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Um dedim de prosa
Estamos tristes neste início de 2009.
Nós que tanto gostamos de livros, assistimos a
mais uma explosão de violência na terra, onde
homens e suas crenças deveriam coabitar guiados
pelos seus livros: alcorão, bíblia e tora. Trocaram
os livros pelas armas. E a fé, trocaram-na por o
quê? Por repudio transcrevemos um texto de
José Saramago que fala de Gaza e como bem o diz
Zeca Junqueira: “Os israelenses parecem James
Bond. Têm licença para matar.”
Este também é o ano do centenário de nascimento
de Francisco Inácio Peixoto. Como ele é entre os
Chicos um dos maiorais. Vamos homenageá-lo ao
longo do ano.
Os Chicos
Gaza
José Saramago
A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa
Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da
realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os
palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando
os alimentos, ou que se esgotaram já, porque
assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos
vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali
registradas como refugiados. Nem pão têm já, a
farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar
vão pelo mesmo caminho.
Desde o dia 9 de Dezembro os caminhões da
agência das Nações Unidas, carregados de
alimentos, aguardam que o exército israelita lhes
permita a entrada na faixa de Gaza, uma
autorização uma vez mais negada ou que será
retardada até ao último desespero e à última
exasperação dos palestinos famintos. Nações
Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou
a cobardia internacional, Israel ri-se de
recomendações, decisões e protestos, faz o que
entende, quando o entende e como o entende.
Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e
instrumentos musicais como se se tratasse de
produtos que iriam pôr em risco a segurança de
Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um
único político ou um único soldado israelita, esses
especialistas em crueldade, esses doutorados em
desprezo que olham o mundo do alto da
insolência que é a base da sua educação.
Compreendemos melhor o deus bíblico quando
conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou
como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz
que os israelitas mantêm permanentemente
actualizado.
Pedra
*Francisco Cabral
Escrevemos
porque sabemos
que vamos morrer.
Escrevemos
porque não sabemos
por quê.
*Francisco Marcelo Cabral (Rio de Janeiro – RJ)
Autor de O Centauro, Inexílio, Baile de Câmara e Poema
em 3Cantos reunidos no Livro de poemas (2003) e Cidade
Interior (2007)
Pedreira
*Francisco Inácio Peixoto
Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
Que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.
Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida...
*Francisco Inácio Peixoto (05.04. 1909 – 08.01.1986) Autor
de Meia Pataca, com Guilhermino César - Dona Flor,
Passaporte proibido, A janela e Chamada geral
Sombras
*Ronaldo Cagiano
Da morte, só sabia ele o que todos sabem:
que ela nos toma e nos atira no silêncio.
Rainer Maria Rilke
à memória de Elierme André
Agora eu sei que aquilo se chamava
partida: as silhuetas que eu via nas águas do rio
Pomba quando cruzei a ponte velha levando meu
irmão à última morada.
Era uma caminhada sem sentido, o rosto grave
das pessoas, o silêncio dizendo tudo, a solenidade
nos gestos e olhares, e a gente, saturados de
inconformidade, realizando um trajeto que nunca
escolheu.
Eu não me esqueço de como badalava em mim o
poema de João Cabral: “este rio/ está memória/
como um cão vivo/ dentro da sala”. Uma sentença
que me lembraria para sempre o dia mais longo de
nossas vidas, que se confundiam com a que ali
seguia, inerme, diante da inexorabilidade da
indesejada das gentes. As Parcas, mas uma vez,
deram as cartas e de forma alguma eu conseguia
entender de que barro somos feitos.
Quanto de mim seguia junto com aquele
féretro.
A sensação de desconforto íntimo começou
quando o caçula foi me buscar ao sopé do Morro
do João Peixe e eu tive que interromper o jogo de
amarelinha e descer correndo os paralelepípedos
da Granjaria, em meio à fita de cetim da sapatilha
que, desamarrada, bailarinava ao vento, num balé
confuso, tão perdida como eu no burburinho de
pensamentos sinistros e difusos que me
acompanhariam até em casa, onde cheguei sem
saber ao certo por que mãe me chamava naquela
hora.
E tudo se acentuou e ficou mais claro, quando a
alguns metros da varanda eu a vi de costas
encoberta pelo caótico desespero de uma fala
entrecortada de gritos, inútil tentativa de
entender por que alguém saiu para não mais
voltar.
O luto expresso em cada rosto, dos meus e dos
que traziam a parcela mínima, mas inesquecível,
do adeus, fazia a coorte daquele momento em que
um destino foi cortado ao meio, mas a faca
incisiva habitava a nossa carne e antecipava um
crepúsculo sem fim.
O leito lá embaixo, nossa atenção imersa nas
linhas tênues dos corpos cravados na serpente
líquida, que seguia seu destino imune à falta de
sentido na vida e no seu fim, reflexos da
transitoriedade de tudo. Passava apressado esse
rio outro, como o ser que era conduzido, tão cedo
fatigado de uma existência e seus anseios de
fabulosa extensão.
E com constrangimento e dor, os que ficaram
não entendiam ainda o sorriso interrompido, a
felicidade interditada por um acidente. A ilha
dentro de nós bloqueando os sonhos, a colher
travada na boca, um filho que nunca soube além
de um horizonte partido, porque engatinhava no
absoluto da existência, buscando no entretempo
de suas convicções todos os tempos de uma vida.
“Uma vida que poderia ter sido e não foi”, como
me confidenciou o poeta sobre as lições dos
aeroportos, das estações de trem, dos terminais
que decretam despedidas, a lógica de não ser
visto, de ser o silêncio, o nada e a invisibilidade
após a curva, tão compulsórios e injustos, porque
maior equívoco não há que drenar um sonho
mancebo na pista criminosa de uma via
desconhecida, onde somos clandestinos num
destino qualquer.
Ali eu morri todas as mortes, e tantas vezes
multiplicada a certeza de sua intangibilidade
naquele séqüito entre a capela e a necrópole. Mas
os espectros que se escalonavam na água
informavam de um entardecer maior em nossas
histórias, véspera de uma noite que não
saberíamos medir, mas que abrigaria suas traições
antes mesmo de o galo cantar.
Aquelas sombras ainda estão me olhando, com
a mesma contemplação de meu irmão quando
semeou seus versos num saco de padaria,
antevendo que o fermento hierático de sua doida
esperança não seria renovado a cada dia, como um
alimento para os que ficaram, porque seu tempo
não admitia disfarces, o café quedaria frio na
xícara numa mesa qualquer da casa, o cão e seu
olhar sem festa para a bicicleta muda ao canto, os
jornais empilhados à espera da entrega, o pé de
amora esquecido pela menina que fazia dele sua
torre de marfim, a desonra do espanto na face de
tantos que regressariam depois de solenizar o
corpo à terra, amalgamada com o húmus de
lágrimas conhecidas ou de prantos espontâneo, as
pernas pânicas de minha mãe procurando apoio, a
primeira derrota em nossa abundante história
familiar, enquanto meu pai despachava seu olhar
para um mundo distante, tentando compreender
o deserto irrecorrível que habita todas as perdas.
Ele não precisava ir embora, muito menos
naquele domingo de sol pálido, esconsos
mistérios e notícias tristes. O céu podia esperar,
porque havia outras urgências a corrigir. Aquelas
sombras ainda vigoram em mim.
Ronaldo Cagiano (São Paulo – SP)
Autor de Dezembro Indigesto,
Dicionário de pequenas
solidões... Este conto pertence ao livro O sol nas feridas.
3
Pesadelo
*José Antonio Pereira
“As almas de nossos ancestrais ainda
latejam em nós dores já esquecidas, quase
como o homem ferido que sente dor na
mão que perdeu” Jules Michelet
Dói-me às costas a chibata do senhor de
escravos
Coronel, major, barão, doutor, mascate...
Pouco importa, sei que era um pereira.
Grande latifundiário, herdeiro de sesmaria,
de capitania...
Hereditário mercador de quinquilharias e
africanos.
Um destes pereiras era senhor de meu
ancestral
O fidalgo “pereira” o fez chegar as terras do
Jequitinhonha
faiscador nos intestinos das minas de
Diamantina.
Ali, quantos negros pereiras brotaram
marcados a ferro,
registrados em cadernetas de feitores,
lançados a termo, garantindo débitos
Todos... Todos propriedade do senhor
pereira
Quantos pereirinhas congaram, choraram,
cantaram
míticos amores, brancos estrupos, lendas e
fé.
Mergulho no passado da estupidez branca
sublevo na senzala o espírito subjugado.
Com a doce alegria ameríndia
expurgarei a fé branca imposta
purgarei o aceite do açoito
libertarei a alma dos grilhões
com os atabaques chorarei as almas mortas.
Assim liberto os futuros pereiras do jugo dos
pereiras de antanho.
*José Antonio Pereira (Cataguases -MG)
O homem sobre rodas
*Emerson Teixeira
Baseado numa idéia de
Fábio Leite de Paula F.
Toda manhã, se faz bom tempo ele lê notícias,
quase novidades de jornais atrasados. Passa
incólume pela seção de crimes sempre pródiga de
casos tenebrosos, passionais, com direito a balas
perdidas; sensações baratas, no fim amenizadas
pelo que recolhe no que vem em alegres tiras
diárias.
Entre baforadas solenes do cigarro que destro faz,
de vez em quando arrisca olhar perscrutador,
abrangendo distancias métricas. Vai esse olhar
encontrar pouso onde grassam eventuais
circunstantes, companheiros ocasionais de
viagens terrenas.
Está lá onde bem se encontra e devidamente
instalado em cadeira de vime, bandeira
desfraldada ao vento e sol na calçada.
Esse velho já foi moleque afoito em função de
engraxate.
Está pensando na possibilidade (remotíssima) de
levar vida diferente: sonha com outras cidades,
mundos regiões continentes. Num é monge
recluso de algum monastério; noutro soldado sem
soldo de outras eras. Poeta guerreiro lançando-se
impávido em nobres causas; herói desconhecido
de uma guerra santa (mais mártir). E já não tem
pensão do governo que lhe garanta o sustento que
inclui entre outras coisas remédios e cigarros?
Missionário cristão metido nas selvas da África,
pirata pagão, esqueleto saxão, arauto, espião (vale
rima)...
Guarda em armário vetusto coisas demais que
zeloso protege de olhos curiosos: são fotos,
medalhas e flâmulas, além de revistas; relíquias
que às vezes toca com gestos sublimes, medidos,
morosos de mãos trêmulas. Exibe cicatrizes que
foram feridas (tem sulcos profundos na alma
hipotética) dentaduras duplas, vista avariada.
Na hora do rush, momento estratégico,sentiu-se
nostálgico.
Mantenham à distancia aquela navalha!
*Emerson Teixeira Cardoso (Cataguases – MG)
4
Soneto burocrático
*José Lino Grünewald
Sálvio melhor juízo doravante,
Dessarte, data vênia, por suposto,
Por outro lado, máxime, isso posto,
Todavia deveras, não obstante
Pelo presente, atenciosamente,
Pede deferimento sobretudo,
Nestes termos, quiçá, aliás, contudo
Cordialmente alhures entrementes
Sub-roga ao alvedrio ou outrossim
Amiúde nesse ínterim, senão
Mediante mormente, Oxalá quão
Via de regra te-lo-ão enfim
Ipso facto outorgado, mas porém
Vem substabelecido assim, amém.
*José Lino Grünewald (Rio de Janeiro RJ 1931-1999)
As feridas abertas de Hélio Fernandes
*Vanderlei Pequeno
Hélio Fernandes da Cunha vai lançar o seu
primeiro livro. Sim, daqueles que têm mais de 49
páginas, sem contar com a capa. Sepukku é o
nome do trabalho onde o autor envereda-se por
assuntos considerados verdadeiros tabus entre a
turba. Hélio diz ter escrito ensaios, mas do lado de
cá, eu li tudo como um romance e dos bons; o
texto é instigante, provocador e, em verdade,
desperta em nós a vontade de chamar o autor
numa conversa franca, de homem pra homem,
bigode a bigode.
O trabalho traz no seu bojo uma profusão de
assuntos polêmicos. Já na primeira orelha,
encontramos o significado da palavra que nomeia
a obra: Seppuku é o termo que designa o ritual
suicida conhecido popularmente como haraquiri.
No Japão, a evisceração por Seppuku –
literalmente, cortar o estômago – constituía um
dos aspectos do código de honra dos samurais.
Para eles, a vida é limitada, mas a honra dura para
sempre. Assim, ao escolher esta forma lenta e
dolorosa de enfrentar o enigma da morte,
mostravam absoluto controle sobre si mesmos,
venciam o medo e resgatavam sua dignidade.
Recorro ao Machado, lá no conto O Alienista,
para tentar explicar e entender a ótica do
personagem criado por Hélio Fernandes. Diz o
Bruxo do Cosme Velho: A razão é o perfeito
equilíbrio de todas as faculdades; fora daí, insânia,
insânia e só insânia. Isso mesmo, expondo à
enésima potência a sua racionalidade, Hélio jogou
nas costas do narrador – e bem - um discurso
pungente, que o tornou capaz de imergir num
enfrentamento a temas tão caros, sem hesitação.
Em Sepukku, o cavalo da razão galopou pesado e
decidido sobre temas como a infidelidade
conjugal, o suicídio, o câncer, o divórcio e, ainda
antes da trajetória final, pisoteou temerário o
terreno pantanoso dos que optam por viver sob a
égide dos mistérios da vida, da não-razão: a
comunicação com os mortos.
Há humor na literatura apresentada por Hélio
Fernandes. Humor que nos desafia, nos chama
para a briga e nos enfia a faca no fígado. É
também, contraditoriamente, o humor cáustico,
quase sarcástico, mas que revela sofrimento.
Quem é esse Hélio Fernandes? Não é o
jornalista famoso na história política de nosso
país, o irmão do Millor Fernandes. O Hélio da vez
é de Astolfo Dutra. Fez seus estudos iniciais no
Colégio Cataguases e depois picou fumo para Belo
Horizonte, onde fez Direito pela Universidade
Católica de Minas. Transitou pelo Banco do Brasil
e encerrou carreira no Banco Central, como
Delegado Adjunto, em Minas Gerais. Para
continuar “vivendo perigosamente”, presta
consultoria a empresas na área de Mercado de
Capitais. Imagino que com o descenso das bolsas e
com o sucesso que certamente fará com a
publicação desse Sepukku, deixará de lado o
pesado mundo do capitalismo e ajudará a
construir mais e melhores almas humanas, através
da produção literária.
O livro, de 207 páginas, é envolvente. Corajoso,
o narrador, no capítulo cinco, discorre sobre a
questão do suicídio de um filho e deixa perpassar
para o leitor a dor do protagonista, diante de seu
agudo sofrimento. Ali, na epígrafe da página 147,
imprime um excerto do Romance A mulher
Desiludida, de Simone de Beauvoir: Se eu tivesse
levantado às sete horas... Se tivesse ido beijá-la
quando cheguei em casa. Mas busca explicar esse
ato humano de pular fora da ponte da vida,
recorrendo a Sócrates, filósofo que foi condenado
a tomar cicuta por não abrir mão de suas idéias,
ou à pretensa dignidade dos japoneses Kamicazes.
Ao mesmo tempo, assume a ferida aberta no peito,
a incisura imune a qualquer possibilidade de cura,
a alma ultrajada, o infortúnio diante de uma
tragédia.
Ao final do romance, o personagem reencontra
o amor, sentimento que havia perdido ao longo de
sua tortuosa caminhada existencial. E o encontro
com a paz acontece no aconchego sereno dos
braços de uma nova mulher e de uma mulher
nova: as duas são uma só! Dito dessa forma,
poderia se imaginar que trato aqui de um livro de
5
final folhetinesco. Não é. Da intimidade de onde
escrevo esse modesto texto, reflito sobre os
perrengues do personagem nas cento e noventa e
seis páginas que precederam a chegada de sua Boa
Nova. Concluo que, intelectualismos à parte, o
bom remédio para as dores da alma é mesmo o
encontro com a companheira que se mostra digna
e capaz de nos amar, tirar-nos dos abismos em que
a própria existência nos empurra. O personagem
de Hélio Fernandes, ou Hélio Fernandes, está feliz
e o merece. Até porque Machado de Assis – Ele de
novo!- já nos avisou:
- Nenhuma dor é eterna.
*Vanderlei Pequeno (Cataguases – MG)
Construção
*Dagmar Braga
Lanhada a pedra,
faço-me fio,
partilho, rasgo
entranha e estranho.
Quebrado o leme,
desoriento,
acolho vento,
maré e abismo.
Cavado o poço,
torno-me água,
mão retorcida,
lisura e barro.
Feito o silêncio,
asso a palavra -
gume sequioso
de outra navalha.
*Dagmar de Oliveira Braga (Belo Horizonte -MG)
Antologia ME18 Mulheres Emergentes
Um frame além da música
*Zeca Junqueira
Durante esse ano de 2008, que vai
terminando (e já vai tarde, xô!), eu bati várias
vezes na mesma tecla no jornal “Cataguases”
escrevendo em defesa de uma Arte, se não
autêntica - pois autêntica, em última análise, é até
mesmo a fraude (o mundo admite) – eu cutuquei a
mesma tecla, repito, em defesa de uma Arte
quente e briguenta nesses tempos de desistência
em que algo assim é déjà vu.
Questionei o tempo todo: o que nos move além da
satisfação em ver um livro redondinho editado,
como o “Ilha do Horizonte”, do Vanderlei
Pequeno, ou o “Sepukku”, do Hélio Fernandes,
que promete? O que nos move além do prazer de
uma peça nossa finalmente encenada no palco,
como a lírica “Soninha Diamante”, de uma música
composta estourando nas paradas de sucesso, o
que nos move afinal, o que nos inquieta a tal
ponto que nos leva ensandecidos às palavras, às
tintas, à música, ao espasmo, ao grito?
De minha parte, o que me leva a tanto fazer é a
busca declarada da salvação, de alguma forma; e
em nenhum momento me sinto só, em nenhum
momento temo a simplicidade da minha escrita,
nem a sua “dureza de algodão”, as suas falhas,
desde que o sentimento aflore (e reflore), em
nenhum momento hesito por desconfiar que ando
no caminho errado; então, nele prossigo.
Há um ponto além da poesia, um tom além da
tela, um frame além da música que acena pra mim,
que baila pra mim, e pra ele eu me dirijo. Como
Jim Morrison, que ainda não levei ao palco (mas o
farei!), como tantos outros visionários...
Confiram dois depoimentos magistrais que falam
disso, quero dividi-los ardentemente com vocês,
poetas, escritores, amigos, carpinteiros do
universo: o primeiro é do crítico musical Harvey
Perr, em matéria para o Los Angeles Free Press, no
final dos anos 60 sobre a banda the doors. O
segundo é do próprio Morrison, líder dos doors, à
mesma época. Ambos falam dessa Arte que dança,
e dança, e dança...
Harvey Perr: “Não tenho a inteira certeza que a
minha admiração pelos doors tenha alguma coisa
a ver com a sua música. Alguns deles são
reconhecidamente fracos, mas considero com que
o grau com que se entregam à simplicidade é mais
admiravelmente expressivo do que o grau com que
outros artistas menores evitam conscientemente a
simplicidade. Parece-me que se algum grupo
atingiu verdadeiras perfeições poéticas, devia se
beneficiar do luxo de cometer grande erros...é
como a poesia de Morrison: a maior parte dela é o
trabalho de um poeta genuíno, um Whitman dos
revolucionários anos 60, mas alguma é
embaraçosamente imatura. Não é um crime ir de
um extremo artístico ao outro. São, afinal, falhas
humanas, e não existe arte se não existir
humanidade. Mas, repito, não é, de qualquer
modo, nem a sua música e talvez nem mesmo a
sua poesia que me fez admirar os doors. Ao
contrário, são as vibrações que deles recebo por
causa do lugar onde sinto que estão tentando
entrar e fazer-nos entrar, um mundo que
transcende o mundo limitado do rock e que se
6
movimenta em áreas cinematográficas, teatrais e
revolucionárias...Esse tipo de pessoa (Jim
Morrison) não tem que ter poesia dentro dela,
mas se a tem, quando a faz, devemos olhar para
ela mais cautelosamente, levá-la mais a sério. No
caso de Jim Morrison e os doors, a agitação vale a
pena. Aproximaram-se da Arte, não importando
quanto ofenderam, divertiram ou mesmo
excitaram os críticos de rock. Os padrões pelos
quais a sua Arte deve ser medida são mais antigos
e muito mais profundos”
Jim Morrison: “A sensualidade e o pecado são hoje
uma imagem atraente para nós, mas penso nela
como uma pele de cobra que um dia será mudada.
O nosso trabalho, a nossa atuação, são uma luta
pela metamorfose. Agora estou mais interessado
no lado sombrio da vida, no pecado, na face
escondida da lua, na noite. Mas na nossa música
parece-me que estamos a procurar, a lutar, a
tentar atravessar para um reino mais limpo, mais
livre. É como um ritual de purificação em sentido
alquímico. A nossa música e as nossas
personalidades vistas no espetáculo estão ainda
num estado de caos e desordem, mas talvez já
tenham um incipiente elemento de uma qualquer
espécie de pureza inicial”.
*Zeca Junqueira (Rio de Janeiro-RJ) jornalista e
poeta
À Vida
Marina Tsietáieva
Por Haroldo de Campos
Não roubarás minha cor
Vermelha, de rio que estua.
Sou recusa: és caçador.
Persegues: eu sou a fuga.
Não dou minha alma cativa!
Colhido em pleno disparo,
Curva o pescoço o cavalo
Árabe -
E abre a veia da vida.
1924
Está na orelha do “A Ilha do
Horizonte”
José Antonio Pereira
Vanderlei Pequeno, um militante antigo da
música brasileira, onde a história humana é
contada e cantada em versos, transborda sua
criatividade nestas crônicas, para nos contar o que
não coube nos versos.
Coloca-nos, mais uma vez, diante da perspectiva
antropológica da cidade e com humor fino e a
sagacidade dos quixotistas - aqueles que nunca
desistem dos sonhos - vai resgatando a memória
de sua gente.
Memória esta, em que as pessoas são artífices e
protagonistas, não como aquela coisa cronológica
e chata dos compêndios escolares. Algumas,
enquanto ainda corriam soltas na oralidade, eu
conheci, em várias versões, ora no Chuá ora no
“calor da luta” no bar do Goiaba, onde nosso autor
ainda as traquinava.
Ver Dalmo Diogo, Beijinho, nas páginas de um
livro ao lado de Mazinho Bernardes, Chiquinho da
Real, Matozinho, é ver parte do que vivi e
presenciei ganhar registro definitivo.
O “Ilha do Horizonte” já sinaliza, que lá na frente
vêm mais novidades. Ou você duvida que
Vanderlei voltará para nos contar os casos do
pescador, que ainda menino, conheci lá na porta
do bar Pingüim com um baita dourado pendurado
numa embira?
Isto se Horizonte, o pescador, não couber numa
música.
Leiam os livros da Cataletras:
“A Casa da rua Alferes e outras crônicas”
dos autores: Emerson Teixeira Cardoso, José
Antonio Pereira, José Vecchi de Carvalho e
Vanderlei Pequeno.
“A Ilha do Horizonte” de Vanderlei
Pequeno – Reunião de crônicas publicadas
em vários jornais desde de 2002.
Se você quer adquirir entre em contato
conosco:
chicos.cataletras@hotmail.com
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Chicos 19 janeiro 2009

  • 1. C h i c o s 1 9 Janeiro 2009 Veja a nossa poesia em: http://chicoscataletras.blogspot.com/ Fale conosco: chicos.cataletras@hotmail.com
  • 2. Um dedim de prosa Estamos tristes neste início de 2009. Nós que tanto gostamos de livros, assistimos a mais uma explosão de violência na terra, onde homens e suas crenças deveriam coabitar guiados pelos seus livros: alcorão, bíblia e tora. Trocaram os livros pelas armas. E a fé, trocaram-na por o quê? Por repudio transcrevemos um texto de José Saramago que fala de Gaza e como bem o diz Zeca Junqueira: “Os israelenses parecem James Bond. Têm licença para matar.” Este também é o ano do centenário de nascimento de Francisco Inácio Peixoto. Como ele é entre os Chicos um dos maiorais. Vamos homenageá-lo ao longo do ano. Os Chicos Gaza José Saramago A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registradas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os caminhões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente actualizado. Pedra *Francisco Cabral Escrevemos porque sabemos que vamos morrer. Escrevemos porque não sabemos por quê. *Francisco Marcelo Cabral (Rio de Janeiro – RJ) Autor de O Centauro, Inexílio, Baile de Câmara e Poema em 3Cantos reunidos no Livro de poemas (2003) e Cidade Interior (2007) Pedreira *Francisco Inácio Peixoto Dependurados no espaço Eles ficam ali o dia inteiro Arrancando faíscas Furando buracos na pedreira enorme Que reflete como um espelho As suas sombras primitivas. À tarde ouve-se um estrondo E o eco repete a gargalhada das pedras Que vieram rolando da montanha. Os homens de pele tostada Descem então dos seus esconderijos E caminham pras suas casas Vagarosamente decepcionados Segurando nas mãos cheias de calos As ferramentas com que procuram Há uma porção de anos O segredo que lhes dê Uma nova revelação da vida... *Francisco Inácio Peixoto (05.04. 1909 – 08.01.1986) Autor de Meia Pataca, com Guilhermino César - Dona Flor, Passaporte proibido, A janela e Chamada geral
  • 3. Sombras *Ronaldo Cagiano Da morte, só sabia ele o que todos sabem: que ela nos toma e nos atira no silêncio. Rainer Maria Rilke à memória de Elierme André Agora eu sei que aquilo se chamava partida: as silhuetas que eu via nas águas do rio Pomba quando cruzei a ponte velha levando meu irmão à última morada. Era uma caminhada sem sentido, o rosto grave das pessoas, o silêncio dizendo tudo, a solenidade nos gestos e olhares, e a gente, saturados de inconformidade, realizando um trajeto que nunca escolheu. Eu não me esqueço de como badalava em mim o poema de João Cabral: “este rio/ está memória/ como um cão vivo/ dentro da sala”. Uma sentença que me lembraria para sempre o dia mais longo de nossas vidas, que se confundiam com a que ali seguia, inerme, diante da inexorabilidade da indesejada das gentes. As Parcas, mas uma vez, deram as cartas e de forma alguma eu conseguia entender de que barro somos feitos. Quanto de mim seguia junto com aquele féretro. A sensação de desconforto íntimo começou quando o caçula foi me buscar ao sopé do Morro do João Peixe e eu tive que interromper o jogo de amarelinha e descer correndo os paralelepípedos da Granjaria, em meio à fita de cetim da sapatilha que, desamarrada, bailarinava ao vento, num balé confuso, tão perdida como eu no burburinho de pensamentos sinistros e difusos que me acompanhariam até em casa, onde cheguei sem saber ao certo por que mãe me chamava naquela hora. E tudo se acentuou e ficou mais claro, quando a alguns metros da varanda eu a vi de costas encoberta pelo caótico desespero de uma fala entrecortada de gritos, inútil tentativa de entender por que alguém saiu para não mais voltar. O luto expresso em cada rosto, dos meus e dos que traziam a parcela mínima, mas inesquecível, do adeus, fazia a coorte daquele momento em que um destino foi cortado ao meio, mas a faca incisiva habitava a nossa carne e antecipava um crepúsculo sem fim. O leito lá embaixo, nossa atenção imersa nas linhas tênues dos corpos cravados na serpente líquida, que seguia seu destino imune à falta de sentido na vida e no seu fim, reflexos da transitoriedade de tudo. Passava apressado esse rio outro, como o ser que era conduzido, tão cedo fatigado de uma existência e seus anseios de fabulosa extensão. E com constrangimento e dor, os que ficaram não entendiam ainda o sorriso interrompido, a felicidade interditada por um acidente. A ilha dentro de nós bloqueando os sonhos, a colher travada na boca, um filho que nunca soube além de um horizonte partido, porque engatinhava no absoluto da existência, buscando no entretempo de suas convicções todos os tempos de uma vida. “Uma vida que poderia ter sido e não foi”, como me confidenciou o poeta sobre as lições dos aeroportos, das estações de trem, dos terminais que decretam despedidas, a lógica de não ser visto, de ser o silêncio, o nada e a invisibilidade após a curva, tão compulsórios e injustos, porque maior equívoco não há que drenar um sonho mancebo na pista criminosa de uma via desconhecida, onde somos clandestinos num destino qualquer. Ali eu morri todas as mortes, e tantas vezes multiplicada a certeza de sua intangibilidade naquele séqüito entre a capela e a necrópole. Mas os espectros que se escalonavam na água informavam de um entardecer maior em nossas histórias, véspera de uma noite que não saberíamos medir, mas que abrigaria suas traições antes mesmo de o galo cantar. Aquelas sombras ainda estão me olhando, com a mesma contemplação de meu irmão quando semeou seus versos num saco de padaria, antevendo que o fermento hierático de sua doida esperança não seria renovado a cada dia, como um alimento para os que ficaram, porque seu tempo não admitia disfarces, o café quedaria frio na xícara numa mesa qualquer da casa, o cão e seu olhar sem festa para a bicicleta muda ao canto, os jornais empilhados à espera da entrega, o pé de amora esquecido pela menina que fazia dele sua torre de marfim, a desonra do espanto na face de tantos que regressariam depois de solenizar o corpo à terra, amalgamada com o húmus de lágrimas conhecidas ou de prantos espontâneo, as pernas pânicas de minha mãe procurando apoio, a primeira derrota em nossa abundante história familiar, enquanto meu pai despachava seu olhar para um mundo distante, tentando compreender o deserto irrecorrível que habita todas as perdas. Ele não precisava ir embora, muito menos naquele domingo de sol pálido, esconsos mistérios e notícias tristes. O céu podia esperar, porque havia outras urgências a corrigir. Aquelas sombras ainda vigoram em mim. Ronaldo Cagiano (São Paulo – SP) Autor de Dezembro Indigesto, Dicionário de pequenas solidões... Este conto pertence ao livro O sol nas feridas. 3
  • 4. Pesadelo *José Antonio Pereira “As almas de nossos ancestrais ainda latejam em nós dores já esquecidas, quase como o homem ferido que sente dor na mão que perdeu” Jules Michelet Dói-me às costas a chibata do senhor de escravos Coronel, major, barão, doutor, mascate... Pouco importa, sei que era um pereira. Grande latifundiário, herdeiro de sesmaria, de capitania... Hereditário mercador de quinquilharias e africanos. Um destes pereiras era senhor de meu ancestral O fidalgo “pereira” o fez chegar as terras do Jequitinhonha faiscador nos intestinos das minas de Diamantina. Ali, quantos negros pereiras brotaram marcados a ferro, registrados em cadernetas de feitores, lançados a termo, garantindo débitos Todos... Todos propriedade do senhor pereira Quantos pereirinhas congaram, choraram, cantaram míticos amores, brancos estrupos, lendas e fé. Mergulho no passado da estupidez branca sublevo na senzala o espírito subjugado. Com a doce alegria ameríndia expurgarei a fé branca imposta purgarei o aceite do açoito libertarei a alma dos grilhões com os atabaques chorarei as almas mortas. Assim liberto os futuros pereiras do jugo dos pereiras de antanho. *José Antonio Pereira (Cataguases -MG) O homem sobre rodas *Emerson Teixeira Baseado numa idéia de Fábio Leite de Paula F. Toda manhã, se faz bom tempo ele lê notícias, quase novidades de jornais atrasados. Passa incólume pela seção de crimes sempre pródiga de casos tenebrosos, passionais, com direito a balas perdidas; sensações baratas, no fim amenizadas pelo que recolhe no que vem em alegres tiras diárias. Entre baforadas solenes do cigarro que destro faz, de vez em quando arrisca olhar perscrutador, abrangendo distancias métricas. Vai esse olhar encontrar pouso onde grassam eventuais circunstantes, companheiros ocasionais de viagens terrenas. Está lá onde bem se encontra e devidamente instalado em cadeira de vime, bandeira desfraldada ao vento e sol na calçada. Esse velho já foi moleque afoito em função de engraxate. Está pensando na possibilidade (remotíssima) de levar vida diferente: sonha com outras cidades, mundos regiões continentes. Num é monge recluso de algum monastério; noutro soldado sem soldo de outras eras. Poeta guerreiro lançando-se impávido em nobres causas; herói desconhecido de uma guerra santa (mais mártir). E já não tem pensão do governo que lhe garanta o sustento que inclui entre outras coisas remédios e cigarros? Missionário cristão metido nas selvas da África, pirata pagão, esqueleto saxão, arauto, espião (vale rima)... Guarda em armário vetusto coisas demais que zeloso protege de olhos curiosos: são fotos, medalhas e flâmulas, além de revistas; relíquias que às vezes toca com gestos sublimes, medidos, morosos de mãos trêmulas. Exibe cicatrizes que foram feridas (tem sulcos profundos na alma hipotética) dentaduras duplas, vista avariada. Na hora do rush, momento estratégico,sentiu-se nostálgico. Mantenham à distancia aquela navalha! *Emerson Teixeira Cardoso (Cataguases – MG) 4
  • 5. Soneto burocrático *José Lino Grünewald Sálvio melhor juízo doravante, Dessarte, data vênia, por suposto, Por outro lado, máxime, isso posto, Todavia deveras, não obstante Pelo presente, atenciosamente, Pede deferimento sobretudo, Nestes termos, quiçá, aliás, contudo Cordialmente alhures entrementes Sub-roga ao alvedrio ou outrossim Amiúde nesse ínterim, senão Mediante mormente, Oxalá quão Via de regra te-lo-ão enfim Ipso facto outorgado, mas porém Vem substabelecido assim, amém. *José Lino Grünewald (Rio de Janeiro RJ 1931-1999) As feridas abertas de Hélio Fernandes *Vanderlei Pequeno Hélio Fernandes da Cunha vai lançar o seu primeiro livro. Sim, daqueles que têm mais de 49 páginas, sem contar com a capa. Sepukku é o nome do trabalho onde o autor envereda-se por assuntos considerados verdadeiros tabus entre a turba. Hélio diz ter escrito ensaios, mas do lado de cá, eu li tudo como um romance e dos bons; o texto é instigante, provocador e, em verdade, desperta em nós a vontade de chamar o autor numa conversa franca, de homem pra homem, bigode a bigode. O trabalho traz no seu bojo uma profusão de assuntos polêmicos. Já na primeira orelha, encontramos o significado da palavra que nomeia a obra: Seppuku é o termo que designa o ritual suicida conhecido popularmente como haraquiri. No Japão, a evisceração por Seppuku – literalmente, cortar o estômago – constituía um dos aspectos do código de honra dos samurais. Para eles, a vida é limitada, mas a honra dura para sempre. Assim, ao escolher esta forma lenta e dolorosa de enfrentar o enigma da morte, mostravam absoluto controle sobre si mesmos, venciam o medo e resgatavam sua dignidade. Recorro ao Machado, lá no conto O Alienista, para tentar explicar e entender a ótica do personagem criado por Hélio Fernandes. Diz o Bruxo do Cosme Velho: A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí, insânia, insânia e só insânia. Isso mesmo, expondo à enésima potência a sua racionalidade, Hélio jogou nas costas do narrador – e bem - um discurso pungente, que o tornou capaz de imergir num enfrentamento a temas tão caros, sem hesitação. Em Sepukku, o cavalo da razão galopou pesado e decidido sobre temas como a infidelidade conjugal, o suicídio, o câncer, o divórcio e, ainda antes da trajetória final, pisoteou temerário o terreno pantanoso dos que optam por viver sob a égide dos mistérios da vida, da não-razão: a comunicação com os mortos. Há humor na literatura apresentada por Hélio Fernandes. Humor que nos desafia, nos chama para a briga e nos enfia a faca no fígado. É também, contraditoriamente, o humor cáustico, quase sarcástico, mas que revela sofrimento. Quem é esse Hélio Fernandes? Não é o jornalista famoso na história política de nosso país, o irmão do Millor Fernandes. O Hélio da vez é de Astolfo Dutra. Fez seus estudos iniciais no Colégio Cataguases e depois picou fumo para Belo Horizonte, onde fez Direito pela Universidade Católica de Minas. Transitou pelo Banco do Brasil e encerrou carreira no Banco Central, como Delegado Adjunto, em Minas Gerais. Para continuar “vivendo perigosamente”, presta consultoria a empresas na área de Mercado de Capitais. Imagino que com o descenso das bolsas e com o sucesso que certamente fará com a publicação desse Sepukku, deixará de lado o pesado mundo do capitalismo e ajudará a construir mais e melhores almas humanas, através da produção literária. O livro, de 207 páginas, é envolvente. Corajoso, o narrador, no capítulo cinco, discorre sobre a questão do suicídio de um filho e deixa perpassar para o leitor a dor do protagonista, diante de seu agudo sofrimento. Ali, na epígrafe da página 147, imprime um excerto do Romance A mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir: Se eu tivesse levantado às sete horas... Se tivesse ido beijá-la quando cheguei em casa. Mas busca explicar esse ato humano de pular fora da ponte da vida, recorrendo a Sócrates, filósofo que foi condenado a tomar cicuta por não abrir mão de suas idéias, ou à pretensa dignidade dos japoneses Kamicazes. Ao mesmo tempo, assume a ferida aberta no peito, a incisura imune a qualquer possibilidade de cura, a alma ultrajada, o infortúnio diante de uma tragédia. Ao final do romance, o personagem reencontra o amor, sentimento que havia perdido ao longo de sua tortuosa caminhada existencial. E o encontro com a paz acontece no aconchego sereno dos braços de uma nova mulher e de uma mulher nova: as duas são uma só! Dito dessa forma, poderia se imaginar que trato aqui de um livro de 5
  • 6. final folhetinesco. Não é. Da intimidade de onde escrevo esse modesto texto, reflito sobre os perrengues do personagem nas cento e noventa e seis páginas que precederam a chegada de sua Boa Nova. Concluo que, intelectualismos à parte, o bom remédio para as dores da alma é mesmo o encontro com a companheira que se mostra digna e capaz de nos amar, tirar-nos dos abismos em que a própria existência nos empurra. O personagem de Hélio Fernandes, ou Hélio Fernandes, está feliz e o merece. Até porque Machado de Assis – Ele de novo!- já nos avisou: - Nenhuma dor é eterna. *Vanderlei Pequeno (Cataguases – MG) Construção *Dagmar Braga Lanhada a pedra, faço-me fio, partilho, rasgo entranha e estranho. Quebrado o leme, desoriento, acolho vento, maré e abismo. Cavado o poço, torno-me água, mão retorcida, lisura e barro. Feito o silêncio, asso a palavra - gume sequioso de outra navalha. *Dagmar de Oliveira Braga (Belo Horizonte -MG) Antologia ME18 Mulheres Emergentes Um frame além da música *Zeca Junqueira Durante esse ano de 2008, que vai terminando (e já vai tarde, xô!), eu bati várias vezes na mesma tecla no jornal “Cataguases” escrevendo em defesa de uma Arte, se não autêntica - pois autêntica, em última análise, é até mesmo a fraude (o mundo admite) – eu cutuquei a mesma tecla, repito, em defesa de uma Arte quente e briguenta nesses tempos de desistência em que algo assim é déjà vu. Questionei o tempo todo: o que nos move além da satisfação em ver um livro redondinho editado, como o “Ilha do Horizonte”, do Vanderlei Pequeno, ou o “Sepukku”, do Hélio Fernandes, que promete? O que nos move além do prazer de uma peça nossa finalmente encenada no palco, como a lírica “Soninha Diamante”, de uma música composta estourando nas paradas de sucesso, o que nos move afinal, o que nos inquieta a tal ponto que nos leva ensandecidos às palavras, às tintas, à música, ao espasmo, ao grito? De minha parte, o que me leva a tanto fazer é a busca declarada da salvação, de alguma forma; e em nenhum momento me sinto só, em nenhum momento temo a simplicidade da minha escrita, nem a sua “dureza de algodão”, as suas falhas, desde que o sentimento aflore (e reflore), em nenhum momento hesito por desconfiar que ando no caminho errado; então, nele prossigo. Há um ponto além da poesia, um tom além da tela, um frame além da música que acena pra mim, que baila pra mim, e pra ele eu me dirijo. Como Jim Morrison, que ainda não levei ao palco (mas o farei!), como tantos outros visionários... Confiram dois depoimentos magistrais que falam disso, quero dividi-los ardentemente com vocês, poetas, escritores, amigos, carpinteiros do universo: o primeiro é do crítico musical Harvey Perr, em matéria para o Los Angeles Free Press, no final dos anos 60 sobre a banda the doors. O segundo é do próprio Morrison, líder dos doors, à mesma época. Ambos falam dessa Arte que dança, e dança, e dança... Harvey Perr: “Não tenho a inteira certeza que a minha admiração pelos doors tenha alguma coisa a ver com a sua música. Alguns deles são reconhecidamente fracos, mas considero com que o grau com que se entregam à simplicidade é mais admiravelmente expressivo do que o grau com que outros artistas menores evitam conscientemente a simplicidade. Parece-me que se algum grupo atingiu verdadeiras perfeições poéticas, devia se beneficiar do luxo de cometer grande erros...é como a poesia de Morrison: a maior parte dela é o trabalho de um poeta genuíno, um Whitman dos revolucionários anos 60, mas alguma é embaraçosamente imatura. Não é um crime ir de um extremo artístico ao outro. São, afinal, falhas humanas, e não existe arte se não existir humanidade. Mas, repito, não é, de qualquer modo, nem a sua música e talvez nem mesmo a sua poesia que me fez admirar os doors. Ao contrário, são as vibrações que deles recebo por causa do lugar onde sinto que estão tentando entrar e fazer-nos entrar, um mundo que transcende o mundo limitado do rock e que se 6
  • 7. movimenta em áreas cinematográficas, teatrais e revolucionárias...Esse tipo de pessoa (Jim Morrison) não tem que ter poesia dentro dela, mas se a tem, quando a faz, devemos olhar para ela mais cautelosamente, levá-la mais a sério. No caso de Jim Morrison e os doors, a agitação vale a pena. Aproximaram-se da Arte, não importando quanto ofenderam, divertiram ou mesmo excitaram os críticos de rock. Os padrões pelos quais a sua Arte deve ser medida são mais antigos e muito mais profundos” Jim Morrison: “A sensualidade e o pecado são hoje uma imagem atraente para nós, mas penso nela como uma pele de cobra que um dia será mudada. O nosso trabalho, a nossa atuação, são uma luta pela metamorfose. Agora estou mais interessado no lado sombrio da vida, no pecado, na face escondida da lua, na noite. Mas na nossa música parece-me que estamos a procurar, a lutar, a tentar atravessar para um reino mais limpo, mais livre. É como um ritual de purificação em sentido alquímico. A nossa música e as nossas personalidades vistas no espetáculo estão ainda num estado de caos e desordem, mas talvez já tenham um incipiente elemento de uma qualquer espécie de pureza inicial”. *Zeca Junqueira (Rio de Janeiro-RJ) jornalista e poeta À Vida Marina Tsietáieva Por Haroldo de Campos Não roubarás minha cor Vermelha, de rio que estua. Sou recusa: és caçador. Persegues: eu sou a fuga. Não dou minha alma cativa! Colhido em pleno disparo, Curva o pescoço o cavalo Árabe - E abre a veia da vida. 1924 Está na orelha do “A Ilha do Horizonte” José Antonio Pereira Vanderlei Pequeno, um militante antigo da música brasileira, onde a história humana é contada e cantada em versos, transborda sua criatividade nestas crônicas, para nos contar o que não coube nos versos. Coloca-nos, mais uma vez, diante da perspectiva antropológica da cidade e com humor fino e a sagacidade dos quixotistas - aqueles que nunca desistem dos sonhos - vai resgatando a memória de sua gente. Memória esta, em que as pessoas são artífices e protagonistas, não como aquela coisa cronológica e chata dos compêndios escolares. Algumas, enquanto ainda corriam soltas na oralidade, eu conheci, em várias versões, ora no Chuá ora no “calor da luta” no bar do Goiaba, onde nosso autor ainda as traquinava. Ver Dalmo Diogo, Beijinho, nas páginas de um livro ao lado de Mazinho Bernardes, Chiquinho da Real, Matozinho, é ver parte do que vivi e presenciei ganhar registro definitivo. O “Ilha do Horizonte” já sinaliza, que lá na frente vêm mais novidades. Ou você duvida que Vanderlei voltará para nos contar os casos do pescador, que ainda menino, conheci lá na porta do bar Pingüim com um baita dourado pendurado numa embira? Isto se Horizonte, o pescador, não couber numa música. Leiam os livros da Cataletras: “A Casa da rua Alferes e outras crônicas” dos autores: Emerson Teixeira Cardoso, José Antonio Pereira, José Vecchi de Carvalho e Vanderlei Pequeno. “A Ilha do Horizonte” de Vanderlei Pequeno – Reunião de crônicas publicadas em vários jornais desde de 2002. Se você quer adquirir entre em contato conosco: chicos.cataletras@hotmail.com 7