CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2011
 Lema: A criação geme em dores de parto (Rm 8,22)
      Tema: Fraternidade e a Vida no Planeta




        Texto-Base




CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
Coordenação Editorial:
Pe. Valdeir dos Santos Goulart
Projeto Gráfico, Capa e Diagramação:
Fábio Ney Koch dos Santos, Henrique Billygran e Raul Benevides
Revisão:
Dom Hugo Cavalcante, OSB
Redator Chefe:
Pe. Luiz Carlos Dias
Cartaz da CF 2011:
Criação: Agência Experimental PUC-Campinas / miniagência IGLOO Comunicação
Criativa: Ana Carolina Angelotti, Fábio Pellicer Siqueira, Fernando Henrique Novais,
João Gabriel Godoy Gandia Pinheiro, Luís Guilherme Valim e Valdir Gomes Gameleira
Júnior. Professores Orientadores: Cláudia Lúcia Trevisan e Márcio Antônio Brás Roque
Adaptações e Arte Final: Edições CNBB

Impressão e acabamento:
Editora e Gráfica Ipiranga ltda.




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C748c   Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / Campanha da Fraternidade 2011: Texto-Base.
        Brasília, Edições CNBB. 2010.

          Campanha da Fraternidade 2011: Texto-Base / CNBB.
          136p. : 14 x 21 cm
          ISBN: 978-85-7972-052-9

        1. Meio Ambiente 2. Ecologia 3. Educação 4. Formação 5. Fraternidade 6. Conversão

                                                                                          CDU 261.6
ORAÇÃO DA CF 2011


            Senhor Deus, nosso Pai e Criador.
     A beleza do universo revela a vossa grandeza,
 A sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas,
        E o eterno amor que tende por todos nós.

  Pecadores que somos, não respeitamos a vossa obra,
        E o que era para ser garantia da vida
              está se tornando ameaça.
     A beleza está sendo mudada em devastação,
   E a morte mostra a sua presença no nosso planeta.

          Que nesta quaresma nos convertamos
    E vejamos que a criação geme em dores de parto,
 Para que possa renascer segundo o vosso plano de amor,
Por meio da nossa mudança de mentalidade e de atitudes.

   E, assim, como Maria, que meditava a vossa Palavra
                     e a fazia vida,
   Também nós, movidos pelos princípios do Evangelho,
Possamos celebrar na Páscoa do vosso Filho, nosso Senhor,
  O ressurgimento do vosso projeto para todo o mundo.
                          Amém.



                                                            3
SUMÁRIO
ORAÇÃO DA CF 2011 .............................................................. ..... 3
LISTA DE SIGLAS . . ............................................................ ............ 9
APRESENTAÇÃO . . ............................................................ .......... 11
INTRODUÇÃO . . . . . . ........................................................ .............. 13


Primeira PARTE - VER                      . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . ................................ 15

Introdução .. . . . . . . . . .................................................... .................. 15
1. O aquecimento global ............................................................ 15
   1.2. Relação entre aquecimento global e atividades humanas ... 19
   1.2.1. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
          Climáticas (IPCC) como referência mundial .......................... 19
   1.2.2. O relatório do IPCC de 2007 ............................................ 20
   1.3. As atividades do ser humano que mudaram o planeta ...... 23
   1.5. A energia, tema central nas discussões sobre emissão
         de gases de efeito estufa ................................................. 27
   1.5.1. As matrizes energéticas disponíveis .................................. 27
   1.5.2. A questão energética, crucial na questão do aquecimento
          global . . . . . ......................................................... ............. 29
   1.5.3. A questão energética e o neodesenvolvimentismo das políticas
          públicas . . ............................................................ .......... 31
   1.6. O desmatamento da Floresta Amazônica, uma afronta à
         crise global do clima....................................................... 33
   1.7. O agronegócio, estratégico para o neodesenvolvimentismo .. 35
3. O modelo de desenvolvimento atual e suas consequências ....... 37
4. A vida e suas dores no contexto do aquecimento global ........... 40
   4.1. Biodiversidade ameaçada .............................................. 40
   4.2. O escândalo da miséria e o aquecimento global ............... 42
   4.3. O êxodo rural, êxodo da natureza .................................... 43
   4.4. A água . . . . . ......................................................... ............. 44
   4.4.1. As águas oceânicas ......................................................... 45


                                                                                                                                    5
5. A comunidade mundial e as mudanças climáticas .................... 47
6. As Igrejas e as Religiões, o que dizem a respeito disso? .............. 52
7. Algumas considerações sobre a temática do meio ambiente
   nos documentos da Igreja ...................................................... 53
8. Sustentabilidade, novo paradigma civilizacional ..................... 55
9. Da ética do egotismo à ética do cuidado .................................. 58


Segunda PARTE - JULGAR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . ............................. 61
Introdução ..... . . . . . . . .................................................. ................. 61
1. Apontamentos bíblicos sobre a preservação da natureza ......... 62
    1.1. O nosso Deus é o Deus da vida......................................... 62
    1.2. O lugar do ser humano na criação ................................... 64
    1.3. A atualidade da advertência aos primeiros pais no paraíso
          (Gn 3,1-24) . ............................................................. ...... 66
    1.4. O descanso e o sentido autêntico da criação .................... 69
    1.4.1. Consideração sobre o descanso no livro do Gênesis ............ 69
    1.4.2. O dia do descanso e a ressurreição de Cristo ...................... 71
    1.5. O cuidado com a vida e suas fontes .................................. 73
    1.6. No deserto, uma lição de consumo responsável ............... 76
    1.7. Entrando na terra prometida .......................................... 77
    1.8. Jesus vence tentações ..................................................... 78
    1.9. O que pode nos afastar de Deus....................................... 80
    1.10. A voz de Deus na natureza ............................................. 80
2. Considerações acerca da criação ............................................ 82
   2.1. A abordagem teológica ................................................... 82
   2.2. A Trindade e a criação .................................................... 83
   2.3. A criação como dom do Pai ............................................. 84
   2.4. A criação em Cristo ........................................................ 84
   2.5. A criação no Espírito Santo ............................................. 85
   2.6. A criação e a Igreja ......................................................... 86
   2.7. A criação e a Eucaristia .................................................. 87
3. O pecado e sua dimensão ecológica ......................................... 89


6
4. O cuidado . . . . . . . . ...................................................... ................ 90
5. São Francisco e a criação ........................................................ 92


Terceira PARTE - AGIR                    . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .............................. .. 97

Introdução . . . . . . . . . ..................................................... ................. 97
Propostas para o agir .............................................................. .. 98
1. Resgatar o sentido profético do domingo ................................ 98
2. Para você saber sobre o seu consumo ecológico.......................... 99
3. Propostas para se diminuir o consumo pessoal ..................... 101
4. As cidades e o meio ambiente ............................................... 103
5. Nas comunidades paroquiais e Dioceses ............................... 105
6. Ações em nível mais amplo .................................................. 106
   6.1. A questão energética. .................................................. 106
   6.2. Diante do desmatamento ............................................. 108
   6.3. O agronegócio ............................................................. 109
7. Desenvolver políticas públicas preventivas e de superação de situ-
ações de risco . . . . . ......................................................... ........... 110
Re lexões inais . . ............................................................ ........ 111


Quarta PARTE - GESTO CONCRETO                                             .. . . . . . . . .............................          113

Objetivos da CF 2011 .............................................................. . 126
Destinação dos recursos .......................................................... 126

BIBLIOGRAFIA . . . . .......................................................... .......... 129
HINO........... . . . . . . . . ............................................ ........................ 135




                                                                                                                                        7
LISTA DE SIGLAS

Documentos da Igreja
DD         Carta Apostólica “Dies Domini”, do Papa João Paulo II
GS         Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” sobre a presença
           da Igreja no mundo, do Concílio Ecumênico Vaticano II.
RH         Carta Encíclica “Redemptor Hominis”, do Papa João Paulo II

Demais Siglas
Agenda 21 Pode ser de inida como um instrumento de planejamento
          para a construção de sociedades sustentáveis, em diferen-
          tes bases geográ icas, que concilia métodos de proteção
          ambiental, justiça social e e iciência econônica
AWG/LCA Ad hoc Working Group on Long-Term cooperative action
        (Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Ações de Cooperação A
        Longo Prazo).
AWG-KP     Ad Hoc Working Group on Further Commitments for
           Annex I Parties under the Kyoto Protocol (Trad. Grupo
           de Trabalho Ad hoc sobre Novos Compromissos para os
           Membros do Anexo I do Protocolo de Quioto)
BEM        Balanço Energético Nacional
BNDES      Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
CF         Campanha da Fraternidade
CFCs       Cloro luorcabornetos
CH₄        Metano
CO2        Dióxido de carbono
Eco-92     Cúpula ou Cimeira da Terra (Conferência das Nações Unidas
           para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD)
EIA        Agência Internacional de Energia
EUA        Estados Unidos da America
                                                                    9
FAO      Food and Agriculture Organization of the United Nations
         (Trad. Organização das Nações Unidas para a Agricultura
         e a Alimentação)
GEEs     Gases de efeito estufa
GWh      Gigawatt-hora
HFCs     Hidro luorcarbonetos
INPE     Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
IPCC     Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas
km²      Quilômetro Quadrado
N₂O      Óxido nitroso
NF3      Tri luoreto de azoto
NO₂      Dióxido de azoto
NO2      Óxido nitroso
O3       Ozônio
OCDE     Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Eco-
         nômico ou Organização de Cooperação e de Desenvolvi-
         mento Econômicos
OGMs     Organismos Geneticamente Modi icados
ONU      Organização das Nações Unidas
PAC      Programa de aceleração ao Crescimento
PCH      Pequenas Centrais Hidrelétricas
PFCs     Per luorcarbonetos
pH       Potencial Hidrogeniônico
PIB      Produto Interno Bruto
PNMC     Plano Nacional sobre Mudanças do Clima
PNUMA    Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
PUC-RS   Ponti ícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
RH       Carta Encíclica Redemptor hominis do Papa João Paulo II
Rio +5   Fórum de discussão das Nações Unidas ou Sessão Especial
         da Assembleia das Nações Unidas de 1997
SF6      Hexa luoreto de enxofre
SO₂      Dióxido de enxofre
UNESCO   Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
         e a Cultura

10
APRESENTAÇÃO



     Quaresma é tempo de escuta da Palavra, de oração, de je-
jum e da prática da caridade como caminho de conversão, tendo
como horizonte a celebração do Mistério Pascal de nosso Senhor
Jesus Cristo. E somos convidados a aproveitar esse tempo de gra-
ça, valorizando os canais pelos quais esta se comunica: a oração,
a participação nos sacramentos da penitência e da eucaristia, as
práticas devocionais deste período, de modo especial a Via Sacra
e o Santo Rosário.
     No mundo em que vivemos, somos diariamente interpelados
por tantos rostos sofredores, que clamam por nossa solidariedade.
A Igreja samaritana não pode passar adiante, na presença de tantos
irmãos e irmãs que dela esperam acolhida fraterna, ombro amigo,
mãos generosas, que os ajude em sua caminhada para o Pai.
     A Campanha da Fraternidade é um excelente auxílio para bem
vivermos a Quaresma. Com sua metodologia característica do Ver
– Julgar – Agir, baseada, a cada ano, num Tema e num Lema, a Cam-
panha da Fraternidade nos oferece uma ótima oportunidade para
superarmos qualquer dicotomia entre fé e vida.
     Este ano, a CNBB propõe que todas as pessoas de boa vontade
olhem para a natureza e percebam como as mãos humanas estão
contribuindo para o fenômeno do aquecimento global, que provo-
ca mudanças climáticas consideráveis, com sérias ameaças para a
vida em geral, e a vida humana em especial, sobretudo a dos mais
pobres e vulneráveis. É nesse contexto que a CNBB propõe para
                                                                11
2011, a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e a
vida no planeta”, e como lema “A criação geme em dores de parto
(Rm 8,22)”.
     Na medida em que cada cristão ou cristã for capaz de viven-
ciar seriamente o próprio batismo, sua conversão diária não será
mais mera questão de retórica, mas será uma dimensão perma-
nente em sua vida.
      Que o Senhor da Vida nos abençoe a todos em nossa caminha-
da quaresmal, e mais ainda, em nossa marcha diuturna, na dire-
ção do Reino que nos foi preparado antes da fundação do mundo
(cf. Ef 1). Associados à morte de Cristo pelo Batismo, nós o sere-
mos, também, na sua ressurreição. E Deus será tudo em todos.




                                Brasília, 04 de outubro de 2010,
                           na memória de São Francisco de Assis.


                                      Dom Dimas Lara Barbosa
                                  Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro
                                        Secretário Geral da CNBB


                                             Pe. Luiz Carlos Dias
              Secretário Executivo da Campanha da Fraternidade




12
INTRODUÇÃO
1. A Campanha da Fraternidade de 2011 aborda o tema do aqueci-
mento global e das mudanças climáticas. A considerar as intempé-
ries climáticas que andam assolando as populações de forma cada
vez mais intensas e em quantidades sempre crescente, a temática
é plenamente justi icável.
2. No entanto, é necessário dizer que a questão é envolta de po-
lêmica. A causa desse desequilíbrio climático é discutida pelos
pesquisadores e basicamente existem dois grupos. Há os que en-
tendem que o aquecimento global é oriundo de processos da pró-
pria natureza e os que a irmam que o planeta está apresentando
aquecimento devido às grandes quantidades de emissões de gases
de efeito estufa, que se intensi icaram a partir do momento da in-
dustrialização de muitos países, ou como alguns preferem, é resul-
tante de causas antrópicas.
3. A resolução deste impasse nos meios especializados não parece
ser fácil e nem pretendemos resolvê-lo. Mas uma coisa é indubitável,
nossa experiência constata que mudanças climáticas estão em curso
e que já alteramos substancialmente o planeta. E, considerando que
o clima do planeta é resultante, em parte, da interação dos seres que
o habitam, torna-se di ícil negar que alterações como: as derrubadas
de lorestas, modi icações nas águas marinhas e na atmosfera, que
recebeu uma carga imensa de gases de efeito estufa, não contribua
para as mudanças climáticas que veri icamos.
4. E a considerar a gravidade da situação e de suas consequên-
cias, basta citar que órgãos da ONU já falam na existência de 50 mi-
lhões de “migrantes do clima”, não podemos deixar de agir em prol
de melhores condições para o nosso planeta. Sobretudo, porque, o
aquecimento global e as mudanças climáticas exigirão mais sacri í-
cios dos mais pobres e menos protegidos. Além de quê, braços cru-
zados diante de tal desa io, signi ica irresponsabilidade tamanha
para com as gerações futuras, pois ainda podemos fazer algo em
prol da vida no planeta.
                                                                   13
5. Por isso, a identi icação das ações que mais emitem gases de
efeito estufa é um passo importante para buscarmos alternativas
que resultem em menores índices de emissões de gases de efeito
estufa, como pretendemos com o texto.
6. E que a Palavra de Deus e a caminhada quaresmal rumo à Pás-
coa de nosso Senhor, possam nos despertar para o exercício do cui-
dado para com a vida, para com o planeta, que pede socorro.




14
Primeira PARTE
       VER

 Introdução
 7. O clima em nosso planeta tem a sua história, já apresentou di-
 ferentes con igurações, e nesse sentido, é sujeito a alterações. No
 entanto, as mudanças ocorridas no passado aconteceram em vir-
 tude de processos naturais, como pequenas variações na relação
 da órbita da Terra em torno do Sol, queda de meteoritos na super-
  ície do planeta e grandes erupções vulcânicas. Nos dias de hoje,
 é visível que mudanças climáticas estão em curso: a temperatura
 está mais elevada, temporais por toda a parte, vendavais, longas
 estiagens. Mas se no passado as mudanças ocorreram por causas
 naturais, não podemos dizer o mesmo em relação às atuais, porque
 coincidem com o processo de industrialização que se intensi icou
 nos últimos dois séculos.
 8. Não há unanimidade na comunidade cientí ica a respeito das
 causas destas mudanças climáticas que assistimos. Para alguns,
 apesar das grandes emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs), es-
 tas alterações são resultantes de um processo natural do planeta,
 enquanto grande parcela as relaciona com as atividades empre-
 endidas pelo ser humano após a implantação do atual sistema de
 produção.


 1. O aquecimento global
 9. O clima do planeta é resultante da interação de muitos fatores,
 inclusive dos seres que integram a biodiversidade que ele hospeda.
 De algum modo, cada ser que habita a Terra contribui na formação
                                                                  15
e transformação do clima. Integrante dessa biodiversidade, o ser
humano é também um agente que colabora, com considerável par-
cela, na composição do clima.
10. O Aquecimento Global é uma mudança climática que trás con-
sigo uma série de desdobramentos. Eventuais mudanças climáticas
acontecem quando se registram alterações nos valores médios re-
gistrados nas temperaturas, com aumento ou diminuição. Quando
se fala em aquecimento global, quer dizer que ocorre a elevação dos
valores médios da temperatura na super ície do planeta, hoje em
torno de 15ºC- há cem anos era 14,5ºC -, o que pode provocar altera-
ções de várias ordens, como no regime e intensidade das chuvas.
11. É cada vez mais perceptível que o planeta passa por um aque-
cimento, o que tem provocado uma série de mudanças climáticas.
Essa ocorrência, segundo os estudiosos do tema, se deve a um fe-
nômeno denominado de “efeito estufa”, que se não for devidamen-
te entendido, pode vir a ser taxado facilmente de “grande vilão” das
mudanças climáticas.




Fonte: http://www.brasilescola.com/geogra ia/efeito-estufa.htm.




16
12. O efeito estufa é um processo natural, sem o qual a temperatura
na super ície terrestre seria, durante o dia, muito quente e à noite,
muito fria. Assim sendo, pode-se dizer que o efeito estufa é uma
espécie de “instrumento”, mediante o qual a Terra oferece uma
temperatura média constante, necessária para a vida. Além disso,
a temperatura do planeta ofereceu as condições para o desenvolvi-
mento da atual biodiversidade que o planeta hospeda, con igurada
ao longo de mais de três bilhões de anos. Portanto, o efeito estufa é
importante para que o clima de nosso planeta proporcione vida.




13. A super ície da Terra não é atingida pela totalidade dos raios
solares, cujos principais são: os infravermelhos e os ultravioletas.
Cerca de 40% destes raios são re letidos para o espaço pelas ca-
madas superiores da atmosfera; outros 43% atingem a super ície,
que por sua vez, irradia 10% desta carga de energia solar para fora
do planeta, e os 17% restantes são absorvidos pelas suas cama-
das inferiores. Os raios infravermelhos são absorvidos, sobretudo,
pelo dióxido de carbono (CO₂) e por vapores de água, elementos
importantes para a formação do efeito estufa; os ultravioletas são
absorvidos pelo ozônio.1 Estes são os principais gases presentes
na atmosfera que, ao absorver calor dos raios solares, provocam
o efeito estufa. Há outros gases que cooperam em menor escala,


1   Esta é a razão da grande preocupação com o buraco atualmente existente na camada de
    ozônio na atmosfera.

                                                                                    17
em virtude de sua pequena presença na atmosfera, mesmo tendo
maior capacidade de absorção de calor, como: o metano (CH₄) e o
óxido nitroso (N₂O).

            Gás                     Porcentagem                   Partes por Milhão

         Nitrogênio                     78,08                         780.000,0

          Oxigênio                      20,95                         209.460,0

          Argônio                        0,93                          9.340,0

     Dióxido de carbono                 0,035                           350,0

           Neônio                       0,0018                          18,0

            Hélio                      0,00052                           5,2

          Metano                       0,00014                           1,4

          Kriptônio                    0,00010                           1,0

        Óxido nitroso                  0,00005                           0,5

         Hidrogênio                    0,00005                           0,5

           Ozônio                      0,000007                         0,07

          Xenônio                      0,000009                         0,09


Fonte: http://www.brasilescola.com/geogra ia/efeito-estufa.htm.



14. O dióxido de carbono é importante no ciclo da vida, em que ele
circula mediante produção e absorção em processos naturais. A
maior parte do carbono está armazenada nos combustíveis fósseis,
nos oceanos, na matéria viva e na atmosfera. Na natureza, esses ci-
clos transcorrem de modo equilibrado. O que é emitido pelos pro-
cessos vitais de alguns seres é absorvido por outros. Por exemplo, o
ser humano, ao expirar, emite dióxido de carbono, enquanto as plan-
tas o absorvem; pelo processo da fotossíntese as plantas liberam
oxigênio, que mantém vivo o ser humano através da respiração.
15. Algumas atividades de nossa civilização emitem grande quan-
tidade de dióxido de carbono. É o que ocorre na queima de com-
bustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo), na derrubada e queima-
da de lorestas e nas alterações do uso do solo. As derrubadas de

18
lorestas, além de emitirem carbono na atmosfera, eliminam um
fator importante de assimilação deste gás. Ao lado dos Oceanos, as
 lorestas são detentoras de imensa capacidade de trocar o carbono
por oxigênio na atmosfera. Em virtude destas atividades emisso-
ras, as medições apontam, a partir de 1750, aumento de dióxido de
carbono em torno de 40% na atmosfera, enquanto o metano (CH₄)
apresentou acréscimo de 150%.


1.2. Relação entre aquecimento global e
     atividades humanas

1.2.1. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças
       Climáticas (IPCC) como referência mundial
16. A tese de que o atual aquecimento global é fruto da ação hu-
mana, em virtude do aumento das emissões de gases de efeito es-
tufa no período pós-industrial, foi elaborada a partir dos estudos
de um grande grupo de especialistas do clima e pesquisadores de
outras áreas do conhecimento, constituído pela Organização das
Nações Unidas (ONU). O grupo icou conhecido como IPCC2. O de-
nominado Painel do Clima iniciou os seus trabalhos em 1988, e os
estudos realizados mostram detalhadamente a variação da tempe-
ratura média da Terra a partir de 1750, período que coincide com a
implantação do sistema industrial em muitos países. E relaciona o
aquecimento global diretamente ao aumento progressivo de emis-
são de gases de efeito estufa com o processo de industrialização,
além de outras fontes de emissão, como derrubadas e queimadas
de lorestas.

2   O IPCC foi co-fundado em 1988 pelo Programa Ambiental das Nações Unidas e pela Or-
    ganização Meteorológica Mundial. Sua missão: avaliar se o clima da Terra está mudando
    efetivamente. Integram este comitê cerca de 2800 pesquisadores de vários países e de
    diferentes disciplinas acadêmicas. O grupo elabora seus relatórios a partir de fontes
     idedignas, aceitas pela comunidade cientí ica internacional, e as avalia com rigor. O pai-
    nel publicou quatro relatórios sobre mudança climática, em 1990, 1995, 2001 e 2007.
    Juntamente com esses documentos, o IPCC esboça os principais temas dos relatórios e
    publica um Resumo para Tomadores de Decisão.

                                                                                            19
17. Os resultados apresentados pelo IPCC em seus relatórios foram
abraçados por organismos intergovernamentais e internacionais,
tendo à frente a ONU, e seus organismos como: Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO),
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNU-
MA). Foram assumidos, também, por Igrejas, movimentos sociais,
articulações internacionais, como o Fórum Social Mundial, e Orga-
nizações não-governamentais (ONGs) que atuam em favor da vida
no planeta.


1.2.2. O relatório do IPCC de 2007
18. Em seu quarto relatório, de 2007, o IPCC3 a irma, com nível
muito alto de con iança – isto é, com segurança de mais de 90%
– que o planeta Terra está aquecendo desde 1750, tendo elevado
a temperatura média em 0,74º C até 2006. Nesse sentido, alguns
dados chamam a atenção, como por exemplo, as concentrações de
dióxido de carbono (CO₂), o gás de efeito estufa mais importante,
aumentaram entre 1995 e 2005 em um ritmo mais acelerado do
que entre 1960 e 1995. Como o aumento se deve à maior presença
de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, então a conclusão é que
a temperatura tende a aumentar cada vez mais.
19. O relatório destaca que a maior parte da emissão de dióxido
de carbono (CO₂) pelas atividades humanas provém da queima de
combustíveis fósseis, e a de metano (CH₄) e óxido nitroso (NO2)
provém principalmente da agricultura.
20. Os pesquisadores conseguiram fazer medições da presença
destes gases na atmosfera em épocas passadas, analisando núcle-
os de gelo perfurados em geleiras de lugares como Groenlândia e
Antártida, onde a neve nunca derrete completamente. E pelo fato
de a neve carregar partículas do ar quando precipita e, à medida


3    Pode ser encontrado em português no espaço do PNUMA, ONU, ou no site: Disponível
     em <www.ipcc.cg>. Acesso em: 06 ago. 2010.


20
que se compacta, bolhas de ar do momento em que houve a pre-
cipitação icam aprisionadas. Por isso, mediante análise, pode-se
medir com segurança a quantidade de certos gases na atmosfera
em outras épocas.
21. Assim, cientistas dessa área puderam medir a quantidade de
gases de efeito estufa presentes na atmosfera antes do início da in-
dustrialização. Essa medição foi importante para efeito de compa-
ração entre as quantidades de gases de efeito estufa e as respecti-
vas temperaturas, resultando na teoria de que: emissões em gran-
des quantidades destes gases implicam em aquecimento médio da
temperatura do planeta ou no aquecimento global. A análise de ar
capturada no gelo, mostra um aumento considerável dos gases de
efeito estufa a partir de 1750. Essa data marca o início da acelera-
ção do processo de industrialização, sobretudo impulsionada pela
combustão do carvão e, mais tarde, pela do petróleo, como suas
fontes principais de energia.




22. E a partir dessa relação entre quantidade de gases de efeito es-
tufa na atmosfera e temperatura, puderam prever, para o futuro,
aumentos na temperatura média conforme o andamento das emis-
sões. O que quer dizer, que a temperatura futura do planeta vai de-
pender de nosso modo de produzir, consumir, en im do modo de
nos relacionar com a Terra.
23. Para o IPCC, as mudanças no clima estão se aprofundando e re le-
tem os aumentos de emissões de gases de efeito estufa. Entre 1995
e 2006, o mundo teve 11 dos 12 anos mais quentes já registrados

                                                                  21
para a temperatura da super ície da Terra. A maior parte do aque-
cimento se deve as atividades humanas dos últimos 50 anos. Há
muitos indicadores que mostram a aceleração do aquecimento. As
geleiras das montanhas e as coberturas de neve estão diminuindo.
As lâminas de gelo da Groenlândia e da Antártida estão derretendo
em alguns pontos. O nível do mar continua a subir,4 e a temperatu-
ra média do oceano está aumentando. As secas estão mais longas e
mais intensas, e afetam áreas maiores. As chuvas estão mais pesa-
das e provocam graves enchentes. O relatório de 2007 indica que
essas recentes mudanças são maiores do que as ocorridas no clima
nos últimos 1.300 anos.
24. O relatório a irma que, se as emissões de gases de efeito estu-
fa continuarem no ritmo atual ou forem ainda mais intensas, um
aquecimento maior irá ocorrer. Isso, por sua vez, agravará as mu-
danças no clima global. A temperatura da super ície deve aumen-
tar em cerca de 2,4°C até 2050, mesmo se a humanidade mudar
seu padrão de produção e consumo imediatamente. Porém, caso
mudanças dessa ordem não forem realizadas, o aumento pode al-
cançar 4ºC. O que agravaria a elevação do nível dos mares, em até
0,60 cm, em virtude do derretimento de geleiras, ocupando áreas
do território e provocando imensas levas de migração – os deno-
minados migrantes climáticos.5 Os padrões climáticos seriam al-
terados signi icativamente, com tempestades, furacões, enchentes
sempre mais intensas e secas ainda mais amplas e prolongadas.



4    Pesquisas da NASA indicam que, de 2003 a 2008, derreteram-se 2 bilhões de toneladas
     de gelo no Ártico, na Groenlândia e no Alasca, proporcionando um aumento de 4,5 mm no
     nível das águas oceânicas. No Chile, veri ica-se avanço do derretimento em 92% das 1720
     geleiras e nas cordilheiras nevadas do Peru, ocorre o mesmo. Processo semelhante ocorre
     nos montes Kênia e Kilimanjaro na Tanzânia, que já perderam mais de 80% das antigas
     coberturas de neve. Cf. J.A. MEJIA GUERRA, In REB, Fasc. 277, Janeiro, 2010, p. 9-11.
5    A ONU realizou em Bonn, Alemanha, uma Conferência sobre o clima, inalizada em 11
     de junho de 2010. Foi apresentado um relatório produzido por pesquisadores ligados à
     mesma ONU e à Universidade de Colúmbia nos EUA acerca de migrações resultantes de
     mudanças climáticas. O relatório estima que o total de pessoas envolvidas nas migra-
     ções estimuladas pelas mudanças climáticas poderá pular de 50 milhões em 2010 para
     cerca de 700 milhões em 2050. http://www.achetudoeregiao.com.br/noticias/ambien-
     te360.htm


22
1.3. As atividades do ser humano que mudaram
     o planeta
25. A implantação do sistema industrial de produção de bens e
o do consumo compulsivo, inclusive de produtos supérfluos, in-
tensificou a extração de materiais da natureza e ocasionou pro-
fundas transformações na face do planeta. Em virtude da mag-
nitude destas mudanças, que já ameaçam as estruturas daTerra,
há quem diga que estamos entrando em uma nova era geológica,
o “antropoceno”.6
26. Em relação às mudanças, é interessante citar alguns dados.
A população mundial aumentou dez vezes nos últimos três sécu-
los. No século XX, quadruplicou; hoje, ultrapassa os 6,5 bilhões
de pessoas, e as estimativas indicam que pode chegar à casa dos
9 bilhões em 2050. Mesmo tendo presente que a proteína animal
é desigualmente distribuída, já existe praticamente uma vaca por
família e a população de gado, que é responsável por parte da
produção do gás metano, saltou para 1,4 bilhão de reses. Quase a
metade da população vive, hoje, em cidades ou megacidades. No
século XX, a urbanização aumentou dez vezes. A produção indus-
trial cresceu 40 vezes nesse mesmo período e a demanda energé-
tica exigiu que o setor crescesse 16 vezes. Por im, quase 50% da
super ície do planeta passaram por transformações em virtude
das atividades humanas.7




6   Paul Crutzen, ganhador do Nobel de Química em 2000, sugere que pelas mudanças oca-
    sionadas no planeta devido as ações do homem, a atual era deve ser denominada de
    antropoceno. Porque nos dias de hoje, vemos mudança na composição atmosférica, com
    consequente mudança nas plantas, mudança na distribuição e diversidade das espécies,
    com consequências futuras no registro fóssil e mudança na acidez dos oceanos, com al-
    teração nos depósitos minerais nas profundezas, fatores que atendem os requisitos que
    a Stratigraphy Commission of the Geological Society of London, estabeleceu como de-
    terminantes para se con igurar uma época geológica. Disponível em http://www.gluon.
    com.br/blog/2008/01/26/antropoceno-clima-ecologia/. Acesso em: 06 agosto 2010.
7   Cf. Paul J. CRUTZEN. Química atmosférica e clima no antropoceno? In fazendo as pazes
    com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p.155.

                                                                                      23
27. Entretanto, ainda temos outros dados significativos des-
sa ação humana. O uso da água passou por um crescimento de
nove vezes no período citado e, hoje, desigualmente distribuída,
atinge cerca de 800 metros cúbicos per capita ao ano. Essa utili-
zação se dá na seguinte proporção: na irrigação 70%, na indús-
tria 20% e nos domicílios 10%, e a ineficiência na captação e
distribuição gera grandes desperdícios. E, se a água é essencial
para a vida, é também indispensável na produção agroindus-
trial, pois segundo a New Scientist (PEARCE, 2006), um quilo
de café pronto para o consumo requer, em todas as etapas da
produção, cerca de 20 mil litros de água, um hambúrguer de
100 gramas, 11.000 litros e um mero jeans, 8.000 litros, para
ficarmos em alguns exemplos.
28. A emissão de alguns gases de efeito estufa cresceu exponen-
cialmente. A maior preocupação recai sobre a de dióxido de carbo-
no, que aumentou a sua concentração na atmosfera em 40% após
o início da industrialização, sendo que dois terços deste cresci-
mento ocorreram somente nos últimos 100 anos. Desta forma, a
concentração de dióxido de carbono na atmosfera passou de 275
para 380ppm,8 segundo medição de 2006, e, segundo estimativas,
a queima de combustíveis fósseis acrescenta anualmente 5 bilhões
de toneladas por ano9 de CO₂ na atmosfera.
29. As emissões de dióxido de enxofre (SO₂) através de fenôme-
nos naturais, como erupções vulcânicas, chegam a 100 milhões de
toneladas/ano. Mas a queima de combustíveis fósseis é respon-
sável pela emissão do dobro das provocadas por esses processos
naturais; este gás, em contato com o dióxido de azoto (NO₂), é um



8    Segundo as pesquisas do IPCC, a concentração do dióxido de carbono na atmosfera
     vem aumentando nos últimos 650.000 anos, de 180 ppm para 300 ppm, respectiva-
     mente. Entretanto houve um aumento mais pronunciado desde a era pré-industrial,
     passando de 280 ppm para 379 ppm em 2005, sendo que na última década, entre
     1995 e 2005, houve a maior taxa de aumento. http://www.multiciencia.unicamp.
     br/r01_8.htm. Acesso em 15 setembro 2010.
9    Cf. Disponível em http://educacao.uol.com.br/quimica/sequestro-de-carbono.jhtm.
     Acesso em: 07 agosto 2010.


24
dos principais causadores de chuva ácida. O óxido nitroso (N₂O)
é, hoje, dentre as todas as substâncias resultantes de atividades
humanas, a que mais causa danos à importante camada de ozô-
nio, superando os cloro luorcabornetos (CFCs);10 pois bem, 2/3 do
que se emite proveem da ação humana, sobretudo de processos de
fertilização e em defensivos agrícolas, especialmente nas imensas
monoculturas.
30. O gás metano (CH₄), inicialmente conhecido como gás dos pân-
tanos, atualmente é proveniente de atividades humanas na razão
de 60%. Ele é gerado especialmente através dos cultivos agrícolas
e na pecuária, mas também os grandes lagos arti iciais para hidre-
létricas produzem metano. Nos últimos 200 anos, aumentou sua
presença na atmosfera de 0,8 para 1,7 ppm. O ser humano também
responde pela emissão de outras tantas substâncias de efeito estu-
fa, algumas delas tóxicas ao meio ambiente, a partir de resíduos de-
volvidos à natureza após o consumo, e outras não tóxicas, mas que
originam buracos na camada de ozônio; este é o caso do CFC,11 que
já não é produzido, mas os efeitos do que foi acumulado anterior-
mente na atmosfera ainda perdurarão por cerca de um século. O
grá ico abaixo mostra os principais gases de efeito estufa com algu-
mas informações como: o que causa estes gases, sua porcentagem
na formação do efeito estufa e. tempo de duração na atmosfera.




10   Cf. Disponível em
     http://360graus.terra.com.br/ecologia/default.asp?did=29063&action=news.
     Acesso em: 07 agosto 2010.
11   Estima-se que o CFC seja 15.000 vezes mais nocivo à camada de ozônio do que o dióxido
     de carbono (CO2). (CENAMO, 2004). Isso porque ao ser liberado na atmosfera o CFC se
     concentra na estratosfera (onde ica a camada de ozônio) e sofre uma reação chamada
     fotólise: quando submetido à radiação ultravioleta proveniente do sol o CFC se decom-
     põe liberando o radical livre cloro (Cl) que reage com o ozônio decompondo-o em oxigê-
     nio gasoso (O2) e monóxido de cloro (OCl). Disponível em http://www.infoescola.com/
     quimica/cloro luorcarboneto-cfc/. Acesso em: 06 agosto 2010.

                                                                                        25
Gases de estufa       Principais causas

                               Combustão de combustíveis fósseis: petróleo, gás natu-
                               ral, carvão, desflorestação (libertam CO2 quando queima-
                               das ou cortadas).
     Dióxido de Carbono(CO2)   O CO2 é responsável por cerca de 64% do efeito estufa.
                               Diariamente são enviados cerca de 6 mil milhões de tone-
                               ladas de CO2 para a atmosfera.
                               Tem um tempo de duração de 50 a 200 anos.


                               São usados em sprays, motores de aviões, plásticos e
                               solventes utilizados na indústria eletrônica. Responsável
     Clorofluorcarbono (CFC)   pela destruição da camada de ozônio. Também é respon-
                               sável por cerca de 10% do efeito estufa.
                               O tempo de duração é de 50 a 1700 anos.


                               Produzido por campos de arroz, pelo gado e pelas lixeiras.
          Metano (CH4)         É responsável por cerca de 19 % do efeito estufa.
                               Tem um tempo de duração de 15 anos.

                               Produzido pela combustão da madeira e de combustíveis
                               fósseis, pela decomposição de fertilizantes químicos e
       Ácido nítrico (HNO3)
                               por micróbios. É responsável por cerca de 6% do efeito
                               estufa.

                               É originado através da poluição dos solos provocada pe-
           Ozono (O3)
                               las fábricas, refinarias de petróleo e veículos automóveis


31. Dados como esses fazem pensar que é difícil não estabe-
lecermos uma relação direta entre o resultado das ativida-
des industriais e as manifestações de mudanças climáticas no
planeta, que se intensificaram nos últimos 30 anos com o au-
mento da temperatura média global. Nesse sentido, polêmicas
científicas à parte em relação às causas do aquecimento global,
são, no mínimo, sensatos os alertas para que se procure dimi-
nuir urgentemente tais emissões, ou ao menos estabilizá-las.
E é importante levar a sério esses alertas, fundamentados na
sabedoria popular, no princípio da precaução, nas pesquisas
científicas e no cuidado e respeito cristãos pela criação e pela
pessoa humana.
32. Assim, dada a quantidade de dióxido de carbono na atmosfe-
ra, a redução necessária para as emissões seria, segundo o IPCC,

26
da ordem de 50% até 2030; mas é preciso estar atentos a outros
gases, como o óxido nitroso, por exemplo, cuja diminuição reco-
mendada gira em torno de 70 a 80% – meta dificultada porque o
nitrogênio é amplamente utilizado em processos de fertilização
para plantios agrícolas. É necessário assumir responsavelmente
estas propostas, pois no caso de se concretizarem as previsões
de degelo nas regiões polares, haverá ainda mais emissões de
metano e de dióxido de carbono, com novas frentes de pressão
para o aumento da temperatura.


1.5. A energia, tema central nas discussões
     sobre emissão de gases de efeito estufa

1.5.1. As matrizes energéticas disponíveis
33. O impressionante desenvolvimento econômico alcançado com
a industrialização foi possibilitado por matrizes energéticas reno-
váveis e não renováveis.
34. As fontes não renováveis são as que se encontram na natureza
em quantidades limitadas, e, caso se esgotem, suas reservas não
se regeneram rapidamente. Dentre estas se encontram os combus-
tíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) e o urânio (matéria
necessária para obter a energia por processos de issão ou fusão
nuclear). Essas energias são normalmente denominadas de ener-
gias convencionais porque o atual sistema energético depende ba-
sicamente da utilização de combustíveis fósseis. São consideradas
energias sujas, em virtude de promoverem, quando utilizadas, a
liberação de poluentes de consequências danosas para o meio am-
biente e a sociedade: destruição das lorestas e da lora em geral,
contaminação de solos e águas, também promove danos à saúde
humana, deterioração de edi icações etc. O setor é responsável por
pelo menos 37% das emissões de CO₂ de origem humana. Por isso,
                                                                 27
o Protocolo de Kioto,12 de iniu metas de redução das emissões de
gases de efeito estufa em 5,2% para os países mais industrializa-
dos e alto consumo, em relação às emissões de 1990.
35. As fontes de energia renováveis são geralmente consumidas no
próprio local em que ocorre a geração. Trata-se de fontes autócto-
nes e não poluentes. A maioria das energias renováveis não emite
gases de efeito estufa, com exceção da energia obtida com queima
da biomassa. Além disso, são virtualmente inesgotáveis, embora
apresentem variação em termos de quantidade de energia possí-
vel de se extrair, segundo as circunstâncias momentâneas. As prin-
cipais são: energia solar, energia eólica, energia hídrica, energia
oceânica, energia geotérmica e a proveniente da biomassa. Abaixo
segue um esquema que relaciona as fontes energéticas, com os res-
pectivos produtos e utilizações:
      a) Energia solar – O Sol é uma fonte inesgotável de energia.
         A utilização dessa fonte é realizada basicamente por dois
         sistemas: o térmico, no aquecimento de luidos, cuja apli-
         cação principal é o aquecimento de água para uso domés-
         tico e a geração de energia elétrica através de turbinas mo-
         vidas a pressão; o fotovoltaico, que converte diretamente
         a energia solar em energia elétrica, através de painéis de
         células fotovoltaicas. Há avanços signi icativos na geração
         fotovoltaica de energia no planeta, fruto de opções políti-
         cas que a implementam como prioridade. No Brasil, até o
         momento, não está entre as prioridades da política ener-
         gética e o custo é alto, por ser tecnologia importada.


12   Esse Protocolo tem como objetivo irmar acordos e discussões internacio-
     nais para conjuntamente estabelecer metas de redução na emissão de ga-
     ses-estufa na atmosfera, principalmente por parte dos países industrializa-
     dos, além de criar formas de desenvolvimento de maneira menos impactante.
     O Protocolo de Kyoto estabelece metas de redução de gases a serem implantadas,
     algo em torno de 5,2% entre os anos de 2008 e 2012. Na reunião, em Kyoto, oiten-
     ta e quatro países se dispuseram a aderir ao protocolo e o assinaram, dessa forma se
     comprometeram a implantar medidas com intuito de diminuir a emissão de gases,
     dentre eles o Brasil. http://www.brasilescola.com/geogra ia/protocolo-kyoto.htm.
     Acesso em 15 setembro 2010.


28
a) Energia eólica – Por meio de turbinas eólicas se conver-
       te a energia cinética do vento em energia mecânica (para
       moer, bombear água) ou para alimentar um gerador que a
       transforma em energia elétrica.
    b) Energia geotérmica – Numa central de energia geotérmi-
       ca, aproveita-se o calor existente nas camadas interiores
       da Terra para produzir vapor e acionar turbinas de pro-
       dução elétrica.
    c) Energia dos Oceanos – Existem várias formas de se explo-
       rar a energia dos Oceanos. As mais utilizadas são: energia
       das ondas, que consiste em aproveitamento do movimento
       das ondas para acionar turbinas de geração elétrica; ener-
       gia das marés – exige um sistema semelhante ao hidrelé-
       trico, formando-se um reservatório junto ao mar, para que,
       com a maré baixa, as turbinas continuem a produzir.
    d) Energia Hidrelétrica – Consiste no aproveitamento da
       energia mecânica dos cursos d’água para a produção de
       energia elétrica; para potenciá-los, exige-se a construção
       de grandes reservatórios.
    e) Energia de biomassa – A produção energética se realiza
       mediante combustão de materiais vegetais secundários,
       como no caso do bagaço da cana moída. No entanto, emite
       gases de efeito estufa, mas é compensador já que o CO₂
       liberado é contrabalançado pela captura deste gás no pro-
       cesso de crescimento destes vegetais. A combustão direta,
       o biogás e o agrocombustível são algumas das formas de
       se aproveitar essa fonte de energia.


1.5.2. A questão energética, crucial na questão do aquecimento global
36. A questão energética se reveste de grande importância neste
contexto de mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento
global. O crescimento econômico e a vida em sociedade baseados
na industrialização capitalista e socialista foram alavancados pelas

                                                                    29
fontes energéticas não renováveis, como os combustíveis fósseis,
que emitem grandes quantidades de CO₂ e vapor de água, dois dos
principais responsáveis pelo efeito estufa.
37. Dessa forma, a relação entre base energética atual e a necessi-
dade de diminuição drástica de gases de efeito estufa conduz a um
impasse. As previsões de demanda energética apontam para um
crescimento anual de 1,5% até 2030. Essas previsões se chocam
frontalmente com a recomendação do IPCC para que se diminu-
am as emissões de CO2 em 50% até essa mesma data, para que a
temperatura não cresça 2ºC nas próximas décadas. A conclusão é
que esta base energética se mostra inviável diante deste objetivo,
tendo presente que, em 2005, era responsável pela emissão de 63%
dos principais gases de efeito estufa gerados por atividades huma-
nas. No entanto, em 2007 ela respondia por mais de 80% (petróleo
34,4%, carvão 26%, gás 20,5%) do fornecimento da energia neces-
sária para as economias e lares.
38. Se considerarmos que, em 1973, esta base energética corres-
pondia a 86,513 vê-se que, mesmo com a crise do petróleo à época
e com os altos preços praticados, a diminuição do seu uso foi mui-
to pequena. Tanto assim que não existem sinais de diminuição da
presença desta matriz até 2030, conforme dados da Agência Inter-
nacional de Energia (EIA). As reservas disponíveis são su icientes
para manter este consumo por décadas, talvez com preços um pou-
co mais elevados. Atualmente, o perigo não é propriamente a es-
cassez, mas a abundância de oferta destes produtos fósseis. Diante
disso, mesmo que as fontes de energia renováveis cresçam em tor-
no de 7,2% ao ano - um crescimento superior ao de qualquer outra
fonte energética –, não se trata de uma notícia animadora, porque
sua participação no universo energético é ainda pequena.
39. O certo é que, a persistir a atual con iguração de fornecimen-
to de energia, não será possível o cumprimento da meta de limi-
tar a concentração de CO₂ na atmosfera em 450ppm, – ou voltar a


13   www.eumed.net/rev/delos/08/rsg.htm - acesso dia 05 outubro 2010.


30
350ppm, como propõem muitos – para que o aquecimento global
não ultrapasse a média de 2°C. O grande problema é que o mercado
gerenciador e a indústria que opera na produção destas energias
não pretendem perder esta fonte de lucro. Assim, se os governos
não tomarem iniciativas irmes e liderarem esta mudança de para-
digma, a situação tende a agravar-se.




1.5.3. A questão energética e o neodesenvolvimentismo das políticas públicas
40. A emissão de CO₂ no Brasil é inversa à maioria dos países do
planeta. Os dados o iciais de 2005 apontam que 24% das emissões
deste gás provêm do uso de combustíveis fósseis e 76% do uso da
terra, incluídos os desmatamentos e queimadas. A matriz energética
apresenta um per il “limpo”, com o etanol e as hidroelétricas, além da
energia de biomassa. Assim, dados do Balanço Energético Nacional
(BEM) de 2008, tendo como base o ano de 2007, indicam que 45,9%
da produção de energia no país são resultantes de fontes renováveis.
41. No entanto, é preocupante o direcionamento que as recen-
tes decisões do governo estão conferindo à questão das fontes

                                                                         31
energéticas em nosso país. Hoje, a região amazônica é palco de
grandes projetos hidroelétricos, como as usinas Jirau e Santo An-
tônio, no Rio Madeira, em Rondônia, Belo Monte e Tapajós, no Pará,
além de muitas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) espalhadas
pelo país e os acenos de expansão da matriz energética atômica.
E, em meio às di iculdades mundiais de contenção das emissões
de CO₂, o governo praticamente ignora o potencial oferecido pelo
nosso imenso território para a implementação e expansão da ener-
gia solar e da eólica. Pode-se estabelecer paralelo com o ocorrido
no passado quando, com desprezo ao meio ambiente e à socieda-
de local, foram construídas as hidrelétricas de Samuel, Balbina e
Tucuruí e foi abandonado o primeiro Pró-Álcool. Essa postura go-
vernamental se explica pela guinada neodesenvolvimentista assu-
mida pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que busca
incrementar o crescimento a qualquer custo, com clara ausência
de preocupações ambientais.
42. A Amazônia, tão valiosa para o país e para a humanidade, pa-
rece ser vista pelo governo como um vazio demográ ico e impro-
dutivo que, ao menos, deve produzir energia, mesmo a despeito
do alto custo para a sua biodiversidade. Há indícios, também, de
que o governo quer incrementar a produção de energia nuclear,
o que exigiria a construção de várias usinas nucleares, cujos resí-
duos permanecem radiativos por muitíssimos anos. Igualmente o
programa Pré-Sal exige dispêndio de fortunas para a extração de
um produto altamente poluente, cujo processo pode resultar em
desastres ambientais incalculáveis, como o ocorrido no golfo do
México, no ano passado. Por im, o projeto governamental de trans-
formação do etanol em commodity, sob a alegação de se tratar de
um e iciente modo de substituir os combustíveis fósseis, parece
esquecer a pressão por mais e mais terras para a produção, em
detrimento da produção de alimentos.
43. A lógica destes projetos energéticos está na contramão das me-
didas necessárias para diminuir ou conter o aquecimento global e
impedir que a desestabilização do clima coloque em risco as condi-
ções de vida no planeta. A lógica neodesenvolvimentista, ilustrada

32
pelo PAC, atende, especialmente, a interesses do capital, de investi-
dores, da indústria das grandes obras, ávidos por lucro. Certamen-
te, a consequência imediata é a dúvida sobre as reais intenções do
Brasil em relação ao compromisso de contribuir para o controle
das emissões de gases de efeito estufa.


1.6. O desmatamento da Floresta Amazônica,
     uma afronta à crise global do clima
44. As estimativas apontam que 50% das emissões de gases de
efeito estufa no Brasil, diferentemente do resto do mundo, são re-
sultantes de ações de desmatamento e queimadas. Na verdade, to-
dos os biomas brasileiros estão afetados por ações devastadoras.
45. A Amazônia se constitui hoje na maior loresta tropical do pla-
neta, com uma área de aproximadamente cinco milhões e meio de
km² de mata contínua, dos quais 60% se encontram em território
brasileiro. O desmatamento da loresta amazônica é monitorado
por diversas instituições e com diferenciadas metodologias. Nas
décadas de 1980 e 1990 constatou-se que o desmate médio atin-
giu 20 mil km²; em 1995, registrou-se um pico de 29.059 km² e, em
2004, outro número assustador: 27.400 km².
46. Uma das maiores autoridades sobre assuntos relacionados à
Floresta Amazônica, Philip Fearnside.14 analisa a atuação do Go-
verno em relação ao processo de desmatamento. Segundo ele, nos
últimos anos, a reação do governo diante dos anúncios de desmate
na região da Amazônia, sempre divulgados pelo Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (INPE), tem se caracterizado em identi icar
prontamente algum culpado em casos de aumentos impactantes,
como o plantio de soja, cultivo de bois, etc. Em reação às notícias ne-


14   Philip M. FEARNSIDE, Consequências do desmatamento da Amazônia. Scienti ic Ameri-
     can, p. 56 Edição especial – n. 39. Philip M. Fearnside é pesquisador titular do Departa-
     mento de Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus.
     De acordo com recente levantamento, Fearnside é o segundo cientista mais citado do
     mundo quando o tema é aquecimento global. Disponível em http://www.eco21.com.
     br/textos/textos.asp?ID=1515. Acesso em: 11 agosto 2010.

                                                                                           33
gativas sobre o aumento do desmatamento, frequentemente se anun-
cia alguma medida, quando não um “pacote de medidas”. Se a notícia
é positiva, dando conta da diminuição do desmatamento, mesmo
que mínimo, o mérito é do Governo. O articulista critica a diretriz go-
vernamental de combate ao desmatamento da loresta amazônica,
exposta no Plano Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC), a ir-
mando que, embora a repressão ao desmatamento tenha produzido
algum efeito, os planos de implantação de infraestrutura, somado à
legalização de grandes áreas de terras antes na ilegalidade, apontam
necessariamente para o crescimento do desmatamento.
47. Segundo Fearnside, no PNMC lançado em ins de 2008, não
existem metas de desmatamento e sim objetivos voluntários. De
modo que não há uma ligação com os compromissos formais da
Convenção do Clima,15 o que resulta em lexibilização dos objeti-
vos. E mais, a queda no desmate da Amazônia não é de 40%, como
enfatiza o documento, porque a argumentação, articulada em torno
dos números do desmate entre 2006-2009, “é relativa a uma linha
de base que é a taxa média de desmatamento no período 1996-2005,
quando o desmatamento médio era de 19.508km²/ano tornando o
alvo de 40% para 1996-2005 igual a 11.705km²/ano”16. Assim, a
permissão para o quadriênio 2006-2009, seria de 11.705 km²/ano
que, multiplicado por quatro, totaliza 46.819 km². E como o des-
matamento realizado entre os anos de 2006-2008 chegou a 38.740
km², restaram 8.079 km² para serem derrubados em 2009. Esses
números permitem concluir que, o icialmente, ainda se permite o
desmatamento a níveis gigantescos.
48. E no artigo, o estudioso ainda diz que o objetivo proposto para
o desmatamento da loresta Amazônica para o próximo quadriê-
nio (2010-2013) é de 30% abaixo do registrado no período ime-
diatamente anterior (2006-2009), ou 30% de 46.819 km²/ano


15   A Convenção sobe a Mudança do Clima, tem como objetivo estabelecer os programas de
     proteção da atmosfera, visando reduzir a emissão de gases que podem estar alterando
     o clima do planeta.
16   Idem.


34
distribuídos em quatro anos. Dessa forma, a permissão o icial para
o desmate seria de 8.193 km²/ano. Para os anos compreendidos
entre 2014-2017, aplicando a redução dos 30% em relação à mé-
dia anterior, temos a quantia de 5.735 km²/ano. Desse modo, se
somarmos a concessão o icial para o desmate no período entre
2009-2017, chega-se à cifra de 80.112 km² de loresta derrubada,
o equivalente a três Bélgicas.
49. A média, nesses nove anos, daria 8.901 km²/ano, apontando
um aumento em relação a 2009, quando o icialmente se tolerava a
derrubada de 8.193 km²/ano. De modo que, num aparente passe
de mágica, o “objetivo” de redução de 40% acaba resultando em
aumento efetivo no desmatamento. O PNMC propõe “desmatamen-
to zero ilegal” para a Floresta Amazônica a partir de 2017. Mas esse
enunciado equivale a abrir uma brecha para o desmate de cunho
legal, que o próprio PNMC presume ser da ordem de 5.000km²/
ano. A irma ainda o autor que há brechas na legislação atual que,
manipuladas, permitem derrubadas de até 80% das áreas das pro-
priedades legalizadas em solo amazônico.


1.7. O agronegócio, estratégico para
     o neodesenvolvimentismo
50. Os alimentos, os recursos primários e absolutamente neces-
sários para a vida, atualmente, são gerenciados por um merca-
do denominado commodities. O interesse de quem comanda este
mercado é o lucro, não a disponibilização de alimentos para todas
as pessoas. Além do mais, trata-se de um mercado dominado por
poucas empresas que monopolizam o mercado internacional, im-
pondo preços segundo suas conveniências. Esse procedimento in-
troduz um desequilíbrio neste comércio, alavancado pela prática
de subsídio à agropecuária pelos países desenvolvidos.
51. O resultado destas distorções se re lete nos preços relativa-
mente baixos dos alimentos, o que, em tese, parece muito bom.
Porém, na prática é um desequilíbrio que pesa sobre os pequenos

                                                                  35
agricultores que, ao se sujeitarem a comercializar seus produtos
pelos preços das commodities, estão subsidiando a alimentação dos
moradores das cidades. Diante desse quadro, a conclusão é que esse
mercado foi desenhado para os grandes produtores, para os que
detém grande capital e podem fazer uso da tecnologia e produzir
segundo o modelo industrial ou especializando-se (monocultura,
tecnologia, máquinas possantes, fertilizantes, agrotóxicos, semen-
tes modi icadas geneticamente, e o mesmo na produção de carnes:
manipulação genética, clonagem, utilização de certas substâncias
para engorda precoce). Essa prática, além de alijar os pequenos
produtores, também reduz o número de empregos, como na indús-
tria. É um modelo que não tem nenhuma sensibilidade para com os
pobres. Gera mais pobres que já não têm condição de retirar o seu
sustento e se transferem para as cidades. Ali, sem a devida prepa-
ração técnica, se defrontam com o reduzido número de postos de
trabalho e, em sua grande maioria, acabam na marginalização.
52. Esse sistema produtivo, denominado agronegócio, não se mos-
tra preocupado com o meio ambiente. Desmata impiedosamente.
É atividade que desperdiça e consome 70% da água doce utiliza-
da no mundo. Os seus fertilizantes, além de contaminarem lagos
e rios, já são causadores de zonas mortas nas águas marítimas li-
torâneas. Nesse modelo, questiona-se o compromisso para com a
sustentabilidade da natureza e sua biodiversidade.
53. Enquanto agronegócio, a agricultura assume grande importân-
cia, pois, juntamente com a exportação de bens primários, como
minerais, contribui para que o Brasil tenha recursos para pagar o
dé icit resultante das transações de mercadorias e serviços com o
mundo, bem como os custos da dívida externa e interna, que, so-
mada, está perto de 2 trilhões de reais. Por esse motivo, o setor tem
sido privilegiado pelos últimos governos com políticas de inan-
ciamento a baixíssimo custo, cancelamentos de dívidas e condes-
cendência para com os crimes ambientais. Diante disso, pode-se
entender a proposta apresentada pelos representantes do agrone-
gócio e apoiada por membros de partidos aliados ao governo, em
meados de 2010, com o intuito de lexibilizar o Código Florestal
Brasileiro e abrir novas brechas para a expansão agrícola.

36
54. Em meio à crise ambiental global, estas medidas surpreendem
porque apontam na direção de concessão de facilidades para o
aumento da degradação dos bens da natureza; ou seja, na direção
contrária à que requer de todos responsabilidade e cuidados para
com o meio ambiente. E se não bastasse, o projeto ainda inclui o
perdão para infrações cometidas no passado, que, segundo o Mi-
nistério do Meio Ambiente, chegam ao montante de 10 bilhões de
reais. Sendo medida que geraria aumento do desmate e queima-
das, também traria di iculdades para que o governo cumpra seus
compromissos de redução de gases de efeito estufa, especialmente
o dióxido de carbono.
55. Considerando a importância da biodiversidade para que o pla-
neta se mantenha em um equilíbrio necessário para oferecer as
condições atuais à vida, e o atual estado de devastação de nossos
biomas, tudo isso causa ainda maior estranheza. Con irma, no en-
tanto, a importância do agronegócio na estratégia neodesenvolvi-
mentista, e explica porque o cuidado com o meio ambiente é visto
como um empecilho ao crescimento econômico.


3. O modelo de desenvolvimento atual
   e suas consequências
56. A concepção de crescimento linear, contínuo, vem sendo con-
testada por estudos publicados em relatórios da ONU, da Organi-
zação para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Orga-
nização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE),
da UNESCO, FAO e outras organizações.17 Essas informações asse-
guram que, segundo os padrões atuais de produção e consumo,
não obstante as gritantes desigualdades, a humanidade consome
um quarto a mais dos bens de que o planeta pode efetivamente
disponibilizar. O processo de globalização tende a padronizar um




17   Cf. Dominique VOYNET. Que limites e que tipo de desenvolvimento? In. p. 35

                                                                                  37
estilo de vida baseado no consumo excessivo por parte de 20% da
humanidade, aumentando os gastos destes recursos.18
57. Por isso, “vivemos uma icção: sabemos, mas não acreditamos
que sabemos. A negação da realidade é parte e parcela do produti-
vismo: para continuar esbanjando os recursos do mundo, precisa-
mos de um mecanismo de negação e ignorância intencional... Esse
mecanismo não é totalmente efetivo individual ou globalmente:
ele gera ansiedade e agressividade ou, pelo contrário, a necessida-
de de rea irmação mais ou menos cega, como a oferecida pelo pro-
gresso tecnológico ou pelo crescimento, com todos os paradoxos aí
envolvidos”.19
58. Podemos veri icar o paradoxo em relação aos avanços tecno-
lógicos pela utilização de determinadas técnicas em franca proli-
feração, como a nuclear, algumas nanotecnologias e Organismos
Geneticamente Modi icados (OGMs). Pairam muitas descon ianças
sobre estas tecnologias, mas ao mesmo tempo existe uma con ian-
ça tal nas ciências e na tecnologia, que nos habituamos a esperar
pelas suas soluções salvadoras, especialmente em muitas das si-
tuações perigosas ou problemáticas, inclusive as relacionadas ao
meio ambiente. Dessa forma, o olhar tende ao horizonte de um
futuro próximo, esperançoso pelos artefatos ou maquinações sal-
vadoras das ciências, crendo que isso, inevitavelmente, se concreti-
zará. Entrega-se o planejamento do futuro e estas forças, e isso leva
a um estilo de vida envolto em tecnologias e realidades virtuais e,
consequentemente, mais distantes das energias da natureza.
59. A irma-se o modelo atual de desenvolvimento como caminho
para a solução de problemas que assolam as sociedades: a desi-
gualdade, a saúde, a educação, os de meio ambiente. No entanto,
mesmo com o registro de crescimento econômico, estes problemas


18   Como ilustração, alguns exemplos: gastam-se 11 toneladas de materiais naturais não
     renováveis para produzir um único microcomputador e 32 quilos de materiais naturais
     não renováveis e 8.000 litros de água na produção de um único jeans. Dominique VOY-
     NET. Que limites e que tipo de desenvolvimento? In. p. 35.
19   Ibidem. p. 37.


38
estão sempre em pauta e o que é pior, aumentando, pois a riqueza
gerada em meio às disparidades reinantes nas sociedades, acaba
concentrada em poucos, e contemporaneamente, a maioria do ca-
pital acaba gerenciado por grupos de investimento, aos quais so-
mente interessa o lucro.
60. Segundo a lógica deste sistema, as empresas multinacionais,
mesmo as que, por exemplo, declaram alguma preocupação com as
problemáticas da vida no planeta e procuram patrocinar alguma ini-
ciativa com esta inalidade, primeiramente visam preservar os inte-
resses dos seus investimentos, além de considerar muito onerosa a
transição para a sustentabilidade do planeta. Os trabalhadores aca-
bam comungando com esta lógica pensando nos postos de trabalho,
e os governos, geralmente, fecham os olhos em um cenário de cor-
rupção e tomam decisões em vista das eleições vindouras.20
61. O diagnóstico já está claro: é impossível a manutenção desta es-
calada de crescimento e consumo que se globaliza a passos largos
mundo a fora, fomentado por um mercado inanceiro impessoal que
almeja unicamente o lucro, e que, ao pregar a e iciência, descarta
empregos e o próprio trabalhador sob o argumento de “sociedades
de plena atividade”, não mais de pleno emprego. Mas os governos
das nações não parecem dispostos a renunciar facilmente a esta
ideologia do crescimento; as pessoas, sobretudo as mais abastadas,
também não se mostram dispostas a mudanças de hábitos; igual re-
sistência mostram os que vão escalando os estratos da sociedade,
pois, com acesso a inanciamentos, podem consumir mais. É o que se
pode ver no caso do avassalador aumento do número de automóveis
nas ruas, também nos países em desenvolvimento. É importante
esclarecer, contudo, que não se está negando o direito ao necessá-
rio consumo das pessoas que, até hoje, passam fome, sede, não têm
casa, saneamento, bens essenciais à dignidade da vida; pelo contrá-
rio, é necessária a diminuiçao do consumo das elites mundiais para
suprir as necessidades dos mais empobrecidos.


20   Cf. Dominique VOYNET. Que limites e que tipo de desenvolvimento?, p. 39.

                                                                                39
62. Certamente há um sistema de valores subjacente, ancorado no
consumo e na competição, acirrando as individualidades e di icul-
tando a convergência para um ponto em comum. Por isso, o que,
ao inal das contas, deve ser re letido e colocado em questão é o
próprio paradigma civilizacional que caracteriza o Ocidente e as
opções éticas que norteiam as pessoas dentro deste contexto. En-
tretanto, da magnitude da crise ecológica, que coloca as condições
de vida em grave perigo, exigindo mudanças o mais rápido possível
em nossa arquitetura civilizacional e postura ética, descortina-se
um horizonte para que, desta crise, irrompa uma nova proposta
de organização da vida em nível pessoal e social, pautada na in-
clusão. Ela requer a solidariedade entre todas as pessoas, e deve
estender-se ao próprio planeta, que não pode mais ser visto como
mero fornecedor de matéria-prima para as nossas necessidades e
caprichos; o planeta também tem suas próprias necessidades. Eis
portanto, a oportunidade para que a humanidade se reestruture
criativamente e caminhe por uma via menos ambiciosa e destruti-
va, mais inclusiva, harmoniosa e saudável.


4. A vida e suas dores no contexto do aquecimento global

4.1. Biodiversidade ameaçada
63. Biodiversidade21 é um termo recente que procura abarcar e
de inir a diversidade biológica em todas as suas formas: ecossis-
temas, espécies e genes. A biodiversidade que conhecemos foi se
constituindo ao longo de mais de três bilhões de anos e estima-se
que chegue a cerca de 10 milhões de espécies na Terra, das quais
apenas um décimo é conhecido. A biodiversidade é de suma im-
portância, pois, “salvaguarda uma série de processos vitais para o


21   O termo é de autoria de Edward O. Wilson. Trata-se da palavra do ano 2010, consa-
     grado como o Ano Internacional da Biodiversidade. Em outubro deste ano, realizou-se
     na cidade japonesa de Nagoya a 10ª Conferência da Diversidade Biológica (COP – 10),
     visando avaliar metas e estabelecer novas entre os países signatários, como o Brasil.


40
planeta e a humanidade, os chamados serviços ambientais. Esses
serviços são diversos, e sem eles a vida, como a conhecemos, ica se-
riamente comprometida. A título de exemplo, alguns serviços am-
bientais que têm a biodiversidade como fundamento são: a) equi-
líbrio do clima; b) qualidade e quantidade de água; e c) produção
de alimentos”.22 Portanto, a perda da diversidade implica em mu-
danças climáticas, e o des lorestamento é considerado o segundo
fator em importância na re lexão acerca das possíveis causas das
mudanças que afetam o clima.
64. Entretanto, a biodiversidade encontra-se seriamente ameaça-
da. Mesmo sendo di ícil precisar a taxa de extinção, estima-se que
esteja cem vezes mais alta que a do passado geológico. Esta perda
se caracteriza por ser irreversível, sobretudo se em larga escala.
A extinção atual se deve a alguns fatores: o impacto das mudan-
ças climáticas, con inamento das espécies em faixas limitadas de
onde não podem escapar, destruição das lorestas tropicais e dos
recifes de corais, onda de espécies invasoras, pesca marítima pre-
datória. A continuidade destas situações pode signi icar a perda,
em pouco tempo, da metade da diversidade atualmente existente
e seria um desastre de proporção inestimável. Ao passo que, para
evitar este desastre, seria su iciente o investimento de 0,1% do PIB
mundial, ou 50 bilhões de dólares, para a preservação dos 34 hot
spots,23 que, somados, resultam numa área que representa só 2,3%
da super ície do planeta, e abrigaria 50% de todas as espécies co-
nhecidas de plantas vasculares e de 42% dos mamíferos, pássaros,
répteis e an íbios.
65. No contexto atual, em que são mais expostos os problemas do
meio ambiente, a sensibilidade da mídia e de grande parte das pes-
soas tende a ser fragmentada, isto é, se volta para esta ou aquela


22   SCARANO R. F., GASCON C., MITTERMEIER A. R., O que é biodiversidade? In SCIENTIFIC
     AMERICAN, nº 39 (Edição especial) 2010, p. 8.
23   Os hotspots, ou “pontos quentes” de biodiversidade são 34 áreas no planeta que se ca-
     racterizam por combinar altas taxas de perda de habitats com elevada diversidade de
     espécies e grande taxa de endemismo. No Brasil, Mata Atlântica, e Cerrado se encaixam
     nesta categoria. Cf. Idem.

                                                                                       41
loresta, para este ou aquele animal, sobretudo se em perigo de
extinção. No entanto, é condição, para salvaguardarmos o planeta
de um aquecimento global destrutivo, a preservação da biodiver-
sidade como um todo. Uma loresta natural não cresce sem a ação
de outros seres que ali constituem um complexo vital sustentável,
o que inclui até os micro-organismos.24


4.2. O escândalo da miséria e o aquecimento
     global
66. A população mundial ultrapassa os 6,5 bilhões de pessoas, o que
representa grande pressão por alimentos. Felizmente, a humanida-
de se encontra em condições de suprir toda esta demanda. No en-
tanto, segundo dados mais recentes de organismos da ONU, cerca de
um bilhão de pessoas ainda sofrem com a fome.25 Trata-se de uma
grave contradição, uma vez que esta situação de fome acontece num
tempo de farta produção de gêneros alimentícios. Mas esta injusti-
ça também gera pressões sobre a integridade do meio ambiente, da
fauna e lora, únicos recursos para as pessoas nestas condições. A
Cúpula do Milênio, realizada em New York no ano de 2000, traçou
como meta a erradicação da fome e da miséria, mas o fato persiste e
tende a se agravar com o aquecimento global e as mudanças climá-
ticas. Dessa forma, o sofrimento desses que são os mais atingidos
pelas mudanças climáticas tende a apresentar piora.
67. Em meio à problemática do meio ambiente, é oportuno chamar
a atenção para a questão da fome no mundo, que corre o risco de
 icar na sombra da abordagem sobre o crescimento populacional.
Muitas pessoas e mesmo organismos internacionais tendem a taxar
este crescimento como agravante dos problemas ambientais, pois


24   É também denominada de “matéria escura” da biodiversidade, constituindo-se em um
     enorme vazio no mapa da biologia, é composta por bactérias. Existem em torno de dez
     bilhões delas em um único grama de terra, representada por 5.000 a 6.000 espécies. Cf.
     Edward O. Wilson, O estado da biodiversidade Global. In Fazendo as pazes com a Terra,
     p. 103.
25   STERN, Nicholas. Sinais do Tempos, in Folha de São Paulo, 03-11-2008, p. 18.


42
exige mais terras e água para a produção de alimentos. Diante des-
se fato, alguns organismos chegam a propor a nível internacional,
programas de redução das taxas de crescimento populacional. Por
isso é bom rea irmar que, “a fome não é uma questão de disponibili-
dade, mas de solvibilidade; trata-se de um problema de miséria”,26 pois
“no mundo inteiro, existe alimentos para todos”.
68. A situação de miséria extrema tem grande impacto na biodi-
versidade, pois a grande massa de pobres e as maiores riquezas
em biodiversidade se encontram em países em desenvolvimento
ou subdesenvolvidos. Em geral, o único recurso com o qual podem
contar na dramática luta pela sobrevivência advém da nature-
za que têm à disposição. “Os pobres, principalmente os quase um
bilhão que são completamente desprovidos, têm pouca chance de
melhorar seu quinhão em um ambiente cada vez mais devastado.
Inversamente, os ambientes naturais onde a maior parte da diversi-
dade se encontra não podem sobreviver à pressão de pessoas ávidas
por terra”.27 Nesse sentido, a preservação da biodiversidade, tão
necessária neste contexto de aquecimento global, também passa
pelo problema da pobreza e da fome. Esta situação nos remete à
abordagem dos mecanismos de produção, apropriação e comercia-
lização dos bens agropecuários, um tema que cada dia mais ganha
relevância no contexto de crise ambiental. No Brasil, por exemplo,
mais de 70% dos alimentos são produzidos pela agricultura fami-
liar camponesa, e não pelo agronegócio.


4.3. O êxodo rural, êxodo da natureza
69. O fomento da vida urbana é um dos grandes traços da indus-
trialização. Temos um exemplo bem recente na China, na cidade
de Chongqing: até o início do processo de industrialização deste
país, não passava de um vilarejo; acolheu, em média, entre 1998



26   PONTIFÍCIO CONSELHO “Cor Unum”. A fome no mundo. São Paulo: Paulinas, 1996, n. 19.
27   Michel LOREAU, Fazendo as pazes com a Terra, p. 105.

                                                                                          43
e 2004, 300 mil pessoas por ano. “A maior parte dessa gente era
de migrantes do interior que vieram em busca de emprego nas fá-
bricas, ou como empregadas domésticas, trabalhadores braçais ou
milhares de outros empregos que apresentavam a promessa de uma
vida nova para eles e seus ilhos ”.28 A instalação desta maré humana
inchou o espaço urbano: “a cidade propriamente dita tinha de se
expandir, em tamanho, em pelo menos vinte quilômetros quadrados
por ano a partir de 1998. Em 2004, com a aceleração da migração
de áreas rurais, cerca de 25km2 de novas casas, fábricas, estradas,
estradas de ferro, portos e outras infraestruturas urbanas tiveram
de ser construídos”.29
70. Essas grandes concentrações humanas normalmente degra-
dam o meio ambiente e tornam críticas as condições para a vida,
especialmente quando o crescimento é repentino. As pessoas resi-
dentes nestes grandes espaços urbanos, além de conviverem com
uma atmosfera nada saudável, agora também têm convivido cada
vez mais com as consequências das intensas chuvas: enchentes,
deslizamentos, destruição de moradias. No entanto, estas situ-
ações tornam-se mais dramáticas devido à ocupação de espaços
sem nenhuma consideração ao meio ambiente.


4.4. A água
71. A Assembléia Geral da ONU, em vinte e oito de julho de 2010,
com 122 votos a favor e 41 abstenções, aprovou uma resolução
a irmando que a água e o saneamento básico são direitos huma-
nos essenciais. E, ao mesmo tempo, pede aos governos e organis-
mos internacionais que intensi iquem os esforços para sanar essas
carências. A aprovação dessa medida, mesmo que de caráter não
obrigatório, coloca em evidência, entre as problemáticas referen-
tes aos recursos hídricos, esta questão que é primordial para 2/3



28   James KINGE. A China sacode o mundo. São Paulo: Globo, 2007, p. 48.
29   Idem. p. 48-49.


44
da humanidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca
de 13%, ou algo próximo a 900 milhões, vivem sem acesso a água
potável, e 39%, ou aproximadamente 2,6 bilhões de pessoas, não
dispõem de saneamento básico. Na América Latina, 85 milhões de
pessoas não têm água potável e 115 milhões vivem sem saneamen-
to básico. Esta situação é apontada como responsável direta pela
morte de 1,5 milhão de crianças com menos de cinco anos de ida-
de, vitimadas por diarréia.30
72. A aprovação desta resolução é signi icativa, pois, neste contexto
de aquecimento global e de mudanças climáticas, a tendência é que
os debates relativos à problemática da água, sejam monopolizados
por uma eventual crise de oferta de água potável num futuro pró-
ximo. No entanto, não é admissível que previsões alarmistas como
esta, acenando inclusive para eventuais guerras por este produto,
deixem em segundo plano um problema como o exposto acima, que
aponta para as inalidades genuínas da gestão dos bens hídricos:
a mitigação da pobreza e a redistribuição de renda. Além disso, é
indispensável a revisão dos usos da água doce e dos desperdícios,
colocando no centro o direito humano e de todos os animais e da
própria Terra. E tudo isso tendo presente que os especialistas têm
se mostrado competentes em analisar com precisão situações pas-
sadas e atuais, mas ainda não estão em condições de avaliar com
o mesmo rigor os possíveis desdobramentos futuros, tendendo a
previsões de carestia de água potável.31


4.4.1. As águas oceânicas
73. Os    Oceanos são itens da maior importância na temática das
águas.    As costas litorâneas abrigam, em nossos dias, quase dois
terços    da população mundial, e estima-se que, até 2030 chegue
a três    quartos. Além disso, os oceanos governam o clima e as

30   Disponível em http://www.portugues.r i.fr/ciencias/20100322-dia-mundial-da-agua-
     884-milhoes-vivem-sem-agua-potavel. Acesso em: 06 agosto 2010.
31   Asit K. BISWAS. Quo Vadis, mundo da água?. In Fazendo as pazes com a Terra: qual o
     futuro da espécie e do planeta?, UNESCO, São Paulo: Paulus, 2010. p. 53.

                                                                                    45
condições meteorológicas, mediante as distribuições planetárias
de calor e água doce. No entanto, passam por mudanças tão rápi-
das e abrangentes que põem em risco as áreas costeiras e a própria
humanidade, pois alguns eventos ísicos como tsunamis, furacões,
tempestades tropicais, proliferação de algas, derramamento de
óleo e eutro ização,32 são altamente destrutivos.33
74. O conhecimento da humanidade sobre os Oceanos ainda é preli-
minar, mas é certo que a biodiversidade do fundo dos mares é com-
patível com as encontradas em lorestas primárias e tropicais. Acon-
tece que também esta biodiversidade está sofrendo com o aumento
das emisões de dióxido de carbono (CO₂), pois os Oceanos absorvem
um terço destes gases emitidos pelas atividades do ser humano. Mas
com o aumento da temperatura pode ocorrer um desequilíbrio na
cadeia alimentar desta biodiversidade. Nesta condição os ictoplanc-
tons não se reproduzem na mesma quantidade e, como eles se cons-
tituem em alimento para os zooplanctons, que alimentam os peixes
e provável que se acentue a diminuição destes últimos. Praticamente
40% dos recursos pesqueiros marinhos do Atlântico se encontram
superexplorados e outros 30% totalmente explorados. Outro pro-
blema é o aumento de poluentes como esgoto, lixos, toxinas carrega-
das via atmosfera, envenena os oceanos diariamente.
75. As águas oceânicas passam por um processo de acidi icação,
no qual a água do oceano torna-se corrosiva, como resultado da
absorção do dióxido de carbono (CO₂), presente na atmosfera. A
mudança na química da água afeta a vida marinha particularmente
organismos com estruturas de carbonatos de cálcio, como corais,
moluscos, mexilhões e pequenas criaturas dos estágios iniciais da



32   É um fenômeno que re lete a oferta em excesso de nutrientes a uma determinada
     massa de águas. Resulta no aumento de algas que em excesso, colorem as águas de
     um tom esverdeado. Mas quando começam a morrer, empobrecem estas mesmas de
     oxigênio provocando a morte de peixes e outros animais, originando um cheiro desa-
     gradável. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eutro iza%C3%A7%C3%A3o.
     Acesso em: 02 agosto 2010.
33   Cf. Jérôme BINDÉ. O que o futuro reserva para os oceanos? In Fazendo as pazes com a
     Terra, p. 107-108


46
cadeia alimentar. Em consequência, diminui a absorção de dióxido
de carbono (CO₂) pelas águas e seres vivos oceânicos34.
76. As águas oceânicas também in luenciam decisivamente na for-
mação do clima, pois exercem as funções de reservatório e trans-
portador de calor no sistema planetário. Assim, a relação entre
águas oceânicas e atmosfera se encontra naturalmente nas varia-
ções climáticas anuais, em fenômenos já bem conhecidos como
o El Niño, com interferências na regulação das chuvas e até tem-
pestades. E, se as previsões de aumento da temperatura se con ir-
marem, até o inal do século o Ártico pode icar sem gelo, e, neste
caso, as previsões falam de aumento considerável do nível do mar,
o que certamente provocaria grandes transtornos às populações
costeiras.35


5. A comunidade mundial e as mudanças climáticas
77. É evidente que a comunidade mundial tem se preocupado com
a questão do meio ambiente. Diversos esforços são envidados por
órgãos o iciais e por entidades da sociedade civil organizada, por
igrejas, tanto na re lexão como na ação, seja de ordem educativa,
intervencionista ou contestatória. A ONU promove e coordena
atividades importantes neste sentido, desde a década de setenta.
Apresentamos em linhas gerais este histórico.
78. Em 1972, aconteceu o primeiro encontro internacional que tra-
tou sobre a relação entre o desenvolvimento e o meio ambiente, e
 icou conhecido como Conferência de Estocolmo. A Conferência foi
tensa, polarizada entre “crescimento zero” e “crescimento a qual-
quer custo” e, para sua superação, foi proposta uma abordagem



34   http://portalbrasilambiental.blogspot.com/2008/05/aquecimento-global-e-acidi i-
     cao-dos.html. Acesso em 15 setembro 2010.
35   O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da
     ONU, previu em um relatório de 2007 que o aumento máximo do nível do mar icaria em
     torno dos 59 centímetros, até o inal do século com o derretimento de geleiras. http://
     www.melodiaweb.com/Sessao.aspx?cod=592. Acesso em 15 setembro 2010.

                                                                                        47
ecodesenvolvimentista, segundo a qual o processo de desenvolvi-
mento exige equacionar e iciência econômica, equidade social e
equilíbrio ecológico, tendo, como centro das relações, o ambiente
e o ser humano. A proposta de Estocolmo, com 23 artigos, aponta
a pobreza como causadora da degradação ambiental, apoia o cres-
cimento com equilíbrio e mostra preocupação com o crescimento
populacional.36
79. O passo seguinte icou conhecido como Protocolo de Montreal,
concluído em 16 de setembro de 1987. A questão central versou
sobre substâncias que empobrecem a camada de ozônio. Foi pro-
posto um tratado internacional sobre o tema: “os países signatários
se comprometem a substituir as substâncias que se demonstrou es-
tarem reagindo com o ozônio (O3) na parte superior da estratosfera
(conhecida como ozonosfera). O tratado esteve aberto para adesões
a partir de 16 de Setembro de 1987 e entrou em vigor em 1º de Ja-
neiro de 1989. Ele teve adesão de 150 países e foi revisado em 1990,
1992, 1995, 1997 e 1999. Devido à essa grande adesão mundial, Ko i
Annan disse sobre ele: ‘Talvez seja o mais bem sucedido acordo inter-
nacional de todos os tempos…”.37
80. Esse processo teve continuidade com a Eco 92, realizada entre
3 e 14 de junho de 1992 no Rio de Janeiro, com o objetivo principal
de: “buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico
com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra”. “A Confe-
rência do Rio consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável
e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao
meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos paí-
ses desenvolvidos. Reconheceu, ao mesmo tempo, a necessidade de os
países em desenvolvimento receberem apoio inanceiro e tecnológi-
co para avançarem na direção do desenvolvimento sustentável. Na-
quele momento, a posição dos países em desenvolvimento tornou-se


36   Cf. Disponível em http://amaliagodoy.blogspot.com/2007/09/desenvolvimento-sus-
     tentvel-evoluo_16.html. Acesso em: 10 março 2010.
37   Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Montreal. Acesso em:
     10 março 2010.


48
mais bem estruturada e o ambiente político internacional favoreceu
a aceitação pelos países desenvolvidos de princípios como o das res-
ponsabilidades comuns, mas diferenciadas. A mudança de percepção
com relação à complexidade do tema deu-se de forma muito clara
nas negociações diplomáticas, apesar de seu impacto ter sido menor
do ponto de vista da opinião pública”.38
81. O Protocolo de Kyoto, realizado nesta cidade japonesa em 1997,
procurou discutir providências para se controlar o aquecimento
global: “O documento estabelece a redução das emissões de dióxido
de carbono (CO2) e outros gases do efeito estufa, nos países indus-
trializados. Os signatários se comprometeriam a reduzir a emissão
de poluentes em 5,2% em relação aos níveis de 1990. A redução se-
ria feita em cotas diferenciadas de até 8%, entre 2008 e 2012. Para
entrar em vigor, porém, o documento precisa ser rati icado por pelo
menos 55 países. Entre esses, devem constar aqueles que, juntos, pro-
duziam 55% do gás carbônico lançado na atmosfera em 1990”.39 No
entanto, Estados Unidos, Canadá e Austrália não assinaram este
Protocolo, não se comprometendo com suas metas, sob a alegação
de que o documento estaria exigindo redução de emissões somen-
te aos países mais ricos, ao passo que nações em desenvolvimento
como Brasil, Índia e China, que também são grandes emissores de
gases poluentes, permaneceriam desobrigados.40
82. O passo seguinte foi a Rio 10+, que aconteceu entre 26 de agos-
to e 4 de setembro na África do Sul e avaliou o progresso feito na
questão ambiental durante a década transcorrida desde a Eco-92.
Em 1997, durante uma sessão especial da Assembleia Geral das
Nações Unidas (chamada de “Rio +5”), percebeu-se que existiam
diversas lacunas nos resultados da “Agenda 21”. A assembleia
detectou a necessidade de rati icação e implementação mais


38   Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/ECO-92. Acesso em: 10 março 2010.
39   Disponível em http://www.gaia-movement.org/Article.asp?TxtID=294&SubMenuItem
     ID=136&MenuItemID=55. Acesso em: 10 março 2010.
40   Cf. Disponível em   http://www.brazuca.info/protocolo-de-Kyoto.php.   Acesso em:
     14 junho 2010.

                                                                                    49
e iciente das convenções e acordos internacionais referentes a am-
biente e desenvolvimento. Assim, em 2000, a Comissão de Desen-
volvimento Sustentável da ONU sugeriu a realização de uma nova
cúpula mundial. Entre os principais temas tratados, estão a erradi-
cação da pobreza, a mudança dos padrões de produção, consumo e
manejo de recursos naturais e o desenvolvimento sustentável.41
83. Entre os dias 3 e 14 de dezembro de 2007, aconteceu em Bali,
na Indonésia, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança
Climática, cúpula internacional, formada por representantes de
190 países “(...). Os representantes desses países discutem as bases
das negociações, a serem desenvolvidas entre 2008 e 2009, para o es-
tabelecimento de um novo acordo que substitua o Protocolo de Kyoto,
quando chega ao im a primeira fase do tratado em 2012. Possíveis
compromissos irmados em Bali vão de inir nos próximos anos polí-
ticas que apro ximem as posições defendidas por cerca de 200 países
com economias muito diferentes e que sofrerão de formas muito dife-
rentes as consequências do aquecimento global do planeta”.42
84. De 1 a 12 de junho de 2009, aconteceu um encontro em Bonn,
Alemanha, contando com a presença de delegados de 183 países
para debater os principais textos de negociação de temas rela-
cionados às alterações climáticas:“Estes serviram de base para o
acordo internacional sobre mudanças climáticas em Copenhague.
Na conclusão do Grupo Ad hoc do Protocolo de Kyoto, o grupo de
negociação ainda estava longe do alcance de redução de emissões
que foi estabelecido pela ciência para evitar as piores devastações
das alterações climáticas: um sinal de 25% a menos na redução de
40% abaixo dos níveis de 1990 até 2020. A AWG-KP ainda precisa
decidir sobre a meta global de redu ção de emissões para os países
industrializados, juntamente com metas individuais para cada país.
Registraram-se progressos na obtenção de esclarecimentos sobre as


41   Cf. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2002/riomais10/o_
     que_e.shtml. Acesso em: 10 maio 2010.
42   Disponível        em        http://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_das_
     Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_sobre_as_Mudan%C3%A7as_Clim%C3%A1ticas_
     de_2007. Acesso em: 10 março 2010.


50
questões de interesse para as partes, inclusive, essas preocupações no
projeto de atualização do texto de negociação. A primeira parte da
Sétima Sessão do AWG-LCA foi realizada em Bangkok, na Tailândia,
a partir de segunda-feira, 28 de setembro, no Centro de Conferên-
cias das Nações Unidas, Comissão Econômica e Social para a Ásia e
o Pací ico. De 2 a 6 de Dezembro de 2009, realizou-se em Barcelona
a última ronda de negociações antes da conferência de Dezembro.
Parte das negociações foram boicotadas pelas nações africanas, que
exigiam que a redução das emissões de dióxido de carbono para os
países industrializados seja de 40”.43
85. Por im, temos a Conferência das Nações Unidas sobre as Mu-
danças Climáticas de 2009, também chamada Conferência de Co-
penhague, que foi realizada entre os dias 7 e 18 de dezembro de
2009, em Copenhague:“Foi organizada pelas Nações Unidas, e reu-
niu os líderes mundiais para discutir como reagir às mudanças cli-
máticas (aquecimento global). Foi considerada pela imprensa mun-
dial como uma conferência um tanto polêmica e que não atingiu os
planos de discussão almejados”.44
86. Essa série de encontros para discutir as mudanças climáticas
revela que o diagnóstico sobre o futuro do planeta não é dos me-
lhores, mas a falta de consenso nas mesmas revela a di iculdade
política de se chegar a um acordo. Entre as nações signatárias da
ONU, há um impasse entre nações desenvolvidas e ricas, e as em
desenvolvimento e subdesenvolvidas, especialmente no tocante ao
pagamento da conta para recuperar e preservar o meio ambiente.
Os países ricos querem um rateio por igual, o que é rechassado
pelas nações em desenvolvimento e demais, por entenderem que
esta situação foi criada pela industrialização da qual gozam os paí-
ses ricos há praticamente dois séculos. Por im, a grande di iculda-
de se encontra no paradigma que vem norteando estes tratados e
discussões: o modelo liberal desenvolvimentista, propositor de um


43   Disponível        em        http://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_das_
     Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_sobre_as_Mudan%C3%A7as_Clim%C3%A1ticas_
     de_2009. Acesso em: 10 março 2010.
44   Cf. Ibidem.

                                                                                51
desenvolvimento linear, contínuo, de di ícil adequação, senão in-
compatível, com a sustentabilidade do planeta; ele gera o impasse,
mesmo com a crescente tomada de consciência de que urge passar
para o paradigma da sustentabilidade.


6. As Igrejas e as Religiões, o que dizem a respeito disso?
87. As Igrejas vem se pronunciando com frequência sobre as ame-
aças ao ao meio-ambiente. Esses pronunciamentos demonstram
que faz parte do comportamento de todos os cristãos o compro-
misso pelo cuidado da criação. Uma das manifestações disso foi a
Assembleia Ecumênica Mundial, realizada em Seoul (Coreia) de 05
a 12 de março de 1990, com o tema Rumo à solidariedade da alian-
ça pela justiça, a paz e a proteção da criação. A inalidade da Assem-
bleia foi traçar projetos para uma ação ecumênica que possibilite
superar os problemas causados pela injustiça, pela violência e pela
degradação do meio-ambiente. A irmaram os participantes da As-
sembleia que “cada vida é sagrada porque a criação é de Deus e
a bondade de Deus a permeia completamente. Atualmente, cada
forma de vida no mundo ... está em perigo, porque a humanidade
não foi capaz de amar a vida da terra; em particular, os ricos e os
poderosos a roubaram como se essa tivesse sido criada para ins
egoístas. A amplitude da devastação pode ser irreversível e, por-
tanto, nos impele a agir com urgência”.
88. Assim, a Assembleia concluiu três atos: 1) uma a irmação: o
mundo, enquanto obra de Deus, possui uma integridade intrínse-
ca, pois tudo é “bom” aos olhos de Deus: a terra, a água, o ar, as lo-
restas, as montanhas e todas as criaturas, incluída a humanidade.
2) Por isso, é preciso opor resistência à pretensão de utilizar sem
critérios cada elemento da criação. Essa resistência diz respeito às
atitudes que extinguem espécies, ao consumismo, à produção de
fatores químicos que poluem a natureza. 3) Consequentemente,
é preciso assumir o compromisso de ser membro da comunidade
vivente da criação, colaborando com o projeto divino para que se
realize e se consolide a sua vontade em todas as criaturas.

52
89. Na Assembleia de Seoul as Igrejas convidam também as religi-
ões para integrarem-se nos esforços pela justiça, paz e integridade
da criação, entendendo que esses valores estão no coração de cada
credo religioso.


7. Algumas considerações sobre a temática do meio
   ambiente nos documentos da Igreja
90. Na ocasião em que foi realizado o Concílio Ecumênico Vaticano II,
as questões ambientais ainda não estavam sendo discutidas como nos
dias de hoje. Não obstante, podemos perceber algumas alusões à te-
mática na Gaudium et Spes. Esse documento lembra que o ser huma-
no foi criado à imagem de Deus, constituído Senhor de todas as coisas
terrenas, para que as dominasse e usasse, glori icando a Deus e ainda:
“Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todas
os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar
a todos, com equidade, sob a regra da justiça, inseparável da carida-
de” (GS 69). Vemos também demonstrar preocupação com o ritmo do
consumo e as provisões de bens para as gerações futuras (GS 70).
91. Os escritos de Paulo VI demonstram a sua preocupação com este
tema. Diz em Mensagem enviada ao Secretário Geral da ONU, por oca-
sião da histórica Conferência sobre o meio ambiente realizada em Es-
tocolmo que o homem deve: “respeitar as leis que regulam o impulso
vital e a capacidade de regeneração da natureza; ambos, portanto, são
solidários e compartilham um futuro temporal comum”.45 Também
demonstrava uma preocupação com a técnica, pela qual o homem já
havia se tornado uma ameaça para si mesmo. Na Carta Apostólica Oc-
togésima Adveniens, volta a esta temática dizendo que “por motivo de
uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr risco de
a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação... que o




45
     Cf. L. GARMUS, Ecologia nos documentos da Igreja Católica, in REB, Fasc, 276, Outubro,
     2009, p. 863.

                                                                                        53
homem não consegue dominar, criando assim, para o dia de amanhã,
um ambiente global, que poderá tornar-se insuportável”46.
92. O Papa João Paulo II, sempre muito sensível às problemáticas da
humanidade, não deixou de pronunciar-se sobre a questão. Na Carta
Encíclica Sollicituto Rei Socialis podemos ler: “Entre os sinais positi-
vos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos
limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integri-
dade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do
desenvolvimento, em vez de sacri icá-los a certas concessões demagó-
gicas. É a inal, aquilo que se chama hoje de preocupação ecológica”47.
Na homilia pronunciada em Punta Arenas, João Paulo II relaciona a
paz entre os homens com a paz na natureza. Na sua Mensagem para
a 23ª Jornada Mundial pela Paz, o Papa novamente relaciona a paz
com Deus Criador e a paz com a criação e a irma que se o homem não
está em paz com o Criador, toda a criação sofre e cita a crise ecológica
como uma crise moral.48 Na Centesimus Annus, fala de ecologia huma-
na e ecologia social, relacionando a questão ambiental com a demo-
gra ia, sem admitir que se argumente em prol de campanhas contra
a natalidade sob o argumento do grande crescimento populacional.
O mesmo em relação à questão da fome, que diz categoricamente se
tratar de uma injustiça e não resultante de questões demográ icas.49
Dessa forma, na Exortação Pós-Sinodal de 2003, João Paulo II, diz:
“Há necessidade de conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de
dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a
natureza”.50
93. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do
Caribe, iniciou-se com um belo discurso do Papa Bento XVI, em que
aborda a questão: “com muita frequência se subordina a preservação
da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversi-

46
     Cf. Idem, p. 865.
47
     Sollicitudo Rei Socialis. Carta Encíclica de João Paulo II, n. 26.
48
     Cf. L. GARMUS, p. 868-869.
49
     PONTIFÍCIO CONSELHO “Cor Unum”. A fome no mundo, n. 19.
50
     Cf. L. GARMUS, p. 873.


54
dade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos
naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. As possi-
bilidades e eventuais problemas da produção de agro-combustíveis
devem ser estudados, de tal maneira que prevaleça o valor da pessoa
humana e de suas necessidades de sobrevivência. A América Latina
possui os aquíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes
extensões de território selvagem, que são os pulmões da humanida-
de. Assim, se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que
são reconhecidos economicamente. O estilo de vida dos países desen-
volvidos seria o principal causador do aquecimento global”51 . Assim,
temos a irmações claras sobre o tema nas conclusões de Aparecida
que entende as questões ecológicas como um dos novos aerópagos da
evangelização. 52


8. Sustentabilidade, novo paradigma civilizacional
94. O conceito de desenvolvimento sustentável começou a ser deli-
neado na década de sessenta, ao se introduzirem para a análise do
desenvolvimento das nações, aspectos como a saúde, a educação,
o trabalho, além do PIB. Esta metodologia pode detectar melhor a
equidade ou a disparidade social existente em uma sociedade. A
ONU utilizou este procedimento pela primeira vez na Conferência
de Estocolmo, em 1972, ao chamar a atenção das nações ao fato de
praticarem uma economia que degradava a natureza e colocava em
perigo o bem estar e a própria sobrevivência da espécie humana.
95. Mas é interessante notar a existência de uma di iculdade
no conceito de desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento,
normalmente, é associado a melhorias que implicam mudança e
crescimento econômico contínuo. Com este espírito desenvolvi-
mentista, os sistemas produtivos criaram uma civilização que não
soube harmonizar-se com a natureza, apenas explorá-la. O termo


51
     Cf. L. GARMUS, p 881.
52
     CELAM, Documento de Aparecida, n. 491.

                                                                   55
sustentabilidade é imbuído da percepção contemporânea das pro-
blemáticas atuais da vida em sua amplitude. Portanto, a união dos
dois termos parece um tanto quanto contraditória. Para melhor ex-
pressar a noção do que se deseja do ponto de vista civilizacional,
no contexto de aquecimento global e mudanças climáticas, o termo
sustentabilidade é o mais indicado, pois aponta para um outro pa-
radigma civilizacional.
96. A noção de sustentabilidade pretende harmonizar três verten-
tes: economia, meio ambiente e bem estar social. Pretende prestar-
se como indicadora de um “tipo de desenvolvimento que nos permite
viver nos limites suportáveis para a Terra, que são a disponibilidade
de recursos naturais e os limites de absorção de resíduos e poluição,
mas também o tipo de desenvolvimento que torne possível a redução
da pobreza”.53 Desta forma, em primeiro lugar, está a preocupação
em garantir a disponibilidade de recursos naturais, renováveis e não
renováveis, pois a continuidade do atual consumo trará serios pro-
blemas de disponibilidade destes recursos, como já alertava Dennis
Meadows em 1972. Em segundo, aponta para o grande desa io de
não se ultrapassar os limites de absorção da biosfera em relação aos
gases de efeito estufa e outros resíduos poluentes, gerados pela pro-
dução e pelo consumo. Esse problema já havia sido apontado pelo
PNUMA em 1982 como a principal causa dos problemas ambientais
emergentes, ao lado do aquecimento global e da destruição da ca-
mada de ozônio. E o terceiro desa io, a erradicação da pobreza, foi
alertado pelo terceiro relatório do chamado Clube de Roma, que não
recebeu muita atenção. A percepção é a de que não adianta somente
cuidar do meio ambiente e deixar de lado questões sociais como a
situação de pobreza e miséria de uma boa parcela da humanidade.
97. Para se alcançar a sustentabilidade, requer-se, de um lado, a di-
minuição do consumo, sobretudo do excessivo e do supér luo, e, de
outro, a redução das gritantes desigualdades que podem ser sinte-
tizadas em dados como o do consumo de carne. Atualmente, 45%


53   Harold Mattos de LEMOS. Seremos capazes de reduzir o consumo supér luo? In Fazendo as
     pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 141.


56
da produção de carne e peixe, principais fontes de proteina ani-
mal, são consumidos por 20% da população do planeta, enquanto
somente 5% do que se produz deste gênero de alimento é desti-
nado aos 20% mais pobres. O atual sistema econômico neoliberal
globalizado, que se rege pelas leis do merdado, é altamente con-
centrador e gerador de disparidades, quer a nível internacional,
quer no interior das sociedades. Este processo é resultante da
busca pelo lucro, sem a preocupação com o ser humano ou com
os problemas de ordem ambiental. Os governos se tornam reféns
desta lógica do capital e procuram instigar sempre mais a ciranda
produção/consumo, mesmo com todas as distorções internas do
sistema, as quais acirram as já existentes nestas sociedades.
98. A sustentabilidade passa necessariamente por uma mudança
de hábitos nos padrões de consumo, especialmente dos que gas-
tam em demasia. Qualquer outra justi icativa signi ica desviar o
foco real do problema, como a alusão à imensa população do pla-
neta, que se aproxima dos 7 bilhões. Se a população do planeta se
multiplicou por quatro no século passado, a atividade econômica
cresceu dez vezes somente entre 1950 e 2000, e as sociedades, es-
pecialmente a dos países ricos, consome na atualidade muito mais
do que o planeta pode oferecer a médio e longo prazo.
99. Neste sentido, a proposta denominada “pegada ecológica”54 é
uma ferramenta interessante para se constatar, de modo mensurá-
vel, as disparidades, pois identi ica os excessos de pegada ou con-
sumo. Por exemplo, “os EUA, que não têm uma qualidade de vida
muito superior à da Itália, segundo se pode a irmar, usam duas vezes
e meia mais pegada do que os italianos”.55 Este instrumento é inte-
ressante, dado que chega a detectar uma grande disparidade exis-
tente entre duas nações do grupo das desenvolvidas e ricas. E, sem
essa metodologia, esse resultado seria praticamente inimaginável.


54   O termo pegada ecológica, de forma simpli icada, é uma espécie de conta matemática,
     em que se calcula o que uma nação efetivamente tem para extrair da natureza e gastar,
     sem comprometer a sustentabilidade da mesma.
55   Mathis WACKERNAGEL. Podemos reduzir nossa pegada ecológica? In Fazendo as pazes
     com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 129.

                                                                                       57
100. O fato é que os governos e as sociedades, sobretudo as que
se encontram sob a lógica da gastança capitalista, precisam rever
urgentemente seus conceitos e posturas desenvolvimentistas. O
“excesso de pegada” em relação aos bens da natureza, hoje, está
perto dos 30%, e o de icit anual que se acumulará até 2050 será
de uma dívida ecológica de cerca de 35 anos-planeta de produção
biológica de todo o globo terrestre, ou uma dívida impossível de
ser “paga”.56 Eis mais um argumento chamando à sensatez para se
eliminar os excessos de produção e consumo e busca de equidade
no uso dos bens, dado que os números apontam para estas pro-
blemáticas e não para a saturação habitacional do planeta. Neste
sentido, Mahatma Gandhi pronunciou uma frase, cuja memória é
oportuna: “o mundo tem recursos su icientes para atender às neces-
sidades de todos, mas não a ambição de todos”.57


9. Da ética do egotismo à ética do cuidado
101. A publicação do 4º relatório do IPCC, em fevereiro de 2007,
apesar de algumas vozes discordantes, contribuiu para a tomada
de consciência de que o atual aquecimento global e as mudanças
climáticas em curso, “não se trata de um desastre natural, foi cau-
sado por homens”,58 ao desenvolverem um sistema econômico que
agridea vida no e do planeta, e “já sacri icou muitas vidas, espécies
e ecossistemas. O caminho tende à catrástrofe planetária e podemos
ir ao encontro do destino dos dinossauros”.59 Dessa maneira, a atual
crise ecológica coloca os propositores e mantenedores deste siste-
ma em xeque. Trata-se de um sistema que exilou a ética da respon-


56   Cf. Mathis WACKERNAGEL. Podemos reduzir nossa pegada ecológica? In Fazendo as pa-
     zes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 133.
57   In, Haroldo Mattos de LEMOS. op cit. p. 144.
58   Cf. Artigo de Nicholas Stern, Folha de São Paulo, 03-11-2008. Nicholas Stern publicou
     um extenso estudo sobre os efeitos na economia mundial das alterações climáticas nos
     próximos 50 anos, denominado relatório Stern. In Sinais dos Tempos, op cit. pp. 20.
59   BRUSTOLIN, L. A. e MACHADO, R. F., Um pacto pela Terra, a crise ecológica na agenda
     teológica. In Teocomunicação, v. 38, n° 160, maio/agosto. 2008.


58
sabilidade e do cuidado do âmbito de várias dimensões da vida, e
fez que a estruturação e justi icação de tudo que constitui o arca-
bouço de civilização atual tenha com âncora o imperativo do lucro
e coloque as ciências e a própria vida a seu serviço.
102. É absolutamente necessário desejar que o resgate da res-
ponsabilidade ética motive e faça convergir ações de cunho social
até de alcance planetário, visando o cuidado deste imenso ser vivo
chamado planeta Terra. Felizmente, temos na história exemplos
de momentos particularmente di íceis enfrentados com empenho
criativo e solidário pela humanidade, avançando em direção a um
futuro melhor. A opção pela vida é o grande referencial. Assim tem
sido e esta opção precisa ser rea irmada, recolocando no centro da
pauta da humanidade o cuidado com o mundo vital.




                                                                 59
Segunda PARTE
  JULGAR
 Introdução
 103. O aquecimento global e as mudanças climáticas já não se si-
 tuam somente em nível teórico, mas se constituem em realidades
 palpáveis. O processo de mudança climática em curso representa
 um grande perigo para a vida e, se não houver uma reação adequa-
 da de modo a contê-lo, as condições para a continuidade da vida no
 planeta vão se deteriorar profundamente.
 104. A Igreja, em suas comunidades, que se espera propulsoras do
 Reino, precisa estar consciente da problemática para colaborar em
 vista das mudanças comportamentais e sistêmicas, necessárias e
 urgentes para evitarmos legar às futuras gerações, um planeta que
 não ofereça mais condições para abrigar a vida. A teologia, que não
 pode icar alheia a este processo em curso e que atenta contra a
 vida, também tem um papel a cumprir.
 105. Diante disso, nesta segunda parte, vamos nos voltar para a
 Palavra de Deus e para a teologia, buscando inspiração para reali-
 zar uma leitura mais aprofundada sobre as causas desta problemá-
 tica. Ao mesmo tempo, queremos vislumbrar luzes que apontem
 caminhos a serem trilhados por todos nós no enfrentamento dessa
 questão com grande esperança e irmeza em prol da preservação
 do planeta.
 106. A Bíblia não trata explicitamente de preservação ambiental
 porque tal tema não era percebido na época em que os textos fo-
 ram escritos. Mas, através destes livros sagrados, Deus nos chama
 a ter as atitudes justas para cuidarmos bem da vida, o que é tradu-
 zido pela Teologia, especialmente pela Teologia da criação, da qual

                                                                  61
pinçaremos alguns apontamentos. Concluiremos com o exemplo
concreto de alguém cujas atitudes para com a criação, são atualís-
simas, não obstante a sua distância no tempo. Trata-se de São Fran-
cisco de Assis, um santo que teve profunda sensibilidade em relação
aos elementos criados, considerando-os todos como “irmãos”.


1. Apontamentos bíblicos sobre a preservação da natureza

1.1. O nosso Deus é o Deus da vida
107. A Bíblia inicia mostrando a vitória de Deus sobre o caos, orga-
nizando o cosmos e revelando-se como doador da vida. Na primeira
narração da criação (Gn 1-2,4a), o Deus criador vai gerando a vida
na “semana da criação”. Deus dá à terra o poder de gerar frutos, ár-
vores, sementes, ervas e verduras (Gn 1,12).O texto vai repetindo, a
cada etapa: “E Deus viu que era bom”.Deus criou por meio de suas
palavras todas as realidades, formando uma grande solidariedade
cósmica, como vemos na narrativa dos cinco primeiros dias, na qual
se integraram os animais selvagens, domésticos e pequenos do chão
segundo suas espécies, e o ser humano, criados no sexto dia. E o texto
diz “E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31).
108. Podemos notar facilmente a harmonia entre os planos da re-
alidade: o temporal expresso nos seis dias de trabalho e o espacial
das realidades criadas nos seis dias, desde a primeira, a luz, até o
ser humano de modo que é estabelecida uma unidade formada de
coisas distintas que se entrelaçam.
109. Mas houve quem entendesse que o ser humano era dono
absoluto do planeta porque o texto também diz: “Sede fecundos e
multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes
do mar, as aves de céu e todos os animais que se movem pelo chão”
(Gn 1,28).No entanto, a leitura desta narrativa nos revela que o ser
humano foi criado no sexto dia ao lado de outros animais como as
feras dos bosques, animais domésticos e os répteis, os quais pare-
cem superiores aos anteriormente criados (Gn 1,23-25).

62
110. A palavra dominar vem do latim dominus, que signi ica “se-
nhor”. Dominar signi ica exercer o senhorio sobre os demais, e este
exercício do senhorio deve ser feito a partir do modelo de “Senhor”
que é o próprio Deus. A narrativa da criação nos mostra como
Deus exerce o senhorio em relação à natureza: ele a cria, ordena
o seu crescimento e a sua evolução a im de que ela possa trilhar
um caminho de perfeição, garante a sua continuidade, cuida dela
e a abençoa. Assim, o exercício do senhorio, ou a dominação, por
parte do ser humano deve signi icar respeito à ação criativa divina,
contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas
as suas dimensões, cuidado com o meio ambiente e fazer dele uma
fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com ela e, a partir dela,
harmonia interior, comunhão com as outras pessoas e caminho de
conhecimento e estreitamento de relações com o próprio Criador.
111. Desse modo, o ser humano, vai condividir o mesmo espaço
com estes animais que foram criados ao seu lado. No texto bíblico
acima, podemos notar que os animais da terra ganham autonomia
e são colocados sobre o mesmo espaço em que se encontram os se-
res humanos. É evidente que há uma diferença fundamental entre
seres os humanos e os animais, que é de ordem sobrenatural, pois
os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus
e receberam o seu sopro em suas narinas, mas enquanto seres na-
turais, eles se encontram unidos em um equilíbrio dinâmico, o que
não concede a eles o direito de se utilizar da natureza segundo seus
caprichos de modo a causar destruição e colocá-la em perigo.60
112. Tendo em vista todos os problemas do meio ambiente, fru-
to de um processo desmedido da utilização dos bens do plane-
ta, é oportuna uma re lexão acerca do mandato “enchei a terra e
submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos
os animais que se movem no chão” (Gn 1,28). Para este intento, é
fundamental compreender o signi icado de alguns verbos como:
submeter e dominar.


60   Cf. Xavier PIKAZA. Biblia y ecologia: re lexión introductoria sobre o Gn 1-8. In Sustentabi-
     lidade da vida e espiritualidade. (Soter) São Paulo: Paulinas, 2008, p. 05.

                                                                                              63
113. O verbo submeter, em hebraico, kabash, no contexto da cultu-
ra semita tem como foco principal a terra e o seu cultivo, e o verbo
dominar é tradução do hebraico radah, que possui o sentido de cul-
tivar, organizar e cuidar. Assim, não é concedida ao ser humano, a
posse em termos de senhorio em relação aos outros seres criados,
pois a consideração destes verbos indica precisamente atitudes
de cultivo, zelo e cuidado, próprias de um pastor que conduz suas
ovelhas protegendo-as dos iminentes perigos.61 O livro do Gênesis
é claro quanto a isso ao a irmar que Deus colocou o ser humano no
jardim para o cultivar e guardar (Gn 2,15).


1.2. O lugar do ser humano na criação
114. O salmista, logo após indagar sobre o que é o ser humano,
a irma, “o izeste só um pouco menor que um deus, de glória e hon-
ra o coroaste” (Sl 8,6). Dessa forma, indica que o ser humano foi
criado de modo especialíssimo no reino da criação porque, mesmo
sendo um ser integrante da natureza, a transcende, e essa trans-
cendência, embora não tire do ser humano sua condição natural,
traz outras implicações que dão sentido à natureza e gera respon-
sabilidades em relação a ela. O primeiro relato da criação, no livro
do Gênesis, expressa esta condição humana com a a irmação de
que “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o
criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27).
115. Em um dos Documentos referenciais do Concílio Ecumênico
Vaticano II, encontramos a seguinte interpretação dessa a irma-
ção, “o homem foi criado à ‘imagem e semelhança de Deus’, capaz
de conhecer e amar o seu criador, e por este constituído senhor de
todas as criaturas terrenas, para as dominar e delas se servir, dando
glória a Deus”.62 O documento conciliar entende que o homem se
encontra no centro da criação, inclusive utiliza o verbo dominar



61   Ludovico GARMUS, Bíblia e Ecologia, Grande Sinal, maio/junho, 1992, Ano 46, n° 3, p. 278.
62   GS, n. 12.


64
para caracterizar as suas relações com os demais seres da nature-
za. No entanto, o entende como um ser de relações, “Deus não criou
o homem sozinho”, e “o homem por sua própria natureza, é um ser
social”.63 e consequentemente, chamado à cooperação e à solidarie-
dade para com seus irmãos e para e para com os seres da nature-
za. Pois, o texto diz para dominar e se servir das criaturas, dando
glória a Deus, o que não é compatível com a atitude de um déspota
que utiliza os bens da natureza até o seu esgotamento, provocando
somente morte em relação aos seres da natureza. Certamente, esta
leitura pode ser realizada, mesmo que na época da realização do
Concílio as preocupações ecológicas fossem apenas incipientes.
116. Visando esclarecer ainda o entendimento desta concessão
para que o homem domine, dada a singularidade de seu ser, ima-
gem de Deus, outro verbo desta narrativa merece ser mencionado
e analisado, é mashal (governar, presidir), que aparece em Gn 1,16-
18. Este verbo é utilizado para descrever um domínio como o exer-
cido pelos astros que receberam a incumbência de presidir sobre o
dia e a noite, marcando o ritmo da vida. Assim sendo, o ser humano
é responsável pela vida, bem estar e integridade daqueles que es-
tão sob seu domínio. O homem e a mulher, criaturas do sexto dia,
imagem e semelhança de Deus, têm responsabilidades: diante da
natureza, do semelhante e diante do criador.64 De modo, que esta
singularidade observada na criação do homem e da mulher quer
dizer que foram chamados à vida, ao cuidado do que a ela se refere,
e a trabalhar em prol da manutenção da obra do Criador.
117. As realizações humanas, assim como suas construções e até
mesmo sua procriação, devem contribuir para que este objetivo seja
atingido, e dar continuidade à obra de Deus. E tendo em vista esta
responsabilidade conferida ao ser humano, é oportuno recolocar
uma pergunta que o saudoso Papa João Paulo II inseriu em um
de seus escritos, “Todas as conquistas alcançadas até agora, bem



63   Idem.
64   Ludovico GARMUS, Bíblia e Ecologia, Grande Sinal, maio/junho, 1992, Ano 46, n° 3, p. 280.

                                                                                            65
como as que estão projetadas pela técnica para o futuro, estão de
acordo com o progresso moral e espiritual do homem?”.65 E suas
preocupações ao estender seu olhar para aquele momento his-
tórico, o fez continuar com suas indagações, “Crescem verdadei-
ramente nos homens, entre os homens, o amor social, o respeito
pelos direitos de outrem...ou, pelo contrário, crescem os egoísmos...
a tendência para dominar os outros, para além dos próprios e le-
gítimos direitos e méritos, e a tendência para desfrutar de todo o
progresso material e técnico-produtivo exclusivamente para o im
de predominar sobre os outros, ou em favor deste ou daquele outro
imperialismo?”.66 Os problemas levantados por estas interroga-
ções se encontram entre os motivos da atual crise ecológica que
coloca em risco a vida no planeta.


1.3. A atualidade da advertência aos primeiros
     pais no paraíso (Gn 3,1-24)
118. Se por um lado, o progresso cientí ico e econômico, político e
social da modernidade trouxe contribuições para o bem da huma-
nidade, de outro introduziu muitas situações que atentam contra
a vida em sua dimensão planetária. Pois, os detentores do poder
quiseram comer da árvore do bem e do mal, utilizando de modo
destrutivo dos bens do planeta, e chegamos ao ponto em que as
condições para a vida se encontram seriamente ameaçadas, com o
efeito estufa e as mudanças climáticas.
119. Nunca como hoje, os frutos desta árvore da vida se mostraram
ao mesmo tempo mais fascinantes e mais ameaçadores. As amea-
ças não vêm evidentemente das ciências e das tecnologias conside-
radas em si mesmas. Essas podem se constituir em instrumentos
preciosos para se desvendar e melhor usufruir das maravilhas da
criação. As ameaças vêm das ideologias e do espírito de dominação
que muitas vezes marcam certos segmentos do denominado meio


65   Redemptor Hominis, n. 15.
66   Idem.


66
cientí ico, e que pela mídia são assimiladas inclusive pelas multi-
dões que absorvem este espírito através dos inúmeros meios de
comunicação. A arrogância e a prepotência transparecem, antes de
mais nada, em certas a irmações categóricas feitas em nome das
ciências, mas que no fundo não passam de meras hipóteses, ou no
máximo de teorias. Enquanto há poucas décadas se presenciava
um movimento generalizado de dessacralização, hoje, em pleno sé-
culo XXI, se percebe um movimento inverso. Em certos setores da
sociedade, indo na contramão da história e do princípio básico da
cienti icidade, a palavra “cientí ico” transformou-se numa espécie
de ídolo diante do qual todos devem dobrar os joelhos. Enquanto
o princípio da cienti icidade aponta para a provisoriedade de to-
das as conquistas, o cienti icismo tende a absolutizar o que, por
de inição, é relativo e provisório. E, uma vez mais na contramão da
história, há grupos que se aproveitam de teorias pretensamente
cientí icas para investir contra a vida e os que defendem sua invio-
labilidade desde a concepção até a morte natural.
120. A par da arrogância que transparece no uso e abuso do ad-
jetivo “cientí ico”, causa preocupação a maneira como são anun-
ciadas as promessas de eventuais curas de certas doenças através
do avanço das biotecnologias. O tom dessas promessas é tal que
levanta sérias dúvidas sobre qual seria de fato o móvel de anún-
cios sensacionalistas. Seria expressão de uma concepção reducio-
nista e até certo ponto ingênua da complexidade dos mecanismos
da vida, mormente da vida humana? Seria a tentação de ocupar
destaque na mídia para garantir um lugar de honra no panteon
outrora ocupado pelos deuses pagãos? Por trás de tantas promes-
sas não se esconderiam interesses escusos, seja na linha de obter
 inanciamentos públicos para laboratórios privados, ou então até
mesmo para usufruir de lucros oriundos da exploração de um povo
sofredor? Por trás desta venda de ilusões não se esconderiam até
segundas intenções de caráter mais político-ideológico, no sentido
de distrair as atenções do povo das verdadeiras causas de seus so-
frimentos imediatos e que se localizam nas estruturas econômicas
e sociais que impedem uma grande maioria de se bene iciar dos
bene ícios do progresso?

                                                                  67
121. Assim, o apossar-se dos frutos da árvore da vida está signi-
 icando caminhos para o apossamento das pessoas e da natureza,
sem avaliar as consequências deste ato e sem considerar uma justa
hierarquia de valores que deve reger as relações das pessoas entre
si, com a natureza e com o Criador.
122. Desse modo, este pecado do princípio, é um pecado atual, que
permanece aberto e se atualiza, especialmente quando as pessoas
se deixam conduzir pelo anseio e desejo de dominação e subjugação
do outro, de modo violento, causando destruição e morte, como atu-
almente no sistema estruturador de nossas sociedades. Este pecado
diz que os homens e mulheres quiseram assumir prerrogativas divi-
nas e pela força, dominar o mundo e subjugar os demais seres, em
uma guerra social e ecológica que leva inevitavelmente à morte.
123. Quando o ser humano se comporta como Deus, fazendo o
que deseja, sem respeitar os limites, ele ica só (constatam que es-
tão nus), não se relaciona de modo justo e edi icante com Deus,
pois precisa esconder-se dele, ou com seu semelhante, pois acusa
a mulher de ser a responsável por seus erros, e nem com os se-
res vivosda natureza, pois é expulso do paraíso. A desordem surge
quando homem e mulher pretendem conhecer o bem e o mal com
a intenção de se tornarem divinos (lembremo-nos das palavras da
serpente à Eva: de modo algum morrereis, mas sereis como Deus [cf.
Gn 3,5]), e assim, dirigir toda criação conforme suas leis e critérios,
sem nenhum respeito pelas normas que presidem o justo e solidá-
rio relacionamento humano com o universo.
124. Diante de nossas problemáticas com o meio ambiente, se faz
oportuna a leitura em chave ecológica da denominada queda dos
primeiros pais no paraíso (Gn 3,1-24). E podemos reconhecer no
que Deus disse a Adão e Eva uma advertência com implicações eco-
lógicas: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves
comer, porque, no dia em que dela comeres, com certeza morrerás”
(Gn 2,17). A riqueza que os seres humanos têm à disposição se re-
veste igualmente de um princípio de responsabilidade.
125. Esse enunciado bíblico indica ao homem e à mulher que po-
dem usufruir dos bens do jardim, desde que mantenham a ordem,

68
que é de caráter superior e aponta para a justiça e a solidariedade,
dentro da terra em vista da coletividade. A não observância desta
advertência implica em morte, o que é atualíssimo. Comer da árvo-
re não recomendada signi ica que as pessoas se fazem dominado-
ras e instalam um sistema destruidor, e na condição de senhores e
senhoras do bem e do mal, acabam destruindo tudo, inclusive a si
mesmos e instalando um con lito no lugar de uma vida solidária.


1.4. O descanso e o sentido autêntico da criação
1.4.1. Consideração sobre o descanso no livro do Gênesis
126. Deus nos dá este mundo para que vivamos numa solida-
riedade geradora de paz. “No sétimo dia, Deus concluiu toda obra
que tinha feito; e no sétimo dia repousou de toda obra que izera”
(Gn 2,2a). Este dia, o sétimo, se reveste de grande importância no
contexto do primeiro relato da criação, pois nele, Deus “concluiu”
a sua criação. Desta forma, é no dia chamado de sábado e através
dele, que o homem e a mulher vão reconhecer a realidade na qual
vivem, como também perceberem-se como criação de Deus. Este
dia é chamado de sábado, do qual deriva uma doutrina, que tam-
bém, ilumina a criação sobre o seu autêntico futuro, pois a abre
para a presença da eternidade no tempo, e testemunha o mundo
vindouro que está sendo engendrado no hoje.
127. A iloso ia moderna criou as bases para o desenvolvimento de
uma visão mecanicista da natureza. Através do pensamento de Francis
Bacon, desenvolveu o método indutivo que possibilitou a elaboração
de princípios gerais das ciências através da associação de elementos
particulares observáveis empiricamente. René Descartes trabalhou
os conceitos de ideia clara e distinta, que ajudou na observação
de fenômenos particulares. Depois estabeleceu a distinção entre a
realidade material e a inteligível (res extensa e res cogitans), possi-
bilitando uma mentalidade dualista, que fundamenta o materialis-
mo como consequência da ruptura entre o material e o espiritual
e, por im, desenvolveu o método racional. Galileu Galilei descobriu
                                                                     69
a órbita dos planetas, que fez com que ele concebesse o universo
funcionando como um relógio. Tudo isso contribuiu para uma visão
mecanicista do universo, que será desenvolvido até as últimas con-
sequências por Isaac Newton. Nessa visão mecanicista do universo,
não há espaço lógico para pensar o descanso da natureza ou para
encontrar um lugar na vida humana para a contemplação. Mas não
há nada mais estranho ao signi icado da criação do que o planeta ser
entendido como uma espécie de máquina, como na modernidade.
128. Em nossos dias, há muito icou para segundo plano esta leitu-
ra do descanso de Deus, no qual Ele abençoa e santi ica a sua obra
criada. Damos muito mais valor e sentido à vida do ponto de vista
do trabalho e da produção, enquanto que o descanso, a festa, a ale-
gria em viver são desquali icadas como sem serventia e sem sentido.
Não é possível entender a criação de modo mais aprofundado, sem
perceber o sentido deste repouso. Para as tradições bíblicas estas
realidades estão interligadas, pois o repouso é a festa da criação. É
em vista desta festa que Deus criou o céu e a terra e tudo o que neles
existem. Por isso, na história da criação, sucede-se a cada dia uma
noite; o descanso de Deus, no entanto, não conhece noite alguma.
129. Então podemos nos interrogar: o que Deus acrescentou com
o descanso às obras da Criação se já a havia concluído no sexto dia?
O que ainda faltava para a criação, se já se encontrava acabada? A
resposta é o próprio descanso, do qual emergem a bênção e a san-
ti icação do sétimo dia, ou seja, Deus conclui a criação com a sua
bênção.67 É do repouso de Deus que emergem a bênção e a santi ica-
ção do sábado. A obra da criação tem sua conclusão com o descanso
do Criador. O Deus que descansa no sétimo dia é o criador que des-
cansa de toda obra que izera. No dia do repouso, o Criador também
se recolhe novamente a si, o que não signi ica um retorno à existên-
cia eterna anterior à criação do mundo e das pessoas, mas deixa de
criar e, junto com a sua criação, descansa e a contempla.68



67   Cf. Jurgen MOLTMANN, Deus na Criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 396-397.
68   Cf. idem, p. 396-397.


70
130. Entretanto, com o descanso, inicia-se a história de Deus com
as suas criaturas, com o mundo e do mundo com Deus. Podemos
dizer que Deus, não somente descansa de sua criação, mas que este
descanso se dá em sua obra, que está diante dele e Ele presente ne-
la.69 Resulta que no sétimo dia, Deus liga a sua presença eterna com
a sua criação transitória, está com ela e nela. Assim, a conclusão da
criação se realiza no e com o descanso. A criação se refere à obra de
Deus, enquanto o repouso à sua existência presente.70
131. Pode-se a irmar que a criação revela Deus através de seus se-
res, mas apenas o repouso é a autorrevelação de Deus. Por isso, as
obras da criação desembocam no descanso. No sétimo dia, inicia-se
o reino da glória, da esperança e do futuro de todas as criaturas, e o
sábado humano, torna-se “sonho de plenitude”.71 dado que esse des-
canso é indício e antecipação da eterna festa da glória divina. Para
que isso seja possível, não podemos dissociar descanso de contem-
plação do divino, de modo que o descanso aprofunda os relaciona-
mentos entre Criador e criatura e torna-se caminho de santi icação
e, por isso, o Decálogo exige a santi icação do descanso (cf. Ex 20,8).
132. O próprio Deus mostra o repouso como exigência para a vida
humana e para a natureza quanto estabelece o ano sabático e o ano
jubilar (cf. Lv 25,1-22), sendo que o descanso deve ser respeitado não
apenas para o ser humano, mas também para toda a natureza. Sem
descanso não pode haver nem sequer vida natural de qualidade.


1.4.2. O dia do descanso e a ressurreição de Cristo
133. Nós cristãos entendemos que o sentido original do dia festivo
está na celebração da ressurreição de Jesus, fato primordial sobre
o qual apoia a nossa fé,72 ocorrida no domingo. O domingo cristão
deve ser visto como a expansão messiânica do sábado de Israel.


69   Cf. Jurgen MOLTMANN, Deus na Criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 398.
70   Cf. Dies Domini, n. 61.
71   Cf. Franz ROSENZWEIG, In Jurgen Moltmann, op cit, p. 399.
72   Cf. Idem, p. 2.

                                                                              71
O domingo, dia festivo cristão, entendido e vivido como o “dia do
Senhor” não somente antecipa o descanso do inal dos tempos, mas
indica o início da nova criação.
134. Segundo a concepção cristã, a nova criação começa com a
ressurreição de Cristo.73 O jardim da ressurreição é o novo jardim
do Éden, o lugar da recriação. O casal humano se reencontra num
universo que não é o túmulo, mas o jardim, lugar da vida e não da
morte.Se o sábado de Israel permite olhar em retrospectiva para as
obras da criação de Deus e para o próprio trabalho das pessoas, a
festa da ressurreição olha para frente, para o futuro da nova cria-
ção. Se o sábado de Israel permite participar do descanso de Deus,
a festa cristã da ressurreição permite participar da força que opera
a recriação do mundo. Se o sábado de Israel é primordialmente um
dia de re lexão e de agradecimento, a festa cristã da ressurreição é
primordialmente um dia de início e de esperança.
135. Não é por acaso que o dia da festa da ressurreição é visto pela
Igreja como o primeiro dia da semana. Se para Deus, o sábado da
criação era o sétimo dia, para as pessoas que haviam sido criadas
no sexto dia, o sábado era o primeiro dia que experimentavam.
136. O esquecimento do signi icado profundo do dia do des-
canso também proporcionou a estruturação de um mundo sem
celebração, de um tempo visto somente pela ótica da produção e
do progresso, que gerou desequilíbrios e injustiças. E, dessa forma,
prosperou um sistema de produção ancorada na e iciência, cresci-
mento contínuo e na exclusão, com o capital assumindo a função de
mantenedor da expansão e voltado para o lucro. Por isso, mesmo
neste contexto de crise ambiental, nossa atenção não pode deixar
de voltar-se para aqueles ‘descartados’ do sistema produtivo e que
passam fome e outras necessidades. Este mundo sem o descanso
de Deus, de sua presença, corre o risco de converter-se em fábricas
que poluem e de homens e mulheres que atuam em um mercado
de trabalho gerador mais de morte, que de vida propriamente.


73   Cf. Franz ROSENZWEIG, In Jurgen Moltmann, op cit, p. 25.


72
1.5. O cuidado com a vida e suas fontes
137. Na Bíblia em geral, não encontramos um tratado especí ico
sobre o meio ambiente, mas podemos encontrar algumas indica-
ções preciosas, a partir das quais podemos perceber o respeito que
o povo de Israel devia nutrir para com os seres da natureza. Nesse
sentido, um dos mais importantes é o livro do Deuteronômio. Nele
podemos observar algumas passagens com recomendações ex-
pressas sobre o cuidado que as pessoas as quais se dirigia deviam
nutrir para com os seres do meio ambiente.
138. É interessante observar que este livro em que se reuniu leis
para vários âmbitos referentes à vida dos israelitas, prestou-se
para a reorganização da sociedade israelita na metade do século
VII a.C, numa fase posterior à dominação da Assíria e procura con-
trapor-se aos valores e práticas deste povo imperialista da época,74
inclusive no cuidado para com a natureza. Abaixo seguem algumas
destas recomendações:
      a) Dt 22,6-7 – nesta passagem, o texto diz explicitamente que
         se alguém encontrar no caminho, sobre uma árvore ou na
         terra, uma ave sobre um ninho, com ovos ou ilhotes, e
         tendo necessidade destes alimentos, poderá icar com os
          ilhotes, mas deverá poupar a ave (“livre deixarás a mãe”).
         Essa lei nos permite perceber a preocupação com a fonte
         da vida, com a continuidade do processo de reprodução
         para que a espécie não venha a se extinguir. A mentalidade
         imperialista dos assírios não demonstrava esta sensibili-
         dade, conforme é possível perceber na profecia de Isaías
         contra a Assíria, referindo-se a interferência devastadora
         da mesma em relação à dominação dos povos e ao saque
         de seus tesouros: “A minha mão, como em um ninho apa-
         nhou a riqueza dos povos... colhi a terra inteira: não houve
         ninguém que batesse as asas, ninguém que desse um pio”


74   Haroldo REIMER, In Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis:
     Vozes, 2001, n° 39, p.[189] 37.

                                                                                   73
(Is 10,14). Trata-se de uma ação destrutiva, sem a preocu-
            pação com o ciclo da vida, com a integridade da criação.
            Em virtude de atitude semelhante, temos visto que a vida
            no planeta se encontra ameaçada.
      b) Dt 20,19-20 – No Deuteronômio, mesmo em um capítulo
         em que apresenta orientações para situações de batalha,
         não é esquecido o cuidado com a natureza. Nesse senti-
         do, é interessante a indicação para se poupar as árvores
         produtivas: “quando sitiares uma cidade... não destruas as
         árvores a golpes de machado; porque poderás comer dos
         frutos. Não derrubes as árvores. Ou as árvores do campo
         seriam porventura homens para fugirem de tua presença
         por ocasião do cerco?” (Dt 20,19). A permissão para o corte
         contempla ações contra o inimigo, mas somente em rela-
         ção às árvores não frutíferas, “as árvores que souberes não
         frutíferas, poderás destruí-las e derrubá-las para as obras
         do cerco contra a cidade inimiga” (Dt 20,20). Essas reco-
         mendações são um tanto quanto paradoxais, pois em ação
         contra uma determinada população, procurava-se poupar
         árvores que lhe forneciam alimentos para sobreviver. Ex-
         pressa a distinção básica entre uma árvore e o ser humano
         e apesar da beligerância do ser humano, deixa uma espe-
         rança para uma parte da criação.75 Mas por outro lado, re-
         freava o desmatamento do lugar, preocupação inexisten-
         te às potências imperialistas da época. E, neste sentido,
         esta preocupação demonstrada no texto é oportuna para
         o nosso contexto, dado que ainda se constata o prossegui-
         mento de uma das formas mais aviltantes de agressão ao
         meio ambiente, a devastação de lorestas.
      c) Dt 23,13-15 – nesta passagem, existe a indicação para se
         manter a limpeza do acampamento: “Fora do acampamento
         terás um lugar onde te possas retirar para as necessidades.


75   Haroldo REIMER, In Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, n. 39. Petrópolis:
     Vozes, 2001, p. 42 [194].


74
Levarás no equipamento uma pá para fazeres uma fossa...
        Antes de voltar, cobrirás os escrementos.” (Dt 23,13-14).
        Aqui aparece a preocupação para com o saneamento em
        meio ao acampamento do povo, dado importante para
        as condições de vida daquelas pessoas. Em nossos dias o
        dé icit em saneamento básico é vergonhoso, atinge cerca
        de 2,5 bilhões de pessoas no mundo. É bom nos atentar-
        mos também, para o fato de que essa situação vai contra a
        santidade da vida, “teu acampamento deve ser santo, para
        que o Senhor não veja em ti algo de inconveniente e te volte
        as costas” (Dt 23,15b). Diante desse texto, que fala direta-
        mente do saneamento, devemos igualmente pensar na po-
        luição e lixo que inundam nossos rios e matas, ou o nosso
        “acampamento”.
139. Quando o pecado ganha espaço, o prejuízo acaba indo mais
longe do que percebemos ou prevemos. Os judeus costumam dizer
que Caim não foi responsável só pela morte de Abel, mas por ter
tornado impossível a vida de toda uma descendência que viria a
partir dos ilhos de seu irmão. Nós também, se não cuidamos das
fontes da vida e permitirmos a devastação do planeta, estamos ne-
gando vida e direitos às gerações que ainda não nasceram. Como
partícipes da grande família dos ilhos de Deus, temos que zelar
por todos os irmãos, os do presente e os do futuro. Esses e outros
textos bíblicos nos revelam a compreensão que Israel tinha de que
a terra, casa comum, foi criada por Deus, mas entregue aos seres
humanos, como um espaço a ser trabalhado e cuidado. Isso não
apenas em textos sobre as origens do universo, mas também na li-
teratura sapiencial conforme nos testemunha o Sl 115,16: “Os céus
são os céus do Senhor, mas a terra ele a deu aos ilhos de Adão”.
140. Essa pequena re lexão sobre cuidados para com a natureza e
meio ambiente a partir do livro do Deuteronômio, certamente nos
ajuda a pensarmos e colocarmos em prática, novas atitudes visando
à preservação do mundo em que vivemos. Pois é comum, no contexto
do atual sistema, em que os bens criados são explorados indiscrimina-
damente, nos depararmos com atitudes de absoluto descaso para com

                                                                   75
a natureza, como o mero fato de se jogar papéis no chão ou sacolas
plásticas. É urgente a nossa tarefa de construir uma espiritualidade
que contribua para que todos os seres possam ser respeitados


1.6. No deserto, uma lição de consumo responsável
141. Deus libertou o seu povo da escravidão no Egito, pois o povo
estava morrendo sob a mão forte do Faraó, e, Deus o libertou e o fez
caminhar pelo deserto, onde zelou por seu povo. Moisés foi o guia
e líder desta caminhada pelo deserto. O povo precisava de comida
e recebeu o maná, “Moisés lhes disse: Isto é o pão que o Senhor vos
dá para comer” (Ex 16,15b). Entretanto, havia normas para evitar
o desperdício e permitir que todos tivessem o necessário. Cada um
só podia recolher o que de fato precisava, “Eis o que o Senhor vos
mandou: recolhei a quantia que cada um de vós necessita para co-
mer, um jarro de quatro litros por pessoa” (Ex 16,16a). O que fosse
acumulado a mais apodreceria, “alguns, porém, desobedeceram a
Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e
apodreceu” (Ex 16,20).
142. Apodrecer é um símbolo das consequências do acúmulo
do desnecessário. Quando o ser humano quer bens materiais em
excesso, quando acumula, suscita “podridão” para na sua vida, na
dos outros e na própria natureza. Deus havia planejado tudo para
que a necessidade básica fosse atendida, tanto em relação à alimen-
tação quanto ao descanso. Mas há os ambiciosos, os que querem
acumular, ter mais. E o Senhor questiona: até quando recusareis
guardar meus mandamentos e minhas leis? (Ex 16,28). Se esse tex-
to tivesse sido escrito hoje, provavelmente Deus perguntaria: até
quando vocês vão desprezar a natureza, pela ambição de acumular
e gastar, e assim, apodrecer o planeta irresponsavelmente?
143. Essa lição da caminhada do povo pelo deserto é interessante
para a dinâmica de nossa sociedade e para cada um de nós pes-
soalmente. Segundo os estudiosos, hoje já gastamos recursos do
planeta que ultrapassam a sua capacidade de se manter susten-

76
tável. Fala-se em 25% a mais em relação ao seu limite. O sistema
capitalista atual e o modo de vida que vem sendo difundido são
altamente consumistas e desperdiçadores. As pessoas querem
acumular coisas e capital para além do que é realmente essencial
à satisfação das suas necessidades, e se deliciam, inclusive com as
coisas supérfulas.


1.7. Entrando na terra prometida
144. A terra é repartida de modo a evitar a concentração de
bens, e consequentemente de poder, “Entre estes se repartirá a
terra em herança, de modo proporcional ao número de pessoas”
(Nm 26,53). É fácil ver que o objetivo é o bem comum, não
o enriquecimento dos mais afoitos. Mas a terra, mesmo as-
sim distribuída, não é objeto de posse absoluta, sem restri-
ções. A terra continua sendo de Deus, para ser usada de modo
responsável.
145. Nesse sentido, a doutrina do descanso é primordial, pois, além
de prescrever o descanso individual no sábado, prevê também um
descanso da terra na instituição do ano sabático, que deveria acon-
tecer de sete em sete anos (Ex 23,10-11). E a lei do descanso não
parava por aí, indicava também um ano jubilar (a cada cinquen-
ta anos), no qual a terra deveria voltar às famílias que original-
mente as ocuparam, demonstrando assim, que a terra deveria ser
usada segundo o desejo de seu legítimo dono, que é Deus. Diz o
Senhor: “As terras não se venderão a título de initivo, porque a ter-
ra é minha, e vós sois estrangeiros e meus agregados” (Lv 25,23). A
intenção aí é cuidar da justiça social, impedindo que os empobre-
cidos percam tudo. Mas hoje perdemos esta perspectiva de que a
terra, em última análise é de Deus, e existe grandes acumulações
nas mãos de poucos, o que resulta em expulsão de uma grande
massa de pessoas nascidas neste ambiente para a periferia das
cidades, onde nem sempre conseguem se refazer, tudo em nome
da ganância e do lucro.
                                                                   77
146. A Bíblia nos apresenta outra proposta, que diverge das con-
cepções atuais de nosso sistema econômico liberal, que tem na
propriedade privada um de seus alicerces, e se encontra em uma
fase altamente concentradora. Esse fenômeno se dá em virtude
da concorrência do mercado, no qual, quanto mais capital alguém
dispuser e maior for a capacidade produtiva e a distributiva, mais
condições de sobrevivência e lucro terá. No entanto, esta lógica é
excludente, exclui a grande maioria, gerando sofrimento e morte.
Portanto, aqui temos duas bases para se edi icar a sociedade: uma
em que os bens estão a serviço das pessoas e outra em que as pes-
soas recebem um tratamento secundário e chegam até mesmo a
serem excluídas.

1.8. Jesus vence tentações
147. O tentador diz a Jesus depois de quarenta dias de jejum, “Se
és ilho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”
(Mt 4,3). Ele rejeita essa tentação, pois ceder signi icaria mudar a
 inalidade da natureza em bene ício próprio, sem respeitá-la. Hoje
vemos que o “o rolo compressor do capitalismo deixa de lado qual-
quer tipo de consideração de cunho afetivo e espiritual. Ele prima
pelo objetivismo, ou seja, transforma em mercadoria não apenas a
matéria, como também os seres vivos, inclusive os humanos”.76 A na-
tureza não pode ser toda transformada para servir ao nosso con-
sumo e ao lucro, sem outras considerações. Vendo o “pão” como
símbolo de bens materiais de toda espécie, temos que ver aí tam-
bém um convite para se resistir à tentação de transformar tudo em
objeto de consumo, para que tenhamos condições de aprofundar o
nosso em relação aos seres os seus autênticos valores.
148. Outro problema bem visível em nosso tempo é o desejo de trans-
formar o próprio Deus em um mágico protetor que garante a prospe-
ridade de seus devotos, o que podemos relacionar com a segunda das



76   Antônio MOSER. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro – 2009,
     p. 133.


78
tentações de Jesus. “Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o colocou
sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: Se és ilho de Deus, atira-te daqui
abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e
eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”
(Mt 4,5-6). A tentação de usar Deus em bene ício próprio é muito ar-
raigada na religiosidade que se difunde no contexto de nossa socieda-
de consumista. Em vez de servir a Deus, com tudo o que isso implica,
muitas pessoas querem que Deus esteja ao seu serviço para satisfazer
desejos e ambições individuais. Usa-se o nome de Deus até para pedir
coisas que o próprio Deus, certamente, não aprova, querendo sucesso
em tudo, mesmo quando esse “tudo” desrespeita o direito alheio ou
quer justi icar fontes de lucro que agridem o planeta.
149. A última tentação resume bem o perigo que estamos queren-
do denunciar: “O diabo o levou ainda para uma montanha. Mostrou-
lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: ‘Eu te darei
tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar’” (Mt 4,8). Diante dessa
tentação devemos nos lembrar que, “a própria fé na criação, aquela
que informando ao homem sobre a soberania absoluta do Criador,
estabelece limites ao senhorio humano sobre a terra”.77 E, quando
este limite ao senhorio humano é infringido, ocorre um processo
de degradação da vida como expressa este profeta dizendo, “o país
está abatido e seus cidadãos estão murchos. Os animais silvestres, as
aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4,3).
E, ainda vemos em outra passagem da literatura profética, na qual
se fala das consequências do rompimento da aliança com Deus, “a
terra icará mesmo vazia, saqueada de ponta a ponta... o mundo de-
 inha... A terra foi poluída sob os pés dos moradores, pois passaram
por cima das leis” (Is 24,3-5). Na literatura paulina, podemos ver
um veredito que resume o sofrer da criação pelas atitudes do ho-
mem ao sucumbir à tentação acima, “a criação foi sujeita ao que é
vão e ilusório... por dependência daquele que a sujeitou” (Rm 8,20).




77   Cf. Juan Ruiz de la Pena. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159.

                                                                                      79
1.9. O que pode nos afastar de Deus
150. No livro dos Provérbios (Pr 30,7-9) vemos que o sábio reza
para que tenha o su iciente para viver e não mais. Para que não
caia em outro tipo de tentação, pede: “concede-me apenas minha
porção de alimento. Isto para que, estando farto, eu não seja tentado
a renegar-te e comece a dizer: ‘Quem é o Senhor?’” (Pr 30,8b-9a).
Jesus vai falar muitas vezes da escolha que precisa ser feita: é Deus
ou o dinheiro que manda em nossa vida? Esse tema já foi aborda-
do na Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, ocasião em
que lembrávamos com energia que não se pode servir a Deus e ao
dinheiro. Jesus manda dar mais valor aos tesouros do céu, que cer-
tamente incluem responsabilidade pela vida e pelo outro, capaci-
dade de defender o que é certo em vez da simples acomodação que
pode nos tornar cúmplices do erro. É preciso identi icar o que, para
nós, é realmente um valor prioritário. Jesus disse: “onde estiver o
teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Se o nosso
coração estiver em Deus estará também na defesa da natureza, no
uso responsável dos dons que o Criador nos deu.


1.10. A voz de Deus na natureza
151. Mesmo antes de inspirar a escrita dos textos bíblicos, Deus
se comunicou com a humanidade através do livro da natureza, da
diversidade da vida, da riqueza de tudo que forma o mundo em que
vivemos. Seria uma falsidade louvar o Criador e não se importar
com o atual processo de destruição de suas obras no âmbito da
criação. Porém, uma espiritualidade de contemplação e deslum-
bramento diante das maravilhas da natureza é parte importante
da construção da nossa vida religiosa.
152. Diversos textos bíblicos trazem um louvor à criação, vendo
nas manifestações da natureza sinais da sabedoria, do poder, da
grandeza do Criador. Esses textos nascidos da fé e, em forma poé-
tica, convidam-nos a contemplar com olhos amorosos a criação de
Deus. Temos, por exemplo:

80
a) o cântico de Misael, Ananias e Azarias em Dn 3,57-87 –
         Esses três jovens aparecem também com o nome babilô-
         nico: Sidrac, Misac e Abdênago. Eles foram lançados na
         fornalha ardente, por causa de sua idelidade a Deus. No
         entanto, um anjo do Senhor é enviado para lançar um or-
         valho refrescante e não permite que as chamas lhes façam
         nenhum mal. No meio das chamas, os três jovens entoam
         um louvor ao Senhor, a partir das obras da criação.
      b) O salmo 8, que fala do lugar do ser humano na criação.
         O salmo 8 foi muitas vezes entendido equivocadamente
         como justi icação religiosa para o “domínio” do ser huma-
         no, “rei da criação”, sobre a natureza. No entanto, este sal-
         mo expressa o lugar que o humano ocupa no conjunto da
         criação. Se o apresenta acima de todas as criaturas (Cf. Gn
         1), não quer com isso lhe dar um direito de domínio pre-
         datório sobre a natureza, mas sugere um cuidado respon-
         sável para com ela, na função de zelador da obra de Deus.
         Sobre isso, poderíamos lembrar também a fala de Jesus: “A
         quem muito foi con iado, dele será exigido muito mais” (Lc
         12,48). O ser humano, que raciocina, toma decisões e pode
         transformar o planeta, precisa escolher com responsabili-
         dade o que faz ou o que deixa acontecer por omissão.
      c) O esplendor da criação (Sl 104). Este salmo está entre os
         mais belos do saltério; como um hino à natureza, expressa
         poeticamente a dimensão de Deus como Senhor e Criador.
         O salmo estabelece uma inter-relação de Deus com as cria-
         turas, evidenciando a consciência que tinham os antigos
         israelitas da profunda dependência vital da humanidade
         e de todo o criado em relação ao poder criador originário.
         Se Deus retira seu ruah (= espírito de vida, v. 29-32), as
         coisas voltam ao seu nada. Desse modo, a criação é pensa-
         da, neste salmo, em termos de uma grandiosa e incessante
         troca de energias.78


78   Cf. Juan Ruiz de la Pena. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159.

                                                                                      81
2. Considerações acerca da criação

2.1. A abordagem teológica
153. A origem do universo e da vida, do desenrolar deste proces-
so, quem o desencadeou, como também sobre a explicação do mal
e o do sofrimento, sempre inquietou os povos. Desde as primeiras
civilizações das quais temos notícias, o ser humano vem formulan-
do as suas respostas, muitas das quais se encontram em narrati-
vas míticas chamadas cosmogonias ou teogonias.79 Dessa forma,
os estudos de disciplinas a ins, como a antropologia das religiões,
a irmam categoricamente que nenhum povo ou religião deixou de
abordar tais temas. A Bíblia como vimos, logo no seu início, trata
destas questões e nos lança muitas luzes.
154. A teologia também aborda estes temas empreendendo uma
re lexão a partir da fé, orientada pela fé, em função da fé. Esta
re lexão é oriunda da experiência de fé, na qual o ser humano se
relaciona com o in inito mistério que o envolve e se encontra na
intimidade das coisas. Assim, o teólogo quando re lete sobre uma
realidade, o faz “crendo para compreender e compreendendo para
crer melhor”,80 segundo a perspectiva de Santo Agostinho e Santo
Anselmo.
155. Santo Agostinho a irma que a fé e a razão interligadas como
unidades complementares, de modo que a o entendimento possi-
bilita a fé e a fé possibilita o conhecimento,81 o que ele expressa
na dupla fórmula: “intellectus ut credas, crede ut intellegas”.82 Santo
Anselmo acredita que a fé procura a inteligência numa contínua e
sutil meditação racional sobre as razões da fé que são alcançadas


79   O termo se refere a grandes narrativas de caráter mítico e religioso, em que se procura
     explicar o nascimento de tudo o que existe no universo.
80   Cf. Luiz Carlos SUSIN, A criação de Deus. Ed. Paulinas, São Paulo, 2003, p.30.
81   Cf. Hubertus R. DROBNER. Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 403.
82   SANTO AGOSTINHO. Sermões 43,9.


82
com a razão que re lete as verdades da fé, explicitando suas verda-
des o que se resume em suas duas a irmações sintéticas: “ ides qua-
erens intellectum” e “credo ut intelligam”: a fé procura a inteligência
e a fé se ilumina pela inteligência.83
156. Com essa perspectiva, pode-se alcançar a razão mais profunda
do universo, com a a irmação de que, trata-se de uma criação, como
nos testemunham os relatos bíblicos. E criação enquanto obra de um
Criador que desejou as realidades que Ele criou, doando-lhes o ser
livremente, num ato de pura doação, de amor. Assim sendo constitu-
ídas todas as coisas, o sentido autêntico da existência e a destinação
de tudo, advém da relação e diálogo com o Criador. A perspectiva de
diálogo é entendida como chave para a teologia da criação.
157. Esta relação não é entre iguais: Deus concede a existência, a
criatura a recebe. O ato criador é puro dom à existência, e a criatu-
ra somente existe em virtude desta gratuidade recebida. O fato de
o Criador se doar nesta relação, não o priva e nem lhe acrescenta
nada. Portanto, a noção de criação convida à contemplação de um
ato de pura bondade e pura liberdade do Criador, no qual podemos
identi icar um amor imenso.


2.2. A Trindade e a criação
158. A teologia cristã concebe Deus como uma unidade indissolú-
vel de três Pessoas que constituem um único Deus. A experiência
cristã de Deus permite à teologia apresentar Deus não como um
ser distante e solitário em seu poder e transcendência. Deus é des-
crito de modo familiar, as Pessoas divinas são denominadas com
termos relacionados ao nosso universo vital signi icativo mais ín-
timo: Pai, Filho e Espírito. A razão, é que a vida foi concedida como
um dom, em que a criação é chamada à interlocução e comunhão
com o Criador, o que confere plenitude à existência de todo o ser
criado e de toda a criação.


83   Cf. REALE, G. e ANTISERI, D. História da Filoso ia. São Paulo: Paulinas, 1990, vol. 1, p. 501.

                                                                                                83
2.3. A criação como dom do Pai
159. O nosso contexto cultural favorece a atitude do ser humano de
centrar-se em si mesmo e de usufruir das coisas ao seu redor segundo
lhe convém. Para romper com este utilitarismo é necessário resgatar
a perspectiva da vida como um dom. E, é justamente esta ideia que o
termo criação faz emergir, dado que ele indica um ato de gratuidade
de Deus ao chamar as coisas à existência. O fato de se receber o ser por
meio da criação, exclui qualquer alternativa para justi icar a existência
que não seja o reconhecimento desta como um dom recebido. A cria-
ção aponta para uma intenção e um querer do Criador em prol desta
existência e das circunstâncias que a envolvem.
160. Compreender a existência pessoal e de toda a criação como
um dom, é um convite a se experimentar a gratuidade do Criador, o
seu amor imenso que o leva ao compromisso para com a criação e,
consequentemente, ao cuidado para com os seres criados. Assim, o
Criador se revela em atitude de diálogo e comunhão, e esta atitude
não fere o seu caráter de ser Absoluto e transcendente. O diálogo
pode se realizar de diferentes maneiras: no âmago da interiorida-
de como expressou Santo Agostinho, nos acontecimentos da his-
tória como na experiência do povo bíblico ou na contemplação da
própria obra da criação.
161. Por isso, não obstante a radical diferença entre o ser do Cria-
dor e das criaturas existe o âmbito para o diálogo e a comunhão,
na liberdade de uma busca sincera, que deve se caracterizar como
encontro permeado pelo amor. Isso porque o dom da existência
criada é expressão de um querer amoroso do Criador como Pai,
que deseja as criaturas para com elas estabelecer a comunhão de
vidas, mediante a dinâmica da trama histórica.


2.4. A criação em Cristo
162. A razão mais profunda e autêntica de toda a criação emer-
ge deste imenso horizonte descortinado pela Encarnação daquele

84
que é a Imagem do Deus invisível, constituído como Primogênito
de toda a criação (Cl 1,15). Como diz este hino, nele, por Ele e para
Ele, todas as coisas foram criadas, pois Ele preexiste, é antes de
tudo e por Ele tudo subsiste (Cl 1,16b-17).
163. A palavra “primogênito” (em grego: protótokos) indica a rela-
ção ilial de Jesus com o Pai desde toda a eternidade, realçando sua
eminente dignidade frente à criação, seja em sentido de causa (não
criado), como de tempo (desde toda a eternidade).
164. Paulo quer evidenciar neste hino, não só a preexistência do
Filho, mas também sua excelência na ordem da criação, por isto
se constituiu em modelo para tudo o que foi criado. Na catedral
de Chartres, na França, Deus é representado criando Adão com
uma face semelhante à sua, e esta face é a de Cristo. Mas, Cristo
não é somente o modelo, ele participou ativamente da criação. E
continua participando, para manter essa criação na existência, na
unidade, para organizá-la e conduzi-la ao seu destino,84 mediante
o seu Espírito.


2.5. A criação no Espírito Santo
165. A consideração da presença e atuação do Espírito Santo na
obra da criação ganhou relevância no desenvolvimento da teologia
da criação, neste contexto de crise planetária do meio ambiente.
Porque para se resgatar o justo valor da natureza criada e agora
ameaçada, é necessário também dizer às pessoas que Deus não só
tudo criou, mas que também de alguma forma se faz presente e
pode ser contemplado na criação.
166. Pela presença e ação do Espírito, Deus faz morada no âmbi-
to de toda a criação e toda a criação se torna templo de Deus. De
modo que pelo “Espírito é... que todas as coisas comungam umas


84   Luiz Carlos SUSIN, O Novo Testamento interpretado, versículo por versículo. Colossenses,
     v. 5, p. 94-95; COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Petrópolis:
     Vozes, 1986, p. 36.

                                                                                           85
com as outras, é o elo e laço, união da biodiversidade do universo...
leva a criação não só a desabrochar, mas a amadurecer e chegar à
plenitude dos desígnios divinos”.85 Por essa razão, o jesuíta francês
Pierre Teillard de Chardin a irma que é necessária uma educação
da vista por que para quem é capaz de ver não existe nada de pro-
fano no universo.86
167. Esta obra singular do Espírito Santo de levar a criação à ple-
nitude, signi ica santi icação ou cristi icação do gênero humano,
como também da história e de todo o universo. Nesse sentido, o
Espírito opera a obra de reconciliação no âmbito de toda a criação,
agindo misteriosamente no interior de cada ser humano para que
este aos poucos, se con igure a Cristo o Primogênito da criação.
168. Esta atuação do Espírito é percebida e testemunhada nas co-
munidades cristãs, porque a sua ação vai moldando as pessoas ali
reunidas de modo a transformá-las no corpo de Cristo, vivo e atu-
ante. Este corpo de Cristo que se atualiza na história, está a serviço
da grande obra do Espírito, que suscita desde o interior deste pro-
cesso, o Reino de Cristo.


2.6. A criação e a Igreja
169. Na carta aos Efésios,87 Cristo e a Igreja são ligados de modo
indissociável. Cristo é apresentado como o seu esposo (Ef 5,22-23),
e forma com ela uma única realidade ou uma só carne (Ef 5,31-32).
Cristo, alçado à condição de cabeça do universo, o é igualmente
cabeça da Igreja. Assim sendo, existe uma relação especial entre
Cristo e a Igreja, somente ela é o corpo de Cristo e não o cosmos
inteiro e nela Cristo Jesus exerce o senhorio enquanto cabeça,


85   Luiz Carlos SUSIN, O Novo Testamento interpretado, versículo por versículo. Colossenses,
     v. 5, p. 39.
86   Cf. TEIXEIRA, F. O sentido místico da consciência planetária in OLIVEIRA, P. A. R. e SOUZA,
     J.C.A. (orgs.) Consciência Planetária e religião. São Paulo: Paulinas, 2009, p 214.
87   Cf. Maria de Lourdes CORRÊA LIMA. A Teologia da Criação em Efésios. In Perspectiva
     para uma nova Teologia da Criação. p. 204-207.


86
perpassado pela entrega amorosa e pelo cuidado, com a inalidade
de puri icá-la e santi icá-la (Ef 5,25-27).
170. Este corpo de Cristo é constituído pelos cristãos que nele se
tornam um só homem novo, mediante a sua vitória diante de tudo
o que gera separação. Este seu corpo, a Igreja, é o lugar privilegiado
em que Cristo vai operando a reconciliação e uni icação, como Ca-
beça, mas em vista de um projeto mais abrangente, a reconciliação
de toda a criação. E neste contexto amplo de todo o gênero criado,
a Igreja como corpo de Cristo, nele uni icada, tem como função ser
mediadora da uni icação.
171. Portanto, a unidade em Cristo, com Cristo e para Cristo na
Igreja, é ao mesmo tempo dom e tarefa, que insere a sua missão no
âmbito de todo o mundo criado. No entanto, esta ação abrangente
da missão que abarca toda a criação, a Igreja a realiza em vista da
convergência de tudo em Cristo.
172. Nesse sentido, a relação com a natureza em vista de Cristo,
é libertadora para o ser humano, pois contribui para se evitar a
sacralização ou demonização do mundo ou de alguns de seus ele-
mentos. A criação em Cristo, pelo Pai e no Espírito é re lexo do amor
de Deus, exprime sua bondade. E a esta, Deus enviou o seu Filho,
segundo o desígnio amoroso de Deus para que esta obra alcance a
plenitude. A criação e salvação se encontram na perenidade de um
Deus que está na origem de ambas, tendo um mesmo mediador
que assegura e realiza o sentido de tudo. Cabe à Igreja, fundada em
Cristo e na força do Espírito, viver e se estruturar de modo a contri-
buir para que os seres criados sejam renovados em Cristo.


2.7. A criação e a Eucaristia
173. O venerável Papa João Paulo II no início de sua Carta Encí-
clica Ecclesia de Eucharistia, nos deixa um testemunho belíssimo
da dimensão cósmica da Eucaristia. Faz memória dos lugares em
que celebrou a ceia eucarística que vão desde as mais suntuosas
basílicas e catedrais do catolicismo às modestas capelas rurais,

                                                                    87
passando por altares erigidos em estádios e praças. E conclui di-
zendo, “Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísti-
cas faz-me experimentar intensamente o seu caráter universal e, por
assim dizer, cósmico. Sim cósmico”.88
174. Ele diz que a Eucaristia, mesmo quando celebrada sobre um
altar de uma Igreja de aldeia, esta celebração se realiza sobre o al-
tar do mundo e, ali se entrelaçam o céu e a terra, de modo que toda
a criação é impregnada por aquele ato. Na Eucaristia se atualiza o
mistério da entrega do Filho de Deus o sumo e eterno Sacerdote,
que derramou o seu sangue na cruz para a redenção de toda a cria-
ção, e, um dia entregá-la perpassada pelo seu mistério pascal ao
Pai. E a irma, “este é o mysterium idei que se realiza na Eucaristia:
o mundo saído das mãos de Deus criador volta a ele redimido por
Cristo”.89
175. Pela Eucaristia Deus abraça todas as suas criaturas e as envol-
ve no mistério pascal de seu Filho, de modo que, de Eucaristia em
Eucaristia, se realiza o seu plano de tudo recriar em seu Filho. Para
isso também concorre a ação do Espírito Santo. Nesse sentido, a
comunidade que se reúne em torno do altar na celebração eucarís-
tica clama, “vem Senhor Jesus”, para que o Reino de Deus se realize
na história e no cosmos. Os cristãos precisam ser despertados para
a compreensão da dimensão cósmica dos efeitos da Eucaristia.
176. Também de eucaristia em eucaristia, os cristãos vão sendo
con igurados a Cristo. Destes que se reúnem para celebrar eucaris-
tia, se espera que possam assumir atitudes em prol do cuidado para
com a vida no planeta em todas as suas dimensões, e, especialmen-
te dos pequeninos, os mais afetados pelas mudanças climáticas em
curso.É desta forma, que a Igreja, através de suas comunidades, se
faz discípula e missionária de nosso Senhor. E irá cumprir a sua
missão de contribuir para o crescimento do Reino de justiça e de
paz na história, fomentando os valores do Reino nas sociedades


88   JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n. 8.
89   Idem.


88
que se defrontam com os seus desa ios. A concretização de todos
estes desdobramentos da eucaristia gera ressurreição, a renovação
da vida. Pierre Teilhard de Chardin, no seu ensaio “Missa sobre o
mundo”, de 1924, mostra de forma teológica e celebrativa a relação
entre a eucaristia e o mundo criado, assim como os efeitos da cele-
bração eucarística sobre o cosmos em vista da sua cristi icação.


3. O pecado e sua dimensão ecológica
177. As criaturas foram chamadas à vida por Deus Criador por
amor, num ato de doação de vida. E, mesmo envolvendo-as com sua
presença, Deus respeita os seres criados em sua justa autonomia e
liberdade. Esta condição é indispensável para que o homem e mu-
lher, queridos e criados por Deus, também pudessem amar. O amor
é também condição para que cumprissem a missão de cuidar da
obra realizada pelo Criador, a qual exige doação e entrega. E não se
pode simplesmente exigir isto de alguém, tal empenho requerido
por Deus ao homem, passa por um coração que ama.
178. No entanto, esta mesma liberdade entrevia a possibilidade
do pecado, ou do uso da liberdade para se negar a via do amor,
cuja consequência é o rompimento da con iança em Deus e nos de-
mais seres. “Ninguém pode hospedar a quem lhe traiu a con iança
e ninguém permanece hospedado com alguém a quem ofendeu. O
livre ato humano impossibilita a continuidade do shabbat: a festa é
interrompida abruptamente”.90 Em consequência o homem e a mu-
lher vão se emancipar de Deus, ou passam a viver num estado de
autonomia que implica separação de Deus e autoa irmação em si
mesmos. Neste estado, já não acolhem o chamado de Deus para
cooperarem com o seu projeto, e se fecham cada vez mais em um
mundo próprio em descordo com a palavra do Criador. Neste sen-
tido, vão conhecer uma degradação cada vez maior, como podemos
vemos na sequência dos primeiros capítulos do livro do Genesis.


90   BRUSTOLIN, L.A. e MACHADO, R.F. Um pacto pela terra – a crise ecológica. In TEOCOMU-
     NICAÇÕES. Porto Alegre – Vol. 38, No. 160 – maio/agosto 2008.

                                                                                      89
179. Na crise ambiental atual, ica patente o poder destruidor do
pecado. É o mesmo poder que nega ou deturpa a relação dialógica
com o Deus da Vida e do Amor, as relações entre homem e mulher
bem como as outras relações entre os seres humanos (comunitá-
rias, políticas, econômicas, etc.). É o mesmo poder mortífero crista-
lizado em estruturas sociais injustas e em modos de produção-con-
sumo destruidores do meio ambiente. A alienação do ser humano
em relação ao projeto de Deus sobre a humanização, manifesta-se
na sociedade injusta e opressora e na utilização abusiva e destrui-
dora da natureza.
180. Nessa visão integrada do ser humano, a salvação oferecida
pelo Deus da revelação bíblica afeta o ser humano em todas as
suas dimensões. O universo inteiro possui uma dimensão crística.
A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo possuem
um signi icado cósmico, totalmente universal. A libertação da na-
tureza, manipulada abusivamente pelo ser humano, está incluída
na libertação do pecado humano para a vivência da liberdade con-
cretizada no amor-serviço. Inclui as relações responsáveis e soli-
dárias com as outras criaturas. Hoje, ica cada vez mais claro que a
salvação do ser humano é inseparável da salvação da criação toda
(Rm 8,19-23). O destino de ambos está intimamente unido.


4. O cuidado
181. O resgate da teologia da criação nos tempos atuais, especial-
mente com a grave questão ambiental e com a consciência que
hoje temos, nos permite entender que o projeto do Criador para o
homem pode ser entendido sob o prisma do cuidado para com as
criaturas. Mesmo o ser humano sendo criado à “imagem e seme-
lhança” de Deus e tendo recebido uma palavra que lhe diz “dominai
sobre as criaturas”, como já visto.
182. Esta palavra, cuidado, no latim provém de “cura”, que se exerce
mediante atitudes de amizade e amor. Interessante que o cuidado exi-
ge uma atitude de con iança, contrária à que apareceu com o pecado,


90
como na re lexão acima. Assim, não é exagero dizer que o cuidado é a
essência do ser humano, o cuidado inclui uma dimensão ontológica.91
183. É característica do cuidado, não criar dependência, mas res-
peitar a identidade dos demais, como a peculiar maneira de ser e de
existir de cada um dos demais seres. O cuidado deve também inspi-
rar a preocupação e atitudes que cooperem com o crescimento do
outro. Essas atitudes somente vão brotar da criatividade de quem se
encontra imbuído do amor, de quem está pronto para a doação.92
184. É, igualmente, fundamental para a emergência do cuidado, a
aparição do rosto a ser cuidado, ou da alteridade e sua interpela-
ção à responsabilidade amorosa geradora do cuidado. Neste sen-
tido, em nossos dias, se coloca um rosto atualíssimo, o do próprio
planeta, pois, “a criação geme como em dores de parto” (Rm 8,22),
clamando por cuidados com seus distúrbios climáticos, para os
quais o modo de viver impulsionado pelo sistema organizacional
de nossas sociedades, baseado no consumismo cooperou. E este
processo que tem degradado os bens da natureza ainda avança em
ritmo acelerado.
185. E este cuidado deve ser no sentido de se alcançar uma socie-
dade sustentável, dirimindo as injustiças que excluem milhões e
milhões de pessoas, e pautada em um modo de viver compatível
com a preservação desta imensa riqueza que é a vida no plane-
ta. Para tanto, se faz necessário mudanças drásticas no comporta-
mento das sociedades e camadas sociais, que apresentam maior
“pegada ecológica”, responsáveis por grande parte das emissões
de gases de efeito estufa. Este cuidado, requer a sabedoria para se
criar alternativas, mas sobretudo, a mudança da base dos valores
que hoje sustentam esta dinâmica da busca incessante do lucro e
do consumo.




91   Cf. MOSER, Antônio. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro,
     Petrópolis: Vozes, 2009, p. 138.
92   Cf. Idem.

                                                                                      91
5. São Francisco e a criação
186. São Francisco é hoje um modelo para os que buscam uma re-
lação mais qualitativa em relação às criaturas, pois cresce a cons-
ciência de que há relações que as degradam, acarretando também
a degradação do ser humano. Existe uma interrelação entre o ser
humano e as criaturas, como soube expressar São Paulo:

                         “De fato, toda a criação espera ansiosamente a revela-
                         ção dos ilhos de Deus; pois a criação foi sujeita ao que é
                         vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência
                         daquele que a sujeitou. Também a própria criação espe-
                         ra ser liberta da escravidão da corrupção, em vista da
                         liberdade que é a glória dos ilhos de Deus. Com efeito,
                         sabemos que toda a criação, até o presente, está gemen-
                         do como que em dores de parto” (Rm 8,19-22).

187. Por atitudes de arrogância e autosu iciência dos homens ex-
ploraram exaustivamente a natureza e a destruíram, depredaram,
aniquilaram, extinguiram espécies e poluíram o ar e as águas. As-
sim, não foram respeitosos ao Criador que ao ser humano reservou
a função de cuidar do seu jardim e de todas as criaturas.93 Nesse
sentido, é necessário que se desenvolvam novas atitudes para com
a criação que se constitui em um dom de nosso Deus Criador.
188. Em relação à posse, esta relação é também muito perigosa, pois
pela posse, o detentor de poder desquali ica o signi icado ou identi-
dade dos seres em geral, entendendo-os como meros objetos para
servir à intenção ou à necessidade de quem os possui. São Francisco
soube contemplar e valorizar as coisas pelo que eram e pelo valor
mais profundo que apresentavam como criaturas de Deus.94
189. O uso das criaturas para o nosso sustento e sobrevivência
é imprescindível e se o homem foi colocado como o zelador das


93   Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. Visão franciscana das criaturas. In Perspectivas para uma
     nova Teologia da Criação. p. 274.
94   Cf. Idem. p. 275.


92
coisas, de outro, também é verdade que tudo lhe icou à disposição.
O problema está no uso indiscriminado, na gastança desmedida,
no consumismo desenfreado, muitas vezes de coisas supér luas. É
necessário resgatar a sobriedade no consumo dos bens necessá-
rios à dinâmica da vida e evitar desperdícios. São Francisco soube
cultivar esta sobriedade no uso das criaturas, como podemos ver
no fato de mandar o lenhador cortar apenas os galhos secos das
árvores para que continuassem produzindo.95
190. A transformação está ligada ao trabalho, à atividade mediante
a qual os seres humanos operam transformações de materiais ou
de seres em outras realidades segundo sua intenção e necessida-
de. Hoje vemos que as transformações muitas vezes somente vão
atender à necessidade de se manter ativa a roda do consumismo,
com a produção do supér luo. No entanto, esta atividade deve visar
à vida e à sua justa manutenção.
191. Resgatar São Francisco neste contexto de nossas relações
com as criaturas da natureza signi ica valorizar suas atitudes. Pri-
meiramente, a pobreza, que neste santo signi icou a não-posse,
reverteu-se em redenção para as criaturas, e lhe possibilitou pelo
olhar contemplativo alcançar o que eram realmente, a ponto de
lhes chamar de irmãs e irmãos. A razão é simples, em última aná-
lise este olhar puri icado de poder e lucro, revela que as criaturas
são dom de Deus e também portam sinais do Criador.
192. Por isso, São Francisco puri icado interiormente pela ação do
Espírito que o conduziu a renúncias, como posse e dominação, ao
contemplar a natureza, nela somente via re lexos da imagem de
Deus, de sua bondade e beleza. Assim, as criaturas não se consti-
tuem em obstáculos para se encontrar Deus e amá-lo.96
193. Assim, a contemplação deste santo não era pautada simples-
mente pelo fator racional, mas se deixava levar pelos seus sentimentos,


95   Cf. Idem.
96   Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. Visão franciscana das criaturas. In Perspectivas para uma
     nova Teologia da Criação. p. 276.

                                                                                      93
por sua sensibilidade, até o ponto de realmente amar as criaturas,
a inal, havia feito a descoberta de que elas eram também suas irmãs.
Em consequência, nele brotou um respeito impressionante por todos
os seres criados e soube viver de modo perfeitamente integrado a
este universo, numa grande fraternidade com todo o universo criado
por Deus. São Francisco, disse um de seus biógrafos, descobriu os se-
gredos do coração das criaturas, às quais chamava de irmãs, porque
já parecia gozar a liberdade gloriosa dos ilhos de Deus.97
194. Que a oração em que São Francisco louva a Deus pelas cria-
turas, nos inspire novas atitudes e nos ajude a ser transformados
pelo Espírito de Deus de modo a resgatarmos atitudes de quem
cultiva e cuida do seu jardim, esta obra maravilhosa, que hoje re-
quer socorro dos autênticos ilhos de Deus, e de todos aqueles que
empreendem ações sinceras e despojadas em prol do planeta.


Cântico das Criaturas                                  São Francisco de Assis

Altíssimo, onipotente e bom Deus, teus são o louvor,
a glória, a honra e toda benção.
Só a Ti, Altíssimo, são devidos, e homem algum
é digno de Te mencionar.
Louvado sejas, meu Senhor, com todas as Tuas criaturas.
Especialmente o irmão Sol, que clareia o dia
e com sua luz nos ilumina.
Ele é belo e radiante, com grande esplendor de Ti,
Altíssimo é a imagem.
Louvado sejas meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas,
que no céu formastes claras, preciosas e belas.
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Vento,
pelo ar ou neblina, ou sereno e de todo tempo,
pelo qual às Tuas criaturas dais sustento.


97   Cf. Idem. p. 277-278.


94
Louvado sejas meu Senhor, pela irmã Água,
que é muito útil, humilde, preciosa e casta.
Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Fogo,
pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e alegre, vigoroso e forte.
Louvado sejas meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra,
que nos sustenta e nos governa, e produz frutos diversos,
e coloridas lores e ervas.
Louvado sejas meu Senhor, pelos que perdoam
por teu amor e suportam enfermidades e tribulações.
Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por Ti,
Altíssimo serão coroados.
Louvado sejas meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal,
da qual homem algum pode escapar.
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar conforme à Tua Santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.
Louvai e bendizei ao meu Senhor, e daí-lhes graças
e servi-O com grande humildade.
Amém.




                                                                       95
Terceira PARTE
      AGIR

 Introdução
 195. A primeira parte deste texto focalizou a problemática do
 aquecimento global, suas consequências em nosso planeta e as
 atividades do ser humano que estão ocasionando ou no mínimo
 contribuindo para esta situação no planeta. A segunda etapa nos
 iluminou ao atualizar o projeto de Deus nosso Criador para este
 mundo e para o ser humano.
 196. Esperamos que este percurso tenha suscitado preocupações
 para com a situação em que se encontra o planeta e com os ru-
 mos de nossa sociedade. E, que estas preocupações, levem cada
 um a perceber que também contribui e é parte do problema. Mas,
 a maior contribuição que esperamos da abordagem deste tema é
 que desperte o desejo de transformação desta situação. Pois, re-
 sulta em maiores di iculdades às vidas dos mais necessitados e põe
 em risco as condições futuras para a vida no planeta.
 197. A problemática que aqui abordamos foi agravada pela nossa
 civilização industrial, e vem se agravando pelo estilo de vida alta-
 mente dispendioso em materiais e energia que tende a se difundir,
 que degradam os bens do planeta e comprometem a sua “saúde”.
 198. Neste sentido, a re lexão que realizamos deve nos conduzir a
 ações concretas. A solução para que ao menos seja contido o aqueci-
 mento global dentro de patamares suportáveis, não é tão simples. É
 de caráter global, passa por um grande acordo entre as nações, por
 sacri ícios, especialmente das nações mais ricas e maiores emisso-
 ras, por melhores condições de vida de nações inteiras que ainda
 se encontram em condições de miséria e fome, pela diminuição
                                                                   97
do apetite de crescimento das empresas, das nações, por inovações
em várias áreas que permitam uma pegada ecológica menor. O que
certamente resultará na diminuição das emissões de gases de efei-
to estufa.
199. Entretanto, mesmo diante disso, é alentador saber que pode-
mos sim, fazer algo e dar o nosso contributo, ele não só é válido, mas
necessário. E quanto mais nos organizarmos para ações que visem
diminuir as emissões, melhor será o resultado das iniciativas.
200. Enquanto Igreja, formada por discípulos e missionários de
Cristo, conscientes do papel das comunidades que a compõem, no
contexto do Reino, nos revistamos da atitude que levou o bom sa-
maritano a reclinar-se sobre aquele sofredor, para que com a força
e sabedoria do Espírito, nos empenhemos nesta causa, pois, a inal
de contas, “Toda a criação, até o presente, está gemendo como que
em dores de parto” (Rm 8,23).


Propostas para o agir

1. Resgatar o sentido profético do domingo98
201. Por trás do texto do descanso sabático está uma estrutura
de tempo que marca a nossa existência, mas que, hoje, é constan-
temente desrespeitada justamente por causa das exigências de
produção capitalista ininterrupta. Os textos sabáticos da Bíblia in-
dicam claramente para a estrutura da semana de sete dias. Hoje
a medicina já reconheceu que a pessoa que não observa tempos
de descanso em meio às jornadas de trabalho adoece mais e, em
geral, morre mais cedo. No ritmo de vida do mundo moderno, há
certamente exigências que nos obrigam a trabalhar mais, mesmo
estando num tempo em que, contraditoriamente, todos poderiam


98   Para esse intento, temos a Carta Apostólica Dies Domini dada à Igreja pelo Papa João
     Paulo II.


98
trabalhar menos e, mesmo assim, receber o necessário para viver
com dignidade. Porém, observar tempo de pausa pode ser uma
boa fonte de investimento em sua própria vida, economizando di-
nheiro que seria gasto com médicos e remédios! Mas para além
de uma perspectiva utilitária, resgate do sentido do domingo ad-
vindo da experiência judaico-cristã, há uma dimensão profética e
ainda mais profunda, no contexto de nossa sociedade. Pois o re-
pouso proposto neste dia, que requer a interrupção das atividades
e do ritmo oprimente destas ocupações, convida a um desprendi-
mento destas ocupações para que cultivemos uma sadia relação
com nosso Criador e Salvador, sendo como Ele, sempre capazes de
amar com gratuidade. Assim, o ser humano não vai se perceber
como centro do universo, pois existe um Criador, “tudo é de Deus”,
o universo e a história. O homem assim, se percebe agraciado com
um dom inestimável que é a vida e como integrante de um grande
projeto divino, cujo principal artí ice é o próprio Criador, que com
sua ação providente tudo sustêm. Essa mensagem propicia sereni-
dade e encorajamento às pessoas, que podem repousar em Deus. E
dessa experiência há que brotar um legítimo agradecimento pelo
dom imenso da vida, o que a Igreja o faz especialmente na celebra-
ção da Eucaristia. Com o resgate do domingo, as pessoas hão de se
perceber como integrantes da criação, dom de Deus e retomar o
compromisso de cuidar do jardim do Senhor.


2. Para você saber sobre o seu consumo ecológico
202. Neste sentido, propomos um exercício para que cada um pos-
sa perceber que é integrante deste todo, que hoje sofre as consequ-
ências de nosso modo de viver dispendioso de um modo concreto.
Este exercício permite quanti icar o consumo e a emissão de gases
de efeito estufa de uma pessoa, como também de uma instituição,
de uma empresa, de um bairro, de uma cidade. Para isso, basta
acessar um dos sites abaixo relacionados. Para medir o próprio
consumo ecológico, ou a quantidade de energia no cotidiano pes-
soal. Como re letimos no Ver, os processos de produção energética

                                                                  99
são responsáveis por grande parte da emissão de gases de efeito
estufa e consequente agressão à natureza:
      a) http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/
         calculadora/. Por este site disponível em português, é pos-
         sível medir a pegada ecológica pessoal mediante o preen-
         chimento de um cadastro e de uma icha.
      b) www.myfootprint.org (Rede ining Progress. The Nature of
         Economics). Nesse link, em cinco idiomas, existe a opor-
         tunidade de medir o rastro pessoal ecológico. Informa a
         quantidade de energia despendida pelo consumo humano
         global e, em seguida, propõe a medição da cota de par-
         ticipação pessoal a partir de 27 perguntas de múltiplas
         escolhas. Informa também acerca de esforços no sentido
         de controlar os gastos energéticos por instituições, pro-
         gramas, acordos, etc. Preencher o questionário leva em
         torno de 15 minutos e proporciona uma primeira visão
         panorâmica do gasto mundial de energia. Trata-se de um
         interessante exercício para se tomar consciência de que
         se está no centro de um grande problema e não há como
         permanecer alheio.
      c) www.vidassostenible.org/ciudadanos/a1.asp (Fundación
         Vida sustenible). A medição dos gastos energéticos se faz
         mediante cotas de energia, água, transporte, resíduos e
         materiais. Foi desenvolvido para a realidade da Espanha,
         porém este site é útil pelos conselhos e referências práti-
         cas que oferece para um uso comedido.
203. É de suma importância perceber a si mesmo como integrante
de uma rede maior de relações de produção e consumo. A própria
necessidade de sobrevivência impõe ininterrupta intervenção so-
bre o ambiente. Os humanos são seres de combustão. Alimentam-
se de outras formas de vida para sua própria manutenção. As inter-
venções, contudo, podem ser diferentemente moduladas. A “pega-
da humana” sobre o ambiente pode ser mais pesada ou mais leve.
Depende do modo como se “pisa”. Há formas mais predatórias de

100
organizar a vida em sociedade e há outras menos predatórias. No
fundo depende do exercício de sabedoria.


3. Propostas para se diminuir o consumo pessoal
204. A consciência de que cada um de nós é parte do problema,
deve se reverter na convicção de que cada um pode pessoalmen-
te dar o seu contributo para a diminuição das emissões de gases
de efeito estufa. Neste sentido, existe uma campanha interessante
promovida pela 10:10 Global, organização fundada em 2009 por
Franny Armstrong, diretora do ilme-documentário “A Era da Es-
tupidez”, e pela 350.org. Nela já se integra o Conselho Mundial das
Igrejas, queorganiza anualmente o “Tempo da Criação”, um período
privilegiado para que as igrejas cristãs re letem e rezem pela pro-
teção do meio ambiente, “como Criação divina e herança comparti-
lhada”. Esta campanha tem como objetivo conscientizar as pessoas
para que contribuam para que a proporção de dióxido de carbono
(CO₂) na atmosfera volte e não ultrapasse mais a casa dos 350ppm.
E são apresentadas vinte maneiras viáveis que nem sequer chegam
a exigir grandes sacri ícios para que cada um possa dar o seu con-
tributo nesta empreitada:
    1.   Faça de conta que as sacolas plásticas não existem: use
         bolsas e sacolas de algodão para carregar compras.
    2.   Consuma produtos locais: o transporte de produtos que
         vêm de longe consome petróleo e aumenta o efeito estufa.
    3.   Diminua a temperatura de geladeiras, ar condicionados e
         estufas no inverno e aumente no verão: assim, você vive
         melhor e polui menos.
    4.   Use melhor os eletrodomésticos: desligue o computador
         e a televisão quando não são utilizados. O modo stand-by
         consome energia e, portanto, polui.
    5.   Pegue sol. Como? Com painéis solares – para aquecer água
         ou produzir energia elétrica.

                                                                101
6.   Troque (se puder) de carro; pre ira os movidos a gás ou
           etanol. E, principalmente, use-os o menos possível.
      7.   Fique com os pés no chão: os aviões provocam 10% do
           efeito estufa mundial.
      8.   Coma frutas e verduras (se orgânicas, melhor): carne de
           ovinos e carne de bovinos são responsáveis por 18% das
           emissões mundiais de gás carbônico, além de favorecer o
           desmatamento devido à sua exploração intensiva.
      9.   Use fraldas ecocompatíveis: a biodegradação das fraldas
           tradicionais leva 500 anos.
      10. Para conservar os alimentos, use vidro e não alumínio ou
          plástico: esses poluem e, para a sua produção, o desperdí-
          cio energético é enorme.
      11. Informe-se com inteligência: existem centenas de sítios,
          revistas e canais de TV que falam sobre meio ambiente e a
          sustentabilidade.
      12. Não use papel: utilize a tecnologia digital para enviar e re-
          ceber documentos e para se informar. Assim, você salva
          árvores e não polui com o transporte.
      13. Escove os dentes, mas com inteligência: se deixar a tornei-
          ra aberta, você joga fora 30 litros de água. Abra a torneira
          só quando for preciso.
      14. Use lâmpadas econômicas: consomem cinco vezes menos
          e duram 10 vezes mais.
      15. Coma de forma sadia, pre ira o orgânico: é um método de
          cultivo que respeita o meio ambiente.
      16. Coma com consciência: os hambúrgueres são bons, mas,
          para serem produzidos, requerem uma grande pegada
          ecológica. Pense nisso.
      17. Um banho é bom se dura pouco: em três minutos, você
          consome 40 litros d’água. Em 10 minutos, mais de 130 li-
          tros em média.

102
18. Pense sempre que todo objeto que você usa irá se tornar
       lixo: faça com que ele dure o máximo possível.
   19. Usar e jogar fora? Não, obrigado. Por exemplo, use pilhas
       recarregáveis: podem ser recarregadas até 500 vezes.
   20. Faça a coleta seletiva: é a contribuição mais inteligente e
       mais importante que você pode dar ao meio ambiente.


4. As cidades e o meio ambiente
205. As populações precisam estar atentas e lutarem para algu-
mas melhorias em suas cidades que contribuam para o seu bem
estar, saúde e cuidado com o meio ambiente.
   a) Saneamento básico. No Brasil, cerca de 87% da população
      tem acesso a água potável, enquanto o saneamento básico
      é um problema para cerca de 30% dos brasileiros, o que
      signi ica oferecer condições de vida degradantes a estas
      populações, que as expõe a enfermidades e, é causa de
      inúmeras mortes infantis.
   b) No Brasil, 90% dos esgotos domésticos e 70% dos e luen-
      tes industriais não tratados são despejados diretamente
      nos corpos d’água, contaminando suas águas e aquelas
      subterrâneas. É o momento de se exigir mais investimen-
      tos, pois muitos rios estão com suas águas deterioradas
      com graves prejuízos para a sua fauna, além de compro-
      meter a qualidade da água captada para o tratamento e
      abastecimento urbano.
   c) A produção de lixo no Brasil já se equipara aos padrões eu-
      ropeus. A média de geração de lixo no mundo está em torno
      de 1 kg/dia por pessoa; no Brasil a média é de 1,52 kg/dia
      por pessoa. E, não obstante esta enorme geração de lixo,
      somente 56,6% das cidades brasileiras possui algum pro-
      grama de coleta seletiva do lixo, número que indica certa
      estagnação deste processo, apesar de o Brasil apresentar

                                                               103
bons índices de reciclagem em alguns itens como lata de
             alumínio 91,5%, plástico PET 54,8, vidro 47% e papel
             45%.99 As coletas seletivas de lixo precisam avançar, as
             reciclagens precisam ser estimuladas, pois além de repre-
             sentarem alívio no consumo de matérias retiradas da na-
             tureza, signi icam ganhos, postos de emprego.
       d) Rever o transporte urbano, priorizando meios de transpor-
          te de massa e que utilizem fontes limpas de energia; além
          disso, que sejam criadas ciclovias e incentivado o uso de bi-
          cicletas, e que sejam reorganizados os bairros, de tal modo
          que a população possa suprir suas necessidades e chegar ao
          trabalho sem deslocamentos signi icativos; também podem
          ser favorecidas relações diretas entre pequenos produtores
          camponeses e os bairros mais próximos, gerando feiras em
          que a comercialização dos alimentos, preferencialmente
          agroecológicos, seja feita diretamente, sem intermediários.
       e) As cidades também precisam oferecer parques de lazer
          para as suas populações, pois eles, além do lazer, podem
          contribuir para que muitos redescubram a necessidade da
          proximidade e integração com a natureza, dado que a mo-
          dernidade operou uma cisão nesta relação.
       f)    Neste sentido, seria interessante que se izesse um “le-
             vantamento das necessidades ecológicas e se traçasse um
             plano diretor, onde eventualmente ainda não há, com par-
             ticipação da população.
       g) Que haja incentivo às iniciativas existentes que se rever-
          tem em proveito do meio ambiente. Como também, ações
          para a conscientização dos problemas sérios que enfren-
          tamos, como o efeito estufa e as mudanças climáticas.
       h) A criação e fortalecimento de Conselhos Municipais para o
          Meio Ambiente podem ser um grande instrumento na luta

99    Cf. Disponível em http://tudoglobal.com/blog/capa/52206/brasil-se-iguala-a-europa-
      na-producao-de-lixo.html. Acesso em: 08 agosto 2010.


104
pela melhora da qualidade ambiental, mas não podemos
        nos iludir. Precisamos de mais conquistas nesta área. As-
        sim, que estes Conselhos tenham maiores poderes e sejam
        garantidos na forma da lei e apoiados pelo Judiciário.


5. Nas comunidades paroquiais e Dioceses
206. A re lexão sobre a temática abordada nesta Campanha não
pode estar ausente em nossas comunidades, não por um modismo,
porque o tema vem sendo veiculado e boa parte das instituições e
empresas têm incorporado estas re lexões em suas ações. Mas em
virtude de que nosso Senhor atribuiu grande responsabilidade às
comunidades cristãs no contexto da edi icação do Reino de Deus.
Também porque os mais afetados pelas mudanças climáticas são e
serão os pobres, os pequeninos. E ao que parece, a abordagem desta
temática com ações concretas ainda acontecem de modo tímido.
    a) Deste modo, é necessário um trabalho de conscientização
       dos membros das comunidades promovendo cursos e ou-
       tras atividades sobre esta problemática. Para que assim,
       os irmãos e irmãs implementem ações que concorram
       para o combate do efeito estufa ou se integrem em ações
       já em andamento na sociedade. Esta Campanha pode ser
       inspiradora para este propósito.
    b) Seria interessante que as Paróquias e Dioceses pensassem
       em um programa de controle e corte de emissão de gases
       de efeito estufa, procurando diminuir os gastos energéti-
       cos, das Igrejas, seminários, casas, etc., dos deslocamen-
       tos, com materiais, etc. A proposta de corte de 10%, nas
       emissões parece um bom começo.
    c) Todas as paróquias e comunidades cristãs podem instalar
       painéis solares para aquecimento de água e mesmo painéis
       de células fotovoltaicas para produzir energia elétrica, que
       pode gerar autonomia energética e pode ser fonte de ren-
       da, por meio da venda da energia não utilizada. Essa prática
       pode estimular as famílias a entrarem neste caminho.
                                                                105
d) As Paróquias e Dioceses que possuírem terrenos disponí-
         veis, promover plantio de árvores, ou plantá-las em áreas
         normalmente utilizadas, segundo as possibilidades.
      e) E como parte de nossa missão, cooperar em programas
         con iáveis em andamento na sociedade, denunciar desca-
         sos de empresas e mesmo do poder público.
      f)   Promover grandes mobilizações em vista desta causa,
           aproveitando certas datas festivas de santos, como a de
           São Francisco (4 de outubro).
      g) A título de recordação, rea irmar o sentido do domingo,
         e rever a atual dinâmica em que se organiza o trabalho e
         demais atividades cotidianas. Como também para rever o
         individualismo, o consumismo e o desperdício a que são
         levadas pela nossa sociedade.


6. Ações em nível mais amplo
207. O esforço pessoal para se conter o consumo e diminuir as
emissões de gases de efeito estufa é louvável, mas é sumamente
necessário que as atividades responsáveis pelas maiores emissões
destes gases sejam acompanhadas de perto. Em contrário, o resul-
tado das ações pessoais para se diminuir as emissões, poderá até
dar um alívio para que as grandes indústrias continuem no mesmo
ritmo de agressão à natureza e à atmosfera terrestre. Além disso,
estão surgindo alternativas menos poluentes em relação às atuais,
mas implicam prejuízos a setores que, assim, com o poderio que
possuem, as detém. Vamos abordar aqui, as três atividades indica-
das na primeira parte, visando algumas soluções possíveis.


6.1. A questão energética.
208. As energias sujas, como vimos, respondem pela emissão de
quase 80% de gases de efeito estufa a nível mundial, no Brasil
por cerca de 50%. Na primeira parte do texto, vimos que energias

106
alternativas denominadas “limpas” já se constituem em uma rea-
lidade. O problema passa pela indústria instalada que bloqueia a
expansão destas matrizes menos poluentes.
    a)    A energia solar poderia ser mais utilizada no cotidiano
         das casas, para aquecer água, e sem grandes custos, uma
         vez que existem muitas técnicas que podem ser aplicadas
         pela própria família; mesmo que o preço de sua instalação
         ainda seja alto, existe a possibilidade de produzir energia
         elétrica fotovoltaica. Existem kits com esta tecnologia que
         podem tornar uma casa praticamente autônoma do ponto
         de vista elétrico. Mas o preço... Diante da necessidade de
         diminuir as emissões de gases de efeito estufa, por que não
         pressionar os governos para que inanciem ou subsidiem
         tais componentes, que ainda teriam a vantagem de se pou-
         par construções dispendiosas que ferem o meio ambien-
         te, como ocorreu e continuará acontecendo com as usinas
         a serem implantadas na região amazônica? O problema
         pode estar associado à falta de iniciativas populares mais
         consistentes no sentido de reivindicar tais alternativas.
    b) As soluções do governo em sua política neodesenvolvi-
       mentista para a expansão da disponibilidade de energia
       no país, apontam para soluções em que a questão do meio
       ambiente não é contemplada. 1. A exploração do pré-sal,
       não é a maravilha apresentada pelas propagandas gover-
       namentais, pois além de dispendiosa e de incorrer em ris-
       co de graves acidentes ambientais, trata-se da energia que
       mais emite gases de efeito estufa, a combustão de deriva-
       dos de petróleo. 2. O pró-álcool, não obstante suas van-
       tagens de proporcionar menos emissão de gás carbônico
       em relação aos derivados de petróleo, pode pressionar a
       expansão pela procura de terras cultiváveis, com possíveis
       novos desmatamentos e com diminuição de áreas desti-
       nadas à produção de alimentos, levando ao aumento dos
       seus preços, o que anularia a sua vantagem. 3. A sociedade
       precisa se opor irmemente a iniciativas de expansão da

                                                                 107
matriz atômica, porque os seus resíduos permanecessem
          ativos por longos anos; seria um problema que legaríamos
          para muitas gerações futuras.
      c) Para diminuir os preços dos painéis com células fotovol-
         taicas, a Campanha da Fraternidade (CF) pode mobilizar
         a população para exigir a liberação de recursos públicos,
         via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e So-
         cial (BNDES), para a industrialização de uma tecnologia
         brasileira, desenvolvida e patenteada pela área de Física
         da Ponti ícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
         (PUC-RS), que já foi testada e comprovou ser mais e icien-
         te do que os painéis até hoje importados.


6.2. Diante do desmatamento
209. Na primeira parte do texto, focalizamos mais o desmate da
 loresta amazônica, mas todos os nossos biomas se encontram
ameaçados. Está na hora de percebermos a importância da pre-
servação da natureza em toda a sua biodiversidade. É o momento
de cada um assumir a sua missão recebida de nosso Deus Criador
no sentido de cultivar a sua criação, de desenvolvermos atitudes
inspiradas em São Francisco de amor pelas coisas criadas, nossas
companheiras nesta jornada histórica. Desse modo, aprendamos a
zelar por esta grande casa, nos sentindo parte dela e visando legar
o melhor para as gerações vindouras.
      a) Nesse sentido, é também necessário assumirmos o encar-
         go de corrigir aqueles que atentam para com a natureza,
         provocando incêndios, cortando árvores desnecessa-
         riamente, em casas, sítios, e exigir do governo que coíba
         desmates de grandes proporções, como hoje acontece na
         Floresta Amazônica.
      b) Pressionar o governo para não efetivar as alterações que
         foram propostas no decorrer do ano passado, ao atu-
         al Código Florestal de nosso país. Seria desastroso se as

108
mudanças que propõem o conceito de matas descontínuas
        para as propriedades e as alterações dos limites das matas
        ciliares forem aprovadas. Equivaleria à abertura de uma
        imensa porteira para novos crimes ambientais contra a
        nossa já combalida natureza. A sociedade há de se unir
        para não permitir tal injustiça contra a nossa rica biodi-
        versidade, que ainda não recebe o devido cuidado das au-
        toridades competentes.
    c) A CF pode mobilizar a população em favor da recriação de
       áreas de loresta, com toda a biodiversidade característica
       em cada bioma brasileiro; e para contestar o desejo das
       empresas de classi icar as monoculturas de eucalipto e de
       pínus como lorestas, pois elas não passam de uso intensi-
       vo e predador de solo em função das indústrias.


6.3. O agronegócio
210. Esta atividade é importantíssima no contexto de nossa na-
ção, produz alimentos, gera empregos e divisas para suprir nos-
so dé icit. Por outro lado, como já visto, se baseia na monocultura
não se articula com a biodiversidade e a destrói, o que é um fator
de geração de doenças in indáveis, as quais são combatidas com
agrotóxicos, que poluem a terra e as águas. Aqui se estabelece um
círculo vicioso. De outro lado, em nome da obtenção de ganhos de
produtividade, opta-se pelo plantio em grande escala, em grandes
extensões de terra, alijando pequenos proprietários e causando
grandes prejuízos sociais: o homem nascido na roça nem sempre
se adapta à cidade, o que gera novos desa ios para a gestão urba-
na. Podemos também questionar a qualidade dos seus produtos,
cuja produção exige necessariamente a introdução de elementos
químicos, além das sementes geneticamente modi icadas. Os fer-
tilizantes se constituem em um capítulo á parte, pois os excessos
de fósforo e nitrogênio despejados nas terras acabam afetando às
águas e a própria atmosfera.
                                                                109
a) Diante disso, deveríamos favorecer a alternativa que é a
         pequena produção camponesa, privilegiando a compra de
         produtos orgânicos e os produzidos na região, para pou-
         par o dispêndio de energia que resulta em emissões. Este
         procedimento impõe ao produtor uma nova maneira de
         se produzir, especialmente no sentido de fazer plantios
         consorciados e evitar o uso de agrotóxicos, fertilizantes e
         sementes modi icadas. Ainda por cima, estimula o desen-
         volvimento e pesquisas que podem alavancar este modo
         de produção.
      b) Mas não só, e não é questão de mera de nostalgia, é vital
         propor aos que ainda têm espaço, que voltem a cultivar os
         seus canteiros nos quintais ao invés de cobri-los de con-
         creto, o que contribuiria até mesmo para melhorar os ín-
         dices de captação de água pelo solo e subsolo. Mesmo os
         edi ícios, deveriam ter algo neste sentido. Estes cultivos
         são simples e contribuem para se intensi icar nossos laços
         com a natureza, além de se produzir um alimento sadio
         para as refeições.


7. Desenvolver políticas públicas preventivas e de supe-
   ração de situações de risco
211. A Campanha da Fraternidade apoia as iniciativas que traba-
lham em favor do desenvolvimento de um grande projeto de políti-
cas públicas que atuam nas situações emergenciais no Brasil. Essas
situações devem, em primeiro lugar, ser evitadas a todo custo, pois
trazem sofrimento e morte, geram fome, miséria e exclusão social.
Também é necessária a realização de um trabalho preventivo no
que diz respeito às situações de risco como, por exemplo, constru-
ções em encostas ou em áreas sujeitas a alagamentos ou correntes
de vento. Este trabalho deve promover a proibição de construções
nessas áreas e a remoção, com garantia de direitos, das que lá exis-
tem, pois remover a casa depois da morte de alguns de seus morado-
res não resolve. Este projeto deve também desenvolver programas

110
que não trabalhem simplesmente as situações emergenciais, mas
continuem conduzindo um processo que leve efetivamente à su-
peração das questões. A Campanha da Fraternidade de 2009, Fra-
ternidade e Segurança Pública, mostrou que a defesa civil é de res-
ponsabilidade dos Estados e Municípios.100 É necessário ir além e
construir um projeto nacional de defesa civil, com controle social
a partir da criação de um organismo social que exerça o controle
sobre o projeto no seu planejamento, realização e avaliação.


Reflexões finais
212. Saber que toda a criação faz parte da obra criadora e reden-
tora de Deus remete os seres humanos ao seu lugar legítimo como
elos ou elementos de uma rede cósmica maior. Isso pode abrir pos-
sibilidades para a admiração e o louvor a Deus, conduzindo a um
viver em que a vida é entendida como dádiva e como tal pode ser
vivida, em gratuidade, em con iança na presença e no amor gratui-
to de Deus. O cuidado com o ambiente pode e deve ser hoje uma
resposta ao amor redentor de Deus. Com o Criador podemos e de-
vemos ser cuidadores, criadores e mantenedores, ajudando a sal-
vaguardar o direito e a dignidade de vida das gerações futuras.
213. Como membros da Igreja em sentido amplo comungamos de
um ponto fundamental do credo cristão de que o mundo que habi-
tamos resulta da ação criadora e amorosa de Deus. Trata-se, pois, de
falar mais concretamente desta dimensão da fé. Como fato primeiro
da fé, cremos que Deus é o criador e o mantenedor da criação. Os se-
res humanos são criaturas juntamente com os demais elementos da
criação. Todos os elos da criação têm dignidade própria. Ao homem
Deus conferiu dignidade especial de “imagem e semelhança”.
214. Atribuiu-lhe também responsabilidades e tarefas de cuidado.
Até algum tempo atrás, era absolutamente comum dizer ou ouvir,
também na igreja, que o homem é o centro e o sentido de toda a


100   Cf. CNBB. Texto-base CF 2009, Fraternidade e Segurança Pública, p. 170-172.

                                                                                    111
criação, pois ele teria a função de “dominar e sujeitar” o mundo
criado (Gn 1,26-28). Isso constitui a chamada concepção antropo-
cêntrica. Hoje, essa a irmação vem caindo em desuso, reforçando-
se mais a noção também profundamente bíblica de que o ser hu-
mano deve ser “mordomo da criação”. Sua tarefa fundamental deve
ser a de “cultivar e guardar” (Gn 2,15).
215. O “cultivar” implica necessariamente em intervenção sobre
o ambiente natural, produzindo ou retirando dele os elementos
para suprir as necessidades e os desejos das pessoas, mas também
isso pode ser feito em cooperação com as energias da Criação. O
“guardar” é um exercício de responsabilidade e cuidado. Trata-se
de um mandato que exige a sabedoria por parte das pessoas de se
perceberem a si mesmas como integrantes do todo da criação com
a tarefa de zelar para que a natureza se mantenha, para além do
tempo presente, em suas próprias bases ecossistêmicas.
216. Pode-se aqui falar do “princípio responsabilidade” como
elemento fundamental da ética, como foi proposto pelo ilósofo
judeu-alemão Hans Jonas. O cuidado do homem com o ambiente
deve, hoje, incluir também as gerações futuras. Mas o próprio di-
recionamento escatológico da fé cristã aponta para a consumação
 inal da história e da criação como obra redentora de Deus. Que as
nossas ações contribuam para o advento deste mundo novo, que
há de ser construído com o empenho renovado a cada dia, e que
pode ser vislumbrado na bela imagem bíblica oferecida pela ex-
pressão “novos céus e nova terra” (Ap 21,1).




112
Quarta PARTE
GESTO CONCRETO


 A Campanha da Fraternidade se expressa concretamente pela ofer-
 ta de doações em dinheiro na coleta da solidariedade. É um gesto
 concreto de fraternidade e partilha, feito em âmbito nacional, em
 todas as comunidades, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidarie-
 dade é parte integrante da Campanha da Fraternidade.


                DIA NACIONAL DA COLETA DA SOLIDARIEDADE
                   Domingo de Ramos, 17 de abril de 2011



 Todas as pessoas das comunidades eclesiais são convidadas a or-
 ganizar o gesto concreto de solidariedade durante o tempo forte
 da Campanha, que vai do início da Quaresma, na quarta-feira de
 cinzas, 09 de março, até o Domingo de Ramos.
 Bispos, padres, religiosos(as), lideranças leigas, agentes de pas-
 toral, escolas católicas e movimentos eclesiais são motivadores e
 animadores da Campanha da Fraternidade, para que todos partici-
 pem, oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e
 comunidades que querem desenvolver projetos e ações concretas
 em defesa da vida e da criação. O gesto fraterno da oferta tem um
 caráter de conversão quaresmal.
 O resultado integral da coleta da CF de todas as celebrações do Do-
 mingo de Ramos, com ou sem envelope, deve ser encaminhado
 à respectiva diocese; esta, por sua vez, encaminha 40% do total
 da coleta para o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), na conta
 indicada no quadro abaixo.



                                                                 113
PARA DEPÓSITO DOS 40%
                     Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB
                          Caixa Econômica Federal - 104
                      Agência 2220 - Conta Corrente 000.009-0
                                CNBB, Brasília, DF
         Enviar comprovante do depósito para a CNBB no FAX (61) 2103-8303.

Em outras palavras, do total arrecadado pela coleta, 40% consti-
tuem o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) da CNBB, e os ou-
tros 60% icam nas dioceses, formando o Fundo Diocesano de Soli-
dariedade (FDS), para o atendimento a projetos locais.
Doações para o Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB podem
ser feitas para a conta indicada no quadro acima também ao longo
de todo o ano. Outros esforços para o fortalecimento da arrecada-
ção também podem ser desenvolvidos, como doações através de
SMS, boleto bancário gerado a partir do site da CNBB, doações pelo
sistema de telefonia 0500, dentre outros. O relatório desta arre-
cadação identi icará as dioceses contribuintes a im de permitir o
repasse de 60% devidos.


       CONTRIBUIÇÕES PARA FUNDO NACIONAL DE SOLIDARIDADE 2010



              REGIONAL NORTE I                    Data           Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  MANAUS - AM                                  13/08/2010               37.897,42
  RORAIMA - RR                                 07/07/2010               11.292,09
  TEFÉ - AM                                    16/06/2010                    3.385,22
  COARI - AM                                   10/06/2010                    2.632,10
  PARINTINS - AM                               15/07/2010                    2.350,00
  ALTO SOLIMÕES - AM                           16/04/2010                    2.320,00
  BORBA - AM                                   26/05/2010                    1.405,00
  ITACOATIARA - AM                                                                  -
  SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA - AM                                                     -
                   TOTAL                                               61.281,83


114
REGIONAL NORTE II            Data        Fraternidade R$
Distribuição por Diocese
BELÉM - PA                          10/05/2010           20.648,25
MARABÁ - PA                         03/05/2010            7.848,74
MACAPÁ - AP                         28/04/2010            7.753,61
ÓBIDOS - PA                         16/06/2010            5.193,02
XINGU - PA                          04/06/2010            5.089,22
ABAETETUBA - PA                     24/06/2010            4.293,20
ITAITUBA - PA                       18/05/2010            3.582,00
CAMETÁ - PA                         18/08/2010            2.897,42
MARAJÓ - PA                         11/06/2010            1.794,02
PONTA DE PEDRAS - PA                14/05/2010            1.172,84
CASTANHAL                                                        -
BRAGANÇA DO PARA - PA                                            -
 SANTÍSSIMA CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA
                                                                 -
- PA
SANTARÉM - PA                                                    -
                 TOTAL                                  60.272,32


        REGIONAL NORDESTE I            Data        Fraternidade R$
Distribuição por Diocese
FORTALEZA - CE                      21/07/2010           57.523,56
TIANGUÁ - CE                        01/06/2010            6.505,74
                                    25/05/2010 e
SOBRAL - CE                                               6.248,56
                                     29/06/2010
LIMOEIRO DO NORTE - CE              10/06/2010            4.806,46
CRATEÚS - CE                        16/06/2010            4.510,00
IGUATU - CE                         14/06/2010            4.240,00
QUIXADÁ - CE                        20/05/2010            1.722,35
CRATO - CE                                                       -
ITAPIPOCA - CE                                                   -
                 TOTAL                                  85.556,67



                                                                115
REGIONAL NORDESTE II      Data        Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  OLINDA E RECIFE - PE           05/05/2010           30.430,37
  NATAL - RN                     15/06/2010           30.117,98
  MACEIÓ - AL                    30/04/2010           19.000,00
  PARAÍBA - PB                   17/06/2010           14.150,00
  MOSSORÓ - RN                   21/05/2010           11.711,42
  CARUARU - PE                   19/05/2010            9.000,00
  AFOGADOSDA INGAZEIRA - PE      04/06/2010            8.950,00
  CAMPINA GRANDE - PB            26/04/2010            8.509,58
  GARANHUNS - PE                 27/04/2010            7.381,00
  NAZARÉ DA MATA - PE            26/04/2010            7.371,58
                                 06/05/2010 e
  CAJAZEIRAS - PB                                      6.830,64
                                  27/08/2010
  CAICÓ - RN                     05/05/2010            6.103,71
  PATOS - PB                     17/05/2010            5.444,52
  GUARABIRA - PB                 30/04/2010            4.977,54
  PALMEIRADOS ÍNDIOS - AL        26/05/2010            4.830,90
  PALMARES - PE                  20/04/2010            4.448,60
  PENEDO - AL                    24/04/2010            4.243,56
  FLORESTA - PE                  28/04/2010            1.565,40
  PESQUEIRA - PE                                              -
  PETROLINA - PE                                              -
                    TOTAL                           185.066,80


         REGIONAL NORDESTE III      Data        Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  ARACAJU - SE                   29/04/2010           15.853,60
  BARREIRAS - BA                 22/04/2010           15.611,86
  VITÓRIA DA CONQUISTA - BA      25/06/2010           10.763,60
  SÃO SALVADOR DA BAHIA - BA     16/07/2010           10.481,54
  SERRINHA - BA                  03/05/2010            8.976,88




116
FEIRA DE SANTANA - BA                  27/05/2010          8.863,18
AMARGOSA - BA                          09/07/2010          7.205,82
ALAGOINHAS - BA                        23/04/2010          6.709,80
BONFIM - BA                            30/06/2010          6.029,67
CAETITÉ - BA                           26/04/2010          6.000,00
ILHÉUS - BA                            07/05/2010          5.781,80
RUY BARBOSA - BA                       12/05/2010          4.322,94
ITABUNA - BA                           26/04/2010          3.876,00
JUAZEIRO - BA                          28/06/2010          3.858,96
BARRA - BA                             30/04/2010          3.287,18
EUNÁPOLIS - BA                         03/05/2010          3.111,58
BOM JESUS DA LAPA - BA                 22/06/2010          2.617,50
IRECÊ - BA                             20/07/2010          1.902,74
ESTÂNCIA - SE                                                     -
JEQUIÉ - BA                                                       -
LIVRAMENTO DE NOSSA SENHORA - BA                                  -
PAULO AFONSO - BA                                                 -
PROPRIÁ - SE                                                      -
TEIXEIRA DE FREITAS E CARAVELAS - BA                              -
                 TOTAL                                  125.254,65


        REGIONAL NORDESTE IV             Data       Fraternidade R$
Distribuição por Diocese
TERESINA - PI                          05/05/2010         22.625,14
PARNAÍBA - PI                          04/05/2010         12.194,95
CAMPO MAIOR - PI                       26/05/2010          8.364,92
PICOS - PI                             20/05/2010          4.756,32
OEIRAS - PI                            26/05/2010          3.943,90
SÃO RAIMUNDO NONATO - PI               27/04/2010          3.788,15
BOM JESUS DE GURGUÉIA - PI             28/04/2010          2.000,00
FLORIANO -PI                           02/06/2010          1.695,30
                 TOTAL                                   59.368,68



                                                                 117
REGIONAL NORDESTE V             Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Dioceses
  BACABAL - MA                          28/07/2010         10.628,08
  GRAJAÚ - MA                           24/05/2010          4.730,00
  PINHEIRO - MA                         08/06/2010          4.000,00
  IMPERATRIZ - MA                       14/05/2010          3.976,00
  VIANA - MA                            17/05/2010          3.580,00
  COROATÁ - MA                          12/08/2010          3.197,70
  BALSAS - MA                           06/05/2010          2.788,48
 BREJO - MA                             08/06/2010          2.481,00
  ZÉ-DOCA - MA                          22/04/2010          1.971,88
  CAXIAS DO NORTE - MA                  26/07/2010          1.400,00
  CAROLINA - MA                         26/05/2010          1.326,25
  SÃO LUÍS DO MARANHÃO - MA                                        -
                    TOTAL                                 40.079,39


              REGIONAL LESTE I            Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  RIO DE JANEIRO - RJ                   12/05/2010        102.306,96
  NITERÓI - RJ                          27/04/2010         28.170,21
  BARRA DO PIRAÍ - VOLTA REDONDA - RJ   02/06/2010         28.051,05
  NOVA IGUAÇU - RJ                      11/06/2010         22.923,00
  DUQUE DE CAXIAS - RJ                  07/07/2010         18.415,28
  NOVA FRIBURGO - RJ                    20/05/2010         14.703,42
  ITAGUAÍ - RJ                          04/05/2010          6.343,52
  VALENÇA - RJ                          10/06/2010          5.088,00
  CAMPOS - RJ                           28/05/2010          4.550,00
  PETRÓPOLIS - RJ                                                  -
                    TOTAL                                230.551,44


            REGIONAL LESTE II             Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  BELO HORIZONTE - MG                   27/05/2010        149.108,18


118
02/06/2010 e
VITÓRIA - ES                                  66.161,55
                                05/07/2010
CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM - ES   25/05/2010     44.702,64
                               26/05/2010 e
DIVINÓPOLIS - MG                              37.680,00
                                22/06/2010
                               28/05/2010 e
MARIANA - MG                                  31.450,00
                                03/05/2010
SÃO MATEUS - ES                07/06/2010     30.713,07
GUAXUPÉ - MG                   08/09/2010     28.447,47
ITABIRA - MG                   20/09/2010     26.085,53
PATOS DE MINAS - MG            28/05/2010     18.826,32
DIAMANTINA - MG                07/07/2010     17.904,00
CAMPANHA - MG                  25/05/2010     17.062,95
MONTES CLAROS - MG             17/06/2010     16.148,00
UBERABA - MG                   23/06/2010     15.960,39
GOVERNADOR VALADARES - MG      20/05/2010     14.610,33
UBERLÂNDIA - MG                21/05/2010     12.366,57
                               20/04/2010 E
CARATINGA - MG                                11.200,00
                                26/05/2010
SÃO JOÃO DEL REI - MG          04/05/2010      7.648,00
JANUÁRIA - MG                  04/05/2010      7.200,00
ARAÇUAÍ - MG                   02/06/2010      6.685,43
SETE LAGOAS - MG               30/04/2010      5.827,43
OLIVEIRA - MG                  25/06/2010      5.726,05
PARACATU - MG                  23/04/2010      5.518,08
TEÓFILO OTTONI - MG            04/05/2010      5.286,54
                               10/06/2010
ALMENARA - MG                                  4.409,26
                                 (02/09)
ITUIUTABA - MG                 29/04/2010      2.565,32
COLATINA - ES                                         -
GUANHÃES - MG                                         -
JANAUBA - MG                                          -
JUIZ DE FORA - MG                                     -
LEOPOLDINA - MG                                       -
LUZ - MG                                              -



                                                     119
POUSO ALEGRE - MG                                          -
                    TOTAL                          589.293,11


               REGIONAL SUL I      Data        Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  SÃO PAULO - SP                27/05/2010          202.098,16
  SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SP      29/04/2010           83.677,56
  SANTO ANDRÉ - SP              18/06/2010           64.961,59
  MARÍLIA - SP                  04/05/2010           61.082,15
  CAMPINAS - SP                 21/05/2010           58.988,94
  LIMEIRA - SP                  25/06/2010           56.000,00
  RIO PRETO - SP                28/06/2010           41.191,20
                                26/04/2010 e
  SANTO AMARO - SP                                   33.367,50
                                 27/07/2010
 BAURU - SP                     11/05/2010           31.860,12
  SÃO MIGUEL PAULISTA - SP      07/06/2010           31.740,00
  SANTOS - SP                   17/06/2010           29.458,02
  RIBEIRÃO PRETO - SP           04/05/2010           27.738,50
  FRANCA - SP                   27/05/2010           26.433,38
  PIRACICABA - SP               01/06/2010           25.201,04
  GUARULHOS - SP                14/06/2010           24.861,26
  CAMPO LIMPO - SP              28/05/2010           24.525,72
  JALES - SP                    03/05/2010           22.649,58
  MOGI DAS CRUZES - SP          14/06/2010           19.492,44
  OSASCO - SP                   25/05/2010           19.297,33
  JABOTICABAL - SP              10/05/2010           18.533,16
 BOTUCATU - SP                  30/07/2010           18.439,62
  ASSIS - SP                    23/04/2010           17.383,19
  CATANDUVA - SP                30/06/2010           17.350,29
  BRAGANÇA PAULISTA - SP        13/05/2010           16.800,00
  ARAÇATUBA - SP                26/05/2010           14.729,22
  OURINHOS - SP                 29/06/2010           13.169,16




120
12/04/2010 E
APARECIDA - SP                                     10.744,82
                               13/05/2010
                              31/03/2010 e
BARRETOS - SP                                      10.376,38
                               14/06/2010
LINS - SP                     10/05/2010            9.204,40
CARAGUATATUBA - SP            14/05/2010            8.518,31
ITAPEVA - SP                  18/06/2010            7.061,49
REGISTRO - SP                 25/06/2010            6.959,14
AMPARO - SP                                                -
ITAPETININGA - SP                                          -
JUNDIAÍ - SP                                               -
LORENA - SP                                                -
PRESIDENTE PRUDENTE - SP                                   -
SÃO CARLOS - SP                                            -
SÃO JOÃO DA BOA VISTA - SP                                 -
SOROCABA - SP                                              -
TAUBATÉ - SP                                               -
                  TOTAL                        1.053.893,67


            REGIONAL SUL II      Data        Fraternidade R$
Distribuição por Diocese
CURITIBA - PR                 02/07/2010          106.832,24
LONDRINA - PR                 18/06/2010           61.958,27
PONTA GROSSA - PR             17/05/2010           34.665,12
TOLEDO - PR                   11/05/2010           30.012,42
UMUARAMA - PR                 21/06/2010           28.340,15
APUCARANA - PR                30/08/2010           26.566,92
CAMPO MOURÃO - PR             03/05/2010           24.074,36
CASCAVEL - PR                 27/04/2010           22.542,98
PALMAS - PR                   12/08/2010           22.205,00
FOZ DO IGUAÇÚ - PR            31/05/2010           19.893,46
PARANAVAÍ - PR                03/05/2010           17.750,00
JACAREZINHO - PR              13/05/2010           16.476,81



                                                          121
GUARAPUAVA - PR                25/06/2010         13.104,00
  UNIÃO DA VITÓRIA - PR          26/05/2010         12.297,77
  MARINGÁ - PR                   28/05/2010          7.200,00
  CORNÉLIO PROCÓPIO - PR         26/05/2010          6.800,00
  PARANAGUÁ - PR                 10/06/2010          5.860,00
  SÃO JOSÉ DOS PINHAIS - PR                                 -
                    TOTAL                         456.579,50


              REGIONAL SUL III     Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  CAXIAS DO SUL - RS             13/07/2010         41.549,28
  PORTO ALEGRE - RS              10/08/2010         36.138,91
  NOVO HAMBURGO - RS             02/06/2010         26.722,25
  FREDERICO WESTPHALEN - RS      04/06/2010         19.319,60
  MONTE NEGRO - RS               20/05/2010         15.775,84
  EREXIM - RS                    14/05/2010         15.625,30
  CRUZ ALTA - RS                 14/07/2010         13.197,69
  URUGUAIANA - RS                11/05/2010          9.766,22
  VACARIA - RS                   08/07/2010          6.631,00
  OSÓRIO - RS                    14/07/2010          5.713,66
  BAGÉ - RS                      07/05/2010          3.386,04
  RIO GRANDE - RS                02/06/2010          2.843,84
  CACHOEIRA DO SUL - RS          26/05/2010          2.702,14
 PASSO FUNDO - RS                                           -
  PELOTAS - RS                                              -
  SANTA CRUZ DO SUL - RS                                    -
  SANTA MARIA - RS                                          -
  SANTO ÂNGELO - RS                                         -
                    TOTAL                         199.371,77


                REGIONALSUL IV     Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  FLORIANÓPOLIS - SC             11/06/2010         58.415,67


122
CHAPECÓ - SC                     24/06/2010           50.673,96
CRICIÚMA - SC                    24/05/2010           35.280,00
                                 11/03/2010 e
BLUMENAU - SC                                         28.294,15
                                  21/05/2010
RIO DO SUL - SC                  14/06/2010           17.634,00
CAÇADOR - SC                     08/06/2010           14.040,24
JOAÇABA- SC                      10/05/2010           14.000,00
TUBARÃO - SC                     27/05/2010           12.297,19
LAGES - SC                       11/06/2010            8.340,00
JOINVILLE - SC                                                -
                  TOTAL                             238.975,21


      REGIONAL CENTRO OESTE         Data        Fraternidade R$
Distribuição por Diocese
BRASÍLIA - DF                    07/05/2010 e         65.733,49
GOIÂNIA - GO                     06/05/2010           55.132,76
                                 04/05/2010 e
SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GO                         22.645,65
                                  17/06/2010
URUAÇU - GO                      14/05/2010           10.752,30
JATAÍ - GO                       05/05/2010            9.063,02
GOIÁS - GO                       29/04/2010            7.241,20
TOCANTINÓPOLIS - TO              26/05/2010            6.730,40
FORMOSA - GO                     08/06/2010            6.311,00
ARQUIDIOCESE MILITAR DO BRASIL   22/04/2010            5.982,48
LUZIÂNIA - GO                    24/06/2010            5.813,00
RUBIATABA-MOZARLÂNDIA - GO       11/05/2010            5.105,35
IPAMERI - GO                     15/09/2010            4.913,07
PALMAS - TO                      01/07/2010            3.690,48
CRISTALÂNDIA - TO                21/05/2010            3.185,00
SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA - MT       23/04/2010            2.091,60
PORTO NACIONAL - TO              26/05/2010            1.271,40
ANÁPOLIS - GO                                                 -
ITUMBIARA - GO                                                -



                                                             123
MIRACEMA DO TOCANTINS - TO                                  -
                    TOTAL                          215.662,20


               REGIONAL OESTE I     Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  CAMPO GRANDE - MS               06/07/2010         33.186,40
  TRÊS LAGOAS - MS                29/04/2010          7.980,00
  COXIM - MS                      14/04/2010          5.229,28
  CORUMBÁ - MS                    29/04/2010          3.130,00
  DOURADOS - MS                                              -
  JARDIM - MS                                                -
                   TOTAL                            49.525,68


              REGIONAL OESTE II     Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  CUIABÁ - MT                     28/05/2010         30.505,02
  DIAMANTINO - MT                 30/04/2010         17.473,44
  RONDONÓPOLIS - MT               29/04/2010         11.554,13
  GUIRATINGA - MT                 16/04/2010          9.157,34
  JUÍNA - MT                      31/05/2010          4.955,22
  BARRA DO GARÇA - MT             26/05/2010          4.219,34
  PARANATINGA - MT                24/05/2010          1.321,18
  SÃO LUÍZ DE CÁCERES - MT                                   -
  SINOP- MT                                                  -
                    TOTAL                           79.185,67


          REGIONAL NOROESTE         Data       Fraternidade R$
  Distribuição por Diocese
  JI-PARANÁ - RO                  22/06/2010         34.731,00
  PORTO VELHO - RO                08/06/2010         17.743,16
  RIO BRANCO - AC                 04/05/2010         15.177,48
  GUAJARA MIRIM - RO              19/07/2010          6.925,84
 CRUZEIRO DO SUL - AC             04/05/2010          2.547,00


124
LÁBREA - AM                            05/05/2010              726,48
HUMAITÁ - AM                                                        -
               TOTAL                                       77.850,96


                                                      Fraternidade R$
OUTROS                                    Data
                                                            2.952,10
ADM. APOST. PESSOAL SÃO JOÃO MARIA
                                       10/06/2010            1.712,00
VIANNEY
                                       15/04/2010 e
IGREJA PRESBITERIANA DO IBES                                   495,00
                                        17/06/2010
EXARCADO APOSTOLICO ARMÊNIO            26/05/2010              460,00
PARÓQUIA EVANGÉLICA LUTERANA-BOM
                                       23/04/2010              175,10
PASTOR-BLUM
IRMÃOS DA FRATERNIDADE NOSSA Sra.
                                       22/03/2010              110,00
DAS GRAÇAS
CASA DE RETIRO ASSUNÇÃO                                             -
COMUNIDADE NSRA. APARECIDA/AS DE
                                                                    -
MANTOVA
PROVÍNCIA MADRE REGINA - Petropólis-
                                                                    -
RJ
NÉLIA REGINA PAIXÃO DA SILVA                                        -
 INSTITUTO AS IRMÃS DA STA CRUZ
                                                                    -
-COLÉGIO STA MARIA
MARIA DA CONCEIÇÃO B DE OLIVEIRA                                    -
LUZIA DO ROCIO PIRES RAMOS                                          -


VALORES SEM IDENTIFICAÇÃO                                 237.608,27
VALORES SEM IDENTIFICAÇÃO                                  237.608,27


RENDIMENTO DO ANO - DESPESAS
                                                           38.491,56
BANCÁRIAS
RENDIMENTO DO ANO                                           38.491,56


 TOTAL DE :OUTROS+EPARCAS,EXAR.+REND DO ANO               279.051,93




                                                                   125
TOTAL GERAL                                              4.086.821,48
                                     Brasília-DF, 21 de Setembro de 2010
 TOTAL                                                    3.807.769,55



Objetivos da CF 2011
Para a Campanha da Fraternidade de 2011, a Igreja no Brasil pro-
põe, como Objetivo Geral: contribuir para a conscientização das co-
munidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do
aquecimento global e das mudanças climáticas, e motivá-las a parti-
cipar dos debates e ações que visam enfrentar o problema e preser-
var as condições de vida no planeta.
Veja, no início do Texto Base, os objetivos especí icos e as estraté-
gias a serem adotadas para conseguir o Objetivo Geral. Veja, tam-
bém, na terceira parte do Texto Base, correspondente ao AGIR, su-
gestões de ações concretas a serem realizadas


Destinação dos recursos
Os recursos arrecadados serão destinados prioritariamente a pro-
jetos que atendam aos objetivos propostos pela CF 2011. Poderão,
também ser aplicados, excepcionalmente, em projetos sociais que
visem o fortalecimento e/ou a defesa da Igreja no Brasil, bem como
em situações emergenciais, segundo o espírito da Campanha, apre-
sentados por membros do Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP)
ou da Presidência da CNBB.
As Organizações que desejarem obter apoio do Fundo Nacional de So-
lidariedade, de acordo com os critérios de destinação previstos para a
CF-2011, deverão consultar os sites da CNBB e da CARITAS para maio-
res informações: www.cnbb.org.br e www.caritas.org.br.
Os projetos apresentados serão analisados por um CONSELHO
GESTOR DO FUNDO NACIONAL DE SOLIDARIEDADE, nomeado
pela CNBB.


126
Recomendamos fortemente às (Arqui) Dioceses que constituam,
também, o seu próprio CONSELHO GESTOR DIOCESANO DO FUN-
DO DE SOLIDARIEDADE, Fundo este constituído por 60% da coleta
do Domingo de Ramos, e destinado a Projetos a serem desenvolvi-
dos na própria (Arqui) Diocese. Esse Conselho, instituído e presidi-
do pelo Bispo Diocesano ou por um seu delegado, pode contar com
a participação, por exemplo, de uma pessoa da Cáritas Diocesana
(onde ela existe), de um representante das Pastorais Sociais, da
Coordenação (Arqui) Diocesana de Pastoral, da Equipe de anima-
ção das Campanhas, do responsável pela administração da (Arqui)
Diocese e de uma pessoa ligada ao tema da CF.




                                                                 127
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                                                                                           133
HINO


                  Olha, meu povo este planeta terra
Hino                                                                         L.: Pe. José Antônio de Oliveira
                                                                                  M.: Casimiro Nogueira
   = 108
                         Am                     Dm                      Fmaj7 E        Am               Am
                                                                                            1.                     2.


                               Am              A7            Dm                            G



           1. O -lha, meu po -vo_es-te pla - ne - ta ter -        ra:         Das cri- a - tu -ras to -das, a   mais lin
       C                            Dm                                  Am                             F



       -    da!          Eu a plas -mei com to-do_a - mor ma - ter -         no,         pra ser um ber -ço de_a-con -

                    E7                     Am                           Dm                 G



       che- go_e vi -    da.        Refr.: Nos - sa mãe ter - ra, Se - nhor,               ge- me de       dor noi -te_e

       C                        Dm                           Am                F                                E7


       di - a.      Se-rá de    par - to      es - sa dor?                      Ou sim - ples - men-te_a - go - ni - a?

                  Dm                              Am                     B7                 E7              Am



                  Vai de - pen - der só de        nós!                    Vai de - pen - der só de          nós!

   1. Olha, meu povo, este planeta terra:                      3. Vê, nesta terra, os teus irmãos. São tantos...
   Das criaturas todas, a mais linda!                          Que a fome mata e a miséria humilha.
   Eu a plasmei com todo amor materno,                         Eu sonho ver um mundo mais humano,
   Pra ser um berço de aconchego e vida. (Gn 1)                Sem tanto lucro e muito mais partilha!

                                                              4.Olha as florestas: pulmão verde e forte!
   Nossa mãe terra, Senhor,                                   Sente esse ar que te entreguei tão puro...
   Geme de dor noite e dia.                                   Agora, gases disseminam morte;
   Será de parto essa dor?                                    O aquecimento queima o teu futuro.
   Ou simplesmente agonia?!
   Vai depender só de nós!                                    5. Contempla os rios que agonizam tristes.
   Vai depender só de nós!                                    Não te incomoda poluir assim?!
                                                              Vê: tanta espécie já não mais existe!
                                                              Por mais cuidado implora esse jardim!
   2. A terra é mãe, é criatura viva;
   Também respira, se alimenta e sofre.                       6. A humanidade anseia nova terra. (2Pd 3,13)
   É de respeito que ela mais precisa!                        De dores geme toda a criação. (Rm 8,22)
   Sem teu cuidado ela agoniza e morre.                       Transforma em Páscoa as dores dessa espera,
                                                              Quero essa terra em plena gestação!




                                                                                                                           135
Cf 2011 texto_base_final_fechado_

Cf 2011 texto_base_final_fechado_

  • 1.
    CAMPANHA DA FRATERNIDADE2011 Lema: A criação geme em dores de parto (Rm 8,22) Tema: Fraternidade e a Vida no Planeta Texto-Base CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
  • 2.
    Coordenação Editorial: Pe. Valdeirdos Santos Goulart Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Fábio Ney Koch dos Santos, Henrique Billygran e Raul Benevides Revisão: Dom Hugo Cavalcante, OSB Redator Chefe: Pe. Luiz Carlos Dias Cartaz da CF 2011: Criação: Agência Experimental PUC-Campinas / miniagência IGLOO Comunicação Criativa: Ana Carolina Angelotti, Fábio Pellicer Siqueira, Fernando Henrique Novais, João Gabriel Godoy Gandia Pinheiro, Luís Guilherme Valim e Valdir Gomes Gameleira Júnior. Professores Orientadores: Cláudia Lúcia Trevisan e Márcio Antônio Brás Roque Adaptações e Arte Final: Edições CNBB Impressão e acabamento: Editora e Gráfica Ipiranga ltda. Edições CNBB SE/Sul Quadra 801, Conjunto “B” CEP: 70200-014 Fone: (61) 2193-3000 / 2103-8383 Fax: (61) 3322-3130 E-mail: vendas@edicoescnbb.com.br Site: www.edicoescnbb.com.br © CNBB - Todos os direitos reservados C748c Conferência Nacional dos Bispos do Brasil / Campanha da Fraternidade 2011: Texto-Base. Brasília, Edições CNBB. 2010. Campanha da Fraternidade 2011: Texto-Base / CNBB. 136p. : 14 x 21 cm ISBN: 978-85-7972-052-9 1. Meio Ambiente 2. Ecologia 3. Educação 4. Formação 5. Fraternidade 6. Conversão CDU 261.6
  • 3.
    ORAÇÃO DA CF2011 Senhor Deus, nosso Pai e Criador. A beleza do universo revela a vossa grandeza, A sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas, E o eterno amor que tende por todos nós. Pecadores que somos, não respeitamos a vossa obra, E o que era para ser garantia da vida está se tornando ameaça. A beleza está sendo mudada em devastação, E a morte mostra a sua presença no nosso planeta. Que nesta quaresma nos convertamos E vejamos que a criação geme em dores de parto, Para que possa renascer segundo o vosso plano de amor, Por meio da nossa mudança de mentalidade e de atitudes. E, assim, como Maria, que meditava a vossa Palavra e a fazia vida, Também nós, movidos pelos princípios do Evangelho, Possamos celebrar na Páscoa do vosso Filho, nosso Senhor, O ressurgimento do vosso projeto para todo o mundo. Amém. 3
  • 5.
    SUMÁRIO ORAÇÃO DA CF2011 .............................................................. ..... 3 LISTA DE SIGLAS . . ............................................................ ............ 9 APRESENTAÇÃO . . ............................................................ .......... 11 INTRODUÇÃO . . . . . . ........................................................ .............. 13 Primeira PARTE - VER . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . ................................ 15 Introdução .. . . . . . . . . .................................................... .................. 15 1. O aquecimento global ............................................................ 15 1.2. Relação entre aquecimento global e atividades humanas ... 19 1.2.1. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como referência mundial .......................... 19 1.2.2. O relatório do IPCC de 2007 ............................................ 20 1.3. As atividades do ser humano que mudaram o planeta ...... 23 1.5. A energia, tema central nas discussões sobre emissão de gases de efeito estufa ................................................. 27 1.5.1. As matrizes energéticas disponíveis .................................. 27 1.5.2. A questão energética, crucial na questão do aquecimento global . . . . . ......................................................... ............. 29 1.5.3. A questão energética e o neodesenvolvimentismo das políticas públicas . . ............................................................ .......... 31 1.6. O desmatamento da Floresta Amazônica, uma afronta à crise global do clima....................................................... 33 1.7. O agronegócio, estratégico para o neodesenvolvimentismo .. 35 3. O modelo de desenvolvimento atual e suas consequências ....... 37 4. A vida e suas dores no contexto do aquecimento global ........... 40 4.1. Biodiversidade ameaçada .............................................. 40 4.2. O escândalo da miséria e o aquecimento global ............... 42 4.3. O êxodo rural, êxodo da natureza .................................... 43 4.4. A água . . . . . ......................................................... ............. 44 4.4.1. As águas oceânicas ......................................................... 45 5
  • 6.
    5. A comunidademundial e as mudanças climáticas .................... 47 6. As Igrejas e as Religiões, o que dizem a respeito disso? .............. 52 7. Algumas considerações sobre a temática do meio ambiente nos documentos da Igreja ...................................................... 53 8. Sustentabilidade, novo paradigma civilizacional ..................... 55 9. Da ética do egotismo à ética do cuidado .................................. 58 Segunda PARTE - JULGAR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . ............................. 61 Introdução ..... . . . . . . . .................................................. ................. 61 1. Apontamentos bíblicos sobre a preservação da natureza ......... 62 1.1. O nosso Deus é o Deus da vida......................................... 62 1.2. O lugar do ser humano na criação ................................... 64 1.3. A atualidade da advertência aos primeiros pais no paraíso (Gn 3,1-24) . ............................................................. ...... 66 1.4. O descanso e o sentido autêntico da criação .................... 69 1.4.1. Consideração sobre o descanso no livro do Gênesis ............ 69 1.4.2. O dia do descanso e a ressurreição de Cristo ...................... 71 1.5. O cuidado com a vida e suas fontes .................................. 73 1.6. No deserto, uma lição de consumo responsável ............... 76 1.7. Entrando na terra prometida .......................................... 77 1.8. Jesus vence tentações ..................................................... 78 1.9. O que pode nos afastar de Deus....................................... 80 1.10. A voz de Deus na natureza ............................................. 80 2. Considerações acerca da criação ............................................ 82 2.1. A abordagem teológica ................................................... 82 2.2. A Trindade e a criação .................................................... 83 2.3. A criação como dom do Pai ............................................. 84 2.4. A criação em Cristo ........................................................ 84 2.5. A criação no Espírito Santo ............................................. 85 2.6. A criação e a Igreja ......................................................... 86 2.7. A criação e a Eucaristia .................................................. 87 3. O pecado e sua dimensão ecológica ......................................... 89 6
  • 7.
    4. O cuidado. . . . . . . . ...................................................... ................ 90 5. São Francisco e a criação ........................................................ 92 Terceira PARTE - AGIR . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .............................. .. 97 Introdução . . . . . . . . . ..................................................... ................. 97 Propostas para o agir .............................................................. .. 98 1. Resgatar o sentido profético do domingo ................................ 98 2. Para você saber sobre o seu consumo ecológico.......................... 99 3. Propostas para se diminuir o consumo pessoal ..................... 101 4. As cidades e o meio ambiente ............................................... 103 5. Nas comunidades paroquiais e Dioceses ............................... 105 6. Ações em nível mais amplo .................................................. 106 6.1. A questão energética. .................................................. 106 6.2. Diante do desmatamento ............................................. 108 6.3. O agronegócio ............................................................. 109 7. Desenvolver políticas públicas preventivas e de superação de situ- ações de risco . . . . . ......................................................... ........... 110 Re lexões inais . . ............................................................ ........ 111 Quarta PARTE - GESTO CONCRETO .. . . . . . . . ............................. 113 Objetivos da CF 2011 .............................................................. . 126 Destinação dos recursos .......................................................... 126 BIBLIOGRAFIA . . . . .......................................................... .......... 129 HINO........... . . . . . . . . ............................................ ........................ 135 7
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    LISTA DE SIGLAS Documentosda Igreja DD Carta Apostólica “Dies Domini”, do Papa João Paulo II GS Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” sobre a presença da Igreja no mundo, do Concílio Ecumênico Vaticano II. RH Carta Encíclica “Redemptor Hominis”, do Papa João Paulo II Demais Siglas Agenda 21 Pode ser de inida como um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, em diferen- tes bases geográ icas, que concilia métodos de proteção ambiental, justiça social e e iciência econônica AWG/LCA Ad hoc Working Group on Long-Term cooperative action (Grupo de Trabalho Ad Hoc sobre Ações de Cooperação A Longo Prazo). AWG-KP Ad Hoc Working Group on Further Commitments for Annex I Parties under the Kyoto Protocol (Trad. Grupo de Trabalho Ad hoc sobre Novos Compromissos para os Membros do Anexo I do Protocolo de Quioto) BEM Balanço Energético Nacional BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CF Campanha da Fraternidade CFCs Cloro luorcabornetos CH₄ Metano CO2 Dióxido de carbono Eco-92 Cúpula ou Cimeira da Terra (Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD) EIA Agência Internacional de Energia EUA Estados Unidos da America 9
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    FAO Food and Agriculture Organization of the United Nations (Trad. Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) GEEs Gases de efeito estufa GWh Gigawatt-hora HFCs Hidro luorcarbonetos INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais IPCC Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas km² Quilômetro Quadrado N₂O Óxido nitroso NF3 Tri luoreto de azoto NO₂ Dióxido de azoto NO2 Óxido nitroso O3 Ozônio OCDE Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Eco- nômico ou Organização de Cooperação e de Desenvolvi- mento Econômicos OGMs Organismos Geneticamente Modi icados ONU Organização das Nações Unidas PAC Programa de aceleração ao Crescimento PCH Pequenas Centrais Hidrelétricas PFCs Per luorcarbonetos pH Potencial Hidrogeniônico PIB Produto Interno Bruto PNMC Plano Nacional sobre Mudanças do Clima PNUMA Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PUC-RS Ponti ícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul RH Carta Encíclica Redemptor hominis do Papa João Paulo II Rio +5 Fórum de discussão das Nações Unidas ou Sessão Especial da Assembleia das Nações Unidas de 1997 SF6 Hexa luoreto de enxofre SO₂ Dióxido de enxofre UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura 10
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    APRESENTAÇÃO Quaresma é tempo de escuta da Palavra, de oração, de je- jum e da prática da caridade como caminho de conversão, tendo como horizonte a celebração do Mistério Pascal de nosso Senhor Jesus Cristo. E somos convidados a aproveitar esse tempo de gra- ça, valorizando os canais pelos quais esta se comunica: a oração, a participação nos sacramentos da penitência e da eucaristia, as práticas devocionais deste período, de modo especial a Via Sacra e o Santo Rosário. No mundo em que vivemos, somos diariamente interpelados por tantos rostos sofredores, que clamam por nossa solidariedade. A Igreja samaritana não pode passar adiante, na presença de tantos irmãos e irmãs que dela esperam acolhida fraterna, ombro amigo, mãos generosas, que os ajude em sua caminhada para o Pai. A Campanha da Fraternidade é um excelente auxílio para bem vivermos a Quaresma. Com sua metodologia característica do Ver – Julgar – Agir, baseada, a cada ano, num Tema e num Lema, a Cam- panha da Fraternidade nos oferece uma ótima oportunidade para superarmos qualquer dicotomia entre fé e vida. Este ano, a CNBB propõe que todas as pessoas de boa vontade olhem para a natureza e percebam como as mãos humanas estão contribuindo para o fenômeno do aquecimento global, que provo- ca mudanças climáticas consideráveis, com sérias ameaças para a vida em geral, e a vida humana em especial, sobretudo a dos mais pobres e vulneráveis. É nesse contexto que a CNBB propõe para 11
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    2011, a Campanhada Fraternidade com o tema “Fraternidade e a vida no planeta”, e como lema “A criação geme em dores de parto (Rm 8,22)”. Na medida em que cada cristão ou cristã for capaz de viven- ciar seriamente o próprio batismo, sua conversão diária não será mais mera questão de retórica, mas será uma dimensão perma- nente em sua vida. Que o Senhor da Vida nos abençoe a todos em nossa caminha- da quaresmal, e mais ainda, em nossa marcha diuturna, na dire- ção do Reino que nos foi preparado antes da fundação do mundo (cf. Ef 1). Associados à morte de Cristo pelo Batismo, nós o sere- mos, também, na sua ressurreição. E Deus será tudo em todos. Brasília, 04 de outubro de 2010, na memória de São Francisco de Assis. Dom Dimas Lara Barbosa Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro Secretário Geral da CNBB Pe. Luiz Carlos Dias Secretário Executivo da Campanha da Fraternidade 12
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    INTRODUÇÃO 1. A Campanhada Fraternidade de 2011 aborda o tema do aqueci- mento global e das mudanças climáticas. A considerar as intempé- ries climáticas que andam assolando as populações de forma cada vez mais intensas e em quantidades sempre crescente, a temática é plenamente justi icável. 2. No entanto, é necessário dizer que a questão é envolta de po- lêmica. A causa desse desequilíbrio climático é discutida pelos pesquisadores e basicamente existem dois grupos. Há os que en- tendem que o aquecimento global é oriundo de processos da pró- pria natureza e os que a irmam que o planeta está apresentando aquecimento devido às grandes quantidades de emissões de gases de efeito estufa, que se intensi icaram a partir do momento da in- dustrialização de muitos países, ou como alguns preferem, é resul- tante de causas antrópicas. 3. A resolução deste impasse nos meios especializados não parece ser fácil e nem pretendemos resolvê-lo. Mas uma coisa é indubitável, nossa experiência constata que mudanças climáticas estão em curso e que já alteramos substancialmente o planeta. E, considerando que o clima do planeta é resultante, em parte, da interação dos seres que o habitam, torna-se di ícil negar que alterações como: as derrubadas de lorestas, modi icações nas águas marinhas e na atmosfera, que recebeu uma carga imensa de gases de efeito estufa, não contribua para as mudanças climáticas que veri icamos. 4. E a considerar a gravidade da situação e de suas consequên- cias, basta citar que órgãos da ONU já falam na existência de 50 mi- lhões de “migrantes do clima”, não podemos deixar de agir em prol de melhores condições para o nosso planeta. Sobretudo, porque, o aquecimento global e as mudanças climáticas exigirão mais sacri í- cios dos mais pobres e menos protegidos. Além de quê, braços cru- zados diante de tal desa io, signi ica irresponsabilidade tamanha para com as gerações futuras, pois ainda podemos fazer algo em prol da vida no planeta. 13
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    5. Por isso,a identi icação das ações que mais emitem gases de efeito estufa é um passo importante para buscarmos alternativas que resultem em menores índices de emissões de gases de efeito estufa, como pretendemos com o texto. 6. E que a Palavra de Deus e a caminhada quaresmal rumo à Pás- coa de nosso Senhor, possam nos despertar para o exercício do cui- dado para com a vida, para com o planeta, que pede socorro. 14
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    Primeira PARTE VER Introdução 7. O clima em nosso planeta tem a sua história, já apresentou di- ferentes con igurações, e nesse sentido, é sujeito a alterações. No entanto, as mudanças ocorridas no passado aconteceram em vir- tude de processos naturais, como pequenas variações na relação da órbita da Terra em torno do Sol, queda de meteoritos na super- ície do planeta e grandes erupções vulcânicas. Nos dias de hoje, é visível que mudanças climáticas estão em curso: a temperatura está mais elevada, temporais por toda a parte, vendavais, longas estiagens. Mas se no passado as mudanças ocorreram por causas naturais, não podemos dizer o mesmo em relação às atuais, porque coincidem com o processo de industrialização que se intensi icou nos últimos dois séculos. 8. Não há unanimidade na comunidade cientí ica a respeito das causas destas mudanças climáticas que assistimos. Para alguns, apesar das grandes emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs), es- tas alterações são resultantes de um processo natural do planeta, enquanto grande parcela as relaciona com as atividades empre- endidas pelo ser humano após a implantação do atual sistema de produção. 1. O aquecimento global 9. O clima do planeta é resultante da interação de muitos fatores, inclusive dos seres que integram a biodiversidade que ele hospeda. De algum modo, cada ser que habita a Terra contribui na formação 15
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    e transformação doclima. Integrante dessa biodiversidade, o ser humano é também um agente que colabora, com considerável par- cela, na composição do clima. 10. O Aquecimento Global é uma mudança climática que trás con- sigo uma série de desdobramentos. Eventuais mudanças climáticas acontecem quando se registram alterações nos valores médios re- gistrados nas temperaturas, com aumento ou diminuição. Quando se fala em aquecimento global, quer dizer que ocorre a elevação dos valores médios da temperatura na super ície do planeta, hoje em torno de 15ºC- há cem anos era 14,5ºC -, o que pode provocar altera- ções de várias ordens, como no regime e intensidade das chuvas. 11. É cada vez mais perceptível que o planeta passa por um aque- cimento, o que tem provocado uma série de mudanças climáticas. Essa ocorrência, segundo os estudiosos do tema, se deve a um fe- nômeno denominado de “efeito estufa”, que se não for devidamen- te entendido, pode vir a ser taxado facilmente de “grande vilão” das mudanças climáticas. Fonte: http://www.brasilescola.com/geogra ia/efeito-estufa.htm. 16
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    12. O efeitoestufa é um processo natural, sem o qual a temperatura na super ície terrestre seria, durante o dia, muito quente e à noite, muito fria. Assim sendo, pode-se dizer que o efeito estufa é uma espécie de “instrumento”, mediante o qual a Terra oferece uma temperatura média constante, necessária para a vida. Além disso, a temperatura do planeta ofereceu as condições para o desenvolvi- mento da atual biodiversidade que o planeta hospeda, con igurada ao longo de mais de três bilhões de anos. Portanto, o efeito estufa é importante para que o clima de nosso planeta proporcione vida. 13. A super ície da Terra não é atingida pela totalidade dos raios solares, cujos principais são: os infravermelhos e os ultravioletas. Cerca de 40% destes raios são re letidos para o espaço pelas ca- madas superiores da atmosfera; outros 43% atingem a super ície, que por sua vez, irradia 10% desta carga de energia solar para fora do planeta, e os 17% restantes são absorvidos pelas suas cama- das inferiores. Os raios infravermelhos são absorvidos, sobretudo, pelo dióxido de carbono (CO₂) e por vapores de água, elementos importantes para a formação do efeito estufa; os ultravioletas são absorvidos pelo ozônio.1 Estes são os principais gases presentes na atmosfera que, ao absorver calor dos raios solares, provocam o efeito estufa. Há outros gases que cooperam em menor escala, 1 Esta é a razão da grande preocupação com o buraco atualmente existente na camada de ozônio na atmosfera. 17
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    em virtude desua pequena presença na atmosfera, mesmo tendo maior capacidade de absorção de calor, como: o metano (CH₄) e o óxido nitroso (N₂O). Gás Porcentagem Partes por Milhão Nitrogênio 78,08 780.000,0 Oxigênio 20,95 209.460,0 Argônio 0,93 9.340,0 Dióxido de carbono 0,035 350,0 Neônio 0,0018 18,0 Hélio 0,00052 5,2 Metano 0,00014 1,4 Kriptônio 0,00010 1,0 Óxido nitroso 0,00005 0,5 Hidrogênio 0,00005 0,5 Ozônio 0,000007 0,07 Xenônio 0,000009 0,09 Fonte: http://www.brasilescola.com/geogra ia/efeito-estufa.htm. 14. O dióxido de carbono é importante no ciclo da vida, em que ele circula mediante produção e absorção em processos naturais. A maior parte do carbono está armazenada nos combustíveis fósseis, nos oceanos, na matéria viva e na atmosfera. Na natureza, esses ci- clos transcorrem de modo equilibrado. O que é emitido pelos pro- cessos vitais de alguns seres é absorvido por outros. Por exemplo, o ser humano, ao expirar, emite dióxido de carbono, enquanto as plan- tas o absorvem; pelo processo da fotossíntese as plantas liberam oxigênio, que mantém vivo o ser humano através da respiração. 15. Algumas atividades de nossa civilização emitem grande quan- tidade de dióxido de carbono. É o que ocorre na queima de com- bustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo), na derrubada e queima- da de lorestas e nas alterações do uso do solo. As derrubadas de 18
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    lorestas, além deemitirem carbono na atmosfera, eliminam um fator importante de assimilação deste gás. Ao lado dos Oceanos, as lorestas são detentoras de imensa capacidade de trocar o carbono por oxigênio na atmosfera. Em virtude destas atividades emisso- ras, as medições apontam, a partir de 1750, aumento de dióxido de carbono em torno de 40% na atmosfera, enquanto o metano (CH₄) apresentou acréscimo de 150%. 1.2. Relação entre aquecimento global e atividades humanas 1.2.1. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) como referência mundial 16. A tese de que o atual aquecimento global é fruto da ação hu- mana, em virtude do aumento das emissões de gases de efeito es- tufa no período pós-industrial, foi elaborada a partir dos estudos de um grande grupo de especialistas do clima e pesquisadores de outras áreas do conhecimento, constituído pela Organização das Nações Unidas (ONU). O grupo icou conhecido como IPCC2. O de- nominado Painel do Clima iniciou os seus trabalhos em 1988, e os estudos realizados mostram detalhadamente a variação da tempe- ratura média da Terra a partir de 1750, período que coincide com a implantação do sistema industrial em muitos países. E relaciona o aquecimento global diretamente ao aumento progressivo de emis- são de gases de efeito estufa com o processo de industrialização, além de outras fontes de emissão, como derrubadas e queimadas de lorestas. 2 O IPCC foi co-fundado em 1988 pelo Programa Ambiental das Nações Unidas e pela Or- ganização Meteorológica Mundial. Sua missão: avaliar se o clima da Terra está mudando efetivamente. Integram este comitê cerca de 2800 pesquisadores de vários países e de diferentes disciplinas acadêmicas. O grupo elabora seus relatórios a partir de fontes idedignas, aceitas pela comunidade cientí ica internacional, e as avalia com rigor. O pai- nel publicou quatro relatórios sobre mudança climática, em 1990, 1995, 2001 e 2007. Juntamente com esses documentos, o IPCC esboça os principais temas dos relatórios e publica um Resumo para Tomadores de Decisão. 19
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    17. Os resultadosapresentados pelo IPCC em seus relatórios foram abraçados por organismos intergovernamentais e internacionais, tendo à frente a ONU, e seus organismos como: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNU- MA). Foram assumidos, também, por Igrejas, movimentos sociais, articulações internacionais, como o Fórum Social Mundial, e Orga- nizações não-governamentais (ONGs) que atuam em favor da vida no planeta. 1.2.2. O relatório do IPCC de 2007 18. Em seu quarto relatório, de 2007, o IPCC3 a irma, com nível muito alto de con iança – isto é, com segurança de mais de 90% – que o planeta Terra está aquecendo desde 1750, tendo elevado a temperatura média em 0,74º C até 2006. Nesse sentido, alguns dados chamam a atenção, como por exemplo, as concentrações de dióxido de carbono (CO₂), o gás de efeito estufa mais importante, aumentaram entre 1995 e 2005 em um ritmo mais acelerado do que entre 1960 e 1995. Como o aumento se deve à maior presença de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera, então a conclusão é que a temperatura tende a aumentar cada vez mais. 19. O relatório destaca que a maior parte da emissão de dióxido de carbono (CO₂) pelas atividades humanas provém da queima de combustíveis fósseis, e a de metano (CH₄) e óxido nitroso (NO2) provém principalmente da agricultura. 20. Os pesquisadores conseguiram fazer medições da presença destes gases na atmosfera em épocas passadas, analisando núcle- os de gelo perfurados em geleiras de lugares como Groenlândia e Antártida, onde a neve nunca derrete completamente. E pelo fato de a neve carregar partículas do ar quando precipita e, à medida 3 Pode ser encontrado em português no espaço do PNUMA, ONU, ou no site: Disponível em <www.ipcc.cg>. Acesso em: 06 ago. 2010. 20
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    que se compacta,bolhas de ar do momento em que houve a pre- cipitação icam aprisionadas. Por isso, mediante análise, pode-se medir com segurança a quantidade de certos gases na atmosfera em outras épocas. 21. Assim, cientistas dessa área puderam medir a quantidade de gases de efeito estufa presentes na atmosfera antes do início da in- dustrialização. Essa medição foi importante para efeito de compa- ração entre as quantidades de gases de efeito estufa e as respecti- vas temperaturas, resultando na teoria de que: emissões em gran- des quantidades destes gases implicam em aquecimento médio da temperatura do planeta ou no aquecimento global. A análise de ar capturada no gelo, mostra um aumento considerável dos gases de efeito estufa a partir de 1750. Essa data marca o início da acelera- ção do processo de industrialização, sobretudo impulsionada pela combustão do carvão e, mais tarde, pela do petróleo, como suas fontes principais de energia. 22. E a partir dessa relação entre quantidade de gases de efeito es- tufa na atmosfera e temperatura, puderam prever, para o futuro, aumentos na temperatura média conforme o andamento das emis- sões. O que quer dizer, que a temperatura futura do planeta vai de- pender de nosso modo de produzir, consumir, en im do modo de nos relacionar com a Terra. 23. Para o IPCC, as mudanças no clima estão se aprofundando e re le- tem os aumentos de emissões de gases de efeito estufa. Entre 1995 e 2006, o mundo teve 11 dos 12 anos mais quentes já registrados 21
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    para a temperaturada super ície da Terra. A maior parte do aque- cimento se deve as atividades humanas dos últimos 50 anos. Há muitos indicadores que mostram a aceleração do aquecimento. As geleiras das montanhas e as coberturas de neve estão diminuindo. As lâminas de gelo da Groenlândia e da Antártida estão derretendo em alguns pontos. O nível do mar continua a subir,4 e a temperatu- ra média do oceano está aumentando. As secas estão mais longas e mais intensas, e afetam áreas maiores. As chuvas estão mais pesa- das e provocam graves enchentes. O relatório de 2007 indica que essas recentes mudanças são maiores do que as ocorridas no clima nos últimos 1.300 anos. 24. O relatório a irma que, se as emissões de gases de efeito estu- fa continuarem no ritmo atual ou forem ainda mais intensas, um aquecimento maior irá ocorrer. Isso, por sua vez, agravará as mu- danças no clima global. A temperatura da super ície deve aumen- tar em cerca de 2,4°C até 2050, mesmo se a humanidade mudar seu padrão de produção e consumo imediatamente. Porém, caso mudanças dessa ordem não forem realizadas, o aumento pode al- cançar 4ºC. O que agravaria a elevação do nível dos mares, em até 0,60 cm, em virtude do derretimento de geleiras, ocupando áreas do território e provocando imensas levas de migração – os deno- minados migrantes climáticos.5 Os padrões climáticos seriam al- terados signi icativamente, com tempestades, furacões, enchentes sempre mais intensas e secas ainda mais amplas e prolongadas. 4 Pesquisas da NASA indicam que, de 2003 a 2008, derreteram-se 2 bilhões de toneladas de gelo no Ártico, na Groenlândia e no Alasca, proporcionando um aumento de 4,5 mm no nível das águas oceânicas. No Chile, veri ica-se avanço do derretimento em 92% das 1720 geleiras e nas cordilheiras nevadas do Peru, ocorre o mesmo. Processo semelhante ocorre nos montes Kênia e Kilimanjaro na Tanzânia, que já perderam mais de 80% das antigas coberturas de neve. Cf. J.A. MEJIA GUERRA, In REB, Fasc. 277, Janeiro, 2010, p. 9-11. 5 A ONU realizou em Bonn, Alemanha, uma Conferência sobre o clima, inalizada em 11 de junho de 2010. Foi apresentado um relatório produzido por pesquisadores ligados à mesma ONU e à Universidade de Colúmbia nos EUA acerca de migrações resultantes de mudanças climáticas. O relatório estima que o total de pessoas envolvidas nas migra- ções estimuladas pelas mudanças climáticas poderá pular de 50 milhões em 2010 para cerca de 700 milhões em 2050. http://www.achetudoeregiao.com.br/noticias/ambien- te360.htm 22
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    1.3. As atividadesdo ser humano que mudaram o planeta 25. A implantação do sistema industrial de produção de bens e o do consumo compulsivo, inclusive de produtos supérfluos, in- tensificou a extração de materiais da natureza e ocasionou pro- fundas transformações na face do planeta. Em virtude da mag- nitude destas mudanças, que já ameaçam as estruturas daTerra, há quem diga que estamos entrando em uma nova era geológica, o “antropoceno”.6 26. Em relação às mudanças, é interessante citar alguns dados. A população mundial aumentou dez vezes nos últimos três sécu- los. No século XX, quadruplicou; hoje, ultrapassa os 6,5 bilhões de pessoas, e as estimativas indicam que pode chegar à casa dos 9 bilhões em 2050. Mesmo tendo presente que a proteína animal é desigualmente distribuída, já existe praticamente uma vaca por família e a população de gado, que é responsável por parte da produção do gás metano, saltou para 1,4 bilhão de reses. Quase a metade da população vive, hoje, em cidades ou megacidades. No século XX, a urbanização aumentou dez vezes. A produção indus- trial cresceu 40 vezes nesse mesmo período e a demanda energé- tica exigiu que o setor crescesse 16 vezes. Por im, quase 50% da super ície do planeta passaram por transformações em virtude das atividades humanas.7 6 Paul Crutzen, ganhador do Nobel de Química em 2000, sugere que pelas mudanças oca- sionadas no planeta devido as ações do homem, a atual era deve ser denominada de antropoceno. Porque nos dias de hoje, vemos mudança na composição atmosférica, com consequente mudança nas plantas, mudança na distribuição e diversidade das espécies, com consequências futuras no registro fóssil e mudança na acidez dos oceanos, com al- teração nos depósitos minerais nas profundezas, fatores que atendem os requisitos que a Stratigraphy Commission of the Geological Society of London, estabeleceu como de- terminantes para se con igurar uma época geológica. Disponível em http://www.gluon. com.br/blog/2008/01/26/antropoceno-clima-ecologia/. Acesso em: 06 agosto 2010. 7 Cf. Paul J. CRUTZEN. Química atmosférica e clima no antropoceno? In fazendo as pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p.155. 23
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    27. Entretanto, aindatemos outros dados significativos des- sa ação humana. O uso da água passou por um crescimento de nove vezes no período citado e, hoje, desigualmente distribuída, atinge cerca de 800 metros cúbicos per capita ao ano. Essa utili- zação se dá na seguinte proporção: na irrigação 70%, na indús- tria 20% e nos domicílios 10%, e a ineficiência na captação e distribuição gera grandes desperdícios. E, se a água é essencial para a vida, é também indispensável na produção agroindus- trial, pois segundo a New Scientist (PEARCE, 2006), um quilo de café pronto para o consumo requer, em todas as etapas da produção, cerca de 20 mil litros de água, um hambúrguer de 100 gramas, 11.000 litros e um mero jeans, 8.000 litros, para ficarmos em alguns exemplos. 28. A emissão de alguns gases de efeito estufa cresceu exponen- cialmente. A maior preocupação recai sobre a de dióxido de carbo- no, que aumentou a sua concentração na atmosfera em 40% após o início da industrialização, sendo que dois terços deste cresci- mento ocorreram somente nos últimos 100 anos. Desta forma, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera passou de 275 para 380ppm,8 segundo medição de 2006, e, segundo estimativas, a queima de combustíveis fósseis acrescenta anualmente 5 bilhões de toneladas por ano9 de CO₂ na atmosfera. 29. As emissões de dióxido de enxofre (SO₂) através de fenôme- nos naturais, como erupções vulcânicas, chegam a 100 milhões de toneladas/ano. Mas a queima de combustíveis fósseis é respon- sável pela emissão do dobro das provocadas por esses processos naturais; este gás, em contato com o dióxido de azoto (NO₂), é um 8 Segundo as pesquisas do IPCC, a concentração do dióxido de carbono na atmosfera vem aumentando nos últimos 650.000 anos, de 180 ppm para 300 ppm, respectiva- mente. Entretanto houve um aumento mais pronunciado desde a era pré-industrial, passando de 280 ppm para 379 ppm em 2005, sendo que na última década, entre 1995 e 2005, houve a maior taxa de aumento. http://www.multiciencia.unicamp. br/r01_8.htm. Acesso em 15 setembro 2010. 9 Cf. Disponível em http://educacao.uol.com.br/quimica/sequestro-de-carbono.jhtm. Acesso em: 07 agosto 2010. 24
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    dos principais causadoresde chuva ácida. O óxido nitroso (N₂O) é, hoje, dentre as todas as substâncias resultantes de atividades humanas, a que mais causa danos à importante camada de ozô- nio, superando os cloro luorcabornetos (CFCs);10 pois bem, 2/3 do que se emite proveem da ação humana, sobretudo de processos de fertilização e em defensivos agrícolas, especialmente nas imensas monoculturas. 30. O gás metano (CH₄), inicialmente conhecido como gás dos pân- tanos, atualmente é proveniente de atividades humanas na razão de 60%. Ele é gerado especialmente através dos cultivos agrícolas e na pecuária, mas também os grandes lagos arti iciais para hidre- létricas produzem metano. Nos últimos 200 anos, aumentou sua presença na atmosfera de 0,8 para 1,7 ppm. O ser humano também responde pela emissão de outras tantas substâncias de efeito estu- fa, algumas delas tóxicas ao meio ambiente, a partir de resíduos de- volvidos à natureza após o consumo, e outras não tóxicas, mas que originam buracos na camada de ozônio; este é o caso do CFC,11 que já não é produzido, mas os efeitos do que foi acumulado anterior- mente na atmosfera ainda perdurarão por cerca de um século. O grá ico abaixo mostra os principais gases de efeito estufa com algu- mas informações como: o que causa estes gases, sua porcentagem na formação do efeito estufa e. tempo de duração na atmosfera. 10 Cf. Disponível em http://360graus.terra.com.br/ecologia/default.asp?did=29063&action=news. Acesso em: 07 agosto 2010. 11 Estima-se que o CFC seja 15.000 vezes mais nocivo à camada de ozônio do que o dióxido de carbono (CO2). (CENAMO, 2004). Isso porque ao ser liberado na atmosfera o CFC se concentra na estratosfera (onde ica a camada de ozônio) e sofre uma reação chamada fotólise: quando submetido à radiação ultravioleta proveniente do sol o CFC se decom- põe liberando o radical livre cloro (Cl) que reage com o ozônio decompondo-o em oxigê- nio gasoso (O2) e monóxido de cloro (OCl). Disponível em http://www.infoescola.com/ quimica/cloro luorcarboneto-cfc/. Acesso em: 06 agosto 2010. 25
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    Gases de estufa Principais causas Combustão de combustíveis fósseis: petróleo, gás natu- ral, carvão, desflorestação (libertam CO2 quando queima- das ou cortadas). Dióxido de Carbono(CO2) O CO2 é responsável por cerca de 64% do efeito estufa. Diariamente são enviados cerca de 6 mil milhões de tone- ladas de CO2 para a atmosfera. Tem um tempo de duração de 50 a 200 anos. São usados em sprays, motores de aviões, plásticos e solventes utilizados na indústria eletrônica. Responsável Clorofluorcarbono (CFC) pela destruição da camada de ozônio. Também é respon- sável por cerca de 10% do efeito estufa. O tempo de duração é de 50 a 1700 anos. Produzido por campos de arroz, pelo gado e pelas lixeiras. Metano (CH4) É responsável por cerca de 19 % do efeito estufa. Tem um tempo de duração de 15 anos. Produzido pela combustão da madeira e de combustíveis fósseis, pela decomposição de fertilizantes químicos e Ácido nítrico (HNO3) por micróbios. É responsável por cerca de 6% do efeito estufa. É originado através da poluição dos solos provocada pe- Ozono (O3) las fábricas, refinarias de petróleo e veículos automóveis 31. Dados como esses fazem pensar que é difícil não estabe- lecermos uma relação direta entre o resultado das ativida- des industriais e as manifestações de mudanças climáticas no planeta, que se intensificaram nos últimos 30 anos com o au- mento da temperatura média global. Nesse sentido, polêmicas científicas à parte em relação às causas do aquecimento global, são, no mínimo, sensatos os alertas para que se procure dimi- nuir urgentemente tais emissões, ou ao menos estabilizá-las. E é importante levar a sério esses alertas, fundamentados na sabedoria popular, no princípio da precaução, nas pesquisas científicas e no cuidado e respeito cristãos pela criação e pela pessoa humana. 32. Assim, dada a quantidade de dióxido de carbono na atmosfe- ra, a redução necessária para as emissões seria, segundo o IPCC, 26
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    da ordem de50% até 2030; mas é preciso estar atentos a outros gases, como o óxido nitroso, por exemplo, cuja diminuição reco- mendada gira em torno de 70 a 80% – meta dificultada porque o nitrogênio é amplamente utilizado em processos de fertilização para plantios agrícolas. É necessário assumir responsavelmente estas propostas, pois no caso de se concretizarem as previsões de degelo nas regiões polares, haverá ainda mais emissões de metano e de dióxido de carbono, com novas frentes de pressão para o aumento da temperatura. 1.5. A energia, tema central nas discussões sobre emissão de gases de efeito estufa 1.5.1. As matrizes energéticas disponíveis 33. O impressionante desenvolvimento econômico alcançado com a industrialização foi possibilitado por matrizes energéticas reno- váveis e não renováveis. 34. As fontes não renováveis são as que se encontram na natureza em quantidades limitadas, e, caso se esgotem, suas reservas não se regeneram rapidamente. Dentre estas se encontram os combus- tíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural) e o urânio (matéria necessária para obter a energia por processos de issão ou fusão nuclear). Essas energias são normalmente denominadas de ener- gias convencionais porque o atual sistema energético depende ba- sicamente da utilização de combustíveis fósseis. São consideradas energias sujas, em virtude de promoverem, quando utilizadas, a liberação de poluentes de consequências danosas para o meio am- biente e a sociedade: destruição das lorestas e da lora em geral, contaminação de solos e águas, também promove danos à saúde humana, deterioração de edi icações etc. O setor é responsável por pelo menos 37% das emissões de CO₂ de origem humana. Por isso, 27
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    o Protocolo deKioto,12 de iniu metas de redução das emissões de gases de efeito estufa em 5,2% para os países mais industrializa- dos e alto consumo, em relação às emissões de 1990. 35. As fontes de energia renováveis são geralmente consumidas no próprio local em que ocorre a geração. Trata-se de fontes autócto- nes e não poluentes. A maioria das energias renováveis não emite gases de efeito estufa, com exceção da energia obtida com queima da biomassa. Além disso, são virtualmente inesgotáveis, embora apresentem variação em termos de quantidade de energia possí- vel de se extrair, segundo as circunstâncias momentâneas. As prin- cipais são: energia solar, energia eólica, energia hídrica, energia oceânica, energia geotérmica e a proveniente da biomassa. Abaixo segue um esquema que relaciona as fontes energéticas, com os res- pectivos produtos e utilizações: a) Energia solar – O Sol é uma fonte inesgotável de energia. A utilização dessa fonte é realizada basicamente por dois sistemas: o térmico, no aquecimento de luidos, cuja apli- cação principal é o aquecimento de água para uso domés- tico e a geração de energia elétrica através de turbinas mo- vidas a pressão; o fotovoltaico, que converte diretamente a energia solar em energia elétrica, através de painéis de células fotovoltaicas. Há avanços signi icativos na geração fotovoltaica de energia no planeta, fruto de opções políti- cas que a implementam como prioridade. No Brasil, até o momento, não está entre as prioridades da política ener- gética e o custo é alto, por ser tecnologia importada. 12 Esse Protocolo tem como objetivo irmar acordos e discussões internacio- nais para conjuntamente estabelecer metas de redução na emissão de ga- ses-estufa na atmosfera, principalmente por parte dos países industrializa- dos, além de criar formas de desenvolvimento de maneira menos impactante. O Protocolo de Kyoto estabelece metas de redução de gases a serem implantadas, algo em torno de 5,2% entre os anos de 2008 e 2012. Na reunião, em Kyoto, oiten- ta e quatro países se dispuseram a aderir ao protocolo e o assinaram, dessa forma se comprometeram a implantar medidas com intuito de diminuir a emissão de gases, dentre eles o Brasil. http://www.brasilescola.com/geogra ia/protocolo-kyoto.htm. Acesso em 15 setembro 2010. 28
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    a) Energia eólica– Por meio de turbinas eólicas se conver- te a energia cinética do vento em energia mecânica (para moer, bombear água) ou para alimentar um gerador que a transforma em energia elétrica. b) Energia geotérmica – Numa central de energia geotérmi- ca, aproveita-se o calor existente nas camadas interiores da Terra para produzir vapor e acionar turbinas de pro- dução elétrica. c) Energia dos Oceanos – Existem várias formas de se explo- rar a energia dos Oceanos. As mais utilizadas são: energia das ondas, que consiste em aproveitamento do movimento das ondas para acionar turbinas de geração elétrica; ener- gia das marés – exige um sistema semelhante ao hidrelé- trico, formando-se um reservatório junto ao mar, para que, com a maré baixa, as turbinas continuem a produzir. d) Energia Hidrelétrica – Consiste no aproveitamento da energia mecânica dos cursos d’água para a produção de energia elétrica; para potenciá-los, exige-se a construção de grandes reservatórios. e) Energia de biomassa – A produção energética se realiza mediante combustão de materiais vegetais secundários, como no caso do bagaço da cana moída. No entanto, emite gases de efeito estufa, mas é compensador já que o CO₂ liberado é contrabalançado pela captura deste gás no pro- cesso de crescimento destes vegetais. A combustão direta, o biogás e o agrocombustível são algumas das formas de se aproveitar essa fonte de energia. 1.5.2. A questão energética, crucial na questão do aquecimento global 36. A questão energética se reveste de grande importância neste contexto de mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. O crescimento econômico e a vida em sociedade baseados na industrialização capitalista e socialista foram alavancados pelas 29
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    fontes energéticas nãorenováveis, como os combustíveis fósseis, que emitem grandes quantidades de CO₂ e vapor de água, dois dos principais responsáveis pelo efeito estufa. 37. Dessa forma, a relação entre base energética atual e a necessi- dade de diminuição drástica de gases de efeito estufa conduz a um impasse. As previsões de demanda energética apontam para um crescimento anual de 1,5% até 2030. Essas previsões se chocam frontalmente com a recomendação do IPCC para que se diminu- am as emissões de CO2 em 50% até essa mesma data, para que a temperatura não cresça 2ºC nas próximas décadas. A conclusão é que esta base energética se mostra inviável diante deste objetivo, tendo presente que, em 2005, era responsável pela emissão de 63% dos principais gases de efeito estufa gerados por atividades huma- nas. No entanto, em 2007 ela respondia por mais de 80% (petróleo 34,4%, carvão 26%, gás 20,5%) do fornecimento da energia neces- sária para as economias e lares. 38. Se considerarmos que, em 1973, esta base energética corres- pondia a 86,513 vê-se que, mesmo com a crise do petróleo à época e com os altos preços praticados, a diminuição do seu uso foi mui- to pequena. Tanto assim que não existem sinais de diminuição da presença desta matriz até 2030, conforme dados da Agência Inter- nacional de Energia (EIA). As reservas disponíveis são su icientes para manter este consumo por décadas, talvez com preços um pou- co mais elevados. Atualmente, o perigo não é propriamente a es- cassez, mas a abundância de oferta destes produtos fósseis. Diante disso, mesmo que as fontes de energia renováveis cresçam em tor- no de 7,2% ao ano - um crescimento superior ao de qualquer outra fonte energética –, não se trata de uma notícia animadora, porque sua participação no universo energético é ainda pequena. 39. O certo é que, a persistir a atual con iguração de fornecimen- to de energia, não será possível o cumprimento da meta de limi- tar a concentração de CO₂ na atmosfera em 450ppm, – ou voltar a 13 www.eumed.net/rev/delos/08/rsg.htm - acesso dia 05 outubro 2010. 30
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    350ppm, como propõemmuitos – para que o aquecimento global não ultrapasse a média de 2°C. O grande problema é que o mercado gerenciador e a indústria que opera na produção destas energias não pretendem perder esta fonte de lucro. Assim, se os governos não tomarem iniciativas irmes e liderarem esta mudança de para- digma, a situação tende a agravar-se. 1.5.3. A questão energética e o neodesenvolvimentismo das políticas públicas 40. A emissão de CO₂ no Brasil é inversa à maioria dos países do planeta. Os dados o iciais de 2005 apontam que 24% das emissões deste gás provêm do uso de combustíveis fósseis e 76% do uso da terra, incluídos os desmatamentos e queimadas. A matriz energética apresenta um per il “limpo”, com o etanol e as hidroelétricas, além da energia de biomassa. Assim, dados do Balanço Energético Nacional (BEM) de 2008, tendo como base o ano de 2007, indicam que 45,9% da produção de energia no país são resultantes de fontes renováveis. 41. No entanto, é preocupante o direcionamento que as recen- tes decisões do governo estão conferindo à questão das fontes 31
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    energéticas em nossopaís. Hoje, a região amazônica é palco de grandes projetos hidroelétricos, como as usinas Jirau e Santo An- tônio, no Rio Madeira, em Rondônia, Belo Monte e Tapajós, no Pará, além de muitas Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) espalhadas pelo país e os acenos de expansão da matriz energética atômica. E, em meio às di iculdades mundiais de contenção das emissões de CO₂, o governo praticamente ignora o potencial oferecido pelo nosso imenso território para a implementação e expansão da ener- gia solar e da eólica. Pode-se estabelecer paralelo com o ocorrido no passado quando, com desprezo ao meio ambiente e à socieda- de local, foram construídas as hidrelétricas de Samuel, Balbina e Tucuruí e foi abandonado o primeiro Pró-Álcool. Essa postura go- vernamental se explica pela guinada neodesenvolvimentista assu- mida pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que busca incrementar o crescimento a qualquer custo, com clara ausência de preocupações ambientais. 42. A Amazônia, tão valiosa para o país e para a humanidade, pa- rece ser vista pelo governo como um vazio demográ ico e impro- dutivo que, ao menos, deve produzir energia, mesmo a despeito do alto custo para a sua biodiversidade. Há indícios, também, de que o governo quer incrementar a produção de energia nuclear, o que exigiria a construção de várias usinas nucleares, cujos resí- duos permanecem radiativos por muitíssimos anos. Igualmente o programa Pré-Sal exige dispêndio de fortunas para a extração de um produto altamente poluente, cujo processo pode resultar em desastres ambientais incalculáveis, como o ocorrido no golfo do México, no ano passado. Por im, o projeto governamental de trans- formação do etanol em commodity, sob a alegação de se tratar de um e iciente modo de substituir os combustíveis fósseis, parece esquecer a pressão por mais e mais terras para a produção, em detrimento da produção de alimentos. 43. A lógica destes projetos energéticos está na contramão das me- didas necessárias para diminuir ou conter o aquecimento global e impedir que a desestabilização do clima coloque em risco as condi- ções de vida no planeta. A lógica neodesenvolvimentista, ilustrada 32
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    pelo PAC, atende,especialmente, a interesses do capital, de investi- dores, da indústria das grandes obras, ávidos por lucro. Certamen- te, a consequência imediata é a dúvida sobre as reais intenções do Brasil em relação ao compromisso de contribuir para o controle das emissões de gases de efeito estufa. 1.6. O desmatamento da Floresta Amazônica, uma afronta à crise global do clima 44. As estimativas apontam que 50% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, diferentemente do resto do mundo, são re- sultantes de ações de desmatamento e queimadas. Na verdade, to- dos os biomas brasileiros estão afetados por ações devastadoras. 45. A Amazônia se constitui hoje na maior loresta tropical do pla- neta, com uma área de aproximadamente cinco milhões e meio de km² de mata contínua, dos quais 60% se encontram em território brasileiro. O desmatamento da loresta amazônica é monitorado por diversas instituições e com diferenciadas metodologias. Nas décadas de 1980 e 1990 constatou-se que o desmate médio atin- giu 20 mil km²; em 1995, registrou-se um pico de 29.059 km² e, em 2004, outro número assustador: 27.400 km². 46. Uma das maiores autoridades sobre assuntos relacionados à Floresta Amazônica, Philip Fearnside.14 analisa a atuação do Go- verno em relação ao processo de desmatamento. Segundo ele, nos últimos anos, a reação do governo diante dos anúncios de desmate na região da Amazônia, sempre divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), tem se caracterizado em identi icar prontamente algum culpado em casos de aumentos impactantes, como o plantio de soja, cultivo de bois, etc. Em reação às notícias ne- 14 Philip M. FEARNSIDE, Consequências do desmatamento da Amazônia. Scienti ic Ameri- can, p. 56 Edição especial – n. 39. Philip M. Fearnside é pesquisador titular do Departa- mento de Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus. De acordo com recente levantamento, Fearnside é o segundo cientista mais citado do mundo quando o tema é aquecimento global. Disponível em http://www.eco21.com. br/textos/textos.asp?ID=1515. Acesso em: 11 agosto 2010. 33
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    gativas sobre oaumento do desmatamento, frequentemente se anun- cia alguma medida, quando não um “pacote de medidas”. Se a notícia é positiva, dando conta da diminuição do desmatamento, mesmo que mínimo, o mérito é do Governo. O articulista critica a diretriz go- vernamental de combate ao desmatamento da loresta amazônica, exposta no Plano Nacional sobre Mudanças do Clima (PNMC), a ir- mando que, embora a repressão ao desmatamento tenha produzido algum efeito, os planos de implantação de infraestrutura, somado à legalização de grandes áreas de terras antes na ilegalidade, apontam necessariamente para o crescimento do desmatamento. 47. Segundo Fearnside, no PNMC lançado em ins de 2008, não existem metas de desmatamento e sim objetivos voluntários. De modo que não há uma ligação com os compromissos formais da Convenção do Clima,15 o que resulta em lexibilização dos objeti- vos. E mais, a queda no desmate da Amazônia não é de 40%, como enfatiza o documento, porque a argumentação, articulada em torno dos números do desmate entre 2006-2009, “é relativa a uma linha de base que é a taxa média de desmatamento no período 1996-2005, quando o desmatamento médio era de 19.508km²/ano tornando o alvo de 40% para 1996-2005 igual a 11.705km²/ano”16. Assim, a permissão para o quadriênio 2006-2009, seria de 11.705 km²/ano que, multiplicado por quatro, totaliza 46.819 km². E como o des- matamento realizado entre os anos de 2006-2008 chegou a 38.740 km², restaram 8.079 km² para serem derrubados em 2009. Esses números permitem concluir que, o icialmente, ainda se permite o desmatamento a níveis gigantescos. 48. E no artigo, o estudioso ainda diz que o objetivo proposto para o desmatamento da loresta Amazônica para o próximo quadriê- nio (2010-2013) é de 30% abaixo do registrado no período ime- diatamente anterior (2006-2009), ou 30% de 46.819 km²/ano 15 A Convenção sobe a Mudança do Clima, tem como objetivo estabelecer os programas de proteção da atmosfera, visando reduzir a emissão de gases que podem estar alterando o clima do planeta. 16 Idem. 34
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    distribuídos em quatroanos. Dessa forma, a permissão o icial para o desmate seria de 8.193 km²/ano. Para os anos compreendidos entre 2014-2017, aplicando a redução dos 30% em relação à mé- dia anterior, temos a quantia de 5.735 km²/ano. Desse modo, se somarmos a concessão o icial para o desmate no período entre 2009-2017, chega-se à cifra de 80.112 km² de loresta derrubada, o equivalente a três Bélgicas. 49. A média, nesses nove anos, daria 8.901 km²/ano, apontando um aumento em relação a 2009, quando o icialmente se tolerava a derrubada de 8.193 km²/ano. De modo que, num aparente passe de mágica, o “objetivo” de redução de 40% acaba resultando em aumento efetivo no desmatamento. O PNMC propõe “desmatamen- to zero ilegal” para a Floresta Amazônica a partir de 2017. Mas esse enunciado equivale a abrir uma brecha para o desmate de cunho legal, que o próprio PNMC presume ser da ordem de 5.000km²/ ano. A irma ainda o autor que há brechas na legislação atual que, manipuladas, permitem derrubadas de até 80% das áreas das pro- priedades legalizadas em solo amazônico. 1.7. O agronegócio, estratégico para o neodesenvolvimentismo 50. Os alimentos, os recursos primários e absolutamente neces- sários para a vida, atualmente, são gerenciados por um merca- do denominado commodities. O interesse de quem comanda este mercado é o lucro, não a disponibilização de alimentos para todas as pessoas. Além do mais, trata-se de um mercado dominado por poucas empresas que monopolizam o mercado internacional, im- pondo preços segundo suas conveniências. Esse procedimento in- troduz um desequilíbrio neste comércio, alavancado pela prática de subsídio à agropecuária pelos países desenvolvidos. 51. O resultado destas distorções se re lete nos preços relativa- mente baixos dos alimentos, o que, em tese, parece muito bom. Porém, na prática é um desequilíbrio que pesa sobre os pequenos 35
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    agricultores que, aose sujeitarem a comercializar seus produtos pelos preços das commodities, estão subsidiando a alimentação dos moradores das cidades. Diante desse quadro, a conclusão é que esse mercado foi desenhado para os grandes produtores, para os que detém grande capital e podem fazer uso da tecnologia e produzir segundo o modelo industrial ou especializando-se (monocultura, tecnologia, máquinas possantes, fertilizantes, agrotóxicos, semen- tes modi icadas geneticamente, e o mesmo na produção de carnes: manipulação genética, clonagem, utilização de certas substâncias para engorda precoce). Essa prática, além de alijar os pequenos produtores, também reduz o número de empregos, como na indús- tria. É um modelo que não tem nenhuma sensibilidade para com os pobres. Gera mais pobres que já não têm condição de retirar o seu sustento e se transferem para as cidades. Ali, sem a devida prepa- ração técnica, se defrontam com o reduzido número de postos de trabalho e, em sua grande maioria, acabam na marginalização. 52. Esse sistema produtivo, denominado agronegócio, não se mos- tra preocupado com o meio ambiente. Desmata impiedosamente. É atividade que desperdiça e consome 70% da água doce utiliza- da no mundo. Os seus fertilizantes, além de contaminarem lagos e rios, já são causadores de zonas mortas nas águas marítimas li- torâneas. Nesse modelo, questiona-se o compromisso para com a sustentabilidade da natureza e sua biodiversidade. 53. Enquanto agronegócio, a agricultura assume grande importân- cia, pois, juntamente com a exportação de bens primários, como minerais, contribui para que o Brasil tenha recursos para pagar o dé icit resultante das transações de mercadorias e serviços com o mundo, bem como os custos da dívida externa e interna, que, so- mada, está perto de 2 trilhões de reais. Por esse motivo, o setor tem sido privilegiado pelos últimos governos com políticas de inan- ciamento a baixíssimo custo, cancelamentos de dívidas e condes- cendência para com os crimes ambientais. Diante disso, pode-se entender a proposta apresentada pelos representantes do agrone- gócio e apoiada por membros de partidos aliados ao governo, em meados de 2010, com o intuito de lexibilizar o Código Florestal Brasileiro e abrir novas brechas para a expansão agrícola. 36
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    54. Em meioà crise ambiental global, estas medidas surpreendem porque apontam na direção de concessão de facilidades para o aumento da degradação dos bens da natureza; ou seja, na direção contrária à que requer de todos responsabilidade e cuidados para com o meio ambiente. E se não bastasse, o projeto ainda inclui o perdão para infrações cometidas no passado, que, segundo o Mi- nistério do Meio Ambiente, chegam ao montante de 10 bilhões de reais. Sendo medida que geraria aumento do desmate e queima- das, também traria di iculdades para que o governo cumpra seus compromissos de redução de gases de efeito estufa, especialmente o dióxido de carbono. 55. Considerando a importância da biodiversidade para que o pla- neta se mantenha em um equilíbrio necessário para oferecer as condições atuais à vida, e o atual estado de devastação de nossos biomas, tudo isso causa ainda maior estranheza. Con irma, no en- tanto, a importância do agronegócio na estratégia neodesenvolvi- mentista, e explica porque o cuidado com o meio ambiente é visto como um empecilho ao crescimento econômico. 3. O modelo de desenvolvimento atual e suas consequências 56. A concepção de crescimento linear, contínuo, vem sendo con- testada por estudos publicados em relatórios da ONU, da Organi- zação para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Orga- nização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômicos (OCDE), da UNESCO, FAO e outras organizações.17 Essas informações asse- guram que, segundo os padrões atuais de produção e consumo, não obstante as gritantes desigualdades, a humanidade consome um quarto a mais dos bens de que o planeta pode efetivamente disponibilizar. O processo de globalização tende a padronizar um 17 Cf. Dominique VOYNET. Que limites e que tipo de desenvolvimento? In. p. 35 37
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    estilo de vidabaseado no consumo excessivo por parte de 20% da humanidade, aumentando os gastos destes recursos.18 57. Por isso, “vivemos uma icção: sabemos, mas não acreditamos que sabemos. A negação da realidade é parte e parcela do produti- vismo: para continuar esbanjando os recursos do mundo, precisa- mos de um mecanismo de negação e ignorância intencional... Esse mecanismo não é totalmente efetivo individual ou globalmente: ele gera ansiedade e agressividade ou, pelo contrário, a necessida- de de rea irmação mais ou menos cega, como a oferecida pelo pro- gresso tecnológico ou pelo crescimento, com todos os paradoxos aí envolvidos”.19 58. Podemos veri icar o paradoxo em relação aos avanços tecno- lógicos pela utilização de determinadas técnicas em franca proli- feração, como a nuclear, algumas nanotecnologias e Organismos Geneticamente Modi icados (OGMs). Pairam muitas descon ianças sobre estas tecnologias, mas ao mesmo tempo existe uma con ian- ça tal nas ciências e na tecnologia, que nos habituamos a esperar pelas suas soluções salvadoras, especialmente em muitas das si- tuações perigosas ou problemáticas, inclusive as relacionadas ao meio ambiente. Dessa forma, o olhar tende ao horizonte de um futuro próximo, esperançoso pelos artefatos ou maquinações sal- vadoras das ciências, crendo que isso, inevitavelmente, se concreti- zará. Entrega-se o planejamento do futuro e estas forças, e isso leva a um estilo de vida envolto em tecnologias e realidades virtuais e, consequentemente, mais distantes das energias da natureza. 59. A irma-se o modelo atual de desenvolvimento como caminho para a solução de problemas que assolam as sociedades: a desi- gualdade, a saúde, a educação, os de meio ambiente. No entanto, mesmo com o registro de crescimento econômico, estes problemas 18 Como ilustração, alguns exemplos: gastam-se 11 toneladas de materiais naturais não renováveis para produzir um único microcomputador e 32 quilos de materiais naturais não renováveis e 8.000 litros de água na produção de um único jeans. Dominique VOY- NET. Que limites e que tipo de desenvolvimento? In. p. 35. 19 Ibidem. p. 37. 38
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    estão sempre empauta e o que é pior, aumentando, pois a riqueza gerada em meio às disparidades reinantes nas sociedades, acaba concentrada em poucos, e contemporaneamente, a maioria do ca- pital acaba gerenciado por grupos de investimento, aos quais so- mente interessa o lucro. 60. Segundo a lógica deste sistema, as empresas multinacionais, mesmo as que, por exemplo, declaram alguma preocupação com as problemáticas da vida no planeta e procuram patrocinar alguma ini- ciativa com esta inalidade, primeiramente visam preservar os inte- resses dos seus investimentos, além de considerar muito onerosa a transição para a sustentabilidade do planeta. Os trabalhadores aca- bam comungando com esta lógica pensando nos postos de trabalho, e os governos, geralmente, fecham os olhos em um cenário de cor- rupção e tomam decisões em vista das eleições vindouras.20 61. O diagnóstico já está claro: é impossível a manutenção desta es- calada de crescimento e consumo que se globaliza a passos largos mundo a fora, fomentado por um mercado inanceiro impessoal que almeja unicamente o lucro, e que, ao pregar a e iciência, descarta empregos e o próprio trabalhador sob o argumento de “sociedades de plena atividade”, não mais de pleno emprego. Mas os governos das nações não parecem dispostos a renunciar facilmente a esta ideologia do crescimento; as pessoas, sobretudo as mais abastadas, também não se mostram dispostas a mudanças de hábitos; igual re- sistência mostram os que vão escalando os estratos da sociedade, pois, com acesso a inanciamentos, podem consumir mais. É o que se pode ver no caso do avassalador aumento do número de automóveis nas ruas, também nos países em desenvolvimento. É importante esclarecer, contudo, que não se está negando o direito ao necessá- rio consumo das pessoas que, até hoje, passam fome, sede, não têm casa, saneamento, bens essenciais à dignidade da vida; pelo contrá- rio, é necessária a diminuiçao do consumo das elites mundiais para suprir as necessidades dos mais empobrecidos. 20 Cf. Dominique VOYNET. Que limites e que tipo de desenvolvimento?, p. 39. 39
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    62. Certamente háum sistema de valores subjacente, ancorado no consumo e na competição, acirrando as individualidades e di icul- tando a convergência para um ponto em comum. Por isso, o que, ao inal das contas, deve ser re letido e colocado em questão é o próprio paradigma civilizacional que caracteriza o Ocidente e as opções éticas que norteiam as pessoas dentro deste contexto. En- tretanto, da magnitude da crise ecológica, que coloca as condições de vida em grave perigo, exigindo mudanças o mais rápido possível em nossa arquitetura civilizacional e postura ética, descortina-se um horizonte para que, desta crise, irrompa uma nova proposta de organização da vida em nível pessoal e social, pautada na in- clusão. Ela requer a solidariedade entre todas as pessoas, e deve estender-se ao próprio planeta, que não pode mais ser visto como mero fornecedor de matéria-prima para as nossas necessidades e caprichos; o planeta também tem suas próprias necessidades. Eis portanto, a oportunidade para que a humanidade se reestruture criativamente e caminhe por uma via menos ambiciosa e destruti- va, mais inclusiva, harmoniosa e saudável. 4. A vida e suas dores no contexto do aquecimento global 4.1. Biodiversidade ameaçada 63. Biodiversidade21 é um termo recente que procura abarcar e de inir a diversidade biológica em todas as suas formas: ecossis- temas, espécies e genes. A biodiversidade que conhecemos foi se constituindo ao longo de mais de três bilhões de anos e estima-se que chegue a cerca de 10 milhões de espécies na Terra, das quais apenas um décimo é conhecido. A biodiversidade é de suma im- portância, pois, “salvaguarda uma série de processos vitais para o 21 O termo é de autoria de Edward O. Wilson. Trata-se da palavra do ano 2010, consa- grado como o Ano Internacional da Biodiversidade. Em outubro deste ano, realizou-se na cidade japonesa de Nagoya a 10ª Conferência da Diversidade Biológica (COP – 10), visando avaliar metas e estabelecer novas entre os países signatários, como o Brasil. 40
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    planeta e ahumanidade, os chamados serviços ambientais. Esses serviços são diversos, e sem eles a vida, como a conhecemos, ica se- riamente comprometida. A título de exemplo, alguns serviços am- bientais que têm a biodiversidade como fundamento são: a) equi- líbrio do clima; b) qualidade e quantidade de água; e c) produção de alimentos”.22 Portanto, a perda da diversidade implica em mu- danças climáticas, e o des lorestamento é considerado o segundo fator em importância na re lexão acerca das possíveis causas das mudanças que afetam o clima. 64. Entretanto, a biodiversidade encontra-se seriamente ameaça- da. Mesmo sendo di ícil precisar a taxa de extinção, estima-se que esteja cem vezes mais alta que a do passado geológico. Esta perda se caracteriza por ser irreversível, sobretudo se em larga escala. A extinção atual se deve a alguns fatores: o impacto das mudan- ças climáticas, con inamento das espécies em faixas limitadas de onde não podem escapar, destruição das lorestas tropicais e dos recifes de corais, onda de espécies invasoras, pesca marítima pre- datória. A continuidade destas situações pode signi icar a perda, em pouco tempo, da metade da diversidade atualmente existente e seria um desastre de proporção inestimável. Ao passo que, para evitar este desastre, seria su iciente o investimento de 0,1% do PIB mundial, ou 50 bilhões de dólares, para a preservação dos 34 hot spots,23 que, somados, resultam numa área que representa só 2,3% da super ície do planeta, e abrigaria 50% de todas as espécies co- nhecidas de plantas vasculares e de 42% dos mamíferos, pássaros, répteis e an íbios. 65. No contexto atual, em que são mais expostos os problemas do meio ambiente, a sensibilidade da mídia e de grande parte das pes- soas tende a ser fragmentada, isto é, se volta para esta ou aquela 22 SCARANO R. F., GASCON C., MITTERMEIER A. R., O que é biodiversidade? In SCIENTIFIC AMERICAN, nº 39 (Edição especial) 2010, p. 8. 23 Os hotspots, ou “pontos quentes” de biodiversidade são 34 áreas no planeta que se ca- racterizam por combinar altas taxas de perda de habitats com elevada diversidade de espécies e grande taxa de endemismo. No Brasil, Mata Atlântica, e Cerrado se encaixam nesta categoria. Cf. Idem. 41
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    loresta, para esteou aquele animal, sobretudo se em perigo de extinção. No entanto, é condição, para salvaguardarmos o planeta de um aquecimento global destrutivo, a preservação da biodiver- sidade como um todo. Uma loresta natural não cresce sem a ação de outros seres que ali constituem um complexo vital sustentável, o que inclui até os micro-organismos.24 4.2. O escândalo da miséria e o aquecimento global 66. A população mundial ultrapassa os 6,5 bilhões de pessoas, o que representa grande pressão por alimentos. Felizmente, a humanida- de se encontra em condições de suprir toda esta demanda. No en- tanto, segundo dados mais recentes de organismos da ONU, cerca de um bilhão de pessoas ainda sofrem com a fome.25 Trata-se de uma grave contradição, uma vez que esta situação de fome acontece num tempo de farta produção de gêneros alimentícios. Mas esta injusti- ça também gera pressões sobre a integridade do meio ambiente, da fauna e lora, únicos recursos para as pessoas nestas condições. A Cúpula do Milênio, realizada em New York no ano de 2000, traçou como meta a erradicação da fome e da miséria, mas o fato persiste e tende a se agravar com o aquecimento global e as mudanças climá- ticas. Dessa forma, o sofrimento desses que são os mais atingidos pelas mudanças climáticas tende a apresentar piora. 67. Em meio à problemática do meio ambiente, é oportuno chamar a atenção para a questão da fome no mundo, que corre o risco de icar na sombra da abordagem sobre o crescimento populacional. Muitas pessoas e mesmo organismos internacionais tendem a taxar este crescimento como agravante dos problemas ambientais, pois 24 É também denominada de “matéria escura” da biodiversidade, constituindo-se em um enorme vazio no mapa da biologia, é composta por bactérias. Existem em torno de dez bilhões delas em um único grama de terra, representada por 5.000 a 6.000 espécies. Cf. Edward O. Wilson, O estado da biodiversidade Global. In Fazendo as pazes com a Terra, p. 103. 25 STERN, Nicholas. Sinais do Tempos, in Folha de São Paulo, 03-11-2008, p. 18. 42
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    exige mais terrase água para a produção de alimentos. Diante des- se fato, alguns organismos chegam a propor a nível internacional, programas de redução das taxas de crescimento populacional. Por isso é bom rea irmar que, “a fome não é uma questão de disponibili- dade, mas de solvibilidade; trata-se de um problema de miséria”,26 pois “no mundo inteiro, existe alimentos para todos”. 68. A situação de miséria extrema tem grande impacto na biodi- versidade, pois a grande massa de pobres e as maiores riquezas em biodiversidade se encontram em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. Em geral, o único recurso com o qual podem contar na dramática luta pela sobrevivência advém da nature- za que têm à disposição. “Os pobres, principalmente os quase um bilhão que são completamente desprovidos, têm pouca chance de melhorar seu quinhão em um ambiente cada vez mais devastado. Inversamente, os ambientes naturais onde a maior parte da diversi- dade se encontra não podem sobreviver à pressão de pessoas ávidas por terra”.27 Nesse sentido, a preservação da biodiversidade, tão necessária neste contexto de aquecimento global, também passa pelo problema da pobreza e da fome. Esta situação nos remete à abordagem dos mecanismos de produção, apropriação e comercia- lização dos bens agropecuários, um tema que cada dia mais ganha relevância no contexto de crise ambiental. No Brasil, por exemplo, mais de 70% dos alimentos são produzidos pela agricultura fami- liar camponesa, e não pelo agronegócio. 4.3. O êxodo rural, êxodo da natureza 69. O fomento da vida urbana é um dos grandes traços da indus- trialização. Temos um exemplo bem recente na China, na cidade de Chongqing: até o início do processo de industrialização deste país, não passava de um vilarejo; acolheu, em média, entre 1998 26 PONTIFÍCIO CONSELHO “Cor Unum”. A fome no mundo. São Paulo: Paulinas, 1996, n. 19. 27 Michel LOREAU, Fazendo as pazes com a Terra, p. 105. 43
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    e 2004, 300mil pessoas por ano. “A maior parte dessa gente era de migrantes do interior que vieram em busca de emprego nas fá- bricas, ou como empregadas domésticas, trabalhadores braçais ou milhares de outros empregos que apresentavam a promessa de uma vida nova para eles e seus ilhos ”.28 A instalação desta maré humana inchou o espaço urbano: “a cidade propriamente dita tinha de se expandir, em tamanho, em pelo menos vinte quilômetros quadrados por ano a partir de 1998. Em 2004, com a aceleração da migração de áreas rurais, cerca de 25km2 de novas casas, fábricas, estradas, estradas de ferro, portos e outras infraestruturas urbanas tiveram de ser construídos”.29 70. Essas grandes concentrações humanas normalmente degra- dam o meio ambiente e tornam críticas as condições para a vida, especialmente quando o crescimento é repentino. As pessoas resi- dentes nestes grandes espaços urbanos, além de conviverem com uma atmosfera nada saudável, agora também têm convivido cada vez mais com as consequências das intensas chuvas: enchentes, deslizamentos, destruição de moradias. No entanto, estas situ- ações tornam-se mais dramáticas devido à ocupação de espaços sem nenhuma consideração ao meio ambiente. 4.4. A água 71. A Assembléia Geral da ONU, em vinte e oito de julho de 2010, com 122 votos a favor e 41 abstenções, aprovou uma resolução a irmando que a água e o saneamento básico são direitos huma- nos essenciais. E, ao mesmo tempo, pede aos governos e organis- mos internacionais que intensi iquem os esforços para sanar essas carências. A aprovação dessa medida, mesmo que de caráter não obrigatório, coloca em evidência, entre as problemáticas referen- tes aos recursos hídricos, esta questão que é primordial para 2/3 28 James KINGE. A China sacode o mundo. São Paulo: Globo, 2007, p. 48. 29 Idem. p. 48-49. 44
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    da humanidade. Segundoa Organização Mundial da Saúde, cerca de 13%, ou algo próximo a 900 milhões, vivem sem acesso a água potável, e 39%, ou aproximadamente 2,6 bilhões de pessoas, não dispõem de saneamento básico. Na América Latina, 85 milhões de pessoas não têm água potável e 115 milhões vivem sem saneamen- to básico. Esta situação é apontada como responsável direta pela morte de 1,5 milhão de crianças com menos de cinco anos de ida- de, vitimadas por diarréia.30 72. A aprovação desta resolução é signi icativa, pois, neste contexto de aquecimento global e de mudanças climáticas, a tendência é que os debates relativos à problemática da água, sejam monopolizados por uma eventual crise de oferta de água potável num futuro pró- ximo. No entanto, não é admissível que previsões alarmistas como esta, acenando inclusive para eventuais guerras por este produto, deixem em segundo plano um problema como o exposto acima, que aponta para as inalidades genuínas da gestão dos bens hídricos: a mitigação da pobreza e a redistribuição de renda. Além disso, é indispensável a revisão dos usos da água doce e dos desperdícios, colocando no centro o direito humano e de todos os animais e da própria Terra. E tudo isso tendo presente que os especialistas têm se mostrado competentes em analisar com precisão situações pas- sadas e atuais, mas ainda não estão em condições de avaliar com o mesmo rigor os possíveis desdobramentos futuros, tendendo a previsões de carestia de água potável.31 4.4.1. As águas oceânicas 73. Os Oceanos são itens da maior importância na temática das águas. As costas litorâneas abrigam, em nossos dias, quase dois terços da população mundial, e estima-se que, até 2030 chegue a três quartos. Além disso, os oceanos governam o clima e as 30 Disponível em http://www.portugues.r i.fr/ciencias/20100322-dia-mundial-da-agua- 884-milhoes-vivem-sem-agua-potavel. Acesso em: 06 agosto 2010. 31 Asit K. BISWAS. Quo Vadis, mundo da água?. In Fazendo as pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta?, UNESCO, São Paulo: Paulus, 2010. p. 53. 45
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    condições meteorológicas, medianteas distribuições planetárias de calor e água doce. No entanto, passam por mudanças tão rápi- das e abrangentes que põem em risco as áreas costeiras e a própria humanidade, pois alguns eventos ísicos como tsunamis, furacões, tempestades tropicais, proliferação de algas, derramamento de óleo e eutro ização,32 são altamente destrutivos.33 74. O conhecimento da humanidade sobre os Oceanos ainda é preli- minar, mas é certo que a biodiversidade do fundo dos mares é com- patível com as encontradas em lorestas primárias e tropicais. Acon- tece que também esta biodiversidade está sofrendo com o aumento das emisões de dióxido de carbono (CO₂), pois os Oceanos absorvem um terço destes gases emitidos pelas atividades do ser humano. Mas com o aumento da temperatura pode ocorrer um desequilíbrio na cadeia alimentar desta biodiversidade. Nesta condição os ictoplanc- tons não se reproduzem na mesma quantidade e, como eles se cons- tituem em alimento para os zooplanctons, que alimentam os peixes e provável que se acentue a diminuição destes últimos. Praticamente 40% dos recursos pesqueiros marinhos do Atlântico se encontram superexplorados e outros 30% totalmente explorados. Outro pro- blema é o aumento de poluentes como esgoto, lixos, toxinas carrega- das via atmosfera, envenena os oceanos diariamente. 75. As águas oceânicas passam por um processo de acidi icação, no qual a água do oceano torna-se corrosiva, como resultado da absorção do dióxido de carbono (CO₂), presente na atmosfera. A mudança na química da água afeta a vida marinha particularmente organismos com estruturas de carbonatos de cálcio, como corais, moluscos, mexilhões e pequenas criaturas dos estágios iniciais da 32 É um fenômeno que re lete a oferta em excesso de nutrientes a uma determinada massa de águas. Resulta no aumento de algas que em excesso, colorem as águas de um tom esverdeado. Mas quando começam a morrer, empobrecem estas mesmas de oxigênio provocando a morte de peixes e outros animais, originando um cheiro desa- gradável. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eutro iza%C3%A7%C3%A3o. Acesso em: 02 agosto 2010. 33 Cf. Jérôme BINDÉ. O que o futuro reserva para os oceanos? In Fazendo as pazes com a Terra, p. 107-108 46
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    cadeia alimentar. Emconsequência, diminui a absorção de dióxido de carbono (CO₂) pelas águas e seres vivos oceânicos34. 76. As águas oceânicas também in luenciam decisivamente na for- mação do clima, pois exercem as funções de reservatório e trans- portador de calor no sistema planetário. Assim, a relação entre águas oceânicas e atmosfera se encontra naturalmente nas varia- ções climáticas anuais, em fenômenos já bem conhecidos como o El Niño, com interferências na regulação das chuvas e até tem- pestades. E, se as previsões de aumento da temperatura se con ir- marem, até o inal do século o Ártico pode icar sem gelo, e, neste caso, as previsões falam de aumento considerável do nível do mar, o que certamente provocaria grandes transtornos às populações costeiras.35 5. A comunidade mundial e as mudanças climáticas 77. É evidente que a comunidade mundial tem se preocupado com a questão do meio ambiente. Diversos esforços são envidados por órgãos o iciais e por entidades da sociedade civil organizada, por igrejas, tanto na re lexão como na ação, seja de ordem educativa, intervencionista ou contestatória. A ONU promove e coordena atividades importantes neste sentido, desde a década de setenta. Apresentamos em linhas gerais este histórico. 78. Em 1972, aconteceu o primeiro encontro internacional que tra- tou sobre a relação entre o desenvolvimento e o meio ambiente, e icou conhecido como Conferência de Estocolmo. A Conferência foi tensa, polarizada entre “crescimento zero” e “crescimento a qual- quer custo” e, para sua superação, foi proposta uma abordagem 34 http://portalbrasilambiental.blogspot.com/2008/05/aquecimento-global-e-acidi i- cao-dos.html. Acesso em 15 setembro 2010. 35 O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da ONU, previu em um relatório de 2007 que o aumento máximo do nível do mar icaria em torno dos 59 centímetros, até o inal do século com o derretimento de geleiras. http:// www.melodiaweb.com/Sessao.aspx?cod=592. Acesso em 15 setembro 2010. 47
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    ecodesenvolvimentista, segundo aqual o processo de desenvolvi- mento exige equacionar e iciência econômica, equidade social e equilíbrio ecológico, tendo, como centro das relações, o ambiente e o ser humano. A proposta de Estocolmo, com 23 artigos, aponta a pobreza como causadora da degradação ambiental, apoia o cres- cimento com equilíbrio e mostra preocupação com o crescimento populacional.36 79. O passo seguinte icou conhecido como Protocolo de Montreal, concluído em 16 de setembro de 1987. A questão central versou sobre substâncias que empobrecem a camada de ozônio. Foi pro- posto um tratado internacional sobre o tema: “os países signatários se comprometem a substituir as substâncias que se demonstrou es- tarem reagindo com o ozônio (O3) na parte superior da estratosfera (conhecida como ozonosfera). O tratado esteve aberto para adesões a partir de 16 de Setembro de 1987 e entrou em vigor em 1º de Ja- neiro de 1989. Ele teve adesão de 150 países e foi revisado em 1990, 1992, 1995, 1997 e 1999. Devido à essa grande adesão mundial, Ko i Annan disse sobre ele: ‘Talvez seja o mais bem sucedido acordo inter- nacional de todos os tempos…”.37 80. Esse processo teve continuidade com a Eco 92, realizada entre 3 e 14 de junho de 1992 no Rio de Janeiro, com o objetivo principal de: “buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra”. “A Confe- rência do Rio consagrou o conceito de desenvolvimento sustentável e contribuiu para a mais ampla conscientização de que os danos ao meio ambiente eram majoritariamente de responsabilidade dos paí- ses desenvolvidos. Reconheceu, ao mesmo tempo, a necessidade de os países em desenvolvimento receberem apoio inanceiro e tecnológi- co para avançarem na direção do desenvolvimento sustentável. Na- quele momento, a posição dos países em desenvolvimento tornou-se 36 Cf. Disponível em http://amaliagodoy.blogspot.com/2007/09/desenvolvimento-sus- tentvel-evoluo_16.html. Acesso em: 10 março 2010. 37 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Protocolo_de_Montreal. Acesso em: 10 março 2010. 48
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    mais bem estruturadae o ambiente político internacional favoreceu a aceitação pelos países desenvolvidos de princípios como o das res- ponsabilidades comuns, mas diferenciadas. A mudança de percepção com relação à complexidade do tema deu-se de forma muito clara nas negociações diplomáticas, apesar de seu impacto ter sido menor do ponto de vista da opinião pública”.38 81. O Protocolo de Kyoto, realizado nesta cidade japonesa em 1997, procurou discutir providências para se controlar o aquecimento global: “O documento estabelece a redução das emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases do efeito estufa, nos países indus- trializados. Os signatários se comprometeriam a reduzir a emissão de poluentes em 5,2% em relação aos níveis de 1990. A redução se- ria feita em cotas diferenciadas de até 8%, entre 2008 e 2012. Para entrar em vigor, porém, o documento precisa ser rati icado por pelo menos 55 países. Entre esses, devem constar aqueles que, juntos, pro- duziam 55% do gás carbônico lançado na atmosfera em 1990”.39 No entanto, Estados Unidos, Canadá e Austrália não assinaram este Protocolo, não se comprometendo com suas metas, sob a alegação de que o documento estaria exigindo redução de emissões somen- te aos países mais ricos, ao passo que nações em desenvolvimento como Brasil, Índia e China, que também são grandes emissores de gases poluentes, permaneceriam desobrigados.40 82. O passo seguinte foi a Rio 10+, que aconteceu entre 26 de agos- to e 4 de setembro na África do Sul e avaliou o progresso feito na questão ambiental durante a década transcorrida desde a Eco-92. Em 1997, durante uma sessão especial da Assembleia Geral das Nações Unidas (chamada de “Rio +5”), percebeu-se que existiam diversas lacunas nos resultados da “Agenda 21”. A assembleia detectou a necessidade de rati icação e implementação mais 38 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/ECO-92. Acesso em: 10 março 2010. 39 Disponível em http://www.gaia-movement.org/Article.asp?TxtID=294&SubMenuItem ID=136&MenuItemID=55. Acesso em: 10 março 2010. 40 Cf. Disponível em http://www.brazuca.info/protocolo-de-Kyoto.php. Acesso em: 14 junho 2010. 49
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    e iciente dasconvenções e acordos internacionais referentes a am- biente e desenvolvimento. Assim, em 2000, a Comissão de Desen- volvimento Sustentável da ONU sugeriu a realização de uma nova cúpula mundial. Entre os principais temas tratados, estão a erradi- cação da pobreza, a mudança dos padrões de produção, consumo e manejo de recursos naturais e o desenvolvimento sustentável.41 83. Entre os dias 3 e 14 de dezembro de 2007, aconteceu em Bali, na Indonésia, a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, cúpula internacional, formada por representantes de 190 países “(...). Os representantes desses países discutem as bases das negociações, a serem desenvolvidas entre 2008 e 2009, para o es- tabelecimento de um novo acordo que substitua o Protocolo de Kyoto, quando chega ao im a primeira fase do tratado em 2012. Possíveis compromissos irmados em Bali vão de inir nos próximos anos polí- ticas que apro ximem as posições defendidas por cerca de 200 países com economias muito diferentes e que sofrerão de formas muito dife- rentes as consequências do aquecimento global do planeta”.42 84. De 1 a 12 de junho de 2009, aconteceu um encontro em Bonn, Alemanha, contando com a presença de delegados de 183 países para debater os principais textos de negociação de temas rela- cionados às alterações climáticas:“Estes serviram de base para o acordo internacional sobre mudanças climáticas em Copenhague. Na conclusão do Grupo Ad hoc do Protocolo de Kyoto, o grupo de negociação ainda estava longe do alcance de redução de emissões que foi estabelecido pela ciência para evitar as piores devastações das alterações climáticas: um sinal de 25% a menos na redução de 40% abaixo dos níveis de 1990 até 2020. A AWG-KP ainda precisa decidir sobre a meta global de redu ção de emissões para os países industrializados, juntamente com metas individuais para cada país. Registraram-se progressos na obtenção de esclarecimentos sobre as 41 Cf. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2002/riomais10/o_ que_e.shtml. Acesso em: 10 maio 2010. 42 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_das_ Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_sobre_as_Mudan%C3%A7as_Clim%C3%A1ticas_ de_2007. Acesso em: 10 março 2010. 50
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    questões de interessepara as partes, inclusive, essas preocupações no projeto de atualização do texto de negociação. A primeira parte da Sétima Sessão do AWG-LCA foi realizada em Bangkok, na Tailândia, a partir de segunda-feira, 28 de setembro, no Centro de Conferên- cias das Nações Unidas, Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pací ico. De 2 a 6 de Dezembro de 2009, realizou-se em Barcelona a última ronda de negociações antes da conferência de Dezembro. Parte das negociações foram boicotadas pelas nações africanas, que exigiam que a redução das emissões de dióxido de carbono para os países industrializados seja de 40”.43 85. Por im, temos a Conferência das Nações Unidas sobre as Mu- danças Climáticas de 2009, também chamada Conferência de Co- penhague, que foi realizada entre os dias 7 e 18 de dezembro de 2009, em Copenhague:“Foi organizada pelas Nações Unidas, e reu- niu os líderes mundiais para discutir como reagir às mudanças cli- máticas (aquecimento global). Foi considerada pela imprensa mun- dial como uma conferência um tanto polêmica e que não atingiu os planos de discussão almejados”.44 86. Essa série de encontros para discutir as mudanças climáticas revela que o diagnóstico sobre o futuro do planeta não é dos me- lhores, mas a falta de consenso nas mesmas revela a di iculdade política de se chegar a um acordo. Entre as nações signatárias da ONU, há um impasse entre nações desenvolvidas e ricas, e as em desenvolvimento e subdesenvolvidas, especialmente no tocante ao pagamento da conta para recuperar e preservar o meio ambiente. Os países ricos querem um rateio por igual, o que é rechassado pelas nações em desenvolvimento e demais, por entenderem que esta situação foi criada pela industrialização da qual gozam os paí- ses ricos há praticamente dois séculos. Por im, a grande di iculda- de se encontra no paradigma que vem norteando estes tratados e discussões: o modelo liberal desenvolvimentista, propositor de um 43 Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Confer%C3%AAncia_das_ Na%C3%A7%C3%B5es_Unidas_sobre_as_Mudan%C3%A7as_Clim%C3%A1ticas_ de_2009. Acesso em: 10 março 2010. 44 Cf. Ibidem. 51
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    desenvolvimento linear, contínuo,de di ícil adequação, senão in- compatível, com a sustentabilidade do planeta; ele gera o impasse, mesmo com a crescente tomada de consciência de que urge passar para o paradigma da sustentabilidade. 6. As Igrejas e as Religiões, o que dizem a respeito disso? 87. As Igrejas vem se pronunciando com frequência sobre as ame- aças ao ao meio-ambiente. Esses pronunciamentos demonstram que faz parte do comportamento de todos os cristãos o compro- misso pelo cuidado da criação. Uma das manifestações disso foi a Assembleia Ecumênica Mundial, realizada em Seoul (Coreia) de 05 a 12 de março de 1990, com o tema Rumo à solidariedade da alian- ça pela justiça, a paz e a proteção da criação. A inalidade da Assem- bleia foi traçar projetos para uma ação ecumênica que possibilite superar os problemas causados pela injustiça, pela violência e pela degradação do meio-ambiente. A irmaram os participantes da As- sembleia que “cada vida é sagrada porque a criação é de Deus e a bondade de Deus a permeia completamente. Atualmente, cada forma de vida no mundo ... está em perigo, porque a humanidade não foi capaz de amar a vida da terra; em particular, os ricos e os poderosos a roubaram como se essa tivesse sido criada para ins egoístas. A amplitude da devastação pode ser irreversível e, por- tanto, nos impele a agir com urgência”. 88. Assim, a Assembleia concluiu três atos: 1) uma a irmação: o mundo, enquanto obra de Deus, possui uma integridade intrínse- ca, pois tudo é “bom” aos olhos de Deus: a terra, a água, o ar, as lo- restas, as montanhas e todas as criaturas, incluída a humanidade. 2) Por isso, é preciso opor resistência à pretensão de utilizar sem critérios cada elemento da criação. Essa resistência diz respeito às atitudes que extinguem espécies, ao consumismo, à produção de fatores químicos que poluem a natureza. 3) Consequentemente, é preciso assumir o compromisso de ser membro da comunidade vivente da criação, colaborando com o projeto divino para que se realize e se consolide a sua vontade em todas as criaturas. 52
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    89. Na Assembleiade Seoul as Igrejas convidam também as religi- ões para integrarem-se nos esforços pela justiça, paz e integridade da criação, entendendo que esses valores estão no coração de cada credo religioso. 7. Algumas considerações sobre a temática do meio ambiente nos documentos da Igreja 90. Na ocasião em que foi realizado o Concílio Ecumênico Vaticano II, as questões ambientais ainda não estavam sendo discutidas como nos dias de hoje. Não obstante, podemos perceber algumas alusões à te- mática na Gaudium et Spes. Esse documento lembra que o ser huma- no foi criado à imagem de Deus, constituído Senhor de todas as coisas terrenas, para que as dominasse e usasse, glori icando a Deus e ainda: “Deus destinou a terra, com tudo que ela contém, para o uso de todas os homens e povos, de tal modo que os bens criados devem bastar a todos, com equidade, sob a regra da justiça, inseparável da carida- de” (GS 69). Vemos também demonstrar preocupação com o ritmo do consumo e as provisões de bens para as gerações futuras (GS 70). 91. Os escritos de Paulo VI demonstram a sua preocupação com este tema. Diz em Mensagem enviada ao Secretário Geral da ONU, por oca- sião da histórica Conferência sobre o meio ambiente realizada em Es- tocolmo que o homem deve: “respeitar as leis que regulam o impulso vital e a capacidade de regeneração da natureza; ambos, portanto, são solidários e compartilham um futuro temporal comum”.45 Também demonstrava uma preocupação com a técnica, pela qual o homem já havia se tornado uma ameaça para si mesmo. Na Carta Apostólica Oc- togésima Adveniens, volta a esta temática dizendo que “por motivo de uma exploração inconsiderada da natureza, começa a correr risco de a destruir e de vir a ser, também ele, vítima dessa degradação... que o 45 Cf. L. GARMUS, Ecologia nos documentos da Igreja Católica, in REB, Fasc, 276, Outubro, 2009, p. 863. 53
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    homem não conseguedominar, criando assim, para o dia de amanhã, um ambiente global, que poderá tornar-se insuportável”46. 92. O Papa João Paulo II, sempre muito sensível às problemáticas da humanidade, não deixou de pronunciar-se sobre a questão. Na Carta Encíclica Sollicituto Rei Socialis podemos ler: “Entre os sinais positi- vos do presente é preciso registrar, ainda, uma maior consciência dos limites dos recursos disponíveis, a necessidade de respeitar a integri- dade e os ritmos da natureza e de tê-los em conta na programação do desenvolvimento, em vez de sacri icá-los a certas concessões demagó- gicas. É a inal, aquilo que se chama hoje de preocupação ecológica”47. Na homilia pronunciada em Punta Arenas, João Paulo II relaciona a paz entre os homens com a paz na natureza. Na sua Mensagem para a 23ª Jornada Mundial pela Paz, o Papa novamente relaciona a paz com Deus Criador e a paz com a criação e a irma que se o homem não está em paz com o Criador, toda a criação sofre e cita a crise ecológica como uma crise moral.48 Na Centesimus Annus, fala de ecologia huma- na e ecologia social, relacionando a questão ambiental com a demo- gra ia, sem admitir que se argumente em prol de campanhas contra a natalidade sob o argumento do grande crescimento populacional. O mesmo em relação à questão da fome, que diz categoricamente se tratar de uma injustiça e não resultante de questões demográ icas.49 Dessa forma, na Exortação Pós-Sinodal de 2003, João Paulo II, diz: “Há necessidade de conversão ecológica, para a qual os Bispos hão de dar a sua contribuição ensinando a correta relação do homem com a natureza”.50 93. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, iniciou-se com um belo discurso do Papa Bento XVI, em que aborda a questão: “com muita frequência se subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversi- 46 Cf. Idem, p. 865. 47 Sollicitudo Rei Socialis. Carta Encíclica de João Paulo II, n. 26. 48 Cf. L. GARMUS, p. 868-869. 49 PONTIFÍCIO CONSELHO “Cor Unum”. A fome no mundo, n. 19. 50 Cf. L. GARMUS, p. 873. 54
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    dade, com oesgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática. As possi- bilidades e eventuais problemas da produção de agro-combustíveis devem ser estudados, de tal maneira que prevaleça o valor da pessoa humana e de suas necessidades de sobrevivência. A América Latina possui os aquíferos mais abundantes do planeta, junto com grandes extensões de território selvagem, que são os pulmões da humanida- de. Assim, se dão gratuitamente ao mundo serviços ambientais que são reconhecidos economicamente. O estilo de vida dos países desen- volvidos seria o principal causador do aquecimento global”51 . Assim, temos a irmações claras sobre o tema nas conclusões de Aparecida que entende as questões ecológicas como um dos novos aerópagos da evangelização. 52 8. Sustentabilidade, novo paradigma civilizacional 94. O conceito de desenvolvimento sustentável começou a ser deli- neado na década de sessenta, ao se introduzirem para a análise do desenvolvimento das nações, aspectos como a saúde, a educação, o trabalho, além do PIB. Esta metodologia pode detectar melhor a equidade ou a disparidade social existente em uma sociedade. A ONU utilizou este procedimento pela primeira vez na Conferência de Estocolmo, em 1972, ao chamar a atenção das nações ao fato de praticarem uma economia que degradava a natureza e colocava em perigo o bem estar e a própria sobrevivência da espécie humana. 95. Mas é interessante notar a existência de uma di iculdade no conceito de desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento, normalmente, é associado a melhorias que implicam mudança e crescimento econômico contínuo. Com este espírito desenvolvi- mentista, os sistemas produtivos criaram uma civilização que não soube harmonizar-se com a natureza, apenas explorá-la. O termo 51 Cf. L. GARMUS, p 881. 52 CELAM, Documento de Aparecida, n. 491. 55
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    sustentabilidade é imbuídoda percepção contemporânea das pro- blemáticas atuais da vida em sua amplitude. Portanto, a união dos dois termos parece um tanto quanto contraditória. Para melhor ex- pressar a noção do que se deseja do ponto de vista civilizacional, no contexto de aquecimento global e mudanças climáticas, o termo sustentabilidade é o mais indicado, pois aponta para um outro pa- radigma civilizacional. 96. A noção de sustentabilidade pretende harmonizar três verten- tes: economia, meio ambiente e bem estar social. Pretende prestar- se como indicadora de um “tipo de desenvolvimento que nos permite viver nos limites suportáveis para a Terra, que são a disponibilidade de recursos naturais e os limites de absorção de resíduos e poluição, mas também o tipo de desenvolvimento que torne possível a redução da pobreza”.53 Desta forma, em primeiro lugar, está a preocupação em garantir a disponibilidade de recursos naturais, renováveis e não renováveis, pois a continuidade do atual consumo trará serios pro- blemas de disponibilidade destes recursos, como já alertava Dennis Meadows em 1972. Em segundo, aponta para o grande desa io de não se ultrapassar os limites de absorção da biosfera em relação aos gases de efeito estufa e outros resíduos poluentes, gerados pela pro- dução e pelo consumo. Esse problema já havia sido apontado pelo PNUMA em 1982 como a principal causa dos problemas ambientais emergentes, ao lado do aquecimento global e da destruição da ca- mada de ozônio. E o terceiro desa io, a erradicação da pobreza, foi alertado pelo terceiro relatório do chamado Clube de Roma, que não recebeu muita atenção. A percepção é a de que não adianta somente cuidar do meio ambiente e deixar de lado questões sociais como a situação de pobreza e miséria de uma boa parcela da humanidade. 97. Para se alcançar a sustentabilidade, requer-se, de um lado, a di- minuição do consumo, sobretudo do excessivo e do supér luo, e, de outro, a redução das gritantes desigualdades que podem ser sinte- tizadas em dados como o do consumo de carne. Atualmente, 45% 53 Harold Mattos de LEMOS. Seremos capazes de reduzir o consumo supér luo? In Fazendo as pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 141. 56
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    da produção decarne e peixe, principais fontes de proteina ani- mal, são consumidos por 20% da população do planeta, enquanto somente 5% do que se produz deste gênero de alimento é desti- nado aos 20% mais pobres. O atual sistema econômico neoliberal globalizado, que se rege pelas leis do merdado, é altamente con- centrador e gerador de disparidades, quer a nível internacional, quer no interior das sociedades. Este processo é resultante da busca pelo lucro, sem a preocupação com o ser humano ou com os problemas de ordem ambiental. Os governos se tornam reféns desta lógica do capital e procuram instigar sempre mais a ciranda produção/consumo, mesmo com todas as distorções internas do sistema, as quais acirram as já existentes nestas sociedades. 98. A sustentabilidade passa necessariamente por uma mudança de hábitos nos padrões de consumo, especialmente dos que gas- tam em demasia. Qualquer outra justi icativa signi ica desviar o foco real do problema, como a alusão à imensa população do pla- neta, que se aproxima dos 7 bilhões. Se a população do planeta se multiplicou por quatro no século passado, a atividade econômica cresceu dez vezes somente entre 1950 e 2000, e as sociedades, es- pecialmente a dos países ricos, consome na atualidade muito mais do que o planeta pode oferecer a médio e longo prazo. 99. Neste sentido, a proposta denominada “pegada ecológica”54 é uma ferramenta interessante para se constatar, de modo mensurá- vel, as disparidades, pois identi ica os excessos de pegada ou con- sumo. Por exemplo, “os EUA, que não têm uma qualidade de vida muito superior à da Itália, segundo se pode a irmar, usam duas vezes e meia mais pegada do que os italianos”.55 Este instrumento é inte- ressante, dado que chega a detectar uma grande disparidade exis- tente entre duas nações do grupo das desenvolvidas e ricas. E, sem essa metodologia, esse resultado seria praticamente inimaginável. 54 O termo pegada ecológica, de forma simpli icada, é uma espécie de conta matemática, em que se calcula o que uma nação efetivamente tem para extrair da natureza e gastar, sem comprometer a sustentabilidade da mesma. 55 Mathis WACKERNAGEL. Podemos reduzir nossa pegada ecológica? In Fazendo as pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 129. 57
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    100. O fatoé que os governos e as sociedades, sobretudo as que se encontram sob a lógica da gastança capitalista, precisam rever urgentemente seus conceitos e posturas desenvolvimentistas. O “excesso de pegada” em relação aos bens da natureza, hoje, está perto dos 30%, e o de icit anual que se acumulará até 2050 será de uma dívida ecológica de cerca de 35 anos-planeta de produção biológica de todo o globo terrestre, ou uma dívida impossível de ser “paga”.56 Eis mais um argumento chamando à sensatez para se eliminar os excessos de produção e consumo e busca de equidade no uso dos bens, dado que os números apontam para estas pro- blemáticas e não para a saturação habitacional do planeta. Neste sentido, Mahatma Gandhi pronunciou uma frase, cuja memória é oportuna: “o mundo tem recursos su icientes para atender às neces- sidades de todos, mas não a ambição de todos”.57 9. Da ética do egotismo à ética do cuidado 101. A publicação do 4º relatório do IPCC, em fevereiro de 2007, apesar de algumas vozes discordantes, contribuiu para a tomada de consciência de que o atual aquecimento global e as mudanças climáticas em curso, “não se trata de um desastre natural, foi cau- sado por homens”,58 ao desenvolverem um sistema econômico que agridea vida no e do planeta, e “já sacri icou muitas vidas, espécies e ecossistemas. O caminho tende à catrástrofe planetária e podemos ir ao encontro do destino dos dinossauros”.59 Dessa maneira, a atual crise ecológica coloca os propositores e mantenedores deste siste- ma em xeque. Trata-se de um sistema que exilou a ética da respon- 56 Cf. Mathis WACKERNAGEL. Podemos reduzir nossa pegada ecológica? In Fazendo as pa- zes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta? São Paulo: Paulus, 2010, p. 133. 57 In, Haroldo Mattos de LEMOS. op cit. p. 144. 58 Cf. Artigo de Nicholas Stern, Folha de São Paulo, 03-11-2008. Nicholas Stern publicou um extenso estudo sobre os efeitos na economia mundial das alterações climáticas nos próximos 50 anos, denominado relatório Stern. In Sinais dos Tempos, op cit. pp. 20. 59 BRUSTOLIN, L. A. e MACHADO, R. F., Um pacto pela Terra, a crise ecológica na agenda teológica. In Teocomunicação, v. 38, n° 160, maio/agosto. 2008. 58
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    sabilidade e docuidado do âmbito de várias dimensões da vida, e fez que a estruturação e justi icação de tudo que constitui o arca- bouço de civilização atual tenha com âncora o imperativo do lucro e coloque as ciências e a própria vida a seu serviço. 102. É absolutamente necessário desejar que o resgate da res- ponsabilidade ética motive e faça convergir ações de cunho social até de alcance planetário, visando o cuidado deste imenso ser vivo chamado planeta Terra. Felizmente, temos na história exemplos de momentos particularmente di íceis enfrentados com empenho criativo e solidário pela humanidade, avançando em direção a um futuro melhor. A opção pela vida é o grande referencial. Assim tem sido e esta opção precisa ser rea irmada, recolocando no centro da pauta da humanidade o cuidado com o mundo vital. 59
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    Segunda PARTE JULGAR Introdução 103. O aquecimento global e as mudanças climáticas já não se si- tuam somente em nível teórico, mas se constituem em realidades palpáveis. O processo de mudança climática em curso representa um grande perigo para a vida e, se não houver uma reação adequa- da de modo a contê-lo, as condições para a continuidade da vida no planeta vão se deteriorar profundamente. 104. A Igreja, em suas comunidades, que se espera propulsoras do Reino, precisa estar consciente da problemática para colaborar em vista das mudanças comportamentais e sistêmicas, necessárias e urgentes para evitarmos legar às futuras gerações, um planeta que não ofereça mais condições para abrigar a vida. A teologia, que não pode icar alheia a este processo em curso e que atenta contra a vida, também tem um papel a cumprir. 105. Diante disso, nesta segunda parte, vamos nos voltar para a Palavra de Deus e para a teologia, buscando inspiração para reali- zar uma leitura mais aprofundada sobre as causas desta problemá- tica. Ao mesmo tempo, queremos vislumbrar luzes que apontem caminhos a serem trilhados por todos nós no enfrentamento dessa questão com grande esperança e irmeza em prol da preservação do planeta. 106. A Bíblia não trata explicitamente de preservação ambiental porque tal tema não era percebido na época em que os textos fo- ram escritos. Mas, através destes livros sagrados, Deus nos chama a ter as atitudes justas para cuidarmos bem da vida, o que é tradu- zido pela Teologia, especialmente pela Teologia da criação, da qual 61
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    pinçaremos alguns apontamentos.Concluiremos com o exemplo concreto de alguém cujas atitudes para com a criação, são atualís- simas, não obstante a sua distância no tempo. Trata-se de São Fran- cisco de Assis, um santo que teve profunda sensibilidade em relação aos elementos criados, considerando-os todos como “irmãos”. 1. Apontamentos bíblicos sobre a preservação da natureza 1.1. O nosso Deus é o Deus da vida 107. A Bíblia inicia mostrando a vitória de Deus sobre o caos, orga- nizando o cosmos e revelando-se como doador da vida. Na primeira narração da criação (Gn 1-2,4a), o Deus criador vai gerando a vida na “semana da criação”. Deus dá à terra o poder de gerar frutos, ár- vores, sementes, ervas e verduras (Gn 1,12).O texto vai repetindo, a cada etapa: “E Deus viu que era bom”.Deus criou por meio de suas palavras todas as realidades, formando uma grande solidariedade cósmica, como vemos na narrativa dos cinco primeiros dias, na qual se integraram os animais selvagens, domésticos e pequenos do chão segundo suas espécies, e o ser humano, criados no sexto dia. E o texto diz “E Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn 1,31). 108. Podemos notar facilmente a harmonia entre os planos da re- alidade: o temporal expresso nos seis dias de trabalho e o espacial das realidades criadas nos seis dias, desde a primeira, a luz, até o ser humano de modo que é estabelecida uma unidade formada de coisas distintas que se entrelaçam. 109. Mas houve quem entendesse que o ser humano era dono absoluto do planeta porque o texto também diz: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a! Dominai sobre os peixes do mar, as aves de céu e todos os animais que se movem pelo chão” (Gn 1,28).No entanto, a leitura desta narrativa nos revela que o ser humano foi criado no sexto dia ao lado de outros animais como as feras dos bosques, animais domésticos e os répteis, os quais pare- cem superiores aos anteriormente criados (Gn 1,23-25). 62
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    110. A palavradominar vem do latim dominus, que signi ica “se- nhor”. Dominar signi ica exercer o senhorio sobre os demais, e este exercício do senhorio deve ser feito a partir do modelo de “Senhor” que é o próprio Deus. A narrativa da criação nos mostra como Deus exerce o senhorio em relação à natureza: ele a cria, ordena o seu crescimento e a sua evolução a im de que ela possa trilhar um caminho de perfeição, garante a sua continuidade, cuida dela e a abençoa. Assim, o exercício do senhorio, ou a dominação, por parte do ser humano deve signi icar respeito à ação criativa divina, contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas as suas dimensões, cuidado com o meio ambiente e fazer dele uma fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com ela e, a partir dela, harmonia interior, comunhão com as outras pessoas e caminho de conhecimento e estreitamento de relações com o próprio Criador. 111. Desse modo, o ser humano, vai condividir o mesmo espaço com estes animais que foram criados ao seu lado. No texto bíblico acima, podemos notar que os animais da terra ganham autonomia e são colocados sobre o mesmo espaço em que se encontram os se- res humanos. É evidente que há uma diferença fundamental entre seres os humanos e os animais, que é de ordem sobrenatural, pois os seres humanos foram criados à imagem e semelhança de Deus e receberam o seu sopro em suas narinas, mas enquanto seres na- turais, eles se encontram unidos em um equilíbrio dinâmico, o que não concede a eles o direito de se utilizar da natureza segundo seus caprichos de modo a causar destruição e colocá-la em perigo.60 112. Tendo em vista todos os problemas do meio ambiente, fru- to de um processo desmedido da utilização dos bens do plane- ta, é oportuna uma re lexão acerca do mandato “enchei a terra e submetei-a. Dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que se movem no chão” (Gn 1,28). Para este intento, é fundamental compreender o signi icado de alguns verbos como: submeter e dominar. 60 Cf. Xavier PIKAZA. Biblia y ecologia: re lexión introductoria sobre o Gn 1-8. In Sustentabi- lidade da vida e espiritualidade. (Soter) São Paulo: Paulinas, 2008, p. 05. 63
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    113. O verbosubmeter, em hebraico, kabash, no contexto da cultu- ra semita tem como foco principal a terra e o seu cultivo, e o verbo dominar é tradução do hebraico radah, que possui o sentido de cul- tivar, organizar e cuidar. Assim, não é concedida ao ser humano, a posse em termos de senhorio em relação aos outros seres criados, pois a consideração destes verbos indica precisamente atitudes de cultivo, zelo e cuidado, próprias de um pastor que conduz suas ovelhas protegendo-as dos iminentes perigos.61 O livro do Gênesis é claro quanto a isso ao a irmar que Deus colocou o ser humano no jardim para o cultivar e guardar (Gn 2,15). 1.2. O lugar do ser humano na criação 114. O salmista, logo após indagar sobre o que é o ser humano, a irma, “o izeste só um pouco menor que um deus, de glória e hon- ra o coroaste” (Sl 8,6). Dessa forma, indica que o ser humano foi criado de modo especialíssimo no reino da criação porque, mesmo sendo um ser integrante da natureza, a transcende, e essa trans- cendência, embora não tire do ser humano sua condição natural, traz outras implicações que dão sentido à natureza e gera respon- sabilidades em relação a ela. O primeiro relato da criação, no livro do Gênesis, expressa esta condição humana com a a irmação de que “Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou” (Gn 1,27). 115. Em um dos Documentos referenciais do Concílio Ecumênico Vaticano II, encontramos a seguinte interpretação dessa a irma- ção, “o homem foi criado à ‘imagem e semelhança de Deus’, capaz de conhecer e amar o seu criador, e por este constituído senhor de todas as criaturas terrenas, para as dominar e delas se servir, dando glória a Deus”.62 O documento conciliar entende que o homem se encontra no centro da criação, inclusive utiliza o verbo dominar 61 Ludovico GARMUS, Bíblia e Ecologia, Grande Sinal, maio/junho, 1992, Ano 46, n° 3, p. 278. 62 GS, n. 12. 64
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    para caracterizar assuas relações com os demais seres da nature- za. No entanto, o entende como um ser de relações, “Deus não criou o homem sozinho”, e “o homem por sua própria natureza, é um ser social”.63 e consequentemente, chamado à cooperação e à solidarie- dade para com seus irmãos e para e para com os seres da nature- za. Pois, o texto diz para dominar e se servir das criaturas, dando glória a Deus, o que não é compatível com a atitude de um déspota que utiliza os bens da natureza até o seu esgotamento, provocando somente morte em relação aos seres da natureza. Certamente, esta leitura pode ser realizada, mesmo que na época da realização do Concílio as preocupações ecológicas fossem apenas incipientes. 116. Visando esclarecer ainda o entendimento desta concessão para que o homem domine, dada a singularidade de seu ser, ima- gem de Deus, outro verbo desta narrativa merece ser mencionado e analisado, é mashal (governar, presidir), que aparece em Gn 1,16- 18. Este verbo é utilizado para descrever um domínio como o exer- cido pelos astros que receberam a incumbência de presidir sobre o dia e a noite, marcando o ritmo da vida. Assim sendo, o ser humano é responsável pela vida, bem estar e integridade daqueles que es- tão sob seu domínio. O homem e a mulher, criaturas do sexto dia, imagem e semelhança de Deus, têm responsabilidades: diante da natureza, do semelhante e diante do criador.64 De modo, que esta singularidade observada na criação do homem e da mulher quer dizer que foram chamados à vida, ao cuidado do que a ela se refere, e a trabalhar em prol da manutenção da obra do Criador. 117. As realizações humanas, assim como suas construções e até mesmo sua procriação, devem contribuir para que este objetivo seja atingido, e dar continuidade à obra de Deus. E tendo em vista esta responsabilidade conferida ao ser humano, é oportuno recolocar uma pergunta que o saudoso Papa João Paulo II inseriu em um de seus escritos, “Todas as conquistas alcançadas até agora, bem 63 Idem. 64 Ludovico GARMUS, Bíblia e Ecologia, Grande Sinal, maio/junho, 1992, Ano 46, n° 3, p. 280. 65
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    como as queestão projetadas pela técnica para o futuro, estão de acordo com o progresso moral e espiritual do homem?”.65 E suas preocupações ao estender seu olhar para aquele momento his- tórico, o fez continuar com suas indagações, “Crescem verdadei- ramente nos homens, entre os homens, o amor social, o respeito pelos direitos de outrem...ou, pelo contrário, crescem os egoísmos... a tendência para dominar os outros, para além dos próprios e le- gítimos direitos e méritos, e a tendência para desfrutar de todo o progresso material e técnico-produtivo exclusivamente para o im de predominar sobre os outros, ou em favor deste ou daquele outro imperialismo?”.66 Os problemas levantados por estas interroga- ções se encontram entre os motivos da atual crise ecológica que coloca em risco a vida no planeta. 1.3. A atualidade da advertência aos primeiros pais no paraíso (Gn 3,1-24) 118. Se por um lado, o progresso cientí ico e econômico, político e social da modernidade trouxe contribuições para o bem da huma- nidade, de outro introduziu muitas situações que atentam contra a vida em sua dimensão planetária. Pois, os detentores do poder quiseram comer da árvore do bem e do mal, utilizando de modo destrutivo dos bens do planeta, e chegamos ao ponto em que as condições para a vida se encontram seriamente ameaçadas, com o efeito estufa e as mudanças climáticas. 119. Nunca como hoje, os frutos desta árvore da vida se mostraram ao mesmo tempo mais fascinantes e mais ameaçadores. As amea- ças não vêm evidentemente das ciências e das tecnologias conside- radas em si mesmas. Essas podem se constituir em instrumentos preciosos para se desvendar e melhor usufruir das maravilhas da criação. As ameaças vêm das ideologias e do espírito de dominação que muitas vezes marcam certos segmentos do denominado meio 65 Redemptor Hominis, n. 15. 66 Idem. 66
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    cientí ico, eque pela mídia são assimiladas inclusive pelas multi- dões que absorvem este espírito através dos inúmeros meios de comunicação. A arrogância e a prepotência transparecem, antes de mais nada, em certas a irmações categóricas feitas em nome das ciências, mas que no fundo não passam de meras hipóteses, ou no máximo de teorias. Enquanto há poucas décadas se presenciava um movimento generalizado de dessacralização, hoje, em pleno sé- culo XXI, se percebe um movimento inverso. Em certos setores da sociedade, indo na contramão da história e do princípio básico da cienti icidade, a palavra “cientí ico” transformou-se numa espécie de ídolo diante do qual todos devem dobrar os joelhos. Enquanto o princípio da cienti icidade aponta para a provisoriedade de to- das as conquistas, o cienti icismo tende a absolutizar o que, por de inição, é relativo e provisório. E, uma vez mais na contramão da história, há grupos que se aproveitam de teorias pretensamente cientí icas para investir contra a vida e os que defendem sua invio- labilidade desde a concepção até a morte natural. 120. A par da arrogância que transparece no uso e abuso do ad- jetivo “cientí ico”, causa preocupação a maneira como são anun- ciadas as promessas de eventuais curas de certas doenças através do avanço das biotecnologias. O tom dessas promessas é tal que levanta sérias dúvidas sobre qual seria de fato o móvel de anún- cios sensacionalistas. Seria expressão de uma concepção reducio- nista e até certo ponto ingênua da complexidade dos mecanismos da vida, mormente da vida humana? Seria a tentação de ocupar destaque na mídia para garantir um lugar de honra no panteon outrora ocupado pelos deuses pagãos? Por trás de tantas promes- sas não se esconderiam interesses escusos, seja na linha de obter inanciamentos públicos para laboratórios privados, ou então até mesmo para usufruir de lucros oriundos da exploração de um povo sofredor? Por trás desta venda de ilusões não se esconderiam até segundas intenções de caráter mais político-ideológico, no sentido de distrair as atenções do povo das verdadeiras causas de seus so- frimentos imediatos e que se localizam nas estruturas econômicas e sociais que impedem uma grande maioria de se bene iciar dos bene ícios do progresso? 67
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    121. Assim, oapossar-se dos frutos da árvore da vida está signi- icando caminhos para o apossamento das pessoas e da natureza, sem avaliar as consequências deste ato e sem considerar uma justa hierarquia de valores que deve reger as relações das pessoas entre si, com a natureza e com o Criador. 122. Desse modo, este pecado do princípio, é um pecado atual, que permanece aberto e se atualiza, especialmente quando as pessoas se deixam conduzir pelo anseio e desejo de dominação e subjugação do outro, de modo violento, causando destruição e morte, como atu- almente no sistema estruturador de nossas sociedades. Este pecado diz que os homens e mulheres quiseram assumir prerrogativas divi- nas e pela força, dominar o mundo e subjugar os demais seres, em uma guerra social e ecológica que leva inevitavelmente à morte. 123. Quando o ser humano se comporta como Deus, fazendo o que deseja, sem respeitar os limites, ele ica só (constatam que es- tão nus), não se relaciona de modo justo e edi icante com Deus, pois precisa esconder-se dele, ou com seu semelhante, pois acusa a mulher de ser a responsável por seus erros, e nem com os se- res vivosda natureza, pois é expulso do paraíso. A desordem surge quando homem e mulher pretendem conhecer o bem e o mal com a intenção de se tornarem divinos (lembremo-nos das palavras da serpente à Eva: de modo algum morrereis, mas sereis como Deus [cf. Gn 3,5]), e assim, dirigir toda criação conforme suas leis e critérios, sem nenhum respeito pelas normas que presidem o justo e solidá- rio relacionamento humano com o universo. 124. Diante de nossas problemáticas com o meio ambiente, se faz oportuna a leitura em chave ecológica da denominada queda dos primeiros pais no paraíso (Gn 3,1-24). E podemos reconhecer no que Deus disse a Adão e Eva uma advertência com implicações eco- lógicas: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque, no dia em que dela comeres, com certeza morrerás” (Gn 2,17). A riqueza que os seres humanos têm à disposição se re- veste igualmente de um princípio de responsabilidade. 125. Esse enunciado bíblico indica ao homem e à mulher que po- dem usufruir dos bens do jardim, desde que mantenham a ordem, 68
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    que é decaráter superior e aponta para a justiça e a solidariedade, dentro da terra em vista da coletividade. A não observância desta advertência implica em morte, o que é atualíssimo. Comer da árvo- re não recomendada signi ica que as pessoas se fazem dominado- ras e instalam um sistema destruidor, e na condição de senhores e senhoras do bem e do mal, acabam destruindo tudo, inclusive a si mesmos e instalando um con lito no lugar de uma vida solidária. 1.4. O descanso e o sentido autêntico da criação 1.4.1. Consideração sobre o descanso no livro do Gênesis 126. Deus nos dá este mundo para que vivamos numa solida- riedade geradora de paz. “No sétimo dia, Deus concluiu toda obra que tinha feito; e no sétimo dia repousou de toda obra que izera” (Gn 2,2a). Este dia, o sétimo, se reveste de grande importância no contexto do primeiro relato da criação, pois nele, Deus “concluiu” a sua criação. Desta forma, é no dia chamado de sábado e através dele, que o homem e a mulher vão reconhecer a realidade na qual vivem, como também perceberem-se como criação de Deus. Este dia é chamado de sábado, do qual deriva uma doutrina, que tam- bém, ilumina a criação sobre o seu autêntico futuro, pois a abre para a presença da eternidade no tempo, e testemunha o mundo vindouro que está sendo engendrado no hoje. 127. A iloso ia moderna criou as bases para o desenvolvimento de uma visão mecanicista da natureza. Através do pensamento de Francis Bacon, desenvolveu o método indutivo que possibilitou a elaboração de princípios gerais das ciências através da associação de elementos particulares observáveis empiricamente. René Descartes trabalhou os conceitos de ideia clara e distinta, que ajudou na observação de fenômenos particulares. Depois estabeleceu a distinção entre a realidade material e a inteligível (res extensa e res cogitans), possi- bilitando uma mentalidade dualista, que fundamenta o materialis- mo como consequência da ruptura entre o material e o espiritual e, por im, desenvolveu o método racional. Galileu Galilei descobriu 69
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    a órbita dosplanetas, que fez com que ele concebesse o universo funcionando como um relógio. Tudo isso contribuiu para uma visão mecanicista do universo, que será desenvolvido até as últimas con- sequências por Isaac Newton. Nessa visão mecanicista do universo, não há espaço lógico para pensar o descanso da natureza ou para encontrar um lugar na vida humana para a contemplação. Mas não há nada mais estranho ao signi icado da criação do que o planeta ser entendido como uma espécie de máquina, como na modernidade. 128. Em nossos dias, há muito icou para segundo plano esta leitu- ra do descanso de Deus, no qual Ele abençoa e santi ica a sua obra criada. Damos muito mais valor e sentido à vida do ponto de vista do trabalho e da produção, enquanto que o descanso, a festa, a ale- gria em viver são desquali icadas como sem serventia e sem sentido. Não é possível entender a criação de modo mais aprofundado, sem perceber o sentido deste repouso. Para as tradições bíblicas estas realidades estão interligadas, pois o repouso é a festa da criação. É em vista desta festa que Deus criou o céu e a terra e tudo o que neles existem. Por isso, na história da criação, sucede-se a cada dia uma noite; o descanso de Deus, no entanto, não conhece noite alguma. 129. Então podemos nos interrogar: o que Deus acrescentou com o descanso às obras da Criação se já a havia concluído no sexto dia? O que ainda faltava para a criação, se já se encontrava acabada? A resposta é o próprio descanso, do qual emergem a bênção e a san- ti icação do sétimo dia, ou seja, Deus conclui a criação com a sua bênção.67 É do repouso de Deus que emergem a bênção e a santi ica- ção do sábado. A obra da criação tem sua conclusão com o descanso do Criador. O Deus que descansa no sétimo dia é o criador que des- cansa de toda obra que izera. No dia do repouso, o Criador também se recolhe novamente a si, o que não signi ica um retorno à existên- cia eterna anterior à criação do mundo e das pessoas, mas deixa de criar e, junto com a sua criação, descansa e a contempla.68 67 Cf. Jurgen MOLTMANN, Deus na Criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 396-397. 68 Cf. idem, p. 396-397. 70
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    130. Entretanto, como descanso, inicia-se a história de Deus com as suas criaturas, com o mundo e do mundo com Deus. Podemos dizer que Deus, não somente descansa de sua criação, mas que este descanso se dá em sua obra, que está diante dele e Ele presente ne- la.69 Resulta que no sétimo dia, Deus liga a sua presença eterna com a sua criação transitória, está com ela e nela. Assim, a conclusão da criação se realiza no e com o descanso. A criação se refere à obra de Deus, enquanto o repouso à sua existência presente.70 131. Pode-se a irmar que a criação revela Deus através de seus se- res, mas apenas o repouso é a autorrevelação de Deus. Por isso, as obras da criação desembocam no descanso. No sétimo dia, inicia-se o reino da glória, da esperança e do futuro de todas as criaturas, e o sábado humano, torna-se “sonho de plenitude”.71 dado que esse des- canso é indício e antecipação da eterna festa da glória divina. Para que isso seja possível, não podemos dissociar descanso de contem- plação do divino, de modo que o descanso aprofunda os relaciona- mentos entre Criador e criatura e torna-se caminho de santi icação e, por isso, o Decálogo exige a santi icação do descanso (cf. Ex 20,8). 132. O próprio Deus mostra o repouso como exigência para a vida humana e para a natureza quanto estabelece o ano sabático e o ano jubilar (cf. Lv 25,1-22), sendo que o descanso deve ser respeitado não apenas para o ser humano, mas também para toda a natureza. Sem descanso não pode haver nem sequer vida natural de qualidade. 1.4.2. O dia do descanso e a ressurreição de Cristo 133. Nós cristãos entendemos que o sentido original do dia festivo está na celebração da ressurreição de Jesus, fato primordial sobre o qual apoia a nossa fé,72 ocorrida no domingo. O domingo cristão deve ser visto como a expansão messiânica do sábado de Israel. 69 Cf. Jurgen MOLTMANN, Deus na Criação. Petrópolis: Vozes, 1993, p. 398. 70 Cf. Dies Domini, n. 61. 71 Cf. Franz ROSENZWEIG, In Jurgen Moltmann, op cit, p. 399. 72 Cf. Idem, p. 2. 71
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    O domingo, diafestivo cristão, entendido e vivido como o “dia do Senhor” não somente antecipa o descanso do inal dos tempos, mas indica o início da nova criação. 134. Segundo a concepção cristã, a nova criação começa com a ressurreição de Cristo.73 O jardim da ressurreição é o novo jardim do Éden, o lugar da recriação. O casal humano se reencontra num universo que não é o túmulo, mas o jardim, lugar da vida e não da morte.Se o sábado de Israel permite olhar em retrospectiva para as obras da criação de Deus e para o próprio trabalho das pessoas, a festa da ressurreição olha para frente, para o futuro da nova cria- ção. Se o sábado de Israel permite participar do descanso de Deus, a festa cristã da ressurreição permite participar da força que opera a recriação do mundo. Se o sábado de Israel é primordialmente um dia de re lexão e de agradecimento, a festa cristã da ressurreição é primordialmente um dia de início e de esperança. 135. Não é por acaso que o dia da festa da ressurreição é visto pela Igreja como o primeiro dia da semana. Se para Deus, o sábado da criação era o sétimo dia, para as pessoas que haviam sido criadas no sexto dia, o sábado era o primeiro dia que experimentavam. 136. O esquecimento do signi icado profundo do dia do des- canso também proporcionou a estruturação de um mundo sem celebração, de um tempo visto somente pela ótica da produção e do progresso, que gerou desequilíbrios e injustiças. E, dessa forma, prosperou um sistema de produção ancorada na e iciência, cresci- mento contínuo e na exclusão, com o capital assumindo a função de mantenedor da expansão e voltado para o lucro. Por isso, mesmo neste contexto de crise ambiental, nossa atenção não pode deixar de voltar-se para aqueles ‘descartados’ do sistema produtivo e que passam fome e outras necessidades. Este mundo sem o descanso de Deus, de sua presença, corre o risco de converter-se em fábricas que poluem e de homens e mulheres que atuam em um mercado de trabalho gerador mais de morte, que de vida propriamente. 73 Cf. Franz ROSENZWEIG, In Jurgen Moltmann, op cit, p. 25. 72
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    1.5. O cuidadocom a vida e suas fontes 137. Na Bíblia em geral, não encontramos um tratado especí ico sobre o meio ambiente, mas podemos encontrar algumas indica- ções preciosas, a partir das quais podemos perceber o respeito que o povo de Israel devia nutrir para com os seres da natureza. Nesse sentido, um dos mais importantes é o livro do Deuteronômio. Nele podemos observar algumas passagens com recomendações ex- pressas sobre o cuidado que as pessoas as quais se dirigia deviam nutrir para com os seres do meio ambiente. 138. É interessante observar que este livro em que se reuniu leis para vários âmbitos referentes à vida dos israelitas, prestou-se para a reorganização da sociedade israelita na metade do século VII a.C, numa fase posterior à dominação da Assíria e procura con- trapor-se aos valores e práticas deste povo imperialista da época,74 inclusive no cuidado para com a natureza. Abaixo seguem algumas destas recomendações: a) Dt 22,6-7 – nesta passagem, o texto diz explicitamente que se alguém encontrar no caminho, sobre uma árvore ou na terra, uma ave sobre um ninho, com ovos ou ilhotes, e tendo necessidade destes alimentos, poderá icar com os ilhotes, mas deverá poupar a ave (“livre deixarás a mãe”). Essa lei nos permite perceber a preocupação com a fonte da vida, com a continuidade do processo de reprodução para que a espécie não venha a se extinguir. A mentalidade imperialista dos assírios não demonstrava esta sensibili- dade, conforme é possível perceber na profecia de Isaías contra a Assíria, referindo-se a interferência devastadora da mesma em relação à dominação dos povos e ao saque de seus tesouros: “A minha mão, como em um ninho apa- nhou a riqueza dos povos... colhi a terra inteira: não houve ninguém que batesse as asas, ninguém que desse um pio” 74 Haroldo REIMER, In Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes, 2001, n° 39, p.[189] 37. 73
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    (Is 10,14). Trata-sede uma ação destrutiva, sem a preocu- pação com o ciclo da vida, com a integridade da criação. Em virtude de atitude semelhante, temos visto que a vida no planeta se encontra ameaçada. b) Dt 20,19-20 – No Deuteronômio, mesmo em um capítulo em que apresenta orientações para situações de batalha, não é esquecido o cuidado com a natureza. Nesse senti- do, é interessante a indicação para se poupar as árvores produtivas: “quando sitiares uma cidade... não destruas as árvores a golpes de machado; porque poderás comer dos frutos. Não derrubes as árvores. Ou as árvores do campo seriam porventura homens para fugirem de tua presença por ocasião do cerco?” (Dt 20,19). A permissão para o corte contempla ações contra o inimigo, mas somente em rela- ção às árvores não frutíferas, “as árvores que souberes não frutíferas, poderás destruí-las e derrubá-las para as obras do cerco contra a cidade inimiga” (Dt 20,20). Essas reco- mendações são um tanto quanto paradoxais, pois em ação contra uma determinada população, procurava-se poupar árvores que lhe forneciam alimentos para sobreviver. Ex- pressa a distinção básica entre uma árvore e o ser humano e apesar da beligerância do ser humano, deixa uma espe- rança para uma parte da criação.75 Mas por outro lado, re- freava o desmatamento do lugar, preocupação inexisten- te às potências imperialistas da época. E, neste sentido, esta preocupação demonstrada no texto é oportuna para o nosso contexto, dado que ainda se constata o prossegui- mento de uma das formas mais aviltantes de agressão ao meio ambiente, a devastação de lorestas. c) Dt 23,13-15 – nesta passagem, existe a indicação para se manter a limpeza do acampamento: “Fora do acampamento terás um lugar onde te possas retirar para as necessidades. 75 Haroldo REIMER, In Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana, n. 39. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 42 [194]. 74
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    Levarás no equipamentouma pá para fazeres uma fossa... Antes de voltar, cobrirás os escrementos.” (Dt 23,13-14). Aqui aparece a preocupação para com o saneamento em meio ao acampamento do povo, dado importante para as condições de vida daquelas pessoas. Em nossos dias o dé icit em saneamento básico é vergonhoso, atinge cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo. É bom nos atentar- mos também, para o fato de que essa situação vai contra a santidade da vida, “teu acampamento deve ser santo, para que o Senhor não veja em ti algo de inconveniente e te volte as costas” (Dt 23,15b). Diante desse texto, que fala direta- mente do saneamento, devemos igualmente pensar na po- luição e lixo que inundam nossos rios e matas, ou o nosso “acampamento”. 139. Quando o pecado ganha espaço, o prejuízo acaba indo mais longe do que percebemos ou prevemos. Os judeus costumam dizer que Caim não foi responsável só pela morte de Abel, mas por ter tornado impossível a vida de toda uma descendência que viria a partir dos ilhos de seu irmão. Nós também, se não cuidamos das fontes da vida e permitirmos a devastação do planeta, estamos ne- gando vida e direitos às gerações que ainda não nasceram. Como partícipes da grande família dos ilhos de Deus, temos que zelar por todos os irmãos, os do presente e os do futuro. Esses e outros textos bíblicos nos revelam a compreensão que Israel tinha de que a terra, casa comum, foi criada por Deus, mas entregue aos seres humanos, como um espaço a ser trabalhado e cuidado. Isso não apenas em textos sobre as origens do universo, mas também na li- teratura sapiencial conforme nos testemunha o Sl 115,16: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra ele a deu aos ilhos de Adão”. 140. Essa pequena re lexão sobre cuidados para com a natureza e meio ambiente a partir do livro do Deuteronômio, certamente nos ajuda a pensarmos e colocarmos em prática, novas atitudes visando à preservação do mundo em que vivemos. Pois é comum, no contexto do atual sistema, em que os bens criados são explorados indiscrimina- damente, nos depararmos com atitudes de absoluto descaso para com 75
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    a natureza, comoo mero fato de se jogar papéis no chão ou sacolas plásticas. É urgente a nossa tarefa de construir uma espiritualidade que contribua para que todos os seres possam ser respeitados 1.6. No deserto, uma lição de consumo responsável 141. Deus libertou o seu povo da escravidão no Egito, pois o povo estava morrendo sob a mão forte do Faraó, e, Deus o libertou e o fez caminhar pelo deserto, onde zelou por seu povo. Moisés foi o guia e líder desta caminhada pelo deserto. O povo precisava de comida e recebeu o maná, “Moisés lhes disse: Isto é o pão que o Senhor vos dá para comer” (Ex 16,15b). Entretanto, havia normas para evitar o desperdício e permitir que todos tivessem o necessário. Cada um só podia recolher o que de fato precisava, “Eis o que o Senhor vos mandou: recolhei a quantia que cada um de vós necessita para co- mer, um jarro de quatro litros por pessoa” (Ex 16,16a). O que fosse acumulado a mais apodreceria, “alguns, porém, desobedeceram a Moisés e guardaram o maná para o dia seguinte; mas ele bichou e apodreceu” (Ex 16,20). 142. Apodrecer é um símbolo das consequências do acúmulo do desnecessário. Quando o ser humano quer bens materiais em excesso, quando acumula, suscita “podridão” para na sua vida, na dos outros e na própria natureza. Deus havia planejado tudo para que a necessidade básica fosse atendida, tanto em relação à alimen- tação quanto ao descanso. Mas há os ambiciosos, os que querem acumular, ter mais. E o Senhor questiona: até quando recusareis guardar meus mandamentos e minhas leis? (Ex 16,28). Se esse tex- to tivesse sido escrito hoje, provavelmente Deus perguntaria: até quando vocês vão desprezar a natureza, pela ambição de acumular e gastar, e assim, apodrecer o planeta irresponsavelmente? 143. Essa lição da caminhada do povo pelo deserto é interessante para a dinâmica de nossa sociedade e para cada um de nós pes- soalmente. Segundo os estudiosos, hoje já gastamos recursos do planeta que ultrapassam a sua capacidade de se manter susten- 76
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    tável. Fala-se em25% a mais em relação ao seu limite. O sistema capitalista atual e o modo de vida que vem sendo difundido são altamente consumistas e desperdiçadores. As pessoas querem acumular coisas e capital para além do que é realmente essencial à satisfação das suas necessidades, e se deliciam, inclusive com as coisas supérfulas. 1.7. Entrando na terra prometida 144. A terra é repartida de modo a evitar a concentração de bens, e consequentemente de poder, “Entre estes se repartirá a terra em herança, de modo proporcional ao número de pessoas” (Nm 26,53). É fácil ver que o objetivo é o bem comum, não o enriquecimento dos mais afoitos. Mas a terra, mesmo as- sim distribuída, não é objeto de posse absoluta, sem restri- ções. A terra continua sendo de Deus, para ser usada de modo responsável. 145. Nesse sentido, a doutrina do descanso é primordial, pois, além de prescrever o descanso individual no sábado, prevê também um descanso da terra na instituição do ano sabático, que deveria acon- tecer de sete em sete anos (Ex 23,10-11). E a lei do descanso não parava por aí, indicava também um ano jubilar (a cada cinquen- ta anos), no qual a terra deveria voltar às famílias que original- mente as ocuparam, demonstrando assim, que a terra deveria ser usada segundo o desejo de seu legítimo dono, que é Deus. Diz o Senhor: “As terras não se venderão a título de initivo, porque a ter- ra é minha, e vós sois estrangeiros e meus agregados” (Lv 25,23). A intenção aí é cuidar da justiça social, impedindo que os empobre- cidos percam tudo. Mas hoje perdemos esta perspectiva de que a terra, em última análise é de Deus, e existe grandes acumulações nas mãos de poucos, o que resulta em expulsão de uma grande massa de pessoas nascidas neste ambiente para a periferia das cidades, onde nem sempre conseguem se refazer, tudo em nome da ganância e do lucro. 77
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    146. A Bíblianos apresenta outra proposta, que diverge das con- cepções atuais de nosso sistema econômico liberal, que tem na propriedade privada um de seus alicerces, e se encontra em uma fase altamente concentradora. Esse fenômeno se dá em virtude da concorrência do mercado, no qual, quanto mais capital alguém dispuser e maior for a capacidade produtiva e a distributiva, mais condições de sobrevivência e lucro terá. No entanto, esta lógica é excludente, exclui a grande maioria, gerando sofrimento e morte. Portanto, aqui temos duas bases para se edi icar a sociedade: uma em que os bens estão a serviço das pessoas e outra em que as pes- soas recebem um tratamento secundário e chegam até mesmo a serem excluídas. 1.8. Jesus vence tentações 147. O tentador diz a Jesus depois de quarenta dias de jejum, “Se és ilho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mt 4,3). Ele rejeita essa tentação, pois ceder signi icaria mudar a inalidade da natureza em bene ício próprio, sem respeitá-la. Hoje vemos que o “o rolo compressor do capitalismo deixa de lado qual- quer tipo de consideração de cunho afetivo e espiritual. Ele prima pelo objetivismo, ou seja, transforma em mercadoria não apenas a matéria, como também os seres vivos, inclusive os humanos”.76 A na- tureza não pode ser toda transformada para servir ao nosso con- sumo e ao lucro, sem outras considerações. Vendo o “pão” como símbolo de bens materiais de toda espécie, temos que ver aí tam- bém um convite para se resistir à tentação de transformar tudo em objeto de consumo, para que tenhamos condições de aprofundar o nosso em relação aos seres os seus autênticos valores. 148. Outro problema bem visível em nosso tempo é o desejo de trans- formar o próprio Deus em um mágico protetor que garante a prospe- ridade de seus devotos, o que podemos relacionar com a segunda das 76 Antônio MOSER. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro – 2009, p. 133. 78
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    tentações de Jesus.“Então o diabo o levou à Cidade Santa, e o colocou sobre o pináculo do Templo e disse-lhe: Se és ilho de Deus, atira-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’” (Mt 4,5-6). A tentação de usar Deus em bene ício próprio é muito ar- raigada na religiosidade que se difunde no contexto de nossa socieda- de consumista. Em vez de servir a Deus, com tudo o que isso implica, muitas pessoas querem que Deus esteja ao seu serviço para satisfazer desejos e ambições individuais. Usa-se o nome de Deus até para pedir coisas que o próprio Deus, certamente, não aprova, querendo sucesso em tudo, mesmo quando esse “tudo” desrespeita o direito alheio ou quer justi icar fontes de lucro que agridem o planeta. 149. A última tentação resume bem o perigo que estamos queren- do denunciar: “O diabo o levou ainda para uma montanha. Mostrou- lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, e lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar’” (Mt 4,8). Diante dessa tentação devemos nos lembrar que, “a própria fé na criação, aquela que informando ao homem sobre a soberania absoluta do Criador, estabelece limites ao senhorio humano sobre a terra”.77 E, quando este limite ao senhorio humano é infringido, ocorre um processo de degradação da vida como expressa este profeta dizendo, “o país está abatido e seus cidadãos estão murchos. Os animais silvestres, as aves do céu e até os peixes do mar estão desaparecendo” (Os 4,3). E, ainda vemos em outra passagem da literatura profética, na qual se fala das consequências do rompimento da aliança com Deus, “a terra icará mesmo vazia, saqueada de ponta a ponta... o mundo de- inha... A terra foi poluída sob os pés dos moradores, pois passaram por cima das leis” (Is 24,3-5). Na literatura paulina, podemos ver um veredito que resume o sofrer da criação pelas atitudes do ho- mem ao sucumbir à tentação acima, “a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório... por dependência daquele que a sujeitou” (Rm 8,20). 77 Cf. Juan Ruiz de la Pena. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159. 79
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    1.9. O quepode nos afastar de Deus 150. No livro dos Provérbios (Pr 30,7-9) vemos que o sábio reza para que tenha o su iciente para viver e não mais. Para que não caia em outro tipo de tentação, pede: “concede-me apenas minha porção de alimento. Isto para que, estando farto, eu não seja tentado a renegar-te e comece a dizer: ‘Quem é o Senhor?’” (Pr 30,8b-9a). Jesus vai falar muitas vezes da escolha que precisa ser feita: é Deus ou o dinheiro que manda em nossa vida? Esse tema já foi aborda- do na Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, ocasião em que lembrávamos com energia que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Jesus manda dar mais valor aos tesouros do céu, que cer- tamente incluem responsabilidade pela vida e pelo outro, capaci- dade de defender o que é certo em vez da simples acomodação que pode nos tornar cúmplices do erro. É preciso identi icar o que, para nós, é realmente um valor prioritário. Jesus disse: “onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6,21). Se o nosso coração estiver em Deus estará também na defesa da natureza, no uso responsável dos dons que o Criador nos deu. 1.10. A voz de Deus na natureza 151. Mesmo antes de inspirar a escrita dos textos bíblicos, Deus se comunicou com a humanidade através do livro da natureza, da diversidade da vida, da riqueza de tudo que forma o mundo em que vivemos. Seria uma falsidade louvar o Criador e não se importar com o atual processo de destruição de suas obras no âmbito da criação. Porém, uma espiritualidade de contemplação e deslum- bramento diante das maravilhas da natureza é parte importante da construção da nossa vida religiosa. 152. Diversos textos bíblicos trazem um louvor à criação, vendo nas manifestações da natureza sinais da sabedoria, do poder, da grandeza do Criador. Esses textos nascidos da fé e, em forma poé- tica, convidam-nos a contemplar com olhos amorosos a criação de Deus. Temos, por exemplo: 80
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    a) o cânticode Misael, Ananias e Azarias em Dn 3,57-87 – Esses três jovens aparecem também com o nome babilô- nico: Sidrac, Misac e Abdênago. Eles foram lançados na fornalha ardente, por causa de sua idelidade a Deus. No entanto, um anjo do Senhor é enviado para lançar um or- valho refrescante e não permite que as chamas lhes façam nenhum mal. No meio das chamas, os três jovens entoam um louvor ao Senhor, a partir das obras da criação. b) O salmo 8, que fala do lugar do ser humano na criação. O salmo 8 foi muitas vezes entendido equivocadamente como justi icação religiosa para o “domínio” do ser huma- no, “rei da criação”, sobre a natureza. No entanto, este sal- mo expressa o lugar que o humano ocupa no conjunto da criação. Se o apresenta acima de todas as criaturas (Cf. Gn 1), não quer com isso lhe dar um direito de domínio pre- datório sobre a natureza, mas sugere um cuidado respon- sável para com ela, na função de zelador da obra de Deus. Sobre isso, poderíamos lembrar também a fala de Jesus: “A quem muito foi con iado, dele será exigido muito mais” (Lc 12,48). O ser humano, que raciocina, toma decisões e pode transformar o planeta, precisa escolher com responsabili- dade o que faz ou o que deixa acontecer por omissão. c) O esplendor da criação (Sl 104). Este salmo está entre os mais belos do saltério; como um hino à natureza, expressa poeticamente a dimensão de Deus como Senhor e Criador. O salmo estabelece uma inter-relação de Deus com as cria- turas, evidenciando a consciência que tinham os antigos israelitas da profunda dependência vital da humanidade e de todo o criado em relação ao poder criador originário. Se Deus retira seu ruah (= espírito de vida, v. 29-32), as coisas voltam ao seu nada. Desse modo, a criação é pensa- da, neste salmo, em termos de uma grandiosa e incessante troca de energias.78 78 Cf. Juan Ruiz de la Pena. Teologia da Criação. São Paulo: Loyola, 1989, p.159. 81
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    2. Considerações acercada criação 2.1. A abordagem teológica 153. A origem do universo e da vida, do desenrolar deste proces- so, quem o desencadeou, como também sobre a explicação do mal e o do sofrimento, sempre inquietou os povos. Desde as primeiras civilizações das quais temos notícias, o ser humano vem formulan- do as suas respostas, muitas das quais se encontram em narrati- vas míticas chamadas cosmogonias ou teogonias.79 Dessa forma, os estudos de disciplinas a ins, como a antropologia das religiões, a irmam categoricamente que nenhum povo ou religião deixou de abordar tais temas. A Bíblia como vimos, logo no seu início, trata destas questões e nos lança muitas luzes. 154. A teologia também aborda estes temas empreendendo uma re lexão a partir da fé, orientada pela fé, em função da fé. Esta re lexão é oriunda da experiência de fé, na qual o ser humano se relaciona com o in inito mistério que o envolve e se encontra na intimidade das coisas. Assim, o teólogo quando re lete sobre uma realidade, o faz “crendo para compreender e compreendendo para crer melhor”,80 segundo a perspectiva de Santo Agostinho e Santo Anselmo. 155. Santo Agostinho a irma que a fé e a razão interligadas como unidades complementares, de modo que a o entendimento possi- bilita a fé e a fé possibilita o conhecimento,81 o que ele expressa na dupla fórmula: “intellectus ut credas, crede ut intellegas”.82 Santo Anselmo acredita que a fé procura a inteligência numa contínua e sutil meditação racional sobre as razões da fé que são alcançadas 79 O termo se refere a grandes narrativas de caráter mítico e religioso, em que se procura explicar o nascimento de tudo o que existe no universo. 80 Cf. Luiz Carlos SUSIN, A criação de Deus. Ed. Paulinas, São Paulo, 2003, p.30. 81 Cf. Hubertus R. DROBNER. Manual de Patrologia. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 403. 82 SANTO AGOSTINHO. Sermões 43,9. 82
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    com a razãoque re lete as verdades da fé, explicitando suas verda- des o que se resume em suas duas a irmações sintéticas: “ ides qua- erens intellectum” e “credo ut intelligam”: a fé procura a inteligência e a fé se ilumina pela inteligência.83 156. Com essa perspectiva, pode-se alcançar a razão mais profunda do universo, com a a irmação de que, trata-se de uma criação, como nos testemunham os relatos bíblicos. E criação enquanto obra de um Criador que desejou as realidades que Ele criou, doando-lhes o ser livremente, num ato de pura doação, de amor. Assim sendo constitu- ídas todas as coisas, o sentido autêntico da existência e a destinação de tudo, advém da relação e diálogo com o Criador. A perspectiva de diálogo é entendida como chave para a teologia da criação. 157. Esta relação não é entre iguais: Deus concede a existência, a criatura a recebe. O ato criador é puro dom à existência, e a criatu- ra somente existe em virtude desta gratuidade recebida. O fato de o Criador se doar nesta relação, não o priva e nem lhe acrescenta nada. Portanto, a noção de criação convida à contemplação de um ato de pura bondade e pura liberdade do Criador, no qual podemos identi icar um amor imenso. 2.2. A Trindade e a criação 158. A teologia cristã concebe Deus como uma unidade indissolú- vel de três Pessoas que constituem um único Deus. A experiência cristã de Deus permite à teologia apresentar Deus não como um ser distante e solitário em seu poder e transcendência. Deus é des- crito de modo familiar, as Pessoas divinas são denominadas com termos relacionados ao nosso universo vital signi icativo mais ín- timo: Pai, Filho e Espírito. A razão, é que a vida foi concedida como um dom, em que a criação é chamada à interlocução e comunhão com o Criador, o que confere plenitude à existência de todo o ser criado e de toda a criação. 83 Cf. REALE, G. e ANTISERI, D. História da Filoso ia. São Paulo: Paulinas, 1990, vol. 1, p. 501. 83
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    2.3. A criaçãocomo dom do Pai 159. O nosso contexto cultural favorece a atitude do ser humano de centrar-se em si mesmo e de usufruir das coisas ao seu redor segundo lhe convém. Para romper com este utilitarismo é necessário resgatar a perspectiva da vida como um dom. E, é justamente esta ideia que o termo criação faz emergir, dado que ele indica um ato de gratuidade de Deus ao chamar as coisas à existência. O fato de se receber o ser por meio da criação, exclui qualquer alternativa para justi icar a existência que não seja o reconhecimento desta como um dom recebido. A cria- ção aponta para uma intenção e um querer do Criador em prol desta existência e das circunstâncias que a envolvem. 160. Compreender a existência pessoal e de toda a criação como um dom, é um convite a se experimentar a gratuidade do Criador, o seu amor imenso que o leva ao compromisso para com a criação e, consequentemente, ao cuidado para com os seres criados. Assim, o Criador se revela em atitude de diálogo e comunhão, e esta atitude não fere o seu caráter de ser Absoluto e transcendente. O diálogo pode se realizar de diferentes maneiras: no âmago da interiorida- de como expressou Santo Agostinho, nos acontecimentos da his- tória como na experiência do povo bíblico ou na contemplação da própria obra da criação. 161. Por isso, não obstante a radical diferença entre o ser do Cria- dor e das criaturas existe o âmbito para o diálogo e a comunhão, na liberdade de uma busca sincera, que deve se caracterizar como encontro permeado pelo amor. Isso porque o dom da existência criada é expressão de um querer amoroso do Criador como Pai, que deseja as criaturas para com elas estabelecer a comunhão de vidas, mediante a dinâmica da trama histórica. 2.4. A criação em Cristo 162. A razão mais profunda e autêntica de toda a criação emer- ge deste imenso horizonte descortinado pela Encarnação daquele 84
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    que é aImagem do Deus invisível, constituído como Primogênito de toda a criação (Cl 1,15). Como diz este hino, nele, por Ele e para Ele, todas as coisas foram criadas, pois Ele preexiste, é antes de tudo e por Ele tudo subsiste (Cl 1,16b-17). 163. A palavra “primogênito” (em grego: protótokos) indica a rela- ção ilial de Jesus com o Pai desde toda a eternidade, realçando sua eminente dignidade frente à criação, seja em sentido de causa (não criado), como de tempo (desde toda a eternidade). 164. Paulo quer evidenciar neste hino, não só a preexistência do Filho, mas também sua excelência na ordem da criação, por isto se constituiu em modelo para tudo o que foi criado. Na catedral de Chartres, na França, Deus é representado criando Adão com uma face semelhante à sua, e esta face é a de Cristo. Mas, Cristo não é somente o modelo, ele participou ativamente da criação. E continua participando, para manter essa criação na existência, na unidade, para organizá-la e conduzi-la ao seu destino,84 mediante o seu Espírito. 2.5. A criação no Espírito Santo 165. A consideração da presença e atuação do Espírito Santo na obra da criação ganhou relevância no desenvolvimento da teologia da criação, neste contexto de crise planetária do meio ambiente. Porque para se resgatar o justo valor da natureza criada e agora ameaçada, é necessário também dizer às pessoas que Deus não só tudo criou, mas que também de alguma forma se faz presente e pode ser contemplado na criação. 166. Pela presença e ação do Espírito, Deus faz morada no âmbi- to de toda a criação e toda a criação se torna templo de Deus. De modo que pelo “Espírito é... que todas as coisas comungam umas 84 Luiz Carlos SUSIN, O Novo Testamento interpretado, versículo por versículo. Colossenses, v. 5, p. 94-95; COMBLIN, José. Epístola aos Colossenses e Epístola a Filêmon. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 36. 85
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    com as outras,é o elo e laço, união da biodiversidade do universo... leva a criação não só a desabrochar, mas a amadurecer e chegar à plenitude dos desígnios divinos”.85 Por essa razão, o jesuíta francês Pierre Teillard de Chardin a irma que é necessária uma educação da vista por que para quem é capaz de ver não existe nada de pro- fano no universo.86 167. Esta obra singular do Espírito Santo de levar a criação à ple- nitude, signi ica santi icação ou cristi icação do gênero humano, como também da história e de todo o universo. Nesse sentido, o Espírito opera a obra de reconciliação no âmbito de toda a criação, agindo misteriosamente no interior de cada ser humano para que este aos poucos, se con igure a Cristo o Primogênito da criação. 168. Esta atuação do Espírito é percebida e testemunhada nas co- munidades cristãs, porque a sua ação vai moldando as pessoas ali reunidas de modo a transformá-las no corpo de Cristo, vivo e atu- ante. Este corpo de Cristo que se atualiza na história, está a serviço da grande obra do Espírito, que suscita desde o interior deste pro- cesso, o Reino de Cristo. 2.6. A criação e a Igreja 169. Na carta aos Efésios,87 Cristo e a Igreja são ligados de modo indissociável. Cristo é apresentado como o seu esposo (Ef 5,22-23), e forma com ela uma única realidade ou uma só carne (Ef 5,31-32). Cristo, alçado à condição de cabeça do universo, o é igualmente cabeça da Igreja. Assim sendo, existe uma relação especial entre Cristo e a Igreja, somente ela é o corpo de Cristo e não o cosmos inteiro e nela Cristo Jesus exerce o senhorio enquanto cabeça, 85 Luiz Carlos SUSIN, O Novo Testamento interpretado, versículo por versículo. Colossenses, v. 5, p. 39. 86 Cf. TEIXEIRA, F. O sentido místico da consciência planetária in OLIVEIRA, P. A. R. e SOUZA, J.C.A. (orgs.) Consciência Planetária e religião. São Paulo: Paulinas, 2009, p 214. 87 Cf. Maria de Lourdes CORRÊA LIMA. A Teologia da Criação em Efésios. In Perspectiva para uma nova Teologia da Criação. p. 204-207. 86
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    perpassado pela entregaamorosa e pelo cuidado, com a inalidade de puri icá-la e santi icá-la (Ef 5,25-27). 170. Este corpo de Cristo é constituído pelos cristãos que nele se tornam um só homem novo, mediante a sua vitória diante de tudo o que gera separação. Este seu corpo, a Igreja, é o lugar privilegiado em que Cristo vai operando a reconciliação e uni icação, como Ca- beça, mas em vista de um projeto mais abrangente, a reconciliação de toda a criação. E neste contexto amplo de todo o gênero criado, a Igreja como corpo de Cristo, nele uni icada, tem como função ser mediadora da uni icação. 171. Portanto, a unidade em Cristo, com Cristo e para Cristo na Igreja, é ao mesmo tempo dom e tarefa, que insere a sua missão no âmbito de todo o mundo criado. No entanto, esta ação abrangente da missão que abarca toda a criação, a Igreja a realiza em vista da convergência de tudo em Cristo. 172. Nesse sentido, a relação com a natureza em vista de Cristo, é libertadora para o ser humano, pois contribui para se evitar a sacralização ou demonização do mundo ou de alguns de seus ele- mentos. A criação em Cristo, pelo Pai e no Espírito é re lexo do amor de Deus, exprime sua bondade. E a esta, Deus enviou o seu Filho, segundo o desígnio amoroso de Deus para que esta obra alcance a plenitude. A criação e salvação se encontram na perenidade de um Deus que está na origem de ambas, tendo um mesmo mediador que assegura e realiza o sentido de tudo. Cabe à Igreja, fundada em Cristo e na força do Espírito, viver e se estruturar de modo a contri- buir para que os seres criados sejam renovados em Cristo. 2.7. A criação e a Eucaristia 173. O venerável Papa João Paulo II no início de sua Carta Encí- clica Ecclesia de Eucharistia, nos deixa um testemunho belíssimo da dimensão cósmica da Eucaristia. Faz memória dos lugares em que celebrou a ceia eucarística que vão desde as mais suntuosas basílicas e catedrais do catolicismo às modestas capelas rurais, 87
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    passando por altareserigidos em estádios e praças. E conclui di- zendo, “Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísti- cas faz-me experimentar intensamente o seu caráter universal e, por assim dizer, cósmico. Sim cósmico”.88 174. Ele diz que a Eucaristia, mesmo quando celebrada sobre um altar de uma Igreja de aldeia, esta celebração se realiza sobre o al- tar do mundo e, ali se entrelaçam o céu e a terra, de modo que toda a criação é impregnada por aquele ato. Na Eucaristia se atualiza o mistério da entrega do Filho de Deus o sumo e eterno Sacerdote, que derramou o seu sangue na cruz para a redenção de toda a cria- ção, e, um dia entregá-la perpassada pelo seu mistério pascal ao Pai. E a irma, “este é o mysterium idei que se realiza na Eucaristia: o mundo saído das mãos de Deus criador volta a ele redimido por Cristo”.89 175. Pela Eucaristia Deus abraça todas as suas criaturas e as envol- ve no mistério pascal de seu Filho, de modo que, de Eucaristia em Eucaristia, se realiza o seu plano de tudo recriar em seu Filho. Para isso também concorre a ação do Espírito Santo. Nesse sentido, a comunidade que se reúne em torno do altar na celebração eucarís- tica clama, “vem Senhor Jesus”, para que o Reino de Deus se realize na história e no cosmos. Os cristãos precisam ser despertados para a compreensão da dimensão cósmica dos efeitos da Eucaristia. 176. Também de eucaristia em eucaristia, os cristãos vão sendo con igurados a Cristo. Destes que se reúnem para celebrar eucaris- tia, se espera que possam assumir atitudes em prol do cuidado para com a vida no planeta em todas as suas dimensões, e, especialmen- te dos pequeninos, os mais afetados pelas mudanças climáticas em curso.É desta forma, que a Igreja, através de suas comunidades, se faz discípula e missionária de nosso Senhor. E irá cumprir a sua missão de contribuir para o crescimento do Reino de justiça e de paz na história, fomentando os valores do Reino nas sociedades 88 JOÃO PAULO II, Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia, n. 8. 89 Idem. 88
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    que se defrontamcom os seus desa ios. A concretização de todos estes desdobramentos da eucaristia gera ressurreição, a renovação da vida. Pierre Teilhard de Chardin, no seu ensaio “Missa sobre o mundo”, de 1924, mostra de forma teológica e celebrativa a relação entre a eucaristia e o mundo criado, assim como os efeitos da cele- bração eucarística sobre o cosmos em vista da sua cristi icação. 3. O pecado e sua dimensão ecológica 177. As criaturas foram chamadas à vida por Deus Criador por amor, num ato de doação de vida. E, mesmo envolvendo-as com sua presença, Deus respeita os seres criados em sua justa autonomia e liberdade. Esta condição é indispensável para que o homem e mu- lher, queridos e criados por Deus, também pudessem amar. O amor é também condição para que cumprissem a missão de cuidar da obra realizada pelo Criador, a qual exige doação e entrega. E não se pode simplesmente exigir isto de alguém, tal empenho requerido por Deus ao homem, passa por um coração que ama. 178. No entanto, esta mesma liberdade entrevia a possibilidade do pecado, ou do uso da liberdade para se negar a via do amor, cuja consequência é o rompimento da con iança em Deus e nos de- mais seres. “Ninguém pode hospedar a quem lhe traiu a con iança e ninguém permanece hospedado com alguém a quem ofendeu. O livre ato humano impossibilita a continuidade do shabbat: a festa é interrompida abruptamente”.90 Em consequência o homem e a mu- lher vão se emancipar de Deus, ou passam a viver num estado de autonomia que implica separação de Deus e autoa irmação em si mesmos. Neste estado, já não acolhem o chamado de Deus para cooperarem com o seu projeto, e se fecham cada vez mais em um mundo próprio em descordo com a palavra do Criador. Neste sen- tido, vão conhecer uma degradação cada vez maior, como podemos vemos na sequência dos primeiros capítulos do livro do Genesis. 90 BRUSTOLIN, L.A. e MACHADO, R.F. Um pacto pela terra – a crise ecológica. In TEOCOMU- NICAÇÕES. Porto Alegre – Vol. 38, No. 160 – maio/agosto 2008. 89
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    179. Na criseambiental atual, ica patente o poder destruidor do pecado. É o mesmo poder que nega ou deturpa a relação dialógica com o Deus da Vida e do Amor, as relações entre homem e mulher bem como as outras relações entre os seres humanos (comunitá- rias, políticas, econômicas, etc.). É o mesmo poder mortífero crista- lizado em estruturas sociais injustas e em modos de produção-con- sumo destruidores do meio ambiente. A alienação do ser humano em relação ao projeto de Deus sobre a humanização, manifesta-se na sociedade injusta e opressora e na utilização abusiva e destrui- dora da natureza. 180. Nessa visão integrada do ser humano, a salvação oferecida pelo Deus da revelação bíblica afeta o ser humano em todas as suas dimensões. O universo inteiro possui uma dimensão crística. A encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo possuem um signi icado cósmico, totalmente universal. A libertação da na- tureza, manipulada abusivamente pelo ser humano, está incluída na libertação do pecado humano para a vivência da liberdade con- cretizada no amor-serviço. Inclui as relações responsáveis e soli- dárias com as outras criaturas. Hoje, ica cada vez mais claro que a salvação do ser humano é inseparável da salvação da criação toda (Rm 8,19-23). O destino de ambos está intimamente unido. 4. O cuidado 181. O resgate da teologia da criação nos tempos atuais, especial- mente com a grave questão ambiental e com a consciência que hoje temos, nos permite entender que o projeto do Criador para o homem pode ser entendido sob o prisma do cuidado para com as criaturas. Mesmo o ser humano sendo criado à “imagem e seme- lhança” de Deus e tendo recebido uma palavra que lhe diz “dominai sobre as criaturas”, como já visto. 182. Esta palavra, cuidado, no latim provém de “cura”, que se exerce mediante atitudes de amizade e amor. Interessante que o cuidado exi- ge uma atitude de con iança, contrária à que apareceu com o pecado, 90
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    como na relexão acima. Assim, não é exagero dizer que o cuidado é a essência do ser humano, o cuidado inclui uma dimensão ontológica.91 183. É característica do cuidado, não criar dependência, mas res- peitar a identidade dos demais, como a peculiar maneira de ser e de existir de cada um dos demais seres. O cuidado deve também inspi- rar a preocupação e atitudes que cooperem com o crescimento do outro. Essas atitudes somente vão brotar da criatividade de quem se encontra imbuído do amor, de quem está pronto para a doação.92 184. É, igualmente, fundamental para a emergência do cuidado, a aparição do rosto a ser cuidado, ou da alteridade e sua interpela- ção à responsabilidade amorosa geradora do cuidado. Neste sen- tido, em nossos dias, se coloca um rosto atualíssimo, o do próprio planeta, pois, “a criação geme como em dores de parto” (Rm 8,22), clamando por cuidados com seus distúrbios climáticos, para os quais o modo de viver impulsionado pelo sistema organizacional de nossas sociedades, baseado no consumismo cooperou. E este processo que tem degradado os bens da natureza ainda avança em ritmo acelerado. 185. E este cuidado deve ser no sentido de se alcançar uma socie- dade sustentável, dirimindo as injustiças que excluem milhões e milhões de pessoas, e pautada em um modo de viver compatível com a preservação desta imensa riqueza que é a vida no plane- ta. Para tanto, se faz necessário mudanças drásticas no comporta- mento das sociedades e camadas sociais, que apresentam maior “pegada ecológica”, responsáveis por grande parte das emissões de gases de efeito estufa. Este cuidado, requer a sabedoria para se criar alternativas, mas sobretudo, a mudança da base dos valores que hoje sustentam esta dinâmica da busca incessante do lucro e do consumo. 91 Cf. MOSER, Antônio. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2009, p. 138. 92 Cf. Idem. 91
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    5. São Franciscoe a criação 186. São Francisco é hoje um modelo para os que buscam uma re- lação mais qualitativa em relação às criaturas, pois cresce a cons- ciência de que há relações que as degradam, acarretando também a degradação do ser humano. Existe uma interrelação entre o ser humano e as criaturas, como soube expressar São Paulo: “De fato, toda a criação espera ansiosamente a revela- ção dos ilhos de Deus; pois a criação foi sujeita ao que é vão e ilusório, não por seu querer, mas por dependência daquele que a sujeitou. Também a própria criação espe- ra ser liberta da escravidão da corrupção, em vista da liberdade que é a glória dos ilhos de Deus. Com efeito, sabemos que toda a criação, até o presente, está gemen- do como que em dores de parto” (Rm 8,19-22). 187. Por atitudes de arrogância e autosu iciência dos homens ex- ploraram exaustivamente a natureza e a destruíram, depredaram, aniquilaram, extinguiram espécies e poluíram o ar e as águas. As- sim, não foram respeitosos ao Criador que ao ser humano reservou a função de cuidar do seu jardim e de todas as criaturas.93 Nesse sentido, é necessário que se desenvolvam novas atitudes para com a criação que se constitui em um dom de nosso Deus Criador. 188. Em relação à posse, esta relação é também muito perigosa, pois pela posse, o detentor de poder desquali ica o signi icado ou identi- dade dos seres em geral, entendendo-os como meros objetos para servir à intenção ou à necessidade de quem os possui. São Francisco soube contemplar e valorizar as coisas pelo que eram e pelo valor mais profundo que apresentavam como criaturas de Deus.94 189. O uso das criaturas para o nosso sustento e sobrevivência é imprescindível e se o homem foi colocado como o zelador das 93 Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. Visão franciscana das criaturas. In Perspectivas para uma nova Teologia da Criação. p. 274. 94 Cf. Idem. p. 275. 92
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    coisas, de outro,também é verdade que tudo lhe icou à disposição. O problema está no uso indiscriminado, na gastança desmedida, no consumismo desenfreado, muitas vezes de coisas supér luas. É necessário resgatar a sobriedade no consumo dos bens necessá- rios à dinâmica da vida e evitar desperdícios. São Francisco soube cultivar esta sobriedade no uso das criaturas, como podemos ver no fato de mandar o lenhador cortar apenas os galhos secos das árvores para que continuassem produzindo.95 190. A transformação está ligada ao trabalho, à atividade mediante a qual os seres humanos operam transformações de materiais ou de seres em outras realidades segundo sua intenção e necessida- de. Hoje vemos que as transformações muitas vezes somente vão atender à necessidade de se manter ativa a roda do consumismo, com a produção do supér luo. No entanto, esta atividade deve visar à vida e à sua justa manutenção. 191. Resgatar São Francisco neste contexto de nossas relações com as criaturas da natureza signi ica valorizar suas atitudes. Pri- meiramente, a pobreza, que neste santo signi icou a não-posse, reverteu-se em redenção para as criaturas, e lhe possibilitou pelo olhar contemplativo alcançar o que eram realmente, a ponto de lhes chamar de irmãs e irmãos. A razão é simples, em última aná- lise este olhar puri icado de poder e lucro, revela que as criaturas são dom de Deus e também portam sinais do Criador. 192. Por isso, São Francisco puri icado interiormente pela ação do Espírito que o conduziu a renúncias, como posse e dominação, ao contemplar a natureza, nela somente via re lexos da imagem de Deus, de sua bondade e beleza. Assim, as criaturas não se consti- tuem em obstáculos para se encontrar Deus e amá-lo.96 193. Assim, a contemplação deste santo não era pautada simples- mente pelo fator racional, mas se deixava levar pelos seus sentimentos, 95 Cf. Idem. 96 Cf. Celso Márcio TEIXEIRA. Visão franciscana das criaturas. In Perspectivas para uma nova Teologia da Criação. p. 276. 93
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    por sua sensibilidade,até o ponto de realmente amar as criaturas, a inal, havia feito a descoberta de que elas eram também suas irmãs. Em consequência, nele brotou um respeito impressionante por todos os seres criados e soube viver de modo perfeitamente integrado a este universo, numa grande fraternidade com todo o universo criado por Deus. São Francisco, disse um de seus biógrafos, descobriu os se- gredos do coração das criaturas, às quais chamava de irmãs, porque já parecia gozar a liberdade gloriosa dos ilhos de Deus.97 194. Que a oração em que São Francisco louva a Deus pelas cria- turas, nos inspire novas atitudes e nos ajude a ser transformados pelo Espírito de Deus de modo a resgatarmos atitudes de quem cultiva e cuida do seu jardim, esta obra maravilhosa, que hoje re- quer socorro dos autênticos ilhos de Deus, e de todos aqueles que empreendem ações sinceras e despojadas em prol do planeta. Cântico das Criaturas São Francisco de Assis Altíssimo, onipotente e bom Deus, teus são o louvor, a glória, a honra e toda benção. Só a Ti, Altíssimo, são devidos, e homem algum é digno de Te mencionar. Louvado sejas, meu Senhor, com todas as Tuas criaturas. Especialmente o irmão Sol, que clareia o dia e com sua luz nos ilumina. Ele é belo e radiante, com grande esplendor de Ti, Altíssimo é a imagem. Louvado sejas meu Senhor, pela irmã Lua e as Estrelas, que no céu formastes claras, preciosas e belas. Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Vento, pelo ar ou neblina, ou sereno e de todo tempo, pelo qual às Tuas criaturas dais sustento. 97 Cf. Idem. p. 277-278. 94
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    Louvado sejas meuSenhor, pela irmã Água, que é muito útil, humilde, preciosa e casta. Louvado sejas meu Senhor, pelo irmão Fogo, pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e alegre, vigoroso e forte. Louvado sejas meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e nos governa, e produz frutos diversos, e coloridas lores e ervas. Louvado sejas meu Senhor, pelos que perdoam por teu amor e suportam enfermidades e tribulações. Bem-aventurados os que sustentam a paz, que por Ti, Altíssimo serão coroados. Louvado sejas meu Senhor, pela nossa irmã a morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Ai dos que morrerem em pecado mortal! Felizes os que ela achar conforme à Tua Santíssima vontade, porque a segunda morte não lhes fará mal. Louvai e bendizei ao meu Senhor, e daí-lhes graças e servi-O com grande humildade. Amém. 95
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    Terceira PARTE AGIR Introdução 195. A primeira parte deste texto focalizou a problemática do aquecimento global, suas consequências em nosso planeta e as atividades do ser humano que estão ocasionando ou no mínimo contribuindo para esta situação no planeta. A segunda etapa nos iluminou ao atualizar o projeto de Deus nosso Criador para este mundo e para o ser humano. 196. Esperamos que este percurso tenha suscitado preocupações para com a situação em que se encontra o planeta e com os ru- mos de nossa sociedade. E, que estas preocupações, levem cada um a perceber que também contribui e é parte do problema. Mas, a maior contribuição que esperamos da abordagem deste tema é que desperte o desejo de transformação desta situação. Pois, re- sulta em maiores di iculdades às vidas dos mais necessitados e põe em risco as condições futuras para a vida no planeta. 197. A problemática que aqui abordamos foi agravada pela nossa civilização industrial, e vem se agravando pelo estilo de vida alta- mente dispendioso em materiais e energia que tende a se difundir, que degradam os bens do planeta e comprometem a sua “saúde”. 198. Neste sentido, a re lexão que realizamos deve nos conduzir a ações concretas. A solução para que ao menos seja contido o aqueci- mento global dentro de patamares suportáveis, não é tão simples. É de caráter global, passa por um grande acordo entre as nações, por sacri ícios, especialmente das nações mais ricas e maiores emisso- ras, por melhores condições de vida de nações inteiras que ainda se encontram em condições de miséria e fome, pela diminuição 97
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    do apetite decrescimento das empresas, das nações, por inovações em várias áreas que permitam uma pegada ecológica menor. O que certamente resultará na diminuição das emissões de gases de efei- to estufa. 199. Entretanto, mesmo diante disso, é alentador saber que pode- mos sim, fazer algo e dar o nosso contributo, ele não só é válido, mas necessário. E quanto mais nos organizarmos para ações que visem diminuir as emissões, melhor será o resultado das iniciativas. 200. Enquanto Igreja, formada por discípulos e missionários de Cristo, conscientes do papel das comunidades que a compõem, no contexto do Reino, nos revistamos da atitude que levou o bom sa- maritano a reclinar-se sobre aquele sofredor, para que com a força e sabedoria do Espírito, nos empenhemos nesta causa, pois, a inal de contas, “Toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto” (Rm 8,23). Propostas para o agir 1. Resgatar o sentido profético do domingo98 201. Por trás do texto do descanso sabático está uma estrutura de tempo que marca a nossa existência, mas que, hoje, é constan- temente desrespeitada justamente por causa das exigências de produção capitalista ininterrupta. Os textos sabáticos da Bíblia in- dicam claramente para a estrutura da semana de sete dias. Hoje a medicina já reconheceu que a pessoa que não observa tempos de descanso em meio às jornadas de trabalho adoece mais e, em geral, morre mais cedo. No ritmo de vida do mundo moderno, há certamente exigências que nos obrigam a trabalhar mais, mesmo estando num tempo em que, contraditoriamente, todos poderiam 98 Para esse intento, temos a Carta Apostólica Dies Domini dada à Igreja pelo Papa João Paulo II. 98
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    trabalhar menos e,mesmo assim, receber o necessário para viver com dignidade. Porém, observar tempo de pausa pode ser uma boa fonte de investimento em sua própria vida, economizando di- nheiro que seria gasto com médicos e remédios! Mas para além de uma perspectiva utilitária, resgate do sentido do domingo ad- vindo da experiência judaico-cristã, há uma dimensão profética e ainda mais profunda, no contexto de nossa sociedade. Pois o re- pouso proposto neste dia, que requer a interrupção das atividades e do ritmo oprimente destas ocupações, convida a um desprendi- mento destas ocupações para que cultivemos uma sadia relação com nosso Criador e Salvador, sendo como Ele, sempre capazes de amar com gratuidade. Assim, o ser humano não vai se perceber como centro do universo, pois existe um Criador, “tudo é de Deus”, o universo e a história. O homem assim, se percebe agraciado com um dom inestimável que é a vida e como integrante de um grande projeto divino, cujo principal artí ice é o próprio Criador, que com sua ação providente tudo sustêm. Essa mensagem propicia sereni- dade e encorajamento às pessoas, que podem repousar em Deus. E dessa experiência há que brotar um legítimo agradecimento pelo dom imenso da vida, o que a Igreja o faz especialmente na celebra- ção da Eucaristia. Com o resgate do domingo, as pessoas hão de se perceber como integrantes da criação, dom de Deus e retomar o compromisso de cuidar do jardim do Senhor. 2. Para você saber sobre o seu consumo ecológico 202. Neste sentido, propomos um exercício para que cada um pos- sa perceber que é integrante deste todo, que hoje sofre as consequ- ências de nosso modo de viver dispendioso de um modo concreto. Este exercício permite quanti icar o consumo e a emissão de gases de efeito estufa de uma pessoa, como também de uma instituição, de uma empresa, de um bairro, de uma cidade. Para isso, basta acessar um dos sites abaixo relacionados. Para medir o próprio consumo ecológico, ou a quantidade de energia no cotidiano pes- soal. Como re letimos no Ver, os processos de produção energética 99
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    são responsáveis porgrande parte da emissão de gases de efeito estufa e consequente agressão à natureza: a) http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/ calculadora/. Por este site disponível em português, é pos- sível medir a pegada ecológica pessoal mediante o preen- chimento de um cadastro e de uma icha. b) www.myfootprint.org (Rede ining Progress. The Nature of Economics). Nesse link, em cinco idiomas, existe a opor- tunidade de medir o rastro pessoal ecológico. Informa a quantidade de energia despendida pelo consumo humano global e, em seguida, propõe a medição da cota de par- ticipação pessoal a partir de 27 perguntas de múltiplas escolhas. Informa também acerca de esforços no sentido de controlar os gastos energéticos por instituições, pro- gramas, acordos, etc. Preencher o questionário leva em torno de 15 minutos e proporciona uma primeira visão panorâmica do gasto mundial de energia. Trata-se de um interessante exercício para se tomar consciência de que se está no centro de um grande problema e não há como permanecer alheio. c) www.vidassostenible.org/ciudadanos/a1.asp (Fundación Vida sustenible). A medição dos gastos energéticos se faz mediante cotas de energia, água, transporte, resíduos e materiais. Foi desenvolvido para a realidade da Espanha, porém este site é útil pelos conselhos e referências práti- cas que oferece para um uso comedido. 203. É de suma importância perceber a si mesmo como integrante de uma rede maior de relações de produção e consumo. A própria necessidade de sobrevivência impõe ininterrupta intervenção so- bre o ambiente. Os humanos são seres de combustão. Alimentam- se de outras formas de vida para sua própria manutenção. As inter- venções, contudo, podem ser diferentemente moduladas. A “pega- da humana” sobre o ambiente pode ser mais pesada ou mais leve. Depende do modo como se “pisa”. Há formas mais predatórias de 100
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    organizar a vidaem sociedade e há outras menos predatórias. No fundo depende do exercício de sabedoria. 3. Propostas para se diminuir o consumo pessoal 204. A consciência de que cada um de nós é parte do problema, deve se reverter na convicção de que cada um pode pessoalmen- te dar o seu contributo para a diminuição das emissões de gases de efeito estufa. Neste sentido, existe uma campanha interessante promovida pela 10:10 Global, organização fundada em 2009 por Franny Armstrong, diretora do ilme-documentário “A Era da Es- tupidez”, e pela 350.org. Nela já se integra o Conselho Mundial das Igrejas, queorganiza anualmente o “Tempo da Criação”, um período privilegiado para que as igrejas cristãs re letem e rezem pela pro- teção do meio ambiente, “como Criação divina e herança comparti- lhada”. Esta campanha tem como objetivo conscientizar as pessoas para que contribuam para que a proporção de dióxido de carbono (CO₂) na atmosfera volte e não ultrapasse mais a casa dos 350ppm. E são apresentadas vinte maneiras viáveis que nem sequer chegam a exigir grandes sacri ícios para que cada um possa dar o seu con- tributo nesta empreitada: 1. Faça de conta que as sacolas plásticas não existem: use bolsas e sacolas de algodão para carregar compras. 2. Consuma produtos locais: o transporte de produtos que vêm de longe consome petróleo e aumenta o efeito estufa. 3. Diminua a temperatura de geladeiras, ar condicionados e estufas no inverno e aumente no verão: assim, você vive melhor e polui menos. 4. Use melhor os eletrodomésticos: desligue o computador e a televisão quando não são utilizados. O modo stand-by consome energia e, portanto, polui. 5. Pegue sol. Como? Com painéis solares – para aquecer água ou produzir energia elétrica. 101
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    6. Troque (se puder) de carro; pre ira os movidos a gás ou etanol. E, principalmente, use-os o menos possível. 7. Fique com os pés no chão: os aviões provocam 10% do efeito estufa mundial. 8. Coma frutas e verduras (se orgânicas, melhor): carne de ovinos e carne de bovinos são responsáveis por 18% das emissões mundiais de gás carbônico, além de favorecer o desmatamento devido à sua exploração intensiva. 9. Use fraldas ecocompatíveis: a biodegradação das fraldas tradicionais leva 500 anos. 10. Para conservar os alimentos, use vidro e não alumínio ou plástico: esses poluem e, para a sua produção, o desperdí- cio energético é enorme. 11. Informe-se com inteligência: existem centenas de sítios, revistas e canais de TV que falam sobre meio ambiente e a sustentabilidade. 12. Não use papel: utilize a tecnologia digital para enviar e re- ceber documentos e para se informar. Assim, você salva árvores e não polui com o transporte. 13. Escove os dentes, mas com inteligência: se deixar a tornei- ra aberta, você joga fora 30 litros de água. Abra a torneira só quando for preciso. 14. Use lâmpadas econômicas: consomem cinco vezes menos e duram 10 vezes mais. 15. Coma de forma sadia, pre ira o orgânico: é um método de cultivo que respeita o meio ambiente. 16. Coma com consciência: os hambúrgueres são bons, mas, para serem produzidos, requerem uma grande pegada ecológica. Pense nisso. 17. Um banho é bom se dura pouco: em três minutos, você consome 40 litros d’água. Em 10 minutos, mais de 130 li- tros em média. 102
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    18. Pense sempreque todo objeto que você usa irá se tornar lixo: faça com que ele dure o máximo possível. 19. Usar e jogar fora? Não, obrigado. Por exemplo, use pilhas recarregáveis: podem ser recarregadas até 500 vezes. 20. Faça a coleta seletiva: é a contribuição mais inteligente e mais importante que você pode dar ao meio ambiente. 4. As cidades e o meio ambiente 205. As populações precisam estar atentas e lutarem para algu- mas melhorias em suas cidades que contribuam para o seu bem estar, saúde e cuidado com o meio ambiente. a) Saneamento básico. No Brasil, cerca de 87% da população tem acesso a água potável, enquanto o saneamento básico é um problema para cerca de 30% dos brasileiros, o que signi ica oferecer condições de vida degradantes a estas populações, que as expõe a enfermidades e, é causa de inúmeras mortes infantis. b) No Brasil, 90% dos esgotos domésticos e 70% dos e luen- tes industriais não tratados são despejados diretamente nos corpos d’água, contaminando suas águas e aquelas subterrâneas. É o momento de se exigir mais investimen- tos, pois muitos rios estão com suas águas deterioradas com graves prejuízos para a sua fauna, além de compro- meter a qualidade da água captada para o tratamento e abastecimento urbano. c) A produção de lixo no Brasil já se equipara aos padrões eu- ropeus. A média de geração de lixo no mundo está em torno de 1 kg/dia por pessoa; no Brasil a média é de 1,52 kg/dia por pessoa. E, não obstante esta enorme geração de lixo, somente 56,6% das cidades brasileiras possui algum pro- grama de coleta seletiva do lixo, número que indica certa estagnação deste processo, apesar de o Brasil apresentar 103
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    bons índices dereciclagem em alguns itens como lata de alumínio 91,5%, plástico PET 54,8, vidro 47% e papel 45%.99 As coletas seletivas de lixo precisam avançar, as reciclagens precisam ser estimuladas, pois além de repre- sentarem alívio no consumo de matérias retiradas da na- tureza, signi icam ganhos, postos de emprego. d) Rever o transporte urbano, priorizando meios de transpor- te de massa e que utilizem fontes limpas de energia; além disso, que sejam criadas ciclovias e incentivado o uso de bi- cicletas, e que sejam reorganizados os bairros, de tal modo que a população possa suprir suas necessidades e chegar ao trabalho sem deslocamentos signi icativos; também podem ser favorecidas relações diretas entre pequenos produtores camponeses e os bairros mais próximos, gerando feiras em que a comercialização dos alimentos, preferencialmente agroecológicos, seja feita diretamente, sem intermediários. e) As cidades também precisam oferecer parques de lazer para as suas populações, pois eles, além do lazer, podem contribuir para que muitos redescubram a necessidade da proximidade e integração com a natureza, dado que a mo- dernidade operou uma cisão nesta relação. f) Neste sentido, seria interessante que se izesse um “le- vantamento das necessidades ecológicas e se traçasse um plano diretor, onde eventualmente ainda não há, com par- ticipação da população. g) Que haja incentivo às iniciativas existentes que se rever- tem em proveito do meio ambiente. Como também, ações para a conscientização dos problemas sérios que enfren- tamos, como o efeito estufa e as mudanças climáticas. h) A criação e fortalecimento de Conselhos Municipais para o Meio Ambiente podem ser um grande instrumento na luta 99 Cf. Disponível em http://tudoglobal.com/blog/capa/52206/brasil-se-iguala-a-europa- na-producao-de-lixo.html. Acesso em: 08 agosto 2010. 104
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    pela melhora daqualidade ambiental, mas não podemos nos iludir. Precisamos de mais conquistas nesta área. As- sim, que estes Conselhos tenham maiores poderes e sejam garantidos na forma da lei e apoiados pelo Judiciário. 5. Nas comunidades paroquiais e Dioceses 206. A re lexão sobre a temática abordada nesta Campanha não pode estar ausente em nossas comunidades, não por um modismo, porque o tema vem sendo veiculado e boa parte das instituições e empresas têm incorporado estas re lexões em suas ações. Mas em virtude de que nosso Senhor atribuiu grande responsabilidade às comunidades cristãs no contexto da edi icação do Reino de Deus. Também porque os mais afetados pelas mudanças climáticas são e serão os pobres, os pequeninos. E ao que parece, a abordagem desta temática com ações concretas ainda acontecem de modo tímido. a) Deste modo, é necessário um trabalho de conscientização dos membros das comunidades promovendo cursos e ou- tras atividades sobre esta problemática. Para que assim, os irmãos e irmãs implementem ações que concorram para o combate do efeito estufa ou se integrem em ações já em andamento na sociedade. Esta Campanha pode ser inspiradora para este propósito. b) Seria interessante que as Paróquias e Dioceses pensassem em um programa de controle e corte de emissão de gases de efeito estufa, procurando diminuir os gastos energéti- cos, das Igrejas, seminários, casas, etc., dos deslocamen- tos, com materiais, etc. A proposta de corte de 10%, nas emissões parece um bom começo. c) Todas as paróquias e comunidades cristãs podem instalar painéis solares para aquecimento de água e mesmo painéis de células fotovoltaicas para produzir energia elétrica, que pode gerar autonomia energética e pode ser fonte de ren- da, por meio da venda da energia não utilizada. Essa prática pode estimular as famílias a entrarem neste caminho. 105
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    d) As Paróquiase Dioceses que possuírem terrenos disponí- veis, promover plantio de árvores, ou plantá-las em áreas normalmente utilizadas, segundo as possibilidades. e) E como parte de nossa missão, cooperar em programas con iáveis em andamento na sociedade, denunciar desca- sos de empresas e mesmo do poder público. f) Promover grandes mobilizações em vista desta causa, aproveitando certas datas festivas de santos, como a de São Francisco (4 de outubro). g) A título de recordação, rea irmar o sentido do domingo, e rever a atual dinâmica em que se organiza o trabalho e demais atividades cotidianas. Como também para rever o individualismo, o consumismo e o desperdício a que são levadas pela nossa sociedade. 6. Ações em nível mais amplo 207. O esforço pessoal para se conter o consumo e diminuir as emissões de gases de efeito estufa é louvável, mas é sumamente necessário que as atividades responsáveis pelas maiores emissões destes gases sejam acompanhadas de perto. Em contrário, o resul- tado das ações pessoais para se diminuir as emissões, poderá até dar um alívio para que as grandes indústrias continuem no mesmo ritmo de agressão à natureza e à atmosfera terrestre. Além disso, estão surgindo alternativas menos poluentes em relação às atuais, mas implicam prejuízos a setores que, assim, com o poderio que possuem, as detém. Vamos abordar aqui, as três atividades indica- das na primeira parte, visando algumas soluções possíveis. 6.1. A questão energética. 208. As energias sujas, como vimos, respondem pela emissão de quase 80% de gases de efeito estufa a nível mundial, no Brasil por cerca de 50%. Na primeira parte do texto, vimos que energias 106
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    alternativas denominadas “limpas”já se constituem em uma rea- lidade. O problema passa pela indústria instalada que bloqueia a expansão destas matrizes menos poluentes. a) A energia solar poderia ser mais utilizada no cotidiano das casas, para aquecer água, e sem grandes custos, uma vez que existem muitas técnicas que podem ser aplicadas pela própria família; mesmo que o preço de sua instalação ainda seja alto, existe a possibilidade de produzir energia elétrica fotovoltaica. Existem kits com esta tecnologia que podem tornar uma casa praticamente autônoma do ponto de vista elétrico. Mas o preço... Diante da necessidade de diminuir as emissões de gases de efeito estufa, por que não pressionar os governos para que inanciem ou subsidiem tais componentes, que ainda teriam a vantagem de se pou- par construções dispendiosas que ferem o meio ambien- te, como ocorreu e continuará acontecendo com as usinas a serem implantadas na região amazônica? O problema pode estar associado à falta de iniciativas populares mais consistentes no sentido de reivindicar tais alternativas. b) As soluções do governo em sua política neodesenvolvi- mentista para a expansão da disponibilidade de energia no país, apontam para soluções em que a questão do meio ambiente não é contemplada. 1. A exploração do pré-sal, não é a maravilha apresentada pelas propagandas gover- namentais, pois além de dispendiosa e de incorrer em ris- co de graves acidentes ambientais, trata-se da energia que mais emite gases de efeito estufa, a combustão de deriva- dos de petróleo. 2. O pró-álcool, não obstante suas van- tagens de proporcionar menos emissão de gás carbônico em relação aos derivados de petróleo, pode pressionar a expansão pela procura de terras cultiváveis, com possíveis novos desmatamentos e com diminuição de áreas desti- nadas à produção de alimentos, levando ao aumento dos seus preços, o que anularia a sua vantagem. 3. A sociedade precisa se opor irmemente a iniciativas de expansão da 107
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    matriz atômica, porqueos seus resíduos permanecessem ativos por longos anos; seria um problema que legaríamos para muitas gerações futuras. c) Para diminuir os preços dos painéis com células fotovol- taicas, a Campanha da Fraternidade (CF) pode mobilizar a população para exigir a liberação de recursos públicos, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e So- cial (BNDES), para a industrialização de uma tecnologia brasileira, desenvolvida e patenteada pela área de Física da Ponti ícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que já foi testada e comprovou ser mais e icien- te do que os painéis até hoje importados. 6.2. Diante do desmatamento 209. Na primeira parte do texto, focalizamos mais o desmate da loresta amazônica, mas todos os nossos biomas se encontram ameaçados. Está na hora de percebermos a importância da pre- servação da natureza em toda a sua biodiversidade. É o momento de cada um assumir a sua missão recebida de nosso Deus Criador no sentido de cultivar a sua criação, de desenvolvermos atitudes inspiradas em São Francisco de amor pelas coisas criadas, nossas companheiras nesta jornada histórica. Desse modo, aprendamos a zelar por esta grande casa, nos sentindo parte dela e visando legar o melhor para as gerações vindouras. a) Nesse sentido, é também necessário assumirmos o encar- go de corrigir aqueles que atentam para com a natureza, provocando incêndios, cortando árvores desnecessa- riamente, em casas, sítios, e exigir do governo que coíba desmates de grandes proporções, como hoje acontece na Floresta Amazônica. b) Pressionar o governo para não efetivar as alterações que foram propostas no decorrer do ano passado, ao atu- al Código Florestal de nosso país. Seria desastroso se as 108
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    mudanças que propõemo conceito de matas descontínuas para as propriedades e as alterações dos limites das matas ciliares forem aprovadas. Equivaleria à abertura de uma imensa porteira para novos crimes ambientais contra a nossa já combalida natureza. A sociedade há de se unir para não permitir tal injustiça contra a nossa rica biodi- versidade, que ainda não recebe o devido cuidado das au- toridades competentes. c) A CF pode mobilizar a população em favor da recriação de áreas de loresta, com toda a biodiversidade característica em cada bioma brasileiro; e para contestar o desejo das empresas de classi icar as monoculturas de eucalipto e de pínus como lorestas, pois elas não passam de uso intensi- vo e predador de solo em função das indústrias. 6.3. O agronegócio 210. Esta atividade é importantíssima no contexto de nossa na- ção, produz alimentos, gera empregos e divisas para suprir nos- so dé icit. Por outro lado, como já visto, se baseia na monocultura não se articula com a biodiversidade e a destrói, o que é um fator de geração de doenças in indáveis, as quais são combatidas com agrotóxicos, que poluem a terra e as águas. Aqui se estabelece um círculo vicioso. De outro lado, em nome da obtenção de ganhos de produtividade, opta-se pelo plantio em grande escala, em grandes extensões de terra, alijando pequenos proprietários e causando grandes prejuízos sociais: o homem nascido na roça nem sempre se adapta à cidade, o que gera novos desa ios para a gestão urba- na. Podemos também questionar a qualidade dos seus produtos, cuja produção exige necessariamente a introdução de elementos químicos, além das sementes geneticamente modi icadas. Os fer- tilizantes se constituem em um capítulo á parte, pois os excessos de fósforo e nitrogênio despejados nas terras acabam afetando às águas e a própria atmosfera. 109
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    a) Diante disso,deveríamos favorecer a alternativa que é a pequena produção camponesa, privilegiando a compra de produtos orgânicos e os produzidos na região, para pou- par o dispêndio de energia que resulta em emissões. Este procedimento impõe ao produtor uma nova maneira de se produzir, especialmente no sentido de fazer plantios consorciados e evitar o uso de agrotóxicos, fertilizantes e sementes modi icadas. Ainda por cima, estimula o desen- volvimento e pesquisas que podem alavancar este modo de produção. b) Mas não só, e não é questão de mera de nostalgia, é vital propor aos que ainda têm espaço, que voltem a cultivar os seus canteiros nos quintais ao invés de cobri-los de con- creto, o que contribuiria até mesmo para melhorar os ín- dices de captação de água pelo solo e subsolo. Mesmo os edi ícios, deveriam ter algo neste sentido. Estes cultivos são simples e contribuem para se intensi icar nossos laços com a natureza, além de se produzir um alimento sadio para as refeições. 7. Desenvolver políticas públicas preventivas e de supe- ração de situações de risco 211. A Campanha da Fraternidade apoia as iniciativas que traba- lham em favor do desenvolvimento de um grande projeto de políti- cas públicas que atuam nas situações emergenciais no Brasil. Essas situações devem, em primeiro lugar, ser evitadas a todo custo, pois trazem sofrimento e morte, geram fome, miséria e exclusão social. Também é necessária a realização de um trabalho preventivo no que diz respeito às situações de risco como, por exemplo, constru- ções em encostas ou em áreas sujeitas a alagamentos ou correntes de vento. Este trabalho deve promover a proibição de construções nessas áreas e a remoção, com garantia de direitos, das que lá exis- tem, pois remover a casa depois da morte de alguns de seus morado- res não resolve. Este projeto deve também desenvolver programas 110
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    que não trabalhemsimplesmente as situações emergenciais, mas continuem conduzindo um processo que leve efetivamente à su- peração das questões. A Campanha da Fraternidade de 2009, Fra- ternidade e Segurança Pública, mostrou que a defesa civil é de res- ponsabilidade dos Estados e Municípios.100 É necessário ir além e construir um projeto nacional de defesa civil, com controle social a partir da criação de um organismo social que exerça o controle sobre o projeto no seu planejamento, realização e avaliação. Reflexões finais 212. Saber que toda a criação faz parte da obra criadora e reden- tora de Deus remete os seres humanos ao seu lugar legítimo como elos ou elementos de uma rede cósmica maior. Isso pode abrir pos- sibilidades para a admiração e o louvor a Deus, conduzindo a um viver em que a vida é entendida como dádiva e como tal pode ser vivida, em gratuidade, em con iança na presença e no amor gratui- to de Deus. O cuidado com o ambiente pode e deve ser hoje uma resposta ao amor redentor de Deus. Com o Criador podemos e de- vemos ser cuidadores, criadores e mantenedores, ajudando a sal- vaguardar o direito e a dignidade de vida das gerações futuras. 213. Como membros da Igreja em sentido amplo comungamos de um ponto fundamental do credo cristão de que o mundo que habi- tamos resulta da ação criadora e amorosa de Deus. Trata-se, pois, de falar mais concretamente desta dimensão da fé. Como fato primeiro da fé, cremos que Deus é o criador e o mantenedor da criação. Os se- res humanos são criaturas juntamente com os demais elementos da criação. Todos os elos da criação têm dignidade própria. Ao homem Deus conferiu dignidade especial de “imagem e semelhança”. 214. Atribuiu-lhe também responsabilidades e tarefas de cuidado. Até algum tempo atrás, era absolutamente comum dizer ou ouvir, também na igreja, que o homem é o centro e o sentido de toda a 100 Cf. CNBB. Texto-base CF 2009, Fraternidade e Segurança Pública, p. 170-172. 111
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    criação, pois eleteria a função de “dominar e sujeitar” o mundo criado (Gn 1,26-28). Isso constitui a chamada concepção antropo- cêntrica. Hoje, essa a irmação vem caindo em desuso, reforçando- se mais a noção também profundamente bíblica de que o ser hu- mano deve ser “mordomo da criação”. Sua tarefa fundamental deve ser a de “cultivar e guardar” (Gn 2,15). 215. O “cultivar” implica necessariamente em intervenção sobre o ambiente natural, produzindo ou retirando dele os elementos para suprir as necessidades e os desejos das pessoas, mas também isso pode ser feito em cooperação com as energias da Criação. O “guardar” é um exercício de responsabilidade e cuidado. Trata-se de um mandato que exige a sabedoria por parte das pessoas de se perceberem a si mesmas como integrantes do todo da criação com a tarefa de zelar para que a natureza se mantenha, para além do tempo presente, em suas próprias bases ecossistêmicas. 216. Pode-se aqui falar do “princípio responsabilidade” como elemento fundamental da ética, como foi proposto pelo ilósofo judeu-alemão Hans Jonas. O cuidado do homem com o ambiente deve, hoje, incluir também as gerações futuras. Mas o próprio di- recionamento escatológico da fé cristã aponta para a consumação inal da história e da criação como obra redentora de Deus. Que as nossas ações contribuam para o advento deste mundo novo, que há de ser construído com o empenho renovado a cada dia, e que pode ser vislumbrado na bela imagem bíblica oferecida pela ex- pressão “novos céus e nova terra” (Ap 21,1). 112
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    Quarta PARTE GESTO CONCRETO A Campanha da Fraternidade se expressa concretamente pela ofer- ta de doações em dinheiro na coleta da solidariedade. É um gesto concreto de fraternidade e partilha, feito em âmbito nacional, em todas as comunidades, paróquias e dioceses. A Coleta da Solidarie- dade é parte integrante da Campanha da Fraternidade. DIA NACIONAL DA COLETA DA SOLIDARIEDADE Domingo de Ramos, 17 de abril de 2011 Todas as pessoas das comunidades eclesiais são convidadas a or- ganizar o gesto concreto de solidariedade durante o tempo forte da Campanha, que vai do início da Quaresma, na quarta-feira de cinzas, 09 de março, até o Domingo de Ramos. Bispos, padres, religiosos(as), lideranças leigas, agentes de pas- toral, escolas católicas e movimentos eclesiais são motivadores e animadores da Campanha da Fraternidade, para que todos partici- pem, oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e comunidades que querem desenvolver projetos e ações concretas em defesa da vida e da criação. O gesto fraterno da oferta tem um caráter de conversão quaresmal. O resultado integral da coleta da CF de todas as celebrações do Do- mingo de Ramos, com ou sem envelope, deve ser encaminhado à respectiva diocese; esta, por sua vez, encaminha 40% do total da coleta para o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), na conta indicada no quadro abaixo. 113
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    PARA DEPÓSITO DOS40% Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB Caixa Econômica Federal - 104 Agência 2220 - Conta Corrente 000.009-0 CNBB, Brasília, DF Enviar comprovante do depósito para a CNBB no FAX (61) 2103-8303. Em outras palavras, do total arrecadado pela coleta, 40% consti- tuem o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS) da CNBB, e os ou- tros 60% icam nas dioceses, formando o Fundo Diocesano de Soli- dariedade (FDS), para o atendimento a projetos locais. Doações para o Fundo Nacional de Solidariedade da CNBB podem ser feitas para a conta indicada no quadro acima também ao longo de todo o ano. Outros esforços para o fortalecimento da arrecada- ção também podem ser desenvolvidos, como doações através de SMS, boleto bancário gerado a partir do site da CNBB, doações pelo sistema de telefonia 0500, dentre outros. O relatório desta arre- cadação identi icará as dioceses contribuintes a im de permitir o repasse de 60% devidos. CONTRIBUIÇÕES PARA FUNDO NACIONAL DE SOLIDARIDADE 2010 REGIONAL NORTE I Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese MANAUS - AM 13/08/2010 37.897,42 RORAIMA - RR 07/07/2010 11.292,09 TEFÉ - AM 16/06/2010 3.385,22 COARI - AM 10/06/2010 2.632,10 PARINTINS - AM 15/07/2010 2.350,00 ALTO SOLIMÕES - AM 16/04/2010 2.320,00 BORBA - AM 26/05/2010 1.405,00 ITACOATIARA - AM - SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA - AM - TOTAL 61.281,83 114
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    REGIONAL NORTE II Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese BELÉM - PA 10/05/2010 20.648,25 MARABÁ - PA 03/05/2010 7.848,74 MACAPÁ - AP 28/04/2010 7.753,61 ÓBIDOS - PA 16/06/2010 5.193,02 XINGU - PA 04/06/2010 5.089,22 ABAETETUBA - PA 24/06/2010 4.293,20 ITAITUBA - PA 18/05/2010 3.582,00 CAMETÁ - PA 18/08/2010 2.897,42 MARAJÓ - PA 11/06/2010 1.794,02 PONTA DE PEDRAS - PA 14/05/2010 1.172,84 CASTANHAL - BRAGANÇA DO PARA - PA - SANTÍSSIMA CONCEIÇÃO DO ARAGUAIA - - PA SANTARÉM - PA - TOTAL 60.272,32 REGIONAL NORDESTE I Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese FORTALEZA - CE 21/07/2010 57.523,56 TIANGUÁ - CE 01/06/2010 6.505,74 25/05/2010 e SOBRAL - CE 6.248,56 29/06/2010 LIMOEIRO DO NORTE - CE 10/06/2010 4.806,46 CRATEÚS - CE 16/06/2010 4.510,00 IGUATU - CE 14/06/2010 4.240,00 QUIXADÁ - CE 20/05/2010 1.722,35 CRATO - CE - ITAPIPOCA - CE - TOTAL 85.556,67 115
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    REGIONAL NORDESTE II Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese OLINDA E RECIFE - PE 05/05/2010 30.430,37 NATAL - RN 15/06/2010 30.117,98 MACEIÓ - AL 30/04/2010 19.000,00 PARAÍBA - PB 17/06/2010 14.150,00 MOSSORÓ - RN 21/05/2010 11.711,42 CARUARU - PE 19/05/2010 9.000,00 AFOGADOSDA INGAZEIRA - PE 04/06/2010 8.950,00 CAMPINA GRANDE - PB 26/04/2010 8.509,58 GARANHUNS - PE 27/04/2010 7.381,00 NAZARÉ DA MATA - PE 26/04/2010 7.371,58 06/05/2010 e CAJAZEIRAS - PB 6.830,64 27/08/2010 CAICÓ - RN 05/05/2010 6.103,71 PATOS - PB 17/05/2010 5.444,52 GUARABIRA - PB 30/04/2010 4.977,54 PALMEIRADOS ÍNDIOS - AL 26/05/2010 4.830,90 PALMARES - PE 20/04/2010 4.448,60 PENEDO - AL 24/04/2010 4.243,56 FLORESTA - PE 28/04/2010 1.565,40 PESQUEIRA - PE - PETROLINA - PE - TOTAL 185.066,80 REGIONAL NORDESTE III Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese ARACAJU - SE 29/04/2010 15.853,60 BARREIRAS - BA 22/04/2010 15.611,86 VITÓRIA DA CONQUISTA - BA 25/06/2010 10.763,60 SÃO SALVADOR DA BAHIA - BA 16/07/2010 10.481,54 SERRINHA - BA 03/05/2010 8.976,88 116
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    FEIRA DE SANTANA- BA 27/05/2010 8.863,18 AMARGOSA - BA 09/07/2010 7.205,82 ALAGOINHAS - BA 23/04/2010 6.709,80 BONFIM - BA 30/06/2010 6.029,67 CAETITÉ - BA 26/04/2010 6.000,00 ILHÉUS - BA 07/05/2010 5.781,80 RUY BARBOSA - BA 12/05/2010 4.322,94 ITABUNA - BA 26/04/2010 3.876,00 JUAZEIRO - BA 28/06/2010 3.858,96 BARRA - BA 30/04/2010 3.287,18 EUNÁPOLIS - BA 03/05/2010 3.111,58 BOM JESUS DA LAPA - BA 22/06/2010 2.617,50 IRECÊ - BA 20/07/2010 1.902,74 ESTÂNCIA - SE - JEQUIÉ - BA - LIVRAMENTO DE NOSSA SENHORA - BA - PAULO AFONSO - BA - PROPRIÁ - SE - TEIXEIRA DE FREITAS E CARAVELAS - BA - TOTAL 125.254,65 REGIONAL NORDESTE IV Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese TERESINA - PI 05/05/2010 22.625,14 PARNAÍBA - PI 04/05/2010 12.194,95 CAMPO MAIOR - PI 26/05/2010 8.364,92 PICOS - PI 20/05/2010 4.756,32 OEIRAS - PI 26/05/2010 3.943,90 SÃO RAIMUNDO NONATO - PI 27/04/2010 3.788,15 BOM JESUS DE GURGUÉIA - PI 28/04/2010 2.000,00 FLORIANO -PI 02/06/2010 1.695,30 TOTAL 59.368,68 117
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    REGIONAL NORDESTE V Data Fraternidade R$ Distribuição por Dioceses BACABAL - MA 28/07/2010 10.628,08 GRAJAÚ - MA 24/05/2010 4.730,00 PINHEIRO - MA 08/06/2010 4.000,00 IMPERATRIZ - MA 14/05/2010 3.976,00 VIANA - MA 17/05/2010 3.580,00 COROATÁ - MA 12/08/2010 3.197,70 BALSAS - MA 06/05/2010 2.788,48 BREJO - MA 08/06/2010 2.481,00 ZÉ-DOCA - MA 22/04/2010 1.971,88 CAXIAS DO NORTE - MA 26/07/2010 1.400,00 CAROLINA - MA 26/05/2010 1.326,25 SÃO LUÍS DO MARANHÃO - MA - TOTAL 40.079,39 REGIONAL LESTE I Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese RIO DE JANEIRO - RJ 12/05/2010 102.306,96 NITERÓI - RJ 27/04/2010 28.170,21 BARRA DO PIRAÍ - VOLTA REDONDA - RJ 02/06/2010 28.051,05 NOVA IGUAÇU - RJ 11/06/2010 22.923,00 DUQUE DE CAXIAS - RJ 07/07/2010 18.415,28 NOVA FRIBURGO - RJ 20/05/2010 14.703,42 ITAGUAÍ - RJ 04/05/2010 6.343,52 VALENÇA - RJ 10/06/2010 5.088,00 CAMPOS - RJ 28/05/2010 4.550,00 PETRÓPOLIS - RJ - TOTAL 230.551,44 REGIONAL LESTE II Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese BELO HORIZONTE - MG 27/05/2010 149.108,18 118
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    02/06/2010 e VITÓRIA -ES 66.161,55 05/07/2010 CACHOEIRO DO ITAPEMIRIM - ES 25/05/2010 44.702,64 26/05/2010 e DIVINÓPOLIS - MG 37.680,00 22/06/2010 28/05/2010 e MARIANA - MG 31.450,00 03/05/2010 SÃO MATEUS - ES 07/06/2010 30.713,07 GUAXUPÉ - MG 08/09/2010 28.447,47 ITABIRA - MG 20/09/2010 26.085,53 PATOS DE MINAS - MG 28/05/2010 18.826,32 DIAMANTINA - MG 07/07/2010 17.904,00 CAMPANHA - MG 25/05/2010 17.062,95 MONTES CLAROS - MG 17/06/2010 16.148,00 UBERABA - MG 23/06/2010 15.960,39 GOVERNADOR VALADARES - MG 20/05/2010 14.610,33 UBERLÂNDIA - MG 21/05/2010 12.366,57 20/04/2010 E CARATINGA - MG 11.200,00 26/05/2010 SÃO JOÃO DEL REI - MG 04/05/2010 7.648,00 JANUÁRIA - MG 04/05/2010 7.200,00 ARAÇUAÍ - MG 02/06/2010 6.685,43 SETE LAGOAS - MG 30/04/2010 5.827,43 OLIVEIRA - MG 25/06/2010 5.726,05 PARACATU - MG 23/04/2010 5.518,08 TEÓFILO OTTONI - MG 04/05/2010 5.286,54 10/06/2010 ALMENARA - MG 4.409,26 (02/09) ITUIUTABA - MG 29/04/2010 2.565,32 COLATINA - ES - GUANHÃES - MG - JANAUBA - MG - JUIZ DE FORA - MG - LEOPOLDINA - MG - LUZ - MG - 119
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    POUSO ALEGRE -MG - TOTAL 589.293,11 REGIONAL SUL I Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese SÃO PAULO - SP 27/05/2010 202.098,16 SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - SP 29/04/2010 83.677,56 SANTO ANDRÉ - SP 18/06/2010 64.961,59 MARÍLIA - SP 04/05/2010 61.082,15 CAMPINAS - SP 21/05/2010 58.988,94 LIMEIRA - SP 25/06/2010 56.000,00 RIO PRETO - SP 28/06/2010 41.191,20 26/04/2010 e SANTO AMARO - SP 33.367,50 27/07/2010 BAURU - SP 11/05/2010 31.860,12 SÃO MIGUEL PAULISTA - SP 07/06/2010 31.740,00 SANTOS - SP 17/06/2010 29.458,02 RIBEIRÃO PRETO - SP 04/05/2010 27.738,50 FRANCA - SP 27/05/2010 26.433,38 PIRACICABA - SP 01/06/2010 25.201,04 GUARULHOS - SP 14/06/2010 24.861,26 CAMPO LIMPO - SP 28/05/2010 24.525,72 JALES - SP 03/05/2010 22.649,58 MOGI DAS CRUZES - SP 14/06/2010 19.492,44 OSASCO - SP 25/05/2010 19.297,33 JABOTICABAL - SP 10/05/2010 18.533,16 BOTUCATU - SP 30/07/2010 18.439,62 ASSIS - SP 23/04/2010 17.383,19 CATANDUVA - SP 30/06/2010 17.350,29 BRAGANÇA PAULISTA - SP 13/05/2010 16.800,00 ARAÇATUBA - SP 26/05/2010 14.729,22 OURINHOS - SP 29/06/2010 13.169,16 120
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    12/04/2010 E APARECIDA -SP 10.744,82 13/05/2010 31/03/2010 e BARRETOS - SP 10.376,38 14/06/2010 LINS - SP 10/05/2010 9.204,40 CARAGUATATUBA - SP 14/05/2010 8.518,31 ITAPEVA - SP 18/06/2010 7.061,49 REGISTRO - SP 25/06/2010 6.959,14 AMPARO - SP - ITAPETININGA - SP - JUNDIAÍ - SP - LORENA - SP - PRESIDENTE PRUDENTE - SP - SÃO CARLOS - SP - SÃO JOÃO DA BOA VISTA - SP - SOROCABA - SP - TAUBATÉ - SP - TOTAL 1.053.893,67 REGIONAL SUL II Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese CURITIBA - PR 02/07/2010 106.832,24 LONDRINA - PR 18/06/2010 61.958,27 PONTA GROSSA - PR 17/05/2010 34.665,12 TOLEDO - PR 11/05/2010 30.012,42 UMUARAMA - PR 21/06/2010 28.340,15 APUCARANA - PR 30/08/2010 26.566,92 CAMPO MOURÃO - PR 03/05/2010 24.074,36 CASCAVEL - PR 27/04/2010 22.542,98 PALMAS - PR 12/08/2010 22.205,00 FOZ DO IGUAÇÚ - PR 31/05/2010 19.893,46 PARANAVAÍ - PR 03/05/2010 17.750,00 JACAREZINHO - PR 13/05/2010 16.476,81 121
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    GUARAPUAVA - PR 25/06/2010 13.104,00 UNIÃO DA VITÓRIA - PR 26/05/2010 12.297,77 MARINGÁ - PR 28/05/2010 7.200,00 CORNÉLIO PROCÓPIO - PR 26/05/2010 6.800,00 PARANAGUÁ - PR 10/06/2010 5.860,00 SÃO JOSÉ DOS PINHAIS - PR - TOTAL 456.579,50 REGIONAL SUL III Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese CAXIAS DO SUL - RS 13/07/2010 41.549,28 PORTO ALEGRE - RS 10/08/2010 36.138,91 NOVO HAMBURGO - RS 02/06/2010 26.722,25 FREDERICO WESTPHALEN - RS 04/06/2010 19.319,60 MONTE NEGRO - RS 20/05/2010 15.775,84 EREXIM - RS 14/05/2010 15.625,30 CRUZ ALTA - RS 14/07/2010 13.197,69 URUGUAIANA - RS 11/05/2010 9.766,22 VACARIA - RS 08/07/2010 6.631,00 OSÓRIO - RS 14/07/2010 5.713,66 BAGÉ - RS 07/05/2010 3.386,04 RIO GRANDE - RS 02/06/2010 2.843,84 CACHOEIRA DO SUL - RS 26/05/2010 2.702,14 PASSO FUNDO - RS - PELOTAS - RS - SANTA CRUZ DO SUL - RS - SANTA MARIA - RS - SANTO ÂNGELO - RS - TOTAL 199.371,77 REGIONALSUL IV Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese FLORIANÓPOLIS - SC 11/06/2010 58.415,67 122
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    CHAPECÓ - SC 24/06/2010 50.673,96 CRICIÚMA - SC 24/05/2010 35.280,00 11/03/2010 e BLUMENAU - SC 28.294,15 21/05/2010 RIO DO SUL - SC 14/06/2010 17.634,00 CAÇADOR - SC 08/06/2010 14.040,24 JOAÇABA- SC 10/05/2010 14.000,00 TUBARÃO - SC 27/05/2010 12.297,19 LAGES - SC 11/06/2010 8.340,00 JOINVILLE - SC - TOTAL 238.975,21 REGIONAL CENTRO OESTE Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese BRASÍLIA - DF 07/05/2010 e 65.733,49 GOIÂNIA - GO 06/05/2010 55.132,76 04/05/2010 e SÃO LUÍS DE MONTES BELOS - GO 22.645,65 17/06/2010 URUAÇU - GO 14/05/2010 10.752,30 JATAÍ - GO 05/05/2010 9.063,02 GOIÁS - GO 29/04/2010 7.241,20 TOCANTINÓPOLIS - TO 26/05/2010 6.730,40 FORMOSA - GO 08/06/2010 6.311,00 ARQUIDIOCESE MILITAR DO BRASIL 22/04/2010 5.982,48 LUZIÂNIA - GO 24/06/2010 5.813,00 RUBIATABA-MOZARLÂNDIA - GO 11/05/2010 5.105,35 IPAMERI - GO 15/09/2010 4.913,07 PALMAS - TO 01/07/2010 3.690,48 CRISTALÂNDIA - TO 21/05/2010 3.185,00 SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA - MT 23/04/2010 2.091,60 PORTO NACIONAL - TO 26/05/2010 1.271,40 ANÁPOLIS - GO - ITUMBIARA - GO - 123
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    MIRACEMA DO TOCANTINS- TO - TOTAL 215.662,20 REGIONAL OESTE I Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese CAMPO GRANDE - MS 06/07/2010 33.186,40 TRÊS LAGOAS - MS 29/04/2010 7.980,00 COXIM - MS 14/04/2010 5.229,28 CORUMBÁ - MS 29/04/2010 3.130,00 DOURADOS - MS - JARDIM - MS - TOTAL 49.525,68 REGIONAL OESTE II Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese CUIABÁ - MT 28/05/2010 30.505,02 DIAMANTINO - MT 30/04/2010 17.473,44 RONDONÓPOLIS - MT 29/04/2010 11.554,13 GUIRATINGA - MT 16/04/2010 9.157,34 JUÍNA - MT 31/05/2010 4.955,22 BARRA DO GARÇA - MT 26/05/2010 4.219,34 PARANATINGA - MT 24/05/2010 1.321,18 SÃO LUÍZ DE CÁCERES - MT - SINOP- MT - TOTAL 79.185,67 REGIONAL NOROESTE Data Fraternidade R$ Distribuição por Diocese JI-PARANÁ - RO 22/06/2010 34.731,00 PORTO VELHO - RO 08/06/2010 17.743,16 RIO BRANCO - AC 04/05/2010 15.177,48 GUAJARA MIRIM - RO 19/07/2010 6.925,84 CRUZEIRO DO SUL - AC 04/05/2010 2.547,00 124
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    LÁBREA - AM 05/05/2010 726,48 HUMAITÁ - AM - TOTAL 77.850,96 Fraternidade R$ OUTROS Data 2.952,10 ADM. APOST. PESSOAL SÃO JOÃO MARIA 10/06/2010 1.712,00 VIANNEY 15/04/2010 e IGREJA PRESBITERIANA DO IBES 495,00 17/06/2010 EXARCADO APOSTOLICO ARMÊNIO 26/05/2010 460,00 PARÓQUIA EVANGÉLICA LUTERANA-BOM 23/04/2010 175,10 PASTOR-BLUM IRMÃOS DA FRATERNIDADE NOSSA Sra. 22/03/2010 110,00 DAS GRAÇAS CASA DE RETIRO ASSUNÇÃO - COMUNIDADE NSRA. APARECIDA/AS DE - MANTOVA PROVÍNCIA MADRE REGINA - Petropólis- - RJ NÉLIA REGINA PAIXÃO DA SILVA - INSTITUTO AS IRMÃS DA STA CRUZ - -COLÉGIO STA MARIA MARIA DA CONCEIÇÃO B DE OLIVEIRA - LUZIA DO ROCIO PIRES RAMOS - VALORES SEM IDENTIFICAÇÃO 237.608,27 VALORES SEM IDENTIFICAÇÃO 237.608,27 RENDIMENTO DO ANO - DESPESAS 38.491,56 BANCÁRIAS RENDIMENTO DO ANO 38.491,56 TOTAL DE :OUTROS+EPARCAS,EXAR.+REND DO ANO 279.051,93 125
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    TOTAL GERAL 4.086.821,48 Brasília-DF, 21 de Setembro de 2010 TOTAL 3.807.769,55 Objetivos da CF 2011 Para a Campanha da Fraternidade de 2011, a Igreja no Brasil pro- põe, como Objetivo Geral: contribuir para a conscientização das co- munidades cristãs e pessoas de boa vontade sobre a gravidade do aquecimento global e das mudanças climáticas, e motivá-las a parti- cipar dos debates e ações que visam enfrentar o problema e preser- var as condições de vida no planeta. Veja, no início do Texto Base, os objetivos especí icos e as estraté- gias a serem adotadas para conseguir o Objetivo Geral. Veja, tam- bém, na terceira parte do Texto Base, correspondente ao AGIR, su- gestões de ações concretas a serem realizadas Destinação dos recursos Os recursos arrecadados serão destinados prioritariamente a pro- jetos que atendam aos objetivos propostos pela CF 2011. Poderão, também ser aplicados, excepcionalmente, em projetos sociais que visem o fortalecimento e/ou a defesa da Igreja no Brasil, bem como em situações emergenciais, segundo o espírito da Campanha, apre- sentados por membros do Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) ou da Presidência da CNBB. As Organizações que desejarem obter apoio do Fundo Nacional de So- lidariedade, de acordo com os critérios de destinação previstos para a CF-2011, deverão consultar os sites da CNBB e da CARITAS para maio- res informações: www.cnbb.org.br e www.caritas.org.br. Os projetos apresentados serão analisados por um CONSELHO GESTOR DO FUNDO NACIONAL DE SOLIDARIEDADE, nomeado pela CNBB. 126
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    Recomendamos fortemente às(Arqui) Dioceses que constituam, também, o seu próprio CONSELHO GESTOR DIOCESANO DO FUN- DO DE SOLIDARIEDADE, Fundo este constituído por 60% da coleta do Domingo de Ramos, e destinado a Projetos a serem desenvolvi- dos na própria (Arqui) Diocese. Esse Conselho, instituído e presidi- do pelo Bispo Diocesano ou por um seu delegado, pode contar com a participação, por exemplo, de uma pessoa da Cáritas Diocesana (onde ela existe), de um representante das Pastorais Sociais, da Coordenação (Arqui) Diocesana de Pastoral, da Equipe de anima- ção das Campanhas, do responsável pela administração da (Arqui) Diocese e de uma pessoa ligada ao tema da CF. 127
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    BIBLIOGRAFIA Documentos da Igreja PONTIFÍCIOCONSELHO. “Cor Unum”. A fome no mundo. São Paulo: Paulinas, 1996. JOÃO PAULO II. Carta Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”. São Paulo: Paulinas, 2003. CELAM. Documento de Aparecida. Brasília: Edições CNBB, 2008. CNBB. Texto-base CF 2009, Fraternidade e Segurança Pública. Brasí- lia: Edições CNBB, 2009. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica “Redemptor Hominis”. São Paulo: Paulinas, 1979. PAULO VI, Carta Apostólica “Octogesima Adveniens”. São Paulo: Paulus, 1971. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica “Sollicitudo Rei Socialis”. São Paulo: Paulus, 1987. JOÃO PAULO II, Carta Encíclica “Centesimus Annus”. São Paulo: Pau- linas, 1991. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Pós-sinodal “Pastores gregis”. São Paulo: Paulinas, 2003. Livros e Artigos MOSER, Antônio. Cuidando da Terra: ética do cuidado. In REB Fasc. 273 – Janeiro, Petrópolis: Vozes, 2009. BISWAS, Asit K. Quo Vadis, mundo da água?. In Fazendo as pazes com a Terra: qual o futuro da espécie e do planeta?, UNESCO, São Paulo: Paulus, 2010. 129
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    HINO Olha, meu povo este planeta terra Hino L.: Pe. José Antônio de Oliveira M.: Casimiro Nogueira = 108 Am Dm Fmaj7 E Am Am 1. 2. Am A7 Dm G 1. O -lha, meu po -vo_es-te pla - ne - ta ter - ra: Das cri- a - tu -ras to -das, a mais lin C Dm Am F - da! Eu a plas -mei com to-do_a - mor ma - ter - no, pra ser um ber -ço de_a-con - E7 Am Dm G che- go_e vi - da. Refr.: Nos - sa mãe ter - ra, Se - nhor, ge- me de dor noi -te_e C Dm Am F E7 di - a. Se-rá de par - to es - sa dor? Ou sim - ples - men-te_a - go - ni - a? Dm Am B7 E7 Am Vai de - pen - der só de nós! Vai de - pen - der só de nós! 1. Olha, meu povo, este planeta terra: 3. Vê, nesta terra, os teus irmãos. São tantos... Das criaturas todas, a mais linda! Que a fome mata e a miséria humilha. Eu a plasmei com todo amor materno, Eu sonho ver um mundo mais humano, Pra ser um berço de aconchego e vida. (Gn 1) Sem tanto lucro e muito mais partilha! 4.Olha as florestas: pulmão verde e forte! Nossa mãe terra, Senhor, Sente esse ar que te entreguei tão puro... Geme de dor noite e dia. Agora, gases disseminam morte; Será de parto essa dor? O aquecimento queima o teu futuro. Ou simplesmente agonia?! Vai depender só de nós! 5. Contempla os rios que agonizam tristes. Vai depender só de nós! Não te incomoda poluir assim?! Vê: tanta espécie já não mais existe! Por mais cuidado implora esse jardim! 2. A terra é mãe, é criatura viva; Também respira, se alimenta e sofre. 6. A humanidade anseia nova terra. (2Pd 3,13) É de respeito que ela mais precisa! De dores geme toda a criação. (Rm 8,22) Sem teu cuidado ela agoniza e morre. Transforma em Páscoa as dores dessa espera, Quero essa terra em plena gestação! 135