirador que, através de um duto flexível, liga- É aconselhável a utilização de frascos novos, sem resíduos de se analisar quais foram as técnicas utilizadas se a uma mesa de metal oca, que é uma super- outros produtos. pelo artista. Obras pintadas com tintas à base fície de alumínio duro com várias perfurações. 32
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    Após ser ligado,o aspirador suga as partículas :: Materiais e equipamentos de água ao redor da obra. Esse equipamento é Palito de madeira ou bambu, algodão, sol- prático e móvel. Pode, por exemplo, ser coloca- vente e estopa. Para obras maiores, usam-se do sobre uma mesa, para a realização de lim- também pincéis, escovas de dente e, se neces- pezas no interior da galeria. Se o conservador sário, bisturi ou estilete. não tiver esse equipamento, a limpeza pode ser feita sobre uma folha de papel mata-borrão.26 :: Processos e cuidados Antes dos procedimentos, é necessário rea- :: Processos e cuidados lizar um teste para observar a solubilidade da Antes dos procedimentos, é necessário tinta ou do verniz, aplicando-se um palito com que sejam realizados testes com palitos de um pouco de algodão molhado no solvente em algodão, umedecidos numa solução de água e uma pequena área da peça. Se houver diluição detergente neutro, em pequenas áreas da obra, de tinta, deve-se evitar a limpeza com solvente. preferencialmente de cores diferentes. Se as Na realização da limpeza, molha-se no solven- tintas diluírem, a obra deve ser limpa apenas a te um palito com algodão enrolado na extremida- seco. Caso as obras não sofram danos, inicia- de e aplica-se essa substância unicamente sobre se a limpeza em meio aquoso. a área do dejeto, ou mancha, a ser removido. Em Com um pouco de algodão enrolado na obras maiores, utiliza-se um pincel levemente ume- extremidade, o palito de madeira ou bambu é decido no solvente, no lugar do palito com algodão. molhado numa solução de água com detergente Para áreas de maior resistência ou que apresentem neutro e friccionado cuidadosamente sobre a maior dificuldade de alcance, como frestas e can- peça. Esse algodão deve ser constantemente tos, pode-se usar uma escova de dente. trocado, de modo que permaneça limpo. Em al- A secagem do excesso de solvente deve gumas obras, usam-se palitos longos, capazes ser feita com estopa ou algodão seco. Pode-se de atingir o interior das peças sem provocar da- também usar o bisturi, se houver a necessida- nos. Para obras de maior porte, pode-se aplicar de de fazer raspagens. a solução de água e detergente com o auxílio de um borrifador e a fricção deve ser feita com 2.4. Com tolueno27 pincéis de cerdas mais resistentes. Terminada esta etapa, a umidade restante na obra deve Solventes à base de carbono, como o tolue- ser removida com algodão seco ou com um pou- no, só deverão ser aplicados se as manchas e co de estopa. Quando sobrarem excessos ou em dejetos resistirem a todas as ações anteriores. casos de partículas mais calcificadas, pode-se Trata-se de um procedimento muito perigoso, utilizar o bisturi para fazer raspagens. usado em casos extremos e que deve ser realiza- do em lugares arejados ou com exaustores. Além 2.3. Com solvente disso, não existem doses exatas para a solução 26. Papel de alto nível de poro- usada nesse processo. Cada caso deve passar sidade, que serve para absorver :: Aplicação por uma série de experimentações e, portanto, a líquidos. Se as manchas forem ainda mais resis- aplicação de tolueno deve ser realizada apenas 27. O tolueno também pode ser tentes, como no caso de respingos de pintura por um profissional qualificado e experiente. utilizado para a remoção do ex- ou verniz, resíduos de cera, fungos ou mesmo No Museu Casa do Pontal, esse solvente foi cesso de cola branca nas obras em que houve descolamento, aquelas que não foram removidas com os pro- usado uma única vez, quando uma obra em ce- mas o uso dessa substância cessos anteriores, a obra recebe uma higieni- râmica policromada – “Casal de noivos” (Vale deve ser feito por um profissio- zação com solvente. do Jetiquitinhonha – MG, autor desconhecido) nal especializado. 33
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    – foi acidentalmenteatingida por uma caneta que fica ligada, em processo de aquecimento, esferográfica. Nessa ocasião, foi feito um teste de por cerca de 45 minutos. A porta do equipa- solubilidade da tinta original com o solvente. Pos- mento deve permanecer fechada, com as obras, teriormente, um palito de bambu com algodão foi por no mínimo 72 horas, para que o preparado molhado numa solução de tolueno com álcool etí- reaja sobre as peças. Depois, o ar da câmara lico hidratado (duas porções de tolueno para uma deve ser expurgado por aproximadamente duas de álcool). O tolueno foi diretamente aplicado sobre horas e meia, com as obras ainda no interior a mancha e, para que ele parasse de reagir, seu da câmara. É imprescindível que este tempo e excesso foi retirado da peça inúmeras vezes com o as quantidades sejam respeitados porque pro- auxílio de um algodão umedecido em solvente. cedimentos inadequados podem prejudicar não Em muitos casos, no entanto, a proporção apenas as obras, mas também o profissional, dessa solução é diferente e a dificuldade na re- que se expõe a produtos tóxicos. Os cuidados, moção da mancha é tão grande que continuar dessa maneira, devem ser redobrados nesse o processo pode causar danos irreversíveis à momento e a abertura da câmara deve ser feita obra. Por esse motivo, o Museu Casa do Pontal com o uso de máscara para solventes orgâ- recomenda que se contrate um profissional es- nicos, luva e guarda-pó. Devem ser evitadas pecializado se houver necessidade de aplicar o também excessivas entradas e saídas do labo- tolueno. Vale lembrar que o tolueno é extrema- ratório, principalmente durante essa etapa. mente tóxico e, portanto, deve ser utilizado de Se o profissional não dispuser de uma câmara forma segura, com máscaras especiais e luvas. de fumigação ou se a obra imunizada não couber dentro dela, outra possibilidade de procedimento 3. Imunização seria a aplicação de inseticida solúvel em pontos específicos da obra, com a ajuda de agulhas de :: Aplicação seringa ou de pincéis. Logo depois, a obra deve ser Imunizam-se obras que foram atacadas fechada hermeticamente com um plástico – reco- por insetos e microorganismos ou que tiveram menda-se o uso de sacos grandes –, para que o peças vizinhas a elas diretamente atingidas. produto reaja sobre a peça. Esse procedimento é conhecido como “envelope”. Neste caso, deve-se :: Materiais e equipamentos deixar o produto agir sobre as obras por aproxima- O ideal é dispor de uma câmara de fumiga- damente 48 horas. Depois, os mesmos cuidados ção, mas também é possível imunizar as obras para a abertura da câmara de fumigação devem com um inseticida solúvel, aplicado com serin- ser seguidos para a abertura do “envelope”, in- gas e pincéis e, finalmente, lacrado com plásticos cluindo o uso de máscara, luva e guarda-pó. As (como sacos grandes) e fita adesiva. Para o ma- obras, então, devem ser colocadas em um local nuseio das obras, recomenda-se o uso de másca- isolado, com pouca circulação de pessoas, por ra para solventes orgânicos, luva e guarda-pó. cerca de dois dias. Recomenda-se também que se realize, como um último procedimento, uma :: Processos e cuidados limpeza de superfície em meio aquoso. Quando se dispõe de uma câmara de fu- migação, as obras são colocadas dentro dela, 4. Restauração de partes danificadas que deve ser preparada de acordo com o tipo Em virtude da variedade de materiais, téc- de material a ser imunizado. Essas instruções nicas e proporções utilizados em cada acervo, os precisam ser analisadas por um profissional danos encontrados nas peças poderão receber experiente. Posteriormente, fecha-se a câmara, diferentes tipos de tratamentos. Neste caderno, 34
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    abordaremos as situaçõesmais comumente en- mas sem comprometimento da sustentação contradas em obras de cerâmica e madeira. da obra ou de algum membro. Isso acontece principalmente nas extremidades de uma obra, 4.1. Colagem de partes que se quebram ou se quando há impacto acidental. descolam sem comprometer a sustentação :: Materiais e equipamentos :: Aplicação Cola branca à base de PVA, massa à base Adota-se esse procedimento em casos de de PVA, palito de bambu, algodão, água, lixa descolamento de partes que foram unidas em fina (nº 150 a 180), bisturi, lentes de aumento intervenções anteriores ou de quebras simples, e pigmentos minerais, pratos e potes. ou seja, quando a estrutura de sustentação da obra ou de um determinado membro dela não :: Processos e cuidados fica comprometida. Essa situação é mais co- Em primeiro lugar, todos os fragmentos da mum em peças de cerâmica do que de madeira obra devem ser recolhidos. Depois, como num e pode ser causada por acidentes e por falta de quebra-cabeças, esses pedaços serão seleciona- manutenção ou de transporte adequados. dos, agrupados e encaixados. Nessa etapa, é ne- cessária muita paciência; em alguns casos, lentes :: Materiais e equipamentos de aumento podem auxiliar o trabalho. Quando se Cola branca à base de PVA, algodão, água souber com exatidão a posição dos fragmentos e espátula de metal ou bambu (para a aplica- aproveitáveis, inicia-se a colagem das partes. ção da cola). O processo começa pelas partes internas até chegar às camadas mais superficiais da obra. :: Processos e cuidados Portanto, é importante atentar para que a superfí- A colagem deve ser feita apenas se o con- cie esteja plana, sem desnível entre as colagens. servador souber a posição exata de encaixe das Depois que os produtos secam, a retirada partes comprometidas. Neste caso, a primei- do excesso e o nivelamento da superfície devem ra etapa consiste em limpar bem a obra e as ser feitos com um pouco de algodão enrolado no peças, por meio dos processos anteriormente palito de bambu e molhado na água, a partir de descritos. movimentos de fricção circular. Podem-se utili- Depois, deve-se aplicar cola branca à base zar também lixas finas ou um bisturi para remo- de PVA nas partes a serem recompostas. A co- ver o excesso da cola com cuidado, sem danificar lagem deve ser feita sempre sem excesso. partes originais da obra ao redor da perda. Após a colagem, as partes devem perma- necer unidas por aproximadamente 12 horas, 4.3. Recuperação da sustentação a partir de uma tensão feita, por exemplo, com elásticos ou com uma prensa de mesa, encon- :: Aplicação trada em lojas de marcenaria. Casos de quebras que comprometem a sus- tentação da obra ou de algum membro. Uma 4.2. Colagem de partes em que houve frag- peça com sua estrutura de sustentação com- mentação prometida pode sofrer queda e disso resultar em rupturas e danos ainda maiores. Trata-se, :: Aplicação portanto, de um problema que deve ser resolvido Utilizada em casos de deterioração em que assim que identificado, mas essa solução preci- há dano estético e/ou até mesmo estrutural sa de experimentação e verificação caso a caso. 35
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    No Museu Casado Pontal, foram feitas membro que se deteriorou for muito pesado, pode- tentativas com diferentes materiais na res- se usar uma prótese, que ficará na parte interna tauração de cerâmica, como a cola extraforte da obra. Essa prótese pode ser um pino de madei- à base de PVA, mas foi a resina epóxi que mais ra ou de cobre, dependendo do peso da parte a ser bem se adaptou à necessidade das peças. Vale colada. O Museu Casa do Pontal costuma utilizar lembrar que esse material só vem sendo testa- próteses de cobre, material que não oxida, ou de do, em casos extremos e de maneira comedida, madeira de lei, que é resistente aos cupins. quando o artista já o havia utilizado original- Primeiramente, furam-se as partes a serem mente. Manoel Galdino e Adalton Lopes usaram coladas, de modo que a prótese possa transpas- esse material para unir partes ou membros de sar de um lado para o outro da obra. Por isso, é barro já queimados28. Em alguns casos, esse aconselhável que se marque um dos lados no eixo tipo de interferência é harmonizado com o uso da madeira com um pequeno pingo de tinta. Fura- de ranhuras e pigmentos no acabamento. se com cuidado para não atravessar a superfície da obra. Mede-se a profundidade dos dois furos, :: Materiais e equipamentos que, somados, devem ser do tamanho da próte- Colas extrafortes, no caso da cerâmica. se. Executa-se a colagem com a cola à base de Para obras em madeira, além de colas extra- PVA, aplicada em ambas as partes. Em seguida, fortes, usa-se em alguns casos uma prótese, coloca-se a prótese em um dos furos e liga-se a que pode ser um pino de madeira ou de cobre. outra extremidade ao segundo furo, mantendo as A tensão entre as partes é feita com elástico, partes unidas até a secagem da cola. Deve haver grampos ou escoras. uma atenção constante para evitar o excesso de cola, a ser removido quando a cola ainda está :: Processos e cuidados fresca, mediante o uso de algodão ou estopa le- O uso de colas muito resistentes é irrever- vemente umedecido. Em obras de grande porte, sível. Depois de aplicada, a resina só poderá pode-se usar mais de uma prótese. ser retirada da peça se as partes comprome- tidas forem movimentadas. Além disso, esses 4.4. Recomposição estética adesivos atingem lentamente o efeito desejado e as partes comprometidas de grande porte po- :: Aplicação dem tornar o conjunto da obra instável durante A recomposição estética ou retoque é usa- o processo. Dessa maneira, esse procedimento da em obras pintadas ou policromadas, princi- 28. Manoel Galdino utiliza a deve ser utilizado de forma moderada e sempre palmente em casos nos quais tenham ocorrido resina epóxi principalmente com a consulta de especialistas. perdas superficiais ou de estrutura por motivo quando compõe obras de gran- Para as obras em cerâmica, uma vez deci- de queda ou de desprendimento de camada de porte, queimadas em duas partes. Já Adalton utiliza o epóxi dida a aplicação da resina, o adesivo deve ser pictórica, o que pode acontecer, inclusive, pela em elementos que são serrados colocado no centro da quebra em quantidade mí- movimentação natural das partículas da peça. ou furados para utilização de nima, para se evitar o excesso. Depois, é neces- molas e arames ou ainda quan- sário encontrar o equilíbrio da parte a ser colada :: Materiais e equipamentos do compõe elementos separados da base, como na série “Jogos e e, em alguns casos, imobilizá-la ou tencioná-la, Para obras com superfícies sem brilho e den- Diversões” de modo que a colagem se estabilize com as par- sidade, que geralmente foram realizadas com tes nas suas posições exatas. Essa tensão pode tintas à base de água, o retoque costuma ser feito 29. Aquelas que têm a camada ser feita com elástico, grampos ou escoras. com aquarela. Já superfícies encorpadas29 e com pictórica mais densa, principal- mente no caso das tintas a óleo, No caso de obras em madeira, utiliza-se brilho podem ser recuperadas com tinta acrílica. acrílica ou esmalte sintético. a uma cola extraforte à base de PVA. Quando o As características de brilho e volume da tinta 36
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    acrílica são semelhantesàs do esmalte sintético ocas por dentro, o que é provocado pela ação e da tinta a óleo, mas aquela tem as vantagens de insetos. Neste caso, a peça precisa antes de diluir em água e ser menos tóxica, o que per- ser imunizada. mite uma remoção mais segura, caso seja preci- Para obras em cerâmica, esse procedimen- so. Para esse processo, são necessários também to é realizado quando a obra perdeu parte de pincéis para retoque, palito e algodão. sua estrutura como conseqüência de fragmen- tações e quebras. :: Processos e cuidados Em primeiro lugar, nesse procedimento, :: Materiais e equipamentos as características das tintas originalmente Para obras em madeira, usa-se uma mis- utilizadas pelo artista devem ser respeitadas. tura de cola branca à base de PVA e serragem. Para isso, além de uma grande sensibilidade Em alguns casos, são necessários pedaços de e de um conhecimento profundo do acervo, o madeira de qualidade, menos sensíveis à ação profissional deve ser experiente e estar capa- de cupins, como o ipê e o cedro. Para obras em citado a perceber os tons das cores originais, cerâmica, aplica-se uma mistura de cola e mas- a justaposição de tintas e as diferentes formas sa, ambas à base de PVA. Recomenda-se o uso, de composição criadas pelos artistas. tanto para a cerâmica quanto para a madeira, Uma regra geral é o cuidado para que não de lixas finas para o nivelamento da superfície e se sobreponham diferentes camadas de pin- de algodão umedecido para a retirada de even- tura. Mas como cada caso tem as suas espe- tuais excessos das substâncias utilizadas. cificidades, a obra deve ser cuidadosamente estudada antes do início do retoque. :: Processos e cuidados Quando a obra apresenta manchas causa- Em primeiro lugar, é necessário remover os das por fungos ou por oxidação, uma solução detritos no interior da obra, seja aspirando ou usada por alguns artistas é o uso de pintura virando a peça de cabeça para baixo. em tons de barro. No entanto, esse procedimen- Depois, utiliza-se cola branca à base de PVA to só deverá ser adotado se foi originalmente misturada com serragem e um pouco de água, usado pelo autor da peça. Geralmente nesses no caso da madeira, ou com massa à base de casos não há muito a se fazer, porque as inter- PVA, no caso da cerâmica. Essa mistura deve venções podem piorar a deterioração da obra. ser colocada na obra por etapas: espera-se que O mesmo acontece quando há perda de pin- cada camada seque para se colocar a seguinte, tura em áreas grandes e não há qualquer referên- até chegar à superfície. cia a ser seguida – por exemplo, se a obra perde No caso da madeira, as primeiras camadas um detalhe com uma estampa sem seqüência podem ter uma mistura de cola com serragem lógica. Nessa situação, o restaurador não deve mais grossa, enquanto a superfície deve contar tentar criar ou imitar a obra original, mas utilizar com uma serragem peneirada, que facilita o o tom de fundo dessa parte, a partir de vestígios acabamento. aparentes em outros pedaços da peça. Em casos de grande sensibilidade e risco de perda de superfície, essas ações devem ser 4.5. Recuperação da estrutura evitadas, adotando-se em seu lugar o proces- so conhecido como faceamento, detalhado no :: Aplicação item seguinte. Para obras em madeira, a recuperação da No caso da cerâmica, usa-se a mistura de estrutura é necessária quando as obras estão cola e massa à base de PVA e preenchem-se 37
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    os espaços ondehouve a perda, também por em “banho Maria”, com o auxílio de um vidro e camadas, até que se atinja a superfície. Depois uma panela. de seca, a massa deve ser nivelada com o au- xílio de uma lixa fina, removendo-se o excesso :: Processos e cuidados com algodão umedecido. Em primeiro lugar, deve-se testar a solu- Outra situação usual é o comprometimento bilidade da tinta que compõe a obra com uma de uma estrutura diretamente relacionada ao pequena quantidade de algodão umedecido em movimento de uma obra, como um braço ou água, enrolado na ponta de um palito. A apli- uma perna. Nesse caso, o primeiro procedimen- cação é feita em pequenos pontos da obra. Se to a se seguir é a retirada dessa estrutura da a tinta não for resistente à água, o faceamento peça. Depois, um profissional habilidoso, como não pode ser realizado. um bom marceneiro, pode usar essa estrutura Caso a tinta não dilua, inicia-se o proces- como molde e construir uma cópia, respeitando so. Assim, coloca-se uma película de papel ja- as formas e os volumes do original. ponês (ou papel de seda) sobre a superfície da peça. Em cima do papel e com o auxílio de um 4.6. Faceamento pincel de cerdas macias, pincela-se gelatina neutra, diluída em água. Depois que a gelati- :: Aplicação na seca – o que demora de seis a 12 horas –, O faceamento é aplicado apenas em obras devem ser abertas, pouco a pouco, pequenas feitas em madeira que perderam parte da es- “janelas” na superfície da estrutura, retirando trutura, mas cuja superfície manteve-se intac- partes do papel com a gelatina seca. Quando ta. Essa situação é causada principalmente por se tem acesso ao interior, a estrutura deve ataques de cupins. O objetivo desse procedi- ser recomposta tal como descrito no processo mento é chegar ao interior da obra, preservando anterior (recuperação da estrutura). A cola da sua superfície original, sem o risco de danos. mistura servirá para colar a superfície nova- mente, fechando a “janela”. A cola deve secar :: Materiais e equipamentos totalmente e, depois, o papel é umedecido com Palito de bambu, algodão, água, papel ja- água. Com isso, a gelatina se dilui e o papel se ponês (ou de seda), gelatina neutra e pincéis solta. O excesso de gelatina deve ser retirado de cerdas macias. A gelatina deve ser aquecida com algodão e água. 38
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    III. Conservação e restauro emobras do acervo do Museu Casa do Pontal 39
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    1. Lavadeira Obra com partes descoladas Mesa de sucção Limpeza em mesa Colagem de sólidos de sucção de sólidos Título da Obra Laudo Técnico Lavadeira A obra estava em exposição permanen- te, dentro da vitrine, com acúmulo de Artista sujidades. A figura principal descolou- Zé Caboclo* se da base (quebra simples). Região de Origem Ações de Conservação e Restauro Alto do Moura, Caruaru – PE :: Limpeza de superfície a seco: processo cuidadoso, devido ao Década de Aquisição desprendimento da camada pictórica 1960 (o que impediu a limpeza em meio aquoso); uso da mesa de sucção de Dimensões sólidos. 15 x 20 x 11 cm :: Colagem das partes soltas: com cola Peso branca; a tensão das partes foi feita 685 g com elástico. Materiais Barro cozido policromado * José Antônio da Silva (1921-1973). Nasceu no Alto do Moura, Caruaru, PE. Aprendeu a trabalhar o barro nas brincadeiras infantis, observando a mãe e uma irmã que se dedicavam ao artesanato uti- litário. Conhecido pelo apelido Zé Caboclo, tornou-se um dos mais conceituados artistas de Caruaru. Contribuiu de maneira decisiva, junto com Vitalino e Manuel Eudócio, seu cunhado, para marcar um estilo na arte dos bonecos de barro daquela região. Em parceria com esse último, inovou técnicas e formas, adotando o uso do arame na estrutura das esculturas e a feitura do olho em alto relevo, ao in- vés de fazê-los furadinhos. Seus filhos, Antônio, Zé Antônio, Paulo, Horácio, Marliete, Socorro, Carmélia e Helena são artistas reconhecidos. 40
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    Encaixe Tensão feita com elástico 41
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    2. Casal com bebê Interferências aparentes Limpeza em mesa de Remoção de antigos retoques Preparação da tinta com pigmentos Pintura de restaurações anteriores sucção de líquidos e emassamentos Título do Conjunto Laudo Técnico Ações de Conservação e Restauro Casal com bebê A obra estava na reserva técnica. :: Limpeza de superfície a seco: uso Foram encontradas interferências de pincéis de cerdas finas e mesa de Artista aparentes de restauros anteriores: o pé sucção de sólidos. Noemisa* de uma figura havia se descolado, e o emassamento para recompor a estru- :: Limpeza de superfície em meio Região de Origem tura havia sido excessivo, aumentando aquoso: uso de palito (nas áreas mais Vale do Jequitinhonha – MG o volume; a pintura também estava delicadas) e vaporização (na estrutu- diferente, com cores alteradas. ra); realizada sobre a mesa de sucção Década de Aquisição de líquidos. Não identificada :: Remoção de antigos retoques e Dimensões emassamentos: com palito, algodão, 26,5 x 16,5 x 6,5 cm água e bisturi. Peso :: Recomposição estética: com tinta à 1.050 g base de PVA, em tons de barro. Materiais Barro cozido com pintura natural (à base do próprio barro) * Ver nota biográfica na página 19. 42
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    3. Eletricista Trabalhando Descolamento de parte da Mistura de cola, massa e pigmento Colagem Acabamento sustentação originalmente ligada à estrutura Título da Obra Laudo Técnico Eletricista Trabalhando A obra estava na reserva técnica, com :: Limpeza com solvente: em determi- sujidades e uma grande quebra de nados pontos da estrutura. Artista estrutura na parte superior. Além disso, Luiz Antônio* houve o descolamento de uma parte :: Colagem das partes quebradas e de sustentação diretamente ligada à descoladas: com uma mistura de cola Região de Origem estrutura de base, decorrente de uma branca, massa e pigmento com tons Alto do Moura, Caruaru – PE restauração anterior. de barro. Década de Aquisição Uma dificuldade para esta restauração :: Recomposição estética: uso de tinta 1970 foi a presença de uma madeira no acrílica diluída em água. interior da obra, colocada pelo artista Dimensões para a sustentação, que não podia ser 90 x 50 x 13 cm retirada porque isso comprometeria a sua estrutura. Peso 6.830 g Ações de Conservação e Restauro :: Limpeza de superfície a seco: uso Materiais de pincéis e, nas figuras e áreas de di- Barro cozido policromado. Materiais fícil acesso, de um palito com algodão. secundários: arame, madeira (na sustentação interna) :: Limpeza de superfície em meio aquoso: uso de palito (nas áreas mais delicadas) e vaporização (na estrutu- ra); realizada sobre a mesa de sucção de líquidos. * Luís Antônio da Silva (1935 – ). Nasceu no Alto do Moura, em Caruaru, PE. Com a mãe louceira, aprendeu a modelar o barro, mas atribui sua iniciação profissional a Mestre Vitalino, com quem apri- morou a técnica. Além de criar tipos regionais, especializou-se na representação de temas urbanos, especialmente aqueles ligados ao progresso e ao uso das máquinas. 44
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    4. Aguadeiro Detalhe do descolamento Limpeza de superfície a seco Imunização em câmara Colagem com uso de pincel de fumigação Título do Conjunto Laudo Técnico Ações de Conservação e Restauro Aguadeiro A obra estava em exposição perma- :: Limpeza de superfície a seco: uso nente e fora da vitrine. Como fica em de pincéis (não foi necessário realizar Artista uma área que já havia sido reformada, limpeza em meio aquoso porque a obra Domingos* o acúmulo de sujidades era pequeno. estava relativamente limpa). Numa restauração anterior, um dos Região de Origem dedos do pé da figura foi totalmente :: Imunização: na câmara de fumigação. Joaima – MG devorado por cupins e teve que ser refeito. Desta vez, o dedo refeito foi :: Recomposição do braço ataca- Década de Aquisição encontrado descolado da peça e o coto- do por cupins: com cola branca e 1970 velo esquerdo tinha sido parcialmente serragem. atacado por cupins. Dimensões :: Colagem do dedo solto: com cola 28 x 32 x 104 cm branca. Peso 2.945 g Materiais Madeira natural * Domingos Siqueira (? – ). Nasceu em Joaima, cidade localizada no Vale do Jequitinhonha, MG. Entalha a madeira e desenvolve, com elegância de traços, temáticas ligadas à vida rural dessa região. Seus personagens capturam com detalhes as vestimentas e os adereços de caçadores, aguadeiros e outras figuras do campo. Reproduz animais com fidelidade. 46
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    5. Cidade baixa com dois grandes prédios Verniz alterado Limpeza em meio aquoso Remoção de excesso de vernizes Aplicação de novo verniz com uso de vaporizador Título do Conjunto Laudo Técnico Ações de Conservação e Restauro Cidade baixa com dois grandes prédios A obra estava em exposição permanen- :: Limpeza de superfície a seco: com te, fora da vitrine e numa área úmida pincéis e trinchas. Artista do Museu, com presença de muitos Dadinho* insetos. Por esse motivo, era grande o :: Limpeza de superfície em meio acúmulo de sujidades (poeira, teias de aquoso: uso de pincel, trincha, vaporiza- Região de Origem aranha, detritos de insetos etc.). Além dor, estopa e algodão. Nova Iguaçu - RJ disso, o verniz estava alterado, com aspecto esbranquiçado por causa da :: Limpeza de superfície com Década de Aquisição umidade e da sujeira. solvente: para retirar o excesso de 1980 vernizes alterados. Dimensões :: Aplicação de um novo verniz: à base 140 x 160 x 110 cm de resina de damar**. Peso 26.000 g Materiais Madeira envernizada * Ver nota biográfica na página 29. ** Damar é uma resina vegetal, diluível em solvente. É usado para produzir um verniz, que é resistente à luz e oferece fácil remoção. 48
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    6. Lampião e Maria Bonita Estrutura devorada Imunização com injeção. Envelope Recomposição com serragem e cola branca por cupins Título do Conjunto Laudo Técnico Ações de Conservação e Restauro Lampião e Maria Bonita A obra estava em exposição permanen- :: Limpeza de superfície a seco: com te, fora da vitrine, em uma área que pincéis. Artista ainda não havia passado pela reforma Manuel Graciano* atual. A vitrine era muito antiga e :: Limpeza de superfície em meio próxima à saída do Museu, local de aquoso: uso de vaporizador, pincel e Região de Origem passagem constante de veículos, o estopa. CE que provocou um grande acúmulo de sujidades. Além disso, os cupins devo- :: Imunização: com pinceladas e Década de Aquisição raram parte da estrutura da obra (do injeção nas áreas atacadas por ou com 1970 lado direito da saia de Maria Bonita) e vestígios de cupins; “envelope”, com atacaram partes da base. plástico e fita adesiva. Dimensões 136 x 42 x 32 cm :: Recomposição da estrutura: com serragem e cola branca. Peso 77.500 g :: Retoque das áreas perdidas: com tinta à base de PVA. Materiais Madeira policromada, pregos e pinos de metal * Manuel Graciano Cardoso (1923 – ). Nasceu em Santana do Cariri, CE. Na infância, fazia brinquedos em madeira e os vendia para outras crianças. Posteriormente, passou a produzir presépios e ex-votos, criando um estilo pessoal, com destaque para a pintura, bastante original. Muitas de suas esculturas têm grandes proporções e, com freqüência, representam figuras de animais. Vive em Juazeiro do Norte. Francisco Graciano Cardoso, seu filho, e Edinaldo, neto, seguem-lhe na profissão e no estilo. 50
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    7. Escravidão Limpeza de superfície a seco Substituição das roupas Moldes dos membros originais Membros originais ao lado de membros novos, antes da realização de acabamento e pintura Título do Conjunto Laudo Técnico Ações de Conservação e Restauro Lampião e Maria Bonita A obra estava em exposição perma- :: Limpeza de superfície a seco: uso nente, fora da vitrine, e com acúmulo de trinchas e pincéis e, para a estrutu- Artista de sujidades. Além disso, os cupins ra, de aspirador de pó. Saúba* devoraram vários membros e deixaram vestígios em diversas outras partes. Os :: Imunização: com injeção, pinceladas Região de Origem tecidos das roupas estavam acidifi- e “envelope”. Recife/Olinda – PE cados e rompidos, e houve quebra da haste do mecanismo de movimento. :: Limpeza de superfície em meio Década de Aquisição aquoso: com vaporizador, pincéis, 1970 trincha e palito de bambu. Dimensões :: Substituição dos tecidos: tentou-se 75 x 130 x 35 cm lavar as roupas, mas, como a resistên- cia foi baixa, optou-se pela troca total Peso dos tecidos (de algodão, em branco e Não identificado** preto), com base nos moldes originais. Materiais :: Substituição dos membros devora- Madeira policromada. Materiais secundá- dos: com base nos membros restantes rios: tecidos, ferro, barbante de algodão, (optou-se por trocar a madeira original, motor e arames. pinho, pelo cedro, que tem mais resis- tência aos cupins). :: Recomposição da estrutura dos * Saúba (1953- ). Antônio Elias da Silva nasceu em Carpina, Pernambuco. Aprendeu a membros reaproveitáveis: com cola e confeccionar bonecos de mamulengo ainda jovem. Considerado um dos melhores escultores serragem. do gênero no Brasil, ficou famoso por algumas de suas criações, como a boneca em tamanho de gente com quem dançava junto, os conjuntos de mamulengos articulados (geringonças) e os bonecos em cima da bicicleta que se movimentam sob orientação da mão. :: Recuperação estética: pintura e ** As dimensões da obras dificultam a sua pesagem. retoque com tinta acrílica. 52
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    8. Serra Pelada Exemplo de fio de nylon partido Retirada de fio Colocação de fio de nylon novo Idem de nylon partido Título da Obra Laudo Técnico Serra Pelada A obra ficou durante dez anos na :: Substituição dos fios de nylon que exposição Brasil através da moeda, do ligavam o mecanismo às partes com Artista Centro Cultural do Banco do Brasil. No movimento. Adalton* final de 1999, voltou para o Museu Casa do Pontal, com grande acúmulo de su- :: Recomposição das estruturas que- Região de Origem jidades, como poeira e teias de aranha. bradas: com cola branca e massa. Niterói – RJ Além disso, foram encontrados outros problemas: fios de nylon arrebentados, :: Recomposição estética: com tinta Década de Aquisição madeira com vestígios de cupins, motor acrílica. Não identificada queimado, engrenagens danificadas e figuras quebradas. A maior parte da Dimensões estrutura pôde ser aproveitada. 102 x 85 x 110 cm Ações de Conservação e Restauro Peso :: Limpeza de superfície a seco: com Não identificado** pincéis de cerdas finas para a superfí- cie e aspirador de pó para a estrutura. Materiais Barro cozido policromado sobre base de :: Limpeza de superfície em meio resina, tinta acrílica. Materiais secun- aquoso: uso de palito de bambu nas dários: fios de nylon, madeira, arames, figuras mais delicadas e vaporizador mecanismo de movimento (motor). manual na base. :: Substituição de todo o mecanismo de movimento: construção de um novo motor e colocação de corrente e roda dentada no lugar da engrenagem. * Ver nota biográfica na página 19. ** As dimensões da obras dificultam a sua pesagem. 54
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    Amarração de fiode nylon novo à estrutura Testes feitos com a peça Idem em movimento 55
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    Bibliografia consultada APPADURAI, Arjun. The social life of things. CENTRO NACIONAL DE FOLCLORE E CULTU- Cambridge: Cambridge University Press, 1986. RA POPULAR (org.). Tesauro de Folclore e Cultura Popular Brasileira Disponível em: http://www. ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional cnfcp.com.br/tesauro/. Último acesso em 14 de – Volumes I, II e III . São Paulo: Edições Melho- agosto de 2007. Rio de Janeiro: Centro Nacional ramento, 1964. de Folclore e Cultural Popular/ Iphan, 2006. BEUQUE, Guy Van de; MASCELANI, Maria COIMBRA, Sílvia. O reinado da Lua – es- Angela dos Santos. Processos de Navegação cultores populares do Nordeste. Rio de Janeiro: em Sistemas de Informação: um caso exemplar Salamandra, 1980. de criação de banco de dados. Mimeo, s.d. CUNHA, Almir Paredes. A história da arte e a BLOM, Philipp. Ter e manter: uma história preservação de bens culturais. 3ª ed. In: MENDES, intima de colecionadores e coleções. Tradução Marylka; BAPTISTA, Antonio Carlos Nunes (org.). de Berilo Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2003. Restauração: ciência e arte. Rio de Janeiro. Uni- versidade Federal do Rio de Janeiro/IPHAN, 2005. BRAGA, Gedley Belchior. Conservação pre- ventiva: acondicionamento e armazenamento DAVISON, Sandra; WINSOR, Peter; BALL, Ste- de acervos complexos em Reserva Técnica – o phen. Conservação de cerâmica e vidro. In: Mu- caso do MAE/USP. (Dissertação de Mestrado em seums, libraries and archives council. Tradução Ciências da Informação e Documentação). São de Maurício O. Santos e Patrícia Souza. São Paulo: Paulo: Escola de Comunicação e Artes da Uni- Universidade de São Paulo/Fundação VITAE, 2005. versidade de São Paulo, 2003. DRUMMOND, Maria Cecília de Paula. “Pre- BRASIL. Portaria Normativa/IPHAN n° 01, venção e conservação em museus”. In: IPHAN, de 5.7.2006. Dispõe sobre a elaboração do Pla- SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA-MG. Ca- no Museológico. derno de diretrizes museológicas. 2ª ed. Belo Horizonte: Ministério da Cultura/Instituto do CÂNDIDO, Maria Inez. “Documentação Mu- Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Depar- seológica”. In: IPHAN, SECRETARIA DE ESTADO tamento de Museus e Centros Culturais, Belo DA CULTURA-MG. Caderno de diretrizes museo- Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura/Su- lógicas. 2ª ed. Belo Horizonte: Ministério da Cul- perintendência de Museus, 2006, p. 107-133. tura/Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Departamento de Museus e Centros FROTA, Lélia Coelho. Pequeno dicionário da Culturais- Secretaria de Estado da Cultura/Su- arte do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Aeropla- perintendência de Museus, 2006. p. 33-79. no, 2005. CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do GUIMARAENS, Dinah. O mundo encantado folclore brasileiro. 6ª ed. Belo Horizonte: Ita- de Antônio de Oliveira. Rio de Janeiro: Funar- tiaia; São Paulo: Edusp, 1988. te/INF, 1983. 56
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    HALBWACHS, Maurice. Amemória coletiva. MENDES, Marylka [at al]. Introdução. In: São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribu- MENDES, Marylka [at al] (org.). Conservação: nais, 1990. conceitos e práticas. Rio de Janeiro: Universi- dade Federal do Rio de Janeiro, 2001. IPHAN, SECRETARIA DE ESTADO DA CULTU- RA-MG. Caderno de diretrizes museológicas. 2ª MUSEU CASA DO PONTAL. Portal da Arte ed. Belo Horizonte: Ministério da Cultura/Insti- Popular Brasileira. Disponível em http://www. tuto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacio- popular.art.br. Último acesso em 15 de agosto nal/Departamento de Museus e Centros Cul- de 2007. Rio de Janeiro: Museu Casa do Pontal, turais, Belo Horizonte: Secretaria de Estado da 1999. Cultura/Superintendência de Museus, 2006. MUSEUMS, LIBRARIES AND ARCHIVES MACIEL, Maria Esther. A memória das coi- COUNCIL (org.). Museologia – roteiros práticos sas: ensaios de literatura, cinema e artes plás- 9: Conservação de coleções. São Paulo: Edusp/ ticas. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004. Fundação VITAE, 2005. MARINHA DO BRASIL. Manual de higieniza- SOUZA, Luiz Antônio Cruz; VELOSO, Bethâ- ção e acondicionamento do acervo museológico nia Reis (org.). 13 obras do patrimônio cultural do SDM. Rio de Janeiro: Serviço de Documenta- mineiro restauradas pelo Curso de Especiali- ção da Marinha, 2006. zação em Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis da Escola de Belas Artes da MASCELANI, Angela. O mundo da arte po- Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Ho- pular brasileira. Rio de Janeiro: Museu Casa do rizonte: Escola de Belas Artes da UFMG, 2002. Pontal: Mauad, 2000. _______ ; DINIZ, Wivian (orgs.). Conserva- MENDES, Marylka; BAPTISTA, Antonio Car- ção preventiva do Patrimônio Cultural: Educar los Nunes. Apresentação. 3ª ed. In: MENDES, para Preservar: Arte e Ciência. Belo Horizonte: Marylka; BAPTISTA, Antonio Carlos Nunes Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Ar- (org.). Restauração: ciência e arte. Rio de Ja- tístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), 2002. neiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; IPHAN, 2005. 57
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    Este livro foiimpresso pela Gráfica York, com o miolo em papel off set 90g e capa em cartão supremo 250g com o tipo trade gothic.