SEGUNDA GERAÇÃO MODERNISTA1930
Momento 				Histórico
Crise de 1929Grande depressão
Revolução de 30Greves operáriasNova Constituição brasileiraEstado NovoSegunda Guerra Mundial
Grandes Ditadores
A noite dissolve os homensCarlos Drummond de AndradeAurora, entretanto eu te diviso,ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascendere dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes,vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedosHavemos de amanhecer.O mundo se tinge com as tintas da antemanhãe o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora. A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite caiu. Tremenda, sem esperança...E o amor não abre caminho na noite.a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...Os suicidas tinham razão.
O pensamento de 30UniversalismoPsicanáliseMarxismo
Literatura mais construtiva, mais politizada eDenúncia Social ao lado de Espiritualismo e Intimismo
QuadrilhaCarlos Drummond de AndradeIRREVERÊNCIAMODERNISTA         João amava Teresa que amava Raimundo         que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili         que não amava ninguém.         João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,         Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,         Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes         que não tinha entrado na história.POEMA PIADA
A Poesia de 30Cultivo tanto dos versos brancos e livres como das formas tradicionais, como o soneto.
Encara a poesia como instrumento de luta
Poesia de tensão ideológica
O humor, a ironia, a captura do cotidiano
verso livre e linguagem coloquial
obra de estréia: “Alguma Poesia” (1930)Carlos Drummond de Andrade
Poema de sete facesQuando nasci, um anjo tortodesses que vivem na sombradisse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homensque correm atrás de mulheres.A tarde talvez fosse azul,não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas:pernas brancas pretas amarelas.Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.Porém meus olhosnão perguntam nada.GAUCHE: ESTRANHO, ESQUERDO, O EU E O COTIDIANO
O homem atrás do bigodeé sério, simples e forte.Quase não conversa.Tem poucos , raros amigoso homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonastese sabias que eu não era Deusse sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundose eu me chamasse Raimundo,seria uma rima, não seria uma solução.Mundo mundo vasto mundo,mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizermas essa luamas esse conhaquebotam a gente comovido como o diabo.EU X MUNDO
TemáticaUne o Confessional ao UniversalA infância
Medo e a perplexidade
 As incertezas
 A revolta e a náusea
A guerra
 Indignação
problemática socialSentimento do MundoQuando os corpos passarem,eu ficarei sozinhodesfiando a recordaçãodo sineiro, da viúva e do microscopistaque habitavam a barracae não foram encontradosao amanheceresse amanhecermais noite que a noite.Tenho apenas duas mãose o sentimento do mundo,mas estou cheio de escravos,minhas lembranças escorreme o corpo transigena confluência do amor.Quando me levantar, o céuestará morto e saqueado,eu mesmo estarei morto,morto meu desejo, mortoo pântano sem acordes.Os camaradas não disseramque havia uma guerrae era necessáriotrazer fogo e alimento.Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,humildemente vos peçoque me perdoeis.
Agente transformadorMãos DadasNão serei o poeta de um mundo caduco.Também não cantarei o mundo futuro.Estou preso à vida e olho meus companheirosEstão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.Entre eles, considere a enorme realidade.O presente é tão grande, não nos afastemos.Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.O tempo é a minha matéria, o tempo presente, 	os homens presentes, a vida presente.
O cotidiano em DrummondPoema que aconteceuNenhum desejo neste domingonenhum problema nesta vidao mundo parou de repenteos homens ficaram caladosdomingo sem fim nem começo.A mão que escreve este poemanão sabe o que está escrevendomas é possível que se soubessenem ligasse.
José	E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, Você?Você que é sem nome,que zomba dos outros,Você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José?Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não veio,não veio a utopiae tudo acaboue tudo fugiue tudo mofou,e agora, José?E agora, José?sua doce palavra,seu instante de febre,sua gula e jejum,sua biblioteca,sua lavra de ouro,seu terno de vidro,sua incoerência,seu ódio, - e agora?
Com a chave na mão quer abrir a porta,não existe porta;quer morrer no mar,mas o mar secou;quer ir para Minas,Minas não há mais.José, e agora?Se você gritasse,se você gemesse,se você tocasse,a valsa vienense,se você dormisse,se você consasse,se você morresse....Mas você não morre,você é duro, José!Sozinho no escuroqual bicho-do-mato,sem teogonia,sem parede nuapara se encostar,sem cavalo pretoque fuja do galope,você marcha, José!José, para onde?
Morte do Leiteiro	Há pouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.Há muita sede no país,é preciso entregá-lo cedo.Há no país uma legenda,que ladrão se mata com tiro.Então o moço que é leiteirode madrugada com sua latasai correndo e distribuindoleite bom para gente ruim.Sua lata, suas garrafase seus sapatos de borrachavão dizendo aos homens no sonoque alguém acordou cedinhoe veio do último subúrbiotrazer o leite mais frio	e mais alvo da melhor vacapara todos criarem forçana luta brava da cidade.	Na mão a garrafa brancanão tem tempo de dizer	as coisas que lhe atribuonem o moço leiteiro ignaro,morados na Rua Namur,empregado no entreposto,com 21 anos de idade,sabe lá o que seja impulsode humana compreensão.E já que tem pressa, o corpovai deixando à beira das casasuma apenas mercadoria.
	E como a porta dos fundostambém escondesse genteque aspira ao pouco de leitedisponível em nosso tempo,avancemos por esse beco,peguemos o corredor,depositemos o litro...Sem fazer barulho, é claro,que barulho nada resolve.Meu leiteiro tão sutilde passo maneiro e leve,antes desliza que marcha.É certo que algum rumorsempre se faz: passo errado,vaso de flor no caminho,cão latindo por princípio,ou um gato quizilento.	E há sempre um senhor que acorda,resmunga e torna a dormir.	Mas este acordou em pânico(ladrões infestam o bairro),não quis saber de mais nada.O revólver da gavetasaltou para sua mão.Ladrão? se pega com tiro.Os tiros na madrugadaliquidaram meu leiteiro.Se era noivo, se era virgem,se era alegre, se era bom,não sei,é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sonode todo, e foge pra rua.Meu Deus, matei um inocente.Bala que mata gatunotambém serve pra furtara vida de nosso irmão.Quem quiser que chame médico,polícia não bota a mãoneste filho de meu pai.Está salva a propriedade.A noite geral prossegue,a manhã custa a chegar,mas o leiteiroestatelado, ao relento,perdeu a pressa que tinha.Da garrafa estilhaçada,no ladrilho já serenoescorre uma coisa espessaque é leite, sangue... não sei.Por entre objetos confusos,mal redimidos da noite,	duas cores se procuram,suavemente se tocam,amorosamente se enlaçam,formando um terceiro toma que chamamos aurora.
Uma Aula Sobre Poesia
Procura da poesiaNão faças versos sobre acontecimentos.Não há criação nem morte perante a poesia.Diante dela, a vida é um sol estático,não aquece nem ilumina.As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.Não faças poesia com o corpo,esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escurosão indiferentes.Nem me reveles teus sentimentos,que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.O canto não é a naturezanem os homens em sociedade.Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)elide sujeito e objeto.Não dramatizes, não invoques,não indagues. Não percas tempo em mentir.Não te aborreças.Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de famíliadesaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.Não recomponhastua sepultada e merencória infância.Não osciles entre o espelho e amemória em dissipação.Que se dissipou, não era poesia.Que se partiu, cristal não era.Penetra surdamente no reino das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos.Estão paralisados, mas não há desespero,há calma e frescura na superfície intata.Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consumecom seu poder de palavrae seu poder de silêncio.Não forces o poema a desprender-se do limbo.Não colhas no chão o poema que se perdeu.Não adules o poema. Aceita-ocomo ele aceitará sua forma definitiva e concentradano espaço.Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?Repara:ermas de melodia e conceitoelas se refugiaram na noite, as palavras.Ainda úmidas e impregnadas de sono,rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Cecília Meireles“A vida só é possível reinventada”
 “A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”.
Motivo	Eu canto porque o instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento.Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se ficoou passo.Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo:— mais nada.
 Seus temas e sua poética: silêncio, solidão, fuga , fluidez, melancolia, serenidadeRepresentante mais característica da vertente espiritualista ou intimista do Modernismo.
RetratoEu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas;eu não tinha este coraçãoque nem se mostra.Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:— Em que espelho ficou perdidaa minha face?
Marcha As ordens da madrugada romperam por sobre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebraram as formas do sono com a ideia do movimento.  Vamos a passo e de longe; entre nos dois anda o mundo, com alguns vivos pela tona, com alguns mortos pelo fundo.  As aves trazem mentiras de países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, mais minha duvida aumento.  Também não pretendo nada senão ir andando a toa, como um numero que se arma e em seguida se esboroa, -- e cair no mesmo poço de inércia e de esquecimento, onde o fim do tempo soma pedras, aguas, pensamento.
Gosto da minha palavra pelo sabor que lhe deste: mesmo quando e' linda, amarga como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, e' tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha musica, meu sonho, meu alimento.  Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudades; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos tristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentamento.  Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento... Não há lagrima nem grito: apenas consentimento.
CanteirosFagner/Cecília Meireles	Quando penso em você fecho os olhos de saudadeTenho tido muita coisa, menos a felicidadeCorrem os meus dedos longos em versos tristes que inventoNem aquilo a que me entrego já me traz contentamentoPode ser até manhã, cedo claro feito diaMas nada do que me dizem me faz sentir alegriaEu só queria ter no mato um gosto de framboesaPrá correr entre os canteiros e esconder minha tristezaQue eu ainda sou bem moço prá tanta tristezaE deixemos de coisa, cuidemos da vida,Pois se não chega a morte ou coisa parecidaE nos arrasta moço sem ter visto a vida.
CANÇÃOPus o meu sonho num navioe o navio em cima do mar;— depois, abri o mar com as mãos,para o meu sonho naufragar.Minhas mãos ainda estão molhadasdo azul das ondas entreabertas,e a cor que escorre dos meus dedoscolore as areias desertas.O vento vem vindo de longe,a noite se curva de frio;debaixo da água vai morrendomeu sonho, dentro de um navio...DESENCANTO E DESILUSÃOChorarei quanto for preciso,para fazer com que o mar cresça,e o meu navio chegue ao fundoe o meu sonho desapareça.Depois, tudo estará perfeito:praia lisa, águas ordenadas,meus olhos secos como pedrase as minhas duas mãos quebradas.
Vinícius de MoraesObra dividida em três fases: 1ª) Místico-religiosa
 2ª) Lírico-amorosa
 3ª) Crítica SocialFASE MÍSTICO-RELIGIOSA Preocupação religiosa

Modernismo de 30

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    Revolução de 30GrevesoperáriasNova Constituição brasileiraEstado NovoSegunda Guerra Mundial
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    A noite dissolveos homensCarlos Drummond de AndradeAurora, entretanto eu te diviso,ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascendere dos bens que repartirás com todos os homens. Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações, adivinho-te que sobes,vapor róseo, expulsando a treva noturna. O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedosHavemos de amanhecer.O mundo se tinge com as tintas da antemanhãe o sangue que escorre é doce, de tão necessário para colorir tuas pálidas faces, aurora. A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos. E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam. A noite caiu. Tremenda, sem esperança...E o amor não abre caminho na noite.a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer, a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes! nas suas fardas. A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...Os suicidas tinham razão.
  • 8.
    O pensamento de30UniversalismoPsicanáliseMarxismo
  • 9.
    Literatura mais construtiva,mais politizada eDenúncia Social ao lado de Espiritualismo e Intimismo
  • 10.
    QuadrilhaCarlos Drummond deAndradeIRREVERÊNCIAMODERNISTA João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.POEMA PIADA
  • 11.
    A Poesia de30Cultivo tanto dos versos brancos e livres como das formas tradicionais, como o soneto.
  • 12.
    Encara a poesiacomo instrumento de luta
  • 13.
  • 14.
    O humor, aironia, a captura do cotidiano
  • 15.
    verso livre elinguagem coloquial
  • 16.
    obra de estréia:“Alguma Poesia” (1930)Carlos Drummond de Andrade
  • 17.
    Poema de setefacesQuando nasci, um anjo tortodesses que vivem na sombradisse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homensque correm atrás de mulheres.A tarde talvez fosse azul,não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas:pernas brancas pretas amarelas.Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.Porém meus olhosnão perguntam nada.GAUCHE: ESTRANHO, ESQUERDO, O EU E O COTIDIANO
  • 18.
    O homem atrásdo bigodeé sério, simples e forte.Quase não conversa.Tem poucos , raros amigoso homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonastese sabias que eu não era Deusse sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundose eu me chamasse Raimundo,seria uma rima, não seria uma solução.Mundo mundo vasto mundo,mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizermas essa luamas esse conhaquebotam a gente comovido como o diabo.EU X MUNDO
  • 19.
    TemáticaUne o Confessionalao UniversalA infância
  • 20.
    Medo e aperplexidade
  • 21.
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    A revoltae a náusea
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    problemática socialSentimento doMundoQuando os corpos passarem,eu ficarei sozinhodesfiando a recordaçãodo sineiro, da viúva e do microscopistaque habitavam a barracae não foram encontradosao amanheceresse amanhecermais noite que a noite.Tenho apenas duas mãose o sentimento do mundo,mas estou cheio de escravos,minhas lembranças escorreme o corpo transigena confluência do amor.Quando me levantar, o céuestará morto e saqueado,eu mesmo estarei morto,morto meu desejo, mortoo pântano sem acordes.Os camaradas não disseramque havia uma guerrae era necessáriotrazer fogo e alimento.Sinto-me disperso,anterior a fronteiras,humildemente vos peçoque me perdoeis.
  • 26.
    Agente transformadorMãos DadasNãoserei o poeta de um mundo caduco.Também não cantarei o mundo futuro.Estou preso à vida e olho meus companheirosEstão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.Entre eles, considere a enorme realidade.O presente é tão grande, não nos afastemos.Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
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    O cotidiano emDrummondPoema que aconteceuNenhum desejo neste domingonenhum problema nesta vidao mundo parou de repenteos homens ficaram caladosdomingo sem fim nem começo.A mão que escreve este poemanão sabe o que está escrevendomas é possível que se soubessenem ligasse.
  • 28.
    José E agora, José?Afesta acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, Você?Você que é sem nome,que zomba dos outros,Você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José?Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não veio,não veio a utopiae tudo acaboue tudo fugiue tudo mofou,e agora, José?E agora, José?sua doce palavra,seu instante de febre,sua gula e jejum,sua biblioteca,sua lavra de ouro,seu terno de vidro,sua incoerência,seu ódio, - e agora?
  • 29.
    Com a chavena mão quer abrir a porta,não existe porta;quer morrer no mar,mas o mar secou;quer ir para Minas,Minas não há mais.José, e agora?Se você gritasse,se você gemesse,se você tocasse,a valsa vienense,se você dormisse,se você consasse,se você morresse....Mas você não morre,você é duro, José!Sozinho no escuroqual bicho-do-mato,sem teogonia,sem parede nuapara se encostar,sem cavalo pretoque fuja do galope,você marcha, José!José, para onde?
  • 30.
    Morte do Leiteiro Hápouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.Há muita sede no país,é preciso entregá-lo cedo.Há no país uma legenda,que ladrão se mata com tiro.Então o moço que é leiteirode madrugada com sua latasai correndo e distribuindoleite bom para gente ruim.Sua lata, suas garrafase seus sapatos de borrachavão dizendo aos homens no sonoque alguém acordou cedinhoe veio do último subúrbiotrazer o leite mais frio e mais alvo da melhor vacapara todos criarem forçana luta brava da cidade. Na mão a garrafa brancanão tem tempo de dizer as coisas que lhe atribuonem o moço leiteiro ignaro,morados na Rua Namur,empregado no entreposto,com 21 anos de idade,sabe lá o que seja impulsode humana compreensão.E já que tem pressa, o corpovai deixando à beira das casasuma apenas mercadoria.
  • 31.
    E como aporta dos fundostambém escondesse genteque aspira ao pouco de leitedisponível em nosso tempo,avancemos por esse beco,peguemos o corredor,depositemos o litro...Sem fazer barulho, é claro,que barulho nada resolve.Meu leiteiro tão sutilde passo maneiro e leve,antes desliza que marcha.É certo que algum rumorsempre se faz: passo errado,vaso de flor no caminho,cão latindo por princípio,ou um gato quizilento. E há sempre um senhor que acorda,resmunga e torna a dormir. Mas este acordou em pânico(ladrões infestam o bairro),não quis saber de mais nada.O revólver da gavetasaltou para sua mão.Ladrão? se pega com tiro.Os tiros na madrugadaliquidaram meu leiteiro.Se era noivo, se era virgem,se era alegre, se era bom,não sei,é tarde para saber.
  • 32.
    Mas o homemperdeu o sonode todo, e foge pra rua.Meu Deus, matei um inocente.Bala que mata gatunotambém serve pra furtara vida de nosso irmão.Quem quiser que chame médico,polícia não bota a mãoneste filho de meu pai.Está salva a propriedade.A noite geral prossegue,a manhã custa a chegar,mas o leiteiroestatelado, ao relento,perdeu a pressa que tinha.Da garrafa estilhaçada,no ladrilho já serenoescorre uma coisa espessaque é leite, sangue... não sei.Por entre objetos confusos,mal redimidos da noite, duas cores se procuram,suavemente se tocam,amorosamente se enlaçam,formando um terceiro toma que chamamos aurora.
  • 33.
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    Procura da poesiaNãofaças versos sobre acontecimentos.Não há criação nem morte perante a poesia.Diante dela, a vida é um sol estático,não aquece nem ilumina.As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.Não faças poesia com o corpo,esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escurosão indiferentes.Nem me reveles teus sentimentos,que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.O canto não é a naturezanem os homens em sociedade.Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
  • 35.
    A poesia (nãotires poesia das coisas)elide sujeito e objeto.Não dramatizes, não invoques,não indagues. Não percas tempo em mentir.Não te aborreças.Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de famíliadesaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.Não recomponhastua sepultada e merencória infância.Não osciles entre o espelho e amemória em dissipação.Que se dissipou, não era poesia.Que se partiu, cristal não era.Penetra surdamente no reino das palavras.Lá estão os poemas que esperam ser escritos.Estão paralisados, mas não há desespero,há calma e frescura na superfície intata.Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
  • 36.
    Espera que cadaum se realize e consumecom seu poder de palavrae seu poder de silêncio.Não forces o poema a desprender-se do limbo.Não colhas no chão o poema que se perdeu.Não adules o poema. Aceita-ocomo ele aceitará sua forma definitiva e concentradano espaço.Chega mais perto e contempla as palavras.Cada umatem mil faces secretas sob a face neutrae te pergunta, sem interesse pela resposta,pobre ou terrível, que lhe deres:Trouxeste a chave?Repara:ermas de melodia e conceitoelas se refugiaram na noite, as palavras.Ainda úmidas e impregnadas de sono,rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
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    Cecília Meireles“A vidasó é possível reinventada”
  • 38.
    “A noçãoou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”.
  • 39.
    Motivo Eu canto porqueo instante existee a minha vida está completa.Não sou alegre nem sou triste:sou poeta.Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento.Atravesso noites e diasno vento.Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se ficoou passo.Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo:— mais nada.
  • 40.
    Seus temase sua poética: silêncio, solidão, fuga , fluidez, melancolia, serenidadeRepresentante mais característica da vertente espiritualista ou intimista do Modernismo.
  • 41.
    RetratoEu não tinhaeste rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas;eu não tinha este coraçãoque nem se mostra.Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil:— Em que espelho ficou perdidaa minha face?
  • 42.
    Marcha As ordensda madrugada romperam por sobre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebraram as formas do sono com a ideia do movimento.  Vamos a passo e de longe; entre nos dois anda o mundo, com alguns vivos pela tona, com alguns mortos pelo fundo.  As aves trazem mentiras de países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, mais minha duvida aumento.  Também não pretendo nada senão ir andando a toa, como um numero que se arma e em seguida se esboroa, -- e cair no mesmo poço de inércia e de esquecimento, onde o fim do tempo soma pedras, aguas, pensamento.
  • 43.
    Gosto da minhapalavra pelo sabor que lhe deste: mesmo quando e' linda, amarga como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, e' tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha musica, meu sonho, meu alimento.  Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudades; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos tristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentamento.  Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento... Não há lagrima nem grito: apenas consentimento.
  • 44.
    CanteirosFagner/Cecília Meireles Quando pensoem você fecho os olhos de saudadeTenho tido muita coisa, menos a felicidadeCorrem os meus dedos longos em versos tristes que inventoNem aquilo a que me entrego já me traz contentamentoPode ser até manhã, cedo claro feito diaMas nada do que me dizem me faz sentir alegriaEu só queria ter no mato um gosto de framboesaPrá correr entre os canteiros e esconder minha tristezaQue eu ainda sou bem moço prá tanta tristezaE deixemos de coisa, cuidemos da vida,Pois se não chega a morte ou coisa parecidaE nos arrasta moço sem ter visto a vida.
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    CANÇÃOPus o meusonho num navioe o navio em cima do mar;— depois, abri o mar com as mãos,para o meu sonho naufragar.Minhas mãos ainda estão molhadasdo azul das ondas entreabertas,e a cor que escorre dos meus dedoscolore as areias desertas.O vento vem vindo de longe,a noite se curva de frio;debaixo da água vai morrendomeu sonho, dentro de um navio...DESENCANTO E DESILUSÃOChorarei quanto for preciso,para fazer com que o mar cresça,e o meu navio chegue ao fundoe o meu sonho desapareça.Depois, tudo estará perfeito:praia lisa, águas ordenadas,meus olhos secos como pedrase as minhas duas mãos quebradas.
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    Vinícius de MoraesObradividida em três fases: 1ª) Místico-religiosa
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    3ª) CríticaSocialFASE MÍSTICO-RELIGIOSA Preocupação religiosa