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GUARESCHI, P. O que é mesmo psicologia social? uma perspectiva crítica de sua história e seu
estado hoje. In JACÓ-VILELA, AM., and SATO, L., orgs. Diálogos em psicologia social [online].
Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2012. p. 25-45. ISBN: 978-85-7982-060-1.
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Psicologia social: o lugar da crítica, da memória e da
afetividade
Capítulo 2 - O que é mesmo psicologia social? uma perspectiva crítica de sua história e seu estado
hoje
Pedrinho Guareschi
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PSICOLOGIA SOCIAL:
O LUGAR DA CRÍTICA,
DA MEMÓRIA E DA AFETIVIDADE
CAPÍTULO 2
O QUE É MESMO PSICOLOGIA SOCIAL?
UMA PERSPECTIVA CRÍTICA DE SUA HISTÓRIA E SEU
ESTADO HOJE
Pedrinho Guareschi
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Introdução
o contexto de “diálogos” que a Associação Brasileira de Psicologia
Social ABRAPSO está estabelecendo, pretendo, correndo certamente
alguns riscos, trazer aos colegas que trabalham na área algumas reflexões que
julgo, no meu entender, pertinentes e atuais. São inúmeras as contribuições
que estão sendo trazidas à discussão dentro do amplo espectro da Psicologia
Social. Penso não estar exagerando ao dizer que muitos estudiosos ou
professores da área começam a trabalhar sofregamente nesse campo sem ter
tido tempo de fazer uma reflexão crítica dos inúmeros enfoques nela
presentes. Torna-se difícil, desse modo, estabelecer uma visão de conjunto e
muito mais árduo ainda discernir as conexões existentes entre uma teoria e
outra. Priorizam-se, muitas vezes, aspectos secundários e não se consegue
montar um fio condutor que nos oriente e nos ilumine a caminhada.
Nesse mundo das teorias, pretendo enfrentar aqui uma questão
central, que é: qual o cerne, qual o âmago da Psicologia Social? Há muitos
anos venho já lidando com essa disciplina. Vou confessar que as possíveis
respostas que ia, aos poucos, encontrando no decorrer de minha experiência
N
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acadêmica sobre o que seria a Psicologia Social não me satisfaziam
plenamente. Seria fácil, até mesmo simplório, responder a essa pergunta
dizendo que “são muitas psicologias sociais”. Mas essa não seria uma
maneira de fugir da questão, talvez por medo de enfrentá-la? Afinal, se
trabalhamos e pesquisamos dentro de uma determinada área, temos no
mínimo a obrigação de buscar relativa clareza sobre as delimitações, nunca
absolutamente precisas, do campo que investigamos. Por mais que
defendamos uma transdisciplinaridade na compreensão dos fenômenos
temos, no nosso caso, de ter relativa clareza sobre que dimensão, isto é, sob
que “luz” nós nos propomos iluminar esse fenômeno, com outras palavras:
como a Psicologia Social o enfoca?
Não só por honestidade, mas também por obrigação, pretendo
enfrentar essa questão. Arrisco então, essa reflexão cuidadosa e, enquanto
possível, metódica e didática. Vou discutir duas questões: qual o campo da
Psicologia Social e, avançando um pouco mais, perguntar sobre as diversas
teorias que surgiram no desenvolvimento dessa Psicologia Social, e quais
seus pressupostos e como elas tentaram dar conta do psicossocial?
Na primeira, perguntamos e discutimos as origens e o que seria a
Psicologia Social. Analisamos os pressupostos que se faziam presentes em
seu início e como foi seu desenvolvimento e sua atribulada história. Na
segunda, discutimos como a Psicologia Social foi se estruturando e quais os
elementos centrais que foram se incorporando em sua constituição.
Penso valer a pena enfrentar essa discussão. Ajudará a progredir em
nossa ciência da Psicologia Social. É minha convicção que tal discussão
ajudará a esclarecer muitos pontos e nos ajudará a avançar na discussão
teórica de nossa disciplina.
Concordo com Moscovici quando afirma que é tempo de parar com
pesquisas pontuais e dar mais espaço à reflexão:
poderíamos aventurar dar a sugestão de que é tempo de parar com a
coleta de informações. Como diz Poincaré, um acúmulo de fatos não
constitui uma ciência, assim como um monte de pedras não se torna
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uma casa. Temos as pedras, não temos a casa. É preciso parar e
começar a pensar (MOSCOVICI, 2002, p.145).
1. Em busca de uma Psicologia Social: origens, contexto e trajetória
Nessa primeira parte vou procurar responder às seguintes perguntas:
− Como iniciou e foi se constituindo uma Psicologia Social?
− Quais os pressupostos subjacentes ao início da Psicologia
Social?
− Como foi sua atribulada história?
− Como diferentes enfoques foram se confrontando e se
estruturando?
Essa primeira parte discute Psicologia Social desde Wundt, em 1872,
até a década de 1950, com sua consolidação hegemônica nos Estados Unidos.
É fundamental, para se compreender a história da Psicologia Social e
a própria Psicologia Social, que se tenha em mente dois “movimentos” ou
dimensões, que estiveram presentes em sua origem e em seu
desenvolvimento: a influência do materialismo cientificista; a influência do
individualismo cartesiano.
1.1. O materialismo cientificista
Se aceitarmos, como é relativamente pacífico, que a Psicologia
começou com Wundt, temos de aceitar, consequentemente, que foi lá
também que teria iniciado a Psicologia Social, pois ela historicamente foi
considerada como um alongamento dessa psicologia. E, seguindo a mesma
lógica, temos que aceitar que a Psicologia Social começou dentro do quadro
amplo da modernidade com seus pressupostos metafísicos, epistemológicos
e éticos; ética, aliás sempre negada, até que Bauman ao final do séc. XX,
mostra com clareza que a modernidade tinha uma ética e qual era essa ética.
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Enfatizo essa questão da ética, pois ela é extremamente importante
no campo da Psicologia, já que lida fundamentalmente com seres humanos.
Para a modernidade o mundo era um relógio, o que era preciso, então, era
apenas descobrir quais as leis implícitas, subjacentes e ocultas que
governavam esse relógio. O segundo passo, dado por Comte, Durkheim e
outros sociólogos, foi mostrar que a sociedade também era um relógio com
suas leis subjacentes; o social era uma “coisa” como qualquer outra, e a
sociedade era um sistema fechado, governado por leis determinantes e
determinadas. Wundt, para os que o aceitam como o fundador da
psicologia, não fez nada mais que dar o terceiro passo dentro dos
pressupostos da modernidade; se o mundo é um relógio a sociedade é um
relógio, então o ser humano também é um relógio; vamos colocá-lo dentro
de um laboratório e descobrir suas leis implícitas. O problema todo se
resume em fazer experimentos para descobrir essas leis. E esses
experimentos estão sendo feitos por muitos até hoje!
É interessante, se não chocante, ver como foi exatamente isso que fez
o Nazismo, conforme descreve muito bem Bauman ao analisar a ética da
modernidade. Para ele, o Holocausto nazista nada mais foi que uma
consequência coerente da modernidade. Quando os russos tomaram
Auschwitz encontraram ainda nos barracões dos campos de concentração,
ao redor de 80.000 pessoas, metade de sua capacidade total de 160.000. E
dessas 80.000 a metade eram crianças, a maioria delas gêmeos, trigêmeos,
quadrigêmeos etc. Mengele e sua equipe de 60 pesquisadores, especialistas
e técnicos faziam com elas os experimentos estratégicos para poder
encontrar “o homem ideal”, o homem que seria o protótipo para a nova raça
nazista que iria governar o mundo por no mínimo, mil anos. Eles se
dedicavam, com insano esforço, em descobrir as “regularidades”, as leis
implícitas no “relógio” que é o ser humano. Tudo o que fosse dispensável
ou o que já fosse constatado como descartável, comprovadamente não mais
necessário à investigação, ia sendo dispensado como os ciganos, os judeus,
os anões e os portadores de qualquer deficiência. É conhecida a comparação
que Bauman faz ao descrever esses procedimentos “científicos”: o mundo
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deveria ser como um jardim todo alinhado, organizado e limpo. Tudo o que
fosse desordem, ervas daninhas, deveria ir para a fogueira. E a ética que
governava esse empreendimento (aqui a questão) era a eficiência, o rigor
científico, o funcionamento prático e útil. Exatamente o que o responsável
pelas pesquisas realizadas com o jovem delinquente, narradas no filme
“Laranja Mecânica”, respondeu a quem questionou as possíveis implicações
éticas de seus experimentos: “Se funciona, é bom!” Na ética, o que é “bom”
é o que funciona, as técnicas rigorosamente seguidas à risca;
consequentemente, se não funciona é “ruim”. Um tipo de pragmatismo e o
cientificismo de mãos dadas.
Mas avancemos um pouco mais na discussão desse primeiro
movimento. Devemos a Robert Farr (1998) e a seus 25 anos de pesquisa,
ininterrupta e escrupulosa, o esclarecimento e a crítica mais aprimorada e
metódica sobre as origens de nossa Psicologia Social. Principalmente em
seu capítulo 2 (p.37–59), ele nos mostra como essa ideia parcial de ciência
(experimental) tomou conta da psicologia como um todo, de tal modo que
na sua expressão, para os experimentalistas, “a pele forma o limite de
estudo” (FARR, 1998, p. 41).
Essa concepção de psicologia como uma ciência experimental
passou, automaticamente, para a Psicologia Social. A Psicologia
“científica”, isto é, fisiológica e materialista se desenvolveu à base de
experimentos, mas experimentos “fisiológicos”, materiais, biológicos,
comportamentais, que não iam além da pele. A Psicologia Social, como a
Psicologia tout court, passou a fazer parte das Naturwissenchaften. Como
diz Farr (1998, p. 59), “a herança de Wundt foi uma psicologia experimental
que não era social”. Mas,
se a psicologia se tornou por primeiro uma ciência experimental na
Alemanha, foi a Psicologia Social que se tornou depois uma ciência
experimental nos Estados Unidos.
Watson e seus seguidores fizeram uma cruzada sistemática com o
objetivo de livrar a psicologia de toda referência à consciência, à mente ou
ao self. Para eles, só valia o observável, o externo, o material. O próprio
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Watson afirmava que a introspecção deveria ser banida da psicologia. Para
quem lê o Manifesto Behaviorista, coordenado por Watson, fica evidente
essa “materialização” do psicológico, pressuposto do materialismo
cientificista de que estamos falando.
Eles podiam afirmar, então, com tranquilidade, baseados nesses
pressupostos, que tinham enterrado o fantasma que atormentava Descartes,
isto é, a questão do psíquico, da consciência. Ele, Descartes, para se livrar
do psíquico (imaterial, simbólico, representacional) cindiu o ser humano ao
meio: a ciência se ocuparia apenas do material, do biológico e a filosofia do
imaterial. Mas acontece que não é por um ato voluntarista que se elimina
uma realidade que durante séculos preocupa a humanidade. Por isso, o
fantasma de Descartes continua a assombrar os estudos modernos. O
behaviorismo, longe de enterrar esse fantasma, é apenas uma das faces
desse dualismo cartesiano. Na herança cartesiana o psíquico, o self,
pertence à filosofia mental. O self só poderia se tornar acessível através da
introspecção. Mas isso, para os comportamentalistas não era ciência. Essa é
a natureza do dualismo cartesiano que herdamos na psicologia. Quando ela
se tornou,apenas, uma ciência do comportamento exterior , não avançou
para além do dualismo cartesiano.
Já para Mead, a mente é um fenômeno puramente natural, como
veremos. Para Watson, ela é apenas um fenômeno sobrenatural.
Jovchelovitch (2007) discute com clareza as consequências desse dualismo
cartesiano e mostra que tal dualismo não se sustenta diante de uma crítica bem
fundamentada. Tal concepção ainda bebe dos pressupostos do materialismo
cientificista para quem o ser humano, a sociedade e o mundo são iguais e
devem ser tratados, epistemologicamente falando, do mesmo modo.
Como consequência, pode-se dizer que Watson reduziu a racionalidade
humana à racionalidade dos ratos: sabemos agora muita coisa sobre as leis da
aprendizagem que são comuns a ratos e a seres humanos. Mead comparou a
psicologia de Watson à Rainha, em Alice no País das Maravilhas sem
cabeça, sem nada acima da espinha dorsal. Para ele, Watson não tinha
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conseguido uma teoria da história natural da mente e da natureza
especificamente autorreflexiva da inteligência humana.
Vimos as diferenças entre Mead e Watson. Mas quais as diferenças
entre Wundt e Mead e Wundt e Watson? Wundt separou sua psicologia
fisiológica de sua Psicologia Social; Mead, contudo, inter-relacionou a
ambas, através de sua teoria do ato. Para ele, o ato é o dado fundamental,
tanto na Psicologia Social como na individual, e tem uma fase, um aspecto
tanto interno como externo. A questão surge no modo como essas duas
fases se relacionam. Mead critica Wundt por pressupor a mente (a fase
interna) em sua psicologia fisiológica, e critica Watson por abandoná-la em
seu behaviorismo ficando apenas com a fase externa, o comportamento.
Para Mead, ambas as perspectivas são parciais: quando falamos, falamos a
nós mesmos e aos outros. É por isso que a natureza autorreflexiva da
inteligência humana está mais estreitamente ligada à fala do que à visão.
Essa é a essência da Psicologia Social de Mead.
Já a diferença entre Wundt e Watson é que Wundt era um pensador
plural, não reducionista. Se ele começou a pesquisar a psicologia em
laboratório, dentro dos pressupostos cientificistas da época, ele não reduziu
a questão da psicologia apenas a esse espaço, mas ampliou-a acrescentando
a dimensão filosófica e, principalmente, a dimensão social com os dez
volumes sobre religião, mitos etc.
Nota-se, assim, como a Psicologia Social “dançou” entre dois polos
sem poder dar conta nem de um, nem de outro. Foi Mead quem enfrentou
esse problema e inter-relacionou a ambos com a teoria do self. De fato, Mead
inovou e o que tentamos fazer hoje não está distante do que fez Mead.
Minha experiência mostra que muitos estudantes ao tomar contato
com uma disciplina e suas diferentes teorias, onde sempre estão implícitos
pressupostos metafísicos ou epistemológicos, não se dão conta de que nas
diferentes origens ou tradições, dessa ciência, estavam presentes
pressupostos, ou “eixos”, bem distintos. Um desses eixos é o “materialismo
cientificista” que estamos discutindo aqui. Para ele, não existe nada além da
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matéria, do biológico. Destutt de Tracy, por exemplo, ao discutir a
ideologia coloca-a no campo da zoologia. Por quê? Porque a zoologia trata
dos animais; um desses animais é o ser humano; o ser humano possui
cérebro; e as ideias são emanações desse cérebro. Ora, sendo a ideologia o
estudo das ideias e estando elas no cérebro que é parte do homem que é um
animal como qualquer outro… logo a ideologia deve ser classificada no
campo da zoologia. Se nosso pressuposto é o materialismo cientificista, e
não existe nada além do material e físico, vamos, consequentemente, tirar
as conclusões lógicas disso. Na Alemanha, na época de Wundt, essa era a
discussão, entre as Naturwissenchaften e as Geisteswissenchaften. Para os
primeiros, a “ciência” se fundamentava nesse pressuposto ontológico e
epistemológico do materialismo. E como derivação disso, a metodologia era
quantitativa, tentando medir essa matéria: daí a importância do laboratório.
Uma pergunta que ainda poderia ser feita: até que ponto esse pressuposto
não está ainda presente na “mente” de muitos de nossos “cientistas”?
Na França esse eixo passava pelo positivismo, que tinha como
pressuposto que só existe “o que está aí”, e nada mais. Tudo o que não
pudesse ser “apalpado”, medido, pesado, não tinha valor e não existia. O
social, para eles, tinha o estatuto ontológico de “coisa”. Por insistência de
uma mentalidade positivista, as ciências sociais tinham de tomar como
modelo as ciências naturais.
1.2. O individualismo cartesiano
Há outro pressuposto, contudo, tão ou mais importante que o
pressuposto materialista da modernidade, que penetrou e ainda está
fortemente presente na psicologia e, evidentemente, na Psicologia Social: é o
pressuposto do individualismo. Essa dimensão nós a devemos buscar em
Descartes. Interessante notar que na famosa afirmação de Descartes cogito,
ergo sum (penso –eu–, logo existo), a Psicologia não foi buscar primeiramente
o “racional”, a racionalidade instrumental implícita do termo “cogito”, mas
fundamentalmente o fato de ela ser formulada tendo como sujeito a primeira
pessoa do singular: penso, isto é, eu penso. E essa foi a segunda marca
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presente na Psicologia Social, quase que um paradoxo: como o social poderia
se reduzir ao indivíduo?
Procurando contextualizar essa visão dominante, constata-se que o
individualismo tornou-se uma ideologia dominante dentro da cultura
ocidental, principalmente dos EE.UU. Com suas raízes no humanismo
renascentista, ele se reforçou com a Reforma Protestante e a invenção da
imprensa, que propiciou a informação e o relacionamento com as pessoas
sem sua presença física. Os que protestavam (protestantes) contra os
consensos anteriores e não queriam se conformar com imposições políticas
e religiosas dos príncipes, ou da Igreja, mudaram-se para os EE.UU., onde
esse individualismo se enraizou e deu seus frutos. Essas são algumas das
razões, entre muitas outras, que ajudam a compreender a importância do
individualismo na cultura ocidental, principalmente dos Estados Unidos.
Diversos pensadores do final do séc. XIX e início do séc. XX
tinham-se defrontado com a questão do social, que eles denominaram,
contudo, de “coletivo”. O próprio Wundt, como vimos, chegou a escrever
dez volumes sobre o que ele chamou de Psicologia Social. Foi, contudo,
solenemente ignorado.
É importante constatar o seguinte: a variável individual/social foi,
curiosamente, ligada à variável racional/irracional, outra dicotomia que
afligia os pensadores do final do séc. XIX e início do séc. XX. E novamente
entra aqui em jogo Descartes. Se fôssemos resumir esse complexo debate,
com risco de reduzi-lo em sua importância, poderíamos dizer que a força do
individualismo cartesiano venceu a batalha, e tudo o que fosse coletivo,
“social”, ou mesmo cultural, passou a ser também irracional. Isso está claro
em Le Bon, para quem todo coletivo era perigoso e devia ser evitado.
Conotações negativas dessa “cultura” podem ser entrevistas nas obras de
Freud, para quem a “civilização” devia ser mais aturada do que aceita.
Moscovici (1961, 1985) discute essa questão da psicologia das massas e
mostra como os psicólogos sociais acadêmicos se distanciaram desse campo
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por acharem que esses estudos eram mais “populares” que científicos,
apontando também os perigos desse desinteresse.
Ernest Gellner, um filósofo que discute a poderosa influência do
individualismo cartesiano nas ciências, faz um forte comentário ao mostrar
como tudo o que fosse social ou cultural devia ser rejeitado. E qual a razão?
“Deve ser rejeitado porque é uma cultura. Sua origem social e comum é sua
mácula fatal” (1992, p.18). Isso é o que Moscovici chama de “o escândalo
do pensamento social” (2002, p.167). Morton Prince, professor de
psiquiatria de Harvard, convidou em 1921 Floyd. H. Allport, jovem instrutor
em Harvard, a colaborar como coeditor do Journal of Abnormal and Social
Psychology. O título já nos dá uma indicação avaliativa do que se pensava
do “social” e da “cultura” da parte de determinados segmentos acadêmicos:
o social não andaria longe do anormal.
Esses são alguns dos pressupostos que estão presentes na história e
nas origens da Psicologia Social. Quando ela migrou e lançou fortes raízes
no resto do mundo, principalmente nos EE.UU., se transferiu com esses
dois pressupostos bem nítidos. E, pode-se até dizer que, em grande parte,
eles influenciam ainda os dias de hoje. Sem uma compreensão mais nítida
desses fatores, torna-se difícil discernir e criticar as diferentes visões
existentes na contemporaneidade.
Sintetizando essa primeira etapa, podemos dizer que, no
desenvolvimento da Psicologia Social, as principais questões foram:
− A psicologia surge como uma ciência experimental, dentro
dos pressupostos das Naturwissenchaften. O próprio Wundt,
contudo, fundador dessa psicologia experimental, criou
também uma psicologia dentro das Geisteswissenchaften, a
qual chamou de Psicologia Social, mas o problema de Wundt
é que ele separou as duas;
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− No espírito da época, nas pegadas de Descartes, a Psicologia
Social que se estruturou, foi uma psicologia individualista,
onde o social não passava de soma de individuais.
− Há, contudo, tentativas de criação de uma Psicologia Social que
desse conta do imaterial, psíquico, simbólico, representacional:
− A primeira delas são os 10 volumes de Wundt de Psicologia
Social e os estudos de Durkheim sobre representações
coletivas. Se Wundt, por um lado, separou o social do
individual, Durkheim, por sua vez, “corporificou”, “reificou”
seu socia, suprimindo o individual. McDougall fez uma
interessante tentativa de ligar o fisiológico (biológico) e o
coletivo em seus estudos sobre a mente grupal vendo o
instinto como base da vida em sociedade. Mas sua tentativa
morreu na casca; era muito difícil poder vingar, em função
do peso da mentalidade da época.
− Uma segunda, e para mim muito importante, foi a de Mead
com a teorização sobre o self. Ele construiu uma primeira
síntese dialética entre o individual e o social, e entre o
biológico e o psíquico: pensou o instinto como base da vida
em sociedade, mas admitiu a realidade do simbólico
(psíquico, mental): essa síntese seria o self.
− Para Farr (1998, pg. 76), também Freud, ter-se-ia aproximado e
tentado construir essa síntese com seus conceitos de “id, ego,
superego”, que estariam entre sua primeira tópica do pré-
consciente, consciente e inconsciente, por um lado, e de uma
crítica psicanalítica da cultura e da sociedade, por outro.
Muitos se surpreendem com essa afirmação de Farr. Não
tenho posição formada sobre isso, mas é pelo menos, uma
hipótese que mereceria uma discussão mais aprofundada.
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− Ao final do séc. XIX e início do séc. XX, para se poder dar
conta do social, houve uma tentativa de criação de uma
psicologia “coletiva”, das massas e da cultura. Tal psicologia,
contudo, não foi à frente devido, é meu entender, ao fato de
ter sido identificada como “irracional” e perigosa.
− Quando a Psicologia foi “transportada” da Alemanha aos
EE.UU., foi levada como uma psicologia fisiológica, nada além
da pele (behaviorismo). Quando transpôs a barreira da pele
tornou-se psíquica, imaterial, mental, mas permaneceu, contudo,
absolutamente individual. Não conseguiu incorporar o social.
− Dos EE.UU. ela passou a outros continentes como a América
Latina e a Europa.Com respeito à Europa, foi montada uma
espécie de “Plano Marshall acadêmico”, numa investida
conquistadora de implantar a psicologia de viés americano.
Tal investida sofreu, contudo, principalmente por parte de
Moscovici (1972), na França, fortes reações. Ele começou a
estranhar e a duvidar que sua tendência individualista
pudesse dar verdadeiramente conta do “social”. É nesse
contexto que começa a pesquisar e a pensar numa nova teoria,
no caso, das Representações Sociais, que procurasse superar
dicotomias, como entre o individual e o social, o externo e o
interno, o estruturante e o estruturado, o processo e a
estruturação e, ao mesmo tempo, pudesse dar conta também de
novos contextos sociais. É o que veremos a seguir.
2. A estruturação da Psicologia Social:
a incorporação de novos elementos
(A Psicologia Social tomando corpo)
Nessa segunda etapa de nossa caminhada, passo a discutir a
Psicologia Social a partir da década de 1950, principalmente a partir de Serge
Moscovici. Mostro como a Psicologia Social começou a questionar a si mesma
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e como novas dimensões foram sendo incorporadas a ela, redimensionando sua
compreensão e abrangência. Percorro os seguintes pontos:
2.1) O “ambiente” da Psicologia Social na década de 1950
2.2) O “social” da Psicologia Social
2.3) O “simbólico” da Psicologia Social
2.1. O “ambiente” da Psicologia Social na década de 1950
Ao final da década de 50 e inícios da década de 60, Moscovici
começa a questionar a Psicologia Social existente na Europa, mostrando-se
insatisfeito com o que lá existia e se fazia. Inicia fazendo uma avaliação
geral da situação da Psicologia Social na Europa. Em seu trabalho de 1972,
“Sociedade e Teoria em Psicologia Social”, ele confessa a terrível situação
em que eles se encontravam na Europa com respeito à Psicologia Social:
“Em frente de nós, atrás de nós e ao nosso redor, havia —e ainda há— ‘a
Psicologia Social americana’” (2002, p. 111). E continua dizendo que,
apesar do respeito que tinham por ela, sua aceitação estava se tornando
progressivamente mais difícil, pois seus princípios “nos são estranhos,
nossa experiência não condiz com a deles, nossa visão de homem, de
realidade e de história é diferente” (p.112).
E ele vai assim desfilando, exemplo atrás de exemplo, as
características dessa “Psicologia Social da ingenuidade” que não dava conta
do “social” e que excluía a contradição. O que faltava à Psicologia Social,
segundo ele, eram as contribuições de Marx, Freud, Piaget, Durkheim: a
questão das desigualdades, o fenômeno da linguagem, a força das ideias na
construção da sociedade, a realidade social. Ela deveria ser uma ciência
mais do movimento, do que da ordem. E ainda:
a ciência é uma instituição social e, como tal, é um objeto de análise
como qualquer outro, da mesma forma que os experimentos e seus
sujeitos estão engajados na interação social, como todos os demais;...
qual a finalidade da comunidade científica: apoiar a ordem, ou
criticá-la e transformá-la?
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Procurando dar um exemplo de como uma ciência pode se tornar
reducionista e servir para fins ideológicos, Moscovici comenta como alguns
economistas projetaram as normas e atitudes de uma sociedade capitalista,
baseados nos processos de troca. Suas reconstruções “psicológicas”
pertencem a este contexto; a ação humana é concebida como determinada
pelos imperativos de uma economia de mercado e de lucro. E comenta:
Mas há ainda mais que isto. Tudo o que é social é simplesmente
excluído deste tipo de economia. Investimentos coletivos, gastos que
não são canalizados através do mercado, ou da chamada economia
externa, não estão incluídos nos seus dispositivos... os objetivos se
tornam definidos dentro de uma perspectiva individualística, são
considerados como ‘dados’ na natureza do Homem. Como resultado de
tudo isto, esta versão da economia concebe uma imensa área da conduta
humana como irracional, uma vez que, dentro de sua prática, tudo o
que vai além do individualismo e tudo o que diverge um pouco de um
modelo de capitalismo, entra, por definição, no domínio da
irracionalidade (MOSCOVICI, 2002, p.125–126, grifos no original).
Outro exemplo provocativo mostra preconceito contra o social, ou o
grupo. Moscovici analisa como nos estudos de risco se descobriu que,
quando em grupo, as pessoas tomam atitudes de maior risco do que quando
sozinhas. A conclusão a que se chega é: logo, o grupo é “perigoso”. Mas o
que se esquece de ver é que tais pessoas podem tomar atitudes mais
arriscadas exatamente porque discutiram a questão, isto é, estabeleceram
uma interação; e com base nessas discussões, arriscaram mais.
As duas conclusões a que Moscovici chega, não diferem do que
vimos na primeira parte desse trabalho: uma racionalidade que é puramente
cartesiana, mecânica; e cálculos (práticas) que são puramente individuais,
limitados às relações entre, no máximo, dois indivíduos.
Os trabalhos e discussões que se faziam presentes nessa Psicologia
Social podiam se resumir em dois enfoques principais.
Um primeiro que dava ênfase ao objeto, o que interessava era o
objeto, que podia ser diferenciado em diferentes tipos até mesmo em
social e não social, mas o sujeito seria sempre igual, indiferenciado. Por
39
exemplo: na pesquisa psicossocial de influência sobre as pessoas, o que
importa é a relevância dos objetos que podem causar estímulos diferentes
nos sujeitos: importância das pessoas que falam, sua credibilidade etc. Um
segundo enfoque dava ênfase ao sujeito, onde esse era classificado em
inúmeros tipos diferenciados, mas o objeto não interessava era sempre o
mesmo, indiferenciado. Nesse caso, em estudos sobre influência social
não interessa quem fala, mas as características de quem recebe : se é
sugestionável, crítico etc.
É nesse ponto que, a nosso ver, a Psicologia Social dá um salto. Um
novo tipo de “social” se faz presente na Psicologia Social.
2.2. O “social” da Psicologia Social
Temos aqui um novo enfoque, que vem questionar teórica e
epistemologicamente os dois anteriores: tudo tem a ver com tudo, não há
nada “isolado”, indiferenciado: “uma relação triangular complexa, em que
cada um dos termos é totalmente determinado pelos outros dois... o
triângulo Sujeito–Outro–Objeto é crucial para essa discussão, pois é o único
esquema capaz de explicar e sistematizar os processos de interação”
(MOSCOVICI, 2002, p. 152–3). Duas décadas depois, Bauer e Gaskell
(1999), a partir desse esquema, acrescentam a dimensão do tempo em que
esses triângulos vão se sucedendo, formando o que eles chamam de
“modelo do toblerone”: tempos dialéticos que se sucedem.
Ao discutir a relação entre indivíduo e sociedade, Moscovici diz
(2002, p.157): “a sociedade não é vista como um produto dos indivíduos,
nem os indivíduos vistos como produtos da sociedade... o problema das
relações entre ser humano e sociedade se relaciona intrinsecamente com
ambos os termos do rapport”.
Aprofundando essa afirmação de Moscovici, podemos mergulhar um
pouco mais na discussão do social e dos diferentes tipos de social. Isso
porque há vários sociais, e o conceito de “social” pode, também, produzir
equívocos, necessitando de uma análise criteriosa. O exame das diferentes
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teorias e autores mostra que podem ser identificadas ao menos três
concepções de social.
Dentro de uma concepção individualista, cartesiana, onde o ser
humano é entendido como um “indivíduo” (indivisum in se, sed divisum a
quolibet alio), falando em termos bem precisos, não existe o social; o que
existe é apenas o individual e o social, nessa visão, é uma soma de
individuais. Tanto as pessoas, como os objetos, passam, consequentemente, a
ser realidades discretas, separadas. Desse modo, somando-se diversos
individuais, temos um grupo, que seria um amontoado de elementos, mas
onde cada ser, indivíduo, mantém sua unidade e singularidade, sem se
relacionar com os outros. Dentro dessa cosmovisão, há um entendimento
específico do que seja “público”, ou “bem comum”: público é a soma de
indivíduos; o “bem comum” passa a existir quando os diversos indivíduos,
separadamente, estão bem. Foi por isso que Jeremy Bentham, junto com
muitos teólogos do fim do séc. XIX argumentaram que, à medida que cada
indivíduo competisse, procurasse seu próprio interesse e bem-estar, os
problemas sociais automaticamente se resolveriam; não precisava o Estado
intervir. O Estado, para um autêntico liberal, só tem sentido para defender os
interesses particulares dos indivíduos. Assim também os outros serviços,
como a segurança, a saúde, a educação. Tais realidades, para eles, são sociais
apenas por estarem juntos. Na verdade são uma soma de realidades discretas.
Já numa cosmovisão totalitária e coletivista, onde o ser humano é
assumido como “uma peça da máquina”, ou “uma parte de um todo”, o
social é a grande, única e principal realidade existente: dele deriva o sentido
para tudo o mais. O social tem o mesmo status de realidade que “coisa”; ele
é, une chose, como dizia Durkheim. O grupo e o coletivo, são a verdadeira
e única realidade. Os elementos desse grupo (as pessoas) passam a ter
importância a partir de sua pertença aos grupos. As pessoas são “peças” da
máquina: o que vale é a máquina. Não importa a consciência individual:
importa a consciência coletiva.
41
Na concepção que assumimos e defendemos aqui, em consonância
com a afirmativa de Moscovici, acima citada, o social é entendido como
uma relação, isto é, algo que não pode ser entendido sem outros; ele
implica, em sua própria definição, outros. Possui, pode-se dizer, um
direcionamento intrínseco, do próprio ser, em direção a outro(s) (relatio:
ordo ad aliquid). É singular e, ao mesmo tempo, múltiplo. É esse o social
que constitui o processo de mediação na complexidade entre o mundo interno
e externo, entre o individual e o coletivo, entre o psíquico individual e a
realidade psíquica social externa. Ele é o “entre” de todos esses processos.
Esse conceito de social=relação é útil, do mesmo modo, para o entendimento
do que sejam os grupos: eles se constituem a partir de relações; são as
relações a matéria prima de um grupo (GUARESCHI, 2004).
2.3. O social “simbólico” da Psicologia Social
Há outro aspecto importante que deve ser levado em consideração
para se compreender com clareza e discernimento específico da Psicologia
Social. É necessário discutir alguns equívocos que são muito frequentes ao
se usar termos como “cognitivo” e “simbólico”.
O comportamento simbólico foi, muitas vezes, confundido com os
processos psicológicos gerais chamados de “cognitivos”. Com isso,
mascara-se a distinção entre os dois termos. Quando os termos “afetivo”,
“motor motivacional” são substituídos pelo termo “cognitivo”, o
pressuposto subjacente é que não se fez mais do que passar de um nível a
outro. O foco de análise permanece ainda no indivíduo, como uma unidade
dentro do esquema clássico do estímulo–resposta.
Bem diverso é o pressuposto ao se falar do “simbólico”. Os aspectos
fundamentais do comportamento simbólico consistem de suas
manifestações verbais e não verbais, que são compreendidas e se tornam
“visíveis” somente em relação aos significados comuns que eles adquirem
para os que recebem as mensagens e para aqueles que as emitem.
Comportamento simbólico é fundamentado e torna-se possível pelas
normas sociais e regras e por uma história comum que reflete o sistema de
42
conotações implícitas e pontos de referência que, invariavelmente, se
desenvolvem em todo ambiente social.
Por isso, a Psicologia Social é uma ciência do comportamento
somente se isso for entendido como significando que seu interesse consiste
em um modo muito específico deste comportamento —o modo simbólico.
É isso que distingue a Psicologia Social da Psicologia geral. A grande
diferença é que o simbólico é sempre social; não existe simbólico
individual. Psicologia Social trata do simbólico que é um psíquico social.
Essa a Psicologia Social que foi tomando corpo a partir da década de
1950, trazendo novos elementos que, de um modo ou outro, foram
ampliando seus primeiros passos. Várias teorias coexistem hoje. Seria
importante um enfrentamento teórico entre essas teorias. Fica aqui um
desafio para que isso se concretize.
Há uma afirmativa de Durkheim (1912/1995, p.440) que pode servir
como um desafio a nossas elucubrações: “Um homem que não pensa com
conceitos não seria um homem, pois ele não seria um ser social. Restrito
apenas a percepções individuais, ele não seria diferente de um animal”. Para
Moscovici (2002, p.180), essa afirmativa traça uma fronteira clara entre a
psicologia individual e a Psicologia Social. O papel da Psicologia Social
seria, então, conseguir uma compreensão mais profunda dessas representações
públicas e culturais.
Concluindo
Voltemos ao início de nossa conversa. A proposta era de enfrentar a
Psicologia Social, perguntando-se pelo seu surgimento, sua atribulada
história, sobre as teorias que tentaram dar conta desse campo híbrido entre o
indivíduo e a sociedade. Fomos avançando, mostrando como os diferentes
enfoques acrescentavam e, ao mesmo tempo, reduziam seu poder explicativo.
Farr (1998) mostrou, em sua análise histórica já clássica, que “a
individualização do social” tomou distintas correntes teóricas e configurou,
43
de maneira diferente, a Psicologia Social durante o séc. XX. Devido a ideias
teóricas e/ou empíricas, desenvolvidas pelo comportamentalismo,
positivismo, cognitivismo, a natureza social do ser humano foi mal
entendida, ignorada, ou mesmo rejeitada. As pessoas foram tratadas como
átomos, separados artificialmente de seus contextos sociais.
Na esteira de Farr, sem querer fechar a reflexão, diria que a Psicologia
Social, a meu ver, deveria se perguntar pelos possíveis reducionismos que, de
um modo ou outro, foram se colocando em seu caminho, tais como:
− O comportamentalismo, que só via, na Psicologia Social, o
que chega até à pele, não passando daí sem poder dar conta
do psíquico e principalmente do simbólico, sempre social;
− O sociologismo ou um estruturalismo sistêmico, que
materializava os fenômenos não permitindo que se visse sua
historicidade e sua relatividade, excluindo, assim, o próprio
ser humano de suas análises. Como dar conta do histórico, de
que os fenômenos sociais são “construções simbólicas”?
− Visões individualistas dos fenômenos, que não conseguem dar
conta do “social”, chegando ao máximo à “soma de
individuais”. O grande número de fenômenos, por um lado e a
existência apenas de um outro, não são suficientes para
garantir o “social”; a numerosidade pode quando muito
construir um social que não passa da soma de individuais; e o
simples fato de existir um “outro” de nada poderá servir se
esse “outro” for também um indivíduo isolado e não existir
uma relação intrínseca entre ambos; entre dois indivíduos pode
existir uma relação que seja apenas extrínseca e ocasional.
Como dar conta dos fenômenos “sociais” e imateriais, como
os mitos, as religiões, as crenças, as representações sociais?
44
− O cognitivismo que esqueceu o “social” e que reduziu o ser
humano a um computador mais aprimorado. Como pode ele
dar conta do social, na produção do conhecimento?
− Certo construcionismo, no qual, muitas vezes, não se vê
como possa dar conta do fato de que os fenômenos implicam
alguma constância e relativa institucionalização das práticas
humanas, que possuem espessura e dureza (“thicken and
harden” Jovchelovitch, 2007, p. 49), através de processos de
transmissão e propiciam aos ambientes simbólicos sua
dimensão de “tidos como indiscutíveis” (“taken for granted”)
e seu caráter factual.
Ficam essas considerações e questionamentos para aprofundarmos
nossa reflexão sobre o que é mesmo uma psicologia social. É uma
contribuição despretensiosa, que poderá ser muito bem aprofundada por
algum colega interessado na questão.
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GUARESCHI, P. Psicologia Social Crítica como prática de libertação.
Porto Alegre: Edicpurs, 2004.
JOVCHELOVITCH, S. Knowledge in Context representation, community
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45
MOSCOVICI, S. L’Age des Foules: um traité historique de psychologie des
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Petrópolis: Vozes, 2002.
6)o i-á - W-0*-&
f/U â l ■' á J ^ U y y v jÇ jO
editora
unesp
Os paradigmas da ciência e suas influências na constituição do
sujeito:
a intersubjetividade na construção conhecimento
Renata Rodrigues de Araujo
SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros
CAMARGO, MRRM., org., SANTOS, VCC, collab. Leitura e escrita como espaços autobiográficos
deformação [online], São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 140 p. ISBN
978-85-7983-126-3. Available from SciELO Books <http.7/books.scielo.org>.
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O S PARADIGMAS DA CIÊNCIA E SUAS
INFLUÊNCIAS NA CONSTITUIÇÃO DO
s u j e it o : a in t e r s u b j e t iv id a d e n a
CONSTRUÇÃO CONHECIM ENTO
Renata Rodrigues de Araújo1
6
Introdução
Tendo em vista a possibilidade de contribuir com uma publi­
cação que se aproximasse de uma perspectiva autobiográfica, ao
elaborar este artigo, volto, de certa forma, a ouvir e repensar naque­
las vozes que nortearam meus pensamentos em tomo da questão
da constituição de sujeitos. De um lado, as vozes daquelas mu­
lheres que muito gentilmente contribuíram para a realização da
minha pesquisa e, de outro, as sábias palavras da minha professora
orientadora, que me proporcionaram o encontro com as ideias de
Bakhtin, Vygotsky e Morin, entre outros.
Minhas reflexões iniciais, então, ao conceber este artigo, reca­
íram sobre o que os sujeitos envolvidos em minha pesquisa2de­
ram-me a ver. Hoje, como professora do Ensino Fundamental e do
1 Possui mestrado em Educação pela Unesp (2006). Atualmente é docente
da Faculdade Padre João Bagozzi, professora de Metodologia Científica na
Faculdade Studium Teologicum e professora do Ensino Fundamental na rede
pública municipal de Curitiba.
2 Pesquisa de mestrado intitulada: Sobre noções de constituição do sujeito: mulhe­
resalfabetizandas têm a palavra, defendida em março de 2006, sob aorientação
da professora Maria Rosa R. M. Camargo
92 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VIVIAN C. C. DOS SANTOS (COLAB.)
Ensino Superior, estou convencida de que não há outra maneira de
repensar a constituição desses sujeitos, situados no tempo e no es­
paço, por outra via que não a dos paradigmas epistemológicos que
norteiam a prática docente, objeto de preocupação das disciplinas
que ministro, Pesquisa em Educação e Metodologia Científica.
O retomo do olhar sobre algumas questões, com as quais mc
preocupei por ocasião do mestrado, e a possibilidade de fazê-lo,
com base em minha experiência como professora, remetem-me à
seguinte indagação: que paradigma epistemológico da ciência daria
conta de conceber uma relação, mediada pela linguagem, entre os
conhecimentos científicos e os conhecimentos que aquelas mulhe­
res, sujeitos da pesquisa, demonstravam na resolução de problemas
cotidianos e que, ao fazê-lo, me davam subsídios para pensar sobre
noções de sujeito?
Recordando as empolgantes atividades desenvolvidas pelo Pro­
jeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA)’ e percebendo as
interações que ali se realizavam, por um lado, educandos, bolsistas
e pesquisadora e por outro, bolsistas, pesquisadora e orientadora,
proponho-me o prazeroso trabalho de aprofundar a reflexão de tais
questões.
Sendo assim, tentarei uma reaproximação com o tema da pes­
quisa, lançando um olhar paia as mudanças dos paradigmas da
ciência e o papel da linguagem na mediação desse processo. Para
tanto, inicio minha reflexão percorrendo o caminho histórico das
mudanças paradigmáticas da ciência.
A evolução dos paradigmas epistemológicos
Sabemos que a sociedade de hoje é fruto de históricas transfor­
mações vividas pelos paradigmas da ciência. Assim como a história
da humanidade, aciência também é um processo dinâmico e inaca-3
3 Projeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), coordenado por Maria Rosa
R. M. Camargo.
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 93
bado, que promove constantes mudanças de valores, crenças, con­
ceitos e ideias. Neste sentido, é notória a dificuldade de se acom­
panhar tal processo. O que seria da sociedade hoje se a ciência não
tivesse passado por tantas transformações? Se a forma como conce­
bemos a verdade ainda estivesse calcada nas origens sobrenaturais,
religiosas, ou até mesmo na descrição matemática dos fenômenos?
Como perceberíamos nossa constituição no contato com o outro?
Como explicaríamos nossas incertezas, inseguranças e angústias
frente às imprevisibilidades da vida contemporânea?
A palavra paradigma, segundo Vasconcelos (2002), tem sua
origem do grego parádeima, que significa modelo ou padrão. Assim
sendo, o homem lê o mundo conforme seus paradigmas e consegue,
com essa "lente”, distinguir o certo e o errado, ou ainda, saber o que
é cientificamente aceito ou não pela comunidade. Os paradigmas
sempre orientaram nossas escolhas, nossos olhares.
A ciência é uma das formas, não a única, do conhecimento pro­
duzido pelo homem no decorrer de sua história, sendo, portanto,
determinada pelas condições materiais do homem. Nas sociedades
mais remotas, a ciência caracteriza-se por ser a tentativa do homem
compreender e explicar racionalmente a natureza. Esta forma de
compreender e explicar é que muda de tempos em tempos.
O primeiro paradigma da ciência é marcado por um período ca­
racterizado pelos mitos, cujas explicações dos fenômenos naturais
eram atribuídos ao divino, aos deuses, e a verdade era uma revela­
ção divina incontestável. Segundo Cardoso (1995), nesse momento,
o homem acreditou ser "capaz de explicar e organizar a natureza, a
vida social e o mundo psíquico, tendo como bases paradigmáticas a
existência de dois mundos: o mundo real e outro sobrenatural.
Posteriormente, esse paradigma deu lugar a outro pensamento
que marcou os séculos VIII a VI a.C. na Grécia Antiga, denomi­
nado de Era da Teoria do Conhecimento Clássico. Nesse período
acreditava-se que natureza tem uma ordem, uma causa e um efeito
e tudo podia ser explicado como parte dela, pois a verdade está nela
contida. A verdade, portanto, se daria pelo uso da razão. Desta
forma, a ciência caracteriza-se pela abordagem racional, discur-
94 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG ) •VIVIAN C. C DOS SANTOS (COLAB.)
siva e demonstrativa. Nesta perspectiva, o sujeito desaparece por
completo, na medida em que a razão elimina o mundo sensível e o
mundo das percepções, desconsidera as circunstâncias e o contexto.
Com o surgimento da Teoria do Conhecimento, do século I ao
século XIII, na Idade Média, o homem é concebido como criatura
de Deus e se define na relação como absoluto. A verdade se dá pela
fé, pelas Escrituras Sagradas.
Essa visão Teocêntrica é substituída no momento seguinte pela
visão Antropocêntrica. Com as ideias de Copérnico e Galileu acon­
tece a revolução científica em que, segundo Capra (1982), a ciência
enfrenta a Igreja em um dogma de mais de mil anos. Sua maior con­
tribuição assenta-se na premissa de que o homem e a Terra não eram
o centro do Universo e que aTerra era quem girava em volta do Sol.
Acaba, portanto, com a visão de que o homem é o centro absolu­
to do Universo e dá origem a uma abordagem empírica de ciência.
Abordagem esta calcada nos princípios positivistas, em que só é
verdade o que pode ser observado, mensurado, quantificado, con­
trolado e reproduzido. Visão caracterizada pela descrição matemá­
tica dos fenômenos. A subjetividade era considerada como projeção
mental. O universo material e os seres vivos são reduzidos à visão de
uma máquina com funcionamento e engrenagens perfeitas, sendo
governado por leis matemáticas exatas, de acordo com Capra (1996).
Essa concepção linear e mecanicista do Universo, proposta por
René Descartes e Isaac Newton, passa a se edificar na lógica ra-
cionalista, negando a lógica do sagrado e a subjetividade. Nesse
modelo de ciência, segundo Capra (1996), o homem é o senhor do
mundo, pois se dá o direito de transformar, explorar, servir-se e
escravizar a natureza.
Somente no final do século XVIII e início do século XIX é que se
buscou, com o apoio da psicologia, compreender a personalidade e
inteligência humanas, dando origem à teoria comportamental.
Com essa abertura, a sociologia também tenta explicar o com­
portamento social do homem, a partir da proposta de Augusto
Comte, na qual o conhecimento está fundamentado no objeto e não
no sujeito. Desta forma, as verdades devem ser fornecidas pela ex-
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 95
periência e por fontes seguras e fidedignas, e devem ser, portanto,
objetivas, impessoais e neutras.
A crença na objetividade concebe uma versão única do conheci­
mento (universo) e lança um olhar objetivo do fenômeno tal com
ele se apresenta na realidade. Para tanto, o cientista deve observar
os fenômenos de maneira isenta, com uma visão abrangente e obje­
tiva, não se envolvendo com sua subjetividade, ocultando suas opi­
niões. A separação entre o conhecedor e o objeto de conhecimento
permitiria a constituição de uma subjetividade reduzida ao uso da
razão, tomando o cientista o fiador de todas as certezas.
Este paradigma levou à supervalorização da razão e consequen­
temente, à fragmentação do conhecimento. Esta fragmentação atin­
giu a educação de tal forma que até hoje não conseguimos superar
essa visão. Qualquer tentativa de superação enfrenta dificuldades
imensas frente à departamentalização das instituições educacio­
nais, a divisão dos conhecimentos em áreas, disciplinas e cursos,
produzindo assim, os especialistas, os detentores do saber. Saber
este que só é válido se institucionalizado.
O paradigma tradicional na educação
Por influência do modelo newtoniano-cartesiano, as práticas
pedagógicas docentes ainda consideram o sujeito que aprende, o
aluno, como aquele ser desprovido de luz, e a tarefa do professor
resume-se em transmitir o conhecimento. A pedagogia tradicional,
tão bem denominada por Paulo Freire como educação bancária,
desconsidera o aluno como sujeito e passa a considerá-lo como
um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer forma de
expressão. Ele é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando sua
fala, impedido de expressar suas ideias.
A ação docente ocupa-se ainda em desenvolvei' mecanismos que
levem o aluno a reproduzir o conhecimento historicamente acu­
mulado e repassado como verdade absoluta. A fragmentação dos
conhecimentos, expressa nos currículos lineares, leva o professor
96 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VIVIAN C C. DOS SANTOS (COLAB.)
a ocupar o centro do processo de ensino e aprendizagem, ou seja,
ela é o detentor do saber, o dono da verdade absoluta e, portanto,
inquestionável. O aluno, por conseguinte, acaba sendo premiado
por seguir as regras, impostas pelo professor e pela “boa conduta’’.
Ao mesmo tempo, ao desobedecer às regras, é reprimido e punido
pelos “erros” e, em alguns casos, com esta visão austera, o docente
chega a torturar o aluno de maneira física ou psicológica:
O que eu lembro é que tinha palmatória. Eu lembro que che­
guei a ficar de castigo. A professora me colocou de joelho em cima
do milho, né? Eu acho que eu fiquei de castigo umas duas vezes
no mês. [...] Eu acho que é por isso que eu não fui mais pra escola,
porque nos primeiros dias que eu fui eu sofri muito nas mãos da­
quela professora. Ela era terrível e é piorisso que eu não voltei mais.
[...] Eu vi aquela régua grande, redonda e não fui mais, fiquei com
medo. (entrevista com Francisca em 17nov. 2004)
A fala de Francisca expressa uma concepção de educação abso­
lutamente pautada no modelo tradicional que não nos cabe mais
reproduzir. Hoje, o sujeito e tudo que ele traz consigo, também
devem ser assumidos como critérios de validade científica.
Não obstante, alunos e professores, dentro deste padrão, passa­
ram a ser vistos como máquinas ou como partes de uma engrena­
gem. Concepção caracterizada pela desumanização da educação.
O reducionismo e a linearidade do processo educativo provocaram
a p>erda da sensibilidade, da estética, dos sentimentos e valores que
norteiam a construção do conhecimento em função da supervalori-
zação do uso da razão. Gerou, portanto, uma concepição de vida em
sociedade pautada na competitividade, isolamento, individualismo
e materialismo exacerbado.
Também ruíram os alicerces religiosos que davam sustentação
aos valores, repercutindo num modelo de vida e de ciência materia­
lista, determinista, destruidora, cheia de certezas, que ignora o diá­
logo e as interações que existem entre os indivíduos, entre ciência e
sociedade, técnica e pxdítica. (Moraes, p.43)
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 97
A humanidade mergulhou num processo de fragmentação, de
automatização e desvinculação, alienando-se da natureza, do traba­
lho e de si mesmo, deixando o conhecimento, a cultura e os valores
divididos, fragmentados.
Contudo, não podemos negar que esse mesmo modelo de pen­
samento foi a grande mola propulsora do desenvolvimento cien­
tífico-tecnológico da humanidade. Apesar de muito questionado,
principalmente no âmbito da educação, o pensamento cartesiano
ou visão tradicional - possibilitou grandes saltos evolutivos na his­
tória das civilizações. Neste sentido, permitiu a democratização
dos conhecimentos científicos, seja pelas técnicas de construção de
conhecimentos novos ou pelo surgimento do espírito investigativo,
cuja objetividade proporcionou a validação científica e pública do
conhecimento.
No entanto, há uma concepção de ciência que não se encerra
no conhecimento, mas, se estende à constituição do sujeito, que o
paradigma tradicional não deu conta de compreender, ou ainda,
não se preocupou em considerar, um sujeito sócio-histórico do
conhecimento. Isto posto, cabe indagar novamente: que paradigma
epistemológico da ciência conceberia esta relação sujeito-objeto e
conhecimento?
Pelas limitações do modelo tradicional de ciência, que marca
grande parte do século XIX e início do século XX, desencadearam-
se muitos conflitos que colocaram em xeque os padrões de cienti-
ficidade e a produção do conhecimento. Algumas explicações da
realidade, a partir destes conflitos, nos parecem mais palatáveis,
cujas reflexões tentarei expor no item seguinte.
O sujeito, o objeto e o conhecimento: que
paradigma?
Muitos educadores e pesquisadores já perceberam que, além
dos conhecimentos e seus critérios de validade, há de se considerar
nesta relação o sujeito e o objeto como elementos indispensáveis no
98 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VMAN C. C DOS SANTOS (COLAB.)
processo de construção do conhecimento. Nasce com essa percep­
ção uma nova visão de educação, múltipla, contextuai, ligada às
condições históricas concretas do homem.
Na produção do conhecimento, o homem não se isenta do pro­
cesso representando alguma coisa externa, algo da realidade lá fora,
tampouco traduz os objetos exteriores sem qualquer significação
subjetiva. A construção do conhecimento pressupõe a objetivação
resultante das características, das convenções e das práticas linguís­
ticas que tornam possíveis as operações de pensar.
Passamos então a pensar em outro paradigma, que alguns auto­
res vão chamar de paradigma emergente ou da complexidade. Esta
forma de pensar considera o sujeito um ser complexo e integral,
ainda que ele não se mostre por inteiro. Segundo Zabala (2002),
esta depende do avanço do paradigma da ciência que impulsiona
a revisão do processo fragmentado do conhecimento na busca de
reintegração do todo.
O sujeito, quando imerso em um mundo cheio de incertezas,
contradições, conflitos, desejos e desafios só pode ser concebido,
visto com a lente da teoria da complexidade:
Porque se não partimos da organização biológica, da dimensão
cognitiva, da computação, do computo, do princípio de exclusão,
do princípio da identidade, etc., não chegaremos a enraizar o con­
ceito de sujeito de maneira empírica, lógica como fenômeno. (Mo-
rin, p.55)
A realidade complexa depende da reforma do pensamento, de
modo que ele se torne multidimensional, contextualizado e mul-
tidisciplinar. E necessário, portanto, renunciar ao posicionamento
estanque e reducionista da relação do sujeito com o universo, acei­
tando o questionamento intermitente dos problemas e possibilida­
des de resolução. Buscar-se, nesta perspectiva, ou neste paradigma,
uma transformação na maneira de pensar, de se relacionar e de agir
para investigar e integrar novas percepções. O conhecimento, neste
sentido, é concebido como mudança de percepção. E esta percepção
não muda só no espaço consagrado da escola:
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 99
Eu parei de estudar porque não tinha mais condições de con­
tinuar, não tinha a 5*série e meu pai não ia deixar a gente sair pra
estudar longe de casa. [...] Tudo que eu sei, eu posso dizer que eu
aprendi lá, naquela escola. [...] E gosto até hoje de matemática, mas
é umacoisaque sevocênão prática, vocêacabaesquecendo, né? Mas
eu acho quejá estou melhorando, por ser tesoureira da cooperativa,
mexo muito com conta, porque eu estou sempre precisandocalcular
alguma coisa. Estou relembrando muita coisa que estava esquecen­
do, esse ponto que eu acho tão importante, que é a matemática, eu
estava ficandoesquecidajá. Pra mim está sendo muito bom. É como
se fosse uma escola mesmo. Eu estou aqui na cooperativa como se
estivesseestudando, porque a gente não está recebendo, né? Então é
como seestivesse numa escola, eu aprendo muitas coisas. E também
assim, aprender a parte financeira, isso pra mim está sendo muito
bom, cada dia eu estou aprendendo uma coisa a mais. Então é como
se eu estivesse na escola, porque eu estou aprendendo muito aqui,
muitas coisas que eu não sabia. E uma coisa que eu vou poder levar
comigo, (entrevista com Erautina, em 25 nov. 2004)
E possível entender o relato acima recorrendo às palavras
de Capra (1996), quando diz que: "Há redes aninhadas dentro de
outras redes”. Neste sentido, o mundo é concebido como uma rede
de relações envolvendo conexões, interconexões, movimento, flu­
xo de energia, inter-relações em constante processo de mudança
e transformação. Portanto, o pensamento complexo, dinâmico e
processual acompanha a noção de rede, que tem sido a chave para
os recentes avanços científicos.
Buscar a perspectiva do sujeito que vive nesta rede é uma pos­
sibilidade de compreender as mudanças paradigmáticas e chegar
a uma proximidade maior ao paradigma emergente. Para tanto é
necessário refletir sobre o processo que permite a efetivação desta
rede de relações, o processo linguístico.
Isso nos leva a uma aproximação com as ideias de Bakhtin,
quando este nos diz que o homem só existe se inserido nas condi­
ções socioeconômicas objetivas, como um membro de um grupo
social, de uma classe. O fato de ele simplesmente nascer (fisiolo-
gicamente) não garante seu ingresso na história, ele precisa nascer
novamente, isto é, nascer socialmente. Assim, é por meio dessa
ligação social e histórica, mediada pela linguagem, que se define o
conteúdo da ligação histórica do homem à vida.
Na constituição da consciência, Bakhtin considera como ele­
mento central da vida mental a linguagem, enfatizando o discurso
interior. Ele destaca o valor da palavra na interação entre os indiví­
duos. Consciência e pensamento para ele são tecidos com palavras e
ideias que se lançam na interação com o outro.
Nesse sentido, o eu só existe a partir do diálogo com os outros
eus. Ele depende dos outros eus para definir-se e ser autor de si
mesmo:
Acontecem muitas coisas boas porque cada dia eu aprendo uma
coisa nova. Hoje é muito diferente daquela época, eu adoro ir pra
escola. Eu já fiz muitas amizades na escola. As minhas professoras
são maravilhosas, graças a Deus.[...]Eu não tive estudo, também
não tive infância porque a gente só tem infância quando a gente
tem escola, tem estudo. É na escola que a gente faz amizade, você
conhece muita gente e se você não vai pra escola, você não conhece
ninguém. Se você só fica em casa, não vai pra escola, não faz amiza­
des. Fica sozinho, (entrevista com Francisca em 17 nov. 2004)
1 0 0 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VMAN C. C DOS SANTOS (COLAB.)
Do sujeito: capacidade interacional e a linguagem
O sistema da maior importância dentre todos os signos é a lin­
guagem humana. A língua, do ponto de vista bakhtiniano, é um
fenômeno histórico e não pode, de forma alguma, ser estudada
fora do contexto social, sem suas vinculações sociais. Para Bakhtin
(1988), a língua tem sua vida e evolução histórica na comunicação
verbal concreta.
Só há compreensão da língua dentro da sua qualidade contex­
tuai: No contexto real da sua enunciação é que acontece a concreti-
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 1 0 1
zação da palavra. O sentido da palavra é determinado pelo seu con­
texto. Como existem infinitos contextos, existem também infinitos
significados de uma palavra.
A língua enquanto meio vivo e concreto onde vive a consciên­
cia do artista da palavra, nunca é única. Ela é única somente como
sistema gramatical abstrato de formas normativas, abstraída das
percepções ideológicas concretas que a preenche e da contínua evo­
lução histórica da linguagem viva. A vida social e a evolução histó­
ricacriam, nos limitesde uma língua nacional abstratamente única,
uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias
ideológicas e sociais, fechadas... (Bakhtin, 1993, p.96)
A dinâmica da língua acompanha a dinâmica da vida social. A
vida social determina, dentro das possibilidades da língua, a emer­
gência de vários mundos e esses mundos são organizados na e pela
linguagem.
Para Bakhtin (1992), a linguagem é condição primeira para o
desenvolvimento da consciência, seja ela verbal ou não verbal e
constitui uma complexa e intrincada rede de relações sociais.
A linguagem, para Vygotsky (2001), tem a finalidade de promo­
ver a relação do homem consigo mesmo e com o outro.
Bakhtin (1992) e Vygotsky (2001) concordam que o discurso
constitui a consciência a partir do diálogo e, portanto, da construção
conjunta das significações. Essa construção só é possível na inter-
locução com o outro, interlocução que pressupõe complexidade e
construção de novos conhecimentos. Encontro marcado pela lin­
guagem na interação de sujeitos, objeto e conhecimento.
Considerações finais
O homem, como ser social, constrói significado para sua exis­
tência a partir de suas experiências com o mundo, estabelecen­
do assim, a relação do EU com o TU. Relação esta carregada de
1 0 2 MARIA R. R. M DE CAMARGO (ORG ) •VIVIAN C C. DOS SANTOS (COLAB.)
complexidade e ideologias. O conhecimento, neste sentido, requer
processos de construção e reconstrução de saberes mediante a ação
do sujeito sobre o ambiente e pela relação intersubjetiva mediada
pela linguagem.
O resgate da relação sujeito - objeto - conhecimento implica
numa visão paradigmática da complexidade, resultando em proces­
sos educativos pautados em princípios da solidariedade e coopera­
ção humanas.
Não obstante, é necessário pensar em práticas pedagógicas que
considerem a diversidade de fenômenos da natureza e o ser humano
em suas multidimensionalidades, isto é, um ser dotado de múltiplas
inteligências e diferentes formas de aprender. Considerar, sobre­
tudo, não apenas o conhecimento dito científico, mas também os
que não obtiveram o “certificado de validade”, conferido por ins­
tituições científicas e que, nem por isso, deixam de existir e ou de
serem utilizados para a resolução de problemas cotidianos, tal como
são empregados pelas mulheres, sujeitos da pesquisa, para quem a
escola não é apenas um lugar destinado ao saber elaborado, mas re­
presenta também um importante espaço de interação social, onde o
eu encontra-se com o tu, numa relação constitutiva do sujeito. Ape­
sar de aquelas mulheres terem dito, no início do ano, não saberem
nada, no decorrer do período fui percebendo que elas conseguiam
resolver os problemas matemáticos propostos pelos colaboradores
do PEJA e pela pesquisadora e, além disso, escreviam e liam o tem­
po todo. Apresentavam sim, algumas, várias, significativas dificul­
dades, mas, dizer que não sabiam nada é ignorar a riqueza de trocas
que aconteceram ao longo do projeto
Além de acompanharem, a seu modo, a maior parte dos conteú­
dos abordados em sala de aula, elas traziam sugestões para as aulas
subsequentes, o que demonstra certos conhecimentos de sua parte.
Acredito que, também eu, apesar do olhar lançado ao outro,
tenha me constituído sujeito, como aquelas mulheres, pois, na inte­
ração com aquele grupo social, lancei minha palavra, voltei a minha
própria condição e pensei, pensei muito sobre minha construção,
também como sujeito da pesquisa e a do meu “ser” pesquisadora
naquele espaço.
LEITURA E ESCRITA COMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 103
Todas as reflexões propiciadas pela pesquisa permitiram-me
concluir que a escola deve pensar no conhecimento trazido pelos
sujeitos e levar o que lhe é próprio, o científico, não para se sobrepor
ao primeiro, mas, proporcionar o encontro de ambos na construção
de um novo saber. Para tanto, é necessário incorporar um paradig­
ma científico que envolva, com subsídio de um sistema Linguístico,
o sujeito - objeto - conhecimento numa relação intersubjetiva na
produção de novos significados.
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T t v t a -1
A evolução dosparadigmas tia educação. dopetisametUo científico tradiciotial à complexidade
A EVOLUÇÃO DOS PARADIGMAS NA
EDUCAÇÃO: DO PENSAMENTO
CIENTIFICO TRADICIONALA
COMPLEXIDADE
The Evolution o fthe Paradigms in the
Education: Ofthe Traditional Scientific Thought
To the Complexity
Matilda Aparecida Behrens’
Anadir Luiza Thomé Oliari2
Resumo
Oartigo trata da investigação sobre os paradigmas da ciência que caracterizam
o conhecimento e, por consequência, a prática docente e profissional.
Apresenta a evolução do pensamento científico ao longo da história da
humanidade, em especial no que se refere aos paradigmas da ciência e de sua
influência na Educação. Contempla a reflexão sobre as mudanças
paradigmáticas na evolução da ciência do pensamento cartesiano ao
pensamento complexo. A partir desta evolução histórica, propõe a
caracterização dos pressupostas do paradigma tradicional e da complexidade
e suas implicações no contexto da educação.
Palavras-chave: Evolução do pensamento científico; Paradigma tradicional;
Paradigma da complexidade; Educação.
1 Mestre e doutora em Educação- PUCSP. Diretora e professora do Programa de Pós-graduação
em Educação da PUCPR. e-mail: marilda.aparecida@pucpr.br
2 Mestre em Educação - PUCPK. Psicóloga e psicoterapeuta de família, casal e individual.
Professora e supervisora no ISBl/Londrina. e-mail: wanadir@terra.com.br
Diálogo Educ., Curitiba, V. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 53
M arilda Aparecida Behrens, A nadir Luiza Thomé Oliari
Abstract
The article isabout the investigation or. the science paradigms that characterize
the knowledge and, consequently, the academic and professional practice. It
presents the evolution of the scientific thought along the history of humanity,
specially, in what refers to the science paradigms and its influence on
education. It contemplates the reflection about the paradigmatic changes on
the evolution of the science from the Cartesian thought to the complex
thought. Since this historical evolution it proposes the characterization of the
presupposed matters of the traditional paradigm and the complexity and its
implications on the context of education.
Keywords:Evolutionofthescientificthought; Traditional paradigm; Paradigm
of complexity; Education.
Introdução
A sociedade na qual se vive é fruto de um longo processo histórico
influenciado pelas mudanças paradigm áticas da ciência. Para m elhor
contextualizar o tema, optou-se por conceituar o que vem a ser paradigma, bem
como apresentar as diferentes abordagens paradigmáticas da ciência juntamente
com os pressupostos e os fatores que contribuíram para o seu surgimento.
A busca pelo significado de paradigma permite apontar a trajetória
do desenvolvimento das ciências e do pensamento científico. E, neste processo,
assinalar as mudanças paradigmáticas que ocorreram nas diferentes eras da
história da hum anidade. A presentam -se, tam bém , os p ressupostos
epistemológicos que caracterizaram o paradigma tradicional e da complexidade,
com algumas de suas implicações no contexto educacional.
A evolução do pensamento científico
A evolução histórica mostra que os paradigmas científicos vão se
modificando constantemente no universo. Segundo Assmann (1998), não há
paradigma permanente, pois eles são historicamente mutáveis, relativos e
naturalmente seletivos. A evolução da humanidade é continua e dinâmica,
assim modificam-se os valores, as crenças, os conceitos e as idéias acerca da
realidade. Essas mudanças paradigmáticas estão diretamente relacionadas ao
olhar e à vivência do observador. Os paradigmas são necessários, pois fornecem
um referencial que possibilita a organização da sociedade, em especial da
comunidade científica quando propõe continuamente novos modelos para
entender a realidade. For outro lado, pode limitar nossa visão de mundo,
54 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
A evolução das paradigmas tia educação do pensamento científico tradicional à complexidade
quando os homens e mulheres resistem ao processo de mudança e insistem
em se manter no paradigma conservador. A aceitação ou resistência a um
paradigma reflete diretamente na abordagem teórica e prática da atuação dos
profissionais em todas às áreas de conhecimento.
A palavra paradigma tem sua origem do grego parádeima que significa
modelo ou padrão (VASCONCELLOS, 2002). O ser humano constrói seus
paradigmas e olha o mundo por meio deles, pois eles funcionam como os
"óculos” com que se efetua a leitura da realidade. Essa leitura paradigmática
possibilita o discernimento entre o "certo” e o “errado” ou do que é aceito ou
não pela comunidade científica e pela população em geral.
O termo paradigma aparece com distinção na década de setenta, por
meio da obra de Thomas Kuhn, intitulada A estruturas das revoluções científica,
na qual propõe: "Considero ‘paradigm as’ as realizações científicas
universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas
e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência”
(KUHN, 2001, p. 13). Em outro momento, refere-se ao conjunto de crenças e
valores subjacentes à prática científica. Segundo o autor, quando os fenômenos
não se encaixam dentro deste padrão ou modelo, ocorrem as anomalias,
gerando crise na ciência, condições para as revoluções científicas. Decorrentes
do sinal de maturidade científica surgem as novas descobertas que podem
gerar o surgimento de um novo paradigma (KUHN, 2001).
Essa mesma idéia foi reforçada por Cardoso (1995), quando afirma
que a crise paradigmática provoca mal-estar na comunidade científica, mas,
por outro lado, faz emergir para alguns cientistas a consciência do momento
oportuno para uma profunda renovação de suas concepções. A mudança de
paradigma é um processo difícil, lento e a adesão ao novo modelo não pode
ser forçada, pois implica na mudança e até na ruptura de idéias, conceitos e
antigos valores. Segundo Morin (2000, p. 25), o processo de mudança provoca
o colapso de toda uma estrutura de idéias, pois "O paradigma efetua a seleção
e a determinação da conceptualização e das operações lógicas. Designa as
categorias fundamentais da inteligibilidade e opera o controle de seu emprego”
c, acrescenta "Assim, os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo
paradigmas inscritos culturalmente neles”.
Caminhada histórica dosparadigmas da ciência e seus reflexos no
conhecimento
As mudanças de paradigmas ocorrem de tempos em tempos e
acompanham a linha histórica da humanidade. Para melhor compreender estas
Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 55
Marüda Aparecida Behrens, Auadir íuxza Tbomé Oliari
mudanças, optou-se por apresentar as diferentes visões históricas do
conhecimento e sua influência na ciência e na educação.
Na Pré-história, todos os fenômenos da natureza eram atribuídos aos
deuses, logo, a verdade era sobrenatural, revelada por inspiração divina. O
acesso à verdade era desencadeado por meio de ritos ordenados por alguns
poucos iniciados. A população e eles mesmos acreditavam que tinham o poder
de contato com os deuses. Este período caracteriza-se pelos mitos, o que
acaba se refletindo na proposição do conhecimento. Segundo Vasconcellos
(2002), o mito ou “mythos”é uma forma de conhecimento inspirada pelos
deuses, sem preocupação de colocá-lo à prova. É nesta era que a humanidade
constrói seu primeiro paradigma da ciência, no qual acredita ser capaz de
explicar e organizar a natureza, a vida social e o mundo psíquico, tendo como
bases paradigmáticas à existência de dois mundos: o mundo real e outro
sobrenatural (CARDOSO, 1995).
Nos séculos VIII a VI a.C, na Grécia Antiga, aparece a Era da Teoria
do Conhecimento Clássico. Nesta concepção, a natureza tem uma ordem, uma
causa e um efeito e tudo se explica como parte da natureza, pois a verdade
está nela contida. Neste sentido, a busca de verdade se dá pela razão. A
descoberta da razão, do logos, decorre do reconhecimento pelos gregos de
que a razão, a alma racional, pode ser usada como instrumento de conhecimento
do mundo, das coisas, da natureza (CAPRA, 1996; MORIN, 1997; 2002;
VASCONCELLOS, 2002).
Neste período, o conhecim ento científico caracteriza-se pela
abordagem racional, discursiva e demonstrativa. O objeto é focalizado a partir
da visão de racionalidade. Institui-se com isso uma forma de conhecer o mundo,
uma forma aceita como correta e aceitável e que só pode ser valida se puder
ser comprovada. As conseqüências da adoção desta racionalidade focalizam-
se no sacrifício do sujeito, na exclusão do subjetivo, na submissão à razão, no
expurgo do sensível e na negação do mundo sensível e das percepções. Neste
sentido, busca entender a natureza apenas em sua essência, sem olhar as
circunstâncias e o contexto.
Na Idade Média, do Século I ao século XIII, surge a Teoria do
Conhecimento, na qual a verdade está posta: há um criador que é Deus, o
Sumo Bem. O homem é entendido como criatura de Deus. Ele se define na
relação com o absoluto. A verdade se acessa pela fé, em especial, na crença a
partir das Escrituras Sagradas. A verdade da razão era a verdade da fé. A igreja
tinha o monopólio da cultura. Nesse sentido, cabe a contribuição de Lara
(1991, p. 25), que acrescenta: ‘Reconheciam os medievais que a razão humana
pode descobrir muita coisa, pois pode pesquisar, raciocinar, inventar. Mas
existem verdades supremas que a razão não chega a conhecer, pensavam eles.
Essas Deus revelou. Estão na Bíblia”, e acrescenta: “A Igreja conhece essas
56 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
A evolução dosparadigmas tia educação do pensametilo científico tradicional à complexidade
verdades, as prega, as conserva [...] pois a cultura da Idade Média era teocêntica,
isto é, tinha Deus no centro, como valor supremo”.
Logo, o conhecimento é visto como graça e iluminação divina. A
racionalidade do pensam ento é aceita, mas acima dele está a fé.
Consequentemente, a igreja domina e tem o monopólio da cultura. Neste
período, ocorreram poucas inovações científicas, pois os cientistas sofriam
muita repressão por parte da igreja. A religião era o valor fundamental onde
Deus cristão é o centro, nascendo o Teocentismo (LARA, 1991; MORAES, 1997).
Do século Xin ao XV, surge o Renascimento, período que se caracteriza
pela recusa em aceitar a focalização no mito (Pré-história), na razão (Grécia
Antiga) e na fé (Idade Média) como fontes de conhecimento. O homem precisava
ser liberto e “pegar nas suas próprias mãos” o processo do conhecimento. A
visão Teocêntrica tende a ser superada pela visão Antropocêntrica. Assim, a
nova cultura focaliza-se no homem, que se acredita o senhor do cosmo e da
natureza. No período do antropocentrismo, o homem é visto como criador, ante
a natureza, e celebra sua liberdade com uma visão de individualidade.
Neste período, surgem Copémico e Galileu, dois grandes cientistas
que passam a ser muito relevantes na evolução da ciência. Segundo Capra
(1982), com Nicolau Copémico (1473-1543), começou a revolução científica,
™ que a ciência enfrenta a Igreja e um dogma de mais de mil anos. Sua maior
contribuição assenta-se na premissa de que o homem e a Terra não eram o
centro do Universo e que a Terra era quem girava em volta do Sol. Esta
descoberta retira o homem de sua posição orgulhosa de centro absoluto da
criação de Deus.
A contribuição de Galileu (1564-1642) confirma a teoria de Copémico
e apresenta dois aspectos que insistem em perdurar até este século, ou seja, a
abordagem empírica da ciência e o uso de uma descrição matemática da
natureza. Para tanto, a ciência deveria se restringir aos estudos de propriedades
que poderiam ser medidas e quantificadas. Os aspectos como o som, a cor, o
sabor, o cheiro deveriam ser considerados como mera projeção mental ou
qualidades secundárias e estariam, portanto, fora da esfera científica. A intenção
de controlar a natureza é retomada mais tarde por Isaac Newton (CAPRA,
1982; MORAES, 1997).
Com a Idade Moderna, em especial com a proposta de Descartes,
nasce o período em que o conhecimento passa a ser aceito a partir da certeza
absoluta e inquestionável. Assim, na Idade Moderna, o fundamento último do
conhecimento é garantido pela certeza e pela objetividade. Na visão de
Vasconcellos (2002), ocorre uma revolução na história do pensamento científico,
pois se cria um novo padrão de racionalidade centrado na matemática, na
qual a natureza é objetivada e reduzida a partes mensuráreis e observáveis. As
leis que governam este período são as da linguagem dos números e da medição.
Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 57
Matilda Aparecida Behrens, Anadir Luiza Thomé Oliari
No século XVII, Bacon argumenta que a fonte do conhecimento está
nos fatos, estes eonvalidam ?. razão e devem ser cuidadosamente observados
e minuciosamente descritos. O bem-estar do homem depende do controle
obtido por ele sobre a natureza e para conhecê-la precisa entrar em contato
com ela no acontecer dos fatos por meio de um método - o método indutivo
(ANDERY et al., 1999).
No mesmo sentido, Descartes, considerado ‘'Pai do Racionalismo
Moderno”, “afirma que nem a fé, nem a tradição, nem mesmo o conhecimento
sensível, aquele que os sentimentos nos fornecem, são dignos de crédito
absoluto. Resta, por isso, só a razão”(LARA, 1991, p. 36). O paradigma cartesiano
prega a crença na legitimidade dos fatos que são perfeitamente conhecidos e
sobre os quais não se têm dúvidas, devendo-se para isso dividir e estudar a
menor parte, partindo destas para o entendimento do todo. Propõe com isso
o método analítico por meio da indução e dedução embasado na lógica e na
matemática.
O ponto central do pensamento tradicional cartesiano é a concepção
de que os fenômenos podem ser analisados e compreendidos se forem
reduzidos às partes que os constituem. Ao conhecer uma parte de um sistema,
o pesquisador chegará ao conhecimento de seu funcionamento. Assim, separa-
se o corpo da mente, privilegiando sempre a mente como sendo superior aos
aspectos do corpo. O universo material e os seres vivos são reduzidos a visão
de uma máquina com funcionamento e engrenagens perfeitas, sendo governado
por leis matemáticas exatas (CAPRA, 1996).
Neste contexto, o período new toniano-cartesiano tem com o
pressuposto básico a fragmentação e a visão dualista do universo. Com este
paradigma, aparecem as múltiplas fragmentações: a visão de mundo material
e o espiritual; do corpo e da mente; da filosofia e da ciência; do objetivo e
subjetivo; da ciência e da fé, entre outras. Na Ciência Moderna, a concepção
linear e mecanidsta do universo, propostas por René Descartes e Isaac Newton,
passa a se edificar na lógica racionalista que nega o sagrado e a subjetividade
(VASCONCELLOS, 2002).
Nesse modelo de ciência, o homem é o senhor do mundo, pois se dá
o direito de transformar, explorar, servir-se e escravizar a natureza (CAPRA,
1996). Esta idéia é reforçada e complementada por Moraes (1997), quando
argumenta que a descrição reducionista representou certo perigo a partir do
momento em que o método analítico foi interpretado como a explicação mais
completa e a única abordagem válida do conhecimento, especialmente ao
valorizar os aspectos externos das experiências e ignorar as vivências internas
do indivíduo.
Na segunda fase da Modernidade, final do século XVIII até o início
do século XIX, por meio de testes quantificadores matemáticos, busca-se a
58 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
A evolução dos paradigmas tia educação dopensamento científico tradicional à complexidade
compreensão da pessoa e de sua personalidade e inteligência. Neste período,
a Psicologia ioma-se ciência, separando-se da Filosofia, e assim emergem várias
teorias psicológicas, dentre elas, destaca-se a Teoria Comportamental. Todas
com a tentativa de explicação do comportamento humano no enquadro da
simplificação de “causa e efeito”.
A Sociologia, a partir da proposta de Augusto Comte, tenta explicar o
comportamento social por meio da corrente positivista do universo, na qual o
conhecimento está fundamentado no objeto e não no sujeito. As afirmações
aceitas pela lógica positivista devem ser objetivas, impessoais e neutras. Os
resultados da pesquisa restringem-se aos dados fornecidos pela experiência e
pelas observações confiáveis e fidedignas. A racionalidade no meio científico
positivo envolve afirmações que devem ser impessoais, pois desmerecem
qualquer posicionamento pessoal e de juízos de valor.
À luz da proposta de Vasconcellos (2002), o paradigma tradicional,
conservador e reducionista focaliza as crenças que podem ser subdividas em
três âmbitos: da simplicidade, da estabilidade e da objetividade. A crença na
simplicidade propõe a separação da menor parte para ser analisada e classificada
a fim de se entender o todo complexo e buscar a relação causa e efeito. Têm-
se, assim, relações causais e lineares. A crença na estabilidade propõe que o
mundo é invariável, determinado e reversível. Assim, se pode conhecer, prever
e controlar os fenômenos. Busca-se explicação por meio de experimentação
e/ou verificação empírica com resultados quantificáveis.
A crença na objetividade busca atingir a versão única do conhecimento
(uni-verso) e propõe o conhecimento objetivo do fenômeno tal com ele se
apresenta na realidade. Restringe a produção do conhecimento a partir da
comprovação, gerando conceitos aceitos como verdadeiros e absolutos. Para
tanto, o cientista deve observar os fenômenos de maneira isenta, com uma
visão abrangente e objetiva, não se envolvendo com sua subjetividade ou com
suas próprias opiniões.
A influência do paradigma tradicionalna educação
O paradigm a tradicional ou new toniano-cartesiano levou a
fragmentação do conhecimento e a supervalorização da visão racional. Nesse
sentido, propôs a primazia da razão sobre a emoção, especialmente, para
atender a coerência lógica nas teorias e a eliminação da imprecisão, da
ambiguidade e da contradição dos discursos científicos.
A fragmentação atingiu as Ciências e, por conseqüência, a Educação,
dividindo o conhecimento em áreas, cursos e disciplinas. As instituições, em
especial as educacionais, passaram a ser organizadas em departamentos
Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 59
Matilda Aparecida Behrens., Anadir Luiza Thomé Otiari
estanques, no qual emergem os especialistas, considerados pela sociedade
como os detentores do saber. Neste processo reducionista, criam-se as
especialidades em uma única área do conhecimento.
A visão tradicional newtoniana-cartesiana da ciência atingiu a
educação, a escola e a prática pedagógica do professor. Assim, segundo Behrens
(2005), o aluno passou a ser mero espectador, exigindo dele a cópia, a
memorização e a reprodução dos conteúdos. No paradigma conservador, a
experiência do aluno não conta e dificilmente são proporcionadas atividades
que envolvam a criação. A prática pedagógica tradicional leva o aluno a
caracterizar-se como um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer
forma de expressão. O aluno é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando
sua fala, impedido de expressar suas idéias. A ação docente concentra-se em
criar mecanismos que levem a reproduzir o conhecimento historicamente
acumulado e repassado como verdade absoluta.
Nos cunículos lineares e reducionistas, divididos em diversas matérias,
o professor assume a função de transmitir o conhecimento e considera-se
como “dono do saber”. O ensino focaliza mais o resultado ou o produto e
com esta visão o aluno é recompensado por seguir com fidedignidade o
modelo. O aluno acaba sendo premiado por seguir as regras impostas pelo
professor e pela “boa conduta”. Ao mesmo tempo, ao desobedecer às regras,
é reprimido e punido pelos “erros” e, em alguns casos, com esta visão austera,
o docente chega a torturar o aluno de maneira física ou psicológica.
O paradigma tradicional traz consigo vantagens e desvantagens. De
acordo com Moraes (1997), Capra (1996), Behrens (2003; 2006), a visão
tradicional ou cartesiana do mundo, apesar de ser questionada, possibilitou o
desenvolvimento científico-tecnológico atual e possibilitou grandes saltos
evolutivos na história das civilizações. Neste contexto, permitiu a democratização
dos conhecimentos, seja pelas técnicas extremamente eficazes para a construção
de novos conhecimentos ou pela presença de um espírito científico de
investigação aberta. O pensamento dotado de clareza, de organização e de
objetividade propiciou a validação científica e pública do conhecimento.
Por outro lado, constata-se um período de perda do processo de
humanização, pois os alunos e os professores passaram a ser vistos como
máquinas ou como partes de uma engrenagem. Nesta caminhada histórica,
reducionista e linear, perdeu-se em termos de sensibilidade, estética, sentimentos
e valores, especialmente, em função da supervalorização dada pela mensuração,
quantificação e comprovação dos fenômenos. Gerou-se uma concepção de
vida em sociedade pautada na competitividade, no isolamento, no individualismo
e no materialismo desenfreado. A crença no progresso material a ser alcançado
pelo crescimento econômico e tecnológico como fim em si mesmo não considerou
as conseqüêndas para a sociedade, a natureza e o próprio ser humano.
60 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
A evolução dos paradigmas na educação dopensamento científico tradicional à complexidade
Também ruíram os alicerces religiosos que davam sustentação aos
valores, repercutindo num modelo de vida e de ciência materialista,
determinista, destruidora, cheia de certezas, que ignora o diálogo e as interações
que existem entre os indivíduos, entre ciência e sociedade, técnica e política.”
(MORAES, 1997, p. 43). Conseqüentemente, a humanidade submergiu a um
processo de fragmentação, de atomização e desvinculação, alienando-se da
natureza, do trabalho e de si mesmo, ficando a cultura dividida, os valores
mais individualizados e os estilos de vida mais patológicos.
Pelas limitações desse m odelo científico, na Terceira Fase da
Modernidade, que compreende o século XIX e grande parte do século XX -
começam surgir os desconfortos e os conflitos na utilização dos padrões de
cientificidade e de produção de conhecim ento. Aparecem cientistas e
pensadores que explicam de modo mais satisfatório os fenômenos e as situações
da realidade, exigindo para tal um novo modelo de cientificidade.
Oparadigma da complexidade
O paradigma tradicional começa a ser questionado no início do século
XX e acelera a ruptura com ênfase nas anas últimas décadas. De modo particular,
quando a visão de considerar científico o que se enquadrasse dentro do modelo
linear de causa-efeito proposto pela Física mostrou-se insuficiente para lidar
com as contradições insuperáveis, a desordem e a incerteza por ela mesma
detectadas. Essa ruptura entre o mundo moderno e o contemporâneo caracteriza
o final de uma história e o começo de outra (MORAES, 1997).
O surgimento do paradigma emergente ou da complexidade tem como
foco a visão do ser complexo e integral. A proposta da nova visão depende
do avanço do paradigma da ciência que impulsiona a revisão do processo
fragmentado do conhecimento na busca de reintegração do todo. Aliado a
esse desafio, o ensino, segundo Zabala (2002, p.24), precisa ser revisto, pois:
Assimcomo o processo de progressiva parcializaçâo dos conteúdos escolares
em áreas de conhecimento ou disciplinas conduziu o ensino a uma situação
que obriga a sua revisão radical, a evolução de um saber unitário para uma
diversificação em múltiplos campos científicos notavelmente desconectados
uns dos outros levou a necessidade de busca de modelas que compensem
essa dispersão do saber.
O mundo repleto de incertezas, contradições, paradoxos, conflitos e
desafios leva ao reconhecimento da necessidade de uma visão complexa. Esta
vLsão significa renunciar ao posicionamento estanque e redudonista de conviver
no universo. Significa aceitar o questionamento intermitente dos problemas e
Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66.sct./dcz. 2007 61
Marilda Aparecida Bebrens,, Anadir Luiza Tbomé Oliari
das suas passíveis soluções. Assim, “Na realidade, busca aceitar uma mudança
periódica de paradigma, uma transformação na maneira de pensar, dc se
relacionar e de agir para investigar e integrar novas perspectivas” (BEHRENS,
2006, p. 21).
Este processo de evolução paradigmática inclui as contribuições de
várias ciências que podem colaborar para a reconstrução do conhecimento e
para a superação da visão fragmentada e reducionista do universo. Segundo
Capra (1996), destaca-se a Biologia como pioneira, acompanhada pela influência
da Psicologia Gestalt e da Ciência da Ecologia, mas, especialmente, e com
grande efeito, da Física Quântica. A psicologia Gestalt contribuiu com o
reconhecimento da totalidade, ou seja, na premissa que o todo é mais que a
soma das partes. Portanto, um sistema não pode ser visto e compreendido
apenas ao se analisar uma de suas partes.
Com a Ecologia, surge uma nova concepção, que propõe a total
integração entre os componentes animais e vegetais da terra. Com este desafio,
o movimento pela ecologia prega que “Na natureza, não há ‘acima’ou ‘abaixo’,
e não há hierarquias. Há redes aninhadas dentro de outras redes” (CAPRA,
1996, p. 45). O mundo é visto como uma rede de relações, envolvendo
conexões, interconexôes, movimento, fluxo de energia, inter-relações em
constante processo de mudança e transformação. Portanto, o pensamento
complexo, dinâmico e processual acompanha a noção de rede que tem sido a
chave para os recentes avanços científicos.
Na área da Biologia, de acordo com Capra (1982), a grande investida
contra o paradigma tradicional foi a proposta de Einstein, em 1905, com a
Teoria da Relatividade. Nessa teoria, o universo passou a ser visto com um
todo indiviso e ininterrupto e o mundo concebido em termos de movimento,
fluxo de energias e processos de mudança (MORAES 1997). Essa teoria ajuda
a derrubar a visão fragmentada do universo e defende a totalidade. Em vista
disso, as partes já não podem mais ser entendidas como entidades isoladas,
mas como elemento de interação e interconexão com outros elementos
determinados pela dinâmica do todo (CAPRA, 1996).
A teoria da relatividade favorece o pensamento complexo que é uma
nova forma de ver a realidade. Segundo Capra (1996), este pensamento passa
a ser organizado enquanto uma teoria verdadeiramente científica. Na obra
Pensamento eco-sistêmico, Moraes (2004, p. 20) esclarece:
Complexidade esta compreendida como princípio articuladordo pensamento,
como um pensamento integrador que une diferentes modos de pensar, que
permite a tessitura comum entre sujeito e objeto, ordem e desordem,
estabilidade e movimento, professor e aluno e todos os tecidas que regem os
acontecimentos, as ações e interações que tecem a realidade da vida.
62 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
A evolução dos paradigmas tia educação: do pensamento científico tradicional à complexidade
A complexidade é denominada por Vasconcellos (2002) de Pensamento
Sistêmico novo-paradigmático. Este pensamento pode ser refletido em pelo
menos três pressupostos epistemológicos: o da complexidade, da instabilidade
e da intersubjetividade.
O pressuposto da complexidade busca a contextualização dos
fenômenos e reconhece as causas recursivas, em especial, apresentadas pela
impossibilidade de explicação dos fenômenos pelo pressuposto da simplificação.
Na contextualização, amplia-se o foco dos elementos para as relações que
ocorrem entre eles, sendo que nenhum dos dois desaparece, pois ambos são
importantes. Percebem-se redes de interconexões, nas quais o pesquisador
distingue o objeto de seu contexto, sem perder de vista sua inserção, sem
isolá-lo. Passa-se do pensamento disjuntivo para o integrador, com visão de
totalidade e de interconexão.
O pressuposto da instabilidade refere-se ao fato do reconhecimento
dos cientistas de que não é mais possível a crença num mundo estável e
acabado, pois toma-se necessário acreditar num mundo como um processo
contínuo e inacabado, que merece a intervenção consciente e responsável do
homem para sua transformação.
Por fim, o pressuposto da intersubjetividade reconhece a
impossibilidade de um conhecimento objetivo do mundo, especialmente em
função das múltiplas versões da realidade e dos diferentes domínios do
conhecimento. Neste contexto, destaca-se o domínio lingüístico, pois a
linguagem tem papel essencial na comunicação e na descrição da realidade e
seu contexto. A realidade não existe independentemente do observador, isto
é, objeto e sujeito só existem relacionalmente e um contém o outro. Vale
ressaltar que nenhum ponto de vista isolado permite abarcar a realidade ou
objeto como um todo.
Os três pressupostos epistemológicos, ou seja, a complexidade,
a instabilidade e a intersubjetividade - propostos por Vasconcellos (2002)
- precisam atender a visão de complexidade. Para tanto, estes pressupostos
devem estar interconectados, m antendo uma relação recursiva e integrada
em que não se pode fazer uso de um sem o outro, pois a relação
congruente e dinâmica das partes no processo determina a estruturação
do todo.
O paradigma da com plexidade propõe uma visão de hom em
indiviso, que participa da construção do conhecim ento não só pelo uso
da razão, mas também aliando as emoções, os sentimentos e as intuições.
Nesse sentido, torna-se urgente que as estruturas do funcionam ento
educacional incluam o uso dos conceitos de inter, pluri e transdisciplinar.
Para Alarcão (2001, p. 54):
Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53 66,set./dez. 2007 63
Marüda Aparecida Behretis, Anadir Luiza Thomé Oliari
Novamente, é a volta a esse círculo que se dobra e desdobra indefinidamente
em espiral entre cada ponto de partida e de chegada, possibilitando, assim,
novos ângulos de visão, de representação e, eventualmente, a partir de
diferentes níveis de realidade e a aconselhar abordagens mais inter, pluri, e
transdisciplinares, tanto ao nível da análise quanto da sua compreensão
científica e filosófica. É justamente na razão dessa diferença que uma nova
racionalidade possibilita que a mudança aconteça e lance-nos para o futuro
em um movimento crescente e aceleração imparável.
Esta realidade é complexa e depende da reforma do pensamento,
pois, como afirma Morin (2002), para compreender o novo paradigma, toma-
se necessário um pensar mais abrangente, multidimensional, contextualizado
e muIndisciplinar.
No entendimento de Zabala (2002, p. 32):
Ainterdisciplinaridade implica o encontro e a cooperação entre duas ou mais
disciplinas, cada uma das quais [...] traz seus próprios esquemas conceituais,
a maneira de definir os problemas e seus métodos de investigação”, mas,
acrescenta que a transdisciplinaridade implica que o “contato e a cooperação
que ocorre entre diversas disciplinas sejam tão grande que estas acabaram por
adotar um mesmo conjunto de conceitos fundamentais ou alguns elementos
de um mesmo método de investigação, falando de maneira geral, o mesmo
paradigma.
No mesmo sentido, Yus (2002) afirma que a educação que vem
apresentando o contexto de fragmentação necessita que o educador tome
consciência dela e busque restabelecer conexões em todas as esferas da vida
e em todos os tipos de relações. Entretanto, cabe ao aluno analisar e tomar
consciência dessas relações e de suas habilidades para transformá-las, caso
seja necessário. O desafio para atingir a transdisciplinaridade exige um grau
máximo de relações entre as disciplinas e uma visão de integração global.
Na Educação, o resgate pleno do ser hum ano, numa visão
paradigmática da complexidade, implica na expressão de novas formas de
solidariedade e cooperação nas relações humanas. Para tanto, precisa
contem plar uma proposta pedagógica que reconheça a diversidade de
fenôm enos da natureza e o ser hum ano com o um indivíduo com
multidimensionalidades, ou seja, dotado de múltiplas inteligências e com
diferentes estilos de aprendizagens. Nesse sentido, a formação docente precisa
reconhecer o processo de aprendizagem complexa, envolvendo no ensino os
aspectos físicos, biológicos, mentais, psicológicos, estéticos, culturais, sociais
e espirituais, entre outros.
64 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
A evolução dosparadigmas na educação: dopensamento científico tradicional à complexidade
A contribuição de Moraes (1997) toma-se relevante quando afirma
que os fenómenos educacionais devem ser percebidos como processos, na
complexidade das suas inter-relações, sendo ao mesmo tempo determinantes
e determinados, em movimento e em permanente estado de mudança e
transformação. Do mesmo modo, o conhecimento requer processos de
construção e reconstrução mediante a ação do sujeito sobre o ambiente e
pelas trocas energéticas nos processos de assimilação, acomodação e auto-
organização, isto é, por meio das relações interativa e dialógica entre aluno,
professor e ambiente. Assim, aluno e professor são participativos, ativos,
criativos, dotados de inteligências múltiplas, tendo como ênfase a visão global
da pessoa.
Neste contexto, pode-se considerar que o novo paradigma começa a
encontrar espaços para dar respostas mais relevantes para os problemas da
humanidade. Na natureza, tudo é cíclico, assim, cabe refletir que o movimento
natural de entropia no universo pode gerar a crise e o caos, mas permite rever,
rediscutir e construir novas possibilidades. A nova reorganização precisa restituir
ao homem e, por extensão, a natureza, o que foi perdido com a proposição do
pensar tradicional, do capitalismo exacerbado e mais recentemente, da
globalização desenfreada e descomedida. A reunificação da humanidade com
si mesmo e com a natureza depende de uma visão unificadora, em especial,
na proposição de processos que incluam a sustentabilidade do planeta. Neste
contexto, a Educação precisa recuperar o equilíbrio entre a intuição e a razão,
propondo um ensino e aprendizagem que leve à produção de conhecimento
autônomo, crítico e reflexivo e a construção de uma sociedade mais justa,
igualitária, fraterna e solidária.
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Recebido: 09 de abril de 2007
Aceito: 03 de agosto de 2007
66 Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
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APRESENTAÇÃO
Convivemos com um período histórico particularmente difícil para o mundo do
trabalho. A democracia liberal reduzida a um caráter formal e a economia de mercado global
acima da política de sentido público e das necessidades humanas, têm determinado aspectos
como o acirramento das contradições e conflitos sociais, a busca pelas soluções individuais, a
desideologização do debate político e o avanço do relativismo, do irracionalismo e do niilismo
no meio acadêmico
Uma overdose de cinismo percorre o pensamento e a ação social de grande parte de
indivíduos e grupos sociais que têm conservado o acesso aos bens materiais e culturais neste
período histórico. Legitimam e justificam, de forma ativa ou passiva, direta ou indireta,
explícita ou implícita, a democracia liberal formal e economia neoliberal global, arquitetas do
fascismo social em curso em todo o mundo
Com o presente texto pretende-se uma contribuição de caráter introdutório ao
marxismo. Por meio dele busca-se alcançar dois objetivos: permitir uma compreensão de
aspectos da teoria e metodologia marxista e proporcionar uma instrumentação teórica e
metodológica de abordagem crítica da realidade atual.
O texto distribui-se por meio de seis temáticas, a saber; uma breve reconstituição da
trajetória intelectual e política de Marx, de forma a evidenciar o seu compromisso com a
transformação social e com a articulação entre o pensamento e a ação; uma abordagem do seu
método de análise e dos conceitos básicos para a investigação da formação social, de forma a
permitir a compreensão da interpretação marxista do processo histórico; uma caracterização
da crítica marxista do capitalismo e das experiências de luta formada no seu interior, de forma
a demonstrar a pertinência da crítica (teórica e prática) marxista do capitalismo e dos
problemas e limites com os quais ela convive; uma identificação da concepção marxista de
Estado, de forma permitir a crítica ao contratualismo e o papel que o Estado exerce como
instrumento de construção de uma hegemonia social, uma qualificação da influência que o
marxismo exerce na Ciência da História, de forma a identificar as contribuições, problemas e
limites decorridos desta relação; e uma leitura marxista de caráter panorâmico da relação
estabelecida entre Estado e sociedade (de classes) no Brasil, de forma a proporcionar um
exemplo de interpretação da realidade histórica a partir da teoria e metodologia marxistas.
A'J QJOíAA-yyK) ! Í4AAfóuXAs u ■
( x/JoJtmr^v c^bvtt^vcv/(/p(3i -cm UaaÍqvUtls ©&0t>prYvi60t,
I . AtoÍxÍÁ^XX„)
Em que pese os limites de um texto de caráter introdutório e do próprio autor é
necessário que se registrem as contribuições dos amigos Sônia Lobo, Paulo Augusto de Fana,
Ricardo Orsini, Sebastião Cláudio Barbosa e Gilda Guimarães
1 - BREVE BIOGRAFIA DE MARX
Karl Marx nasce em Treves, uma pequena cidade de 12 000 habitantes e de cultura
franco-germânica, capital da província alemã do Reno, em 5 de maio de 1818. Sua família
pertence à pequena burguesia judia próspera Embora descendendo de uma longa linhagem de
rabinos (tanto do lado paterno quanto materno), não sofre uma forte doutrinação em favor do
judaísmo
O pai de Marx, o advogado Hirschel Marx, adere intelectualmente a um racionaJismo
tipicamente iluminista. Posteriormente, quando Treves passa a sofro- a dominação prussiana
de Frederico Guilherme Hl, que era anti-francês e anti-semita, convote-se ao protestantismo e
muda o seu nome para Heinrich Marx, possivelmente em decorrência de motivos materiais,
visto que convive com a ameaça de não poder exercer a sua profissão porque é vedado à
época acesso a cargos públicos aos judeus que habitam a província do Reno (Bottomore,
1988, P. 239)
Marx conduz seus estudos primários e secundários na cidade de Treves, quando esta
se encontra mergulhada sob a administração absolutista prussiana marcadamente
autoritária/burocrática e anti-industrial (para a região do Raio). A resistência à administração
prussiana, embora desorganizada, se estende para diversos setores, a exemplo do Ginásio do
Estado, no qual Marx estuda. Marx envolve-se com esta resistência.
Mesmo antes de seguirem estudos em nível universitário Marx já mantém leituras
clássicas. Por meio do pai conhece Lessing, Voltaire e Rousseau, e por meio do amigo e
futuro sogro, o barão Ludwig Von Westphalen, conhece Homero e Shakespeare. Nesta fase,
por meio de dissertações realizadas no Ginásio de Treves, já é possível identificar duas idéias
que marcariam profundamente o pensamento de Marx. A primeira é a idéia de que o homem
feliz é aquele que busca fazer todos os homens felizes, isto é, que trabalha em prol da
humanidade. A segunda é a idéia de que os homens não podem determinar, em grande
medida, o seu desenvolvimento, isto é, estão profundamente condicionados pelo estado social
da sua existência.
Em 1835, aos 17 anos Marx é enviado para a pequena cidade de Bonn, dando início
ao curso de direito na Faculdade de Direito da Universidade de Bonn, com a intenção de
estudar jurisprudência, O romantismo do ambiente, não raramente marcado por bebedeiras,
declarações amorosas e “duelos” compromete o desempenho acadêmico de Marx No ano
seguinte é encaminhado por seu pai para a cidade de Berlim, com os seus 300 mil habitantes.
Na Universidade de Berlim Marx passa os quatro anos seguintes conduzindo seus estudos A
adesãc ao romantismo, na sua estadia em Bonn, é abandonada em favor do hegelianismo, na
sua estadia em Berlim, bem como os estudos de jurisprudência em favor dos estudos de
História e Filosofia
Marx abandona a carreira de advogado e pretende conquistar uma cátedra
universitária Além da satisfação intelectual Marx procura as condições econômicas
necessárias para viabilizar o seu casamento com Jenny Westphalen cujo noivado oficial
ocorre em 1837. Para tanto, depende do doutoramento Conduz os estudos durante os anos de
1838,1839 e 1840 Ao final redige a tese de doutorado entitulada Diferença entre a Filosofia
da Natureza de Demócrito e de Epicuro em 1841. Marx louva o fato de Epicuro ter buscado
encontrar um lugar para a liberdade do homem em face da natureza, opondo-se ao
determinismo natural de Demócrito.
Segundo Giannotti, esta obra recupera uma problemática levantada por Hegel1 na
Fenomenologia do Espírito, na qual este autor considera o estoicismo e o ceticismo grego
como etapas do desenvolvimento do Espírito, momentos em que a consciência de si !iberta-se
de seu vínculo com o mundo e se afirma soberana. O sábio estóico, recolhido em si mesmo, e
o filósofo cético, armando seu pensamento sobre a dúvida, estariam dando prova de intensa
liberdade individual, inovadora, mesmo no âmbito da Pólis grega (Marx, 1978, P. IX eX )
Marx, por meio de um diálogo filosófico crítico com Hegel, percorre outro caminho.
Busca identificar as diferentes funções desempenhadas pelo atomismo naqueles dois filósofos
racionalistas e conclui que o átomo em Demócrito (Séc. V-IV a.c.) representaria uma
categoria abstrata, isto é, que é apenas uma hipótese a exprimir uma dimensão empírica
(sensível) da natureza. Em Epicuro (Séc. 1V-I1I a c ), por sua vez, o átomo representaria uma
forma natural que a consciência assumia de si mesma. Com Epicuro, na interpretação de
Marx, a atomística transformaria-se em um princípio absoluto, rompendo a separação entre
espírito e matéria.
A defesa da tese de doutorado prevista de início para a Universidade de Berlim é
transferida para a Universidade de lena e ocorre em 15 de abril dc 1841. Isto porque as
1 Hegel (1770-1831) desenvolve um sistema filosófico no qual o Estado moderno é concebido como encarnação
dos ideais da moral mais objetivos e manifestação da razão no domínio da vida social. A sua filosofia se
convertia em uma espécie de ideologia oficial legitimadora do Estado prussiano (Marx, 1978, P. VÜI e IX).
6
esperanças de uma maior abertura do regime absolutista prussiano alimentado pelos círculos
liberais se frustra com a ascensão de Frederico Guilherme IV ao poder era 1840, ano da morte
de Frederico Guilherme UI, o que veio a refletir no ambiente acadêmico da Universidade de
Berlim. Mane recusa-se a se submeter e expor a este ambiente e a professores encarregados
das qualificações do doutorado, a exemplo do professor conservador Stafcl.
O doutoramento de nada adiantou para Marx obter a cátedra universitária No ano de
1841 frustra o empenho do seu amigo Bruno Bauer em ajuda-lo a obter a cátedra. No mesmo
ano Bruno Bauer perde seu emprego e é proibido de continuar lecionando na Universidade de
Bonn.
Marx integra-se no movimento intelectual denominado Esquerda ou Jovens
Hegelianos2. Este grupo busca submeter os textos sagrados e a propriedade privada à crítica,
conduz uma crítica radical do cristianismo e valoriza a luta política. Este grupo também
conduz, de um ponto de vista liberal, oposição a autocracia prussiana
Marx dá início a uma fase de transição quanto às suas reflexões e ocupações no
âmbito do próprio movimento da Esquerda Hegeliana. Os problemas políticos e sociais
assumem progressivamente a centralidade no seu pensamento.
Problemas esses que nesta fase assumem uma abordagem pública por meio do
envolvimento de Marx com a imprensa.Marx tem consciência da importância da imprensa
7
2
Hegei compreendia o Estado, a religião e a filosofia como supremas manifestações de Deus, entendido como o
absoluto. A religião cristã se apresentava como a mais completa revelação da razão enquanto Espírito Universal.
Nesse processo de manifestação, Jesus desempenharia o papel de mediador entre a generalidade abstrata de
Deus-Pai e a individualidade concretíssuna do espírito santo. Após a morte de Hegel em 1831, seus discípulos
estão divididos. Alguns, denominados direita hegeliana, prendem-se a elementos conservadores da filosofia de
Hegel,à apologia do Estado prussiano, a defesa da ordem constituída, outros, denominados esquerda hegeliana,
procuram aplicar o método historicista de Hegel a análises das questões sociais. A esquerda ou jovens
hegelianos dão início a uma revisão crítica do seu sistema filosófico
David Strauss (1808-1874) busca separar a figura histórica de Jesus de sua interpretação religiosa e
filosófica O resultado é, de um lado, a retomada da luta pelo direito de submeter os textos sagrados á critica
histórica e, de outro, a revolução da doutrina hegeliana provocando-lhe a crítica política Seguindo o caminho
aberto, Bruno Bauer (1809-1872) procura separar o desenvolvimento do espírito do desenvolvimento do mundo,
transferindo para a consciência de si a tarefa de determinar o curso da História Arnold Ruge (1802-1880) trouxe
a luta contra o pensamento conservador hegeliano para o terreno propriamente político frente ao endurecimento
do governo de Frederico Guilherme IV da Prússia Moses Hess (1812-1875) e Max Stimer (1806-1856) refletem
acerca da propriedade e debatem aspectos do socialismo e anarquismo
Ludwig Feuerbach (1804-1872), busca mudar os sinais do sistema elaborado por Hegel, de modo que,
ao invés de partir-se do espírito, partiria-se da natureza e do homem. Feuerbach privilegia o mundo sensível, a
sensibilidade e o coração, deslocados para o nível do intelecto. Tal concepção traduz-se em um programa
político o princípio feminino, o coração, sede dn materialismo francês, deveria aliar-sc ao intelecto, princípio
masculino, sede do idealismo alemão. O programa político de Feuerbach não é assumido politicamente por seu
criador, ou seja, não é para o terreno da luta política Ludwig Feuerbach recolhe-se no seu isolamento e declina-
se de imiscuir em política Surpreende a muitos quando, ao final da sua vida, filia-se ao Partido Social-
Democrata Alemão (Marx, 1978, IX e X).
como veículo com capacidade de informar com objetividade e de criticar com
independência, uma necessidade inadiável em sociedades em que a censura, a corrupção, a
hipocrisia, o cinismo convertem-se em instituição. Todavia, Marx condena a liberdade da
imprensa como uma liberdade comercial, isto é, de converter a imprensa em uma “indústria”
movida pela lógica do mercado, do lucro e do poder Dessa forma não seria possível informar
com objetividade e criticar com independência (Konder, 1968, p. 47-49)
No período de edição da Gazeta Renana' Marx depara-se com os chamados
“interesses materiais”1**4 Na província alemã do Reno os camponeses continuam recolhendo
lenha nas florestas como se estas estivessem submetidas ao direito consuetudmáno, enquanto,
de fato, encontram-se, agora, subordinadas a outro tipo de propriedade, de caráter privado e
alienável Como resultado, e atendendo a apelos de proprietários, o Estado move processos
contra o “furto” de madeira realizado pelos camponeses. Conforme Giannotti, a investigação
que Marx inaugura por meio da análise da condenação dos camponeses pela Dieta Renana,
abria o caminho para a idéia de uma revolução social; e para que esta viesse modificar a
própria estrutura da sociedade como um todo (Marx, 1978, P X e XI)
As publicações de Introdução a uma Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e
A Questão judaica, no primeiro e único número dos Anais Franco-Alemães5, traz em si uma
nova noção de crítica, o que conflitua Marx com a Esquerda Hegeliana Para Marx, a crítica
da Filosofia do Direito de Hegel deveria partir da crítica do Estado real. Uma crítica
desalienada, porque recusaria mover-se exclusivamente no âmbito do discurso.
A crítica, movendo pensamento e prática política, poderia assumir concretude,
penetrando as massas populares e convertendo-as em força social capaz de mudar a sociedade.
Portanto, para Marx, toda crítica seria inócua enquanto não atingisse a raiz do próprio homem
enquanto ser concreto e a sociedade na qual este vive
A noção de crítica de Marx, ancorada na unidade dialética estabelecida entre teoria e
práxis e na desconstrução/construção do Estado e das relações sociais sobre os quais este se
apoia, conduz Marx a identificar a luta de classes como o motor da História e o proletariado
como o ator fundamental da critica e da subversão da estrutura da sociedade moderna (nela
incluída o próprio Estado). A noção de crítica de Marx completa-se com a contribuição de
1Diário liberal radical, apoiado por industriais renanos c publicado na cidade dc Colônia Marx ocupa a função
de redator-chcfc desse diário *Por interesses materiais, Marx concebe os inlaesses dc classes que emergiam das
condições materiais, qual seja, o conjunto das condições econômicas acumuladas, a forma de apropriação e
distribuição dos excedentes e o estágio da consciência social.
5Órgão da propaganda revolucionária e comunista, que se pretendia uma ponte entre o socialismo francês e o
hegelianismo radical, dirigido por Marx em Paris no ano de 1844
8
9
Engels, para o qual a sociedade civil6 é o terreno no qual os homens se defrontam como
particulares e proprietários, mergulhados na alienação Para Engels, a Economia Política de
Adam Smith e David Ricardo, enquanto ciência da sociedade civil, não podería ser nada mais
do que o lugar da alienação visto que, por não ter posto em causa o postulado da propriedade
privada e por não ter anteposto ao privatismo da sociedade civil a universalidade do homem,
não conseguiria conduzir a crítica da sociedade moderna (Marx, 1978, P. XIII e XIV).
Marx incorpora a noção de crítica de Engels mas a ultrapassa, visto que reconhece
que a forma de trabalho do sistema capitalista, orientado para a acumulação privada e para o
mercado, mergulha o homem na alienação O homem, sob relações de assalariamento,
produziria uma mercadoria para trocá-la por outra mercadoria. A apropriação de poucos em
detrimento de muitos se, por um lado, conduziria o homem à alienação, por outro, não poderia
impedir a recriação da necessidade das mercadorias que se encontrassem em outras mãos, de
forma que criaria um espaço e um ambiente de tensão nas relações sociais que projetaria a sua
solução para além da propriedade privada e do mercado. Nos Manuscritos Econômicos e
Filosóficos, elaborados na sua estadia em Paris (somente publicado em 1930), Marx identifica
um contraste enüe a natureza alienada do trabalho no capitalismo e uma sociedade comunista
na qual os seres humanos desenvolveriam livremente sua natureza em produção cooperativa
O pensamento de Marx apresenta-se maduro. Completa-se, portanto, o processo de
ruptura com a sua base de origem, inaugurada no âmbito da Esquerda Hegeliana. A própria
influência de Ludwig Feuerbach é superada. No período compreendido entre 1842 e 1847,
Marx converte-se em um intelectual e ativista político com uma concepção humanista do
comunismo (Bottomore, 1988, P. 239)
A prática intelectual e política (e, provavelmente, a sua etnia) rende a Marx
perseguição e exílio. Marx busca ter acesso à carreira universitária, mas é impedido pelo
governo prussiano; converte-se em editor da Gazeta Renana, mas teve o jornal fechado pelo
6 A divisão da sociedade em classes ou estamentos concorre decisivamente para a separação entre a sociedade
política ou Estado (organização dos que mandam) e uma sociedade civil (conjunto em nome do qual se governa).
Hegel atribui ao conceito sociedade civil uma significação econômica e jurídica, onde os indivíduos singulares se
opõem em função de seus interesses particulares. O Estado aparece como a verdade da sociedade civil, que não
é, graças ao jogo da astúcia da razão, mais do que seu próprio fenômeno, nele realizado. A sociedade civil é um
instante de uma processos que atinge seu ponto máximo na sua absorção pelo Estado (Altbusser, 1979, P. 97).
Marx cna duas novas concepções de sociedade civil A primeira identifica sociedade civil com a estrutura
econômica da sociedade. A sociedade civil seria o “mundo das necessidades, do trabalho, dos interesses
particulares, do direito privado" (Marx, 1987, P 483) ou ainda que ela abarcaria “(...) todo o intercâmbio
material dos indivíduos, em uma determinada fase de desenvolvimento das forças produtivas” (Marx e Engels,
1974, P. 38). A Segunda identifica sociedade civil com o conjunto de partidos,jornais, clubes e associações. Para
Marx da “Crítica do Programa de Gotha”, “(...) o Estado deve ser um órgão subordinado á sociedade'. (Marx,
1946, P. 30).
10
governo; emigra para Paris em 1843 e passa a dirigir os Anais Franco-Alemães, mas tem o
periódico fechado e é expulso da capital francesa
Radicado em Bruxelas, Marx dedica-se a um estudo intensivo de história e cria a
teoria que ficou conhecida como a concepção materialista da história Por meio da obra A
Ideologia Alemã, escriia em parceria com Engels, chega a duas conciusões básicas: “que a
natureza dos indivíduos depende das condições materiais que determinam sua produção”; e
que na história da humanidade sucedem-se vários modos de produção, sendo o próprio
capitalismo um modo de produção de caráter transitório7
Entre 1847 e 1852, Marx e Engels ingressam na Liga Comunista8; elaboram o
Manifesto Comunista, publicado em 1848; participam intensamente da “Primavera dos
Povos” - denominação dada às revoluções de 1848 - em Paris e em Colônia; e fundam em
Colônia a Nova Gazeta Raiana sob uma orientação democrática radical contra a autocracia
prussiana A vitória da contra-revolução reconduz Marx ao exibo em maio de 1849, agora em
Londres, de onde ele não mais sai. Marx elabora, no período imediatamente subsequente, às
obras As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 e Dezoito Brumário de Luís
Bo“ *parte.
Marx reconhece na derrota da “Primavera dos Povos” a fragilidade da classe
operária, ainda pequena quantitativamente e dispersa geográfica e politicamente; o
esgotamento da trajetória revolucionária da burguesia, transformada definitivamente em
classe dominante e abertamente contra-revolucionária; e a vitalidade do capitalismo, que
promovia a industrialização em vários países (EUA, Alemanha, França, Itália, Bélgica) e dá
início ao novo expansiomsmo colonialista na África e Ásia. Esse reconhecimento desperta em
Marx a necessidade de conduzir estudos econômicos de maior fôlego acerca do capitalismo e
de criar uma organização internacional dos trabalhadores.
As obras Esboços da Critica da Economia Política (produzido entre 1857 e 1858,
mas somente publicado em 1941) e O Capital (o primeiro livro é editado em 1867; quanto
aos livros segundo e terceiro são concluídos por Engels após a morte de Marx) jogam novas
luzes sobre a dinâmica de expansão e de crise do capitalismo A participação na fundação da
Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (ATI) em 1864, para o qual é eleito para
o seu Conselho Geral e onde convive com intensas disputas políticas contra a ala anarquista
liderada por Bakunin, confirma o seu compromisso com a construção de uma personalidade
7Oideal burguêsconcebeocapitalismocomoetapafinal dastransformaçõesda sociedadehumana, restandoa
esteapenaso seupróprioaperfeiçoamento A ‘eradasrevoluções’,segundoessaconcepção, nãoteriamaislugar
nahistóriada humanidade
11
política revolucionária, libertária e internacionalista dos trabalhadores. A elaboração da sua
última obra expressiva, A Guerra Civil em França, onde aborda a Comuna de Paris de 1871,
é acompanhada do progressivo esvaziamento da ATT.
Nos últimos dez anos de sua vida, Marx não produz nenhuma obra expressiva e não
consegue concluir O Capital. A saúde abalada, a perda da esposa e filhos, c esgotamento de
anos de trabalho intelectual extenuante, entre outros fatores, o impedem de conduzir esforços
continuados de sínteses ricas de elementos e que, de maneira tão evidente, haviam
caracterizado sua obra até então (Bottomore, 1988, P. 240). Marx morre na cidade de Londres
em 1883
íorençd A. deOliveira Costa
Psicóloga
2 - CAPITALISMO E MARXISMO DP OQ,n06427
As teses sobre as quais se apóia análise marxista sobre o sistema capitalista mantém a
sua atualidade. As relações sociais entre os homens no capitalismo são reguladas pelo valor de
troca antes do que pelo valor de uso das mercadorias e serviços que eles produzem. Em
síntese, as necessidades humanas encontram-se na dependência direta do poder de compra das
pessoas no mercado.
A satisfação das necessidades humanas apresenta-se como resultado secundário da
produção e do lucro mediado pelo sistema de trocas. É o capital e os bens, não o homem e a
vida, que encontram-se no centro da atividade econômica no sistema capitalista
O processo de desenvolvimento do capitalismo acirra a dupla contradição presente na
sua base de reprodução Primeiramente, a contradição estabelecida entre a crescente
produtividade do trabalho social, por um lado, e seu o uso repressivo e destrutivo, por outro.
Em segundo lugar, a contradição estabelecida entre o caráter social da produção e a
apropriação privada dos excedentes
O capitalismo somente pode resolver essa contradição temporariamente, de forma a
aumentar o seu caráter repressivo e destrutivo por meio do desperdício, do luxo e da
destruição das forças produtivas. A corrida competitiva pelo armamento, pela produção e pelo
lucro proporcionam um elevado grau de concentração do poder econômico - via
centralização/concentração oligopolista e financeira do capital. A expansão econômica
agressiva para o exterior, os conflitos regionais criados e/ou incentivados e as disputas por
8
Organização de trabalhadores alemães emigrados e sediada em Londres.
influência continental entre os países de capitalismo central, tendem a formar ciclos
recorrentes de dependência, de guerras e de depressões.
A quinta tese sobre a qual se apóia a análise marxista sobre o sistema capitalista
insere a idéia da possibilidade da transformação social. Segundo Marx, o ciclo de reprodução
do capital carrega a possibilidade histórica de ser interrompido pelo mundo do trabalho em
aliança com outros
setores populares. Isto porque as classes do mundo do trabalho suportam o peso da
exploração econômica, o que as tende levar à perspectiva da transformação social, de forma a
assumir o controle do aparato produtivo e a desencadear a superação das contradições básicas
do sistema capitalista de produção. Por um lado, liquidando com o sistema social de produção
mas de controle e apropriação privados e, por outro, libertar o desenvolvimento das forças
produtivas e estabeleça1a integração entre o desenvolvimento das forças produtivas e as
necessidades humanas.
Capitalismo e Crise
Marx e os intelectuais críticos do capitalismo que se referenciam no marxismo clássico
concebem o ‘fenômeno’ crise em função do capital, tema fundamental para a reflexão social e
econômica no âmbito do capitalismo. Portanto, em termos do marxismo clássico, a abordagem
do fenômeno crise deve partir, necessariamente, da negatividade constitutiva do capital.
O capital constitui o fundamento do processo da reiteração e expansão das suas próprias
condições de existência Cumprida a etapa da acumulação primitiva de capital, o capital se
materializa nos meios de produção que se coloca à frente da força de trabalho como algo
estranho e com poder de obrigá-lo a produzir, e na própria força de trabalho, adquirida pelo
capitalista no mercado e integrada ao capital como capital variável. Enquanto materialização da
riqueza social e enquanto proprietário das faculdades do produtor, o capital constitui-se, em um
determinado sentido, no ‘sujeito’ que transforma a produção e a circulação das mercadorias em
meios para a sua reprodução expansiva Assim, todas as formas econômicas, das atividades
econômicas em sentido restrito às formas de organização (tecnológica e organizacional) do
trabalho, são simples mediadoras da referida expansão (Coggiola (Coord ), 1996, p. 291-302).
O movimento do capital engendra uma contradição. Pára recriar o fundamento da sua
valorização o capital necessita, concomitantemente, de criar e subordinar a força de trabalho e
encontrá-la como seu oposto no mercado e no processo de produção. Dessa forma, reduzindo o
trabalho à condição de mercadoria poderá absorvê-lo como capital variável.
12
Por outro lado, a partir desta transformação o capital busca valorizar-se
crescentemente, o que leva ao progressivo predomínio do capital constante em relação ao capital
variável. Dito de outra forma, o domínio do trabalho vivo pelo morto (capital), com o
progressivo predomínio do capital constante em relação ao capital variável (como uma tendência
à negação do trabalho vivo pelo moito), conshtui-se na manifestação da contradição, visto que é
o trabalho a fonte do valor e, portanto, do próprio capital.
No plano das relações econômicas este ‘sujeito’ se expressa por meio dos capitalistas
individualmente e enquanto grupo social. Cada capitalista em particular deve se confrontar com o
trabalhador para que possa obter a mais-valia (fundamento oculto do capitalismo, ao mesmo
tempo sua força propulsora e fonte da sua reprodução expansiva). Neste sentido, aumentar a
duração e a intensidade do trabalho e, acima de tudo, a sua produtividade é a garantia da sua
extração (e, possivelmente, expansão). O capitalista deve se confrontar também com os demais
capitalistas para preservar suas taxas de lucratividade e assegurar mercados. Para tanto, de deve
necessariamente baixar os seus custos de produção.
Como ‘sujeito’ da auto-valorização, que confronta consigo mesmo e com a sua
negação, o capital subordina a produção e a circulação de mercadorias como fases do processo
pelo qual ele se acumula e reproduz. Fases estas que, se reproduzindo sob uma relativa
autonomização e sob o impulso desmedido de auto-valorização, não se determinam peio
consumo e necessidades sociais.
A economia capitalista, apoiada na sua intrínseca anarquia em termos da produção, da
circulação e da produção/dreulação, concorre para crises recorrentes (Marx, 1984, v. I, p. 26).
O fato da determinação do que, como e quando produzir residir no âmbito de cada
unidade de produção e destas competirem entre si, inviabiliza processos de crescimento
equilibrado entre e inter departamentos e setores econômicos Indicadores de mercado como
preços, custos e juros, que sob certas condições estimulam a expansão mais ou menos rápida da
acumulação, não podem revelar barreiras como os limites de demanda ou de insumos básicos no
mercado. Dessa forma, normalmente a uma fase de expansão sucede uma fase de desaceleração
da expansão, que pode ser um decréscimo de ritmo da expansão, uma recessão, ou ainda uma
depressão, condicionada pelo grau da intensidade da fase expansiva precedente, pelos
desequilíbrios estruturais, pela mobilidade do Estado enquanto agente produtivo, pelas formas
assumidas pela luta de classes, entre outras variantes.
Na esfera da circulação do capital, a crise aparece de modo privilegiado como paralisia
13
do movimento de compras e vendas entre os departamentos9 econômicos. Os departamentos
econômicos, que idealmente precisam produzir conforme as necessidades um do outro, de fato
determinam sua produção de acordo com o impulso de valorização dos seus próprios capitais;
visam seus lucros, sen considerar ex ante que os mesmos tem que se realizar por meio da venda
do seu produto aos outros departamentos econômicos (Singer, 1989, p 17-20).
Na fase de expansão, o sistema dispõe de reservas da fase precedente de desaceleração
como excedente de mão-de-obra, capacidade produtiva ociosa, matéria-prima estocada, terra
improdutiva, às quais se agrega a ‘poupança’ pública e privada como pedra de toque da retomada
da expansão. A nova expansão pode ter inicio a partir de setores produtivos que possuem grande
repercussão na estrutura de reprodução material da sociedade. A indústria da construção civil,
por exemplo, capaz de provocar, por meio da sua rápida expansão, uma demanda importante
para o Departamento I, como canos, máquinas, cimento, vidros, azulejos etc, para o
Departamento lí, como tecidos e alimentos, decorrentes do maior volume de emprego e,
possivelmente, de salários dos trabalhadores empregados neste setor; e para o Departamento III,
como eletrodomésticos, carros etc, consumidos por capitalistas, gestores intermediários da
produção e trabalhadores em geral Uma or.da de expansão iniciada em alguns setores tende, por
um efeito cascata, a estender-se sobre todos os demais setores e departamentos econômicos.
Quando as reservas precedentes à fase de expansão esgotam-se, quando uma expansão
reiterativa da produção dá lugar à acumulação real, os problemas começam a ser gerados. Os
capitais, procurando os investimentos de retomo maior, mais rápido e mais seguro, tendem a se
concentrar em determinados setores e ramos de atividades, em detrimento de outros. ‘Gargalos’
gerados em setores e ramos de atividades que exigem investimentos de grande monta e de
retomo a longo prazo (como as atividades do Departamento I) podem não mobilizar os capitais
necessários para a sua expansão.
A mobilização dos capitais pode não ser o bastante para conter a interrupção precoce de
uma fase de expansão real, visto que o tempo de ampliação e/ou montagem de novas unidades
produtivas, especialmente em se tratando do Departamento I, é sempre de médio a longo prazo.
A escassez e elevação de preços decorrentes podem transformar seus produtos em mercadorias
proibitivas a diversas empresas, desencadear falências, elevar custos gerais de toda a estrutura
produtiva, provocar ciclos de inflação e retomar as grandes taxas de desemprego
9 O conceito ‘departamento econômico’ é primeiramente formulado por Marx (1973, vol. II, 3 seção). Para
compreender a reprodução ampliada do capital em escala nacional, Marx opera uma separação da economia em
Departamento I, produtor de bens de produção e Departamento II, produtor de bois de consumo. Kalccki (1983,
p 35-55) propôs um novo esquema, desmembrando o segundo departamento econômico (originalmente
14
A mobilização e adequado investimento da poupança social em atividades do
Departamento I, materializada em uma satisfatória ampliação da sua produção, pode acarretar
uma carência de recursos nos Departamentos II e III, formadores da sua demanda, Além disso, a
sua própria acumulação e dos seus agentes financeiros pode ser comprimida pela pressão de
custos que exerce sobre os demais. De uma forma, ou de outra, a crise e os seus sintomas tendem
a reaparecer. Em outras palavras, em uma economia de mercado a cada ‘gargalo’ superado em
um dado período outros se formam.
Na esfera da produção mais ampla (que engloba como etapas a da circulação e a da
produção imediata de mercadorias pelo capital), a crise econômica capitalista se expressa de
forma mais completa e complexa. É nesta esfera que a negação do trabalho vivo pelo morto
(capital) se manifesta na tendência ao crescimento proporcional do valor do capital constante em
relação ao capital variável, levando à queda da taxa média de lucro mesmo com um possível
aumento da taxa de mais-valia.
Para conservar/ampliar a taxa de mais-valia extraída e conservar/baixar custos de
produção, o capitalista recorre ao aumento de capital fixo. O crescimento do capital fixo em
relação ao trabalho - tecnologizaçâo da produção - é o principal meio para aumentar a
produtividade do trabalho, e o crescimento do capital fixo em relação ao produto - a capitalização
da produção - é o principal meio para reduzir os custos unitários de produção
O crescimento do capital fixo por produto unitário é o elemento mais importante para se
obter economias de escala. As empresas sob economias de escala viabilizam o crescimento do
volume de matérias-primas processadas por trabalhador Como resultado, tanto as matérias-
primas como a produção de mercadorias tendem a aumentar por unidade de trabalho.
Concomitanlemente, o maior volume de capital fixo por produto unitário implica maior despesa
de depreciação do referido capital e maiores custos de materiais auxiliares (eletricidade,
combustível, instalações prediais etc) por produto unitário.
Conforme indicou Bottomore,
(...) para métodos mais avançados, a maior capitalização (capital adiantado por produto
unitário) implica maiores custos unitários não relativos a trabalho (capital constante
unitário C), enquanto a maior produtividade implica m aiores custos unitários com o
trabalho (capital variável unitário V) No salto, o custo unitário de produção C+V deve
declinar, de modo que o último deve mais do que compensar o primeiro Sob condições
15
trabalhado por Marx) em Departamento II, produtor de bens de consumo corrente e Departamento III, produtor
de bens de consumo duráveis. Adotaremos o esquema desenvolvido por Kalecki
técnicas determinadas, no momento em que os limites do conhecimento e da
tecnologia existentes forem alcançados, os aumentos subseqüentes no investimento por
produto unitário provocaria reduções cada vez menores nos custos unitários de produção
(Botiomore, 1988, p. 372).
A conseqüência principal desta dinâmica é que os métodos mais avançados tendem a
proporcionar maior custo unitário de produção on detrimento da taxa de lucro (que tende a cair).
Ainda que os salários e a intensidade e duração dajornada de trabalho se conserve, o aumento da
composição orgânica do capital (capital constante suplantando crescentemente o capital variável
na composição do capital) tende a elevar-se mais rapidamente do que a taxa de mais-valia,
determinando a queda da taxa goal de lucro.
Em que pese todo este quadro, a concorrência capitalista empurra os capitalistas a
adotarem a capitalização (ou tecnologização) da produção. Aqueles que primeiramente adotam
os ‘novos’ métodos de capital mais intensivo, ao reduzir custos podem reduzir também seus
preços abocanhando parte do mercado junto aos seus concorrentes. Podem também manter por
um determinado período uma acumulação relativamente elevada para os padrões gerais da ‘nova’
realidade da acumulação. Aqueles capitalistas que lhes seguem na aplicação do referidos
métodos não dispõe desta acumulação relativamente elevada, visto que recoloca-se uma nova
guerra de preços, reduzindo a acumulação. Aqueles capitalistas que não conseguem aplicar os
novos métodos vão à falência ou restringem-se a um papel econômico periférico e quase tão-
somente reiterativo.
Para o capitalista individual que primeiramente adota estes métodos de capital
intensivo, o menor custo unitário obtido permite reduzir preços e expandir-se a expoisas de seus
concorrentes, compensando sua menor taxa de lucro (por unidade produzida), por meio de uma
fatia maior do maçado. Aqueles que adotam os referidos métodos tardiamente e/ou estão
sujeitos a pressões financeiras, estão sujeitos, ao mesmo tampouco, a uma taxa de lucro ainda
menor e a uma acumulação igualmente menor no conjunto do ciclo econômico.
No sistema cano um todo, o resultado é a queda da taxa média de lucro Este resultado
determina um desestimulo crescente à acumulação, ou seja, da realização de novos
investimentos, tendo em vista a manutenção/ampliação da massa de lucros
A estagnação da massa total de lucro, enquanto uma ‘onda longa' no sistema, tende a
conduzir, em um certo momento, a uma crise geral do sistema. Conforma-se, portanto, a
tendência secular de queda da taxa média de lucro (processo ao longo do qual ‘ondas longas’ de
crise e de acumulação necessariamente ocorrem)
16
A tendência de queda da taxa média de lucro convive com contra-tendências
neutralízadoras (Coggiola (Coord), 1996, p. 194-195; Bottomore, 1988, p. 371-373; Sweezy,
1976, p. 125-128). A contenção salarial; a intensificação do processo de exploração da força de
trabalho; a eliminação de conquistas trabalhistas; a recriação de formas de exploração e
dominação extra econômica (escravidão, servidão, etc); a geração de capital constante mais
barato por meio de uma determinada tecnologia disponível; a migração de empresas para espaços
sócio-econômicos e territoriais oom força de trabalho e recursos naturais mais baratos; o
desenvolvimento de novos métodos de gestão da produção que alcançam maior racionalização da
produção e intensidade do trabalho; a terceirização de fases da atividade produtiva barateando
custos de serviços e produtos; a importação de bens de consumo para assalariados e meios de
produção mais baratos; o desenvolvimento de indústrias complementares nas quais a composição
orgânica de capital fosse relativamente baixa, entre outros processos, podem contribuir para a
elevação da taxa de lucro, aumentando a taxa de exploração e/ou baixando a composição
orgânica do capital. Tais processos são tão importantes para o capitalista individual como para o
sistema como um todo.
Os referidos processos (entre outros) podem compra- um processo mais amplo, qual
seja, a reestruturação produtiva Enquanto tal será, necessariamente, um mecanismo voltado para
assegurar, de um lado, o avanço das forças produtivas, e, de outro, a re-subradinação do trabalho
ao capital com novos métodos oiganizativos/administrativos que esvaziem o potencial de
resistência dos trabalhadores
A reconstituição e/ou ampliação do exército industrial de reserva nos quadros da crise
possui uma importância particular enquanto uma contra-tendência à tendência de queda da taxa
média de lucro. A perda de estímulo para novos investimentos e a destruição de forças produtivas
(falências, concordatas, desvalorização e/ou destruição dos excedentes etc) provocados pela
crise, proporciona um ambiente extremamente favorável para a diminuição dos salários e para a
queda das condições de trabalho graças à super-oferta da força de trabalho. Tal processo diminui
o custo do trabalho no âmbito dos custos da produção e é um importante fator de ampliação das
taxas de extração de mais-valia.
Destacamos também enquanto contra-tendência à tendência de queda da taxa média de
lucro o papel que o Estado passa a cumprir a partir da crise de 1929. A conversão do fondo
público em fondo de financiamento da acumulação, a possibilidade de mobilizar capitais
especulativos e canalizá-los para a produção, por meio da emissão de títulos, a transformação do
Estado em agente produtivo que pode determinar sob certas conjunturas o perfil da conjuntura ou
período econômico e/ou abrir mão dos seus ganhos em beneficio da iniciativa privada, o
17
desenvolvimento de pesquisas tecnológicas e científicas para o capital, a condição de grande
comprador e impulsionador/contratador de obras públicas, entre outras condições e atribuições,
edifica o Estado como uma instituição anti-crise e de contra-tendência à queda da taxa média de
lucro.
E necessário reconhecermos, ainda, que a crise, enquanto realidade do sistema
capitalista e independentemente de ser mais ou menos destrutiva, será parte constitutiva do
processo de concentração e centralização de capitais (Coggiola (Coord.), 1996, p. 303-315). O
referido processo, em tomos econômicos globais de cada país (não de cada empresa enquanto
unidade produtiva), apresenta uma fase em que predomina a concentração e outra em que
predomina a centralização de capitais. Na fase da concentração de capitais - precedida por uma
fase de centralização de capitais e desencadeada por uma nova etapa de competição oligopolista
e monopolista e/ou pela atuação de governos por meio da manipulação de políticas econômicas -
as reservas de capitais acumulados por parte das empresas e presentes na órbita financeira são
aplicados na ampliação quantitativa e/ou qualitativa das empresas, verticalízando e/ou
horizontalizando os espaços de atuação dos seus capitais. Nesta fase, o crescimento das despesas
ocorre passo a passo com o aumento das receitas.
A rigidez relativa entre a estrutura de custos e o nível das receitas determina uma
instabilidade para as empresas que necessitam contar com provisão financeira - com exceção dos
oligopólios e uma parte dos monopólios, a maioria das empresas necessitam da referida provisão,
obtida junto ao sistema financeiro As empresas não monopolistas ou monopolistas sem suporte
de autofínanciamento somente dispõem de duas alternativas: ingressar na fase da concentração
de capitais (sob pena de reduzir suas receitas em relação às demais empresas) ou amargar uma
gradual marginalização no mercado.
Desencadeado o processo, conforma-se a tendência à homogeneização das taxas de
retomo imposto pelos oligopólios e monopólios, com grandes conseqüências econômicas. As
empresas que não efetuam despesas, embora com taxas de retomo superiores à taxas de retomo
média imposto pelos oligopólios e monopólios possuem receitas infinitamente inferiores.
Aquelas empresas monopolistas ou não que recorreram intensamente aos empréstimos junto ao
sistema financeiro também apresentam uma receita inferior aos oligopólios e monopólios que se
auto-fínanaaram No curso do prooesso da concentração de capital - no qual ocorre a reprodução
ampliada do capital, ou sqja, expansão que ultrapassa a pura e simples reiteração econômica - o
impacto desencadeado pela nova taxa de retomo e os custos financeiros de muitas empresas será
a falência e consequente incorporação daquelas despreparadas paia a competição nos termos
ditados pelas maiores e mais capitalizadas. Em consequência, diminui o número de empresas e
18
19
intensifica o controle dos oligopólios e monopólios sobre o mercado.
Consumado o processo tem inicio novamente a fase de centralização de capitais, ou
seja, de capital líquido na forma de lucros das empresas diretamente produtivas que ampliam
suas receitas - oligopólios e monopólios - ou empresas financeiras que partilham dos lucros das
empresas que recorrem a financiamentos - boncGS, bolsas de vaiores etc. A nova massa de
capitais não diretamente aplicado, ou reserva de poupança, começa a ser recomposto preparando
as condições para uma nova fase de concentração de capitais.
A crise, ir.dependentemente da sua extensão e natureza, cumpre sempre um importante
papel na reprodução ampliada do capital, qual seja, o de destruir para construir em novas bases.
A crise (incompatibilidade entre produção e consumo; interrupção do fluxo de compras e vendas
ou de pagamentos, desproporcionalidade e desequilíbrio entre os departamentos econômicos em
que se divide o capital social; queda da taxa média de lucro; sobre-acumulação; desvalorização
do capital existente e contradições inerentes à dinâmica de concentração e centralização de
capitais) será, portanto, fruto da contradição constitutiva do capital.
As crises não levam a um colapso econômico final capaz de destruir completamente e
de uma só vez o sistema Para Marx, o fim das crises somente pode advir do trabalhador, que
tomando consciência de si mesmo e das relações sociais que o envolvem, edifica-se como o
sujeito real e verdadeiro da produção (dominando o sujeito abstrato, representado pelo capital). O
capitalismo, cuja essência é a (relação de) contradição inscrita na sua própria origem, desaparece
com a eliminação da referida contradição; o que equivale reconhecer que a crise no capitalismo
somente seria superada por meio da superação do próprio sistema.
A concepção de crise em Marx, conforme identificamos, não pode ser separada da
dinâmica do capital e, nem tampouco, a superação definitiva da crise no capitalismo fora da
superação do próprio capitalismo Neste ponto reside a unidade dialética da concepção marxista a
cerca do capital e da cnse As teorias que se encontram fora desta concepção (incluindo aquelas
que se reivindicam da teoria econômica de Marx), de forma explícita ou não, conformam-se
enquanto teorias (ou metodologias) para o capital.
Em nossa perspectiva, cada processo de crise no capitalismo compõe uma teia
específica de articulação destes elementos estruturais' identificados por Marx A crise, portanto,
deve ser compreendida enquanto crise das relações capitalistas de produção e que, como lai, pode
encontrar, como obstáculos conjunturais à sua reprodução, realidades económico-sociais e/ou
institucionais
Os obstáculos à reprodução capitalista poderão inviabilizar ou imprimir um curso
particular ao desenvolvimento capitalista A forma e o sentido da superação destes obstáculos
20
serão, necessariamente, uma consequência da interferência das classes, movimentos, grupos
sociais e partidos políticos, em uma dada conjuntura nacional e internacional e sob uma
determinada correlação de forças, em nível das superestruturas sociais.
Postas estas considerações gerais, é necessário que superemos alguns equívocos quanto
ao entendimento do conceito crise no sistema capitalista Pnmeiramente, é necessáno que se
compreenda que a crise não é algo anormal ao sistema capitalista. Ela compõe a essência do
referido sistema e é necessária à sua própria reprodução
Em segundo lugar, compreender que cada crise possui a sua especificidade Uma crise
poderá ser induzida ou não pelo poder público, como também ser mais ou menos duradoura.
Em terceiro lugar, devemos distinguir as crises em função do grau e profundidade da
sua repercussão. Neste sentido, as crises podem ser de repercussões mais imediatas e de curto
prazo, que decorrem de flutuação dos indicadores econômicos e da re-acomodação produtiva das
atividades econômicas; de repercussão mais ampla, que podem fíndar/criar novos ciclos
expansivos no âmbito de um padrão de acumulação e financiamento; e, finalmente, de
repercussão muito ampla, que caracterizam o esgotamento de um padrão de acumulação e
financiamento capitalista
Em quarto lugar, devemos reconhecer que a crise no capitalismo não possui
causalidades puramente econômicas e que estas podem não encontrar-se entre os fatores mais
importantes na deflagração de uma crise econômica O que implica orientarmo-nos por uma
perspectiva de totalidade, ou seja, localizar fatores sociais, políticos, econômicos e ideológicos
que concorram para uma crise, bem como hierarquizá-los segundo a sua importância na
conjuntura.
Em quinto lugar, a crise provoca, inexoravelmente, uma estagnação ou acumulação
restrita de capital em termos econômicos globais. Comumente ocorre, paralelamente a este
processo, a transferência de mais-valia e rendas para os grupos monopolísticos e oligopolísticos
assegurando-lhes elevadíssima acumulação.
Em sexto lugar, uma crise econômica pode estar criando condições sociais, políticas,
econômicas e ideológicas para uma nova fase de acumulação do capital. Neste sentido, a
destruição desencadeada pela crise pode ser um pressuposto para uma nova construção (ou
expansão das relações capitalistas de produção).
Capitalismo e Experiências ‘Pós-Revolucionárias
As contradições emergidas do capitalismo e indicadas por Marx dão conta de evoluir
para processos revolucionários no século XIX e, principalmente, no século XX Alguns
destes processos são derrotados, a exemplo da Comuna de Paris de 1871, outros nos legam as
experiências ‘pós-revolucionánas’, a exemplo do leste da Europa e da China.
As experiências ‘pós-revolucionários’ denominadas ‘socialismo real’ não logram
realizar a ulopia socialista. 0 burocratismo, as relações autoritárias de poder, a corrida
armamentista, o desequilíbrio do desenvolvimento do processo produtivo, o atraso técnico-
científico comparado aos centros dominantes do capitalismo, são demonstrações inequívocas
da deturpação e desvirtuamento das sociedades ‘pós-revolucionárias’.
E trivial - senão conservador - fixarmos apenas nas condições objetivas para explicar
os ‘desvios’ e ‘insuficiências’ dos processos de construção do socialismo nas sociedades ‘pós-
revolucionárias’. E necessário salientarmos a distância estabelecida entre essas experiências
históricas e a utopia socialista, especialmente a violentação da práxis da transformação social
pela ação das vanguardas políticas Em outras palavra, é menos importante compreender a
superioridade tecno-científica dos centros imperialistas quando comparado com a
identificação dos obstáculos que as estruturas de poder construídas nas experiências ‘pós-
revolucionárias’ acarretam no sentido da incompetência, acomodamento, desilusão e
desperdícios, tendo em vista a compreensão da crise das referidas experiências.
A transição do capitalismo para o socialismo somente poderá assegurar a superação
da propriedade e do controle privado dos meios de produção se tal processo encontrar-se
integrados coerentemente com o caráter social da produção e basear-se em uma hegemonia do
mundo do trabalho. A contradição dialética entre a intervenção direta do mundo do trabalho
(expresso no conceito ‘controle social da produção’) e os centros de poder externo ao mundo
do trabalho (expresso na nova estrutura de poder construída) deve ser superado pela gestão
direta da produção já nos primeiros ‘momentos’ da transição para o socialismo. Dessa forma,
poderá ser possível libertar e harmonizar o desenvolvimento das forças produtivas com as
necessidades da sociedade humana. Nada disto ocorre nas sociedades ‘pós-revolucionárias’ do
século XX.
A práxis política de transformação social deve superar qualquer prática política
sectária e golpista, de forma a orientar-se pela ética e pela autonomia do movimento. O
sentido estratégico da práxis pode significar a realização da utopia socialista ou a sua negação,
a transição para o socialismo ou a crise de definição e de perspectivas em sociedades ‘pós-
revolucionárias’.
Os equívocos das concepções predominantes nas experiências ‘pós-revolucionárias’
não permite que a tese de Marx, segundo a qual a propriedade dos produtores sobre os meios
21
de produção libertaria o desenvolvimento das forças produtivas, fosse confirmada ou
refutada pela ação concreta dos atores sociais do mundo do trabalho.
Capitalismo e Conflito Social
O papel transformador do mundo do trabalho e a transição para o socialismo sofrem
uma crise para algumas análises marxistas sobre sociedades capitalistas de intermediário e de
elevado grau de desenvolvimento das forças produtivas. Para situarmos o debate necessitamos
identificar alguns aspectos da sociedade capitalista do final do século XIX e do século XX.
Marx previa um conteúdo revolucionário e permanente do capitalismo no plano do
desenvolvimento das suas forças produtivas. Para Marx, o capitalismo removeria a camisa-de-
força sob a qual as forças produtivas encontrariam-se submetidas nas sociedades pré-
capitalistas e as conduziria de tal forma que as contradições, no que concerne às relações
capitalistas de produção, estabeleceriam um período revolucionário de transição para o
socialismo. A tendência de proletarização crescente de amplas camadas da sociedade e a
internacionalização do espaço e política revolucionárias haveriam de se constituir em uma
conseqüência dialética do processo.
Essas previsões de Marx não se confirmam plenamente. No seu processo de
desenvolvimento o capitalismo mundializa-se definitivamente, estende os seus tentáculos
sobre todas as esferas da vida social e alcança o estágio de capitalismo monopolista de Estado.
Mas nesse processo (e como reação a estratégia socialista) produz-se um conjunto de
iniciativas e instrumentos no sentido de garrotear a contradição fundamental capital versus
trabalho, de forma a buscar a subordinação do desenvolvimento das forças produtivas às
relações capitalistas de produção.
No plano técnico e científico o desenvolvimento das forças produtivas encontra-se
deprimidas por que estão vinculadas necessariamente ao desperdício e ao luxo elevado e
irrestrito. Grandes somas de excedentes são transferidas para financiar e manta-a indústria da
guerra: indústrias locomotivas do sistema, como a de automotores, produtoras de veículos de
luxo e de decrescente duração, secundarizam a produção de meios de trabalho produtivo e de
transporte de massa; informática e eletrônica, sob os limites das relações capitalistas de
produção, canalizam-se muito mais para área de distribuição, serviços e pesquisas, do que
para os processos de produção propriamente ditos, e assim por diante.
A sociedade norte-americana, locomotiva do capitalismo e paraíso do ‘modus
vivendi' burguês ocidental é paradigmática O elevado grau de desenvolvimento das suas
22
forças produtivas expressam esse conteúdo repressivo e destrutivo, por meio do luxo e
desperdício nacionais, financiados graças a um sucateamento do sistema produtivo e
paupenzação social da periferia do mundo capitalista (América latina, África, etc) e pela
guetifícação social de parcelas da população da própria sociedade norte-americana O
inacionalismo econcmico’ atinge o seu clímax e dramaücidade no próprio déficit público
anual dos Estados Unidos, no momento superior a um terço da dívida externa fixa do
chamado ‘terceiro mundo’.
No plano político o desenvolvimento das forças produtivas encontra-se deprimido,
pnmeiramente, pela institucionalização das lutas sociais. As reformas eleitorais e trabalhistas
conduzidas na Alemanha no final do século XIX por Otto von Bismarck e posteriormente
exportadas para outros países são capazes, respectivamente, de integrar/subordinar a ação
política da esquerda ao campo institucional e de lançar as bases das progressivas reformas
sociais e de seguridade social que redundaria mais tarde no Estado do bem-estar sodaL A
carência de uma política econômica coerente com estas reformas e a necessidade de controlar
a instabilidade depressiva e as crises termina por proporcionar a teoria keynesiana de
regulação econômica
A revolução produtivista proporcionada pelos métodos fordista e taylonsta de gestão
produtiva integra estas mudanças institucionais A divisão técnica do trabalho realizado por
estes métodos assegura a ampliação da produção sem que para tanto tenha que assegurar um
trabalhador com ampla consistência intelectual e motivado pelo trabalho coletivo.
Combinadamente, o fordismo, o taylorismo e, a partir das últimas décadas, o toyotismo
advoga nos países de capitalismo central a produção em massa e consumo em massa, nela
incluído os trabalhadores.
Amplia-se progressivamente a partir do final do século XIX as reservas sociais e
políticas da hegemonia burguesa. O capitalismo encontra um meio de integrar, sob
determinados limites, as expectativas individuais de consumo e conforto das pessoas em geral
e dos trabalhadores em particular com a necessidade de reprodução material dele mesmo. Este
processo, consolidado nas décadas de 50 e de 60 na forma dos chamados anos dourados do
capitalismo, provavelmente teria ocorrido antes não fosse as duas grandes guerras mundiais
No plano da formação da consciência o desenvolvimento das forças produtivas
encontra-se reprimido devido a manipulação científica das necessidades, dos desejos, das
satisfações, dos prazeres. Esta manipulação representa um reforço complementar à unificação
e integração da sociedade Surgida da combinação entre a mídia eletrônica e a psicologia
comportamental - manipuladas cientificamente - da opera em nívd da publicidade, da
indústria da diversão, etc, de forma a gerar o nó górdio entre a superestrutura político-
ideológica e a base do processo produtivo. Esse padrão ‘amencanista’ da sociedade de trocas,
emergido da concepção liberal do trabalho e da reifícação do mercado, tem funcionado como
um importante pára-choque das contradições e conflitos sociais.
A razão crítica transformadora, que se apresenta como algo irresistível para os
marxistas do final século XIX e início do século XX, dá lugar à uma razão crítica
instrumental, fruto da coisificação humana na sociedade de trocas. A perspectiva do
desenvolvimento da consciência ‘em si’ para a consciência ‘para si’ - transformadora e
mternacionalista - não se realiza na sociedade da Revolução de Outubro. Na Europa
Ocidental, após as tentativas revolucionárias das primeiras décadas, podemos mesmo concluir
ter ocorrido um refluxo da consciência ‘era si’ para a consciência ‘corporativa’.
O capitalismo monopolista de Estado - proveniente da fusão das instituições e órgãos
públicos com os núcleos dirigentes dos monopólios e oligopólios - consegue reprimir o
desenvolvimento da contradição estabelecida entre as forças produtivas e as relação de
produção capitalistas por meio da combinação entre a planificação econômica e aparelhos
públicos e privados de hegemonia. A concepção marxista da passagem do capitalismo para o
socialismo passa a conviver, a partir de então, com abalos emergidos da nova configuração do
capitalismo.
Ao construir novas reservas políticas e ideológicas a classe dominante não perde de
vista o terreno nacional como a base fundamental para a realização do seu domínio. Os países
de economia central buscam garantir índices de bem estar para parcelas substanciais das suas
populações, visando promover ahos níveis de estabilidade política e o tempo e espaço
necessário para fortalecer sua hegemonia ideológica O capital oligopolista e financeiro
internacional compreende que a coesão interna dos países de capitalismo central é
fundamental para manutenção do domínio do capital em plano mundial.
Nos países de capitalismo periférico a ‘pauperizaçào progressiva’ é real para amplos
setores. Contudo, os aparelhos de hegemonia, a militarização do Estado, os recursos da
política tradicional, a constituição de segmentos sociais médios privilegiados, entre outros
elementos, constituem-se em amortecedores das contradições sociais, isto é, convertem em
mecanismos de contenção do desenvolvimento da luta de ciasses na perspectiva da
transformação social.
O capitalismo não pode conter ad eterno a contradição fundamental estabelecida
entre as forças produtivas e as relações de produção. A subordinação das forças produtivas is
relações de produção pode estar sendo abalada por meio da globalização da economia, do
24
acirramento da competitividade, da reestruturação produtiva, da desregulamentação
econômica, da demolição e/ou minimização do Estado do bem-estar social em diversos países,
da desregulamentação do mercado de trabalho, entre outros processos, em curso a partir dos
anos 70 na Europa Ocidental e Japão e anos 80 e 90 do século XX no restante do mundo. As
crises econômicas periódicas, o acirramento da disputa de hegemonia entre cs blccos
imperialista, a elevação do movimento operário internacional, a luta pela garantia das
conquistas conduzidas pelo ‘socialismo real’ no leste da Europa, são exemplos de processos
que expressam luta de classe e que são capazes de proporcionar acirramentos da contradição
fundamental
Em que pese o contexto histórico favorável para o desenvolvimento do capitalismo
no início do século XXI, não há como não reconhecer que ele sofre derrotas importantes. O
movimento anti-globalização, a internacionalização da luta pelo socialismo, os limites da ação
imperialista no mundo muçulmano, etc, evidenciam, por um lado, processos históricos que
não podem simplesmente ser removidos pelo capitalismo e, por outro, as condições básicas e
fundamentais destes conflitos não possuem solução no seu interior.
O Marxismo Reprimido
A dinâmica de reprodução ampliada do capital e as novas configurações sociais,
políticas, econômicas e ideológicas do desenvolvimento capitalista proporciona um ambiente
que pode desencadear a superação de alguns conceitos e categorias do marxismo. Na verdade,
uma previsão feita pelo próprio marxismo. Todavia, a crítica a conceitos e categorias
marxistas esta dando lugar a crítica ao método e a própria praxis política da transformação
social.
Os maiores adversários do marxismo emergem, não raramente, por dentro dele
próprio. O revisionismo de Bernstein, Kautsky ou Mach, que buscam criticar o núcleo central
das estruturas de análise que compõem o método e filosofia, são exemplos desta realidade. Os
ideólogos da Teologia da Libertação reivindicam o ‘método marxista’ destituído da sua
filosofia Na verdade, propõem um retomo à um paraíso perdido: o begelianismo de esquerda.
Pára os magos da ‘nova esquerda', o marxismo é superado enquanto doutrina e filosofia
revolucionária, restando um referencial - junto a outros - para interpretação e crítica do
capitalismo. O marxismo - como momento da práxis revolucionária é dispensado, em
função de um ecletismo metodológico e humanista neo-idealista A ala esquerda da social-
25
democracia (e aliados), questionam para além do método. Conceitos universais como: luta
de classes, ruptura, revolução, entre outros, para esses setores fazem parte do grande sistema
mitológico representado pelo ‘marxismo revolucionário’. Conforme Lukács,
A função do manasir.o ortodoxo - superar o revisionismo e o utopismo - não é a liquidação, de uma ve7 por
todas, de falsas tendências, mas sim uma luta incessantemente renovada contra a influência corruptora de formas
do pensamento burguês sobre o pensamento do proletariado
Manter o ‘alvo fina!’ ou a ‘essência’ do proletariado isentos das distorções do materialismo vulgar, significa a
compreensão da realidade, a atividade crítica prática, a superação da dualidade utópica do sujeito e do objeto, da
teoria e da práxis
Esse quadro emerge de um duplo processo De um lado, a crise das experiências
‘pós-revolucionánas’ expressa, principalmente, por meio das burocracias autoritárias, das
contradições nacionais e do atraso técnico e cientifico dessas sociedades De outro lado, pela
enorme capacidade repressiva desenvolvida pelo capitalismo junto às suas contradições
básicas e fundamentais. A crise das sociedades ‘pós-revolucionárias’ e os novos obstáculos à
luta pelo socialismo nos países periféricos e, principalmente, centrais do capitalismo, gera
uma perplexidade no movimento socialista, de forma a expressar concepções revisionistas.
Recriadas tendo como referência a social-democracia européia e desenvolvidas em novas e
diversas formas, estas concepções estão quase sempre preocupadas com as ‘antinomias do
marxismo’.
Os críticos do marxismo ‘ortodoxo’ ampliam a sua influência, principalmente por
meio da academia O marxismo universitário desloca o centro de reflexão do movimento
social e da luta de classes, como determina a melhor tradição marxista, para a academia.
E como tal reivindica a separação da dialética do materialismo, da interpretação da
realidade da articulação à perspectiva do mundo do trabalho; e do mundo do trabalho da
transformação social. Esta é sempre o centro da ação política, teórica e filosófica de
inspiração pequeno-burguesa contra o marxismo clássico. Não mais se estabelece uma relação
dialética entre sujeito e objeto; quem conhece, conhece para si e para a academia e não para a
classe. O conhecimento reflui para o plano da especulação e da ‘objetividade’ científica
Em certa medida, o marxismo universitário expressa o próprio processo de cooptação
ideológica desenvolvido pela hegemonia burguesa, de forma a reduzir o marxismo a um
método, concepção e teoria especulativa. A décima primeira tese sobre Ludwig Feuerbach é
rejeitada, consciente ou inconscientemente, por amplos setores. Ainda segundo Lukács,
26
27
O marxismo ortodoxo refere-se ao seu método. Implica na convicção científica de que com o marxismo
dialético encontrou-se o método coneto de investigação e de que este só pode ser desenvolvido, aperfeiçoado e
aprofundado no sentido indicado por seus fundadores; mais ainda: implica na convicção de que todas as
tentativas de superar’ ou ‘melhorar’ este método conduziram e necessariamente deveriam fazê-lo - a sua
trivialízaçâo, transformando-o num ecletismo
A denominada crise do ‘marxismo’ surge da incompreensão, em uma perspectiva
histórica, da contradição formada entre o desenvolvimento crescente das forças produtivas e
os obstáculos representados pelas relações de produção Contradição esta relegada pelos
novos revisionistas de sempre Marx indica na obra Para a Critica da Economia Política
(1858) as tendências económico-tecnológicas internas ao desenvolvimento capitalista e que
proporcionariam a sua tendencial dissolução: (Marx, 19.., p ..).
A medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza real depende menos do tempo de trabalho e
da quantidade de trabalho empregado e mais da potência dos instrumentos colocados em operação durante o
tempo de trabalho. Esses instrumentos e a sua poderosa eficácia não são proporcionais ao tempo de trabalho
imediato requerido pela produção; sua eficácia depende antes do nível científico adquirido e do progresso
tecnológico, ou seja, da aplicação da ciência a piodução.. - O trabalho humano não mais aparece então encerrado
no processo de produção; é antes o homem que é ligado a esse processo apenas como supervisor e regulador. Ele
está fora do processo de produção, ao invés de ser o seu agente principal... Nessa transformação, a base da
produção e da riqueza não é mais o trabalho imediato realizado pelo homem, nem o seu tempo de trabalho, mas a
apropriação de sua produtividade universal (poder criador), isto é, de seu conhecimento e de seu domínio da
natureza através de sua existência social; em suma, do desenvolvimento do indivíduo social (das muitas
capacidades). O furto do tempo de trabalho de um outro homem, sobre o qual se funda ainda hoje a riqueza
social, aparece então como uma base bastante miserável, em comparação com a nova base criada pela grande
indústria. Tão logo o trabalho humano, em sua forma imediata, deixe de ser a grande fonte de riqueza, o tempo
de trabalho deixará de ser e de um modo necessário - a medida da riqueza; e o valor de troca deixará de ser a
medida do valor de uso O sobre-trabalho da Massa (da população) cessará de ser a condição para o
desenvolvimento da riqueza social, e a situação privilegiada de alguns deixará de ser a condição para o
desenvolvimento das faculdades intelectuais universais do homem. Então, cai o modo de produção baseado sobre
o valor de troca
O colapso do capitalismo em Marx está ligado a tendência de crescente automação
fruto da enorme centralizaçâo/concentração do capital, no qual o produtor estaria cada vez
mais livre do processo de produção. O produtor poderia, desta forma, desenvolver a crítica
radical da sociedade capitalista e burguesa e construir a consciência de classe ‘em si’ e a
consciência de classe ‘para si’, de forma a compreender o sentido ‘pré-histórico’ da
apropriação privada dos frutos do trabalho e apreender a necessidade de remover a
contradição em favor do desenvolvimento humanizado das forças produtivas. A modernidade
do capitalismo tem evidenciado a tendência, mas contraditoriamente, tem desenvolvido
instrumentos para reprimi-la
Objetivamente, o revisionismo enfraquece o marxismo como teoria da critica radical
e priva o próprio método da práxis da perspectiva da transformação social. Por não
compreender esta dinâmica do processo histórico, o resultado tem sido um retomo ao tipo de
orientação política que majoritariamente grassa no Partido Social-Democrata Alemão, sob a
direção de Kautsky e Bemsíein. A estratégia gradualista para o socialismo no plano da tática
política é orientado por uma política institucional-parlamentar, respaldado por um movimento
sindical reivindicativo-imediatista Em nível da ciência priva o trabalho científico do seu
sentido de classe e transformador, de forma a reduzir-se a um conhecimento ‘objetivo’. Em
outras palavras, reduz o marxismo a uma manifestação ‘positivista’ de esquerda
Libertar o marxismo do revisionismo ocupa grande importância na práxis voltada
para a transformação social A exemplo de Lukács e da Escola de Frankfurt é necessário que
sejamos ‘ortodoxos’ na defesa da sua essência, o método. Combinadamente, é necessário
desenvolver uma estratégia político-cultural mediada por uma camada de intelectuais
orgânicos de classe, capazes de proporcionar a construção de um movimento social amplo e
radical o bastante para efetuar a crítica ao capitalismo e dirigir a construção da consciência de
classe ‘em si’ e ‘para si’. Enfim, articular uma intervenção ao nível da infra e superestrutura
social, informado por uma nova concepção de mundo, social-revolucionária, que permita a
conformação de um novo bloco histórico capaz de remover os obstáculos criados pelo
capitalismo para o avanço do processo histórico.
Construir a Autonomia do Marxismo
Até a década de 30 do século XX partidos comunistas, a exemplo do italiano,
exercem uma influência criativa no desenvolvimento do marxismo O marxismo se articula à
prática social e deste processo resultam transformações que o enriquecem.
Posteriormente, sob a influência dos conflitos estabelecidos entre a II e a Dl
Internacionais e, principalmente, por causa da relação burocrática, autoritária e a-crítica
estabelecida entre a UI Internacional e os partidos comunistas e destes para com seus
militantes, grande parte da atividade teórica marxista acaba por se transferir para as
universidades e se desvincular da prática política Como consequência emergem novas
28
concepções a cerca do marxismo e que não raramente divergia do pensamento original de
Marx e Engels.
O desvirtuamento do marxismo encontra a partir de então um campo fértil Isto
porque o acadêmico não leva muitas vezes em emita as consequências práticas do seu
pensamente, de forma a desautorizar um aspecto centrai dc marxismo, qual seja, articular
criativamente a teoria e a prática O marxismo universitário haveria de enriquecer e, ao
mesmo tempo, desviar o curso do marxismo. Superar o marxismo universitário é um passo
importante no sentido do resgate da priais transformadora
Outra iniciativa importante é libertar o marxismo da camisa de força representado
pelo leninismo O conceito ‘leninismo’ não possui um sentido de ‘universalidade’ na
perspectiva de uma priais transformadora Formado no período da IO Internacional a partir da
necessidade de desenvolver uma organização partidária para a luta da transformação social em
um contexto caracterizado por uma profunda repressão política, tal conceito prolonga-se para
uma determinada concepção da internacional, do Estado soviético e de direções partidárias,
cujas únicas interpretações válidas passam a ser aquelas emergidas da estrutura partidária.
O ‘marxismo’ enquanto teoria leninista da revolução e amalgamado na política do
partido perde a sua flexibilidade e autonomia como método de análise perante as práticas de
partido. Não é casual a aise de elaboração ao nível da teoria e filosofia marxista ao longo do
período, na medida em que um aspecto essencial à teoria crítica, qual seja, a liberdade de
interrogação, encontra-se condicionado a estrutura orgânica do partido, a sua prática social, a
sua concepção e o seu programa
Libertar o marxismo do leninismo não significa o retomo a um marxismo contem­
plativo. A superação do leninismo poderá proporcionar espaços para a reafirmação do método
de análise marxista, condição necessária para a construção de uma teoria critica superior do
capitalismo, para a construção de novos instrumentos de luta do mundo do trabalho e para a
derrota estratégica do social-reformismo. A articulação destas diversas frentes de intervenção
política do marxismo deve partir da sua própria crítica e convergir no reconhecimento da
realidade nacional, de forma a identificar o novo estágio do capitalismo e suas contradições
básicas; apreender a superestrutura vigente, em especial os modernos aparelhos privado e
públicos de hegemonia; e compreender a estrutura de classes e a diversidade de expressões
políticas e ideológicas que dela emergem
O marxismo há de ser ‘militante’. Deve contribuir para o aprofundamento da crítica
das experiências ‘pós-revolucionánas’ e para a compreensão dos processos sociais que
reprime o desenvolvimento das forças produtivas, em especial a formação da consciência de
29
classe, tendo em vista supera-los. Combinadamente, deve buscar contribuir para a
construção de referenciais gerais para o enfrentamento com capital em sua dimensão global.
30
FlorençaÀ. deOliveiraCosto
Psicóloga
r'RP-m nm 27
3 - DIALÉTICA E HISTÓRIA
31
Marx, por meio do diálogo crítico com os pensadores que o precedem e do
compromisso com o mundo do trabalho, confecciona um novo método de análise. Método
este que proporciona uma nova concepção de homem e de sociedade, uma interpretação
dialética da história e uma crítica da economia política.
3.1 - Sociedade e Totalidade em Marx
Identificar o método de análise de Marx nos impõe, de início, expor o seu conceito de
“sociedade” Para Marx, a sociedade, articulada por meio de uma formação social concreta e
específica, seria produto do desenvolvimento individual e da ação recíproca dos homens,
tenham eles consciência disso ou não Entretanto, não poderiam eleger a formação social em
que se encontram nem tampouco arbitrar livremente sobre suas forças produtivas. A formação
social e as forças produtivas seriam o resultado, respectivamente, das lutas sociais e da ação
sobre a natureza conduzidos por parte dos homens que os precederam.
A sociedade se conformaria em um todo complexo e interdependente, sujeita a
múltiplas determinações. A um determinado nível do desenvolvimento das forças produtivas,
corresponderia um determinado desenvolvimento da produção, do comércio e do consumo.
Um determinado nível do desenvolvimento da produção, do comércio e do consumo,
corresponderia a um determinado desenvolvimento das formas de organização social -
organização da família, das classes sociais etc. Um determinado nível de desenvolvimento das
formas de organização social, corresponderia a um determinado Estado. Um determinado
desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, corresponderia a
determinadas expressões ideológico-culturais (Marx e Engels, 1952, p. 414-424).
A sociedade, articulada por meio de uma formação social concreta e específica,
encontrar-se-ia em constante movimento. Portanto, qualquer formação social seria sempre
transitória e histórica.
Este conceito de “sociedade” é uma construção proporcionada pelo método dialético
e compõe a concepção materialista da história A compreensão das sociedades de classes, por
exemplo, não pode ocorrer, portanto, abstraindo a gênese da sociedade, o modo como ela é
produzida e o modo como ela opera em função da sua própria gênese
3.2 - O Método Dialético
32
Marx busca, em diversas oportunidades, distinguir o método dialético de Hegel do
seu próprio método dialético. Uma destas oportunidades surge por meio do posfacio da
segunda edição de O Capital para o alemão (Marx, 1988, p. 21-27).
Para Hegel, segundo Marx, o processo do pensamento, identificado com a Idéia (ou
Razão Absoluta), transformar-se-ia no sujeito, no demiurgo do real, do material; todo o real
seria apenas uma materialização externa da Idéia. O movimento do real, do material seria, por
assim dizer, uma realidade derivada, visto que seu fundamento e determinação se daria na
Idéia O homem histórico, portanto, seria apenas um instrumento do qual se valeria a Idéia
para se desenvolver
Para Marx, a idéia não pré-existiria ao real, ao material. A idéia seria o próprio real
transposto e traduzido no pensamento do homem. Marx excluía o sublime do existente, do
real, contrapondo a dialética mistificada de Hegel à dialética calcada no real.
Essa leitura dialética e materialista da relação entre idéia e real determinaria o
método de análise de Marx, de modo que este partiria sempre da investigação preliminar do
real e do concreto. Não do real e do concreto idealizado, como poderia sugerir o termo
“população”, quando abstraído das suas classes sociais, das relações de produção sobre as
quais se apoia etc, que, segundo Marx, somente poderia permitir atingir abstrações fiágeis e
progressivamente mais simples. Mas do real e do concreto enquanto uma rica totalidade de
determinações e diversas relações. (Marx, 1982, p. 14).
(...) o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida,
ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação
No primeiro método, a representação plena volatiliza-se em determinações abstratas, no segundo, as
determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso é que Hegel caiu
na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se sintetiza em si, se aprofunda em si, e se move
por si mesmo; enquanto que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira
de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado. Mas este
não é de modo nenhum o processo da gênese do próprio concreto
Partir do real e do concreto permitiria, segundo Marx, apreender dinâmicas10 e
formular conceitos, enquanto expressão de múltiplas determinações do real captado e
10 Marx em diversas passagens utilizou o termo “lei” para retratar a dinâmica de um modo de produção ou uma
formação social concreta e específica, provavelmente influenciado pelo cientificasmo do século XIX. L a não no
sentido que o positivismo atribuía a essa palavra, ou seja, algo constante, necessário e determinado pela coisa em
si, que poderia ser reconhecido pelo homem através da observação direta dos fenômenos sociais e naturais Para
(re)construido no pensamento. Para Marx, expressaria “o curso do pensamento abstrato que
se eleva do mais simples ao complexo” —e que corresponderia, efetivamente, ao próprio
processo histórico (Marx, 1982, p. 15). Encerrado esse momento retomar-se-ia ao real, mãe
agora enquanto real reconstruído e conhecido.
O real se apresentaria enquanto um fluxo permanente de movimento e de
contradição. Movimento e contradição seriam dados objetivos do real, visto que emergiriam
das próprias bases sobre as quais historicamente se configuraria o real. Portanto,
independentemente da própria compreensão da idéia de movimento e de contradição (ou das
representações construídas no âmbito do pensamento, tendo em vista expressá-las), elas
percorreriam o pensamento e a prática do homem.
Movimento e contradição expressar-se-iam em um período ou etapa histórica
dominado por um modo de produção. Esse, por sua vez, se manifestaria por de formações
sociais concretas e específicas O modo de produção, bem como as formações sociais
concretas e especificas, seriam estruturas sociais historicamente determinadas.
Marx concebe o real (a sociedade concreta em seu movimento e sob contradições)
como um processo histórico. Esse real estaria regido por dinâmicas históricas. Não dinâmicas
gerais, a-históricas que, emergidas de leis naturais, regeríam para todo o sempre o real, mas
dinâmicas específicas a cada período ou etapa histórica e que se expressariam por meio de
modos de produção e de formações sociais concretas e específicas. Essas dinâmicas regeriam
o movimento social, por um lado, como um processo, em grande medida, independente da
vontade, consciência e intenção dos homens; mas, por outro, capazes, ao mesmo tempo, de
determinar concretamente a vontade, a consciência e as intenções dos homens como agentes
sociais diferenciados.
Esgotado historicamente um modo de produção, novas dinâmicas se conformariam
ao longo do processo de surgimento de um novo modo de produção Assim, por exemplo, as
dinâmicas que regulamentariam o comércio, a população, a moeda, no mundo medieval
ocidental, não poderíam ser transpostas para compreender o comércio, a população e a moeda,
no mundo capitalista ocidental. Categorias que encenam sentidos genéricos, como comércio,
por exemplo, deveríam, por sua vez, ser investigadas dentro da especificidade que assumiríam
em cada modo de produção.
33
o positivismo, as leis naturais e sociais senam idênticas Já para Mane, as “leis” ou dinâmicas sociais seriam
históricas e transitórias, expressando movimentos passíveis de transformação pela ação humana, nSo possuindo
um sentido de exatidão matemática, mas de coerência geral determinada pelo todo interdependente dos
elementos que compõe a sociedade.
Para Marx, o fundamental na pesquisa científica seria, portanto, descobrir as
dinâmicas que regeriam e modificariam os fenômenos estudados. Dinâmicas que atuariam nas
condições e interesses materiais, inclusive no âmbito do próprio pensamento. Assim, a critica
do próprio pensamento, idéia, cultura, da sociedade moderna, somente poderia surgir do real,
do material que o determina e não do pensamento refletindo diretamente sobre si mesmo. E da
sua base material, o real, desvendado pela pesquisa, que o pensamento poderia auto-criticar-se
e desalienar-se. Assim, o pensamento, a idéia, a cultura, em princípio fora de ‘lugar’,
poderiam ser colocadas em seus devidos ‘lugares’.
Marx cuida de distinguir, ainda, o método da pesquisa do método de exposição. Para
Marx, “a pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de
evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode
expor adequadamente o movimento real” (Marx, 1988, p. 26).
Marx dá exemplo concreto desta prática científica no estudo da economia política.
Anteriormente à confecção da obra O Capital, Marx conduz estudos amplos e profundos
sobre a mercadoria, o valor, a mais-valia, a reprodução (simples e ampliada) do capital, o
dinheiro, entre outros temas, como podemos confirmar nos esquemas de estudo pessoal que
tomam a forma das obras Para a Crítica da Economia Política e Teorias da Mais-Valia.
Elas culminam, por meio do método dialético, na apreensão das dinâmicas que regem o
capitalismo e que podem proporcionar condições sociais capazes de modificá-lo.
A conquista do conhecimento do real e a sua exposição ordenada no plano do
pensamento, podem criar a ilusão de uma construção a priori, de esquemas dedutivos. Mera
ilusão, se pensarmos que uma obra, quando finalizada, nada mais é do que fruto de intensa
pesquisa e exposição articulada por meio de uma coerência discursiva interna.
Marx, conforme observamos, apresenta o seu método dialético dentro de uma
configuração racional, empírica e materialista. Movimenta suas pesquisas do particular para o
geral e vice-versa, busca apreender dinâmicas e formular conceitos por meio de estudos
comparados dos fenômenos sociais, esforça para demonstrar a coesão entre o que anda nas
‘cabeças’ e as bases materiais sobre as quais se localizam os ‘pés’ e coloca a temporalidade
dos fenômenos sociais no centro do seu pensamento.
3 3 - A Concepção Materialista da História
Os debates sobre a destruição furtiva e o parcelamento da propriedade do solo, em
curso na Província Renana, desperta em Marx uma preocupação com os chamados “interesses
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materiais” (Marx e Engels, 1983, Volume 1, p. 300 e 301). O recolhimento de lenha por
parte de um camponês em uma propriedade, considerada furto pela Dieta Renana, conduz
Marx à tomada de consciência de que o direito protegia a propriedade. Esse processo ocorre
na sua experiência como redator da Gazeta Renana, entre os anos de 1842-43.
E*n i844, por meio dos Anais Franco-Aienaães, as investigações desembocam na
conclusão “(...) de que tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser
compreendidas por si mesmas nem pela chamada evolução geral do espírito humano (...)”.
Segundo Marx, elas “(...) se baseiam, pelo contrário, nas condições materiais de vida (...)”.
Ainda segundo Marx, “(...) a anatomia da sociedade civil precisa ser procurada na economia
política” (Marx e Engels, 1983, Volume 1, p. 301).
A continuidade dos seus estudos permite a Marx eoneluir que “(...) na produção
social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da
sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de
desenvolvimento das suas forças produtivas materiais” (Marx e Engels, 1983, Volume 1, p.
301).
As relações de produção seriam as relações concretas que os homens estabeleceriam
em uma determinada sociedade, tendo em vista a produção e reprodução dos indivíduos, das
classes sociais e da sociedade. As relações de produção se expressariam na forma de
propriedade, na forma de produção e distribuição dos excedentes sociais e na forma de
organização das relações de trabalho entre as classes sociais. As relações de produção
condicionariam profundamente as relações sociais em geral.
As relações de produção encontrar-se-iam correlacionadas no seu desenvolvimento
com as forças produtivas, que seriam os recursos tecnológicos, o conhecimento científico, as
estruturas de produção rural e urbana, o nível de consciência social11etc. Para Marx, não seria
possível forças produtivas desenvolvidas, a exemplo do nível conquistado no capitalismo,
coexistindo com relações de produção ‘atrasadas’ historicamente se comparadas a estas, a
exemplo das relações de produção feudais. Portanto, relações de produção e forças produtivas
determinar-se-iam no desenvolvimento da sociedade humana.
As relações de produção e as forças produtivas, em suas relações concretas e
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11 O conceito de “consciência social” em Marx incorporaria as formas de expressão da subjetividade humana
(expressões literárias e filosóficas, romances, doutrinas religiosas, criações artísticas etc), bem como o nível de
consciência e conhecimento da relação homem/natureza e das relações sociais. Essas manifestações da
consciência social seriam ideológicas e mais ou menos racionais, humanistas e criticas, segundo o grau de
desenvolvimento da estrutura econômica, da experiência e de amadurecimento das dasses sociais Enfim, do
estágio de desenvolvimento da sociedade humana.
soeialmerrte estabelecidas, formariam a estrutura12 (ou base) econômica da sociedade
Sobre a estrutura “(...) se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciêneia social” (Marx, 1983, Volume 1, p. 301).
Marx concebe uma interação e uma interdependência profunda entre a estrutura,
responsável pela produção e reprodução da vida material, e a superestrutura, responsável pela
produção e reprodução da vida política e espiritual. A relação dialética que Marx estabelece
entre estrutura e superestrutura não exclui a ontologia. Neste ponto, Marx é categórico quando
afirma que “(...) não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o
seu ser social é que determina a sua consciência” (Marx, 1983, Volume 1, p. 301).
Dito de outra forma, Marx não reconhece nas leis, nas formas do Estado, nas
expressões subjetivas dos indivíduos, segmentos e classes sociais uma autonomia e
independência da estrutura, ou seja, das condições materiais de existência da sociedade. Para
Marx, a compreensão das superestruturas exige, necessariamente, um movimento de
investigação que parta da estrutura
O Conceito de “Modo de Produção”
Marx formula o conceito “modo de produção” para retratar a totalidade social
representada pela estrutura e pela superestrutura. Marx integra, portanto, totalidade e estrutura
para a compreensão, em grandes traços, dos longos períodos históricos de permanência ou
conservação - entendidos como movimentos que não alterariam a essência de uma estrutura,
mas que coexistiriam com a acumulação quantitativa de condições materiais e espirituais, que
levariam a um ponto de ruptura num futuro indeterminado - ou breves períodos históricos de
transformações bruscas ou revolucionárias - entendidos como movimentos que alterariam a
essência de uma estrutura, ou seja, rupturas qualitativas das condições materiais e espirituais
responsáveis pela edificação de uma nova totalidade e estrutura.
Marx indica que os grandes períodos históricos estariam estruturados a partir dos
modos de produção comunal, asiático, antigo (escravo), feudal, e burguês. Modos de
produção, social e historicamente determinados, mutáveis, portanto, contrariando o ideal
12 O conceito de “estrutura” pode recebei divasos sentidos e dimensões na teoria e metodologia marxista. Pode
significar estrutura (base) econômica, superestrutura (estrutura fruto da materialização dc instituições c formas
de consciência social); estrutura global e abstrata identificada com o conceito de “modo de produção”; estrutura
global identificada com uma formação social (ou sócio-ccooômtca) especifica e concreta. O fundamental é que o
conceito de “estrutura” remete sempre para um conjunto complexo de elementos interdependentes e estáveis (o
que não significa etemo) no tempo; a estrutura pode ser pensada em si própria ou em relação a outras estruturas
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burguês da naturalização das relações sociais, da sociedade burguesa e capitalista etc.
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Modo de Produção e Transformação Histórica
Marx identifica contradições e conflitos na estrutura econômica da sociedade Para
Marx, as forças produtivas tenderíam para o desenvolvimento, o que as fana colidir com as
relações de produção, que qualificaria e conservaria o modo de produção.
Essa contradição, emergida da estrutura econômica, prolongar-se-ia para além das
condições materiais da sociedade, penetrando na superestrutura e se expressando no âmbito
jurídico, político e ideológico. Isto porque Marx entende a sociedade como uma totaiidade, na
qual a estrutura econômica exerce um profundo condicionamento sobre a superestrutura. A
contradição surgida entre as forças produtivas e as relações de produção, responsáveis pelo
prolongamento da contradição para o todo social, caiaria um ambiente propício para
transformações. Nas palavras de Marx, (Marx, 1983, Volume 1, p. 302).
(...) abre, assim, uma época de revolução social Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir
sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser
apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou
filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam
para resolvê-lo
Assim, a contradição que nascería no âmbito da estrutura econômica e que se
prolongaria para a superestrutura, não podería ser superada por ela mesma. A contradição
acima referida apenas criaria o espaço e o ambiente propício para as transformações. A
transformação dependeria da ação do sujeito social, de forma a dar um sentido e uma direção
para a remoção dos obstáculos que as relações de produção (em um determinado nível de
desenvolvimento das forças produtivas) representariam no sentido do posterior
desenvolvimento das forças produtivas.
Para Marx, o termo sociedade expressaria um sujeito social genérico. Compreender a
história a partir desse sujeito social como um todo indiferenciado seria idealismo A sociedade
se manifestaria, de fato, por meio de sujeitos sociais concretos, ou seja, das classes sociais
antagonizadas peia propriedade privada e em conflitos explícitos - revoltas, revoluções,
greves etc - e ocultos - inculcação de valores ideológicos, remanejamentos político-
institucionais etc
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As lutas de classes seriam conduzidas pelas classes dominantes e dominadas
Expressariam a práxis, ou seja, ações sociais (políticas, culturais etc), intencionais ou não,
sempre ideológicas, com o propósito de conservar ou revolucionar as relações de produção.
Marx supera, por meio da sua interpretação dialética do curso da história, o
economicismo, que atribui ao fator econômico a responsabilidade peias transformações, o
evolucionismo, que reconhece uma dinâmica evolutivo-natural comandando o curso das
mudanças, e o voluntansmo, que personifica as mudanças por meio da ação de determinados
personagens e pequenos grupos, desprezando as estruturas econômicas e os embates de
classes.
Modo de Produção e Formação Social
A distinção entre modo de produção e formação social não se apresenta clara para
diversos cientistas sociais marxistas - incluindo historiadores. Alguns cientistas sociais
marxistas reduzem o conceito de “modo de produção” a estrutura econômica. Reconhecem no
conceito de “superestrutura” (formas de consciência e instituições) uma dimensão que se
encontraria fora do conceito de “modo de produção”. Para esses cientistas sociais, modo de
produção (estrutura econômica) e superestrutura (formas de consciência e instituições) se
comporiam de forma interdependente em uma estrutura mais ampla denominada formação
social - conjugação, portanto, do modo de produção e da superestrutura em uma realidade
concreta e específica (Gorender, 1985, p. 1-35).
Na concepção de Marx, modo de produção englobaria de forma integrada a estrutura
(ou base) econômica e a superestrutura. O modo de produção seria o objeto teórico, genérico e
abrangente. Uma elaboração teórico-abstrata em nível do pensamento que se prestaria a
contribuir com os estudos de uma formação social (ou económico-social) concreta e
específica. Enquanto conceito teórico-abstrato estaria em constante construção, visto que os
estudos sócio-históricos permitiriam a descoberta de novos elementos e relações no âmbito do
conceito de “modo de produção” (Vilar, 1988, p. 173 e 174).
O conceito de “formação social” encerraria a realidade social concreta e específica.
Seria, portanto, um conceito menos abrangente e que nos remeteria a uma formação histórica
concreta e específica, a exemplo da formação social portuguesa do século XVI ou da
formação social capitalista brasileira do século XX
O conceito de “modo de produção” seria, portanto, um instrumento operatório, tendo
em vista o estudo de uma formação social concreta e específica.
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O Conceito de “Ciasse Social”
O termo dasse sodal não é criado por Marx. Os enciclopedistas franceses e Adam
Smith se referiam a ' estados” ou “ordens”, enquanto que Babeuf e os socialistas franceses
falam de classes de possuidores e laboriosas. A contribuição de Marx para a construção do
conceito de “classe social” surge, primeiramente, da identificação e localização social das
classes sociais a partir das relações de produção, ou seja, da forma de propriedade e das
relações que os homens estabeleceriam cm tomo dela, tendo em vista a geração e apropriação
dos excedentes sociais. As classes sociais seriam definidas, em primeira instância, sobre as
condições materiais em que se insenam
Marx define as classes sociais também em termos políticos. As classes sociais,
distribuídas em termos de dominantes e dominadas, se relacionariam de uma determinada
forma com o poder em cada período histórico. As classes sociais se expressariam por meio de
“partidos”, estabeleceriam alianças, conformariam regimes políticos etc. “A história de todas
as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, diria
Marx (Marx e Engels, Volume 1, p. 21, 1983).
A partir das relações de produção e das lutas políticas que lhes seriam inerentes,
Marx identifica as classes em termos de classes sociais fundamentais, em tomo das quais a
qualidade das relações de produção e dos conflitos seriam definidos, e classes sociais não
fundamentais, periféricas no âmbito das relações de produção e incapazes de definir um
projeto social alternativo às relações sociais dominantes e conduzir um bloco de alianças em
tomo do mesmo. Portanto, as relações de produção e a identidade e consciência acumuladas
por meio da experiência política definiriam a posição e a função das classes sociais na
formação social concreta e específica.
Marx não reconhece a existência de classes sociais nas sociedades que não se apoiam
na propriedade privada (comunidades tribais dos celtas, germânicos, eslavos; povos pastores
do oriente; índios da América; sociedades despóticas orientais etc). As sociedades despóticas,
embora coexistindo com a desigualdade social, não assumiria a forma completa de
desigualdade social, na medida em que a unidade centralizadora - Estado - se ergueria sobre
as pequenas comunidades concentrando a propriedade, mas estabelecendo relações de
tnbutação/reciprocidade Para Bourdé e Martin, se Marx e Engels tivessem possuído mais
informações históricas teriam dissociado “estados”, “ordens”, “castas” etc, de classes sociais
propriamente ditas nas formações pré-eapitalista de produção (Bourdé e Martin, 1983, p.
159-164).
Como esboço de uma sociologia das classes a partir de Marx, é possível identificar
que:
a. a detinição de uma classe social implica na referência a aspectos sociais, econômicos,
políticos e ideológicos;
b. seria pertinente considerar as classes em função da estrutura de classes e não
isoladamente;
c. as lutas de classes determinam, em grande medida, os conflitos e dinâmicas do nível
político e dos demais níveis da sociedade. Tais conflitos e dinâmicas não podem,
entretanto, ser interpretados como mero prolongamento das lutas de classes.
O Conceito de “Ideologia”
Marx parte da compreensão de que existiria um elo entre formas ‘invertidas’ de
consciência e a existência material dos homens. Essa compreensão nasce da crítica a
Feuerbach e a Hegel
Marx apreende a tese materialista de Feuerbach de que os homens criam Deus e as
religiões, e não o contrário. Distancia-se deste quando demonstra que tal inversão não é uma
pura construção do pensamento, mas que encontra-se no mundo real, que é um bálsamo criado
pelos homens para compensar as contradições do mundo real.
Marx submete o próprio pensamento de Hegel a esta crítica. Hegel supôs que a Idéia
ou Razão Absoluta se manifestaria no mundo empírico e que o Estado prussiano seria a auto-
realização da Idéia objetivada. Marx busca demonstrar que a idéia do Estado enquanto
“universal absoluto” que determina a sociedade civil, não seria apenas uma ilusão. Que havia
um real sob aquela ilusão e que somente poderia ser encontrada nas bases concretas de
edificação da sociedade civil e de Estado prussianos.
Entre 1845 e 1857 Marx formula o conceito de “ideologia” para demonstrar que a
precariedade do desenvolvimento material e as contradições emergidas na vida prática,
levariam os homens a criar e a projetar formas ideológicas de consciência. Formas espirituais
e discursivas que ocultariam ou disfarçariam a existência e o caráter dessas contradições. E
que concorreriam, nesta medida, para assegurar a reprodução das relações sociais, de forma a
servir aos interesses dominantes (Bottomore, 1988, p. 184).
A partir dos estudos das relações sociais capitalistas expressas nas obras Grundrisse
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e O Capital, Marx chega a conclusão de que a “consciência invertida” é fruto da “realidade
invertida”. Assim, a ideologia burguesa expressaria essa inversão quando apregoa que “(...) a
igualdade e a liberdade são, assim, não apenas aperfeiçoadas na troca baseada em valores de
troca, como também a troca dos valores de troca é a base produtiva real de toda igualdade e
liberdade” (Marx, apud Bottomore, 1988, p. 185).
Engels concorre também para a construção do conceito de “ideologia” por meio do
estudo sobre a guerra camponesa da Alemanha. Demonstra que, sob a chama da guerra de
religião no século XVI, encontram-se interesses materiais de classes e que (Engels, apud
Bourdé e Martin, 1983, p 166).
(...) se as lutas de classes tinham, naquela época, um caráter religioso, se os interesses, as necessidades, as
reivindicações das diferentes classes se dissimulavam sob a máscara da religião, isso nada altera a questão
Encontra-se implícita nessa passagem a compreensão de que o fenômeno ideológico
também poderia se expressar enquanto valores e concepções de resistência das classes
dominadas. Engels demonstra, ainda, a exemplo da ação crítica de Marx sobre a ideologia
burguesa, que o fenômeno ideológico não seria algo exterior as relações sociais quando
explica que na Idade Média (Engels, apudBourdé e Martin, 1983, p. 167).
(...) os padres receberam o monopólio da cultura intelectual e a própria cultura tomou um caráter essencialmente
teológico (...). Os dogmas da Igreja eram igualmente axiomas políticos e as passagens da Bíblia tinham força de
lei perante os tribunais (...) Consequentemente, todas as doutrinas revolucionárias, sociais e políticas, deviam
ser, ao mesmo tempo e principalmente, heresias teológicas
O conceito de “ideologia” conserva em Marx uma conotação crítica e negativa
porque foi utilizado para a compreensão das distorções relacionadas com o ocultamento de
uma realidade contraditória e invertida Não seria correto, portanto, atribuir ao conceito de
“ideologia” o sentido de falsa consciência.
Podemos chegar a três definições de ideologia em Marx e Engels:
a) ideologia enquanto parte ou conjunto das superestruturas: as formas ideológicas
enquanto a qualidade da consciência social possível dentro de uma determinada
estrutura sócio-econômica, uma determinada visão de conjunto de uma sociedade,
época ou classe determinada por suas condições materiais de existência;
b) a ideologia enquanto ocultamento da realidade: ora como imposição das classes
dominantes para criar, legitimar e justificar as relações sociais dominantes (a exemplo
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42
das Cruzadas, do levante da Vendéia ete), ora como forma de expressão de lutas de
resistência dos dominados enquanto conhecimento imperfeito (a exemplo da revolta
camponesa da Alemanha);
c) a ideologia enquanto um sistema de valores sociais impostos: seriam os valores sociais
impostos, mdirciamente, por meio das relações sociais de produção, e, direiamente,
por meio dos instrumentos ideológicos públicos e privados
O conceito Estado
O conceito “Estado” ocupa grande importância no pensamento de Marx e Engels O
Estado é concebido como uma instituição acima de todas as outras, com a função de assegurar
e conservar a dominação e a exploração de classe Para Engels, o Estado é um instrumento
(Marx e Engels, 1983, Volume 3, P 137 ).
(...) da classe mais poderosa, economicamente dominante, que, pior meio dele, toma-se igualmente a classe
politicamente dominante, adquirindo com isso novos meios de dominar e explorar a classe oprimida
Essa conclusão não impede que o próprio Engels a relativizasse por meio do estudo
de uma realidade concreta, a guerra civil na França e as lutas políticas subsequentes que
resultam no golpe do 18 Brumário e no bonapartismo Engels reconhece que (Marx e Engels,
Volume 3, 1983, P. 137).
(...) ocorrem períodos nos quais as classes em luta se equilibram tão bem que o poder do Estado, como mediador
ostensivo, adquire, por momentos, uma certa margem de independência em relação a ambas (Marx e Engels,
Volume 3, 1983.P. 137).
Marx, também estudando a realidade que redunda no bonapartismo, chega mesmo a
atribuir interesses “próprios” ao Estado por meio da sua burocracia civil e militar. Marx
reconhece no Estado bonapartista francês uma máquina de Estado engenhosa, de amplas
bases, com um “exército” de funcionários e soldados de 1 milhão de homens. Uma máquina
com determinados interesses e objetivos próprios, que conforma “(...) um corpo parasitário
terrível que cerca o corpo da sociedade francesa como um casulo e sufoca todos os seus
poros” (Marx e Engels, Volume 1, 1983, P. 234 e 235).
De fato, Marx e Engels não encerram o conceito Estado em uma camisa de força
dogmática Lénin, Oiarnsci, a Escola de Frankftirt, entre outros pensadores e vertentes
marxistas, dão continuidade ao estudo do Estado e ampliam o próprio conceito.
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Práxis e Política
C conceito de ‘Práxis representa urn elemento central da filosofia marxista.
Exprime o poder que o homem tem de transformar o ambiente externo, tanto natural como
social.
Marx define a práxis, primeiramente, como atividade prático-crítica. E a atividade
humana por meio da qual se busca resolver o real concebido subjetivamente. O lugar da
práxis é o processo histórico como resposta continua à tirania das necessidades naturais e
sociais.
Para Marx a humanidade está em luta consigo mesma, isto é, com as condições
sociais e naturais, por ela criadas e/ou modificadas. Segundo (Bobbio, 1992, p. 987 e 988).
(...) práxis é a identificação da mudança ambiental com a atividade humana, ela surge como autotransformação
ou como atividade que se modifica a si mesma ao modificar o ambiente. A terceira tese de Feuerbach oferece a
este respeito algumas indicações claras: é verdade que os homens sâo condicionados pelo ambiente e pela
educação, mas também é verdade que sâo justamente eles que modificam as próprias condições ambientais
Para Marx não existe na realidade uma natureza pura, isto é, não modificada pela
história humana. Não existe, também, um único campo de ação onde não se possa descobrir
dinâmicas. A práxis é ação/investigação, fundamentada no movimento histórico.
Marx define práxis como encontro entre razão e história, isto é, o lugar da construção
da humanidade como obra de uma vontade expressa racionalmente. Construção suscitada por
um pensamento historicamente determinado, acolhido pela grande maioria por responder às
necessidades manifestadas em um contexto (natural e social) marcado pela intervenção do
homem e que se transforma por isso em instrumento de ação. Nesta definição, o conceito de
“Práxis” se aproxima do conceito “teoria”, sendo a primeira uma prática racional-
transformadora e a segunda um pensamento historicizado e realístico
Marx também define práxis como luta de classes, isto é, um instrumento motor da
história da humanidade. A concepção de práxis como ação do gênero humano indiferenciado
socialmente e transformador das condições naturais e sociais ao longo da história da
humanidade, conjuga-se também com a concepção de práxis como oriunda da humanidade
cotio sujeito histórico diferenciado por meio das classes sociais em suas relações conflitantes,
na qual ocorre uma ação de supressão por parte de uma delas das formas de organização
social que a outra instaura Esses conflitos entre as classes se exprimem na tensão constante
que existe entre as forças produtivas, tendentes ao desenvolvimento e as relações de produção,
tendentes a conservação.
O conceito de ‘práxis’ recebe outras abordagens no âmbito da tradição marxista.
Lukács define príads como a eliminação da indiferença da forma em relação ao conteúdo.
Para o autor Marx teria desmistificado a lógica idealista da idéia, isto é, desenraizado
socialmente o idealismo, e demonstrado que as ciasses subalternas são os sujeitos da história,
em especial o proletariado. Assim, teria-se estabelecido no pensamento uma nova lógica da
totalidade, isto é, da unidade do objeto (realidade natural e social) que é posto e do sujeito
(proletariado) que o põe. É a totalidade não como idéia que se faz espírito, mas como
realidade do processo histórico (Bobbio, 1992, p. 989).
Para Lukács a Príads em Marx seria o ato que realiza a unidade entre o sujeito e o
objeto, na medida em que traduz em nova estrutura social e econômica a consciência das
relações estabelecidas entre os homens Nela coincidiríam as determinações do pensamento e
do desenvolvimento da história. Por isso, a Príads seria a consciência da totalidade e sua
realização. Todavia, a consciência não precederia a ação, mas fúndaría-se no ato. O
proletariado conhecería a própria situação enquanto luta contra o capitalismo e agiría
enquanto conhece a própria situação (Bobbio, 1992, p. 989)
Lukács fez, enfim, o uso de três temas: o pensamento socialmente determinado; a
realidade em sua dinâmica; e, o sujeito em sua ação. A Príads seria o ato revolucionário que
realiza o sujeito (o proletariado) como conhecedor e agente ao mesmo tempo e que,
simultaneamente, fundamenta a identidade do pensamento e da história.
Korsch define príads como sendo a própria teoria marxista. Pára Korsch “o
marxismo é a teoria da transição da sociedade capitalista para a sociedade socialista e assume
aspectos diversos, como, por exemplo, a social-democracia e o lemnismo, destinados a
sucederem-se um ao outro, segundo a evolução do movimento operário” (Bobbio, 1992, p.
989).
A teoria marxista não seria apenas uma expressão das condições atuais das relações
entre as classes sociais, mas também a alavanca de uma futura ação revolucionária. Deste
modo, a teoria é Príads, isto é, luta social de classes. Se, por um lado, ela é um aspecto da
consciência social da situação vigente, até o ponto de se identificar com a consciência de
dasse, por outro, é apenas uma teoria, não uma teoria positiva mas crítica, que resolve as
representações estáticas em processos dinâmicos e em conflitos sociais. “Os elementos nela
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envolvidos, conquanto aparentemente neutros, assumem uma específica conotação de
classe; o Estado é o Estado burguês; o direito é o direito burguês” (Bobbio, 1992, p. 990).
Para korsch a teoria marxista seria Práxis, não só por estar intimamente relacionada
com os conflitos sociais, dos quais é expressão, mas também por elaborar os meios de uma
forma alternativa de sociedade.
4 - CONCEPÇÃO MARXISTA DE POLÍTICA E DE ESTADO
A concepção marxista de Estado se insere no processo de debate sobre a relação
estabelecida entre Estado e sociedade inaugurada com a modernidade. A dinâmica
produtivista do capital e a liberalização do indivíduo dá base para a formação da concepção
contratualista moderna, com a qual Marx dialoga criticamente.
Hobbes, por meio do método dedutivo, constrói uma leitura da relação estabelecida
entre Estado e sociedade calcada no contrato social estabelecido entre os indivíduos. Graças à
transferência da liberdade e de direitos dos indivíduos em favor do Estado e da constituição do
mesmo como um poder exterior e acima da sociedade e dos indivíduos particulares, seriam
dirimidos os conflitos e promovida a cooperação.
Locke, desenvolvendo um diálogo teórico e filosófico com Hobbes, problemaüza a
relação estabelecida entre Estado e sociedade. Se o Estado é fruto da transferência de
liberdade e de direitos - em decorrência da escassez e dos conflitos em curso entre os homens,
porque estes são egoístas e ambiciosos em sua natureza - e seria formado por homens, quem
então o controlaria? Locke propugna o controle dos cidadãos sobre o Estado por meio do
parlamento.
Montesquieu e Rousseau também se inserem no debate contratualista moderno.
Propõem, respectivamente, a divisão e equilíbrio entre os poderes e o princípio da vontade
geral (soberania popular), tendo em vista salvaguardar os cidadãos frente ao Estado
Marx e Engels fazem a crítica do contratualismo, em grande medida influenciados
pelas contradições sociais geradas pelo capitalismo e pela emersão social e política do
proletariado moderno. Para Marx e Engels o Estado possui uma origem calcada na
desigualdade e no conflito de classe; constitui-se como uma instituição acima de todas as
outras, com a função de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe; e
assumir uma certa margem de independência em relação às classes, especialmente em
conjunturas de intenso conflito social.
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Profesorado. Revista de currículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 1
A PROPOSTA DE VYGOTSKY: A PSICOLOGIA SÓCIO-
HISTÓRICA1
The proposal of Vygotsky: the social-historical psychology
Marcos Antonio Lucci
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Professor da Faculdade Interlagos – FINTEC – Brasil
E-mail: renalucci@terra.com.br
Abstract:
With the intention of contributing for to base of the educational work, the present study
has for objective to present the principal points of the social-historical psychology
proposed by Vygotsky, one of the authors that at the present time is one of the references
in the basement of the educational work. For the attendance of the proposed objective,
this study is divided in three great parts. In the first, we will approach the historical
context in that is born the project of Vygotsky; on second, we will discourse on the to base
of the theory and in the last part we will treat of the social-historical psychology.
Key words: Teachers' training; Educational psychology; Social-historical psychology.
Resumo
Com a intenção de contribuir para a fundamentação do trabalho docente, o presente
estudo tem por objetivo apresentar os principais pontos da psicologia sócio-histórica
proposta por Vygotsky, um dos autores que na atualidade é uma das referências no
embasamento do trabalho educacional. Para o atendimento do objetivo proposto, este
estudo está dividido em três grandes partes. Na primeira, abordaremos o contexto
histórico em que nasce o projeto de Vygotsky; na segunda, discorreremos sobre a
fundamentação da teoria e na última parte trataremos da psicologia sócio-histórica.
Palavras chaves/finque: Formação de professores; Psicologia Educacional; Psicologia
Sócio-histórica.
* * * * *
1
Texto elaborado a partir da tese de doutorado do autor em Psicologia da Educação, sob a
orientação da Profª Drª Maria Laura Puglisi Barbosa Franco.
Recibido: 28 de Agosto de 2006 Aceptado: 12 de Diciembre de 2006
http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf2
1. INTRODUÇÃO
Falar da proposta de Vygotsky implica considerar que seu trabalho é
extremamente complexo, visto que sua elaboração tem por meta à constituição
de um projeto de psicologia que pudesse analisar os problemas de aplicação
prática do homem, em atendimento às necessidades emergentes da nação russa
que acabava de nascer após a revolução socialista de 1917.
Sua vasta produção acadêmica, aproximadamente 180 trabalhos,
realizada num curto espaço de tempo, dez anos apenas, segundo Bonin (1996),
envolve um importante esquema teórico complexo e integrado que, ao mesmo
tempo, é aberto. Vygotsky, ao lado de seus colaboradores diretos, Luria e
Leontiev, propõe um estudo sócio-genético do ser humano, assim como
estabelece relações com as condições biológicas, principalmente nos aspectos
neurológicos, na tentativa de evitar reducionismos e simplificações de qualquer
espécie.
Essa característica dos trabalhos de Vygotsky tem gerado, segundo
Blanck (1996), diversas interpretações e aplicações, pois além de toda essa
complexidade e diversidade de aspectos tratados, o autor, ao longo de seus
trabalhos, foi modificando seus objetivos. Blanck destaca, ainda, que essas
hesitações são fruto da ambição de seus projetos e da batalha que travava
contra o tempo, devido a seu estado de saúde terminal. De qualquer forma, os
seus seguidores entendem que sua teoria permeou um desenvolvimento
coerente; já alguns autores, tais como o próprio Blanck, Veer, Kozulin, Valsiner
e Wertch, descobrem na sua obra antagonismos irreconciliáveis. Davis (1993),
por outro lado, não considera que os seus postulados constituam uma escola de
psicologia, mas apenas um delineamento, ainda que geral, de uma psicologia de
inspiração materialista-dialética.
Ressalvadas tais características da obra do autor em questão, cumpre-
nos esclarecer que trataremos neste espaço dos aspectos gerais de sua
produção. Nesse sentido, antes de incursionarmos por suas idéias, faz-se
necessário retomar o contexto histórico no qual essas idéias nasceram.
2. CONTEXTO EM QUE NASCE O PROJETO DE VYGOTSKY
A revolução socialista de outubro de 1917 enfrentou nos primeiros anos
um período tumultuado, marcado por uma guerra civil, pela intervenção
estrangeira e por uma situação econômica sufocante que levou a nação russa à
escassez de alimentos, penalizando sua população com um longo período de
fome, vitimando muitas pessoas, inclusive Vygotsky, com tuberculose. Esta
situação levou o novo regime a implantar um comunismo de guerra, o que
culminou em 1921, sob a liderança de Lenin, com a consolidação do regime
comunista no país.
Vitoriosa a Revolução, a Rússia encontrava-se em estado lastimável.
Tudo estava por construir. Um dos mais sérios problemas a enfrentar era o da
educação. Consta que por aquela época o índice de analfabetismo girava em
Profesorado. Revista de currículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 3
torno de 70%. Mesmo sob essas circunstâncias, porém os dirigentes que
conduziam o novo estado desejavam promover uma renovação que não se
limitava somente a reconstruir o país. O objetivo maior era construir, sob a
tutela da teoria marxista, uma nova sociedade, o que implicaria, também, a
construção de uma nova ciência. Nos dizeres de Rosa & Montero (1996),
o conhecimento deveria ter sido um dos pilares dessa nova sociedade,
considerando que, de acordo com a teoria marxista, ele evita a alienação no
trabalho e liberta o homem. Mas, (...), a filosofia marxista contém uma
epistemologia materialista e uma lógica dialética que requer o desenvolvimento
de uma nova concepção de ciência. (p.70)
Um dos grandes problemas enfrentados pelos pesquisadores que
deveriam levar avante a construção da nova ciência foi justamente o fato dos
limites impostos pelos dirigentes da nação, isto é, tomar por base, tão-somente,
a filosofia marxista. O desafio era grande, principalmente, porque não havia
unicidade, entre os marxistas russos, sobre a interpretação do materialismo. A
controvérsia entre eles os dividia em duas correntes: uma mecanicista e outra
dialética. Segundo os mecanicistas, a ciência é auto-suficiente e descobre suas
próprias leis por meio da pesquisa; já os dialéticos defendiam um princípio
exploratório aberto e não determinista, acreditando que os eventos são
dependentes da ação humana, ou seja, a consciência é uma característica
humana, e é ela que favorece a disposição para a construção dos eventos. Outro
fator importante é a subida de Stalin ao poder, após a morte de Lenin em 1924.
Stalin, por meio de sua interpretação pessoal das idéias de Lenin e do
marxismo, promove um dos maiores expurgos da esquerda comunista, mas, ao
mesmo tempo, implementou as políticas que esta linha defendia e,
posteriormente, eliminou a facção direitista, passando a exercer um governo
absolutista. O próximo passo foi a interferência na área educacional. Sob a
alegação de que o desempenho das crianças na escola era deficiente, foi
imposto um currículo fechado, e o sistema de projetos, adotados logo após a
revolução, foi suprimido.
O ponto culminante da interferência política ocorre na psicologia com a
edição do decreto intitulado “Sobre as Perversões Pedológicas no Sistema de
Comissariado do Povo para a Educação”. Este decreto baniu os testes
psicológicos, assim como a psicologia, das áreas da educação e da indústria.
Como conseqüências vários periódicos sobre psicologia deixaram de ser
editados; cursos e institutos foram fechados; o ensino de psicologia ficou
relegado ao plano de treinamento de professores nas faculdades, e muitos
pesquisadores da área, inclusive Vygotsky, que já havia falecido, passaram a
fazer parte de uma lista negra do poder que proibia, em todo o território
nacional, as suas obras. Foi somente após a morte de Stalin, em 1953, de
acordo com Rosa & Montero (1996), que os trabalhos de Vygotsky voltam a ser
publicados, a partir de 1956.
Esse foi o cenário no qual Vygotsky idealizou, desenvolveu e aplicou seu
trabalho, mas não o viu ser banido e reintegrado.
http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf4
3. A FUNDAMENTAÇÃO DE SUA PROPOSTA
Vygotsky surge na psicologia num momento significativo para a nação
russa. Logo após ter-se consolidado a revolução, emerge uma nova sociedade,
que, conseqüentemente, exige a constituição de um novo homem. Nesse
sentido, a primeira missão que a Revolução imprimiu para a psicologia foi a
análise dos problemas de aplicação prática. Por sua formação humanista e sua
bagagem cultural, Vygotsky reunia as condições necessárias para idealizar uma
nova concepção de Educação, Pedologia (ciência da criança) e Psicologia.
Segundo aponta Molon (1995), os interesses de Vygotsky pela psicologia
originam-se na preocupação com a gênese da cultura. Por entender que o
homem é o construtor da cultura, ele se contrapõe à psicologia clássica que,
segundo sua visão, não respondia adequadamente sobre os processos de
individuação e os mecanismos psicológicos dos indivíduos. Em contrapartida,
elabora sua teoria da gênese e natureza social dos processos psicológicos
superiores.
Vygotsky, de acordo com Bonin (1996), empenhou-se em criar uma
nova teoria que abarcasse uma concepção de desenvolvimento cultural do ser
humano por meio do uso de instrumentos2
, em especial a linguagem, tida como
instrumento do pensamento.
A teoria por ele proposta surge como meio de superar o quadro
apresentado pela psicologia, que se encontrava dividida em duas orientações: a
naturalista e a mentalista. Na sua percepção, tal divisão acentuava a questão do
dualismo mente-corpo, natureza-cultura e consciência-atividade.
Segundo Vygotsky, um dos reflexos do dualismo é a diversidade de
objetos de estudo eleitos pelas abordagens em psicologia – o inconsciente
(psicanálise); o comportamento (behaviorismo) e o psiquismo e suas
propriedades (gestalt) – e a incapacidade delas em darem as respostas para os
fenômenos psicológicos, por trabalharem com fatos diferentes. Ou seja, para
ele, as abordagens não davam conta de explicitar claramente a gênese das
funções psicológicas tipicamente humana.
Diante de tal quadro, ele propôs, então, uma nova psicologia que,
baseada no método e nos princípios do materialismo dialético, compreendesse o
aspecto cognitivo a partir da descrição e explicação das funções psicológicas
superiores, as quais, na sua visão, eram determinadas histórica e culturalmente.
Ou seja, propõe uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano que
inclui tanto a identificação dos mecanismos cerebrais subjacentes à formação e
desenvolvimento das funções psicológicas, como a especificação do contexto
social em que ocorreu tal desenvolvimento.
2
“Os instrumentos são meios externos utilizados pelos indivíduos para interferir na
natureza, mudando-a e, conseqüentemente, provocando mudanças nos mesmos indivíduos”.
(Lucci, 2002:140)
Profesorado. Revista de currículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 5
Os objetivos de sua teoria são:
caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar
hipóteses de como essas características se formam ao longo da história humana e
de como se desenvolvem durante a vida do indivíduo. (Vygotsky, 1996:25)
Deste modo, as assertivas de sua teoria são:
a) o homem é um ser histórico-social ou, mais abrangentemente, um ser
histórico-cultural; o homem é moldado pela cultura que ele próprio cria;
b) o indivíduo é determinado nas interações sociais, ou seja, é por meio da
relação com o outro e por ela própria que o indivíduo é determinado; é
na linguagem e por ela própria que o indivíduo é determinado e é
determinante de outros indivíduos3
;
c) a atividade mental é exclusivamente humana e é resultante da
aprendizagem social, da interiorização da cultura e das relações sociais;
d) o desenvolvimento é um longo processo marcado por saltos qualitativos
que ocorrem em três momentos: da filogênese (origem da espécie) para
a sociogênese (origem da sociedade); da sociogênese para a ontogênese
(origem do homem) e da ontogênese para a microgênese (origem do
indivíduo único);
e) o desenvolvimento mental é, em sua essência, um processo
sociogenético;
f) a atividade cerebral superior não é simplesmente uma atividade nervosa
ou neuronal superior, mas uma atividade que interiorizou significados
sociais derivados das atividades culturais e mediada por signos4
;
g) a atividade cerebral é sempre mediada por instrumentos e signos;
h) a linguagem é o principal mediador na formação e no desenvolvimento
das funções psicológicas superiores;
i) a linguagem compreende várias formas de expressão: oral, gestual,
escrita, artística, musical e matemática;
j) o processo de interiorização das funções psicológicas superiores é
histórico, e as estruturas de percepção, a atenção voluntária, a
memória, as emoções, o pensamento, a linguagem, a resolução de
problemas e o comportamento assumem diferentes formas, de acordo
com o contexto histórico da cultura;
k) a cultura é interiorizada sob a forma de sistemas neurofísicos que
constituem parte das atividades fisiológicas do cérebro, as quais
3
Ressalta-se, como apontado em Molon (1995), que há diferentes leituras da obra de
Vygotsky e, portanto, são identificados, pelo menos, dois tipos de determinação do sujeito:
a interação com outros sujeitos e a linguagem. Dessas determinações resulta o sujeito
interativo, isto é, aquele que não é nem ativo e nem passivo, e que é constituído na e pela
relação interpessoal, e o sujeito semiótico, “sujeito constituído na e pela linguagem, sendo
que apareceu como sujeito resultante da relação (...), e como sujeito constituído na relação
constitutiva EU-OUTRO, numa relação dialética”. (p.106).
4
Signos são mediadores internos, os instrumentos psicológicos que dirigem e controlam as
ações psicológicas do próprio indivíduo ou de outros indivíduos.
http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf6
permitem a formação e o desenvolvimento dos processos mentais
superiores.
Vygotsky formula sua teoria por entender que os mentalistas e os
naturalistas não explicavam cientificamente os processos mentais superiores. No
seu entender, os naturalistas, ao aderirem aos métodos das ciências naturais,
limitavam-se ao estudo de processos psicológicos relativamente simples, tais
como as sensações ou comportamentos observáveis, mas ao se depararem com
funções complexas, fracionavam-nas em elementos simples ou adotavam um
dualismo que abria espaço para a especulação arbitrária. Já com relação aos
mentalistas, ele ponderava que estes, por sua vez, levavam em consideração os
fenômenos do “espírito” e, a partir de um apriorismo fenomenológico ou do
idealismo, descreviam os processos mentais superiores, mas alegavam que era
impossível explicá-los ou explicavam-nos de uma forma arbitrária e
especulativa.
Compartilhando da concepção marxista de que o essencialmente
humano é constituído por relações sociais, negou-se a buscar explicações para
as funções mentais superiores nas profundezas do cérebro ou nas características
etéreas de uma alma separada do corpo.
O trabalho de Vygotsky, segundo Molon (1995), é fortemente
influenciado pelas idéias de Marx e Engels, pela dialética de Hegel, pelo
evolucionismo de Darwin, pela filosofia de Espinosa e pelas idéias de Pierre
Janet, entre outros pensadores.
É a partir das idéias desses autores que Vygotsky formou sua base de
entendimento de que: a) a psicologia é uma ciência do homem histórico e não
do homem abstrato e universal; b) a origem e o desenvolvimento dos processos
psicológicos superiores é social; c) há três classes de mediadores: signos e
instrumentos; atividades individuais e relações interpessoais; d) o
desenvolvimento de habilidades e funções específicas, bem como a origem da
sociedade, são resultantes do surgimento do trabalho - este entendido como
ação/movimento de transformação - e que é pelo trabalho que o homem, ao
mesmo tempo em que transforma a natureza para satisfazer as suas
necessidades, se transforma também; e) existe uma unidade entre corpo e
alma, ou seja, o homem é um ser total.
Especialmente os postulados darwinianos de mutação, recombinação e
seleção natural, que pressupõem instabilidade e movimento no decorrer do
tempo, assim como, também, a noção de ordem e a direção da evolução,
serviram de base para formulações de Vygotsky, como, por exemplo, sobre: a)
as mudanças nos próprios conhecimentos e significados sociais; b) que o
desenvolvimento não pressupõe uma sucessão de estágios lineares, fixos e
aleatórios, mas que cada estágio supõe o seguinte, isto é, o fato de o processo
de desenvolvimento ocorrer por estágios não significa que estes sigam um
percurso contínuo, eles são marcados por avanços e retrocessos, mas seguem
uma ordem de aparecimento, o que não implica que tenham que ser vivenciados
em sua plenitude, e um estágio constitui um pré-requisito para o próximo; c)
Profesorado. Revista de currículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 7
que o desenvolvimento cultural segue as mesmas leis da seleção natural; d) que
o indivíduo adulto é produto de comportamentos herdados, que são modificados
pelas relações sociais; e) que para explicar o comportamento humano é preciso
considerar as condições biológicas e como estas são modificadas nas relações
sociais-culturais.
Outra fonte de influência foi a lingüística, por suas discussões sobre
origem da linguagem e sua possível influência sobre o desenvolvimento do
pensamento. Essa temática influenciou sobremaneira o pensamento de
Vygotsky, pois a encontramos permeando toda sua obra.
Por último, outro ponto de influência é o cenário sociopolítico que
valorizava a ciência, enquanto instrumento a serviço dos ideais revolucionários,
na busca de respostas rápidas para a construção de uma nova sociedade.
4. A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA
A teoria histórico-cultural ou sociocultural do psiquismo humano de
Vygotsky, também conhecida como abordagem sociointeracionista, toma como
ponto de partida as funções psicológicas dos indivíduos, as quais classificou de
elementares e superiores, para explicar o objeto de estudo da sua psicologia: a
consciência.
A teoria do desenvolvimento vygotskyana parte da concepção de que
todo organismo é ativo e estabelece contínua interação entre as condições
sociais, que são mutáveis, e a base biológica do comportamento humano. Ele
observou que o ponto de partida são as estruturas orgânicas elementares,
determinadas pela maturação. A partir delas formam-se novas e cada vez mais
complexas funções mentais, dependendo da natureza das experiências sociais
da criança. Nesta perspectiva, o processo de desenvolvimento segue duas linhas
diferentes em sua origem: um processo elementar, de base biológica, e um
processo superior de origem sociocultural.
Nesse sentido, é lícito dizer que as funções psicológicas elementares são
de origem biológica; estão presentes nas crianças e nos animais; caracterizam-
se pelas ações involuntárias (ou reflexas); pelas reações imediatas (ou
automáticas) e sofrem controle do ambiente externo.
Em contrapartida, as funções psicológicas superiores são de origem
social; estão presentes somente no homem; caracterizam-se pela
intencionalidade das ações, que são mediadas. Elas resultam da interação entre
os fatores biológicos (funções psicológicas elementares) e os culturais, que
evoluíram no decorrer da história humana. Dessa forma, Vygotsky considera que
as funções psíquicas são de origem sociocultural, pois resultaram da interação
do indivíduo com seu contexto cultural e social.
As funções psicológicas superiores, apesar de terem sua origem na vida
sociocultural do homem, só são possíveis porque existem atividades cerebrais.
Ou seja, essas funções não têm sua origem no cérebro, mas não existem sem
http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf8
ele, pois se utilizam das funções elementares que, em última instância, estão
ligadas aos processos cerebrais.
Vale lembrar que: a) o cérebro não é um mero suporte das funções
psicológicas superiores, mas parte de sua constituição; b) o surgimento das
funções superiores não elimina as elementares; o que ocorre é a superação das
elementares, sobressaindo as superiores, mas nunca deixando de existir as
elementares; c) Vygotsky considera que o modo de funcionamento do cérebro é
moldado ao longo da história da espécie (base filogênica) e do desenvolvimento
individual (base ontogênica), como produto da interação com o meio físico e
social (base sociogênica).
Segundo Vygotsky, o desenvolvimento mental é marcado pela
interiorização das funções psicológicas. Essa interiorização não é simplesmente a
transferência de uma atividade externa para um plano interno, mas é o processo
no qual esse interno é formado. Ela constitui um processo que não segue um
curso único, universal e independente do desenvolvimento cultural. O que nós
interiorizamos são os modos históricos e culturalmente organizados de operar
com as informações do meio.
Segundo afirma Blanck (1996), as funções psicológicas superiores estão
na base do desenvolvimento ontogenético que, na sua avaliação, não ocorre de
forma retilínea, demarcando uma acumulação quantitativa, mas como uma série
de transformações qualitativas e dialéticas. Elas são formadas em estágios,
sendo cada um deles constituído por um processo complexo de desintegração e
integração. Eles se distinguem por apresentar uma organização específica da
atividade psicológica e por permitir o aparecimento de um dado comportamento.
Vygotsky considerava que a aquisição da linguagem constitui o momento mais
significativo no desenvolvimento cognitivo. Ela, a linguagem, representa um
salto de qualidade nas funções superiores; quando ela começa a servir de
instrumento psicológico para a regulação do comportamento, a percepção muda
de forma radical, novas memórias são formadas e novos processos de
pensamento são criados.
Um dos conceitos fundamentais da psicologia sócio-histórica é o de
mediação, ou seja, do “processo de intervenção de um elemento intermediário
numa relação” (Oliveira, 1993:26). O que segundo Molon (1995) é um
pressuposto norteador de toda a construção teórica de Vygotsky.
Na visão de Rego (1998), é pela mediação que o indivíduo se relaciona
com o ambiente, pois, enquanto sujeito do conhecimento, ele não tem acesso
direto aos objetos, mas, apenas, a sistemas simbólicos que representam a
realidade. É por meio dos signos, da palavra, dos instrumentos, que ocorre o
contato com a cultura.
Nesse sentido, a linguagem é o principal mediador na formação e no
desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Ela constitui um sistema
simbólico, elaborado no curso da história social do homem, que organiza os
Profesorado. Revista de currículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 9
signos em estruturas complexas permitindo, por exemplo, nomear objetos,
destacar suas qualidades e estabelecer relações entre os próprios objetos.
O surgimento da linguagem, como já foi dito anteriormente, representa um salto
qualitativo no psiquismo, originando três grandes mudanças. A primeira está
relacionada ao fato de que ela permite lidar com objetos externos não
presentes. A segunda permite abstrair, analisar e generalizar características dos
objetos, situações e eventos. Já a terceira se refere a sua função comunicativa;
em outras palavras, “a preservação, transmissão e assimilação de informações e
experiências acumuladas pela humanidade ao longo da história”. (Rego,
1998:54)
Em suma, a linguagem constitui o sistema de mediação simbólica que
funciona como instrumento de comunicação, planejamento e auto-regulação. É
justamente pela sua função comunicativa que o indivíduo se apropria do mundo
externo, pois é pela comunicação estabelecida na interação que ocorrem
“negociações”, reinterpretações das informações, dos conceitos e significados.
De acordo com Vygotsky, a linguagem materializa e constitui as
significações construídas no processo social e histórico. Quando os indivíduos a
interiorizam, passam a ter acesso a estas significações que, por sua vez,
servirão de base para que possam significar suas experiências, e serão estas
significações resultantes que constituirão suas consciências, mediando, desse
modo, suas formas de sentir, pensar e agir.
Considerando-se a origem do indivíduo (ontogênese), ocorrem dois
saltos qualitativos no seu desenvolvimento. O primeiro, quando o indivíduo
adquire a linguagem oral, e o segundo, quando adquire a linguagem escrita.
Um outro ponto de fundamental importância no desenvolvimento das
funções psicológicas superiores é o papel desempenhado pela aprendizagem.
Desse ponto de vista, para que o indivíduo se desenvolva em sua
plenitude, ele depende da aprendizagem que ocorre num determinado grupo
cultural, pelas interações entre seus membros.
Nessa perspectiva, a aprendizagem é encarada como um processo que
antecede o desenvolvimento, ampliando-o e possibilitando a sua ocorrência. Em
outras palavras, os processos de aprendizagem e desenvolvimento se
influenciam mutuamente, gerando condições de que quanto mais aprendizagem,
mais desenvolvimento e vice-versa.
Nos estudos de Vygotsky, as relações entre desenvolvimento e
aprendizagem ocupam lugar de destaque, principalmente, na educação. Ele
pondera que, embora a criança inicie sua aprendizagem muito antes de
freqüentar o ensino formal, a aprendizagem escolar introduz elementos novos
no seu desenvolvimento.
Ele considera a existência de dois níveis de desenvolvimento. Um
corresponde a tudo aquilo que a criança pode realizar sozinha e o outro, às
http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf10
capacidades que estão se construindo; isto é, refere-se a tudo aquilo que a
criança poderá realizar com a ajuda de outra pessoa que sabe mais. Esta última
situação é a que melhor traduz, segundo Vygotsky, o nível de desenvolvimento
mental da criança.
Entre esses dois níveis, há uma zona de transição, na qual o ensino deve
atuar, pois é pela interação com outras pessoas que serão ativados os processos
de desenvolvimento. Esses processos serão interiorizados e farão parte do
primeiro nível de desenvolvimento, convertendo-se em aprendizagem e abrindo
espaço para novas possibilidades de aprendizagem.
Em síntese, a teoria psicológica construída por Vygotsky rompe com as
correntes até então estruturadas e parte de uma nova concepção de realidade e
de homem.
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AS RAÍZES MARXISTAS DO PENSAMENTO DE VIGOTSKI: CONTRIBUIÇÕES
TEÓRICAS PARA A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL
MARXIST ROOTS OF VIGOTSKY'S THOUGHT: THEORETICAL CONTRIBUTIONS
TO THE CULTURAL-HISTORICAL PSYCHOLOGY
Fernando Dala Santa'
Vivian Baroni12
Resumo: O presente artigo tem como objetivo principal uma rápida retomada dos pressupostos
básicos do marxismo e a sua identificação com a Teoria histórico-cultural, em especial com o
pensamento de Lev Semionovich Vigotski. A chave para a compreensão das teorias de Vigotski
está nos princípios marxistas, cuja contribuição vai muito além da influência formal que emana da
sua condição ideológica Vigotski apreendeu o método dialético marxista, da mesma forma em que
incorporou e desenvolveu alguns dos seus objetivos e princípios teóricos (os conceitos de mediação
e atividade, por exemplo), necessários para o desenvolvimento de uma psicologia de cunho
científico, que teria um profundo impacto nas concepções educacionais contemporâneas. Tentar
separar a obra de Vigotski da influência do marxismo é subestimar as suas escolhas metodológicas
e, acima de tudo, desrespeitar as suas convicções teóricas e inclinações ideológicas.
Palavras chave: Vigotski. Marxismo. Psicologia Teoria Histórico-cultural.
Abstract: This article has as main objective rapid resumption of the basic assumptions of Marxism
and its identification with the cultural-historical theory, especially with the thought of Lev
Semionovich Vygotsky. The key to understand the theories of Vygotsky’s Marxist principles,
whose the contribution goes far beyond the formal influence that came from its ideological
condition. Vygotsky learned the Marxist dialectical method, as it incorporated and developed some
of the theoretical principles and goals (the concepts of mediation and activity, for example) required
for the development of a psychology of a scientific nature, which would have a strong impact on
contemporary educational concepts. Trying to separate the work of Vygotsky the influence of
Marxism it's underestimate its methodological choices, and above all to disrespect their beliefs
theoretical and ideological inclinations.
Keywords: Vygotsky. Marxism. Psychology. Cultural-historical Theory.
* * *
1Filósofo, Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da FAEDAJPF, mediante
Bolsa FAPERGS/CAPES. Integra o Núcleo de Pesquisa em Filosofia e Educação (NTJPEFE) da Universidade
de Passo Fundo. E-mail: femandos.101@hotmail.com.
2Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da FAEDAJPF. Bolsista CAPES.
Integra o Núcleo de Pesquisa em Filosofia e Educação (NUPEFE) da Universidade de Passo Fundo. E-mail:
vivianbaroni@hotmai1.com.
As raízes marxistas do pensamento de Vigotski
1. Considerações iniciais
Ao analisarmos o pensamento de um autor é impossível desvinculá-lo do contexto
ao qual estava inserido, tampouco isentá-lo da influência intelectual que o constitui.
Quando nos referimos a uma figura ímpar como a de Vigotski3 é necessário mantermos
como horizonte a conjuntura intelectual e sócio-política a que ele se vincula, sob pena de
cometermos imperdoáveis equívocos. Dessa forma, consideramos essencial uma reflexão
sobre os aportes marxistas para as pesquisas desenvolvidas no âmbito da Teoria Histórico-
Cultural, especialmente as empreendidas por Vigotski
A filosofia de Marx e Engels ao inverter o modelo dialético hegeliano,
estabelecendo como causas do desenvolvimento histórico as condições materiais de
existência e não mais as ideias, permitiu uma guinada nas pesquisas antropológicas,
pavimentando o caminho para o estudo dos fenômenos psicológicos. Vigotski, tanto pela
sua localização espaço-temporal (na Rússia dos primeiros anos da revolução bolchevique),
quanto pela sua formação intelectual, foi profundamente influenciado pelas ideias de Marx,
deixando transparecer suas inclinações ao longo das pesquisas que realizou.
Vigotski não foi um teórico do marxismo, mas um pensador marxista Essa sutil
diferença representa um fator determinante dentro da sua configuração intelectual, na
medida em que o pensamento marxista representava o substrato teórico sobre o qual
Vigotski construiu a sua psicologia, mas não os limites aos quais ela estava circunscrita. O
materialismo histórico-dialético, entendido como método mais coerente de leitura da
realidade em seu desenvolvimento histórico, representou para Vigotski uma importante
ferramenta na tarefa de estabelecer um modelo científico de estudo dos fenômenos
psíquicos.
A proximidade entre o marxismo e as concepções advindas da teoria histórico-
cultural pode ser comprovada através da discussão acerca do conceito de trabalho,
abordado por Marx e Engels e que foi retomado por Vigotski a partir da ideia de mediação.
A ação consciente do homem sobre o mundo, mediada pelo uso de instrumentos,
representou o passo decisivo em direção à gênese do caráter genuinamente humano do
3 Embora existam várias possíveis grafias (Vygotsky, Vygotskiou mesmo Vygotskij), no presente texto
optamos por padronizar o uso de Vigotski, exceto em caso de citação direta.
2 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
homem. Vigotski estendeu essa concepção de mediação ao uso de signos, que a exemplo
das ferramentas são criados pelas sociedades, agindo como transformadores da realidade
sociocultural. A transmissão da cultura, tanto no que se refere à esfera das ferramentas
materiais, quanto aos elemenios linguísticos e estético-culturais, representa o fator decisivo
no desenvolvimento humano, de onde pode-se infenr a importância do problema
educacional para a compreensão do pensamento vigotskiano.
Entretanto, várias décadas após a morte de Vigotski, um número considerável de
pesquisadores se esforçam (sem qualquer legitimidade) por separar as suas teorias da
inegável influência exercida pelo pensamento marxista, ao mesmo tempo em que objetivam
aproximá-lo de correntes de pensamento incompatíveis com as suas perspectivas e
convicções teóricas. A substituição do que Vigotski efetivamente escreveu por
reinterpretações e edições resumidas ou censuradas (DUARTE, 2000a), apoias facilita a
aceitação da paradoxal situação de dar ênfase às pesquisas de um pensador soviético no
âmbito do capitalismo globalizado. Essa iniciativa extremante tendenciosa revela não
somente um profundo desconhecimento em relação ao marxismo e, consequentemente, o
preconceito gerado pela apressada e leviana associação com os abusos cometidos pelas
distorções empreendias em nome do ‘socialismo real”; mas também um desrespeito com a
própria teoria de Vigotski.
2. Caracterização geral do marxismo4 e o problema da distorção de seus princípios
básicos
O pensamento filosófico de Marx, que não se restringe à filosofia, mas abrange,
sobretudo, os campos da história, da ciência política e da economia (JAPIASSÚ &
MARCONDES, 2006, p. 224), se desenvolveu a partir da crítica à filosofia hegeliana e à
tradição racionalista, cujas concepções entendiam as ideias não como representações
abstratas de uma realidade concreta, mas como a própria realidade. Todavia, a grande
contribuição da filosofia de Hegel para o pensamento de Marx foi o método dialético. A
4 Termo que designa o pensamento de Karl Marx e de seu principal colaborador, Fnedrich Engels. Embora
seja uma tradição sincrética que fomenta interpretações e linhas de ação distintas, no presente texto sempre
que utilizarmos o termo marxismo estaremos aludindo diretamente ao pensamento de Marx.
3 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p.1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
dialética hegeliana representa o movimento racional que permite a superação de uma
determinada contradição, em que cada etapa nega e supera a anterior em um processo
contínuo. Dessa forma, a uma tese (um determinado estado de coisas) contrapõe-se uma
antítese (negação do estágio inicial), cujo resultado é a síntese que carrega elementos das
duas instâncias anteriores, e que se transmuta em uma nova tese dando continuidade ao
processo. Para o idealismo hegeliano a história poderia ser concebida como uma sucessão
de momentos, levada a cabo somente através da oposição ao momento precedente em uma
contínua marcha da razão, sendo que o sujeito histórico é abstrato, é o ‘‘sujeito em si”.
Todavia, esse modelo de análise da realidade não era capaz de abarcar as instâncias
concretas da vida social, mantendo-se circunscrita ao domínio das ideias.
Marx toma para si o modelo dialético, invertendo, porém, a sua estrutura ao
estabelecer que as causas do devir histórico eram materiais, ou seja, sociais, econômicas e
produtivas. Marx desenvolve a pragmática concepção de que a existência determina a
consciência, da mesma forma como supera o determinismo subjacente ao materialismo
tradicional de Feuerbach, que também havia influenciado o seu pensamento. Estabelece o
que ele chama de “naturalismo consistente ou humanismo” que se difere tanto do iucdíiuuu
quanto do materialismo, “constituindo ao mesmo tempo a sua verdade unificadora”
(MARX, 2006, p. 182). A esse método de análise da realidade, pautado em um constante
devir cujas raízes são as condições materiais de existência, convencionou-se chamar de
materialismo histórico-dialético: a sociedade está estruturada a partir das relações
econômicas correspondentes a cada período histórico, cuja evolução se desenvolve
dialeticamente. Tal concepção da história implica a necessidade de uma reformulação
radical das perspectivas socialistas, ainda carentes de uma fundamentação científica Marx
critica o socialismo utópico de Proudhon - que acreditava em uma evolução espontânea da
sociedade - opondo-lhe a ideia de que a efetividade do socialismo dependeria da ação
decisiva do proletariado enquanto classe revolucionária: o proletariado é o coração da
emancipação (MARX, 2006, p. 59).
O motor da história seria, portanto, a luta de classes, ou seja, a história se move pelo
antagonismo entre as classes sociais de cada período histórico. A passagem de um modo de
produção5 para outro acontece quando o nível de desenvolvimento das forças produtivas
5 Modo de produção é a maneira pela qual se organiza a produção material.
4 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p.1-16
As raízes marxistas dopensamento de Vigotski
entra em contradição com as relações sociais de produção. Assim se deu no sistema
escravista, com a oposição entre senhores e escravos; no feudalismo entre senhores feudais
e servos e no capitalismo entre burguesia e proletariado. Segundo Marx, o capitalismo,
através das próprias contradições, geradas no seio da sua organização, inevitavelmente viria
a ruir, dando lugar a um estágio intermediário, a “ditadura do proletariado”, posteriormente
substituída pelo comunismo, em cuja organização não haveria classes sociais e nem Estado,
sendo abolida a propriedade privada dos meios de produção. O comunismo representaria o
momento histórico em que trabalho poderia surgir novamente como elemento emancipador
no qual o homem se autoproduz pela sua ação livre e consciente sobre a realidade.
Entretanto, distorções, incompreensão ou simplesmente a ignorância acerca dos
conceitos fundamentais do marxismo acabam por erigir uma barreira aparentemente
indelével, cuja transposição se mostra necessária para uma apreensão teórica consistente e
livre de preconceitos6. O primeiro grande equívoco, e talvez o mais disseminado, se refere à
errônea interpretação do “materialismo” de Marx, que se manifesta sob a alegação de que
para o marxismo a suprema motivação psicológica do homem sena a satisfação das suas
necessidades materiais básicas, negligenciando o valor do indivíduo ao negar as suas
instâncias cultural, espiritual e estética, tomando-o, por fim, um autômato sem
personalidade Fromm (1979, p. 15) destaca que a imagem popular do materialismo
marxista em sua tendência antiespiritual e desejo pela uniformidade e subordinação é
inteiramente falsa: “a meta de Marx era a emancipação espiritual do homem, sua libertação
dos grilhões do determinismo econômico, sua reintegração como ser humano, sua aptidão
para encontrar unidade e harmonia com seus semelhantes e com a natureza”
Paralelamente a essa interpretação tacanha do materialismo marxista aparece a
contraditória crítica ao caráter utópico do socialismo, que não reconheceria o desejo por
ganhos materiais ou a possibilidade de “ascensão social” como os únicos incentivos
eficazes para o homem trabalhar. Com efeito, acusa-se o marxismo, sob um mesmo ponto
de vista, ora de excessivamente materialista, ora de ingenuamente utópico. Ou seja, as
razões que levam a considerar que a concepção da história intrinsecamente ligada às
questões materiais de existência é incompatível com a tradição religiosa e espiritual do
6 Não obstante as criticas que Marx recebia, o desconhecimento acerca da sua obra era tamanho no ocidente
que a piimeiia veisão inglesa dos Manuscritos econômicos filosóficos, a sua principal obra filosófica, foi
publicada somente em 1959, a partir de uma tradução russa.
5 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
ocidente, são paradoxalmente as mesmas utilizadas para sustentar que o sistema capitalista
corresponde à natureza humana (centrada na busca por ganhos materiais), e que, portanto, o
capitalismo se mostra superior ao socialismo “visionário” (FROMM, 1979, p. 16).
Outra razão central para o problema das interpretações equivocadas acerca do
marxismo, sem dúvida, se deve às deturpações ocorridas nos países socialistas, que
tentaram convencer o mundo de que suas práticas correspondiam fielmente às teorias de
Marx. No entanto, ao contrário do sistema vislumbrado por Marx, o “socialismo real” não
libertou o homem das cadeias do determinismo econômico, nem o fez vencer a alienação,
mas o tomou submisso a um Estado centralizador e burocratizado. A ditadura do
proletariado na verdade se mostrou uma rígida ditadura sobre o proletariado e a exploração
do homem pelo homem foi substituída pela exploração do homem pelo Estado. Portanto, a
direta e leviana associação de Marx aos abusos cometidos nos países “comunistas” não
pode ser sustentada racionalmente, pois o que se viu nessas nações não lembra em nada a
essência do marxismo. É possível afirmar que o socialismo real, pelas suas contradições,
não passava de uma versão piorada de capitalismo.
3. A herança marxista de Vigotski: o método dialético
Lev Semionovich Vigotski realizou seus estudos universitários em direito, filosofia
e história e, embora nunca tenha recebido educação formal em psicologia, foijou, ao lado
dos psicólogos russos Alexander Luria e Alexei Leontiev, uma das mais fecundas e
paradigmáticas teorias psicológicas. Os estudos de Vigotski estavam indubitavelmente na
vanguarda das pesquisas em psicologia, objetivando a análise dos processos de
transformação do desenvolvimento humano nas suas dimensões filogenética, ontogenética e
histórico-cultural. Rivière (1985, p. 11) afirma que o pensamento de Vigotski foi de tal
forma revolucionário que em alguns aspectos ainda mantém a sua atualidade, enquanto em
outros se encontra mesmo a frente do nosso tempo.
Os estudos de Vigotski estão impregnados de elementos do marxismo, porém, nada
seria mais errôneo do que enquadrá-lo entre os seus teóricos ideológicos. A relação
estabelecida entre Vigotski e a teoria marxista, alçada ao posto de elemento norteador de
todo o pensamento soviético, nunca se deu na forma de uma adequação intelectual.
6 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As raízes marxistas do pensamento de Vigotski
Vigotski era, acima de tudo, um pensador marxista, ou seja, utilizava os princípios
marxistas como elementos de análise da realidade, sem nunca se deixar seduzir pela
dogmática pretensão de subordinar toda a realidade a esses princípios. Rivière (1985, p. 16)
aponta o fato de que a familiandade de Vigotski com a diaiética como método, bem como
com os fundamentos essenciais do pensamento marxista, o impediu de desenvolver uma
atitude reverenciai como a imposta pelo stalmismo.
Vigotski empreendeu a sua relação com o marxismo a partir do contato com os
textos de Hegel, Marx e Engels, ocorrido antes mesmo de iniciar seus estudos
universitários É possível inferir, a partir disso, que Vigotski encarava o marxismo como
uma ferramenta de pensamento, um subsídio indispensável na composição das suas teorias
Estabeleceu, a exemplo de Marx, o homem como ser histórico, sujeito ativo na construção
de si mesmo e da própria história, negando o dogma stalinista do homem enquanto produto
das circunstâncias Essa perspectiva objetivava a constituição de um modelo de pesquisa
psicológica centrado em um estatuto científico, que, no entanto, não se resumia à
formatação das pesquisas empíricas ao universo dos princípios marxistas; “ao contrário do
estereótipo dos intelectuais soviéticos que se apressam a fazer as suas teonas de acordo
com a mais recente interpretação do marxismo elaborada pelo Politburo7” (COLE &
SCRIBNER, 1991, p 7).
A efervescência científica observada nos anos que se seguiram à revolução russa
estava presente no âmbito da psicologia soviética através da antagônica relação entre
diferentes escolas, cujas explicações representavam sempre contribuições parciais ao estudo
dos fenômenos psicológicos. Vigotski acreditava que nenhuma das escolas de psicologia
então existentes, pelas suas próprias limitações teórico-metodológicas, seria capaz de
abarcar a complexidade de elementos postos em jogo nos estudos psicológicos e, por essa
razão, suas pesquisas buscavam a formulação de uma síntese das concepções antagônicas a
partir de novas bases teóricas. Behavioristas8 e gestaltistas9 cindiam a psicologia em duas
esferas aparentemente irreconciliáveis,
7 Do russo Politicheske Byuro (Gabinete de Política), representava o comitê executivo do Partido Comunista
na URSS.
8 O behaviorismo é o método psicológico experimental que consiste em realizar estudos científicos em
homens e animais, limitando-se à investigação do seu comportamento como resposta a um estímulo externo,
extraindo dai as leis que os reúnem, sem qualquer referência à consciência (JAPIASSU &. MARCONDES,
2006, p. 28).
7 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
um ramo com características de uma "ciência natural” que poderia
explicar os processos elementares sensoriais e reflexos, e um outro com
características de uma ‘ciência mental”, que descreveria as propriedades
emergentes dos processos psicológicos superiores. O que Vygotsky
procurou foi uma abordagem abrangente que possibilitasse a descrição e a
explicação das funções psicológicas superiores, em termos aceitáveis para
as ciências naturais (COLE & SCRIBNER, 1991, p. 6).
Vigotski afirmava que a corrente “reflexologista”, cujas concepções aparentemente
excluíam aspectos psíquicos, conduzia a um materialismo puro e assim ao enfoque
implícito de um idealismo dualista na esfera geral do problema das relações entre mente e
matéria. Acreditava, no entanto, ser possível o estudo das funções psicológicas superiores
sem sair dos limites da reflexologia, desde que partisse da ideia de consciência como
mecanismo de transmissão de reflexos (R1VIÈRE, 1985, p. 27).
Para a construção de uma psicologia verdadeiramente científica, "Vigotski entendia
ser necessária uma teoria que realizasse a mediação entre o materialismo dialético,
enquanto filosofia de máximo grau de abrangência e universalidade, e os estudos sobre os
fenômenos psíquicos concretos” (DUARTE, 2000b, p. 80). Assim, tendo como base o
método dialético, Vigotski pretendeu identificar as mudanças qualitativas do
comportamento que se sucedem no decorrer do desenvolvimento biológico e a relação que
ele estabelece com o contexto social, tendo suas atenções voltadas para o estudo das
funções psicológicas superiores, típicas da espécie humana Nas palavras de Rivière (1985,
p. 16), a dialética não era para Vigotski um dogma ou um catecismo, mas simplesmente a
estrutura mesma do seu modo de pensar, quase tão natural quanto a respiração, tanto que
compreender um problema significava situá-lo em sua gênese dialética
Vigotski expõe a sua intenção frente à doutrina de Marx nos seus cadernos não
publicados, demonstrando a autonomia intelectual que caracterizaria a sua fértil produção:
‘"não quero descobrir a natureza da mente fazendo uma colcha de inúmeras citações. O que
eu quero é, uma vez tendo aprendido a totalidade do método de Marx, saber de que modo a
ciência tem que ser elaborada para abordar o estudo da mente” (apud COLE &9
9 A teoria da Gestalt (do alemão Gestalttheorie, teoria da forma) é um princípio psicológico segundo o qual
percebemos sempre um conjunto de elementos Por exemplo, quando vemos algo, vemos ao mesmo tempo
uma certa forma, uma certa cor, uma certa distância. A esse conjunto percebido como um todo organizado,
chamamos deforma, cuja significação representa uma configuração, estruturação ou organização (JAPIASSÚ
& MARCONDES, 2006, p. 121).
8 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As raízes marxistas do pensamento de Vigotski
SCRIBNER, 1991, p. 9). A manifesta e consciente adoção do marxismo como substrato
teórico não impediu Vigotski de angariar elementos advindos de outras correntes
psicológicas. A psicologia científica de Vigotski pressupunha uma crítica ao reducionismo
dos estudos psíquicos às categorias marxistas cristalizadas; entretanto, sua crítica recaia
também sobre as tentativas de utilização do marxismo em teorias psicológicas que lhe
fossem estranhas, e,
(...) ao contrário daqueles que, atualmente, identificam como dogmatismo
a adoção firme e explícita de uma corrente teórica e, por consequência,
identificam como abertura de espírito a ausência de posicionamento firme
e explícito, Vigotski entendia que a clareza quanto aos fundamentos
centrais do marxismo e a adoção firme desses fundamentos é que poderia
possibilitar aos psicóiogos marxistas não se fecharem às questões
formuladas por correntes não marxistas da psicologia (DUARTE, 2000b,
P 81)
Não obstante a indiscutível influência de Marx no pensamento de Vigotski, o fato
de pouco citá-lo de forma direta nas suas obras mais conhecidas serve como subterfúgio
para aqueles que pretendem desvinculá-lo de qualquer resquício de uma tendência marxista.
Fazem isso, primeiramente tentando separar os trabalhos de Vigotski dos de Leontiev,
imputando a esse último o rótulo de mero “repetidor do discurso oficial, alguém que cedeu
à pressão dos guardiões ideológicos’ do marxismo soviético” (DUARTE, 2000a, p. 163).
Apontam erroneamente a inclinação de Leontiev a uma pretensamente marxista dicotomia
entre linguagem e trabalho, embora tal separação inexista tanto em Marx quanto em
Leontiev e Vigotski, que desenvolveram seus trabalhos no interior de uma mesma corrente
da psicologia, apoiada em fundamentos filosóficos marxistas
Todavia, qualquer leitor com um conhecimento elementar sobre os princípios
filosóficos do marxismo será capaz de percebê-los perfeitamente integrados às doutrinas
expressas pela psicologia histórico-cultural. Assim, é realmente de se estranhar que tantos
pesquisadores se esforcem por vincular Vigotski a correntes de pensamento que lhe são tão
estranhas (afastando-a, por conseguinte, do marxismo), distorcendo completamente a sua
linha de pesquisa e tomando a sua profunda teoria algo extremamente simplista e rasteiro
Tal iniciativa tem como objetivo resumir a teoria de Vigotski à ênfase nos signos,
aproximando-a das concepções pós-estruturalistas que reduzem tudo ao embate de
discursos (DUARTE, 2000a, 164)
9 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As raízes marxistas do pensamento de Vigotski
4. O trabalho na perspectiva marxista e a sua relação com conceitos vigotskianos de
atividade e mediação
Com efeito, não foi apenas o método marxista que influenciou as pesquisas de
Vigotski, mas também alguns de seus conceitos. Podemos tomar como exemplo a discussão
acerca do trabalho presente em Marx e Engels e que foi retomada e desenvolvida por
Vigotski. No marxismo o trabalho aparece sob duas formas, que levam a resultados
diametralmente opostos, a saber, como atividade essencial do ser humano e como promotor
de alienação Engels (1999, p 04) identifica o trabaiho como a condição básica e
fundamental de toda a vida humana, a ponto de ser possível afirmar que o trabalho criou o
própno homem. Analogamente, Marx (2006, p. 117) concebe o trabalho como “atividade
vital”, sendo que a vida produtiva é a vida genénca do homem enquanto o animal
identifica-se prontamente com a sua atividade, pois ele é a sua própria atividade; o homem
‘Taz da atividade vital o objeto da vontade e da consciência Possui uma atividade vital
lúcida”. Por conseguinte, conforme Duarte (2004, p. 47), é possível afirmar que o homem
age livremente na medida em que os processos sociais sejam fruto de decisões coletivas e
conscientes.
E é exatamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como
verdadeiro ser genérico (MARX, 2006, p. 117), ou seja, a natureza aparece para o homem
como a sua imagem consubstanciada através do trabalho (objetos, ferramentas, linguagem,
costumes). Nas palavras de Fromm (1979, p 35), para Marx “a História é a história da
autorealizaçâo do homem; ela nada mais é que a autocnação do homem por intermédio de
seu próprio trabalho e produção”. Através da sua intervenção na natureza, criando meios
para a satisfação de suas necessidades, o homem distanciou-se dos animais (cuja relação
com a natureza é direta e imediata), constituindo-se como tal através do trabalho. Os
processos dialéticos que diferenciam os homens dos animais são, portanto, aqueles capazes
de produzir historicidade para o marxismo o trabalho enquanto instrumento mediador entre
homem e natureza é a gênese da história
Todavia, o trabalho alienado subverte essa relação, pois o homem ao deixar de ser
dono do fruto do própno trabalho (a alienação do trabalhador em seu objeto), e também da
própria atividade, na medida em que durante a jornada de trabalho não é senhor de si
10 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p 1-16
As raízes marxistas do pensamento de Vigotski
mesmo (alienação do processo de produção), acaba por não mais se reconhecer e nem se
afirmar através daquilo que produz, deixando de ser ator da própria história A alienação
leva o ser genérico do homem a transmutar-se em instrumento da sua sobrevivência,
fazendo-o perder a essência daquilo que o difere dos animais, na medida em que abandona
a sua atividade vital consciente.
Vigotski, por seu turno, entendia que a atividade não era simplesmente uma resposta
ou reflexo, mas implicava um componente de transformação do meio através de
instrumentos. No decurso da história as aptidões, os conhecimentos e o saber prático do
homem, consubstanciaram-se nas suas realizações (materiais, intelectuais, estéticas)
(LEONTIEV, 1978, p. 265). Dessa forma, o homem se relaciona com a realidade que o
cerca através do conhecimento construído pelas gerações que o precederam, isto é, mediado
pelos instrumentos materiais e simbólicos presentes na cultura. Com efeito, o conceito de
atividade se encontrava estreitamente ligado ao conceito de mediação (RIVIÈRE, 1985, p
41). A concepção de atividade mediada por instrumentos representa a retomada da ideia
marxista clássica de que a especialização das ações realizadas tendo as mãos como
‘ferramentas”, trouxe ao homem a possibilidade do exercício de atividades especificamente
humanas, pois “foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem” (ENGELS,
1999, p. 05).
Ao estender o conceito de mediação, do âmbito da interação homem/ambiente
através de instrumentos, para a esfera do uso de signos, Vigotski atualiza o seu significado
e ao mesmo tempo potencializa o seu alcance. No que se refere à relação entre linguagem e
atividade mediada pelo uso de instrumentos, Vigotski (1991, p. 27) aponta que o momento
decisivo “no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente
humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática,
então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem”. Essa
conclusão nos parece muito próxima àquela que Engels chega ao analisar a gênese da
linguagem, na qual a convergência entre a ação transformadora do trabalho e as
potencialidades geradas pelo desenvolvimento linguístico foi decisiva na constituição do
homem enquanto tal, reforçando aspectos da sociabilidade. A resolução conjunta de
problemas relacionados com a sobrevivência do grupo, mediante ao trabalho coletivo,
pressupunha a possibilidade de intercomunicação, gerando um desenvolvimento que seria
11 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
plasmado enquanto cultura. Afirma Engels (1999, p. 12) que "pnmeiro o trabalho, e depois
dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o
cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano”. Conforme
Duarte (2000a, p. 164), na concepção marxista a linguagem só pode existir como elemento
integrante da prática social, produzido e reproduzido no seu interior. Assim, Vigotski teria
empreendido nos termos de hipóteses genéticas concretas as afirmações filosóficas de Marx
e Engels, conferindo-lhes legitimidade empírica mediante procedimentos experimentais.
Percebe-se claramente no paralelo estabelecido entre as pesquisas de Vigotski e as
ideias marxistas, que o homem, embora amplamente influenciado por questões de ordem
biológica, é um ser socialmente constituído que constrói a si mesmo de forma consciente
através da sua ação sobre a realidade. Conforme Rivière (1985, p. 41), o sujeito não se faz
de dentro para fora, não é um reflexo passivo do meio nem um espírito anterior a si mesmo
que entra em contato com as coisas e pessoas, ao contrário, é o resultado de uma relação.
Nas palavras de Vigotski (2000, p.33), o homem é 'a personalidade social = o conjunto de
relações sociais, encarnado no indivíduo (funções psicológicas, construídas pela estrutura
soeiai)'.
A ideia de mediação (instmmental e simbólica) estava intrinsecamente ligada à
gênese histórico-cultural das funções psicológicas superiores, que não possuem somente
uma origem natural, mas acima de tudo uma históiia social (RIVIÈRE, 1985, p. 42). Em
última análise, para Vigotski o pensamento psicológico de cada indivíduo é parte e
resultado da evolução geral da humanidade, todavia, esse desenvolvimento não se dá de
forma isolada, mas pressupõe diacronicamente todo o caminho precedente da história
humana e sincronicamente a participação do indivíduo na vida da sociedade
(MANACORDA, 1992, p 324/325) Transliterada para o âmbito da psicopedagogia a
concepção de que a personalidade e a individualidade crescem por meio da socialização se
traduz na ideia de que as crianças possuem potencialidades cognitivas que transcendem seu
estágio intelectual imediato, ou seja, possuem uma ' zona de desenvolvimento proximal”.
Sob essa perspectiva a educação não pode ser pensada somente no que tange ao nível de
desenvolvimento mental efetivamente apresentado pela criança, mas deve ater-se
principalmente em conhecer e estimular o seu nível potencial.
12 Kinesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
Se no ideário marxista o trabalho foi determinante na transformação do homem em
um ser histórico, isto é, criador da própria história e a ela indissociavelmente ligado, e os
modos de produção (na oposição entre os atores das relações de produção) se sucedem em
uma relação dialética, é lícito afirmar que as concepções psicológicas da teoria histórico-
cultural, centradas em princípios essenciais do marxismo, nos apresentam indicações no
sentido de superar as contradições do sistema capitalista, especialmente a alienação em
todas as suas formas. O desenvolvimento dos indivíduos se encontra condicionado à sua
interação entre si e com o meio em que atuam, ou seja, o ambiente econômico e sócio-
cultural toma-se um fator determinante: quanto mais pobre for o universo simbólico de um
indivíduo, tanto menores serão as possibilidades de um desenvolvimento pleno das suas
funções psicológicas superiores. Vigotski reitera a complexidade da formação da
personalidade humana, apontando
{...] o caráter de classe e as distinções de classe como responsáveis pela
formação dos tipos humanos. As várias contradições internas, as quais se
encontram nos diferentes sistemas sociais, encontram sua expressão
acabada tanto no tipo de personalidade, quanto na estrutura do psiquismo
humano de um período histórico determinado [...]. De tudo isso resulta
não só que o tipo humano autenticamente único diferencia-se e fragmenta-
se em vários tipos, de diferentes classes sociais - como estes, por sua vez,
permanecem em agudo contraste entre uns e outros -, mas também a
corrupção e a distorção da personalidade humana, assim como a sua
sujeição a um desenvolvimento inadequado, unilateral, no interior mesmo
de todas essas diferentes variantes tipológicas humanas (VIGOTSKI,
1930, p. 3).
A percepção de que a separação dos indivíduos em classes possui um destacado
papel na formação da personalidade individual ratifica a ideia marxista da necessária
tomada de consciência do proletariado enquanto classe, em cujas mãos repousam as
possibilidades de uma radical transformação na configuração das relações sociais e
produtivas. A superação das contradições do capitalismo e a gênese de uma estrutura sócio-
produtiva que apresente novos paradigmas nas relações de trabalho criariam um novo
homem (VIGOTSKI, 1930, p. 12), sendo que o salto para essa nova composição humana
seria tão contundente quanto a passagem do homem primitivo, centrado na ação imediata e
instintiva sobre o meio, para o homem histórico, criador e criatura de uma realidade social
historicamente constituída Para tanto, Vigotski (1930, p. 10) aponta o caráter central da
13 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As raizes marxistas do pensamento de Vigotski
educação no processo de transformação do homem, visando superar a divisão entre
pensamento e ação, entre trabalho físico e intelectual, separados durante o processo de
desenvolvimento capitalista, e que hoje se mostra na tendência educacional de enfatizar a
preparação para o mercado de trabalho em detrimento da formação plena do ser humano
5. Considerações finais
Não há como separar Vigotski do marxismo, da mesma forma como seria
impossível separar Marx da filosofia de Hegel. A influência de Marx e Engels sobre a
ciência soviética é paradigmática, embora para alguns cientistas ela surgisse como meio
(método de leitura da realidade sócio-histórica), enquanto para outros era interpretada como
princípio e fim de toda a atividade científica Vigotski e os demais membros da corrente
histórico-cultural da psicologia tiveram a coragem de empreender uma leitura marxista dos
fenômenos psíquicos, sem nunca enquadrá-la hermeticamente na interpretação oficial (e
obviamente particular) dos princípios marxistas.
A pretensiosa intenção de Vigotski era estabelecer um estudo psicológico amparado
em um estatuto científico, fazendo convergir as correntes psicológicas antagônicas que
poderiamos chamar genericamente de “naturalista” e “mentalista”. O desenvolvimento das
funções psicológicas superiores, segundo Vigotski, não era nem puramente interno, nem se
resumia às ações reflexivas, mas se configura na soma entre os fatores de ordem biológica e
as relações que se estabelece com o meio social. O homem é, por conseguinte, um ser
social, biológica e historicamente determinado, cuja ação consciente sobre a realidade o
constrói e o firma como ser humano Ademais, o conceito de zona de desenvolvimento
proximal enfatiza o caráter social do desenvolvimento intelectual, centrando na ação
pedagógica o estímulo do que potencialmente uma criança pode desenvolver, para que a
educação não se atenha somente ao nível em que efetivamente ela se encontra
As tentativas de relativizar a contribuição de Leontiev e, consequentemente a de
Marx, ao pensamento de Vigotski representam uma iniciativa no sentido de legitimar a
ideologia dominante. Mediante ao enfraquecimento do elo que une uma teoria tão
14 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
significativa e atual quanto a vigotskiana com a matriz marxista que lhe serve como base10,
minimiza-se a possibilidade do seu uso em uma ação contra o degradante processo de
alienação denunciado por Marx. O preconceito em relação ao marxismo, perpetuado no
senso comum pela ignorância dos seus pressupostos básicos, faz corn que se olhe com
reservas tudo o que se relacione a Marx, ou que foi por ele inspirado. Não se trata de
questões de ordem metodológica ou intelectual, mas de questões ideológicas: Marx é visto
como o demônio responsável por todos os erros cometidos nos países socialistas.
Aparentemente, a inegável orientação marxista de Vigotski, e as implicações
teóricas decorrentes disso, desencorajam o estudo da teoria histórico-cultural, daí a
necessidade de mutilar a sua obra, subvertendo e simplificando os seus pressupostos. Dessa
forma, resgatar o estatuto marxista da obra de Vigotski nos parece essencial para
compreendermos todas as suas perspectivas, potencializando sobremaneira o seu alcance.
Ler Vigotski a partir de uma perspectiva que exclua os aportes marxistas é lê-lo pela
metade, é ignorar a sua profunda preocupação com a realização plena do ser humano, que
está presente tanto em Marx e Engels quanto em qualquer marxista autêntico.
Referências
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10Uma análise profunda e esclarecedora sobre as tentativas de arregmientaçâo da psicologia de Vigotski por
correntes “pós-modemas” pode ser encontrada em Duarte (2000a).
15 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
As rates marxistas do pensamento de Vigotski
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16 Kinesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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AVANÇOS DA PSICOLOGIA SOCIAL
NA AMÉRICA LATINA
SILVIA T. MAURER LANE
Introdução
Para falarmos de avanços da Psicologia Social na América Lati­
na é necessário retrocedermos à época da célebre “ crise da Psicologia *
Social” — crise esta teórica e metodológica.
No Congresso da SIP em 1973, realizado em São Paulo, a dra,
Aniela Ginsberg, uma das suas organizadoras, apresentava resultados
de pesquisas interculturais os quais apontavam para a relatividade dos «
comportamentos humanos e, mesmo, de características de personali-1
dade em funçã<Lde_difcrencas históricas, culturais e sociais, tudo indi­
cando qüenão cabia à Psicologia, como ciência, ter leis universais. Por
outro lado, porém, os irábalhos de Skinner comprovavam que reforço
positivo, em qualquer cultura, aumenta a frequência de um comporta­
mento. Assim como os três fatores cnmntcaHnt ppr Otgnnd^na elabo-
ração do Diferencial Semântico, para a obtenção de significados afeti-
vos de palavras, apresentavam-se como dimensões universais, ou seja,
em todas as culturas estudadas (em torno de trinta) emergiam um fa­
tor de Valor, um segundo relativo à Potência e um terceiro, à Atividade.
A que se deve o caráter universal de alguns aspectos psicológicos ,
e de outros, essencialmente, particulares? Qual a relação entre o bioló- I
gico da espécie e o histórico cultural das sociedades?
Esta era a crise teórica com suas conseqüências metodológicas sen­
tida por todos os estudiosos da Psicologia Social.
Porém, na América Latina esta crise assumiu também um cará- f
ter político. As ditaduras militares, com seu poder repressivo, ás injus­
tiças sociais, a opressão sob a qual a maioria dos povos vivia nas déca­
das de 60 e 70, faziam-nos questionar não só o nosso papel de pesqui­
sadores como a própria Psicologia Social/Ela, que se apresentava na
década de 50 como o ramo da Psicologia que contribuiria para resolver
68 Silvia T. Maurer Lane
os grandes problemas da humanidade, parecia a nós, neste período,
que apenas subsidiava a opressão, a manipulação política, a manuten­
ção do slatus quo.
Diante deste quadro, o nosso cotidiano não nos permitia ficar
em “ torres de marfim” pesquisando neutramente...
A Revisão Crítica
No Brâsi), a repressão militar e o movimento universitário de 68
obrigaram-nos a uma reflexão crítica sobre a universidade e seu papel
social, sobre o conhecimento que cabia a ela produzir. Teses como o
ensino teórico-prático, uma nova relação aluno-professor (extinguin­
do a dominação institucionalizada), uma universidade voltada para os
problemas sociais e não para a teoria dissociada da realidade, nos fize­
ram repensar a psicologia social que ensinávamos e enfrentar “ cara
a cara” a crise que se anunciava. A euforia dos anos 50 havia acaba­
do, e se questionava como a Psicologia Social poderia dar subsídios
para uma transformação social.
A euforia acabara, mas a esperança de um conhecimento cientí­
fico que pudesse ajudar a criar uma nova sociedade, não!
No curso de graduação da PUC-SP, tentávamos concretizar a tese
da teoria e prática no ensino, levando os alunos a observações, entre­
vistas, enfim, a coletar dados do cotidiano e confrontá-los com os tex-
tos clássicos sobre os conceitos de atitudes, motivação e percepção so-
ciais, dissonância cognitiva, socialização, dinâmica de grupo^etc.
A proposta era dé se chegar a uma revisão crítica dos conceitgs,
porém, tanto os alunos como os monitores e auxiliares priorizavam o
teórico, tornando os dados coletados exemplos dos conceitos estuda­
dos ou então eram exceções... A realidade captada não podia questio­
nar um conhecimento científico elaborado a partir de experimentos e
pesquisas tão bem controlados.
Esta crítica só foi possível muitos anos depois, em disciplinas do
curso de pós-graduação, mediante revisões de experimentos e pesqui­
sas indexados no Psychological Abstracts e mais em termos-da incon­
sistência dos resultados encontrados do que de um confronto com a
nossa realidade social. Este fato gerou muita ansiedade diante de um
vazio teórico, o que tornou urgente o desenvolvimento de pesquisas
que levassem a uma nova sistematização.
O mesmo ocorria diante de artigos que refletiam criticamente a
Psicologia Social, como os de Bruno, Poitou, Pêcheux e outros publi­
cados na Nouvelle Critique sob o título “ Psicologia Social: uma uto­
pia em crise” , assim como o prefácio de Moscovici numa obra organi­
zada por ele com o título Introduction de la psychologie sociale. Por
outro lado, Merani na Venezuela, Sève na França, Israel e Tajfel na
Inglaterra contribuíram para uma reflexão mais profunda, assim co­
Avanços da Psicologia Social... 69
mo a releitura de Politzer, George Mead e Vigotski trouxeram novas
perspectivas de estudo.
A psicologia da linguagem — Para uma compreensão clara das
interações sociais, a linguagem se apresentava como um ponto-chave
a ser deslindado, não como algo reificado como os lingüistas e psico-
lingüistas o faziam, mas sim como algo dinâmico construído historica­
mente pela sociedade e desempenhando um papel fundamental tanto
ncnrésenvolvimento dos indivíduos como na inserção em grupos so­
ciais.
~ As pesquisas de Osgood e suas escalas do Diferencial Semântico,
que captavam os significados afetivos, nos pareciam um bom começo
para pesquisar a linguagem; após vários estudos conseguíamos descre­
ver significados que grupos atribuíam a diferentes aspectos sociais, po­
rém permitindo explicações que nada mais eram do que hipóteses que
demandavam outras pesquisas. Também Skinner foi fonte de inspira­
ção para alguns estudos, principalmente pela vinculação entre lingua­
gem e pensamento, dando a este o status de comportamento.
Porém, o grande impulso veio de Vigotski ao demonstrar a me­
diação fundamental que à’linguagem exercia na constituição do psi­
quismo humano, em especial, na consciência. Também ficou clara a
presença da ideologia nos significados, e quando os processos comuni­
cativos permitiam uma reflexão crítica destes significados, em confronto
com a realidade social, desencadeavam avanços da consciência ao se
desvendar os conteúdos ideológicos que encobrem as contradições so­
ciais históricas.
A identidade social — Tudo indicava ser este um conceito básico
para a Psicologia Social, pois considerava o indivíduo como um todo
e — o que era mais importante — na sua relação com os outros. É
Ciampa que, Partindo de pesquisas na linha teórica desenvolvida por
ScHêTbê.Taz a critica a um modelo funcionalista erfitQJ?iaj?.Íatêiacio-
nismo simbólico de George Mead, bem como os estudos de Goffman,
à procura de um conceito de identidade que permitisse uma concepção
de sujeito transformador e autor.da história social.
Esta sua procura o leva a estudar a identidade de Severina, uma
nordestina, empregada doméstica, manicure, que se torna budista; é
este estudo que permitirá ao autor desvelar a identidade enquanto me­
tamorfose.
Processo grupai — partindo das teorias e técnicas sobre a dinâmica
de grupos, a revisão crítica nos permitiu constatar quanto os estudos
reproduziam, como ciência, a ideologia embutida nos papéis sociais,
principalmente o de líder, e também em conceitos como o de coesão
social e na procura através das técnicas de uma harmonia que tornasse
o grupo mais produtivo.
Outra questão que a dinâmica de grupo colocava era que por meio
de técnicas o grupo atingiria um estágio ótimo e assim permaneceria,
como se o tempo parasse. Foi este aspecto não constatado nas observa­
70 Silvia T. Maurer Lane
ções sistemáticas de grupos que nos levou a denominar toda esta área
do saber de Processo Grupai, negando o grupo como algo estável e
reificado.
Dessa forma, grupos eram observados como se processando ao
longo de um certo período, a fim de permitir a análise de relações de
dominação e de poder e as condições que levavam os indivíduos que
os constituíam a desenvolverem suas consciências e seus potenciais crí-
ticqs ejtraiisformadores, porém sempre dificultados pelas instituições
que abrigam os grupos.
Nesse momento, já nos propúnhamos a estudar o processo gru­
pai em bases materialistas-históricas e dialeticamente.
Estas revisões críticas colocaram uma questão crucial, ou seja,
a necessidade de uma metodologia de pesquisa que permitisse captar
o indivíduo, situado historicamente e, portanto, multideterminado.
Foram os trabalhos em comunidade, desenvolvidos por uma equi­
pe interdisciplinar, que nos levaram a aprofundar a questão da psico­
logia na comunidade como uma prática comprometida e uma sistema­
tização do saber; para tanto a pesquisa participante tornou-se funda­
mental, pois ela permitia acompanhar o movimento histórico de um
grupo social, detectar as determinações, as intervenções e as transfor­
mações que ocorriam.
Outras estratégias metodológicas utilizadas foram ajabseryação
participante (de processos grupais) e os estudos de casos mediante rèT
latos de história de vida.
Também os congressos da Sociedade Interamericana de Psicolo­
gia foram de extrema importância para essa revisão crítica, pois pude-
fffõs constatar que as mesmas preocupações caracterizavam os psicó­
logos sociais de vários países da América Latina no sentido de se cons­
truir um saber científico que contribuísse para uma ação transforma­
dora em nossos países.
Com este intuito foi criado um núcleo de psicologia comunitá­
ria, com a participação de pesquisadores de vários países da América
Latina, enfatizando uma intervenção não-assistencialista e uma atua­
ção que desenvolvesse a consciência e a autonomia de grupos margina­
lizados social e economicamente. Este núcleo permitiu uma troca rica
de experiências e a certeza de que vivíamos na América Latina um pro­
cesso de reflexão crítica sobre a psicologia e a procura de novos cami­
nhos tanto teóricos como metodológicos para uma prática psicológica
comprometida com os grandes problemas sociais que enfrentávamos.
Daí a necessidade de um maior intercâmbio entre cientistas psi­
cossociais; para tanto realizamos uma viagem por vários países da Amé­
rica Latina descobrindo práticas e pesquisas de grande interesse e que
demonstravam que fazíamos parte de um momento histórico, no qual
a “crise” e a crítica da Psicologia Social nos levavam todos à procura
de novas bases epistemológicas e metodológicas para a pesquisa e avan­
ço científico comprometidos com uma prática transformadora. Por ou-
A vanços da Psicologia Social... 71
tro lado, mostrou-nos quanto já tínhamos avançado em nossos estu­
dos e que, sem dúvida, estávamos no caminho certo.
Ainda como revisão crítica é de suma importância mencionar as
obras de Martin-Baró, nas quais faz uma análise, quase enciclopédica,
das pesquisas e teorias produzidas nos Estados Unidos e na Europa,
enfocando a realidade social de El Salvador e da América Central, as­
sumindo a não-neutralidade da ciência e o compromisso político do
pesquisador.
O que fizemos em sala de aula, nas discussões assistemáticas,
Martin-Baró fez paciente e cabalmente com a Psicologia Social. A sua
obra é tão completa neste sentido que o curso de Processo Grupai que
ministramos no Programa de Pós-Graduação tem em Sistema, Grupo
y Poder (1989) uma leitura básica e obrigatória.
Teoria e Prática
A questão da indissociabilidade entre teoria e prática era o desa­
fio da Psicologia Social — ela deveria avançar na sistematização teóri-
cíí e, conseqüentemente, produzir efeitos práticos ou então se desen­
volver numa prática que redundaria numa sistematização teórica. Foi
este desafio que caracterizou a Psicologia Social da década de 80, pois
mediante uma prática do psicólogo em comunidades se procurou uma
sistematização teórica, e, por meio de pesquisas sobre o comportamento
político, buscou-se também encontrar formas de atuação para que, em
ambos os casos, houvesse transformações significativas para as popu­
lações desfavorecidas da América Latina.
Os relatos sobre experiências em Psicologia Comunitária enfati­
zavam com clareza a questão da prática e do compromisso político com
grimaéíTpãrcelas da população oprimida, e víamos, por meio da rica
troca de experiências em torno de uma Psicologia Comunitária crítica,
que ela nos daria bases para uma atuação transformadora; porém, pa­
ra tanto seria necessária uma sistematização teórica, que ainda estava
por se fazer. Cometíamos erros e acertos semelhantes sem avanços mais
significativos devido à ausência de publicações teóricas a respeito das
bases psicossociais de nossas atuações.
Nesta direção, as contribuições de Elisa Jimenez decorrentes do
trabalho realizado na Maternidade Concepción Palacios, em Caracas,
são de suma importância, pois, a partir de uma prática desenvolvida
com grupos de mulheres grávidas visando ao desenvolvimento de uma
consciência social, permitiram uma melhor sistematização tanto da prá­
tica como da teoria, deixando claro que a reflexão crítica oriunda nas
trocas que ocorrem cm grupos, levando a um exame da realidade, é
condição para avanços da consciência e alteração das práticas e intera­
ções cotidianas.
Este trabalho, mais grupai do que comunitário, nos levou a ques­
tionar o que seria, de fato, uma comunidade. Seriam bairros, institui-
72 Silvia T. Maurer Lane
ções, agrupamentos? Ou seriam meras utopias em nossos países capi­
talistas e, como tais, individualistas? Valeria a pena investir em uma
utopia?
Os trabalhos de Euclides Sanches, Esther Wiesenfeld e Karen Cro-
nik da Ludefia, em Caracas, nos mostram que pelo menos pequenas
utopias são realizáveis — como o projeto Casalta, a partir do qual,
utilizando os recursos psicossociais, desenvolvem uma prática que cul­
mina numa efetiva organização comunitária. Tivemos oportunidade
de visitar o conjunto habitacional e conversar com alguns de seus mo­
radores. Pudemos constatar que quando pessoas se unem em grupo
e resolvem ser sujeitos de sua história, e encontram a assessoria quali­
ficada — como foi o caso —, conseguem avançar em direção a rela­
ções sociais essencialmente democráticas, nos seus direitos e deveres,
que caracterizam uma comunidade.
Muitos outros trabalhos vêm sendo desenvolvidos na América La­
tina, os quais podem ser consultados no número especial do Journal
o f Applied Psychology, organizado por Euclides Sanchez e Esther Wie­
senfeld, que trata da Psicologia Comunitária na América Latina. Am­
bos os autores ampliaram o volume para a publicação de um livro so­
bre o tema, o qual vem atender à necessidade, sentida por todos nós,
de uma reflexão crítica que permita a tão indispensável sistematização
teórica.
Outra vertente significativa que se concretiza na década de 80 é
a da Psicologia Política. A começar de vários trabalhos já realizados
e apresentados no Congresso da SIP, em 1985, em Caracas, e partindo
de preocupações semelhantes à da Psicologia Social Comunitária, Ma-
ritza Montero, Ignácio Martin-Baró e outros se propõem a publicar
um livro sobre este tema, visando sistematizar questões teóricas e me­
todológicas.
Psicologia Política, segundo Martin-Baró, seria o estudo daque­
les comportamentos “cujas direções (...) visam uma ordem social e pro­
duzir nelas um impacto” (p. 41). E grande parte das pesquisas procura
deslindar quais as determinações “ da alienação, ou seja, da falta de
controle das grandes maiorias populares sobre sua própria existência
e destino” . (M.Baró, 89:52)
Organizada por M. Montero, com a efetiva colaboração de
Martin-Baró, a obra Psicologia política e América Latina apresenta pes­
quisas e reflexões críticas oriundas de diferentes países, porém sempre
com estes mesmos objetivos: entender o porquê da alienação de nos­
sos povos. O trabalho continuou e um segundo volume, Acción y dis­
curso, também organizado por Montero, é editado em 1991, com avan­
ços teóricos e metodológicos de grande importância.
É interessante observar que as duas vertentes, Psicologia Social
Comunitária e Psicologia Política, ao se defrontarem com a questão
metodológica, encontram na Pesquisa Participante o veio mais pro­
fícuo.
A vanços da Psicologia Social... 73
Nesse sentido os trabalhos de Bader Burihan Sawaia, a partir de
sua pesquisa com mulheres faveladas, permitiram uma sistematização
da pesquisa participante, estabelecendo os limites entre pesquisa, mili­
tância e compromisso político. Este último considerado prioritário, a
distinção entre participação e militância fica condicionada à precisão
de registro dos dados, à análise e discussão conjunta com os sujeitos
da pesquisa. Sawaia aponta ainda que qualquer intervenção ou ação
conjunta parte de questões do tipo “o que acontecerá se...?” . Ou se­
ja, volta-se às tradicionais hipóteses, porém agora somente a realida­
de, os fatos do cotidiano, é que nos darão as respostas.
Se examinarmos os trabalhos mais significativos, nestas duas ver­
tentes, veremos que eles são oriundos de países onde as manifestações
sociais não são tão reprimidas, onde ainda há espaço (relativo) para
o cientista social pesquisar. Nos outros países da América, este perma­
nece no silêncio necessário da resistência ou da recuperação. Martin-
Baró se negou a fazê-lo em El Salvador, onde a reflexão científica e
a prática perturbaram tanto os poderosos, que os levaram a lançar mão
do ato mais desumano — o assassinato.
Mas ainda restam esperanças quando José Miguel Salazar pro­
põe, em 1989, a ênfase em pesquisas sobre a Identidade Latino-
Americana, sabedor de que esta é ainda incipiente, mas como forma
de promover a sua existência. Do mesmo modo como indivíduos, ao
se agruparem, descobrem que seus problemas cotidianos, seus afetos
e anseios são semelhantes, nós, povos da América Latina, iremos des­
cobrir nossas semelhanças e nos unificar como um continente de Ter­
ceiro Mundo, porém com um saber, no dizer de M. Montero, que nos
leve a ‘‘producir nuestros próprios modelos de analisis y de explica-
ción; la generación de teorias y métodos que permitam un conocimien-
to de nuestro mundo que enriquezca el mundo” . (Acción y ideologia)
E alguns frutos nesta direção já estão apontando, como os estu­
dos e publicações de Horacio Riquelme U., chileno radicado em Ham­
burgo, que vem se dedicando à questão da Identidade Latino-
Americana, promovendo simpósios anuais sobre cultura e situação psi­
cossocial na América Latina, na Universidade de Hamburgo.
A Práxis da Psicologia Social
No final da década de 70 e início da de 80, nos deparamos com
a obra de Alex Leontiev, continuador das propostas de Vigotski, e com
ele surge também todo um grupo de cientistas soviéticos que haviam
sofrido a repressão stalinista à psicologia, dos quais, além de Vigotski,
no Ocidente só se conheciam os trabalhos de Luria, pois a psiconeuro-
logia era então a única ciência psicológica admissível.
A Psicologia Social tinha sido então banida da União Soviética.
Assim, como Leontiev poderia afirmar, impunemente, que toda Psi­
cologia Humana é Social?
74 Siivia T. Maurer Lane
Após o período stalinista, este grupo traz a público suas pesqui­
sas e as teorias baseadas em uma epistemologia materialista histórica
e dialética.
Ou seja, o psiquismo humano se constitui na materialidade his­
tórica de cada sociedade, de cada cultura — portanto não há homens
regidos por leis universais — , como as pesquisas da dra. Aniela Gins-
berg já apontavam. A ciência psicológica é, por conseqüência do seu
objeto de estudo, relativa: se o ser humano se constitui em função de
sua história social e cultural, o saber sobre ele será também necessaria­
mente particular, sem, no entanto, deixar de se estruturar em catego­
rias universais como são Atividade, Consciência e Identidade (ou Per­
sonalidade).
E a análise dialética, ao afirmar a unidade dos contrários, leva
à superação da dicotomia subjetividade-objetividade no conhecimen­
to do ser humano. A subjetividade se objetiva nas ações do homem
sobre o seu meio, assim como este meio e o que o constitui objetiva­
mente se tornam subjetivos no psiquismo humano.
É também a dialética que permite superar a velha contradição en­
tre teoria e prática, em que a primeira se caracteriza pela elaboração
de noções abstratas que se confundiam com o idealismo e, distancia­
dos da realidade, impediam uma prática transformadora. Pois a dialé­
tica pressupõe que por meio da pesquisa cheguemos a categorias que
não são apenas lógicas, mas também ontológicas e gnosológicas. Ou
seja, o saber e o pensamento têm suas raízes na realidade e, portanto,
nossas ações decorrentes deste saber atuam diretamente sobre a reali­
dade. É a ciência como práxis. Ou seja, a comprovação da teoria se
dá mediante a transformação da realidade pela prática dela decorren­
te.
É partindo desses pressupostos epistemológicos, e diante das pes­
quisas realizadas pelo seu grupo, que Leontiev sistematiza as três cate­
gorias fundamentais do psiquismo: Atividade, Consciência e Persona­
lidade. As três estão inter-relacionadas, umas determinando as outras,
através da mediação da linguagem e do pensamento, o que implica o
Outro — ou seja, o grupo social, a ideologia veiculada e produzida
pelas instituições e o trabalho produtivo socialmente organizado.
Estas categorias, de alguma maneira, estão presentes em todas
as teorias psicológicas: o homem se comporta, o homem pensa o seu
mundo e a si mesmo, o homem é individualidade — é o único. Porém,
agora, em um nível que extrapola o empírico e lhe dá um significado
novo e diferente.
Dessa forma, comportamentos ou ações observados empiricamen­
te, reexaminados como sequência de um processo mais amplo, adqui­
rem uma nova significação — e este processo mais amplo é a sua rein-
serção no conjunto de atividades desenvolvidas socialmente. O exem­
plo clássico dado por Leontiev é o de uma caçada em que existem os
batedores e os abatedores — examinadas isoladamente as ações pare­
Avanços da Psicologia Social... 75
cem contraditórias, mas no seu conjunto elas adquirem um novo sen­
tido.
O mesmo ocorre com a consciência. O discurso que fala da re­
presentação do mundo de algum indivíduo e das ações e operações que
ele realiza deve ser analisado no contexto social em que ele é produzi­
do, detectando-se os conteúdos ideológicos e as contradições entre o
discurso e a prática que nos permitirão dizer se se trata de uma cons­
ciência fragmentada ou se ele tem clareza das condições históricas e
sociais em que vive. Esses conteúdos da consciência são elaborados,
fundamentalmente, pela linguagem e pelo pensamento — mediação esta
que levou Vigotski a afirmar que “ a palavra é o microcosmos da cons­
ciência” .
A categoria Personalidade é, talvez, a menos pesquisada por Leon-
tiev e, conseqüentemente, a mais ambígua. A individualidade se cons­
titui nas relações com os outros, levando à permanência de certas ca­
racterísticas que identificam a pessoa, ao longo de sua história. Esta
é uma categoria em que nossas pesquisas sugeriram algumas reformu­
lações, como explicitaremos adiante.
A Questão Metodológica
Temos considerado as categorias propostas por Leontiev como
estruturas vazias que nos orientam para as pesquisas que deverão recheá-
las a partir da especificidade de nossa realidade histórica e social, per­
mitindo encontrar as características próprias do psiquismo de indiví­
duos inseridos em nosso meio. Portanto, para que elas adquiram um
significado concreto, é necessário que se pesquise sistematicamente, acu­
mulando dados descritivos com toda a precisão do registro empírico,
que analisados permitam encontrar significados que os aproximem do
concreto.
A psicologia positivista nos ensinou procedimentos e técnicas pre­
cisas de como registrar o empírico, porém os procedimentos de análi­
se, que não fossem meras interpretações, se tornaram o desafio meto­
dológico. A análise deveria permitir o retorno ao empírico de forma
consciente e inequívoca. É este o desafio que enfrentamos no momen­
to.
Nas pesquisas que partem para investigar a consciência, os “ ve­
lhos” estudos de caso têm se mostrado muito ricos: relatos de história
de vida, o discurso livre que se constitui em representações que o indi­
víduo faz de si e do mundo que o cerca constituem dado empírico a
partir do qual procedimentos de análise do discurso podem permitir
detectar o ideológico, as contradições e o próprio pensamento que en­
gendrou o discurso.
Nessa direção, desenvolvemos uma técnica que denominamos
“análise gráfica do discurso” , a qual nos permite detectar os “núcleos”
de pensamento que geraram o discurso sem esfacelá-lo, temas ou catego­
/o Silvia T. Maurer Lane
rias, mantendo a originalidade empírica, e assim a consistência deseja­
da à análise que desvenda novas significações.
É uma técnica inspirada pela concepção de Vigotski sobre a rela­
ção entre linguagem e pensamento, a qual ele considerava estreita e
imbricada, porém com movimentos em direções opostas: o pensamen­
to caminha do geral para o particular, enquanto a linguagem parte das
particularidades para chegar à descrição do todo.
Além do discurso, o estudo de caso exige dados que a psicologia
tradicional chama de variáveis independentes e que, para nós, localizam
o indivíduo no contexto histórico e social que o produziu: idade, sexo,
educação, profissão, etc., e as expectativas sociais sobre elas. Dessa
forma podemos inserir o empírico na história individual que, por sua
vez, se insere na história social — nesse momento a contribuição da
sociologia, da antropologia, enfim, das ciências humanas, é essencial.
Uma outra vertente metodológica que tem se mostrado bastante
rica é a que estuda os indivíduos no seu cotidiano e capta o processo
no momento em que está ocorrendo. Aqui, o registro empírico é mais
complicado, porém as técnicas de observação, principalmente as assis-
temáticas, as de observação participante, a etnográfica, dão subsídios
para tornar tal registro consistente.
Não entraremos aqui no detalhamento dos problemas envolvi­
dos em Pesquisa Participante, muito bem analisados e discutidos por
Bader Burihan Sawaia em sua tese de doutoramento (1987) e em ou­
tros trabalhos publicados recentemente. O importante é ressaltar que
a pesquisa participante nos permite acompanhar durante um certo tem­
po o processo de vida social de um grupo e, dentro dele, entendermos
as atividades e consciências individuais que se desenvolvem num con­
texto histórico mais amplo.
É a individualidade manifestando-se no conjunto de suas rela­
ções sociais e no cotidiano de suas ações.
Atualmente vimos analisando, por intermédio de diferentes gru­
pos observados, a questão do poder nas relações intragrupais, pois cha­
mou nossa atenção o fato de grupos ditos democráticos negarem o po­
der como algo pejorativo e não se darem conta de sua presença efetiva
no seu processar. O porquê dessa negação do poder que escamoteia,
talvez poderes legítimos, é uma das questões colocadas; outras se refe­
rem ao uso que se faz do poder como possível aspecto nevrálgico para
a compreensão do tema. Nesta linha de estudos a obra de Ignácio
Martin-Baró, de El Salvador, Sistemas, gruposy poder, como já men­
cionamos, tem sido a base de análise crítica que nos orienta.
Por meio desses recursos metodológicos pudemos precisar con­
teúdos psíquicos próprios de nossos sujeitos, relativos às categorias fun­
damentais do psiquismo humano, assim como aclarar as mediações en­
tre elas.
Uma das preciosas contribuições da pesquisa participante reali­
zada por Bader B. Sawaia foi a de detectar a importância das emoções,
A vanços da Psicologia Social... 77
ao lado da linguagem e pensamento, no nível do indivíduo, como me­
diação essencial entre as categorias estudadas.
Outra mediação significativa, agora em nível social, surgiu da aná­
lise de processos grupais, mostrando a importância do grupo para a
troca e reflexão de experiências, vivências, permitindo aclarar os con­
teúdos ideológicos veiculados institucionalmente e, assim, propiciar mo­
vimentos de consciência dos indivíduos envolvidos no processo.
Também os Estudos de Caso permitiram rever a categoria Per­
sonalidade e precisá-la melhor em termos de identidade, superando as­
sim o caráter idealista de uma “ essência” da individualidade.
A dialética se faz presente na unidade dos contrários encontra­
dos nas pesquisas sobre as categorias.
Avanços
Se a lógica dialética fala da unidade dos contrários, as pesquisas
que objetivam encontrar conteúdos para as estruturas categoriais de­
vem, em nível ontológico, levar-nos a contradições, ou seja, a cons­
ciência deve implicar o inconsciente; a atividade, a passividade; e a iden­
tidade, sua negação.
De fato, algumas pesquisas apontam claramente para a unidade
destes contrários.
Estudos sobre a consciência de sujeitos gagos e outro sobre ido­
sos apresentaram, mediante a análise, a identidade social como uma
categoria fundamental para a compreensão do movimento da consciên­
cia. Ao mesmo tempo, Antonio da Costa Ciampa realizava um estudo
de caso: a história de Severina, em que o caráter dinâmico da Identi­
dade se apresentava claramente, permitindo-nos questionar se Identi­
dade, formada no conjunto das relações sociais e num processo dinâ­
mico, não se tratava da categoria denominada por Leontiev de Perso­
nalidade.
É também o estudo de Ciampa que aponta para a contradição
da Identidade como metamorfose e como cristalização, como vida e
morte, como criação e destruição.
Este autor ainda chama a atenção para a necessidade de uma po­
lítica institucional que abra “ espaços” para possíveis metamorfoses de
identidade através de papéis minimamente prescritos — o que signifi­
ca desideologizar os papéis que levam à cristalização da identidade.
Os estudos sobre Atividade, basicamente aqueles que analisam
o trabalho humano e a saúde mental, como vem fazendo a equipe lide­
rada por Wanderley Codo, a qual vem esclarecendo a questão da alie­
nação — tão estudada pela sociologia — indicam que a alienação so­
cial produzida pelo trabalho traz na sua outra face a alienação mental,
ou seja, o sofrimento psicológico. O trabalho criativo cria o homem,
o trabalho repetitivo, rotineiro, sem sentido pessoal, o destrói psicolo­
gicamente.
78 Silvia T. Maurer Lane
, Nessa direção, seria importante analisar os efeitos da ideologia
dominante que trata o trabalho como um “mal necessário” , como obri­
gação que dignifica o homem, e o lazer como “ não fazer nada” , como
ócio, negando o aspecto fundamental da atividade na constituição do
psiquismo humano.
Cabe ainda ressaltar as contribuições de Mario Golder,1da Uni­
versidade de Buenos Aires, Argentina, através de seus estudos sobre
a categoria Atividade, demonstrando o seu caráter fundamental na cons­
tituição do psiquismo — o homem, ao agir, ao produzir algo, se pro­
duz como ser consciente e singular.
Por outro lado, a presença da emoção como uma mediação es­
sencial para o movimento da Consciência, para o desencadear de Ati­
vidades e na produção da Identidade, vem apontando para a impor­
tância dos conteúdos inconscientes.
A pesquisa realizada por Klaus e Scherer e outros (1983) sobre
aspectos sociais das emoções, da qual participamos, permitiu algumas
observações e questionamentos.
Um primeiro fato é que temos maior número de palavras para
nos referirmos às emoções negativas do que às positivas, sugerindo a
necessidade social de comunicarmos as negativas para os outros, a fim
de encontrar soluções que as resolvam. E neste aspecto os estudos de
Wallon (1983) sobre as emoções na infância trouxeram contribuições,
principalmente quanto ao seu caráter contraditório: ao mesmo tempo
em que as emoções paralisam nossas ações, elas desencadeiam ativida­
des mentais que levam a ações em direção ao restabelecimento de um
equilíbrio homeostático.
Se tomarmos o caráter instrumental da linguagem, por um lado,
e os conteúdos ideológicos veiculados pelas palavras, de outro lado,
e as emoções exigindo soluções, principalmente as negativas, nos pare­
ce evidente que conteúdos inconscientes — principalmente na primeira
infância, em que o verbal é incipiente mas a ação ideológica está pre­
sente nos valores emitidos pelos comportamentos dos adultos (o “ não”
é provavelmente a palavra mais emitida pelos pais) — geram na crian­
ça emoções negativas para as quais ela não encontra soluções, perma­
necendo assim contidas e se manifestando de formas indiretas e/ou sim­
bólicas — processo este que Freud descreveu com grande precisão.
A leitura da Teoria de los sentimientos de Agnes Heller (1985)
tem sido fonte estimulante para orientar nossos estudos sobre emoções
e sentimentos.
Estamos ainda em um terreno bastante hipotético, mas tudo in­
dica que não podemos pensar a consciência sem pensar o inconsciente;
e se a linguagem e o pensamento constituem a primeira, são as emo­
ções que formam o segundo.
1. Golder foi o primeiro a traduzir para o espanhol a obra de Leontiev, Actividad, cons­
ciência y personalidad. Existe uma outra tradução realizada em Cuba.
A vanços da Psicologia Social... 79
Por outro lado, estudos antropológicos analisam o caráter “ ir­
racional” de certas instituições sociais que emitem mensagens através
de apelos e conteúdos emocionais, muitas vezes em oposição ao que
se apresenta no plano racional, cabendo agora a nós investigarmos co­
mo estas mensagens são recebidas e como elas se integram no processo
da consciência-inconsciência.
Recentemente, duas pesquisas que se constituíram em disserta­
ções de mestrado detectaram, por meio de análises de discursos, con­
teúdos inconscientes manifestos através de simbolos religiosos, míti­
cos ou de metáforas, em todos se constatando a presença nítida de as­
pectos afetivos-emocionais.
Uma outra linha de pesquisa nesta direção vem sendo a da Psi­
cologia da Arte, na qual predominam as emoções que captam “ men­
sagens” dificilmente traduzíveis em linguagem racional. E, arte, como
sabemos, tem poder tanto para fazer avançar a nossa consciência, co­
mo para fragmentá-la com conteúdos ideológicos. E aqui contamos,
novamente, com a contribuição de Vigotski, que, em sua obra Psico­
logia dei arte (1972), analisa os aspectos inconscientes, catárticos, pre­
sentes na emoção estética.
São os primeiros passos na investigação sistemática sobre media­
ção emocional na constituição das categorias do psiquismo humano,
na dialética da consciência-inconsciência, da atividade-passividade, da
identidade-massificação.
Para finalizar, uma reflexão sobre o futuro da Psicologia Social.
As revisões críticas feitas por neomarxistas como Habermas e Heller
têm defendido teses que afirmam que, para haver transformações so­
ciais significativas, não é necessário haver lutas de classe — como de­
monstram os fatos recentes do Leste europeu — mas sim mudanças
éticas em nível individual.
Se assim for, a Psicologia Social terá um papel teórico-prático
importante, levando os seus profissionais a atuar junto a indivíduos
e grupos, promovendo o desenvolvimento da consciência social e dos
valores morais em direção a uma ética que negue o individualismo e
busque valores universais de igualdade e de crescimento qualitativo do
ser humano.
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*?3 0, 65
A Psicologia Social
e uma nova concepção
do homem para
a Psicologia
Silvia Tatiana Maurer Lane
"Quase nenhuma ação humana tem por sujeito um indi­
víduo isolado. O sujeito da ação é um grupo, um 'Nós',
mesmo se a estrutura atual da sociedade, pelo fenômeno
da reificação, tende a encobrir esse Nós' e a transformá-lo
numa soma de várias individualidades distintas e fechadas
umas às outras. " Lucien Goldman, 1947.
A relação entre Psicologia e Psicologia Social deve ser enten­
dida em sua perspectiva histórica, quando, na década de 50 se
iniciam sistematizações em termos de Psicologia Social, dentro de
duas tendências predominantes: uma, na tradição pragmática dos
Estados Unidos, visando alterar e/ou criar atitudes, interferir nas
relações grupais para fuxmonizá-las e assim garantir a produti­
vidade do grupo —é uma atuação que se caracteriza pela euforia de
uma intervenção que minimizaria conflitos, tomando os homens
“felizes” reconstrutores da humanidade que acabava de sair da
destruição de uma II Guerra Mundial. A outra tendência, que
também procura conhecimentos que evitem novas catástrofes
mundiais, segue a tradição filosófica européia, com raízes na
fenomenologia, buscando modelos científicos totalizantes, como
Lewin e sua teoria de Campo.
A euforia deste ramo científico denominado Psicologia Social
dura relativamente pouco, pois sua eficácia começa a ser questio­
nada em meados da década de 60, quando as análises críticas
apontavam para uma “crise" do conhecimento psicossocial que não
INTRODUÇÃO I 1
conseguia intervir nem explicar, muito menos prever comporta­
mentos sociais. As réplicas de pesquisas e experimentos não permi­
tiam formular leis, os estudos interculturais apontavam para uma
complexidade de variáveis que desafiavam os pesquisadores e
estatísticos — é o retorno às análises fatoriais e novas técnicas de
análise de multivariância, que afirmam sobre relações existentes,
mas nada em termos de "como” e "por quê”.
Na França, a tradição psicanalitica é retomada com toda a
veemência após o movimento de 68, e sob sua ótica é feita uma
crítica à psicologia social norte-americana como uma ciência ideo­
lógica, reprodutora dos interesses da classe dominante, e produto de
condições históricas especificas, o que invalida a transposição tal e
qual deste conhecimento para outros países, em outras condições
histórico-sociais. Esse movimento também tem suas repercussões na
Inglaterra, onde Israel e Tãjfell analisam a "crise” sob o ponto de
vista epistemológico com os diferentes pressupostos que embasam o
conhecimento científico — é a critica ao positivismo, que em nome
da objetividade perde o ser humano.
Na América Latina, Terceiro Mundo, dependente econômica
e culturalmente, a Psicologia Social oscila entre o pragmatismo
norte-americano e a visão abrangente de um homem que só era
compreendido filosófica ou sociologicamente — ou seja, um homem
abstrato. Os congressos interamericanos de Psicologia são exce­
lentes termômetros dessa oscilação e que culminam em 1976
(Miami), com críticas mais sistematizadas e novas propostas,
principalmente pelo grupo da Venezuela, que se organiza numa
Associação Venezuelana de Psicologia Sovial (AVEPSO) coexistindo
com a Associação Latino-Americana de Psicologia Social (ALAP-
SO). Nessa ocasião, psicólogos brasileiros também faziam suas
críticas, procurando novos rumos para uma Psicologia Social que
atendesse à nossa realidade. Esses movimentos culminam em 1979
(SIP — Lima, Peru) com propostas concretas de uma Psicologia
Social em bases materialista-históricas e voltadas para trabalhos
comunitários, agora com a participação de psicólogos peruanos,
mexicanos e outros.
O primeiro passo para a superação da crise foi constatar a
tradição biológica da Psicologia, em que o indivíduo era considerado
um organismo que interage no meio físico, sendo que os processos
psicológicos (o que ocorre "dentro” dele) são assumidos como
causa, ou uma das causas que explicam o seu comportamento. Ou
seja, para compreender o indivíduo bastaria conhecer o que
12 SILVIA T. M. LANE
ocorre dentro dele", quando ele se defronta com estímulos do
meio.
Porém o homem fala, pensa, aprende e ensina, transforma a
natureza; o homem é cultura, é história. Este homem biológico não
sobrevive por si e nem é uma espécie que se reproduz tal e qual, com
variaçóes decorrentes de clima, alimentação, etc. O seu organismo é
uma infra-estrutura que permite o desenvolvimento de uma superes­
trutura que é social e, portanto, histórica. Esta desconsideração da
Psicologia em geral, do ser humano como produto histórico-
social, é que a torna, se não inócua, uma ciência que reproduziu a
ideologia dominante de uma sociedade, quando descreve compor­
tamento e baseada em freqQências tira conclusões sobre relações
causais pela descrição pura e simples de comportamentos ocorrendo
em situações dadas. Não discutimos a validade das leis de aprendi­
zagem; é indiscutível que o reforço aumenta a probabilidade da
ocorrência do comportamento, assim como a punição extingue
comportamentos, porém a questão que se coloca é por que se
apreende certas coisas e outras são extintas, por que objetos são
considerados reforçadores e outros punidores? Em outras palavras,
em que condições sociais ocorre a aprendizagem e o que ela significa
no conjunto das relações sociais que definem concretamente o
indivíduo na sociedade em que ele vive.
O ser humano traz consigo uma dimensão que não pode ser
descartada, que é a sua condição social e histórica, sob o risco de
termos uma visão distorcida (ideológica) de seu comportamento.
^ Um outro ponto de desafio para a Psicologia Social se colocava
diante dos conhecimentos desenvolvidos — sabíamos das deter­
minações sociais e culturais de seu comportamento, porém onde a
criatividade, o poder de transformação da sociedade por ele
construída. Os determinantes só nos ensinavam a reproduzir, com
pequenas variações, as condições sociais nas quais o indivíduo vive.
A ideologia nas ciências humanas
A afirmativa de que o positivismo, na procura da objetividade
dos fatos, perdera o ser humano decorreu de uma análise crítica de
um conhecimento minucioso enquanto descrição de comporta­
mentos que, no entanto, não dava conta do ser humano agente de
mudança, sujeito da história. O homem ou era socialmente deter­
minado ou era causa de si mesmo: sociologismo vs biologismo? Se
INTRODUÇÃO 13
por um lado a psicanálise enfatizava a história do indivíduo,
a sociologia recuperava, através do materialismo histórico, a espe­
cificidade de uma totalidade histórica concreta na análise de cada
sociedade. Portanto, cabería à Psicologia Social recuperar o indi­
víduo na intersecção de sua história com a história de sua sociedade
— apenas este conhecimento nos permitiria compreender o homem
enquanto produtor da história.
Na medida em que o conhecimento positivista descrevia
comportamentos restritos no espaço e no tempo, sem considerar a
inter-relação infra e superestrutural, estes comportamentos, me­
diados pelas instituições sociais, reproduziam a ideologia domi­
nante, em termos de freqüência observada, levando a considerá-los
como "naturais” e, muitas vezes, "universais”. A ideologia, como
produto histórico que se cristaliza nas instituições, traz consigo uma
concepção de homem necessária para reproduzir relações sociais,
que por sua vez são fundamentais para a manutenção das relações
de produção da vida material da sociedade como tal. Na medida
em que a história se produz dialeticamente, cada sociedade, na
organização da produção de sua vida material, gera uma contra­
dição fundamenta], que ao ser superada produz uma nova socie­
dade, qualitativamente diferente da anterior. Porém, para que esta
contradição não negue a todo momento a sociedade que se produz, é
necessária a mediação ideológica, ou seja, valores, explicações tidas
como verdadeiras que reproduzam as relações sociais necessárias
para a manutenção das relações de produção.
Deste modo, quando as ciências humanas se atêm apenas na
descrição, seja macro ou microssocial, das relações entre os homens
e das instituições sociais, sem considerar a sociedade como produto
histórico-dialético, elas não conseguem captar a mediação ideo­
lógica e a reproduzem como fatos inerentes à "natureza” do
homem. E a Psicologia não foi exceção, principalmente, dada a sua
origem biológica naturalista, onde o comportamento humano
decorre de um organismo fisiológico que responde a estímulos.
Lembramos aqui Wundt e seu laboratório, que, objetivando
construir uma psicologia científica, que se diferenciasse da especu­
lação filosófica, se preocupa em descrever processos psicofisiológicos
em termos de estímulos e respostas, de causas-e-efeitos.
Nesta tradição e no entusiasmo de descrever o homem
enquanto um sistema nervoso complexo que o permitia dominai e
transformar a natureza, criando condições sui-generis para a
14 SILVIA T. M. LANE
sobrevivência da espécie, os psicólogos se esqueceram de que este
homem, junto com outros, ao transformar a natureza, se trans­
formava ao longo da história.
Como exemplo, podemos citar Skinner, que, sem dúvida,
causou uma revolução na Psicologia, mas as condições histórico-
sociais que o cercam, impediram-no de dar um outro salto quali­
tativo. Ao superar o esquema S-R, chamando a atenção para a
relação homem-ambiente, para o controle que este ambiente exerce
sobre o comportamento; criticando o reducionismo biológico,
permitiu a Skinner ver o homem como produto das suas relações
sociais, porém não chega a ver estas relações como produzidas a
partir da condição histórica de uma sociedade. Quando Skinner,
através da análise experimental do comportamento, detecta os
controles sutis que, através das instituições, os homens exercem uns
sobre os outros, e define leis de aprendizagem — e não podemos
negar que reforços e punições defato controlam comportamentos —
temos uma descrição perfeita de um organismo que se transforma
em função das conseqüências de sua ação, também a análise do
autocontrole se aproxima do que consideramos consciência de si e o
contracontrole descreve ações de um indivíduo em processo de
conscientização social. Skinner aponta para a complexidade das
relações sociais e as implicações para a análise dos comportamentos
envolvidos, desafiando os psicólogos para a elaboração de uma
tecnologia de análise que dê conta desta complexidade, enquanto
contingências, presentes em comunidades. A história individual é
considerada enquanto história social que antecede e sucede à
história do Indivíduo. Nesta linha de raciocínio caberia questionar
por que alguns comportamentos são reforçados e outros punidos
dentro de um mesmo grupo social. Sem responder a estas questões,
passamos a descrever o status quo como imutável e, mesmo que­
rendo transformar o homem, como o próprio Skinner propõe,
jamais o conseguiremos numa dimensão histórico-social.
Impasse semelhante podemos observar em Lewin, que procura
detectar os ‘‘casos puros” à maneira galileica e assim precisar leis
psicológicas. Também para ele Indivíduo e Meio são indissociáveis,
e na medida em que o meio é social e se caracteriza pela
complexidade de regiões e sub-regiões e seus respectivos sistemas de
forças, se vê num impasse para a comprovação e previsão de
comportamentos. Este impasse surge, entre outros, na descrição de
processos grupais sob lideranças autocráticas, democráticas e
laissez-faire, quando, entendendo ser o processo democrático o mais
INTRODUÇÃO 15
criativo e produtivo, propõe uma "liderança democrática forte”
como forma de se chegar a esta relação grupai...
Também a psicanálise, em suas várias tendências, enfrenta
este problema, desde as críticas de Politzer a Freud até as ahálises
atuais dos franceses, que procuram f^zer uma releitura da obra de
Freud numa perspectiva histórico-social do ser humano.
N&onegamos a psicobiologia nem as grandes contribuições da
psiconeurologia. Afinal, elas descrevem a materialidade do orga­
nismo humano que se transforma através de sua própria atividade,
mas elas pouco contribuem para entendermos o pensamento hu­
mano e que se desenvolve através das relações entre os homens, para
compreendermos o homem criativo, transformador — sujeito da
história social do seu grupo.
Se a Psicologia apenas descrever o que é observado ou enfocar
o Indivíduo como causa e efeito de sua individualidade, ela terá uma
ação conservadora, estatizante — ideológica — quaisquer que sejam
as práticas decorrentes. Se o homem não for visto como produto e
produtor, não só de sua história pessoal mas da história de sua
sociedade, a Psicologia estará apenas reproduzindo as condições
necessárias para impedir a emergência das contradições e a trans­
formação social.
A psicologia social e o materialismo histórico
Se o positivismo, ao enfrentar a contradição entre objetividade
e subjetividade, perdeu o ser humano, produto e produtor da
História,' se tornou necessário recuperar o subjetivismo enquanto
materialidade psicológica. A dualidade físico X psíquico implica
uma concepção idealista do ser humano, na velha tradição animís-
tica da psicologia, ou então caímos num organicismo onde homem e
computador são imagem e semelhança um do outro. Nenhuma das
duas tendências dá conta de explicar o homem criativo e trans­
formador. Tornou-se necessária uma nova dimensão espaço-tem­
poral para se apreender o Indivíduo como um ser concreto,
manifestação de uma totalidade histórico-social — daí a procura de
uma psicologia social que partisse da materialidade histórica
produzida por e produtora de homens.
É dentro do materialismo histórico e da lógica dialética que
vamos encontrar os pressupostos epistemológicos para a recons-
16 SILVIA T. M. LANE
tração de um conhecimento que atenda à realidade social e ao
cotidiano de cada indivíduo e que permita uma intervenção efetiva
na rede de relações sociais que define cada indivíduo — objeto da
Psicologia Social.
Das criticas feitas detectamos que definições, conceitos cons-
tnictos que geram teorias abstratas em nada contribuiram para uma
prática psicossocial. Se nossa meta é atingir o indivíduo concreto,
manifestação de uma totalidade histórico-social, temos de partir do
empírico (que o positivismo tão bem nos ensinou a descrever) e,
através de análises sucessivas nos aprofundarmos, além do apa­
rente, em direção a esse concreto, e para tanto necessitamos de
categorias que a partir do empírico (imobilizado pela descrição) nos
levem ao processo subjacente e à real compreensão do Individiiõ
estudado.
Também a partir de criticas ã psicologia social “tradicional”
pudemos perceber dois fatos fundamentais para o conhecimento do
Indivíduo: 1) o homem não sobrevive a não ser em relação com
outros homens, portanto a dicotomia Indivíduo X Grupo é falsa —
desde o seu nascimento (mesmo antes) o homem está inserido num
grupo social —; 2) a sua participação, as suas ações, por estar em
grupo, dependem fundamentalmente da aquisição da linguagem
que preexiste ao indivíduo como código produzido historicamente
pela sua sociedade {langue), mas que ele apreende na sua relação
específica cora outros indivíduos {parole). Se a língua traz em seu
código significados, para o indivíduo as palavras terão um sentido
pessoal decorrente da relação entre pensamento e ação, mediadas
pelos outros significativos.
O resgate destes dois fatos empíricos permite ao psicólogo
social se aprofundar na análise do Indivíduo concreto, considerando
a imbricação entre relações grupais, linguagem, pensamento e ações
na definição de características fundamentais para a análise psicos­
social.
Assim, a atividade implica ações encadeadas, junto com outros
indivíduos, para a satisfação de uma necessidade comum. Para
haver este encadeamento é necessária a comunicação (linguagem)
assim como um plano de ação (pensamento), que por sua vez
decorre de atividades anteriormente desenvolvidas.
Refletir sobre uma atividade realizada implica repensar suas
ações, ter consciência de si mesmo e dos outros envolvidos, refletir
sobre os sentidos pessoais atribuídos às palavras, confrontá-las com
as conseqQências geradas pela atividade desenvolvida pelo grupo
INTRODUÇÃO 17
social, e nesta reflexão se processa a consciência do indivíduo, que é
indissociável enquanto de si e social.
Leontiev inclui ainda a personalidade como categoria, decor­
rente do princípio de que o homem, ao agir, transformando o seu
meio se transforma, criando características próprias que se tornam
esperadas pelo seu grupo no desenvolver de suas atividades e de suas
relações com outros indivíduos.
Caberia ainda, na especificidade psicossocial, uma análise das
relações grupais enquanto mediadas pelas instituições sociais e
como tal exercendo uma mediação ideológica na atribuição de
papéis sociais e representações decorrentes de atividades e relações
sociais tidas como ‘‘adequadas, correta*;, esperadas", etc.
A consciência da reprodução ideológica inerente aos papéis
socialmente definidos permite aos indivíduos no grupo superarem
suas individualidades e se conscientizarem das condições históricas
comuqs aos membros do grupo, levando-os a um processo de
identificação e de atividades conjuntas que caracterizam o grupo
como unidade. Este processo pode occrrer individualmente e cons­
tataríamos o desenvolvimento de uma consciência de si idêntica à
consciência social. Na medida em que o processo é grupai, ou seja,
ocorre com todos os membros, ele :ende a caracterizar o desen­
volvimento de uma consciência de classe, quando o grupo se percebe
inserido no processo de produção material de sua vida e percebe as
contradições geradas historicamente, levando-o a atividades que
visam à superação das contradições presentes no seu cotidiano,
torna-se um grupo-sujeito da transformação histórico-social.
Desta forma, a análise do processo grupai nos permite captar a
dialética indivíduo-grupo, onde a dupla negação caracteriza a
superação da contradição existente e quando o indivíduo e grupo se
tomam agentes da história social, membros indissociáveis da
totalidade histórica que os produziu e a qual eles transformam por
suas atividades também indissociáveis.
Esta análise das categorias fundamentais para a compreensão
do ser humano nos leva à constatação da impossibilidade de
delimitarmos conhecimentos em áreas estanques que comporiam o
conjunto das Ciências Humanas. Psicologia, Sociologia, Antropo­
logia, Economia, História, Pedagogia, Lingüística são enfoques a
partir dos quais todas as áreas contribuem para o conhecimento
profundo e concreto do ser humano. Suas fronteiras devem ser
necessariamente permeáveis, ampliando o conhecimento, seja do
18 Sílvia t . m . l a n e
indivíduo, do grupo, da sociedade e da produção de sua existência
material e concreta.
Decorrências metodológicas:
a pesquisa-açSo enquanto práxis
A partir de um enfoque fundamentalmente interdisciplinar,
o pesquisador-produto-histórico parte de uma visão de mundo e do
homem necessariamente comprometida e neste sentido nào há
possibilidade de se gerar um conhecimento “neutro", nem um
conhecimento do outro que não interfira na sua existência. Pesqui­
sador e pesquisado se definem por relações sociais que tanto podem
ser reprodutoras como podem ser transformadoras das condições
sociais onde ambos se inserem; desta forma, conscientes ou não,
sempre a pesquisa implica intervenção, ação de uns sobre outros. A
pesquisa cm si é uma prática social onde pesquisador e pesquisado
se apresentam enquanto subjetividades que se materializam nas
relações desenvolvidas, e onde os papéis se confundem e se
alternam, ambos objetos de análises e portanto descritos empiri­
camente. Esta relação — objeto de análise — é captada em seu
movimento, o que implica, necessariamente, pesquisa-ação.
Por outro lado, as condições históricas sociais do pesquisador
e de pesquisados que respondem pelas relações sociais que os
identificam como indivíduos permitem a acumulação de conheci­
mentos na medida em que as condições são as mesmas, onde as
especificidades individuais apontam para o comum grupai e social,
ou seja, para o processo histórico, que, captado, nos propicia a
compreensão do indivíduo como manifestação da totalidade social,
ou seja, o Indivíduo concreto.
Este caráter acumulativo da pesquisa faz do conhecimento
uma práxis, onde cada momento empírico é repensado no confronto
com outros momentos e a partir da reflexão crítica novos caminhos
de investigação são traçados, que por sua vez levam ao reexame de
todos os empíricos e análises feitas, ampliando sempre a com­
preensão e o âmbito do conhecido. Pesquisa-ação é por excelência a
práxis científica.
INTRODUÇÃO 19
Toda a psicologia é social
Esta afirmação não significa reduzir as áreas específicas da
Psicologia à Psicologia Social, mas sim cada uma assumir dentro da
sua especificidade a natureza histórico-social do ser humano. Desde
o desenvolvimento infantil até as patologias e as técnicas de
intervenção, características do psicólogo, devem ser analisadas
criticamente à luz desta concepção do ser humano — é a clareza de
que não se pode conhecer qualquer comportamento humano iso-
lando-o ou fragmentando-o, como se este existisse em si e por si.
Também com esta afirmativa não negamos a especificidade da
Psicologia Social — ela continua tendo por objetivo conhecer o
Indivíduo no conjunto de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe
é específico como naquilo em que ele é manifestação grupai e social.
Porém, agora a Psicologia Social poderá responder à questão de como
o homem é sujeito da História e transformador de sua própria vida e
da sua sociedade, assim como qualquer outra área da Psicologia.
Ado . ^ Q S - t t
4
A dimensão subjetiva dos
fenômenos sociais
Maria da Graça Marchina Gonçalves
Ana Mercês Bahia Bock
A dificuldade de definição da psicologia social reside na impreci­
são dos seus objetivos. Sendo uma disciplina relativamente recen­
te, não há ainda acordo, no campo dos seus cultores, no sentido
de delimitar-lhe os objetivos nítidos e a extensão de suas apli­
cações. Enquanto que, para uns, a psicologia social se aproxima
da psicologia (McDougall), para outros, o seu objeto de estudo
se confunde com o da sociologia (Ellwood, Ross).
O parágrafo acima abre o primeiro capítulo do livro Introdução à Psi­
cologia Social, de Arthur Ramos, publicado em 1936 (2003, p. 27) e consi­
derado como a segunda publicação brasileira na área. A dúvida sobre a
natureza da Psicologia Social é tomada como questão importante na pu­
blicação que é resultado, como afirma o próprio autor, de suas aulas do
curso de Psicologia Social na Universidade do Distrito Federal, em 1935.
Em seu prefácio, Ramos afirma que a "(...) Psicologia Social está assumin­
do uma importância cada vez maior, embora sem nitidez definitiva nos
seus métodos e nos seus objetivos". (Ramos, 2003, p. 23)
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 117
As várias tendências destacadas naquele momento demonstravam
a preocupação em definir a Psicologia Social como uma área da Psicolo­
gia ou da Sociologia. Interessante ainda registrar que Ramos afirma, para
organizar seu livro, que a Psicologia Social estuda três ordens gerais de
fenômenos:
(...) Em primeiro lugar, a psicologia social estuda as bases psicológicas do
comportamento social epor aí se aproxima da psicologia do indivíduo. Em
seguida, estuda as inter-relações psicológicas dos indivíduos na vida social.
Toma-se então uma interpsicologia, no velho sentido de Tarde. Por fim, a
psicologia social tem de considerar a influência total dos grupos sobre a
personalidade. Ela será então uma sociologia psicológica e uma psicologia
cultural. (Ramos, 2003, p. 36)
Talvez essas citações já sejam suficientes para falarmos da dicotomia
Lndivíduo/sociedade presente na Psicologia Social, a qual tomaremos
como eixo de nossas reflexões. Mas ainda cabe citar alguns trechos de Ra­
mos (2003) que expõem claramente essa questão, tomada aqui como um
dos problemas centrais da indefinição da Psicologia Social.
No capítulo 16 de seu livro, capítulo intitulado O indivíduo e o social,
Ramos nos diz:
O homem isolado é um mito. A sua personalidade só pode ser compreen­
dida dentro do jogo complexo das influências ambientais — físicas, sociais
e culturais. Um dos problemas da psicologia social é justamente esse de in­
vestigar a ação total do meio sobre o indivíduo... (Ramos, 2003, p. 237)
E continua:
... o grupo social influencia o indivíduo, moldando-o aos seus padrões de
atitudes, opiniões ejulgamentos... A"pessoa" é oindivíduo dentrodos seus
padrões sociais. O indivíduo vive na sociedade como membro de grupo,
como "pessoa", como "socius". A própria consciência da sua individuali­
dade, ele aadquire como membro do grupo social, visto que é determinada
pelas relações entre o "eu" e os "outros"... (Ramos, 2003, p. 238)
118 BOCK • GONÇALVES
Avançando até 1981, vamos encontrar, em obra de Aroldo Rodrigues,
a Psicologia Social definida como o estudo das "manifestações comporta-
mentais suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas, ou
pela mera expectativa de tal interação" (Rodrigues, 1971, p. 3). E seguin­
do no tempo, o próprio Rodrigues et al., em 2000, quando da 18aedição
revisada de seu livro Psicologia Social, afirmam de início:
Psicologia Social é o estudo científico da influência recíproca entre as pes­
soas (interação social) e do processo cognitivo gerado por esta interação
(pensamento social)... Um aperto de mão, uma reprimenda, umelogio, um
sorriso, um simples olhar de uma pessoa em direção a outra suscitam nes­
ta última uma resposta que caracterizamos como social. Por sua vez, a res­
posta emitida servirá de estímulo à pessoa que a provocou, gerando por
seu turno um outro comportamento desta última, estabelecendo-se assim
o processo de interação social. (Rodrigues, et al., 2000, p. 21)
Em 1981, Silvia Lane publica O que é a Psicologia Social e questiona
a definição da área como sendo o estudo do comportamento dos indiví­
duos no que ele é influenciado socialmente. Lane afirma ser impossível
encontrarmos comportamentos que não sejam sociais e conclui:
... a Psicologia Social estuda a relação essencial entre o indivíduo e a socie­
dade, esta entendida historicamente, desde como seus membros se organi­
zam para garantir sua sobrevivência até seus costumes, valores e institui­
çõesnecessáriospara acontinuidadedasociedade... Eagrandepreocupação
atual da Psicologia Social é conhecer como ohomem se insere neste proces­
so histórico, não apenas em como ele é determinado, mas principalmente,
como ele se toma agente da história, ou seja, como ele pode transformar a
sociedade em que vive. (Lane, 1981, p. 10)
O pensamento de Lane avança e, em 1984, na publicação histórica Psi­
cologia Social — o homem em movimento (Lane e Codo [orgs.]), Lane afirma:
Toda a psicologia é social.
Esta afirmação não significa reduzir as áreas específicas da Psicologia à Psi­
cologia Social, mas sim cada uma assumir dentro da sua especificidade a
natureza histórico-social do ser humano...
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 119
Também com esta afirmação não negamos a especificidade da Psicologia
Social — ela continua tendo por objetivo conhecer o Indivíduo no conjun­
to de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo
em que ele é manifestação grupai e social... (Lane, 1984, p. 19)
Este percurso que fizemos pretende destacar a dicotomia presente
na Psicologia Social e as tentativas de superação dela. Apresentaremos a
Psicologia Social de abordagem sócio-histórica como uma das mais bem-
-sucedidas nessa empreitada, porque redefine o objeto da Psicologia So­
cial e o recoloca em outras bases epistemológicas, seguindo a trilha de
Lane. A divisão (dicotomia) entre o indivíduo e a sociedade, a objetivi­
dade e a subjetividade, o mundo psicológico e o mundo social começa a
ser superada trazendo uma nova concepção de ser humano e uma nova
visão sobre sua relação com a sociedade.
Uma preocupação histórica
É preciso que se afirme que há um consenso em todas essas teori­
zações sobre a Psicologia Social, aqui contrapostas: o de compreender a
relação que o indivíduo mantém com a sociedade. Desde Wundt esta­
vam postas questões que se colocavam para além do indivíduo. Ele re­
conhecia diferenças entre indivíduos de diferentes culturas, reconhecia
os fenômenos sociais e coletivos como relativos ao campo de interesse da
Psicologia e considerava que o estudo da consciência por meio da intros-
pecção não esgotava a sua complexidade. Contudo, estava em busca de
conhecer os processos universais de funcionamento da consciência hu­
mana. Enfatizou métodos que alcançassem essa compreensão e a cons­
trução da sua Psicologia Social terminou pouco difundida, de modo que
não se reconhece em sua obra o desenvolvimento de estudos sobre a re­
lação indivíduo-sociedade. O próprio Arthur Ramos, aqui citado, colo­
cou questões dessa natureza quando falou de uma psicologia da cultura.
A questão do negro na sociedade brasileira e a formação de uma nação
Brasil foram eixos importantes de sua produção. Ramos propunha estu­
120 BOCK • GONÇALVES
dar e compreender o que havia de primitivo em nossas heranças cultu­
rais e que seriam empecilhos para o desenvolvimento da nação. Apesar
dessa visão, hoje considerada equivocada, na medida em que associava
a questão racial ao que havia de primitivo e atrasado em nossa socieda­
de, Ramos enfatizou o estudo do comportamento humano tendo sempre
em vista a sua inserção no ambiente social.
Que relação mantém o indivíduo com a sociedade? O que somos
tem alguma relação com a sociedade em que nos inserimos? Como se dá
essa relação?
Se tomarmos como referência as duas "pontas teóricas" que apresen­
tamos — Ramos e Lane —, podemos verificar que as perspectivas para a
resposta são diversas: Ramos pensava o homem como influenciado pelo
meio e considerava assim as influências do meio sobre a personalidade.
Rodrigues coloca-se neste campo afirmando a Psicologia Social como es­
tudo da interação e do pensamento social decorrente da interação. Lane,
por outro lado, busca superar essas visões, desafiando a Psicologia a pen­
sar o humano como transformador, como sujeito ativo, protagonista de
sua história e de sua sociedade. A relação indivíduo — sociedade estava
lá, posta nessas abordagens. Está, entretanto, posta a partir de diferentes
concepções metodológicas de como se dá a relação, as quais compreen­
dem homem e sociedade de maneiras diversas.
A compreensão desde a raiz da proposição de Silvia Lane, que inau­
gura no Brasil a concepção sócio-histórica, requer o esclarecimento des­
sas diferenças.
A dicotomia como divisor de águas
O pensamento moderno científico afirmou-se desde o início como
objetivo e neutro. Isso distinguia a ciência do senso comum. Apostou-se
então no método como forma de garantir a neutralidade e a objetivida­
de, já que o cientista também era dotado de uma subjetividade. Sujeitos
pesquisando sujeitos poderiam ser objetivos se se mantivessem rigoro­
samente presos a um método que garantisse a objetividade e afastasse as
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 121
possibilidades de contaminação subjetiva, ou seja, de que o pesquisador
se misturasse com seu objeto de estudo. Estava posta a dicotomia entre
sujeito e objeto: "Produzir conhecimento científico era manter-se, como
sujeito, externo ao objeto a ser investigado, fosse qual fosse esse objeto".
(Gonçalves e Bock, 2003, p. 42)
A dicotomia presente nesta maneira de conceber a relação sujeito-ob­
jeto se estenderá para as formas de conceber a relação sujeito e sociedade;
natural e histórico; mundo interno e mundo externo. Não só se estenderá
como será a base epistemológica da produção em Psicologia.
Na Psicologia Social essa dicotomia se evidenciará na divisão entre
psicologias sociais sociológicas e psicológicas. As produções dessas psi­
cologias expressam a busca eterna de encontrar a leitura mais adequada
para a realidade: estariam as explicações no âmbito do indivíduo (ten­
dências psicológicas) ou da sociedade (tendências sociológicas)? Foi em
busca dessa resposta que a Psicologia Social se desenvolveu, de manei­
ra preponderante, entretanto, sob a égide de concepções objetivistas de
ciência. E, juntamente com elas, concepções de neutralidade da ciência,
de separação entre o momento do conhecimento e o momento da ação,
colocando para o pesquisador em Psicologia Social outra dicotomia a re­
solver: como relacionar pesquisa e ação social?
É nesse contexto que o conhecimento que se produz se isenta de
questões sociais concretas, aparece apartado dos problemas considerados
mais relevantes, afasta-se das questões da realidade social. A naturaliza­
ção dos fenômenos, decorrente da visão dicotômica, leva a formulações
abstratas e universais sobre os indivíduos e as sociedades; parece falar do
todo, ou de tudo, mas termina por falar de quase nada. É essa a origem
da chamada "crise da psicologia social", ocorrida nos anos 1960, muito
embora autores como Rodrigues (1978) e Lane (1980 e 1991) tenham for­
mulado análises diferentes dessa crise.
Para um — Rodrigues — a crise era devida à falta de cientificidade
nessa área. Era preciso ir mais a fundo na pesquisa isenta, na busca dos pro­
cessos universais (e, portanto, naturais), para se avançar no conhecimento
da relação indivíduo-sociedade, produzindo pesquisa básica que poderia,
em outro contexto, que não o da ciência, resultar em aplicações.
122 BOCK • GONÇALVES
Para outra — Lane — a crise era devida, exatamente, à separação
entre conhecimento e ação. Apenas o compromisso do cientista com as
questões do seu tempo, um compromisso revelado desde a escolha do
método e da teoria, poderia proporcionar um conhecimento que contri­
buísse para a transformação da sociedade.
Novamente, têm-se diferentes implicações, para o conhecimento e a
atuação, a depender de como se lida com a dicotomia estabelecida entre
indivíduo e sociedade.
Assumimos aqui a versão de Lane, que, com essa visão, inaugura a
produção de uma Psicologia Social alternativa, crítica e comprometida
com a realidade brasileira e latino-americana. Para ir adiante na explici­
tação das raízes dessas posições e suas diferentes possibilidades é neces­
sário o conhecimento de seus fundamentos, o que remete às produções
da Modernidade, exigindo que se aprofunde sua compreensão.
O pensamento da Modernidade
Vários são os elementos que compõem as elaborações da Moderni­
dade, revelando a complexidade e os aspectos contraditórios do período
histórico que representa: racionalismo como pilar central; valorização da
ciência racional e empírica; reconhecimento do homem como sujeito epis-
têmico; formulações sobre o lugar social do homem e sobre a liberdade;
só para apontar, genericamente, alguns deles.
Entre essas formulações está uma concepção fundamental, apoiada
nos cânones do racionalismo e reveladora, de modo mais concreto, do ho­
mem que surge nesse período: a concepção do homem como indivíduo.
Esse homem, por ser racional e considerando-se a universalidade
da Razão, é o que é por sua capacidade de pensar por si só, de encontrar
nas luzes da Razão as verdades sobre a realidade, natural ou metafísica.
Verdades que bem poderiam estar no objeto externo ao homem, ou bem
poderiam ser a ele reveladas pelo trabalho da Razão e/ou por seus con­
teúdos próprios (inatos ou a priori).
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 123
Mas, além disso, ou juntamente com isso — na verdade, na base dis­
so —, está a experiência concreta dada a esse homem, a experiência de ser
e se ver como a "célula" da sociedade. Trata-se do desenvolvimento do
capitalismo e da organização social necessária à sua consolidação. A pro­
dução da riqueza e o mercado sob o capital têm sua organização baseada
na inserção individual, pois cada um deve negociar sua própria força de
trabalho e cada um deve tornar-se um consumidor. O indivíduo aparece,
então, como forma primeira e insubstituível de existência. A individua­
lidade é marca e conquista do capitalismo, dada sua forma de organiza­
ção e produção social, mas ela também vai se definindo como modo de
ser do homem. O indivíduo é forma de subjetivação.
Dois esclarecimentos terminológicos são necessários neste ponto. Primeiro,
reafirmar com Dumont (1985, p. 29) os dois sentidos sob os quais a expres­
são "indivíduo" pode ser utilizada: (1) o sujeito empírico da palavra, do
pensamento, da vontade, amostra indivisível da espécie humana, tal como
o observador o encontra em todas as sociedades; e (2) o sujeito moral, in­
dependente, autônomo, e assim essencialmente não social, tal como se en­
contra, sobretudo, emnossa ideologia moderna de homeme sociedade.1Em
decorrência do primeiro esclarecimento, segue-se que o indivíduo é apenas
um dos modos de subjetivação possíveis. (Mancebo, 1999, p. 36)
Assim, a Modernidade traz a afirmação do homem como indivíduo,
sendo que não se trata de tomá-lo como a unidade da espécie ao se fa­
zer essa afirmação. Mais que isso, a sociedade que passa a se formar nes­
se período e virá a ser hegemônica tem como referência fundamental a
noção de individualidade, da experiência individual como a base para a
organização social.
Surge, dessa forma, a experiência humana que passará a ser hege­
mônica e central em toda a histórica ocidental e dominante. Podemos di­
zer que o surgimento do "homem burguês" (Konder, 2000) traz mais do
que o surgimento de uma nova classe social. Evidentemente é disso que
1. DUMONT, Louis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna.
Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
124 BOCK • GONÇALVES
se trata. Mas é preciso reconhecer que a forma como essa experiência se
impõe objetiva e ideologicamente levará a um aprofundamento da no­
ção de indivíduo que se elabora nos séculos XVII e XVIII, se fortalece no
século XIX, atravessa todo o século XX, e chega à contemporaneidade com
a insígnia, ainda pouca abalada, de ser uma concepção natural.
Não é. A concepção do homem como indivíduo é produto de certa
ordem social, que permitiu o desenvolvimento de determinadas experiên­
cias e suas correspondentes representações, tão sólidas e contraditórias
quanto a realidade que as possibilita.
Não se trata de uma "modelagem" do burguês feita pela burguesia (fenô­
meno que de fato existe, mas permanece restrito ao estaco de classe): trata-
se de um condicionamento promovido, não pela burguesia, diretamente,
mas pelo conjunto da sociedade burguesa, quer dizer, pelas características
do "sistema" social estruturado sob a hegemonia da burguesia. (Konder,
2000, p. 15)
A noção de indivíduo foi particularmente importante para o libera­
lismo, que fundamentou nela todas as suas formulações sobre o homem.
Mancebo (1999) cita Dumont, o qual estabelece uma distinção entre so­
ciedades e culturas holísticas e as individualistas. As primeiras situam
os indivíduos empíricos de acordo com sua posição na estrutura social;
os indivíduos são, então, representados por meio de identidades posi­
cionais. Nas segundas, "o valor da identidade individual é dado, sobre­
tudo, pela ideia de autonomia do sujeito em relação ao todo" (Mancebo,
1999, p. 36). Na concepção individualista, o indivíduo tem potencialida­
des "naturais" ou "intrínsecas", pré-existentes à sociedade, e deve reali­
zá-las na vida social.
Foi essa referência ao indivíduo como unidade básica da sociedade,
com base na qual se estabelecem normas e relações, que fundamentou
concepções sociais importantes na organização da sociedade sob a nova
estruturação econômica. Segundo Mancebo (1999, p. 36):
Pode-se afirmar que o conceito de indivíduo tal qual apresentado acima
foi elevado ao nível de bandeira política e realidade econômica pelo libe-
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 125
ralismo dos séculos XVII e XVIII, constituindo-se em parcela significativa
do imaginário social da modernidade. Para os contratualistas dessa época
— Locke, Hobbes, Rousseau — o poder das famílias havia sido substituído
politicamente pelo Estado Moderno, constituído, ao menos em tese, pela
participação d:reta de indivíduos. Os contornos básicos desse novo ideá­
rio seriam: a liberdade (inclusive em relação à própria coletividade na qual
vive, implicando direito de escolha, liberdade de ação e de participação),
a igualdade (ontológica e legal, implicando direitos inalienáveis, públicos,
reconhecidos por todos), aconsciência individual acentuada (razão própria,
emoções e sentimentos próprios, singulares e únicos) e a consideração do
homem como unidade básica da sociedade na qual participa diretamente
sem mediações.
Neste momento podemos dizer que já são dois os aspectos que nos
podem levar a entender a postulação de explicações psicológicas ou so­
ciológicas para a relação indivíduo e sociedade. Um deles claramente
epistemológico, nos mostra como a separação entre sujeito e objeto, como
forma de se chegar à objetividade do conhecimento, induz à separação
entre indivíduo e sociedade, porque: 1) estende a visão de exterioridade
a toda relação de que se trata, pois é uma visão metodológica que orienta
a forma de abordar o objeto do conhecimento, nesse caso, entendendo-se
como objeto a relação indivíduo-sociedade; a implicação é a visão de exte­
rioridade entre indivíduo e sociedade; 2) busca a objetividade do conheci­
mento sobre o indivíduo e a sociedade de maneira objetivista, reduzindo
os processos de relação a uma imediaticidade e a uma linearidade condi­
zentes com essa maneira de abordar a realidade para conhecê-la.
O outro é um aspecto ontológico, que permite apontar característi­
cas, historicamente constituídas, do ser do qual se trata, o homem indi­
víduo, assim concebido com base em experiências concretas ratificadas
pelas concepções liberais. É esse indivíduo que precisa ser compreendido
na sua relação com a sociedade. E é desse indivíduo que se fala quando
se estuda sua relação com a sociedade.
Reunindo os dois elementos, o epistemológico e o ontológico, temos,
além da exterioridade do indivíduo em relação à sociedade, um indivíduo
"em si", que prescinde, a princípio, da sociedade para ser como tal.
126 BOCK • GONÇALVES
O resultado da presença dessas concepções na Psicologia Social é
o que apontamos acima: explicações sociológicas ou psicológicas para a
relação indivíduo-sociedade, com desdobramentos para a visão de qual
deve ser o lugar do conhecimento na vida social e até mesmo para a iden­
tificação dos problemas da vida social que devem ser conhecidos.
Outros elementos da Modernidade devem ser considerados para ir­
mos adiante nessa análise. Isso porque, como também já referimos aci­
ma, o conjunto de elementos que a compõem revela a complexidade e as
contradições das produções históricas.
Assim, devemos considerar que esse homem racional e individual da
Modernidade, o "homem burguês" referido por Konder (2000), é também
reconhecido como sujeito.
Estamos nos referindo a um ser de possibilidades (de determinadas
possibilidades): possibilidade de conhecer, possibilidade de agir a partir
do conhecimento, possibilidade de encontrar e/ou aplicar a racionalidade
em tudo que existe, possibilidade de sentir, possibilidade de pensar sobre
o que conhece e o que sente, possibilidade de expressar suas vontades e
esperar que a sociedade as realize. E possibilidade de realizar tudo isso
perante outros, perante a sociedade. Há, dessa forma, uma afirmação do
homem como sujeito.
Mas ela só foi possível, concretamente, no interior da contradição
capital — trabalho, que requereu que o homem ocupasse os lugares so­
ciais (na produção e no consumo) como ser individual. E só foi possível,
em termos ontológicos e epistemológicos, com a afirmação também do
objeto, significando a afirmação de uma existência do objeto (realidade,
natureza) independente do sujeito. Ambos os aspectos aqui presentes, o
concreto e o das representações, carregam contradições.
Na concreticidade, para ocupar o lugar social da produção, o indi­
víduo só pode fazê-lo com outros indivíduos. Ou seja, a organização da
produção é social. Por outro lado, para ocupar o lugar social do consu­
mo, o indivíduo precisar anular outros indivíduos (na concorrência do
mercado); ou, na melhor das hipóteses, precisa tornar-se indistinto deles
(na massificação do consumo).
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 127
Nas representações, ontológicas e epistemológicas, o sujeito racional
autônomo precisa submeter-se à objetividade e à racionalidade do obje­
to, tendo sua autonomia limitada. O ser de possibilidades tudo pode?
Ou nada pode?
Postas dessa forma as questões, as respostas oscilam de um polo a
outro, mantendo visões dicotômicas em vários campos. O que pode o in­
divíduo frente à sociedade: impor sua individualidade ou amoldar-se ao
que lhe é imposto?
As concepções alternativas e a dificuldade da superação
As contradições da Modernidade estão, também, entretanto, na ori­
gem de concepções alternativas, de contraponto às visões dominantes. O
sujeito liberal, indivíduo racional, bem como sua possibilidade de reali­
zação, encontram seu questionamento em experiências concretas e suas
correspondentes representações ontológicas e epistemológicas.
O capitalismo tem em si, contraditoriamente, como apontado acima,
um novo elemento de experiência concreta, por meio do trabalho. Trata-se
da possibilidade de os sujeitos do trabalho constituírem-se concretamente
como coletivo, considerando-se a organização da produção industrial. É
uma experiência possibilitada pela mesma organização social da produ­
ção que afirmara o indivíduo como sua célula básica; daí a contradição.
Essa experiência possibilita outra: o reconhecimento da condição co­
mum a que estão expostos esses sujeitos. Na verdade, aquilo que está li­
mitado pela concorrência do mercado (para a oferta da força de trabalho
ou para o consumo) será coletivamente reconhecido como limitação impos­
ta pela ordem social. Esse reconhecimento trará a possibilidade de outro
tipo de reflexividade, de consciência, diferente da consciência individual.
Trata-se da consciência histórica, fundada numa práxis política. Ou seja,
traz a possibilidade de uma consciência que não é individual e autofun-
dante ou autoiluminada, mas constituída a partir da ação, do trabalho, o
que só ocorre coletivamente.
BOCK • GONÇALVES
Aqui se fala da possibilidade de superar a alienação que marca as
formas de consciência sob o capitalismo, possibilidade esta que está dada
pelas contradições que estão presentes nessa realidade.
A análise histórica do capitalismo, realizada pelo marxismo, permi­
tiu identificar as características da base material, nesse modo de produ­
ção, que dão origem ao processo de alienação.
O indivíduo produtor da riqueza está posto nessa tarefa de modo
individual: vende sua força de trabalho ao capital que a utiliza na pro­
dução da riqueza. O resultado desse trabalho é apropriado individual­
mente pelo capitalista. O trabalhador aplica sua força de trabalho e não
se apropria de sua produção. A objetivação de seu trabalho pertence a
outro. Aliena-se de si próprio e não se reconhece como parte de um cole­
tivo que produz; não se reconhece no produto e não reconhece sua ativi­
dade como produtora. Sua consciência está marcada por essa alienação
que se origina na organização da base material da produção. E está tam­
bém marcada pelos conteúdos ideológicos que referendam e contribuem
para a sustentação dessa situação.2
O processo de produção de ideologia, apoiado nessa base material,
desenvolve-se por meio das características que marcam a produção de
ideias nas sociedades de classes: separação entre trabalho intelectual e tra­
balho manual, desvinculação aparente entre ideias e interesses concretos
que representam, universalização das ideias. Tal processo aprofunda-se
no capitalismo, em que o racionalismo e a ideologia liberal produzem con­
cepções que o favorecem: as ideias válidas são as produzidas pela Razão;
a universalidade da Razão justifica ideias universais; o homem é indiví­
duo livre para pensar, utilizando a Razão, que tem ideias evidentes por
si mesmas. Ou seja, tanto a experiência concreta do trabalho como as re­
presentações sobre a sociedade e sua organização contêm elementos que
explicam a alienação.
Depois de separar as ideias dominantes dos indivíduos que exercem o po­
der esobretudo das relações que decorrem de um dado estádio do modo de
2. Ver, no capítulo 3 desta obra, discussão mais detalhada sobre o processo de alienação.
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 129
produção, é fácil concluir que são sempre as ideias que dominam a histó­
ria, podendo-se, então, abstrair, destas diferentes ideias, a "Ideia", ou seja, a
ideia por excelência etc., fazendo dela o elemento que domina na história e
concebendo então todas as ideias e conceitos isolados como "autodetermi­
nações" do conceito que se desenvolve ao longo da história Em seguida, é
igualmente natural fazer derivar todas as relações humanas do conceito de
homem, do homem representado, da essência do homem, numa palavra,
de o Homem. (Marx e Engels, 1980, p. 60)
A mesma base material, entretanto, por suas contradições, possibilita
outra experiência e, consequentemente, cria a possibilidade de outra cons­
ciência. A própria necessidade de organização do trabalho produziu o re­
conhecimento da condição comum desses sujeitos. Esse reconhecimento
trouxe a possibilidade de outro tipo de consciência, diferente da consciên­
cia individual. Trata-se, como já afirmado, da consciência histórica cons­
tituída com base no trabalho coletivo. Seu desenvolvimento requer esse
reconhecimento da condição comum a um determinado grupo social, o
que possibilita o rompimento com aquelas marcas da produção de ideias
que as tornam ideológicas: as ideias representam interesses concretos; por
isso, não podem ser universais, pois os interesses concretos são oriundos de
lugares distintos, ocupados, no seio da produção, por grupos distintos; as
experiências relativas a esses lugares são comuns em muitos aspectos, por
isso sua representação é compartilhada; nesse sentido, para além de uma
consciência individual, há a possibilidade de uma consciência social.
Essa experiência concreta vai se manifestar também em relação às
questões epistemológicas. O sujeito do conhecimento tem com seu obje­
to uma relação intencional, da mesma forma que se dá a relação de tra­
balho. A práxis histórica, posta a partir do reconhecimento do trabalho
como fundante da relação do homem com a realidade, inclui a intencio­
nalidade como inerente à relação do sujeito com o objeto, articula subje­
tividade e objetividade.
(...) Pelo trabalho, os seres humanos não consomem diretamente aNatureza
nem se apropriam diretamente dela, mas a transformam em algo humano
também. A subjetividade humana se exprime num objeto produzido por
ela e aobjetividade do produto é a materialização externa da subjetividade.
130 BOCK • GONÇALVFS
Pelo trabalho os seres humanos estendem a sua humanidade à Natureza.
É nesse sentido que o trabalho é práxis, ação em que o agente e o produto
de sua ação são idênticos, pois o agente se exterioriza na ação produtora e
no produto, ao mesmo tempo que este interioriza uma capacidade criado­
ra humana, cu a subjetividade. (Chaui, 1995, p. 419)
Essa compreensão da relação ente sujeito e objeto, que decorre da
compreensão do movimento de transformação que se dá a partir da ação
do homem sobre a realidade, aponta a articulação entre ontologia e epis-
temologia. O ser de que se trata está em constante transformação, em um
processo histórico em que o homem atua sobre a realidade. Nesse proces­
so, se dá também o conhecimento.
Essas formulações ocorreram já no século XIX, diante das primeiras
crises do capitalismo, que evidenciaram de várias formas as contradições
históricas. Percebe-se, então, que a mesma matriz histórica que constituiu
o homem como sujeito e o identificou como sujeito racional e individual
contraditoriamente criou a possibilidade do sujeito histórico. A contra­
dição histórica presente na realidade material está também representada
nas ideias da Modernidade.
Assim, revelando as contradições presentes, a Modernidade pro­
duziu esse contraponto às noções do liberalismo, como expressão da
contradição histórica entre capital e trabalho que constituiu o próprio
capitalismo. O sujeito racional e individual estaria superado diante da
possibilidade da experiência concreta de um sujeito ativo e social, de um
sujeito histórico.
A identificação dessa outra formulação para a experiência histórica
do homem a partir do capitalismo se faz necessária para começarmos a
debater possibilidades de superação das dicotomias e para avançarmos
na elaboração de uma visão da relação indivíduo-sociedade que contenha
a noção de articulação e processo entre um e outro. Em outras palavras,
para que seja possível ter, desde a raiz, a compreensão de uma visão dia­
lética da relação indivíduo-sociedade como proposta por Sílvia Lane.
(...) Tornou-se necessária uma nova dimensão espaço-temporal para se
apreender o Indivíduo como um ser concreto, manifestação de uma totali­
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 131
dade histórico-social — daí a procura de uma psicologia social que partis­
se da materialidade histórica produzida por e produtora de homens. (...) o
homem não sobrevive a não ser em relação com outros homens, portanto
a dicotomia indivíduo x grupo é falsa — desde o seu nascimento (mesmo
antes) o homem está inserido num grupo social. (Lane, 1984, p. 15 e 16)
A raiz dessa visão está na concepção materialista histórica e dialética
de sociedade, indivíduo, história, conhecimento, método. E é importante
que se reconheça essa concepção na sua gênese histórica, como expressão
das contradições do capitalismo, expressas também na Modernidade.
Ou seja, o "homem burguês" já tem posta sua contraposição histó­
rica. Tanto como possibilidade de experiência concreta, como também
em termos de representações alternativas. Por que permanece, então,
como concepção ainda predominante? Por que aparece naturalizado,
como se fosse a síntese da mais pura, essencial, universal e eterna expe­
riência humana?
A resposta mais básica, embora não simples, é a de que a sociedade
globalizada e tecnológica move-se, ainda, sob a batuta das relações capi­
talistas, em que pesem todas as diferenças que encontramos na sociedade
contemporânea em relação aos séculos XiX e XX. Assim, uma resposta,
grosso modo, é possível: o ideal do homem individual, promessa da Mo­
dernidade, ainda não foi abandonado. Mesmo diante das perplexidades
geradas a partir da falência dessa e de outras promessas, como aponta
Boaventura de Sousa Santos (1996), o indivíduo, agora com novos mati­
zes, ainda serve à organização social.
Outras respostas devem ser acrescentadas, evidenciando como as
ideias e os saberes que se produziram orientados pelas concepções hege­
mônicas tornaram-se fatores muitas vezes impeditivos do aparecimento
de novas formulações. Entre essas ideias e saberes, encontramos a Psico­
logia e todos os saberes psi, que valorizaram e fundamentaram a expe­
riência da individualidade, naturalizando-a e absolutizando-a.
É verdade que desde o século XIX, a partir das primeiras crises do ca­
pitalismo, como apontamos acima, surgem questionamentos, pelo menos
em parte, a essa visão. As contradições da Modernidade logo se evidencia­
132 BOCK • GONÇALVES
ram. Entretanto, como dissemos, a superação de seus limites requer trans­
formações históricas mais profundas, com a superação da base material
que sustenta e dá sentido a essas concepções. Alguns exemplos permitem
perceber os limites impostos pelas contradições da Modernidade.
Outras noções de sujeito desenvolveram-se no seio do capitalismo,
com base nas concepções da Modernidade, durante os séculos XIX e XX.
A predominância da concepção liberal é questionada em vários âmbitos
e o século XX assiste até mesmo à decretação da "morte do sujeito". Es­
sas outras concepções, que não representam a possibilidade de supera­
ção da realidade histórica que as engendrou, expressam, por sua vez, a
complexidade do movimento histórico. São configurações resultantes das
múltiplas determinações presentes no processo social, que contribuem,
em maior ou menor grau, para a explicitação e superação da contradição
fundamental do capitalismo.
É o caso das contraposições que são elaboradas para questionar os
reducionismos na concepção de sujeito que valorizam o caráter pragmá­
tico e instrumental da ação humana. O sujeito liberal que, com o desen­
volvimento do capitalismo, precisa ser disciplinado para o trabalho e para
o consumo, é massificado e treinado. As concepções humanistas se con­
trapõem a isso e vão em busca de um sujeito pleno, guiado por sua cons­
ciência individual. Mas, estaria aqui o "homem burguês" superado?
É o caso também da recuperação da emoção em contraposição ao
excesso de racionalidade que permeia a vida do indivíduo massificado,
treinado, disciplinado até mesmo em seus desejos. Nesse aspecto, a psica­
nálise desempenha um papel importante. Sua formulação básica põe em
cena a irracionalidade, afirmando a presença do inconsciente, que repre­
senta o lado escuro que traz sombra à Razão Iluminada. Nesse sentido,
pode-se dizer que a psicanálise é uma das maneiras pelas quais a contra­
dição histórica se manifesta, pois suas formulações põem em cheque o
sujeito plenamente racional.
A psicanálise, entretanto, não se opõe à noção liberal de sujeito. Ao
contrário, toma dela o individualismo, reconhecendo no indivíduo e nas
suas pulsões a gênese de suas manifestações em sociedade e nas relações
com os outros indivíduos. Ao mesmo tempo, a racionalidade, relativizada
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 133
pelo inconsciente, é retomada para explicar a estruturação da sociedade
que se impõe sobre os indivíduos e suas pulsões.3
Por outro lado, em alguns contextos de aplicação e desenvolvimen­
to das concepções marxistas, as dificuldades históricas em se estabelecer
concretamente as possibilidades de realização do sujeito histórico condu­
zem a outros tipos de reducionismos: são os decorrentes de uma exacerba­
ção do papel da base material na produção de sujeitos, o que leva a uma
desconsideração de fatores individuais e subjetivos no processo social.
O sujeito histórico, dessa forma, tem apartada de si uma parte do que o
constitui e está presente nos processos sociais: a condição de vivenciar,
registrar e elaborar subjetivamente experiências concretas.
Por todos esses reducionismos a que foi conduzido o sujeito da Mo­
dernidade (massificação, disciplina, excesso de racionalidade, pragma­
tismo), seria justificável decretar a morte do sujeito.
Os abalos à noção de sujeito liberal que vão se desenvolvendo na
primeira metade do século XX acabam abrindo caminho para a negação
do homem como sujeito. Se a decretação da morte do sujeito (década de
1960) é compreensível como denúncia dos reducionismos a que o capita­
lismo submeteu o homem, ela também abre espaço para a veiculação de
uma concepção neoliberal que acompanha as reformulações do capitalis­
mo diante da crise mundial que ocorre na década de 1970.
Aquilo que se denominou "pós-modemidade" aglutina produções
bastante diversas que, entretanto, têm em comum um trabalho de revi­
são crítica da Modernidade.4 Evidenciam, dessa forma, os limites das
concepções da Modernidade, inclusive das concepções de sujeito. Entre­
tanto, algumas dessas produções começam por negar o caráter histórico
dos fenômenos sociais e humanos e, dessa forma, revestem-se de uma
pseudoisenção que, na verdade, oculta o seu caráter ideológico.
3. Uma análise da presença e da influência dessas concepções de sujeito na Psicologia pode ser
encontrada em Gonçalves, 2001a.
4. Uma análise, nessa direção, de vários pensadores da pós-modemidade pode ser encontra­
da em PEIXOTO, Madalena G. A questão política na pós-modemidade: a questão da democracia. São
Paulo: Cortez, 1998.
134 BOCK • CONÇAIVES
Negar o sujeito estaria representando a necessidade de abandonar
as promessas da Modernidade que não se concretizaram, portanto esta­
ria decretando a inviabilidade de realização plena do sujeito como con­
cebido pelo liberalismo. Mas estaria também representando a negação da
historicidade e, consequentemente, o sujeito histórico.
A Psicologia também é alcançada por esse debate e, na tentativa de
apresentar críticas aos limites do sujeito da Modernidade, resvala na ne­
gação do sujeito, ela, a ciência da subjetividade.
Ainfluência do debate pós-modemo apartir daí será sentida na negação de
qualquerpossibilidadede uma concepção totalizante desujeitoequecoloca­
ráemxeque aexistência de uma essencialidadedo sujeito. Para aPsicologia,
essa discussão assume um caráter peculiar. Questionado o sujeito, aponta­
da sua pluralidade, sua fluidez ou até mesmo sua inexistência, como fica a
subjetividade enquanto objeto dessa ciência? (Gonçalves, 2001b, p. 71)
Considerando que essas produções se dão no âmbito do mesmo capi­
talismo que engendrou as concepções anteriores, é evidente o significado
ideológico que carregam. Negar o sujeito representa a tentativa de man­
ter o indivíduo adaptado, massificado, treinado, o que ainda é necessário
para a organização social; e, ao mesmo tempo, "limpar" as concepções de
qualquer indício de contradição presente na afirmação da plenitude de
possibilidades do sujeito liberal. Significa também negar qualquer outra
possibilidade para o homem como sujeito, reafirmando como única pos­
sibilidade sua condição de indivíduo.5
Nesse contexto, para o enfrentamento de formulações que encobrem
seu caráter ideológico, é necessário apontar o que novas formulações so­
bre o homem revelam de sua atual experiência histórica. Isso permite
evidenciar que também na contemporaneidade há uma valorização do
indivíduo, supostamente para atender a uma "nova" realidade social. A
identificação das experiências que lhe são possíveis e de como elas são
representadas, evidencia que o "neo" liberalismo transforma em farsa o
que foi tragédia.
5. Também uma análise da implicação das concepções de sujeito "pós-modemas" para a Psico­
logia pode ser encontrada em Gonçalves, 2001b.
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 135
Em princípio as experiências contemporâneas já não poderiam ser
justificadas por uma racionalidade que seria inerente aos processos so­
ciais e humanos. O trabalho parece perder seu lugar fundante, em razão
do grande desenvolvimento tecnológico. Associado a isso, consideran­
do-se que o desenvolvimento da tecnologia implica mudanças constantes,
aparecem vivências de renovação permanente, de flexibilidade. Os luga­
res sociais apresentam-se, em decorrência, como instáveis, alternativos.
Abre-se espaço, com o questionamento da racionalidade e a desestabili-
zação do trabalho, para a valorização de cutras dimensões do indivíduo:
a afetividade é reconhecida, valorizada e toma-se a principal referência
em muitos espaços sociais, inclusive públicos.
A implicação mais direta dessa nova situação é uma crescente ênfa­
se no individualismo, que apresenta novas características, mas mantém
a supremacia do indivíduo. No início do capitalismo era a identidade so­
cial do trabalho autônomo e do mercado que atendia e justificativa ideo­
logicamente o capitalismo ascendente, que configurava esse indivíduo.
Atualmente, é a singularidade, a imediaticidade e a transitoriedade de
suas experiências e vivências em um mercado volátil, fluido.
Todos esses aspectos apontam, então, para uma exacerbação da indi­
vidualidade, calcada no questionamento da racionalidade e na valoriza­
ção da emoção, com sentimentos completamente particulares, singulares.
Por isso não se articulam a projetos coletivos e, contraditoriamente, tais
vivências abrem espaço para o crescimento da indiferença, da anestesia
diante de questões que não toquem os indivíduos diretamente. Estão jun­
tos e revelam o mesmo processo, a busca desenfreada do prazer imediato,
visível na rapidez e voracidade do consumo; o culto ao corpo e à aparên­
cia, reforçados pelo consumismo; a rejeição ao compromisso com questões
sociais e políticas. Ou seja, o individualismo não se enfraquece.
Precisamente umdos aspectos mais perversos do "capitalismo pós-moder-
no" é aprodução de sentidos supérfluos na população, sentidos associados
à aparência, aoconsumo, aoócio organizado etc. Eles produzem atividades
que as pessoas realizam "voluntariamente", mas que na verdade estão go­
vernadas pela produção supraindividual de recursos simbólicos que con ­
trolame automatizam a produção de sentidos de pessoas e espaços sociais
diversos. (...) (González Rey, 2004, p. 56)
136 BOCK • GONÇALVES
Revelando a contradição histórica ainda presente, o que se observa,
entretanto, é que a sociedade está cada vez mais submetida à racionali­
dade técnica, presente no alto grau de desenvolvimento tecnológico que
sustenta as atividades humanas hoje em dia. Também que o prazer ime­
diato é fugaz e não realiza os indivíduos. Que a massificação persiste,
embora camuflada pela multiplicidade aparente de opções de escolha,
seja de objetos, estilos de vida, relações.
Embora a possibilidade de vivenciar a diversidade deva ser saudada
como conquista da contemporaneidade, é necessário identificar as con­
tradições que esse fenômeno carrega. Respeitar a diversidade não deve
se configurar como subterfúgio para negar a discussão ontológica, para
negar a possibilidade de uma experiência totalizante, como projeto his­
tórico: a emancipação deve se dar para todos os indivíduos, em que pese
sua diversidade. Tal projeto não pode ter como fundamento concepções
relativistas.
O que percebemos, travestida de novidade, é a mesma antiga forma
de compreender as determinações sociais e históricas calcada no proces­
so de alienação e na produção de ideologia, na medida em que as novas
concepções aparecem desvinculadas do processo que as constituiu.
Estão presentes nas concepções "pós-modemas" ideias sobre o sujeito e
a subjetividade que resultam de críticas a concepções desenvolvidas pela
modernidade. Embora de início pudessem ser saudadas como a real supe­
ração dos limites presentes nas concepções modernas sobre sujeito e subje­
tividade, tais ideias, na verdade significam o risco de negação ou descarac-
terização total do sujeito, sua "volitização", fenômeno aliás, muito próprio
de tempos pós-modemos.
Achamada pós-modemidade declara a falência de todas as versões da mo­
dernidade, notadamente a liberal e a marxista. Ao fazer isso, os pensado­
res que proclamam "novas ideias" para "novos tempos" desconsideram
que as diferentes concepções revelam contradições históricas ainda não
superadas. Esse tratamento homogêneo a todas as ideias modernas traz o
risco de se perder a possibilidade de afirmar concepções que evidenciam
as contradições concretas e apontam para sua superação. (...) (Gonçalves,
2001b, p. 53 e 54)
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE IJ7
A mudança que se observa nos fala de um novo sujeito ou de um
"neo" sujeito, no sentido de ter alterada sua forma, mas não seu conteú­
do, sua aparência, mas não sua essência?
Eis aqui mais um complemento de resposta para a pergunta que fi­
zemos acima. Por que permanece a ideia do homem como sujeito indivi­
dual, desvinculado, a princípio ou ao final, da sociedade, dos processos
sociais? Porque também as explicações contemporâneas naturalizam essa
vivência, agora pela ideia da inexorabilidade do desenvolvimento tecno­
lógico, pela valorização do presente, pela fluidez das experiências, tidas
como naturais. A complexidade crescente dos elementos não se impõe
sobre a simplificação presente na negação de explicações históricas e na
assunção da inexorabilidade como elemento explicativo.
A Psicologia Social, com suas explicações sociológicas ou psicológicas
para a relação indivíduo-sociedade, cumpriu também o papel de natura­
lizar as explicações dos fenômenos presentes na relação indivíduo-socie­
dade. Tanto em uma como em outra vertente, contribuiu para preservar
o indivíduo, o indivíduo da Modernidade, na medida em que não deu
conta de apontar a constituição imbricada entre cada um e o outro, en­
tre cada um e o coletivo, entre o coletivo social e histórico e cada um, na
sua singularidade. E, atenta às discussões da chamada pós-modemidade,
tem-se colocado mais na direção de explicar os processos dessa vivência
individual da relação com a tecnologia e o signo, do que em explicar os
processos históricos de constituição das subjetividades e das relações so­
ciais contemporâneas.
(...) Ateoria histórico-cultural, inspirada em um marxismo criativo e revo­
lucionário, procurava representar a unidade dos sistemas complexos da
sociedade por meio das aparências desconexas de suas formas de expres­
são. Procurava-se a essência como princípio organizador, e não como prin­
cípio metafísico inalterável que atuava como causa universal; no entanto,
isso aconteceu em um momento em que o pós-estruturalismo, apoiado na
própria crítica ao estruturalismo e ao marxismo, ia contra os megassiste-
mas e as megateorias, enfatizando o valor das construções locais parciais.
Nesse contexto, na psicologia, a semiótica e o discurso hegemonizavam a
novidade, e o oonstrucionismo social aparecia como a última moda, negan­
138 BOCK • GONÇALVES
do, nas suas variantes mais radicais, toda definição ontológica. (González
Rey, 2005, p. 29 e 30)
Por isso, a proposição de uma Psicologia Social que aponte para a
constituição dialética e complexa de indivíduos inseridos em sociedades
por eles constituídas é fundamental para a compreensão das possibilidades
de um sujeito que é histórico. Reafirma-se, dessa maneira, a importância
de resgatar a discussão ontológica e posicionar-se em relação a ela.
Nesse sentido, é importante considerar que tais possibilidades de rea­
lização do sujeito não estão prontas, não estão dadas, não estão latentes,
esperando para se desenvolver. São possibilidades ativas, atravessadas
por contradições presentes na sociedade, as quais devem ser identificadas
para que se possa escolher a direção que represente avanço.
Pressupostos da concepção sócio-histórica
A noção básica da Psicologia Sócio-Histórica é a historicidade, o que
significa ter como ponto de partida a concepção de que todos os fenôme­
nos humanos são produzidos no processo histórico de constituição da
vida social. Essa vida social se constitui na materialidade das relações
entre os homens e entre os homens e a natureza, para a produção da sua
existência.
Tais pressupostos vêm do materialismo histórico e dialético, método
que afirma objetividade e subjetividade como unidade de contrários, em
movimento de transformação constante. Sujeito e objeto transformam-se,
em um processo histórico em que o sujeito atua sobre o objeto e é trans­
formado nesse processo.
Tal método orienta que se busque a gênese dos fenômenos na reali­
dade material contraditória, incluindo o conteúdo histórico definido por
essa realidade. O conteúdo histórico, considerando-se as relações mate­
riais entre os homens e entre os homens e a natureza para a produção da
sua existência, é dado pela divisão da sociedade em classes, que acarte-
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 139
ta lugares e experiências distintas para os diferentes grupos sociais. Essa
clivagem social produz alienação e, no mesmo processo de produção de
alienação, produz-se ideologia. Já nos referimos adma a essa articulação
entre as experiências concretas de inserção social, possibilitadas pelo ca­
pitalismo e que, seja na produção, seja no consumo, apartam os indiví­
duos dos resultados materiais, ao mesmo tempo em que justificam ideo­
logicamente os processos sociais. Assim, os fenômenos sociais têm caráter
ideológico.
Apontar o caráter histórico dos fenômenos sociais e humanos possi­
bilita uma análise que permite a sua desnaturalização. Em termos meto­
dológicos, isso leva a se trabalhar com categorias que indicam processos,
com conteúdos históricos, ideológicos, contraditórios, mediados.
Ou seja, trabalhar com a historicidade significa adotar um método que
prevê não apenasforma, mas também conteúdo. A forma aponta o caráter
processual dos fenômenos. O conteúdo aponta sua produção histórica,
considerando-se a qualidade da sociedade de que se trata. Uma socieda­
de que encerra a contradição de classes produz fenômenos qualitativa­
mente diferentes a depender de sua relação com os processos sociais que
apartam e produzem alienação e ideologia. Isso implica tomar sujeito e
subjetividade como constituídos na dialética subjetividade-objetividade
e procurar identificar os aspectos desse processo, aspectos que revelam a
historicidade. Por isso, a forma processual, juntamente com o conteúdo
histórico resultante das relações de classe, devem ser considerados. As
categorias da dialética, particularmente a categoria de mediação,6são re­
cursos para apreender o processo.
Na mesma linha metodológica, a proposta é identificar no objeto, em
vez de conceitos, categorias. Tendo-se como referência a própria noção
de categoria, aborda-se o objeto delimitando campos de investigação nos
quais se busca compreender o movimento, o processo de constituição dos
fenômenos. Nesta perspectiva metodológica, ao se buscar a definição de
algo não se responde "o que é", mas sim "como se constituiu". Isso signi­
fica privilegiar o processo, o movimento do objeto, sua historicidade.
6. Ver nos capítulos 1 e 2 desta obra a discussão de categorias e das categorias da dialética.
140 BOCK • CONÇAIVES
Ao se fazer esse esforço, considera-se fundamental a ideia de que os
fenômenos da realidade são multideterminados, isto é, caracterizados por
relações que se estabelecem para criar a aparência que conhecemos. Essas
relações, no entanto, são invisíveis aos nossos olhos, pois são constituti­
vas dos fenômenos em seu movimento e processo. É aqui que se supe­
ra o uso de conceitos (que fotografam ou descrevem os fenômenos) para
adotar a ideia de categorias que expressam processos e permitem pensar
relações que são constitutivas dos fenômenos. As categorias inauguram
a possibilidade de se falar de elementos que caracterizam os fenômenos,
mas que só podem ser captados, como relação, pelo pensamento. As ca­
tegorias são categorias de pensamento que permitem que se ultrapasse a
aparência (enganosa) dos objetos e se compreenda sua gênese e seu mo­
vimento. Não se buscam causas, mas os elementos e aspectos que consti­
tuem os objetos como se apresentam a nós, em seu movimento de trans­
formação constante.
São categorias para pensar e compreender o psiquismo: atividade,
consciência, identidade e afetividade, que devem, então, ser considera­
das como denominadoras de um processo com gênese social, participa­
ção do sujeito e fundado na contradição (dadas as categorias da dialéti­
ca que são tomadas como referência metodológica). Essas categorias do
psiquismo se constituem como a chave para a compreensão da subjeti­
vidade. Permitem considerar a subjetividade em seu processo histórico
contraditório, na dialética subjetividade-objetividade; além disto, são ca­
tegorias que permitem pensar a realidade psíquica em seu movimento
de transformação e nas relações que se estabelecem para a produção do
que chamamos subjetividade.
O movimento a que se referem, que é o movimento do psiquismo,
é um movimento contraditório. Isso coloca a necessidade, apontada aci­
ma, de se considerar o conteúdo histórico ao falar da subjetividade. E,
numa sociedade contraditória, esse conteúdo envolve posições diante da
realidade; posições que se referem a interesses concretos. Nesse sentido,
ao se identificar na base desse movimento a gênese de um processo que
implica alienação, deve-se, a seguir, identificar como isso implica expe­
riências subjetivas diversas e como são atravessadas pelos processos que
produzem alienação.
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 141
Por isso, ao se identificar a cisão entre atividade e consciência, se
está falando de alienação. Ao se falar de mesmice da identidade, fala-se
de alienação. Ao se falar de uma afetividade cristalizada, com emoções
reprimidas ou contraditórias, fala-se de alienação. Não de forma direta
e linear, mas num processo que deve ser considerado com os recursos
metodológicos da dialética, que permitem captar a complexidade. Ao se
trabalhar com a noção de mediação e com a noção de categorias, é pos­
sível respeitar a complexidade que se apresenta na realidade, nos fenô­
menos investigados.
Essas concepções permitem fazer a contraposição às dicotomias:
subjetividade-objetividade, sujeito-objeto, indivíduo-sociedade que mar­
cam o desenvolvimento da Psicologia e da Psicologia Social. Visões dico­
tômicas levam à naturalização dos fenômenos, na medida em que supõem
que sujeito e objeto são independentes; que o objeto tem suas próprias
leis, estabelecendo uma relação de exterioridade entre sujèito e objeto.
A separação sujeito-objeto rompe a ideia de relação, de movimento e de
contradição, para pensar cada um como dotado de movimento próprio
ou de capacidade própria para se modificar ou se desenvolver. A ideia
do Barão de Munchhausen, trabalhada por Bock (1999), traz exatamente
este aspecto para o debate da Psicologia: a ideia de que o homem é dota­
do de forças próprias que lhe permitem "puxar-se pelos próprios cabe­
los" e com isso "erguer-se do pântano". Sujeito e objeto ficam então pen­
sados como independentes e seu desenvolvimento fica absolutizado, ou
seja, naturalizado.
O trabalho com a historicidade permite tomar sujeito e subjetividade
como constituídos historicamente, a partir da ação do sujeito sobre o obje­
to. É a partir desses pressupostos que a Psicologia Sócio-Histórica define,
como objeto, a dialética subjetividade-objetividade e trabalha com as ca­
tegorias do psiquismo como chave para a compreensão desse processo.
Subjetividade e objetividade se constituem em um mesmo proces­
so, referindo-se a âmbitos diferentes da realidade: um âmbito subjetivo/
do sujeito e um âmbito objetivo/das coisas. O âmbito do sujeito inclui
processos e características específicas que só podem ser compreendidas
na relação com a objetividade. E o âmbito objetivo incorpora a subjetivi-
142 BOCK • GONÇALVES
dade, na medida em que o que resulta como objetivo é o objeto transfor­
mado pelo sujeito.
Dessa forma, tais concepções teóricas e metodológicas impõem a
noção de subjetividade como um processo que congrega as experiências
dos sujeitos individuais e sociais, sendo, ao mesmo tempo, consequência
e condição dessas experiências.
A referência na historicidade introduz a esse processo a identificação
de uma sua qualidade, que leva à compreensão de que a subjetividade
não está dada, nem para cada indivíduo, nem como processos ou estrutu­
ras universais da humanidade, mas configura-se como algo que se cons­
titui nas relações sociais e históricas; é processo que decorre de situações
concretas que incluem, necessariamente, a atividade, objetiva e subjeti­
va, do indivíduo. O sujeito é ativo, atividade decorrente de sua ação, de
seu pensamento, de sua capacidade de registrar cognitiva e afetivamente
todas as suas experiências; da sua capacidade de vivendar. Suas ações e
experiências individuais subjetivas só são possíveis a partir das relações
sociais e do espaço da intersubjetividade, pois falamos de um sujeito que
é social e histórico. A subjetividade, portanto, não é natural.
Dimensão subjetiva da realidade
A partir da dialética subjetividade-objetividade pode-se falar em
dimensão subjetiva da realidade, na medida em que se entende que a
subjetividade é individual, mas constituída socialmente, a partir de um
processo objetivo, com conteúdo histórico. Por outro lado, a realidade so­
cial é construída historicamente, em um processo que se dá entre o plano
subjetivo e o objetivo. A base material agrega subjetividade, a partir da
ação do sujeito sobre ela, aí está sua historicidade. Por isso, não é possível
falar-se da realidade sem considerar o sujeito que a constitui e ao mesmo
tempo é constituído por ela.
Acrescentoapenas queesta relação processual temuma base material, como
diz Searle, mas esta base também tem caráter histórico na medida que sua
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 143
transformação (através do trabalho) agregará nela própria um quanto de
subjetividade. A partir desse momento, não importa mais o objeto como
"coisa-em-si", mas sim como "coisa-para-si". Tanto o fato objetivo, como
o fato subjetivo farão parte de um mesmo processo histórico e serão inse­
paráveis. Não importa o tipo de leitura que se faça desse processo — via
objetividade ou subjetividade — estaremos sempre trabalhando com essa
dinâmica. (Furtado, 2002, p. 96)
A relação entre o sujeito individual e os fenômenos sociais é de cons­
tituição mútua, os elementos da relação não são exteriores um ao outro, e
a determinação de um sobre o outro não é direta, imediata.
A dimensão subjetiva da realidade estabelece a síntese entre as con­
dições materiais e a interpretação subjetiva dada a elas. Ou seja, repre­
senta a expressão de experiências subjetivas em um determinado campo
material, em um processo em que tanto o polo subjetivo como o objetivo
transformam-se.
Assim, a realidade é a expressão do campo de valores que a interpretam
(suas bases subjetivas) e ao mesmo tempo o desenvolvimento concreto das
forças produtivas (suas bases objetivas). Há uma dinâmica histórica que co­
loca os planos subjetivo eobjetivo em constante interação, sem que necessa­
riamente se possa indicar claramente a fonte de determinação da realidade.
Isso nos leva a afirmar que a realidade é um fenômeno multideterminado,
o que inclui uma dinâmica objetiva (sua base econômica concreta) e tam­
bém uma subjetiva (o campo de valores). O indivíduo é o sujeito singular
dessa dinâmica e, assimcomo recebe prontos abase material (dada pela sua
inserção de classe) e os valores (o plano da socialização), também é agente
ativo da transformação social, independente de ter ou não consciência do
fato. (Furtado, 2001, p. 91)
Entende-se dimensão subjetiva da realidade como construções da sub­
jetividade que também são constitutivas dos fenômenos. São construções
individuais e coletivas, que se imbricam, em um processo de constituição
mútua e que resultam em determinados produtos que podem ser reco­
nhecidos como subjetivos.
144 BOCK • GONÇALVES
Os produtos subjetivos têm o mesmo caráter social, processual e
dialético de constituição da subjetividade. É preciso reconhecer a exis­
tência de produtos subjetivos "sociais" e abordá-los da mesma forma. A
subjetividade não se esgota em seus elementos individuais: o indivíduo
age sobre o mundo, relaciona-se, realiza, objetivamente, o que elaborou
subjetivamente.
A relação entre a dimensão subjetiva e o contexto histórico deve ser
considerada a partir do eixo básico de análise que é a historicidade, en­
tendida como processo contraditório: envolve indivíduos que pertencem
a classes sociais. A implicação é considerar o processo de alienação pro­
duzido socialmente que se apresenta, atravessado por mediações, na di­
mensão subjetiva da realidade.
Dimensão subjetiva de fenômenos sociais
A noção de dimensão subjetiva dos fenômenos sociais não se dife­
rencia da dimensão subjetiva da realidade, mas se inscreve na discussão
da Psicologia Social, tendo por base os mesmos pressupostos da dialéti­
ca subjetividade-objetividade, para permitir a delimitação do objeto da
Psicologia Social para a perspectiva sócio-histórica.
Na análise da relação indivíduo-sociedade, os mesmos pressupos­
tos são considerados. É necessário superar a dicotomia e compreender
os fenômenos sociais a partir da constituição histórica e social dos indi­
víduos e de sua subjetividade. Compreender o indivíduo é compreender,
ao mesmo tempo, a relação indivíduo-sociedade (superar a dicotomia).
Não há uma sociedade externa e independente dos indivíduos; não há
indivíduos a priori ou independentes da sociedade.
Essa compreensão está posta na delimitação do objeto da Psicologia
Social como sendo a dimensão subjetiva dosfenômenos sociais.
Isso implica buscar nos fenômenos sociais a presença de um huma­
no que é sujeito, com uma subjetividade processual, complexa e históri­
ca, afirmando a unidade dialética entre indivíduo e sociedade. E consi­
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 14$
derar que aquilo que identificamos como fenômeno social foi produzido
na relação dinâmica entre suas múltiplas determinações, em última ins­
tância suas bases objetivas e suas bases subjetivas, como dito acima. As­
sim, identificar o processo de constituição de um fenômeno social come­
ça por identificar sua produção social a partir da materialidade de suas
manifestações — identificando de quais lugares concretos surge, qual
sua posição na organização social da produção, na relação com diferen­
tes grupos sociais definidos por essa organização material. E continua
pela identificação dos vários níveis em que aparece e por meio dos quais
vai tomando corpo — instituições, valores, mais ou menos estruturados
e identificados. A análise deve ser das mediações que constituem o fenô­
meno social em questão.
Tal análise permite desvendar um processo do qual resultam pro­
dutos, objetivos e subjetivos. A dimensão subjetiva pode ser reconhecida
em produções diversas, e os recortes podem ser variados: representações
sociais, identidade social, ideologia, valores, rituais, hábitos, costumes,
leis e regras. São produtos coletivos, nos quais se percebe a participação
de sujeitos e a presença de subjetividades, ou seja, uma dimensão subjeti­
va da realidade.
Dessa maneira, incorporam-se as noções básicas da Psicologia Só­
cio-Histórica à compreensão da relação indivíduo-sociedade, procurando
superar os limites ontológicos e epistemológicos, os quais estabeleceram
as dicotomias que resultaram em perspectivas psicológicas e sociológi­
cas nessa área. Ambas as perspectivas terminam por naturalizar os pro­
cessos sociais. A proposta aqui é incluir a historicidade na análise dessa
relação. Em termos ontológicos, recupera-se o lugar do indivíduo como
sujeito, mas sujeito histórico. Em termos epistemológicos, aponta-se a re­
lação dialética entre subjetividade e objetividade, estendendo tal maneira
de conceber a relação, por ser uma concepção metodológica, para a com­
preensão da relação indivíduo-sociedade.
Essa preocupação é a mesma que expõe González Rey (2003, 2004)
quando apresenta a noção de subjetividade social. Diz ele da necessidade
de superar a naturalização e de perceber a imbricação entre indivíduo e
sociedade na produção da subjetividade.
146 BCK K • GONÇALVES
(...) Na minha opinião, trata-se de compreender que a subjetividade não é
algo que aparece somente no nível individual, mas que a própria cultura
dentro da qual se constitui o sujeito individual, e da qual é também cons­
tituinte, representa um sistema subjetivo, gerador de subjetividade. Temos
de substituir a visão mecanicista, de ver a cultura, sujeito e subjetividade
como fenômenos diferentes que se relacionam, para passar a vê-los como
fenômenos que, sem serem idênticos, se integram como momentos qualita­
tivos da ecologia humana em uma relação de recursividade. (...) Oconceito
de subjetividade social nos permite compreender a dimensão subjetiva dos
diferentes processos e instituições sociais, assim como o da rede complexa
do social nos diferentes contextos em que ela se organiza através da histó­
ria. (...) (González Rey, 2003, p. 78)
Partindo dessa visão de articulação dialética entre indivíduo e socie­
dade, o autor aponta a necessidade de delimitar a subjetividade social,
como forma de avançar na compreensão da realidade social. Sua produ­
ção teórica sobre a subjetividade tem como objetivo central identificar os
processos que, a seu ver, explicariam, definitivamente, as transformações
presentes no processo histórico. Ele identifica nas visões que desconside­
ram essa imbricação entre subjetividade individual e subjetividade so­
cial, na verdade, a negação das potencialidades dos sujeitos, o que come­
ça pela naturalização e termina por impor "verdades" que representam,
de forma camuflada, os interesses de quem está no poder. Sua proposta
é evidenciar, por meio da identificação das produções subjetivas, as po­
tencialidades postas na realidade pela presença de sujeitos.
A subjetividade afasta o dever ser de sua relação com o externo, com o
que está fora, que foi o princípio universal usado para legitimar a moral, o
direito, a política e todas as formas institucionalizadas de consciência so­
cial. Essas formas, em cada momento histórico, se apoiaram em sistemas
de sentido derivados da condição objetiva dos grupos de poder. Com isso,
as normas desenvolvidas a partir dessas instituições acabaram por ser sis­
temas de poder e de exclusão que, paradoxalmente e, apesar de sua forte
carga subjetiva, derivada de sua condição ideológica, se naturalizaram e se
converteram em padrões objetivos, reguladores do comportamento social.
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REALIDADE 147
E, finalmente, se transformaram em sistemas de controle social que negam
as necessidades de setores importantíssimos da população. (...) No entan­
to, a produção de sentido de uma população continua por baixo das apa­
rências comportamentais que ela é obrigada a adotar devido a controles e
pressões externas produzidas pelos mecanismos de poder. (González Rey,
2004, p. 54 e 55)
A partir de formulações como essa, González Rey aponta vários
pontos de articulação entre a subjetividade individual e a subjetividade
social e os vários aspectos que podem e devem ser considerados para se
garantir uma apreensão da subjetividade que respeite suas característi­
cas básicas.
Na mesma direção, apresentamos a noção de dimensão subjetiva de
fenômenos sociais como uma maneira de situar o objeto da Psicologia So­
cial que respeita a compreensão sócio-histórica (ou histórico-cultural para
González Rey) de sujeito e subjetividade.
Essa conceituação parte da compreensão de que a subjetividade é
individual, mas constituída socialmente. Os elementos presentes na sub­
jetividade decorrem de capacidades individuais, relativas às possibili­
dades de registro das experiências vividas. Mas se constituem e se confi­
guram a partir de um processo objetivo, social, com conteúdo histórico.
Por outro lado, a subjetividade não se esgota em seus elementos indivi­
duais, porque o indivíduo age sobre o mundo, relaciona-se com outros
indivíduos, realiza, objetivamente, o que elaborou subjetivamente. Onde
começa e onde termina, nesse caso, o que é subjetivo e o que é objetivo?
E o que é individual e o que é social? Por isso falamos em dialética subje­
tividade-objetividade.
De qualquer modo, dissemos que há uma especificidade no objeto
da Psicologia Social, que procuramos apontar com a formulação de que
essa área deve tratar da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais. Com
isso, estamos nos referindo às construções da subjetividade que também
são constitutivas desses fenômenos.
Entendendo que o objeto da Psicologia Social é a dimensão subjeti­
va dos fenômenos sociais, podemos apontar alguns exemplos do que en-
14fl HCX K • GONÇALVES
tendemos por fenômenos sociais. E aí já está posta a compreensão sócio-
-histórica, ou seja, a identificação dos fenômenos sociais parte da noção
de que há um processo material e contraditório que configura aspectos
da realidade como fenômenos sociais.
Uma maneira de configurar os fenômenos sociais na sua articulação
com as características do capitalismo é reconhecer a existência da questão
social, o que só se torna possível, ou de certa forma se impõe como uma
necessidade, no capitalismo. Nas palavras de Castel (2000, p. 238):
(...) uma aporia fundamental, uma dificuldade central, a partir da qual uma
sociedade se interroga sobre sua coesão e tenta conjurar o risco de sua fra­
tura. É, em resumo, um desafio que questiona a capacidade de uma socie­
dade de existir como um todo, como um conjunto ligado por relações de
interdependência.
A identificação da questão social traria a possibilidade de "(...) saber
quem estabelece a coesão e em que condições ela se dá numa determinada
sociedade" (Wanderley, 2000, p. 56), análise desenvolvida, por exemplo,
por Wanderley (2000), que aponta suas especificidades na América Lati­
na, e por Castel (2000), que apresenta as transformações da questão social ao
longo do capitalismo. Compreendida de maneira indissociada da contra­
dição fundamental da sociedade capitalista, a contradição capital-trabalho,
a chamada questão social, pode nos remeter à identificação de processos de
sustentação, também contraditória, das relações sociais, no interior das
quais se reconhece a dialética subjetividade-objetividade.
Tendo isso por base, é possível dizer que o processo contraditório
do capitalismo atual implica, na contemporaneidade, três características
básicas para a questão social: 1) a desestabilização dos estáveis; 2) a ins­
talação da precariedade e o desenvolvimento da cultura do aleatório; 3) o
surgimento dos sobrantes (Castel, 2000), com a produção de indivíduos
desfiliados. A partir disso, a questão social configura-se como um conjunto
de fenômenos sociais, com características que condicionam determinadas
experiências para os sujeitos.
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA REAt IDADE
Há uma concepção de indivíduo atrelada a essas situações, de deses-
tabilização, precariedade, desfiliação. Resumidamente o indivíduo "des­
cartável": não está preso a nada, tudo que vive é temporário, não faz falta
à sociedade. Essa identificação nos leva a apontar que há uma dimensão
subjetiva na questão social.
Como outro elemento da questão social contemporânea, pode-se
identificar a contraposição: direitos x mercado. Quando se fortalece o se­
gundo em detrimento do primeiro, o que se tem é a realização de uma
concepção de indivíduo que vale pelo que tem e não pelo que é. Há uma
dimensão subjetiva nessa relação produzida socialmente: indivíduos não
se reconhecem como sujeitos de direitos.
Outro elemento refere-se às formas de inserção e participação social.
Indivíduos que recebem benefícios, sem nenhuma possibilidade de de­
cidir sobre isso, são negados também como sujeitos (ver Paugam, 1999).
Isso será vivenciado e produzirá efeitos de subjetivação que terão seus
desdobramentos. Há aí uma dimensão subjetiva.
Alguns outros exemplos de análise de fenômenos sociais podem aju­
dar a avançar na compreensão que aqui se defende.
A desigualdade social (talvez nossa mais importante questão social),
que tem caracterizado nossa sociedade, tem sido estudada em várias de
suas dimensões: econômica, sociológica, jurídica, antropológica e outras.
A dimensão subjetiva tem sido relegada, e a Psicologia Social tem contri­
buído pouco para que essa dimensão tenha visibilidade.
A dimensão subjetiva da desigualdade social está posta na presença
dos sujeitos, presença essa que caracteriza e constitui o fenômeno. Não
se pode estudar a desigualdade social como se ela existisse apenas para
além e fora dos sujeitos que se relacionam e constroem a desigualdade.
Evidentemente, a desigualdade é produzida pela divisão da sociedade
em classes, pela divisão desigual da riqueza produzida, pela determina­
ção de lugares diferentes a serem ocupados por diferentes grupos sociais
na organização que define as formas de produção e distribuição de ri­
quezas. Nesse sentido, podem-se apontar aspectos da realidade, como a
distribuição desigual da riqueza, como a base material da desigualdade.
150
BOCK • GONÇALVES
Mas essa distribuição acontece e se reproduz cotidianamente pela atua­
ção de sujeitos, os quais, além de desenvolver uma atividade delimitada
pelas relações concretas e objetivas, também desenvolvem atividade sub­
jetiva. Produzem ideias e valores que representam a realidade vivida e
que compõem essa mesma realidade, porque são sujeitos que produzem
subjetividade, na dialética já apontada.
Os processos sociais que implicam produção de alienação e ideolo­
gia estão presentes aqui e também se tornam mediações constitutivas da
dimensão subjetiva desse fenômeno. Ou seja, a produção subjetiva está
articulada às condições objetivas em que se dá e nas quais opera e resul­
ta em produtos, tais como a ideologia, reveladores desse processo. Tais
processos e condições objetivas estão constituídos com base nas contra­
dições, por isso a dimensão subjetiva do fenômeno social será também
contraditória.
Compreender a relação indivíduo-sociedade no mundo desigual tor­
na indispensável que se compreendam os indivíduos que se fazem pre­
sentes e ativos na produção da desigualdade e que se compreendam os
produtos coletivos que esses “sócios" criam e que vão caracterizando a
realidade social que adjetivamos como desigual. A vivência, quase nun­
ca explícita, mas tomada como natural, da subalternidade é exemplo dis­
so. Indivíduos que estão em lugares desiguais se põem como "acima" ou
"abaixo" uns dos outros sem que isso esteja posto em questão.
A Psicologia Social deve, assim, ao estudar o fenômeno da desigual­
dade social, por exemplo, buscar a presença do sujeito, afirmando a uni­
dade dialética entre indivíduo e sociedade.
Conceitos como humilhação social (Gonçalves Filho, 2007,2004,1998)
ou sofrimento ético-político (Sawaia, 1998) são importantes sistematiza­
ções que caracterizam a dimensão subjetiva das situações de dominação
e desigualdade sociaL Há sujeitos que sentem e com suas formas de sen­
tir constituem a realidade social da desigualdade. Há sentidos subjetivos
constituídos; há significados partilhados e todos eles são também aspec­
tos do fenômeno. Não se quer aqui pensar esses aspectos como mera con­
sequência de situações sociais de desigualdade, pois eles não o são. São,
ao contrário, aspectos que compõem o fenômeno da desigualdade, que
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 151
só se apresenta como tal porque sujeitos participam de sua constituição,
com seus sentimentos, ações, formas de pensar e de sentir.
Sabe-se hoje que os sujeitos, que ocupam diferentes lugares nas re­
lações sociais desiguais, têm participações distintas na esfera social. Há
sujeitos doadores e há sujeitos receptores; há os que têm propriedades e
os que não as tem; há os que se pensam desiguais porque tomam o outro
como o padrão ou modelo. Formas diferentes de sentir e de pensar cons­
tituindo relações de submissão. São formas reveladoras, ao mesmo tem­
po, de possibilidades contraditórias, considerando a tensão permanente
entre a alienação produzida nos esquemas sociais que isolam e apartam
os indivíduos, naturalizando fenômenos históricos, por um lado, e, por
outro, a presença de indivíduos vivos que geram sentidos subjetivos. É a
dimensão subjetiva do fenômeno social que precisa ter visibilidade para
que se compreenda de forma mais complexa e completa o fenômeno so­
cial que se estuda, em seu processo contraditório de constituição.
A Psicologia Social deve ultrapassar sua tradição de nomear objetos
ou reproduzir, no seu campo, leituras construídas em outras áreas do sa­
ber que, apesar de importantes, descaracterizam a especificidade da Psi­
cologia, para contribuir com explicações que dão visibilidade à presença
do sujeito na construção dos fenômenos coletivos.
A configuração da violência como fenômeno social deve também con­
siderar os mesmos pressupostos. É preciso reconhecer a produção do fenô­
meno a partir da materialidade e da historicidade das relações sociais.
A dimensão subjetiva nesse fenômeno social também deve ser vista da
perspectiva da dialética subjetividade-objetividade e indivíduo-socieda­
de. As visões naturalizantes culpabilizam os indivíduos pelos problemas
sociais ou apontam certo esquema social abstrato como responsável por
"desvios" dos indivíduos.7A visão sócio-histórica aponta a complexida­
de do fenômeno, que inclui uma dimensão subjetiva na qual se imbricam
aspectos subjetivos individuais que constituem os fenômenos sociais; as­
pectos objetivos dos quais se apropriam os indivíduos e que constituem
7. Tais análises são bom exemplo da dicotomia indivíduo-sociedade presente na Psicologia So­
cial, à qual já nos referimos anteriormente.
152 BOCK • GONÇALVES
sua subjetividade; e aspectos subjetivos que já estão incorporados à ob­
jetividade e dela fazem parte.
Por exemplo, a dimensão cultural da violência, ou seja, a violência
como valor que perpetua as relações da sociabilidade cotidiana de cer­
tos grupos e de certas comunidades, é um produto subjetivo social; é a
dimensão subjetiva presente no fenômeno social da violência. Seria um
desafio para a Psicologia encontrar mecanismos de reversão de um con­
texto social em que há socialização para a violência.8
Os estudos de Coimbra (2001) a respeito da produção ideológica
realizada pela mídia sobre as "classes perigosas" mostram-nos, com cla­
reza, que as noções de violência são produzidas socialmente. O domínio
da elite sobre a mídia facilita a expansão de seus conceitos para toda a
sociedade e esse processo vai produzindo "certezas" e critérios de julga­
mento sobre quem é violento ou o que é violência em nossa sociedade,
atingindo, como mostra Coimbra, em especial, a camada pobre da socie­
dade que passa a ser vista como "classe perigosa".
Pensar (...) como certas subjetividades tão presentes no cotidiano das gran­
des cidades brasileiras — aplausos e apoios aos extermínios e chacinas,
aos linchamentos, à pena de morte e às mais diferentes violações de direi­
tos humanos — são construções competentes e eficazes advindas de dife­
rentes equipamentos sociais, é um dos objetivos deste trabalho. (Coimbra,
2001, p. 18)
Outro aspecto importante do tema da violência é que, quando não nos
detemos na compreensão da dimensão subjetiva dos fenômenos, deixamos
de diferenciar situações e sujeitos que, em diferentes cenários, produzem
ações com intenções diversas, mas que nossa superficialidade e ideologia
reúnem sob o mesmo título. Assim, pessoas que lutam pela sobrevivência
combatendo adversidades se misturam, nos conceitos de violência, com
8. Ver no relatório do I Seminário de Psicologia e Políticas Públicas, do Conselho Federal de Psi­
cologia (2001), a fala de Luís Flávio Sapori, com uma análise sobre segurança pública a partir desse
viés das relações de sociabilidade.
A DIMENSÃO SUBIETIVA DA KfALIDADE 153
representantes do Estado que abusam da autoridade e da força em nome
de uma "ordem" suoosta e imposta a todos. A violência vista sem consi­
deração aos determinantes sociais, econômicos, antropológicos e psicoló­
gicos é pura ideologia. À Psicologia Social cabe contribuir para a análise
completa e complexa do fenômeno, dando visibilidade a aspectos que são
de natureza subjetiva, no âmbito individual e/ou coletivo.
O desafio nestas construções teóricas é exatamente escapar do vício
da dicotomia. É preciso pensar sujeito e sociedade (fenômenos sociais)
se constituindo em um mesmo processo, no qual existem estes dois âm­
bitos, que são fundamentais para a compreensão da totalidade do real.
Outro desafio é conhecer o fenômeno em seu processo histórico de cons­
tituição. A realidade não está dada; ela está em movimento e deve ser
conhecida na sua dialética. Os sujeitos e a sociedade são construídos em
um único processo.
Por que defender visões históricas?
Se não há conhecimento neutro, há que se fazer escolhas.
A defesa que se faz aqui de visões que não naturalizem os fenôme­
nos sociais tem um de seus argumentos mais fortes no projeto de uma
Psicologia que se ponha efetivamente comprometida com as urgências
de nossas sociedades de Terceiro Mundo. Nada está dado; nada é imutá­
vel; tudo pode e deve ser modificado pelos humanos que partilham um
tempo histórico. A Psicologia pode e deve reforçar ideias que permitam
aos sujeitos se pensarem como ativos, sociais e históricos, responsáveis
pelo seu tempo e pelas condições de vida.
As perspectivas históricas permitem acreditar que não há um único
modo verdadeiro de se estar no mundo. Há muitas possibilidades, pois
o humano está em permanente construção.
Permitem-nos ainda nos pensarmos como responsáveis pelo mundo
que temos; construímos ou reconstruímos o mundo todos os dias com
nossas ações, nossas ideias, nossos afetos. A forma como pensamos e
154
BOCK • GONÇALVES
agimos constitui o mundo da forma como se encontra. Somos responsá­
veis pelo mundo que temos e podemos querer que seja diferente.
É neste campo que se coloca a ideia de projeto. Para que se possa
estar no mundo de modo responsável é preciso escolher que projeto de
sociedade e de humano desejamos incentivar com nossas explicações e
com nossos fazeres profissionais.
Anoldo Rodrigues pensou a ciência como algo à parte da política, da
ação cidadã de cada um. Aqui se pensa a ciência como sempre comprome­
tida com algum projeto que circula na sociedade. A Associação Brasileira
de Psicologia Social nasce guiada por esta outra perspectiva.
Infelizmente não produzimos até hoje conhecimento científico radicalizado
na reflexãosobre nossa própria realidade social e, emdecorrência, continua­
mos a importar teorias psicológicas nem sempre aplicáveis. Adependência
cultural temse refletido até mesmo nos temas mais frequentes da investiga­
ção da Psicologia Social, geralmente escolhidos sem qualquer preocupação
com aspectos de relevância ou aplicabilidade ao contexto brasileiro. Assim
(...) não temos utilizado esta ciência para responder às questões sociais es­
pecíficas do momento histórico que vivemos. (Anais do I Encontro Nacio­
nal de Psicologia Social, apud Lane, 1981, p. 84)
E como se pensa o sujeito como ativo, social e histórico, se acredi­
ta na sua possibilidade de escolha, ou seja, de adesão a um dos projetos
em circulação e disputa nos espaços sociais. A ciência não é ingênua e
deve, pois, explicitar seus pressupostos e suas concepções de homem e
de mundo para que se possa dialogar com seus saberes tanto do ponto
de vista da lógica de suas ideias, quanto do projeto social que incentiva
e ajuda a desenvolver.
Finalizamos com Lane, que reconhecemos como importante referên­
cia neste caminho. Ao afirmar que toda a psicologia é social, defendendo
que se assuma a natureza histórico-social do ser humano, conclui:
"Porém, agora, a Psicologia Social poderá responder à questão de
como o homem é sujeito da História e transformador de sua própria
vida e da sua sociedade, assim como qualquer outra área da Psicologia".
(Lane, 1984, p. 19)
A DIMENSÃO SUBJETIVA DA REALIDADE 155
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. " ■ ■ ù c ri., r_.
J_VjJÛ L JlL_-— — — ’
Psicologia na comunidade*
Alberto Abib Andery
Psicologia na Comunidade é uma expressão relativamente
nova em nosso meio. Nela, a palavra comunidade vem sendo usada
para designar a instrumentalização de conhecimentos e técnicas
psicológicas que possam contribuir para uma melhoria na qualidade
de vida das pessoas e grupos distribuídos nas inúmeras aglome­
rações humanas que compõem a grande cidade.
£ um nome que procura captar um movimento da Psicologia
atual de paulatino distanciamento do seu locus tradicional: a sala de
experimentos ou de discussões puramente acadêmicas; a ante-sala
da gerência executiva das empresas industriais; o consultório parti­
cular centrado em atendimento unicamente individual.
£ um movimento de aproximação do cotidiano das pessoas
principalmente nos bairros e instituições populares onde a grande
parcela da população vive, organiza-se e cria seus canais de
expressão.
Essa busca de inserção da Psicologia na Comunidade parte da
descoberta de que, nessas situações e lugares, a presença ativa dos
conhecimentos psicológicos tem sido pouco freqüente, privando
indivíduos e grupos muito numerosos dos benefícios que a ciência
(*) Ao invés de concentrar, neste texto, a atenção no psicólogo,
preferiu-se falar da Psicologia na Comunidade, entendendo ser esta uma próxis
própria, mas não exclusiva, do psicólogo.
A interdisciplinaridade e a participação de pessoas da própria comuni­
dade são defendidas, neste texto, como integrantes dessa préxis.
204 ALBERTO ABIB ANDERY
deve proporcionar. Persistem ai velhos tabus, sobre Psicologia, que
podem assim ser denunciados. Mas é desse contato também que a
Psicologia enquanto ciência procura renovar-se nos seus conteúdos,
metodologia e técnica, tomando-se mais próxima de uma verdadeira
Psicologia Social.
Esse nome apareceu, por primeiro, na Inglaterra1 e nos
Estados Unidos2e, após, espalhou-se por vários países, inclusive o
Brasil, com aceitação bastante desigual.
A Psicologia na Comunidade não foi criada para designar uma
nova Escola de Psicologia nem uma nova teoria ou um novo “ismo”
de moda. Representa uma guinada para uma nova forma de pensar
e praticar a Psicologia, distinta da tradição dominante até o final
dos anos 50 deste século.
Na sociedade contemporânea, perturbada pelas mudanças
tecnológicas, culturais e sociais, é preciso tentar inserir a Psicologia
como uma forma de explicação, ajuda e mudança em prol da
sobrevivência do próprio homem. A Psicologia dos anos 50
isolava-se demais dos problemas coletivos do homem contem­
porâneo, encerrando-se numa torre de cristal da discussão mera-
mente acadêmica e do atendimento a poucas pessoas da elite
econômica. Pouco se preocupava por definir uma atuação verda­
deiramente social e constituir-se assim numa das ciências sociais
úteis para nossa época.
Para esse isolamento contribuiu a própria identificação da
área chamada Psicologia Social. Essa área de pesquisa e conhe­
cimento surgiu desde o início do século XX, mas sua maneira de
considerar o que vem a ser o social em Psicologia perturbou durante
meio século sua inserção na comunidade dos homens.
As correntes mais antigas definiram Psicologia Social como
estudo de comportamèntos instintivos: gregários, agressivos ou
outras condutas e emoções ligadas a fatores genéticos e hereditários,
e isoladas do contexto social mutável em que sempre reaparecem.
Em contraposição a essa corrente instintivista, surgiram os
experimentalistas, principalmente americanos, atomizando o estudo
dos comportamentos sociais através do esquema S-R abstrato e
(1) Ver Bender, Mike P., Psicologia da Comunidade, Col. "Curso Básico
de Psicologia", Ed. Zahar, 1978.
(2) Ver Korchin, Sheldon J., Modern Clinical Psychology. Principles of
Intervention in the Clinic and Community. Nova Iorque, Basic Books Inc.
1976.
A PRAXIS DO PSICÓLOGO 205
vazio de conteúdo social. Os comportamentos sociais passam a ser
descritos a nível apenas da aprendizagem de reações individuais a
estímulos proximais, abstraindo esses estímulos dos contextos mais
gerais: históricos, econômicos e culturais, em que, de verdade, estão
inseridos e dos quais ganham significado e sentido.
Essas tendências mais antigas da Psicologia Social, que hoje
são consideradas quase a-sociais, duraram mais de meio século, com
exceção talvez de um ou outro autor, como Kurt Lewin, prema­
turamente falecido em 1947. Só nos anos 70 é que essa Psicologia se
considera em crise como construção específica de um saber próprio e
busca, numa reaproximação às ciências histórico-sociais, sua nova
maneira de trabalhar o social em Psicologia.
É nesse contexto de crise34e redefinição* que a Psicologia na
Comunidade tem sua hora e vez e pode constituir-se até numa porta
aberta à reavaliação da Psicologia enquanto teoria e prática.
Numa recente resenha dos quinze anos de aparecimento da
Psicologia na Comunidade, o professor americano Sheldon J.
Korchin5 assim caracterizou os temas principais que marcam o
pensamento atual dos que trabalham na área da Psicologia na
Comunidade:
“1) Os fatores sócio-ambientais são muito importantes na
determinação e modificação de comportamentos.
2) As intervenções sócio-comunitárias (intervenções orien­
tadas para o sistema em contraste com intervenções orientadas para
as pessoas) podem ser eficientes tanto para tornar as instituições
sociais (por exemplo, a família, a escola) mais saudáveis quanto
para reduzir o sofrimento individual.
3) Essas intervenções deveriam visar mais a prevenção do que
o tratamento ou a reabilitação de desordens emocionais. Não só a
pessoa necessitada mas também a população-em-risco é a genuína
preocupação da Psicologia da Comunidade.
4) Essas intervenções deveriam ter como objetivo a melhoria
da competência social, mais do que a simples redução do sofrimento
psicológico. Programas orientados para o comunitário deveriam
acentuar mais o que é adaptativo do que o patológico na vida social.
(3) Ver Rodrigues, Aroldo e Schneider, Eliezer, in Arquivos Brasileiros
de Psicologia Aplicada, vol. 30, nf 4, 1978, 3-25.
(4) Ver Lane, Silvia T. M.. in EducaçSo e Sociedade, n? 6, 1980.
(5) Op. cit., pp. 474-475.
206 ALBERTO ABIB ANDERY
5) A ajuda é mais eficaz quando obtida na proximidade dos -
ambientes em que os problemas aparecem. Portanto, os clínicos da
comunidade deveríam trabalhar em ambientes familiares próximos
das pessoas necessitadas, antes que em locais social e geografi­
camente afastados delas.
6) As clinicas da comunidade deveriam ir ao encontro dos
clientes, antes que ficar passivamente à espera de que eles o
procurem profissionalmente. Sua atuação profissional deveria ser
flexível, facilmente acessível no local e tempo onde a necessidade
surge e oferecida numa atmosfera que reduza, ao invés de
aumentar, a distância social entre o profissional c a pessoa ajudada.
A ajuda deveria ser acessível àqueles que dela necessitam e não só
aos que a procuram.
7) A fim de empregai recursos de fácil acesso e aumentar seu
ímpeto potencial, o profissional deveria colaborar com os recursos
humanos da comunidade (responsáveis locais) e empregar traba­
lhadores associados não-profissionais. O trabalho do profissional
pode envolver mais consultoria do que atendimento direto.
8) Exigências do papel tradicional e normas costumeiras
profissionais devem ser abrandadas. O exercício da profissão na
comunidade exige uma programação imaginosa e novos modelos
conceituais; as inovações devem ser estimuladas.
9) A comunidade deveria, se não controlar, ao menos parti­
cipar do desenvolvimento e execução dos programas formulados,
levando em conta as necessidades e preocupações dos membros da
comunidade.
10) Problemas de saúde mental deveriam ser encarados de
maneira mais abrangente do que restrita, desde que eles se entre­
laçam com muitas outras facetas do bem-estar social tais como o
emprego, habitação e educação. Para obter eficiência máxima, os
programas de saúde mental da comunidade deveriam ocupar-se com
uma faixa de problemas sociais a mais ampla possível.
11) A educação do público para compreender a natureza e as
causas dos problemas psicossociais e os recursos disponíveis para se
lidar com esses problemas é uma tarefa valiosa.
12) Desde que muitos problemas de saúde mental relacio­
nam-se com uma ampla faixa de carências sociais, tais como
pobreza, racismo, densidade urbana e alienação, carências essas
que estão fora do alcance das intervenções dos profissionais, o
psicólogo da comunidade deveria ser orientado para a promoção e
facilitação das reformas sociais.
A PRÁXIS DO PSICÓLOGO 207
13) Para desenvolver o conhecimento necessário para uma
intervenção com o adequado conhecimento de causa, a Psicologia da
Comunidade requer a contribuição das abordagens e pesquisas ao
natural e ecológicas".
Essas características da Psicologia na Comunidade mostram
que essa pr&xis se afasta nas suas pesquisas e intervenções do assim
dito neutralismo do cientista e profissional em Psioologia.
Esse postulado de neutralismo já tinha sido derrotado pela
constatação de que a ciência, enquanto construção histórica e
social, não é neutra nas suas motivações nem na escolha de seu
objeto de estudo. Não é neutra nas suas alianças com as forças
econômicas e políticas atuantes na Sociedade.
A Psicologia na Comunidade pretende aproximar-se das
classes populares, ajudando-as na conscientização de sua identidade
psicossocial de classes submissas e dominadas, como primeiro
passo para uma superação dessa degradante situação de submissão.
Surgindo numa época em que a interdisciplinaridade das
ciências sociais e humanas é valorizada, em que o labor educativo é
tido como primordial na atuação social, a Psicologia na Comu­
nidade procura difundir-se através do trabalho do psicólogo e de
outros profissionais envolvidos com trabalho educativo e social.
Valoriza o trabalho educativo conscientizador e reconhece,
pioneiros e mestres, autores que não são profissionalmente Psicó­
logos. Nesse rol, inclui-se necessariamente Paulo Freire, um dos
brasileiros que destacou na Psicologia a metodologia da alfabeti­
zação das massas. O método Paulo Freire6 não é só uma técnica
pedagógica de alfabetização, mas constitui-se num modelo de
trabalho de aproximação às classes populares. Mostra para o psicó­
logo o que se pode fazer em prol da conscientização e da redes-
coberta do valor dos indivíduos submetidos a prooessos seculares de
dominação e alienados de sua própria cultura. Articula as forças
vivas de resistência, de reação, crescimento e libertação dos grupos
sociais populares.
A Psicologia na Comunidade deverá assim colocar os recursos
da Psicologia em prol do processo de libertação. Cabe à Psicologia
na Comunidade trabalhar nos indivíduos e grupos a visão de
mundo, a autopercepção enquanto pessoas e grupos; reavaliar
(6) Ver Brandão, Carlos R., O que é Método Paulo Freire, Ed.
Brasiiiense, 1981.
208 ALBERTO ABIB ANDERY
hábitos, atitudes, valores e práticas individuais e coletivas, familia­
res e grupais, no sentido de uma consciência mais plena de classes e
de destino.
Para a Psicologia na Comunidade, o impulso de sair dos
consultórios e das gerências das empresas e ir para os bairros
populares, e sua opção maior por indivíduos e grupos das classes
populares, ao invés da clientela tradicional da classe média alta,
significam redirecionar as pesquisas, descobrir novas técnicas de
atuação e até reescrever, a partir do observado e vivido, muitas das
teorias psicológicas. Nesse sentido, a Psicologia na Comunidade
pode vir a ser uma nova maneira de fazer Psicologia que,
dialeticamente, nega seu passado para reconstruir-se, aproveitando
elementos desse passado e do presente para constituir-se numa
práxis e numa nova ciência psicológica, verdadeiramente, Psicologia
Social.
Visões divergentes
Essa visão social e dialética da Psicologia na Comunidade não
é unanimemente partilhada por todos os que atualmente a ela se
dedicam.
Há os que visualizam apenas uma atuação, na comunidade,
benevolente e caritativa, nas horas vagas, em prol das classes
desvalidas, que são consideradas e chamadas de “classes mais
baixas".
A Psicologia seria aplicada, nos bairros e instâncias popula­
res, com maior intensidade e freqüência do que, até hoje, os
psicólogos o fazem, xnas, numa prática assumida, explicitamente,
como remediativa e superficial. Não há nessa visão de Psicologia na
Comunidade nenhum questionamento da Psicologia em si mesma,
de suas alianças históricas, de seus constructos e teorias já prontos.
Não se pensa em inovações técnicas nem se admitem novas visões
teóricas. Muito menos reavaliam-se alianças já feitas com as classes
dominantes.
O exemplo acabado dessa visão é a tentativa de reprodução
das clinicas psicológicas nos bairros populares, sem alterações dos
procedimentos e rotinas consolidadas nas clinicas tradicionais de
atendimento à burguesia. Simplificam-se os móveis, elaboram-se
orçamentos de despesa e receita mais modestos mas nada se altera
A PRÁXIS DO PSICÓLOGO 209
do que se entende ser: a relação terapeuta-cliente, técnicas de
atendimento já prontas, parâmetros de julgamento e de diagnóstico.
Essa visão de Psicologia na Comunidade mereceria mais o
título de Psicologia Populista e assistencialista e nada influirá nas
mudanças sociais e na estrutura de relacionamento atual das classes
sociais. Pode até retardar mais um pouco qualquer mudança dessa
natureza.
Outra visão de Psicologia na Comunidade, perniciosa aos
meios populares, é aquela que pretenderia formar psicólogos
inseridos nos bairros e instituições populares na qualidade de
controladores morais dos hábitos e comportamentos desviantes.
Pensou-se até em formar psicólogos na Comunidade para controle
social dos toxicômanos, criminosos e demais desvios estigmatizados
pelos códigos morais vigentes, incluindo-se aí homossexuais, desem­
pregados e menores abandonados. O psicólogo seria uma extensão,
no bairro, do braço policial e, sem armas, usaria as armas das
técnicas psicológicas de controle e repressão. Nem todas as
propostas nesse sentido obedecem rigidamente ao exposto acima e
há matizes de proposição.
Parece que não há muito que discutir sobre uma proposta
assim direcionada, reduzindo a função social do psicólogo e de
outros profissionais da área de humanas a meros guardiães da
ordem instituída, sem nenhum questionamento dos fatores sociais
que levam aos assim chamados comportamentos desviantes.
Uma terceira visão apontaria para um ativismo político-
partidário, nos bairros populares, sob o nome de Psicologia na
Comunidade.
Ao invés de profissionais preocupados com o crescimento das
práticas educativas e de conscientização e libertação, os ativistas
partidários poderíam, sob o manto da Psicologia, impor seus
partidos políticos e recrutar seus grupos ou tendências de apoio
partidário.
Uma proposta assim pode ser catalogada, sem mais, de
rnaquiavelismo da pior espécie, não servindo, nem aos ideais da
Psicologia na Comunidade, nem ao desenvolvimento de uma verda­
deira Política Popular de superação das raizes de dominação
cultural, social e econômica a que as classes populares estão
submetidas. Só, comojá foi dito, um trabalho educativo e conscien-
tizador, a longo prazo, pode levar essa população, por própria
iniciativa, a traçar para si os caminhos de libertação.
210 ALBERTO AB1B ANDERY
A importância da sinalização, aqui, dessa terceira visão de
Psicologia na Comunidade reside no fato que, infelizmente, é assim
que são vistos, às vezes, todos os profissionais, indiscriminada­
mente, que se empenham nessa práxis social que é a Psicologia na
Comunidade.
Embora a maioria absoluta desses profissionais, envolvidos
seriamente com a implantação da Psicologia na Comunidade,
condenem essa visão maquiavélica, muitas vezes acabam sendo
acusados como agentes dessas mesmas práticas oportunistas por
aqueles que ainda se mostram incapazes de entender qual é
verdadeiramente a proposta da Psicologia na Comunidade.
Experiências em psicologia na comunidade
A Associação Brasileira de Psicologia Social — ABRAPSO
organizou em 1981, em São Paulo, um Encontro Regional para
debater as experiências em curso, em nosso meio, sobre Psicologia
na Comunidade.78
Diversos profissionais — assistentes sociais, educadores,
médicos, sociólogos e principalmente psicólogos — relataram,
nesse encontro, experiências, em andamento, de pesquisa e atuação
em bairros e em instituições populares.
Outras publicações brasileiras ressaltam a existência de expe­
riências de Psicologia na Comunidade em outros paises da América
Latina que, por semelhança às nossas condições históricas, políticas
e sociais, mais se aproximam das experiências brasileiras.'
Este breve relato mostra as direções que têm tomado essas
experiências que podem ser resumidas nas categorias gerais
descritas a seguir.
(7) Ver Anais de /.* Encontro Regional de Psicologia na Comunidade,
São Paulo, 1981 (mimeo da ABRAPSO). Endereço para corresp.: Rua Ministro
Godoy, 1029,3T, s. 326; CEP 06015, São Paulo, SP.
(8) Cadernos PUC n? 11 — Psicologia, "Reflexões sobre a Prática da
Psicologia", Ed. Cortez/EDUC, 1981.
Na Argentina, nos anos 60-70, vários autores destacaram-se, nessa
práxis, publicando vários livros, como Bleger, J., Psicohigiene y Psicologia
Institucional (ver cap. 3, "El Psicólogo en la comunidad"), Buenos Aires, Ed.
Paidos.
A PRAXIS DO PSICÓLOGO 211
Experiências na área da saúde mental da popolapki
Alguns psicólogos e outros profissionais detiveram-se na
questão da saúde mental da população da periferia das grandes
cidades.
£ nesse segmento populacional que se constatam graves
fatores de desgaste ou stress emocional ligados a péssimas condições
de habitação, alimentação, emprego e salários.
£ aí na periferia que procuram um teto as correntes
migratórias que vêm do campo para a cidade, perdendo suas raízes
culturais próprias e impedidas de criar novas raízes, devido ao
fenômeno de tum-over ou pouca permanência de contrato de
trabalho nas empresas, comércio e serviços na cidade. Mal se
estabelecem num bairro são obrigadas, por razões de desemprego,
a procurar outro local de residência, na maioria das vezes em
favelas, quando a situação econômica fica quase insuportável.
Nos hospitais psiquiátricos dessas cidades, os leitos são mais
freqüentemente ocupados por pessoas que, morando em bairros
populares, estão sujeitas ao desgaste emocional e não têm, antes da
crise, acesso aos recursos do atendimento psicológico.
A Psicologia na Comunidade tem trabalho, face a esse
problema da saúde mental da população-em-risco, em dois campos
distintos: de um lado, há, desde os anos 70, a tentativa de criação de
Centros Comunitários de Saúde Mental nos bairros de periferia.
Nesses centros a questão de saúde mental é discutida e trabalhada
junto a essa população.
As experiências em geral são feitas por equipes roultidis-
ciplinares e têm oscilado entre um atendimento convencional a
indivíduos com queixas de teor emocional e trabalhos educativos
sobre saúde mental junto a pais, famílias, escolas e associações
locais de moradores ou associações religiosas presentes no bairro.
Outra atuação nessa área tem sido a luta pela presença de
profissionais da área psicossocial em Centros ou Postos de Saúde,
geridos pelo Governo do Estado ou do Município, fazendo equipe
com os médicos e enfermeiras dessas unidades. Esse atendimento
psicossocial tem variado também conforme a mentalidade real
dessas equipes multidisciplinares e os tipos de ordens que são
emanadas das chefias superiores, ainda hoje, quase que exclusi­
vamente, em mãos de psiquiatras. Nem sempre essas chefias estão
afinadas com os ventos novos que sopram na sua área, e as
212 ALBERTO ABIB ANDERY
propostas de psiquiatria na comunidade e alternativa, em nosso
meio, são ainda mais literatura do que prática usual.9
Uma das deficiências nessas experiências em curso, nos
Centros Públicos de Saúde, é o pouco tempo de duração dessa nova
prática e a contratação de profissionais não ainda familiarizados
com as propostas de uma Psicologia e uma Psiquiatria na Comu­
nidade. Sem um preparo acadêmico anterior adequado, alguns
desses profissionais acabam convertendo-se, nesses Centros de
Saúde voltados à Saúde Mental da População, em repetidores de
uma práxis psicológica inadequada e tradicional. Esse fracasso só
vem a reforçar a linha psiquiátrica tradicional, que propõe, para os
assim chamados doentes mentais, um tratamento apenas medica­
mentoso e de internação, nos velhos hospitais psiquiátricos, mais
voltados para o lucro do que para uma política de saúde mental da
população.
A contratação de um número grande de profissionais para
atuarem nesses Centros de Saúde é uma das bandeiras de luta hoje
dos psicólogos e de seus órgãos de representação de classe: o sindi­
cato e o Conselho Regional de Psicologia, como o é a exigência de
um preparo acadêmico mais refinado para condução da práxis de
Psicologia na Comunidade nesses Centros e Postos de Saúde
Públicos.
Essa contratação não só responde aos interesses da população
dos bairros como também é uma solução para o problema de
sustentação econômica desses profissionais da área psicossocial
dedicados à saúde mental das classes populares.
Fica portanto claro que essa linha de atuação só poderá
desenvolver-se em nosso meio se os conteúdos das disciplinas
psicológicas e psiquiátricas em nossas faculdades universitárias
prepararem os alunos através da discussão aprofundada dos fatores
sociais que atuam efetivamente nos problemas de saúde e doença
mental da população. É preciso ainda, nesses cursos, a apresentação
de um novo modelo de atuação profissional, que se coadune com os
princípios e objetivos da Psicologia na Comunidade. Esse modelo
deve substituir a mera medicalização a base de remédios quimio-
terápicos ou internação hospitalar. Urge o desenvolvimento de
atividades psicossociais e educativas que levem à modificação das
(9) Ver Caplan, Gerard B., Princípios de Psiquiatria Preventiva, Ed.
Zahar, 1980. Ver também Serrano. Alan l„ Psiquiatria Alternativa, Ed.
Brasiliense. 1981.
A PRAXIS DO PSICÓLOGO 213
situações ambientais e pessoais, geradoras de desgaste e stress
nervoso e emocional.
Experiências em grupos de mulheres e de jovens nos bairros
Os bairros das grandes cidades têm pouca vivência comu­
nitária. Na maioria, são bairros meramente residenciais, bairros-
dormitório em que os trabalhadores apenas pernoitam, passando a
maior parte de seu tempo de vigília fora deles, na condução e na
empresa.
As exceções e essa regra constituem-se no grande contingente
de mulheres, que se obrigam a permanecer em suas casas, entregues
às tarefas de cuidado dos filhos menores e do lar, enquanto o
companheiro ou marido e filhos maiores entregam-se ao trabalho
assalariado nas empresas. Mesmo as mulheres, que devem suportar
a dupla jornada de trabalho: na empresa e no lar, são mais
facilmente contactáveis através do bairro, em que residem, do que
os homens com que convivem.
São algumas dessas mulheres que se organizam, em pequenos
grupos de convivência comunitária, em forma de clubes de mães,
associações de pais e mestres e grupos de aprendizado de artes
domésticas, ou ainda, nas reuniões religioso-comunitárias das
igrejas dos bairros.
Igualmente os adolescentes e jovens do bairro permanecem,
mais freqüentemente, durante o dia, nele, devido ao crescente
desemprego e falta de oportunidade de estudo, que afligem
principalmente essa faixa da população.
Alguns desses adolescentes e jovens associam-se em pequenos
grupos de quarteirão, de rua, de esportes ou de igreja. São
associações informais e de curta duração, na maioria das vezes.
As experiências, em Psicologia na Comunidade, têm privi­
legiado também a aproximação a esses grupos de mulheres e de
adolescentes e jovens para trocar conhecimentos sobre assuntos e
problemas os mais variados, como, por exemplo, educação dos
filhos, relações afetivas dos jovens e dos casais, problemas ligados à
prática sexual, questões que envolvem o futuro profissional, etc. São
temas que se demonstram extremamente úteis para fins de uma
práxis da Psicologia na Comunidade.
Não há só discussões, a nível verbal, mas montagens coletivas
de peças teatrais, que expressam o cotidiano da vida e as propostas
214 ALBERTO AB1B ANDERY
transformadoras desses grupos. Técnicas de dinâmica de grupo,
psicodrama, expressão corporal, sensibilização, desenvolvimento
organizacional têm sido testados e transformados, nas experiências
analisadas até agora.
Ê também nesses grupos que se pode levar um trabalho de
conscientização das condições adversas do bairro, como falta de
esgoto, de água potável, de luz, de creches ou escolas, de postos de
saúde, etc. Também se analisam as péssimas condições de
convivência e lazer e são ensaiadas novas atividades lúdicas e
educativas.
Como conseqüência dessas práticas de acompanhamento
desses grupos, houve um acréscimo, na tomada de consciência
dessas mulheres e jovens sobre os problemas sociais, presentes no
bairro, e como afetam a saúde física e mental da população. Essa
conscientização levou a ações organizativas e reivindicatórias, de
iniciativa desses grupos, obtendo resultados que marcam o início de
superação desses problemas sociais. A população quase que testa
suas próprias forças e descobre, surpresa, que elas são mais
poderosas do que imaginavam num primeiro tempo.
Um pequeno exemplo nesse sentido é a luta por creches que,
quando conseguidas no bairro, a partir de uma tomada de cons­
ciência e uma conquista junto ao poder público, podem beneficiar as
mulheres e as crianças do bairro e acabam consolidando um local a
mais de educação e aprendizagem de hábitos importantes para a
saúde mental dessa população.
É aqui que se situa também um pólo de tensão entre a postura
e visão política dos profissionais e a dos habitantes dos bairros. O
respeito aos interesses, valores, forças e opções dessa população é
um imperativo de um trabalho em Psicologia na Comunidade.
Caminhar com a população e não se sobrepor impositivamente a ela
ou dominá-la politicamente é uma das exigências para uma correta
atuação.
Experiências em instituições populares
Numa comunidade popular, há por vezes clubes culturais e
recreativos, centros de vivência de crianças e jovens, associações
jurídicas de moradores, associações religiosas, nas igrejas, que
podem beneficiar-se da presença de profissionais interessados em
A PRÁXIS DO PSICÓLOGO 215
ajudar essas instituições através de manuseio de conhecimentos e
técnicas psicológicas, que visam o desenvolvimento das pessoas e
grupos, atingidos por essas entidades populares.
Os aspectos institucionais, organizacionais e de relações
humanas dessas instituições podem ser objeto de diagnóstico e
intervenção de pessoas competentes. Essas pessoas podem ser os
próprios moradores e freqüentadores dessas instituições, uma vez
que tenham sido treinados e preparados para uma intervenção
eficaz.
Há ainda nessas organizações populares a necessidade de
ampliar seus horizontes para outros problemas sociais, culturais ou
políticos que, via de regra, escapam à sua percepção.
Atividades culturais, filmes, debates, visitas podem integrar
nesse caso o rol de atividades ligadas à prática da Psicologia na
Comunidade. A finalidade dessa atuação é abrir as perspectivas, a
compreensão e a capacidade da própria população de lidar satisfa­
toriamente com os problemas de qualidade de vida do bairro.
A importância das experiências em instituições populares
reside ainda na possibilidade de se configurar outra instância
jurídica — as instituições populares — que poderão contratar, do
mesmo modo que o Poder público, nos centros de saúde e escolas do
Estado, os serviços dos profissionais voltados à Psicologia na
Comunidade, respondendo assim à questão angustiante que se
fazem esses profissionais: quem pode remunerar tais trabalhos
comunitários?
£ verdade que no Brasil ainda não se criou uma consciência
comum, nessas instituições, da oportunidade e da importância
desses serviços ligados à Psicologia na Comunidade.
Só a intensificação dessa atuação, junto às instituições popu­
lares, pode criar essa consciência comum c criar padrões de
contrato e remuneração satisfatórios para ambas as partes, exi­
mindo os indivíduos pobres do bairro de arcar com essa obrigação
de sustentação condigna desses trabalhadores sociais.
Aqui se situam os sindicatos dos trabalhadores. Alguns deles
têm vigorosa expressão econômica, graças às contribuições obri­
gatórias que arrecadam da categoria. A verba amealhada é gasta
muitas vezes em serviços meramente assistenciais e recreativos sem
uma programação simultânea que leve à educação e à conscien­
tização dos trabalhadores sócios e suas famílias, residentes nos
bairros da periferia.
216 ALBERTO ABIB ANDERY
A luta pela criação de uma Psicologia na Comunidade passa
então por uma luta paralela de reconstrução contínua do movimento
sindical.
No Brasil, as distorções desse movimento são antigas e
estruturais, e cabe apoiar os movimentos operários e dos demaij
trabalhadores, que procuram dar aos seus sindicatos, reconquis­
tados através das eleições, uma nova legislação e uma nova prática
que alterem os vícios herdados dos regimes autoritários do passado.
Há experiências em outros países sobre programas formativos
patrocinados por sindicatos de trabalhadores que se coadunam
perfeitamente com os propósitos da Psicologia na Comunidade.10
Experiências nas escolas de 1? grau da rede pública
Nos bairros populares, a escola de 1? grau é quase sempre
uma das poucas instituições públicas, aí presentes, no cotidiano da
vida das pessoas.
A população que freqüenta essas escolas são crianças e
adolescentes, vivendo em famílias com enormes problemas de
sobrevivência, onde a cultura familiar tradicional entrou em crise e
não pôde mais reconstruir-se. Pai e mãe muitas vezes vivem quase
ausentes do lar, pelo dever de ganhar o salário, sem o qual as
crianças não podem sequer alimentar-se.
Essas crianças são submetidas pelos meios de comunicação
social e de propaganda a um bombardeio de anúncios que nelas
despertam sonhos inalcançáveis e também comportamentos reativos
de revolta e destruição. São ameaçadas pelo desejo de lucros do
comércio de tóxicos e das revistas de baixo nível cultural e porno­
gráficas.
A essas crianças e adolescentes, a educação familiar e escolar
propõe muitas vezes um futuro de aspirações profissionais ambíguas
e inatingíveis: sonha-se com as melhores carreiras da sociedade,
quando a dura realidade reserva, de fato, a elas, os últimos ofícios
da cidade.
Nessas escolas, os diretores e professores são, via de regra,
recrutados de maneira a mais burocrática e impessoal possível,
(10) Ver Freire, Paulo et alii. Vivendo e Aprendendo (cap. 2?,
especialmente), Ed. Brasiliense, 1980.
A PRAXIS DO PSICÓLOGO 217
através de complicados concursos de pronjoção e remoção, que
criam, freqüentemente, nas escolas, uma mobilidade permanente de
pessoal.
Os mestres nem sempre captam as condições reais de
existência dessas crianças e de suas famílias, por provirem de outros
estratos da população urbana, melhor, aquinhoados do que a
população da periferia. A rede oficial de ensino, com suas exigências
de uniformidade de procedimentos didáticos, desestimula os profes­
sores de planejar conteúdos e práticas realmente educativas para
essa população infantil e adolescente.
Cria-se assim um Impasse entre os objetivos ideais da escola e
a prática de ensino.
A presença da Psicologia na Comunidade, nessas circuns­
tâncias, é de extrema necessidade, não para se ocupar com uma
função burocrática de distribuição de tarefas didáticas, já prontas,
mas para captar c explicitar o descompasso de ambas as partes que
compõem o cenário escolar: necessidades reais dos alunos e prática
real do processo instrucional e educativo.
Algumas experiências, em nosso meio, estão sendo feitas para
levar a instituição escolar a um trabalho educativo eficaz face às
necessidades e carências constatadas dos educandos desses bairros.
Algumas das atividades que, atualmente, os profissionais,
ligados à Psicologia na Comunidade, estão tentando desenvolver nas
escolas da periferia podem ser assim resumidas: presença ativa nas
reuniões de pais e mestres; visitas domiciliares e reuniões específicas
com mães de alunos, para compreender melhor a cultura familiar e
problemas sociais, que interferem na aprendizagem das crianças;
diagnóstico do bairro e das características psicossociais da popu­
lação, a fim de que diretores e professores da escola possam adaptar
os conteúdos e procedimentos pedagógicos às necessidades da
população escolar: trabalhos nos horários extra-escolares com
grupos de adolescentes, utilizando o espaço da própria escola de
bairro, para a organização cooperativística de estudo, leitura e
lazer; exercícios de expressão corporal t psicomotricidade com as
crianças e treinamento de professores e agentes da comunidade,
para lidar com problemas de aprendizagem e saúde das crianças e
jovens do bairro
A dificuldade para o avanço desses trabalhos profissionais está
na rigidez das direções locais e regionais da Educação Pública, que
via de regra são ainda muito reticentes quanto a propostas de
trabalho como essas.
218 ALBERTO ABIB ANDERY
Não é por acaso que o número de psicólogos na rede escolar de
ensino é m uito pequeno, e infelizinente a m aioria dos psicólogos e
demais profissionais da área psicossocial não está preparada para os
desafios dessa linha de trabalho.
Mas experiências de Psicologia na Comunidade em Escolas
Públicas parecem ser das mais importantes a serem desenvolvidas,
no Brasil, hoje, para formar novas gerações menos doentias social e
psicologicamente.
£ preciso portanto que esses profissionais sejam preparados
nas suas faculdades para o exercício dessa nova práxis da Psicologia
comprometida com os destinos das crianças e adolescentes dos
bairros de periferia.
Publicações de pesquisas participantes
A última área de experiências a ser referida neste texto são as
publicações científicas resultantes de uma práxis e uma sistema­
tização teórica dessas experiências em Psicologia na Comunidade.
Parece que não há, no momento, uma resenha mais acurada
sobre o que já se publicou sobre o assunto.
O objetivo destes últimos parágrafos do texto é mais o de
enfatizar a importância dessas atividades científicas para o futuro
da Psicologia no nosso meio.11
O aprendizado da Psicologia na Universidade rege-se em
demasia por textos didáticos de origem ou de inspiração estrangeira.
Aquilo que é observado, pesquisado ou postulado sobre o homem ou
a mulher europeus ou norte-americanos, de classe média, torna-se
conclusão, sem contestação, sobre a Psicologia e serve de parâmetro
de comparação para se avaliar psicologicamente os indivíduos e
grupos sociais do nosso país, sem maiores reflexões ou pesquisas.
Nas faculdades de Psicologia é comum desconhecerem-se os
aspectos culturais e históricos que moldam a Psicologia do nosso
povo, e omitem-se na formação do estudante de Psicologia os
contextos sócio-econômicos e culturais que condicionam os compor-
(11) O texto que segue é parte de uma comunicação minha, prof.,
originalmente apresentada na 34? Reunião Anual da SBPC, em Campinas,
julho de 1982, dentro de tema mais geral: "trabalhos em Comunidade: Seu
Significado para a Produção de Novos Conhecimentos Científicos" (mimeo).
A PRÁXIS DO PSICÓLOGO 219
tamentos comuns e influem nas características psicológicas das
pessoas e dos grupos sociais populares.
Aplicar, na área profissional, esses padrões importados, sem
maior aprofundamento crítico, pode resultar num reforço à visão de
marginalidade que a maioria do povo trabalhador oferece aos olhos
desavisados do profissional psicológico e demais profissionais, de
nível universitário, que estudam esse tipo de Psicologia. Daí para a
rotulação de excepcionalidade mental e de doença mental é um
passo.
Parece lógico não se aceitar como evidentes as conclusões da
ciência importada — ciência porque importada — e procurar
observar mais de perto, e com um mínimo de empatia, a parti­
cipação, o cotidiano da vida da população trabalhadora, no seu
bairro, na sua família, nas suas organizações mais espontâneas e
representativas para ampliar, confirmar ou modificar o que já se
sabe sobre a Psicologia.
Não se pode aceitar como prontas e definitivas as teorias de
personalidade e de desenvolvimento e as medidas e testes psico­
lógicos delas resultantes, comumente ensinados em nossas facul­
dades.
Há muito a pesquisar ainda nesta área, a partir das peculiari­
dades da cultura popular e dos seus valores, que passam desper­
cebidos pela elite pensante, que ocupa os espaços universitários do
país.
Para avançar um pouco, nesse conhecimento da Psicologia do
trabalhador brasileiro, é preciso primeiro explicitar o viés de classe
média que institui o modelo burguês como padrão de normalidade e
julga desviante e marginal a classe trabalhadora como um todo,
reservando-lhe o dilema de escolher o padrão de desenvolvimento
psicossocial burguês, inacessível de fato para a classe trabalhadora,
ou então resignar-se ao estigma de classe inferior não só socialmente
como também psicologicamente.
Cabe às pesquisas em Psicologia na Comunidade uma apro­
ximação ao cotidiano do trabalhador sem preconceito, convivendo
um pouco com ele no seu bairro operário, nas suas organizações
populares, para apreender sua cultura e forma de vida, suas
expectativas, lutas e fracassos e deles partilhar um pouco também,
não como quem já sabe mas como quem quer primeiro aprender. Há
esperanças assim de entender de forma mais justa a verdadeira
Psicologia do trabalhador urbano de nossas periferias, sabendo-se
que tal conhecimento modificará práticas profissionais, vigentes na
220 ALBERTO ABIB ANDERY
área da seleção de trabalho, de diagnóstico e tratamento clínico e na
programação escolar dos estabelecimentos públicos de ensino de
1? e 2.° graus.
Nestes poucos anos de duração da Psicologia na Comunidade,
as observações ainda não estão, de forma alguma, nem acabadas
nem muito menos sistematizadas. Mas a percepção preconceituosa
anterior já se modificou e já se reconhece que há potencialidades e
valores, que não constam nas padronizações de testes e nas teorias
vigentes, mas que dignificam esse lutador inteligente e criativo, que
é o trabalhador brasileiro, envolvido numa trama de sobrevivência
extremamente adversa.
Partilhar esse esforço de compreensão psicossocial sobre o
trabalhador brasileiro, com os estudantes da Universidade e futuros
profissionais na área de humanas, parece ser uma das contribuições
das pesquisas e publicações, ligadas à Psicologia na Comunidade,
para modificações na sociedade brasileira, no sentido de sua real
democratização e respeito à cidadania do brasileiro comum.
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4 i , s õ ISSN 0103-7013
Psicol. Argum., Curitiba, v. 27, n. 56, p. 65-76, jan./mar. 2009
©Psicologia Argumento
PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL:
Que contribuições teórico-metodológicas podem
dar à práxis do psicólogo comunitário?
Historical and culturalperspective: What theoretician-methodologies
contributions can give to praxis of communitypsychologist?
Verônica Morais Ximenes*, João Paulo Pereira Barrosb
‘ Professora adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Docente do Mestrado em
Psicologia da (UFC), Coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária (NUCOM), Fortaleza, CE - Brasil, e-mail:
vemorais@yahoo.com.br
bPsicólogo, Universidade Federaldo Ceará (UFC), Bolsista de mestrado daCoordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal deNível
Superior (CAPES), Fortaleza, CE - Brasil, e-mail: jppbarros@yahoo.com.br
Resumo
Este artigo objetiva apontar em que aspectos as nuanças teórico-metodológicas da perspectiva histórico-
cultural, desenvolvidaporLevVigotski e seus legatários,podemreverberarnapráxis dopsicólogo comunitário
e contribuir com o seu aprimoramento. Para tanto, são enfocados os seguintes pontos do pensamento
vigotskiano: a constituição social das funções psicológicas propriamente humanas, o conceito de mediação
semiótica, o métodogenético de investigação, a mútua implicação entre aprendizagem e desenvolvimento,
bem como oconceitode Zona deDesenvolvimento Proximal. Conclui-se,então,que aperspectiva histórico-
cultural amplia o campo de inteligibilidade sobre a complexidade das interações sociais e pode favorecer
com que as reflexões sobre osprocessos psicossociais em comunidades superem a dicotomia entre “social”
e “individual”, rechacemperspectivas essencialistas e individualizantes, bem como enfatizem os devires das
interações existentes nas tessituras comunitárias. Denota-se ainda que algumas características do método
investigativo deVigotski sãoprofícuas tambémà psicologiacomunitária,pelaênfase no estudo deprocessos
e relações, pelo destaque às trocas e colaborações existentes entre atores sociais heterogêneos e pela
possibilidade de interligar a análise microgenética ao acompanhamento de atividades comunitárias. Com
efeito, defende-se, por fim, a ideia de que as nuanças conceituais e metodológicas relativas à Perspectiva
Histórico-Cultural tomam mais consistentes a práxis dopsicólogo comunitário,visto que, nesta, mormente,
são preconizadas situações dialógicas de interação social e a edificação conjuntade conhecimento.
Palavras-chave: Perspectiva histórico-cultural. Psicologia comunitária. Práxis do psicólogo social.
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
66 Ximenes, V. M., Barros, J. P. P.
Abstract
This article aims to point out where the nuances aspects theoretical and methodologicalperspective
o fhistorical-cultural, developed by Lev Vygotsky and their legatees, may reverberatepsychologist
in practice the com m unity and contribute to its improvement. To this end, follow ing points o f
vygotskyan thought are focused: the formation o f social psychological functions as human, the
concept o fmediation semiotics, the method o fgenetic research, mutualinvolvement between learning
and development, and the concept o f development zone o f proximal. It follows, then, that the
historical and cultural perspective broadens the field o fintelligibility on the com plexity o fsocial
interactions and that could help with the reflections on the psychosocialprocesses in communities
beyond the dichotomy between “social ” and “individual ”, rechacem prospects essencialistas and
individualizantes and emphasize the becomings o f the interactions in the community tessituras.
D enotes are still some characteristics o f the investigative method o f Vygotsky are also useful to
the psychology community, the emphasis in the study o fprocesses and relations, highlighted by
the exchanges and collaborations between social actors heterogeneous and thepossibility o flinking
the analysis o fthe monitoring microgenetica community activities. Indeed, it is ultim ately the idea
that the nuances conceptual and methodological perspective on history-Cultural become more
consistent practice o f die community psychologist, since, in this, especially, are recommended
dialogical situations ofsocial interaction and buildingjo in t knowledge.
K eyw ords: Historicalandculturalperspective. Communitypsychology. Praxis o fsocialpsychologist.
INTRODUÇÃO
A Perspectiva Histórico-Cultural figura
como uma das principais realizações da Psicologia
nas primeiras décadas do século XX. Vieram
exatamente de seu fundador, o russo L.S.Vigotski,
e de seus legatários alguns dos mais fecundos
estudos acerca de questões teóricas e metateóricas
gerais relacionadas às investigações psicológicas.
ParaWertsch e Smolka (1995),aperspectiva
vigotskiana,apartirde suaancoragemnomaterialismo
histórico-dialético, apresenta três pontos principais:
a constituição do psiquismo a partir das interações
sociais, o caráter mediado de tal constituição e a
utilização do métodogenético de investigação. Desse
modo, em seu bojo, formularam-se proposições
inovadoras no tocante à compreensão do
desenvolvimento humano e de alguns dos processos
psicológicos nele envolvidos, como o pensamento, a
linguagem e a consciência, o que, até hoje, suscita
possibilidadesde diálogoe decomposiçõesde sentido
que extrapolam limites disciplinares.
Segundo Mainardes e Pino (2000), as
ideias vigptskianas se difundiram no Brasil a partir
dos anos 70. Decerto, contribuíram, para isso, as
efervescentes arguições acerca da psicologia social,
dentro da qual a perspectiva histórico-cultural
também passou a ser designada de psicologia sócio-
histórica (Colaço, Pereira, Mota, Chaves & Sá,
2007). Aquela época,prindpalmente à luz do ideário
marxista, váriospsicólogos contestavama psicologia
social moderna, de cunho positivista, visando à
elaboração de uma práxis que concebesse o
psiquismo de modo contextualizado e que se
comprometesse com a transformação dos dilemas
coletivos da América Latina.
Os escritos de SílviaLane e Ignácio Martin-
Baró, dentre outros, ilustram, cada um ao seu
modo, essa interlocução entre a perspectiva
histórico-cultural e a reconceituaçâo da Psicologia
Social. Por sua vez, a Psicologia Comunitária
emergiu destarevisão, sobretudo no contexto latino-
americano, destacando-se por enfocar processos
psicossociais existentes em comunidade (Freitas,
1998, 2005; Scarparo & Guaresch, 2007), por
inscrever-se em campos diversos, como
movimentos sociais e políticas públicas, e por
apresentar um acervo teórico-metodológico
heterogêneo e ainda em construção.
Frenteaesse cenário,oobjetivodopresente
artigo é apontar em que aspectos as nuanças teórico-
metodológicas da perspectiva histórico-cultural
podem reverberarnapráxisdopsicólogocomunitário
e contribuir com o seu aprimoramento. Para tanto,
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
Perspectiva histónco-culrural 67
doravante, após a apresentação de questões centrais
à práxis do psicólogo comunitário, construir-se-ão,
simultaneamente à exposição de aspectos-chave da
compreensão histórico-cultural do psiquismo
humano e do método de investigação ensejados por
Vigotski, argumentos que indicam de que forma tal
perspectiva pode se articular à práxis do psicólogo
comunitário, da forma como esta vem sendo
sistematizada por autores como Maritza Montero,
Quintal de Freitas e Cezar Góis.
Através desse diálogo, espera-se
contribuir no desenvolvimento conceituai e
operacional da Psicologia Comunitária. Ademais,
alrneja-se endossar a ideia de que as contribuições
de Vigotski podem ser perceptíveis não apenas no
âmbito educacional stricto sensu, onde sua relevância
tem sido reiterada contundentemente (Colaço,
2001; Colaço et. al., 2007; Zanella, 2004).
A práxis do psicólogo comunitário:
Considerações gerais
Para a Psicologia Comunitána, tal como é
pensada por Góis (1994, 2005), Freitas (1998,
2005) e Montero (2004), a noção de práxis, como
resultante da unidade entre teoriae prática, constitui-
se um dos maiores legados da Educação Popular,
ensejada por Paulo Freire (1980) a partir de meados
do século XX, e das vertentes teóricas que se
insurgem, desde a década de setenta do século
passado, em contraposição ao viés positivista
preponderante até então na psicologia social (Lane,
1995; Martin-Baró, 1998). Em razão dessa herança,
é marcante na práxis do psicólogo comunitáno a
produção de uma circularidade dialética entre
reflexão e ação, o que faz com que a práxis em pauta
sc afaste, ao longo de sua constituição histórica,
tanto de modalidades de ativismo militante ou
caritativo nos contextos de trabalho (Góis, 1994;
Freitas, 1998), quanto de teorizações sobre seu
objeto de estudo que não se desdobrem eferivamente
em outras práticas.
Nesse sentido, a práxis do psicólogo
comunitário se distingue por se ocupar de processos
psicossociais produzidos em dinâmicas
comunitárias, levando em conta os contextos
socioculturais em que surgem. Ademais, tal práxis
se caracteriza por se estabelecer em interação com
outros atores sociais, por enfatizar possibilidades
das relações e dos atores que compõem dinâmicas
comunitárias, bem como por buscar o fomento de
processos direcionados à recriação permanente da
existência coletiva (Montero, 2004).
Além disso, outros aspectos permitem
complementar a compreensão das nuanças da
práxis do psicólogo comunitário. Dentre eles,
convém ressaltar a busca de:
1) conhecer signos e sentidos relativos à
dinâmica comunitária que pessoas e
grupos constroem ou fazem circular
(Freitas, 2005; Góis, 1994, 2005;
Barros, 2007);
2) entender de que modo tais significações
se implicam na constituição de
subjetividades e de relações cotidianas
(Barros, 2007);
3) construir interlocuções dialógicas na
produção de conhecimentos e no
estabelecim ento de objetivos e
estratégias de ação (Góis, 1994, 2005;
Freitas, 1998, 2005; Montero, 2004);
4) constituir e fortalecer práticas voltadas
ao trabalho coletivo com o propósito
de co-construção de atores sociais que
sejam cada vez mais capazes não só de
criar conexões sobre os cotidianos em
que se inserem, como também de erigir
múltiplas possibilidades de vida (Góis,
1994; Montero, 2004).
Por isso, um ponto fulcral da práxis de
psicologia comunitária consiste na problematização
de saberes e práticas. Tal como é acenada no âmbito
da Educação Dialógica de Freire (1980) e da
Psicologia Social alinhavada por Martin-Baró
(1998), a problematização que perpassa a práxis do
psicólogocomunitário permite que acontecimentos,
relações e conexões por vezes naturalizadas no
cotidiano possam ser submetidos a exercícios
críticos, tecendo possibilidades outras de
composição de sentidos, de interações sociais e de
modos de vida.
Vieira e Ximenes (2008) afirmam que não
basta apenas o compromisso social do profissional
para odesenvolvimento de umapráxis empsicologia
comunitária. A utilização do conceito de
conscientização, que advém de trabalhos
desenvolvidos por Freire (1980), Martin-Baró
(1998) eGóis (2005),ampliaaatuaçãodoprofissional
de psicologia que deixa de ter apenas como
diferencial profissional a escuta psicológica e passa
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
68 Ximenes, V. M , Barros, J. P. P.
a ter outras especificidades como a fadlitação de
processos de conscientização a partir de referências
teóricos da psicologia.
A partir dessas considerações gerais, as
próximas seções tratarão de como aspectos-chave
da perspectiva histórico-cultural podem reverberar
na práxis do psicólogo comunitário e contribuir
para o seu apnmoramento.
A Gênese social do psiquismo e a
mediação semiótica: Reverberações na
práxis do psicólogo comunitário
Em meio aos seus estudos sobre a situação
da psicologia nas décadas de vinte e trinta do século
passado, Vigotski (1999a) concluiu que as correntes
existentes, ainda que heterogêneas, dividiam-se em
duas orientações opostas: um enfoque naturalista e
outro idealista do psiquismo. Tal dualismo era o
vetor do que este autor considerava uma Crise da
Psicologia, pois ambos os enfoques mostravam-se
incapazes de explicar as funções psicológicas
especificamente humanas - as Funções Psicológicas
Superiores (FPS), tais como a memória lógica, a
atenção voluntária, a imaginação criativa, o
pensamento conceituai e a vontade provisora.
(Vigotski, 1991, 1999a).
Diante desse panorama, as pontuações
acerca do caráter social do funcionamento humano
são, pois, um dos principais fundamentos da
Perspectiva Histórico-Cultural. Com isso, “Vigotski
desloca definitivamente o foco da análise psicológica
do campobiológicoparaocampo dacultura” (Sirgado,
2000, p. 12) sem, no entanto, recair em uma proposta
idealista que desconsidere os processos
neuropsicológicos, sem os quais seria impossível a
consolidação dc uma linha dc desenvolvimento
cultural já na infância. Logo, nessa corrente, ganham
destaque as situações de interação social, concebidas
como espaços simbólicos geradores de
conhecimentos, de apropriação de significados, de
composição de sentidos e subjetividades.
Uma outra questão basilar à Psicologia
Histórico-Cultural decorre dessa ênfase nas
interações sociais: no transcorrer de sua produção,
Vigotski, seguidas vezes, atenta para o fato de que
a constituição social dos processos psicológicos
especificamentehumanospossuiumcarátermediado
(Vigotski, 1994). Tal mediação se realiza através de
instrumentos —condutores e potendalizadores da
influência humana sobre os objetos —e através do
uso de signos - meios auxiliares para a realização de
operações mentais, proporcionando ao sujeito uma
regulação da própria conduta e de condutas alheias
(Vigotski, 1991).
Assim, sobretudo a mediação semiótica -
que se estabelece íniriaimente através de signos
externose,nodecursododesenvolvimentodacriança,
através também de signos psicológicos - é apontada
por Vigotski e Luna (1996) como fundamental tanto
para o desenvolvimento qualitativo, quanto para a
análise de funções como a memóna, o pensamento e
a atenção, não só do ponto de vista filogenético
como também ontogeneticamente.1
Após essa contextualização e reportando-
se ao objetivo deste artigo, é plausível a interrogação:
afinal, que enlaces podem ser feitos entre essas
questões e a práxis do psicólogo comunitáno?
A revisão de textos de alguns dosprincipais
expoentes da Psicologia Comunitária (Góis, 1994,
2005; Montero, 2003, 2006; Campos, 2000; Freitas,
1998, 2005) confirma a pluralidade de interfaces
possíveis de serem feitas nessa área. Porém, um
ponto de convergência é patente: a compreensão de
que o desenvolvimento psicológico dos atores
comunitários e os movimentos intersubjetivos dos
seus contextos se dão de modo imbricado.
Nos interstícios deste consenso, há pontos
que aproximam a Perspectiva Histórico Cultural e
asproduções depsicologia comunitária consideradas
aqui, como a influência do matenalismo histórico-
dialético, a partir do qual se reitera a existência de
relações de mútua constituição entre o tecido social
e os seus agentes, bem como a potência destes de
O papel dos signos —em especial da linguagem —nas operações mentais pode ser aclarado pelo exemplo da memória, que é
extensiva às demais funções: “funções tais como a memóna mudam acentuadamente a partir do momento em que a fala
começou adominar o comportamento da criança. [...] A memória visual pictórica evolui para memória verhal. [...] Aspalavras
e as formas lógicas começam a desempenhar o papel de ferramentas decisivas para a rememoração. Por essa época, vai
desaparecendo o tipo de miraculosa memóna visualpictónca,conhecidapelo termo eidetismo eque domina osprimeiros anos.”
(Vigotski «St Luria, 1996,p. 213).
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
Perspectiva histónco-cultuial 69
serem co-construtores de sua história (Lane, 1995).
Inclusive, no tocante à concepção de psiquismo, a
Psicologia Comunitána traz a lume, perempto­
riamente, a ideia da gênese social do psiquismo, em
alguns casos com referência explícita à Teoria
Histórico-Cultural, como em Góis (1994, p. 45),
para quem “O indivíduo é uma realidade histórico-
cultural que se encontra fortemente enraizado em
um processo soaal que lhe é próprio.”
As produções de colaboradores de
Vigotski, como Leontiev, também têm sido usadas
por alguns autores para explicar a especificidade do
“objeto” da psicologia comunitária em meio à
atuação no tecido comunitário. Góis (1994, p. 40),
por exemplo, propôs que tal “objeto” fosse “o
processo do reflexo psíquico do modo de vida da
comunidade”, vocabuláno sobremaneira conexo às
conceituações leontievianas sobre a Teoria da
Atividade. Góis (1994, p. 48), inclusive, traz à tona
o fato de que tal ligação implica que:
[...] o psicólogo comunitário não é aquele que
apenas realiza diagnósticos de comunidade e
intervém. Ele estuda o modo de vida da
comunidade e de como este se reflete e se
transforma na mente dos seus moradores,
para, novamente, aparecer em suas atividades
concretas do dia-a-dia.
Em face dessa compreensão dopsiquismo,
a centralidade de categorias como consciência e
atividade no estudo da condição humana representa
mais uma conexão teórica entre a psicologia
comunitária e a perspectiva histórico-cultural. A
partir de 1924, Vigotski se dedicou a inscrever a
Consciência como objeto de estudo da psicologia,
para uma elaboração teórica cada vez mais
contundente sobre o lugar das relações sociais e da
mediação semiótica em sua constituição. Por sua
vez, nos anos 80, autores como Lane (1995) e Góis
(2005) o tomam como exemplo e elegem a
consciência como uma das categorias centrais na
psicologia comunitária.2 O legado vigotskiano
oportuniza, então, que a categoria em destaque
apareça, neste caso, como uma função complexa
engendrada por uma multiplicidade de atividades
mediadas - e não como uma substância ou um
epifenômeno, como se poderia supor à luz de
referenciais idealistas.
Em vista desses pontos de enlace, vale
acrescentar, aqui, que algumas especificidades das
produções de Vigotski podem subsidiar ainda mais
os psicólogos comunitários no estudo de processos
psicossociais. O conceito de mediação semiótica,
por exemplo, ilustra bem a possibilidade de
ampliação das reverberações do pensamento de
Vigotski na práxis do psicólogo comunitáno, pois é
uma valiosa chave analítica para se abordar, de
modo não dualista, as interações sociais e os
movimentos pelos quais seus agentes constroem
conhecimento e transformam as suas realidades, a
fim de entender as implicações desses processos na
construção de subjetividades e de modos de vida
em comunidades.
Pelo menos quatro implicações do uso do
conceito de mediação semiótica no âmbito da
psicologia comunitária podem ser elencadas. A
pnmeira é a de que tal conceito oportuniza pensar
que “social” e “individual” não são blocos estanques
e impermeáveis, pois Vigotski (1999b, p. 14) admite
que o “movimento mais íntimo e pessoal do
pensamento, do sentimento, etc., do psiquismo de
um indivíduo particular seja efetivamente social e
socialmente condicionado.” Logo, como salienta
Traverso-Yépez (1999, p. 40), ancorando-se em
Vigotski (2000), “o social do psiquismo humano não
está determinado pela tipologia dos objetos (outros
sujeitos), mas se constitui a partir da construção de
um mundo de significados compartilhados.”
Já a segunda implicação é a de que a
constituição social do sujeito não traduz uma
transposição mecânica de situações “externas” a
situações “internas”, fato que homogeneizam todos
aqueles que compartilham de uma mesma trama
social. Sobre isso, Vigotski (1999b,p. 17-18) escreve:
“tudo em nós é social, mas isto não quer dizer, de
modo algum, que as propriedades do psiquismo do
indivíduo particular sejam, em sua totalidade
absoluta, inerentes a todos os demais integrantes de
dado gmpo.”
3 Inspirado na Teoria Histórico-Cultural e em Paulo Freire (1980), Góis (2005) atestou que as diferentes formas de participação
de moradores em atividades de natureza comunitária são fundamentais no desenvolvimento dc suas consciências. Com esse
estudo, o autor outorgou à atividade mediada —neste caso, a atividade comunitária —a condição de unidade de análise de
processos psicológicos - como a consciência - dos atores com os quais o psicólogo comunitário trabalha.
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
70 Ximenes, V. M., Barros, J. P. P.
Por consequência, a terceira implicação é
a de que o conceito de mediação semiótica leva a
supor que os processos interacionais que se
engendram em comunidades constituem arenas de
apropriação/construção de significados e de
produção de sentidos, o que lhes dá uma conotação
não necessariamente harmônica. Zanella (2004, p.
3-4), nessa direção, infere que as relações
interpessoais de uma forma geral:
Sãc mediadas por sentidos produzidos pelos
sujeitos em relação, onginados e ao mesmo
tempo marcados por outros sentidos,
caractensticos dos grupos sodais a que esses
sujeitos pertencem. Isso porque toda palavra,
unidade de qualquerenunciação, veicula sentidos
públicos e privados; apresenta uma dimensão
que é compartilhada (o significado, como afirma
Vigptsld), a qual traz asmarcas dahistóna em que
foi forjada. Simultaneamente, há múltiplos
sentidos que também podem ser atribuídos a
essamesmapalavra,quedependemdascondições
sociais em que os sujeitos em relação se inserem
e das singularidades que ali se objetivam. Ao
mesmo tempo em que cada pessoa é partícipe
ativado contexto emqueseinsere,suapartiapação
é marcadapelas características dogrupo social ao
qual pertence, pela posição que assume e é
reconhecida, enfim, pela cultura que a forja.
Por fim, a quarta implicação consiste no
fato de que considerar a existência da mediação
semiótica nesses termos leva a pensar que as
interações comunitárias na contemporaneidade
transcendem as interlocuções face a face, visto que
envolvem também as relações das pessoas que
vivem em um determinado território com uma
multiplicidade de signos produzidos e circulantes
nas várias dinâmicas sodoculturais. As palavras de
Cecília Góes (2000b, p. 128) corroboram isso:
O estudo das relações sociais não pode se
restringir ao exame do plano observável das
interações face a face;osprocessos delinguagem
que acontecem nessas interações devem ser
vistos como algo maior do que a conversação
de intedocutores imediatos; os efeitos dos
outros sobre o indivíduo não dependem
somente dc formas dc atuação direta; os outros
não são apenas aspessoas fisicamente presentes,
mas também “figuras-tipo” da cultura ou
representantes dos códigos e normas,
participantes das práticas sociais.
Registrados esses pontos, que outros
desdobramentos do espólio vigotskiano podem se
articular à práxis do psicólogo comunitário? Por
certo, essas aproximações teóricas acarretam
iniludíveisarticulações entreos respectivosmétodos,
algumas da quais serão dissertadas logo adiante.
O método Vigotskiano e o conceito de
ZDP: Reverberações na práxis do
psicólogo comunitário
Ao longo de suaobra,Vigotski demonstrou
evidente interesse pela análise dos métodos de
investigação psicológica. Por admitir que “o método
é, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto, o
instrumento e o resultado do estudo” (Vigotski,
1994, p. 86) e que, consequentemente, “a
possibilidade da psicologia como ciência é um
problema antes de tudo metodológico” (Vigotski,
2001, p. 390); o autor russo realizou críticas aos
métodos naturalistas e mentalistas, afirmando que
nenhum deles conseguia abordar o que há de
especificamente humano no homem e explicar de
que forma suas funções se integravam e se
transformavam nas relações sociais.
Igualmente, Vigotski pôs em relevo o
método genético, na condição de abordagem
histórico-dialética, como um modo de proceder à
análise do funcionamento humano (Vigotski,
1999a). A preocupação genética do autor, neste
caso, reporta-se às condições de construção dos
processos psicológicos, como confirma o período
subsequente: “só podemos compreender os traços
desse tipo (de construção) se adicionarmos também
o ponto de vista genético para explicá-los - se
indagarmos de onde e de que modo eles se
originaram.” (Vigotski & Luria, 1996, p. 95)
Ao propor tal método, Vigotski partiu do
pressuposto de que o comportamento humano possui
quatroplanosgenéticos:o filogenético,osodogenético,
oontogenéticoeomicrogenético.Noentanto,interessa
acrescerque, de acordo com a perspectivavigotskiana,
estes planos encontram-se articulados. Como observa
Cecília Góes (2000a, p. 13), o autor efetuava, por
exemplo, ligações entre o plano ontogenético e um
nível microgenético de análise,
Isto é, investigava questões ontogenéticas
(abrangendo diferentes faixas etárias) e se
deslocava para outro nível de estudo que
envolvia sessões examinadas das minúcias das
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
Perspectiva histónco-cultural 71
transformações dasrespostas dossujeitos. Essa
perspectiva pode ser notada nos trabalhos
sobre relações entre pensamento-linguagem,
atenção, memóna, formação de conceitos,
fala egocêntrica, desenvolvimento da
imaginação, etc.
Então, o método genético possibilita que
o psicólogo, ao invés de buscar essências ou
repertórios instituídos, dedique-se a estudos e
explicações de processos e de relações entre
processos, de modo a analisar as potências
constitutivas das interações sociais. Preconiza,
também, que a investigação psicológica substitua a
decomposição do objeto de estudo em seus
elementos pela análise de suas unidades,3 o que
im plica efetuar recortes que conservem as
propriedades complexas da questão investigada.
Para adensar a discussão sobre o método
em Vigorski, torna-se importante ilustrá-la por meio
das considerações do autor sobre a relação entre
aprendizagem e desenvolvimento. Diferentemente
das vertentes psicológicas predominantes no século
XX, como a corrente piagetiana, as investigações
de Vigotski (1994, p. 118) sugeriam que “o
aprendizado é um aspecto necessário e universal do
processo de desenvolvimento das funções
psicológicas culturalm ente organizadas e
especificamente humanas.”
Na análise da relação aprendizagem-
desenvolvimento, Vigotski (2001a, 2001b) lançou
mão do conceito de Zona de Desenvolvimento
Proximal (ZDP) para explicar de que modo a
aprendizagem gera desenvolvimento. Todavia, o
curso da obra vigotskiana evidencia mudanças nesse
conceito (Valsmer & Van Der Veer, 2000).
Inicialmente, Vigotski o definia como a diferença
entre os níveis de desenvolvimento real c potencial
do sujeito, em meio a discussões sobre a avaliação
do desenvolvimento cognitivo do sujeito e de suas
críticas aos testes de inteligência. Porém, as últimas
produções vigotskianas, como “Pensamento e
linguagem” (Vigotski, 1934/1993), conferiram
contornos novos e uma maior abrangência ao
conceito. Por isso, autores inspirados na Perspectiva
Histórico-Cultural que embasam o presente artigo,
como Meira (2003) e Colaço et al. (2007),
conceituam a ZDP como um espaço simbólico de
construção - seja de conhecimento, seja de
subjetividade - que pode emergir em processos
interacionais de caráter dialógico e colaborativo.
Sobre essa questão, a despeito das
mudanças que Vigotski opera na conceituaçâo da
ZDP, importa registrar que uma de suas maiores
virtudes em relação à temática do desenvolvimento
foi advogar a favor de que este fosse vislumbrado
sob um ângulo prospectivo. Desse modo, Vigotski
(2001a, p. 327) pontua que:
Como umjardineiro que, para definiroestudo
de todo o jardim, não pode resolver avaliá-lo
apenas pelas macieiras que já amadureceram e
deram frutos, mas deve considerar também as
árvores em maturação, o psicólogo que avalia
o estudo do desenvolvimento também deve
levar em conta não só as funções já maduras
mas aquelas em maturação.
A partir daqui, é possível examinar de
que forma os aportes metodológicos vigotskianos
e o conceito de ZDP aqui adotado, na condição de
construto que endossa pnncípios metodológicos
do autor, podem se vivificar na práxis do psicólogo
comunitário.
Uma vez que os processos psicossociais
forjam-se e se transformam nas e pelas relações
estabelecidas histórico-culturalmente, uma das
principais características metodológicas do
trabalho dopsicológico comunitário é sua interação
com a profusão de movimentos, saberes, práticas,
relações de forças, modos de existência, estratégias
de aprendizagem e formas de organização dos
mediadores culturais (Vigotski & Luria, 1996)
prementes em comunidades. Montero (2006,
p. 44) bem atesta essa virada metodológica em
relação às práticas tradicionais de psicologia:
Nenhuma investigação ou intervenção
comunitária pode fazer-se sem um contato
direto e estável entre profissionais externos à
comunidade (agentes externos) e membros da
comunidade (agentes internos). Este aspecto é
de máxima importância porque a relação que
3 Para exemplificar a definição do que seja unidade, é valido registrar a investigação da relação entre pensamento e linguagem
Nesse caso, Vigotski (2001) elegeu o significado da palavra como unidade de análise,por considerá-lo um fenômeno ao mesmo
tempo do pensamento e da linguagem, diferenciando-se, dessa forma, dos métodos que buscavam destrinchar pensamento
e linguagem em elementos mínimos.
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
72 Ximenes, V. M., Barros, J. P. P.
se estabelece entre o profissional de psicologia
e as pessoas da comunidade dependerá do
caráter participativo que se dá ao projeto que
se quer levar a cabo.4
Não obstante, o método em psicologia
comunitária preconiza a participação ativa de uma
pluralidade de atores em momentos de interação
dialógica nos quais objetivos e ações convergentes
possam ser traçados (Montero, 2006, Góis, 2005),
garantindo-se, porém, a existência rica de
singularidades, heterogeneidades e conflitos nas
dinâmicas estabelecidas nesses processos. Freitas
(1998, p. 4) afirma que o diferencial desse método
está no fato de que:
Tanto profissional como a comunidade e seus
representantes estabelecem relações horizontais
de discussão, análise e definição sobre as
problemáticas a serem consideradas e as
possibilidades de resolução e/ou enfrentamento
para as mesmas. [...] Neste processo, os dois —
psicólogo e comunidade - não estão definidos e
muito menos têm suas identidades epapéis fixos.
Diante dessas características gerais do
método que fundamenta a práxis em psicologia
comunitária, que semelhançashá entre estee o método
genético desenvolvido por Vígotski? Prímeiramente,
ao invés de se centrarem em elementos atomizados do
psiquismo, ambos enfocam a processualidade no
estudo da condição humana, o que faz com que, no
caso,porexemplo,docomportamentoedaconsciência,
a Perspectiva Histórico-Cultural e a Psicologia
Comunitána interessem-se pelas suas possibilidades
de constituição, e não tanto pelos resultados dos seus
desenvolvimentos.
Um outro ponto metodológico ressaltado
por Vigotski e que é, sobremaneira, consoante à
práxis em psicologia comunitária diz respeito à
pertinência dos processos interacionais pautados
na colaboração, tanto a que se estabelece entre os
próprios atores comunitários, quanto a que se dá
entre estes eo psicólogo comumtáno. Nesse sentido,
as seguintes palavras vigotskianas, a despeito de se
referirem ao desenvolvimento infantil, enaltecem a
colaboração no desenvolvimento do psiquismo do
ser humano dc maneira irrcstnta:
[...] As nossas investigações mostraram que,
nesse período, operamos com a natureza
puram ente social dos processos de
desenvolvimento das funções psicológicas
superiores, que surgem a partir do
desenvolvimento cultural da criança, cuja fonte
são a colaboração e a aprendizagem. (Vigotski,
2001a, p. 335).
Além do privilégio de processos
mteracionais, vale mencionar outro aspecto em que
é possível identificar semelhanças entre o método
genético e o método em psicologia comunitária:
tanto um quanto o outro valorizam não só as trocas
efetuadas entre os “agentes internos” de um grupo,
por exemplo, mas também o uso de mediações
construídas com a presença de “agentes externos”.
Nesse sentido, o conceito de ZDP oportuniza que
o psicólogo comunitário, ao invés de se centrar em
características inerentes ao sujeito e em suas funções
já desenvolvidas, possa analisar, prospectivamente,
sistemas e situações de interação, bem como planejar
estratégias coletivas que propiciem a emergência de
espaços interpsicológicos de troca e criação, onde
sentidos possam fluir, transitar, e onde saberes e
práticas sejam problematizados.
Assim, preconiza-se que a participação de
um “agente externo” na dinâmica de um grupo
comunitário pode ser um importante vetor na
potencialização de processos de aprendizagem e de
desenvolvimento que são estabelecidos ali. Ainda
sobre isso, uma alusão de Vigotski à situação de
ensino-aprendizagem na sala de aula aponta para
nuanças dessa mediação semiótica apregoada pela
perspectiva histórico-cultural, no sentido degarantir
a condição ativa e criativa dos participantes. Tal
citação também adquire relevância no trabalho do
psicólogo comumtáno, visto que confere respaldo
teórico-metodológico a práticas sociais dialógicas -
no sentido antônimo de práticas autoritárias, como
apontava Paulo Freire (1980) - em detrimento da
transmissão de conhecimentos:
Nãomenosqueainvestigaçãoteórica,aexperiência
pedagógica nos ensina que o ensino direto de
conceitos sempre se mostra impossível e
pedagogicamente esténl. O professor que
enveredaporesse caminho costumanão conseguir
4 As citações de Montero (2006) presentes no texto foram traduzidas pelos autores.
Psicol Argum 2009 jan /mar., 27(56), 65-76
Perspectiva histónco-cultural 73
senão uma assimilação vazia de palavras, um
verbalismo puro e simples que estimula e imita a
existência dos respectivos conceitos na criança
mas, na prática, esconde o vazio. Em tais casos,
a criança não assimila o conceito mas a palavra,
capta mais de memória que de pensamento e
sente-seimpotente diantede qualquertentativade
empregoconscientedo conhecimento assimilado.
(Vigotski, 2001a, p. 247).
Neste instante, após as aproximações
empreendidas, cabe destacar aspectos
metodológicos ligados à perspectiva histónco-
cultural que podem ser de grande valia no
aprimoramento da atuação em psicologia
comunitária. A perspectiva histórico-cultural,
inclusive em seus matizes contemporâneos, reitera
a necessidade metodológica de se empreender um
olhar microgenético para as interações sociais, a fim
de entenderoprocesso pelas quais estas seconvertem
em funções psicológicas.
Em pesquisas atuais, como a de Colaço et
al. (2007), percebe-se que a análise microgenética
se viabiliza pelo uso do conceito de ZDP. A razão
para a junção entre aquele método e este construto
teórico se justifica porque, para Góes (2000a, p.
11), a análise microgenética trata-se, exatamente,
da “análise minuciosa de um processo, de modo a
configurar sua gênese social”. Para tanto, sua
aplicação “requer a atenção a detalhes e o recorte de
episódios interativos, sendo o exame orientado
para o funcionamento de sujeitos focais, as relações
intersubjetivas e as condições sociais da situação,
resultando num relato minucioso dos
acontecimentos” (Góes, 2000a, p. 9).
Eis, então, um dos grandes diferenciais
metodológicos da perspectiva histónco-cultural,
claramente importante para a atuação do psicólogo
comunitário: acompanhar a formação da
subjetividade pessoal, como as formas de construir
sentidos para as relações, sem as desvencilhar das
questões sociogenéticas, como a história, as práticas
sociais e os signos que circulam também em
dinâmicas microssodais.
Cabe, neste instante, uma pergunta capital:
Como, de fato, um psicólogo comunitário pode
referenciar-se numa perspectiva microgenética que
favoreça interações produtoras de desenvolvimento
para seus partícipes? As palavras de Lunl (1994, p.
237) fornecem pistas a essa interrogação: “de acordo
com Vygotsky, para obter uma avaliação abrangente
do funcionamento cognitivo de um indivíduo, é
necessário que nos ocupemos da atividade
colaborativa e investiguemosesse tipo de atividade”.
Se tal raciocínio for aplicado à psicologia
comunitána calcada nas sistematizações de Góis
(1994), pode-se inferir que a chave para a questão
ora colocada radica-se no acompanhamento
microgenético de atividades comunitárias ou na
facilitaçâo destas.
Em síntese, a atividade comunitária
consiste em um processo interativo e coletivo pelo
qual os sujeitos constroem saberes e forjam-se
subjetivamente, na mesma medida em que também
deflagram rearranjos no entorno social em que
vivem a fim de transformá-lo. Para Góis (2005) a
atividade comunitána, além de possuir as mesmas
funções que Leontiev (1978) atribuiu à atividade
humana de uma forma geral, quais sejam, mediação,
orientação e interiorização, direciona-se para a
transformação social e:
Para a autonomia do morador e da própna
comunidade. A atividade comunitária, então
se dinge não somente para o desenvolvimento
da autonomia dagestão coletiva e competência
na resolução de problemas, mas também para
a realização dos m otivos pessoais e
comumtános [...] Leva inclusive à contínua
superação das contradições entre o individual
e o social na comunidade, além da construção
de uma ética comunitária. (Góis, 2005, p. 89).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo trouxe à tona possíveis
conexões entre a Perspectiva Histórico-Cultural e a
práxis do psicólogo comunitário. As conexões,
então, realizaram-se em tomo dos seguintes pontos
do pensamento vigotskiano: a gênese social das
funções psicológicas propriamente humanas, a
mediação semiótica, o método genético de
investigação, a mútua implicação entre
aprendizagem e desenvolvimento, bem como o
conceito de ZDP.
Em face das conexões empreendidas
alhures, conclui-se, em pnmeiro lugar, que o legado
de Vigotski amplia o campo de inteligibilidade
sobre a complexidade das interações sociais, visto
que endossa também as relações do sujeito com a
multiplicidade de signos e sentidos engendrados
culturalmente, o que é fundamental para os debates
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
74 Ximenes, V. M., Barros, J. P. P.
sobre as relações comunitárias na contemporanei
dade. Em segundo lugar, destaca-se o potencial do
pensamento vigotskiano no que concerne à
superação de dicotomias cristalizadas, ainda hoje,
não só na Psicologia, como “social” e “individual”,
e de concepções naturalizadas do desenvolvimento
humano, visto que se pôs em relevo a relação
dialética existente entre o contexto sócio-
comunitário e a construção de subjetividades. Deste
eixo provêm outros dois pontos importantes: a
centralidade da díade atividade comunitária -
consciência na análise do desenvolvimento dos
atores comunitários e a ênfase na potência cnativa
destes, dado o lugar de destaque ocupado pela
mediação semiótica.
Issoposto,as ideiasalinhavadasporVigotski
podem favorecer com que a análise dos processos
psicossociais, no âmbito da psicologia comunitária,
rechace perspectivas essencialistas e
mdividualizantes, sem,todavia,incidiremperspectivas
mecanicistas ou ambientalistas na explicação das
relações entre os contextos comunitános e os seus
atores constituintes. Ademais, podem endossar a
ênfase nas potencialidadese nos devires dos processos
interadonais existentes na tessitura comunitána, para
o que contnbui o conceito de ZDP como espaço
relacional de trocae decriação, intimamente associado
ao viés prospectivo do método vigotskiano.
No que tange mais precisamente às
aproximações metodológicas, denotou-se que os
pontos trazidosporVigotski sobre ométodogenético
podem ser de grande proficuidade ao método em
psicologia comunitária. Duas características deste
método são emblemas disso: a ênfase na
processualidade do desenvolvimento dos atores
comunitános e, consequentemente, o acompanha­
mento das atividades de natureza mediada e coletiva
que estes desenvolvem, com destaque para a
possibilidade de se aliar a análise microgenética ao
transcorrer de atividades comunitárias.
As conexões realizadas entre os dois
métodos fazem presumir que o método genético,
uma vez que enfatiza as condições de produção,
seja do conhecimento, seja da subjetividade, pode
dar fundamentação àênfase do método dapsicologa
comunitária nas interações psicólogo-contexto
comunitário e nas atividades coletivas consoantes
ao contexto dos participantes.
Por sua vez, os alicerces da investigação
vigotskiana sobre a relação aprendizagem-
desenvolvimento podem respaldar o categórico realce
do método de psicologia comunitária ao diálogo e à
colaboração entre os próprios atores comunitános e
entre estes e o psicólogo, o que oportunizaum campo
de possibilidades maior de co-construção de saberes e
práticas. Com isso, a conexão entre a Perspectiva
Histórico-Cultural e a Psicologia Comunitária toma
mais consistentes os discursos que esta emana, nos
quais, mormente, é preconizada a edificação conjunta
de conhecimento, de práxis transformadoras e de
subjetividades, comvistas à ampliação de laços sociais.
Cumpre, por fim, trazer à baila que as
aproximações teórico-metodológicas realizadas
podem auxiliar a elucidação das contribuições
efetivas de um psicólogo comunitário no contexto
aonde este venha a atuar. Assim sendo, uma vez
enfatizados os processos interadonais e o seu caráter
mediador na construção de conhecimento e
subjetividades, o psicólogo comunitáno assume
um lugar de interlocução em processos de
aprendizagem e desenvolvimento, inspirando-se
nas seguintes diretnzes:
1) fomento de relações dialógcas que
integrem vinculação sócio-afetiva,
construções compartilhadas de
conhecimento e ação transformadora,
a fim de que pessoas e grupos ampliem
suas possibilidades de criação/
apropriaçãode sentidose sereconheçam
na condição de co-construtores de si e
dos seus contextos;
2) facilitação de processos de identificação,
construção e atualização de potenciais
pessoais, grupais e comunitários, a fim
de fortalecer atividades e positividades
já existentes no contexto e, ou constituir
novas atividades e positividades;
3) colaboração, a um só tempo, na
constituição de um campo de práxis
comum e na produçâo de diversidades.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos à Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Supenorpelo
apoio à elaboração deste trabalho.
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
Perspectiva histórico-cultural 75
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Recebido: 16/10/2008
Received: 10/16/2008
Aprovado: 15/12/2008
Approved: 12/15/2008
Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
46
SÍLVIA LANE E O PROJETO DO
“COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA”
Ana Mercês Bahia Bock
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil
Marcos Ribeiro Ferreira
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil
Maria da Graça M. Gonçalves
Odair Furtado
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil
RESUMO: Este artigo apresenta os principais aspectos da trajetória da Profa. Sílvia Tatiana Maurer Lane, desde a
construção de uma Psicologia Social crítica até a formulação de um projeto de compromisso social da Psicologia. A
Profa. Sílvia Lane foi pioneira nas formulações teóricas que colocaram a Psicologia Social brasileira em questão,
ressaltando a necessidade de se explicitar seu vínculo com interesses dominantes e de se redirecionar sua produção
no sentido de contribuir para a transformação social. Nessa trajetória aliou teoria e prática, contribuindo para a
revisão de conceitos e métodos e para a organização da área. Trabalhou incansavelmente e em várias frentes para
produzir uma Psicologia Social que reconhecesse o caráter histórico dos fenômenos sociais e humanos e a pessoa
como sujeito ativo e histórico. Inicialmente o artigo relata sua presença marcante, dentro dessa perspectiva, na
história da Psicologia Social brasileira e latino-americana. A seguir, são apontadas as principais características de
sua produção teórica na elaboração de uma Psicologia Social sócio-histórica. Por fim, discute-se seu importante
papel na afirmação de uma psicologia comprometida com as realidades brasileira e latino-americana; conhecedora
dessa realidade, contribuiu para a construção de instrumental teórico-prático para sua transformação na direção de
uma sociedade justa e igualitária. Ou seja, uma psicologia com compromisso social.
PALAVRAS-CHAVE: Psicologia Sócio-Histórica; compromisso social; história da Psicologia Social.
SÍLVIA LANE AND THE PROJECT FOR A SOCIALLY COMMITTED PSYCHOLOGY
ABSTRACT: This article presents the main aspects of the academic trajectory of Professor Sílvia Tatiana Maurer
Lane, from the initial proposal of a critical Social Psychology to the formulation of a project for a socially committed
Psychology. Sílvia Lane was a pioneer in theoretical propositions which questioned mainstream Brazilian Social
Psychology, emphasizing the need to expose its ties with the dominant economic and political interests and redirect-
ing its production towards social transformation. In her career trajectory she brought together theory and praxis,
contributing to the revision of concepts and methods, and to the organization of this area of knowledge. She worked
tirelessly in various fronts to produce a Social Psychology that could recognize the historical character of social and
human phenomena and that conceived people as active and historical beings. The text begins by situating her re-
markable presence, within this critical perspective, in Brazilian and LatinAmerican Social Psychology. In sequence,
it presents the main characteristics of her theoretical production concerning the development of a Socio-Historical
Social Psychology. At the conclusion, it emphasizes her role in consolidating a Psychology that is intrinsically
compromised with Brazilian and Latin-American realities; being familiar with this reality, she contributed to the
construction of theoretical-practical instruments for its transformation in the direction of a society based on justice
and equality. To put is in a different manner, the development of a socially committed Psychology.
KEYWORDS: Socio-Historical Psychology; social compromise; history of Social Psychology.
A professora Sílvia Tatiana Maurer Lane tem uma
trajetória de vida profissional, no campo da Psicologia
Social, que faz dela uma das mais importantes influên-
cias no desenvolvimento de um novo projeto para a Psi-
cologia: o projeto do compromisso social. Seu trabalho,
sempre aliado ao de outras pessoas, produziu novos ca-
minhos para a Psicologia. Sua produção teórica permitiu
a construção de novas perspectivas no campo da Psico-
logia Social, sendo responsável pelo desenvolvimento
da perspectiva sócio-histórica na Psicologia Social no
Brasil. Suas idéias sobre a prática permitiram a constru-
ção da Psicologia Social Comunitária. Seu empenho na
América Latina criou intercâmbios e trocas, fortalecen-
do o diálogo no campo da Psicologia entre profissionais
deste continente. Seus princípios permitiram apoio na
construção de um novo projeto de Psicologia.
Psicologia & Sociedade; 19, Edição Especial 2: 46-56, 2007
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Sílvia Lane foi guiada pelo princípio de que o conhe-
cimento produzido deveria sempre ser útil para a trans-
formação da realidade na direção da criação de condi-
ções dignas de vida para todos. O conhecimento e a pro-
fissão deveriam estar a serviço da transformação e, com
estas idéias, Sílvia Lane contribuiu para uma revolução
na Psicologia. Com o rompimento com a tradição elitista
da Psicologia, com a preocupação com a construção de
um novo projeto para a ciência e para a profissão, com a
adesão a uma nova concepção de homem para a Psicolo-
gia e com o esforço para aproximar a América Latina,
Sílvia Lane apontou as exigências e condições para um
novo projeto para a Psicologia. E desta forma, pode-se
apontar Sílvia Lane como uma das influências do que
hoje se denomina de Projeto do Compromisso Social da
Psicologia. Trabalho coletivo, consciência crítica e aten-
ção permanente e comprometida com as urgências e
necessidades da população se puseram como pedras
fundamentais da transformação da Psicologia e, não há
dúvida, da importância de Sílvia Lane neste caminhar.
Foi professora na Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (PUC-SP) e seu trabalho naquela Universi-
dade merece ser resgatado, pois é a partir dali que se
expandem sua influência,suas idéias e seus convites para
que um coletivo dos psicólogos se engajasse nas novas
tarefas. No Brasil, muitos aceitaram o convite de Sílvia
Lane para esta empreitada e podem-se encontrar marcas
desta contribuição espalhadas por todo lugar onde há
psicólogos. Importante registrar que este coletivo se
tornou diversificado e rico, porque Sílvia Lane entendia
também que a partir de algumas idéias e princípios é
possível e desejável esperar do outro sua produção ori-
ginal. Neste artigo, quatro alunos de Sílvia Lane, desde a
década de 70 na graduação em Psicologia na PUC-SP
até os anos 90 nos estudos pós-graduados em Psicologia
Social na mesma Universidade, retomam a história,
refletindo sobre o caminho percorrido por Sílvia Lane
na Psicologia Social brasileira e daAmérica Latina, des-
tacando a corrente da Psicologia Sócio Histórica que
se instalou nos espaços onde ela estava na PUC-SP,
desenvolveu-se na Faculdade de Psicologia daquela Uni-
versidade e contribuiu com a construção dos alicerces
do novo projeto de Compromisso Social da Psicologia.
Ao se fazer esta retomada, pretende-se prestar uma ho-
menagem à professora que se tornou para todos modelo
de rigor científico, de compromisso político e de um
“professorar” em permanente movimento, carregado
sempre da melhor inquietação.
Inicialmente vamos retomar a história de Sílvia Lane
e da Psicologia Social ressaltando a contribuição de
Sílvia Lane a partir de seu trabalho na PUC-SP. Em se-
guida vamos destacar o desenvolvimento da Psicologia
Social Sócio-histórica no Brasil e a importância e papel
de Sílvia Lane nesta construção. E por fim traremos a
idéia de uma Psicologia atenta ao contexto social como
sua contribuição a um novo projeto de Psicologia, como
ciência e profissão. Em todos estes momentos enfati-
zaremos os aspectos que, a nosso ver, são fundamento
da idéia de compromisso social da Psicologia.
Um Pouco de História
Sílvia Lane formou-se em 1956 em Filosofia pela
Universidade de São Paulo (USP) e começou sua carrei-
ra profissional no Conselho Regional de Pesquisa Edu-
cacional, ligado ao Ministério da Educação, o qual tinha
como finalidade reformular o ensino no Brasil. Sílvia
Lane manteve-se no Conselho até 1960. Em 1965, con-
vidada pela Profa. Maria do Carmo Guedes, passou a
ministrar aulas no curso de Psicologia da Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras São Bento da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, onde também tra-
balhavaAniela Ginsberg. É neste espaço da PUC-SP que
Sílvia Lane construiu toda sua carreira de professora de
Psicologia Social. Inicialmente, ligada ao Laboratório de
Psicologia Experimental, começou a realizar suas pes-
quisas em Psicologia Social. Defendeu seu doutorado
em 1970 na própria PUC-SP realizando pesquisa sobre
o diferencial semântico de Charles Osgood com o título
“Significado psicológico de palavras em diferentes gru-
pos socio-culturais”. Na sua defesa da tese:
. . . Joel Martins provocou Sílvia, observando que ela
trabalhara na pesquisa com Osgood mas estava
“namorand” Skinner. De fato Sílvia confessa que,
apesar de utilizar a escala de diferencial semântico,
por considerá-la instrumento preciso, não aceitava a
teoria de resíduo de Osgood. Leu muito Skinner para
sua pesquisa e sentia mais consistência na sua teoria
do que na de Osgood, com uma abertura para o ma-
terialismo dentro da Psicologia ... Sílvia nunca se con-
siderou skinneriana, mas a materialidade daquela teo-
ria a atraía muito, e facilitou-lhe o entendimento da
Psicologia Social soviética. (Sawaia, 2002, p. 33).
No final dos anos 60 e início dos anos 70, a PUC-SP
e o Instituto de Psicologia, onde Sílvia Lane era profes-
sora, passaram por grandes transformações. Foram mo-
mentos importantes de mobilização universitária em prol
da reforma e da inovação do ensino superior. Em 1971,
foi criada a Faculdade de Psicologia da PUC-SP, a partir
da fusão da Faculdade São Bento e do Sedes Sapientiae.
Tornou-se a primeira diretora do curso de Psicologia re-
cém criado. Tinha nas mãos o desafio de construir um
novo curso de Psicologia e a Profa. Sílvia Lane aceitou o
desafio.A estrutura e organização da Psicologia da PUC-
SP tornar-se-iam referência para os cursos no Brasil.
Era assim que Sílvia Lane definia esse período:
No curso de graduação da PUC-SP, tentávamos con-
cretizar a tese da teoria e prática no ensino, levando
os alunos a observações, entrevistas, enfim, a coletar
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
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dados do cotidiano e confrontá-los com os textos clás-
sicos sobre os conceitos de atitudes, motivação e per-
cepção sociais, dissonância cognitiva, socialização,
dinâmica de grupo etc. (Lane, 1999).
A proposta era de chegar a uma revisão crítica dos
conceitos. Sílvia Lane entendia que era preciso superar
a idéia e o hábito de fazer da realidade um exemplo dos
conceitos teóricos. Ter a realidade material como
parâmetro era quase uma obsessão para Sílvia Lane, que
considerava necessário tomá-la como referência para a
produção da ciência.A realidade deveria ser critério para
análise da importância e fidedignidade de dados que as
pesquisas produziam e não o contrário.
Essa preocupação traduziu-se em postura metodo-
lógica, pois o objetivo era produzir conhecimento que
possibilitasse uma compreensão da realidade que impli-
casse, necessariamente, sua transformação. Sílvia Lane
foi incansável na produção teórica e de pesquisa com
esse norte: conhecimento científico como práxis, unida-
de entre saber e fazer. Tinha claro que uma nova psico-
logia social só se configuraria por meio de concepções
teóricas fundadas em pesquisa relevante e socialmente
comprometida. Para Sílvia Lane, teoria e prática deve-
riam ser vividas como militância.
No entanto, Sílvia Lane não tinha facilidade de en-
contrar eco para suas preocupações. Insistentemente,
manteve-se como professora de Psicologia Social e ali
fazia seu esforço para cultivar novas concepções sobre
pesquisa, ciência e Psicologia e procurou ocupar espa-
ços onde estas intenções pudessem ter desenvolvimento.
Criou, em 1977, com o Prof. Alberto Abib, contando
depois com a participação da Profa. Odette de Godoy
Pinheiro, um trabalho em Psicologia nos Sindicatos e
comunidades operárias de Osasco em uma disciplina
intitulada “A Psicologia Social na prática clínica”. A
temática era um achado, na medida em que a maioria
esmagadora dos alunos da Faculdade de Psicologia da
PUC-SP se especializava na área clínica. Esta área, mes-
mo com o tipo de ensino crítico ministrado ali, apresen-
tava um forte viés individualista. Apesar do compromis-
so político de boa parte dos professores, o instrumental
teórico era voltado para o atendimento nos consultórios
privados e a ideologia reproduzida por esse modelo de
atendimento era a do psicólogo como profissional libe-
ral.¹ O curso ministrado na Faculdade de Psicologia
reunia a visão crítica e a militância acadêmica de Sílvia
Lane e a militância no movimento operário de Alberto
Abib Andery.
Esta experiência, que ocorreu principalmente na ci-
dade de Osasco, cidade pertencente à Grande São Paulo,
com certa concentração industrial e com vários bairros
operários, leva tanto os alunos nela envolvidos quanto
seus professores a uma intensa reflexão sobre os limites
da teoria e da prática psicológicas. É esta experiência
que lançou as bases daquilo que Sílvia Lane e Bader
Sawaia (1995) iriam, mais adiante, chamar de Psicolo-
gia Social Comunitária. O relato sistematizado das inú-
meras intervenções realizadas nessa ocasião foi apresen-
tado no Primeiro Encontro Regional de Psicologia na
Comunidade promovido pela Associação Brasileira de
Psicologia Social (ABRAPSO) e pela PUC-SP em 1981.
Os anais desse encontro acabaram por se transformar na
referência mais freqüentemente citada por todos aque-
les que passaram a trabalhar com a psicologia comuni-
tária.²
Os trabalhos de Osasco permitiram um profundo
questionamento tanto da metodologia quanto da teoria
da psicologia social. Recuperou-se a experiência já
consagrada de Paulo Freire com sua obra “Pedagogia
do oprimido”, leu-se Alberto Merani, debateu-se a ne-
cessidade e preponderância do método qualitativo de
pesquisa, falou-se em pesquisa-ação ou pesquisa parti-
cipante. Questionou-se profundamente o parâmetro teó-
rico da psicologia social. De uma hora para outra, ape-
nas a discussão crítica da Psicologia Social americana
nãoeramaissuficiente.Tratou-sedesuperarradicalmente
uma psicologia por demais comprometida ideologica-
mente e que não cabia em nossa realidade.
Este processo teve seu início em outras iniciativas
também importantes: a disciplina “Estudos livres”, no
curso de graduação em Psicologia, ministrada pela Profa.
Sílvia, permitia livres reflexões sobre o conhecimento e
a relação da Psicologia com a realidade social, nos anos
74 e 75.A disciplina ministrada pelo Prof.Abib, “Confi-
guração sócio-psicológica do trabalhador brasileiro”, ia
na mesma direção. A idéia fixa de relacionar mais de
pertoapráticacomateoria,permitindoumconhecimento
crítico e uma prática consistente, levou Sílvia Lane à pro-
posta de Núcleos como formas organizadoras do curso
para o 4º e 5º anos da Faculdade de Psicologia. Estáva-
mos em 1974/75. Os núcleos eram práticas profissionais
em forma de estágio, acompanhadas de disciplinas
teóricas que lhes davam sentido e permitiam a crítica a
partir das experiências vividas como exercício e treina-
mento profissional.
As críticas apontadas por Sílvia Lane e as reflexões
produzidas nessas experiências encontraram espaço ade-
quado para seu desenvolvimento, quando se consolidou
o programa de estudos pós-graduados em Psicologia
Social da PUC-SP. Criado em 1972, com a participação
de Sílvia Lane, o programa permitiu a reunião de esfor-
ços para a produção de uma nova perspectiva em Psico-
logia Social. Sílvia ministrou disciplinas que se propu-
nham a fazer revisões críticas de experimentos e pesqui-
sas indexados no PsychologicalAbstracts. A constatação
da inconsistência dos resultados encontrados e de sua
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inadequação a fenômenos sociais presentes na realidade
pesquisada no Brasil apontou para um vazio teórico que
gerou a certeza de que era urgente o desenvolvimento de
pesquisas que levassem a uma nova sistematização.
Sua preocupação básica em construir uma psicolo-
gia social voltada para a realidade brasileira e latino-
americana, com vistas a contribuir para a superação das
desigualdades e das situações de opressão, demandava
uma construção teórica que permitisse compreender o
homem como participante do processo social. Nesse sen-
tido, entendia que o conhecimento da psicologia deveria
levar à compreensão dos mecanismos que provocam a
alienação e contribuir para ampliar a consciência dos
homens. Sua teoria sobre o psiquismo teve essa direção.
A obra teórica de Sílvia Lane pode ser lida de várias
formas, com diversos recortes. Mas, são fundamental-
mente dois aspectos de grande complexidade os que es-
tão na sua base e apontam para essa perspectiva de com-
preensão do homem: a relação subjetividade e objetivi-
dade; e a formação e o papel dos valores. A forma como
tratou esses aspectos complexos revela outra marca da
produção de Silva Lane: simplicidade de proposições,
calcada em pesquisa rigorosa.
A Profa. Sílvia Lane traduziu nessas duas questões a
preocupação em investigar e compreender como o indi-
víduo está implicado com a sua sociedade, como se co-
loca nela, o que permite ou impede que ele compreenda
as determinações sociais e como pode agir sobre elas.
Uma parte de sua discussão caminhou, como vimos
acima, pela crítica à psicologia social predominante em
nosso meio. Era a psicologia social norte-americana, de
base experimental e positivista, que falava de mecanis-
mos psicológicos universais e abstratos,desconsiderando
o conteúdo histórico e social presente na constituição do
homem.
A psicologia social cognitivista coloca como objeto
as relações interpessoais e a influência de fatores sociais
no indivíduo, mas estabelecendo uma dicotomia entre
indivíduo e sociedade e dentro de uma perspectiva
naturalizante. Tais formulações estão baseadas em um
método experimental, que busca relações causais entre
variáveis e estabelece a necessidade de verificação
empírica de princípios teóricos. Baseado no positivismo,
o método prega a neutralidade do conhecimento cientí-
fico e a distinção entre o conhecimento e a ação, ou seja,
entende que o conhecimento deve ser objetivo e
desvinculado de qualquer intenção em relação a seu uso.
Cada um desses pontos foi questionado e discutido
porSílviaLane.SeuconhecimentosobreLewineSkinner
já a levara a questionar a dicotomia entre subjetividade e
objetividade. Entendia que ambos traziam contribuições
importantes para a compreensão do indivíduo, mas as
perspectivas que desvinculavam o indivíduo de seu
contexto não eram suficientes para se entender o homem
social.
Considerava que, no caso da psicologia social cog-
nitivista, isso era mais grave, pois o que se produzia era
umapsicologiaquenãoatentava, realmente,paraasques-
tões sociais, já que elas eram apenas “pano de fundo”
para os acontecimentos do mundo psíquico.
A aproximação de Sílvia Lane com autores da Psico-
logia Social de outros países da América Latina foi tam-
bém essencial em todo este processo.
Foi a partir de 1976 que aqueles que realizavam ex-
periências semelhantes na América Latina passaram a
estabelecer contato e, de uma maneira informal, a traçar
um programa alternativo para a Psicologia Social de cu-
nho experimental desenvolvida nos Estados Unidos e que
até então era dominante também no Brasil. É o caso,
entre outros tantos, da peruana Gladys Montecinos, das
venezuelanas Maritza Monteiro e Maria Auxiliadora
Banchs, do cubano Fernando González Rey e do espa-
nhol radicado em El Salvador, Ignacio Martín-Baró. Sil-
via Lane analisou e se referiu a este período, trazendo a
importância de a Psicologia Social dialogar com outras
Psicologias Sociais de países da América Latina, como
pode ser visto em entrevista publicada no PSI Jornal de
Psicologia do Conselho Regional de Psicologia de São
Paulo (CRP-SP) em 2000.
A Psicologia Social no Brasil era um ‘zero à esquer-
da’, não interferia em nada, não ajudava em nada,
quer dizer, era um saber que estava lá, que partia das
teorias americanas para explicar a realidade brasi-
leira. Era preciso compreender como o latino-ameri-
cano singulariza o universal na constituição particu-
lar de sua existência. (Lane, 2000).
O trabalho social iniciado no curso de graduação da
PUC-SP, o desenvolvimento das pesquisas no curso de
pós-graduação e as relações na América Latina se uni-
ram enquanto aspectos fundamentais para a construção
da nova perspectiva em Psicologia Social. Uma perspec-
tiva que, segundo Sílvia Lane, deveria começar
explicitando uma nova concepção de homem na psico-
logia: um homem social e histórico. E, para compreen-
der esse homem e como as determinações históricas es-
tão em relação com ele, seria necessário um outro méto-
do. O materialismo histórico e dialético será o método
que ela vai adotar e desenvolver na psicologia social.
Sem dúvida, o marxismo, como postura epistemoló-
gica, estava na minha cabeça, como proposta para
superar a ideologização da nossa ciência. E foi um
desafio encontrar um eixo marxista para desenvolver
uma nova psicologia social (Lane, 2000).
Portanto, juntava-se, aos ingredientes já comentados,
o marxismo. Esta perspectiva, como ela mesma disse,
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
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epistemológica, vai contribuir para a superação do
positivismo na forma de fazer ciência, para a elaboração
de novos métodos de pesquisa e para a afirmação do
homem como sujeito histórico.
A afirmativa de que o positivismo, na procura da ob-
jetividade dos fatos, perdera o ser humano decorreu
de uma análise crítica de um conhecimento minucio-
so enquanto descrição de comportamentos que, no
entanto, não dava conta do ser humano agente de
mudança, sujeito da história. O homem ou era social-
mente determinado ou era causa de si mesmo: socio-
logismo vs biologismo? Se por um lado a psicanálise
enfatizava a história do indivíduo, a sociologia recu-
perava, através do materialismo histórico, a especifici-
dade de uma totalidade histórica concreta na análise
de cada sociedade. Portanto, caberia à Psicologia
Social recuperar o indivíduo na intersecção de sua
história com a história de sua sociedade – apenas este
conhecimento nos permitiria compreender o homem
como produtor da história. (Lane, 1984a, p. 13).
Essa formulação expressa a elaboração realizada no
processo de crítica à psicologia social tradicional e bus-
ca de novas referências a que nos referimos acima. Uma
nova postura epistemológica, metodológica e ontológica
vai subsidiando a constituição de novas categorias e con-
ceitos explicativos do psiquismo.
A partir do materialismo histórico e dialético, Lane
produziu, então, uma nova psicologia social, cujo obje-
to, em vez de “relações interpessoais e influências so-
ciais”, como propunha a psicologia social tradicional,
seria o homem como ser histórico, a dialética entre indi-
víduo e sociedade, o movimento de transformação da
realidade. O objetivo era compreender o indivíduo em
relação dialética com a sociedade; a constituição históri-
ca e social do indivíduo e os elementos que explicam os
processos de consciência e alienação; e as possibilidades
de ação do indivíduo frente às determinações sociais.
O método materialista histórico e dialético tem recur-
sos para se compreender o homem dentro da totalidade
histórica, a partir das categorias da dialética (totalidade,
contradição, empírico-abstrato-concreto, mediação).
Além disso, esse método considera que sujeito e objeto
estão em relação dialética, portanto não há neutralidade
no conhecimento, há sempre uma intenção do sujeito
sobre o objeto. Essa intenção é histórica e deve ser con-
siderada.
Em outras palavras, o materialismo histórico e
dialético permite trabalhar com a historicidade dos fe-
nômenos e, por isso, contrapõe-se à sua naturalização.
Boa parte da obra de Sílvia Lane foi para desenvolver
uma compreensão do psiquismo fundamentada nesses
pressupostos.
E, de maneira coerente, tais formulações foram pro-
duzidas a partir de pesquisas realizadas com métodos
adequados à compreensão da realidade como contra-
ditória, em processo de transformação constante e do
conhecimento como práxis.
Dentre as novas metodologias destacou-se a pes-
quisa-ação participante. A concepção de pesquisa parti-
cipante anulava toda discussão sobre a neutralidade da
ciência e do pesquisador. Tratava-se, então, de discutir o
compromisso social do pesquisador.
É importante situar no tempo estes esforços. Está-
vamos nos anos 70, nos “anos de chumbo” da sociedade
brasileira e o desenvolvimento de concepções progres-
sistas dentro de algumas Universidades, como a PUC-
SP, era um fato. Havia clima adequado para as reflexões
e críticas que Sílvia Lane propunha, agora já acompa-
nhada de um grupo de professores do Programa de Pós-
Graduação em Psicologia Social (Bader Sawaia, Suely
Rolnik,LeonorGaioto,AntônioCiampa,MariadoCarmo
Guedes, entre outros) e reunindo alunos/ orientandos que
buscavam alternativas para a tradicional Psicologia So-
cial (Wanderley Codo (1981), Renate Sanchez (1974),
Antonio Ciampa (1977 e 1986), Alfredo Naffah (1983),
Carlos Peraro Filho (1978 e 1988), Irede Cardoso (1978),
Bader Sawaia (1979 e 1987), Ivanise Leite (1979),
Eizabeth Lenza (1981), Maria Lucia Violante (1981),
FernandoPontes(1983),SylviaFriedman(1985),Brígido
Camargo (1985), Elvira Wagner (1986), Sueli Terezinha
Martins (1987), Denise Camargo (1988), entre outros).
Sílvia Lane, seus alunos e colaboradores se volta-
ram, dessa forma, para a tarefa de construir uma alter-
nativa teórica que estivesse consoante com os proble-
mas enfrentados no cotidiano da realidade brasilei-
ra. E é importante frisar que essa construção teórica se
dava em todos os espaços que Sílvia Lane ocupava como
professora, pesquisadora e militante por uma psicologia
social crítica.
Ela foi protagonista dessa posição em vários even-
tos, dentre eles debates com Aroldo Rodrigues, o repre-
sentante no Brasil da psicologia social cognitivista.
Nos debates, Aroldo Rodrigues afirmava que aquilo
que Sílvia Lane fazia não era ciência, era política. Se-
gundo ele “. . . a Psicologia Social é uma ciência básica
e neutra, a ela cabe descobrir as relações estáveis entre
variáveis psicossociais a fim de possibilitar ao tecnólogo
social a solução dos problemas sociais de forma cons-
ciente e não improvisada” (Rodrigues, 1986, apud
Sawaia, 2002).
Em suas respostas, Sílvia Lane afirmava que: “. . . o
fundamental neste momento é a psicologia rever sua prá-
tica, pois teoria e prática têm que vir juntas. Não se pode
dividir a psicologia social em ciência aplicada e pura”
(Lane, 1986, apud Sawaia, 2002).
No final dos anos 70 Sílvia e seus orientandos reali-
zaram,uma intensa discussão teórico-metodológica no
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Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia So-
cial da PUC-SP, formalizando e sistematizando o pro-
cesso de revisão metodológica da Psicologia Social.
Nesse processo, foi feita a releitura de George Mead e
de Politzer; discutiu-se a crítica feita à psicologia social
por Poitou, Bruno e Pêcheux; a partir do livro organiza-
do por Serge Moscovici, Introduction de la Psychologie
Sociale, discutiu-se o conceito de Representação Social;
também debruçaram sobre as questões da linguagem,
analisando e Teorias da Psicologia da Linguagem de
Robert Terwilliger. Mas, é com a (re)descoberta de
Vigotski, Luria e Leontiev que se tornou possível o salto
de qualidade que levou à fundamentação das categorias
básicas do psiquismo: a consciência, a atividade e a iden-
tidade, que foi levado ao público através da principal
obra do período: Psicologia Social: O homem em movi-
mento, organizado por Sílvia Lane e Wanderley Codo
em 1984. Completaram este trabalho a teoria da iden-
tidade como metamorfose, elaborada por Antonio da
Costa Ciampa em tese de doutorado de 1987, A estória
do Severino e a história da Severina; e a discussão sobre
consciência realizada por Bader Sawaia no seu douto-
rado, A consciência em construção no trabalho de cons-
trução da existência, em 1987.
Comessedesenvolvimentoteórico, pelaprimeiravez,
criou-se, de fato, uma alternativa à psicologia social
norte-americana. O mesmo movimento realizado por
Florestan Fernandes, de busca da realidade social, do
trabalho empírico, da busca de alternativas metodológica
para se construir a base de uma teoria consistente, foi
realizado por Sílvia Lane no campo da Psicologia So-
cial. Em artigo comentando os cursos e programas de
psicologiasocialnoBrasil,ministradosentre1983e1993,
Sergio Ozella identifica a importância que o aporte teó-
rico desenvolvido na PUC-SP ganhou neste período. Em
1983, os autores mais citados e indicados como leitura
nos cursos de psicologia social, eram Aroldo Rodrigues
(54 menções); J. L. Freedman (36); Solomon Asch (29);
Krech, Crutchfield e Ballachey (29) e Sílvia Lane com o
seu introdutório O que é a Psicologia Social (22). Em
1993, Sílvia Lane e Wanderley Codo com Psicologia
Social: O homem em movimento, recebem 63 menções,
seguidos do livro Psicologia Social deAroldo Rodrigues
com 36. Em terceiro lugar O que é a Psicologia Social
com 28 menções. Foi o coroamento de um intenso e im-
portante trabalho realizado por Sílvia durante todos aque-
les anos, investindo na construção da Psicologia Social
no Brasil e na América Latina.
Naqueles intensos anos 70 e 80, com toda aquela
movimentação e esforços para a renovação, ocorreu a
construção da ABRAPSO em 1980. Reunindo profes-
sores da PUC-SP, orientandos do programa de pós-gra-
duação e outros profissionais e professores de outras
escolas, Sílvia Lane fundou a Associação Brasileira de
Psicologia Social. Havia, naqueles anos, a ALAPSO –
Associação Latino-americana de Psicologia Social, mas
era uma entidade sem representatividade, que servia
apenas de espaço de projeção para alguns poucos que
nela se mantinham, sem qualquer esforço de construção
deumaPsicologiaparaaAméricaLatina.Em1979, apro-
vou-se no encontro da SIP (Sociedade Interamericana
de Psicologia) no Peru, a proposta de criar associações
nacionais, substituindo a ALAPSO. Ainda em 1979,
quando Sílvia Lane retornou ao Brasil, organizou um
Encontro de Psicologia Social e realizou reunião para
debater a criação da ABRAPSO. “Segundo Sílvia, uma
das principais realizações do encontro foi a de conscien-
tizar os participantes psicólogos de que suas perplexida-
des, percebidas até então como sentimentos individuais,
eram compartilhadas por cientistas de diversas áreas”.
(Sawaia, 2002, p. 66). Em 10 de julho de 1980, na Uni-
versidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), foi funda-
da a ABRAPSO. “A criação da ABRAPSO é um marco
decisivo na orientação da psicologia social brasileira em
direção à problemática de nossa realidade sócio-econô-
mica-política-cultural. Também reafirma a importância
fundamental de Lane, que ficou na presidência nacional
até 1983 . . .” (Molon apud Sawaia, 2002, p. 67).A histó-
ria da Psicologia Social no Brasil tem assim uma forte
presença de Sílvia Lane. Esta história que caminha na
direção do compromisso com a realidade brasileira e da
América Latina e que em termos de produção teórica
culmina com a produção da chamada Psicologia Social
Sócio-Histórica.
Sílvia Lane parecia sempre saber para onde cami-
nhar e para onde levar a Psicologia Social, mas todos
aqueles que com ela conviveram sabem que ela “inven-
tou junto”, ou seja, prezou sempre os espaços de criação
coletiva. Por isto, houvesse mais espaço para traçarmos
todas as linhas do desenvolvimento da Psicologia Social
no Brasil, a partir de Sílvia, os traços alcançariam a to-
dos que hoje se encontram no campo de uma Psicologia
Social comprometida e crítica.³
Uma Psicologia Social Sócio-Histórica
A Psicologia Social que veio a ser denominada
sócio-histórica surgiu nesse processo de revisão e crítica
com vistas à produção de um conhecimento comprome-
tido com a transformação social. Como vimos, foram
diversos os atores desse processo, que resultou em um
conjunto de elaborações teóricas afinadas com a idéia
da desnaturalização dos fenômenos sociais.
Entretanto, vimos também que Sílvia Lane se des-
tacou nesse processo e conduziu um conjunto de pes-
quisas e elaborações conceituais que são identificadas
como psicologia social sócio-histórica.
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
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Seus fundamentos epistemológicos, metodológicos
e ontológicos já foram mencionados. Decorrem do ma-
terialismo histórico e dialético e permitem abordar os
fenômenos sociais e psicológicos na sua historicidade.
Também mencionamos anteriormente um recorte da obra
teórica de Sílvia Lane, que nos permite perceber a coe-
rente articulação entre suas proposições teóricas e práti-
cas por meio da compreensão de duas importantes ques-
tões: a dialética subjetividade-objetividade; e a forma-
ção e mudança de valores.
A partir desses fundamentos, então, Sílvia Lane de-
senvolveu a concepção de uma subjetividade em proces-
so dialético, numa dialética subjetividade-objetividade.
Teve acesso à obra dos soviéticos Luria, Leontiev e
Vigotski e, a partir deles, desenvolveu o estudo das cate-
gorias do psiquismo: atividade, consciência e identida-
de. Articulou seus estudos sobre linguagem e processo
grupal à compreensão das categorias como processos
constituídos por mediações. Trabalhou também, nessa
perspectiva, com a teoria das representações sociais de
Moscovici.
Uma pessoa é a síntese do particular e do universal,
ou seja, sua individualidade se constitui, necessaria-
mente, na relação objetiva com o seu meio físico, geo-
gráfico, histórico e social. que irão, através de suas
ações, desenvolver, o psiquismo humano constituído,
fundamentalmente, pelas categorias: consciência, ati-
vidade e afetividade, (trataremos da Identidade num
segundo momento).
Empiricamente, podemos constatar as mediações
constitutivas dessas categorias: as emoções, a lingua-
gem e o pensamento, responsáveis pela subjetivação/
objetivação do psiquismo humano.
A análise só estará completa se considerarmos o ser
humano, ontogeneticamente, como um ser sócio-his-
tórico, ou seja, ele se desenvolveu através de ferra-
mentas inventadas e de uma linguagem articulada a
fim de transmitir a utilidade dessas para os seu pares.
Estas relações se dão através da mediação de grupos
sociais dos quais um indivíduo participa, necessaria-
mente, a fim de garantir sua sobrevivência, assim, além
de adquirir a linguagem produzida por esta socieda-
de, desenvolve o pensamento, os afetos e sentimentos.
É neste processo de interação que se desenvolve a sua
Identidade, como categoria constitutiva de seu
psiquismo.
Indivíduo e Sociedade são inseparáveis, segundo a
dialética, pois o particular contem em si o universal,
deste modo, se desejamos conhecer cientificamente o
ser humano, é necessário considerá-lo dentro do con-
texto histórico, inserido em um processo constante de
subjetivação/objetivação.
Nosso organismo é estimulado a todo momento: per-
cebemos, sentimos, reagimos, refletimos e agimos,
objetivando a nossa subjetividade a qual por sua vez
se transforma, num processo constante, de metamor-
fose, isto se não nos deixarmos cristalizar por papéis
desempenhados sem uma reflexão crítica. (Lane, 2002,
p. 12).
Nesta síntese, toda a riqueza das formulações teóri-
cas de Sílvia Lane pode ser percebida. Estão aí coloca-
das as suas principais contribuições: devemos compre-
ender o psiquismo como processo constante, um proces-
so constituído na vida concreta, por meio das ações,
vivências, experiências do indivíduo e por meio de suas
relações. Processo contraditório, revelador da dinâmica
entre a totalidade social e a particularidade das situações
individuais, entre o universal e o singular das experiên-
cias humanas. E processo protagonizado por sujeitos his-
tóricos, que, por serem sujeitos trazem emoção, refle-
xão, ação, movimento.
A produção de Sílvia Lane não se desviou, em ne-
nhummomento,deseupropósitomaior:desenvolveruma
psicologia que contribua com a transformação da socie-
dade. A compreensão dos aspectos psicológicos como
constituídos em uma dialética subjetividade-objetivida-
de traz a possibilidade de superar explicações que ape-
nas justapõem indivíduo e sociedade e permite que, ao
se falar do sujeito, fale-se, necessariamente, da realida-
de social da qual participa. E compreender que ambos,
sujeito e sociedade estão em um movimento que tem por
base as contradições do processo histórico, significa po-
der apontar as possibilidades de transformação.
O aprofundamento dessa perspectiva, podemos di-
zer, encontra-se com outra vertente importante da obra
de Sílvia Lane: como se constituem e qual o papel dos
valores no processo subjetivo-objetivo ou na relação in-
divíduo-sociedade. Seus estudos iniciais sobre a dimen-
são valorativa presente nos significados das palavras,
investigações realizadas com o diferencial semântico de
Osgood, ampliaram-se com as noções de significado so-
cial e sentido pessoal, desenvolvidas a partir de Leontiev
e Vigotski, no estudo da linguagem como mediação no
processo atividade-consciência. Posteriormente, essas
investigações desenvolveram-se com os estudos sobre
emoções e a postulação da categoria afetividade.
Em relação à linguagem, Sílvia Lane sempre apon-
tou a necessidade de se considerar os aspectos ideológi-
cos presentes na construção de significados. Dessa ma-
neira, pôde desenvolver a compreensão da linguagem
comomediaçãonoprocessodeconsciênciafazendoclara
referência ao lugar social ocupado pelo indivíduo e às
determinações históricas a que está sujeito. Ao mesmo
tempo, considerar o indivíduo também como produtor
de sentidos recoloca-o em posição ativa, mesmo que de
maneira contraditória. Na verdade, a investigação da ar-
ticulação entre significados sociais e sentidos pessoais
Psicologia & Sociedade; 19, Edição Especial 2: 46-56, 2007
53
possibilitada pela atividade, concretiza a investigação da
dialética subjetividade-objetividade.
A análise que Leontiev faz da aprendizagem da língua
materna aponta para dois processos que se interli-
gam necessariamente: se, por um lado, os significa-
dos atribuídos às palavras são produzidos pela coleti-
vidade no seu processar históricos e no desenvolvi-
mento de sua consciência social e, como tal, se subor-
dinam às leis histórico-sociais, por outro, os signifi-
cados se processam e transformam através de ativi-
dades e pensamentos de indivíduos concretos e assim
se individualizam, se ‘subjetivam’, na medida em que
‘retornam’para a objetividade sensorial do mundo que
os cerca, através das ações que eles desenvolvem con-
cretamente.
Desta forma, os significados produzidos historicamen-
te pelo grupo social adquirem, no âmbito do indiví-
duo, um ‘sentido pessoal’, ou seja, a palavra se rela-
ciona com a realidade, com a própria vida e com os
motivos de cada indivíduo. (Lane, 1984b, p. 32-33).
A linguagem, produção ao mesmo tempo social e
individual é expressão da síntese e do movimento entre
sujeito e realidade. Significado e sentido, como unidade
de contrários, ao mesmo tempo revelam e possibilitam e
concretizam a dialética subjetividade-objetividade. O
desenvolvimento dos estudos sobre as categorias do
psiquismopossibilitouqueSílviaLaneavançassenacom-
preensão da emoção e da criatividade. São os desafios
que sempre se propôs a enfrentar e de maneira coerente:
é necessário compreender o que permite ao homem se
implicar, se reconhecer como sujeito, compreender as
determinações a que está sujeito e as formas de agir so-
bre elas. É necessário compreender o que impede e o
que permite ao homem agir para transformar a realidade
de forma libertadora e emancipadora.
Por isso, a necessidade de pesquisar como surgem,
se mantém e se modificam as emoções. A afetividade é
também categoria fundamental do psiquismo, formula-
ção de Sílvia Lane para indicar a ligação do indivíduo
com o contexto social para além de um reconhecimento
cognitivo.
O ser humano é um todo – fisiologia e psicologia são
manifestações de uma mesma totalidade. Assim como
as funções fisiológicas estão integradas, também as
psicológicas interagem, desenvolvendo funções
psiconeurológicas superiores que ampliam a capaci-
dade humana. Em síntese, ele é produto de um longo
processo histórico, no qual as mediações das emoções,
da linguagem, do pensamento e dos grupos sociais
constituem a subjetividade: consciência, atividade,
afetividade e identidade.
Essa subjetividade, em sua unidade dialética com a
objetividade, permite o desenvolvimento de valores
morais, éticos e estéticos. (Lane, 1999, p. 119).
Exatamente por trazer a questão dos valores e sua
constituição na dialética subjetividade-objetividade, sem
perder de vista a inserção histórica do indivíduo é que
Sílvia Lane realizou uma psicologia social que desven-
dou a unidade contraditória entre indivíduo e sociedade.
A psicologia social sócio-histórica coloca-se como uma
psicologia que não aceita o que constata, mas uma psi-
cologia social que se posiciona, porque o reconhecimento
da historicidade dos fenômenos que estuda assim o per-
mite.
Coerente com a visão de que o conhecimento e a in-
tenção prática em relação ao objeto não se separam, Síl-
via Lane nos deixou desafios: avançar na pesquisa sobre
a maneira como os indivíduos se implicam ou não com
sua própria realidade é compromisso ético de quem se
dedica à Psicologia.
Procurei entender, primeiro, como se formam os valo-
res nos seres humanos, como eles se dão e orientam o
cotidiano das pessoas. . . Esse é o desafio, esmiuçar
como se dão os processos, não só na formação de va-
lores, mas na mudança de valores. Sem esquecer que
eles vêm carregados de muita história – a familiar, a
social – e não é fácil mudar. A não ser que a pessoa
assuma, realmente, uma reflexão crítica . . . Aí surge
outro dilema, outra contradição: entre imaginação e
fantasia. A fantasia leva à alienação, é destrutiva, por-
que perde os vínculos com o real, enquanto que a ima-
ginação tem os pés no real, no cotidiano. Outro desa-
fio que surgiu há pouco tempo é a apatia, o desinte-
resse. Alguém indiferente às coisas está negando a
própria vida, a emoção, o afeto! Isso é terrível! Como
se forma um sentimento de indiferença? Ele é a mor-
te, é virar um robô. São desafios nos quais temos que
nos aprofundar, pesquisar. Se assumirmos que a trans-
formação social só se dará eticamente, quem mais do
que nós, psicólogos, tem essa arma na mão? É exata-
mente esse pensar ético que deve estar presente onde
o psicólogo estiver atuando. (Lane, 2000).
Um pensar ético, um compromisso ético que alia o
conhecimento com a ação. A proposta, o desafio de
pesquisar para poder interferir, atuar para que os homens
sejam sujeitos, não sejam robôs. Para que os homens se
envolvam, não sejam indiferentes. O referencial da psi-
cologia social sócio-histórica, ao apontar a historicidade
constitutiva dos fenômenos, ao apontar sua gênese con-
traditória permite apontar ações de superação, permite
usar o conhecimento de forma posicionada.
Uma Psicologia Atenta ao Contexto Social ou
“Toda a Psicologia é Social” 4
Cabe destacar, ainda, a questão do “social” que ca-
racteriza e nomeia a Psicologia de Sílvia Lane. A noção
teórica que nos faz colocar o epíteto de social na psico-
logia merece atenção de todos nós, pois ele não tem o
mesmo sentido em todos os lugares onde aparece.
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
54
É fácil que ocorra nas áreas de conhecimento a acei-
tação de nomenclaturas que refletem mais a acomoda-
ção dos interesses de seus construtores do que a clareza
na delimitação de suas possibilidades e obrigações. Tal é
o caso, por exemplo, da Psicologia Social estadunidense
que, a despeito de contar uma enorme produção de arti-
gos e livros, ainda na década de setenta tinha vários au-
tores que afirmavam ser prejudicial tentar qualquer defi-
nição de seu escopo porque isso tiraria a liberdade das
pessoas que estavam engajadas na sua construção. Isto
é, para essas pessoas a indefinição era a forma de manter
aquela Psicologia Social.
Pois é possível afirmar que tenha sido exatamente a
exigência de esclarecer o que seria o social na psicolo-
gia que tenha gerado no Brasil a possibilidade de desen-
volvimentos que diferenciaram de forma tão significati-
va seus contornos e projetos de pesquisa e de atuação.
Essa exigência permitiu que a inserção do grupo de tra-
balho que Sílvia Lane compunha, ganhasse uma nova
qualidade, pois foi diferente daquela mais comum nos
grupos então atuantes no Brasil. Não se tratava de apli-
car ou proceder a algum desenvolvimento marginal na
Psicologia, decorrente da apropriação do pensamento
psicológico encontrado pronto em outros países. Era pre-
ciso indicar claramente a partir de qual solo se estava
trabalhando e, já aí, produzir algo novo, uma vez que
adequado a este solo específico.
A inserção de seu grupo de trabalho foi diferente
porque eles se comportavam como construtores da Psi-
cologia. A exigência de nomear sua produção pode ter
sido importante para que o comportamento desse grupo
não fosse reprodutor, ou aplicador, ou pregador, ou
repetidor, ou defensor de algo que lhes havia sido man-
dado desde algum lugar supostamente especial onde a
Psicologia brotava de forma mais espontânea do que nas
terras tupiniquins. A Psicologia era algo que precisava
ser construído e essa tarefa cabia a cada uma das pesso-
as que participavam desse debate.
Claro que muitas das iniciativas surgiram a partir do
exercício da crítica ao conhecimento que era encontrado
pronto.A partir desse exercício crítico, houve recusas de
várias ordens às concepções advindas de outras plagas.
Por exemplo, a recusa de que o epíteto “social” fosse
simplesmente agregado aos diferentes tópicos aborda-
dos pela Psicologia tradicional. Assim, para ser social
não bastava tratar de uma possível “percepção social”,
consoante com uma Psicologia que por tanto tempo es-
tudara um conceito que ela denominava de percepção
individual. Também não bastava colher para exame al-
gum evento grupal e aplicar sobre ele um procedimento
de exame estabelecido para fenômenos individuais.
Nos debates em sala de aula, na busca de encontrar
elementos fundamentais dessa perspectiva social, houve
algum momento de radicalização, talvez pueril, “apa-
rentemente” desnecessária, nessa caracterização. Tal é o
caso da exigência de que a produção dessa psicologia
tivesse que ocorrer sempre de forma coletiva.Assim, para
ser coerente com as exigências de construção de uma
psicologia social, seria preciso que seus textos fossem
produzidos de forma claramente social e grupal. O ter-
mo “aparentemente” vem entre aspas porque parece re-
fletir uma exigência importante, ainda que formulada em
sala de aula de forma pouco precisa, qual seja a de que a
instauração de uma psicologia efetivamente comprome-
tida com as necessidades do povo brasileiro seria tarefa
decoletivosdepsicólogoscomprometidoscomessapers-
pectiva.
Vale ressaltar um elemento caracterizador desse so-
cial que resume o que se apresenta aqui. Tratava-se de
situar cada evento, cada pessoa, cada iniciativa em seu
contexto social. O social não seria simplesmente um
acréscimo ao que a Psicologia já sabia fazer. Tampouco
significava uma defenestração do que fora produzido até
então. Ele teria que ser uma fonte de renovação dessa
Psicologia, sua capacitação para enfrentar os desafios
que a sociedade lhe propunha e produzir respostas às
questões que realidade lhe impunha.
Nessa perspectiva, o psicólogo social não seria so-
mente aquele que trabalharia com problemas ou situa-
ções de caráter social ou grupal. Um psicólogo clínico
(em atendimento individual, em consultório particular),
seria também um psicólogo social. Para isso, bastaria que
ele procedesse em seu trabalho ao exercício de contextua-
lização do seu cliente no seu momento social e histórico.
Na medida em que as fontes explicativas e os resultados
obtidos tivessem um caráter de habilitação de cada pes-
soa para atuar e transformar sua realidade (isto é, parti-
cipar dos processos de transformação), esse trabalho
poderia ser considerado como de psicologia social.
A atenção ao contexto do fazer humano foi uma for-
ma de inserir no campo de visão da Psicologia aquilo
que nos anos setenta era chamado de “realidade brasilei-
ra”. Diante do reconhecimento de que a Psicologia se
desenvolvera quase sempre sem atentar para as necessi-
dades, virtudes e problemas vividos pela maioria da po-
pulação brasileira, o contexto a que se deveria dar aten-
ção era o contexto econômico, histórico e social onde
viviam os brasileiros.
Neste sentido é que a expressão “toda a psicologia é
social” ganha uma possibilidade de compreensão fértil
para o projeto de construção de uma psicologia social
efetivamente adequada aos povos brasileiro e latino-ame-
ricano.
É possível afirmar que essa compreensão, do que seja
o social na Psicologia, tenha se mantido válida até o fim
da vida de Sílvia Lane. Seu entusiasmo e disposição para
Psicologia & Sociedade; 19, Edição Especial 2: 46-56, 2007
55
colaboração, nas mais diferentes iniciativas, se
reacenderam quando percebeu que um movimento, com
essas características, ganhava espaço na Psicologia Bra-
sileira. Ao longo da última década, Sílvia não poupou
esforços para colaborar.
Uma Psicologia com Compromisso Social:
Uma Herança de Sílvia Lane
Para finalizarmos este artigo, cabe fazer a relação da
Psicologia Social produzida sob a orientação e empenho
da Profa. Sílvia Lane, com o projeto, hoje existente, de
uma Psicologia com compromisso social.
Sílvia Lane tem sua produção e seu exercício, como
professora, marcados pela certeza de que a Psicologia
deveria se produzir de forma a ser útil para a transforma-
ção da realidade social em nossos países de Terceiro
Mundo. Perseguiu isto como uma obsessão e sem des-
cuidar de dar-lhe forma acadêmica e rigor científico.
Buscou métodos, instrumentos, conceitos e teorias que
pudessem dar conta disto. Não se acomodou e nem mes-
mo se satisfez com o que estava posto em cada momen-
to. Cada certeza era o início de um novo momento de
dúvidas e buscas. Sílvia Lane dialogou com todos; acei-
tou desafios e acolheu sugestões e iniciativas de seus alu-
nos. Produziu coletivamente com eles, talvez seus prin-
cipais interlocutores. A única certeza de que nunca abriu
mão foi a da necessidade da produção de uma ciência
com compromisso social. Nunca se importou com rótu-
los e com passeios por diferentes teorias, porque busca-
va outra coisa: um conhecimento capaz de falar da vida
vivida e de apresentar possibilidades de contribuição para
a transformação das condições de vida na busca da dig-
nidade. Qualquer tema poderia ser eixo das pesquisas
que seus orientandos traziam, mas todos deveriam lhe
responder: qual a realidade que quero contribuir para
mudar?
Esta intransigência ética marcou seu trabalho de pes-
quisadora e professora. Deixou para a Psicologia uma
obra importante nesta direção. Mas, mais do que isto, ela
deixou um conjunto de psicólogos e pesquisadores, em
sua maioria identificados com a ABRAPSO, que bus-
cam de vários lugares teóricos produzir uma nova Psico-
logia: uma psicologia com compromisso social com a
realidade brasileira e da América Latina. Isto nos permi-
te afirmar que Sílvia Lane mudou os rumos da Psicolo-
gia no Brasil e permitiu a construção de um novo projeto
para a ciência e para a profissão.
Notas
1. Para uma crítica profunda desse modelo veja Bock, Ana M.
B. (1997). As aventuras do Barão de Münchhausen na Psi-
cologia: Um estudo sobre o significado do fenômeno psico-
lógico na categoria dos psicólogos. Tese de doutorado não-
publicada, Programa de Psicologia Social, Pontifícia Uni-
versidade Católica de São Paulo.
2. Veja Bonfim, Elizabeth. Psicologia Social no Brasil; Freitas,
Mª de Fátima Q. (1996, jan./jun.). Contribuições da Psicolo-
gia Social e Psicologia Política ao desenvolvimento da Psi-
cologia Social Comunitária: Os paradigmas de Sílvia Lane,
Ignacio Martín-Baró e Maritza Montero. Psicologia & Soci-
edade, 1(8), e também os próprios Anais do I Encontro Regi-
onal de Psicologia na Comunidade (1981, set.), São Paulo,
ABRAPSO, no qual Alberto Abib Andery relata a experiên-
cia dos estágio em Osasco.
3. Dados sobre estas iniciativas podem ser encontrados em pu-
blicação de Bader Sawaia (2002). Sílvia Lane: Vol. 8. Cole-
ção Pioneiros da Psicologia Brasileira, de iniciativa do Con-
selho Federal de Psicologia, Brasília, DF: Imago.
4. Esta afirmação citada entre aspas está presente em texto de
Sílvia Lane publicado em 1984 –Psicologia Social: O ho-
mem em movimento – pela Ed. Brasiliense, organizado por
ela e por Wanderley Codo (Lane, 1984a).
Referências
Ciampa, A. C. (1987). A estória do Severino e a história de
Severina: Um ensaio de Psicologia Social. São Paulo, SP:
Brasiliense.
Lane, S. T. M. (1984a). A Psicologia Social e uma nova concep-
ção de homem para a Psicologia. In S. T. M. Lane & W.
Codo (Eds.), Psicologia Social: O homem em movimento (pp.
10-19). São Paulo, SP: Brasiliense.
Lane, S. T. M. (1984b). Linguagem, pensamento e representa-
ções sociais. In S. T. M. Lane & W. Codo (Eds.), Psicologia
Social: O homem em movimento (pp. 32-39). São Paulo, SP:
Brasiliense.
Lane, S. T. M. (1999). Os fundamentos teóricos e conclusões. In
S. T. M. Lane & Y. Araújo (Eds.), Arqueologia das emoções
(pp. 11-33, 119-120). Petrópolis, RJ: Vozes.
Lane, S. T. M. (2000, maio/jun.). Diálogos: Uma psicologia para
transformar a sociedade [Entrevista]. PSI Jornal de Psicolo-
gia, São Paulo, 18(122), 4-6.
Lane, S. T. M. (2002). A dialética da subjetividade versus a obje-
tividade. In O. Furtado, Odair & F. González-Rey (Eds.),
Por uma epistemologia da subjetividade: Um debate entre a
teoria sócio-histórica e a teoria das representações sociais
(pp. 11-17). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
Lane, S. T. M., & Sawaia, B. B. (1995). La Psicologia Social
Comunitária en Brasil. In E. Wiesenfeld & E. Sánchez (Eds.),
Psicologia Social Comunitaria: contribuciones Latinoame-
ricanas (pp. 69-116). Caracas, Venezuela: Fondo Tropykos.
Sawaia, B. (1987). A consciência em construção no trabalho de
construção da existência. Tese de Doutorado não-publicada,
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Sawaia, B. (2002). Sílvia Lane: Vol. 8. Coleção Pioneiros da
Psicologia Brasileira. Rio de Janeiro, RJ: Imago.
Bock, A.M.B.; Ferreira, M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’”
56
Ana Mercês Bahia Bock é Psicóloga e Professora titular
da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP), ministrando aulas na
graduação e no programa de Pós-Graduação em
Educação: psicologia da educação. É presidente do
Conselho Federal de Psicologia (CFP) gestão 2004/2007.
Foi orientanda no mestrado e no doutorado da Profa.
Sílvia Lane. Endereço para correspondência: Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, Rua Monte Alegre,
984, São Paulo, SP, 05014-001.
psicopuc@pucsp.br
Marcos Ribeiro Ferreira é Psicólogo e Professor
aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC). Formou-se em Psicologia e obteve título de
doutor na PUC-SP. É presidente da Associação Brasileira
de Ensino de Psicologia gestão 2005/2007. Endereço para
correspondência: Universidade Federal de Santa Catarina,
Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento
de Psicologia, Florianópolis, SC, 88040-970.
psico@cfh.ufsc.br
Maria da Graça M. Gonçalves é Psicóloga, Professora de
Psicologia Social na Faculdade de Psicologia da PUC-SP;
diretora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, gestões
2001/2005; 2005/2009; presidente do Conselho Regional
de Psicologia (CRP) gestão 2004/2007. Foi orientanda da
Profa. Sílvia Lane no doutorado.
Odair Furtado é Psicólogo e Professor associado na
Faculdade de Psicologia da PUC-SP, ministrando aulas na
graduação e na Pós-Graduação em Psicologia Social. Foi
orientando da Profa. Sílvia Lane. Foi presidente do CFP
gestão 2001/2004.
Sílvia Lane e o Projeto do “Compromisso Social
da Psicologia”
Ana Mercês Bahia Bock, Marcos Ribeiro Ferreira, Maria da
Graça M. Gonçalves, Odair Furtado
Recebido: 23/05/2007
1ª revisão: 20/07/2007
Aceite final: 14/09/2007
51
Psicologia: Teoria e Pesquisa
2010, Vol. 26 n. especial, pp. 51-64
A Psicologia Social Contemporânea:
Principais Tendências e Perspectivas Nacionais e Internacionais
Maria Cristina Ferreira1
Universidade Salgado de Oliveira
RESUMO - O presente trabalho faz um balanço do estado atual da Psicologia Social, no plano nacional e internacional. Para
tanto, faz uma revisão inicial das principais tendências que marcaram a evolução da Psicologia Social na América do Norte,
para, em seguida, apresentar as características atuais mais relevantes dessa disciplina na América do Norte, na Europa e na
América Latina. Em seguida, detém-se na análise da recente produção brasileira em Psicologia Social. À guisa de conclusão,
discute os desafios futuros que se colocam à produção nacional na área de Psicologia Social, especialmente no que diz respeito
a seu impacto no cenário acadêmico internacional.
Palavras-chave: Psicologia Social; Psicologia Social Psicológica; Psicologia Social Sociológica; Psicologia Social Crítica.
Contemporary Social Psychology:
National and International Main Trends and Perspectives
ABSTRACT – This paper revises the current state of the art of Social Psychology in Brazil and abroad. For such, it initially
reviews the main trends that influenced the evolution of North American Social Psychology, and presents the most relevant
current characteristics of the discipline in North America, Europe and Latin America. Then, an analysis of the recent Brazilian
publications in Social Psychology is offered. In conclusion, it discusses the future challenges of Brazilian scientific production
in the area of Social Psychology, especially with respect to its impact on the international academic scenario.
Keywords: Social Psychology; Psychological Social Psychology; Sociological Social Psychology; Critical Social Psychology.
1	 Endereço para correspondência: Rua Marquês de Valença, 80 Apto.
602. Rio de Janeiro, RJ. CEP 20550-030. E-mail: mcris@centroin.
com.br.
No decorrer de sua breve história, a Psicologia Social
tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de
abordagens teóricas adotadas como referenciais legítimos à
produção de conhecimentos sociopsicológicos. Tal contexto
tem dificultado sobremaneira a delimitação do objeto de es-
tudo ou mesmo dos vários objetos de estudo dessa disciplina.
Contudo, o binômio indivíduo-sociedade, isto é, o estudo
das relações que os indivíduos mantêm entre si e com a sua
sociedade ou cultura, sempre esteve no centro das preocu-
pações dos psicólogos sociais, com o pêndulo oscilando ora
para um lado, ora para o outro.
Assim é que, em seus primórdios, a Psicologia Social
adotou uma abordagem eminentemente molar, dedicando-
se prioritariamente ao estudo dos processos socioculturais e
concebendo o indivíduo como integrante desse sistema. Com
o passar do tempo, porém, ela foi progressivamente adotando
níveis mais moleculares de análise e se tornando mais indi-
vidualista, ao se focalizar cada vez mais na investigação de
processos intraindividuais. Em reação a tal individualização,
a Psicologia Social irá assistir a outras mudanças de rumo,
responsáveis pelo desenvolvimento de abordagens que se
voltam novamente para a análise de eventos e processos
histórica e culturalmente situados e dinâmicos.
A ênfase maior dada ao indivíduo ou à sociedade fez
com que diferentes autores (House, 1977; Stephan & Ste-
phan, 1985) começassem a defender a existência de duas
modalidades de Psicologia Social: a Psicologia Social
Psicológica e a Psicologia Social Sociológica. A Psicologia
Social Psicológica, segundo a definição de G.Allport (1954),
que se tornou clássica, procura explicar os sentimentos,
pensamentos e comportamentos do indivíduo na presença
real ou imaginada de outras pessoas. Já a Psicologia Social
Sociológica, segundo Stephan e Stephan (1985), tem como
foco o estudo da experiência social que o indivíduo adquire
a partir de sua participação nos diferentes grupos sociais com
os quais convive. Em outras palavras, os psicólogos sociais
da primeira vertente tendem a enfatizar principalmente os
processos intraindividuais responsáveis pelo modo pelo qual
os indivíduos respondem aos estímulos sociais, enquanto os
últimos tendem a privilegiar os fenômenos que emergem dos
diferentes grupos e sociedades.
Para além dessa já hoje clássica divisão, a Psicologia
Social desdobrou-se, mais recentemente, em outra vertente,
qual seja a Psicologia Social Crítica (Álvaro & Garrido,
2006) ou Psicologia Social Histórico-Crítica (Mancebo &
Jacó-Vilela, 2004), expressões que abarcam, na realidade,
diferentes posturas teóricas. Assim é que, de acordo com
Hepburn (2003), tanto o Socioconstrucionismo (Gergen,
1997) e a Psicologia Discursiva (Potter & Wetherell, 1987),
como a Psicologia Marxista, o pós-modernismo e o femi-
nismo, entre outros, contribuem atualmente para o campo
da Psicologia Social Crítica. Tais perspectivas guardam em
comum o fato de adotarem uma postura crítica em relação às
instituições, organizações e práticas da sociedade atual, bem
52 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
M. C. Ferreira
como do conhecimento até então produzido pela Psicologia
Social a esse respeito. Nesse sentido, colocam-se contra a
opressão e a exploração presentes na maioria das sociedades
e têm como um de seus principais objetivos a promoção da
mudança social como forma de garantir o bem-estar do ser
humano (Hepburn, 2003).
A evolução da Psicologia Social, nas diferentes partes
de mundo, vem ocorrendo, de certa forma, associada às
várias modalidades ou vertentes da disciplina. Assim é que,
na América do Norte, e mais especialmente nos Estados
Unidos da América, a Psicologia Social Psicológica foi e
continua sendo a tendência predominante. Já na Europa, é
possível se notar uma preocupação maior com os processos
grupais e socioculturais, que sempre estiveram na base das
preocupações da Psicologia Social Sociológica. Por outro
lado, na América Latina, verifica-se a adoção da Psicologia
Social Crítica como abordagem preferencial à análise dos
graves problemas sociais que costumam assolar a região.
O objetivo do presente trabalho é fazer um breve balanço
do estado atual da Psicologia Social, no plano nacional e
internacional. Para tanto, inicia-se com uma breve revisão
das principais tendências teóricas e temáticas que marcaram
a evolução da Psicologia Social na América do Norte, para,
em seguida, discutir as características mais relevantes da dis-
ciplina na atualidade, no contexto norte-americano, europeu
e latino-americano. Posteriormente, detém-se na análise da
recente produção brasileira em Psicologia Social, procuran-
do compará-la com as tendências anteriormente apontadas.
À guisa de conclusão, discute os desafios futuros que se
colocam à produção nacional dessa área de conhecimento,
especialmente no que diz respeito à sua visibilidade e impacto
no cenário acadêmico internacional.
A Psicologia Social na América do Norte:
Evolução Teórica e Temática
Duas obras, publicadas no ano de 1908, irão marcar a
fundação oficial da Psicologia Social moderna na América
do Norte: o livro Uma introdução à psicologia social, de
autoria de William McDougall, e o livro Psicologia social:
uma resenha e um livro texto, de autoria de Edward Ross
(Pepitone, 1981). Contudo, Ross era sociólogo e McDougall,
psicólogo, o que fez com que uma das obras se situasse
no âmbito da Sociologia e outra, no escopo da Psicologia,
anunciando, já naquela época, a separação ocorrida muito
mais tarde entre a Psicologia Social Psicológica e a Psicolo-
gia Social Sociológica. Assim é que, durante algum tempo,
na América do Norte, a Psicologia Social desenvolveu-se
paralelamente no contexto de ambas as disciplinas. Logo,
porém, isto é, ainda nas primeiras décadas do século XX, a
Psicologia Social Psicológica estabelece-se como a tendência
predominante no cenário norte-americano, em especial nos
Estados Unidos da América (EUA), sob forte influência do
behaviorismo.
Exemplo marcante de tal enfoque é o livro texto de
Psicologia Social publicado em 1924, por Floyd Allport,
considerado um dos mais famosos psicólogos sociais beha-
vioristas da época. Ao defender que a Psicologia Social
deveria concentrar-se no estudo experimental do indivíduo,
na medida em que o grupo constituía-se tão somente em
mais um estímulo do ambiente social a que esse indivíduo
era submetido, Allport define os contornos da Psicologia
Social Psicológica como uma disciplina objetiva, de base
experimental e focada no indivíduo (Franzoi, 2007).
Os anos de 1920 e 1930 serão dominados pelo estudo das
atitudes, da influência social interpessoal e da dinâmica de
grupos. No que tange às atitudes, a investigação concentrou-
se no desenvolvimento de diferentes técnicas destinadas a
mensurar tal constructo tomado como um fenômeno mental
(McGarty & Haslam, 1997). No que se refere à influência
social e dinâmica de grupos, merecem destaque os experi-
mentos realizados por Muzar Sheriff e Kurt Lewin, psicólo-
gos europeus que imigraram para os EUAe receberam fortes
influências do gestaltismo. Sheriff (1936) estava interessado
no processo de formação de normas sociais, tendo chegado
à conclusão de que os grupos desenvolvem normas que
governam os julgamentos dos indivíduos que dele fazem
parte, bem como dos novos membros que a elas também se
adaptam, em função das normas grupais existirem à revelia
de seus membros individuais.
Lewin e seus colegas (Lewin, Lippitt & White, 1939)
dedicaram-se à análise da influência dos estilos de liderança
e do clima grupal sobre o comportamento dos membros do
grupo, tendo observado que o estilo de liderança democrático
produzia normas grupais construtivas e independentes, que
levavam à realização de um trabalho produtivo, independen-
temente da presença ou não do líder. Já a liderança laissez-
faire deixava os membros passivos, enquanto os grupos com
liderança autocrática tornavam-se agressivos ou apáticos.
Dois principais temas marcaram as duas décadas sub-
sequentes, que assinalam o período da Segunda Grande
Guerra e do pós-guerra: atitudes e percepção de pessoa. A
investigação das atitudes, iniciada nos anos 20, prosseguiu
nas décadas seguintes com os experimentos de Carl Hovland
e sua equipe sobre comunicação e persuasão (Hovland, Ja-
nis & Kelley, 1953), que levaram a importantes conclusões
acerca dos diferentes fatores que interferiam na mudança de
atitudes (Goethals, 2003).Tais estudos, bem como os que lhes
sucederam, conferiram às atitudes um papel fundamental no
campo da Psicologia Social Psicológica, tendo levado alguns
autores (e.g., McGuire, 1968) a afirmar que tal fenômeno
constituía-se em conceito central à Psicologia Social.
A investigação sobre percepção de pessoas, que até hoje
consiste em uma das áreas centrais de estudo da Psicologia
Social Psicológica, inicia-se com os trabalhos de Fritz Heider
(1944, 1946, 1958), que também imigrou da Alemanha para
os EUA durante a Segunda Grande Guerra, e recebeu forte
influência do gestaltismo. Na publicação de 1944, o autor
realiza o primeiro tratamento sistemático dos processos atri-
buicionais (Goethals, 2003), ao lançar o argumento de que os
indivíduos associam as ações das pessoas a motivos e dispo-
sições internas, em função de perceberem uma justaposição
ou gestalt entre o modo pelo qual as pessoas se comportam e
a natureza de suas qualidades pessoais. Tal argumento sobre
como as pessoas realizam atribuições causais será aprofun-
dado no livro de 1958, traduzido para o português com o
nome de “Psicologia das Relações Interpessoais”. No artigo
de 1946, Heider desenvolve a teoria do equilíbrio, segundo
a qual as pessoas tendem a manter sentimentos e cognições
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Psicologia Social
coerentes sobre um mesmo objeto ou pessoa, de modo a
obter uma situação de equilíbrio. Quando esse equilíbrio se
desfaz, elas vivenciam uma situação de tensão e procuram
restabelecê-lo, mediante a mudança de algum dos elementos
da situação. Tal princípio encontra-se na base das teorias da
consistência cognitiva que irão proliferar nos anos seguintes.
Ainda na área de percepção de pessoas, merecem desta-
que os estudos de Solomon Asch (1946), que irá aplicar os
princípios gestaltistas em seus experimentos sobre a forma-
ção de impressões. Seus resultados levam-no a concluir que
as informações sobre as características pessoais do outro são
organizadas em um todo coerente, que difere da soma das
partes e pode ser modificado por peças críticas de informação
que provocam a reorganização desse todo.Ademais, a ordem
com que as informações são recebidas afeta a formação da
impressão global.
Os anos de 1950 e 1960 assistem à renovação do interesse
pelas pesquisas sobre influência social e processos intergru-
pais, conduzidas, sobretudo, sob a liderança de Asch e Leon
Festinger. Asch (1952), na esteira dos trabalhos anteriores
de Sheriff (1936) sobre formação de normas sociais, já
citados, interessa-se pela análise dos processos que levam
os indivíduos a se conformarem com as normas do grupo
ao realizarem julgamentos, ainda quando se torna evidente
que tais julgamentos estão incorretos. Seus estudos sobre
conformidade suscitaram uma série de desdobramentos
posteriores, relacionados à investigação dos diferentes fato-
res que influenciavam tal fenômeno, além de inspirarem os
experimentos clássicos de Milgram (1965), sobre obediência
à autoridade.
Festinger (1954), sob a influência das investigações
realizadas por Lewin, propõe a teoria dos processos de com-
paração social, na qual defende que as pessoas necessitam
avaliar suas habilidades e opiniões a partir de comparações
realizadas com outros indivíduos que lhes são similares. A
referida teoria suscitou uma série de experimentos, reemergiu
algumas vezes ao longo dos anos 70 e encontra-se solida-
mente estabelecida no momento atual, sendo usada, de forma
recorrente, como mecanismo explanatório dos processos de
formação da identidade pessoal e social (Goethals, 2003).
Posteriormente, Festinger (1957) introduz a teoria da dis-
sonância cognitiva, na qual estabelece que as pessoas são
motivadas a procurar o equilíbrio entre suas atitudes e ações.
Nesse sentido, quando instadas a mudar seu comportamento,
mostram-se propensas a modificar também suas atitudes, de
modo a restabelecerem o equilíbrio entre ações e atitudes.
Apesar de ter sido alvo de críticas, a referida teoria foi uma
das principais responsáveis pelo desenvolvimento da Psico-
logia Social Psicológica nas décadas seguintes (Rodrigues,
Assmar & Jablonski, 2000), tendo propiciado um grande
número de pesquisas experimentais rigorosas, conduzidas
com a finalidade de testar seus vários pressupostos.
As teorias da atribuição irão dominar o cenário sociopsi-
cológico norte-americano a partir do final dos anos de 1960 e
durante os anos de 1970 e 1980, numa evidência da ascensão
progressiva do cognitivismo no campo da Psicologia Social
Psicológica.Apoiando-se nos pressupostos sobre as relações
interpessoais antecipados por Heider (1944, 1958), as refe-
ridas teorias e seus desdobramentos (Jones & Davis, 1965;
Kelley, 1967; Ross, 1977; Weiner, 1986) vão se debruçar
sobre os processos cognitivos responsáveis pelos julgamen-
tos sociais, isto é, pelos mecanismos que levam o indivíduo
a perceber e atribuir causas internas (pessoais) ou externas
(situacionais) ao comportamento do outro, bem como sobre
os erros e vieses que interferem em tais processos.As inves-
tigações desenvolvidas no âmbito das teorias atribuicionais
contribuíram não apenas para a elucidação de alguns dos
princípios que governam o pensamento social, mas também
para a maior compreensão de outros fenômenos psicossociais,
como, por exemplo, a depressão e o ajustamento conjugal
(Goethals, 2003).
A partir dos anos 1980, o cognitivismo se consolida de
vez como a perspectiva dominante na Psicologia Social Psi-
cológica e no cenário norte-americano. Em consequência, o
principal tema de investigação passa a ser a cognição social,
que tem como objetivo básico compreender os processos
cognitivos que se encontram subjacentes ao pensamento
social (Fiske & Taylor, 1984). Adotando tal perspectiva, os
psicólogos sociais cognitivistas se dedicam então a fazer uma
reanálise de temas que já vinham sendo estudados há algum
tempo, procurando agora, porém, desvelar os mecanismos
cognitivos subjacentes a tais fenômenos, tendência que se
mantém até os dias atuais, conforme será visto mais à frente.
A Crise da Psicologia Social na América do Norte
A breve descrição da evolução teórica e temática da
Psicologia Social norte-americana evidencia que, com o
passar do tempo, o modelo de pesquisa-ação orientado para
a comunidade e para o estudo dos grupos, introduzido por
Lewin ainda nos anos de 1930, foi sendo paulatinamente
abandonado e substituído pela investigação de fenômenos
e processos eminentemente intraindividuais, de natureza
cognitiva. Tendo como meta última a investigação das leis
universais capazes de explicar o comportamento social, a
Psicologia Social Psicológica estrutura-se progressivamente
como uma ciência natural e empírica, que desconsidera o
papel que as estruturas sociais e os sistemas culturais exercem
sobre os indivíduos (Pepitone, 1981).
É nesse contexto que os anos de 1970 irão assistir ao
surgimento da chamada “crise da Psicologia Social”, moti-
vada pela excessiva individualização da Psicologia Social
Psicológica e dos movimentos sociais ocorridos nos anos
de 1970 (como o feminismo, por exemplo). Nesse sentido,
a crise da Psicologia Social se caracterizou, sobretudo, pelo
questionamento das bases conceituais e metodológicas da
Psicologia Social Psicológica até então dominante, no que
tange à sua validade, relevância e capacidade de generali-
zação (Apfelbaum, 1992).
Os questionamentos se dirigiam principalmente à sua
relevância social, isto é, ao fato dessa vertente da Psicologia
Social usar uma linguagem científica cada vez mais neutra e
afastada dos problemas sociais reais e, consequentemente,
desenvolver modelos e teorias que não eram capazes de con-
tribuir para a explicação da nova realidade social que surgia.
Adicionalmente, criticava-se a artificialidade dos experimen-
tos conduzidos em laboratório, a falta de compromisso ético
de seus mentores e a excessiva fragmentação dos modelos
teóricos (Jones, 1985).
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M. C. Ferreira
As críticas referidas suscitaram grande resistência da
comunidade científica estabelecida à época. No entanto,
contribuíram para o movimento de internacionalização da
Psicologia Social, responsável pelo desenvolvimento de uma
Psicologia Social Européia, mais preocupada com o contexto
social, e, mais recentemente, de uma Psicologia Latino-
Americana, voltada prioritariamente para os problemas
sociais, a serem abordadas logo após uma breve revisão do
atual estado da arte da Psicologia Social naAmérica do Norte.
A Psicologia Social na América do Norte:
Tendências Atuais
Na atualidade, os psicólogos sociais da América do
Norte continuam se debruçando sobre temas tradicionais,
que já tinham sido objeto de interesse dos que construíram
a história da disciplina naquele país, mas também vêm se
dedicando a novas temáticas que contribuíram para expandir
e diversificar o espectro de fenômenos sociais investigados
no contexto norte-americano. De acordo com Ross, Lepper e
Ward (2010), em capítulo publicado na quinta e mais recente
edição do Handbook of Social Psychology, três tópicos po-
dem ser considerados centrais à psicologia social, em função
do continuado interesse que vêm despertando, razão pela
qual que se encontram presentes na maioria dos livros textos
e palestras sobre o assunto. São eles a cognição social, as
atitudes e os processos grupais. A esses tópicos, Ross e cols.
ainda acrescentam algumas novas vertentes da Psicologia
Social que, mais recentemente, vêm também se mostrando
promissoras. Entre elas, merecem destaque a Neurociência
Social e a Psicologia Social Evolucionista. Uma revisão dos
principais desenvolvimentos conceituais e empíricos desses
tópicos e vertentes será, então, realizada a seguir, como
forma de situar o atual estado da arte da Psicologia Social
norte-americana.
Cognição social
Segundo Carlston (2010), a cognição social pode ser vista
atualmente como uma subárea da Psicologia, responsável por
integrar uma série de micro-teorias que, ao longo do tempo,
foram se desenvolvendo no contexto da Psicologia Social
para explicar os modos pelos quais as pessoas pensam sobre
si mesmas e sobre as coisas, formam impressões acerca de
outras pessoas ou grupos sociais e explicam comportamentos
e eventos. Apoiada no modelo de processamento de infor-
mação (que considera a atenção e percepção, a memória
e o julgamento como diferentes etapas do processamento
cognitivo), a cognição social dedica-se, assim, a estudar o
conteúdo das representações mentais e os mecanismos que
se encontram subjacentes ao processamento da informação
social. Ela se focaliza, portanto, nos modos pelos quais as
impressões, crenças e cognições sobre os estímulos sociais
(o próprio indivíduo, bem como outras pessoas, grupos e
eventos sociais) são formadas e afetam o comportamento.
No que tange ao conteúdo das representações mentais, a
premissa básica é a de que as informações sociais são repre-
sentadas cognitivamente sob a forma de estruturas mentais,
isto é, de estruturas gerais de conhecimento, construídas,
organizadas e estocadas na memória em categorias, com
base nas informações obtidas no contato do indivíduo com
seu mundo social (Quinn, Macrae & Bodenhausen, 2003).
Essas estruturas são denominadas de esquemas sociais, que
podem tomar a forma de protótipos (representam os mem-
bros mais típicos) ou de exemplares (representam membros
individuais), a serem acessados quando necessário.
Tal acesso ocorre por meio do processamento da infor-
mação social, mediante o qual o percebedor social identifica
inicialmente os atributos salientes na pessoa alvo de sua
percepção (Quinn & cols., 2003). Em seguida, ele procura
na memória as representações mentais ou esquemas similares
aos atributos identificados, seleciona o mais apropriado e
usa-o para realizar inferências acerca daquela pessoa, armaze-
nando na memória de longo prazo a avaliação daí resultante.
Subjacente a todo esse processo, há o pressuposto básico
de que as pessoas são limitadas em sua capacidade de pro-
cessar informações e, por essa razão, utilizam-se de certas
estratégias ou heurísticas para lidar com o grande volume e
complexidade de informações sociais a que são submetidas
em seu dia-a-dia (Pennington, 2000). Com isso, acabam por
cometer erros e distorções em seus julgamentos e tomadas
de decisão.
Algumas questões chaves têm permeado as investigações
na área da cognição social (Quinn & cols., 2003). Elas dizem
respeito principalmente ao grau em que o processamento
cognitivo é automático ou controlado, à influência da moti-
vação e do afeto na cognição social e ao fato de a cognição
ser abstrata ou situada.
No que diz respeito à automaticidade ou não do proces-
samento da informação social, os resultados têm apontado
que as pessoas podem realizar tanto julgamentos mais
espontâneos e automáticos, quanto julgamentos mais cons-
cientes e reflexivos, sendo que o uso de um tipo ou outro irá
depender principalmente de sua motivação e habilidade em
cada situação (Pennington, 2000). Nesse sentido, muitos
dos julgamentos sociais ocorrem de forma inconsciente, não
intencional, não controlável e demandam pouco da já limitada
capacidade humana de processamento. Contudo, fenôme-
nos mais complexos podem exigir um processamento mais
consciente e controlado, o que irá depender da habilidade
cognitiva do percebedor e/ou do fato de o processamento
automático mostrar-se contrário a seus objetivos e metas.
O debate acerca das influências da motivação e do afeto
na cognição social tem permeado essa área de estudos desde
seus primórdios. Em que pese o fato de os primeiros psicó-
logos sociais cognitivistas terem rejeitado tais influências, as
pesquisas mais recentes apontam que os afetos e motivações
individuais interagem com as cognições na determinação
do comportamento social (Schwarz, 1998). Nesse sentido,
fatores motivacionais podem interferir no grau de esforço
cognitivo despendido no processamento da informação
social, bem como direcionar tal processamento, ao facilitar
a ativação de esquemas relevantes às metas do indivíduo
(Quinn & cols., 2003). Por outro lado, tem-se também veri-
ficado que a codificação, elaboração e julgamento sociais são
mediados pelas emoções, na medida em que elas contribuem
para a ativação de informações com elas congruentes, além
de provocarem reorganizações mentais que se mostrem mais
55Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
Psicologia Social
consistentes com as experiências afetivas individuais (Quinn
& cols., 2003).
As investigações iniciais na área da cognição social dedi-
caram-se, sobretudo, a esclarecer as diferentes características
associadas à representação e processamento da informação
social, ou seja, seu principal foco era uma cognição social
abstrata e vinculada ao que se passava no interior da cabeça
do indivíduo. Mais recentemente, porém, os psicólogos
sociais cognitivistas passaram a explorar as características
da situação social que interferem nas estratégias de proces-
samento, ou seja, uma cognição social situada. Com isso, a
ênfase se desloca do “pensamento sobre os estímulos sociais”
para o “pensamento no contexto social” (Schwarz, 1998). Os
resultados iniciais de tais estudos já puseram em evidência
que os julgamentos sociais de uma mesma pessoa alvo podem
diferir em função dos diferentes indivíduos que realizam tais
julgamentos, a depender da natureza das interações de cada
um com a pessoa alvo. Desse modo, um conjunto de pessoas
interagindo ativamente e compartilhando suas avaliações,
transmitirão informações que serão interpretadas e integradas
diferentemente por cada percebedor (Smith & Collins, 2009).
Entre os principais fenômenos psicossocias investigados
atualmente, na perspectiva da cognição social, encontram-se
o self, a formação de impressões, a percepção de pessoas e os
estereótipos. No contexto do cognitivismo, o self é conceitu-
ado como um autoesquema, isto é, como uma representação
mental que contém o conhecimento do percebedor acerca de
si próprio, no que se refere a suas características de persona-
lidade, papéis sociais, experiências passadas e metas futuras
(Quinn & cols., 2003).As pesquisas sobre essa temática têm
demonstrado que as pessoas diferem em termos dos atributos
que consideram centrais à sua autodefinição, das dimensões
distintas de seus autoesquemas que podem ser ativadas em si-
tuações diversas, das informações relativas a seu autoconceito
que são processadas de modo mais completo e que são mais
facilmente relembradas, e da forma com que a autodefinição
do indivíduo afeta as crenças e expectativas que ele traz para
uma determinada situação social. O self decorre, portanto,
de um processo flexível e construtivo de julgamento sobre
si mesmo, que leva o indivíduo a se apresentar de diferentes
maneiras, a depender do ambiente social em que se encon-
tra inserido, o que irá contribuir para sua adaptação a esse
ambiente (Quinn & cols., 2003).
Os estereótipos, a formação de impressões e a percepção
de pessoas constituem temas tradicionalmente estudados pela
Psicologia Social e centrais à área de cognição social. Em
contraste com os autoesquemas, que contêm as estruturas
de conhecimento sobre o próprio indivíduo, os estereótipos
consistem em esquemas ou representações mentais sobre
grupos sociais. Nesse sentido, eles interferem ativamente
no processo de formação de impressão e percepção de pes-
soas, que é o responsável pela integração de informações e
avaliação de outros indivíduos, ou seja, pelas formas com
que o percebedor interpreta os indivíduos que o rodeiam. Os
achados empíricos mais recentes nesse campo de estudos têm
demonstrado que as pessoas costumam realizar inferências
iniciais (formação e percepção de pessoa) baseadas em es-
tereótipos, o que significa dizer que essas categorias sociais
são ativadas de modo automático ou inconsciente, tão logo
o percebedor identifica um determinado indivíduo como
pertencente a certo grupo social. Posteriormente, dependendo
de sua motivação e habilidade, poderá corrigir essa impres-
são inicial, com base em informações mais individualizadas
e que se mostrem congruentes ou incongruentes com seus
estereótipos (Quinn & cols., 2003).
Em síntese, a investigação atual na área da cognição
social evoluiu progressivamente, de modo a incluir temas
não abordados inicialmente, como a automaticidade dos
processos sociocognitivos, os afetos e a motivação. Tais
avanços contribuíram sobremaneira para ampliar o escopo
da teorização e pesquisa nesse campo de estudos, além de
alargarem a compreensão da ampla gama de fenômenos res-
ponsáveis pela atuação do indivíduo em seu contexto social.
Atitudes
As atitudes constituem-se em um dos construtos mais
antigos no contexto sociopsicológico, embora suas defi-
nições nem sempre sejam consensuais. Contudo, alguns
temas são recorrentes nas várias definições oferecidas pelos
autores, como o fato de elas se encontrarem associadas a
diversas manifestações, incluindo-se as crenças, os valores
e as opiniões, e de elas envolverem avaliações de objetos
sociais (Saucier, 2000). De acordo com Fabrigar e Wegener
(2010), as atitudes podem ser conceituadas como avaliações
gerais e duradouras, que variam de um extremo positivo a
um extremo negativo, dos objetos presentes no mundo social,
o que abrange pessoas, grupos, comportamentos etc. Nesse
sentido, elas integram as cognições e afetos sobre tais objetos
(Crano & Prislin, 2006).
A partir de um interesse inicial pelo desenvolvimento de
técnicas destinadas a mensurar as atitudes, as investigações
nessaáreaevoluírampaulatinamentenabuscademodelosmais
sofisticados e capazes de explicar os processos psicológicos
responsáveis pela formação e mudança de atitudes, bem como
pela consistência entre atitudes e comportamento. Embora as
expressões “formação de atitudes” e “mudança de atitudes”
sejamfrequentementeusadasemconjunto(formaçãoemudan-
ça de atiudades), elas se encontram, na realidade, vinculadas
a processos distintos (Crano & Prislin, 2006). Assim é que a
formaçãodeatitudescostumaocorrerdeformanãoconsciente,
pormeiodeaprendizagemcondicionadaoumedianteameraex-
posição a estímulos vivenciados como afetivamente positivos.
Amudança de atitudes, por seu turno, costuma ocorrer no
plano consciente e vem sendo mais recentemente explicada
pelos modelos de processos duais (Chaiken & Trope, 1999),
que atualmente dominam a pesquisa na área de persuasão.
Tais modelos sustentam que quando os percebedores são
competentes e encontram-se adequadamente motivados, eles
costumam se engajar em um processo de análise sistemática
das mensagens persuasivas. Se elas contiverem argumentos
consistentes, isto é, apoiados na realidade e estruturados de
maneira lógica e racional, serão capazes de gerar mudanças
atitudinais apoiadas em tais argumentos, as quais se mostra-
rão duradouras e resistentes a mudanças. Caso, porém, os
percebedores estejam desmotivados ou não tenham suficiente
habilidade para adequadamente processar as mensagens,
eles irão se apoiar em indícios periféricos e mais facilmente
accessíveis (da fonte, da mensagem ou da situação) ou em
56 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
M. C. Ferreira
heurísticas para processar as mensagens. Assim, por exem-
plo, eles podem usar como heurística a regra do consenso
e, simplesmente, concordar com a maioria. Tais mudanças
atitudinais serão, porém, menos estáveis e resistentes à mu-
dança. Em síntese, os modelos duais sustentam que a fonte
e a mensagem possuem funções distintas e interagem com
a motivação e a habilidade na configuração do processo de
mudança de atitudes (Crano & Prislin, 2006), isto é, que tal
processo depende da motivação e habilidade dos indivíduos
para processar informações relevantes à mudança.
No que tange à consistência entre atitudes e comporta-
mento, os achados mais recentes têm evidenciado que deter-
minadas propriedades estruturais das atitudes são responsá-
veis pela maior ou menor capacidade de as atitudes preverem
o comportamento (Fabrigar & Wegener, 2010). Assim, por
exemplo, tem-se verificado que maior consistência entre
julgamentos atitudinais e comportamento costuma emergir
quando ambos os tipos de respostas se apoiam em inputs ou
informações similares (Schwarz, 1998). Adicionalmente,
evidências têm sido reunidas sobre o fato de que atitudes
mais automáticas costumam predizer comportamentos mais
espontâneos, ao passo que atitudes mais deliberadas costu-
mam predizer comportamentos mais conscientes (Petty &
Briñol, 2010). Por outro lado, mudanças atitudinais apoiadas
em processos lógicos, motivados e conscientes apresentam
maior probabilidade de influenciar o comportamento (Crano
& Prislin, 2006).
Um desenvolvimento mais recente no campo das atitudes
diz respeito ao uso de medidas implícitas para mensurá-las
(Petty & Briñol, 2010).Assim é que, após um longo período
dominado pelos instrumentos de autorrelato com foco nas
avaliações conscientes e deliberadas dos indivíduos (medidas
explícitas) como técnica preferencial de mensuração das
atitudes, os pesquisadores têm recorrido cada vez mais à
adoção de medidas que captam as avaliações mais automá-
ticas e não conscientes (medidas implícitas, como os testes
de associações de palavras, por exemplo). Tais avanços têm
contribuído sobremaneira para a elucidação das condições
em que as atitudes são formadas e modificadas, bem como de
suas ligações com o comportamento, conforme brevemente
revisto nessa seção.
Processos grupais
O estudo dos fenômenos grupais tem uma longa história
na área da Psicologia Social, tendo se constituído no objeto
de preocupações de vários pioneiros da Psicologia norte-
americana, como Lewin, Sheriff e Asch. Com o passar do
tempo, porém, as investigações nessa área tenderam a se
concentrar em níveis cada vez mais micros de análise, que
se focalizavam sobremaneira nas qualidades, características
e ações dos membros individuais, quando na presença de um
grupo. Nesse sentido, pouca atenção foi dada durante algum
tempo aos processos dinâmicos que levam o indivíduo a par-
ticipar da vida grupal e aos efeitos da não participação, aos
processos que levam o grupo a modificar o comportamento de
seus membros e a agir como uma unidade autônoma e dife-
renciada de qualquer um de seus membros etc., especialmente
no contexto norte-americano (Forsyth & Burnette, 2010).
Mais recentemente, porém, avanços realizados em me-
todologias de análises de dados que consideram o grupo
uma unidade autônoma e não uma soma de indivíduos
têm propiciado avanços consideráveis no estado atual do
conhecimento sobre os processos grupais. Nesse sentido,
Moura, Leader, Pelletier eAbrams (2009), em levantamento
recente sobre o estado da pesquisa sobre grupos, realizado
em alguns dos periódicos norte-americanos e europeus mais
citados na área de Psicologia Social, concluíram que um
terço das publicações nesses periódicos continha pesquisas
na área de processos grupais, o que evidencia o vigor que a
referida temática continua tendo no contexto das investiga-
ções psicossociais.
Neurociência social
A área de Neurociência Social, assim cunhada pela pri-
meira vez por Cacioppo e Berntson (1992), surge movida
principalmente pelo interesse de investigar as possíveis
associações existentes entre a cognição social e as funções
cerebrais, com o intuito de compreender o papel desem-
penhado pelas estruturas neurais no processamento da
informação social (Adolphs, 2009). O pressuposto básico é,
portanto, o de que determinados mecanismos neurocerebrais
são responsáveis pelo raciocínio social, isto é, que existem
determinadas estruturas cerebrais especializadas nas ativi-
dades de autopercepção e percepção dos demais indivíduos
e grupos sociais, bem como nas ações que permitem a vida
em sociedade (Heatherton & Wheatley, 2010). Em resumo,
a Neurociência Social dedica-se à análise das bases neuro-
biológicas da cognição social.
O advento de novas técnicas de imagens neurais, em
especial a ressonância magnética funcional, tem permitido
a localização precisa de diferentes estruturas cerebrais e
proporcionado consideráveis avanços à Neurociência So-
cial, apesar de tal área ainda se encontrar na infância. Nesse
sentido, evidências já disponíveis apontam que determinadas
regiões do córtex cerebral superior são especializadas em
determinados processos sociocognitivos, como, por exem-
plo, a percepção de si mesmo, a detecção e compreensão de
faces, vozes e movimentos humanos, a percepção de senti-
mentos dos outros, a atribuição de estados mentais ao outro
etc. (Grande-García, 2009). Por essa razão, lesões cerebrais
nessas áreas podem afetar negativamente os julgamentos e
interações sociais.
Assim, por exemplo, a meta-análise realizada por
Overwalle (2009) reuniu evidências de que a percepção
de estados mais temporários (metas, desejos e intenções)
está relacionada à ativação da junção parietal temporal,
enquanto a inferência de disposições mais duradouras ou
de normas e eventos interpessoais encontra-se associada
à ativação do córtex pré-frontal medial, ainda que alguns
estados temporários possam também ativá-lo. Tais dados
levaram o autor a concluir que esses dois substratos neurais
vinculam-se particularmente à cognição social. Contudo,
Adolphs (2009) adverte que cognição social também é
sensível ao contexto, o que faz com que a interface entre
cérebro e cognição social seja modulada pelo contexto social
e pelo autocontrole volitivo.
57Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
Psicologia Social
A Neurociência Social pode ser vista como um campo
promissor de investigação na área de Psicologia Social que
poderá indubitavelmente contribuir para maior compreensão
do comportamento social. Para tanto, será, porém, necessário
avançar em uma série de questões que até o momento ainda
não foram suficientemente esclarecidas pelos estudos que
vêm sendo conduzidos sob essa perspectiva. Assim é que
a análise das inter-relações entre cérebro e comportamento
social tem se limitado até aqui à consideração de processos
intraindividuais e situacionais, o que lança dúvidas sobre a
efetividade de tal abordagem para o estudo de fenômenos
que se encontram na convergência de variáveis individuais e
macrossociais, como, por exemplo, os processos intergrupais
(Dovidio, Pearson & Orr, 2008). De todo modo, ela poderá
atuar como uma perspectiva complementar a outras mais
apropriadas à investigação das influências macrossociais na
conduta social.
Psicologia social evolucionista
A Psicologia Social Evolucionista tem suas origens na
teoria da evolução genética de Darwin, segundo a qual a
evolução das espécies se dá com base em um ciclo que inclui
a variação, a competição e a hereditariedade. Desse modo, as
espécies apresentam variações em suas características cons-
tituintes e habilidades para lidarem com seu meio ambiente.
Como os recursos à vida dessas espécies que se encontram
disponíveis no meio ambiente são escassos, somente aquelas
dotadas de maiores habilidades competitivas irão conseguir
sobreviver, bem como transmitir tais habilidades para a gera-
ção seguinte. Em gerações sucessivas, mudanças nas espécies
acabam por ocorrer no sentido de acentuarem cada vez mais
essas capacidades de sobrevivência (Mesoudi, 2009).
Apoiando-se em tais pressupostos, os psicólogos sociais
evolucionistas defendem que processos similares à evolução
genética operam na transmissão da cultura. Postula-se, assim,
que os diferentes grupamentos humanos variam em suas
crenças e valores culturais, e que, em função de recursos
cognitivos limitados, algumas dessas variantes culturais são
mais prováveis de serem aprendidas e lembradas, em geral
aquelas transmitidas por modelos mais proeminentes (pais,
celebridades etc.). Nesse sentido, a transmissão da cultura se
dá por meio de processos de imitação e aprendizagem social,
por meio dos quais ocorre a seleção natural dos valores a
serem transmitidos à outra geração (Mesoudi, 2009).
De acordo com Maner e Kenrich (2010), a Psicologia
Social Evolucionista não se opõe às tradicionais teorias
da Psicologia Social, mas, ao contrário, procura explicar
alguns resultados controversos obtidos em diferentes áreas
psicossociais. Para tanto, apoia-se no pressuposto de que
muitos pensamentos, sentimentos e comportamentos sociais
encontram-se associados a mecanismos biológicos que in-
teragem de forma dinâmica com processos psicológicos e
de aprendizagem, no interior de uma determinada cultura.
Nesse sentido, vários temas abordados pela Psicologia Social
Psicológica têm sido re-examinados sob a perspectiva da
Psicologia Social Evolucionista, como, por exemplo, as rela-
ções interpessoais e intergrupais, com resultados promissores
que evidenciam a pertinência e propriedade de se utilizar
tal abordagem de forma complementar, na investigação de
determinados fenômenos psicossociais (Maner & Kenrich,
2010; Mesoudi, 2009).
A Psicologia Social na Europa:
Evolução e Tendências Atuais
Apesar de a Psicologia Social europeia ter inicialmente
caminhado lado a lado com a Psicologia Social Psicológica,
ela começou, a partir dos anos 1970 e motivada pela crise
da Psicologia Social na América do Norte, a adquirir sua
própria identidade e a demonstrar maior preocupação com
a estrutura social. Desde então, ela vem crescendo pro-
gressivamente em tamanho e influência. Entre os temas de
estudo mais frequentes no contexto europeu encontram-se a
identidade social, que se insere principalmente no contexto
das relações intergrupais, e as representações sociais, que
remetem a uma psicologia dos grupos e coletividades. Tais
temas serão revistos a seguir, como forma de contextualizar
a Psicologia Social européia.
Identidade social
A teoria da identidade social surge na literatura sociop-
sicológica com Henri Tajfel, da Universidade de Bristol,
na Inglaterra, e seus colaboradores (Tajfel, 1981; Tajfel &
Turner, 1986), que procuraram enfatizar a dimensão social
do comportamento individual e grupal, ao postularem que
o indivíduo é moldado pela sociedade e pela cultura. Nesse
sentido, defendem que as relações intergrupais estão intima-
mente relacionadas a processos de identificação grupal e de
comparação social.
A teoria da identidade social apoia-se em três postula-
dos básicos: (1) o autoconceito é derivado da identificação
e pertença grupal; (3) as pessoas são motivadas a manter
uma autoestima positiva; (3) as pessoas estabelecem uma
identidade social positiva mediante a comparação favorável
de seu próprio grupo (in-group) com outros grupos sociais
(out-groups). Nesse sentido, quando tal comparação não se
mostra favorável ao próprio grupo, elas irão adotar diferentes
estratégias para recuperar o favoritismo de seu próprio grupo,
como forma de assegurar uma autoestima positiva.
As primeiras demonstrações sobre a identificação social
e o favoritismo do próprio grupo foram realizadas por Tajfel
(1981), mediante o uso de experimentos adotando a técni-
ca do paradigma dos grupos mínimos, em que as pessoas
eram arbitrariamente assinaladas a grupos com os quais não
possuíam nenhuma identificação anterior e, mesmo assim,
tendiam a manter a vantagem do próprio grupo. Desde então,
o referido princípio tem sido objeto de inúmeras verificações
empíricas, dentro e fora do laboratório. Tais estudos têm
consistentemente apontado que a força da identificação com
o próprio grupo e a necessidade de manter uma autoestima
positiva encontram-se na base das relações intergupais, ao
provocarem o favoritismo do próprio grupo e as atitudes
discriminatórias daí decorrentes (Brown, 2000). Assim, por
exemplo, a revisão de 34 estudos conduzida por Aberson,
Healy e Romero (2000) observou que as pessoas de auto-
58 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
M. C. Ferreira
estima elevada exibiam maior favoritismo ao próprio grupo
do que as de autoestima mais baixa. Outros estudos têm
verificado que as pessoas que vivenciam uma diminuição de
sua autoestima tendem a expressar maior preconceito (Fein
& Spencer, 1997).
Um extensão da teoria da identidade social é a teoria da
autocategorização de Turner, Hogg, Oakes, Reicher e Wethe-
rell (1987). Seu foco são os fatores que levam os indivíduos
a realizarem determinadas categorizações, bem como suas
consequências para o comportamento coletivo. Postula-se,
assim, que a depender da força da pressão social presente
em determinadas situações, as pessoas deixarão de lado suas
características idiossincráticas (autopercepção) e ativarão
suas identidades sociais, o que as levará ao engajamento
em ações coletivas. De acordo com esses autores, portanto,
as identidades sociais consistem em categorias socialmente
construídas que se mostram mais ou menos salientes, em
função das características da situação social.
A teoria da identidade social, em suas múltiplas verten-
tes, pode ser vista, portanto, como uma abordagem que, nos
últimos 30 anos, vem procurando elucidar o papel desem-
penhado pelo autoconceito nos processos e relações inter-
grupais, mediante a articulação de fenômenos de natureza
sociocognitiva, motivacional e macrossocial que permeiam
a vida coletiva. Inicialmente surgida na Europa, ela tem sido
adotada cada vez mais como referencial por pesquisadores de
diversas partes do mundo, incluindo-se aí muitos psicólogos
norte-americanos, podendo ser considerada atualmente uma
das mais significativas teorias para a análise das relações
entre o indivíduo e o grupo (Hogg, 2006). Nesse sentido,
ela vem sendo utilizada mais recentemente não apenas no
estudo das relações intergrupais, mas também na investigação
da autocategorização e de vários processos grupais, como a
coesão, a liderança, a influência social etc. No entanto, ela
continua sem resolver um de seus principais desafios, qual
seja promover a maior compreensão dos aspectos afetivos que
se encontram subjacentes às formas mais hostis e destrutivas
de comportamento intergrupal (Brown, 2000).
Representações sociais
Segundo Moscovici (1981), as representações sociais
englobam um conjunto de conceitos, imagens e explicações
que se originam do senso comum, no contexto das intera-
ções e comunicações interpessoais. Nesse sentido, elas vão
se modificando à medida que novos significados vão sendo
acrescentados à realidade. Ainda de acordo com o autor
(Moscovici, 1984), a função das representações sociais é
dar sentido ao desconhecido, transformando o não familiar
em algo familiar. Para tanto, apoia-se nos processos de
ancoragem e objetivação. O primeiro se ocupa de inserir o
fenômeno não familiar em uma rede de categorias e imagens
familiares, de modo a que ele possa ser interpretado, enquanto
o segundo tem por objetivo transformar o que é abstrato em
algo concreto e que pode ser, assim, tocado.
Uma extensão do trabalho de Moscovici é a teoria do
núcleo central, que foi proposta por Abric (1994) e defende
que toda representação social organiza-se em torno de um
núcleo central e de elementos periféricos. O núcleo central
consiste no elemento essencial da representação, em função
de organizá-la e lhe dar sentido. Ele é mais rígido e ancora-se
na memória coletiva do grupo, em suas condições históri-
cas e sociais. Já os elementos periféricos são mais móveis
e flexíveis. Sua função é proteger a estabilidade do núcleo
central e permitir a adaptação de grupos e indivíduos a
situações específicas. O núcleo central é, portanto, norma-
tivo, enquanto os elementos periféricos são funcionais, por
possibilitarem a ancoragem da representação na realidade
do momento (Sá, 1996).
A teoria das representações sociais foi amplamente
difundida nas décadas seguintes à sua introdução na lite-
ratura sociopsicológica, especialmente entre os psicólogos
europeus e latino-americanos, com os pesquisadores de tal
corrente procurando aplicar seus princípios teóricos a inú-
meros eventos aos quais podem ser atribuídos significados
que emergem do senso comum. Nesse sentido, a análise das
teorias mantidas pelo homem comum tem contribuído para
a compreensão de fenômenos tão diversificados quanto a
saúde/doença, a doença mental, a violência, a justiça, o de-
semprego, a amizade, os sistemas tecnológicos, os sistemas
econômicos etc.
A Psicologia Social na América Latina:
Evolução e Tendências Atuais
A Psicologia Social praticada na América Latina, até
a década de 1970, esteve grandemente influenciada pelo
paradigma da Psicologia Social Psicológica, tendência até
hoje dominante na América do Norte. Ao final da década,
porém, muitos psicólogos sociais latino-americanos inicia-
ram um forte movimento de questionamento à Psicologia
Social norte-americana (em função de seu experimentalismo
e individualismo), em prol de uma psicologia social mais
contextualizada, isto é, mais voltada para os problemas
políticos e sociais que a região vinha enfrentando. Estimu-
lados pela arbitrariedade dos regimes militares e pela grande
desigualdade social do continente, esses psicólogos sociais
irão defender uma ruptura radical com a psicologia social
tradicional (Spink & Spink, 2005).
Nesse sentido, vários psicólogos latino-americanos pas-
saram a adotar como referencial de seus estudos a Psicologia
Social Crítica. Um autor frequentemente citado como legí-
timo representante dessa perspectiva na Psicologia Social
latino-americana é Martin-Baró, psicólogo e padre jesuíta
espanhol, radicado em El Salvador, que defendia em suas
obras o desenvolvimento de uma psicologia social compro-
metida com a realidade social latino-americana.
Como forma de ajudar a minorar a situação estrutural de
injustiça social que permeia a maioria dos povos latino-ame-
ricanos, Martín-Baró (1996) enfatiza que a principal tarefa
do psicólogo social deve ser a conscientização de pessoas e
grupos, como forma de levá-los a desenvolver um saber crí-
tico sobre si e sobre sua realidade, que lhes permita controlar
sua própria existência. De acordo com o autor, urge, portanto,
que os psicólogos sociais contribuam para a construção de
identidades pessoais, coletivas e históricas capazes de romper
a situação de alienação das maiorias populares oprimidas e
desumanizadas que vivem à margem da sociedade dominan-
59Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
Psicologia Social
te e, consequentemente, levar à mudança social. Trata-se,
assim, de desenvolver um saber psicológico historicamente
construído que se mostre capaz de compreender e contribuir
para sanar os problemas que atingem as maiorias populares e
oprimidas. Para ele (Martin-Baró, 1989), então, a construção
teórica em psicologia social deve emergir dos problemas e
conflitos vivenciados pelo povo latino-americano, de forma
contextualizada com sua história.
Outra autora de destaque no cenário latino-americano é
Maritza Montero, da Venezuela. Em revisão recente sobre a
Psicologia Social Crítica em seu país, Montero e Montene-
gro (2006) assinalam que ela se caracteriza principalmente
por questionar os modos de produção de conhecimento e
prática da Psicologia e perseguir a transformação social e a
relevância social da pesquisa e intervenção sobre os proble-
mas sociais que assolam o país. Para tanto, coloca-se contra
as abordagens positivistas e experimentais, a neutralidade
científica e as perspectivas individualistas de abordagem
dos fenômenos psicossociais, defendendo, ao contrário, a
produção de um conhecimento contextualizado, participan-
te e coconstruído por pesquisadores e atores sociais, como
forma de contribuir para a solução dos problemas sociais que
vivenciam e transformar sua realidade social.
Apoiando-se primordialmente em tal referencial, os
psicólogos venezuelanos, muitas vezes em colaboração
com colegas latino-americanos de outras nacionalidades,
têm direcionado suas investigações para as temáticas dos
estereótipos, autoimagens, identidades sociais, nacionalis-
mo, movimentos sociais, poder social, relações de gênero,
violência doméstica, direitos reprodutivos da mulher, entre
outros. Tais estudos têm sido acompanhados, também, por
uma intensa produção teórica sobre os princípios paradigmá-
ticos da Psicologia Comunitária, bem como suas práticas e
inserção no campo da ciência, sobre os modos de construção
do conhecimento, sobre o conceito de empoderamento, sobre
a pesquisa participativa etc. (Montero & Montenegro, 2006).
Iniciativas sob a perspectiva da Psicologia Crítica tam-
bém têm despontado em outros países latino-americanos
como, por exemplo, a Colômbia (Molina-Valencia & Mesa,
2006), o Chile (Shafir, 2006) e o Brasil, que será objeto de
análise mais detalhada na próxima seção. Cumpre registrar,
porém, que a Psicologia Social Crítica não é a única tendência
dominante naAmérica Latina, na medida em que nela coexis-
tem múltiplas tendências, havendo, assim, vários psicólogos
sociais na região que vêm desenvolvendo seus trabalhos com
o apoio de referenciais da Psicologia Social norte-americana
ou da Psicologia Social europeia. Nesse sentido, Álvaro e
Garrido (2006) questionam se é possível afirmar a existência
de uma Psicologia Social latino-americana que reúna traços
próprios de identidade.
A Produção Brasileira em Psicologia Social
As primeiras publicações brasileiras com foco na análise
de questões psicossociais começaram a surgir na década
de 1930 (Bonfim, 2003). No entanto, a institucionalização
da Psicologia Social irá ocorrer apenas em 1962, quando
o Conselho Federal de Psicologia, por meio do parecer
403/62, criou o currículo mínimo para os cursos de Psico-
logia, estabelecendo, assim, a obrigatoriedade do ensino da
Psicologia Social.
A partir de então, e até os anos 1970, a Psicologia Social
Psicológica norte-americana foi a dominante, de modo se-
melhante ao que ocorreu no resto da América Latina. Uma
das obras bastante adotada nos cursos de Psicologia Social
durante esse período, e que expressa tal tendência, é o livro
“Psicologia social”, de autoria de Aroldo Rodrigues, publi-
cado pela primeira vez em 1972 e que se encontra atualmente
em sua 23ª edição. Seu autor foi também o responsável pelo
desenvolvimento de uma profícua linha de pesquisa em Psi-
cologia Social no país, a qual foi divulgada em uma série de
artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros,
ao longo dos anos 1970 e 1980.
No entanto, a partir do final da década de 1970, os psicó-
logos sociais brasileiros também irão participar ativamente
do movimento de ruptura com a Psicologia Social tradicio-
nal ocorrido na América Latina. Assim é que, a partir da
publicação, em 1984, do livro organizado por Silvia Lane e
Vanderley Codo e intitulado “Psicologia social: O homem
em movimento”, vários outros manuais brasileiros de Psico-
logia Social (Campos & Guareschi, 2000; Jacques, Strey,
Bernardes, Guareschi, Carlos & Fonseca, 1998; Lane &
Sawaia, 1994; Mancebo e Jacó-Vilela, 2004) se sucederam,
na perspectiva da Psicologia Social Crítica. De acordo com
Carvalho e Dunker (2006), tal movimento constitui atual-
mente uma das principais correntes da Psicologia brasileira,
e vem procurando abordar, sobretudo, alguns dos problemas
sociais enfrentados pelo país, como, por exemplo, a violên-
cia doméstica, as crianças de rua, a pobreza, a desigualdade
social e a exclusão educacional.
Outro evento que marcou a evolução da Psicologia Social
brasileira foi a criação, em 1980, da Associação Brasileira
de Psicologia Social (ABRAPSO), estabelecida com o pro-
pósito de redefinir o campo da Psicologia Social e contribuir
para a construção de um referencial teórico orientado pela
concepção de que o ser humano constitui-se em um produto
histórico-social, de que indivíduo e sociedade se implicam
mutuamente (Jacques & cols., 1998). A partir da década de
1980, começaram também a se desenvolver no país os cursos
de pós-graduação stricto-sensu, que exerceram importante
papel na estruturação de diferentes linhas de pesquisa na área
de Psicologia Social, orientadas por paradigmas e tendências
diversificadas, bem como no incremento da produção cien-
tífica brasileira em Psicologia Social.
Com o intuito de obter um breve panorama da atual
produção brasileira em Psicologia Social, que permitisse
sua posterior contextualização no cenário internacional, foi
realizado um levantamento de todos os volumes disponíveis
na base de dados Scielo de seis periódicos nacionais da área
de Psicologia, avaliados comoA1 ouA2 no sistema QUALIS
2010, a saber: Estudos de Psicologia (Campinas); Estudos
de Psicologia (Natal); Psicologia em Estudo; Psicologia e
Sociedade; Psicologia: Reflexão e Crítica; Psicologia: Teoria
e Pesquisa. Os volumes de 2010 não foram, porém, incluídos,
em função de que alguns desses periódicos ainda não conta-
vam com tais volumes disponibilizados eletronicamente por
ocasião da consulta, realizada durante o mês de julho de 2010.
Todos os artigos publicados nesses periódicos, durante
os períodos assinalados, foram examinados, excetuando-se
60 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
M. C. Ferreira
as resenhas, notícias, entrevistas e editoriais. Desse total,
foram selecionados, para posterior análise, os que podiam
ser classificados como pertencentes à área de Psicologia
Social. Cabe aqui mencionar as dificuldades encontradas no
estabelecimento de critérios para a categorização dos artigos
no escopo da Psicologia Social contemporânea, em função
da pluralidade de formas que a disciplina vem progressiva-
mente assumindo, o que torna por vezes os limites entre ela
e alguns outros campos do saber psicológico muito tênues.
Nesse sentido, optou-se pelo exame individual de cada
artigo e eleição dos que podiam ser identificados com pelo
menos uma das três principais vertentes atuais da Psicologia
Social, discutidas previamente (Psicologia Social Psicológi-
ca, Psicologia Social Sociológica e Psicologia Social Crítica).
Assim, por exemplo, fenômenos psicossociais como papéis
familiares, infância, juventude e envelhecimento, violência
intrafamiliar, saúde mental e meio ambiente, que vêm sendo
estudados não apenas pela Psicologia Social, mas também por
outras áreas da Psicologia (Psicologia do Desenvolvimento,
Psicologia da Saúde, Psicologia Clínica, PsicologiaAmbien-
tal, Psicologia do Trabalho etc.), foram incluídos apenas
quando foi possível obter indicações de que eles estavam
sendo abordados por meio de referenciais teóricos e/ou temas
afetos a pelo menos uma das três vertentes sociopsicológicas
supra mencionadas. Considerando-se, por outro lado, que o
objetivo era fazer um levantamento da produção nacional, os
artigos da área de Psicologia Social, cujos autores eram todos
estrangeiros e/ou não incluíam indivíduos brasileiros como
participantes, também foram excluídos da presente análise.
Adotando-se tais critérios, foram selecionados 636 arti-
gos para compor uma base de dados com informações sobre
características de autoria e sua natureza teórica, temática e
metodológica. Na Tabela 1, apresenta-se a distribuição do
número de periódicos e fascículos examinados ao longo do
período estudado, bem como do número de artigos classifica-
dos como pertencentes à categoria de estudos em Psicologia
Social, nos diferentes periódicos analisados.
Com relação ao número de autores, observou-se maior
percentual de artigos com dois autores (41%), seguido pelo
percentual de artigos com um autor (24%) ou com três autores
(18%), e com o restante (17%) oscilando entre artigos de
quatro a 13 autores. Entre os artigos com mais de um autor, a
maioria (76%) dizia respeito a parcerias entre autores de uma
mesma instituição, seguida por parcerias interestaduais (14%)
ou internacionais (10%). Tais dados podem ser vistos como
um reflexo do incentivo à publicação de teses e dissertações
em que os orientadores atuam como coautores dos trabalhos
de seus orientandos.
No que tange à afiliação institucional desses autores, a
maioria provinha de instituições públicas federais (47%)
ou estaduais (18%), com somente 21% pertencendo a insti-
tuições privadas e o restante (14%) referindo-se a autorias
que combinavam duas ou mais dessas categorias. Já no que
se refere à distribuição geográfica dos autores, destacou-se
o predomínio da região sudeste (41%), seguida pela região
sul (26%), nordeste (16%) e centro-oeste (9%), com a re-
gião norte aparecendo com menos de 1% e o restante (8%)
se referindo a parcerias inter-regionais. Tais dados vão ao
encontro do fato de o maior número de centros de pós-gra-
duação stricto-sensu em Psicologia do país concentrar-se nas
regiões sudeste e sul que, contam, consequentemente, com
maior contingente de pesquisadores, os quais, por sua vez,
angariam a maior parte dos recursos dos órgãos de fomento
para a pesquisa.
Atendo-se à vertente da Psicologia Social na qual os
artigos se inseriam, foi possível constatar que a maior parte
dos artigos identificava-se com os fundamentos teórico-
metodológicos da Psicologia Social Crítica (46%), seguida
pelo percentual de artigos identificados com a Psicologia
Social Psicológica, de natureza predominantemente norte-
americana (38%), e com a Psicologia Social Sociológica, de
base eminentemente europeia (16%).
A preferência dos psicólogos brasileiros pela Psicologia
Social Crítica mostra-se coerente com a tendência mais recen-
te de adesão a tal perspectiva que vem sendo observada em
diversos outros países daAmérica Latina. Outrossim, cumpre
enfatizar o importante papel que o periódico Psicologia e
Sociedade vem desempenhando na veiculação da produção
brasileira associada à Psicologia Social Crítica.Assim é que
pouco mais da metade dos artigos inseridos nessa perspectiva
(53%) foram publicados no periódico em questão, com os
demais se dividindo pelos outros cinco periódicos analisados.
Em relação às temáticas de estudo, observou-se que as
que vêm despertando maior interesse dos psicólogos sociais
brasileiros são as práticas sociais (15%), as representações
sociais (15%), a configuração de identidades e subjetividades
(14%) e as atitudes, crenças, valores e percepções sociais
(13%). O cruzamento das informações relativas à modalidade
da Psicologia Social e às temáticas de estudo abordadas per-
mite, porém, uma análise mais pormenorizada dessa questão.
Nesse sentido, entre aqueles que se referenciam à perspectiva
da Psicologia Social Crítica, os principais temas de estudo são
Tabela 1. Periódicos, fascísculos e artigos avaliados.
Periódicos Período analisado Número de fascículos Número de artigos
Estudos em Psicologia (Campinas) 2002-2009 29 70
Estudos em Psicologia (Natal) 1997-2009 34 93
Psicologia e Sociedade 2002-2009 26 184
Psicologia em Estudo 2001-2009 26 108
Psicologia: Reflexão e Crítica 1997-2009 38 94
Psicologia: Teoria e Pesquisa 2000-2009 34 87
Total --------- 187 636
Fonte: Dados da pesquisa
61Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
Psicologia Social
as práticas sociais, como, por exemplo, a violência, a inclusão
e exclusão social, a criatividade etc. (32%), a configuração de
identidades e subjetividades (30%), as práticas de pesquisa e
intervenção em Psicologia Social (15%) e os papéis de gênero
(8%). Já entre os adeptos da Psicologia Social Psicológica, os
temas de maior interesse são as atitudes, crenças, valores e
percepções sociais (34%), as relações interpessoais (17%), os
afetos, emoções e motivação social (16%) e a autopercepção
(12%). No escopo da Psicologia Social Sociológica, é nítida a
preferência pelo tema das representações sociais (91%), com
o percentual restante distribuindo-se entre temas variados.
Vale assinalar que alguns dos artigos classificados nas
áreas de atitudes e crenças ou de representações sociais
afirmavam estar investigando tais temáticas mas continham
apenas uma revisão da literatura associada ao objeto dessas
crenças, atitudes ou representações sociais (como, por exem-
plo, a velhice, a reforma psiquiátrica etc.), sem que houvesse
a preocupação de se apresentarem também os fundamentos
teóricos subjacentes a essas temáticas. Outros ainda afirma-
vam estar realizando uma análise psicossocial de algum tema,
porém não forneciam maiores evidências sobre a perspectiva
teórica que orientava tal análise, o que fez com que por vezes
ela tivesse que ser inferida, a partir do tema abordado ou de
autores trazidos na discussão dos resultados.
No que diz respeito à metodologia, verificou-se inicial-
mente se o estudo era de natureza teórica ou empírica. Foram
considerados, como artigos teóricos, os estudos caracteriza-
dos por revisões críticas de conceitos, modelos e/ou teorias,
ou de reflexão e discussão de temas, práticas e métodos de
pesquisa e intervenção psicossocial, alicerçados em posições
teóricas e por vezes também em casos ilustrativos. Já os arti-
gos empíricos foram classificados como tal se envolvessem
procedimentos de coleta e análise de dados.
Os artigos teóricos corresponderam a 34% da produção
total no período analisado, com os demais 67% referindo-se
a estudos empíricos com o uso de metodologias variadas,
na qual se sobressai a qualitativa. Cruzando-se essas infor-
mações com as vertentes psicossociais, foi possível, porém,
observar que, entre os estudos conduzidos na perspectiva
da Psicologia Social Crítica, 40% eram teóricos e 55%
apoiavam-se em estudos empíricos de natureza qualitativa,
com os demais adotando outros tipos de metodologias. Já
entre os estudos orientados pela Psicologia Social Psico-
lógica, a tendência maior foi pelos estudos quantitativos
de natureza correlacional ou comparativa (47%), seguidos
pelos estudos voltados ao desenvolvimento ou adaptação de
instrumentos de medida (17%) e pelos de natureza teórica
(11%), havendo um pequeno número de estudos associados
a metodologias experimentais, quantitativo-descritivas ou
qualitativas. Por fim, no conjunto de trabalhos alocados na
vertente da Psicologia Social Sociológica, constatou-se que
a maioria optou pela associação de metodologias qualitati-
vas e quantitativas (56%) ou pela adoção de metodologias
qualitativas (21%), seguida pelos estudos teóricos (10%) e
com um pequeno número utilizando somente metodologias
de cunho quantitativo.
Atendo-se somente aos estudos empíricos, verificou-se
que eles vêm utilizando diferentes tipos de amostras, ainda
que prevaleçam entre elas os grupos ou indivíduos especí-
ficos, como, por exemplo, alcoolistas, pacientes crônicos,
usuários de drogas etc. (19%), estudantes universitários
(18%), adolescentes (11%) ou grupos profissionais, como
professores, enfermeiros, trabalhadores em saúde mental etc.
(10%). Já no que diz respeito aos instrumentos de coleta de
dados, a preferência recai nos questionários ou escalas (50%),
seguidos pelas entrevistas (15%).
Em síntese, o exame da produção brasileira em Psico-
logia Social veiculada em seis dos principais periódicos
nacionais nos últimos 10 anos permite a conclusão de que
as três vertentes atuais da Psicologia Social encontram-se
representadas nessa produção, com maior preferência por es-
tudos de natureza teórica ou de natureza empírico-qualitativa
conduzidos na perspectiva da Psicologia Social Crítica. Já
entre os estudos orientados pela Psicologia Social Psicológica
predominam aqueles eminentemente quantitativos e, entre
os apoiados na Psicologia Social Sociológica, aqueles de
cunho qualititativo-quantitativo.As investigações empíricas
associadas às diferentes vertentes têm privilegiado o uso de
questionários, escalas ou entrevistas.
Tais resultados apresentam semelhanças e divergências
com o levantamento realizado por Ferreira (1992), com
base na produção em Psicologia Social veiculada em quatro
periódicos (Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada;
Psicologia: Teoria e Pesquisa; Psicologia-USP; PSICO) e
nos Anais das Reuniões Anuais da Sociedade de Psicologia
de Ribeirão Preto e da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência, no período de 1980 a 1991.Assim é que, naquela
ocasião, a perspectiva da Psicologia Social Psicológica era
a dominante e a Psicologia Social Sociológica começava a
dar os primeiros passos, não tendo sido detectados indícios
de trabalhos que pudessem ser alocados na vertente da Psi-
cologia Social Crítica. Entre os temas mais estudados no
período encontravam-se a socialização, a percepção social e
as atitudes, crenças e valores. Verifica-se, assim, que o tema
das atitudes, crenças e valores, juntamente com a percepção
social, vem, há várias décadas, constituindo-se em um dos
principais objetos de estudo dos psicólogos brasileiros. Já a
temática da socialização não se encontra mais no centro de
interesse atual desses investigadores. Por outro lado, a grande
diferença entre os dois levantamentos citados diz respeito ao
surgimento e consolidação da Psicologia Social Crítica no
cenário nacional.
Considerações Finais
A revisão sobre a evolução e estado atual da Psicologia
Social no Brasil e no exterior evidencia que, na América do
Norte, a disciplina tem sido dominada pela Psicologia Social
Psicológica, de base eminentemente cognitivista e experi-
mental, que se focaliza prioritariamente nos eventos e proces-
sos intrapsíquicos que intervêm na relação do indivíduo com
seu meio social. Já na Europa, prevalece a Psicologia Social
Sociológica, que faz uso de metodologias experimentais e
não experimentais, com o intuito de desvendar sobretudo os
processos subjacentes às relações que se passam no interior
dos grupos sociais e entre grupos.AAmérica Latina, por seu
turno, tem aderido cada vez mais à Psicologia Social Crítica,
que se preocupa basicamente com os problemas sociais,
procurando assim desenvolver um saber autônomo e capaz
62 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64
M. C. Ferreira
de compreender tais fenômenos.Acompanhando a tendência
verificada na América Latina, a Psicologia Social Brasileira
tem adotado preferencialmente a Psicologia Social Crítica,
muito embora seja possível verificar que as três vertentes
atuais da Psicologia Social contemporânea encontram-se
representadas na produção brasileira dos últimos 10 anos.
Tais constatações remetem a algumas reflexões acerca das
perspectivas futuras dessa produção, no que diz respeito a seu
impacto no cenário internacional. Com relação aos artigos de
cunho teórico, encontrados, sobretudo, no âmbito da Psico-
logia Social Crítica, é possível constatar que a maioria tem
se limitado a desenvolver reflexões e defender determinados
argumentos à luz de autores já consagrados nesse campo de
estudos. Poucos e esparsos são, portanto, os trabalhos nos
quais se nota a preocupação com a formulação de conceitos,
metodologias ou modelos teóricos inovadores, capazes assim
de colocar a Psicologia Social Crítica brasileira em posição
de destaque no cenário latino-americano ou mesmo norte-
americano ou europeu.
Atendo-se aos trabalhos empíricos, verifica-se que há
nítida preferência pelas investigações de natureza qualitativo-
descritiva, que vêm indubitavelmente contribuindo para
maior compreensão de uma ampla gama de fenômenos
psicossociais, estejam eles referenciados à Psicologia Social
Crítica ou à Psicologia Social Sociológica. Seria interessan-
te, porém, que tais estudos pudessem evoluir no sentido de
investigar as diferentes alternativas de ação e intervenção
propostas, que acabam ficando, na maioria das vezes, apenas
no nível de sugestões para estudos futuros. Exemplo disso é
o fato de que os trabalhos anteriores de um mesmo autor não
são em geral citados em suas publicações subsequentes, em
função de cada uma delas se referir a temáticas diferentes.
Outrossim, seria preferível que esses estudos adotassem uma
linha consistente de invesigação que fosse paulatinamente
acumulando informações sobre um objeto de pesquisa ou
intervenção de modo a que, ao final de certo tempo, seus
autores tivessem condições de reunir um corpo considerável
de conhecimentos capazes de exercer algum impacto no
cenário nacional e internacional.
Focalizando-se, por fim, nas pesquisas empíricas de
natureza quantitativa, utilizadas principalmente na área da
Psicologia Social Psicológica, verifica-se que poucas são as
de caráter experimental, método preferencial nas publicações
internacionais sob essa perspectiva. Nesse sentido, os estudos
brasileiros têm optado por recorrer principalmente ao método
correlacional ou comparativo, sem, no entanto, lançar mão
de ferramentas mais poderosas de análise de dados, como,
por exemplo, a modelagem de equações estruturais e outras
análises multivariadas, que há alguns anos vêm sendo as
estratégias de análise de dados mais adotadas nos estudos
internacionais dessa natureza.
Ademais, muitos desses estudos apoiam-se em referen-
ciais frágeis, o que os impede, muitas vezes, de conterem
hipóteses sólidas e fundamentadas em evidências teórico-
empíricas, característica também marcante nos estudos
internacionais. Acrescente-se a isso o fato de que os desen-
volvimentos mais atuais no cenário internacional, como a
Psicologia Social Evolucionista e a Neurociência Social, têm
sido abordados apenas de forma esparsa e, ainda assim, em
artigos teóricos. Urge, portanto, que os psicólogos sociais
brasileiros adeptos da Psicologia Social Psicológica incor-
porem os aspectos mencionados em seus futuros trabalhos
de investigação, de modo a que eles possam se tornar com-
petitivos no cenário internacional.
Vale ressaltar, ainda, a pouca atenção dada à cultura nos
estudos brasileiros em Psicologia Social, independentemente
da vertente a que se vinculam. Contudo, a grande diversidade
sociocultural que caracteriza o país constitui-se em terreno
fértil para a realização de análises sistemáticas e profícuas
acerca das características particulares que configuram a iden-
tidade, o comportamento e as práticas sociais do brasileiro.
Nesse sentido, o desenvolvimento de linhas de pesquisa
nessa direção reveste-se indubitavelmente da capacidade
potencial de contribuir para a construção de uma verdadeira
Psicologia Social brasileira, construída, de forma autônoma,
ainda que na interseção da pluralidade de teorias e métodos
que configuram a Psicologia Social contemporânea.
À guisa de conclusão, cabe mencionar que o presente
trabalho pretendeu realizar uma breve revisão das principais
tendências que marcam a Psicologia Social contemporânea,
sem pretender, no entanto, ser exaustivo, em função das
limitações de espaço e da proposta que o norteou. Nesse
sentido, certos recortes e limites precisaram ser efetuados,
o que implicou a não abordagem de alguns desdobramentos
e temas relevantes à Psicologia Social na atualidade, como,
por exemplo, a Psicologia Transcultural, a Etnopsicologia,
a Psicologia Institucional etc. Por outro lado, nem todos os
periódicos da área de Psicologia foram incluídos no levan-
tamento da produção nacional, nem tampouco as teses e
dissertações. Ainda assim, porém, foi possível apontar os
consideráveis avanços obtidos pela Psicologia Social nas
últimas décadas, no plano internacional e nacional, bem
como os desafios que se colocam à produção brasileira da
área nesse novo milênio.
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O método dialético
e a análise do real
Luis Henrique Zago*
luishenriquezago@hotmail.com
RESUMO  Ao evidenciar que as relações estabelecidas por homens e
mulheres com o meio concreto engendram o real, a dialética torna exequível
a revolução do status quo por possibilitar a compreensão de que o mundo
é sempre resultado da práxis humana, seja ela marcada por relações de
dominação que reificam e fetichizam a prática social, seja marcada por
relações que operam a humanização dos homens e mulheres. Ao romper com
os fetiches, ou seja, ao perceber que os objetos não devem sujeitá-los, homens
e mulheres avançam de encontro à reificação, alçando-se a possibilidade
de revolucionar suas condições de existência. Assim, o rompimento da
pseudoconcreticidade ocorre no momento em que se evidencia que a realidade
social se concretiza por meio das condições de produção e reprodução da
existência social das pessoas, que é em nossa sociedade marcada pela luta
de classes. Este processo de rompimento exige um esforço construtor de uma
interpretação do real que vá para além de uma representação caótica do todo,
típico das vivências cotidianas. Este artigo postula que o método materialista
histórico dialético pode auxiliar neste processo. Partindo desta constatação,
elabora-se reflexão sobre este método de análise do real.
Palavras-chave  Dialética, pseudoconcreticidade, realidade e ciência.
SUMMARY  By showing that the relationships established by men and
*	 Professor de Filosofia da Faculdade da Fundação Educacional de Araçatuba. Artigo recebido em
21/07/2011 e aprovado em 26/12/2011.
Luis Henrique Zago110
women with the practical means to engender real, dialectic makes possible
the revolution of the status quo by allowing the understanding that the world
is always the result of human practice, it is marked by relations of domination
that fetishize and reify the social practice or marked by relationships that
operate at the humanization of men and women. By breaking with the fetishes,
or to realize that objects should not expose them, men and women advance
against reification, raising the possibility of revolutionizing his conditions
of existence. Thus, disruption of pseudoconcreticity occurs at the moment is
evident that social reality is concretized through the conditions of production
and reproduction of social existence, which is in our society marked by class
struggle. This process requires a breakout effort to construct an interpretation
of reality that go beyond a representation of the whole chaotic, typical of
everyday experiences. This article posits that the historical materialist
dialectical method con help this process. Based on this observation, we
undertake reflection on this method of analysis of the real.
Keywords  Dialectics, pseudoconcreticity, reality and science.
Segundo Kosik (1976) vivemos em um mundo marcado por uma
psedoconcreticidade1
. Neste ambiente o aspecto fenomênico é assumido
isoladamente, desconsiderando-se a essência. A realidade possui como
elemento constituinte os dois aspectos (fenômeno e essência2
), sendo o
manifesto nela uma das possíveis representações fenomênicas da essência.
1	 Kosik (1976 p.11) caracteriza a pseudoconcreticidade da seguinte forma: “A ele [mundo da
pseudoconcreticidade] pertencem: o mundo dos fenômenos externos, que se desenvolvem à superfície
dos processos realmente essências; o mundo do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada
dos homens (...); o mundo das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos
nas consciências dos homens, produto da praxis fetichizada, formas ideológicas de seu movimento; o
mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de serem condições naturais e não imediatamente
reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens.”
2	 Entendemos por essência aqueles elementos que por sua primazia garantam a existência de outros
elementos que sem aqueles não existiriam. Em Marx o trabalho emerge como elemento essencial na
medida em que media a relação entre o homem e a natureza tornando possível o processo de “emergir”
do humano do mundo natural, o que leva a constituição de uma “segunda natureza”. Os fenômenos,
elementos decorrentes da essência, apresentam-se como uma das muitas formas de ser da essência.
Segundo Ranieri (2002/2003 p.11) os fenômenos “... agem socialmente no sentido de estabelecer
direções possíveis à articulação da essência, constituindo-a, e mesmo determinando a direção tomada
pelo complexo como um todo, na medida em que constituem formas que têm por trás a possibilidade da
reflexão e da decisão, uma vez que são conscientizadoras da ação humana. Os complexos são capazes
de modificar a direção dos caminhos percorridos pela essência, e sua articulação com a primeira das
categorias (o trabalho) é a verdadeira natureza movente e movida do processo de estruturação daquela
essência. A essência do ser social é, portanto, todo o processo passado do qual ela mesma é o resultado.”
111O método dialético e a análise do real
Uma análise acurada deve ponderar que as partes constituintes do real devem
ser apreendidas como unidade, mesmo que a essência seja percebida como
diferente e não imediatamente como o fenômeno. Parte-se do observável rumo
à essência, o que tornará possível a compreensão do ser social como totalidade
que se relaciona intimamente a vida material e concreta dos seres humanos.
Como os elementos que marcam a forma de ser dos objetos devem ser
percebidos de forma integrada (como todo) é imprescindível notar a relação
entre os diferentes níveis de totalidade do real para uma compreensão precisa
das coisas. Esta integração pressupõe que não existe predomínio de estruturas
que se sobreponham umas as outras. A necessidade de integrar os diferentes
níveis de totalização torna imprecisa e infecunda para a compreensão da
realidade leituras que promovam uma cisão, como a realizada por Althusser
(1992), da organização social em infra-estrutura e superestrutura ou em
aparelhos ideológicos e repressores. Não é possível separar as instituições
educacionais, por exemplo, de outras esferas da sociedade como realiza o
autor francês3
. O sistema do capital afeta todos os elementos da sociedade e os
integra em uma ordem maior como lembra Mézaros (2005 p.43):
As determinações gerais do capital afetam profundamente cada âmbito particular
com alguma influência na educação, e de forma nenhuma apenas instituições
educacionais formais. Estas estão estritamente integradas na totalidade dos processos
sociais. Não podem funcionar adequadamente exceto se estiverem em sintonia com
as determinações educacionais gerais da sociedade como um todo.
O perigo de leituras como a de Althusser (1992), é produzir a equivocada
ilusão de que existam instituições, ou como quer o autor aparelhos,
independentes das ações humanas que acabam por determinar e subjugar os
sujeitos. Ao cindir a sociedade perde-se a percepção de que na verdade todos
os elementos estão interligados. O autor acaba por corroborar o equívoco de
que existe uma “mão invisível” a gerir o sistema, o que pode suscitar nas
3	 O método dialético, tal como proposto por Hegel e Marx, é justamente uma tentativa de pensar o mundo
integrando as diferentes esferas contraditórias do real. Pressupõe-se que pensar dialeticamente seja
pensar por contradições e que ao separar as diferentes esferas da realidade tem-se um empobrecimento
da percepção do real por perder-se a totalidade. Sobre a necessidade de integrar as esferas contraditórias
do real escreveu Hegel (2007:26) “O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a
flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua
verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis
entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual,
longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. E essa igual necessidade que constitui
unicamente a vida do todo. Mas a contradição de um sistema filosófico não costuma conceber-se desse
modo; além disso, a consciência que apreende essa contradição não sabe geralmente libertá-la – ou
mantê-la livre – de sua unilateralidade; nem sabe reconhecer no que aparece sob a forma de luta e
contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários.”
Luis Henrique Zago112
pessoas conformismo e passividade quanto a necessidade de interferir no real.
Sobre isso escreve Pierre Bordieu (apud Ranieri 2002/2003 p.28)
Converter em entidades transcendentes, que estão nas práticas da relação entre
essência e existência, as construções a que a ciência deve recorrer, para dar a razão
dos conjuntos estruturados e significativos que a acumulação de inumeráveis ações
históricas produz, é reduzir a história a um ‘processo sem sujeito’ e substituir,
simplesmente, o ‘sujeito criador’ do subjetivismo por um autômato subjugado pelas
leis mortas de uma história da natureza. Essa visão imanentista que faz da estrutura,
Capital ou Modo de produção, uma entelecheia se desenvolvendo ela mesma
num processo de auto-realização, reduz os agentes históricos ao papel de suportes
(Träger) da estrutura e, suas ações, a simples manifestações epifenomenais do poder
que pertence à estrutura de se desenvolver segundo suas próprias leis, e de determinar
ou sobredeterminar outras estruturas.
Diferentemente do que afirma Althusser (1992) a dialética marxiana
pressupõe uma visão totalizante do real, ou seja, por meio dela tenta-se
perceber os diferentes elementos sociais como interligados a uma mesma
totalidade. O agir e o pensar, mesmo que não nos demos conta disso, sempre
implicam a percepção do todo, uma certa visão do conjunto das relações.
Evidentemente existem diferentes níveis de totalização. Há totalidades
mais abrangentes que envolvem outras de menor abrangência. A abrangência
de uma totalidade relaciona-se ao nível de generalização alcançado pelo
pensamento e aos objetivos das pessoas em cada situação especifica. Sobre
isso escreve Konder (1991 p.39)
Se eu estou empenhado em analisar as questões políticas que estão sendo vividas
pelo meu país, o nível de totalização que me é necessário é o da visão de conjunto da
sociedade brasileira, da sua economia, da sua história, das suas contradições atuais.
Se, porém, eu quiser aprofundar a minha análise e quiser entender a situação do Brasil
no quadro mundial, vou precisar de um nível de totalização mais abrangente: vou
precisar de uma visão de conjunto do capitalismo, da sua gênese, da sua evolução, dos
seus impasses no mundo de hoje. E, se eu quiser elevar a minha análise a um plano
filosófico, precisarei ter, então, uma visão de conjunto da história da humanidade...
Os diferentes níveis de totalidade são identificados por Vygotsky como
unidades. Para o autor soviético ao se segmentar a realidade em unidades
de análise deve se tomar o cuidado de abarcar uma unidade que preserve
em si as características essências da totalidade. Para não incorrer no risco
de que se considere que a unidade de análise não necessita possuir em si
as características fundamentais da totalidade optou-se neste trabalho por
não usar o termo unidade, mas totalidade de menor ou maior abrangência.
O complicador neste tipo de análise do real é conseguir encontrar um nível
de totalidade que preserve em si as características essenciais dos níveis mais
113O método dialético e a análise do real
abrangentes. Ao discutir a postura dos pesquisadores de psicologia que ao
estudar o real dividem a realidade em elementos mais simples sem o devido
cuidado Vygotsky (2000 apud Duarte p.89) comenta a necessidade de se ter
apreço pela busca da totalidade na análise do real:
Cremos que substituir esse tipo de análise por outro muito diferente é um passo
decisivo e crítico para a teoria do pensamento e da linguagem. Teria de ser uma
análise que segmentasse o complexo conjunto em unidades. Por unidade entendemos
o resultado da análise que, diferentemente dos elementos, goza de todas as
propriedades fundamentais características do conjunto e constitui uma parte viva
e indivisível da totalidade. Não é a fórmula química da água senão o estudo das
moléculas e do movimento molecular o que constitui a chave da explicação das
propriedades definidoras da água. Assim, a célula viva, que conserva todas as
propriedades fundamentais da vida, definidora dos organismos vivos, é a verdadeira
unidade da análise biológica
No cotidiano, a percepção do todo não é nítida porque são pinçados
apenas alguns aspectos mais relevantes do todo que nortearão as condutas e os
pensamentos. Mesmo assim, a totalidade continua como pano de fundo, como
lembra Kosik (1976 p.15). “O ‘horizonte’ – obscuramente intuído – de uma
realidade indeterminada como todo constitui o pano de fundo inevitável de
cada ação e cada pensamento, embora ele seja inconsciente para a consciência
ingênua.”
Quando no cotidiano o todo é percebido sem clareza estrutura-se
um pensamento de senso comum que tende a representar os objetos como
se eles estivessem desligados de suas condições históricas e sociais. Ao
representar os objetos desta forma este tipo de pensamento acaba por negar
o movimento dialético dos elementos, afastando-se do mundo real rumo a
pseudoconcreticidade. Mesmo que a totalidade não seja percebida ela continua
existindo e determinando as partes que a compõem.
Em oposição ao pensamento de senso comum a dialética se propõe a
compreender a “coisa em si”, construindo uma compreensão da realidade
que considere a totalidade como dinâmica e em constante construção
social. Ao considerar a realidade desta forma a dialética rompe com a
pseudoconcreticidade, por desvelar as tramas que relacionam a essência ao
fenômeno. Foi por isso que Hegel (2007:36) preconizava: “O verdadeiro é
o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu
desenvolvimento.”
Marx e Engels (2007) ao usarem a dialética objetivam suprimir a
imediaticidade e a pretensa independência com que o fenômeno surge,
subsumindo-o a sua essência. Com a dialética os elementos cotidianos deixam
de ser naturalizados e eternizados, passando a ser encarados como sujeitos
Luis Henrique Zago114
da práxis social da humanidade. Neste sentido, a dialética é um esforço para
perceber as relações reais (sociais e históricas) por entre as formas estranhadas
com que se apresentam os fenômenos. Segundo Marx e Engels (2007:42):
Ela [a história] não tem necessidade, como na concepção idealista de história, de
procurar uma categoria em cada período, mas sim de permanecer constantemente
sobre o solo da história real; não de explicar a práxis partindo da ideia, mas de explicar
as formações ideais a partir da práxis material e chegar, com isso, ao resultado de que
todas as formas e [todos os] produtos da consciência não podem ser dissolvidos por
obradacríticaespiritual,porsuadissoluçãona‘autoconsciência’ousuatransformação
em ‘fantasma’, ‘espectro’, ‘visões’ etc., mas apenas pela demolição prática das
relações sociais reais [realen] de onde provêm essas enganações idealistas...
Não é exclusividade do pensamento dialético a percepção da necessidade
de se buscar a essência constituinte do mundo fenomênico. Esta se apresenta
como uma das grandes questões da filosofia contemporânea, como fica patente,
por exemplo, nas elucubrações filosóficas expostas pela fenomenologia. Ao
propor a redução fenomenológica, Husserl está objetivando justamente a
essência do fenômeno, que é alcançada, segundo ele, por meio do rompimento
com a atitude cotidiana de relacionar-se com o mundo. Por meio de uma
postura transcendental, os fenomenólogos acreditam conseguir atingir um
nível de consciência em que é possível apreender a essência do real. Assim,
a fenomenologia constitui-se como uma ciência das essências. Sobre isso
afirma Galeffi (2000 p.24)
“Portanto, a tarefa da Fenomenologia Transcendental é a de elucidar e rastrear
gradualmente todos os possíveis dados da consciência, segundo as suas modalidades
e possíveis modificações de comportamento. Trata-se da construção de uma ciência
das essências, construção edificada ‘passo a passo’; uma ciência das essências...”
Pode soar paradoxal que pesquisadores alinhados a uma corrente
denominada fenomenologia se preocupem justamente com a essência, no
entanto, os fenomenólogos postulam que o modo típico do aparecer dos
fenômenos à consciência seja por meio das essências. Os teóricos desta linha
entendem as essências como os universais, os conceitos que tornam possíveis
a classificação, reconhecimento e distinção dos diferentes fatos particulares.
Por meio dos universais são reconhecidos os diferentes modos de se apresentar
dos fenômenos.Apesar de preconizar o retorno às coisas, ao se organizar desta
forma a fenomenologia acaba por afastar-se das coisas uma vez que coloca a
consciência como aquela que significa e dá sentido ao real.
De forma diversa, a dialética marxiana busca o significado do real
na atuação histórica, concreta e material das pessoas. É na história que os
115O método dialético e a análise do real
seres humanos engendram e significam o mundo ao seu redor. História aqui
entendida não como a sucessão dos fatos, mas como luta cotidiana dos homens
e mulheres para produzir suas condições materiais de existência na relação
com a natureza mediada pelo trabalho, bem como, o modo como os seres
humanos interpretam essas relações4
. Assim, não é a consciência a essência,
mas a relação com o meio concreto. A consciência, não é apenas organizadora
do meio, mas também ente que se organiza em função e em relação com o
material. Segundo Marx e Engels (2007 p.41): “de acordo com o já exposto,
é claro que a efetiva riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente da
riqueza de suas relações reais”. As formas de pensamento sejam elas reais ou
ilusórias refletem as relações efetivas entre os sujeitos. Tanto a linguagem
quanto o próprio pensamento são resultantes das condições históricas,
materiais em que se encontram as pessoas. Ao discutir estas questões Chasin
(apud RAGO FILHO 2010 p.2) explicita isto
Atividade ideal é atividade social. O pensamento tem caráter social porque sua
atualização é a atualização de um predicado do homem, cujo ser é, igualmente,
atividade social. Na universalidade ou na individualidade de cada modo de existência
teórica – cientista, pensador etc. – o pensamento é atividade social, inclusive pelos
materiais e instrumentos empregados. Em síntese, consciência, saber, pensamento
etc., sob qualquer tipo de formação ideal, das mais gerais às mais específicas, da mais
individualizada à mais genérica, dependem do ser da atividade sensível, socialmente
configurado, ao qual confirmam por sua atividade abstrata, igualmente social.
(CHASIN apud RAGO FILHO 2010 p.2)
O método dialético irá justamente buscar as relações concretas e efetivas
por trás dos fenômenos. Sobre esta posição marxiana escreveu Walhens
(apud Kosik 1976 p.17): “O marxismo é o esforço para ler, por trás da
pseudoimediaticidade do mundo econômico reificado as relações inter-
humanas que o edificaram e se dissimularam por trás de sua obra.”
O entendimento pleno destas relações inter-humanas está para além do
fenomênico, formando o que vem a ser a coisa em si, que apesar de distinta
do fenômeno se manifesta de forma mediata a ele. Marx (1986:620) expressa
o fato de que a essência é diferente do aparente em O Capital quando discute
o conceito de mais valor: “Todas as ciências, exceto a economia política,
reconhecem que as coisas apresentam frequentemente uma aparência oposta à
4	 Marx e Engels (2007 p.40) entendem a história da seguinte forma: “A história nada mais é do que o
suceder-se de gerações distintas, em que cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças
de produção a ela transmitidas pelas gerações anteriores; portanto por um lado ela continua a atividade
anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, modifica com uma atividade completamente
diferente as antigas condições...”
Luis Henrique Zago116
sua essência.” O fenômeno torna patente algo que não é ele mesmo, o que faz
com que sua razão de ser esteja em seu contrário. A sua função primordial é
indicar a essência, que se manifesta nele de modo parcial ou apenas sob certos
ângulos e aspectos5
. Os fenômenos são aspectos singulares historicamente
desenvolvidos, que manifestam uma das muitas possibilidades de ser da
essência. Assim, compreender o fenômeno é justamente atingir a essência da
coisa. Em oposição ao singular a essência é extraída da complexidade do real,
é o elemento comum de diversas entificações fenomênicas aquilatadas.
Temos de frisar que apesar de serem percebidos em momentos distintos
da ação humana fenômeno e essência estão intimamente ligados formando o
todo. O mundo fenomênico se constitui na concomitante relação de manifestar
e esconder a essência. Segundo Kosik (1976 p.12) “Captar o fenômeno de
determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta
naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde.”
Para se chegar à compreensão e conceituação da essência é imprescindível
um esforço que abstraia as coisas do campo prático. Inicialmente os objetos não
surgem como elementos a serem analisados e compreendidos teoricamente;
apresentam-se como campo para a atividade prático sensível, que resulta em
uma intuição prática da realidade, poder-se-ia afirmar cotidiana. Segundo
Kosik (1976 p.10):
No trato prático utilitário com as coisas – em que a realidade se revela como mundo
dos meios, fins, instrumentos, exigências e esforços para satisfazer a estas – o
individuo ‘em situação’ cria suas próprias representações das coisas e elabora todo
um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto fenomênico da realidade.
O processo rumo a uma compreensão que vá além do campo prático liga-
se a uma percuciente análise que envolve abstrações que atingem a essência
das coisas. O que significa que por meio deste processo é possível atingir
o concreto através da mediação do pensamento cientifico6
, ou seja, rompe-
5	 Tanto Marx (1985) quanto Hegel (2007) percebem que a essência não se manifesta imediatamente
tornando necessárias formas peculiares de conhecimento como a ciência e a filosofia. Ao discutir a
transformação do valor ou do preço da força de trabalho em salário Marx (1985 p.625) explicita isso: “À
forma aparente, ‘valor e preço do trabalho’ ou ‘salário’, em contraste com a relação essencial que ela
dissimula, o valor e o preço da força de trabalho, podemos aplicar o que é válido para todas as formas
aparentes e seu fundo oculto. As primeiras aparecem direta e espontaneamente como formas correntes
de pensamento; o segundo só é descoberto pela ciência.” Hegel (2007 p.41) ao esclarecer os objetivos
da Fenomenologia do Espírito vai na mesma direção de Marx: “O que esta Fenomenologia do Espírito
apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber, como é inicialmente – ou o espírito
imediato – é algo carente-de-espírito: a consciência sensível. Para tornar-se saber autêntico, ou produzir o
elemento da ciência que é seu conceito puro, o saber tem de se esfalfar através de um longo caminho.”
6	 O processo de mediação consiste justamente na pratica de reflexão. Sobre a mediação escreveu Hegel
(2007 p. 36): “Com efeito, a mediação não é outra coisa senão a igualdade-consigo-mesmo semovente,
117O método dialético e a análise do real
se com o cotidiano, com o senso comum, evita-se a simples apreensão das
manifestações mais aparentes da realidade e por meio da mediação constrói-se
o concreto pelo pensamento.
Atingir o concreto pelo pensamento, através da mediação, não significa
aderir ao idealismo. O método materialista histórico dialético postula que
apesar de o conhecimento ser construído pelo pensamento ele ainda assim é
social7
e, quando o processo é feito de forma correta, um reflexo da realidade.
Sobre isso escreve Vygotsky (apud Duarte 2000 p.88)
Este novo enfoque nos mostra que a realidade determina nossa experiência; que a
realidade determina o objeto da ciência e seu método e que é totalmente impossível
estudar os conceitos de qualquer ciência prescindindo das realidades representadas
por esses conceitos. F. Engels assinala repetidas vezes que para a lógica dialética a
metodologia da ciência é o reflexo da metodologia da realidade.
A abstração, que consiste na maneira de proceder do pensamento, é o
processo por meio do qual alguma coisa é destacada para ser objeto de
estudo ou pesquisa. Segundo Abbagnano (1962), o ato de abstrair envolve
dois elementos, o isolamento da coisa pré-escolhida das demais com que
ela se relaciona e a pesquisa propriamente dita do que foi separado. Por ser
apropriação ideal de objetos reais as abstrações imbricam-se as condições
históricas e sociais dos indivíduos que as executam, ou seja, a maneira como
se dá o posicionamento epistemológico que norteia as abstrações se relaciona
ao momento histórico e social em que se encontra o pesquisador. Há que se
considerar que toda pesquisa se liga aos problemas e necessidades surgidos no
próprio corpo social e que serão estudadas em conformidade com os modos
como a essência se apresenta a sociedade. Sobre isso escrevem Marx e Engels
(2007 p.93):
As representações que estes indivíduos produzem são representações, seja sobre sua
relação com a natureza, seja sobre suas relações entre si ou sobre sua própria condição
ou a reflexão sobre si mesmo, o momento do Eu para-si-essente, a negatividade pura ou reduzida à sua
pura abstração, o simples vir-a-ser. O Eu, ou o vir-a-ser em geral – esse mediatizar –, justamente por causa
de sua simplicidade, é a imediatez que vem-a-ser, e o imediato mesmo.”
7	 O social, o material é a base para toda a produção teórica. Evidentemente para que esta base seja
percebida e compreendida é imprescindível a mediação do pensamento o que pode levar a ilusão de
que o pensamente tem a primazia em relação ao material. Cumpre lembrar que o próprio pensamento
parte de uma base material e biológica que foi construída ao longo de uma história evolutiva que se fez
socialmente. Sobre a primazia do material escrevem Marx e Engels (2007 p.106): “A matéria é, um ser
atual, real, mas o é apenas em si, como algo oculto; apenas ela ‘se estende e se realiza ativamente na
multiplicidade’ (um ‘ser atual, real’ ‘se realiza’!!) é que ela se torna natureza. Existe, em primeiro lugar, o
conceito de matéria, o abstrato, a representação, e esta realiza a si mesma na natureza real. Temos aqui,
textualmente, a teoria hegeliana da preexistência das categorias criadoras.”
Luis Henrique Zago118
natural [Beschaffenheit]. É claro que, em todos esses casos, essas representações
são uma expressão consciente – real ou ilusória – de suas verdadeiras relações e
atividades, de sua produção, de seu intercâmbio, de sua organização social e política.
Apesar de as abstrações quando corretas reproduzirem parcialmente o
concreto por meio do pensamento elas não fundam o real e não são o concreto,
longe disto, é o pensamento que se constitui na relação com o concreto o
compreendendo de forma limitada.
A reprodução do concreto pelo pensamento envolve o esforço de síntese
das diversas determinações do real, ou seja, o concreto pensado é a unidade do
diverso8
. Neste sentido o concreto pensado se aproxima do conceito idealista,
porém o modo de alcançar e de entendê-lo é incomensuravelmente diferente
da proposta idealista. Enquanto para o idealismo o conceito é o elemento que
confere realidade às coisas, no materialismo histórico dialético, o concreto
pensado surge como resultado da relação com o real. Sobre isso escrevem
Marx e Engels (2007 p.94):
Totalmente ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui se eleva
da terra ao céu. Quer dizer, não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou
representam, tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a
partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos
e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos
reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida
Pelo que foi escrito acima se torna patente a divergência com o idealismo.
Hegel, possivelmente o maior dos idealistas contemporâneos, nega que abstrair
signifique retirar da realidade material elementos para serem conceituados.
Para ele, o real, o concreto são os conceitos, sendo a realidade material privada
de concreticidade. 	
Idealistassobrevalorizamoconceito,conferindoaeleaprimaziaemrelação
aos elementos materiais, por ser ele o ponto de partida para a representação do
real e por ser o elemento por meio do qual se organiza o mundo no pensamento.
Estas características engendram a ilusão de que o conceito confere realidade
às coisas. É necessário perceber que apesar de ser ponto de partida para a
compreensão do real o conceito estrutura-se a partir da realidade vivida pelos
homens e mulheres. Sobre isso escreve (Marx 2011 p.54):
“Por isso, Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que
sintetiza-se em si, aprofunda-se em si, e movimenta-se a partir de si mesmo, enquanto
8	 “O concreto é concreto por que é síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade”
(Marx 2011 p.54)
119O método dialético e a análise do real
o método de ascender do abstrato ao concreto é somente o modo do pensamento de
apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental. Mas de forma
alguma é o processo de gênese do próprio concreto.”
Assim para os idealistas são os conceitos a essência do real. Os filósofos
desta corrente de pensamento fazem uma inversão em relação ao materialismo
conferindo primazia ao conceito, por ser, segundo eles, a substância do real.
Por meio dos conceitos as pessoas organizam a realidade que as envolve.
Os conceitos relacionam-se a categoria de universalidade. Originalmente os
objetos surgem destituídos de sentido as pessoas. Inicialmente contempla-
se o mundo como um todo sem sentido. A categoria de universalidade
surge quando o multiverso inicial destituído de sentido se articula ganhando
significação. Segundo Ranieri (2002/2003 p.18): “precisamente ela [categoria
de universalidade] é a passagem do multiverso sem valor ao universo, o mundo
que se apresenta de forma generalizada, porém, organizada, com sentido.”
Esse universo é significativo a consciência humana por ser justamente produto
da consciência dotada de condições de generalizar e abstrair.
A categoria de universalidade organiza as coisas em elementos sintéticos
igualmente abstratos, decorrentes do processo de generalização, mas que
se desmembram formando unidades universais dos elementos singulares.
São por exemplo os conceitos universais de mesa, árvore, ser humano que
abarcam uma totalidade de seres singulares de determinado grupo que usamos
para organizar o nosso pensamento sobre as coisas. Estes conceitos formam
uma unidade sintética pré ideada dos elementos singulares, formam o uno, ou
seja, um conceito que envolve uma totalidade de singularidades diversas que
podem ser agrupadas sobre a mesma categoria. Em si mesma a singularidade
não é compreendida, a compreensão torna-se possível somente pela mediação
do uno, que ordena a capacidade de generalização do pensar.
Apesar de o uno surgir à consciência como substância a priori, como
pura construção ideal, na verdade não passa de representação decorrente de
generalizações que os homens e mulheres constroem no contato com entes
singulares. Segundo Ranieri (2002/2003 p.19):
(...) [o uno] enquanto tal, prescinde de base material imediata, pois se apresenta como
imagem que nutre o próprio pensamento – o singular se expressa na forma do objeto-
outro, aquele ser-para-nós que aparece de forma acabada, quando o pressuposto das
mediações não tem mais lugar. Ele é o próprio resultado do processo de mediação.
Finalmente, o universal absorvido valorativamente é decomposto em singularidades
concernentes a um processo único, e o conceito universal abstrato (singular) depara-
se com a universalidade do múltiplo.
Luis Henrique Zago120
O ente singular se nega enquanto concreto no conceito universal e
retorna a si mediado por este conceito onde alcança a sua compreensão. Cabe
a particularidade esclarecer este processo, ou seja, cabe a ela demonstrar as
relações entre o objeto concreto e o universal. Segundo Ranieri (2002/2003
p.19): “cabe a ela [particularidade] desvendar o terreno das mediações que
são circunscritas pelas esferas fenomênicas e indicar as formas conjugadas
dessas esferas com a realidade da essência”, ou seja, compreender de que
forma a complexidade social apresenta fenomenicamente a essência. Este
desvendamento é factível apenas pela identificação dos elementos concretos
que influem na estruturação do objeto.
A identificação dos elementos concretos pressupõe um caminho que
passa pela esfera de atividade humana, a posterior apreensão desta atividade
na relação sujeito objeto e, por fim, a reprodução conceitual do objeto. Este
caminho deve possibilitar que os diversos elementos que determinam a forma
de ser do objeto apareçam plenamente integrados as varias esferas possíveis
de existência. Evidentemente a atividade humana concreta detém a primazia
neste caminho, afinal é a partir do concreto que se estrutura o social e o teórico,
sobre isso escreve Lukács (apud Ranieri 2002/2003 p.20):
Quando um automóvel vem ao meu encontro numa encruzilhada posso vê-lo como
um fenômeno tecnológico, como um fenômeno sociológico, como um fenômeno
relativo à filosofia da cultura, etc.; no entanto, o automóvel real é uma realidade,
que poderá me atropelar ou não. O objeto sociológico ou cultural ‘automóvel’ é
produzido, antes de tudo, em um ângulo visual que depende dos movimentos reais
do automóvel e é a sua reprodução no pensamento. Mas o automóvel existente é, por
assim dizer, sempre primário em relação ao ponto de vista sociológico a seu respeito,
já que o automóvel andaria mesmo que eu não fizesse sociologia alguma sobre ele, ao
passo que nenhum automóvel será posto em movimento a partir de uma sociologia do
automóvel. Há, pois, uma prioridade da realidade do real, se assim se pode dizer; e,
segundo penso, devemos tentar voltar a estes fatos primitivos da vida e compreender
os fenômenos complexos partindo dos fenômenos originários.
Para Marx (2011), a percepção que integra as várias formas de ser dos
objetos torna imprescindível que se consiga distinguir o menos desenvolvido
do mais desenvolvido. Uma vez que a abstração que possibilita a integração,
deve partir preferencialmente da forma mais desenvolvida. O que não
significa que o menos desenvolvido é considerado como irreal ou menos
real, considera-se apenas que a sua razão de ser encontra-se na forma mais
avançada. Sobre isso escreveu Marx (2011p.58) ao abordar as formas de
entender o desenvolvimento econômico:
A sociedade burguesa é a mais desenvolvida e diversificada organização histórica de
produção. Por essa razão, as categorias que expressam suas relações e a compreensão
121O método dialético e a análise do real
de sua estrutura permitem simultaneamente compreender a organização e as relações
de produção de todas as formas de sociedade desaparecida, com cujos escombros
e elementos edificou-se, parte dos quais ainda carrega consigo como resíduos não
superados, parte [que] nela se desenvolvem de meros indícios em significações
plenas etc. A anatomia do ser humano é a chave para a anatomia do macaco.”
Aabstração, seja do mais desenvolvido ou não, deve realizar a analise dos
elementos a serem estudados. Segundo Marx (1985) apenas por meio de um
processo de análise correta dos elementos da realidade é possível compreender
o real de forma cientifica. Sobre a necessidade de analise promovida pela
abstração afirma o filósofo no prefacio da primeira edição de O Capital: “na
análise das formas econômicas, não se pode utilizar nem o microscópio nem
reagentes químicos.Acapacidade de abstração substitui estes meios.” (MARX
1985 p.4)
Cumpre destacar que a análise a qual nos referimos difere profundamente
da proposta por Descartes (1996) em seu método de abordagem correta
do real, no Discurso do método. A proposta cartesiana de análise além de
desconsiderar os aspectos históricos e sociais da realidade, não passa de um
fracionamento para a descrição do imediatamente visível nas inúmeras partes.
As inúmeras partes são fracionadas e posteriormente alinhavadas sem se
considerar que juntas elas são mais que a sua simples soma. Ao se articularem
formando uma totalidade, as partes individuais passam a deter características
que não possuiriam se permanecessem separadas.
A análise que propomos objetiva justamente o que está para além do
fenomênico, ou seja, a essência, sua natureza e sua origem, defendemos
que apenas assim teríamos uma descrição do todo que compõe o real, uma
descrição portanto cientifica. A atividade analítico-abstrativa deve desvelar
a relação entre o fenômeno e a essência, demonstrando que eles formam um
todo.
Uma descrição científica da realidade parte de uma visão do todo, sempre
presente no contato com o real como se afirmou anteriormente, mas ainda
nebulosa e imprecisa, ou seja, parte-se de um conceito vazio de significação
concreta. Desta representação conceitual vaga ruma-se para uma formulação
conceitual que deixe de ser caótica e passe a representar efetivamente a
realidade das coisas. Em uma elucidativa passagem Marx (2011 p.54) esclarece
este processo de construção do conhecimento:
Parece que o correto é começarmos pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo,
e, portanto, no caso da economia, por exemplo, pela população, que é o fundamento
e o sujeito do ato social de produção como um todo. Considerado de maneira mais
rigorosa, entretanto, isso se mostra falso. A população é uma abstração quando deixo
Luis Henrique Zago122
de fora, por exemplo, as classes das quais é constituída. Essas classes, por sua vez, são
uma palavra vazia se desconheço os elementos nos quais se baseiam. P.ex., trabalho
assalariado, capital, etc. Estes supõem troca, divisão do trabalho, preço, etc. O capital,
p.ex., não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço
etc. Por isso, se eu começasse pela população, esta seria uma representação caótica
do todo e, por meio de uma determinação mais precisa, chegaria analiticamente a
conceitos cada vez mais simples; do concreto representado [chegaria] a conceitos
abstratos [abstrakta] cada vez mais finos, até que tivesse chegado às determinações
mais simples. Daí teria de dar início à viagem de retorno até que finalmente chegasse
de novo à população, mas desta vez não como a representação caótica de um todo,
mas com uma rica totalidade de muitas determinações e relações.
O pensamento não possui a capacidade de abarcar corretamente o
concreto de forma imediata, se tomamos o conceito de população de forma
imediata ele não passa de uma abstração que esclarece muito pouco sobre
a realidade econômica por não corresponder a complexidade do real. Como
o termo população não consegue romper com uma representação caótica do
todo é necessário passar a análise, até atingir os conceitos mais simples.
Feita a análise é preciso reconstruir o objeto, faz-se o caminho inverso do
mais simples ao conceito que foi o ponto de partida, que ao ser atingido não
será mais representado como um todo caótico, mas como uma rica totalidade
de determinações. Por meio desse processo, o concreto é reproduzido pelo
pensamento.
Mesmo depois de superada a representação caótica do todo e alcançada
á totalidade como determinação de relações diversas, esta não é o real,
mas apenas o que o ser humano com suas limitadas capacidades consegue
apreender e formular sobre o real. A realidade é infinitamente mais complexa
do que a capacidade humana de descrevê-la e pensá-la. Sobre isso escreve
Marx (2011 p.55):
“O todo com um todo de pensamentos, tal como aparece na cabeça, é um produto da
cabeça pensante que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível (...). O
sujeito real, como antes, continua a existir em sua autonomia fora da cabeça; isso,
claro, enquanto a cabeça se comportar apenas especulativa, apenas teoricamente. Por
isso, também no método teórico o sujeito, a sociedade, tem de estar continuamente
presente como pressuposto da representação.”
Cumpre frisar que a impossibilidade de atingir a plenitude do real não
deve desmotivar o processo de busca pela totalidade. Afinal construir uma
representação do real que não seja caótica é incomensuravelmente melhor
para a ação do que restringir-se a uma interpretação confusa da realidade.
123O método dialético e a análise do real
Considerações finais
Ao evidenciar que são as relações estabelecidas por homens e mulheres
com o meio concreto que engendram o real a dialética torna exequível a
revolução do status quo, por possibilitar a compreensão de que o mundo é
sempreresultadodapráxishumana,sejaelamarcadaporrelaçõesdedominação
que reificam e fetichizam a prática social seja marcada por relações que
operam a humanização dos homens e mulheres. Ao romper com os fetiches,
ou seja, ao perceber que os objetos não devem sujeitá-los, homens e mulheres
avançam de encontro à reificação alçando-se a possibilidade de revolucionar
suas condições de existência. Assim o rompimento da psedoconcreticidade
ocorre no momento em que se evidencia que a realidade social se concretiza
por meio das condições de produção e reprodução da existência social das
pessoas que é em nossa sociedade marcada pela luta de classes. Sobre isso
escreve Kosik (1976 p.19):
“O mundo real não é, portanto, um mundo de objetos ‘reais’ fixados, que sob o
seu aspecto fetichizado levem uma existência transcendente como uma variante
naturalisticamente entendida das ideias platônicas; ao invés, é um mundo em que
as coisas, as relações e os significados são considerados como produtos do homem
social, e o próprio homem se revela como sujeito real do mundo social. (...) Ao
contrário do mundo da pseudoconcreticidade, o mundo da realidade é o mundo da
realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não
está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo
em que a verdade devém. Por esta razão a história humana pode ser o processo da
verdade e a história da verdade. A destruição da pseudoconcreticidade significa que a
verdade não é nem inatingível, nem alcançável de uma vez para sempre, mas que ela
se faz; logo, se desenvolve e se realiza.”
Todo esse processo de perda de referenciais, de estranhamento e sujeição
aos ditames traçados pelo mercado são vivenciados por homens e mulheres.
Eles vivem esta realidade em cada momento de suas vidas, sofrem com ela,
lutam nela, desanimam, adoecem, às vezes vencem, conquistam e sobrevivem.
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Apostila - SOCIAL 2

  • 1.
    SciELO Books /SciELO Livros / SciELO Libros GUARESCHI, P. O que é mesmo psicologia social? uma perspectiva crítica de sua história e seu estado hoje. In JACÓ-VILELA, AM., and SATO, L., orgs. Diálogos em psicologia social [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2012. p. 25-45. ISBN: 978-85-7982-060-1. Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this chapter, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste capítulo, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de este capítulo, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported. Psicologia social: o lugar da crítica, da memória e da afetividade Capítulo 2 - O que é mesmo psicologia social? uma perspectiva crítica de sua história e seu estado hoje Pedrinho Guareschi
  • 2.
    25 PSICOLOGIA SOCIAL: O LUGARDA CRÍTICA, DA MEMÓRIA E DA AFETIVIDADE CAPÍTULO 2 O QUE É MESMO PSICOLOGIA SOCIAL? UMA PERSPECTIVA CRÍTICA DE SUA HISTÓRIA E SEU ESTADO HOJE Pedrinho Guareschi Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Introdução o contexto de “diálogos” que a Associação Brasileira de Psicologia Social ABRAPSO está estabelecendo, pretendo, correndo certamente alguns riscos, trazer aos colegas que trabalham na área algumas reflexões que julgo, no meu entender, pertinentes e atuais. São inúmeras as contribuições que estão sendo trazidas à discussão dentro do amplo espectro da Psicologia Social. Penso não estar exagerando ao dizer que muitos estudiosos ou professores da área começam a trabalhar sofregamente nesse campo sem ter tido tempo de fazer uma reflexão crítica dos inúmeros enfoques nela presentes. Torna-se difícil, desse modo, estabelecer uma visão de conjunto e muito mais árduo ainda discernir as conexões existentes entre uma teoria e outra. Priorizam-se, muitas vezes, aspectos secundários e não se consegue montar um fio condutor que nos oriente e nos ilumine a caminhada. Nesse mundo das teorias, pretendo enfrentar aqui uma questão central, que é: qual o cerne, qual o âmago da Psicologia Social? Há muitos anos venho já lidando com essa disciplina. Vou confessar que as possíveis respostas que ia, aos poucos, encontrando no decorrer de minha experiência N
  • 3.
    26 acadêmica sobre oque seria a Psicologia Social não me satisfaziam plenamente. Seria fácil, até mesmo simplório, responder a essa pergunta dizendo que “são muitas psicologias sociais”. Mas essa não seria uma maneira de fugir da questão, talvez por medo de enfrentá-la? Afinal, se trabalhamos e pesquisamos dentro de uma determinada área, temos no mínimo a obrigação de buscar relativa clareza sobre as delimitações, nunca absolutamente precisas, do campo que investigamos. Por mais que defendamos uma transdisciplinaridade na compreensão dos fenômenos temos, no nosso caso, de ter relativa clareza sobre que dimensão, isto é, sob que “luz” nós nos propomos iluminar esse fenômeno, com outras palavras: como a Psicologia Social o enfoca? Não só por honestidade, mas também por obrigação, pretendo enfrentar essa questão. Arrisco então, essa reflexão cuidadosa e, enquanto possível, metódica e didática. Vou discutir duas questões: qual o campo da Psicologia Social e, avançando um pouco mais, perguntar sobre as diversas teorias que surgiram no desenvolvimento dessa Psicologia Social, e quais seus pressupostos e como elas tentaram dar conta do psicossocial? Na primeira, perguntamos e discutimos as origens e o que seria a Psicologia Social. Analisamos os pressupostos que se faziam presentes em seu início e como foi seu desenvolvimento e sua atribulada história. Na segunda, discutimos como a Psicologia Social foi se estruturando e quais os elementos centrais que foram se incorporando em sua constituição. Penso valer a pena enfrentar essa discussão. Ajudará a progredir em nossa ciência da Psicologia Social. É minha convicção que tal discussão ajudará a esclarecer muitos pontos e nos ajudará a avançar na discussão teórica de nossa disciplina. Concordo com Moscovici quando afirma que é tempo de parar com pesquisas pontuais e dar mais espaço à reflexão: poderíamos aventurar dar a sugestão de que é tempo de parar com a coleta de informações. Como diz Poincaré, um acúmulo de fatos não constitui uma ciência, assim como um monte de pedras não se torna
  • 4.
    27 uma casa. Temosas pedras, não temos a casa. É preciso parar e começar a pensar (MOSCOVICI, 2002, p.145). 1. Em busca de uma Psicologia Social: origens, contexto e trajetória Nessa primeira parte vou procurar responder às seguintes perguntas: − Como iniciou e foi se constituindo uma Psicologia Social? − Quais os pressupostos subjacentes ao início da Psicologia Social? − Como foi sua atribulada história? − Como diferentes enfoques foram se confrontando e se estruturando? Essa primeira parte discute Psicologia Social desde Wundt, em 1872, até a década de 1950, com sua consolidação hegemônica nos Estados Unidos. É fundamental, para se compreender a história da Psicologia Social e a própria Psicologia Social, que se tenha em mente dois “movimentos” ou dimensões, que estiveram presentes em sua origem e em seu desenvolvimento: a influência do materialismo cientificista; a influência do individualismo cartesiano. 1.1. O materialismo cientificista Se aceitarmos, como é relativamente pacífico, que a Psicologia começou com Wundt, temos de aceitar, consequentemente, que foi lá também que teria iniciado a Psicologia Social, pois ela historicamente foi considerada como um alongamento dessa psicologia. E, seguindo a mesma lógica, temos que aceitar que a Psicologia Social começou dentro do quadro amplo da modernidade com seus pressupostos metafísicos, epistemológicos e éticos; ética, aliás sempre negada, até que Bauman ao final do séc. XX, mostra com clareza que a modernidade tinha uma ética e qual era essa ética.
  • 5.
    28 Enfatizo essa questãoda ética, pois ela é extremamente importante no campo da Psicologia, já que lida fundamentalmente com seres humanos. Para a modernidade o mundo era um relógio, o que era preciso, então, era apenas descobrir quais as leis implícitas, subjacentes e ocultas que governavam esse relógio. O segundo passo, dado por Comte, Durkheim e outros sociólogos, foi mostrar que a sociedade também era um relógio com suas leis subjacentes; o social era uma “coisa” como qualquer outra, e a sociedade era um sistema fechado, governado por leis determinantes e determinadas. Wundt, para os que o aceitam como o fundador da psicologia, não fez nada mais que dar o terceiro passo dentro dos pressupostos da modernidade; se o mundo é um relógio a sociedade é um relógio, então o ser humano também é um relógio; vamos colocá-lo dentro de um laboratório e descobrir suas leis implícitas. O problema todo se resume em fazer experimentos para descobrir essas leis. E esses experimentos estão sendo feitos por muitos até hoje! É interessante, se não chocante, ver como foi exatamente isso que fez o Nazismo, conforme descreve muito bem Bauman ao analisar a ética da modernidade. Para ele, o Holocausto nazista nada mais foi que uma consequência coerente da modernidade. Quando os russos tomaram Auschwitz encontraram ainda nos barracões dos campos de concentração, ao redor de 80.000 pessoas, metade de sua capacidade total de 160.000. E dessas 80.000 a metade eram crianças, a maioria delas gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos etc. Mengele e sua equipe de 60 pesquisadores, especialistas e técnicos faziam com elas os experimentos estratégicos para poder encontrar “o homem ideal”, o homem que seria o protótipo para a nova raça nazista que iria governar o mundo por no mínimo, mil anos. Eles se dedicavam, com insano esforço, em descobrir as “regularidades”, as leis implícitas no “relógio” que é o ser humano. Tudo o que fosse dispensável ou o que já fosse constatado como descartável, comprovadamente não mais necessário à investigação, ia sendo dispensado como os ciganos, os judeus, os anões e os portadores de qualquer deficiência. É conhecida a comparação que Bauman faz ao descrever esses procedimentos “científicos”: o mundo
  • 6.
    29 deveria ser comoum jardim todo alinhado, organizado e limpo. Tudo o que fosse desordem, ervas daninhas, deveria ir para a fogueira. E a ética que governava esse empreendimento (aqui a questão) era a eficiência, o rigor científico, o funcionamento prático e útil. Exatamente o que o responsável pelas pesquisas realizadas com o jovem delinquente, narradas no filme “Laranja Mecânica”, respondeu a quem questionou as possíveis implicações éticas de seus experimentos: “Se funciona, é bom!” Na ética, o que é “bom” é o que funciona, as técnicas rigorosamente seguidas à risca; consequentemente, se não funciona é “ruim”. Um tipo de pragmatismo e o cientificismo de mãos dadas. Mas avancemos um pouco mais na discussão desse primeiro movimento. Devemos a Robert Farr (1998) e a seus 25 anos de pesquisa, ininterrupta e escrupulosa, o esclarecimento e a crítica mais aprimorada e metódica sobre as origens de nossa Psicologia Social. Principalmente em seu capítulo 2 (p.37–59), ele nos mostra como essa ideia parcial de ciência (experimental) tomou conta da psicologia como um todo, de tal modo que na sua expressão, para os experimentalistas, “a pele forma o limite de estudo” (FARR, 1998, p. 41). Essa concepção de psicologia como uma ciência experimental passou, automaticamente, para a Psicologia Social. A Psicologia “científica”, isto é, fisiológica e materialista se desenvolveu à base de experimentos, mas experimentos “fisiológicos”, materiais, biológicos, comportamentais, que não iam além da pele. A Psicologia Social, como a Psicologia tout court, passou a fazer parte das Naturwissenchaften. Como diz Farr (1998, p. 59), “a herança de Wundt foi uma psicologia experimental que não era social”. Mas, se a psicologia se tornou por primeiro uma ciência experimental na Alemanha, foi a Psicologia Social que se tornou depois uma ciência experimental nos Estados Unidos. Watson e seus seguidores fizeram uma cruzada sistemática com o objetivo de livrar a psicologia de toda referência à consciência, à mente ou ao self. Para eles, só valia o observável, o externo, o material. O próprio
  • 7.
    30 Watson afirmava quea introspecção deveria ser banida da psicologia. Para quem lê o Manifesto Behaviorista, coordenado por Watson, fica evidente essa “materialização” do psicológico, pressuposto do materialismo cientificista de que estamos falando. Eles podiam afirmar, então, com tranquilidade, baseados nesses pressupostos, que tinham enterrado o fantasma que atormentava Descartes, isto é, a questão do psíquico, da consciência. Ele, Descartes, para se livrar do psíquico (imaterial, simbólico, representacional) cindiu o ser humano ao meio: a ciência se ocuparia apenas do material, do biológico e a filosofia do imaterial. Mas acontece que não é por um ato voluntarista que se elimina uma realidade que durante séculos preocupa a humanidade. Por isso, o fantasma de Descartes continua a assombrar os estudos modernos. O behaviorismo, longe de enterrar esse fantasma, é apenas uma das faces desse dualismo cartesiano. Na herança cartesiana o psíquico, o self, pertence à filosofia mental. O self só poderia se tornar acessível através da introspecção. Mas isso, para os comportamentalistas não era ciência. Essa é a natureza do dualismo cartesiano que herdamos na psicologia. Quando ela se tornou,apenas, uma ciência do comportamento exterior , não avançou para além do dualismo cartesiano. Já para Mead, a mente é um fenômeno puramente natural, como veremos. Para Watson, ela é apenas um fenômeno sobrenatural. Jovchelovitch (2007) discute com clareza as consequências desse dualismo cartesiano e mostra que tal dualismo não se sustenta diante de uma crítica bem fundamentada. Tal concepção ainda bebe dos pressupostos do materialismo cientificista para quem o ser humano, a sociedade e o mundo são iguais e devem ser tratados, epistemologicamente falando, do mesmo modo. Como consequência, pode-se dizer que Watson reduziu a racionalidade humana à racionalidade dos ratos: sabemos agora muita coisa sobre as leis da aprendizagem que são comuns a ratos e a seres humanos. Mead comparou a psicologia de Watson à Rainha, em Alice no País das Maravilhas sem cabeça, sem nada acima da espinha dorsal. Para ele, Watson não tinha
  • 8.
    31 conseguido uma teoriada história natural da mente e da natureza especificamente autorreflexiva da inteligência humana. Vimos as diferenças entre Mead e Watson. Mas quais as diferenças entre Wundt e Mead e Wundt e Watson? Wundt separou sua psicologia fisiológica de sua Psicologia Social; Mead, contudo, inter-relacionou a ambas, através de sua teoria do ato. Para ele, o ato é o dado fundamental, tanto na Psicologia Social como na individual, e tem uma fase, um aspecto tanto interno como externo. A questão surge no modo como essas duas fases se relacionam. Mead critica Wundt por pressupor a mente (a fase interna) em sua psicologia fisiológica, e critica Watson por abandoná-la em seu behaviorismo ficando apenas com a fase externa, o comportamento. Para Mead, ambas as perspectivas são parciais: quando falamos, falamos a nós mesmos e aos outros. É por isso que a natureza autorreflexiva da inteligência humana está mais estreitamente ligada à fala do que à visão. Essa é a essência da Psicologia Social de Mead. Já a diferença entre Wundt e Watson é que Wundt era um pensador plural, não reducionista. Se ele começou a pesquisar a psicologia em laboratório, dentro dos pressupostos cientificistas da época, ele não reduziu a questão da psicologia apenas a esse espaço, mas ampliou-a acrescentando a dimensão filosófica e, principalmente, a dimensão social com os dez volumes sobre religião, mitos etc. Nota-se, assim, como a Psicologia Social “dançou” entre dois polos sem poder dar conta nem de um, nem de outro. Foi Mead quem enfrentou esse problema e inter-relacionou a ambos com a teoria do self. De fato, Mead inovou e o que tentamos fazer hoje não está distante do que fez Mead. Minha experiência mostra que muitos estudantes ao tomar contato com uma disciplina e suas diferentes teorias, onde sempre estão implícitos pressupostos metafísicos ou epistemológicos, não se dão conta de que nas diferentes origens ou tradições, dessa ciência, estavam presentes pressupostos, ou “eixos”, bem distintos. Um desses eixos é o “materialismo cientificista” que estamos discutindo aqui. Para ele, não existe nada além da
  • 9.
    32 matéria, do biológico.Destutt de Tracy, por exemplo, ao discutir a ideologia coloca-a no campo da zoologia. Por quê? Porque a zoologia trata dos animais; um desses animais é o ser humano; o ser humano possui cérebro; e as ideias são emanações desse cérebro. Ora, sendo a ideologia o estudo das ideias e estando elas no cérebro que é parte do homem que é um animal como qualquer outro… logo a ideologia deve ser classificada no campo da zoologia. Se nosso pressuposto é o materialismo cientificista, e não existe nada além do material e físico, vamos, consequentemente, tirar as conclusões lógicas disso. Na Alemanha, na época de Wundt, essa era a discussão, entre as Naturwissenchaften e as Geisteswissenchaften. Para os primeiros, a “ciência” se fundamentava nesse pressuposto ontológico e epistemológico do materialismo. E como derivação disso, a metodologia era quantitativa, tentando medir essa matéria: daí a importância do laboratório. Uma pergunta que ainda poderia ser feita: até que ponto esse pressuposto não está ainda presente na “mente” de muitos de nossos “cientistas”? Na França esse eixo passava pelo positivismo, que tinha como pressuposto que só existe “o que está aí”, e nada mais. Tudo o que não pudesse ser “apalpado”, medido, pesado, não tinha valor e não existia. O social, para eles, tinha o estatuto ontológico de “coisa”. Por insistência de uma mentalidade positivista, as ciências sociais tinham de tomar como modelo as ciências naturais. 1.2. O individualismo cartesiano Há outro pressuposto, contudo, tão ou mais importante que o pressuposto materialista da modernidade, que penetrou e ainda está fortemente presente na psicologia e, evidentemente, na Psicologia Social: é o pressuposto do individualismo. Essa dimensão nós a devemos buscar em Descartes. Interessante notar que na famosa afirmação de Descartes cogito, ergo sum (penso –eu–, logo existo), a Psicologia não foi buscar primeiramente o “racional”, a racionalidade instrumental implícita do termo “cogito”, mas fundamentalmente o fato de ela ser formulada tendo como sujeito a primeira pessoa do singular: penso, isto é, eu penso. E essa foi a segunda marca
  • 10.
    33 presente na PsicologiaSocial, quase que um paradoxo: como o social poderia se reduzir ao indivíduo? Procurando contextualizar essa visão dominante, constata-se que o individualismo tornou-se uma ideologia dominante dentro da cultura ocidental, principalmente dos EE.UU. Com suas raízes no humanismo renascentista, ele se reforçou com a Reforma Protestante e a invenção da imprensa, que propiciou a informação e o relacionamento com as pessoas sem sua presença física. Os que protestavam (protestantes) contra os consensos anteriores e não queriam se conformar com imposições políticas e religiosas dos príncipes, ou da Igreja, mudaram-se para os EE.UU., onde esse individualismo se enraizou e deu seus frutos. Essas são algumas das razões, entre muitas outras, que ajudam a compreender a importância do individualismo na cultura ocidental, principalmente dos Estados Unidos. Diversos pensadores do final do séc. XIX e início do séc. XX tinham-se defrontado com a questão do social, que eles denominaram, contudo, de “coletivo”. O próprio Wundt, como vimos, chegou a escrever dez volumes sobre o que ele chamou de Psicologia Social. Foi, contudo, solenemente ignorado. É importante constatar o seguinte: a variável individual/social foi, curiosamente, ligada à variável racional/irracional, outra dicotomia que afligia os pensadores do final do séc. XIX e início do séc. XX. E novamente entra aqui em jogo Descartes. Se fôssemos resumir esse complexo debate, com risco de reduzi-lo em sua importância, poderíamos dizer que a força do individualismo cartesiano venceu a batalha, e tudo o que fosse coletivo, “social”, ou mesmo cultural, passou a ser também irracional. Isso está claro em Le Bon, para quem todo coletivo era perigoso e devia ser evitado. Conotações negativas dessa “cultura” podem ser entrevistas nas obras de Freud, para quem a “civilização” devia ser mais aturada do que aceita. Moscovici (1961, 1985) discute essa questão da psicologia das massas e mostra como os psicólogos sociais acadêmicos se distanciaram desse campo
  • 11.
    34 por acharem queesses estudos eram mais “populares” que científicos, apontando também os perigos desse desinteresse. Ernest Gellner, um filósofo que discute a poderosa influência do individualismo cartesiano nas ciências, faz um forte comentário ao mostrar como tudo o que fosse social ou cultural devia ser rejeitado. E qual a razão? “Deve ser rejeitado porque é uma cultura. Sua origem social e comum é sua mácula fatal” (1992, p.18). Isso é o que Moscovici chama de “o escândalo do pensamento social” (2002, p.167). Morton Prince, professor de psiquiatria de Harvard, convidou em 1921 Floyd. H. Allport, jovem instrutor em Harvard, a colaborar como coeditor do Journal of Abnormal and Social Psychology. O título já nos dá uma indicação avaliativa do que se pensava do “social” e da “cultura” da parte de determinados segmentos acadêmicos: o social não andaria longe do anormal. Esses são alguns dos pressupostos que estão presentes na história e nas origens da Psicologia Social. Quando ela migrou e lançou fortes raízes no resto do mundo, principalmente nos EE.UU., se transferiu com esses dois pressupostos bem nítidos. E, pode-se até dizer que, em grande parte, eles influenciam ainda os dias de hoje. Sem uma compreensão mais nítida desses fatores, torna-se difícil discernir e criticar as diferentes visões existentes na contemporaneidade. Sintetizando essa primeira etapa, podemos dizer que, no desenvolvimento da Psicologia Social, as principais questões foram: − A psicologia surge como uma ciência experimental, dentro dos pressupostos das Naturwissenchaften. O próprio Wundt, contudo, fundador dessa psicologia experimental, criou também uma psicologia dentro das Geisteswissenchaften, a qual chamou de Psicologia Social, mas o problema de Wundt é que ele separou as duas;
  • 12.
    35 − No espíritoda época, nas pegadas de Descartes, a Psicologia Social que se estruturou, foi uma psicologia individualista, onde o social não passava de soma de individuais. − Há, contudo, tentativas de criação de uma Psicologia Social que desse conta do imaterial, psíquico, simbólico, representacional: − A primeira delas são os 10 volumes de Wundt de Psicologia Social e os estudos de Durkheim sobre representações coletivas. Se Wundt, por um lado, separou o social do individual, Durkheim, por sua vez, “corporificou”, “reificou” seu socia, suprimindo o individual. McDougall fez uma interessante tentativa de ligar o fisiológico (biológico) e o coletivo em seus estudos sobre a mente grupal vendo o instinto como base da vida em sociedade. Mas sua tentativa morreu na casca; era muito difícil poder vingar, em função do peso da mentalidade da época. − Uma segunda, e para mim muito importante, foi a de Mead com a teorização sobre o self. Ele construiu uma primeira síntese dialética entre o individual e o social, e entre o biológico e o psíquico: pensou o instinto como base da vida em sociedade, mas admitiu a realidade do simbólico (psíquico, mental): essa síntese seria o self. − Para Farr (1998, pg. 76), também Freud, ter-se-ia aproximado e tentado construir essa síntese com seus conceitos de “id, ego, superego”, que estariam entre sua primeira tópica do pré- consciente, consciente e inconsciente, por um lado, e de uma crítica psicanalítica da cultura e da sociedade, por outro. Muitos se surpreendem com essa afirmação de Farr. Não tenho posição formada sobre isso, mas é pelo menos, uma hipótese que mereceria uma discussão mais aprofundada.
  • 13.
    36 − Ao finaldo séc. XIX e início do séc. XX, para se poder dar conta do social, houve uma tentativa de criação de uma psicologia “coletiva”, das massas e da cultura. Tal psicologia, contudo, não foi à frente devido, é meu entender, ao fato de ter sido identificada como “irracional” e perigosa. − Quando a Psicologia foi “transportada” da Alemanha aos EE.UU., foi levada como uma psicologia fisiológica, nada além da pele (behaviorismo). Quando transpôs a barreira da pele tornou-se psíquica, imaterial, mental, mas permaneceu, contudo, absolutamente individual. Não conseguiu incorporar o social. − Dos EE.UU. ela passou a outros continentes como a América Latina e a Europa.Com respeito à Europa, foi montada uma espécie de “Plano Marshall acadêmico”, numa investida conquistadora de implantar a psicologia de viés americano. Tal investida sofreu, contudo, principalmente por parte de Moscovici (1972), na França, fortes reações. Ele começou a estranhar e a duvidar que sua tendência individualista pudesse dar verdadeiramente conta do “social”. É nesse contexto que começa a pesquisar e a pensar numa nova teoria, no caso, das Representações Sociais, que procurasse superar dicotomias, como entre o individual e o social, o externo e o interno, o estruturante e o estruturado, o processo e a estruturação e, ao mesmo tempo, pudesse dar conta também de novos contextos sociais. É o que veremos a seguir. 2. A estruturação da Psicologia Social: a incorporação de novos elementos (A Psicologia Social tomando corpo) Nessa segunda etapa de nossa caminhada, passo a discutir a Psicologia Social a partir da década de 1950, principalmente a partir de Serge Moscovici. Mostro como a Psicologia Social começou a questionar a si mesma
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    37 e como novasdimensões foram sendo incorporadas a ela, redimensionando sua compreensão e abrangência. Percorro os seguintes pontos: 2.1) O “ambiente” da Psicologia Social na década de 1950 2.2) O “social” da Psicologia Social 2.3) O “simbólico” da Psicologia Social 2.1. O “ambiente” da Psicologia Social na década de 1950 Ao final da década de 50 e inícios da década de 60, Moscovici começa a questionar a Psicologia Social existente na Europa, mostrando-se insatisfeito com o que lá existia e se fazia. Inicia fazendo uma avaliação geral da situação da Psicologia Social na Europa. Em seu trabalho de 1972, “Sociedade e Teoria em Psicologia Social”, ele confessa a terrível situação em que eles se encontravam na Europa com respeito à Psicologia Social: “Em frente de nós, atrás de nós e ao nosso redor, havia —e ainda há— ‘a Psicologia Social americana’” (2002, p. 111). E continua dizendo que, apesar do respeito que tinham por ela, sua aceitação estava se tornando progressivamente mais difícil, pois seus princípios “nos são estranhos, nossa experiência não condiz com a deles, nossa visão de homem, de realidade e de história é diferente” (p.112). E ele vai assim desfilando, exemplo atrás de exemplo, as características dessa “Psicologia Social da ingenuidade” que não dava conta do “social” e que excluía a contradição. O que faltava à Psicologia Social, segundo ele, eram as contribuições de Marx, Freud, Piaget, Durkheim: a questão das desigualdades, o fenômeno da linguagem, a força das ideias na construção da sociedade, a realidade social. Ela deveria ser uma ciência mais do movimento, do que da ordem. E ainda: a ciência é uma instituição social e, como tal, é um objeto de análise como qualquer outro, da mesma forma que os experimentos e seus sujeitos estão engajados na interação social, como todos os demais;... qual a finalidade da comunidade científica: apoiar a ordem, ou criticá-la e transformá-la?
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    38 Procurando dar umexemplo de como uma ciência pode se tornar reducionista e servir para fins ideológicos, Moscovici comenta como alguns economistas projetaram as normas e atitudes de uma sociedade capitalista, baseados nos processos de troca. Suas reconstruções “psicológicas” pertencem a este contexto; a ação humana é concebida como determinada pelos imperativos de uma economia de mercado e de lucro. E comenta: Mas há ainda mais que isto. Tudo o que é social é simplesmente excluído deste tipo de economia. Investimentos coletivos, gastos que não são canalizados através do mercado, ou da chamada economia externa, não estão incluídos nos seus dispositivos... os objetivos se tornam definidos dentro de uma perspectiva individualística, são considerados como ‘dados’ na natureza do Homem. Como resultado de tudo isto, esta versão da economia concebe uma imensa área da conduta humana como irracional, uma vez que, dentro de sua prática, tudo o que vai além do individualismo e tudo o que diverge um pouco de um modelo de capitalismo, entra, por definição, no domínio da irracionalidade (MOSCOVICI, 2002, p.125–126, grifos no original). Outro exemplo provocativo mostra preconceito contra o social, ou o grupo. Moscovici analisa como nos estudos de risco se descobriu que, quando em grupo, as pessoas tomam atitudes de maior risco do que quando sozinhas. A conclusão a que se chega é: logo, o grupo é “perigoso”. Mas o que se esquece de ver é que tais pessoas podem tomar atitudes mais arriscadas exatamente porque discutiram a questão, isto é, estabeleceram uma interação; e com base nessas discussões, arriscaram mais. As duas conclusões a que Moscovici chega, não diferem do que vimos na primeira parte desse trabalho: uma racionalidade que é puramente cartesiana, mecânica; e cálculos (práticas) que são puramente individuais, limitados às relações entre, no máximo, dois indivíduos. Os trabalhos e discussões que se faziam presentes nessa Psicologia Social podiam se resumir em dois enfoques principais. Um primeiro que dava ênfase ao objeto, o que interessava era o objeto, que podia ser diferenciado em diferentes tipos até mesmo em social e não social, mas o sujeito seria sempre igual, indiferenciado. Por
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    39 exemplo: na pesquisapsicossocial de influência sobre as pessoas, o que importa é a relevância dos objetos que podem causar estímulos diferentes nos sujeitos: importância das pessoas que falam, sua credibilidade etc. Um segundo enfoque dava ênfase ao sujeito, onde esse era classificado em inúmeros tipos diferenciados, mas o objeto não interessava era sempre o mesmo, indiferenciado. Nesse caso, em estudos sobre influência social não interessa quem fala, mas as características de quem recebe : se é sugestionável, crítico etc. É nesse ponto que, a nosso ver, a Psicologia Social dá um salto. Um novo tipo de “social” se faz presente na Psicologia Social. 2.2. O “social” da Psicologia Social Temos aqui um novo enfoque, que vem questionar teórica e epistemologicamente os dois anteriores: tudo tem a ver com tudo, não há nada “isolado”, indiferenciado: “uma relação triangular complexa, em que cada um dos termos é totalmente determinado pelos outros dois... o triângulo Sujeito–Outro–Objeto é crucial para essa discussão, pois é o único esquema capaz de explicar e sistematizar os processos de interação” (MOSCOVICI, 2002, p. 152–3). Duas décadas depois, Bauer e Gaskell (1999), a partir desse esquema, acrescentam a dimensão do tempo em que esses triângulos vão se sucedendo, formando o que eles chamam de “modelo do toblerone”: tempos dialéticos que se sucedem. Ao discutir a relação entre indivíduo e sociedade, Moscovici diz (2002, p.157): “a sociedade não é vista como um produto dos indivíduos, nem os indivíduos vistos como produtos da sociedade... o problema das relações entre ser humano e sociedade se relaciona intrinsecamente com ambos os termos do rapport”. Aprofundando essa afirmação de Moscovici, podemos mergulhar um pouco mais na discussão do social e dos diferentes tipos de social. Isso porque há vários sociais, e o conceito de “social” pode, também, produzir equívocos, necessitando de uma análise criteriosa. O exame das diferentes
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    40 teorias e autoresmostra que podem ser identificadas ao menos três concepções de social. Dentro de uma concepção individualista, cartesiana, onde o ser humano é entendido como um “indivíduo” (indivisum in se, sed divisum a quolibet alio), falando em termos bem precisos, não existe o social; o que existe é apenas o individual e o social, nessa visão, é uma soma de individuais. Tanto as pessoas, como os objetos, passam, consequentemente, a ser realidades discretas, separadas. Desse modo, somando-se diversos individuais, temos um grupo, que seria um amontoado de elementos, mas onde cada ser, indivíduo, mantém sua unidade e singularidade, sem se relacionar com os outros. Dentro dessa cosmovisão, há um entendimento específico do que seja “público”, ou “bem comum”: público é a soma de indivíduos; o “bem comum” passa a existir quando os diversos indivíduos, separadamente, estão bem. Foi por isso que Jeremy Bentham, junto com muitos teólogos do fim do séc. XIX argumentaram que, à medida que cada indivíduo competisse, procurasse seu próprio interesse e bem-estar, os problemas sociais automaticamente se resolveriam; não precisava o Estado intervir. O Estado, para um autêntico liberal, só tem sentido para defender os interesses particulares dos indivíduos. Assim também os outros serviços, como a segurança, a saúde, a educação. Tais realidades, para eles, são sociais apenas por estarem juntos. Na verdade são uma soma de realidades discretas. Já numa cosmovisão totalitária e coletivista, onde o ser humano é assumido como “uma peça da máquina”, ou “uma parte de um todo”, o social é a grande, única e principal realidade existente: dele deriva o sentido para tudo o mais. O social tem o mesmo status de realidade que “coisa”; ele é, une chose, como dizia Durkheim. O grupo e o coletivo, são a verdadeira e única realidade. Os elementos desse grupo (as pessoas) passam a ter importância a partir de sua pertença aos grupos. As pessoas são “peças” da máquina: o que vale é a máquina. Não importa a consciência individual: importa a consciência coletiva.
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    41 Na concepção queassumimos e defendemos aqui, em consonância com a afirmativa de Moscovici, acima citada, o social é entendido como uma relação, isto é, algo que não pode ser entendido sem outros; ele implica, em sua própria definição, outros. Possui, pode-se dizer, um direcionamento intrínseco, do próprio ser, em direção a outro(s) (relatio: ordo ad aliquid). É singular e, ao mesmo tempo, múltiplo. É esse o social que constitui o processo de mediação na complexidade entre o mundo interno e externo, entre o individual e o coletivo, entre o psíquico individual e a realidade psíquica social externa. Ele é o “entre” de todos esses processos. Esse conceito de social=relação é útil, do mesmo modo, para o entendimento do que sejam os grupos: eles se constituem a partir de relações; são as relações a matéria prima de um grupo (GUARESCHI, 2004). 2.3. O social “simbólico” da Psicologia Social Há outro aspecto importante que deve ser levado em consideração para se compreender com clareza e discernimento específico da Psicologia Social. É necessário discutir alguns equívocos que são muito frequentes ao se usar termos como “cognitivo” e “simbólico”. O comportamento simbólico foi, muitas vezes, confundido com os processos psicológicos gerais chamados de “cognitivos”. Com isso, mascara-se a distinção entre os dois termos. Quando os termos “afetivo”, “motor motivacional” são substituídos pelo termo “cognitivo”, o pressuposto subjacente é que não se fez mais do que passar de um nível a outro. O foco de análise permanece ainda no indivíduo, como uma unidade dentro do esquema clássico do estímulo–resposta. Bem diverso é o pressuposto ao se falar do “simbólico”. Os aspectos fundamentais do comportamento simbólico consistem de suas manifestações verbais e não verbais, que são compreendidas e se tornam “visíveis” somente em relação aos significados comuns que eles adquirem para os que recebem as mensagens e para aqueles que as emitem. Comportamento simbólico é fundamentado e torna-se possível pelas normas sociais e regras e por uma história comum que reflete o sistema de
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    42 conotações implícitas epontos de referência que, invariavelmente, se desenvolvem em todo ambiente social. Por isso, a Psicologia Social é uma ciência do comportamento somente se isso for entendido como significando que seu interesse consiste em um modo muito específico deste comportamento —o modo simbólico. É isso que distingue a Psicologia Social da Psicologia geral. A grande diferença é que o simbólico é sempre social; não existe simbólico individual. Psicologia Social trata do simbólico que é um psíquico social. Essa a Psicologia Social que foi tomando corpo a partir da década de 1950, trazendo novos elementos que, de um modo ou outro, foram ampliando seus primeiros passos. Várias teorias coexistem hoje. Seria importante um enfrentamento teórico entre essas teorias. Fica aqui um desafio para que isso se concretize. Há uma afirmativa de Durkheim (1912/1995, p.440) que pode servir como um desafio a nossas elucubrações: “Um homem que não pensa com conceitos não seria um homem, pois ele não seria um ser social. Restrito apenas a percepções individuais, ele não seria diferente de um animal”. Para Moscovici (2002, p.180), essa afirmativa traça uma fronteira clara entre a psicologia individual e a Psicologia Social. O papel da Psicologia Social seria, então, conseguir uma compreensão mais profunda dessas representações públicas e culturais. Concluindo Voltemos ao início de nossa conversa. A proposta era de enfrentar a Psicologia Social, perguntando-se pelo seu surgimento, sua atribulada história, sobre as teorias que tentaram dar conta desse campo híbrido entre o indivíduo e a sociedade. Fomos avançando, mostrando como os diferentes enfoques acrescentavam e, ao mesmo tempo, reduziam seu poder explicativo. Farr (1998) mostrou, em sua análise histórica já clássica, que “a individualização do social” tomou distintas correntes teóricas e configurou,
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    43 de maneira diferente,a Psicologia Social durante o séc. XX. Devido a ideias teóricas e/ou empíricas, desenvolvidas pelo comportamentalismo, positivismo, cognitivismo, a natureza social do ser humano foi mal entendida, ignorada, ou mesmo rejeitada. As pessoas foram tratadas como átomos, separados artificialmente de seus contextos sociais. Na esteira de Farr, sem querer fechar a reflexão, diria que a Psicologia Social, a meu ver, deveria se perguntar pelos possíveis reducionismos que, de um modo ou outro, foram se colocando em seu caminho, tais como: − O comportamentalismo, que só via, na Psicologia Social, o que chega até à pele, não passando daí sem poder dar conta do psíquico e principalmente do simbólico, sempre social; − O sociologismo ou um estruturalismo sistêmico, que materializava os fenômenos não permitindo que se visse sua historicidade e sua relatividade, excluindo, assim, o próprio ser humano de suas análises. Como dar conta do histórico, de que os fenômenos sociais são “construções simbólicas”? − Visões individualistas dos fenômenos, que não conseguem dar conta do “social”, chegando ao máximo à “soma de individuais”. O grande número de fenômenos, por um lado e a existência apenas de um outro, não são suficientes para garantir o “social”; a numerosidade pode quando muito construir um social que não passa da soma de individuais; e o simples fato de existir um “outro” de nada poderá servir se esse “outro” for também um indivíduo isolado e não existir uma relação intrínseca entre ambos; entre dois indivíduos pode existir uma relação que seja apenas extrínseca e ocasional. Como dar conta dos fenômenos “sociais” e imateriais, como os mitos, as religiões, as crenças, as representações sociais?
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    44 − O cognitivismoque esqueceu o “social” e que reduziu o ser humano a um computador mais aprimorado. Como pode ele dar conta do social, na produção do conhecimento? − Certo construcionismo, no qual, muitas vezes, não se vê como possa dar conta do fato de que os fenômenos implicam alguma constância e relativa institucionalização das práticas humanas, que possuem espessura e dureza (“thicken and harden” Jovchelovitch, 2007, p. 49), através de processos de transmissão e propiciam aos ambientes simbólicos sua dimensão de “tidos como indiscutíveis” (“taken for granted”) e seu caráter factual. Ficam essas considerações e questionamentos para aprofundarmos nossa reflexão sobre o que é mesmo uma psicologia social. É uma contribuição despretensiosa, que poderá ser muito bem aprofundada por algum colega interessado na questão. Referências bibliográficas BAUER, M. e GASKELL, G. Towards a paradigm for research on social representations. Journal for the Theory of Social Behavior, 29(2), p. 163–186, 1999. BAUMAN, Z. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 1989. DURKHEIM, E. The Elementary Forms of Religious Life. Nova Iorque: Free Press, 1995. ______. Individual and collective representations. Em: DURKHEIM, E. Sociology and Philosophy. Nova Iorque: Free Press, 1974. FARR, R. As raízes da Psicologia Social moderna. Petrópolis: Vozes, 1998. GUARESCHI, P. Psicologia Social Crítica como prática de libertação. Porto Alegre: Edicpurs, 2004. JOVCHELOVITCH, S. Knowledge in Context representation, community and culture. Londres: Routledge, 2007.
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    45 MOSCOVICI, S. L’Agedes Foules: um traité historique de psychologie des masses. Paris: Fayard, 1981. ______. The Age of the Crowd: a historical treatise on mass psychology. 1985. ______. La Psychanalyse, son image et son public. Paris: PUF, 1961/1976. ______. Society and Theory in Social Psychology, em: ISRAEL, J. e TAJFEL, H. The Context of Social Psychology. Londres: Academic Press, 1972. ______. Representações Sociais Investigações em Psicologia Social. Petrópolis: Vozes, 2002.
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    6)o i-á -W-0*-& f/U â l ■' á J ^ U y y v jÇ jO editora unesp Os paradigmas da ciência e suas influências na constituição do sujeito: a intersubjetividade na construção conhecimento Renata Rodrigues de Araujo SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros CAMARGO, MRRM., org., SANTOS, VCC, collab. Leitura e escrita como espaços autobiográficos deformação [online], São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. 140 p. ISBN 978-85-7983-126-3. Available from SciELO Books <http.7/books.scielo.org>. All the contents of this work, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShaieAUke 3.0 Uuported. Todo o conteúdo deste trabalho, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de esta obra, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-Compartirlgual 3.0 Unported.
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    O S PARADIGMASDA CIÊNCIA E SUAS INFLUÊNCIAS NA CONSTITUIÇÃO DO s u j e it o : a in t e r s u b j e t iv id a d e n a CONSTRUÇÃO CONHECIM ENTO Renata Rodrigues de Araújo1 6 Introdução Tendo em vista a possibilidade de contribuir com uma publi­ cação que se aproximasse de uma perspectiva autobiográfica, ao elaborar este artigo, volto, de certa forma, a ouvir e repensar naque­ las vozes que nortearam meus pensamentos em tomo da questão da constituição de sujeitos. De um lado, as vozes daquelas mu­ lheres que muito gentilmente contribuíram para a realização da minha pesquisa e, de outro, as sábias palavras da minha professora orientadora, que me proporcionaram o encontro com as ideias de Bakhtin, Vygotsky e Morin, entre outros. Minhas reflexões iniciais, então, ao conceber este artigo, reca­ íram sobre o que os sujeitos envolvidos em minha pesquisa2de­ ram-me a ver. Hoje, como professora do Ensino Fundamental e do 1 Possui mestrado em Educação pela Unesp (2006). Atualmente é docente da Faculdade Padre João Bagozzi, professora de Metodologia Científica na Faculdade Studium Teologicum e professora do Ensino Fundamental na rede pública municipal de Curitiba. 2 Pesquisa de mestrado intitulada: Sobre noções de constituição do sujeito: mulhe­ resalfabetizandas têm a palavra, defendida em março de 2006, sob aorientação da professora Maria Rosa R. M. Camargo
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    92 MARIA R.R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VIVIAN C. C. DOS SANTOS (COLAB.) Ensino Superior, estou convencida de que não há outra maneira de repensar a constituição desses sujeitos, situados no tempo e no es­ paço, por outra via que não a dos paradigmas epistemológicos que norteiam a prática docente, objeto de preocupação das disciplinas que ministro, Pesquisa em Educação e Metodologia Científica. O retomo do olhar sobre algumas questões, com as quais mc preocupei por ocasião do mestrado, e a possibilidade de fazê-lo, com base em minha experiência como professora, remetem-me à seguinte indagação: que paradigma epistemológico da ciência daria conta de conceber uma relação, mediada pela linguagem, entre os conhecimentos científicos e os conhecimentos que aquelas mulhe­ res, sujeitos da pesquisa, demonstravam na resolução de problemas cotidianos e que, ao fazê-lo, me davam subsídios para pensar sobre noções de sujeito? Recordando as empolgantes atividades desenvolvidas pelo Pro­ jeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA)’ e percebendo as interações que ali se realizavam, por um lado, educandos, bolsistas e pesquisadora e por outro, bolsistas, pesquisadora e orientadora, proponho-me o prazeroso trabalho de aprofundar a reflexão de tais questões. Sendo assim, tentarei uma reaproximação com o tema da pes­ quisa, lançando um olhar paia as mudanças dos paradigmas da ciência e o papel da linguagem na mediação desse processo. Para tanto, inicio minha reflexão percorrendo o caminho histórico das mudanças paradigmáticas da ciência. A evolução dos paradigmas epistemológicos Sabemos que a sociedade de hoje é fruto de históricas transfor­ mações vividas pelos paradigmas da ciência. Assim como a história da humanidade, aciência também é um processo dinâmico e inaca-3 3 Projeto de Educação de Jovens e Adultos (PEJA), coordenado por Maria Rosa R. M. Camargo.
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 93 bado, que promove constantes mudanças de valores, crenças, con­ ceitos e ideias. Neste sentido, é notória a dificuldade de se acom­ panhar tal processo. O que seria da sociedade hoje se a ciência não tivesse passado por tantas transformações? Se a forma como conce­ bemos a verdade ainda estivesse calcada nas origens sobrenaturais, religiosas, ou até mesmo na descrição matemática dos fenômenos? Como perceberíamos nossa constituição no contato com o outro? Como explicaríamos nossas incertezas, inseguranças e angústias frente às imprevisibilidades da vida contemporânea? A palavra paradigma, segundo Vasconcelos (2002), tem sua origem do grego parádeima, que significa modelo ou padrão. Assim sendo, o homem lê o mundo conforme seus paradigmas e consegue, com essa "lente”, distinguir o certo e o errado, ou ainda, saber o que é cientificamente aceito ou não pela comunidade. Os paradigmas sempre orientaram nossas escolhas, nossos olhares. A ciência é uma das formas, não a única, do conhecimento pro­ duzido pelo homem no decorrer de sua história, sendo, portanto, determinada pelas condições materiais do homem. Nas sociedades mais remotas, a ciência caracteriza-se por ser a tentativa do homem compreender e explicar racionalmente a natureza. Esta forma de compreender e explicar é que muda de tempos em tempos. O primeiro paradigma da ciência é marcado por um período ca­ racterizado pelos mitos, cujas explicações dos fenômenos naturais eram atribuídos ao divino, aos deuses, e a verdade era uma revela­ ção divina incontestável. Segundo Cardoso (1995), nesse momento, o homem acreditou ser "capaz de explicar e organizar a natureza, a vida social e o mundo psíquico, tendo como bases paradigmáticas a existência de dois mundos: o mundo real e outro sobrenatural. Posteriormente, esse paradigma deu lugar a outro pensamento que marcou os séculos VIII a VI a.C. na Grécia Antiga, denomi­ nado de Era da Teoria do Conhecimento Clássico. Nesse período acreditava-se que natureza tem uma ordem, uma causa e um efeito e tudo podia ser explicado como parte dela, pois a verdade está nela contida. A verdade, portanto, se daria pelo uso da razão. Desta forma, a ciência caracteriza-se pela abordagem racional, discur-
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    94 MARIA R.R. M. DE CAMARGO (ORG ) •VIVIAN C. C DOS SANTOS (COLAB.) siva e demonstrativa. Nesta perspectiva, o sujeito desaparece por completo, na medida em que a razão elimina o mundo sensível e o mundo das percepções, desconsidera as circunstâncias e o contexto. Com o surgimento da Teoria do Conhecimento, do século I ao século XIII, na Idade Média, o homem é concebido como criatura de Deus e se define na relação como absoluto. A verdade se dá pela fé, pelas Escrituras Sagradas. Essa visão Teocêntrica é substituída no momento seguinte pela visão Antropocêntrica. Com as ideias de Copérnico e Galileu acon­ tece a revolução científica em que, segundo Capra (1982), a ciência enfrenta a Igreja em um dogma de mais de mil anos. Sua maior con­ tribuição assenta-se na premissa de que o homem e a Terra não eram o centro do Universo e que aTerra era quem girava em volta do Sol. Acaba, portanto, com a visão de que o homem é o centro absolu­ to do Universo e dá origem a uma abordagem empírica de ciência. Abordagem esta calcada nos princípios positivistas, em que só é verdade o que pode ser observado, mensurado, quantificado, con­ trolado e reproduzido. Visão caracterizada pela descrição matemá­ tica dos fenômenos. A subjetividade era considerada como projeção mental. O universo material e os seres vivos são reduzidos à visão de uma máquina com funcionamento e engrenagens perfeitas, sendo governado por leis matemáticas exatas, de acordo com Capra (1996). Essa concepção linear e mecanicista do Universo, proposta por René Descartes e Isaac Newton, passa a se edificar na lógica ra- cionalista, negando a lógica do sagrado e a subjetividade. Nesse modelo de ciência, segundo Capra (1996), o homem é o senhor do mundo, pois se dá o direito de transformar, explorar, servir-se e escravizar a natureza. Somente no final do século XVIII e início do século XIX é que se buscou, com o apoio da psicologia, compreender a personalidade e inteligência humanas, dando origem à teoria comportamental. Com essa abertura, a sociologia também tenta explicar o com­ portamento social do homem, a partir da proposta de Augusto Comte, na qual o conhecimento está fundamentado no objeto e não no sujeito. Desta forma, as verdades devem ser fornecidas pela ex-
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 95 periência e por fontes seguras e fidedignas, e devem ser, portanto, objetivas, impessoais e neutras. A crença na objetividade concebe uma versão única do conheci­ mento (universo) e lança um olhar objetivo do fenômeno tal com ele se apresenta na realidade. Para tanto, o cientista deve observar os fenômenos de maneira isenta, com uma visão abrangente e obje­ tiva, não se envolvendo com sua subjetividade, ocultando suas opi­ niões. A separação entre o conhecedor e o objeto de conhecimento permitiria a constituição de uma subjetividade reduzida ao uso da razão, tomando o cientista o fiador de todas as certezas. Este paradigma levou à supervalorização da razão e consequen­ temente, à fragmentação do conhecimento. Esta fragmentação atin­ giu a educação de tal forma que até hoje não conseguimos superar essa visão. Qualquer tentativa de superação enfrenta dificuldades imensas frente à departamentalização das instituições educacio­ nais, a divisão dos conhecimentos em áreas, disciplinas e cursos, produzindo assim, os especialistas, os detentores do saber. Saber este que só é válido se institucionalizado. O paradigma tradicional na educação Por influência do modelo newtoniano-cartesiano, as práticas pedagógicas docentes ainda consideram o sujeito que aprende, o aluno, como aquele ser desprovido de luz, e a tarefa do professor resume-se em transmitir o conhecimento. A pedagogia tradicional, tão bem denominada por Paulo Freire como educação bancária, desconsidera o aluno como sujeito e passa a considerá-lo como um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer forma de expressão. Ele é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando sua fala, impedido de expressar suas ideias. A ação docente ocupa-se ainda em desenvolvei' mecanismos que levem o aluno a reproduzir o conhecimento historicamente acu­ mulado e repassado como verdade absoluta. A fragmentação dos conhecimentos, expressa nos currículos lineares, leva o professor
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    96 MARIA R.R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VIVIAN C C. DOS SANTOS (COLAB.) a ocupar o centro do processo de ensino e aprendizagem, ou seja, ela é o detentor do saber, o dono da verdade absoluta e, portanto, inquestionável. O aluno, por conseguinte, acaba sendo premiado por seguir as regras, impostas pelo professor e pela “boa conduta’’. Ao mesmo tempo, ao desobedecer às regras, é reprimido e punido pelos “erros” e, em alguns casos, com esta visão austera, o docente chega a torturar o aluno de maneira física ou psicológica: O que eu lembro é que tinha palmatória. Eu lembro que che­ guei a ficar de castigo. A professora me colocou de joelho em cima do milho, né? Eu acho que eu fiquei de castigo umas duas vezes no mês. [...] Eu acho que é por isso que eu não fui mais pra escola, porque nos primeiros dias que eu fui eu sofri muito nas mãos da­ quela professora. Ela era terrível e é piorisso que eu não voltei mais. [...] Eu vi aquela régua grande, redonda e não fui mais, fiquei com medo. (entrevista com Francisca em 17nov. 2004) A fala de Francisca expressa uma concepção de educação abso­ lutamente pautada no modelo tradicional que não nos cabe mais reproduzir. Hoje, o sujeito e tudo que ele traz consigo, também devem ser assumidos como critérios de validade científica. Não obstante, alunos e professores, dentro deste padrão, passa­ ram a ser vistos como máquinas ou como partes de uma engrena­ gem. Concepção caracterizada pela desumanização da educação. O reducionismo e a linearidade do processo educativo provocaram a p>erda da sensibilidade, da estética, dos sentimentos e valores que norteiam a construção do conhecimento em função da supervalori- zação do uso da razão. Gerou, portanto, uma concepição de vida em sociedade pautada na competitividade, isolamento, individualismo e materialismo exacerbado. Também ruíram os alicerces religiosos que davam sustentação aos valores, repercutindo num modelo de vida e de ciência materia­ lista, determinista, destruidora, cheia de certezas, que ignora o diá­ logo e as interações que existem entre os indivíduos, entre ciência e sociedade, técnica e pxdítica. (Moraes, p.43)
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 97 A humanidade mergulhou num processo de fragmentação, de automatização e desvinculação, alienando-se da natureza, do traba­ lho e de si mesmo, deixando o conhecimento, a cultura e os valores divididos, fragmentados. Contudo, não podemos negar que esse mesmo modelo de pen­ samento foi a grande mola propulsora do desenvolvimento cien­ tífico-tecnológico da humanidade. Apesar de muito questionado, principalmente no âmbito da educação, o pensamento cartesiano ou visão tradicional - possibilitou grandes saltos evolutivos na his­ tória das civilizações. Neste sentido, permitiu a democratização dos conhecimentos científicos, seja pelas técnicas de construção de conhecimentos novos ou pelo surgimento do espírito investigativo, cuja objetividade proporcionou a validação científica e pública do conhecimento. No entanto, há uma concepção de ciência que não se encerra no conhecimento, mas, se estende à constituição do sujeito, que o paradigma tradicional não deu conta de compreender, ou ainda, não se preocupou em considerar, um sujeito sócio-histórico do conhecimento. Isto posto, cabe indagar novamente: que paradigma epistemológico da ciência conceberia esta relação sujeito-objeto e conhecimento? Pelas limitações do modelo tradicional de ciência, que marca grande parte do século XIX e início do século XX, desencadearam- se muitos conflitos que colocaram em xeque os padrões de cienti- ficidade e a produção do conhecimento. Algumas explicações da realidade, a partir destes conflitos, nos parecem mais palatáveis, cujas reflexões tentarei expor no item seguinte. O sujeito, o objeto e o conhecimento: que paradigma? Muitos educadores e pesquisadores já perceberam que, além dos conhecimentos e seus critérios de validade, há de se considerar nesta relação o sujeito e o objeto como elementos indispensáveis no
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    98 MARIA R.R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VMAN C. C DOS SANTOS (COLAB.) processo de construção do conhecimento. Nasce com essa percep­ ção uma nova visão de educação, múltipla, contextuai, ligada às condições históricas concretas do homem. Na produção do conhecimento, o homem não se isenta do pro­ cesso representando alguma coisa externa, algo da realidade lá fora, tampouco traduz os objetos exteriores sem qualquer significação subjetiva. A construção do conhecimento pressupõe a objetivação resultante das características, das convenções e das práticas linguís­ ticas que tornam possíveis as operações de pensar. Passamos então a pensar em outro paradigma, que alguns auto­ res vão chamar de paradigma emergente ou da complexidade. Esta forma de pensar considera o sujeito um ser complexo e integral, ainda que ele não se mostre por inteiro. Segundo Zabala (2002), esta depende do avanço do paradigma da ciência que impulsiona a revisão do processo fragmentado do conhecimento na busca de reintegração do todo. O sujeito, quando imerso em um mundo cheio de incertezas, contradições, conflitos, desejos e desafios só pode ser concebido, visto com a lente da teoria da complexidade: Porque se não partimos da organização biológica, da dimensão cognitiva, da computação, do computo, do princípio de exclusão, do princípio da identidade, etc., não chegaremos a enraizar o con­ ceito de sujeito de maneira empírica, lógica como fenômeno. (Mo- rin, p.55) A realidade complexa depende da reforma do pensamento, de modo que ele se torne multidimensional, contextualizado e mul- tidisciplinar. E necessário, portanto, renunciar ao posicionamento estanque e reducionista da relação do sujeito com o universo, acei­ tando o questionamento intermitente dos problemas e possibilida­ des de resolução. Buscar-se, nesta perspectiva, ou neste paradigma, uma transformação na maneira de pensar, de se relacionar e de agir para investigar e integrar novas percepções. O conhecimento, neste sentido, é concebido como mudança de percepção. E esta percepção não muda só no espaço consagrado da escola:
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 99 Eu parei de estudar porque não tinha mais condições de con­ tinuar, não tinha a 5*série e meu pai não ia deixar a gente sair pra estudar longe de casa. [...] Tudo que eu sei, eu posso dizer que eu aprendi lá, naquela escola. [...] E gosto até hoje de matemática, mas é umacoisaque sevocênão prática, vocêacabaesquecendo, né? Mas eu acho quejá estou melhorando, por ser tesoureira da cooperativa, mexo muito com conta, porque eu estou sempre precisandocalcular alguma coisa. Estou relembrando muita coisa que estava esquecen­ do, esse ponto que eu acho tão importante, que é a matemática, eu estava ficandoesquecidajá. Pra mim está sendo muito bom. É como se fosse uma escola mesmo. Eu estou aqui na cooperativa como se estivesseestudando, porque a gente não está recebendo, né? Então é como seestivesse numa escola, eu aprendo muitas coisas. E também assim, aprender a parte financeira, isso pra mim está sendo muito bom, cada dia eu estou aprendendo uma coisa a mais. Então é como se eu estivesse na escola, porque eu estou aprendendo muito aqui, muitas coisas que eu não sabia. E uma coisa que eu vou poder levar comigo, (entrevista com Erautina, em 25 nov. 2004) E possível entender o relato acima recorrendo às palavras de Capra (1996), quando diz que: "Há redes aninhadas dentro de outras redes”. Neste sentido, o mundo é concebido como uma rede de relações envolvendo conexões, interconexões, movimento, flu­ xo de energia, inter-relações em constante processo de mudança e transformação. Portanto, o pensamento complexo, dinâmico e processual acompanha a noção de rede, que tem sido a chave para os recentes avanços científicos. Buscar a perspectiva do sujeito que vive nesta rede é uma pos­ sibilidade de compreender as mudanças paradigmáticas e chegar a uma proximidade maior ao paradigma emergente. Para tanto é necessário refletir sobre o processo que permite a efetivação desta rede de relações, o processo linguístico. Isso nos leva a uma aproximação com as ideias de Bakhtin, quando este nos diz que o homem só existe se inserido nas condi­ ções socioeconômicas objetivas, como um membro de um grupo
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    social, de umaclasse. O fato de ele simplesmente nascer (fisiolo- gicamente) não garante seu ingresso na história, ele precisa nascer novamente, isto é, nascer socialmente. Assim, é por meio dessa ligação social e histórica, mediada pela linguagem, que se define o conteúdo da ligação histórica do homem à vida. Na constituição da consciência, Bakhtin considera como ele­ mento central da vida mental a linguagem, enfatizando o discurso interior. Ele destaca o valor da palavra na interação entre os indiví­ duos. Consciência e pensamento para ele são tecidos com palavras e ideias que se lançam na interação com o outro. Nesse sentido, o eu só existe a partir do diálogo com os outros eus. Ele depende dos outros eus para definir-se e ser autor de si mesmo: Acontecem muitas coisas boas porque cada dia eu aprendo uma coisa nova. Hoje é muito diferente daquela época, eu adoro ir pra escola. Eu já fiz muitas amizades na escola. As minhas professoras são maravilhosas, graças a Deus.[...]Eu não tive estudo, também não tive infância porque a gente só tem infância quando a gente tem escola, tem estudo. É na escola que a gente faz amizade, você conhece muita gente e se você não vai pra escola, você não conhece ninguém. Se você só fica em casa, não vai pra escola, não faz amiza­ des. Fica sozinho, (entrevista com Francisca em 17 nov. 2004) 1 0 0 MARIA R. R. M. DE CAMARGO (ORG.) •VMAN C. C DOS SANTOS (COLAB.) Do sujeito: capacidade interacional e a linguagem O sistema da maior importância dentre todos os signos é a lin­ guagem humana. A língua, do ponto de vista bakhtiniano, é um fenômeno histórico e não pode, de forma alguma, ser estudada fora do contexto social, sem suas vinculações sociais. Para Bakhtin (1988), a língua tem sua vida e evolução histórica na comunicação verbal concreta. Só há compreensão da língua dentro da sua qualidade contex­ tuai: No contexto real da sua enunciação é que acontece a concreti-
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 1 0 1 zação da palavra. O sentido da palavra é determinado pelo seu con­ texto. Como existem infinitos contextos, existem também infinitos significados de uma palavra. A língua enquanto meio vivo e concreto onde vive a consciên­ cia do artista da palavra, nunca é única. Ela é única somente como sistema gramatical abstrato de formas normativas, abstraída das percepções ideológicas concretas que a preenche e da contínua evo­ lução histórica da linguagem viva. A vida social e a evolução histó­ ricacriam, nos limitesde uma língua nacional abstratamente única, uma pluralidade de mundos concretos, de perspectivas literárias ideológicas e sociais, fechadas... (Bakhtin, 1993, p.96) A dinâmica da língua acompanha a dinâmica da vida social. A vida social determina, dentro das possibilidades da língua, a emer­ gência de vários mundos e esses mundos são organizados na e pela linguagem. Para Bakhtin (1992), a linguagem é condição primeira para o desenvolvimento da consciência, seja ela verbal ou não verbal e constitui uma complexa e intrincada rede de relações sociais. A linguagem, para Vygotsky (2001), tem a finalidade de promo­ ver a relação do homem consigo mesmo e com o outro. Bakhtin (1992) e Vygotsky (2001) concordam que o discurso constitui a consciência a partir do diálogo e, portanto, da construção conjunta das significações. Essa construção só é possível na inter- locução com o outro, interlocução que pressupõe complexidade e construção de novos conhecimentos. Encontro marcado pela lin­ guagem na interação de sujeitos, objeto e conhecimento. Considerações finais O homem, como ser social, constrói significado para sua exis­ tência a partir de suas experiências com o mundo, estabelecen­ do assim, a relação do EU com o TU. Relação esta carregada de
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    1 0 2MARIA R. R. M DE CAMARGO (ORG ) •VIVIAN C C. DOS SANTOS (COLAB.) complexidade e ideologias. O conhecimento, neste sentido, requer processos de construção e reconstrução de saberes mediante a ação do sujeito sobre o ambiente e pela relação intersubjetiva mediada pela linguagem. O resgate da relação sujeito - objeto - conhecimento implica numa visão paradigmática da complexidade, resultando em proces­ sos educativos pautados em princípios da solidariedade e coopera­ ção humanas. Não obstante, é necessário pensar em práticas pedagógicas que considerem a diversidade de fenômenos da natureza e o ser humano em suas multidimensionalidades, isto é, um ser dotado de múltiplas inteligências e diferentes formas de aprender. Considerar, sobre­ tudo, não apenas o conhecimento dito científico, mas também os que não obtiveram o “certificado de validade”, conferido por ins­ tituições científicas e que, nem por isso, deixam de existir e ou de serem utilizados para a resolução de problemas cotidianos, tal como são empregados pelas mulheres, sujeitos da pesquisa, para quem a escola não é apenas um lugar destinado ao saber elaborado, mas re­ presenta também um importante espaço de interação social, onde o eu encontra-se com o tu, numa relação constitutiva do sujeito. Ape­ sar de aquelas mulheres terem dito, no início do ano, não saberem nada, no decorrer do período fui percebendo que elas conseguiam resolver os problemas matemáticos propostos pelos colaboradores do PEJA e pela pesquisadora e, além disso, escreviam e liam o tem­ po todo. Apresentavam sim, algumas, várias, significativas dificul­ dades, mas, dizer que não sabiam nada é ignorar a riqueza de trocas que aconteceram ao longo do projeto Além de acompanharem, a seu modo, a maior parte dos conteú­ dos abordados em sala de aula, elas traziam sugestões para as aulas subsequentes, o que demonstra certos conhecimentos de sua parte. Acredito que, também eu, apesar do olhar lançado ao outro, tenha me constituído sujeito, como aquelas mulheres, pois, na inte­ ração com aquele grupo social, lancei minha palavra, voltei a minha própria condição e pensei, pensei muito sobre minha construção, também como sujeito da pesquisa e a do meu “ser” pesquisadora naquele espaço.
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    LEITURA E ESCRITACOMO ESPAÇOS AUTOBIOGRÁFICOS DE FORMAÇÃO 103 Todas as reflexões propiciadas pela pesquisa permitiram-me concluir que a escola deve pensar no conhecimento trazido pelos sujeitos e levar o que lhe é próprio, o científico, não para se sobrepor ao primeiro, mas, proporcionar o encontro de ambos na construção de um novo saber. Para tanto, é necessário incorporar um paradig­ ma científico que envolva, com subsídio de um sistema Linguístico, o sujeito - objeto - conhecimento numa relação intersubjetiva na produção de novos significados. Referências bibliográficas ARAÚJO. R. R. Sobre noções de constituição do sujeito: mulheres alfabeti- zandastêm apalavra. 2006.132p. Dissertação(Mestradoem Educação) - Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, 2006. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1988. ______ Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins fontes, 1992. ______ Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tradução de Aurora F. Bernadini, José P. Júnior, Augusto G. Júnior et al. São Paulo: Hucitec, 1993. CAPRA, F. O ponto de mutação. SãoPaulo: Cultrix, 1982. _______A teia da vida: umanovacompreensãocientíficadossistemasvivos. SãoPaulo: Cultrix, 1996. CARDOSO, C. A canção da inteireza: uma visão holística da educação. São Paulo: Summus, 1995. MORAES, M. C. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997. MORIN, E. A Noção de sujeito. In: SCHNITMAN, D. F. (Org.). Novos Paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996, p.45-58. VASCONCELLOS, M. J. E. Pensamento sistêmico: novo paradigma da ciência Campinas: Papirus, 2002. VYGOTSKY, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. SãoPaulo: Martins Fontes, 2001. ZABALA, A. Enfoque globalizador e pensamento complexo: uma proposta para o currículo escolar. Porto Alegre: Artmed, 2002.
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    T t vt a -1 A evolução dosparadigmas tia educação. dopetisametUo científico tradiciotial à complexidade A EVOLUÇÃO DOS PARADIGMAS NA EDUCAÇÃO: DO PENSAMENTO CIENTIFICO TRADICIONALA COMPLEXIDADE The Evolution o fthe Paradigms in the Education: Ofthe Traditional Scientific Thought To the Complexity Matilda Aparecida Behrens’ Anadir Luiza Thomé Oliari2 Resumo Oartigo trata da investigação sobre os paradigmas da ciência que caracterizam o conhecimento e, por consequência, a prática docente e profissional. Apresenta a evolução do pensamento científico ao longo da história da humanidade, em especial no que se refere aos paradigmas da ciência e de sua influência na Educação. Contempla a reflexão sobre as mudanças paradigmáticas na evolução da ciência do pensamento cartesiano ao pensamento complexo. A partir desta evolução histórica, propõe a caracterização dos pressupostas do paradigma tradicional e da complexidade e suas implicações no contexto da educação. Palavras-chave: Evolução do pensamento científico; Paradigma tradicional; Paradigma da complexidade; Educação. 1 Mestre e doutora em Educação- PUCSP. Diretora e professora do Programa de Pós-graduação em Educação da PUCPR. e-mail: marilda.aparecida@pucpr.br 2 Mestre em Educação - PUCPK. Psicóloga e psicoterapeuta de família, casal e individual. Professora e supervisora no ISBl/Londrina. e-mail: wanadir@terra.com.br Diálogo Educ., Curitiba, V. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 53
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    M arilda AparecidaBehrens, A nadir Luiza Thomé Oliari Abstract The article isabout the investigation or. the science paradigms that characterize the knowledge and, consequently, the academic and professional practice. It presents the evolution of the scientific thought along the history of humanity, specially, in what refers to the science paradigms and its influence on education. It contemplates the reflection about the paradigmatic changes on the evolution of the science from the Cartesian thought to the complex thought. Since this historical evolution it proposes the characterization of the presupposed matters of the traditional paradigm and the complexity and its implications on the context of education. Keywords:Evolutionofthescientificthought; Traditional paradigm; Paradigm of complexity; Education. Introdução A sociedade na qual se vive é fruto de um longo processo histórico influenciado pelas mudanças paradigm áticas da ciência. Para m elhor contextualizar o tema, optou-se por conceituar o que vem a ser paradigma, bem como apresentar as diferentes abordagens paradigmáticas da ciência juntamente com os pressupostos e os fatores que contribuíram para o seu surgimento. A busca pelo significado de paradigma permite apontar a trajetória do desenvolvimento das ciências e do pensamento científico. E, neste processo, assinalar as mudanças paradigmáticas que ocorreram nas diferentes eras da história da hum anidade. A presentam -se, tam bém , os p ressupostos epistemológicos que caracterizaram o paradigma tradicional e da complexidade, com algumas de suas implicações no contexto educacional. A evolução do pensamento científico A evolução histórica mostra que os paradigmas científicos vão se modificando constantemente no universo. Segundo Assmann (1998), não há paradigma permanente, pois eles são historicamente mutáveis, relativos e naturalmente seletivos. A evolução da humanidade é continua e dinâmica, assim modificam-se os valores, as crenças, os conceitos e as idéias acerca da realidade. Essas mudanças paradigmáticas estão diretamente relacionadas ao olhar e à vivência do observador. Os paradigmas são necessários, pois fornecem um referencial que possibilita a organização da sociedade, em especial da comunidade científica quando propõe continuamente novos modelos para entender a realidade. For outro lado, pode limitar nossa visão de mundo, 54 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
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    A evolução dasparadigmas tia educação do pensamento científico tradicional à complexidade quando os homens e mulheres resistem ao processo de mudança e insistem em se manter no paradigma conservador. A aceitação ou resistência a um paradigma reflete diretamente na abordagem teórica e prática da atuação dos profissionais em todas às áreas de conhecimento. A palavra paradigma tem sua origem do grego parádeima que significa modelo ou padrão (VASCONCELLOS, 2002). O ser humano constrói seus paradigmas e olha o mundo por meio deles, pois eles funcionam como os "óculos” com que se efetua a leitura da realidade. Essa leitura paradigmática possibilita o discernimento entre o "certo” e o “errado” ou do que é aceito ou não pela comunidade científica e pela população em geral. O termo paradigma aparece com distinção na década de setenta, por meio da obra de Thomas Kuhn, intitulada A estruturas das revoluções científica, na qual propõe: "Considero ‘paradigm as’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN, 2001, p. 13). Em outro momento, refere-se ao conjunto de crenças e valores subjacentes à prática científica. Segundo o autor, quando os fenômenos não se encaixam dentro deste padrão ou modelo, ocorrem as anomalias, gerando crise na ciência, condições para as revoluções científicas. Decorrentes do sinal de maturidade científica surgem as novas descobertas que podem gerar o surgimento de um novo paradigma (KUHN, 2001). Essa mesma idéia foi reforçada por Cardoso (1995), quando afirma que a crise paradigmática provoca mal-estar na comunidade científica, mas, por outro lado, faz emergir para alguns cientistas a consciência do momento oportuno para uma profunda renovação de suas concepções. A mudança de paradigma é um processo difícil, lento e a adesão ao novo modelo não pode ser forçada, pois implica na mudança e até na ruptura de idéias, conceitos e antigos valores. Segundo Morin (2000, p. 25), o processo de mudança provoca o colapso de toda uma estrutura de idéias, pois "O paradigma efetua a seleção e a determinação da conceptualização e das operações lógicas. Designa as categorias fundamentais da inteligibilidade e opera o controle de seu emprego” c, acrescenta "Assim, os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo paradigmas inscritos culturalmente neles”. Caminhada histórica dosparadigmas da ciência e seus reflexos no conhecimento As mudanças de paradigmas ocorrem de tempos em tempos e acompanham a linha histórica da humanidade. Para melhor compreender estas Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 55
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    Marüda Aparecida Behrens,Auadir íuxza Tbomé Oliari mudanças, optou-se por apresentar as diferentes visões históricas do conhecimento e sua influência na ciência e na educação. Na Pré-história, todos os fenômenos da natureza eram atribuídos aos deuses, logo, a verdade era sobrenatural, revelada por inspiração divina. O acesso à verdade era desencadeado por meio de ritos ordenados por alguns poucos iniciados. A população e eles mesmos acreditavam que tinham o poder de contato com os deuses. Este período caracteriza-se pelos mitos, o que acaba se refletindo na proposição do conhecimento. Segundo Vasconcellos (2002), o mito ou “mythos”é uma forma de conhecimento inspirada pelos deuses, sem preocupação de colocá-lo à prova. É nesta era que a humanidade constrói seu primeiro paradigma da ciência, no qual acredita ser capaz de explicar e organizar a natureza, a vida social e o mundo psíquico, tendo como bases paradigmáticas à existência de dois mundos: o mundo real e outro sobrenatural (CARDOSO, 1995). Nos séculos VIII a VI a.C, na Grécia Antiga, aparece a Era da Teoria do Conhecimento Clássico. Nesta concepção, a natureza tem uma ordem, uma causa e um efeito e tudo se explica como parte da natureza, pois a verdade está nela contida. Neste sentido, a busca de verdade se dá pela razão. A descoberta da razão, do logos, decorre do reconhecimento pelos gregos de que a razão, a alma racional, pode ser usada como instrumento de conhecimento do mundo, das coisas, da natureza (CAPRA, 1996; MORIN, 1997; 2002; VASCONCELLOS, 2002). Neste período, o conhecim ento científico caracteriza-se pela abordagem racional, discursiva e demonstrativa. O objeto é focalizado a partir da visão de racionalidade. Institui-se com isso uma forma de conhecer o mundo, uma forma aceita como correta e aceitável e que só pode ser valida se puder ser comprovada. As conseqüências da adoção desta racionalidade focalizam- se no sacrifício do sujeito, na exclusão do subjetivo, na submissão à razão, no expurgo do sensível e na negação do mundo sensível e das percepções. Neste sentido, busca entender a natureza apenas em sua essência, sem olhar as circunstâncias e o contexto. Na Idade Média, do Século I ao século XIII, surge a Teoria do Conhecimento, na qual a verdade está posta: há um criador que é Deus, o Sumo Bem. O homem é entendido como criatura de Deus. Ele se define na relação com o absoluto. A verdade se acessa pela fé, em especial, na crença a partir das Escrituras Sagradas. A verdade da razão era a verdade da fé. A igreja tinha o monopólio da cultura. Nesse sentido, cabe a contribuição de Lara (1991, p. 25), que acrescenta: ‘Reconheciam os medievais que a razão humana pode descobrir muita coisa, pois pode pesquisar, raciocinar, inventar. Mas existem verdades supremas que a razão não chega a conhecer, pensavam eles. Essas Deus revelou. Estão na Bíblia”, e acrescenta: “A Igreja conhece essas 56 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
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    A evolução dosparadigmastia educação do pensametilo científico tradicional à complexidade verdades, as prega, as conserva [...] pois a cultura da Idade Média era teocêntica, isto é, tinha Deus no centro, como valor supremo”. Logo, o conhecimento é visto como graça e iluminação divina. A racionalidade do pensam ento é aceita, mas acima dele está a fé. Consequentemente, a igreja domina e tem o monopólio da cultura. Neste período, ocorreram poucas inovações científicas, pois os cientistas sofriam muita repressão por parte da igreja. A religião era o valor fundamental onde Deus cristão é o centro, nascendo o Teocentismo (LARA, 1991; MORAES, 1997). Do século Xin ao XV, surge o Renascimento, período que se caracteriza pela recusa em aceitar a focalização no mito (Pré-história), na razão (Grécia Antiga) e na fé (Idade Média) como fontes de conhecimento. O homem precisava ser liberto e “pegar nas suas próprias mãos” o processo do conhecimento. A visão Teocêntrica tende a ser superada pela visão Antropocêntrica. Assim, a nova cultura focaliza-se no homem, que se acredita o senhor do cosmo e da natureza. No período do antropocentrismo, o homem é visto como criador, ante a natureza, e celebra sua liberdade com uma visão de individualidade. Neste período, surgem Copémico e Galileu, dois grandes cientistas que passam a ser muito relevantes na evolução da ciência. Segundo Capra (1982), com Nicolau Copémico (1473-1543), começou a revolução científica, ™ que a ciência enfrenta a Igreja e um dogma de mais de mil anos. Sua maior contribuição assenta-se na premissa de que o homem e a Terra não eram o centro do Universo e que a Terra era quem girava em volta do Sol. Esta descoberta retira o homem de sua posição orgulhosa de centro absoluto da criação de Deus. A contribuição de Galileu (1564-1642) confirma a teoria de Copémico e apresenta dois aspectos que insistem em perdurar até este século, ou seja, a abordagem empírica da ciência e o uso de uma descrição matemática da natureza. Para tanto, a ciência deveria se restringir aos estudos de propriedades que poderiam ser medidas e quantificadas. Os aspectos como o som, a cor, o sabor, o cheiro deveriam ser considerados como mera projeção mental ou qualidades secundárias e estariam, portanto, fora da esfera científica. A intenção de controlar a natureza é retomada mais tarde por Isaac Newton (CAPRA, 1982; MORAES, 1997). Com a Idade Moderna, em especial com a proposta de Descartes, nasce o período em que o conhecimento passa a ser aceito a partir da certeza absoluta e inquestionável. Assim, na Idade Moderna, o fundamento último do conhecimento é garantido pela certeza e pela objetividade. Na visão de Vasconcellos (2002), ocorre uma revolução na história do pensamento científico, pois se cria um novo padrão de racionalidade centrado na matemática, na qual a natureza é objetivada e reduzida a partes mensuráreis e observáveis. As leis que governam este período são as da linguagem dos números e da medição. Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 57
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    Matilda Aparecida Behrens,Anadir Luiza Thomé Oliari No século XVII, Bacon argumenta que a fonte do conhecimento está nos fatos, estes eonvalidam ?. razão e devem ser cuidadosamente observados e minuciosamente descritos. O bem-estar do homem depende do controle obtido por ele sobre a natureza e para conhecê-la precisa entrar em contato com ela no acontecer dos fatos por meio de um método - o método indutivo (ANDERY et al., 1999). No mesmo sentido, Descartes, considerado ‘'Pai do Racionalismo Moderno”, “afirma que nem a fé, nem a tradição, nem mesmo o conhecimento sensível, aquele que os sentimentos nos fornecem, são dignos de crédito absoluto. Resta, por isso, só a razão”(LARA, 1991, p. 36). O paradigma cartesiano prega a crença na legitimidade dos fatos que são perfeitamente conhecidos e sobre os quais não se têm dúvidas, devendo-se para isso dividir e estudar a menor parte, partindo destas para o entendimento do todo. Propõe com isso o método analítico por meio da indução e dedução embasado na lógica e na matemática. O ponto central do pensamento tradicional cartesiano é a concepção de que os fenômenos podem ser analisados e compreendidos se forem reduzidos às partes que os constituem. Ao conhecer uma parte de um sistema, o pesquisador chegará ao conhecimento de seu funcionamento. Assim, separa- se o corpo da mente, privilegiando sempre a mente como sendo superior aos aspectos do corpo. O universo material e os seres vivos são reduzidos a visão de uma máquina com funcionamento e engrenagens perfeitas, sendo governado por leis matemáticas exatas (CAPRA, 1996). Neste contexto, o período new toniano-cartesiano tem com o pressuposto básico a fragmentação e a visão dualista do universo. Com este paradigma, aparecem as múltiplas fragmentações: a visão de mundo material e o espiritual; do corpo e da mente; da filosofia e da ciência; do objetivo e subjetivo; da ciência e da fé, entre outras. Na Ciência Moderna, a concepção linear e mecanidsta do universo, propostas por René Descartes e Isaac Newton, passa a se edificar na lógica racionalista que nega o sagrado e a subjetividade (VASCONCELLOS, 2002). Nesse modelo de ciência, o homem é o senhor do mundo, pois se dá o direito de transformar, explorar, servir-se e escravizar a natureza (CAPRA, 1996). Esta idéia é reforçada e complementada por Moraes (1997), quando argumenta que a descrição reducionista representou certo perigo a partir do momento em que o método analítico foi interpretado como a explicação mais completa e a única abordagem válida do conhecimento, especialmente ao valorizar os aspectos externos das experiências e ignorar as vivências internas do indivíduo. Na segunda fase da Modernidade, final do século XVIII até o início do século XIX, por meio de testes quantificadores matemáticos, busca-se a 58 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
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    A evolução dosparadigmas tia educação dopensamento científico tradicional à complexidade compreensão da pessoa e de sua personalidade e inteligência. Neste período, a Psicologia ioma-se ciência, separando-se da Filosofia, e assim emergem várias teorias psicológicas, dentre elas, destaca-se a Teoria Comportamental. Todas com a tentativa de explicação do comportamento humano no enquadro da simplificação de “causa e efeito”. A Sociologia, a partir da proposta de Augusto Comte, tenta explicar o comportamento social por meio da corrente positivista do universo, na qual o conhecimento está fundamentado no objeto e não no sujeito. As afirmações aceitas pela lógica positivista devem ser objetivas, impessoais e neutras. Os resultados da pesquisa restringem-se aos dados fornecidos pela experiência e pelas observações confiáveis e fidedignas. A racionalidade no meio científico positivo envolve afirmações que devem ser impessoais, pois desmerecem qualquer posicionamento pessoal e de juízos de valor. À luz da proposta de Vasconcellos (2002), o paradigma tradicional, conservador e reducionista focaliza as crenças que podem ser subdividas em três âmbitos: da simplicidade, da estabilidade e da objetividade. A crença na simplicidade propõe a separação da menor parte para ser analisada e classificada a fim de se entender o todo complexo e buscar a relação causa e efeito. Têm- se, assim, relações causais e lineares. A crença na estabilidade propõe que o mundo é invariável, determinado e reversível. Assim, se pode conhecer, prever e controlar os fenômenos. Busca-se explicação por meio de experimentação e/ou verificação empírica com resultados quantificáveis. A crença na objetividade busca atingir a versão única do conhecimento (uni-verso) e propõe o conhecimento objetivo do fenômeno tal com ele se apresenta na realidade. Restringe a produção do conhecimento a partir da comprovação, gerando conceitos aceitos como verdadeiros e absolutos. Para tanto, o cientista deve observar os fenômenos de maneira isenta, com uma visão abrangente e objetiva, não se envolvendo com sua subjetividade ou com suas próprias opiniões. A influência do paradigma tradicionalna educação O paradigm a tradicional ou new toniano-cartesiano levou a fragmentação do conhecimento e a supervalorização da visão racional. Nesse sentido, propôs a primazia da razão sobre a emoção, especialmente, para atender a coerência lógica nas teorias e a eliminação da imprecisão, da ambiguidade e da contradição dos discursos científicos. A fragmentação atingiu as Ciências e, por conseqüência, a Educação, dividindo o conhecimento em áreas, cursos e disciplinas. As instituições, em especial as educacionais, passaram a ser organizadas em departamentos Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 59
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    Matilda Aparecida Behrens.,Anadir Luiza Thomé Otiari estanques, no qual emergem os especialistas, considerados pela sociedade como os detentores do saber. Neste processo reducionista, criam-se as especialidades em uma única área do conhecimento. A visão tradicional newtoniana-cartesiana da ciência atingiu a educação, a escola e a prática pedagógica do professor. Assim, segundo Behrens (2005), o aluno passou a ser mero espectador, exigindo dele a cópia, a memorização e a reprodução dos conteúdos. No paradigma conservador, a experiência do aluno não conta e dificilmente são proporcionadas atividades que envolvam a criação. A prática pedagógica tradicional leva o aluno a caracterizar-se como um ser subserviente, obediente e destituído de qualquer forma de expressão. O aluno é reduzido ao espaço de sua carteira, silenciando sua fala, impedido de expressar suas idéias. A ação docente concentra-se em criar mecanismos que levem a reproduzir o conhecimento historicamente acumulado e repassado como verdade absoluta. Nos cunículos lineares e reducionistas, divididos em diversas matérias, o professor assume a função de transmitir o conhecimento e considera-se como “dono do saber”. O ensino focaliza mais o resultado ou o produto e com esta visão o aluno é recompensado por seguir com fidedignidade o modelo. O aluno acaba sendo premiado por seguir as regras impostas pelo professor e pela “boa conduta”. Ao mesmo tempo, ao desobedecer às regras, é reprimido e punido pelos “erros” e, em alguns casos, com esta visão austera, o docente chega a torturar o aluno de maneira física ou psicológica. O paradigma tradicional traz consigo vantagens e desvantagens. De acordo com Moraes (1997), Capra (1996), Behrens (2003; 2006), a visão tradicional ou cartesiana do mundo, apesar de ser questionada, possibilitou o desenvolvimento científico-tecnológico atual e possibilitou grandes saltos evolutivos na história das civilizações. Neste contexto, permitiu a democratização dos conhecimentos, seja pelas técnicas extremamente eficazes para a construção de novos conhecimentos ou pela presença de um espírito científico de investigação aberta. O pensamento dotado de clareza, de organização e de objetividade propiciou a validação científica e pública do conhecimento. Por outro lado, constata-se um período de perda do processo de humanização, pois os alunos e os professores passaram a ser vistos como máquinas ou como partes de uma engrenagem. Nesta caminhada histórica, reducionista e linear, perdeu-se em termos de sensibilidade, estética, sentimentos e valores, especialmente, em função da supervalorização dada pela mensuração, quantificação e comprovação dos fenômenos. Gerou-se uma concepção de vida em sociedade pautada na competitividade, no isolamento, no individualismo e no materialismo desenfreado. A crença no progresso material a ser alcançado pelo crescimento econômico e tecnológico como fim em si mesmo não considerou as conseqüêndas para a sociedade, a natureza e o próprio ser humano. 60 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
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    A evolução dosparadigmas na educação dopensamento científico tradicional à complexidade Também ruíram os alicerces religiosos que davam sustentação aos valores, repercutindo num modelo de vida e de ciência materialista, determinista, destruidora, cheia de certezas, que ignora o diálogo e as interações que existem entre os indivíduos, entre ciência e sociedade, técnica e política.” (MORAES, 1997, p. 43). Conseqüentemente, a humanidade submergiu a um processo de fragmentação, de atomização e desvinculação, alienando-se da natureza, do trabalho e de si mesmo, ficando a cultura dividida, os valores mais individualizados e os estilos de vida mais patológicos. Pelas limitações desse m odelo científico, na Terceira Fase da Modernidade, que compreende o século XIX e grande parte do século XX - começam surgir os desconfortos e os conflitos na utilização dos padrões de cientificidade e de produção de conhecim ento. Aparecem cientistas e pensadores que explicam de modo mais satisfatório os fenômenos e as situações da realidade, exigindo para tal um novo modelo de cientificidade. Oparadigma da complexidade O paradigma tradicional começa a ser questionado no início do século XX e acelera a ruptura com ênfase nas anas últimas décadas. De modo particular, quando a visão de considerar científico o que se enquadrasse dentro do modelo linear de causa-efeito proposto pela Física mostrou-se insuficiente para lidar com as contradições insuperáveis, a desordem e a incerteza por ela mesma detectadas. Essa ruptura entre o mundo moderno e o contemporâneo caracteriza o final de uma história e o começo de outra (MORAES, 1997). O surgimento do paradigma emergente ou da complexidade tem como foco a visão do ser complexo e integral. A proposta da nova visão depende do avanço do paradigma da ciência que impulsiona a revisão do processo fragmentado do conhecimento na busca de reintegração do todo. Aliado a esse desafio, o ensino, segundo Zabala (2002, p.24), precisa ser revisto, pois: Assimcomo o processo de progressiva parcializaçâo dos conteúdos escolares em áreas de conhecimento ou disciplinas conduziu o ensino a uma situação que obriga a sua revisão radical, a evolução de um saber unitário para uma diversificação em múltiplos campos científicos notavelmente desconectados uns dos outros levou a necessidade de busca de modelas que compensem essa dispersão do saber. O mundo repleto de incertezas, contradições, paradoxos, conflitos e desafios leva ao reconhecimento da necessidade de uma visão complexa. Esta vLsão significa renunciar ao posicionamento estanque e redudonista de conviver no universo. Significa aceitar o questionamento intermitente dos problemas e Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66.sct./dcz. 2007 61
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    Marilda Aparecida Bebrens,,Anadir Luiza Tbomé Oliari das suas passíveis soluções. Assim, “Na realidade, busca aceitar uma mudança periódica de paradigma, uma transformação na maneira de pensar, dc se relacionar e de agir para investigar e integrar novas perspectivas” (BEHRENS, 2006, p. 21). Este processo de evolução paradigmática inclui as contribuições de várias ciências que podem colaborar para a reconstrução do conhecimento e para a superação da visão fragmentada e reducionista do universo. Segundo Capra (1996), destaca-se a Biologia como pioneira, acompanhada pela influência da Psicologia Gestalt e da Ciência da Ecologia, mas, especialmente, e com grande efeito, da Física Quântica. A psicologia Gestalt contribuiu com o reconhecimento da totalidade, ou seja, na premissa que o todo é mais que a soma das partes. Portanto, um sistema não pode ser visto e compreendido apenas ao se analisar uma de suas partes. Com a Ecologia, surge uma nova concepção, que propõe a total integração entre os componentes animais e vegetais da terra. Com este desafio, o movimento pela ecologia prega que “Na natureza, não há ‘acima’ou ‘abaixo’, e não há hierarquias. Há redes aninhadas dentro de outras redes” (CAPRA, 1996, p. 45). O mundo é visto como uma rede de relações, envolvendo conexões, interconexôes, movimento, fluxo de energia, inter-relações em constante processo de mudança e transformação. Portanto, o pensamento complexo, dinâmico e processual acompanha a noção de rede que tem sido a chave para os recentes avanços científicos. Na área da Biologia, de acordo com Capra (1982), a grande investida contra o paradigma tradicional foi a proposta de Einstein, em 1905, com a Teoria da Relatividade. Nessa teoria, o universo passou a ser visto com um todo indiviso e ininterrupto e o mundo concebido em termos de movimento, fluxo de energias e processos de mudança (MORAES 1997). Essa teoria ajuda a derrubar a visão fragmentada do universo e defende a totalidade. Em vista disso, as partes já não podem mais ser entendidas como entidades isoladas, mas como elemento de interação e interconexão com outros elementos determinados pela dinâmica do todo (CAPRA, 1996). A teoria da relatividade favorece o pensamento complexo que é uma nova forma de ver a realidade. Segundo Capra (1996), este pensamento passa a ser organizado enquanto uma teoria verdadeiramente científica. Na obra Pensamento eco-sistêmico, Moraes (2004, p. 20) esclarece: Complexidade esta compreendida como princípio articuladordo pensamento, como um pensamento integrador que une diferentes modos de pensar, que permite a tessitura comum entre sujeito e objeto, ordem e desordem, estabilidade e movimento, professor e aluno e todos os tecidas que regem os acontecimentos, as ações e interações que tecem a realidade da vida. 62 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
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    A evolução dosparadigmas tia educação: do pensamento científico tradicional à complexidade A complexidade é denominada por Vasconcellos (2002) de Pensamento Sistêmico novo-paradigmático. Este pensamento pode ser refletido em pelo menos três pressupostos epistemológicos: o da complexidade, da instabilidade e da intersubjetividade. O pressuposto da complexidade busca a contextualização dos fenômenos e reconhece as causas recursivas, em especial, apresentadas pela impossibilidade de explicação dos fenômenos pelo pressuposto da simplificação. Na contextualização, amplia-se o foco dos elementos para as relações que ocorrem entre eles, sendo que nenhum dos dois desaparece, pois ambos são importantes. Percebem-se redes de interconexões, nas quais o pesquisador distingue o objeto de seu contexto, sem perder de vista sua inserção, sem isolá-lo. Passa-se do pensamento disjuntivo para o integrador, com visão de totalidade e de interconexão. O pressuposto da instabilidade refere-se ao fato do reconhecimento dos cientistas de que não é mais possível a crença num mundo estável e acabado, pois toma-se necessário acreditar num mundo como um processo contínuo e inacabado, que merece a intervenção consciente e responsável do homem para sua transformação. Por fim, o pressuposto da intersubjetividade reconhece a impossibilidade de um conhecimento objetivo do mundo, especialmente em função das múltiplas versões da realidade e dos diferentes domínios do conhecimento. Neste contexto, destaca-se o domínio lingüístico, pois a linguagem tem papel essencial na comunicação e na descrição da realidade e seu contexto. A realidade não existe independentemente do observador, isto é, objeto e sujeito só existem relacionalmente e um contém o outro. Vale ressaltar que nenhum ponto de vista isolado permite abarcar a realidade ou objeto como um todo. Os três pressupostos epistemológicos, ou seja, a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade - propostos por Vasconcellos (2002) - precisam atender a visão de complexidade. Para tanto, estes pressupostos devem estar interconectados, m antendo uma relação recursiva e integrada em que não se pode fazer uso de um sem o outro, pois a relação congruente e dinâmica das partes no processo determina a estruturação do todo. O paradigma da com plexidade propõe uma visão de hom em indiviso, que participa da construção do conhecim ento não só pelo uso da razão, mas também aliando as emoções, os sentimentos e as intuições. Nesse sentido, torna-se urgente que as estruturas do funcionam ento educacional incluam o uso dos conceitos de inter, pluri e transdisciplinar. Para Alarcão (2001, p. 54): Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53 66,set./dez. 2007 63
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    Marüda Aparecida Behretis,Anadir Luiza Thomé Oliari Novamente, é a volta a esse círculo que se dobra e desdobra indefinidamente em espiral entre cada ponto de partida e de chegada, possibilitando, assim, novos ângulos de visão, de representação e, eventualmente, a partir de diferentes níveis de realidade e a aconselhar abordagens mais inter, pluri, e transdisciplinares, tanto ao nível da análise quanto da sua compreensão científica e filosófica. É justamente na razão dessa diferença que uma nova racionalidade possibilita que a mudança aconteça e lance-nos para o futuro em um movimento crescente e aceleração imparável. Esta realidade é complexa e depende da reforma do pensamento, pois, como afirma Morin (2002), para compreender o novo paradigma, toma- se necessário um pensar mais abrangente, multidimensional, contextualizado e muIndisciplinar. No entendimento de Zabala (2002, p. 32): Ainterdisciplinaridade implica o encontro e a cooperação entre duas ou mais disciplinas, cada uma das quais [...] traz seus próprios esquemas conceituais, a maneira de definir os problemas e seus métodos de investigação”, mas, acrescenta que a transdisciplinaridade implica que o “contato e a cooperação que ocorre entre diversas disciplinas sejam tão grande que estas acabaram por adotar um mesmo conjunto de conceitos fundamentais ou alguns elementos de um mesmo método de investigação, falando de maneira geral, o mesmo paradigma. No mesmo sentido, Yus (2002) afirma que a educação que vem apresentando o contexto de fragmentação necessita que o educador tome consciência dela e busque restabelecer conexões em todas as esferas da vida e em todos os tipos de relações. Entretanto, cabe ao aluno analisar e tomar consciência dessas relações e de suas habilidades para transformá-las, caso seja necessário. O desafio para atingir a transdisciplinaridade exige um grau máximo de relações entre as disciplinas e uma visão de integração global. Na Educação, o resgate pleno do ser hum ano, numa visão paradigmática da complexidade, implica na expressão de novas formas de solidariedade e cooperação nas relações humanas. Para tanto, precisa contem plar uma proposta pedagógica que reconheça a diversidade de fenôm enos da natureza e o ser hum ano com o um indivíduo com multidimensionalidades, ou seja, dotado de múltiplas inteligências e com diferentes estilos de aprendizagens. Nesse sentido, a formação docente precisa reconhecer o processo de aprendizagem complexa, envolvendo no ensino os aspectos físicos, biológicos, mentais, psicológicos, estéticos, culturais, sociais e espirituais, entre outros. 64 Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66, set./dez. 2007
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    A evolução dosparadigmasna educação: dopensamento científico tradicional à complexidade A contribuição de Moraes (1997) toma-se relevante quando afirma que os fenómenos educacionais devem ser percebidos como processos, na complexidade das suas inter-relações, sendo ao mesmo tempo determinantes e determinados, em movimento e em permanente estado de mudança e transformação. Do mesmo modo, o conhecimento requer processos de construção e reconstrução mediante a ação do sujeito sobre o ambiente e pelas trocas energéticas nos processos de assimilação, acomodação e auto- organização, isto é, por meio das relações interativa e dialógica entre aluno, professor e ambiente. Assim, aluno e professor são participativos, ativos, criativos, dotados de inteligências múltiplas, tendo como ênfase a visão global da pessoa. Neste contexto, pode-se considerar que o novo paradigma começa a encontrar espaços para dar respostas mais relevantes para os problemas da humanidade. Na natureza, tudo é cíclico, assim, cabe refletir que o movimento natural de entropia no universo pode gerar a crise e o caos, mas permite rever, rediscutir e construir novas possibilidades. A nova reorganização precisa restituir ao homem e, por extensão, a natureza, o que foi perdido com a proposição do pensar tradicional, do capitalismo exacerbado e mais recentemente, da globalização desenfreada e descomedida. A reunificação da humanidade com si mesmo e com a natureza depende de uma visão unificadora, em especial, na proposição de processos que incluam a sustentabilidade do planeta. Neste contexto, a Educação precisa recuperar o equilíbrio entre a intuição e a razão, propondo um ensino e aprendizagem que leve à produção de conhecimento autônomo, crítico e reflexivo e a construção de uma sociedade mais justa, igualitária, fraterna e solidária. Referências ALARCÃO, Isabel. Escola reflexiva e nova racionalidade. Porto Alegre: Artmed, 2001. ANDERY, Maria Amélia et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. 8. ed. São Paulo: EDUC, 1999. ASSMANN, Hugo. Metáforas novas para reencontrar a educação. São Paulo: Unimep, 1998. BEHRENS, Marilda A. (Org.). Docência universitária na sociedade do conhecimento. Curitiba: Champagnat, 2003. ______. Oparadigma emergente e a prática pedagógica. Petrópolis: Vozes, 2005. Diálogo Educ., Curitiba, v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007 65
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    Marilda Aparecida Behrens,Anadir Luiza Thomé Oliari ______. Paradigma da complexidade. Metodologia de projetos, contratos didáticos e portfóiios. Petrópolis: Vezes, 2006. CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1982. ______. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996. CARDOSO, Clodoaldo. Acanção dainteireza: uma visão holística da educação. São Paulo: Summus, 1995. KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções cientificas. 16. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. LARA, Thiago Adão. Caminhos da razão no ocidente: a filosofia ocidental do renascimento aos nossos dias. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. MORAES, Maria Cândida. O paradigma educacional emergente. Campinas: Papirus, 1997. ______. Pensamento eco-sistêmico: educação, aprendizagem e cidadania no século XXI. Petrópolis: Vozes, 2004. MOR1N, Edgar. Introducción al pensamiento complejo. 3. ed. Barcelona: Gedisa, 1997. ______. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2000. ______. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios São Paulo: Cortez, 2002. VASCONCELLOS, MariaJosé Esteves. Pensamento sistêmico: novo paradigma da ciência. Campinas: Papirus, 2002. YIJS, Rafael. Educação integral: uma educação holística para o século XXI. Porto Alegre: Artemed, 2002. ZABAIA, Antoni. Enfoque globalizador e pensamento complexo: uma proposta para o currículo escolar. Porto Alegre: Artmed, 2002. Recebido: 09 de abril de 2007 Aceito: 03 de agosto de 2007 66 Diálogo Educ., Curitiba,v. 7, n. 22, p. 53-66,set./dez. 2007
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    o y oJ o f ç j - i u õ O = 2 0 ,tlorença A de Oliveira Costo Psicóloga C R P - 09/006427 ÍZxjS^ • 5 , o 2 S 4 APRESENTAÇÃO Convivemos com um período histórico particularmente difícil para o mundo do trabalho. A democracia liberal reduzida a um caráter formal e a economia de mercado global acima da política de sentido público e das necessidades humanas, têm determinado aspectos como o acirramento das contradições e conflitos sociais, a busca pelas soluções individuais, a desideologização do debate político e o avanço do relativismo, do irracionalismo e do niilismo no meio acadêmico Uma overdose de cinismo percorre o pensamento e a ação social de grande parte de indivíduos e grupos sociais que têm conservado o acesso aos bens materiais e culturais neste período histórico. Legitimam e justificam, de forma ativa ou passiva, direta ou indireta, explícita ou implícita, a democracia liberal formal e economia neoliberal global, arquitetas do fascismo social em curso em todo o mundo Com o presente texto pretende-se uma contribuição de caráter introdutório ao marxismo. Por meio dele busca-se alcançar dois objetivos: permitir uma compreensão de aspectos da teoria e metodologia marxista e proporcionar uma instrumentação teórica e metodológica de abordagem crítica da realidade atual. O texto distribui-se por meio de seis temáticas, a saber; uma breve reconstituição da trajetória intelectual e política de Marx, de forma a evidenciar o seu compromisso com a transformação social e com a articulação entre o pensamento e a ação; uma abordagem do seu método de análise e dos conceitos básicos para a investigação da formação social, de forma a permitir a compreensão da interpretação marxista do processo histórico; uma caracterização da crítica marxista do capitalismo e das experiências de luta formada no seu interior, de forma a demonstrar a pertinência da crítica (teórica e prática) marxista do capitalismo e dos problemas e limites com os quais ela convive; uma identificação da concepção marxista de Estado, de forma permitir a crítica ao contratualismo e o papel que o Estado exerce como instrumento de construção de uma hegemonia social, uma qualificação da influência que o marxismo exerce na Ciência da História, de forma a identificar as contribuições, problemas e limites decorridos desta relação; e uma leitura marxista de caráter panorâmico da relação estabelecida entre Estado e sociedade (de classes) no Brasil, de forma a proporcionar um exemplo de interpretação da realidade histórica a partir da teoria e metodologia marxistas. A'J QJOíAA-yyK) ! Í4AAfóuXAs u ■ ( x/JoJtmr^v c^bvtt^vcv/(/p(3i -cm UaaÍqvUtls ©&0t>prYvi60t, I . AtoÍxÍÁ^XX„)
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    Em que peseos limites de um texto de caráter introdutório e do próprio autor é necessário que se registrem as contribuições dos amigos Sônia Lobo, Paulo Augusto de Fana, Ricardo Orsini, Sebastião Cláudio Barbosa e Gilda Guimarães 1 - BREVE BIOGRAFIA DE MARX Karl Marx nasce em Treves, uma pequena cidade de 12 000 habitantes e de cultura franco-germânica, capital da província alemã do Reno, em 5 de maio de 1818. Sua família pertence à pequena burguesia judia próspera Embora descendendo de uma longa linhagem de rabinos (tanto do lado paterno quanto materno), não sofre uma forte doutrinação em favor do judaísmo O pai de Marx, o advogado Hirschel Marx, adere intelectualmente a um racionaJismo tipicamente iluminista. Posteriormente, quando Treves passa a sofro- a dominação prussiana de Frederico Guilherme Hl, que era anti-francês e anti-semita, convote-se ao protestantismo e muda o seu nome para Heinrich Marx, possivelmente em decorrência de motivos materiais, visto que convive com a ameaça de não poder exercer a sua profissão porque é vedado à época acesso a cargos públicos aos judeus que habitam a província do Reno (Bottomore, 1988, P. 239) Marx conduz seus estudos primários e secundários na cidade de Treves, quando esta se encontra mergulhada sob a administração absolutista prussiana marcadamente autoritária/burocrática e anti-industrial (para a região do Raio). A resistência à administração prussiana, embora desorganizada, se estende para diversos setores, a exemplo do Ginásio do Estado, no qual Marx estuda. Marx envolve-se com esta resistência. Mesmo antes de seguirem estudos em nível universitário Marx já mantém leituras clássicas. Por meio do pai conhece Lessing, Voltaire e Rousseau, e por meio do amigo e futuro sogro, o barão Ludwig Von Westphalen, conhece Homero e Shakespeare. Nesta fase, por meio de dissertações realizadas no Ginásio de Treves, já é possível identificar duas idéias que marcariam profundamente o pensamento de Marx. A primeira é a idéia de que o homem feliz é aquele que busca fazer todos os homens felizes, isto é, que trabalha em prol da humanidade. A segunda é a idéia de que os homens não podem determinar, em grande medida, o seu desenvolvimento, isto é, estão profundamente condicionados pelo estado social da sua existência. Em 1835, aos 17 anos Marx é enviado para a pequena cidade de Bonn, dando início ao curso de direito na Faculdade de Direito da Universidade de Bonn, com a intenção de
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    estudar jurisprudência, Oromantismo do ambiente, não raramente marcado por bebedeiras, declarações amorosas e “duelos” compromete o desempenho acadêmico de Marx No ano seguinte é encaminhado por seu pai para a cidade de Berlim, com os seus 300 mil habitantes. Na Universidade de Berlim Marx passa os quatro anos seguintes conduzindo seus estudos A adesãc ao romantismo, na sua estadia em Bonn, é abandonada em favor do hegelianismo, na sua estadia em Berlim, bem como os estudos de jurisprudência em favor dos estudos de História e Filosofia Marx abandona a carreira de advogado e pretende conquistar uma cátedra universitária Além da satisfação intelectual Marx procura as condições econômicas necessárias para viabilizar o seu casamento com Jenny Westphalen cujo noivado oficial ocorre em 1837. Para tanto, depende do doutoramento Conduz os estudos durante os anos de 1838,1839 e 1840 Ao final redige a tese de doutorado entitulada Diferença entre a Filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro em 1841. Marx louva o fato de Epicuro ter buscado encontrar um lugar para a liberdade do homem em face da natureza, opondo-se ao determinismo natural de Demócrito. Segundo Giannotti, esta obra recupera uma problemática levantada por Hegel1 na Fenomenologia do Espírito, na qual este autor considera o estoicismo e o ceticismo grego como etapas do desenvolvimento do Espírito, momentos em que a consciência de si !iberta-se de seu vínculo com o mundo e se afirma soberana. O sábio estóico, recolhido em si mesmo, e o filósofo cético, armando seu pensamento sobre a dúvida, estariam dando prova de intensa liberdade individual, inovadora, mesmo no âmbito da Pólis grega (Marx, 1978, P. IX eX ) Marx, por meio de um diálogo filosófico crítico com Hegel, percorre outro caminho. Busca identificar as diferentes funções desempenhadas pelo atomismo naqueles dois filósofos racionalistas e conclui que o átomo em Demócrito (Séc. V-IV a.c.) representaria uma categoria abstrata, isto é, que é apenas uma hipótese a exprimir uma dimensão empírica (sensível) da natureza. Em Epicuro (Séc. 1V-I1I a c ), por sua vez, o átomo representaria uma forma natural que a consciência assumia de si mesma. Com Epicuro, na interpretação de Marx, a atomística transformaria-se em um princípio absoluto, rompendo a separação entre espírito e matéria. A defesa da tese de doutorado prevista de início para a Universidade de Berlim é transferida para a Universidade de lena e ocorre em 15 de abril dc 1841. Isto porque as 1 Hegel (1770-1831) desenvolve um sistema filosófico no qual o Estado moderno é concebido como encarnação dos ideais da moral mais objetivos e manifestação da razão no domínio da vida social. A sua filosofia se convertia em uma espécie de ideologia oficial legitimadora do Estado prussiano (Marx, 1978, P. VÜI e IX). 6
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    esperanças de umamaior abertura do regime absolutista prussiano alimentado pelos círculos liberais se frustra com a ascensão de Frederico Guilherme IV ao poder era 1840, ano da morte de Frederico Guilherme UI, o que veio a refletir no ambiente acadêmico da Universidade de Berlim. Mane recusa-se a se submeter e expor a este ambiente e a professores encarregados das qualificações do doutorado, a exemplo do professor conservador Stafcl. O doutoramento de nada adiantou para Marx obter a cátedra universitária No ano de 1841 frustra o empenho do seu amigo Bruno Bauer em ajuda-lo a obter a cátedra. No mesmo ano Bruno Bauer perde seu emprego e é proibido de continuar lecionando na Universidade de Bonn. Marx integra-se no movimento intelectual denominado Esquerda ou Jovens Hegelianos2. Este grupo busca submeter os textos sagrados e a propriedade privada à crítica, conduz uma crítica radical do cristianismo e valoriza a luta política. Este grupo também conduz, de um ponto de vista liberal, oposição a autocracia prussiana Marx dá início a uma fase de transição quanto às suas reflexões e ocupações no âmbito do próprio movimento da Esquerda Hegeliana. Os problemas políticos e sociais assumem progressivamente a centralidade no seu pensamento. Problemas esses que nesta fase assumem uma abordagem pública por meio do envolvimento de Marx com a imprensa.Marx tem consciência da importância da imprensa 7 2 Hegei compreendia o Estado, a religião e a filosofia como supremas manifestações de Deus, entendido como o absoluto. A religião cristã se apresentava como a mais completa revelação da razão enquanto Espírito Universal. Nesse processo de manifestação, Jesus desempenharia o papel de mediador entre a generalidade abstrata de Deus-Pai e a individualidade concretíssuna do espírito santo. Após a morte de Hegel em 1831, seus discípulos estão divididos. Alguns, denominados direita hegeliana, prendem-se a elementos conservadores da filosofia de Hegel,à apologia do Estado prussiano, a defesa da ordem constituída, outros, denominados esquerda hegeliana, procuram aplicar o método historicista de Hegel a análises das questões sociais. A esquerda ou jovens hegelianos dão início a uma revisão crítica do seu sistema filosófico David Strauss (1808-1874) busca separar a figura histórica de Jesus de sua interpretação religiosa e filosófica O resultado é, de um lado, a retomada da luta pelo direito de submeter os textos sagrados á critica histórica e, de outro, a revolução da doutrina hegeliana provocando-lhe a crítica política Seguindo o caminho aberto, Bruno Bauer (1809-1872) procura separar o desenvolvimento do espírito do desenvolvimento do mundo, transferindo para a consciência de si a tarefa de determinar o curso da História Arnold Ruge (1802-1880) trouxe a luta contra o pensamento conservador hegeliano para o terreno propriamente político frente ao endurecimento do governo de Frederico Guilherme IV da Prússia Moses Hess (1812-1875) e Max Stimer (1806-1856) refletem acerca da propriedade e debatem aspectos do socialismo e anarquismo Ludwig Feuerbach (1804-1872), busca mudar os sinais do sistema elaborado por Hegel, de modo que, ao invés de partir-se do espírito, partiria-se da natureza e do homem. Feuerbach privilegia o mundo sensível, a sensibilidade e o coração, deslocados para o nível do intelecto. Tal concepção traduz-se em um programa político o princípio feminino, o coração, sede dn materialismo francês, deveria aliar-sc ao intelecto, princípio masculino, sede do idealismo alemão. O programa político de Feuerbach não é assumido politicamente por seu criador, ou seja, não é para o terreno da luta política Ludwig Feuerbach recolhe-se no seu isolamento e declina- se de imiscuir em política Surpreende a muitos quando, ao final da sua vida, filia-se ao Partido Social- Democrata Alemão (Marx, 1978, IX e X).
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    como veículo comcapacidade de informar com objetividade e de criticar com independência, uma necessidade inadiável em sociedades em que a censura, a corrupção, a hipocrisia, o cinismo convertem-se em instituição. Todavia, Marx condena a liberdade da imprensa como uma liberdade comercial, isto é, de converter a imprensa em uma “indústria” movida pela lógica do mercado, do lucro e do poder Dessa forma não seria possível informar com objetividade e criticar com independência (Konder, 1968, p. 47-49) No período de edição da Gazeta Renana' Marx depara-se com os chamados “interesses materiais”1**4 Na província alemã do Reno os camponeses continuam recolhendo lenha nas florestas como se estas estivessem submetidas ao direito consuetudmáno, enquanto, de fato, encontram-se, agora, subordinadas a outro tipo de propriedade, de caráter privado e alienável Como resultado, e atendendo a apelos de proprietários, o Estado move processos contra o “furto” de madeira realizado pelos camponeses. Conforme Giannotti, a investigação que Marx inaugura por meio da análise da condenação dos camponeses pela Dieta Renana, abria o caminho para a idéia de uma revolução social; e para que esta viesse modificar a própria estrutura da sociedade como um todo (Marx, 1978, P X e XI) As publicações de Introdução a uma Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e A Questão judaica, no primeiro e único número dos Anais Franco-Alemães5, traz em si uma nova noção de crítica, o que conflitua Marx com a Esquerda Hegeliana Para Marx, a crítica da Filosofia do Direito de Hegel deveria partir da crítica do Estado real. Uma crítica desalienada, porque recusaria mover-se exclusivamente no âmbito do discurso. A crítica, movendo pensamento e prática política, poderia assumir concretude, penetrando as massas populares e convertendo-as em força social capaz de mudar a sociedade. Portanto, para Marx, toda crítica seria inócua enquanto não atingisse a raiz do próprio homem enquanto ser concreto e a sociedade na qual este vive A noção de crítica de Marx, ancorada na unidade dialética estabelecida entre teoria e práxis e na desconstrução/construção do Estado e das relações sociais sobre os quais este se apoia, conduz Marx a identificar a luta de classes como o motor da História e o proletariado como o ator fundamental da critica e da subversão da estrutura da sociedade moderna (nela incluída o próprio Estado). A noção de crítica de Marx completa-se com a contribuição de 1Diário liberal radical, apoiado por industriais renanos c publicado na cidade dc Colônia Marx ocupa a função de redator-chcfc desse diário *Por interesses materiais, Marx concebe os inlaesses dc classes que emergiam das condições materiais, qual seja, o conjunto das condições econômicas acumuladas, a forma de apropriação e distribuição dos excedentes e o estágio da consciência social. 5Órgão da propaganda revolucionária e comunista, que se pretendia uma ponte entre o socialismo francês e o hegelianismo radical, dirigido por Marx em Paris no ano de 1844 8
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    9 Engels, para oqual a sociedade civil6 é o terreno no qual os homens se defrontam como particulares e proprietários, mergulhados na alienação Para Engels, a Economia Política de Adam Smith e David Ricardo, enquanto ciência da sociedade civil, não podería ser nada mais do que o lugar da alienação visto que, por não ter posto em causa o postulado da propriedade privada e por não ter anteposto ao privatismo da sociedade civil a universalidade do homem, não conseguiria conduzir a crítica da sociedade moderna (Marx, 1978, P. XIII e XIV). Marx incorpora a noção de crítica de Engels mas a ultrapassa, visto que reconhece que a forma de trabalho do sistema capitalista, orientado para a acumulação privada e para o mercado, mergulha o homem na alienação O homem, sob relações de assalariamento, produziria uma mercadoria para trocá-la por outra mercadoria. A apropriação de poucos em detrimento de muitos se, por um lado, conduziria o homem à alienação, por outro, não poderia impedir a recriação da necessidade das mercadorias que se encontrassem em outras mãos, de forma que criaria um espaço e um ambiente de tensão nas relações sociais que projetaria a sua solução para além da propriedade privada e do mercado. Nos Manuscritos Econômicos e Filosóficos, elaborados na sua estadia em Paris (somente publicado em 1930), Marx identifica um contraste enüe a natureza alienada do trabalho no capitalismo e uma sociedade comunista na qual os seres humanos desenvolveriam livremente sua natureza em produção cooperativa O pensamento de Marx apresenta-se maduro. Completa-se, portanto, o processo de ruptura com a sua base de origem, inaugurada no âmbito da Esquerda Hegeliana. A própria influência de Ludwig Feuerbach é superada. No período compreendido entre 1842 e 1847, Marx converte-se em um intelectual e ativista político com uma concepção humanista do comunismo (Bottomore, 1988, P. 239) A prática intelectual e política (e, provavelmente, a sua etnia) rende a Marx perseguição e exílio. Marx busca ter acesso à carreira universitária, mas é impedido pelo governo prussiano; converte-se em editor da Gazeta Renana, mas teve o jornal fechado pelo 6 A divisão da sociedade em classes ou estamentos concorre decisivamente para a separação entre a sociedade política ou Estado (organização dos que mandam) e uma sociedade civil (conjunto em nome do qual se governa). Hegel atribui ao conceito sociedade civil uma significação econômica e jurídica, onde os indivíduos singulares se opõem em função de seus interesses particulares. O Estado aparece como a verdade da sociedade civil, que não é, graças ao jogo da astúcia da razão, mais do que seu próprio fenômeno, nele realizado. A sociedade civil é um instante de uma processos que atinge seu ponto máximo na sua absorção pelo Estado (Altbusser, 1979, P. 97). Marx cna duas novas concepções de sociedade civil A primeira identifica sociedade civil com a estrutura econômica da sociedade. A sociedade civil seria o “mundo das necessidades, do trabalho, dos interesses particulares, do direito privado" (Marx, 1987, P 483) ou ainda que ela abarcaria “(...) todo o intercâmbio material dos indivíduos, em uma determinada fase de desenvolvimento das forças produtivas” (Marx e Engels, 1974, P. 38). A Segunda identifica sociedade civil com o conjunto de partidos,jornais, clubes e associações. Para Marx da “Crítica do Programa de Gotha”, “(...) o Estado deve ser um órgão subordinado á sociedade'. (Marx, 1946, P. 30).
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    10 governo; emigra paraParis em 1843 e passa a dirigir os Anais Franco-Alemães, mas tem o periódico fechado e é expulso da capital francesa Radicado em Bruxelas, Marx dedica-se a um estudo intensivo de história e cria a teoria que ficou conhecida como a concepção materialista da história Por meio da obra A Ideologia Alemã, escriia em parceria com Engels, chega a duas conciusões básicas: “que a natureza dos indivíduos depende das condições materiais que determinam sua produção”; e que na história da humanidade sucedem-se vários modos de produção, sendo o próprio capitalismo um modo de produção de caráter transitório7 Entre 1847 e 1852, Marx e Engels ingressam na Liga Comunista8; elaboram o Manifesto Comunista, publicado em 1848; participam intensamente da “Primavera dos Povos” - denominação dada às revoluções de 1848 - em Paris e em Colônia; e fundam em Colônia a Nova Gazeta Raiana sob uma orientação democrática radical contra a autocracia prussiana A vitória da contra-revolução reconduz Marx ao exibo em maio de 1849, agora em Londres, de onde ele não mais sai. Marx elabora, no período imediatamente subsequente, às obras As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850 e Dezoito Brumário de Luís Bo“ *parte. Marx reconhece na derrota da “Primavera dos Povos” a fragilidade da classe operária, ainda pequena quantitativamente e dispersa geográfica e politicamente; o esgotamento da trajetória revolucionária da burguesia, transformada definitivamente em classe dominante e abertamente contra-revolucionária; e a vitalidade do capitalismo, que promovia a industrialização em vários países (EUA, Alemanha, França, Itália, Bélgica) e dá início ao novo expansiomsmo colonialista na África e Ásia. Esse reconhecimento desperta em Marx a necessidade de conduzir estudos econômicos de maior fôlego acerca do capitalismo e de criar uma organização internacional dos trabalhadores. As obras Esboços da Critica da Economia Política (produzido entre 1857 e 1858, mas somente publicado em 1941) e O Capital (o primeiro livro é editado em 1867; quanto aos livros segundo e terceiro são concluídos por Engels após a morte de Marx) jogam novas luzes sobre a dinâmica de expansão e de crise do capitalismo A participação na fundação da Primeira Associação Internacional dos Trabalhadores (ATI) em 1864, para o qual é eleito para o seu Conselho Geral e onde convive com intensas disputas políticas contra a ala anarquista liderada por Bakunin, confirma o seu compromisso com a construção de uma personalidade 7Oideal burguêsconcebeocapitalismocomoetapafinal dastransformaçõesda sociedadehumana, restandoa esteapenaso seupróprioaperfeiçoamento A ‘eradasrevoluções’,segundoessaconcepção, nãoteriamaislugar nahistóriada humanidade
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    11 política revolucionária, libertáriae internacionalista dos trabalhadores. A elaboração da sua última obra expressiva, A Guerra Civil em França, onde aborda a Comuna de Paris de 1871, é acompanhada do progressivo esvaziamento da ATT. Nos últimos dez anos de sua vida, Marx não produz nenhuma obra expressiva e não consegue concluir O Capital. A saúde abalada, a perda da esposa e filhos, c esgotamento de anos de trabalho intelectual extenuante, entre outros fatores, o impedem de conduzir esforços continuados de sínteses ricas de elementos e que, de maneira tão evidente, haviam caracterizado sua obra até então (Bottomore, 1988, P. 240). Marx morre na cidade de Londres em 1883 íorençd A. deOliveira Costa Psicóloga 2 - CAPITALISMO E MARXISMO DP OQ,n06427 As teses sobre as quais se apóia análise marxista sobre o sistema capitalista mantém a sua atualidade. As relações sociais entre os homens no capitalismo são reguladas pelo valor de troca antes do que pelo valor de uso das mercadorias e serviços que eles produzem. Em síntese, as necessidades humanas encontram-se na dependência direta do poder de compra das pessoas no mercado. A satisfação das necessidades humanas apresenta-se como resultado secundário da produção e do lucro mediado pelo sistema de trocas. É o capital e os bens, não o homem e a vida, que encontram-se no centro da atividade econômica no sistema capitalista O processo de desenvolvimento do capitalismo acirra a dupla contradição presente na sua base de reprodução Primeiramente, a contradição estabelecida entre a crescente produtividade do trabalho social, por um lado, e seu o uso repressivo e destrutivo, por outro. Em segundo lugar, a contradição estabelecida entre o caráter social da produção e a apropriação privada dos excedentes O capitalismo somente pode resolver essa contradição temporariamente, de forma a aumentar o seu caráter repressivo e destrutivo por meio do desperdício, do luxo e da destruição das forças produtivas. A corrida competitiva pelo armamento, pela produção e pelo lucro proporcionam um elevado grau de concentração do poder econômico - via centralização/concentração oligopolista e financeira do capital. A expansão econômica agressiva para o exterior, os conflitos regionais criados e/ou incentivados e as disputas por 8 Organização de trabalhadores alemães emigrados e sediada em Londres.
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    influência continental entreos países de capitalismo central, tendem a formar ciclos recorrentes de dependência, de guerras e de depressões. A quinta tese sobre a qual se apóia a análise marxista sobre o sistema capitalista insere a idéia da possibilidade da transformação social. Segundo Marx, o ciclo de reprodução do capital carrega a possibilidade histórica de ser interrompido pelo mundo do trabalho em aliança com outros setores populares. Isto porque as classes do mundo do trabalho suportam o peso da exploração econômica, o que as tende levar à perspectiva da transformação social, de forma a assumir o controle do aparato produtivo e a desencadear a superação das contradições básicas do sistema capitalista de produção. Por um lado, liquidando com o sistema social de produção mas de controle e apropriação privados e, por outro, libertar o desenvolvimento das forças produtivas e estabeleça1a integração entre o desenvolvimento das forças produtivas e as necessidades humanas. Capitalismo e Crise Marx e os intelectuais críticos do capitalismo que se referenciam no marxismo clássico concebem o ‘fenômeno’ crise em função do capital, tema fundamental para a reflexão social e econômica no âmbito do capitalismo. Portanto, em termos do marxismo clássico, a abordagem do fenômeno crise deve partir, necessariamente, da negatividade constitutiva do capital. O capital constitui o fundamento do processo da reiteração e expansão das suas próprias condições de existência Cumprida a etapa da acumulação primitiva de capital, o capital se materializa nos meios de produção que se coloca à frente da força de trabalho como algo estranho e com poder de obrigá-lo a produzir, e na própria força de trabalho, adquirida pelo capitalista no mercado e integrada ao capital como capital variável. Enquanto materialização da riqueza social e enquanto proprietário das faculdades do produtor, o capital constitui-se, em um determinado sentido, no ‘sujeito’ que transforma a produção e a circulação das mercadorias em meios para a sua reprodução expansiva Assim, todas as formas econômicas, das atividades econômicas em sentido restrito às formas de organização (tecnológica e organizacional) do trabalho, são simples mediadoras da referida expansão (Coggiola (Coord ), 1996, p. 291-302). O movimento do capital engendra uma contradição. Pára recriar o fundamento da sua valorização o capital necessita, concomitantemente, de criar e subordinar a força de trabalho e encontrá-la como seu oposto no mercado e no processo de produção. Dessa forma, reduzindo o trabalho à condição de mercadoria poderá absorvê-lo como capital variável. 12
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    Por outro lado,a partir desta transformação o capital busca valorizar-se crescentemente, o que leva ao progressivo predomínio do capital constante em relação ao capital variável. Dito de outra forma, o domínio do trabalho vivo pelo morto (capital), com o progressivo predomínio do capital constante em relação ao capital variável (como uma tendência à negação do trabalho vivo pelo moito), conshtui-se na manifestação da contradição, visto que é o trabalho a fonte do valor e, portanto, do próprio capital. No plano das relações econômicas este ‘sujeito’ se expressa por meio dos capitalistas individualmente e enquanto grupo social. Cada capitalista em particular deve se confrontar com o trabalhador para que possa obter a mais-valia (fundamento oculto do capitalismo, ao mesmo tempo sua força propulsora e fonte da sua reprodução expansiva). Neste sentido, aumentar a duração e a intensidade do trabalho e, acima de tudo, a sua produtividade é a garantia da sua extração (e, possivelmente, expansão). O capitalista deve se confrontar também com os demais capitalistas para preservar suas taxas de lucratividade e assegurar mercados. Para tanto, de deve necessariamente baixar os seus custos de produção. Como ‘sujeito’ da auto-valorização, que confronta consigo mesmo e com a sua negação, o capital subordina a produção e a circulação de mercadorias como fases do processo pelo qual ele se acumula e reproduz. Fases estas que, se reproduzindo sob uma relativa autonomização e sob o impulso desmedido de auto-valorização, não se determinam peio consumo e necessidades sociais. A economia capitalista, apoiada na sua intrínseca anarquia em termos da produção, da circulação e da produção/dreulação, concorre para crises recorrentes (Marx, 1984, v. I, p. 26). O fato da determinação do que, como e quando produzir residir no âmbito de cada unidade de produção e destas competirem entre si, inviabiliza processos de crescimento equilibrado entre e inter departamentos e setores econômicos Indicadores de mercado como preços, custos e juros, que sob certas condições estimulam a expansão mais ou menos rápida da acumulação, não podem revelar barreiras como os limites de demanda ou de insumos básicos no mercado. Dessa forma, normalmente a uma fase de expansão sucede uma fase de desaceleração da expansão, que pode ser um decréscimo de ritmo da expansão, uma recessão, ou ainda uma depressão, condicionada pelo grau da intensidade da fase expansiva precedente, pelos desequilíbrios estruturais, pela mobilidade do Estado enquanto agente produtivo, pelas formas assumidas pela luta de classes, entre outras variantes. Na esfera da circulação do capital, a crise aparece de modo privilegiado como paralisia 13
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    do movimento decompras e vendas entre os departamentos9 econômicos. Os departamentos econômicos, que idealmente precisam produzir conforme as necessidades um do outro, de fato determinam sua produção de acordo com o impulso de valorização dos seus próprios capitais; visam seus lucros, sen considerar ex ante que os mesmos tem que se realizar por meio da venda do seu produto aos outros departamentos econômicos (Singer, 1989, p 17-20). Na fase de expansão, o sistema dispõe de reservas da fase precedente de desaceleração como excedente de mão-de-obra, capacidade produtiva ociosa, matéria-prima estocada, terra improdutiva, às quais se agrega a ‘poupança’ pública e privada como pedra de toque da retomada da expansão. A nova expansão pode ter inicio a partir de setores produtivos que possuem grande repercussão na estrutura de reprodução material da sociedade. A indústria da construção civil, por exemplo, capaz de provocar, por meio da sua rápida expansão, uma demanda importante para o Departamento I, como canos, máquinas, cimento, vidros, azulejos etc, para o Departamento lí, como tecidos e alimentos, decorrentes do maior volume de emprego e, possivelmente, de salários dos trabalhadores empregados neste setor; e para o Departamento III, como eletrodomésticos, carros etc, consumidos por capitalistas, gestores intermediários da produção e trabalhadores em geral Uma or.da de expansão iniciada em alguns setores tende, por um efeito cascata, a estender-se sobre todos os demais setores e departamentos econômicos. Quando as reservas precedentes à fase de expansão esgotam-se, quando uma expansão reiterativa da produção dá lugar à acumulação real, os problemas começam a ser gerados. Os capitais, procurando os investimentos de retomo maior, mais rápido e mais seguro, tendem a se concentrar em determinados setores e ramos de atividades, em detrimento de outros. ‘Gargalos’ gerados em setores e ramos de atividades que exigem investimentos de grande monta e de retomo a longo prazo (como as atividades do Departamento I) podem não mobilizar os capitais necessários para a sua expansão. A mobilização dos capitais pode não ser o bastante para conter a interrupção precoce de uma fase de expansão real, visto que o tempo de ampliação e/ou montagem de novas unidades produtivas, especialmente em se tratando do Departamento I, é sempre de médio a longo prazo. A escassez e elevação de preços decorrentes podem transformar seus produtos em mercadorias proibitivas a diversas empresas, desencadear falências, elevar custos gerais de toda a estrutura produtiva, provocar ciclos de inflação e retomar as grandes taxas de desemprego 9 O conceito ‘departamento econômico’ é primeiramente formulado por Marx (1973, vol. II, 3 seção). Para compreender a reprodução ampliada do capital em escala nacional, Marx opera uma separação da economia em Departamento I, produtor de bens de produção e Departamento II, produtor de bois de consumo. Kalccki (1983, p 35-55) propôs um novo esquema, desmembrando o segundo departamento econômico (originalmente 14
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    A mobilização eadequado investimento da poupança social em atividades do Departamento I, materializada em uma satisfatória ampliação da sua produção, pode acarretar uma carência de recursos nos Departamentos II e III, formadores da sua demanda, Além disso, a sua própria acumulação e dos seus agentes financeiros pode ser comprimida pela pressão de custos que exerce sobre os demais. De uma forma, ou de outra, a crise e os seus sintomas tendem a reaparecer. Em outras palavras, em uma economia de mercado a cada ‘gargalo’ superado em um dado período outros se formam. Na esfera da produção mais ampla (que engloba como etapas a da circulação e a da produção imediata de mercadorias pelo capital), a crise econômica capitalista se expressa de forma mais completa e complexa. É nesta esfera que a negação do trabalho vivo pelo morto (capital) se manifesta na tendência ao crescimento proporcional do valor do capital constante em relação ao capital variável, levando à queda da taxa média de lucro mesmo com um possível aumento da taxa de mais-valia. Para conservar/ampliar a taxa de mais-valia extraída e conservar/baixar custos de produção, o capitalista recorre ao aumento de capital fixo. O crescimento do capital fixo em relação ao trabalho - tecnologizaçâo da produção - é o principal meio para aumentar a produtividade do trabalho, e o crescimento do capital fixo em relação ao produto - a capitalização da produção - é o principal meio para reduzir os custos unitários de produção O crescimento do capital fixo por produto unitário é o elemento mais importante para se obter economias de escala. As empresas sob economias de escala viabilizam o crescimento do volume de matérias-primas processadas por trabalhador Como resultado, tanto as matérias- primas como a produção de mercadorias tendem a aumentar por unidade de trabalho. Concomitanlemente, o maior volume de capital fixo por produto unitário implica maior despesa de depreciação do referido capital e maiores custos de materiais auxiliares (eletricidade, combustível, instalações prediais etc) por produto unitário. Conforme indicou Bottomore, (...) para métodos mais avançados, a maior capitalização (capital adiantado por produto unitário) implica maiores custos unitários não relativos a trabalho (capital constante unitário C), enquanto a maior produtividade implica m aiores custos unitários com o trabalho (capital variável unitário V) No salto, o custo unitário de produção C+V deve declinar, de modo que o último deve mais do que compensar o primeiro Sob condições 15 trabalhado por Marx) em Departamento II, produtor de bens de consumo corrente e Departamento III, produtor de bens de consumo duráveis. Adotaremos o esquema desenvolvido por Kalecki
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    técnicas determinadas, nomomento em que os limites do conhecimento e da tecnologia existentes forem alcançados, os aumentos subseqüentes no investimento por produto unitário provocaria reduções cada vez menores nos custos unitários de produção (Botiomore, 1988, p. 372). A conseqüência principal desta dinâmica é que os métodos mais avançados tendem a proporcionar maior custo unitário de produção on detrimento da taxa de lucro (que tende a cair). Ainda que os salários e a intensidade e duração dajornada de trabalho se conserve, o aumento da composição orgânica do capital (capital constante suplantando crescentemente o capital variável na composição do capital) tende a elevar-se mais rapidamente do que a taxa de mais-valia, determinando a queda da taxa goal de lucro. Em que pese todo este quadro, a concorrência capitalista empurra os capitalistas a adotarem a capitalização (ou tecnologização) da produção. Aqueles que primeiramente adotam os ‘novos’ métodos de capital mais intensivo, ao reduzir custos podem reduzir também seus preços abocanhando parte do mercado junto aos seus concorrentes. Podem também manter por um determinado período uma acumulação relativamente elevada para os padrões gerais da ‘nova’ realidade da acumulação. Aqueles capitalistas que lhes seguem na aplicação do referidos métodos não dispõe desta acumulação relativamente elevada, visto que recoloca-se uma nova guerra de preços, reduzindo a acumulação. Aqueles capitalistas que não conseguem aplicar os novos métodos vão à falência ou restringem-se a um papel econômico periférico e quase tão- somente reiterativo. Para o capitalista individual que primeiramente adota estes métodos de capital intensivo, o menor custo unitário obtido permite reduzir preços e expandir-se a expoisas de seus concorrentes, compensando sua menor taxa de lucro (por unidade produzida), por meio de uma fatia maior do maçado. Aqueles que adotam os referidos métodos tardiamente e/ou estão sujeitos a pressões financeiras, estão sujeitos, ao mesmo tampouco, a uma taxa de lucro ainda menor e a uma acumulação igualmente menor no conjunto do ciclo econômico. No sistema cano um todo, o resultado é a queda da taxa média de lucro Este resultado determina um desestimulo crescente à acumulação, ou seja, da realização de novos investimentos, tendo em vista a manutenção/ampliação da massa de lucros A estagnação da massa total de lucro, enquanto uma ‘onda longa' no sistema, tende a conduzir, em um certo momento, a uma crise geral do sistema. Conforma-se, portanto, a tendência secular de queda da taxa média de lucro (processo ao longo do qual ‘ondas longas’ de crise e de acumulação necessariamente ocorrem) 16
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    A tendência dequeda da taxa média de lucro convive com contra-tendências neutralízadoras (Coggiola (Coord), 1996, p. 194-195; Bottomore, 1988, p. 371-373; Sweezy, 1976, p. 125-128). A contenção salarial; a intensificação do processo de exploração da força de trabalho; a eliminação de conquistas trabalhistas; a recriação de formas de exploração e dominação extra econômica (escravidão, servidão, etc); a geração de capital constante mais barato por meio de uma determinada tecnologia disponível; a migração de empresas para espaços sócio-econômicos e territoriais oom força de trabalho e recursos naturais mais baratos; o desenvolvimento de novos métodos de gestão da produção que alcançam maior racionalização da produção e intensidade do trabalho; a terceirização de fases da atividade produtiva barateando custos de serviços e produtos; a importação de bens de consumo para assalariados e meios de produção mais baratos; o desenvolvimento de indústrias complementares nas quais a composição orgânica de capital fosse relativamente baixa, entre outros processos, podem contribuir para a elevação da taxa de lucro, aumentando a taxa de exploração e/ou baixando a composição orgânica do capital. Tais processos são tão importantes para o capitalista individual como para o sistema como um todo. Os referidos processos (entre outros) podem compra- um processo mais amplo, qual seja, a reestruturação produtiva Enquanto tal será, necessariamente, um mecanismo voltado para assegurar, de um lado, o avanço das forças produtivas, e, de outro, a re-subradinação do trabalho ao capital com novos métodos oiganizativos/administrativos que esvaziem o potencial de resistência dos trabalhadores A reconstituição e/ou ampliação do exército industrial de reserva nos quadros da crise possui uma importância particular enquanto uma contra-tendência à tendência de queda da taxa média de lucro. A perda de estímulo para novos investimentos e a destruição de forças produtivas (falências, concordatas, desvalorização e/ou destruição dos excedentes etc) provocados pela crise, proporciona um ambiente extremamente favorável para a diminuição dos salários e para a queda das condições de trabalho graças à super-oferta da força de trabalho. Tal processo diminui o custo do trabalho no âmbito dos custos da produção e é um importante fator de ampliação das taxas de extração de mais-valia. Destacamos também enquanto contra-tendência à tendência de queda da taxa média de lucro o papel que o Estado passa a cumprir a partir da crise de 1929. A conversão do fondo público em fondo de financiamento da acumulação, a possibilidade de mobilizar capitais especulativos e canalizá-los para a produção, por meio da emissão de títulos, a transformação do Estado em agente produtivo que pode determinar sob certas conjunturas o perfil da conjuntura ou período econômico e/ou abrir mão dos seus ganhos em beneficio da iniciativa privada, o 17
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    desenvolvimento de pesquisastecnológicas e científicas para o capital, a condição de grande comprador e impulsionador/contratador de obras públicas, entre outras condições e atribuições, edifica o Estado como uma instituição anti-crise e de contra-tendência à queda da taxa média de lucro. E necessário reconhecermos, ainda, que a crise, enquanto realidade do sistema capitalista e independentemente de ser mais ou menos destrutiva, será parte constitutiva do processo de concentração e centralização de capitais (Coggiola (Coord.), 1996, p. 303-315). O referido processo, em tomos econômicos globais de cada país (não de cada empresa enquanto unidade produtiva), apresenta uma fase em que predomina a concentração e outra em que predomina a centralização de capitais. Na fase da concentração de capitais - precedida por uma fase de centralização de capitais e desencadeada por uma nova etapa de competição oligopolista e monopolista e/ou pela atuação de governos por meio da manipulação de políticas econômicas - as reservas de capitais acumulados por parte das empresas e presentes na órbita financeira são aplicados na ampliação quantitativa e/ou qualitativa das empresas, verticalízando e/ou horizontalizando os espaços de atuação dos seus capitais. Nesta fase, o crescimento das despesas ocorre passo a passo com o aumento das receitas. A rigidez relativa entre a estrutura de custos e o nível das receitas determina uma instabilidade para as empresas que necessitam contar com provisão financeira - com exceção dos oligopólios e uma parte dos monopólios, a maioria das empresas necessitam da referida provisão, obtida junto ao sistema financeiro As empresas não monopolistas ou monopolistas sem suporte de autofínanciamento somente dispõem de duas alternativas: ingressar na fase da concentração de capitais (sob pena de reduzir suas receitas em relação às demais empresas) ou amargar uma gradual marginalização no mercado. Desencadeado o processo, conforma-se a tendência à homogeneização das taxas de retomo imposto pelos oligopólios e monopólios, com grandes conseqüências econômicas. As empresas que não efetuam despesas, embora com taxas de retomo superiores à taxas de retomo média imposto pelos oligopólios e monopólios possuem receitas infinitamente inferiores. Aquelas empresas monopolistas ou não que recorreram intensamente aos empréstimos junto ao sistema financeiro também apresentam uma receita inferior aos oligopólios e monopólios que se auto-fínanaaram No curso do prooesso da concentração de capital - no qual ocorre a reprodução ampliada do capital, ou sqja, expansão que ultrapassa a pura e simples reiteração econômica - o impacto desencadeado pela nova taxa de retomo e os custos financeiros de muitas empresas será a falência e consequente incorporação daquelas despreparadas paia a competição nos termos ditados pelas maiores e mais capitalizadas. Em consequência, diminui o número de empresas e 18
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    19 intensifica o controledos oligopólios e monopólios sobre o mercado. Consumado o processo tem inicio novamente a fase de centralização de capitais, ou seja, de capital líquido na forma de lucros das empresas diretamente produtivas que ampliam suas receitas - oligopólios e monopólios - ou empresas financeiras que partilham dos lucros das empresas que recorrem a financiamentos - boncGS, bolsas de vaiores etc. A nova massa de capitais não diretamente aplicado, ou reserva de poupança, começa a ser recomposto preparando as condições para uma nova fase de concentração de capitais. A crise, ir.dependentemente da sua extensão e natureza, cumpre sempre um importante papel na reprodução ampliada do capital, qual seja, o de destruir para construir em novas bases. A crise (incompatibilidade entre produção e consumo; interrupção do fluxo de compras e vendas ou de pagamentos, desproporcionalidade e desequilíbrio entre os departamentos econômicos em que se divide o capital social; queda da taxa média de lucro; sobre-acumulação; desvalorização do capital existente e contradições inerentes à dinâmica de concentração e centralização de capitais) será, portanto, fruto da contradição constitutiva do capital. As crises não levam a um colapso econômico final capaz de destruir completamente e de uma só vez o sistema Para Marx, o fim das crises somente pode advir do trabalhador, que tomando consciência de si mesmo e das relações sociais que o envolvem, edifica-se como o sujeito real e verdadeiro da produção (dominando o sujeito abstrato, representado pelo capital). O capitalismo, cuja essência é a (relação de) contradição inscrita na sua própria origem, desaparece com a eliminação da referida contradição; o que equivale reconhecer que a crise no capitalismo somente seria superada por meio da superação do próprio sistema. A concepção de crise em Marx, conforme identificamos, não pode ser separada da dinâmica do capital e, nem tampouco, a superação definitiva da crise no capitalismo fora da superação do próprio capitalismo Neste ponto reside a unidade dialética da concepção marxista a cerca do capital e da cnse As teorias que se encontram fora desta concepção (incluindo aquelas que se reivindicam da teoria econômica de Marx), de forma explícita ou não, conformam-se enquanto teorias (ou metodologias) para o capital. Em nossa perspectiva, cada processo de crise no capitalismo compõe uma teia específica de articulação destes elementos estruturais' identificados por Marx A crise, portanto, deve ser compreendida enquanto crise das relações capitalistas de produção e que, como lai, pode encontrar, como obstáculos conjunturais à sua reprodução, realidades económico-sociais e/ou institucionais Os obstáculos à reprodução capitalista poderão inviabilizar ou imprimir um curso particular ao desenvolvimento capitalista A forma e o sentido da superação destes obstáculos
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    20 serão, necessariamente, umaconsequência da interferência das classes, movimentos, grupos sociais e partidos políticos, em uma dada conjuntura nacional e internacional e sob uma determinada correlação de forças, em nível das superestruturas sociais. Postas estas considerações gerais, é necessário que superemos alguns equívocos quanto ao entendimento do conceito crise no sistema capitalista Pnmeiramente, é necessáno que se compreenda que a crise não é algo anormal ao sistema capitalista. Ela compõe a essência do referido sistema e é necessária à sua própria reprodução Em segundo lugar, compreender que cada crise possui a sua especificidade Uma crise poderá ser induzida ou não pelo poder público, como também ser mais ou menos duradoura. Em terceiro lugar, devemos distinguir as crises em função do grau e profundidade da sua repercussão. Neste sentido, as crises podem ser de repercussões mais imediatas e de curto prazo, que decorrem de flutuação dos indicadores econômicos e da re-acomodação produtiva das atividades econômicas; de repercussão mais ampla, que podem fíndar/criar novos ciclos expansivos no âmbito de um padrão de acumulação e financiamento; e, finalmente, de repercussão muito ampla, que caracterizam o esgotamento de um padrão de acumulação e financiamento capitalista Em quarto lugar, devemos reconhecer que a crise no capitalismo não possui causalidades puramente econômicas e que estas podem não encontrar-se entre os fatores mais importantes na deflagração de uma crise econômica O que implica orientarmo-nos por uma perspectiva de totalidade, ou seja, localizar fatores sociais, políticos, econômicos e ideológicos que concorram para uma crise, bem como hierarquizá-los segundo a sua importância na conjuntura. Em quinto lugar, a crise provoca, inexoravelmente, uma estagnação ou acumulação restrita de capital em termos econômicos globais. Comumente ocorre, paralelamente a este processo, a transferência de mais-valia e rendas para os grupos monopolísticos e oligopolísticos assegurando-lhes elevadíssima acumulação. Em sexto lugar, uma crise econômica pode estar criando condições sociais, políticas, econômicas e ideológicas para uma nova fase de acumulação do capital. Neste sentido, a destruição desencadeada pela crise pode ser um pressuposto para uma nova construção (ou expansão das relações capitalistas de produção). Capitalismo e Experiências ‘Pós-Revolucionárias As contradições emergidas do capitalismo e indicadas por Marx dão conta de evoluir
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    para processos revolucionáriosno século XIX e, principalmente, no século XX Alguns destes processos são derrotados, a exemplo da Comuna de Paris de 1871, outros nos legam as experiências ‘pós-revolucionánas’, a exemplo do leste da Europa e da China. As experiências ‘pós-revolucionários’ denominadas ‘socialismo real’ não logram realizar a ulopia socialista. 0 burocratismo, as relações autoritárias de poder, a corrida armamentista, o desequilíbrio do desenvolvimento do processo produtivo, o atraso técnico- científico comparado aos centros dominantes do capitalismo, são demonstrações inequívocas da deturpação e desvirtuamento das sociedades ‘pós-revolucionárias’. E trivial - senão conservador - fixarmos apenas nas condições objetivas para explicar os ‘desvios’ e ‘insuficiências’ dos processos de construção do socialismo nas sociedades ‘pós- revolucionárias’. E necessário salientarmos a distância estabelecida entre essas experiências históricas e a utopia socialista, especialmente a violentação da práxis da transformação social pela ação das vanguardas políticas Em outras palavra, é menos importante compreender a superioridade tecno-científica dos centros imperialistas quando comparado com a identificação dos obstáculos que as estruturas de poder construídas nas experiências ‘pós- revolucionárias’ acarretam no sentido da incompetência, acomodamento, desilusão e desperdícios, tendo em vista a compreensão da crise das referidas experiências. A transição do capitalismo para o socialismo somente poderá assegurar a superação da propriedade e do controle privado dos meios de produção se tal processo encontrar-se integrados coerentemente com o caráter social da produção e basear-se em uma hegemonia do mundo do trabalho. A contradição dialética entre a intervenção direta do mundo do trabalho (expresso no conceito ‘controle social da produção’) e os centros de poder externo ao mundo do trabalho (expresso na nova estrutura de poder construída) deve ser superado pela gestão direta da produção já nos primeiros ‘momentos’ da transição para o socialismo. Dessa forma, poderá ser possível libertar e harmonizar o desenvolvimento das forças produtivas com as necessidades da sociedade humana. Nada disto ocorre nas sociedades ‘pós-revolucionárias’ do século XX. A práxis política de transformação social deve superar qualquer prática política sectária e golpista, de forma a orientar-se pela ética e pela autonomia do movimento. O sentido estratégico da práxis pode significar a realização da utopia socialista ou a sua negação, a transição para o socialismo ou a crise de definição e de perspectivas em sociedades ‘pós- revolucionárias’. Os equívocos das concepções predominantes nas experiências ‘pós-revolucionárias’ não permite que a tese de Marx, segundo a qual a propriedade dos produtores sobre os meios 21
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    de produção libertariao desenvolvimento das forças produtivas, fosse confirmada ou refutada pela ação concreta dos atores sociais do mundo do trabalho. Capitalismo e Conflito Social O papel transformador do mundo do trabalho e a transição para o socialismo sofrem uma crise para algumas análises marxistas sobre sociedades capitalistas de intermediário e de elevado grau de desenvolvimento das forças produtivas. Para situarmos o debate necessitamos identificar alguns aspectos da sociedade capitalista do final do século XIX e do século XX. Marx previa um conteúdo revolucionário e permanente do capitalismo no plano do desenvolvimento das suas forças produtivas. Para Marx, o capitalismo removeria a camisa-de- força sob a qual as forças produtivas encontrariam-se submetidas nas sociedades pré- capitalistas e as conduziria de tal forma que as contradições, no que concerne às relações capitalistas de produção, estabeleceriam um período revolucionário de transição para o socialismo. A tendência de proletarização crescente de amplas camadas da sociedade e a internacionalização do espaço e política revolucionárias haveriam de se constituir em uma conseqüência dialética do processo. Essas previsões de Marx não se confirmam plenamente. No seu processo de desenvolvimento o capitalismo mundializa-se definitivamente, estende os seus tentáculos sobre todas as esferas da vida social e alcança o estágio de capitalismo monopolista de Estado. Mas nesse processo (e como reação a estratégia socialista) produz-se um conjunto de iniciativas e instrumentos no sentido de garrotear a contradição fundamental capital versus trabalho, de forma a buscar a subordinação do desenvolvimento das forças produtivas às relações capitalistas de produção. No plano técnico e científico o desenvolvimento das forças produtivas encontra-se deprimidas por que estão vinculadas necessariamente ao desperdício e ao luxo elevado e irrestrito. Grandes somas de excedentes são transferidas para financiar e manta-a indústria da guerra: indústrias locomotivas do sistema, como a de automotores, produtoras de veículos de luxo e de decrescente duração, secundarizam a produção de meios de trabalho produtivo e de transporte de massa; informática e eletrônica, sob os limites das relações capitalistas de produção, canalizam-se muito mais para área de distribuição, serviços e pesquisas, do que para os processos de produção propriamente ditos, e assim por diante. A sociedade norte-americana, locomotiva do capitalismo e paraíso do ‘modus vivendi' burguês ocidental é paradigmática O elevado grau de desenvolvimento das suas 22
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    forças produtivas expressamesse conteúdo repressivo e destrutivo, por meio do luxo e desperdício nacionais, financiados graças a um sucateamento do sistema produtivo e paupenzação social da periferia do mundo capitalista (América latina, África, etc) e pela guetifícação social de parcelas da população da própria sociedade norte-americana O inacionalismo econcmico’ atinge o seu clímax e dramaücidade no próprio déficit público anual dos Estados Unidos, no momento superior a um terço da dívida externa fixa do chamado ‘terceiro mundo’. No plano político o desenvolvimento das forças produtivas encontra-se deprimido, pnmeiramente, pela institucionalização das lutas sociais. As reformas eleitorais e trabalhistas conduzidas na Alemanha no final do século XIX por Otto von Bismarck e posteriormente exportadas para outros países são capazes, respectivamente, de integrar/subordinar a ação política da esquerda ao campo institucional e de lançar as bases das progressivas reformas sociais e de seguridade social que redundaria mais tarde no Estado do bem-estar sodaL A carência de uma política econômica coerente com estas reformas e a necessidade de controlar a instabilidade depressiva e as crises termina por proporcionar a teoria keynesiana de regulação econômica A revolução produtivista proporcionada pelos métodos fordista e taylonsta de gestão produtiva integra estas mudanças institucionais A divisão técnica do trabalho realizado por estes métodos assegura a ampliação da produção sem que para tanto tenha que assegurar um trabalhador com ampla consistência intelectual e motivado pelo trabalho coletivo. Combinadamente, o fordismo, o taylorismo e, a partir das últimas décadas, o toyotismo advoga nos países de capitalismo central a produção em massa e consumo em massa, nela incluído os trabalhadores. Amplia-se progressivamente a partir do final do século XIX as reservas sociais e políticas da hegemonia burguesa. O capitalismo encontra um meio de integrar, sob determinados limites, as expectativas individuais de consumo e conforto das pessoas em geral e dos trabalhadores em particular com a necessidade de reprodução material dele mesmo. Este processo, consolidado nas décadas de 50 e de 60 na forma dos chamados anos dourados do capitalismo, provavelmente teria ocorrido antes não fosse as duas grandes guerras mundiais No plano da formação da consciência o desenvolvimento das forças produtivas encontra-se reprimido devido a manipulação científica das necessidades, dos desejos, das satisfações, dos prazeres. Esta manipulação representa um reforço complementar à unificação e integração da sociedade Surgida da combinação entre a mídia eletrônica e a psicologia comportamental - manipuladas cientificamente - da opera em nívd da publicidade, da
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    indústria da diversão,etc, de forma a gerar o nó górdio entre a superestrutura político- ideológica e a base do processo produtivo. Esse padrão ‘amencanista’ da sociedade de trocas, emergido da concepção liberal do trabalho e da reifícação do mercado, tem funcionado como um importante pára-choque das contradições e conflitos sociais. A razão crítica transformadora, que se apresenta como algo irresistível para os marxistas do final século XIX e início do século XX, dá lugar à uma razão crítica instrumental, fruto da coisificação humana na sociedade de trocas. A perspectiva do desenvolvimento da consciência ‘em si’ para a consciência ‘para si’ - transformadora e mternacionalista - não se realiza na sociedade da Revolução de Outubro. Na Europa Ocidental, após as tentativas revolucionárias das primeiras décadas, podemos mesmo concluir ter ocorrido um refluxo da consciência ‘era si’ para a consciência ‘corporativa’. O capitalismo monopolista de Estado - proveniente da fusão das instituições e órgãos públicos com os núcleos dirigentes dos monopólios e oligopólios - consegue reprimir o desenvolvimento da contradição estabelecida entre as forças produtivas e as relação de produção capitalistas por meio da combinação entre a planificação econômica e aparelhos públicos e privados de hegemonia. A concepção marxista da passagem do capitalismo para o socialismo passa a conviver, a partir de então, com abalos emergidos da nova configuração do capitalismo. Ao construir novas reservas políticas e ideológicas a classe dominante não perde de vista o terreno nacional como a base fundamental para a realização do seu domínio. Os países de economia central buscam garantir índices de bem estar para parcelas substanciais das suas populações, visando promover ahos níveis de estabilidade política e o tempo e espaço necessário para fortalecer sua hegemonia ideológica O capital oligopolista e financeiro internacional compreende que a coesão interna dos países de capitalismo central é fundamental para manutenção do domínio do capital em plano mundial. Nos países de capitalismo periférico a ‘pauperizaçào progressiva’ é real para amplos setores. Contudo, os aparelhos de hegemonia, a militarização do Estado, os recursos da política tradicional, a constituição de segmentos sociais médios privilegiados, entre outros elementos, constituem-se em amortecedores das contradições sociais, isto é, convertem em mecanismos de contenção do desenvolvimento da luta de ciasses na perspectiva da transformação social. O capitalismo não pode conter ad eterno a contradição fundamental estabelecida entre as forças produtivas e as relações de produção. A subordinação das forças produtivas is relações de produção pode estar sendo abalada por meio da globalização da economia, do 24
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    acirramento da competitividade,da reestruturação produtiva, da desregulamentação econômica, da demolição e/ou minimização do Estado do bem-estar social em diversos países, da desregulamentação do mercado de trabalho, entre outros processos, em curso a partir dos anos 70 na Europa Ocidental e Japão e anos 80 e 90 do século XX no restante do mundo. As crises econômicas periódicas, o acirramento da disputa de hegemonia entre cs blccos imperialista, a elevação do movimento operário internacional, a luta pela garantia das conquistas conduzidas pelo ‘socialismo real’ no leste da Europa, são exemplos de processos que expressam luta de classe e que são capazes de proporcionar acirramentos da contradição fundamental Em que pese o contexto histórico favorável para o desenvolvimento do capitalismo no início do século XXI, não há como não reconhecer que ele sofre derrotas importantes. O movimento anti-globalização, a internacionalização da luta pelo socialismo, os limites da ação imperialista no mundo muçulmano, etc, evidenciam, por um lado, processos históricos que não podem simplesmente ser removidos pelo capitalismo e, por outro, as condições básicas e fundamentais destes conflitos não possuem solução no seu interior. O Marxismo Reprimido A dinâmica de reprodução ampliada do capital e as novas configurações sociais, políticas, econômicas e ideológicas do desenvolvimento capitalista proporciona um ambiente que pode desencadear a superação de alguns conceitos e categorias do marxismo. Na verdade, uma previsão feita pelo próprio marxismo. Todavia, a crítica a conceitos e categorias marxistas esta dando lugar a crítica ao método e a própria praxis política da transformação social. Os maiores adversários do marxismo emergem, não raramente, por dentro dele próprio. O revisionismo de Bernstein, Kautsky ou Mach, que buscam criticar o núcleo central das estruturas de análise que compõem o método e filosofia, são exemplos desta realidade. Os ideólogos da Teologia da Libertação reivindicam o ‘método marxista’ destituído da sua filosofia Na verdade, propõem um retomo à um paraíso perdido: o begelianismo de esquerda. Pára os magos da ‘nova esquerda', o marxismo é superado enquanto doutrina e filosofia revolucionária, restando um referencial - junto a outros - para interpretação e crítica do capitalismo. O marxismo - como momento da práxis revolucionária é dispensado, em função de um ecletismo metodológico e humanista neo-idealista A ala esquerda da social- 25
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    democracia (e aliados),questionam para além do método. Conceitos universais como: luta de classes, ruptura, revolução, entre outros, para esses setores fazem parte do grande sistema mitológico representado pelo ‘marxismo revolucionário’. Conforme Lukács, A função do manasir.o ortodoxo - superar o revisionismo e o utopismo - não é a liquidação, de uma ve7 por todas, de falsas tendências, mas sim uma luta incessantemente renovada contra a influência corruptora de formas do pensamento burguês sobre o pensamento do proletariado Manter o ‘alvo fina!’ ou a ‘essência’ do proletariado isentos das distorções do materialismo vulgar, significa a compreensão da realidade, a atividade crítica prática, a superação da dualidade utópica do sujeito e do objeto, da teoria e da práxis Esse quadro emerge de um duplo processo De um lado, a crise das experiências ‘pós-revolucionánas’ expressa, principalmente, por meio das burocracias autoritárias, das contradições nacionais e do atraso técnico e cientifico dessas sociedades De outro lado, pela enorme capacidade repressiva desenvolvida pelo capitalismo junto às suas contradições básicas e fundamentais. A crise das sociedades ‘pós-revolucionárias’ e os novos obstáculos à luta pelo socialismo nos países periféricos e, principalmente, centrais do capitalismo, gera uma perplexidade no movimento socialista, de forma a expressar concepções revisionistas. Recriadas tendo como referência a social-democracia européia e desenvolvidas em novas e diversas formas, estas concepções estão quase sempre preocupadas com as ‘antinomias do marxismo’. Os críticos do marxismo ‘ortodoxo’ ampliam a sua influência, principalmente por meio da academia O marxismo universitário desloca o centro de reflexão do movimento social e da luta de classes, como determina a melhor tradição marxista, para a academia. E como tal reivindica a separação da dialética do materialismo, da interpretação da realidade da articulação à perspectiva do mundo do trabalho; e do mundo do trabalho da transformação social. Esta é sempre o centro da ação política, teórica e filosófica de inspiração pequeno-burguesa contra o marxismo clássico. Não mais se estabelece uma relação dialética entre sujeito e objeto; quem conhece, conhece para si e para a academia e não para a classe. O conhecimento reflui para o plano da especulação e da ‘objetividade’ científica Em certa medida, o marxismo universitário expressa o próprio processo de cooptação ideológica desenvolvido pela hegemonia burguesa, de forma a reduzir o marxismo a um método, concepção e teoria especulativa. A décima primeira tese sobre Ludwig Feuerbach é rejeitada, consciente ou inconscientemente, por amplos setores. Ainda segundo Lukács, 26
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    27 O marxismo ortodoxorefere-se ao seu método. Implica na convicção científica de que com o marxismo dialético encontrou-se o método coneto de investigação e de que este só pode ser desenvolvido, aperfeiçoado e aprofundado no sentido indicado por seus fundadores; mais ainda: implica na convicção de que todas as tentativas de superar’ ou ‘melhorar’ este método conduziram e necessariamente deveriam fazê-lo - a sua trivialízaçâo, transformando-o num ecletismo A denominada crise do ‘marxismo’ surge da incompreensão, em uma perspectiva histórica, da contradição formada entre o desenvolvimento crescente das forças produtivas e os obstáculos representados pelas relações de produção Contradição esta relegada pelos novos revisionistas de sempre Marx indica na obra Para a Critica da Economia Política (1858) as tendências económico-tecnológicas internas ao desenvolvimento capitalista e que proporcionariam a sua tendencial dissolução: (Marx, 19.., p ..). A medida que a grande indústria se desenvolve, a criação de riqueza real depende menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho empregado e mais da potência dos instrumentos colocados em operação durante o tempo de trabalho. Esses instrumentos e a sua poderosa eficácia não são proporcionais ao tempo de trabalho imediato requerido pela produção; sua eficácia depende antes do nível científico adquirido e do progresso tecnológico, ou seja, da aplicação da ciência a piodução.. - O trabalho humano não mais aparece então encerrado no processo de produção; é antes o homem que é ligado a esse processo apenas como supervisor e regulador. Ele está fora do processo de produção, ao invés de ser o seu agente principal... Nessa transformação, a base da produção e da riqueza não é mais o trabalho imediato realizado pelo homem, nem o seu tempo de trabalho, mas a apropriação de sua produtividade universal (poder criador), isto é, de seu conhecimento e de seu domínio da natureza através de sua existência social; em suma, do desenvolvimento do indivíduo social (das muitas capacidades). O furto do tempo de trabalho de um outro homem, sobre o qual se funda ainda hoje a riqueza social, aparece então como uma base bastante miserável, em comparação com a nova base criada pela grande indústria. Tão logo o trabalho humano, em sua forma imediata, deixe de ser a grande fonte de riqueza, o tempo de trabalho deixará de ser e de um modo necessário - a medida da riqueza; e o valor de troca deixará de ser a medida do valor de uso O sobre-trabalho da Massa (da população) cessará de ser a condição para o desenvolvimento da riqueza social, e a situação privilegiada de alguns deixará de ser a condição para o desenvolvimento das faculdades intelectuais universais do homem. Então, cai o modo de produção baseado sobre o valor de troca O colapso do capitalismo em Marx está ligado a tendência de crescente automação fruto da enorme centralizaçâo/concentração do capital, no qual o produtor estaria cada vez mais livre do processo de produção. O produtor poderia, desta forma, desenvolver a crítica radical da sociedade capitalista e burguesa e construir a consciência de classe ‘em si’ e a consciência de classe ‘para si’, de forma a compreender o sentido ‘pré-histórico’ da
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    apropriação privada dosfrutos do trabalho e apreender a necessidade de remover a contradição em favor do desenvolvimento humanizado das forças produtivas. A modernidade do capitalismo tem evidenciado a tendência, mas contraditoriamente, tem desenvolvido instrumentos para reprimi-la Objetivamente, o revisionismo enfraquece o marxismo como teoria da critica radical e priva o próprio método da práxis da perspectiva da transformação social. Por não compreender esta dinâmica do processo histórico, o resultado tem sido um retomo ao tipo de orientação política que majoritariamente grassa no Partido Social-Democrata Alemão, sob a direção de Kautsky e Bemsíein. A estratégia gradualista para o socialismo no plano da tática política é orientado por uma política institucional-parlamentar, respaldado por um movimento sindical reivindicativo-imediatista Em nível da ciência priva o trabalho científico do seu sentido de classe e transformador, de forma a reduzir-se a um conhecimento ‘objetivo’. Em outras palavras, reduz o marxismo a uma manifestação ‘positivista’ de esquerda Libertar o marxismo do revisionismo ocupa grande importância na práxis voltada para a transformação social A exemplo de Lukács e da Escola de Frankfurt é necessário que sejamos ‘ortodoxos’ na defesa da sua essência, o método. Combinadamente, é necessário desenvolver uma estratégia político-cultural mediada por uma camada de intelectuais orgânicos de classe, capazes de proporcionar a construção de um movimento social amplo e radical o bastante para efetuar a crítica ao capitalismo e dirigir a construção da consciência de classe ‘em si’ e ‘para si’. Enfim, articular uma intervenção ao nível da infra e superestrutura social, informado por uma nova concepção de mundo, social-revolucionária, que permita a conformação de um novo bloco histórico capaz de remover os obstáculos criados pelo capitalismo para o avanço do processo histórico. Construir a Autonomia do Marxismo Até a década de 30 do século XX partidos comunistas, a exemplo do italiano, exercem uma influência criativa no desenvolvimento do marxismo O marxismo se articula à prática social e deste processo resultam transformações que o enriquecem. Posteriormente, sob a influência dos conflitos estabelecidos entre a II e a Dl Internacionais e, principalmente, por causa da relação burocrática, autoritária e a-crítica estabelecida entre a UI Internacional e os partidos comunistas e destes para com seus militantes, grande parte da atividade teórica marxista acaba por se transferir para as universidades e se desvincular da prática política Como consequência emergem novas 28
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    concepções a cercado marxismo e que não raramente divergia do pensamento original de Marx e Engels. O desvirtuamento do marxismo encontra a partir de então um campo fértil Isto porque o acadêmico não leva muitas vezes em emita as consequências práticas do seu pensamente, de forma a desautorizar um aspecto centrai dc marxismo, qual seja, articular criativamente a teoria e a prática O marxismo universitário haveria de enriquecer e, ao mesmo tempo, desviar o curso do marxismo. Superar o marxismo universitário é um passo importante no sentido do resgate da priais transformadora Outra iniciativa importante é libertar o marxismo da camisa de força representado pelo leninismo O conceito ‘leninismo’ não possui um sentido de ‘universalidade’ na perspectiva de uma priais transformadora Formado no período da IO Internacional a partir da necessidade de desenvolver uma organização partidária para a luta da transformação social em um contexto caracterizado por uma profunda repressão política, tal conceito prolonga-se para uma determinada concepção da internacional, do Estado soviético e de direções partidárias, cujas únicas interpretações válidas passam a ser aquelas emergidas da estrutura partidária. O ‘marxismo’ enquanto teoria leninista da revolução e amalgamado na política do partido perde a sua flexibilidade e autonomia como método de análise perante as práticas de partido. Não é casual a aise de elaboração ao nível da teoria e filosofia marxista ao longo do período, na medida em que um aspecto essencial à teoria crítica, qual seja, a liberdade de interrogação, encontra-se condicionado a estrutura orgânica do partido, a sua prática social, a sua concepção e o seu programa Libertar o marxismo do leninismo não significa o retomo a um marxismo contem­ plativo. A superação do leninismo poderá proporcionar espaços para a reafirmação do método de análise marxista, condição necessária para a construção de uma teoria critica superior do capitalismo, para a construção de novos instrumentos de luta do mundo do trabalho e para a derrota estratégica do social-reformismo. A articulação destas diversas frentes de intervenção política do marxismo deve partir da sua própria crítica e convergir no reconhecimento da realidade nacional, de forma a identificar o novo estágio do capitalismo e suas contradições básicas; apreender a superestrutura vigente, em especial os modernos aparelhos privado e públicos de hegemonia; e compreender a estrutura de classes e a diversidade de expressões políticas e ideológicas que dela emergem O marxismo há de ser ‘militante’. Deve contribuir para o aprofundamento da crítica das experiências ‘pós-revolucionánas’ e para a compreensão dos processos sociais que reprime o desenvolvimento das forças produtivas, em especial a formação da consciência de 29
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    classe, tendo emvista supera-los. Combinadamente, deve buscar contribuir para a construção de referenciais gerais para o enfrentamento com capital em sua dimensão global. 30
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    FlorençaÀ. deOliveiraCosto Psicóloga r'RP-m nm27 3 - DIALÉTICA E HISTÓRIA 31 Marx, por meio do diálogo crítico com os pensadores que o precedem e do compromisso com o mundo do trabalho, confecciona um novo método de análise. Método este que proporciona uma nova concepção de homem e de sociedade, uma interpretação dialética da história e uma crítica da economia política. 3.1 - Sociedade e Totalidade em Marx Identificar o método de análise de Marx nos impõe, de início, expor o seu conceito de “sociedade” Para Marx, a sociedade, articulada por meio de uma formação social concreta e específica, seria produto do desenvolvimento individual e da ação recíproca dos homens, tenham eles consciência disso ou não Entretanto, não poderiam eleger a formação social em que se encontram nem tampouco arbitrar livremente sobre suas forças produtivas. A formação social e as forças produtivas seriam o resultado, respectivamente, das lutas sociais e da ação sobre a natureza conduzidos por parte dos homens que os precederam. A sociedade se conformaria em um todo complexo e interdependente, sujeita a múltiplas determinações. A um determinado nível do desenvolvimento das forças produtivas, corresponderia um determinado desenvolvimento da produção, do comércio e do consumo. Um determinado nível do desenvolvimento da produção, do comércio e do consumo, corresponderia a um determinado desenvolvimento das formas de organização social - organização da família, das classes sociais etc. Um determinado nível de desenvolvimento das formas de organização social, corresponderia a um determinado Estado. Um determinado desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, corresponderia a determinadas expressões ideológico-culturais (Marx e Engels, 1952, p. 414-424). A sociedade, articulada por meio de uma formação social concreta e específica, encontrar-se-ia em constante movimento. Portanto, qualquer formação social seria sempre transitória e histórica. Este conceito de “sociedade” é uma construção proporcionada pelo método dialético e compõe a concepção materialista da história A compreensão das sociedades de classes, por exemplo, não pode ocorrer, portanto, abstraindo a gênese da sociedade, o modo como ela é produzida e o modo como ela opera em função da sua própria gênese 3.2 - O Método Dialético
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    32 Marx busca, emdiversas oportunidades, distinguir o método dialético de Hegel do seu próprio método dialético. Uma destas oportunidades surge por meio do posfacio da segunda edição de O Capital para o alemão (Marx, 1988, p. 21-27). Para Hegel, segundo Marx, o processo do pensamento, identificado com a Idéia (ou Razão Absoluta), transformar-se-ia no sujeito, no demiurgo do real, do material; todo o real seria apenas uma materialização externa da Idéia. O movimento do real, do material seria, por assim dizer, uma realidade derivada, visto que seu fundamento e determinação se daria na Idéia O homem histórico, portanto, seria apenas um instrumento do qual se valeria a Idéia para se desenvolver Para Marx, a idéia não pré-existiria ao real, ao material. A idéia seria o próprio real transposto e traduzido no pensamento do homem. Marx excluía o sublime do existente, do real, contrapondo a dialética mistificada de Hegel à dialética calcada no real. Essa leitura dialética e materialista da relação entre idéia e real determinaria o método de análise de Marx, de modo que este partiria sempre da investigação preliminar do real e do concreto. Não do real e do concreto idealizado, como poderia sugerir o termo “população”, quando abstraído das suas classes sociais, das relações de produção sobre as quais se apoia etc, que, segundo Marx, somente poderia permitir atingir abstrações fiágeis e progressivamente mais simples. Mas do real e do concreto enquanto uma rica totalidade de determinações e diversas relações. (Marx, 1982, p. 14). (...) o concreto aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o ponto de partida efetivo e, portanto, o ponto de partida também da intuição e da representação No primeiro método, a representação plena volatiliza-se em determinações abstratas, no segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução do concreto por meio do pensamento. Por isso é que Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se sintetiza em si, se aprofunda em si, e se move por si mesmo; enquanto que o método que consiste em elevar-se do abstrato ao concreto não é senão a maneira de proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo como concreto pensado. Mas este não é de modo nenhum o processo da gênese do próprio concreto Partir do real e do concreto permitiria, segundo Marx, apreender dinâmicas10 e formular conceitos, enquanto expressão de múltiplas determinações do real captado e 10 Marx em diversas passagens utilizou o termo “lei” para retratar a dinâmica de um modo de produção ou uma formação social concreta e específica, provavelmente influenciado pelo cientificasmo do século XIX. L a não no sentido que o positivismo atribuía a essa palavra, ou seja, algo constante, necessário e determinado pela coisa em si, que poderia ser reconhecido pelo homem através da observação direta dos fenômenos sociais e naturais Para
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    (re)construido no pensamento.Para Marx, expressaria “o curso do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo” —e que corresponderia, efetivamente, ao próprio processo histórico (Marx, 1982, p. 15). Encerrado esse momento retomar-se-ia ao real, mãe agora enquanto real reconstruído e conhecido. O real se apresentaria enquanto um fluxo permanente de movimento e de contradição. Movimento e contradição seriam dados objetivos do real, visto que emergiriam das próprias bases sobre as quais historicamente se configuraria o real. Portanto, independentemente da própria compreensão da idéia de movimento e de contradição (ou das representações construídas no âmbito do pensamento, tendo em vista expressá-las), elas percorreriam o pensamento e a prática do homem. Movimento e contradição expressar-se-iam em um período ou etapa histórica dominado por um modo de produção. Esse, por sua vez, se manifestaria por de formações sociais concretas e específicas O modo de produção, bem como as formações sociais concretas e especificas, seriam estruturas sociais historicamente determinadas. Marx concebe o real (a sociedade concreta em seu movimento e sob contradições) como um processo histórico. Esse real estaria regido por dinâmicas históricas. Não dinâmicas gerais, a-históricas que, emergidas de leis naturais, regeríam para todo o sempre o real, mas dinâmicas específicas a cada período ou etapa histórica e que se expressariam por meio de modos de produção e de formações sociais concretas e específicas. Essas dinâmicas regeriam o movimento social, por um lado, como um processo, em grande medida, independente da vontade, consciência e intenção dos homens; mas, por outro, capazes, ao mesmo tempo, de determinar concretamente a vontade, a consciência e as intenções dos homens como agentes sociais diferenciados. Esgotado historicamente um modo de produção, novas dinâmicas se conformariam ao longo do processo de surgimento de um novo modo de produção Assim, por exemplo, as dinâmicas que regulamentariam o comércio, a população, a moeda, no mundo medieval ocidental, não poderíam ser transpostas para compreender o comércio, a população e a moeda, no mundo capitalista ocidental. Categorias que encenam sentidos genéricos, como comércio, por exemplo, deveríam, por sua vez, ser investigadas dentro da especificidade que assumiríam em cada modo de produção. 33 o positivismo, as leis naturais e sociais senam idênticas Já para Mane, as “leis” ou dinâmicas sociais seriam históricas e transitórias, expressando movimentos passíveis de transformação pela ação humana, nSo possuindo um sentido de exatidão matemática, mas de coerência geral determinada pelo todo interdependente dos elementos que compõe a sociedade.
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    Para Marx, ofundamental na pesquisa científica seria, portanto, descobrir as dinâmicas que regeriam e modificariam os fenômenos estudados. Dinâmicas que atuariam nas condições e interesses materiais, inclusive no âmbito do próprio pensamento. Assim, a critica do próprio pensamento, idéia, cultura, da sociedade moderna, somente poderia surgir do real, do material que o determina e não do pensamento refletindo diretamente sobre si mesmo. E da sua base material, o real, desvendado pela pesquisa, que o pensamento poderia auto-criticar-se e desalienar-se. Assim, o pensamento, a idéia, a cultura, em princípio fora de ‘lugar’, poderiam ser colocadas em seus devidos ‘lugares’. Marx cuida de distinguir, ainda, o método da pesquisa do método de exposição. Para Marx, “a pesquisa tem de captar detalhadamente a matéria, analisar as suas várias formas de evolução e rastrear sua conexão íntima. Só depois de concluído esse trabalho é que se pode expor adequadamente o movimento real” (Marx, 1988, p. 26). Marx dá exemplo concreto desta prática científica no estudo da economia política. Anteriormente à confecção da obra O Capital, Marx conduz estudos amplos e profundos sobre a mercadoria, o valor, a mais-valia, a reprodução (simples e ampliada) do capital, o dinheiro, entre outros temas, como podemos confirmar nos esquemas de estudo pessoal que tomam a forma das obras Para a Crítica da Economia Política e Teorias da Mais-Valia. Elas culminam, por meio do método dialético, na apreensão das dinâmicas que regem o capitalismo e que podem proporcionar condições sociais capazes de modificá-lo. A conquista do conhecimento do real e a sua exposição ordenada no plano do pensamento, podem criar a ilusão de uma construção a priori, de esquemas dedutivos. Mera ilusão, se pensarmos que uma obra, quando finalizada, nada mais é do que fruto de intensa pesquisa e exposição articulada por meio de uma coerência discursiva interna. Marx, conforme observamos, apresenta o seu método dialético dentro de uma configuração racional, empírica e materialista. Movimenta suas pesquisas do particular para o geral e vice-versa, busca apreender dinâmicas e formular conceitos por meio de estudos comparados dos fenômenos sociais, esforça para demonstrar a coesão entre o que anda nas ‘cabeças’ e as bases materiais sobre as quais se localizam os ‘pés’ e coloca a temporalidade dos fenômenos sociais no centro do seu pensamento. 3 3 - A Concepção Materialista da História Os debates sobre a destruição furtiva e o parcelamento da propriedade do solo, em curso na Província Renana, desperta em Marx uma preocupação com os chamados “interesses 34
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    materiais” (Marx eEngels, 1983, Volume 1, p. 300 e 301). O recolhimento de lenha por parte de um camponês em uma propriedade, considerada furto pela Dieta Renana, conduz Marx à tomada de consciência de que o direito protegia a propriedade. Esse processo ocorre na sua experiência como redator da Gazeta Renana, entre os anos de 1842-43. E*n i844, por meio dos Anais Franco-Aienaães, as investigações desembocam na conclusão “(...) de que tanto as relações jurídicas como as formas de Estado não podem ser compreendidas por si mesmas nem pela chamada evolução geral do espírito humano (...)”. Segundo Marx, elas “(...) se baseiam, pelo contrário, nas condições materiais de vida (...)”. Ainda segundo Marx, “(...) a anatomia da sociedade civil precisa ser procurada na economia política” (Marx e Engels, 1983, Volume 1, p. 301). A continuidade dos seus estudos permite a Marx eoneluir que “(...) na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais” (Marx e Engels, 1983, Volume 1, p. 301). As relações de produção seriam as relações concretas que os homens estabeleceriam em uma determinada sociedade, tendo em vista a produção e reprodução dos indivíduos, das classes sociais e da sociedade. As relações de produção se expressariam na forma de propriedade, na forma de produção e distribuição dos excedentes sociais e na forma de organização das relações de trabalho entre as classes sociais. As relações de produção condicionariam profundamente as relações sociais em geral. As relações de produção encontrar-se-iam correlacionadas no seu desenvolvimento com as forças produtivas, que seriam os recursos tecnológicos, o conhecimento científico, as estruturas de produção rural e urbana, o nível de consciência social11etc. Para Marx, não seria possível forças produtivas desenvolvidas, a exemplo do nível conquistado no capitalismo, coexistindo com relações de produção ‘atrasadas’ historicamente se comparadas a estas, a exemplo das relações de produção feudais. Portanto, relações de produção e forças produtivas determinar-se-iam no desenvolvimento da sociedade humana. As relações de produção e as forças produtivas, em suas relações concretas e 35 11 O conceito de “consciência social” em Marx incorporaria as formas de expressão da subjetividade humana (expressões literárias e filosóficas, romances, doutrinas religiosas, criações artísticas etc), bem como o nível de consciência e conhecimento da relação homem/natureza e das relações sociais. Essas manifestações da consciência social seriam ideológicas e mais ou menos racionais, humanistas e criticas, segundo o grau de desenvolvimento da estrutura econômica, da experiência e de amadurecimento das dasses sociais Enfim, do estágio de desenvolvimento da sociedade humana.
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    soeialmerrte estabelecidas, formariama estrutura12 (ou base) econômica da sociedade Sobre a estrutura “(...) se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciêneia social” (Marx, 1983, Volume 1, p. 301). Marx concebe uma interação e uma interdependência profunda entre a estrutura, responsável pela produção e reprodução da vida material, e a superestrutura, responsável pela produção e reprodução da vida política e espiritual. A relação dialética que Marx estabelece entre estrutura e superestrutura não exclui a ontologia. Neste ponto, Marx é categórico quando afirma que “(...) não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência” (Marx, 1983, Volume 1, p. 301). Dito de outra forma, Marx não reconhece nas leis, nas formas do Estado, nas expressões subjetivas dos indivíduos, segmentos e classes sociais uma autonomia e independência da estrutura, ou seja, das condições materiais de existência da sociedade. Para Marx, a compreensão das superestruturas exige, necessariamente, um movimento de investigação que parta da estrutura O Conceito de “Modo de Produção” Marx formula o conceito “modo de produção” para retratar a totalidade social representada pela estrutura e pela superestrutura. Marx integra, portanto, totalidade e estrutura para a compreensão, em grandes traços, dos longos períodos históricos de permanência ou conservação - entendidos como movimentos que não alterariam a essência de uma estrutura, mas que coexistiriam com a acumulação quantitativa de condições materiais e espirituais, que levariam a um ponto de ruptura num futuro indeterminado - ou breves períodos históricos de transformações bruscas ou revolucionárias - entendidos como movimentos que alterariam a essência de uma estrutura, ou seja, rupturas qualitativas das condições materiais e espirituais responsáveis pela edificação de uma nova totalidade e estrutura. Marx indica que os grandes períodos históricos estariam estruturados a partir dos modos de produção comunal, asiático, antigo (escravo), feudal, e burguês. Modos de produção, social e historicamente determinados, mutáveis, portanto, contrariando o ideal 12 O conceito de “estrutura” pode recebei divasos sentidos e dimensões na teoria e metodologia marxista. Pode significar estrutura (base) econômica, superestrutura (estrutura fruto da materialização dc instituições c formas de consciência social); estrutura global e abstrata identificada com o conceito de “modo de produção”; estrutura global identificada com uma formação social (ou sócio-ccooômtca) especifica e concreta. O fundamental é que o conceito de “estrutura” remete sempre para um conjunto complexo de elementos interdependentes e estáveis (o que não significa etemo) no tempo; a estrutura pode ser pensada em si própria ou em relação a outras estruturas 36
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    burguês da naturalizaçãodas relações sociais, da sociedade burguesa e capitalista etc. 37 Modo de Produção e Transformação Histórica Marx identifica contradições e conflitos na estrutura econômica da sociedade Para Marx, as forças produtivas tenderíam para o desenvolvimento, o que as fana colidir com as relações de produção, que qualificaria e conservaria o modo de produção. Essa contradição, emergida da estrutura econômica, prolongar-se-ia para além das condições materiais da sociedade, penetrando na superestrutura e se expressando no âmbito jurídico, político e ideológico. Isto porque Marx entende a sociedade como uma totaiidade, na qual a estrutura econômica exerce um profundo condicionamento sobre a superestrutura. A contradição surgida entre as forças produtivas e as relações de produção, responsáveis pelo prolongamento da contradição para o todo social, caiaria um ambiente propício para transformações. Nas palavras de Marx, (Marx, 1983, Volume 1, p. 302). (...) abre, assim, uma época de revolução social Quando se estudam essas revoluções, é preciso distinguir sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse conflito e lutam para resolvê-lo Assim, a contradição que nascería no âmbito da estrutura econômica e que se prolongaria para a superestrutura, não podería ser superada por ela mesma. A contradição acima referida apenas criaria o espaço e o ambiente propício para as transformações. A transformação dependeria da ação do sujeito social, de forma a dar um sentido e uma direção para a remoção dos obstáculos que as relações de produção (em um determinado nível de desenvolvimento das forças produtivas) representariam no sentido do posterior desenvolvimento das forças produtivas. Para Marx, o termo sociedade expressaria um sujeito social genérico. Compreender a história a partir desse sujeito social como um todo indiferenciado seria idealismo A sociedade se manifestaria, de fato, por meio de sujeitos sociais concretos, ou seja, das classes sociais antagonizadas peia propriedade privada e em conflitos explícitos - revoltas, revoluções, greves etc - e ocultos - inculcação de valores ideológicos, remanejamentos político- institucionais etc
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    38 As lutas declasses seriam conduzidas pelas classes dominantes e dominadas Expressariam a práxis, ou seja, ações sociais (políticas, culturais etc), intencionais ou não, sempre ideológicas, com o propósito de conservar ou revolucionar as relações de produção. Marx supera, por meio da sua interpretação dialética do curso da história, o economicismo, que atribui ao fator econômico a responsabilidade peias transformações, o evolucionismo, que reconhece uma dinâmica evolutivo-natural comandando o curso das mudanças, e o voluntansmo, que personifica as mudanças por meio da ação de determinados personagens e pequenos grupos, desprezando as estruturas econômicas e os embates de classes. Modo de Produção e Formação Social A distinção entre modo de produção e formação social não se apresenta clara para diversos cientistas sociais marxistas - incluindo historiadores. Alguns cientistas sociais marxistas reduzem o conceito de “modo de produção” a estrutura econômica. Reconhecem no conceito de “superestrutura” (formas de consciência e instituições) uma dimensão que se encontraria fora do conceito de “modo de produção”. Para esses cientistas sociais, modo de produção (estrutura econômica) e superestrutura (formas de consciência e instituições) se comporiam de forma interdependente em uma estrutura mais ampla denominada formação social - conjugação, portanto, do modo de produção e da superestrutura em uma realidade concreta e específica (Gorender, 1985, p. 1-35). Na concepção de Marx, modo de produção englobaria de forma integrada a estrutura (ou base) econômica e a superestrutura. O modo de produção seria o objeto teórico, genérico e abrangente. Uma elaboração teórico-abstrata em nível do pensamento que se prestaria a contribuir com os estudos de uma formação social (ou económico-social) concreta e específica. Enquanto conceito teórico-abstrato estaria em constante construção, visto que os estudos sócio-históricos permitiriam a descoberta de novos elementos e relações no âmbito do conceito de “modo de produção” (Vilar, 1988, p. 173 e 174). O conceito de “formação social” encerraria a realidade social concreta e específica. Seria, portanto, um conceito menos abrangente e que nos remeteria a uma formação histórica concreta e específica, a exemplo da formação social portuguesa do século XVI ou da formação social capitalista brasileira do século XX O conceito de “modo de produção” seria, portanto, um instrumento operatório, tendo em vista o estudo de uma formação social concreta e específica.
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    39 O Conceito de“Ciasse Social” O termo dasse sodal não é criado por Marx. Os enciclopedistas franceses e Adam Smith se referiam a ' estados” ou “ordens”, enquanto que Babeuf e os socialistas franceses falam de classes de possuidores e laboriosas. A contribuição de Marx para a construção do conceito de “classe social” surge, primeiramente, da identificação e localização social das classes sociais a partir das relações de produção, ou seja, da forma de propriedade e das relações que os homens estabeleceriam cm tomo dela, tendo em vista a geração e apropriação dos excedentes sociais. As classes sociais seriam definidas, em primeira instância, sobre as condições materiais em que se insenam Marx define as classes sociais também em termos políticos. As classes sociais, distribuídas em termos de dominantes e dominadas, se relacionariam de uma determinada forma com o poder em cada período histórico. As classes sociais se expressariam por meio de “partidos”, estabeleceriam alianças, conformariam regimes políticos etc. “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história das lutas de classes”, diria Marx (Marx e Engels, Volume 1, p. 21, 1983). A partir das relações de produção e das lutas políticas que lhes seriam inerentes, Marx identifica as classes em termos de classes sociais fundamentais, em tomo das quais a qualidade das relações de produção e dos conflitos seriam definidos, e classes sociais não fundamentais, periféricas no âmbito das relações de produção e incapazes de definir um projeto social alternativo às relações sociais dominantes e conduzir um bloco de alianças em tomo do mesmo. Portanto, as relações de produção e a identidade e consciência acumuladas por meio da experiência política definiriam a posição e a função das classes sociais na formação social concreta e específica. Marx não reconhece a existência de classes sociais nas sociedades que não se apoiam na propriedade privada (comunidades tribais dos celtas, germânicos, eslavos; povos pastores do oriente; índios da América; sociedades despóticas orientais etc). As sociedades despóticas, embora coexistindo com a desigualdade social, não assumiria a forma completa de desigualdade social, na medida em que a unidade centralizadora - Estado - se ergueria sobre as pequenas comunidades concentrando a propriedade, mas estabelecendo relações de tnbutação/reciprocidade Para Bourdé e Martin, se Marx e Engels tivessem possuído mais informações históricas teriam dissociado “estados”, “ordens”, “castas” etc, de classes sociais
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    propriamente ditas nasformações pré-eapitalista de produção (Bourdé e Martin, 1983, p. 159-164). Como esboço de uma sociologia das classes a partir de Marx, é possível identificar que: a. a detinição de uma classe social implica na referência a aspectos sociais, econômicos, políticos e ideológicos; b. seria pertinente considerar as classes em função da estrutura de classes e não isoladamente; c. as lutas de classes determinam, em grande medida, os conflitos e dinâmicas do nível político e dos demais níveis da sociedade. Tais conflitos e dinâmicas não podem, entretanto, ser interpretados como mero prolongamento das lutas de classes. O Conceito de “Ideologia” Marx parte da compreensão de que existiria um elo entre formas ‘invertidas’ de consciência e a existência material dos homens. Essa compreensão nasce da crítica a Feuerbach e a Hegel Marx apreende a tese materialista de Feuerbach de que os homens criam Deus e as religiões, e não o contrário. Distancia-se deste quando demonstra que tal inversão não é uma pura construção do pensamento, mas que encontra-se no mundo real, que é um bálsamo criado pelos homens para compensar as contradições do mundo real. Marx submete o próprio pensamento de Hegel a esta crítica. Hegel supôs que a Idéia ou Razão Absoluta se manifestaria no mundo empírico e que o Estado prussiano seria a auto- realização da Idéia objetivada. Marx busca demonstrar que a idéia do Estado enquanto “universal absoluto” que determina a sociedade civil, não seria apenas uma ilusão. Que havia um real sob aquela ilusão e que somente poderia ser encontrada nas bases concretas de edificação da sociedade civil e de Estado prussianos. Entre 1845 e 1857 Marx formula o conceito de “ideologia” para demonstrar que a precariedade do desenvolvimento material e as contradições emergidas na vida prática, levariam os homens a criar e a projetar formas ideológicas de consciência. Formas espirituais e discursivas que ocultariam ou disfarçariam a existência e o caráter dessas contradições. E que concorreriam, nesta medida, para assegurar a reprodução das relações sociais, de forma a servir aos interesses dominantes (Bottomore, 1988, p. 184). A partir dos estudos das relações sociais capitalistas expressas nas obras Grundrisse 40
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    e O Capital,Marx chega a conclusão de que a “consciência invertida” é fruto da “realidade invertida”. Assim, a ideologia burguesa expressaria essa inversão quando apregoa que “(...) a igualdade e a liberdade são, assim, não apenas aperfeiçoadas na troca baseada em valores de troca, como também a troca dos valores de troca é a base produtiva real de toda igualdade e liberdade” (Marx, apud Bottomore, 1988, p. 185). Engels concorre também para a construção do conceito de “ideologia” por meio do estudo sobre a guerra camponesa da Alemanha. Demonstra que, sob a chama da guerra de religião no século XVI, encontram-se interesses materiais de classes e que (Engels, apud Bourdé e Martin, 1983, p 166). (...) se as lutas de classes tinham, naquela época, um caráter religioso, se os interesses, as necessidades, as reivindicações das diferentes classes se dissimulavam sob a máscara da religião, isso nada altera a questão Encontra-se implícita nessa passagem a compreensão de que o fenômeno ideológico também poderia se expressar enquanto valores e concepções de resistência das classes dominadas. Engels demonstra, ainda, a exemplo da ação crítica de Marx sobre a ideologia burguesa, que o fenômeno ideológico não seria algo exterior as relações sociais quando explica que na Idade Média (Engels, apudBourdé e Martin, 1983, p. 167). (...) os padres receberam o monopólio da cultura intelectual e a própria cultura tomou um caráter essencialmente teológico (...). Os dogmas da Igreja eram igualmente axiomas políticos e as passagens da Bíblia tinham força de lei perante os tribunais (...) Consequentemente, todas as doutrinas revolucionárias, sociais e políticas, deviam ser, ao mesmo tempo e principalmente, heresias teológicas O conceito de “ideologia” conserva em Marx uma conotação crítica e negativa porque foi utilizado para a compreensão das distorções relacionadas com o ocultamento de uma realidade contraditória e invertida Não seria correto, portanto, atribuir ao conceito de “ideologia” o sentido de falsa consciência. Podemos chegar a três definições de ideologia em Marx e Engels: a) ideologia enquanto parte ou conjunto das superestruturas: as formas ideológicas enquanto a qualidade da consciência social possível dentro de uma determinada estrutura sócio-econômica, uma determinada visão de conjunto de uma sociedade, época ou classe determinada por suas condições materiais de existência; b) a ideologia enquanto ocultamento da realidade: ora como imposição das classes dominantes para criar, legitimar e justificar as relações sociais dominantes (a exemplo 41
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    42 das Cruzadas, dolevante da Vendéia ete), ora como forma de expressão de lutas de resistência dos dominados enquanto conhecimento imperfeito (a exemplo da revolta camponesa da Alemanha); c) a ideologia enquanto um sistema de valores sociais impostos: seriam os valores sociais impostos, mdirciamente, por meio das relações sociais de produção, e, direiamente, por meio dos instrumentos ideológicos públicos e privados O conceito Estado O conceito “Estado” ocupa grande importância no pensamento de Marx e Engels O Estado é concebido como uma instituição acima de todas as outras, com a função de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe Para Engels, o Estado é um instrumento (Marx e Engels, 1983, Volume 3, P 137 ). (...) da classe mais poderosa, economicamente dominante, que, pior meio dele, toma-se igualmente a classe politicamente dominante, adquirindo com isso novos meios de dominar e explorar a classe oprimida Essa conclusão não impede que o próprio Engels a relativizasse por meio do estudo de uma realidade concreta, a guerra civil na França e as lutas políticas subsequentes que resultam no golpe do 18 Brumário e no bonapartismo Engels reconhece que (Marx e Engels, Volume 3, 1983, P. 137). (...) ocorrem períodos nos quais as classes em luta se equilibram tão bem que o poder do Estado, como mediador ostensivo, adquire, por momentos, uma certa margem de independência em relação a ambas (Marx e Engels, Volume 3, 1983.P. 137). Marx, também estudando a realidade que redunda no bonapartismo, chega mesmo a atribuir interesses “próprios” ao Estado por meio da sua burocracia civil e militar. Marx reconhece no Estado bonapartista francês uma máquina de Estado engenhosa, de amplas bases, com um “exército” de funcionários e soldados de 1 milhão de homens. Uma máquina com determinados interesses e objetivos próprios, que conforma “(...) um corpo parasitário terrível que cerca o corpo da sociedade francesa como um casulo e sufoca todos os seus poros” (Marx e Engels, Volume 1, 1983, P. 234 e 235). De fato, Marx e Engels não encerram o conceito Estado em uma camisa de força dogmática Lénin, Oiarnsci, a Escola de Frankftirt, entre outros pensadores e vertentes
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    marxistas, dão continuidadeao estudo do Estado e ampliam o próprio conceito. 43 Práxis e Política C conceito de ‘Práxis representa urn elemento central da filosofia marxista. Exprime o poder que o homem tem de transformar o ambiente externo, tanto natural como social. Marx define a práxis, primeiramente, como atividade prático-crítica. E a atividade humana por meio da qual se busca resolver o real concebido subjetivamente. O lugar da práxis é o processo histórico como resposta continua à tirania das necessidades naturais e sociais. Para Marx a humanidade está em luta consigo mesma, isto é, com as condições sociais e naturais, por ela criadas e/ou modificadas. Segundo (Bobbio, 1992, p. 987 e 988). (...) práxis é a identificação da mudança ambiental com a atividade humana, ela surge como autotransformação ou como atividade que se modifica a si mesma ao modificar o ambiente. A terceira tese de Feuerbach oferece a este respeito algumas indicações claras: é verdade que os homens sâo condicionados pelo ambiente e pela educação, mas também é verdade que sâo justamente eles que modificam as próprias condições ambientais Para Marx não existe na realidade uma natureza pura, isto é, não modificada pela história humana. Não existe, também, um único campo de ação onde não se possa descobrir dinâmicas. A práxis é ação/investigação, fundamentada no movimento histórico. Marx define práxis como encontro entre razão e história, isto é, o lugar da construção da humanidade como obra de uma vontade expressa racionalmente. Construção suscitada por um pensamento historicamente determinado, acolhido pela grande maioria por responder às necessidades manifestadas em um contexto (natural e social) marcado pela intervenção do homem e que se transforma por isso em instrumento de ação. Nesta definição, o conceito de “Práxis” se aproxima do conceito “teoria”, sendo a primeira uma prática racional- transformadora e a segunda um pensamento historicizado e realístico Marx também define práxis como luta de classes, isto é, um instrumento motor da história da humanidade. A concepção de práxis como ação do gênero humano indiferenciado socialmente e transformador das condições naturais e sociais ao longo da história da humanidade, conjuga-se também com a concepção de práxis como oriunda da humanidade cotio sujeito histórico diferenciado por meio das classes sociais em suas relações conflitantes,
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    na qual ocorreuma ação de supressão por parte de uma delas das formas de organização social que a outra instaura Esses conflitos entre as classes se exprimem na tensão constante que existe entre as forças produtivas, tendentes ao desenvolvimento e as relações de produção, tendentes a conservação. O conceito de ‘práxis’ recebe outras abordagens no âmbito da tradição marxista. Lukács define príads como a eliminação da indiferença da forma em relação ao conteúdo. Para o autor Marx teria desmistificado a lógica idealista da idéia, isto é, desenraizado socialmente o idealismo, e demonstrado que as ciasses subalternas são os sujeitos da história, em especial o proletariado. Assim, teria-se estabelecido no pensamento uma nova lógica da totalidade, isto é, da unidade do objeto (realidade natural e social) que é posto e do sujeito (proletariado) que o põe. É a totalidade não como idéia que se faz espírito, mas como realidade do processo histórico (Bobbio, 1992, p. 989). Para Lukács a Príads em Marx seria o ato que realiza a unidade entre o sujeito e o objeto, na medida em que traduz em nova estrutura social e econômica a consciência das relações estabelecidas entre os homens Nela coincidiríam as determinações do pensamento e do desenvolvimento da história. Por isso, a Príads seria a consciência da totalidade e sua realização. Todavia, a consciência não precederia a ação, mas fúndaría-se no ato. O proletariado conhecería a própria situação enquanto luta contra o capitalismo e agiría enquanto conhece a própria situação (Bobbio, 1992, p. 989) Lukács fez, enfim, o uso de três temas: o pensamento socialmente determinado; a realidade em sua dinâmica; e, o sujeito em sua ação. A Príads seria o ato revolucionário que realiza o sujeito (o proletariado) como conhecedor e agente ao mesmo tempo e que, simultaneamente, fundamenta a identidade do pensamento e da história. Korsch define príads como sendo a própria teoria marxista. Pára Korsch “o marxismo é a teoria da transição da sociedade capitalista para a sociedade socialista e assume aspectos diversos, como, por exemplo, a social-democracia e o lemnismo, destinados a sucederem-se um ao outro, segundo a evolução do movimento operário” (Bobbio, 1992, p. 989). A teoria marxista não seria apenas uma expressão das condições atuais das relações entre as classes sociais, mas também a alavanca de uma futura ação revolucionária. Deste modo, a teoria é Príads, isto é, luta social de classes. Se, por um lado, ela é um aspecto da consciência social da situação vigente, até o ponto de se identificar com a consciência de dasse, por outro, é apenas uma teoria, não uma teoria positiva mas crítica, que resolve as representações estáticas em processos dinâmicos e em conflitos sociais. “Os elementos nela 44
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    envolvidos, conquanto aparentementeneutros, assumem uma específica conotação de classe; o Estado é o Estado burguês; o direito é o direito burguês” (Bobbio, 1992, p. 990). Para korsch a teoria marxista seria Práxis, não só por estar intimamente relacionada com os conflitos sociais, dos quais é expressão, mas também por elaborar os meios de uma forma alternativa de sociedade. 4 - CONCEPÇÃO MARXISTA DE POLÍTICA E DE ESTADO A concepção marxista de Estado se insere no processo de debate sobre a relação estabelecida entre Estado e sociedade inaugurada com a modernidade. A dinâmica produtivista do capital e a liberalização do indivíduo dá base para a formação da concepção contratualista moderna, com a qual Marx dialoga criticamente. Hobbes, por meio do método dedutivo, constrói uma leitura da relação estabelecida entre Estado e sociedade calcada no contrato social estabelecido entre os indivíduos. Graças à transferência da liberdade e de direitos dos indivíduos em favor do Estado e da constituição do mesmo como um poder exterior e acima da sociedade e dos indivíduos particulares, seriam dirimidos os conflitos e promovida a cooperação. Locke, desenvolvendo um diálogo teórico e filosófico com Hobbes, problemaüza a relação estabelecida entre Estado e sociedade. Se o Estado é fruto da transferência de liberdade e de direitos - em decorrência da escassez e dos conflitos em curso entre os homens, porque estes são egoístas e ambiciosos em sua natureza - e seria formado por homens, quem então o controlaria? Locke propugna o controle dos cidadãos sobre o Estado por meio do parlamento. Montesquieu e Rousseau também se inserem no debate contratualista moderno. Propõem, respectivamente, a divisão e equilíbrio entre os poderes e o princípio da vontade geral (soberania popular), tendo em vista salvaguardar os cidadãos frente ao Estado Marx e Engels fazem a crítica do contratualismo, em grande medida influenciados pelas contradições sociais geradas pelo capitalismo e pela emersão social e política do proletariado moderno. Para Marx e Engels o Estado possui uma origem calcada na desigualdade e no conflito de classe; constitui-se como uma instituição acima de todas as outras, com a função de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe; e assumir uma certa margem de independência em relação às classes, especialmente em conjunturas de intenso conflito social. 45
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 1 A PROPOSTA DE VYGOTSKY: A PSICOLOGIA SÓCIO- HISTÓRICA1 The proposal of Vygotsky: the social-historical psychology Marcos Antonio Lucci Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Professor da Faculdade Interlagos – FINTEC – Brasil E-mail: renalucci@terra.com.br Abstract: With the intention of contributing for to base of the educational work, the present study has for objective to present the principal points of the social-historical psychology proposed by Vygotsky, one of the authors that at the present time is one of the references in the basement of the educational work. For the attendance of the proposed objective, this study is divided in three great parts. In the first, we will approach the historical context in that is born the project of Vygotsky; on second, we will discourse on the to base of the theory and in the last part we will treat of the social-historical psychology. Key words: Teachers' training; Educational psychology; Social-historical psychology. Resumo Com a intenção de contribuir para a fundamentação do trabalho docente, o presente estudo tem por objetivo apresentar os principais pontos da psicologia sócio-histórica proposta por Vygotsky, um dos autores que na atualidade é uma das referências no embasamento do trabalho educacional. Para o atendimento do objetivo proposto, este estudo está dividido em três grandes partes. Na primeira, abordaremos o contexto histórico em que nasce o projeto de Vygotsky; na segunda, discorreremos sobre a fundamentação da teoria e na última parte trataremos da psicologia sócio-histórica. Palavras chaves/finque: Formação de professores; Psicologia Educacional; Psicologia Sócio-histórica. * * * * * 1 Texto elaborado a partir da tese de doutorado do autor em Psicologia da Educação, sob a orientação da Profª Drª Maria Laura Puglisi Barbosa Franco. Recibido: 28 de Agosto de 2006 Aceptado: 12 de Diciembre de 2006
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    http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf2 1. INTRODUÇÃO Falar daproposta de Vygotsky implica considerar que seu trabalho é extremamente complexo, visto que sua elaboração tem por meta à constituição de um projeto de psicologia que pudesse analisar os problemas de aplicação prática do homem, em atendimento às necessidades emergentes da nação russa que acabava de nascer após a revolução socialista de 1917. Sua vasta produção acadêmica, aproximadamente 180 trabalhos, realizada num curto espaço de tempo, dez anos apenas, segundo Bonin (1996), envolve um importante esquema teórico complexo e integrado que, ao mesmo tempo, é aberto. Vygotsky, ao lado de seus colaboradores diretos, Luria e Leontiev, propõe um estudo sócio-genético do ser humano, assim como estabelece relações com as condições biológicas, principalmente nos aspectos neurológicos, na tentativa de evitar reducionismos e simplificações de qualquer espécie. Essa característica dos trabalhos de Vygotsky tem gerado, segundo Blanck (1996), diversas interpretações e aplicações, pois além de toda essa complexidade e diversidade de aspectos tratados, o autor, ao longo de seus trabalhos, foi modificando seus objetivos. Blanck destaca, ainda, que essas hesitações são fruto da ambição de seus projetos e da batalha que travava contra o tempo, devido a seu estado de saúde terminal. De qualquer forma, os seus seguidores entendem que sua teoria permeou um desenvolvimento coerente; já alguns autores, tais como o próprio Blanck, Veer, Kozulin, Valsiner e Wertch, descobrem na sua obra antagonismos irreconciliáveis. Davis (1993), por outro lado, não considera que os seus postulados constituam uma escola de psicologia, mas apenas um delineamento, ainda que geral, de uma psicologia de inspiração materialista-dialética. Ressalvadas tais características da obra do autor em questão, cumpre- nos esclarecer que trataremos neste espaço dos aspectos gerais de sua produção. Nesse sentido, antes de incursionarmos por suas idéias, faz-se necessário retomar o contexto histórico no qual essas idéias nasceram. 2. CONTEXTO EM QUE NASCE O PROJETO DE VYGOTSKY A revolução socialista de outubro de 1917 enfrentou nos primeiros anos um período tumultuado, marcado por uma guerra civil, pela intervenção estrangeira e por uma situação econômica sufocante que levou a nação russa à escassez de alimentos, penalizando sua população com um longo período de fome, vitimando muitas pessoas, inclusive Vygotsky, com tuberculose. Esta situação levou o novo regime a implantar um comunismo de guerra, o que culminou em 1921, sob a liderança de Lenin, com a consolidação do regime comunista no país. Vitoriosa a Revolução, a Rússia encontrava-se em estado lastimável. Tudo estava por construir. Um dos mais sérios problemas a enfrentar era o da educação. Consta que por aquela época o índice de analfabetismo girava em
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 3 torno de 70%. Mesmo sob essas circunstâncias, porém os dirigentes que conduziam o novo estado desejavam promover uma renovação que não se limitava somente a reconstruir o país. O objetivo maior era construir, sob a tutela da teoria marxista, uma nova sociedade, o que implicaria, também, a construção de uma nova ciência. Nos dizeres de Rosa & Montero (1996), o conhecimento deveria ter sido um dos pilares dessa nova sociedade, considerando que, de acordo com a teoria marxista, ele evita a alienação no trabalho e liberta o homem. Mas, (...), a filosofia marxista contém uma epistemologia materialista e uma lógica dialética que requer o desenvolvimento de uma nova concepção de ciência. (p.70) Um dos grandes problemas enfrentados pelos pesquisadores que deveriam levar avante a construção da nova ciência foi justamente o fato dos limites impostos pelos dirigentes da nação, isto é, tomar por base, tão-somente, a filosofia marxista. O desafio era grande, principalmente, porque não havia unicidade, entre os marxistas russos, sobre a interpretação do materialismo. A controvérsia entre eles os dividia em duas correntes: uma mecanicista e outra dialética. Segundo os mecanicistas, a ciência é auto-suficiente e descobre suas próprias leis por meio da pesquisa; já os dialéticos defendiam um princípio exploratório aberto e não determinista, acreditando que os eventos são dependentes da ação humana, ou seja, a consciência é uma característica humana, e é ela que favorece a disposição para a construção dos eventos. Outro fator importante é a subida de Stalin ao poder, após a morte de Lenin em 1924. Stalin, por meio de sua interpretação pessoal das idéias de Lenin e do marxismo, promove um dos maiores expurgos da esquerda comunista, mas, ao mesmo tempo, implementou as políticas que esta linha defendia e, posteriormente, eliminou a facção direitista, passando a exercer um governo absolutista. O próximo passo foi a interferência na área educacional. Sob a alegação de que o desempenho das crianças na escola era deficiente, foi imposto um currículo fechado, e o sistema de projetos, adotados logo após a revolução, foi suprimido. O ponto culminante da interferência política ocorre na psicologia com a edição do decreto intitulado “Sobre as Perversões Pedológicas no Sistema de Comissariado do Povo para a Educação”. Este decreto baniu os testes psicológicos, assim como a psicologia, das áreas da educação e da indústria. Como conseqüências vários periódicos sobre psicologia deixaram de ser editados; cursos e institutos foram fechados; o ensino de psicologia ficou relegado ao plano de treinamento de professores nas faculdades, e muitos pesquisadores da área, inclusive Vygotsky, que já havia falecido, passaram a fazer parte de uma lista negra do poder que proibia, em todo o território nacional, as suas obras. Foi somente após a morte de Stalin, em 1953, de acordo com Rosa & Montero (1996), que os trabalhos de Vygotsky voltam a ser publicados, a partir de 1956. Esse foi o cenário no qual Vygotsky idealizou, desenvolveu e aplicou seu trabalho, mas não o viu ser banido e reintegrado.
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    http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf4 3. A FUNDAMENTAÇÃODE SUA PROPOSTA Vygotsky surge na psicologia num momento significativo para a nação russa. Logo após ter-se consolidado a revolução, emerge uma nova sociedade, que, conseqüentemente, exige a constituição de um novo homem. Nesse sentido, a primeira missão que a Revolução imprimiu para a psicologia foi a análise dos problemas de aplicação prática. Por sua formação humanista e sua bagagem cultural, Vygotsky reunia as condições necessárias para idealizar uma nova concepção de Educação, Pedologia (ciência da criança) e Psicologia. Segundo aponta Molon (1995), os interesses de Vygotsky pela psicologia originam-se na preocupação com a gênese da cultura. Por entender que o homem é o construtor da cultura, ele se contrapõe à psicologia clássica que, segundo sua visão, não respondia adequadamente sobre os processos de individuação e os mecanismos psicológicos dos indivíduos. Em contrapartida, elabora sua teoria da gênese e natureza social dos processos psicológicos superiores. Vygotsky, de acordo com Bonin (1996), empenhou-se em criar uma nova teoria que abarcasse uma concepção de desenvolvimento cultural do ser humano por meio do uso de instrumentos2 , em especial a linguagem, tida como instrumento do pensamento. A teoria por ele proposta surge como meio de superar o quadro apresentado pela psicologia, que se encontrava dividida em duas orientações: a naturalista e a mentalista. Na sua percepção, tal divisão acentuava a questão do dualismo mente-corpo, natureza-cultura e consciência-atividade. Segundo Vygotsky, um dos reflexos do dualismo é a diversidade de objetos de estudo eleitos pelas abordagens em psicologia – o inconsciente (psicanálise); o comportamento (behaviorismo) e o psiquismo e suas propriedades (gestalt) – e a incapacidade delas em darem as respostas para os fenômenos psicológicos, por trabalharem com fatos diferentes. Ou seja, para ele, as abordagens não davam conta de explicitar claramente a gênese das funções psicológicas tipicamente humana. Diante de tal quadro, ele propôs, então, uma nova psicologia que, baseada no método e nos princípios do materialismo dialético, compreendesse o aspecto cognitivo a partir da descrição e explicação das funções psicológicas superiores, as quais, na sua visão, eram determinadas histórica e culturalmente. Ou seja, propõe uma teoria marxista do funcionamento intelectual humano que inclui tanto a identificação dos mecanismos cerebrais subjacentes à formação e desenvolvimento das funções psicológicas, como a especificação do contexto social em que ocorreu tal desenvolvimento. 2 “Os instrumentos são meios externos utilizados pelos indivíduos para interferir na natureza, mudando-a e, conseqüentemente, provocando mudanças nos mesmos indivíduos”. (Lucci, 2002:140)
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 5 Os objetivos de sua teoria são: caracterizar os aspectos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como essas características se formam ao longo da história humana e de como se desenvolvem durante a vida do indivíduo. (Vygotsky, 1996:25) Deste modo, as assertivas de sua teoria são: a) o homem é um ser histórico-social ou, mais abrangentemente, um ser histórico-cultural; o homem é moldado pela cultura que ele próprio cria; b) o indivíduo é determinado nas interações sociais, ou seja, é por meio da relação com o outro e por ela própria que o indivíduo é determinado; é na linguagem e por ela própria que o indivíduo é determinado e é determinante de outros indivíduos3 ; c) a atividade mental é exclusivamente humana e é resultante da aprendizagem social, da interiorização da cultura e das relações sociais; d) o desenvolvimento é um longo processo marcado por saltos qualitativos que ocorrem em três momentos: da filogênese (origem da espécie) para a sociogênese (origem da sociedade); da sociogênese para a ontogênese (origem do homem) e da ontogênese para a microgênese (origem do indivíduo único); e) o desenvolvimento mental é, em sua essência, um processo sociogenético; f) a atividade cerebral superior não é simplesmente uma atividade nervosa ou neuronal superior, mas uma atividade que interiorizou significados sociais derivados das atividades culturais e mediada por signos4 ; g) a atividade cerebral é sempre mediada por instrumentos e signos; h) a linguagem é o principal mediador na formação e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores; i) a linguagem compreende várias formas de expressão: oral, gestual, escrita, artística, musical e matemática; j) o processo de interiorização das funções psicológicas superiores é histórico, e as estruturas de percepção, a atenção voluntária, a memória, as emoções, o pensamento, a linguagem, a resolução de problemas e o comportamento assumem diferentes formas, de acordo com o contexto histórico da cultura; k) a cultura é interiorizada sob a forma de sistemas neurofísicos que constituem parte das atividades fisiológicas do cérebro, as quais 3 Ressalta-se, como apontado em Molon (1995), que há diferentes leituras da obra de Vygotsky e, portanto, são identificados, pelo menos, dois tipos de determinação do sujeito: a interação com outros sujeitos e a linguagem. Dessas determinações resulta o sujeito interativo, isto é, aquele que não é nem ativo e nem passivo, e que é constituído na e pela relação interpessoal, e o sujeito semiótico, “sujeito constituído na e pela linguagem, sendo que apareceu como sujeito resultante da relação (...), e como sujeito constituído na relação constitutiva EU-OUTRO, numa relação dialética”. (p.106). 4 Signos são mediadores internos, os instrumentos psicológicos que dirigem e controlam as ações psicológicas do próprio indivíduo ou de outros indivíduos.
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    http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf6 permitem a formaçãoe o desenvolvimento dos processos mentais superiores. Vygotsky formula sua teoria por entender que os mentalistas e os naturalistas não explicavam cientificamente os processos mentais superiores. No seu entender, os naturalistas, ao aderirem aos métodos das ciências naturais, limitavam-se ao estudo de processos psicológicos relativamente simples, tais como as sensações ou comportamentos observáveis, mas ao se depararem com funções complexas, fracionavam-nas em elementos simples ou adotavam um dualismo que abria espaço para a especulação arbitrária. Já com relação aos mentalistas, ele ponderava que estes, por sua vez, levavam em consideração os fenômenos do “espírito” e, a partir de um apriorismo fenomenológico ou do idealismo, descreviam os processos mentais superiores, mas alegavam que era impossível explicá-los ou explicavam-nos de uma forma arbitrária e especulativa. Compartilhando da concepção marxista de que o essencialmente humano é constituído por relações sociais, negou-se a buscar explicações para as funções mentais superiores nas profundezas do cérebro ou nas características etéreas de uma alma separada do corpo. O trabalho de Vygotsky, segundo Molon (1995), é fortemente influenciado pelas idéias de Marx e Engels, pela dialética de Hegel, pelo evolucionismo de Darwin, pela filosofia de Espinosa e pelas idéias de Pierre Janet, entre outros pensadores. É a partir das idéias desses autores que Vygotsky formou sua base de entendimento de que: a) a psicologia é uma ciência do homem histórico e não do homem abstrato e universal; b) a origem e o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores é social; c) há três classes de mediadores: signos e instrumentos; atividades individuais e relações interpessoais; d) o desenvolvimento de habilidades e funções específicas, bem como a origem da sociedade, são resultantes do surgimento do trabalho - este entendido como ação/movimento de transformação - e que é pelo trabalho que o homem, ao mesmo tempo em que transforma a natureza para satisfazer as suas necessidades, se transforma também; e) existe uma unidade entre corpo e alma, ou seja, o homem é um ser total. Especialmente os postulados darwinianos de mutação, recombinação e seleção natural, que pressupõem instabilidade e movimento no decorrer do tempo, assim como, também, a noção de ordem e a direção da evolução, serviram de base para formulações de Vygotsky, como, por exemplo, sobre: a) as mudanças nos próprios conhecimentos e significados sociais; b) que o desenvolvimento não pressupõe uma sucessão de estágios lineares, fixos e aleatórios, mas que cada estágio supõe o seguinte, isto é, o fato de o processo de desenvolvimento ocorrer por estágios não significa que estes sigam um percurso contínuo, eles são marcados por avanços e retrocessos, mas seguem uma ordem de aparecimento, o que não implica que tenham que ser vivenciados em sua plenitude, e um estágio constitui um pré-requisito para o próximo; c)
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 7 que o desenvolvimento cultural segue as mesmas leis da seleção natural; d) que o indivíduo adulto é produto de comportamentos herdados, que são modificados pelas relações sociais; e) que para explicar o comportamento humano é preciso considerar as condições biológicas e como estas são modificadas nas relações sociais-culturais. Outra fonte de influência foi a lingüística, por suas discussões sobre origem da linguagem e sua possível influência sobre o desenvolvimento do pensamento. Essa temática influenciou sobremaneira o pensamento de Vygotsky, pois a encontramos permeando toda sua obra. Por último, outro ponto de influência é o cenário sociopolítico que valorizava a ciência, enquanto instrumento a serviço dos ideais revolucionários, na busca de respostas rápidas para a construção de uma nova sociedade. 4. A PSICOLOGIA SÓCIO-HISTÓRICA A teoria histórico-cultural ou sociocultural do psiquismo humano de Vygotsky, também conhecida como abordagem sociointeracionista, toma como ponto de partida as funções psicológicas dos indivíduos, as quais classificou de elementares e superiores, para explicar o objeto de estudo da sua psicologia: a consciência. A teoria do desenvolvimento vygotskyana parte da concepção de que todo organismo é ativo e estabelece contínua interação entre as condições sociais, que são mutáveis, e a base biológica do comportamento humano. Ele observou que o ponto de partida são as estruturas orgânicas elementares, determinadas pela maturação. A partir delas formam-se novas e cada vez mais complexas funções mentais, dependendo da natureza das experiências sociais da criança. Nesta perspectiva, o processo de desenvolvimento segue duas linhas diferentes em sua origem: um processo elementar, de base biológica, e um processo superior de origem sociocultural. Nesse sentido, é lícito dizer que as funções psicológicas elementares são de origem biológica; estão presentes nas crianças e nos animais; caracterizam- se pelas ações involuntárias (ou reflexas); pelas reações imediatas (ou automáticas) e sofrem controle do ambiente externo. Em contrapartida, as funções psicológicas superiores são de origem social; estão presentes somente no homem; caracterizam-se pela intencionalidade das ações, que são mediadas. Elas resultam da interação entre os fatores biológicos (funções psicológicas elementares) e os culturais, que evoluíram no decorrer da história humana. Dessa forma, Vygotsky considera que as funções psíquicas são de origem sociocultural, pois resultaram da interação do indivíduo com seu contexto cultural e social. As funções psicológicas superiores, apesar de terem sua origem na vida sociocultural do homem, só são possíveis porque existem atividades cerebrais. Ou seja, essas funções não têm sua origem no cérebro, mas não existem sem
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    http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf8 ele, pois seutilizam das funções elementares que, em última instância, estão ligadas aos processos cerebrais. Vale lembrar que: a) o cérebro não é um mero suporte das funções psicológicas superiores, mas parte de sua constituição; b) o surgimento das funções superiores não elimina as elementares; o que ocorre é a superação das elementares, sobressaindo as superiores, mas nunca deixando de existir as elementares; c) Vygotsky considera que o modo de funcionamento do cérebro é moldado ao longo da história da espécie (base filogênica) e do desenvolvimento individual (base ontogênica), como produto da interação com o meio físico e social (base sociogênica). Segundo Vygotsky, o desenvolvimento mental é marcado pela interiorização das funções psicológicas. Essa interiorização não é simplesmente a transferência de uma atividade externa para um plano interno, mas é o processo no qual esse interno é formado. Ela constitui um processo que não segue um curso único, universal e independente do desenvolvimento cultural. O que nós interiorizamos são os modos históricos e culturalmente organizados de operar com as informações do meio. Segundo afirma Blanck (1996), as funções psicológicas superiores estão na base do desenvolvimento ontogenético que, na sua avaliação, não ocorre de forma retilínea, demarcando uma acumulação quantitativa, mas como uma série de transformações qualitativas e dialéticas. Elas são formadas em estágios, sendo cada um deles constituído por um processo complexo de desintegração e integração. Eles se distinguem por apresentar uma organização específica da atividade psicológica e por permitir o aparecimento de um dado comportamento. Vygotsky considerava que a aquisição da linguagem constitui o momento mais significativo no desenvolvimento cognitivo. Ela, a linguagem, representa um salto de qualidade nas funções superiores; quando ela começa a servir de instrumento psicológico para a regulação do comportamento, a percepção muda de forma radical, novas memórias são formadas e novos processos de pensamento são criados. Um dos conceitos fundamentais da psicologia sócio-histórica é o de mediação, ou seja, do “processo de intervenção de um elemento intermediário numa relação” (Oliveira, 1993:26). O que segundo Molon (1995) é um pressuposto norteador de toda a construção teórica de Vygotsky. Na visão de Rego (1998), é pela mediação que o indivíduo se relaciona com o ambiente, pois, enquanto sujeito do conhecimento, ele não tem acesso direto aos objetos, mas, apenas, a sistemas simbólicos que representam a realidade. É por meio dos signos, da palavra, dos instrumentos, que ocorre o contato com a cultura. Nesse sentido, a linguagem é o principal mediador na formação e no desenvolvimento das funções psicológicas superiores. Ela constitui um sistema simbólico, elaborado no curso da história social do homem, que organiza os
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 9 signos em estruturas complexas permitindo, por exemplo, nomear objetos, destacar suas qualidades e estabelecer relações entre os próprios objetos. O surgimento da linguagem, como já foi dito anteriormente, representa um salto qualitativo no psiquismo, originando três grandes mudanças. A primeira está relacionada ao fato de que ela permite lidar com objetos externos não presentes. A segunda permite abstrair, analisar e generalizar características dos objetos, situações e eventos. Já a terceira se refere a sua função comunicativa; em outras palavras, “a preservação, transmissão e assimilação de informações e experiências acumuladas pela humanidade ao longo da história”. (Rego, 1998:54) Em suma, a linguagem constitui o sistema de mediação simbólica que funciona como instrumento de comunicação, planejamento e auto-regulação. É justamente pela sua função comunicativa que o indivíduo se apropria do mundo externo, pois é pela comunicação estabelecida na interação que ocorrem “negociações”, reinterpretações das informações, dos conceitos e significados. De acordo com Vygotsky, a linguagem materializa e constitui as significações construídas no processo social e histórico. Quando os indivíduos a interiorizam, passam a ter acesso a estas significações que, por sua vez, servirão de base para que possam significar suas experiências, e serão estas significações resultantes que constituirão suas consciências, mediando, desse modo, suas formas de sentir, pensar e agir. Considerando-se a origem do indivíduo (ontogênese), ocorrem dois saltos qualitativos no seu desenvolvimento. O primeiro, quando o indivíduo adquire a linguagem oral, e o segundo, quando adquire a linguagem escrita. Um outro ponto de fundamental importância no desenvolvimento das funções psicológicas superiores é o papel desempenhado pela aprendizagem. Desse ponto de vista, para que o indivíduo se desenvolva em sua plenitude, ele depende da aprendizagem que ocorre num determinado grupo cultural, pelas interações entre seus membros. Nessa perspectiva, a aprendizagem é encarada como um processo que antecede o desenvolvimento, ampliando-o e possibilitando a sua ocorrência. Em outras palavras, os processos de aprendizagem e desenvolvimento se influenciam mutuamente, gerando condições de que quanto mais aprendizagem, mais desenvolvimento e vice-versa. Nos estudos de Vygotsky, as relações entre desenvolvimento e aprendizagem ocupam lugar de destaque, principalmente, na educação. Ele pondera que, embora a criança inicie sua aprendizagem muito antes de freqüentar o ensino formal, a aprendizagem escolar introduz elementos novos no seu desenvolvimento. Ele considera a existência de dois níveis de desenvolvimento. Um corresponde a tudo aquilo que a criança pode realizar sozinha e o outro, às
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    http://www.ugr.es/local/recfpro/Rev102COL2port.pdf10 capacidades que estãose construindo; isto é, refere-se a tudo aquilo que a criança poderá realizar com a ajuda de outra pessoa que sabe mais. Esta última situação é a que melhor traduz, segundo Vygotsky, o nível de desenvolvimento mental da criança. Entre esses dois níveis, há uma zona de transição, na qual o ensino deve atuar, pois é pela interação com outras pessoas que serão ativados os processos de desenvolvimento. Esses processos serão interiorizados e farão parte do primeiro nível de desenvolvimento, convertendo-se em aprendizagem e abrindo espaço para novas possibilidades de aprendizagem. Em síntese, a teoria psicológica construída por Vygotsky rompe com as correntes até então estruturadas e parte de uma nova concepção de realidade e de homem. Referências bibliográficas ABBAGNANO, N.(2000). Dicionário de filosofia.4.ed.,SP:Martins Fontes. BLANCK, G. (1996). Vygotsky:o homem e sua causa.In: MOLL,L.C.Vygotsky e a educação: implicações pedagógicas a psicologia sócio-histórica. (pp. 31-35). Porto Alegre, RS: Artes Médicas. BONIN, L.F.R. (1996). A teoria histórico cultural e condições biológicas. São Paulo (Brasil), Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. CASTORINA, J. A. (1998). Piaget e Vygotsky: novos argumentos para uma controvérsia. (pp. 160-183). In Cadernos de Pesquisa. N. 105. São Paulo. DAVIS, C. (1993). O construtivismo de Piaget e o Sócio-interacionismo de Vygotsky.In: Anais do Seminário Internacional de Alfabetização & Educação, 35-52. UNIJUI, RS. DOISE, W. (1985). Le developpement social de l’intelligence. In:MUGNY, G. Psychologie sociale du developpement cognitif. Bern: Peter Lang. HERRNSTEIN,R.J. & BORING, E.G. (orgs). (1971). Textos básicos de história da psicologia. São Paulo: Heider-Edusp. JAPIASSÚ, H. & MARCONDES,D.(1996). Dicionário básico de filosofia. 3. ed., rev. e amp.Rio de Janeiro:Jorge Zahar. KONDER, L. (1976). Marx: vida e obra. 3.ed.Rio de Janeiro: Paz e Terra. La TAILLE, Y., OLIVEIRA, M. K. de & DANTAS.H. (1992). Piaget, Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus. LUCCI, M.A. (2002). A importância da interação na individuação: uma visão da abordagem sócio-interacionista de Vygotsky. (PP.137-147). In Revista de Ciênciada Educação. N. 6. São José dos Campos, São Paulo: Stiliano. LUCCI, M.A. (2004). Um estudo sobre as propostas de B.F.Skinner e as de L.S. Vygotsky: a contribuição de uma aproximação. São Paulo, Tese de Doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
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    Profesorado. Revista decurrículum y formación del profesorado, 10, 2 (2006) 11 LURIA, A.R., LEONTIEV, A., VYGOTSKY,L.S. & outros. (1991). Psicologia e pedagogia: bases psicológicas da aprendizagem e do desenvolvimento.São Paulo: Moraes. MOLON, S.I. (1995). A questão da subjetividade e da constituição do sujeito nas reflexões de Vygotsky. São Paulo, Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. MONTOYA, A.O.D. (1995). Sobre as raízes do pensamento e da linguagem:Vygotsky e Piaget. (pp. 26-37). In Cadernos de Pesquisa. N. 92. São Paulo. OLIVEIRA, M.K.de. (1993). Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio- histórico. São Paulo: Scipione. (Série pensamento e ação no magistério). PALANGANA, I.C. (1989). Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget e Vygotsky:a relevância do social numa perspectiva interacionista. São Paulo, Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. PERRET-CLERMONT, A.N. (1978). A construção da inteligência pela interação social. Lisboa: Sociocultura. REGO, C.R. (1998). Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. 5. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1998. REY, F.G.L.S. (1996). Vigotsky: presencia y continuidad de su pensamiento en el centenario de su nacimiento. (pp. 63-81). In Psicologia & Sociedade. N. 8, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. ROSA, A. & MONTERO, I. (1996). O contexto histórico do trabalho de Vygotsky: uma abordagem sócio-histórica. (pp.57-83). In: MOLL,L.C. Vygotsky e a educação:implicações pedagógicas da psicologia sócio-histórica. Porto Alegre, RS: Artes Médicas. ROSA, E.Z. & ADRIANI, A.G. (2002). Psicologia sócio-histórica: uma tentativa de sistematização epistemológica e metodológica. (pp. 259-288). In: KAHHALE,E.M.P.(org). A diversidade da psicologia: uma construção teórica.São Paulo:Cortez. SOUZA, S.J.& KRAMER, S. (1991). O debate Piaget/Vygotsky e as políticas educacionais. (pp. 69-80). In Cadernos de Pesquisa. N. 77. VYGOTSKY, L.S. (1979). El desarrollo de los procesos psicológicos superiores. Barcelona: Crítica. VYGOTSKY, L.S. (1991). Problemas teóricos y metodológicos de la psicología. Madrid: Visor Distribuiciones,v.1. VYGOTSKY,L.S. (1996). A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 5.ed. São Paulo (Brasil): Martins Fontes. VYGOTSKY,L.S. (1999). Teoria e método em psicologia. 2. ed. São Paulo (Brasil): Martins Fontes. VYGOTSKY, L.S. et alii. (1988). Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo (Brasil):Ícone. WEISCHEDEL,W. (2001). A escada dos fundos da filosofia: a vida cotidiana e o pensamento de 34 grandes filósofos. 3. ed. São Paulo (Brasil):Angra.
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    Tarfã % Ä Jq'.' ÏH'Oti J? Í /u s ÿ ■ f^djQns^rvJZjCï î^ô/ q ' -?,00 AS RAÍZES MARXISTAS DO PENSAMENTO DE VIGOTSKI: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS PARA A PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL MARXIST ROOTS OF VIGOTSKY'S THOUGHT: THEORETICAL CONTRIBUTIONS TO THE CULTURAL-HISTORICAL PSYCHOLOGY Fernando Dala Santa' Vivian Baroni12 Resumo: O presente artigo tem como objetivo principal uma rápida retomada dos pressupostos básicos do marxismo e a sua identificação com a Teoria histórico-cultural, em especial com o pensamento de Lev Semionovich Vigotski. A chave para a compreensão das teorias de Vigotski está nos princípios marxistas, cuja contribuição vai muito além da influência formal que emana da sua condição ideológica Vigotski apreendeu o método dialético marxista, da mesma forma em que incorporou e desenvolveu alguns dos seus objetivos e princípios teóricos (os conceitos de mediação e atividade, por exemplo), necessários para o desenvolvimento de uma psicologia de cunho científico, que teria um profundo impacto nas concepções educacionais contemporâneas. Tentar separar a obra de Vigotski da influência do marxismo é subestimar as suas escolhas metodológicas e, acima de tudo, desrespeitar as suas convicções teóricas e inclinações ideológicas. Palavras chave: Vigotski. Marxismo. Psicologia Teoria Histórico-cultural. Abstract: This article has as main objective rapid resumption of the basic assumptions of Marxism and its identification with the cultural-historical theory, especially with the thought of Lev Semionovich Vygotsky. The key to understand the theories of Vygotsky’s Marxist principles, whose the contribution goes far beyond the formal influence that came from its ideological condition. Vygotsky learned the Marxist dialectical method, as it incorporated and developed some of the theoretical principles and goals (the concepts of mediation and activity, for example) required for the development of a psychology of a scientific nature, which would have a strong impact on contemporary educational concepts. Trying to separate the work of Vygotsky the influence of Marxism it's underestimate its methodological choices, and above all to disrespect their beliefs theoretical and ideological inclinations. Keywords: Vygotsky. Marxism. Psychology. Cultural-historical Theory. * * * 1Filósofo, Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da FAEDAJPF, mediante Bolsa FAPERGS/CAPES. Integra o Núcleo de Pesquisa em Filosofia e Educação (NTJPEFE) da Universidade de Passo Fundo. E-mail: femandos.101@hotmail.com. 2Mestranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da FAEDAJPF. Bolsista CAPES. Integra o Núcleo de Pesquisa em Filosofia e Educação (NUPEFE) da Universidade de Passo Fundo. E-mail: vivianbaroni@hotmai1.com.
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    As raízes marxistasdo pensamento de Vigotski 1. Considerações iniciais Ao analisarmos o pensamento de um autor é impossível desvinculá-lo do contexto ao qual estava inserido, tampouco isentá-lo da influência intelectual que o constitui. Quando nos referimos a uma figura ímpar como a de Vigotski3 é necessário mantermos como horizonte a conjuntura intelectual e sócio-política a que ele se vincula, sob pena de cometermos imperdoáveis equívocos. Dessa forma, consideramos essencial uma reflexão sobre os aportes marxistas para as pesquisas desenvolvidas no âmbito da Teoria Histórico- Cultural, especialmente as empreendidas por Vigotski A filosofia de Marx e Engels ao inverter o modelo dialético hegeliano, estabelecendo como causas do desenvolvimento histórico as condições materiais de existência e não mais as ideias, permitiu uma guinada nas pesquisas antropológicas, pavimentando o caminho para o estudo dos fenômenos psicológicos. Vigotski, tanto pela sua localização espaço-temporal (na Rússia dos primeiros anos da revolução bolchevique), quanto pela sua formação intelectual, foi profundamente influenciado pelas ideias de Marx, deixando transparecer suas inclinações ao longo das pesquisas que realizou. Vigotski não foi um teórico do marxismo, mas um pensador marxista Essa sutil diferença representa um fator determinante dentro da sua configuração intelectual, na medida em que o pensamento marxista representava o substrato teórico sobre o qual Vigotski construiu a sua psicologia, mas não os limites aos quais ela estava circunscrita. O materialismo histórico-dialético, entendido como método mais coerente de leitura da realidade em seu desenvolvimento histórico, representou para Vigotski uma importante ferramenta na tarefa de estabelecer um modelo científico de estudo dos fenômenos psíquicos. A proximidade entre o marxismo e as concepções advindas da teoria histórico- cultural pode ser comprovada através da discussão acerca do conceito de trabalho, abordado por Marx e Engels e que foi retomado por Vigotski a partir da ideia de mediação. A ação consciente do homem sobre o mundo, mediada pelo uso de instrumentos, representou o passo decisivo em direção à gênese do caráter genuinamente humano do 3 Embora existam várias possíveis grafias (Vygotsky, Vygotskiou mesmo Vygotskij), no presente texto optamos por padronizar o uso de Vigotski, exceto em caso de citação direta. 2 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski homem. Vigotski estendeu essa concepção de mediação ao uso de signos, que a exemplo das ferramentas são criados pelas sociedades, agindo como transformadores da realidade sociocultural. A transmissão da cultura, tanto no que se refere à esfera das ferramentas materiais, quanto aos elemenios linguísticos e estético-culturais, representa o fator decisivo no desenvolvimento humano, de onde pode-se infenr a importância do problema educacional para a compreensão do pensamento vigotskiano. Entretanto, várias décadas após a morte de Vigotski, um número considerável de pesquisadores se esforçam (sem qualquer legitimidade) por separar as suas teorias da inegável influência exercida pelo pensamento marxista, ao mesmo tempo em que objetivam aproximá-lo de correntes de pensamento incompatíveis com as suas perspectivas e convicções teóricas. A substituição do que Vigotski efetivamente escreveu por reinterpretações e edições resumidas ou censuradas (DUARTE, 2000a), apoias facilita a aceitação da paradoxal situação de dar ênfase às pesquisas de um pensador soviético no âmbito do capitalismo globalizado. Essa iniciativa extremante tendenciosa revela não somente um profundo desconhecimento em relação ao marxismo e, consequentemente, o preconceito gerado pela apressada e leviana associação com os abusos cometidos pelas distorções empreendias em nome do ‘socialismo real”; mas também um desrespeito com a própria teoria de Vigotski. 2. Caracterização geral do marxismo4 e o problema da distorção de seus princípios básicos O pensamento filosófico de Marx, que não se restringe à filosofia, mas abrange, sobretudo, os campos da história, da ciência política e da economia (JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 224), se desenvolveu a partir da crítica à filosofia hegeliana e à tradição racionalista, cujas concepções entendiam as ideias não como representações abstratas de uma realidade concreta, mas como a própria realidade. Todavia, a grande contribuição da filosofia de Hegel para o pensamento de Marx foi o método dialético. A 4 Termo que designa o pensamento de Karl Marx e de seu principal colaborador, Fnedrich Engels. Embora seja uma tradição sincrética que fomenta interpretações e linhas de ação distintas, no presente texto sempre que utilizarmos o termo marxismo estaremos aludindo diretamente ao pensamento de Marx. 3 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p.1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski dialética hegeliana representa o movimento racional que permite a superação de uma determinada contradição, em que cada etapa nega e supera a anterior em um processo contínuo. Dessa forma, a uma tese (um determinado estado de coisas) contrapõe-se uma antítese (negação do estágio inicial), cujo resultado é a síntese que carrega elementos das duas instâncias anteriores, e que se transmuta em uma nova tese dando continuidade ao processo. Para o idealismo hegeliano a história poderia ser concebida como uma sucessão de momentos, levada a cabo somente através da oposição ao momento precedente em uma contínua marcha da razão, sendo que o sujeito histórico é abstrato, é o ‘‘sujeito em si”. Todavia, esse modelo de análise da realidade não era capaz de abarcar as instâncias concretas da vida social, mantendo-se circunscrita ao domínio das ideias. Marx toma para si o modelo dialético, invertendo, porém, a sua estrutura ao estabelecer que as causas do devir histórico eram materiais, ou seja, sociais, econômicas e produtivas. Marx desenvolve a pragmática concepção de que a existência determina a consciência, da mesma forma como supera o determinismo subjacente ao materialismo tradicional de Feuerbach, que também havia influenciado o seu pensamento. Estabelece o que ele chama de “naturalismo consistente ou humanismo” que se difere tanto do iucdíiuuu quanto do materialismo, “constituindo ao mesmo tempo a sua verdade unificadora” (MARX, 2006, p. 182). A esse método de análise da realidade, pautado em um constante devir cujas raízes são as condições materiais de existência, convencionou-se chamar de materialismo histórico-dialético: a sociedade está estruturada a partir das relações econômicas correspondentes a cada período histórico, cuja evolução se desenvolve dialeticamente. Tal concepção da história implica a necessidade de uma reformulação radical das perspectivas socialistas, ainda carentes de uma fundamentação científica Marx critica o socialismo utópico de Proudhon - que acreditava em uma evolução espontânea da sociedade - opondo-lhe a ideia de que a efetividade do socialismo dependeria da ação decisiva do proletariado enquanto classe revolucionária: o proletariado é o coração da emancipação (MARX, 2006, p. 59). O motor da história seria, portanto, a luta de classes, ou seja, a história se move pelo antagonismo entre as classes sociais de cada período histórico. A passagem de um modo de produção5 para outro acontece quando o nível de desenvolvimento das forças produtivas 5 Modo de produção é a maneira pela qual se organiza a produção material. 4 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p.1-16
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    As raízes marxistasdopensamento de Vigotski entra em contradição com as relações sociais de produção. Assim se deu no sistema escravista, com a oposição entre senhores e escravos; no feudalismo entre senhores feudais e servos e no capitalismo entre burguesia e proletariado. Segundo Marx, o capitalismo, através das próprias contradições, geradas no seio da sua organização, inevitavelmente viria a ruir, dando lugar a um estágio intermediário, a “ditadura do proletariado”, posteriormente substituída pelo comunismo, em cuja organização não haveria classes sociais e nem Estado, sendo abolida a propriedade privada dos meios de produção. O comunismo representaria o momento histórico em que trabalho poderia surgir novamente como elemento emancipador no qual o homem se autoproduz pela sua ação livre e consciente sobre a realidade. Entretanto, distorções, incompreensão ou simplesmente a ignorância acerca dos conceitos fundamentais do marxismo acabam por erigir uma barreira aparentemente indelével, cuja transposição se mostra necessária para uma apreensão teórica consistente e livre de preconceitos6. O primeiro grande equívoco, e talvez o mais disseminado, se refere à errônea interpretação do “materialismo” de Marx, que se manifesta sob a alegação de que para o marxismo a suprema motivação psicológica do homem sena a satisfação das suas necessidades materiais básicas, negligenciando o valor do indivíduo ao negar as suas instâncias cultural, espiritual e estética, tomando-o, por fim, um autômato sem personalidade Fromm (1979, p. 15) destaca que a imagem popular do materialismo marxista em sua tendência antiespiritual e desejo pela uniformidade e subordinação é inteiramente falsa: “a meta de Marx era a emancipação espiritual do homem, sua libertação dos grilhões do determinismo econômico, sua reintegração como ser humano, sua aptidão para encontrar unidade e harmonia com seus semelhantes e com a natureza” Paralelamente a essa interpretação tacanha do materialismo marxista aparece a contraditória crítica ao caráter utópico do socialismo, que não reconheceria o desejo por ganhos materiais ou a possibilidade de “ascensão social” como os únicos incentivos eficazes para o homem trabalhar. Com efeito, acusa-se o marxismo, sob um mesmo ponto de vista, ora de excessivamente materialista, ora de ingenuamente utópico. Ou seja, as razões que levam a considerar que a concepção da história intrinsecamente ligada às questões materiais de existência é incompatível com a tradição religiosa e espiritual do 6 Não obstante as criticas que Marx recebia, o desconhecimento acerca da sua obra era tamanho no ocidente que a piimeiia veisão inglesa dos Manuscritos econômicos filosóficos, a sua principal obra filosófica, foi publicada somente em 1959, a partir de uma tradução russa. 5 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski ocidente, são paradoxalmente as mesmas utilizadas para sustentar que o sistema capitalista corresponde à natureza humana (centrada na busca por ganhos materiais), e que, portanto, o capitalismo se mostra superior ao socialismo “visionário” (FROMM, 1979, p. 16). Outra razão central para o problema das interpretações equivocadas acerca do marxismo, sem dúvida, se deve às deturpações ocorridas nos países socialistas, que tentaram convencer o mundo de que suas práticas correspondiam fielmente às teorias de Marx. No entanto, ao contrário do sistema vislumbrado por Marx, o “socialismo real” não libertou o homem das cadeias do determinismo econômico, nem o fez vencer a alienação, mas o tomou submisso a um Estado centralizador e burocratizado. A ditadura do proletariado na verdade se mostrou uma rígida ditadura sobre o proletariado e a exploração do homem pelo homem foi substituída pela exploração do homem pelo Estado. Portanto, a direta e leviana associação de Marx aos abusos cometidos nos países “comunistas” não pode ser sustentada racionalmente, pois o que se viu nessas nações não lembra em nada a essência do marxismo. É possível afirmar que o socialismo real, pelas suas contradições, não passava de uma versão piorada de capitalismo. 3. A herança marxista de Vigotski: o método dialético Lev Semionovich Vigotski realizou seus estudos universitários em direito, filosofia e história e, embora nunca tenha recebido educação formal em psicologia, foijou, ao lado dos psicólogos russos Alexander Luria e Alexei Leontiev, uma das mais fecundas e paradigmáticas teorias psicológicas. Os estudos de Vigotski estavam indubitavelmente na vanguarda das pesquisas em psicologia, objetivando a análise dos processos de transformação do desenvolvimento humano nas suas dimensões filogenética, ontogenética e histórico-cultural. Rivière (1985, p. 11) afirma que o pensamento de Vigotski foi de tal forma revolucionário que em alguns aspectos ainda mantém a sua atualidade, enquanto em outros se encontra mesmo a frente do nosso tempo. Os estudos de Vigotski estão impregnados de elementos do marxismo, porém, nada seria mais errôneo do que enquadrá-lo entre os seus teóricos ideológicos. A relação estabelecida entre Vigotski e a teoria marxista, alçada ao posto de elemento norteador de todo o pensamento soviético, nunca se deu na forma de uma adequação intelectual. 6 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As raízes marxistasdo pensamento de Vigotski Vigotski era, acima de tudo, um pensador marxista, ou seja, utilizava os princípios marxistas como elementos de análise da realidade, sem nunca se deixar seduzir pela dogmática pretensão de subordinar toda a realidade a esses princípios. Rivière (1985, p. 16) aponta o fato de que a familiandade de Vigotski com a diaiética como método, bem como com os fundamentos essenciais do pensamento marxista, o impediu de desenvolver uma atitude reverenciai como a imposta pelo stalmismo. Vigotski empreendeu a sua relação com o marxismo a partir do contato com os textos de Hegel, Marx e Engels, ocorrido antes mesmo de iniciar seus estudos universitários É possível inferir, a partir disso, que Vigotski encarava o marxismo como uma ferramenta de pensamento, um subsídio indispensável na composição das suas teorias Estabeleceu, a exemplo de Marx, o homem como ser histórico, sujeito ativo na construção de si mesmo e da própria história, negando o dogma stalinista do homem enquanto produto das circunstâncias Essa perspectiva objetivava a constituição de um modelo de pesquisa psicológica centrado em um estatuto científico, que, no entanto, não se resumia à formatação das pesquisas empíricas ao universo dos princípios marxistas; “ao contrário do estereótipo dos intelectuais soviéticos que se apressam a fazer as suas teonas de acordo com a mais recente interpretação do marxismo elaborada pelo Politburo7” (COLE & SCRIBNER, 1991, p 7). A efervescência científica observada nos anos que se seguiram à revolução russa estava presente no âmbito da psicologia soviética através da antagônica relação entre diferentes escolas, cujas explicações representavam sempre contribuições parciais ao estudo dos fenômenos psicológicos. Vigotski acreditava que nenhuma das escolas de psicologia então existentes, pelas suas próprias limitações teórico-metodológicas, seria capaz de abarcar a complexidade de elementos postos em jogo nos estudos psicológicos e, por essa razão, suas pesquisas buscavam a formulação de uma síntese das concepções antagônicas a partir de novas bases teóricas. Behavioristas8 e gestaltistas9 cindiam a psicologia em duas esferas aparentemente irreconciliáveis, 7 Do russo Politicheske Byuro (Gabinete de Política), representava o comitê executivo do Partido Comunista na URSS. 8 O behaviorismo é o método psicológico experimental que consiste em realizar estudos científicos em homens e animais, limitando-se à investigação do seu comportamento como resposta a um estímulo externo, extraindo dai as leis que os reúnem, sem qualquer referência à consciência (JAPIASSU &. MARCONDES, 2006, p. 28). 7 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski um ramo com características de uma "ciência natural” que poderia explicar os processos elementares sensoriais e reflexos, e um outro com características de uma ‘ciência mental”, que descreveria as propriedades emergentes dos processos psicológicos superiores. O que Vygotsky procurou foi uma abordagem abrangente que possibilitasse a descrição e a explicação das funções psicológicas superiores, em termos aceitáveis para as ciências naturais (COLE & SCRIBNER, 1991, p. 6). Vigotski afirmava que a corrente “reflexologista”, cujas concepções aparentemente excluíam aspectos psíquicos, conduzia a um materialismo puro e assim ao enfoque implícito de um idealismo dualista na esfera geral do problema das relações entre mente e matéria. Acreditava, no entanto, ser possível o estudo das funções psicológicas superiores sem sair dos limites da reflexologia, desde que partisse da ideia de consciência como mecanismo de transmissão de reflexos (R1VIÈRE, 1985, p. 27). Para a construção de uma psicologia verdadeiramente científica, "Vigotski entendia ser necessária uma teoria que realizasse a mediação entre o materialismo dialético, enquanto filosofia de máximo grau de abrangência e universalidade, e os estudos sobre os fenômenos psíquicos concretos” (DUARTE, 2000b, p. 80). Assim, tendo como base o método dialético, Vigotski pretendeu identificar as mudanças qualitativas do comportamento que se sucedem no decorrer do desenvolvimento biológico e a relação que ele estabelece com o contexto social, tendo suas atenções voltadas para o estudo das funções psicológicas superiores, típicas da espécie humana Nas palavras de Rivière (1985, p. 16), a dialética não era para Vigotski um dogma ou um catecismo, mas simplesmente a estrutura mesma do seu modo de pensar, quase tão natural quanto a respiração, tanto que compreender um problema significava situá-lo em sua gênese dialética Vigotski expõe a sua intenção frente à doutrina de Marx nos seus cadernos não publicados, demonstrando a autonomia intelectual que caracterizaria a sua fértil produção: ‘"não quero descobrir a natureza da mente fazendo uma colcha de inúmeras citações. O que eu quero é, uma vez tendo aprendido a totalidade do método de Marx, saber de que modo a ciência tem que ser elaborada para abordar o estudo da mente” (apud COLE &9 9 A teoria da Gestalt (do alemão Gestalttheorie, teoria da forma) é um princípio psicológico segundo o qual percebemos sempre um conjunto de elementos Por exemplo, quando vemos algo, vemos ao mesmo tempo uma certa forma, uma certa cor, uma certa distância. A esse conjunto percebido como um todo organizado, chamamos deforma, cuja significação representa uma configuração, estruturação ou organização (JAPIASSÚ & MARCONDES, 2006, p. 121). 8 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As raízes marxistasdo pensamento de Vigotski SCRIBNER, 1991, p. 9). A manifesta e consciente adoção do marxismo como substrato teórico não impediu Vigotski de angariar elementos advindos de outras correntes psicológicas. A psicologia científica de Vigotski pressupunha uma crítica ao reducionismo dos estudos psíquicos às categorias marxistas cristalizadas; entretanto, sua crítica recaia também sobre as tentativas de utilização do marxismo em teorias psicológicas que lhe fossem estranhas, e, (...) ao contrário daqueles que, atualmente, identificam como dogmatismo a adoção firme e explícita de uma corrente teórica e, por consequência, identificam como abertura de espírito a ausência de posicionamento firme e explícito, Vigotski entendia que a clareza quanto aos fundamentos centrais do marxismo e a adoção firme desses fundamentos é que poderia possibilitar aos psicóiogos marxistas não se fecharem às questões formuladas por correntes não marxistas da psicologia (DUARTE, 2000b, P 81) Não obstante a indiscutível influência de Marx no pensamento de Vigotski, o fato de pouco citá-lo de forma direta nas suas obras mais conhecidas serve como subterfúgio para aqueles que pretendem desvinculá-lo de qualquer resquício de uma tendência marxista. Fazem isso, primeiramente tentando separar os trabalhos de Vigotski dos de Leontiev, imputando a esse último o rótulo de mero “repetidor do discurso oficial, alguém que cedeu à pressão dos guardiões ideológicos’ do marxismo soviético” (DUARTE, 2000a, p. 163). Apontam erroneamente a inclinação de Leontiev a uma pretensamente marxista dicotomia entre linguagem e trabalho, embora tal separação inexista tanto em Marx quanto em Leontiev e Vigotski, que desenvolveram seus trabalhos no interior de uma mesma corrente da psicologia, apoiada em fundamentos filosóficos marxistas Todavia, qualquer leitor com um conhecimento elementar sobre os princípios filosóficos do marxismo será capaz de percebê-los perfeitamente integrados às doutrinas expressas pela psicologia histórico-cultural. Assim, é realmente de se estranhar que tantos pesquisadores se esforcem por vincular Vigotski a correntes de pensamento que lhe são tão estranhas (afastando-a, por conseguinte, do marxismo), distorcendo completamente a sua linha de pesquisa e tomando a sua profunda teoria algo extremamente simplista e rasteiro Tal iniciativa tem como objetivo resumir a teoria de Vigotski à ênfase nos signos, aproximando-a das concepções pós-estruturalistas que reduzem tudo ao embate de discursos (DUARTE, 2000a, 164) 9 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As raízes marxistasdo pensamento de Vigotski 4. O trabalho na perspectiva marxista e a sua relação com conceitos vigotskianos de atividade e mediação Com efeito, não foi apenas o método marxista que influenciou as pesquisas de Vigotski, mas também alguns de seus conceitos. Podemos tomar como exemplo a discussão acerca do trabalho presente em Marx e Engels e que foi retomada e desenvolvida por Vigotski. No marxismo o trabalho aparece sob duas formas, que levam a resultados diametralmente opostos, a saber, como atividade essencial do ser humano e como promotor de alienação Engels (1999, p 04) identifica o trabaiho como a condição básica e fundamental de toda a vida humana, a ponto de ser possível afirmar que o trabalho criou o própno homem. Analogamente, Marx (2006, p. 117) concebe o trabalho como “atividade vital”, sendo que a vida produtiva é a vida genénca do homem enquanto o animal identifica-se prontamente com a sua atividade, pois ele é a sua própria atividade; o homem ‘Taz da atividade vital o objeto da vontade e da consciência Possui uma atividade vital lúcida”. Por conseguinte, conforme Duarte (2004, p. 47), é possível afirmar que o homem age livremente na medida em que os processos sociais sejam fruto de decisões coletivas e conscientes. E é exatamente na ação sobre o mundo objetivo que o homem se manifesta como verdadeiro ser genérico (MARX, 2006, p. 117), ou seja, a natureza aparece para o homem como a sua imagem consubstanciada através do trabalho (objetos, ferramentas, linguagem, costumes). Nas palavras de Fromm (1979, p 35), para Marx “a História é a história da autorealizaçâo do homem; ela nada mais é que a autocnação do homem por intermédio de seu próprio trabalho e produção”. Através da sua intervenção na natureza, criando meios para a satisfação de suas necessidades, o homem distanciou-se dos animais (cuja relação com a natureza é direta e imediata), constituindo-se como tal através do trabalho. Os processos dialéticos que diferenciam os homens dos animais são, portanto, aqueles capazes de produzir historicidade para o marxismo o trabalho enquanto instrumento mediador entre homem e natureza é a gênese da história Todavia, o trabalho alienado subverte essa relação, pois o homem ao deixar de ser dono do fruto do própno trabalho (a alienação do trabalhador em seu objeto), e também da própria atividade, na medida em que durante a jornada de trabalho não é senhor de si 10 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p 1-16
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    As raízes marxistasdo pensamento de Vigotski mesmo (alienação do processo de produção), acaba por não mais se reconhecer e nem se afirmar através daquilo que produz, deixando de ser ator da própria história A alienação leva o ser genérico do homem a transmutar-se em instrumento da sua sobrevivência, fazendo-o perder a essência daquilo que o difere dos animais, na medida em que abandona a sua atividade vital consciente. Vigotski, por seu turno, entendia que a atividade não era simplesmente uma resposta ou reflexo, mas implicava um componente de transformação do meio através de instrumentos. No decurso da história as aptidões, os conhecimentos e o saber prático do homem, consubstanciaram-se nas suas realizações (materiais, intelectuais, estéticas) (LEONTIEV, 1978, p. 265). Dessa forma, o homem se relaciona com a realidade que o cerca através do conhecimento construído pelas gerações que o precederam, isto é, mediado pelos instrumentos materiais e simbólicos presentes na cultura. Com efeito, o conceito de atividade se encontrava estreitamente ligado ao conceito de mediação (RIVIÈRE, 1985, p 41). A concepção de atividade mediada por instrumentos representa a retomada da ideia marxista clássica de que a especialização das ações realizadas tendo as mãos como ‘ferramentas”, trouxe ao homem a possibilidade do exercício de atividades especificamente humanas, pois “foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem” (ENGELS, 1999, p. 05). Ao estender o conceito de mediação, do âmbito da interação homem/ambiente através de instrumentos, para a esfera do uso de signos, Vigotski atualiza o seu significado e ao mesmo tempo potencializa o seu alcance. No que se refere à relação entre linguagem e atividade mediada pelo uso de instrumentos, Vigotski (1991, p. 27) aponta que o momento decisivo “no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem”. Essa conclusão nos parece muito próxima àquela que Engels chega ao analisar a gênese da linguagem, na qual a convergência entre a ação transformadora do trabalho e as potencialidades geradas pelo desenvolvimento linguístico foi decisiva na constituição do homem enquanto tal, reforçando aspectos da sociabilidade. A resolução conjunta de problemas relacionados com a sobrevivência do grupo, mediante ao trabalho coletivo, pressupunha a possibilidade de intercomunicação, gerando um desenvolvimento que seria 11 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski plasmado enquanto cultura. Afirma Engels (1999, p. 12) que "pnmeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano”. Conforme Duarte (2000a, p. 164), na concepção marxista a linguagem só pode existir como elemento integrante da prática social, produzido e reproduzido no seu interior. Assim, Vigotski teria empreendido nos termos de hipóteses genéticas concretas as afirmações filosóficas de Marx e Engels, conferindo-lhes legitimidade empírica mediante procedimentos experimentais. Percebe-se claramente no paralelo estabelecido entre as pesquisas de Vigotski e as ideias marxistas, que o homem, embora amplamente influenciado por questões de ordem biológica, é um ser socialmente constituído que constrói a si mesmo de forma consciente através da sua ação sobre a realidade. Conforme Rivière (1985, p. 41), o sujeito não se faz de dentro para fora, não é um reflexo passivo do meio nem um espírito anterior a si mesmo que entra em contato com as coisas e pessoas, ao contrário, é o resultado de uma relação. Nas palavras de Vigotski (2000, p.33), o homem é 'a personalidade social = o conjunto de relações sociais, encarnado no indivíduo (funções psicológicas, construídas pela estrutura soeiai)'. A ideia de mediação (instmmental e simbólica) estava intrinsecamente ligada à gênese histórico-cultural das funções psicológicas superiores, que não possuem somente uma origem natural, mas acima de tudo uma históiia social (RIVIÈRE, 1985, p. 42). Em última análise, para Vigotski o pensamento psicológico de cada indivíduo é parte e resultado da evolução geral da humanidade, todavia, esse desenvolvimento não se dá de forma isolada, mas pressupõe diacronicamente todo o caminho precedente da história humana e sincronicamente a participação do indivíduo na vida da sociedade (MANACORDA, 1992, p 324/325) Transliterada para o âmbito da psicopedagogia a concepção de que a personalidade e a individualidade crescem por meio da socialização se traduz na ideia de que as crianças possuem potencialidades cognitivas que transcendem seu estágio intelectual imediato, ou seja, possuem uma ' zona de desenvolvimento proximal”. Sob essa perspectiva a educação não pode ser pensada somente no que tange ao nível de desenvolvimento mental efetivamente apresentado pela criança, mas deve ater-se principalmente em conhecer e estimular o seu nível potencial. 12 Kinesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski Se no ideário marxista o trabalho foi determinante na transformação do homem em um ser histórico, isto é, criador da própria história e a ela indissociavelmente ligado, e os modos de produção (na oposição entre os atores das relações de produção) se sucedem em uma relação dialética, é lícito afirmar que as concepções psicológicas da teoria histórico- cultural, centradas em princípios essenciais do marxismo, nos apresentam indicações no sentido de superar as contradições do sistema capitalista, especialmente a alienação em todas as suas formas. O desenvolvimento dos indivíduos se encontra condicionado à sua interação entre si e com o meio em que atuam, ou seja, o ambiente econômico e sócio- cultural toma-se um fator determinante: quanto mais pobre for o universo simbólico de um indivíduo, tanto menores serão as possibilidades de um desenvolvimento pleno das suas funções psicológicas superiores. Vigotski reitera a complexidade da formação da personalidade humana, apontando {...] o caráter de classe e as distinções de classe como responsáveis pela formação dos tipos humanos. As várias contradições internas, as quais se encontram nos diferentes sistemas sociais, encontram sua expressão acabada tanto no tipo de personalidade, quanto na estrutura do psiquismo humano de um período histórico determinado [...]. De tudo isso resulta não só que o tipo humano autenticamente único diferencia-se e fragmenta- se em vários tipos, de diferentes classes sociais - como estes, por sua vez, permanecem em agudo contraste entre uns e outros -, mas também a corrupção e a distorção da personalidade humana, assim como a sua sujeição a um desenvolvimento inadequado, unilateral, no interior mesmo de todas essas diferentes variantes tipológicas humanas (VIGOTSKI, 1930, p. 3). A percepção de que a separação dos indivíduos em classes possui um destacado papel na formação da personalidade individual ratifica a ideia marxista da necessária tomada de consciência do proletariado enquanto classe, em cujas mãos repousam as possibilidades de uma radical transformação na configuração das relações sociais e produtivas. A superação das contradições do capitalismo e a gênese de uma estrutura sócio- produtiva que apresente novos paradigmas nas relações de trabalho criariam um novo homem (VIGOTSKI, 1930, p. 12), sendo que o salto para essa nova composição humana seria tão contundente quanto a passagem do homem primitivo, centrado na ação imediata e instintiva sobre o meio, para o homem histórico, criador e criatura de uma realidade social historicamente constituída Para tanto, Vigotski (1930, p. 10) aponta o caráter central da 13 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As raizes marxistasdo pensamento de Vigotski educação no processo de transformação do homem, visando superar a divisão entre pensamento e ação, entre trabalho físico e intelectual, separados durante o processo de desenvolvimento capitalista, e que hoje se mostra na tendência educacional de enfatizar a preparação para o mercado de trabalho em detrimento da formação plena do ser humano 5. Considerações finais Não há como separar Vigotski do marxismo, da mesma forma como seria impossível separar Marx da filosofia de Hegel. A influência de Marx e Engels sobre a ciência soviética é paradigmática, embora para alguns cientistas ela surgisse como meio (método de leitura da realidade sócio-histórica), enquanto para outros era interpretada como princípio e fim de toda a atividade científica Vigotski e os demais membros da corrente histórico-cultural da psicologia tiveram a coragem de empreender uma leitura marxista dos fenômenos psíquicos, sem nunca enquadrá-la hermeticamente na interpretação oficial (e obviamente particular) dos princípios marxistas. A pretensiosa intenção de Vigotski era estabelecer um estudo psicológico amparado em um estatuto científico, fazendo convergir as correntes psicológicas antagônicas que poderiamos chamar genericamente de “naturalista” e “mentalista”. O desenvolvimento das funções psicológicas superiores, segundo Vigotski, não era nem puramente interno, nem se resumia às ações reflexivas, mas se configura na soma entre os fatores de ordem biológica e as relações que se estabelece com o meio social. O homem é, por conseguinte, um ser social, biológica e historicamente determinado, cuja ação consciente sobre a realidade o constrói e o firma como ser humano Ademais, o conceito de zona de desenvolvimento proximal enfatiza o caráter social do desenvolvimento intelectual, centrando na ação pedagógica o estímulo do que potencialmente uma criança pode desenvolver, para que a educação não se atenha somente ao nível em que efetivamente ela se encontra As tentativas de relativizar a contribuição de Leontiev e, consequentemente a de Marx, ao pensamento de Vigotski representam uma iniciativa no sentido de legitimar a ideologia dominante. Mediante ao enfraquecimento do elo que une uma teoria tão 14 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski significativa e atual quanto a vigotskiana com a matriz marxista que lhe serve como base10, minimiza-se a possibilidade do seu uso em uma ação contra o degradante processo de alienação denunciado por Marx. O preconceito em relação ao marxismo, perpetuado no senso comum pela ignorância dos seus pressupostos básicos, faz corn que se olhe com reservas tudo o que se relacione a Marx, ou que foi por ele inspirado. Não se trata de questões de ordem metodológica ou intelectual, mas de questões ideológicas: Marx é visto como o demônio responsável por todos os erros cometidos nos países socialistas. Aparentemente, a inegável orientação marxista de Vigotski, e as implicações teóricas decorrentes disso, desencorajam o estudo da teoria histórico-cultural, daí a necessidade de mutilar a sua obra, subvertendo e simplificando os seus pressupostos. Dessa forma, resgatar o estatuto marxista da obra de Vigotski nos parece essencial para compreendermos todas as suas perspectivas, potencializando sobremaneira o seu alcance. Ler Vigotski a partir de uma perspectiva que exclua os aportes marxistas é lê-lo pela metade, é ignorar a sua profunda preocupação com a realização plena do ser humano, que está presente tanto em Marx e Engels quanto em qualquer marxista autêntico. Referências CARMO, M. do; JIMENEZ, S Psicologia histórico-cultural: indicações para uma leitura marxista de Vigotski. Contrapontos. Itajaí, vol. 07 - n. 2, maio/agosto 2007, p. 283-297. COLE, M ; SCRIBNER, S. Introdução In: VYGOTSKY, Lev Semionovich. A formação social da mente. 4.ed. São Paulo. Martins Fontes, 1991. DUARTE, N. As pedagogias do “aprender a aprender”: crítica às apropriações neoliberais e pós-modemas da teoria vigotskiana. Campinas: Editora Autores Associados, 2000a ______ A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco: A dialética em Vigotski e em Marx e a questão do saber objetivo na educação escolar. Educação & Sociedade. n° 71, junho 2000b, p. 79-115. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/es/v21n71/a04v2171.pdf ______. Formação do indivíduo, consciência e alienação: o ser humano na psicologia de A. N Leontiev. Caderno Cedes, Campinas, Vol. 24, n° 62, p. 44-63, abril de 2004. ENGELS, F. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. eBooksBrasil.com, 1999. Disponível em: http://forumeja org.br/sites/forumeja org.br/files/F_ANGELS.pdf> 10Uma análise profunda e esclarecedora sobre as tentativas de arregmientaçâo da psicologia de Vigotski por correntes “pós-modemas” pode ser encontrada em Duarte (2000a). 15 Kínesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    As rates marxistasdo pensamento de Vigotski FROMM, E. Conceito marxista do homem. Trad. Octavio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. JAPIASSU, H; MARCONDES, D. Dicionário básico defilosofia. 4. ed Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. LEONTIEV, A. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978. OLIVEIRA, M. K. Vygotsky. Aprendizado e desenvolvimento. Um processo sócio- histórico. São Paulo: Scipione, 1997. MARX, K. O Capital. Volume I, Crítica da economia política. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1995. ____ Manuscritos económico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2006. RIVIERE, A. La psicologia de Vygotski. Madrid. Aprendizaje Visor, 1985. VYGOTSKY, L. S. A transformação socialista do homem. In VARNITSO, 3, p. 36-44, 1930. Trad. Roberto Della Santa Barros Disponivel em: http://www.pstu.org.br/cont/subjetividadevigotski.pdf ______. Aformação social da mente. 4.ed. São Paulo. Martins Fontes, 1991. ______. Pensamento e linguagem. 2.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998 ______.Manuscrito de 1929. Educação & Sociedade, n° 71, Julho/2000, p. 21-44. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/es/v21n71/a02v2171.pdf> 16 Kinesis, Vol. VI, n° 12, Dezembro 2014, p. 1-16
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    AVANÇOS DA PSICOLOGIASOCIAL NA AMÉRICA LATINA SILVIA T. MAURER LANE Introdução Para falarmos de avanços da Psicologia Social na América Lati­ na é necessário retrocedermos à época da célebre “ crise da Psicologia * Social” — crise esta teórica e metodológica. No Congresso da SIP em 1973, realizado em São Paulo, a dra, Aniela Ginsberg, uma das suas organizadoras, apresentava resultados de pesquisas interculturais os quais apontavam para a relatividade dos « comportamentos humanos e, mesmo, de características de personali-1 dade em funçã<Lde_difcrencas históricas, culturais e sociais, tudo indi­ cando qüenão cabia à Psicologia, como ciência, ter leis universais. Por outro lado, porém, os irábalhos de Skinner comprovavam que reforço positivo, em qualquer cultura, aumenta a frequência de um comporta­ mento. Assim como os três fatores cnmntcaHnt ppr Otgnnd^na elabo- ração do Diferencial Semântico, para a obtenção de significados afeti- vos de palavras, apresentavam-se como dimensões universais, ou seja, em todas as culturas estudadas (em torno de trinta) emergiam um fa­ tor de Valor, um segundo relativo à Potência e um terceiro, à Atividade. A que se deve o caráter universal de alguns aspectos psicológicos , e de outros, essencialmente, particulares? Qual a relação entre o bioló- I gico da espécie e o histórico cultural das sociedades? Esta era a crise teórica com suas conseqüências metodológicas sen­ tida por todos os estudiosos da Psicologia Social. Porém, na América Latina esta crise assumiu também um cará- f ter político. As ditaduras militares, com seu poder repressivo, ás injus­ tiças sociais, a opressão sob a qual a maioria dos povos vivia nas déca­ das de 60 e 70, faziam-nos questionar não só o nosso papel de pesqui­ sadores como a própria Psicologia Social/Ela, que se apresentava na década de 50 como o ramo da Psicologia que contribuiria para resolver
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    68 Silvia T.Maurer Lane os grandes problemas da humanidade, parecia a nós, neste período, que apenas subsidiava a opressão, a manipulação política, a manuten­ ção do slatus quo. Diante deste quadro, o nosso cotidiano não nos permitia ficar em “ torres de marfim” pesquisando neutramente... A Revisão Crítica No Brâsi), a repressão militar e o movimento universitário de 68 obrigaram-nos a uma reflexão crítica sobre a universidade e seu papel social, sobre o conhecimento que cabia a ela produzir. Teses como o ensino teórico-prático, uma nova relação aluno-professor (extinguin­ do a dominação institucionalizada), uma universidade voltada para os problemas sociais e não para a teoria dissociada da realidade, nos fize­ ram repensar a psicologia social que ensinávamos e enfrentar “ cara a cara” a crise que se anunciava. A euforia dos anos 50 havia acaba­ do, e se questionava como a Psicologia Social poderia dar subsídios para uma transformação social. A euforia acabara, mas a esperança de um conhecimento cientí­ fico que pudesse ajudar a criar uma nova sociedade, não! No curso de graduação da PUC-SP, tentávamos concretizar a tese da teoria e prática no ensino, levando os alunos a observações, entre­ vistas, enfim, a coletar dados do cotidiano e confrontá-los com os tex- tos clássicos sobre os conceitos de atitudes, motivação e percepção so- ciais, dissonância cognitiva, socialização, dinâmica de grupo^etc. A proposta era dé se chegar a uma revisão crítica dos conceitgs, porém, tanto os alunos como os monitores e auxiliares priorizavam o teórico, tornando os dados coletados exemplos dos conceitos estuda­ dos ou então eram exceções... A realidade captada não podia questio­ nar um conhecimento científico elaborado a partir de experimentos e pesquisas tão bem controlados. Esta crítica só foi possível muitos anos depois, em disciplinas do curso de pós-graduação, mediante revisões de experimentos e pesqui­ sas indexados no Psychological Abstracts e mais em termos-da incon­ sistência dos resultados encontrados do que de um confronto com a nossa realidade social. Este fato gerou muita ansiedade diante de um vazio teórico, o que tornou urgente o desenvolvimento de pesquisas que levassem a uma nova sistematização. O mesmo ocorria diante de artigos que refletiam criticamente a Psicologia Social, como os de Bruno, Poitou, Pêcheux e outros publi­ cados na Nouvelle Critique sob o título “ Psicologia Social: uma uto­ pia em crise” , assim como o prefácio de Moscovici numa obra organi­ zada por ele com o título Introduction de la psychologie sociale. Por outro lado, Merani na Venezuela, Sève na França, Israel e Tajfel na Inglaterra contribuíram para uma reflexão mais profunda, assim co­
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    Avanços da PsicologiaSocial... 69 mo a releitura de Politzer, George Mead e Vigotski trouxeram novas perspectivas de estudo. A psicologia da linguagem — Para uma compreensão clara das interações sociais, a linguagem se apresentava como um ponto-chave a ser deslindado, não como algo reificado como os lingüistas e psico- lingüistas o faziam, mas sim como algo dinâmico construído historica­ mente pela sociedade e desempenhando um papel fundamental tanto ncnrésenvolvimento dos indivíduos como na inserção em grupos so­ ciais. ~ As pesquisas de Osgood e suas escalas do Diferencial Semântico, que captavam os significados afetivos, nos pareciam um bom começo para pesquisar a linguagem; após vários estudos conseguíamos descre­ ver significados que grupos atribuíam a diferentes aspectos sociais, po­ rém permitindo explicações que nada mais eram do que hipóteses que demandavam outras pesquisas. Também Skinner foi fonte de inspira­ ção para alguns estudos, principalmente pela vinculação entre lingua­ gem e pensamento, dando a este o status de comportamento. Porém, o grande impulso veio de Vigotski ao demonstrar a me­ diação fundamental que à’linguagem exercia na constituição do psi­ quismo humano, em especial, na consciência. Também ficou clara a presença da ideologia nos significados, e quando os processos comuni­ cativos permitiam uma reflexão crítica destes significados, em confronto com a realidade social, desencadeavam avanços da consciência ao se desvendar os conteúdos ideológicos que encobrem as contradições so­ ciais históricas. A identidade social — Tudo indicava ser este um conceito básico para a Psicologia Social, pois considerava o indivíduo como um todo e — o que era mais importante — na sua relação com os outros. É Ciampa que, Partindo de pesquisas na linha teórica desenvolvida por ScHêTbê.Taz a critica a um modelo funcionalista erfitQJ?iaj?.Íatêiacio- nismo simbólico de George Mead, bem como os estudos de Goffman, à procura de um conceito de identidade que permitisse uma concepção de sujeito transformador e autor.da história social. Esta sua procura o leva a estudar a identidade de Severina, uma nordestina, empregada doméstica, manicure, que se torna budista; é este estudo que permitirá ao autor desvelar a identidade enquanto me­ tamorfose. Processo grupai — partindo das teorias e técnicas sobre a dinâmica de grupos, a revisão crítica nos permitiu constatar quanto os estudos reproduziam, como ciência, a ideologia embutida nos papéis sociais, principalmente o de líder, e também em conceitos como o de coesão social e na procura através das técnicas de uma harmonia que tornasse o grupo mais produtivo. Outra questão que a dinâmica de grupo colocava era que por meio de técnicas o grupo atingiria um estágio ótimo e assim permaneceria, como se o tempo parasse. Foi este aspecto não constatado nas observa­
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    70 Silvia T.Maurer Lane ções sistemáticas de grupos que nos levou a denominar toda esta área do saber de Processo Grupai, negando o grupo como algo estável e reificado. Dessa forma, grupos eram observados como se processando ao longo de um certo período, a fim de permitir a análise de relações de dominação e de poder e as condições que levavam os indivíduos que os constituíam a desenvolverem suas consciências e seus potenciais crí- ticqs ejtraiisformadores, porém sempre dificultados pelas instituições que abrigam os grupos. Nesse momento, já nos propúnhamos a estudar o processo gru­ pai em bases materialistas-históricas e dialeticamente. Estas revisões críticas colocaram uma questão crucial, ou seja, a necessidade de uma metodologia de pesquisa que permitisse captar o indivíduo, situado historicamente e, portanto, multideterminado. Foram os trabalhos em comunidade, desenvolvidos por uma equi­ pe interdisciplinar, que nos levaram a aprofundar a questão da psico­ logia na comunidade como uma prática comprometida e uma sistema­ tização do saber; para tanto a pesquisa participante tornou-se funda­ mental, pois ela permitia acompanhar o movimento histórico de um grupo social, detectar as determinações, as intervenções e as transfor­ mações que ocorriam. Outras estratégias metodológicas utilizadas foram ajabseryação participante (de processos grupais) e os estudos de casos mediante rèT latos de história de vida. Também os congressos da Sociedade Interamericana de Psicolo­ gia foram de extrema importância para essa revisão crítica, pois pude- fffõs constatar que as mesmas preocupações caracterizavam os psicó­ logos sociais de vários países da América Latina no sentido de se cons­ truir um saber científico que contribuísse para uma ação transforma­ dora em nossos países. Com este intuito foi criado um núcleo de psicologia comunitá­ ria, com a participação de pesquisadores de vários países da América Latina, enfatizando uma intervenção não-assistencialista e uma atua­ ção que desenvolvesse a consciência e a autonomia de grupos margina­ lizados social e economicamente. Este núcleo permitiu uma troca rica de experiências e a certeza de que vivíamos na América Latina um pro­ cesso de reflexão crítica sobre a psicologia e a procura de novos cami­ nhos tanto teóricos como metodológicos para uma prática psicológica comprometida com os grandes problemas sociais que enfrentávamos. Daí a necessidade de um maior intercâmbio entre cientistas psi­ cossociais; para tanto realizamos uma viagem por vários países da Amé­ rica Latina descobrindo práticas e pesquisas de grande interesse e que demonstravam que fazíamos parte de um momento histórico, no qual a “crise” e a crítica da Psicologia Social nos levavam todos à procura de novas bases epistemológicas e metodológicas para a pesquisa e avan­ ço científico comprometidos com uma prática transformadora. Por ou-
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    A vanços daPsicologia Social... 71 tro lado, mostrou-nos quanto já tínhamos avançado em nossos estu­ dos e que, sem dúvida, estávamos no caminho certo. Ainda como revisão crítica é de suma importância mencionar as obras de Martin-Baró, nas quais faz uma análise, quase enciclopédica, das pesquisas e teorias produzidas nos Estados Unidos e na Europa, enfocando a realidade social de El Salvador e da América Central, as­ sumindo a não-neutralidade da ciência e o compromisso político do pesquisador. O que fizemos em sala de aula, nas discussões assistemáticas, Martin-Baró fez paciente e cabalmente com a Psicologia Social. A sua obra é tão completa neste sentido que o curso de Processo Grupai que ministramos no Programa de Pós-Graduação tem em Sistema, Grupo y Poder (1989) uma leitura básica e obrigatória. Teoria e Prática A questão da indissociabilidade entre teoria e prática era o desa­ fio da Psicologia Social — ela deveria avançar na sistematização teóri- cíí e, conseqüentemente, produzir efeitos práticos ou então se desen­ volver numa prática que redundaria numa sistematização teórica. Foi este desafio que caracterizou a Psicologia Social da década de 80, pois mediante uma prática do psicólogo em comunidades se procurou uma sistematização teórica, e, por meio de pesquisas sobre o comportamento político, buscou-se também encontrar formas de atuação para que, em ambos os casos, houvesse transformações significativas para as popu­ lações desfavorecidas da América Latina. Os relatos sobre experiências em Psicologia Comunitária enfati­ zavam com clareza a questão da prática e do compromisso político com grimaéíTpãrcelas da população oprimida, e víamos, por meio da rica troca de experiências em torno de uma Psicologia Comunitária crítica, que ela nos daria bases para uma atuação transformadora; porém, pa­ ra tanto seria necessária uma sistematização teórica, que ainda estava por se fazer. Cometíamos erros e acertos semelhantes sem avanços mais significativos devido à ausência de publicações teóricas a respeito das bases psicossociais de nossas atuações. Nesta direção, as contribuições de Elisa Jimenez decorrentes do trabalho realizado na Maternidade Concepción Palacios, em Caracas, são de suma importância, pois, a partir de uma prática desenvolvida com grupos de mulheres grávidas visando ao desenvolvimento de uma consciência social, permitiram uma melhor sistematização tanto da prá­ tica como da teoria, deixando claro que a reflexão crítica oriunda nas trocas que ocorrem cm grupos, levando a um exame da realidade, é condição para avanços da consciência e alteração das práticas e intera­ ções cotidianas. Este trabalho, mais grupai do que comunitário, nos levou a ques­ tionar o que seria, de fato, uma comunidade. Seriam bairros, institui-
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    72 Silvia T.Maurer Lane ções, agrupamentos? Ou seriam meras utopias em nossos países capi­ talistas e, como tais, individualistas? Valeria a pena investir em uma utopia? Os trabalhos de Euclides Sanches, Esther Wiesenfeld e Karen Cro- nik da Ludefia, em Caracas, nos mostram que pelo menos pequenas utopias são realizáveis — como o projeto Casalta, a partir do qual, utilizando os recursos psicossociais, desenvolvem uma prática que cul­ mina numa efetiva organização comunitária. Tivemos oportunidade de visitar o conjunto habitacional e conversar com alguns de seus mo­ radores. Pudemos constatar que quando pessoas se unem em grupo e resolvem ser sujeitos de sua história, e encontram a assessoria quali­ ficada — como foi o caso —, conseguem avançar em direção a rela­ ções sociais essencialmente democráticas, nos seus direitos e deveres, que caracterizam uma comunidade. Muitos outros trabalhos vêm sendo desenvolvidos na América La­ tina, os quais podem ser consultados no número especial do Journal o f Applied Psychology, organizado por Euclides Sanchez e Esther Wie­ senfeld, que trata da Psicologia Comunitária na América Latina. Am­ bos os autores ampliaram o volume para a publicação de um livro so­ bre o tema, o qual vem atender à necessidade, sentida por todos nós, de uma reflexão crítica que permita a tão indispensável sistematização teórica. Outra vertente significativa que se concretiza na década de 80 é a da Psicologia Política. A começar de vários trabalhos já realizados e apresentados no Congresso da SIP, em 1985, em Caracas, e partindo de preocupações semelhantes à da Psicologia Social Comunitária, Ma- ritza Montero, Ignácio Martin-Baró e outros se propõem a publicar um livro sobre este tema, visando sistematizar questões teóricas e me­ todológicas. Psicologia Política, segundo Martin-Baró, seria o estudo daque­ les comportamentos “cujas direções (...) visam uma ordem social e pro­ duzir nelas um impacto” (p. 41). E grande parte das pesquisas procura deslindar quais as determinações “ da alienação, ou seja, da falta de controle das grandes maiorias populares sobre sua própria existência e destino” . (M.Baró, 89:52) Organizada por M. Montero, com a efetiva colaboração de Martin-Baró, a obra Psicologia política e América Latina apresenta pes­ quisas e reflexões críticas oriundas de diferentes países, porém sempre com estes mesmos objetivos: entender o porquê da alienação de nos­ sos povos. O trabalho continuou e um segundo volume, Acción y dis­ curso, também organizado por Montero, é editado em 1991, com avan­ ços teóricos e metodológicos de grande importância. É interessante observar que as duas vertentes, Psicologia Social Comunitária e Psicologia Política, ao se defrontarem com a questão metodológica, encontram na Pesquisa Participante o veio mais pro­ fícuo.
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    A vanços daPsicologia Social... 73 Nesse sentido os trabalhos de Bader Burihan Sawaia, a partir de sua pesquisa com mulheres faveladas, permitiram uma sistematização da pesquisa participante, estabelecendo os limites entre pesquisa, mili­ tância e compromisso político. Este último considerado prioritário, a distinção entre participação e militância fica condicionada à precisão de registro dos dados, à análise e discussão conjunta com os sujeitos da pesquisa. Sawaia aponta ainda que qualquer intervenção ou ação conjunta parte de questões do tipo “o que acontecerá se...?” . Ou se­ ja, volta-se às tradicionais hipóteses, porém agora somente a realida­ de, os fatos do cotidiano, é que nos darão as respostas. Se examinarmos os trabalhos mais significativos, nestas duas ver­ tentes, veremos que eles são oriundos de países onde as manifestações sociais não são tão reprimidas, onde ainda há espaço (relativo) para o cientista social pesquisar. Nos outros países da América, este perma­ nece no silêncio necessário da resistência ou da recuperação. Martin- Baró se negou a fazê-lo em El Salvador, onde a reflexão científica e a prática perturbaram tanto os poderosos, que os levaram a lançar mão do ato mais desumano — o assassinato. Mas ainda restam esperanças quando José Miguel Salazar pro­ põe, em 1989, a ênfase em pesquisas sobre a Identidade Latino- Americana, sabedor de que esta é ainda incipiente, mas como forma de promover a sua existência. Do mesmo modo como indivíduos, ao se agruparem, descobrem que seus problemas cotidianos, seus afetos e anseios são semelhantes, nós, povos da América Latina, iremos des­ cobrir nossas semelhanças e nos unificar como um continente de Ter­ ceiro Mundo, porém com um saber, no dizer de M. Montero, que nos leve a ‘‘producir nuestros próprios modelos de analisis y de explica- ción; la generación de teorias y métodos que permitam un conocimien- to de nuestro mundo que enriquezca el mundo” . (Acción y ideologia) E alguns frutos nesta direção já estão apontando, como os estu­ dos e publicações de Horacio Riquelme U., chileno radicado em Ham­ burgo, que vem se dedicando à questão da Identidade Latino- Americana, promovendo simpósios anuais sobre cultura e situação psi­ cossocial na América Latina, na Universidade de Hamburgo. A Práxis da Psicologia Social No final da década de 70 e início da de 80, nos deparamos com a obra de Alex Leontiev, continuador das propostas de Vigotski, e com ele surge também todo um grupo de cientistas soviéticos que haviam sofrido a repressão stalinista à psicologia, dos quais, além de Vigotski, no Ocidente só se conheciam os trabalhos de Luria, pois a psiconeuro- logia era então a única ciência psicológica admissível. A Psicologia Social tinha sido então banida da União Soviética. Assim, como Leontiev poderia afirmar, impunemente, que toda Psi­ cologia Humana é Social?
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    74 Siivia T.Maurer Lane Após o período stalinista, este grupo traz a público suas pesqui­ sas e as teorias baseadas em uma epistemologia materialista histórica e dialética. Ou seja, o psiquismo humano se constitui na materialidade his­ tórica de cada sociedade, de cada cultura — portanto não há homens regidos por leis universais — , como as pesquisas da dra. Aniela Gins- berg já apontavam. A ciência psicológica é, por conseqüência do seu objeto de estudo, relativa: se o ser humano se constitui em função de sua história social e cultural, o saber sobre ele será também necessaria­ mente particular, sem, no entanto, deixar de se estruturar em catego­ rias universais como são Atividade, Consciência e Identidade (ou Per­ sonalidade). E a análise dialética, ao afirmar a unidade dos contrários, leva à superação da dicotomia subjetividade-objetividade no conhecimen­ to do ser humano. A subjetividade se objetiva nas ações do homem sobre o seu meio, assim como este meio e o que o constitui objetiva­ mente se tornam subjetivos no psiquismo humano. É também a dialética que permite superar a velha contradição en­ tre teoria e prática, em que a primeira se caracteriza pela elaboração de noções abstratas que se confundiam com o idealismo e, distancia­ dos da realidade, impediam uma prática transformadora. Pois a dialé­ tica pressupõe que por meio da pesquisa cheguemos a categorias que não são apenas lógicas, mas também ontológicas e gnosológicas. Ou seja, o saber e o pensamento têm suas raízes na realidade e, portanto, nossas ações decorrentes deste saber atuam diretamente sobre a reali­ dade. É a ciência como práxis. Ou seja, a comprovação da teoria se dá mediante a transformação da realidade pela prática dela decorren­ te. É partindo desses pressupostos epistemológicos, e diante das pes­ quisas realizadas pelo seu grupo, que Leontiev sistematiza as três cate­ gorias fundamentais do psiquismo: Atividade, Consciência e Persona­ lidade. As três estão inter-relacionadas, umas determinando as outras, através da mediação da linguagem e do pensamento, o que implica o Outro — ou seja, o grupo social, a ideologia veiculada e produzida pelas instituições e o trabalho produtivo socialmente organizado. Estas categorias, de alguma maneira, estão presentes em todas as teorias psicológicas: o homem se comporta, o homem pensa o seu mundo e a si mesmo, o homem é individualidade — é o único. Porém, agora, em um nível que extrapola o empírico e lhe dá um significado novo e diferente. Dessa forma, comportamentos ou ações observados empiricamen­ te, reexaminados como sequência de um processo mais amplo, adqui­ rem uma nova significação — e este processo mais amplo é a sua rein- serção no conjunto de atividades desenvolvidas socialmente. O exem­ plo clássico dado por Leontiev é o de uma caçada em que existem os batedores e os abatedores — examinadas isoladamente as ações pare­
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    Avanços da PsicologiaSocial... 75 cem contraditórias, mas no seu conjunto elas adquirem um novo sen­ tido. O mesmo ocorre com a consciência. O discurso que fala da re­ presentação do mundo de algum indivíduo e das ações e operações que ele realiza deve ser analisado no contexto social em que ele é produzi­ do, detectando-se os conteúdos ideológicos e as contradições entre o discurso e a prática que nos permitirão dizer se se trata de uma cons­ ciência fragmentada ou se ele tem clareza das condições históricas e sociais em que vive. Esses conteúdos da consciência são elaborados, fundamentalmente, pela linguagem e pelo pensamento — mediação esta que levou Vigotski a afirmar que “ a palavra é o microcosmos da cons­ ciência” . A categoria Personalidade é, talvez, a menos pesquisada por Leon- tiev e, conseqüentemente, a mais ambígua. A individualidade se cons­ titui nas relações com os outros, levando à permanência de certas ca­ racterísticas que identificam a pessoa, ao longo de sua história. Esta é uma categoria em que nossas pesquisas sugeriram algumas reformu­ lações, como explicitaremos adiante. A Questão Metodológica Temos considerado as categorias propostas por Leontiev como estruturas vazias que nos orientam para as pesquisas que deverão recheá- las a partir da especificidade de nossa realidade histórica e social, per­ mitindo encontrar as características próprias do psiquismo de indiví­ duos inseridos em nosso meio. Portanto, para que elas adquiram um significado concreto, é necessário que se pesquise sistematicamente, acu­ mulando dados descritivos com toda a precisão do registro empírico, que analisados permitam encontrar significados que os aproximem do concreto. A psicologia positivista nos ensinou procedimentos e técnicas pre­ cisas de como registrar o empírico, porém os procedimentos de análi­ se, que não fossem meras interpretações, se tornaram o desafio meto­ dológico. A análise deveria permitir o retorno ao empírico de forma consciente e inequívoca. É este o desafio que enfrentamos no momen­ to. Nas pesquisas que partem para investigar a consciência, os “ ve­ lhos” estudos de caso têm se mostrado muito ricos: relatos de história de vida, o discurso livre que se constitui em representações que o indi­ víduo faz de si e do mundo que o cerca constituem dado empírico a partir do qual procedimentos de análise do discurso podem permitir detectar o ideológico, as contradições e o próprio pensamento que en­ gendrou o discurso. Nessa direção, desenvolvemos uma técnica que denominamos “análise gráfica do discurso” , a qual nos permite detectar os “núcleos” de pensamento que geraram o discurso sem esfacelá-lo, temas ou catego­
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    /o Silvia T.Maurer Lane rias, mantendo a originalidade empírica, e assim a consistência deseja­ da à análise que desvenda novas significações. É uma técnica inspirada pela concepção de Vigotski sobre a rela­ ção entre linguagem e pensamento, a qual ele considerava estreita e imbricada, porém com movimentos em direções opostas: o pensamen­ to caminha do geral para o particular, enquanto a linguagem parte das particularidades para chegar à descrição do todo. Além do discurso, o estudo de caso exige dados que a psicologia tradicional chama de variáveis independentes e que, para nós, localizam o indivíduo no contexto histórico e social que o produziu: idade, sexo, educação, profissão, etc., e as expectativas sociais sobre elas. Dessa forma podemos inserir o empírico na história individual que, por sua vez, se insere na história social — nesse momento a contribuição da sociologia, da antropologia, enfim, das ciências humanas, é essencial. Uma outra vertente metodológica que tem se mostrado bastante rica é a que estuda os indivíduos no seu cotidiano e capta o processo no momento em que está ocorrendo. Aqui, o registro empírico é mais complicado, porém as técnicas de observação, principalmente as assis- temáticas, as de observação participante, a etnográfica, dão subsídios para tornar tal registro consistente. Não entraremos aqui no detalhamento dos problemas envolvi­ dos em Pesquisa Participante, muito bem analisados e discutidos por Bader Burihan Sawaia em sua tese de doutoramento (1987) e em ou­ tros trabalhos publicados recentemente. O importante é ressaltar que a pesquisa participante nos permite acompanhar durante um certo tem­ po o processo de vida social de um grupo e, dentro dele, entendermos as atividades e consciências individuais que se desenvolvem num con­ texto histórico mais amplo. É a individualidade manifestando-se no conjunto de suas rela­ ções sociais e no cotidiano de suas ações. Atualmente vimos analisando, por intermédio de diferentes gru­ pos observados, a questão do poder nas relações intragrupais, pois cha­ mou nossa atenção o fato de grupos ditos democráticos negarem o po­ der como algo pejorativo e não se darem conta de sua presença efetiva no seu processar. O porquê dessa negação do poder que escamoteia, talvez poderes legítimos, é uma das questões colocadas; outras se refe­ rem ao uso que se faz do poder como possível aspecto nevrálgico para a compreensão do tema. Nesta linha de estudos a obra de Ignácio Martin-Baró, de El Salvador, Sistemas, gruposy poder, como já men­ cionamos, tem sido a base de análise crítica que nos orienta. Por meio desses recursos metodológicos pudemos precisar con­ teúdos psíquicos próprios de nossos sujeitos, relativos às categorias fun­ damentais do psiquismo humano, assim como aclarar as mediações en­ tre elas. Uma das preciosas contribuições da pesquisa participante reali­ zada por Bader B. Sawaia foi a de detectar a importância das emoções,
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    A vanços daPsicologia Social... 77 ao lado da linguagem e pensamento, no nível do indivíduo, como me­ diação essencial entre as categorias estudadas. Outra mediação significativa, agora em nível social, surgiu da aná­ lise de processos grupais, mostrando a importância do grupo para a troca e reflexão de experiências, vivências, permitindo aclarar os con­ teúdos ideológicos veiculados institucionalmente e, assim, propiciar mo­ vimentos de consciência dos indivíduos envolvidos no processo. Também os Estudos de Caso permitiram rever a categoria Per­ sonalidade e precisá-la melhor em termos de identidade, superando as­ sim o caráter idealista de uma “ essência” da individualidade. A dialética se faz presente na unidade dos contrários encontra­ dos nas pesquisas sobre as categorias. Avanços Se a lógica dialética fala da unidade dos contrários, as pesquisas que objetivam encontrar conteúdos para as estruturas categoriais de­ vem, em nível ontológico, levar-nos a contradições, ou seja, a cons­ ciência deve implicar o inconsciente; a atividade, a passividade; e a iden­ tidade, sua negação. De fato, algumas pesquisas apontam claramente para a unidade destes contrários. Estudos sobre a consciência de sujeitos gagos e outro sobre ido­ sos apresentaram, mediante a análise, a identidade social como uma categoria fundamental para a compreensão do movimento da consciên­ cia. Ao mesmo tempo, Antonio da Costa Ciampa realizava um estudo de caso: a história de Severina, em que o caráter dinâmico da Identi­ dade se apresentava claramente, permitindo-nos questionar se Identi­ dade, formada no conjunto das relações sociais e num processo dinâ­ mico, não se tratava da categoria denominada por Leontiev de Perso­ nalidade. É também o estudo de Ciampa que aponta para a contradição da Identidade como metamorfose e como cristalização, como vida e morte, como criação e destruição. Este autor ainda chama a atenção para a necessidade de uma po­ lítica institucional que abra “ espaços” para possíveis metamorfoses de identidade através de papéis minimamente prescritos — o que signifi­ ca desideologizar os papéis que levam à cristalização da identidade. Os estudos sobre Atividade, basicamente aqueles que analisam o trabalho humano e a saúde mental, como vem fazendo a equipe lide­ rada por Wanderley Codo, a qual vem esclarecendo a questão da alie­ nação — tão estudada pela sociologia — indicam que a alienação so­ cial produzida pelo trabalho traz na sua outra face a alienação mental, ou seja, o sofrimento psicológico. O trabalho criativo cria o homem, o trabalho repetitivo, rotineiro, sem sentido pessoal, o destrói psicolo­ gicamente.
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    78 Silvia T.Maurer Lane , Nessa direção, seria importante analisar os efeitos da ideologia dominante que trata o trabalho como um “mal necessário” , como obri­ gação que dignifica o homem, e o lazer como “ não fazer nada” , como ócio, negando o aspecto fundamental da atividade na constituição do psiquismo humano. Cabe ainda ressaltar as contribuições de Mario Golder,1da Uni­ versidade de Buenos Aires, Argentina, através de seus estudos sobre a categoria Atividade, demonstrando o seu caráter fundamental na cons­ tituição do psiquismo — o homem, ao agir, ao produzir algo, se pro­ duz como ser consciente e singular. Por outro lado, a presença da emoção como uma mediação es­ sencial para o movimento da Consciência, para o desencadear de Ati­ vidades e na produção da Identidade, vem apontando para a impor­ tância dos conteúdos inconscientes. A pesquisa realizada por Klaus e Scherer e outros (1983) sobre aspectos sociais das emoções, da qual participamos, permitiu algumas observações e questionamentos. Um primeiro fato é que temos maior número de palavras para nos referirmos às emoções negativas do que às positivas, sugerindo a necessidade social de comunicarmos as negativas para os outros, a fim de encontrar soluções que as resolvam. E neste aspecto os estudos de Wallon (1983) sobre as emoções na infância trouxeram contribuições, principalmente quanto ao seu caráter contraditório: ao mesmo tempo em que as emoções paralisam nossas ações, elas desencadeiam ativida­ des mentais que levam a ações em direção ao restabelecimento de um equilíbrio homeostático. Se tomarmos o caráter instrumental da linguagem, por um lado, e os conteúdos ideológicos veiculados pelas palavras, de outro lado, e as emoções exigindo soluções, principalmente as negativas, nos pare­ ce evidente que conteúdos inconscientes — principalmente na primeira infância, em que o verbal é incipiente mas a ação ideológica está pre­ sente nos valores emitidos pelos comportamentos dos adultos (o “ não” é provavelmente a palavra mais emitida pelos pais) — geram na crian­ ça emoções negativas para as quais ela não encontra soluções, perma­ necendo assim contidas e se manifestando de formas indiretas e/ou sim­ bólicas — processo este que Freud descreveu com grande precisão. A leitura da Teoria de los sentimientos de Agnes Heller (1985) tem sido fonte estimulante para orientar nossos estudos sobre emoções e sentimentos. Estamos ainda em um terreno bastante hipotético, mas tudo in­ dica que não podemos pensar a consciência sem pensar o inconsciente; e se a linguagem e o pensamento constituem a primeira, são as emo­ ções que formam o segundo. 1. Golder foi o primeiro a traduzir para o espanhol a obra de Leontiev, Actividad, cons­ ciência y personalidad. Existe uma outra tradução realizada em Cuba.
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    A vanços daPsicologia Social... 79 Por outro lado, estudos antropológicos analisam o caráter “ ir­ racional” de certas instituições sociais que emitem mensagens através de apelos e conteúdos emocionais, muitas vezes em oposição ao que se apresenta no plano racional, cabendo agora a nós investigarmos co­ mo estas mensagens são recebidas e como elas se integram no processo da consciência-inconsciência. Recentemente, duas pesquisas que se constituíram em disserta­ ções de mestrado detectaram, por meio de análises de discursos, con­ teúdos inconscientes manifestos através de simbolos religiosos, míti­ cos ou de metáforas, em todos se constatando a presença nítida de as­ pectos afetivos-emocionais. Uma outra linha de pesquisa nesta direção vem sendo a da Psi­ cologia da Arte, na qual predominam as emoções que captam “ men­ sagens” dificilmente traduzíveis em linguagem racional. E, arte, como sabemos, tem poder tanto para fazer avançar a nossa consciência, co­ mo para fragmentá-la com conteúdos ideológicos. E aqui contamos, novamente, com a contribuição de Vigotski, que, em sua obra Psico­ logia dei arte (1972), analisa os aspectos inconscientes, catárticos, pre­ sentes na emoção estética. São os primeiros passos na investigação sistemática sobre media­ ção emocional na constituição das categorias do psiquismo humano, na dialética da consciência-inconsciência, da atividade-passividade, da identidade-massificação. Para finalizar, uma reflexão sobre o futuro da Psicologia Social. As revisões críticas feitas por neomarxistas como Habermas e Heller têm defendido teses que afirmam que, para haver transformações so­ ciais significativas, não é necessário haver lutas de classe — como de­ monstram os fatos recentes do Leste europeu — mas sim mudanças éticas em nível individual. Se assim for, a Psicologia Social terá um papel teórico-prático importante, levando os seus profissionais a atuar junto a indivíduos e grupos, promovendo o desenvolvimento da consciência social e dos valores morais em direção a uma ética que negue o individualismo e busque valores universais de igualdade e de crescimento qualitativo do ser humano. Bibliografia BRUNO, P., et alii. (1963). “ Psychologie sociale: une utopie en cri­ se” . In: La Nouvelle Critique, 62:72-8 e 63:21-8. CIAMPA, A. C. (1987). A estória de Severino e a história de Severi- na. São Paulo, Brasiliense. GALANO, M. (1990). Todos são iguais mas uns são mais iguais que outros. São Paulo, PUC-SP. Dissertação de Mestrado. GOLDER, M. (1986). Reportajes contemporâneos a la psicologia so­ viética. Buenos Aires, Editorial Cartago.
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    13u &| ■' íoy fa =20 : W _ *?3 0, 65 A Psicologia Social e uma nova concepção do homem para a Psicologia Silvia Tatiana Maurer Lane "Quase nenhuma ação humana tem por sujeito um indi­ víduo isolado. O sujeito da ação é um grupo, um 'Nós', mesmo se a estrutura atual da sociedade, pelo fenômeno da reificação, tende a encobrir esse Nós' e a transformá-lo numa soma de várias individualidades distintas e fechadas umas às outras. " Lucien Goldman, 1947. A relação entre Psicologia e Psicologia Social deve ser enten­ dida em sua perspectiva histórica, quando, na década de 50 se iniciam sistematizações em termos de Psicologia Social, dentro de duas tendências predominantes: uma, na tradição pragmática dos Estados Unidos, visando alterar e/ou criar atitudes, interferir nas relações grupais para fuxmonizá-las e assim garantir a produti­ vidade do grupo —é uma atuação que se caracteriza pela euforia de uma intervenção que minimizaria conflitos, tomando os homens “felizes” reconstrutores da humanidade que acabava de sair da destruição de uma II Guerra Mundial. A outra tendência, que também procura conhecimentos que evitem novas catástrofes mundiais, segue a tradição filosófica européia, com raízes na fenomenologia, buscando modelos científicos totalizantes, como Lewin e sua teoria de Campo. A euforia deste ramo científico denominado Psicologia Social dura relativamente pouco, pois sua eficácia começa a ser questio­ nada em meados da década de 60, quando as análises críticas apontavam para uma “crise" do conhecimento psicossocial que não
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    INTRODUÇÃO I 1 conseguiaintervir nem explicar, muito menos prever comporta­ mentos sociais. As réplicas de pesquisas e experimentos não permi­ tiam formular leis, os estudos interculturais apontavam para uma complexidade de variáveis que desafiavam os pesquisadores e estatísticos — é o retorno às análises fatoriais e novas técnicas de análise de multivariância, que afirmam sobre relações existentes, mas nada em termos de "como” e "por quê”. Na França, a tradição psicanalitica é retomada com toda a veemência após o movimento de 68, e sob sua ótica é feita uma crítica à psicologia social norte-americana como uma ciência ideo­ lógica, reprodutora dos interesses da classe dominante, e produto de condições históricas especificas, o que invalida a transposição tal e qual deste conhecimento para outros países, em outras condições histórico-sociais. Esse movimento também tem suas repercussões na Inglaterra, onde Israel e Tãjfell analisam a "crise” sob o ponto de vista epistemológico com os diferentes pressupostos que embasam o conhecimento científico — é a critica ao positivismo, que em nome da objetividade perde o ser humano. Na América Latina, Terceiro Mundo, dependente econômica e culturalmente, a Psicologia Social oscila entre o pragmatismo norte-americano e a visão abrangente de um homem que só era compreendido filosófica ou sociologicamente — ou seja, um homem abstrato. Os congressos interamericanos de Psicologia são exce­ lentes termômetros dessa oscilação e que culminam em 1976 (Miami), com críticas mais sistematizadas e novas propostas, principalmente pelo grupo da Venezuela, que se organiza numa Associação Venezuelana de Psicologia Sovial (AVEPSO) coexistindo com a Associação Latino-Americana de Psicologia Social (ALAP- SO). Nessa ocasião, psicólogos brasileiros também faziam suas críticas, procurando novos rumos para uma Psicologia Social que atendesse à nossa realidade. Esses movimentos culminam em 1979 (SIP — Lima, Peru) com propostas concretas de uma Psicologia Social em bases materialista-históricas e voltadas para trabalhos comunitários, agora com a participação de psicólogos peruanos, mexicanos e outros. O primeiro passo para a superação da crise foi constatar a tradição biológica da Psicologia, em que o indivíduo era considerado um organismo que interage no meio físico, sendo que os processos psicológicos (o que ocorre "dentro” dele) são assumidos como causa, ou uma das causas que explicam o seu comportamento. Ou seja, para compreender o indivíduo bastaria conhecer o que
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    12 SILVIA T.M. LANE ocorre dentro dele", quando ele se defronta com estímulos do meio. Porém o homem fala, pensa, aprende e ensina, transforma a natureza; o homem é cultura, é história. Este homem biológico não sobrevive por si e nem é uma espécie que se reproduz tal e qual, com variaçóes decorrentes de clima, alimentação, etc. O seu organismo é uma infra-estrutura que permite o desenvolvimento de uma superes­ trutura que é social e, portanto, histórica. Esta desconsideração da Psicologia em geral, do ser humano como produto histórico- social, é que a torna, se não inócua, uma ciência que reproduziu a ideologia dominante de uma sociedade, quando descreve compor­ tamento e baseada em freqQências tira conclusões sobre relações causais pela descrição pura e simples de comportamentos ocorrendo em situações dadas. Não discutimos a validade das leis de aprendi­ zagem; é indiscutível que o reforço aumenta a probabilidade da ocorrência do comportamento, assim como a punição extingue comportamentos, porém a questão que se coloca é por que se apreende certas coisas e outras são extintas, por que objetos são considerados reforçadores e outros punidores? Em outras palavras, em que condições sociais ocorre a aprendizagem e o que ela significa no conjunto das relações sociais que definem concretamente o indivíduo na sociedade em que ele vive. O ser humano traz consigo uma dimensão que não pode ser descartada, que é a sua condição social e histórica, sob o risco de termos uma visão distorcida (ideológica) de seu comportamento. ^ Um outro ponto de desafio para a Psicologia Social se colocava diante dos conhecimentos desenvolvidos — sabíamos das deter­ minações sociais e culturais de seu comportamento, porém onde a criatividade, o poder de transformação da sociedade por ele construída. Os determinantes só nos ensinavam a reproduzir, com pequenas variações, as condições sociais nas quais o indivíduo vive. A ideologia nas ciências humanas A afirmativa de que o positivismo, na procura da objetividade dos fatos, perdera o ser humano decorreu de uma análise crítica de um conhecimento minucioso enquanto descrição de comporta­ mentos que, no entanto, não dava conta do ser humano agente de mudança, sujeito da história. O homem ou era socialmente deter­ minado ou era causa de si mesmo: sociologismo vs biologismo? Se
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    INTRODUÇÃO 13 por umlado a psicanálise enfatizava a história do indivíduo, a sociologia recuperava, através do materialismo histórico, a espe­ cificidade de uma totalidade histórica concreta na análise de cada sociedade. Portanto, cabería à Psicologia Social recuperar o indi­ víduo na intersecção de sua história com a história de sua sociedade — apenas este conhecimento nos permitiria compreender o homem enquanto produtor da história. Na medida em que o conhecimento positivista descrevia comportamentos restritos no espaço e no tempo, sem considerar a inter-relação infra e superestrutural, estes comportamentos, me­ diados pelas instituições sociais, reproduziam a ideologia domi­ nante, em termos de freqüência observada, levando a considerá-los como "naturais” e, muitas vezes, "universais”. A ideologia, como produto histórico que se cristaliza nas instituições, traz consigo uma concepção de homem necessária para reproduzir relações sociais, que por sua vez são fundamentais para a manutenção das relações de produção da vida material da sociedade como tal. Na medida em que a história se produz dialeticamente, cada sociedade, na organização da produção de sua vida material, gera uma contra­ dição fundamenta], que ao ser superada produz uma nova socie­ dade, qualitativamente diferente da anterior. Porém, para que esta contradição não negue a todo momento a sociedade que se produz, é necessária a mediação ideológica, ou seja, valores, explicações tidas como verdadeiras que reproduzam as relações sociais necessárias para a manutenção das relações de produção. Deste modo, quando as ciências humanas se atêm apenas na descrição, seja macro ou microssocial, das relações entre os homens e das instituições sociais, sem considerar a sociedade como produto histórico-dialético, elas não conseguem captar a mediação ideo­ lógica e a reproduzem como fatos inerentes à "natureza” do homem. E a Psicologia não foi exceção, principalmente, dada a sua origem biológica naturalista, onde o comportamento humano decorre de um organismo fisiológico que responde a estímulos. Lembramos aqui Wundt e seu laboratório, que, objetivando construir uma psicologia científica, que se diferenciasse da especu­ lação filosófica, se preocupa em descrever processos psicofisiológicos em termos de estímulos e respostas, de causas-e-efeitos. Nesta tradição e no entusiasmo de descrever o homem enquanto um sistema nervoso complexo que o permitia dominai e transformar a natureza, criando condições sui-generis para a
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    14 SILVIA T.M. LANE sobrevivência da espécie, os psicólogos se esqueceram de que este homem, junto com outros, ao transformar a natureza, se trans­ formava ao longo da história. Como exemplo, podemos citar Skinner, que, sem dúvida, causou uma revolução na Psicologia, mas as condições histórico- sociais que o cercam, impediram-no de dar um outro salto quali­ tativo. Ao superar o esquema S-R, chamando a atenção para a relação homem-ambiente, para o controle que este ambiente exerce sobre o comportamento; criticando o reducionismo biológico, permitiu a Skinner ver o homem como produto das suas relações sociais, porém não chega a ver estas relações como produzidas a partir da condição histórica de uma sociedade. Quando Skinner, através da análise experimental do comportamento, detecta os controles sutis que, através das instituições, os homens exercem uns sobre os outros, e define leis de aprendizagem — e não podemos negar que reforços e punições defato controlam comportamentos — temos uma descrição perfeita de um organismo que se transforma em função das conseqüências de sua ação, também a análise do autocontrole se aproxima do que consideramos consciência de si e o contracontrole descreve ações de um indivíduo em processo de conscientização social. Skinner aponta para a complexidade das relações sociais e as implicações para a análise dos comportamentos envolvidos, desafiando os psicólogos para a elaboração de uma tecnologia de análise que dê conta desta complexidade, enquanto contingências, presentes em comunidades. A história individual é considerada enquanto história social que antecede e sucede à história do Indivíduo. Nesta linha de raciocínio caberia questionar por que alguns comportamentos são reforçados e outros punidos dentro de um mesmo grupo social. Sem responder a estas questões, passamos a descrever o status quo como imutável e, mesmo que­ rendo transformar o homem, como o próprio Skinner propõe, jamais o conseguiremos numa dimensão histórico-social. Impasse semelhante podemos observar em Lewin, que procura detectar os ‘‘casos puros” à maneira galileica e assim precisar leis psicológicas. Também para ele Indivíduo e Meio são indissociáveis, e na medida em que o meio é social e se caracteriza pela complexidade de regiões e sub-regiões e seus respectivos sistemas de forças, se vê num impasse para a comprovação e previsão de comportamentos. Este impasse surge, entre outros, na descrição de processos grupais sob lideranças autocráticas, democráticas e laissez-faire, quando, entendendo ser o processo democrático o mais
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    INTRODUÇÃO 15 criativo eprodutivo, propõe uma "liderança democrática forte” como forma de se chegar a esta relação grupai... Também a psicanálise, em suas várias tendências, enfrenta este problema, desde as críticas de Politzer a Freud até as ahálises atuais dos franceses, que procuram f^zer uma releitura da obra de Freud numa perspectiva histórico-social do ser humano. N&onegamos a psicobiologia nem as grandes contribuições da psiconeurologia. Afinal, elas descrevem a materialidade do orga­ nismo humano que se transforma através de sua própria atividade, mas elas pouco contribuem para entendermos o pensamento hu­ mano e que se desenvolve através das relações entre os homens, para compreendermos o homem criativo, transformador — sujeito da história social do seu grupo. Se a Psicologia apenas descrever o que é observado ou enfocar o Indivíduo como causa e efeito de sua individualidade, ela terá uma ação conservadora, estatizante — ideológica — quaisquer que sejam as práticas decorrentes. Se o homem não for visto como produto e produtor, não só de sua história pessoal mas da história de sua sociedade, a Psicologia estará apenas reproduzindo as condições necessárias para impedir a emergência das contradições e a trans­ formação social. A psicologia social e o materialismo histórico Se o positivismo, ao enfrentar a contradição entre objetividade e subjetividade, perdeu o ser humano, produto e produtor da História,' se tornou necessário recuperar o subjetivismo enquanto materialidade psicológica. A dualidade físico X psíquico implica uma concepção idealista do ser humano, na velha tradição animís- tica da psicologia, ou então caímos num organicismo onde homem e computador são imagem e semelhança um do outro. Nenhuma das duas tendências dá conta de explicar o homem criativo e trans­ formador. Tornou-se necessária uma nova dimensão espaço-tem­ poral para se apreender o Indivíduo como um ser concreto, manifestação de uma totalidade histórico-social — daí a procura de uma psicologia social que partisse da materialidade histórica produzida por e produtora de homens. É dentro do materialismo histórico e da lógica dialética que vamos encontrar os pressupostos epistemológicos para a recons-
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    16 SILVIA T.M. LANE tração de um conhecimento que atenda à realidade social e ao cotidiano de cada indivíduo e que permita uma intervenção efetiva na rede de relações sociais que define cada indivíduo — objeto da Psicologia Social. Das criticas feitas detectamos que definições, conceitos cons- tnictos que geram teorias abstratas em nada contribuiram para uma prática psicossocial. Se nossa meta é atingir o indivíduo concreto, manifestação de uma totalidade histórico-social, temos de partir do empírico (que o positivismo tão bem nos ensinou a descrever) e, através de análises sucessivas nos aprofundarmos, além do apa­ rente, em direção a esse concreto, e para tanto necessitamos de categorias que a partir do empírico (imobilizado pela descrição) nos levem ao processo subjacente e à real compreensão do Individiiõ estudado. Também a partir de criticas ã psicologia social “tradicional” pudemos perceber dois fatos fundamentais para o conhecimento do Indivíduo: 1) o homem não sobrevive a não ser em relação com outros homens, portanto a dicotomia Indivíduo X Grupo é falsa — desde o seu nascimento (mesmo antes) o homem está inserido num grupo social —; 2) a sua participação, as suas ações, por estar em grupo, dependem fundamentalmente da aquisição da linguagem que preexiste ao indivíduo como código produzido historicamente pela sua sociedade {langue), mas que ele apreende na sua relação específica cora outros indivíduos {parole). Se a língua traz em seu código significados, para o indivíduo as palavras terão um sentido pessoal decorrente da relação entre pensamento e ação, mediadas pelos outros significativos. O resgate destes dois fatos empíricos permite ao psicólogo social se aprofundar na análise do Indivíduo concreto, considerando a imbricação entre relações grupais, linguagem, pensamento e ações na definição de características fundamentais para a análise psicos­ social. Assim, a atividade implica ações encadeadas, junto com outros indivíduos, para a satisfação de uma necessidade comum. Para haver este encadeamento é necessária a comunicação (linguagem) assim como um plano de ação (pensamento), que por sua vez decorre de atividades anteriormente desenvolvidas. Refletir sobre uma atividade realizada implica repensar suas ações, ter consciência de si mesmo e dos outros envolvidos, refletir sobre os sentidos pessoais atribuídos às palavras, confrontá-las com as conseqQências geradas pela atividade desenvolvida pelo grupo
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    INTRODUÇÃO 17 social, enesta reflexão se processa a consciência do indivíduo, que é indissociável enquanto de si e social. Leontiev inclui ainda a personalidade como categoria, decor­ rente do princípio de que o homem, ao agir, transformando o seu meio se transforma, criando características próprias que se tornam esperadas pelo seu grupo no desenvolver de suas atividades e de suas relações com outros indivíduos. Caberia ainda, na especificidade psicossocial, uma análise das relações grupais enquanto mediadas pelas instituições sociais e como tal exercendo uma mediação ideológica na atribuição de papéis sociais e representações decorrentes de atividades e relações sociais tidas como ‘‘adequadas, correta*;, esperadas", etc. A consciência da reprodução ideológica inerente aos papéis socialmente definidos permite aos indivíduos no grupo superarem suas individualidades e se conscientizarem das condições históricas comuqs aos membros do grupo, levando-os a um processo de identificação e de atividades conjuntas que caracterizam o grupo como unidade. Este processo pode occrrer individualmente e cons­ tataríamos o desenvolvimento de uma consciência de si idêntica à consciência social. Na medida em que o processo é grupai, ou seja, ocorre com todos os membros, ele :ende a caracterizar o desen­ volvimento de uma consciência de classe, quando o grupo se percebe inserido no processo de produção material de sua vida e percebe as contradições geradas historicamente, levando-o a atividades que visam à superação das contradições presentes no seu cotidiano, torna-se um grupo-sujeito da transformação histórico-social. Desta forma, a análise do processo grupai nos permite captar a dialética indivíduo-grupo, onde a dupla negação caracteriza a superação da contradição existente e quando o indivíduo e grupo se tomam agentes da história social, membros indissociáveis da totalidade histórica que os produziu e a qual eles transformam por suas atividades também indissociáveis. Esta análise das categorias fundamentais para a compreensão do ser humano nos leva à constatação da impossibilidade de delimitarmos conhecimentos em áreas estanques que comporiam o conjunto das Ciências Humanas. Psicologia, Sociologia, Antropo­ logia, Economia, História, Pedagogia, Lingüística são enfoques a partir dos quais todas as áreas contribuem para o conhecimento profundo e concreto do ser humano. Suas fronteiras devem ser necessariamente permeáveis, ampliando o conhecimento, seja do
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    18 Sílvia t. m . l a n e indivíduo, do grupo, da sociedade e da produção de sua existência material e concreta. Decorrências metodológicas: a pesquisa-açSo enquanto práxis A partir de um enfoque fundamentalmente interdisciplinar, o pesquisador-produto-histórico parte de uma visão de mundo e do homem necessariamente comprometida e neste sentido nào há possibilidade de se gerar um conhecimento “neutro", nem um conhecimento do outro que não interfira na sua existência. Pesqui­ sador e pesquisado se definem por relações sociais que tanto podem ser reprodutoras como podem ser transformadoras das condições sociais onde ambos se inserem; desta forma, conscientes ou não, sempre a pesquisa implica intervenção, ação de uns sobre outros. A pesquisa cm si é uma prática social onde pesquisador e pesquisado se apresentam enquanto subjetividades que se materializam nas relações desenvolvidas, e onde os papéis se confundem e se alternam, ambos objetos de análises e portanto descritos empiri­ camente. Esta relação — objeto de análise — é captada em seu movimento, o que implica, necessariamente, pesquisa-ação. Por outro lado, as condições históricas sociais do pesquisador e de pesquisados que respondem pelas relações sociais que os identificam como indivíduos permitem a acumulação de conheci­ mentos na medida em que as condições são as mesmas, onde as especificidades individuais apontam para o comum grupai e social, ou seja, para o processo histórico, que, captado, nos propicia a compreensão do indivíduo como manifestação da totalidade social, ou seja, o Indivíduo concreto. Este caráter acumulativo da pesquisa faz do conhecimento uma práxis, onde cada momento empírico é repensado no confronto com outros momentos e a partir da reflexão crítica novos caminhos de investigação são traçados, que por sua vez levam ao reexame de todos os empíricos e análises feitas, ampliando sempre a com­ preensão e o âmbito do conhecido. Pesquisa-ação é por excelência a práxis científica.
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    INTRODUÇÃO 19 Toda apsicologia é social Esta afirmação não significa reduzir as áreas específicas da Psicologia à Psicologia Social, mas sim cada uma assumir dentro da sua especificidade a natureza histórico-social do ser humano. Desde o desenvolvimento infantil até as patologias e as técnicas de intervenção, características do psicólogo, devem ser analisadas criticamente à luz desta concepção do ser humano — é a clareza de que não se pode conhecer qualquer comportamento humano iso- lando-o ou fragmentando-o, como se este existisse em si e por si. Também com esta afirmativa não negamos a especificidade da Psicologia Social — ela continua tendo por objetivo conhecer o Indivíduo no conjunto de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupai e social. Porém, agora a Psicologia Social poderá responder à questão de como o homem é sujeito da História e transformador de sua própria vida e da sua sociedade, assim como qualquer outra área da Psicologia.
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    Ado . ^Q S - t t 4 A dimensão subjetiva dos fenômenos sociais Maria da Graça Marchina Gonçalves Ana Mercês Bahia Bock A dificuldade de definição da psicologia social reside na impreci­ são dos seus objetivos. Sendo uma disciplina relativamente recen­ te, não há ainda acordo, no campo dos seus cultores, no sentido de delimitar-lhe os objetivos nítidos e a extensão de suas apli­ cações. Enquanto que, para uns, a psicologia social se aproxima da psicologia (McDougall), para outros, o seu objeto de estudo se confunde com o da sociologia (Ellwood, Ross). O parágrafo acima abre o primeiro capítulo do livro Introdução à Psi­ cologia Social, de Arthur Ramos, publicado em 1936 (2003, p. 27) e consi­ derado como a segunda publicação brasileira na área. A dúvida sobre a natureza da Psicologia Social é tomada como questão importante na pu­ blicação que é resultado, como afirma o próprio autor, de suas aulas do curso de Psicologia Social na Universidade do Distrito Federal, em 1935. Em seu prefácio, Ramos afirma que a "(...) Psicologia Social está assumin­ do uma importância cada vez maior, embora sem nitidez definitiva nos seus métodos e nos seus objetivos". (Ramos, 2003, p. 23)
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 117 As várias tendências destacadas naquele momento demonstravam a preocupação em definir a Psicologia Social como uma área da Psicolo­ gia ou da Sociologia. Interessante ainda registrar que Ramos afirma, para organizar seu livro, que a Psicologia Social estuda três ordens gerais de fenômenos: (...) Em primeiro lugar, a psicologia social estuda as bases psicológicas do comportamento social epor aí se aproxima da psicologia do indivíduo. Em seguida, estuda as inter-relações psicológicas dos indivíduos na vida social. Toma-se então uma interpsicologia, no velho sentido de Tarde. Por fim, a psicologia social tem de considerar a influência total dos grupos sobre a personalidade. Ela será então uma sociologia psicológica e uma psicologia cultural. (Ramos, 2003, p. 36) Talvez essas citações já sejam suficientes para falarmos da dicotomia Lndivíduo/sociedade presente na Psicologia Social, a qual tomaremos como eixo de nossas reflexões. Mas ainda cabe citar alguns trechos de Ra­ mos (2003) que expõem claramente essa questão, tomada aqui como um dos problemas centrais da indefinição da Psicologia Social. No capítulo 16 de seu livro, capítulo intitulado O indivíduo e o social, Ramos nos diz: O homem isolado é um mito. A sua personalidade só pode ser compreen­ dida dentro do jogo complexo das influências ambientais — físicas, sociais e culturais. Um dos problemas da psicologia social é justamente esse de in­ vestigar a ação total do meio sobre o indivíduo... (Ramos, 2003, p. 237) E continua: ... o grupo social influencia o indivíduo, moldando-o aos seus padrões de atitudes, opiniões ejulgamentos... A"pessoa" é oindivíduo dentrodos seus padrões sociais. O indivíduo vive na sociedade como membro de grupo, como "pessoa", como "socius". A própria consciência da sua individuali­ dade, ele aadquire como membro do grupo social, visto que é determinada pelas relações entre o "eu" e os "outros"... (Ramos, 2003, p. 238)
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    118 BOCK •GONÇALVES Avançando até 1981, vamos encontrar, em obra de Aroldo Rodrigues, a Psicologia Social definida como o estudo das "manifestações comporta- mentais suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas, ou pela mera expectativa de tal interação" (Rodrigues, 1971, p. 3). E seguin­ do no tempo, o próprio Rodrigues et al., em 2000, quando da 18aedição revisada de seu livro Psicologia Social, afirmam de início: Psicologia Social é o estudo científico da influência recíproca entre as pes­ soas (interação social) e do processo cognitivo gerado por esta interação (pensamento social)... Um aperto de mão, uma reprimenda, umelogio, um sorriso, um simples olhar de uma pessoa em direção a outra suscitam nes­ ta última uma resposta que caracterizamos como social. Por sua vez, a res­ posta emitida servirá de estímulo à pessoa que a provocou, gerando por seu turno um outro comportamento desta última, estabelecendo-se assim o processo de interação social. (Rodrigues, et al., 2000, p. 21) Em 1981, Silvia Lane publica O que é a Psicologia Social e questiona a definição da área como sendo o estudo do comportamento dos indiví­ duos no que ele é influenciado socialmente. Lane afirma ser impossível encontrarmos comportamentos que não sejam sociais e conclui: ... a Psicologia Social estuda a relação essencial entre o indivíduo e a socie­ dade, esta entendida historicamente, desde como seus membros se organi­ zam para garantir sua sobrevivência até seus costumes, valores e institui­ çõesnecessáriospara acontinuidadedasociedade... Eagrandepreocupação atual da Psicologia Social é conhecer como ohomem se insere neste proces­ so histórico, não apenas em como ele é determinado, mas principalmente, como ele se toma agente da história, ou seja, como ele pode transformar a sociedade em que vive. (Lane, 1981, p. 10) O pensamento de Lane avança e, em 1984, na publicação histórica Psi­ cologia Social — o homem em movimento (Lane e Codo [orgs.]), Lane afirma: Toda a psicologia é social. Esta afirmação não significa reduzir as áreas específicas da Psicologia à Psi­ cologia Social, mas sim cada uma assumir dentro da sua especificidade a natureza histórico-social do ser humano...
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 119 Também com esta afirmação não negamos a especificidade da Psicologia Social — ela continua tendo por objetivo conhecer o Indivíduo no conjun­ to de suas relações sociais, tanto naquilo que lhe é específico como naquilo em que ele é manifestação grupai e social... (Lane, 1984, p. 19) Este percurso que fizemos pretende destacar a dicotomia presente na Psicologia Social e as tentativas de superação dela. Apresentaremos a Psicologia Social de abordagem sócio-histórica como uma das mais bem- -sucedidas nessa empreitada, porque redefine o objeto da Psicologia So­ cial e o recoloca em outras bases epistemológicas, seguindo a trilha de Lane. A divisão (dicotomia) entre o indivíduo e a sociedade, a objetivi­ dade e a subjetividade, o mundo psicológico e o mundo social começa a ser superada trazendo uma nova concepção de ser humano e uma nova visão sobre sua relação com a sociedade. Uma preocupação histórica É preciso que se afirme que há um consenso em todas essas teori­ zações sobre a Psicologia Social, aqui contrapostas: o de compreender a relação que o indivíduo mantém com a sociedade. Desde Wundt esta­ vam postas questões que se colocavam para além do indivíduo. Ele re­ conhecia diferenças entre indivíduos de diferentes culturas, reconhecia os fenômenos sociais e coletivos como relativos ao campo de interesse da Psicologia e considerava que o estudo da consciência por meio da intros- pecção não esgotava a sua complexidade. Contudo, estava em busca de conhecer os processos universais de funcionamento da consciência hu­ mana. Enfatizou métodos que alcançassem essa compreensão e a cons­ trução da sua Psicologia Social terminou pouco difundida, de modo que não se reconhece em sua obra o desenvolvimento de estudos sobre a re­ lação indivíduo-sociedade. O próprio Arthur Ramos, aqui citado, colo­ cou questões dessa natureza quando falou de uma psicologia da cultura. A questão do negro na sociedade brasileira e a formação de uma nação Brasil foram eixos importantes de sua produção. Ramos propunha estu­
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    120 BOCK •GONÇALVES dar e compreender o que havia de primitivo em nossas heranças cultu­ rais e que seriam empecilhos para o desenvolvimento da nação. Apesar dessa visão, hoje considerada equivocada, na medida em que associava a questão racial ao que havia de primitivo e atrasado em nossa socieda­ de, Ramos enfatizou o estudo do comportamento humano tendo sempre em vista a sua inserção no ambiente social. Que relação mantém o indivíduo com a sociedade? O que somos tem alguma relação com a sociedade em que nos inserimos? Como se dá essa relação? Se tomarmos como referência as duas "pontas teóricas" que apresen­ tamos — Ramos e Lane —, podemos verificar que as perspectivas para a resposta são diversas: Ramos pensava o homem como influenciado pelo meio e considerava assim as influências do meio sobre a personalidade. Rodrigues coloca-se neste campo afirmando a Psicologia Social como es­ tudo da interação e do pensamento social decorrente da interação. Lane, por outro lado, busca superar essas visões, desafiando a Psicologia a pen­ sar o humano como transformador, como sujeito ativo, protagonista de sua história e de sua sociedade. A relação indivíduo — sociedade estava lá, posta nessas abordagens. Está, entretanto, posta a partir de diferentes concepções metodológicas de como se dá a relação, as quais compreen­ dem homem e sociedade de maneiras diversas. A compreensão desde a raiz da proposição de Silvia Lane, que inau­ gura no Brasil a concepção sócio-histórica, requer o esclarecimento des­ sas diferenças. A dicotomia como divisor de águas O pensamento moderno científico afirmou-se desde o início como objetivo e neutro. Isso distinguia a ciência do senso comum. Apostou-se então no método como forma de garantir a neutralidade e a objetivida­ de, já que o cientista também era dotado de uma subjetividade. Sujeitos pesquisando sujeitos poderiam ser objetivos se se mantivessem rigoro­ samente presos a um método que garantisse a objetividade e afastasse as
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 121 possibilidades de contaminação subjetiva, ou seja, de que o pesquisador se misturasse com seu objeto de estudo. Estava posta a dicotomia entre sujeito e objeto: "Produzir conhecimento científico era manter-se, como sujeito, externo ao objeto a ser investigado, fosse qual fosse esse objeto". (Gonçalves e Bock, 2003, p. 42) A dicotomia presente nesta maneira de conceber a relação sujeito-ob­ jeto se estenderá para as formas de conceber a relação sujeito e sociedade; natural e histórico; mundo interno e mundo externo. Não só se estenderá como será a base epistemológica da produção em Psicologia. Na Psicologia Social essa dicotomia se evidenciará na divisão entre psicologias sociais sociológicas e psicológicas. As produções dessas psi­ cologias expressam a busca eterna de encontrar a leitura mais adequada para a realidade: estariam as explicações no âmbito do indivíduo (ten­ dências psicológicas) ou da sociedade (tendências sociológicas)? Foi em busca dessa resposta que a Psicologia Social se desenvolveu, de manei­ ra preponderante, entretanto, sob a égide de concepções objetivistas de ciência. E, juntamente com elas, concepções de neutralidade da ciência, de separação entre o momento do conhecimento e o momento da ação, colocando para o pesquisador em Psicologia Social outra dicotomia a re­ solver: como relacionar pesquisa e ação social? É nesse contexto que o conhecimento que se produz se isenta de questões sociais concretas, aparece apartado dos problemas considerados mais relevantes, afasta-se das questões da realidade social. A naturaliza­ ção dos fenômenos, decorrente da visão dicotômica, leva a formulações abstratas e universais sobre os indivíduos e as sociedades; parece falar do todo, ou de tudo, mas termina por falar de quase nada. É essa a origem da chamada "crise da psicologia social", ocorrida nos anos 1960, muito embora autores como Rodrigues (1978) e Lane (1980 e 1991) tenham for­ mulado análises diferentes dessa crise. Para um — Rodrigues — a crise era devida à falta de cientificidade nessa área. Era preciso ir mais a fundo na pesquisa isenta, na busca dos pro­ cessos universais (e, portanto, naturais), para se avançar no conhecimento da relação indivíduo-sociedade, produzindo pesquisa básica que poderia, em outro contexto, que não o da ciência, resultar em aplicações.
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    122 BOCK •GONÇALVES Para outra — Lane — a crise era devida, exatamente, à separação entre conhecimento e ação. Apenas o compromisso do cientista com as questões do seu tempo, um compromisso revelado desde a escolha do método e da teoria, poderia proporcionar um conhecimento que contri­ buísse para a transformação da sociedade. Novamente, têm-se diferentes implicações, para o conhecimento e a atuação, a depender de como se lida com a dicotomia estabelecida entre indivíduo e sociedade. Assumimos aqui a versão de Lane, que, com essa visão, inaugura a produção de uma Psicologia Social alternativa, crítica e comprometida com a realidade brasileira e latino-americana. Para ir adiante na explici­ tação das raízes dessas posições e suas diferentes possibilidades é neces­ sário o conhecimento de seus fundamentos, o que remete às produções da Modernidade, exigindo que se aprofunde sua compreensão. O pensamento da Modernidade Vários são os elementos que compõem as elaborações da Moderni­ dade, revelando a complexidade e os aspectos contraditórios do período histórico que representa: racionalismo como pilar central; valorização da ciência racional e empírica; reconhecimento do homem como sujeito epis- têmico; formulações sobre o lugar social do homem e sobre a liberdade; só para apontar, genericamente, alguns deles. Entre essas formulações está uma concepção fundamental, apoiada nos cânones do racionalismo e reveladora, de modo mais concreto, do ho­ mem que surge nesse período: a concepção do homem como indivíduo. Esse homem, por ser racional e considerando-se a universalidade da Razão, é o que é por sua capacidade de pensar por si só, de encontrar nas luzes da Razão as verdades sobre a realidade, natural ou metafísica. Verdades que bem poderiam estar no objeto externo ao homem, ou bem poderiam ser a ele reveladas pelo trabalho da Razão e/ou por seus con­ teúdos próprios (inatos ou a priori).
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 123 Mas, além disso, ou juntamente com isso — na verdade, na base dis­ so —, está a experiência concreta dada a esse homem, a experiência de ser e se ver como a "célula" da sociedade. Trata-se do desenvolvimento do capitalismo e da organização social necessária à sua consolidação. A pro­ dução da riqueza e o mercado sob o capital têm sua organização baseada na inserção individual, pois cada um deve negociar sua própria força de trabalho e cada um deve tornar-se um consumidor. O indivíduo aparece, então, como forma primeira e insubstituível de existência. A individua­ lidade é marca e conquista do capitalismo, dada sua forma de organiza­ ção e produção social, mas ela também vai se definindo como modo de ser do homem. O indivíduo é forma de subjetivação. Dois esclarecimentos terminológicos são necessários neste ponto. Primeiro, reafirmar com Dumont (1985, p. 29) os dois sentidos sob os quais a expres­ são "indivíduo" pode ser utilizada: (1) o sujeito empírico da palavra, do pensamento, da vontade, amostra indivisível da espécie humana, tal como o observador o encontra em todas as sociedades; e (2) o sujeito moral, in­ dependente, autônomo, e assim essencialmente não social, tal como se en­ contra, sobretudo, emnossa ideologia moderna de homeme sociedade.1Em decorrência do primeiro esclarecimento, segue-se que o indivíduo é apenas um dos modos de subjetivação possíveis. (Mancebo, 1999, p. 36) Assim, a Modernidade traz a afirmação do homem como indivíduo, sendo que não se trata de tomá-lo como a unidade da espécie ao se fa­ zer essa afirmação. Mais que isso, a sociedade que passa a se formar nes­ se período e virá a ser hegemônica tem como referência fundamental a noção de individualidade, da experiência individual como a base para a organização social. Surge, dessa forma, a experiência humana que passará a ser hege­ mônica e central em toda a histórica ocidental e dominante. Podemos di­ zer que o surgimento do "homem burguês" (Konder, 2000) traz mais do que o surgimento de uma nova classe social. Evidentemente é disso que 1. DUMONT, Louis. O individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
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    124 BOCK •GONÇALVES se trata. Mas é preciso reconhecer que a forma como essa experiência se impõe objetiva e ideologicamente levará a um aprofundamento da no­ ção de indivíduo que se elabora nos séculos XVII e XVIII, se fortalece no século XIX, atravessa todo o século XX, e chega à contemporaneidade com a insígnia, ainda pouca abalada, de ser uma concepção natural. Não é. A concepção do homem como indivíduo é produto de certa ordem social, que permitiu o desenvolvimento de determinadas experiên­ cias e suas correspondentes representações, tão sólidas e contraditórias quanto a realidade que as possibilita. Não se trata de uma "modelagem" do burguês feita pela burguesia (fenô­ meno que de fato existe, mas permanece restrito ao estaco de classe): trata- se de um condicionamento promovido, não pela burguesia, diretamente, mas pelo conjunto da sociedade burguesa, quer dizer, pelas características do "sistema" social estruturado sob a hegemonia da burguesia. (Konder, 2000, p. 15) A noção de indivíduo foi particularmente importante para o libera­ lismo, que fundamentou nela todas as suas formulações sobre o homem. Mancebo (1999) cita Dumont, o qual estabelece uma distinção entre so­ ciedades e culturas holísticas e as individualistas. As primeiras situam os indivíduos empíricos de acordo com sua posição na estrutura social; os indivíduos são, então, representados por meio de identidades posi­ cionais. Nas segundas, "o valor da identidade individual é dado, sobre­ tudo, pela ideia de autonomia do sujeito em relação ao todo" (Mancebo, 1999, p. 36). Na concepção individualista, o indivíduo tem potencialida­ des "naturais" ou "intrínsecas", pré-existentes à sociedade, e deve reali­ zá-las na vida social. Foi essa referência ao indivíduo como unidade básica da sociedade, com base na qual se estabelecem normas e relações, que fundamentou concepções sociais importantes na organização da sociedade sob a nova estruturação econômica. Segundo Mancebo (1999, p. 36): Pode-se afirmar que o conceito de indivíduo tal qual apresentado acima foi elevado ao nível de bandeira política e realidade econômica pelo libe-
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 125 ralismo dos séculos XVII e XVIII, constituindo-se em parcela significativa do imaginário social da modernidade. Para os contratualistas dessa época — Locke, Hobbes, Rousseau — o poder das famílias havia sido substituído politicamente pelo Estado Moderno, constituído, ao menos em tese, pela participação d:reta de indivíduos. Os contornos básicos desse novo ideá­ rio seriam: a liberdade (inclusive em relação à própria coletividade na qual vive, implicando direito de escolha, liberdade de ação e de participação), a igualdade (ontológica e legal, implicando direitos inalienáveis, públicos, reconhecidos por todos), aconsciência individual acentuada (razão própria, emoções e sentimentos próprios, singulares e únicos) e a consideração do homem como unidade básica da sociedade na qual participa diretamente sem mediações. Neste momento podemos dizer que já são dois os aspectos que nos podem levar a entender a postulação de explicações psicológicas ou so­ ciológicas para a relação indivíduo e sociedade. Um deles claramente epistemológico, nos mostra como a separação entre sujeito e objeto, como forma de se chegar à objetividade do conhecimento, induz à separação entre indivíduo e sociedade, porque: 1) estende a visão de exterioridade a toda relação de que se trata, pois é uma visão metodológica que orienta a forma de abordar o objeto do conhecimento, nesse caso, entendendo-se como objeto a relação indivíduo-sociedade; a implicação é a visão de exte­ rioridade entre indivíduo e sociedade; 2) busca a objetividade do conheci­ mento sobre o indivíduo e a sociedade de maneira objetivista, reduzindo os processos de relação a uma imediaticidade e a uma linearidade condi­ zentes com essa maneira de abordar a realidade para conhecê-la. O outro é um aspecto ontológico, que permite apontar característi­ cas, historicamente constituídas, do ser do qual se trata, o homem indi­ víduo, assim concebido com base em experiências concretas ratificadas pelas concepções liberais. É esse indivíduo que precisa ser compreendido na sua relação com a sociedade. E é desse indivíduo que se fala quando se estuda sua relação com a sociedade. Reunindo os dois elementos, o epistemológico e o ontológico, temos, além da exterioridade do indivíduo em relação à sociedade, um indivíduo "em si", que prescinde, a princípio, da sociedade para ser como tal.
  • 157.
    126 BOCK •GONÇALVES O resultado da presença dessas concepções na Psicologia Social é o que apontamos acima: explicações sociológicas ou psicológicas para a relação indivíduo-sociedade, com desdobramentos para a visão de qual deve ser o lugar do conhecimento na vida social e até mesmo para a iden­ tificação dos problemas da vida social que devem ser conhecidos. Outros elementos da Modernidade devem ser considerados para ir­ mos adiante nessa análise. Isso porque, como também já referimos aci­ ma, o conjunto de elementos que a compõem revela a complexidade e as contradições das produções históricas. Assim, devemos considerar que esse homem racional e individual da Modernidade, o "homem burguês" referido por Konder (2000), é também reconhecido como sujeito. Estamos nos referindo a um ser de possibilidades (de determinadas possibilidades): possibilidade de conhecer, possibilidade de agir a partir do conhecimento, possibilidade de encontrar e/ou aplicar a racionalidade em tudo que existe, possibilidade de sentir, possibilidade de pensar sobre o que conhece e o que sente, possibilidade de expressar suas vontades e esperar que a sociedade as realize. E possibilidade de realizar tudo isso perante outros, perante a sociedade. Há, dessa forma, uma afirmação do homem como sujeito. Mas ela só foi possível, concretamente, no interior da contradição capital — trabalho, que requereu que o homem ocupasse os lugares so­ ciais (na produção e no consumo) como ser individual. E só foi possível, em termos ontológicos e epistemológicos, com a afirmação também do objeto, significando a afirmação de uma existência do objeto (realidade, natureza) independente do sujeito. Ambos os aspectos aqui presentes, o concreto e o das representações, carregam contradições. Na concreticidade, para ocupar o lugar social da produção, o indi­ víduo só pode fazê-lo com outros indivíduos. Ou seja, a organização da produção é social. Por outro lado, para ocupar o lugar social do consu­ mo, o indivíduo precisar anular outros indivíduos (na concorrência do mercado); ou, na melhor das hipóteses, precisa tornar-se indistinto deles (na massificação do consumo).
  • 158.
    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 127 Nas representações, ontológicas e epistemológicas, o sujeito racional autônomo precisa submeter-se à objetividade e à racionalidade do obje­ to, tendo sua autonomia limitada. O ser de possibilidades tudo pode? Ou nada pode? Postas dessa forma as questões, as respostas oscilam de um polo a outro, mantendo visões dicotômicas em vários campos. O que pode o in­ divíduo frente à sociedade: impor sua individualidade ou amoldar-se ao que lhe é imposto? As concepções alternativas e a dificuldade da superação As contradições da Modernidade estão, também, entretanto, na ori­ gem de concepções alternativas, de contraponto às visões dominantes. O sujeito liberal, indivíduo racional, bem como sua possibilidade de reali­ zação, encontram seu questionamento em experiências concretas e suas correspondentes representações ontológicas e epistemológicas. O capitalismo tem em si, contraditoriamente, como apontado acima, um novo elemento de experiência concreta, por meio do trabalho. Trata-se da possibilidade de os sujeitos do trabalho constituírem-se concretamente como coletivo, considerando-se a organização da produção industrial. É uma experiência possibilitada pela mesma organização social da produ­ ção que afirmara o indivíduo como sua célula básica; daí a contradição. Essa experiência possibilita outra: o reconhecimento da condição co­ mum a que estão expostos esses sujeitos. Na verdade, aquilo que está li­ mitado pela concorrência do mercado (para a oferta da força de trabalho ou para o consumo) será coletivamente reconhecido como limitação impos­ ta pela ordem social. Esse reconhecimento trará a possibilidade de outro tipo de reflexividade, de consciência, diferente da consciência individual. Trata-se da consciência histórica, fundada numa práxis política. Ou seja, traz a possibilidade de uma consciência que não é individual e autofun- dante ou autoiluminada, mas constituída a partir da ação, do trabalho, o que só ocorre coletivamente.
  • 159.
    BOCK • GONÇALVES Aquise fala da possibilidade de superar a alienação que marca as formas de consciência sob o capitalismo, possibilidade esta que está dada pelas contradições que estão presentes nessa realidade. A análise histórica do capitalismo, realizada pelo marxismo, permi­ tiu identificar as características da base material, nesse modo de produ­ ção, que dão origem ao processo de alienação. O indivíduo produtor da riqueza está posto nessa tarefa de modo individual: vende sua força de trabalho ao capital que a utiliza na pro­ dução da riqueza. O resultado desse trabalho é apropriado individual­ mente pelo capitalista. O trabalhador aplica sua força de trabalho e não se apropria de sua produção. A objetivação de seu trabalho pertence a outro. Aliena-se de si próprio e não se reconhece como parte de um cole­ tivo que produz; não se reconhece no produto e não reconhece sua ativi­ dade como produtora. Sua consciência está marcada por essa alienação que se origina na organização da base material da produção. E está tam­ bém marcada pelos conteúdos ideológicos que referendam e contribuem para a sustentação dessa situação.2 O processo de produção de ideologia, apoiado nessa base material, desenvolve-se por meio das características que marcam a produção de ideias nas sociedades de classes: separação entre trabalho intelectual e tra­ balho manual, desvinculação aparente entre ideias e interesses concretos que representam, universalização das ideias. Tal processo aprofunda-se no capitalismo, em que o racionalismo e a ideologia liberal produzem con­ cepções que o favorecem: as ideias válidas são as produzidas pela Razão; a universalidade da Razão justifica ideias universais; o homem é indiví­ duo livre para pensar, utilizando a Razão, que tem ideias evidentes por si mesmas. Ou seja, tanto a experiência concreta do trabalho como as re­ presentações sobre a sociedade e sua organização contêm elementos que explicam a alienação. Depois de separar as ideias dominantes dos indivíduos que exercem o po­ der esobretudo das relações que decorrem de um dado estádio do modo de 2. Ver, no capítulo 3 desta obra, discussão mais detalhada sobre o processo de alienação.
  • 160.
    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 129 produção, é fácil concluir que são sempre as ideias que dominam a histó­ ria, podendo-se, então, abstrair, destas diferentes ideias, a "Ideia", ou seja, a ideia por excelência etc., fazendo dela o elemento que domina na história e concebendo então todas as ideias e conceitos isolados como "autodetermi­ nações" do conceito que se desenvolve ao longo da história Em seguida, é igualmente natural fazer derivar todas as relações humanas do conceito de homem, do homem representado, da essência do homem, numa palavra, de o Homem. (Marx e Engels, 1980, p. 60) A mesma base material, entretanto, por suas contradições, possibilita outra experiência e, consequentemente, cria a possibilidade de outra cons­ ciência. A própria necessidade de organização do trabalho produziu o re­ conhecimento da condição comum desses sujeitos. Esse reconhecimento trouxe a possibilidade de outro tipo de consciência, diferente da consciên­ cia individual. Trata-se, como já afirmado, da consciência histórica cons­ tituída com base no trabalho coletivo. Seu desenvolvimento requer esse reconhecimento da condição comum a um determinado grupo social, o que possibilita o rompimento com aquelas marcas da produção de ideias que as tornam ideológicas: as ideias representam interesses concretos; por isso, não podem ser universais, pois os interesses concretos são oriundos de lugares distintos, ocupados, no seio da produção, por grupos distintos; as experiências relativas a esses lugares são comuns em muitos aspectos, por isso sua representação é compartilhada; nesse sentido, para além de uma consciência individual, há a possibilidade de uma consciência social. Essa experiência concreta vai se manifestar também em relação às questões epistemológicas. O sujeito do conhecimento tem com seu obje­ to uma relação intencional, da mesma forma que se dá a relação de tra­ balho. A práxis histórica, posta a partir do reconhecimento do trabalho como fundante da relação do homem com a realidade, inclui a intencio­ nalidade como inerente à relação do sujeito com o objeto, articula subje­ tividade e objetividade. (...) Pelo trabalho, os seres humanos não consomem diretamente aNatureza nem se apropriam diretamente dela, mas a transformam em algo humano também. A subjetividade humana se exprime num objeto produzido por ela e aobjetividade do produto é a materialização externa da subjetividade.
  • 161.
    130 BOCK •GONÇALVFS Pelo trabalho os seres humanos estendem a sua humanidade à Natureza. É nesse sentido que o trabalho é práxis, ação em que o agente e o produto de sua ação são idênticos, pois o agente se exterioriza na ação produtora e no produto, ao mesmo tempo que este interioriza uma capacidade criado­ ra humana, cu a subjetividade. (Chaui, 1995, p. 419) Essa compreensão da relação ente sujeito e objeto, que decorre da compreensão do movimento de transformação que se dá a partir da ação do homem sobre a realidade, aponta a articulação entre ontologia e epis- temologia. O ser de que se trata está em constante transformação, em um processo histórico em que o homem atua sobre a realidade. Nesse proces­ so, se dá também o conhecimento. Essas formulações ocorreram já no século XIX, diante das primeiras crises do capitalismo, que evidenciaram de várias formas as contradições históricas. Percebe-se, então, que a mesma matriz histórica que constituiu o homem como sujeito e o identificou como sujeito racional e individual contraditoriamente criou a possibilidade do sujeito histórico. A contra­ dição histórica presente na realidade material está também representada nas ideias da Modernidade. Assim, revelando as contradições presentes, a Modernidade pro­ duziu esse contraponto às noções do liberalismo, como expressão da contradição histórica entre capital e trabalho que constituiu o próprio capitalismo. O sujeito racional e individual estaria superado diante da possibilidade da experiência concreta de um sujeito ativo e social, de um sujeito histórico. A identificação dessa outra formulação para a experiência histórica do homem a partir do capitalismo se faz necessária para começarmos a debater possibilidades de superação das dicotomias e para avançarmos na elaboração de uma visão da relação indivíduo-sociedade que contenha a noção de articulação e processo entre um e outro. Em outras palavras, para que seja possível ter, desde a raiz, a compreensão de uma visão dia­ lética da relação indivíduo-sociedade como proposta por Sílvia Lane. (...) Tornou-se necessária uma nova dimensão espaço-temporal para se apreender o Indivíduo como um ser concreto, manifestação de uma totali­
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 131 dade histórico-social — daí a procura de uma psicologia social que partis­ se da materialidade histórica produzida por e produtora de homens. (...) o homem não sobrevive a não ser em relação com outros homens, portanto a dicotomia indivíduo x grupo é falsa — desde o seu nascimento (mesmo antes) o homem está inserido num grupo social. (Lane, 1984, p. 15 e 16) A raiz dessa visão está na concepção materialista histórica e dialética de sociedade, indivíduo, história, conhecimento, método. E é importante que se reconheça essa concepção na sua gênese histórica, como expressão das contradições do capitalismo, expressas também na Modernidade. Ou seja, o "homem burguês" já tem posta sua contraposição histó­ rica. Tanto como possibilidade de experiência concreta, como também em termos de representações alternativas. Por que permanece, então, como concepção ainda predominante? Por que aparece naturalizado, como se fosse a síntese da mais pura, essencial, universal e eterna expe­ riência humana? A resposta mais básica, embora não simples, é a de que a sociedade globalizada e tecnológica move-se, ainda, sob a batuta das relações capi­ talistas, em que pesem todas as diferenças que encontramos na sociedade contemporânea em relação aos séculos XiX e XX. Assim, uma resposta, grosso modo, é possível: o ideal do homem individual, promessa da Mo­ dernidade, ainda não foi abandonado. Mesmo diante das perplexidades geradas a partir da falência dessa e de outras promessas, como aponta Boaventura de Sousa Santos (1996), o indivíduo, agora com novos mati­ zes, ainda serve à organização social. Outras respostas devem ser acrescentadas, evidenciando como as ideias e os saberes que se produziram orientados pelas concepções hege­ mônicas tornaram-se fatores muitas vezes impeditivos do aparecimento de novas formulações. Entre essas ideias e saberes, encontramos a Psico­ logia e todos os saberes psi, que valorizaram e fundamentaram a expe­ riência da individualidade, naturalizando-a e absolutizando-a. É verdade que desde o século XIX, a partir das primeiras crises do ca­ pitalismo, como apontamos acima, surgem questionamentos, pelo menos em parte, a essa visão. As contradições da Modernidade logo se evidencia­
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    132 BOCK •GONÇALVES ram. Entretanto, como dissemos, a superação de seus limites requer trans­ formações históricas mais profundas, com a superação da base material que sustenta e dá sentido a essas concepções. Alguns exemplos permitem perceber os limites impostos pelas contradições da Modernidade. Outras noções de sujeito desenvolveram-se no seio do capitalismo, com base nas concepções da Modernidade, durante os séculos XIX e XX. A predominância da concepção liberal é questionada em vários âmbitos e o século XX assiste até mesmo à decretação da "morte do sujeito". Es­ sas outras concepções, que não representam a possibilidade de supera­ ção da realidade histórica que as engendrou, expressam, por sua vez, a complexidade do movimento histórico. São configurações resultantes das múltiplas determinações presentes no processo social, que contribuem, em maior ou menor grau, para a explicitação e superação da contradição fundamental do capitalismo. É o caso das contraposições que são elaboradas para questionar os reducionismos na concepção de sujeito que valorizam o caráter pragmá­ tico e instrumental da ação humana. O sujeito liberal que, com o desen­ volvimento do capitalismo, precisa ser disciplinado para o trabalho e para o consumo, é massificado e treinado. As concepções humanistas se con­ trapõem a isso e vão em busca de um sujeito pleno, guiado por sua cons­ ciência individual. Mas, estaria aqui o "homem burguês" superado? É o caso também da recuperação da emoção em contraposição ao excesso de racionalidade que permeia a vida do indivíduo massificado, treinado, disciplinado até mesmo em seus desejos. Nesse aspecto, a psica­ nálise desempenha um papel importante. Sua formulação básica põe em cena a irracionalidade, afirmando a presença do inconsciente, que repre­ senta o lado escuro que traz sombra à Razão Iluminada. Nesse sentido, pode-se dizer que a psicanálise é uma das maneiras pelas quais a contra­ dição histórica se manifesta, pois suas formulações põem em cheque o sujeito plenamente racional. A psicanálise, entretanto, não se opõe à noção liberal de sujeito. Ao contrário, toma dela o individualismo, reconhecendo no indivíduo e nas suas pulsões a gênese de suas manifestações em sociedade e nas relações com os outros indivíduos. Ao mesmo tempo, a racionalidade, relativizada
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 133 pelo inconsciente, é retomada para explicar a estruturação da sociedade que se impõe sobre os indivíduos e suas pulsões.3 Por outro lado, em alguns contextos de aplicação e desenvolvimen­ to das concepções marxistas, as dificuldades históricas em se estabelecer concretamente as possibilidades de realização do sujeito histórico condu­ zem a outros tipos de reducionismos: são os decorrentes de uma exacerba­ ção do papel da base material na produção de sujeitos, o que leva a uma desconsideração de fatores individuais e subjetivos no processo social. O sujeito histórico, dessa forma, tem apartada de si uma parte do que o constitui e está presente nos processos sociais: a condição de vivenciar, registrar e elaborar subjetivamente experiências concretas. Por todos esses reducionismos a que foi conduzido o sujeito da Mo­ dernidade (massificação, disciplina, excesso de racionalidade, pragma­ tismo), seria justificável decretar a morte do sujeito. Os abalos à noção de sujeito liberal que vão se desenvolvendo na primeira metade do século XX acabam abrindo caminho para a negação do homem como sujeito. Se a decretação da morte do sujeito (década de 1960) é compreensível como denúncia dos reducionismos a que o capita­ lismo submeteu o homem, ela também abre espaço para a veiculação de uma concepção neoliberal que acompanha as reformulações do capitalis­ mo diante da crise mundial que ocorre na década de 1970. Aquilo que se denominou "pós-modemidade" aglutina produções bastante diversas que, entretanto, têm em comum um trabalho de revi­ são crítica da Modernidade.4 Evidenciam, dessa forma, os limites das concepções da Modernidade, inclusive das concepções de sujeito. Entre­ tanto, algumas dessas produções começam por negar o caráter histórico dos fenômenos sociais e humanos e, dessa forma, revestem-se de uma pseudoisenção que, na verdade, oculta o seu caráter ideológico. 3. Uma análise da presença e da influência dessas concepções de sujeito na Psicologia pode ser encontrada em Gonçalves, 2001a. 4. Uma análise, nessa direção, de vários pensadores da pós-modemidade pode ser encontra­ da em PEIXOTO, Madalena G. A questão política na pós-modemidade: a questão da democracia. São Paulo: Cortez, 1998.
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    134 BOCK •CONÇAIVES Negar o sujeito estaria representando a necessidade de abandonar as promessas da Modernidade que não se concretizaram, portanto esta­ ria decretando a inviabilidade de realização plena do sujeito como con­ cebido pelo liberalismo. Mas estaria também representando a negação da historicidade e, consequentemente, o sujeito histórico. A Psicologia também é alcançada por esse debate e, na tentativa de apresentar críticas aos limites do sujeito da Modernidade, resvala na ne­ gação do sujeito, ela, a ciência da subjetividade. Ainfluência do debate pós-modemo apartir daí será sentida na negação de qualquerpossibilidadede uma concepção totalizante desujeitoequecoloca­ ráemxeque aexistência de uma essencialidadedo sujeito. Para aPsicologia, essa discussão assume um caráter peculiar. Questionado o sujeito, aponta­ da sua pluralidade, sua fluidez ou até mesmo sua inexistência, como fica a subjetividade enquanto objeto dessa ciência? (Gonçalves, 2001b, p. 71) Considerando que essas produções se dão no âmbito do mesmo capi­ talismo que engendrou as concepções anteriores, é evidente o significado ideológico que carregam. Negar o sujeito representa a tentativa de man­ ter o indivíduo adaptado, massificado, treinado, o que ainda é necessário para a organização social; e, ao mesmo tempo, "limpar" as concepções de qualquer indício de contradição presente na afirmação da plenitude de possibilidades do sujeito liberal. Significa também negar qualquer outra possibilidade para o homem como sujeito, reafirmando como única pos­ sibilidade sua condição de indivíduo.5 Nesse contexto, para o enfrentamento de formulações que encobrem seu caráter ideológico, é necessário apontar o que novas formulações so­ bre o homem revelam de sua atual experiência histórica. Isso permite evidenciar que também na contemporaneidade há uma valorização do indivíduo, supostamente para atender a uma "nova" realidade social. A identificação das experiências que lhe são possíveis e de como elas são representadas, evidencia que o "neo" liberalismo transforma em farsa o que foi tragédia. 5. Também uma análise da implicação das concepções de sujeito "pós-modemas" para a Psico­ logia pode ser encontrada em Gonçalves, 2001b.
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 135 Em princípio as experiências contemporâneas já não poderiam ser justificadas por uma racionalidade que seria inerente aos processos so­ ciais e humanos. O trabalho parece perder seu lugar fundante, em razão do grande desenvolvimento tecnológico. Associado a isso, consideran­ do-se que o desenvolvimento da tecnologia implica mudanças constantes, aparecem vivências de renovação permanente, de flexibilidade. Os luga­ res sociais apresentam-se, em decorrência, como instáveis, alternativos. Abre-se espaço, com o questionamento da racionalidade e a desestabili- zação do trabalho, para a valorização de cutras dimensões do indivíduo: a afetividade é reconhecida, valorizada e toma-se a principal referência em muitos espaços sociais, inclusive públicos. A implicação mais direta dessa nova situação é uma crescente ênfa­ se no individualismo, que apresenta novas características, mas mantém a supremacia do indivíduo. No início do capitalismo era a identidade so­ cial do trabalho autônomo e do mercado que atendia e justificativa ideo­ logicamente o capitalismo ascendente, que configurava esse indivíduo. Atualmente, é a singularidade, a imediaticidade e a transitoriedade de suas experiências e vivências em um mercado volátil, fluido. Todos esses aspectos apontam, então, para uma exacerbação da indi­ vidualidade, calcada no questionamento da racionalidade e na valoriza­ ção da emoção, com sentimentos completamente particulares, singulares. Por isso não se articulam a projetos coletivos e, contraditoriamente, tais vivências abrem espaço para o crescimento da indiferença, da anestesia diante de questões que não toquem os indivíduos diretamente. Estão jun­ tos e revelam o mesmo processo, a busca desenfreada do prazer imediato, visível na rapidez e voracidade do consumo; o culto ao corpo e à aparên­ cia, reforçados pelo consumismo; a rejeição ao compromisso com questões sociais e políticas. Ou seja, o individualismo não se enfraquece. Precisamente umdos aspectos mais perversos do "capitalismo pós-moder- no" é aprodução de sentidos supérfluos na população, sentidos associados à aparência, aoconsumo, aoócio organizado etc. Eles produzem atividades que as pessoas realizam "voluntariamente", mas que na verdade estão go­ vernadas pela produção supraindividual de recursos simbólicos que con ­ trolame automatizam a produção de sentidos de pessoas e espaços sociais diversos. (...) (González Rey, 2004, p. 56)
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    136 BOCK •GONÇALVES Revelando a contradição histórica ainda presente, o que se observa, entretanto, é que a sociedade está cada vez mais submetida à racionali­ dade técnica, presente no alto grau de desenvolvimento tecnológico que sustenta as atividades humanas hoje em dia. Também que o prazer ime­ diato é fugaz e não realiza os indivíduos. Que a massificação persiste, embora camuflada pela multiplicidade aparente de opções de escolha, seja de objetos, estilos de vida, relações. Embora a possibilidade de vivenciar a diversidade deva ser saudada como conquista da contemporaneidade, é necessário identificar as con­ tradições que esse fenômeno carrega. Respeitar a diversidade não deve se configurar como subterfúgio para negar a discussão ontológica, para negar a possibilidade de uma experiência totalizante, como projeto his­ tórico: a emancipação deve se dar para todos os indivíduos, em que pese sua diversidade. Tal projeto não pode ter como fundamento concepções relativistas. O que percebemos, travestida de novidade, é a mesma antiga forma de compreender as determinações sociais e históricas calcada no proces­ so de alienação e na produção de ideologia, na medida em que as novas concepções aparecem desvinculadas do processo que as constituiu. Estão presentes nas concepções "pós-modemas" ideias sobre o sujeito e a subjetividade que resultam de críticas a concepções desenvolvidas pela modernidade. Embora de início pudessem ser saudadas como a real supe­ ração dos limites presentes nas concepções modernas sobre sujeito e subje­ tividade, tais ideias, na verdade significam o risco de negação ou descarac- terização total do sujeito, sua "volitização", fenômeno aliás, muito próprio de tempos pós-modemos. Achamada pós-modemidade declara a falência de todas as versões da mo­ dernidade, notadamente a liberal e a marxista. Ao fazer isso, os pensado­ res que proclamam "novas ideias" para "novos tempos" desconsideram que as diferentes concepções revelam contradições históricas ainda não superadas. Esse tratamento homogêneo a todas as ideias modernas traz o risco de se perder a possibilidade de afirmar concepções que evidenciam as contradições concretas e apontam para sua superação. (...) (Gonçalves, 2001b, p. 53 e 54)
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE IJ7 A mudança que se observa nos fala de um novo sujeito ou de um "neo" sujeito, no sentido de ter alterada sua forma, mas não seu conteú­ do, sua aparência, mas não sua essência? Eis aqui mais um complemento de resposta para a pergunta que fi­ zemos acima. Por que permanece a ideia do homem como sujeito indivi­ dual, desvinculado, a princípio ou ao final, da sociedade, dos processos sociais? Porque também as explicações contemporâneas naturalizam essa vivência, agora pela ideia da inexorabilidade do desenvolvimento tecno­ lógico, pela valorização do presente, pela fluidez das experiências, tidas como naturais. A complexidade crescente dos elementos não se impõe sobre a simplificação presente na negação de explicações históricas e na assunção da inexorabilidade como elemento explicativo. A Psicologia Social, com suas explicações sociológicas ou psicológicas para a relação indivíduo-sociedade, cumpriu também o papel de natura­ lizar as explicações dos fenômenos presentes na relação indivíduo-socie­ dade. Tanto em uma como em outra vertente, contribuiu para preservar o indivíduo, o indivíduo da Modernidade, na medida em que não deu conta de apontar a constituição imbricada entre cada um e o outro, en­ tre cada um e o coletivo, entre o coletivo social e histórico e cada um, na sua singularidade. E, atenta às discussões da chamada pós-modemidade, tem-se colocado mais na direção de explicar os processos dessa vivência individual da relação com a tecnologia e o signo, do que em explicar os processos históricos de constituição das subjetividades e das relações so­ ciais contemporâneas. (...) Ateoria histórico-cultural, inspirada em um marxismo criativo e revo­ lucionário, procurava representar a unidade dos sistemas complexos da sociedade por meio das aparências desconexas de suas formas de expres­ são. Procurava-se a essência como princípio organizador, e não como prin­ cípio metafísico inalterável que atuava como causa universal; no entanto, isso aconteceu em um momento em que o pós-estruturalismo, apoiado na própria crítica ao estruturalismo e ao marxismo, ia contra os megassiste- mas e as megateorias, enfatizando o valor das construções locais parciais. Nesse contexto, na psicologia, a semiótica e o discurso hegemonizavam a novidade, e o oonstrucionismo social aparecia como a última moda, negan­
  • 169.
    138 BOCK •GONÇALVES do, nas suas variantes mais radicais, toda definição ontológica. (González Rey, 2005, p. 29 e 30) Por isso, a proposição de uma Psicologia Social que aponte para a constituição dialética e complexa de indivíduos inseridos em sociedades por eles constituídas é fundamental para a compreensão das possibilidades de um sujeito que é histórico. Reafirma-se, dessa maneira, a importância de resgatar a discussão ontológica e posicionar-se em relação a ela. Nesse sentido, é importante considerar que tais possibilidades de rea­ lização do sujeito não estão prontas, não estão dadas, não estão latentes, esperando para se desenvolver. São possibilidades ativas, atravessadas por contradições presentes na sociedade, as quais devem ser identificadas para que se possa escolher a direção que represente avanço. Pressupostos da concepção sócio-histórica A noção básica da Psicologia Sócio-Histórica é a historicidade, o que significa ter como ponto de partida a concepção de que todos os fenôme­ nos humanos são produzidos no processo histórico de constituição da vida social. Essa vida social se constitui na materialidade das relações entre os homens e entre os homens e a natureza, para a produção da sua existência. Tais pressupostos vêm do materialismo histórico e dialético, método que afirma objetividade e subjetividade como unidade de contrários, em movimento de transformação constante. Sujeito e objeto transformam-se, em um processo histórico em que o sujeito atua sobre o objeto e é trans­ formado nesse processo. Tal método orienta que se busque a gênese dos fenômenos na reali­ dade material contraditória, incluindo o conteúdo histórico definido por essa realidade. O conteúdo histórico, considerando-se as relações mate­ riais entre os homens e entre os homens e a natureza para a produção da sua existência, é dado pela divisão da sociedade em classes, que acarte-
  • 170.
    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 139 ta lugares e experiências distintas para os diferentes grupos sociais. Essa clivagem social produz alienação e, no mesmo processo de produção de alienação, produz-se ideologia. Já nos referimos adma a essa articulação entre as experiências concretas de inserção social, possibilitadas pelo ca­ pitalismo e que, seja na produção, seja no consumo, apartam os indiví­ duos dos resultados materiais, ao mesmo tempo em que justificam ideo­ logicamente os processos sociais. Assim, os fenômenos sociais têm caráter ideológico. Apontar o caráter histórico dos fenômenos sociais e humanos possi­ bilita uma análise que permite a sua desnaturalização. Em termos meto­ dológicos, isso leva a se trabalhar com categorias que indicam processos, com conteúdos históricos, ideológicos, contraditórios, mediados. Ou seja, trabalhar com a historicidade significa adotar um método que prevê não apenasforma, mas também conteúdo. A forma aponta o caráter processual dos fenômenos. O conteúdo aponta sua produção histórica, considerando-se a qualidade da sociedade de que se trata. Uma socieda­ de que encerra a contradição de classes produz fenômenos qualitativa­ mente diferentes a depender de sua relação com os processos sociais que apartam e produzem alienação e ideologia. Isso implica tomar sujeito e subjetividade como constituídos na dialética subjetividade-objetividade e procurar identificar os aspectos desse processo, aspectos que revelam a historicidade. Por isso, a forma processual, juntamente com o conteúdo histórico resultante das relações de classe, devem ser considerados. As categorias da dialética, particularmente a categoria de mediação,6são re­ cursos para apreender o processo. Na mesma linha metodológica, a proposta é identificar no objeto, em vez de conceitos, categorias. Tendo-se como referência a própria noção de categoria, aborda-se o objeto delimitando campos de investigação nos quais se busca compreender o movimento, o processo de constituição dos fenômenos. Nesta perspectiva metodológica, ao se buscar a definição de algo não se responde "o que é", mas sim "como se constituiu". Isso signi­ fica privilegiar o processo, o movimento do objeto, sua historicidade. 6. Ver nos capítulos 1 e 2 desta obra a discussão de categorias e das categorias da dialética.
  • 171.
    140 BOCK •CONÇAIVES Ao se fazer esse esforço, considera-se fundamental a ideia de que os fenômenos da realidade são multideterminados, isto é, caracterizados por relações que se estabelecem para criar a aparência que conhecemos. Essas relações, no entanto, são invisíveis aos nossos olhos, pois são constituti­ vas dos fenômenos em seu movimento e processo. É aqui que se supe­ ra o uso de conceitos (que fotografam ou descrevem os fenômenos) para adotar a ideia de categorias que expressam processos e permitem pensar relações que são constitutivas dos fenômenos. As categorias inauguram a possibilidade de se falar de elementos que caracterizam os fenômenos, mas que só podem ser captados, como relação, pelo pensamento. As ca­ tegorias são categorias de pensamento que permitem que se ultrapasse a aparência (enganosa) dos objetos e se compreenda sua gênese e seu mo­ vimento. Não se buscam causas, mas os elementos e aspectos que consti­ tuem os objetos como se apresentam a nós, em seu movimento de trans­ formação constante. São categorias para pensar e compreender o psiquismo: atividade, consciência, identidade e afetividade, que devem, então, ser considera­ das como denominadoras de um processo com gênese social, participa­ ção do sujeito e fundado na contradição (dadas as categorias da dialéti­ ca que são tomadas como referência metodológica). Essas categorias do psiquismo se constituem como a chave para a compreensão da subjeti­ vidade. Permitem considerar a subjetividade em seu processo histórico contraditório, na dialética subjetividade-objetividade; além disto, são ca­ tegorias que permitem pensar a realidade psíquica em seu movimento de transformação e nas relações que se estabelecem para a produção do que chamamos subjetividade. O movimento a que se referem, que é o movimento do psiquismo, é um movimento contraditório. Isso coloca a necessidade, apontada aci­ ma, de se considerar o conteúdo histórico ao falar da subjetividade. E, numa sociedade contraditória, esse conteúdo envolve posições diante da realidade; posições que se referem a interesses concretos. Nesse sentido, ao se identificar na base desse movimento a gênese de um processo que implica alienação, deve-se, a seguir, identificar como isso implica expe­ riências subjetivas diversas e como são atravessadas pelos processos que produzem alienação.
  • 172.
    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 141 Por isso, ao se identificar a cisão entre atividade e consciência, se está falando de alienação. Ao se falar de mesmice da identidade, fala-se de alienação. Ao se falar de uma afetividade cristalizada, com emoções reprimidas ou contraditórias, fala-se de alienação. Não de forma direta e linear, mas num processo que deve ser considerado com os recursos metodológicos da dialética, que permitem captar a complexidade. Ao se trabalhar com a noção de mediação e com a noção de categorias, é pos­ sível respeitar a complexidade que se apresenta na realidade, nos fenô­ menos investigados. Essas concepções permitem fazer a contraposição às dicotomias: subjetividade-objetividade, sujeito-objeto, indivíduo-sociedade que mar­ cam o desenvolvimento da Psicologia e da Psicologia Social. Visões dico­ tômicas levam à naturalização dos fenômenos, na medida em que supõem que sujeito e objeto são independentes; que o objeto tem suas próprias leis, estabelecendo uma relação de exterioridade entre sujèito e objeto. A separação sujeito-objeto rompe a ideia de relação, de movimento e de contradição, para pensar cada um como dotado de movimento próprio ou de capacidade própria para se modificar ou se desenvolver. A ideia do Barão de Munchhausen, trabalhada por Bock (1999), traz exatamente este aspecto para o debate da Psicologia: a ideia de que o homem é dota­ do de forças próprias que lhe permitem "puxar-se pelos próprios cabe­ los" e com isso "erguer-se do pântano". Sujeito e objeto ficam então pen­ sados como independentes e seu desenvolvimento fica absolutizado, ou seja, naturalizado. O trabalho com a historicidade permite tomar sujeito e subjetividade como constituídos historicamente, a partir da ação do sujeito sobre o obje­ to. É a partir desses pressupostos que a Psicologia Sócio-Histórica define, como objeto, a dialética subjetividade-objetividade e trabalha com as ca­ tegorias do psiquismo como chave para a compreensão desse processo. Subjetividade e objetividade se constituem em um mesmo proces­ so, referindo-se a âmbitos diferentes da realidade: um âmbito subjetivo/ do sujeito e um âmbito objetivo/das coisas. O âmbito do sujeito inclui processos e características específicas que só podem ser compreendidas na relação com a objetividade. E o âmbito objetivo incorpora a subjetivi-
  • 173.
    142 BOCK •GONÇALVES dade, na medida em que o que resulta como objetivo é o objeto transfor­ mado pelo sujeito. Dessa forma, tais concepções teóricas e metodológicas impõem a noção de subjetividade como um processo que congrega as experiências dos sujeitos individuais e sociais, sendo, ao mesmo tempo, consequência e condição dessas experiências. A referência na historicidade introduz a esse processo a identificação de uma sua qualidade, que leva à compreensão de que a subjetividade não está dada, nem para cada indivíduo, nem como processos ou estrutu­ ras universais da humanidade, mas configura-se como algo que se cons­ titui nas relações sociais e históricas; é processo que decorre de situações concretas que incluem, necessariamente, a atividade, objetiva e subjeti­ va, do indivíduo. O sujeito é ativo, atividade decorrente de sua ação, de seu pensamento, de sua capacidade de registrar cognitiva e afetivamente todas as suas experiências; da sua capacidade de vivendar. Suas ações e experiências individuais subjetivas só são possíveis a partir das relações sociais e do espaço da intersubjetividade, pois falamos de um sujeito que é social e histórico. A subjetividade, portanto, não é natural. Dimensão subjetiva da realidade A partir da dialética subjetividade-objetividade pode-se falar em dimensão subjetiva da realidade, na medida em que se entende que a subjetividade é individual, mas constituída socialmente, a partir de um processo objetivo, com conteúdo histórico. Por outro lado, a realidade so­ cial é construída historicamente, em um processo que se dá entre o plano subjetivo e o objetivo. A base material agrega subjetividade, a partir da ação do sujeito sobre ela, aí está sua historicidade. Por isso, não é possível falar-se da realidade sem considerar o sujeito que a constitui e ao mesmo tempo é constituído por ela. Acrescentoapenas queesta relação processual temuma base material, como diz Searle, mas esta base também tem caráter histórico na medida que sua
  • 174.
    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 143 transformação (através do trabalho) agregará nela própria um quanto de subjetividade. A partir desse momento, não importa mais o objeto como "coisa-em-si", mas sim como "coisa-para-si". Tanto o fato objetivo, como o fato subjetivo farão parte de um mesmo processo histórico e serão inse­ paráveis. Não importa o tipo de leitura que se faça desse processo — via objetividade ou subjetividade — estaremos sempre trabalhando com essa dinâmica. (Furtado, 2002, p. 96) A relação entre o sujeito individual e os fenômenos sociais é de cons­ tituição mútua, os elementos da relação não são exteriores um ao outro, e a determinação de um sobre o outro não é direta, imediata. A dimensão subjetiva da realidade estabelece a síntese entre as con­ dições materiais e a interpretação subjetiva dada a elas. Ou seja, repre­ senta a expressão de experiências subjetivas em um determinado campo material, em um processo em que tanto o polo subjetivo como o objetivo transformam-se. Assim, a realidade é a expressão do campo de valores que a interpretam (suas bases subjetivas) e ao mesmo tempo o desenvolvimento concreto das forças produtivas (suas bases objetivas). Há uma dinâmica histórica que co­ loca os planos subjetivo eobjetivo em constante interação, sem que necessa­ riamente se possa indicar claramente a fonte de determinação da realidade. Isso nos leva a afirmar que a realidade é um fenômeno multideterminado, o que inclui uma dinâmica objetiva (sua base econômica concreta) e tam­ bém uma subjetiva (o campo de valores). O indivíduo é o sujeito singular dessa dinâmica e, assimcomo recebe prontos abase material (dada pela sua inserção de classe) e os valores (o plano da socialização), também é agente ativo da transformação social, independente de ter ou não consciência do fato. (Furtado, 2001, p. 91) Entende-se dimensão subjetiva da realidade como construções da sub­ jetividade que também são constitutivas dos fenômenos. São construções individuais e coletivas, que se imbricam, em um processo de constituição mútua e que resultam em determinados produtos que podem ser reco­ nhecidos como subjetivos.
  • 175.
    144 BOCK •GONÇALVES Os produtos subjetivos têm o mesmo caráter social, processual e dialético de constituição da subjetividade. É preciso reconhecer a exis­ tência de produtos subjetivos "sociais" e abordá-los da mesma forma. A subjetividade não se esgota em seus elementos individuais: o indivíduo age sobre o mundo, relaciona-se, realiza, objetivamente, o que elaborou subjetivamente. A relação entre a dimensão subjetiva e o contexto histórico deve ser considerada a partir do eixo básico de análise que é a historicidade, en­ tendida como processo contraditório: envolve indivíduos que pertencem a classes sociais. A implicação é considerar o processo de alienação pro­ duzido socialmente que se apresenta, atravessado por mediações, na di­ mensão subjetiva da realidade. Dimensão subjetiva de fenômenos sociais A noção de dimensão subjetiva dos fenômenos sociais não se dife­ rencia da dimensão subjetiva da realidade, mas se inscreve na discussão da Psicologia Social, tendo por base os mesmos pressupostos da dialéti­ ca subjetividade-objetividade, para permitir a delimitação do objeto da Psicologia Social para a perspectiva sócio-histórica. Na análise da relação indivíduo-sociedade, os mesmos pressupos­ tos são considerados. É necessário superar a dicotomia e compreender os fenômenos sociais a partir da constituição histórica e social dos indi­ víduos e de sua subjetividade. Compreender o indivíduo é compreender, ao mesmo tempo, a relação indivíduo-sociedade (superar a dicotomia). Não há uma sociedade externa e independente dos indivíduos; não há indivíduos a priori ou independentes da sociedade. Essa compreensão está posta na delimitação do objeto da Psicologia Social como sendo a dimensão subjetiva dosfenômenos sociais. Isso implica buscar nos fenômenos sociais a presença de um huma­ no que é sujeito, com uma subjetividade processual, complexa e históri­ ca, afirmando a unidade dialética entre indivíduo e sociedade. E consi­
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 14$ derar que aquilo que identificamos como fenômeno social foi produzido na relação dinâmica entre suas múltiplas determinações, em última ins­ tância suas bases objetivas e suas bases subjetivas, como dito acima. As­ sim, identificar o processo de constituição de um fenômeno social come­ ça por identificar sua produção social a partir da materialidade de suas manifestações — identificando de quais lugares concretos surge, qual sua posição na organização social da produção, na relação com diferen­ tes grupos sociais definidos por essa organização material. E continua pela identificação dos vários níveis em que aparece e por meio dos quais vai tomando corpo — instituições, valores, mais ou menos estruturados e identificados. A análise deve ser das mediações que constituem o fenô­ meno social em questão. Tal análise permite desvendar um processo do qual resultam pro­ dutos, objetivos e subjetivos. A dimensão subjetiva pode ser reconhecida em produções diversas, e os recortes podem ser variados: representações sociais, identidade social, ideologia, valores, rituais, hábitos, costumes, leis e regras. São produtos coletivos, nos quais se percebe a participação de sujeitos e a presença de subjetividades, ou seja, uma dimensão subjeti­ va da realidade. Dessa maneira, incorporam-se as noções básicas da Psicologia Só­ cio-Histórica à compreensão da relação indivíduo-sociedade, procurando superar os limites ontológicos e epistemológicos, os quais estabeleceram as dicotomias que resultaram em perspectivas psicológicas e sociológi­ cas nessa área. Ambas as perspectivas terminam por naturalizar os pro­ cessos sociais. A proposta aqui é incluir a historicidade na análise dessa relação. Em termos ontológicos, recupera-se o lugar do indivíduo como sujeito, mas sujeito histórico. Em termos epistemológicos, aponta-se a re­ lação dialética entre subjetividade e objetividade, estendendo tal maneira de conceber a relação, por ser uma concepção metodológica, para a com­ preensão da relação indivíduo-sociedade. Essa preocupação é a mesma que expõe González Rey (2003, 2004) quando apresenta a noção de subjetividade social. Diz ele da necessidade de superar a naturalização e de perceber a imbricação entre indivíduo e sociedade na produção da subjetividade.
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    146 BCK K• GONÇALVES (...) Na minha opinião, trata-se de compreender que a subjetividade não é algo que aparece somente no nível individual, mas que a própria cultura dentro da qual se constitui o sujeito individual, e da qual é também cons­ tituinte, representa um sistema subjetivo, gerador de subjetividade. Temos de substituir a visão mecanicista, de ver a cultura, sujeito e subjetividade como fenômenos diferentes que se relacionam, para passar a vê-los como fenômenos que, sem serem idênticos, se integram como momentos qualita­ tivos da ecologia humana em uma relação de recursividade. (...) Oconceito de subjetividade social nos permite compreender a dimensão subjetiva dos diferentes processos e instituições sociais, assim como o da rede complexa do social nos diferentes contextos em que ela se organiza através da histó­ ria. (...) (González Rey, 2003, p. 78) Partindo dessa visão de articulação dialética entre indivíduo e socie­ dade, o autor aponta a necessidade de delimitar a subjetividade social, como forma de avançar na compreensão da realidade social. Sua produ­ ção teórica sobre a subjetividade tem como objetivo central identificar os processos que, a seu ver, explicariam, definitivamente, as transformações presentes no processo histórico. Ele identifica nas visões que desconside­ ram essa imbricação entre subjetividade individual e subjetividade so­ cial, na verdade, a negação das potencialidades dos sujeitos, o que come­ ça pela naturalização e termina por impor "verdades" que representam, de forma camuflada, os interesses de quem está no poder. Sua proposta é evidenciar, por meio da identificação das produções subjetivas, as po­ tencialidades postas na realidade pela presença de sujeitos. A subjetividade afasta o dever ser de sua relação com o externo, com o que está fora, que foi o princípio universal usado para legitimar a moral, o direito, a política e todas as formas institucionalizadas de consciência so­ cial. Essas formas, em cada momento histórico, se apoiaram em sistemas de sentido derivados da condição objetiva dos grupos de poder. Com isso, as normas desenvolvidas a partir dessas instituições acabaram por ser sis­ temas de poder e de exclusão que, paradoxalmente e, apesar de sua forte carga subjetiva, derivada de sua condição ideológica, se naturalizaram e se converteram em padrões objetivos, reguladores do comportamento social.
  • 178.
    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REALIDADE 147 E, finalmente, se transformaram em sistemas de controle social que negam as necessidades de setores importantíssimos da população. (...) No entan­ to, a produção de sentido de uma população continua por baixo das apa­ rências comportamentais que ela é obrigada a adotar devido a controles e pressões externas produzidas pelos mecanismos de poder. (González Rey, 2004, p. 54 e 55) A partir de formulações como essa, González Rey aponta vários pontos de articulação entre a subjetividade individual e a subjetividade social e os vários aspectos que podem e devem ser considerados para se garantir uma apreensão da subjetividade que respeite suas característi­ cas básicas. Na mesma direção, apresentamos a noção de dimensão subjetiva de fenômenos sociais como uma maneira de situar o objeto da Psicologia So­ cial que respeita a compreensão sócio-histórica (ou histórico-cultural para González Rey) de sujeito e subjetividade. Essa conceituação parte da compreensão de que a subjetividade é individual, mas constituída socialmente. Os elementos presentes na sub­ jetividade decorrem de capacidades individuais, relativas às possibili­ dades de registro das experiências vividas. Mas se constituem e se confi­ guram a partir de um processo objetivo, social, com conteúdo histórico. Por outro lado, a subjetividade não se esgota em seus elementos indivi­ duais, porque o indivíduo age sobre o mundo, relaciona-se com outros indivíduos, realiza, objetivamente, o que elaborou subjetivamente. Onde começa e onde termina, nesse caso, o que é subjetivo e o que é objetivo? E o que é individual e o que é social? Por isso falamos em dialética subje­ tividade-objetividade. De qualquer modo, dissemos que há uma especificidade no objeto da Psicologia Social, que procuramos apontar com a formulação de que essa área deve tratar da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais. Com isso, estamos nos referindo às construções da subjetividade que também são constitutivas desses fenômenos. Entendendo que o objeto da Psicologia Social é a dimensão subjeti­ va dos fenômenos sociais, podemos apontar alguns exemplos do que en-
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    14fl HCX K• GONÇALVES tendemos por fenômenos sociais. E aí já está posta a compreensão sócio- -histórica, ou seja, a identificação dos fenômenos sociais parte da noção de que há um processo material e contraditório que configura aspectos da realidade como fenômenos sociais. Uma maneira de configurar os fenômenos sociais na sua articulação com as características do capitalismo é reconhecer a existência da questão social, o que só se torna possível, ou de certa forma se impõe como uma necessidade, no capitalismo. Nas palavras de Castel (2000, p. 238): (...) uma aporia fundamental, uma dificuldade central, a partir da qual uma sociedade se interroga sobre sua coesão e tenta conjurar o risco de sua fra­ tura. É, em resumo, um desafio que questiona a capacidade de uma socie­ dade de existir como um todo, como um conjunto ligado por relações de interdependência. A identificação da questão social traria a possibilidade de "(...) saber quem estabelece a coesão e em que condições ela se dá numa determinada sociedade" (Wanderley, 2000, p. 56), análise desenvolvida, por exemplo, por Wanderley (2000), que aponta suas especificidades na América Lati­ na, e por Castel (2000), que apresenta as transformações da questão social ao longo do capitalismo. Compreendida de maneira indissociada da contra­ dição fundamental da sociedade capitalista, a contradição capital-trabalho, a chamada questão social, pode nos remeter à identificação de processos de sustentação, também contraditória, das relações sociais, no interior das quais se reconhece a dialética subjetividade-objetividade. Tendo isso por base, é possível dizer que o processo contraditório do capitalismo atual implica, na contemporaneidade, três características básicas para a questão social: 1) a desestabilização dos estáveis; 2) a ins­ talação da precariedade e o desenvolvimento da cultura do aleatório; 3) o surgimento dos sobrantes (Castel, 2000), com a produção de indivíduos desfiliados. A partir disso, a questão social configura-se como um conjunto de fenômenos sociais, com características que condicionam determinadas experiências para os sujeitos.
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA REAt IDADE Há uma concepção de indivíduo atrelada a essas situações, de deses- tabilização, precariedade, desfiliação. Resumidamente o indivíduo "des­ cartável": não está preso a nada, tudo que vive é temporário, não faz falta à sociedade. Essa identificação nos leva a apontar que há uma dimensão subjetiva na questão social. Como outro elemento da questão social contemporânea, pode-se identificar a contraposição: direitos x mercado. Quando se fortalece o se­ gundo em detrimento do primeiro, o que se tem é a realização de uma concepção de indivíduo que vale pelo que tem e não pelo que é. Há uma dimensão subjetiva nessa relação produzida socialmente: indivíduos não se reconhecem como sujeitos de direitos. Outro elemento refere-se às formas de inserção e participação social. Indivíduos que recebem benefícios, sem nenhuma possibilidade de de­ cidir sobre isso, são negados também como sujeitos (ver Paugam, 1999). Isso será vivenciado e produzirá efeitos de subjetivação que terão seus desdobramentos. Há aí uma dimensão subjetiva. Alguns outros exemplos de análise de fenômenos sociais podem aju­ dar a avançar na compreensão que aqui se defende. A desigualdade social (talvez nossa mais importante questão social), que tem caracterizado nossa sociedade, tem sido estudada em várias de suas dimensões: econômica, sociológica, jurídica, antropológica e outras. A dimensão subjetiva tem sido relegada, e a Psicologia Social tem contri­ buído pouco para que essa dimensão tenha visibilidade. A dimensão subjetiva da desigualdade social está posta na presença dos sujeitos, presença essa que caracteriza e constitui o fenômeno. Não se pode estudar a desigualdade social como se ela existisse apenas para além e fora dos sujeitos que se relacionam e constroem a desigualdade. Evidentemente, a desigualdade é produzida pela divisão da sociedade em classes, pela divisão desigual da riqueza produzida, pela determina­ ção de lugares diferentes a serem ocupados por diferentes grupos sociais na organização que define as formas de produção e distribuição de ri­ quezas. Nesse sentido, podem-se apontar aspectos da realidade, como a distribuição desigual da riqueza, como a base material da desigualdade.
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    150 BOCK • GONÇALVES Masessa distribuição acontece e se reproduz cotidianamente pela atua­ ção de sujeitos, os quais, além de desenvolver uma atividade delimitada pelas relações concretas e objetivas, também desenvolvem atividade sub­ jetiva. Produzem ideias e valores que representam a realidade vivida e que compõem essa mesma realidade, porque são sujeitos que produzem subjetividade, na dialética já apontada. Os processos sociais que implicam produção de alienação e ideolo­ gia estão presentes aqui e também se tornam mediações constitutivas da dimensão subjetiva desse fenômeno. Ou seja, a produção subjetiva está articulada às condições objetivas em que se dá e nas quais opera e resul­ ta em produtos, tais como a ideologia, reveladores desse processo. Tais processos e condições objetivas estão constituídos com base nas contra­ dições, por isso a dimensão subjetiva do fenômeno social será também contraditória. Compreender a relação indivíduo-sociedade no mundo desigual tor­ na indispensável que se compreendam os indivíduos que se fazem pre­ sentes e ativos na produção da desigualdade e que se compreendam os produtos coletivos que esses “sócios" criam e que vão caracterizando a realidade social que adjetivamos como desigual. A vivência, quase nun­ ca explícita, mas tomada como natural, da subalternidade é exemplo dis­ so. Indivíduos que estão em lugares desiguais se põem como "acima" ou "abaixo" uns dos outros sem que isso esteja posto em questão. A Psicologia Social deve, assim, ao estudar o fenômeno da desigual­ dade social, por exemplo, buscar a presença do sujeito, afirmando a uni­ dade dialética entre indivíduo e sociedade. Conceitos como humilhação social (Gonçalves Filho, 2007,2004,1998) ou sofrimento ético-político (Sawaia, 1998) são importantes sistematiza­ ções que caracterizam a dimensão subjetiva das situações de dominação e desigualdade sociaL Há sujeitos que sentem e com suas formas de sen­ tir constituem a realidade social da desigualdade. Há sentidos subjetivos constituídos; há significados partilhados e todos eles são também aspec­ tos do fenômeno. Não se quer aqui pensar esses aspectos como mera con­ sequência de situações sociais de desigualdade, pois eles não o são. São, ao contrário, aspectos que compõem o fenômeno da desigualdade, que
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 151 só se apresenta como tal porque sujeitos participam de sua constituição, com seus sentimentos, ações, formas de pensar e de sentir. Sabe-se hoje que os sujeitos, que ocupam diferentes lugares nas re­ lações sociais desiguais, têm participações distintas na esfera social. Há sujeitos doadores e há sujeitos receptores; há os que têm propriedades e os que não as tem; há os que se pensam desiguais porque tomam o outro como o padrão ou modelo. Formas diferentes de sentir e de pensar cons­ tituindo relações de submissão. São formas reveladoras, ao mesmo tem­ po, de possibilidades contraditórias, considerando a tensão permanente entre a alienação produzida nos esquemas sociais que isolam e apartam os indivíduos, naturalizando fenômenos históricos, por um lado, e, por outro, a presença de indivíduos vivos que geram sentidos subjetivos. É a dimensão subjetiva do fenômeno social que precisa ter visibilidade para que se compreenda de forma mais complexa e completa o fenômeno so­ cial que se estuda, em seu processo contraditório de constituição. A Psicologia Social deve ultrapassar sua tradição de nomear objetos ou reproduzir, no seu campo, leituras construídas em outras áreas do sa­ ber que, apesar de importantes, descaracterizam a especificidade da Psi­ cologia, para contribuir com explicações que dão visibilidade à presença do sujeito na construção dos fenômenos coletivos. A configuração da violência como fenômeno social deve também con­ siderar os mesmos pressupostos. É preciso reconhecer a produção do fenô­ meno a partir da materialidade e da historicidade das relações sociais. A dimensão subjetiva nesse fenômeno social também deve ser vista da perspectiva da dialética subjetividade-objetividade e indivíduo-socieda­ de. As visões naturalizantes culpabilizam os indivíduos pelos problemas sociais ou apontam certo esquema social abstrato como responsável por "desvios" dos indivíduos.7A visão sócio-histórica aponta a complexida­ de do fenômeno, que inclui uma dimensão subjetiva na qual se imbricam aspectos subjetivos individuais que constituem os fenômenos sociais; as­ pectos objetivos dos quais se apropriam os indivíduos e que constituem 7. Tais análises são bom exemplo da dicotomia indivíduo-sociedade presente na Psicologia So­ cial, à qual já nos referimos anteriormente.
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    152 BOCK •GONÇALVES sua subjetividade; e aspectos subjetivos que já estão incorporados à ob­ jetividade e dela fazem parte. Por exemplo, a dimensão cultural da violência, ou seja, a violência como valor que perpetua as relações da sociabilidade cotidiana de cer­ tos grupos e de certas comunidades, é um produto subjetivo social; é a dimensão subjetiva presente no fenômeno social da violência. Seria um desafio para a Psicologia encontrar mecanismos de reversão de um con­ texto social em que há socialização para a violência.8 Os estudos de Coimbra (2001) a respeito da produção ideológica realizada pela mídia sobre as "classes perigosas" mostram-nos, com cla­ reza, que as noções de violência são produzidas socialmente. O domínio da elite sobre a mídia facilita a expansão de seus conceitos para toda a sociedade e esse processo vai produzindo "certezas" e critérios de julga­ mento sobre quem é violento ou o que é violência em nossa sociedade, atingindo, como mostra Coimbra, em especial, a camada pobre da socie­ dade que passa a ser vista como "classe perigosa". Pensar (...) como certas subjetividades tão presentes no cotidiano das gran­ des cidades brasileiras — aplausos e apoios aos extermínios e chacinas, aos linchamentos, à pena de morte e às mais diferentes violações de direi­ tos humanos — são construções competentes e eficazes advindas de dife­ rentes equipamentos sociais, é um dos objetivos deste trabalho. (Coimbra, 2001, p. 18) Outro aspecto importante do tema da violência é que, quando não nos detemos na compreensão da dimensão subjetiva dos fenômenos, deixamos de diferenciar situações e sujeitos que, em diferentes cenários, produzem ações com intenções diversas, mas que nossa superficialidade e ideologia reúnem sob o mesmo título. Assim, pessoas que lutam pela sobrevivência combatendo adversidades se misturam, nos conceitos de violência, com 8. Ver no relatório do I Seminário de Psicologia e Políticas Públicas, do Conselho Federal de Psi­ cologia (2001), a fala de Luís Flávio Sapori, com uma análise sobre segurança pública a partir desse viés das relações de sociabilidade.
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    A DIMENSÃO SUBIETIVADA KfALIDADE 153 representantes do Estado que abusam da autoridade e da força em nome de uma "ordem" suoosta e imposta a todos. A violência vista sem consi­ deração aos determinantes sociais, econômicos, antropológicos e psicoló­ gicos é pura ideologia. À Psicologia Social cabe contribuir para a análise completa e complexa do fenômeno, dando visibilidade a aspectos que são de natureza subjetiva, no âmbito individual e/ou coletivo. O desafio nestas construções teóricas é exatamente escapar do vício da dicotomia. É preciso pensar sujeito e sociedade (fenômenos sociais) se constituindo em um mesmo processo, no qual existem estes dois âm­ bitos, que são fundamentais para a compreensão da totalidade do real. Outro desafio é conhecer o fenômeno em seu processo histórico de cons­ tituição. A realidade não está dada; ela está em movimento e deve ser conhecida na sua dialética. Os sujeitos e a sociedade são construídos em um único processo. Por que defender visões históricas? Se não há conhecimento neutro, há que se fazer escolhas. A defesa que se faz aqui de visões que não naturalizem os fenôme­ nos sociais tem um de seus argumentos mais fortes no projeto de uma Psicologia que se ponha efetivamente comprometida com as urgências de nossas sociedades de Terceiro Mundo. Nada está dado; nada é imutá­ vel; tudo pode e deve ser modificado pelos humanos que partilham um tempo histórico. A Psicologia pode e deve reforçar ideias que permitam aos sujeitos se pensarem como ativos, sociais e históricos, responsáveis pelo seu tempo e pelas condições de vida. As perspectivas históricas permitem acreditar que não há um único modo verdadeiro de se estar no mundo. Há muitas possibilidades, pois o humano está em permanente construção. Permitem-nos ainda nos pensarmos como responsáveis pelo mundo que temos; construímos ou reconstruímos o mundo todos os dias com nossas ações, nossas ideias, nossos afetos. A forma como pensamos e
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    154 BOCK • GONÇALVES agimosconstitui o mundo da forma como se encontra. Somos responsá­ veis pelo mundo que temos e podemos querer que seja diferente. É neste campo que se coloca a ideia de projeto. Para que se possa estar no mundo de modo responsável é preciso escolher que projeto de sociedade e de humano desejamos incentivar com nossas explicações e com nossos fazeres profissionais. Anoldo Rodrigues pensou a ciência como algo à parte da política, da ação cidadã de cada um. Aqui se pensa a ciência como sempre comprome­ tida com algum projeto que circula na sociedade. A Associação Brasileira de Psicologia Social nasce guiada por esta outra perspectiva. Infelizmente não produzimos até hoje conhecimento científico radicalizado na reflexãosobre nossa própria realidade social e, emdecorrência, continua­ mos a importar teorias psicológicas nem sempre aplicáveis. Adependência cultural temse refletido até mesmo nos temas mais frequentes da investiga­ ção da Psicologia Social, geralmente escolhidos sem qualquer preocupação com aspectos de relevância ou aplicabilidade ao contexto brasileiro. Assim (...) não temos utilizado esta ciência para responder às questões sociais es­ pecíficas do momento histórico que vivemos. (Anais do I Encontro Nacio­ nal de Psicologia Social, apud Lane, 1981, p. 84) E como se pensa o sujeito como ativo, social e histórico, se acredi­ ta na sua possibilidade de escolha, ou seja, de adesão a um dos projetos em circulação e disputa nos espaços sociais. A ciência não é ingênua e deve, pois, explicitar seus pressupostos e suas concepções de homem e de mundo para que se possa dialogar com seus saberes tanto do ponto de vista da lógica de suas ideias, quanto do projeto social que incentiva e ajuda a desenvolver. Finalizamos com Lane, que reconhecemos como importante referên­ cia neste caminho. Ao afirmar que toda a psicologia é social, defendendo que se assuma a natureza histórico-social do ser humano, conclui: "Porém, agora, a Psicologia Social poderá responder à questão de como o homem é sujeito da História e transformador de sua própria vida e da sua sociedade, assim como qualquer outra área da Psicologia". (Lane, 1984, p. 19)
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    A DIMENSÃO SUBJETIVADA REALIDADE 155 Referências bibliográficas BOCK, A. M. B. Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia. São Paulo: Cor- tez/EDUC, 1999. CASTELL, R. As transformações da questão social. In: WANDERLEY, M. B.; BÓGUS, L.; YAZBEK, C. (orgs.). Desigualdade e a questão social. São Paulo: EDUC, 2000, p. 235-264. , CHAUI, M. Convite à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Ática, 1995. COIMBRA, C. Operação Rio: o mito das classes perigosas. Rio de Janeiro/Niterói: Oficina do Autor/Intertexto, 2001. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Relatório do I Seminário Nacional de Psicologia e Políticas Públicas — políticas públicas como um desafio para os psicólogos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001, p. 87-109. Também disponível em: <www.pol.org.br>. FURTADO, O. O psiquismo e a subjetividade social. In: BOCK, A. M. B.; GON­ ÇALVES, M. G. M.; FURTADO, O. (orgs.). Psicologia Sócio-Histórica, uma perspecti­ va crítica em Psicologia. São Paulo: Cortez, 2001, p. 75-94. _____ . As dimensões subjetivas da realidade — uma discussão sobre a dicoto­ mia entre a subjetividade e a objetividade no campo social. In: FURTADO, O.; GONZÁLEZ REY, F. L. (orgs.). Por uma epistemología da subjetividade: um deba­ te entre a teoria sócio-histórica e a teoria das representações sociais. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002, p. 91-105. GONÇALVES FILHO, J. M. Humilhação social: um problema político em Psico­ logia. Psicologia USP, v. 9, n. 2, p. 11-67,1998. _____ .Ainvisibilidade pública (prefácio). In: COSTA, F. B. Homens invisíveis: re­ latos de uma humilhação social. São Paulo: Globo, 2004, p. 9-47. _____ . Humilhação social: humilhação política. In: SOUZA, B. P. (org.). Orien­ tação à queixa escolar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007, p. 187-221. GONÇALVES, M. G. M. A Psicologia como ciência do sujeito e da subjetivida­ de: a historicidade como noção básica. In? BOCK, A. M. B.; GONÇALVES, M. G. M.; FURTADO, O. (orgs.). Psicologia Sócio-Histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. São Paulo: Cortez, 2001a, p. 37-52.
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    Psicologia na comunidade* AlbertoAbib Andery Psicologia na Comunidade é uma expressão relativamente nova em nosso meio. Nela, a palavra comunidade vem sendo usada para designar a instrumentalização de conhecimentos e técnicas psicológicas que possam contribuir para uma melhoria na qualidade de vida das pessoas e grupos distribuídos nas inúmeras aglome­ rações humanas que compõem a grande cidade. £ um nome que procura captar um movimento da Psicologia atual de paulatino distanciamento do seu locus tradicional: a sala de experimentos ou de discussões puramente acadêmicas; a ante-sala da gerência executiva das empresas industriais; o consultório parti­ cular centrado em atendimento unicamente individual. £ um movimento de aproximação do cotidiano das pessoas principalmente nos bairros e instituições populares onde a grande parcela da população vive, organiza-se e cria seus canais de expressão. Essa busca de inserção da Psicologia na Comunidade parte da descoberta de que, nessas situações e lugares, a presença ativa dos conhecimentos psicológicos tem sido pouco freqüente, privando indivíduos e grupos muito numerosos dos benefícios que a ciência (*) Ao invés de concentrar, neste texto, a atenção no psicólogo, preferiu-se falar da Psicologia na Comunidade, entendendo ser esta uma próxis própria, mas não exclusiva, do psicólogo. A interdisciplinaridade e a participação de pessoas da própria comuni­ dade são defendidas, neste texto, como integrantes dessa préxis.
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    204 ALBERTO ABIBANDERY deve proporcionar. Persistem ai velhos tabus, sobre Psicologia, que podem assim ser denunciados. Mas é desse contato também que a Psicologia enquanto ciência procura renovar-se nos seus conteúdos, metodologia e técnica, tomando-se mais próxima de uma verdadeira Psicologia Social. Esse nome apareceu, por primeiro, na Inglaterra1 e nos Estados Unidos2e, após, espalhou-se por vários países, inclusive o Brasil, com aceitação bastante desigual. A Psicologia na Comunidade não foi criada para designar uma nova Escola de Psicologia nem uma nova teoria ou um novo “ismo” de moda. Representa uma guinada para uma nova forma de pensar e praticar a Psicologia, distinta da tradição dominante até o final dos anos 50 deste século. Na sociedade contemporânea, perturbada pelas mudanças tecnológicas, culturais e sociais, é preciso tentar inserir a Psicologia como uma forma de explicação, ajuda e mudança em prol da sobrevivência do próprio homem. A Psicologia dos anos 50 isolava-se demais dos problemas coletivos do homem contem­ porâneo, encerrando-se numa torre de cristal da discussão mera- mente acadêmica e do atendimento a poucas pessoas da elite econômica. Pouco se preocupava por definir uma atuação verda­ deiramente social e constituir-se assim numa das ciências sociais úteis para nossa época. Para esse isolamento contribuiu a própria identificação da área chamada Psicologia Social. Essa área de pesquisa e conhe­ cimento surgiu desde o início do século XX, mas sua maneira de considerar o que vem a ser o social em Psicologia perturbou durante meio século sua inserção na comunidade dos homens. As correntes mais antigas definiram Psicologia Social como estudo de comportamèntos instintivos: gregários, agressivos ou outras condutas e emoções ligadas a fatores genéticos e hereditários, e isoladas do contexto social mutável em que sempre reaparecem. Em contraposição a essa corrente instintivista, surgiram os experimentalistas, principalmente americanos, atomizando o estudo dos comportamentos sociais através do esquema S-R abstrato e (1) Ver Bender, Mike P., Psicologia da Comunidade, Col. "Curso Básico de Psicologia", Ed. Zahar, 1978. (2) Ver Korchin, Sheldon J., Modern Clinical Psychology. Principles of Intervention in the Clinic and Community. Nova Iorque, Basic Books Inc. 1976.
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    A PRAXIS DOPSICÓLOGO 205 vazio de conteúdo social. Os comportamentos sociais passam a ser descritos a nível apenas da aprendizagem de reações individuais a estímulos proximais, abstraindo esses estímulos dos contextos mais gerais: históricos, econômicos e culturais, em que, de verdade, estão inseridos e dos quais ganham significado e sentido. Essas tendências mais antigas da Psicologia Social, que hoje são consideradas quase a-sociais, duraram mais de meio século, com exceção talvez de um ou outro autor, como Kurt Lewin, prema­ turamente falecido em 1947. Só nos anos 70 é que essa Psicologia se considera em crise como construção específica de um saber próprio e busca, numa reaproximação às ciências histórico-sociais, sua nova maneira de trabalhar o social em Psicologia. É nesse contexto de crise34e redefinição* que a Psicologia na Comunidade tem sua hora e vez e pode constituir-se até numa porta aberta à reavaliação da Psicologia enquanto teoria e prática. Numa recente resenha dos quinze anos de aparecimento da Psicologia na Comunidade, o professor americano Sheldon J. Korchin5 assim caracterizou os temas principais que marcam o pensamento atual dos que trabalham na área da Psicologia na Comunidade: “1) Os fatores sócio-ambientais são muito importantes na determinação e modificação de comportamentos. 2) As intervenções sócio-comunitárias (intervenções orien­ tadas para o sistema em contraste com intervenções orientadas para as pessoas) podem ser eficientes tanto para tornar as instituições sociais (por exemplo, a família, a escola) mais saudáveis quanto para reduzir o sofrimento individual. 3) Essas intervenções deveriam visar mais a prevenção do que o tratamento ou a reabilitação de desordens emocionais. Não só a pessoa necessitada mas também a população-em-risco é a genuína preocupação da Psicologia da Comunidade. 4) Essas intervenções deveriam ter como objetivo a melhoria da competência social, mais do que a simples redução do sofrimento psicológico. Programas orientados para o comunitário deveriam acentuar mais o que é adaptativo do que o patológico na vida social. (3) Ver Rodrigues, Aroldo e Schneider, Eliezer, in Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, vol. 30, nf 4, 1978, 3-25. (4) Ver Lane, Silvia T. M.. in EducaçSo e Sociedade, n? 6, 1980. (5) Op. cit., pp. 474-475.
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    206 ALBERTO ABIBANDERY 5) A ajuda é mais eficaz quando obtida na proximidade dos - ambientes em que os problemas aparecem. Portanto, os clínicos da comunidade deveríam trabalhar em ambientes familiares próximos das pessoas necessitadas, antes que em locais social e geografi­ camente afastados delas. 6) As clinicas da comunidade deveriam ir ao encontro dos clientes, antes que ficar passivamente à espera de que eles o procurem profissionalmente. Sua atuação profissional deveria ser flexível, facilmente acessível no local e tempo onde a necessidade surge e oferecida numa atmosfera que reduza, ao invés de aumentar, a distância social entre o profissional c a pessoa ajudada. A ajuda deveria ser acessível àqueles que dela necessitam e não só aos que a procuram. 7) A fim de empregai recursos de fácil acesso e aumentar seu ímpeto potencial, o profissional deveria colaborar com os recursos humanos da comunidade (responsáveis locais) e empregar traba­ lhadores associados não-profissionais. O trabalho do profissional pode envolver mais consultoria do que atendimento direto. 8) Exigências do papel tradicional e normas costumeiras profissionais devem ser abrandadas. O exercício da profissão na comunidade exige uma programação imaginosa e novos modelos conceituais; as inovações devem ser estimuladas. 9) A comunidade deveria, se não controlar, ao menos parti­ cipar do desenvolvimento e execução dos programas formulados, levando em conta as necessidades e preocupações dos membros da comunidade. 10) Problemas de saúde mental deveriam ser encarados de maneira mais abrangente do que restrita, desde que eles se entre­ laçam com muitas outras facetas do bem-estar social tais como o emprego, habitação e educação. Para obter eficiência máxima, os programas de saúde mental da comunidade deveriam ocupar-se com uma faixa de problemas sociais a mais ampla possível. 11) A educação do público para compreender a natureza e as causas dos problemas psicossociais e os recursos disponíveis para se lidar com esses problemas é uma tarefa valiosa. 12) Desde que muitos problemas de saúde mental relacio­ nam-se com uma ampla faixa de carências sociais, tais como pobreza, racismo, densidade urbana e alienação, carências essas que estão fora do alcance das intervenções dos profissionais, o psicólogo da comunidade deveria ser orientado para a promoção e facilitação das reformas sociais.
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    A PRÁXIS DOPSICÓLOGO 207 13) Para desenvolver o conhecimento necessário para uma intervenção com o adequado conhecimento de causa, a Psicologia da Comunidade requer a contribuição das abordagens e pesquisas ao natural e ecológicas". Essas características da Psicologia na Comunidade mostram que essa pr&xis se afasta nas suas pesquisas e intervenções do assim dito neutralismo do cientista e profissional em Psioologia. Esse postulado de neutralismo já tinha sido derrotado pela constatação de que a ciência, enquanto construção histórica e social, não é neutra nas suas motivações nem na escolha de seu objeto de estudo. Não é neutra nas suas alianças com as forças econômicas e políticas atuantes na Sociedade. A Psicologia na Comunidade pretende aproximar-se das classes populares, ajudando-as na conscientização de sua identidade psicossocial de classes submissas e dominadas, como primeiro passo para uma superação dessa degradante situação de submissão. Surgindo numa época em que a interdisciplinaridade das ciências sociais e humanas é valorizada, em que o labor educativo é tido como primordial na atuação social, a Psicologia na Comu­ nidade procura difundir-se através do trabalho do psicólogo e de outros profissionais envolvidos com trabalho educativo e social. Valoriza o trabalho educativo conscientizador e reconhece, pioneiros e mestres, autores que não são profissionalmente Psicó­ logos. Nesse rol, inclui-se necessariamente Paulo Freire, um dos brasileiros que destacou na Psicologia a metodologia da alfabeti­ zação das massas. O método Paulo Freire6 não é só uma técnica pedagógica de alfabetização, mas constitui-se num modelo de trabalho de aproximação às classes populares. Mostra para o psicó­ logo o que se pode fazer em prol da conscientização e da redes- coberta do valor dos indivíduos submetidos a prooessos seculares de dominação e alienados de sua própria cultura. Articula as forças vivas de resistência, de reação, crescimento e libertação dos grupos sociais populares. A Psicologia na Comunidade deverá assim colocar os recursos da Psicologia em prol do processo de libertação. Cabe à Psicologia na Comunidade trabalhar nos indivíduos e grupos a visão de mundo, a autopercepção enquanto pessoas e grupos; reavaliar (6) Ver Brandão, Carlos R., O que é Método Paulo Freire, Ed. Brasiiiense, 1981.
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    208 ALBERTO ABIBANDERY hábitos, atitudes, valores e práticas individuais e coletivas, familia­ res e grupais, no sentido de uma consciência mais plena de classes e de destino. Para a Psicologia na Comunidade, o impulso de sair dos consultórios e das gerências das empresas e ir para os bairros populares, e sua opção maior por indivíduos e grupos das classes populares, ao invés da clientela tradicional da classe média alta, significam redirecionar as pesquisas, descobrir novas técnicas de atuação e até reescrever, a partir do observado e vivido, muitas das teorias psicológicas. Nesse sentido, a Psicologia na Comunidade pode vir a ser uma nova maneira de fazer Psicologia que, dialeticamente, nega seu passado para reconstruir-se, aproveitando elementos desse passado e do presente para constituir-se numa práxis e numa nova ciência psicológica, verdadeiramente, Psicologia Social. Visões divergentes Essa visão social e dialética da Psicologia na Comunidade não é unanimemente partilhada por todos os que atualmente a ela se dedicam. Há os que visualizam apenas uma atuação, na comunidade, benevolente e caritativa, nas horas vagas, em prol das classes desvalidas, que são consideradas e chamadas de “classes mais baixas". A Psicologia seria aplicada, nos bairros e instâncias popula­ res, com maior intensidade e freqüência do que, até hoje, os psicólogos o fazem, xnas, numa prática assumida, explicitamente, como remediativa e superficial. Não há nessa visão de Psicologia na Comunidade nenhum questionamento da Psicologia em si mesma, de suas alianças históricas, de seus constructos e teorias já prontos. Não se pensa em inovações técnicas nem se admitem novas visões teóricas. Muito menos reavaliam-se alianças já feitas com as classes dominantes. O exemplo acabado dessa visão é a tentativa de reprodução das clinicas psicológicas nos bairros populares, sem alterações dos procedimentos e rotinas consolidadas nas clinicas tradicionais de atendimento à burguesia. Simplificam-se os móveis, elaboram-se orçamentos de despesa e receita mais modestos mas nada se altera
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    A PRÁXIS DOPSICÓLOGO 209 do que se entende ser: a relação terapeuta-cliente, técnicas de atendimento já prontas, parâmetros de julgamento e de diagnóstico. Essa visão de Psicologia na Comunidade mereceria mais o título de Psicologia Populista e assistencialista e nada influirá nas mudanças sociais e na estrutura de relacionamento atual das classes sociais. Pode até retardar mais um pouco qualquer mudança dessa natureza. Outra visão de Psicologia na Comunidade, perniciosa aos meios populares, é aquela que pretenderia formar psicólogos inseridos nos bairros e instituições populares na qualidade de controladores morais dos hábitos e comportamentos desviantes. Pensou-se até em formar psicólogos na Comunidade para controle social dos toxicômanos, criminosos e demais desvios estigmatizados pelos códigos morais vigentes, incluindo-se aí homossexuais, desem­ pregados e menores abandonados. O psicólogo seria uma extensão, no bairro, do braço policial e, sem armas, usaria as armas das técnicas psicológicas de controle e repressão. Nem todas as propostas nesse sentido obedecem rigidamente ao exposto acima e há matizes de proposição. Parece que não há muito que discutir sobre uma proposta assim direcionada, reduzindo a função social do psicólogo e de outros profissionais da área de humanas a meros guardiães da ordem instituída, sem nenhum questionamento dos fatores sociais que levam aos assim chamados comportamentos desviantes. Uma terceira visão apontaria para um ativismo político- partidário, nos bairros populares, sob o nome de Psicologia na Comunidade. Ao invés de profissionais preocupados com o crescimento das práticas educativas e de conscientização e libertação, os ativistas partidários poderíam, sob o manto da Psicologia, impor seus partidos políticos e recrutar seus grupos ou tendências de apoio partidário. Uma proposta assim pode ser catalogada, sem mais, de rnaquiavelismo da pior espécie, não servindo, nem aos ideais da Psicologia na Comunidade, nem ao desenvolvimento de uma verda­ deira Política Popular de superação das raizes de dominação cultural, social e econômica a que as classes populares estão submetidas. Só, comojá foi dito, um trabalho educativo e conscien- tizador, a longo prazo, pode levar essa população, por própria iniciativa, a traçar para si os caminhos de libertação.
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    210 ALBERTO AB1BANDERY A importância da sinalização, aqui, dessa terceira visão de Psicologia na Comunidade reside no fato que, infelizmente, é assim que são vistos, às vezes, todos os profissionais, indiscriminada­ mente, que se empenham nessa práxis social que é a Psicologia na Comunidade. Embora a maioria absoluta desses profissionais, envolvidos seriamente com a implantação da Psicologia na Comunidade, condenem essa visão maquiavélica, muitas vezes acabam sendo acusados como agentes dessas mesmas práticas oportunistas por aqueles que ainda se mostram incapazes de entender qual é verdadeiramente a proposta da Psicologia na Comunidade. Experiências em psicologia na comunidade A Associação Brasileira de Psicologia Social — ABRAPSO organizou em 1981, em São Paulo, um Encontro Regional para debater as experiências em curso, em nosso meio, sobre Psicologia na Comunidade.78 Diversos profissionais — assistentes sociais, educadores, médicos, sociólogos e principalmente psicólogos — relataram, nesse encontro, experiências, em andamento, de pesquisa e atuação em bairros e em instituições populares. Outras publicações brasileiras ressaltam a existência de expe­ riências de Psicologia na Comunidade em outros paises da América Latina que, por semelhança às nossas condições históricas, políticas e sociais, mais se aproximam das experiências brasileiras.' Este breve relato mostra as direções que têm tomado essas experiências que podem ser resumidas nas categorias gerais descritas a seguir. (7) Ver Anais de /.* Encontro Regional de Psicologia na Comunidade, São Paulo, 1981 (mimeo da ABRAPSO). Endereço para corresp.: Rua Ministro Godoy, 1029,3T, s. 326; CEP 06015, São Paulo, SP. (8) Cadernos PUC n? 11 — Psicologia, "Reflexões sobre a Prática da Psicologia", Ed. Cortez/EDUC, 1981. Na Argentina, nos anos 60-70, vários autores destacaram-se, nessa práxis, publicando vários livros, como Bleger, J., Psicohigiene y Psicologia Institucional (ver cap. 3, "El Psicólogo en la comunidad"), Buenos Aires, Ed. Paidos.
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    A PRAXIS DOPSICÓLOGO 211 Experiências na área da saúde mental da popolapki Alguns psicólogos e outros profissionais detiveram-se na questão da saúde mental da população da periferia das grandes cidades. £ nesse segmento populacional que se constatam graves fatores de desgaste ou stress emocional ligados a péssimas condições de habitação, alimentação, emprego e salários. £ aí na periferia que procuram um teto as correntes migratórias que vêm do campo para a cidade, perdendo suas raízes culturais próprias e impedidas de criar novas raízes, devido ao fenômeno de tum-over ou pouca permanência de contrato de trabalho nas empresas, comércio e serviços na cidade. Mal se estabelecem num bairro são obrigadas, por razões de desemprego, a procurar outro local de residência, na maioria das vezes em favelas, quando a situação econômica fica quase insuportável. Nos hospitais psiquiátricos dessas cidades, os leitos são mais freqüentemente ocupados por pessoas que, morando em bairros populares, estão sujeitas ao desgaste emocional e não têm, antes da crise, acesso aos recursos do atendimento psicológico. A Psicologia na Comunidade tem trabalho, face a esse problema da saúde mental da população-em-risco, em dois campos distintos: de um lado, há, desde os anos 70, a tentativa de criação de Centros Comunitários de Saúde Mental nos bairros de periferia. Nesses centros a questão de saúde mental é discutida e trabalhada junto a essa população. As experiências em geral são feitas por equipes roultidis- ciplinares e têm oscilado entre um atendimento convencional a indivíduos com queixas de teor emocional e trabalhos educativos sobre saúde mental junto a pais, famílias, escolas e associações locais de moradores ou associações religiosas presentes no bairro. Outra atuação nessa área tem sido a luta pela presença de profissionais da área psicossocial em Centros ou Postos de Saúde, geridos pelo Governo do Estado ou do Município, fazendo equipe com os médicos e enfermeiras dessas unidades. Esse atendimento psicossocial tem variado também conforme a mentalidade real dessas equipes multidisciplinares e os tipos de ordens que são emanadas das chefias superiores, ainda hoje, quase que exclusi­ vamente, em mãos de psiquiatras. Nem sempre essas chefias estão afinadas com os ventos novos que sopram na sua área, e as
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    212 ALBERTO ABIBANDERY propostas de psiquiatria na comunidade e alternativa, em nosso meio, são ainda mais literatura do que prática usual.9 Uma das deficiências nessas experiências em curso, nos Centros Públicos de Saúde, é o pouco tempo de duração dessa nova prática e a contratação de profissionais não ainda familiarizados com as propostas de uma Psicologia e uma Psiquiatria na Comu­ nidade. Sem um preparo acadêmico anterior adequado, alguns desses profissionais acabam convertendo-se, nesses Centros de Saúde voltados à Saúde Mental da População, em repetidores de uma práxis psicológica inadequada e tradicional. Esse fracasso só vem a reforçar a linha psiquiátrica tradicional, que propõe, para os assim chamados doentes mentais, um tratamento apenas medica­ mentoso e de internação, nos velhos hospitais psiquiátricos, mais voltados para o lucro do que para uma política de saúde mental da população. A contratação de um número grande de profissionais para atuarem nesses Centros de Saúde é uma das bandeiras de luta hoje dos psicólogos e de seus órgãos de representação de classe: o sindi­ cato e o Conselho Regional de Psicologia, como o é a exigência de um preparo acadêmico mais refinado para condução da práxis de Psicologia na Comunidade nesses Centros e Postos de Saúde Públicos. Essa contratação não só responde aos interesses da população dos bairros como também é uma solução para o problema de sustentação econômica desses profissionais da área psicossocial dedicados à saúde mental das classes populares. Fica portanto claro que essa linha de atuação só poderá desenvolver-se em nosso meio se os conteúdos das disciplinas psicológicas e psiquiátricas em nossas faculdades universitárias prepararem os alunos através da discussão aprofundada dos fatores sociais que atuam efetivamente nos problemas de saúde e doença mental da população. É preciso ainda, nesses cursos, a apresentação de um novo modelo de atuação profissional, que se coadune com os princípios e objetivos da Psicologia na Comunidade. Esse modelo deve substituir a mera medicalização a base de remédios quimio- terápicos ou internação hospitalar. Urge o desenvolvimento de atividades psicossociais e educativas que levem à modificação das (9) Ver Caplan, Gerard B., Princípios de Psiquiatria Preventiva, Ed. Zahar, 1980. Ver também Serrano. Alan l„ Psiquiatria Alternativa, Ed. Brasiliense. 1981.
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    A PRAXIS DOPSICÓLOGO 213 situações ambientais e pessoais, geradoras de desgaste e stress nervoso e emocional. Experiências em grupos de mulheres e de jovens nos bairros Os bairros das grandes cidades têm pouca vivência comu­ nitária. Na maioria, são bairros meramente residenciais, bairros- dormitório em que os trabalhadores apenas pernoitam, passando a maior parte de seu tempo de vigília fora deles, na condução e na empresa. As exceções e essa regra constituem-se no grande contingente de mulheres, que se obrigam a permanecer em suas casas, entregues às tarefas de cuidado dos filhos menores e do lar, enquanto o companheiro ou marido e filhos maiores entregam-se ao trabalho assalariado nas empresas. Mesmo as mulheres, que devem suportar a dupla jornada de trabalho: na empresa e no lar, são mais facilmente contactáveis através do bairro, em que residem, do que os homens com que convivem. São algumas dessas mulheres que se organizam, em pequenos grupos de convivência comunitária, em forma de clubes de mães, associações de pais e mestres e grupos de aprendizado de artes domésticas, ou ainda, nas reuniões religioso-comunitárias das igrejas dos bairros. Igualmente os adolescentes e jovens do bairro permanecem, mais freqüentemente, durante o dia, nele, devido ao crescente desemprego e falta de oportunidade de estudo, que afligem principalmente essa faixa da população. Alguns desses adolescentes e jovens associam-se em pequenos grupos de quarteirão, de rua, de esportes ou de igreja. São associações informais e de curta duração, na maioria das vezes. As experiências, em Psicologia na Comunidade, têm privi­ legiado também a aproximação a esses grupos de mulheres e de adolescentes e jovens para trocar conhecimentos sobre assuntos e problemas os mais variados, como, por exemplo, educação dos filhos, relações afetivas dos jovens e dos casais, problemas ligados à prática sexual, questões que envolvem o futuro profissional, etc. São temas que se demonstram extremamente úteis para fins de uma práxis da Psicologia na Comunidade. Não há só discussões, a nível verbal, mas montagens coletivas de peças teatrais, que expressam o cotidiano da vida e as propostas
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    214 ALBERTO AB1BANDERY transformadoras desses grupos. Técnicas de dinâmica de grupo, psicodrama, expressão corporal, sensibilização, desenvolvimento organizacional têm sido testados e transformados, nas experiências analisadas até agora. Ê também nesses grupos que se pode levar um trabalho de conscientização das condições adversas do bairro, como falta de esgoto, de água potável, de luz, de creches ou escolas, de postos de saúde, etc. Também se analisam as péssimas condições de convivência e lazer e são ensaiadas novas atividades lúdicas e educativas. Como conseqüência dessas práticas de acompanhamento desses grupos, houve um acréscimo, na tomada de consciência dessas mulheres e jovens sobre os problemas sociais, presentes no bairro, e como afetam a saúde física e mental da população. Essa conscientização levou a ações organizativas e reivindicatórias, de iniciativa desses grupos, obtendo resultados que marcam o início de superação desses problemas sociais. A população quase que testa suas próprias forças e descobre, surpresa, que elas são mais poderosas do que imaginavam num primeiro tempo. Um pequeno exemplo nesse sentido é a luta por creches que, quando conseguidas no bairro, a partir de uma tomada de cons­ ciência e uma conquista junto ao poder público, podem beneficiar as mulheres e as crianças do bairro e acabam consolidando um local a mais de educação e aprendizagem de hábitos importantes para a saúde mental dessa população. É aqui que se situa também um pólo de tensão entre a postura e visão política dos profissionais e a dos habitantes dos bairros. O respeito aos interesses, valores, forças e opções dessa população é um imperativo de um trabalho em Psicologia na Comunidade. Caminhar com a população e não se sobrepor impositivamente a ela ou dominá-la politicamente é uma das exigências para uma correta atuação. Experiências em instituições populares Numa comunidade popular, há por vezes clubes culturais e recreativos, centros de vivência de crianças e jovens, associações jurídicas de moradores, associações religiosas, nas igrejas, que podem beneficiar-se da presença de profissionais interessados em
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    A PRÁXIS DOPSICÓLOGO 215 ajudar essas instituições através de manuseio de conhecimentos e técnicas psicológicas, que visam o desenvolvimento das pessoas e grupos, atingidos por essas entidades populares. Os aspectos institucionais, organizacionais e de relações humanas dessas instituições podem ser objeto de diagnóstico e intervenção de pessoas competentes. Essas pessoas podem ser os próprios moradores e freqüentadores dessas instituições, uma vez que tenham sido treinados e preparados para uma intervenção eficaz. Há ainda nessas organizações populares a necessidade de ampliar seus horizontes para outros problemas sociais, culturais ou políticos que, via de regra, escapam à sua percepção. Atividades culturais, filmes, debates, visitas podem integrar nesse caso o rol de atividades ligadas à prática da Psicologia na Comunidade. A finalidade dessa atuação é abrir as perspectivas, a compreensão e a capacidade da própria população de lidar satisfa­ toriamente com os problemas de qualidade de vida do bairro. A importância das experiências em instituições populares reside ainda na possibilidade de se configurar outra instância jurídica — as instituições populares — que poderão contratar, do mesmo modo que o Poder público, nos centros de saúde e escolas do Estado, os serviços dos profissionais voltados à Psicologia na Comunidade, respondendo assim à questão angustiante que se fazem esses profissionais: quem pode remunerar tais trabalhos comunitários? £ verdade que no Brasil ainda não se criou uma consciência comum, nessas instituições, da oportunidade e da importância desses serviços ligados à Psicologia na Comunidade. Só a intensificação dessa atuação, junto às instituições popu­ lares, pode criar essa consciência comum c criar padrões de contrato e remuneração satisfatórios para ambas as partes, exi­ mindo os indivíduos pobres do bairro de arcar com essa obrigação de sustentação condigna desses trabalhadores sociais. Aqui se situam os sindicatos dos trabalhadores. Alguns deles têm vigorosa expressão econômica, graças às contribuições obri­ gatórias que arrecadam da categoria. A verba amealhada é gasta muitas vezes em serviços meramente assistenciais e recreativos sem uma programação simultânea que leve à educação e à conscien­ tização dos trabalhadores sócios e suas famílias, residentes nos bairros da periferia.
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    216 ALBERTO ABIBANDERY A luta pela criação de uma Psicologia na Comunidade passa então por uma luta paralela de reconstrução contínua do movimento sindical. No Brasil, as distorções desse movimento são antigas e estruturais, e cabe apoiar os movimentos operários e dos demaij trabalhadores, que procuram dar aos seus sindicatos, reconquis­ tados através das eleições, uma nova legislação e uma nova prática que alterem os vícios herdados dos regimes autoritários do passado. Há experiências em outros países sobre programas formativos patrocinados por sindicatos de trabalhadores que se coadunam perfeitamente com os propósitos da Psicologia na Comunidade.10 Experiências nas escolas de 1? grau da rede pública Nos bairros populares, a escola de 1? grau é quase sempre uma das poucas instituições públicas, aí presentes, no cotidiano da vida das pessoas. A população que freqüenta essas escolas são crianças e adolescentes, vivendo em famílias com enormes problemas de sobrevivência, onde a cultura familiar tradicional entrou em crise e não pôde mais reconstruir-se. Pai e mãe muitas vezes vivem quase ausentes do lar, pelo dever de ganhar o salário, sem o qual as crianças não podem sequer alimentar-se. Essas crianças são submetidas pelos meios de comunicação social e de propaganda a um bombardeio de anúncios que nelas despertam sonhos inalcançáveis e também comportamentos reativos de revolta e destruição. São ameaçadas pelo desejo de lucros do comércio de tóxicos e das revistas de baixo nível cultural e porno­ gráficas. A essas crianças e adolescentes, a educação familiar e escolar propõe muitas vezes um futuro de aspirações profissionais ambíguas e inatingíveis: sonha-se com as melhores carreiras da sociedade, quando a dura realidade reserva, de fato, a elas, os últimos ofícios da cidade. Nessas escolas, os diretores e professores são, via de regra, recrutados de maneira a mais burocrática e impessoal possível, (10) Ver Freire, Paulo et alii. Vivendo e Aprendendo (cap. 2?, especialmente), Ed. Brasiliense, 1980.
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    A PRAXIS DOPSICÓLOGO 217 através de complicados concursos de pronjoção e remoção, que criam, freqüentemente, nas escolas, uma mobilidade permanente de pessoal. Os mestres nem sempre captam as condições reais de existência dessas crianças e de suas famílias, por provirem de outros estratos da população urbana, melhor, aquinhoados do que a população da periferia. A rede oficial de ensino, com suas exigências de uniformidade de procedimentos didáticos, desestimula os profes­ sores de planejar conteúdos e práticas realmente educativas para essa população infantil e adolescente. Cria-se assim um Impasse entre os objetivos ideais da escola e a prática de ensino. A presença da Psicologia na Comunidade, nessas circuns­ tâncias, é de extrema necessidade, não para se ocupar com uma função burocrática de distribuição de tarefas didáticas, já prontas, mas para captar c explicitar o descompasso de ambas as partes que compõem o cenário escolar: necessidades reais dos alunos e prática real do processo instrucional e educativo. Algumas experiências, em nosso meio, estão sendo feitas para levar a instituição escolar a um trabalho educativo eficaz face às necessidades e carências constatadas dos educandos desses bairros. Algumas das atividades que, atualmente, os profissionais, ligados à Psicologia na Comunidade, estão tentando desenvolver nas escolas da periferia podem ser assim resumidas: presença ativa nas reuniões de pais e mestres; visitas domiciliares e reuniões específicas com mães de alunos, para compreender melhor a cultura familiar e problemas sociais, que interferem na aprendizagem das crianças; diagnóstico do bairro e das características psicossociais da popu­ lação, a fim de que diretores e professores da escola possam adaptar os conteúdos e procedimentos pedagógicos às necessidades da população escolar: trabalhos nos horários extra-escolares com grupos de adolescentes, utilizando o espaço da própria escola de bairro, para a organização cooperativística de estudo, leitura e lazer; exercícios de expressão corporal t psicomotricidade com as crianças e treinamento de professores e agentes da comunidade, para lidar com problemas de aprendizagem e saúde das crianças e jovens do bairro A dificuldade para o avanço desses trabalhos profissionais está na rigidez das direções locais e regionais da Educação Pública, que via de regra são ainda muito reticentes quanto a propostas de trabalho como essas.
  • 203.
    218 ALBERTO ABIBANDERY Não é por acaso que o número de psicólogos na rede escolar de ensino é m uito pequeno, e infelizinente a m aioria dos psicólogos e demais profissionais da área psicossocial não está preparada para os desafios dessa linha de trabalho. Mas experiências de Psicologia na Comunidade em Escolas Públicas parecem ser das mais importantes a serem desenvolvidas, no Brasil, hoje, para formar novas gerações menos doentias social e psicologicamente. £ preciso portanto que esses profissionais sejam preparados nas suas faculdades para o exercício dessa nova práxis da Psicologia comprometida com os destinos das crianças e adolescentes dos bairros de periferia. Publicações de pesquisas participantes A última área de experiências a ser referida neste texto são as publicações científicas resultantes de uma práxis e uma sistema­ tização teórica dessas experiências em Psicologia na Comunidade. Parece que não há, no momento, uma resenha mais acurada sobre o que já se publicou sobre o assunto. O objetivo destes últimos parágrafos do texto é mais o de enfatizar a importância dessas atividades científicas para o futuro da Psicologia no nosso meio.11 O aprendizado da Psicologia na Universidade rege-se em demasia por textos didáticos de origem ou de inspiração estrangeira. Aquilo que é observado, pesquisado ou postulado sobre o homem ou a mulher europeus ou norte-americanos, de classe média, torna-se conclusão, sem contestação, sobre a Psicologia e serve de parâmetro de comparação para se avaliar psicologicamente os indivíduos e grupos sociais do nosso país, sem maiores reflexões ou pesquisas. Nas faculdades de Psicologia é comum desconhecerem-se os aspectos culturais e históricos que moldam a Psicologia do nosso povo, e omitem-se na formação do estudante de Psicologia os contextos sócio-econômicos e culturais que condicionam os compor- (11) O texto que segue é parte de uma comunicação minha, prof., originalmente apresentada na 34? Reunião Anual da SBPC, em Campinas, julho de 1982, dentro de tema mais geral: "trabalhos em Comunidade: Seu Significado para a Produção de Novos Conhecimentos Científicos" (mimeo).
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    A PRÁXIS DOPSICÓLOGO 219 tamentos comuns e influem nas características psicológicas das pessoas e dos grupos sociais populares. Aplicar, na área profissional, esses padrões importados, sem maior aprofundamento crítico, pode resultar num reforço à visão de marginalidade que a maioria do povo trabalhador oferece aos olhos desavisados do profissional psicológico e demais profissionais, de nível universitário, que estudam esse tipo de Psicologia. Daí para a rotulação de excepcionalidade mental e de doença mental é um passo. Parece lógico não se aceitar como evidentes as conclusões da ciência importada — ciência porque importada — e procurar observar mais de perto, e com um mínimo de empatia, a parti­ cipação, o cotidiano da vida da população trabalhadora, no seu bairro, na sua família, nas suas organizações mais espontâneas e representativas para ampliar, confirmar ou modificar o que já se sabe sobre a Psicologia. Não se pode aceitar como prontas e definitivas as teorias de personalidade e de desenvolvimento e as medidas e testes psico­ lógicos delas resultantes, comumente ensinados em nossas facul­ dades. Há muito a pesquisar ainda nesta área, a partir das peculiari­ dades da cultura popular e dos seus valores, que passam desper­ cebidos pela elite pensante, que ocupa os espaços universitários do país. Para avançar um pouco, nesse conhecimento da Psicologia do trabalhador brasileiro, é preciso primeiro explicitar o viés de classe média que institui o modelo burguês como padrão de normalidade e julga desviante e marginal a classe trabalhadora como um todo, reservando-lhe o dilema de escolher o padrão de desenvolvimento psicossocial burguês, inacessível de fato para a classe trabalhadora, ou então resignar-se ao estigma de classe inferior não só socialmente como também psicologicamente. Cabe às pesquisas em Psicologia na Comunidade uma apro­ ximação ao cotidiano do trabalhador sem preconceito, convivendo um pouco com ele no seu bairro operário, nas suas organizações populares, para apreender sua cultura e forma de vida, suas expectativas, lutas e fracassos e deles partilhar um pouco também, não como quem já sabe mas como quem quer primeiro aprender. Há esperanças assim de entender de forma mais justa a verdadeira Psicologia do trabalhador urbano de nossas periferias, sabendo-se que tal conhecimento modificará práticas profissionais, vigentes na
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    220 ALBERTO ABIBANDERY área da seleção de trabalho, de diagnóstico e tratamento clínico e na programação escolar dos estabelecimentos públicos de ensino de 1? e 2.° graus. Nestes poucos anos de duração da Psicologia na Comunidade, as observações ainda não estão, de forma alguma, nem acabadas nem muito menos sistematizadas. Mas a percepção preconceituosa anterior já se modificou e já se reconhece que há potencialidades e valores, que não constam nas padronizações de testes e nas teorias vigentes, mas que dignificam esse lutador inteligente e criativo, que é o trabalhador brasileiro, envolvido numa trama de sobrevivência extremamente adversa. Partilhar esse esforço de compreensão psicossocial sobre o trabalhador brasileiro, com os estudantes da Universidade e futuros profissionais na área de humanas, parece ser uma das contribuições das pesquisas e publicações, ligadas à Psicologia na Comunidade, para modificações na sociedade brasileira, no sentido de sua real democratização e respeito à cidadania do brasileiro comum.
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    I Ufto íèZ' A^_yI OjQi ^ A*Q>I ■ ^ -Ío Lo'v ^Ô O ^(2^0• Q0 4 i , s õ ISSN 0103-7013 Psicol. Argum., Curitiba, v. 27, n. 56, p. 65-76, jan./mar. 2009 ©Psicologia Argumento PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL: Que contribuições teórico-metodológicas podem dar à práxis do psicólogo comunitário? Historical and culturalperspective: What theoretician-methodologies contributions can give to praxis of communitypsychologist? Verônica Morais Ximenes*, João Paulo Pereira Barrosb ‘ Professora adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Docente do Mestrado em Psicologia da (UFC), Coordenadora do Núcleo de Psicologia Comunitária (NUCOM), Fortaleza, CE - Brasil, e-mail: vemorais@yahoo.com.br bPsicólogo, Universidade Federaldo Ceará (UFC), Bolsista de mestrado daCoordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal deNível Superior (CAPES), Fortaleza, CE - Brasil, e-mail: jppbarros@yahoo.com.br Resumo Este artigo objetiva apontar em que aspectos as nuanças teórico-metodológicas da perspectiva histórico- cultural, desenvolvidaporLevVigotski e seus legatários,podemreverberarnapráxis dopsicólogo comunitário e contribuir com o seu aprimoramento. Para tanto, são enfocados os seguintes pontos do pensamento vigotskiano: a constituição social das funções psicológicas propriamente humanas, o conceito de mediação semiótica, o métodogenético de investigação, a mútua implicação entre aprendizagem e desenvolvimento, bem como oconceitode Zona deDesenvolvimento Proximal. Conclui-se,então,que aperspectiva histórico- cultural amplia o campo de inteligibilidade sobre a complexidade das interações sociais e pode favorecer com que as reflexões sobre osprocessos psicossociais em comunidades superem a dicotomia entre “social” e “individual”, rechacemperspectivas essencialistas e individualizantes, bem como enfatizem os devires das interações existentes nas tessituras comunitárias. Denota-se ainda que algumas características do método investigativo deVigotski sãoprofícuas tambémà psicologiacomunitária,pelaênfase no estudo deprocessos e relações, pelo destaque às trocas e colaborações existentes entre atores sociais heterogêneos e pela possibilidade de interligar a análise microgenética ao acompanhamento de atividades comunitárias. Com efeito, defende-se, por fim, a ideia de que as nuanças conceituais e metodológicas relativas à Perspectiva Histórico-Cultural tomam mais consistentes a práxis dopsicólogo comunitário,visto que, nesta, mormente, são preconizadas situações dialógicas de interação social e a edificação conjuntade conhecimento. Palavras-chave: Perspectiva histórico-cultural. Psicologia comunitária. Práxis do psicólogo social. Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    66 Ximenes, V.M., Barros, J. P. P. Abstract This article aims to point out where the nuances aspects theoretical and methodologicalperspective o fhistorical-cultural, developed by Lev Vygotsky and their legatees, may reverberatepsychologist in practice the com m unity and contribute to its improvement. To this end, follow ing points o f vygotskyan thought are focused: the formation o f social psychological functions as human, the concept o fmediation semiotics, the method o fgenetic research, mutualinvolvement between learning and development, and the concept o f development zone o f proximal. It follows, then, that the historical and cultural perspective broadens the field o fintelligibility on the com plexity o fsocial interactions and that could help with the reflections on the psychosocialprocesses in communities beyond the dichotomy between “social ” and “individual ”, rechacem prospects essencialistas and individualizantes and emphasize the becomings o f the interactions in the community tessituras. D enotes are still some characteristics o f the investigative method o f Vygotsky are also useful to the psychology community, the emphasis in the study o fprocesses and relations, highlighted by the exchanges and collaborations between social actors heterogeneous and thepossibility o flinking the analysis o fthe monitoring microgenetica community activities. Indeed, it is ultim ately the idea that the nuances conceptual and methodological perspective on history-Cultural become more consistent practice o f die community psychologist, since, in this, especially, are recommended dialogical situations ofsocial interaction and buildingjo in t knowledge. K eyw ords: Historicalandculturalperspective. Communitypsychology. Praxis o fsocialpsychologist. INTRODUÇÃO A Perspectiva Histórico-Cultural figura como uma das principais realizações da Psicologia nas primeiras décadas do século XX. Vieram exatamente de seu fundador, o russo L.S.Vigotski, e de seus legatários alguns dos mais fecundos estudos acerca de questões teóricas e metateóricas gerais relacionadas às investigações psicológicas. ParaWertsch e Smolka (1995),aperspectiva vigotskiana,apartirde suaancoragemnomaterialismo histórico-dialético, apresenta três pontos principais: a constituição do psiquismo a partir das interações sociais, o caráter mediado de tal constituição e a utilização do métodogenético de investigação. Desse modo, em seu bojo, formularam-se proposições inovadoras no tocante à compreensão do desenvolvimento humano e de alguns dos processos psicológicos nele envolvidos, como o pensamento, a linguagem e a consciência, o que, até hoje, suscita possibilidadesde diálogoe decomposiçõesde sentido que extrapolam limites disciplinares. Segundo Mainardes e Pino (2000), as ideias vigptskianas se difundiram no Brasil a partir dos anos 70. Decerto, contribuíram, para isso, as efervescentes arguições acerca da psicologia social, dentro da qual a perspectiva histórico-cultural também passou a ser designada de psicologia sócio- histórica (Colaço, Pereira, Mota, Chaves & Sá, 2007). Aquela época,prindpalmente à luz do ideário marxista, váriospsicólogos contestavama psicologia social moderna, de cunho positivista, visando à elaboração de uma práxis que concebesse o psiquismo de modo contextualizado e que se comprometesse com a transformação dos dilemas coletivos da América Latina. Os escritos de SílviaLane e Ignácio Martin- Baró, dentre outros, ilustram, cada um ao seu modo, essa interlocução entre a perspectiva histórico-cultural e a reconceituaçâo da Psicologia Social. Por sua vez, a Psicologia Comunitária emergiu destarevisão, sobretudo no contexto latino- americano, destacando-se por enfocar processos psicossociais existentes em comunidade (Freitas, 1998, 2005; Scarparo & Guaresch, 2007), por inscrever-se em campos diversos, como movimentos sociais e políticas públicas, e por apresentar um acervo teórico-metodológico heterogêneo e ainda em construção. Frenteaesse cenário,oobjetivodopresente artigo é apontar em que aspectos as nuanças teórico- metodológicas da perspectiva histórico-cultural podem reverberarnapráxisdopsicólogocomunitário e contribuir com o seu aprimoramento. Para tanto, Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    Perspectiva histónco-culrural 67 doravante,após a apresentação de questões centrais à práxis do psicólogo comunitário, construir-se-ão, simultaneamente à exposição de aspectos-chave da compreensão histórico-cultural do psiquismo humano e do método de investigação ensejados por Vigotski, argumentos que indicam de que forma tal perspectiva pode se articular à práxis do psicólogo comunitário, da forma como esta vem sendo sistematizada por autores como Maritza Montero, Quintal de Freitas e Cezar Góis. Através desse diálogo, espera-se contribuir no desenvolvimento conceituai e operacional da Psicologia Comunitária. Ademais, alrneja-se endossar a ideia de que as contribuições de Vigotski podem ser perceptíveis não apenas no âmbito educacional stricto sensu, onde sua relevância tem sido reiterada contundentemente (Colaço, 2001; Colaço et. al., 2007; Zanella, 2004). A práxis do psicólogo comunitário: Considerações gerais Para a Psicologia Comunitána, tal como é pensada por Góis (1994, 2005), Freitas (1998, 2005) e Montero (2004), a noção de práxis, como resultante da unidade entre teoriae prática, constitui- se um dos maiores legados da Educação Popular, ensejada por Paulo Freire (1980) a partir de meados do século XX, e das vertentes teóricas que se insurgem, desde a década de setenta do século passado, em contraposição ao viés positivista preponderante até então na psicologia social (Lane, 1995; Martin-Baró, 1998). Em razão dessa herança, é marcante na práxis do psicólogo comunitáno a produção de uma circularidade dialética entre reflexão e ação, o que faz com que a práxis em pauta sc afaste, ao longo de sua constituição histórica, tanto de modalidades de ativismo militante ou caritativo nos contextos de trabalho (Góis, 1994; Freitas, 1998), quanto de teorizações sobre seu objeto de estudo que não se desdobrem eferivamente em outras práticas. Nesse sentido, a práxis do psicólogo comunitário se distingue por se ocupar de processos psicossociais produzidos em dinâmicas comunitárias, levando em conta os contextos socioculturais em que surgem. Ademais, tal práxis se caracteriza por se estabelecer em interação com outros atores sociais, por enfatizar possibilidades das relações e dos atores que compõem dinâmicas comunitárias, bem como por buscar o fomento de processos direcionados à recriação permanente da existência coletiva (Montero, 2004). Além disso, outros aspectos permitem complementar a compreensão das nuanças da práxis do psicólogo comunitário. Dentre eles, convém ressaltar a busca de: 1) conhecer signos e sentidos relativos à dinâmica comunitária que pessoas e grupos constroem ou fazem circular (Freitas, 2005; Góis, 1994, 2005; Barros, 2007); 2) entender de que modo tais significações se implicam na constituição de subjetividades e de relações cotidianas (Barros, 2007); 3) construir interlocuções dialógicas na produção de conhecimentos e no estabelecim ento de objetivos e estratégias de ação (Góis, 1994, 2005; Freitas, 1998, 2005; Montero, 2004); 4) constituir e fortalecer práticas voltadas ao trabalho coletivo com o propósito de co-construção de atores sociais que sejam cada vez mais capazes não só de criar conexões sobre os cotidianos em que se inserem, como também de erigir múltiplas possibilidades de vida (Góis, 1994; Montero, 2004). Por isso, um ponto fulcral da práxis de psicologia comunitária consiste na problematização de saberes e práticas. Tal como é acenada no âmbito da Educação Dialógica de Freire (1980) e da Psicologia Social alinhavada por Martin-Baró (1998), a problematização que perpassa a práxis do psicólogocomunitário permite que acontecimentos, relações e conexões por vezes naturalizadas no cotidiano possam ser submetidos a exercícios críticos, tecendo possibilidades outras de composição de sentidos, de interações sociais e de modos de vida. Vieira e Ximenes (2008) afirmam que não basta apenas o compromisso social do profissional para odesenvolvimento de umapráxis empsicologia comunitária. A utilização do conceito de conscientização, que advém de trabalhos desenvolvidos por Freire (1980), Martin-Baró (1998) eGóis (2005),ampliaaatuaçãodoprofissional de psicologia que deixa de ter apenas como diferencial profissional a escuta psicológica e passa Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    68 Ximenes, V.M , Barros, J. P. P. a ter outras especificidades como a fadlitação de processos de conscientização a partir de referências teóricos da psicologia. A partir dessas considerações gerais, as próximas seções tratarão de como aspectos-chave da perspectiva histórico-cultural podem reverberar na práxis do psicólogo comunitário e contribuir para o seu apnmoramento. A Gênese social do psiquismo e a mediação semiótica: Reverberações na práxis do psicólogo comunitário Em meio aos seus estudos sobre a situação da psicologia nas décadas de vinte e trinta do século passado, Vigotski (1999a) concluiu que as correntes existentes, ainda que heterogêneas, dividiam-se em duas orientações opostas: um enfoque naturalista e outro idealista do psiquismo. Tal dualismo era o vetor do que este autor considerava uma Crise da Psicologia, pois ambos os enfoques mostravam-se incapazes de explicar as funções psicológicas especificamente humanas - as Funções Psicológicas Superiores (FPS), tais como a memória lógica, a atenção voluntária, a imaginação criativa, o pensamento conceituai e a vontade provisora. (Vigotski, 1991, 1999a). Diante desse panorama, as pontuações acerca do caráter social do funcionamento humano são, pois, um dos principais fundamentos da Perspectiva Histórico-Cultural. Com isso, “Vigotski desloca definitivamente o foco da análise psicológica do campobiológicoparaocampo dacultura” (Sirgado, 2000, p. 12) sem, no entanto, recair em uma proposta idealista que desconsidere os processos neuropsicológicos, sem os quais seria impossível a consolidação dc uma linha dc desenvolvimento cultural já na infância. Logo, nessa corrente, ganham destaque as situações de interação social, concebidas como espaços simbólicos geradores de conhecimentos, de apropriação de significados, de composição de sentidos e subjetividades. Uma outra questão basilar à Psicologia Histórico-Cultural decorre dessa ênfase nas interações sociais: no transcorrer de sua produção, Vigotski, seguidas vezes, atenta para o fato de que a constituição social dos processos psicológicos especificamentehumanospossuiumcarátermediado (Vigotski, 1994). Tal mediação se realiza através de instrumentos —condutores e potendalizadores da influência humana sobre os objetos —e através do uso de signos - meios auxiliares para a realização de operações mentais, proporcionando ao sujeito uma regulação da própria conduta e de condutas alheias (Vigotski, 1991). Assim, sobretudo a mediação semiótica - que se estabelece íniriaimente através de signos externose,nodecursododesenvolvimentodacriança, através também de signos psicológicos - é apontada por Vigotski e Luna (1996) como fundamental tanto para o desenvolvimento qualitativo, quanto para a análise de funções como a memóna, o pensamento e a atenção, não só do ponto de vista filogenético como também ontogeneticamente.1 Após essa contextualização e reportando- se ao objetivo deste artigo, é plausível a interrogação: afinal, que enlaces podem ser feitos entre essas questões e a práxis do psicólogo comunitáno? A revisão de textos de alguns dosprincipais expoentes da Psicologia Comunitária (Góis, 1994, 2005; Montero, 2003, 2006; Campos, 2000; Freitas, 1998, 2005) confirma a pluralidade de interfaces possíveis de serem feitas nessa área. Porém, um ponto de convergência é patente: a compreensão de que o desenvolvimento psicológico dos atores comunitários e os movimentos intersubjetivos dos seus contextos se dão de modo imbricado. Nos interstícios deste consenso, há pontos que aproximam a Perspectiva Histórico Cultural e asproduções depsicologia comunitária consideradas aqui, como a influência do matenalismo histórico- dialético, a partir do qual se reitera a existência de relações de mútua constituição entre o tecido social e os seus agentes, bem como a potência destes de O papel dos signos —em especial da linguagem —nas operações mentais pode ser aclarado pelo exemplo da memória, que é extensiva às demais funções: “funções tais como a memóna mudam acentuadamente a partir do momento em que a fala começou adominar o comportamento da criança. [...] A memória visual pictórica evolui para memória verhal. [...] Aspalavras e as formas lógicas começam a desempenhar o papel de ferramentas decisivas para a rememoração. Por essa época, vai desaparecendo o tipo de miraculosa memóna visualpictónca,conhecidapelo termo eidetismo eque domina osprimeiros anos.” (Vigotski «St Luria, 1996,p. 213). Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    Perspectiva histónco-cultuial 69 seremco-construtores de sua história (Lane, 1995). Inclusive, no tocante à concepção de psiquismo, a Psicologia Comunitána traz a lume, perempto­ riamente, a ideia da gênese social do psiquismo, em alguns casos com referência explícita à Teoria Histórico-Cultural, como em Góis (1994, p. 45), para quem “O indivíduo é uma realidade histórico- cultural que se encontra fortemente enraizado em um processo soaal que lhe é próprio.” As produções de colaboradores de Vigotski, como Leontiev, também têm sido usadas por alguns autores para explicar a especificidade do “objeto” da psicologia comunitária em meio à atuação no tecido comunitário. Góis (1994, p. 40), por exemplo, propôs que tal “objeto” fosse “o processo do reflexo psíquico do modo de vida da comunidade”, vocabuláno sobremaneira conexo às conceituações leontievianas sobre a Teoria da Atividade. Góis (1994, p. 48), inclusive, traz à tona o fato de que tal ligação implica que: [...] o psicólogo comunitário não é aquele que apenas realiza diagnósticos de comunidade e intervém. Ele estuda o modo de vida da comunidade e de como este se reflete e se transforma na mente dos seus moradores, para, novamente, aparecer em suas atividades concretas do dia-a-dia. Em face dessa compreensão dopsiquismo, a centralidade de categorias como consciência e atividade no estudo da condição humana representa mais uma conexão teórica entre a psicologia comunitária e a perspectiva histórico-cultural. A partir de 1924, Vigotski se dedicou a inscrever a Consciência como objeto de estudo da psicologia, para uma elaboração teórica cada vez mais contundente sobre o lugar das relações sociais e da mediação semiótica em sua constituição. Por sua vez, nos anos 80, autores como Lane (1995) e Góis (2005) o tomam como exemplo e elegem a consciência como uma das categorias centrais na psicologia comunitária.2 O legado vigotskiano oportuniza, então, que a categoria em destaque apareça, neste caso, como uma função complexa engendrada por uma multiplicidade de atividades mediadas - e não como uma substância ou um epifenômeno, como se poderia supor à luz de referenciais idealistas. Em vista desses pontos de enlace, vale acrescentar, aqui, que algumas especificidades das produções de Vigotski podem subsidiar ainda mais os psicólogos comunitários no estudo de processos psicossociais. O conceito de mediação semiótica, por exemplo, ilustra bem a possibilidade de ampliação das reverberações do pensamento de Vigotski na práxis do psicólogo comunitáno, pois é uma valiosa chave analítica para se abordar, de modo não dualista, as interações sociais e os movimentos pelos quais seus agentes constroem conhecimento e transformam as suas realidades, a fim de entender as implicações desses processos na construção de subjetividades e de modos de vida em comunidades. Pelo menos quatro implicações do uso do conceito de mediação semiótica no âmbito da psicologia comunitária podem ser elencadas. A pnmeira é a de que tal conceito oportuniza pensar que “social” e “individual” não são blocos estanques e impermeáveis, pois Vigotski (1999b, p. 14) admite que o “movimento mais íntimo e pessoal do pensamento, do sentimento, etc., do psiquismo de um indivíduo particular seja efetivamente social e socialmente condicionado.” Logo, como salienta Traverso-Yépez (1999, p. 40), ancorando-se em Vigotski (2000), “o social do psiquismo humano não está determinado pela tipologia dos objetos (outros sujeitos), mas se constitui a partir da construção de um mundo de significados compartilhados.” Já a segunda implicação é a de que a constituição social do sujeito não traduz uma transposição mecânica de situações “externas” a situações “internas”, fato que homogeneizam todos aqueles que compartilham de uma mesma trama social. Sobre isso, Vigotski (1999b,p. 17-18) escreve: “tudo em nós é social, mas isto não quer dizer, de modo algum, que as propriedades do psiquismo do indivíduo particular sejam, em sua totalidade absoluta, inerentes a todos os demais integrantes de dado gmpo.” 3 Inspirado na Teoria Histórico-Cultural e em Paulo Freire (1980), Góis (2005) atestou que as diferentes formas de participação de moradores em atividades de natureza comunitária são fundamentais no desenvolvimento dc suas consciências. Com esse estudo, o autor outorgou à atividade mediada —neste caso, a atividade comunitária —a condição de unidade de análise de processos psicológicos - como a consciência - dos atores com os quais o psicólogo comunitário trabalha. Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    70 Ximenes, V.M., Barros, J. P. P. Por consequência, a terceira implicação é a de que o conceito de mediação semiótica leva a supor que os processos interacionais que se engendram em comunidades constituem arenas de apropriação/construção de significados e de produção de sentidos, o que lhes dá uma conotação não necessariamente harmônica. Zanella (2004, p. 3-4), nessa direção, infere que as relações interpessoais de uma forma geral: Sãc mediadas por sentidos produzidos pelos sujeitos em relação, onginados e ao mesmo tempo marcados por outros sentidos, caractensticos dos grupos sodais a que esses sujeitos pertencem. Isso porque toda palavra, unidade de qualquerenunciação, veicula sentidos públicos e privados; apresenta uma dimensão que é compartilhada (o significado, como afirma Vigptsld), a qual traz asmarcas dahistóna em que foi forjada. Simultaneamente, há múltiplos sentidos que também podem ser atribuídos a essamesmapalavra,quedependemdascondições sociais em que os sujeitos em relação se inserem e das singularidades que ali se objetivam. Ao mesmo tempo em que cada pessoa é partícipe ativado contexto emqueseinsere,suapartiapação é marcadapelas características dogrupo social ao qual pertence, pela posição que assume e é reconhecida, enfim, pela cultura que a forja. Por fim, a quarta implicação consiste no fato de que considerar a existência da mediação semiótica nesses termos leva a pensar que as interações comunitárias na contemporaneidade transcendem as interlocuções face a face, visto que envolvem também as relações das pessoas que vivem em um determinado território com uma multiplicidade de signos produzidos e circulantes nas várias dinâmicas sodoculturais. As palavras de Cecília Góes (2000b, p. 128) corroboram isso: O estudo das relações sociais não pode se restringir ao exame do plano observável das interações face a face;osprocessos delinguagem que acontecem nessas interações devem ser vistos como algo maior do que a conversação de intedocutores imediatos; os efeitos dos outros sobre o indivíduo não dependem somente dc formas dc atuação direta; os outros não são apenas aspessoas fisicamente presentes, mas também “figuras-tipo” da cultura ou representantes dos códigos e normas, participantes das práticas sociais. Registrados esses pontos, que outros desdobramentos do espólio vigotskiano podem se articular à práxis do psicólogo comunitário? Por certo, essas aproximações teóricas acarretam iniludíveisarticulações entreos respectivosmétodos, algumas da quais serão dissertadas logo adiante. O método Vigotskiano e o conceito de ZDP: Reverberações na práxis do psicólogo comunitário Ao longo de suaobra,Vigotski demonstrou evidente interesse pela análise dos métodos de investigação psicológica. Por admitir que “o método é, ao mesmo tempo, pré-requisito e produto, o instrumento e o resultado do estudo” (Vigotski, 1994, p. 86) e que, consequentemente, “a possibilidade da psicologia como ciência é um problema antes de tudo metodológico” (Vigotski, 2001, p. 390); o autor russo realizou críticas aos métodos naturalistas e mentalistas, afirmando que nenhum deles conseguia abordar o que há de especificamente humano no homem e explicar de que forma suas funções se integravam e se transformavam nas relações sociais. Igualmente, Vigotski pôs em relevo o método genético, na condição de abordagem histórico-dialética, como um modo de proceder à análise do funcionamento humano (Vigotski, 1999a). A preocupação genética do autor, neste caso, reporta-se às condições de construção dos processos psicológicos, como confirma o período subsequente: “só podemos compreender os traços desse tipo (de construção) se adicionarmos também o ponto de vista genético para explicá-los - se indagarmos de onde e de que modo eles se originaram.” (Vigotski & Luria, 1996, p. 95) Ao propor tal método, Vigotski partiu do pressuposto de que o comportamento humano possui quatroplanosgenéticos:o filogenético,osodogenético, oontogenéticoeomicrogenético.Noentanto,interessa acrescerque, de acordo com a perspectivavigotskiana, estes planos encontram-se articulados. Como observa Cecília Góes (2000a, p. 13), o autor efetuava, por exemplo, ligações entre o plano ontogenético e um nível microgenético de análise, Isto é, investigava questões ontogenéticas (abrangendo diferentes faixas etárias) e se deslocava para outro nível de estudo que envolvia sessões examinadas das minúcias das Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    Perspectiva histónco-cultural 71 transformaçõesdasrespostas dossujeitos. Essa perspectiva pode ser notada nos trabalhos sobre relações entre pensamento-linguagem, atenção, memóna, formação de conceitos, fala egocêntrica, desenvolvimento da imaginação, etc. Então, o método genético possibilita que o psicólogo, ao invés de buscar essências ou repertórios instituídos, dedique-se a estudos e explicações de processos e de relações entre processos, de modo a analisar as potências constitutivas das interações sociais. Preconiza, também, que a investigação psicológica substitua a decomposição do objeto de estudo em seus elementos pela análise de suas unidades,3 o que im plica efetuar recortes que conservem as propriedades complexas da questão investigada. Para adensar a discussão sobre o método em Vigorski, torna-se importante ilustrá-la por meio das considerações do autor sobre a relação entre aprendizagem e desenvolvimento. Diferentemente das vertentes psicológicas predominantes no século XX, como a corrente piagetiana, as investigações de Vigotski (1994, p. 118) sugeriam que “o aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas culturalm ente organizadas e especificamente humanas.” Na análise da relação aprendizagem- desenvolvimento, Vigotski (2001a, 2001b) lançou mão do conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) para explicar de que modo a aprendizagem gera desenvolvimento. Todavia, o curso da obra vigotskiana evidencia mudanças nesse conceito (Valsmer & Van Der Veer, 2000). Inicialmente, Vigotski o definia como a diferença entre os níveis de desenvolvimento real c potencial do sujeito, em meio a discussões sobre a avaliação do desenvolvimento cognitivo do sujeito e de suas críticas aos testes de inteligência. Porém, as últimas produções vigotskianas, como “Pensamento e linguagem” (Vigotski, 1934/1993), conferiram contornos novos e uma maior abrangência ao conceito. Por isso, autores inspirados na Perspectiva Histórico-Cultural que embasam o presente artigo, como Meira (2003) e Colaço et al. (2007), conceituam a ZDP como um espaço simbólico de construção - seja de conhecimento, seja de subjetividade - que pode emergir em processos interacionais de caráter dialógico e colaborativo. Sobre essa questão, a despeito das mudanças que Vigotski opera na conceituaçâo da ZDP, importa registrar que uma de suas maiores virtudes em relação à temática do desenvolvimento foi advogar a favor de que este fosse vislumbrado sob um ângulo prospectivo. Desse modo, Vigotski (2001a, p. 327) pontua que: Como umjardineiro que, para definiroestudo de todo o jardim, não pode resolver avaliá-lo apenas pelas macieiras que já amadureceram e deram frutos, mas deve considerar também as árvores em maturação, o psicólogo que avalia o estudo do desenvolvimento também deve levar em conta não só as funções já maduras mas aquelas em maturação. A partir daqui, é possível examinar de que forma os aportes metodológicos vigotskianos e o conceito de ZDP aqui adotado, na condição de construto que endossa pnncípios metodológicos do autor, podem se vivificar na práxis do psicólogo comunitário. Uma vez que os processos psicossociais forjam-se e se transformam nas e pelas relações estabelecidas histórico-culturalmente, uma das principais características metodológicas do trabalho dopsicológico comunitário é sua interação com a profusão de movimentos, saberes, práticas, relações de forças, modos de existência, estratégias de aprendizagem e formas de organização dos mediadores culturais (Vigotski & Luria, 1996) prementes em comunidades. Montero (2006, p. 44) bem atesta essa virada metodológica em relação às práticas tradicionais de psicologia: Nenhuma investigação ou intervenção comunitária pode fazer-se sem um contato direto e estável entre profissionais externos à comunidade (agentes externos) e membros da comunidade (agentes internos). Este aspecto é de máxima importância porque a relação que 3 Para exemplificar a definição do que seja unidade, é valido registrar a investigação da relação entre pensamento e linguagem Nesse caso, Vigotski (2001) elegeu o significado da palavra como unidade de análise,por considerá-lo um fenômeno ao mesmo tempo do pensamento e da linguagem, diferenciando-se, dessa forma, dos métodos que buscavam destrinchar pensamento e linguagem em elementos mínimos. Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    72 Ximenes, V.M., Barros, J. P. P. se estabelece entre o profissional de psicologia e as pessoas da comunidade dependerá do caráter participativo que se dá ao projeto que se quer levar a cabo.4 Não obstante, o método em psicologia comunitária preconiza a participação ativa de uma pluralidade de atores em momentos de interação dialógica nos quais objetivos e ações convergentes possam ser traçados (Montero, 2006, Góis, 2005), garantindo-se, porém, a existência rica de singularidades, heterogeneidades e conflitos nas dinâmicas estabelecidas nesses processos. Freitas (1998, p. 4) afirma que o diferencial desse método está no fato de que: Tanto profissional como a comunidade e seus representantes estabelecem relações horizontais de discussão, análise e definição sobre as problemáticas a serem consideradas e as possibilidades de resolução e/ou enfrentamento para as mesmas. [...] Neste processo, os dois — psicólogo e comunidade - não estão definidos e muito menos têm suas identidades epapéis fixos. Diante dessas características gerais do método que fundamenta a práxis em psicologia comunitária, que semelhançashá entre estee o método genético desenvolvido por Vígotski? Prímeiramente, ao invés de se centrarem em elementos atomizados do psiquismo, ambos enfocam a processualidade no estudo da condição humana, o que faz com que, no caso,porexemplo,docomportamentoedaconsciência, a Perspectiva Histórico-Cultural e a Psicologia Comunitána interessem-se pelas suas possibilidades de constituição, e não tanto pelos resultados dos seus desenvolvimentos. Um outro ponto metodológico ressaltado por Vigotski e que é, sobremaneira, consoante à práxis em psicologia comunitária diz respeito à pertinência dos processos interacionais pautados na colaboração, tanto a que se estabelece entre os próprios atores comunitários, quanto a que se dá entre estes eo psicólogo comumtáno. Nesse sentido, as seguintes palavras vigotskianas, a despeito de se referirem ao desenvolvimento infantil, enaltecem a colaboração no desenvolvimento do psiquismo do ser humano dc maneira irrcstnta: [...] As nossas investigações mostraram que, nesse período, operamos com a natureza puram ente social dos processos de desenvolvimento das funções psicológicas superiores, que surgem a partir do desenvolvimento cultural da criança, cuja fonte são a colaboração e a aprendizagem. (Vigotski, 2001a, p. 335). Além do privilégio de processos mteracionais, vale mencionar outro aspecto em que é possível identificar semelhanças entre o método genético e o método em psicologia comunitária: tanto um quanto o outro valorizam não só as trocas efetuadas entre os “agentes internos” de um grupo, por exemplo, mas também o uso de mediações construídas com a presença de “agentes externos”. Nesse sentido, o conceito de ZDP oportuniza que o psicólogo comunitário, ao invés de se centrar em características inerentes ao sujeito e em suas funções já desenvolvidas, possa analisar, prospectivamente, sistemas e situações de interação, bem como planejar estratégias coletivas que propiciem a emergência de espaços interpsicológicos de troca e criação, onde sentidos possam fluir, transitar, e onde saberes e práticas sejam problematizados. Assim, preconiza-se que a participação de um “agente externo” na dinâmica de um grupo comunitário pode ser um importante vetor na potencialização de processos de aprendizagem e de desenvolvimento que são estabelecidos ali. Ainda sobre isso, uma alusão de Vigotski à situação de ensino-aprendizagem na sala de aula aponta para nuanças dessa mediação semiótica apregoada pela perspectiva histórico-cultural, no sentido degarantir a condição ativa e criativa dos participantes. Tal citação também adquire relevância no trabalho do psicólogo comumtáno, visto que confere respaldo teórico-metodológico a práticas sociais dialógicas - no sentido antônimo de práticas autoritárias, como apontava Paulo Freire (1980) - em detrimento da transmissão de conhecimentos: Nãomenosqueainvestigaçãoteórica,aexperiência pedagógica nos ensina que o ensino direto de conceitos sempre se mostra impossível e pedagogicamente esténl. O professor que enveredaporesse caminho costumanão conseguir 4 As citações de Montero (2006) presentes no texto foram traduzidas pelos autores. Psicol Argum 2009 jan /mar., 27(56), 65-76
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    Perspectiva histónco-cultural 73 senãouma assimilação vazia de palavras, um verbalismo puro e simples que estimula e imita a existência dos respectivos conceitos na criança mas, na prática, esconde o vazio. Em tais casos, a criança não assimila o conceito mas a palavra, capta mais de memória que de pensamento e sente-seimpotente diantede qualquertentativade empregoconscientedo conhecimento assimilado. (Vigotski, 2001a, p. 247). Neste instante, após as aproximações empreendidas, cabe destacar aspectos metodológicos ligados à perspectiva histónco- cultural que podem ser de grande valia no aprimoramento da atuação em psicologia comunitária. A perspectiva histórico-cultural, inclusive em seus matizes contemporâneos, reitera a necessidade metodológica de se empreender um olhar microgenético para as interações sociais, a fim de entenderoprocesso pelas quais estas seconvertem em funções psicológicas. Em pesquisas atuais, como a de Colaço et al. (2007), percebe-se que a análise microgenética se viabiliza pelo uso do conceito de ZDP. A razão para a junção entre aquele método e este construto teórico se justifica porque, para Góes (2000a, p. 11), a análise microgenética trata-se, exatamente, da “análise minuciosa de um processo, de modo a configurar sua gênese social”. Para tanto, sua aplicação “requer a atenção a detalhes e o recorte de episódios interativos, sendo o exame orientado para o funcionamento de sujeitos focais, as relações intersubjetivas e as condições sociais da situação, resultando num relato minucioso dos acontecimentos” (Góes, 2000a, p. 9). Eis, então, um dos grandes diferenciais metodológicos da perspectiva histónco-cultural, claramente importante para a atuação do psicólogo comunitário: acompanhar a formação da subjetividade pessoal, como as formas de construir sentidos para as relações, sem as desvencilhar das questões sociogenéticas, como a história, as práticas sociais e os signos que circulam também em dinâmicas microssodais. Cabe, neste instante, uma pergunta capital: Como, de fato, um psicólogo comunitário pode referenciar-se numa perspectiva microgenética que favoreça interações produtoras de desenvolvimento para seus partícipes? As palavras de Lunl (1994, p. 237) fornecem pistas a essa interrogação: “de acordo com Vygotsky, para obter uma avaliação abrangente do funcionamento cognitivo de um indivíduo, é necessário que nos ocupemos da atividade colaborativa e investiguemosesse tipo de atividade”. Se tal raciocínio for aplicado à psicologia comunitána calcada nas sistematizações de Góis (1994), pode-se inferir que a chave para a questão ora colocada radica-se no acompanhamento microgenético de atividades comunitárias ou na facilitaçâo destas. Em síntese, a atividade comunitária consiste em um processo interativo e coletivo pelo qual os sujeitos constroem saberes e forjam-se subjetivamente, na mesma medida em que também deflagram rearranjos no entorno social em que vivem a fim de transformá-lo. Para Góis (2005) a atividade comunitána, além de possuir as mesmas funções que Leontiev (1978) atribuiu à atividade humana de uma forma geral, quais sejam, mediação, orientação e interiorização, direciona-se para a transformação social e: Para a autonomia do morador e da própna comunidade. A atividade comunitária, então se dinge não somente para o desenvolvimento da autonomia dagestão coletiva e competência na resolução de problemas, mas também para a realização dos m otivos pessoais e comumtános [...] Leva inclusive à contínua superação das contradições entre o individual e o social na comunidade, além da construção de uma ética comunitária. (Góis, 2005, p. 89). CONSIDERAÇÕES FINAIS Este artigo trouxe à tona possíveis conexões entre a Perspectiva Histórico-Cultural e a práxis do psicólogo comunitário. As conexões, então, realizaram-se em tomo dos seguintes pontos do pensamento vigotskiano: a gênese social das funções psicológicas propriamente humanas, a mediação semiótica, o método genético de investigação, a mútua implicação entre aprendizagem e desenvolvimento, bem como o conceito de ZDP. Em face das conexões empreendidas alhures, conclui-se, em pnmeiro lugar, que o legado de Vigotski amplia o campo de inteligibilidade sobre a complexidade das interações sociais, visto que endossa também as relações do sujeito com a multiplicidade de signos e sentidos engendrados culturalmente, o que é fundamental para os debates Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    74 Ximenes, V.M., Barros, J. P. P. sobre as relações comunitárias na contemporanei dade. Em segundo lugar, destaca-se o potencial do pensamento vigotskiano no que concerne à superação de dicotomias cristalizadas, ainda hoje, não só na Psicologia, como “social” e “individual”, e de concepções naturalizadas do desenvolvimento humano, visto que se pôs em relevo a relação dialética existente entre o contexto sócio- comunitário e a construção de subjetividades. Deste eixo provêm outros dois pontos importantes: a centralidade da díade atividade comunitária - consciência na análise do desenvolvimento dos atores comunitários e a ênfase na potência cnativa destes, dado o lugar de destaque ocupado pela mediação semiótica. Issoposto,as ideiasalinhavadasporVigotski podem favorecer com que a análise dos processos psicossociais, no âmbito da psicologia comunitária, rechace perspectivas essencialistas e mdividualizantes, sem,todavia,incidiremperspectivas mecanicistas ou ambientalistas na explicação das relações entre os contextos comunitános e os seus atores constituintes. Ademais, podem endossar a ênfase nas potencialidadese nos devires dos processos interadonais existentes na tessitura comunitána, para o que contnbui o conceito de ZDP como espaço relacional de trocae decriação, intimamente associado ao viés prospectivo do método vigotskiano. No que tange mais precisamente às aproximações metodológicas, denotou-se que os pontos trazidosporVigotski sobre ométodogenético podem ser de grande proficuidade ao método em psicologia comunitária. Duas características deste método são emblemas disso: a ênfase na processualidade do desenvolvimento dos atores comunitános e, consequentemente, o acompanha­ mento das atividades de natureza mediada e coletiva que estes desenvolvem, com destaque para a possibilidade de se aliar a análise microgenética ao transcorrer de atividades comunitárias. As conexões realizadas entre os dois métodos fazem presumir que o método genético, uma vez que enfatiza as condições de produção, seja do conhecimento, seja da subjetividade, pode dar fundamentação àênfase do método dapsicologa comunitária nas interações psicólogo-contexto comunitário e nas atividades coletivas consoantes ao contexto dos participantes. Por sua vez, os alicerces da investigação vigotskiana sobre a relação aprendizagem- desenvolvimento podem respaldar o categórico realce do método de psicologia comunitária ao diálogo e à colaboração entre os próprios atores comunitános e entre estes e o psicólogo, o que oportunizaum campo de possibilidades maior de co-construção de saberes e práticas. Com isso, a conexão entre a Perspectiva Histórico-Cultural e a Psicologia Comunitária toma mais consistentes os discursos que esta emana, nos quais, mormente, é preconizada a edificação conjunta de conhecimento, de práxis transformadoras e de subjetividades, comvistas à ampliação de laços sociais. Cumpre, por fim, trazer à baila que as aproximações teórico-metodológicas realizadas podem auxiliar a elucidação das contribuições efetivas de um psicólogo comunitário no contexto aonde este venha a atuar. Assim sendo, uma vez enfatizados os processos interadonais e o seu caráter mediador na construção de conhecimento e subjetividades, o psicólogo comunitáno assume um lugar de interlocução em processos de aprendizagem e desenvolvimento, inspirando-se nas seguintes diretnzes: 1) fomento de relações dialógcas que integrem vinculação sócio-afetiva, construções compartilhadas de conhecimento e ação transformadora, a fim de que pessoas e grupos ampliem suas possibilidades de criação/ apropriaçãode sentidose sereconheçam na condição de co-construtores de si e dos seus contextos; 2) facilitação de processos de identificação, construção e atualização de potenciais pessoais, grupais e comunitários, a fim de fortalecer atividades e positividades já existentes no contexto e, ou constituir novas atividades e positividades; 3) colaboração, a um só tempo, na constituição de um campo de práxis comum e na produçâo de diversidades. AGRADECIMENTOS Agradecemos à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Supenorpelo apoio à elaboração deste trabalho. Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    Perspectiva histórico-cultural 75 REFERÊNCIAS Barros,J. P. P. (2007). Psicologia e políticas públicas: Um estudo sobre a práxis de psicólogos no projeto Raízes de Cidada­ nia e nos Centros de Referência de Assis­ tência Social (CRAS) de Fortaleza. Monografia de conclusão de curso, Departa­ mento de Psicologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza. Campos, R. H. F. (Org). (2000). Psicologia so­ cial comunitária: Da solidariedade à au­ tonomia. Petrópolis: Vozes. Colaço, V. F. R. (2001). Interações em sala de aula: Um estudo da atividade discursiva de crianças em séries iniciais. Tese de dou­ torado. Programa de Pós-Graduação em Edu­ cação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Colaço, V. F. R, Mota, M. L. A., Chaves, H. V. Pereira, E., & Sá, T. S. (2007). Estratégias de mediação em situação de interação entre crianças em sala de aula. Estudos em Psi­ cologia, 12(1), 47-56. Freire, P. (1980). Conscientização: Teoria e prática da libertação: Uma introdução ao pensamento de Paulo Freire (3a ed.). São Paulo: Moraes. Freitas, M. F. Q. (1998). Inserção na comunida­ de e análise de necessidades: reflexões sobre a prática do psicólogo. Psicologia: Refle­ xão e crítica, 11(1), 175-189. Freitas, M. F. Q. (2005). Coerências entre práti­ cas psicossociais em comunidade e projetos de transformação social: aproximações entre as psicologias sociais da libertação e comu­ nitária. Rev Psico, 36(1), 47-54. G óes, M. C. R. (2000a). A abordagem microgenética na matriz histórico-cultural: uma perspectiva para o estudo da constitui­ ção da subjetividade. Caderno CEDES, 20(50), 9-25. Góes, M. C. R. (2000b). A formação do indiví­ duo nas relações sociais: contribuições teóri­ cas de Lev Vigotski e Pierre Janet. Educa­ ção & Sociedade, 21(71), 116-131. Góis, C. W L. (1994). Noções de psicologia comunitária. Fortaleza: Edições UFC. Góis, C. W L. (2005). Psicologia comunitária: Atividade e consciência. Fortaleza: Publi­ cações Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais. Lane, S. T. M. (1995). Avanços da psicologia social na América Latina. In S. T. M Lane, & B. Sawaia. (Org). Novas veredas da psico­ logia social, (pp. 67-81). Rio de Janeiro: Brasiliense. Leontiev, A. (1978). Desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte Universitário. Lunt, I. (1994). A prática de avaliação. In I. Daniels. (Org). Vygostsky em foco: Pres­ supostos e desdobramentos, (pp. 219-252). Campinas: Papirus. Mainardes, J., & Pino, A. (2000). Publicações brasileiras na perspectiva vigotskiana. Edu­ cação & Sociedade, 21(71), 255-269. M artín-Baró, I. (1998). Psicologia de Ia liberación. Madrid: Trotta. Meira, L. R. L. (2003). Zonas de desenvolvimen­ to proximal nas salas de aula de ciências e m atem ática. In M. R. Castro, (Org.). VETOR: Série de divulgação científica em educação matemática Vol 1. (pp. 5- 23). Campos: FAFIC. Montero, M. (2003). Teoria y práctiva de la psicologíac: La tensión entre comunidad y sociedad. Buenos Aires: Paidós. M ontero, M. (2004). Introducción a la psicologia com unitária: D csarrollo, conceptos y procesos. Buenos Aires: Paidós. Montero, M. (2006). Hacer para transformar: El método en la psicolgía comunitária. Buenos Aires: Paidós. Scarparo, H. B. K., & Guareschi, N. (2007). Psi­ cologia social comunitária e formação pro­ fissional. Psicologia e Sociedade, 19(2), 100-108. Sirgado, A. P. (2000). O social e o cultural na obra de Vigotski. Educação & Sociedade, 21(71), 45-78. Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    76 Ximenes, V.M., Barros, J. P. P. Traverso-Yépez, M. (1999). Os discursos e a d i mensão simbólica: Uma forma de abordagem à Psicologia Social. Estudos de Psicologia, 4(1), 39-59. Valsiner, J., & Van der Veer, R. (2000). A inclu­ são da distância: O conceito de “Zona de Desenvolvimento Proximal” e suas inter­ pretações. Recuperado em 10 fev. 2008: Dis­ ponível em: http://deIan.sites.uol.com.br V ieira, E. M., & Xim enes, V. M. (2008). Conscientização: Em que interessa este con­ ceito à psicologia. Revista Argumento, 26(52), 11-22. Vigotski, L. S. (1991). Problemas teóricos y metodológicos de la psicologia. (Obras escolidas I). Madrid: Visor. Vigotski, L. S. (1993). Pensamiento y lenguaje. (Obras escogidas). Madrid: Visor. (Texto ori­ ginal publicado em 1934). Vigotski, L. S. (1994). Formação social da mente (5a ed.). São Paulo: Martins Fontes. Vigotski, L. S. (1999a). Teoria e método em psi­ cologia (2a ed.). São Paulo: Martins Fontes. Vigotski, L. S. (1999b). Psicologia da arte. São Paulo: Martins Fontes. Vigotski, L. S. (2000). Psicologia concreta do ho­ mem Educação & Sociedade, 21(71), 23-44. Vigotski, L. S. (2001a). A construção do pen­ sam ento e da linguagem . São Paulo: Martins Fontes. Vigotski, L. S. (200lb). Psicologia pedagógi­ ca. São Paulo: Martins Fontes, 2001b. Vigotski, L. S., & Luria, A. R. (1996). Estudos sobre a história do comportamento: O macaco, o primitivo e a criança. Porto Ale­ gre: Artes Médicas. Wertsch,J. V, & Smolka, A. L. B. (1995). Conti­ nuando o diálogo: Vygotsky, Bakhtin e Lotman. In Daniels, H. (Org.). Vygotsky em foco: Pressupostos e desdobramentos, (pp. 121-150). Campinas: Papirus. Zanella, A. V. (2004). Doce, pirâmide ou flor?: O processo de produção de sentidos em um contexto de ensinar e aprender. Revista Interações: Estudos e Pesquisas em Psi­ cologia, 9(17), 91-112. Recebido: 16/10/2008 Received: 10/16/2008 Aprovado: 15/12/2008 Approved: 12/15/2008 Psicol. Argum. 2009 jan./mar., 27(56), 65-76
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 46 SÍLVIA LANE E O PROJETO DO “COMPROMISSO SOCIAL DA PSICOLOGIA” Ana Mercês Bahia Bock Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil Marcos Ribeiro Ferreira Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil Maria da Graça M. Gonçalves Odair Furtado Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil RESUMO: Este artigo apresenta os principais aspectos da trajetória da Profa. Sílvia Tatiana Maurer Lane, desde a construção de uma Psicologia Social crítica até a formulação de um projeto de compromisso social da Psicologia. A Profa. Sílvia Lane foi pioneira nas formulações teóricas que colocaram a Psicologia Social brasileira em questão, ressaltando a necessidade de se explicitar seu vínculo com interesses dominantes e de se redirecionar sua produção no sentido de contribuir para a transformação social. Nessa trajetória aliou teoria e prática, contribuindo para a revisão de conceitos e métodos e para a organização da área. Trabalhou incansavelmente e em várias frentes para produzir uma Psicologia Social que reconhecesse o caráter histórico dos fenômenos sociais e humanos e a pessoa como sujeito ativo e histórico. Inicialmente o artigo relata sua presença marcante, dentro dessa perspectiva, na história da Psicologia Social brasileira e latino-americana. A seguir, são apontadas as principais características de sua produção teórica na elaboração de uma Psicologia Social sócio-histórica. Por fim, discute-se seu importante papel na afirmação de uma psicologia comprometida com as realidades brasileira e latino-americana; conhecedora dessa realidade, contribuiu para a construção de instrumental teórico-prático para sua transformação na direção de uma sociedade justa e igualitária. Ou seja, uma psicologia com compromisso social. PALAVRAS-CHAVE: Psicologia Sócio-Histórica; compromisso social; história da Psicologia Social. SÍLVIA LANE AND THE PROJECT FOR A SOCIALLY COMMITTED PSYCHOLOGY ABSTRACT: This article presents the main aspects of the academic trajectory of Professor Sílvia Tatiana Maurer Lane, from the initial proposal of a critical Social Psychology to the formulation of a project for a socially committed Psychology. Sílvia Lane was a pioneer in theoretical propositions which questioned mainstream Brazilian Social Psychology, emphasizing the need to expose its ties with the dominant economic and political interests and redirect- ing its production towards social transformation. In her career trajectory she brought together theory and praxis, contributing to the revision of concepts and methods, and to the organization of this area of knowledge. She worked tirelessly in various fronts to produce a Social Psychology that could recognize the historical character of social and human phenomena and that conceived people as active and historical beings. The text begins by situating her re- markable presence, within this critical perspective, in Brazilian and LatinAmerican Social Psychology. In sequence, it presents the main characteristics of her theoretical production concerning the development of a Socio-Historical Social Psychology. At the conclusion, it emphasizes her role in consolidating a Psychology that is intrinsically compromised with Brazilian and Latin-American realities; being familiar with this reality, she contributed to the construction of theoretical-practical instruments for its transformation in the direction of a society based on justice and equality. To put is in a different manner, the development of a socially committed Psychology. KEYWORDS: Socio-Historical Psychology; social compromise; history of Social Psychology. A professora Sílvia Tatiana Maurer Lane tem uma trajetória de vida profissional, no campo da Psicologia Social, que faz dela uma das mais importantes influên- cias no desenvolvimento de um novo projeto para a Psi- cologia: o projeto do compromisso social. Seu trabalho, sempre aliado ao de outras pessoas, produziu novos ca- minhos para a Psicologia. Sua produção teórica permitiu a construção de novas perspectivas no campo da Psico- logia Social, sendo responsável pelo desenvolvimento da perspectiva sócio-histórica na Psicologia Social no Brasil. Suas idéias sobre a prática permitiram a constru- ção da Psicologia Social Comunitária. Seu empenho na América Latina criou intercâmbios e trocas, fortalecen- do o diálogo no campo da Psicologia entre profissionais deste continente. Seus princípios permitiram apoio na construção de um novo projeto de Psicologia.
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    Psicologia & Sociedade;19, Edição Especial 2: 46-56, 2007 47 Sílvia Lane foi guiada pelo princípio de que o conhe- cimento produzido deveria sempre ser útil para a trans- formação da realidade na direção da criação de condi- ções dignas de vida para todos. O conhecimento e a pro- fissão deveriam estar a serviço da transformação e, com estas idéias, Sílvia Lane contribuiu para uma revolução na Psicologia. Com o rompimento com a tradição elitista da Psicologia, com a preocupação com a construção de um novo projeto para a ciência e para a profissão, com a adesão a uma nova concepção de homem para a Psicolo- gia e com o esforço para aproximar a América Latina, Sílvia Lane apontou as exigências e condições para um novo projeto para a Psicologia. E desta forma, pode-se apontar Sílvia Lane como uma das influências do que hoje se denomina de Projeto do Compromisso Social da Psicologia. Trabalho coletivo, consciência crítica e aten- ção permanente e comprometida com as urgências e necessidades da população se puseram como pedras fundamentais da transformação da Psicologia e, não há dúvida, da importância de Sílvia Lane neste caminhar. Foi professora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e seu trabalho naquela Universi- dade merece ser resgatado, pois é a partir dali que se expandem sua influência,suas idéias e seus convites para que um coletivo dos psicólogos se engajasse nas novas tarefas. No Brasil, muitos aceitaram o convite de Sílvia Lane para esta empreitada e podem-se encontrar marcas desta contribuição espalhadas por todo lugar onde há psicólogos. Importante registrar que este coletivo se tornou diversificado e rico, porque Sílvia Lane entendia também que a partir de algumas idéias e princípios é possível e desejável esperar do outro sua produção ori- ginal. Neste artigo, quatro alunos de Sílvia Lane, desde a década de 70 na graduação em Psicologia na PUC-SP até os anos 90 nos estudos pós-graduados em Psicologia Social na mesma Universidade, retomam a história, refletindo sobre o caminho percorrido por Sílvia Lane na Psicologia Social brasileira e daAmérica Latina, des- tacando a corrente da Psicologia Sócio Histórica que se instalou nos espaços onde ela estava na PUC-SP, desenvolveu-se na Faculdade de Psicologia daquela Uni- versidade e contribuiu com a construção dos alicerces do novo projeto de Compromisso Social da Psicologia. Ao se fazer esta retomada, pretende-se prestar uma ho- menagem à professora que se tornou para todos modelo de rigor científico, de compromisso político e de um “professorar” em permanente movimento, carregado sempre da melhor inquietação. Inicialmente vamos retomar a história de Sílvia Lane e da Psicologia Social ressaltando a contribuição de Sílvia Lane a partir de seu trabalho na PUC-SP. Em se- guida vamos destacar o desenvolvimento da Psicologia Social Sócio-histórica no Brasil e a importância e papel de Sílvia Lane nesta construção. E por fim traremos a idéia de uma Psicologia atenta ao contexto social como sua contribuição a um novo projeto de Psicologia, como ciência e profissão. Em todos estes momentos enfati- zaremos os aspectos que, a nosso ver, são fundamento da idéia de compromisso social da Psicologia. Um Pouco de História Sílvia Lane formou-se em 1956 em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e começou sua carrei- ra profissional no Conselho Regional de Pesquisa Edu- cacional, ligado ao Ministério da Educação, o qual tinha como finalidade reformular o ensino no Brasil. Sílvia Lane manteve-se no Conselho até 1960. Em 1965, con- vidada pela Profa. Maria do Carmo Guedes, passou a ministrar aulas no curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras São Bento da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde também tra- balhavaAniela Ginsberg. É neste espaço da PUC-SP que Sílvia Lane construiu toda sua carreira de professora de Psicologia Social. Inicialmente, ligada ao Laboratório de Psicologia Experimental, começou a realizar suas pes- quisas em Psicologia Social. Defendeu seu doutorado em 1970 na própria PUC-SP realizando pesquisa sobre o diferencial semântico de Charles Osgood com o título “Significado psicológico de palavras em diferentes gru- pos socio-culturais”. Na sua defesa da tese: . . . Joel Martins provocou Sílvia, observando que ela trabalhara na pesquisa com Osgood mas estava “namorand” Skinner. De fato Sílvia confessa que, apesar de utilizar a escala de diferencial semântico, por considerá-la instrumento preciso, não aceitava a teoria de resíduo de Osgood. Leu muito Skinner para sua pesquisa e sentia mais consistência na sua teoria do que na de Osgood, com uma abertura para o ma- terialismo dentro da Psicologia ... Sílvia nunca se con- siderou skinneriana, mas a materialidade daquela teo- ria a atraía muito, e facilitou-lhe o entendimento da Psicologia Social soviética. (Sawaia, 2002, p. 33). No final dos anos 60 e início dos anos 70, a PUC-SP e o Instituto de Psicologia, onde Sílvia Lane era profes- sora, passaram por grandes transformações. Foram mo- mentos importantes de mobilização universitária em prol da reforma e da inovação do ensino superior. Em 1971, foi criada a Faculdade de Psicologia da PUC-SP, a partir da fusão da Faculdade São Bento e do Sedes Sapientiae. Tornou-se a primeira diretora do curso de Psicologia re- cém criado. Tinha nas mãos o desafio de construir um novo curso de Psicologia e a Profa. Sílvia Lane aceitou o desafio.A estrutura e organização da Psicologia da PUC- SP tornar-se-iam referência para os cursos no Brasil. Era assim que Sílvia Lane definia esse período: No curso de graduação da PUC-SP, tentávamos con- cretizar a tese da teoria e prática no ensino, levando os alunos a observações, entrevistas, enfim, a coletar
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 48 dados do cotidiano e confrontá-los com os textos clás- sicos sobre os conceitos de atitudes, motivação e per- cepção sociais, dissonância cognitiva, socialização, dinâmica de grupo etc. (Lane, 1999). A proposta era de chegar a uma revisão crítica dos conceitos. Sílvia Lane entendia que era preciso superar a idéia e o hábito de fazer da realidade um exemplo dos conceitos teóricos. Ter a realidade material como parâmetro era quase uma obsessão para Sílvia Lane, que considerava necessário tomá-la como referência para a produção da ciência.A realidade deveria ser critério para análise da importância e fidedignidade de dados que as pesquisas produziam e não o contrário. Essa preocupação traduziu-se em postura metodo- lógica, pois o objetivo era produzir conhecimento que possibilitasse uma compreensão da realidade que impli- casse, necessariamente, sua transformação. Sílvia Lane foi incansável na produção teórica e de pesquisa com esse norte: conhecimento científico como práxis, unida- de entre saber e fazer. Tinha claro que uma nova psico- logia social só se configuraria por meio de concepções teóricas fundadas em pesquisa relevante e socialmente comprometida. Para Sílvia Lane, teoria e prática deve- riam ser vividas como militância. No entanto, Sílvia Lane não tinha facilidade de en- contrar eco para suas preocupações. Insistentemente, manteve-se como professora de Psicologia Social e ali fazia seu esforço para cultivar novas concepções sobre pesquisa, ciência e Psicologia e procurou ocupar espa- ços onde estas intenções pudessem ter desenvolvimento. Criou, em 1977, com o Prof. Alberto Abib, contando depois com a participação da Profa. Odette de Godoy Pinheiro, um trabalho em Psicologia nos Sindicatos e comunidades operárias de Osasco em uma disciplina intitulada “A Psicologia Social na prática clínica”. A temática era um achado, na medida em que a maioria esmagadora dos alunos da Faculdade de Psicologia da PUC-SP se especializava na área clínica. Esta área, mes- mo com o tipo de ensino crítico ministrado ali, apresen- tava um forte viés individualista. Apesar do compromis- so político de boa parte dos professores, o instrumental teórico era voltado para o atendimento nos consultórios privados e a ideologia reproduzida por esse modelo de atendimento era a do psicólogo como profissional libe- ral.¹ O curso ministrado na Faculdade de Psicologia reunia a visão crítica e a militância acadêmica de Sílvia Lane e a militância no movimento operário de Alberto Abib Andery. Esta experiência, que ocorreu principalmente na ci- dade de Osasco, cidade pertencente à Grande São Paulo, com certa concentração industrial e com vários bairros operários, leva tanto os alunos nela envolvidos quanto seus professores a uma intensa reflexão sobre os limites da teoria e da prática psicológicas. É esta experiência que lançou as bases daquilo que Sílvia Lane e Bader Sawaia (1995) iriam, mais adiante, chamar de Psicolo- gia Social Comunitária. O relato sistematizado das inú- meras intervenções realizadas nessa ocasião foi apresen- tado no Primeiro Encontro Regional de Psicologia na Comunidade promovido pela Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) e pela PUC-SP em 1981. Os anais desse encontro acabaram por se transformar na referência mais freqüentemente citada por todos aque- les que passaram a trabalhar com a psicologia comuni- tária.² Os trabalhos de Osasco permitiram um profundo questionamento tanto da metodologia quanto da teoria da psicologia social. Recuperou-se a experiência já consagrada de Paulo Freire com sua obra “Pedagogia do oprimido”, leu-se Alberto Merani, debateu-se a ne- cessidade e preponderância do método qualitativo de pesquisa, falou-se em pesquisa-ação ou pesquisa parti- cipante. Questionou-se profundamente o parâmetro teó- rico da psicologia social. De uma hora para outra, ape- nas a discussão crítica da Psicologia Social americana nãoeramaissuficiente.Tratou-sedesuperarradicalmente uma psicologia por demais comprometida ideologica- mente e que não cabia em nossa realidade. Este processo teve seu início em outras iniciativas também importantes: a disciplina “Estudos livres”, no curso de graduação em Psicologia, ministrada pela Profa. Sílvia, permitia livres reflexões sobre o conhecimento e a relação da Psicologia com a realidade social, nos anos 74 e 75.A disciplina ministrada pelo Prof.Abib, “Confi- guração sócio-psicológica do trabalhador brasileiro”, ia na mesma direção. A idéia fixa de relacionar mais de pertoapráticacomateoria,permitindoumconhecimento crítico e uma prática consistente, levou Sílvia Lane à pro- posta de Núcleos como formas organizadoras do curso para o 4º e 5º anos da Faculdade de Psicologia. Estáva- mos em 1974/75. Os núcleos eram práticas profissionais em forma de estágio, acompanhadas de disciplinas teóricas que lhes davam sentido e permitiam a crítica a partir das experiências vividas como exercício e treina- mento profissional. As críticas apontadas por Sílvia Lane e as reflexões produzidas nessas experiências encontraram espaço ade- quado para seu desenvolvimento, quando se consolidou o programa de estudos pós-graduados em Psicologia Social da PUC-SP. Criado em 1972, com a participação de Sílvia Lane, o programa permitiu a reunião de esfor- ços para a produção de uma nova perspectiva em Psico- logia Social. Sílvia ministrou disciplinas que se propu- nham a fazer revisões críticas de experimentos e pesqui- sas indexados no PsychologicalAbstracts. A constatação da inconsistência dos resultados encontrados e de sua
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    Psicologia & Sociedade;19, Edição Especial 2: 46-56, 2007 49 inadequação a fenômenos sociais presentes na realidade pesquisada no Brasil apontou para um vazio teórico que gerou a certeza de que era urgente o desenvolvimento de pesquisas que levassem a uma nova sistematização. Sua preocupação básica em construir uma psicolo- gia social voltada para a realidade brasileira e latino- americana, com vistas a contribuir para a superação das desigualdades e das situações de opressão, demandava uma construção teórica que permitisse compreender o homem como participante do processo social. Nesse sen- tido, entendia que o conhecimento da psicologia deveria levar à compreensão dos mecanismos que provocam a alienação e contribuir para ampliar a consciência dos homens. Sua teoria sobre o psiquismo teve essa direção. A obra teórica de Sílvia Lane pode ser lida de várias formas, com diversos recortes. Mas, são fundamental- mente dois aspectos de grande complexidade os que es- tão na sua base e apontam para essa perspectiva de com- preensão do homem: a relação subjetividade e objetivi- dade; e a formação e o papel dos valores. A forma como tratou esses aspectos complexos revela outra marca da produção de Silva Lane: simplicidade de proposições, calcada em pesquisa rigorosa. A Profa. Sílvia Lane traduziu nessas duas questões a preocupação em investigar e compreender como o indi- víduo está implicado com a sua sociedade, como se co- loca nela, o que permite ou impede que ele compreenda as determinações sociais e como pode agir sobre elas. Uma parte de sua discussão caminhou, como vimos acima, pela crítica à psicologia social predominante em nosso meio. Era a psicologia social norte-americana, de base experimental e positivista, que falava de mecanis- mos psicológicos universais e abstratos,desconsiderando o conteúdo histórico e social presente na constituição do homem. A psicologia social cognitivista coloca como objeto as relações interpessoais e a influência de fatores sociais no indivíduo, mas estabelecendo uma dicotomia entre indivíduo e sociedade e dentro de uma perspectiva naturalizante. Tais formulações estão baseadas em um método experimental, que busca relações causais entre variáveis e estabelece a necessidade de verificação empírica de princípios teóricos. Baseado no positivismo, o método prega a neutralidade do conhecimento cientí- fico e a distinção entre o conhecimento e a ação, ou seja, entende que o conhecimento deve ser objetivo e desvinculado de qualquer intenção em relação a seu uso. Cada um desses pontos foi questionado e discutido porSílviaLane.SeuconhecimentosobreLewineSkinner já a levara a questionar a dicotomia entre subjetividade e objetividade. Entendia que ambos traziam contribuições importantes para a compreensão do indivíduo, mas as perspectivas que desvinculavam o indivíduo de seu contexto não eram suficientes para se entender o homem social. Considerava que, no caso da psicologia social cog- nitivista, isso era mais grave, pois o que se produzia era umapsicologiaquenãoatentava, realmente,paraasques- tões sociais, já que elas eram apenas “pano de fundo” para os acontecimentos do mundo psíquico. A aproximação de Sílvia Lane com autores da Psico- logia Social de outros países da América Latina foi tam- bém essencial em todo este processo. Foi a partir de 1976 que aqueles que realizavam ex- periências semelhantes na América Latina passaram a estabelecer contato e, de uma maneira informal, a traçar um programa alternativo para a Psicologia Social de cu- nho experimental desenvolvida nos Estados Unidos e que até então era dominante também no Brasil. É o caso, entre outros tantos, da peruana Gladys Montecinos, das venezuelanas Maritza Monteiro e Maria Auxiliadora Banchs, do cubano Fernando González Rey e do espa- nhol radicado em El Salvador, Ignacio Martín-Baró. Sil- via Lane analisou e se referiu a este período, trazendo a importância de a Psicologia Social dialogar com outras Psicologias Sociais de países da América Latina, como pode ser visto em entrevista publicada no PSI Jornal de Psicologia do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP) em 2000. A Psicologia Social no Brasil era um ‘zero à esquer- da’, não interferia em nada, não ajudava em nada, quer dizer, era um saber que estava lá, que partia das teorias americanas para explicar a realidade brasi- leira. Era preciso compreender como o latino-ameri- cano singulariza o universal na constituição particu- lar de sua existência. (Lane, 2000). O trabalho social iniciado no curso de graduação da PUC-SP, o desenvolvimento das pesquisas no curso de pós-graduação e as relações na América Latina se uni- ram enquanto aspectos fundamentais para a construção da nova perspectiva em Psicologia Social. Uma perspec- tiva que, segundo Sílvia Lane, deveria começar explicitando uma nova concepção de homem na psico- logia: um homem social e histórico. E, para compreen- der esse homem e como as determinações históricas es- tão em relação com ele, seria necessário um outro méto- do. O materialismo histórico e dialético será o método que ela vai adotar e desenvolver na psicologia social. Sem dúvida, o marxismo, como postura epistemoló- gica, estava na minha cabeça, como proposta para superar a ideologização da nossa ciência. E foi um desafio encontrar um eixo marxista para desenvolver uma nova psicologia social (Lane, 2000). Portanto, juntava-se, aos ingredientes já comentados, o marxismo. Esta perspectiva, como ela mesma disse,
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 50 epistemológica, vai contribuir para a superação do positivismo na forma de fazer ciência, para a elaboração de novos métodos de pesquisa e para a afirmação do homem como sujeito histórico. A afirmativa de que o positivismo, na procura da ob- jetividade dos fatos, perdera o ser humano decorreu de uma análise crítica de um conhecimento minucio- so enquanto descrição de comportamentos que, no entanto, não dava conta do ser humano agente de mudança, sujeito da história. O homem ou era social- mente determinado ou era causa de si mesmo: socio- logismo vs biologismo? Se por um lado a psicanálise enfatizava a história do indivíduo, a sociologia recu- perava, através do materialismo histórico, a especifici- dade de uma totalidade histórica concreta na análise de cada sociedade. Portanto, caberia à Psicologia Social recuperar o indivíduo na intersecção de sua história com a história de sua sociedade – apenas este conhecimento nos permitiria compreender o homem como produtor da história. (Lane, 1984a, p. 13). Essa formulação expressa a elaboração realizada no processo de crítica à psicologia social tradicional e bus- ca de novas referências a que nos referimos acima. Uma nova postura epistemológica, metodológica e ontológica vai subsidiando a constituição de novas categorias e con- ceitos explicativos do psiquismo. A partir do materialismo histórico e dialético, Lane produziu, então, uma nova psicologia social, cujo obje- to, em vez de “relações interpessoais e influências so- ciais”, como propunha a psicologia social tradicional, seria o homem como ser histórico, a dialética entre indi- víduo e sociedade, o movimento de transformação da realidade. O objetivo era compreender o indivíduo em relação dialética com a sociedade; a constituição históri- ca e social do indivíduo e os elementos que explicam os processos de consciência e alienação; e as possibilidades de ação do indivíduo frente às determinações sociais. O método materialista histórico e dialético tem recur- sos para se compreender o homem dentro da totalidade histórica, a partir das categorias da dialética (totalidade, contradição, empírico-abstrato-concreto, mediação). Além disso, esse método considera que sujeito e objeto estão em relação dialética, portanto não há neutralidade no conhecimento, há sempre uma intenção do sujeito sobre o objeto. Essa intenção é histórica e deve ser con- siderada. Em outras palavras, o materialismo histórico e dialético permite trabalhar com a historicidade dos fe- nômenos e, por isso, contrapõe-se à sua naturalização. Boa parte da obra de Sílvia Lane foi para desenvolver uma compreensão do psiquismo fundamentada nesses pressupostos. E, de maneira coerente, tais formulações foram pro- duzidas a partir de pesquisas realizadas com métodos adequados à compreensão da realidade como contra- ditória, em processo de transformação constante e do conhecimento como práxis. Dentre as novas metodologias destacou-se a pes- quisa-ação participante. A concepção de pesquisa parti- cipante anulava toda discussão sobre a neutralidade da ciência e do pesquisador. Tratava-se, então, de discutir o compromisso social do pesquisador. É importante situar no tempo estes esforços. Está- vamos nos anos 70, nos “anos de chumbo” da sociedade brasileira e o desenvolvimento de concepções progres- sistas dentro de algumas Universidades, como a PUC- SP, era um fato. Havia clima adequado para as reflexões e críticas que Sílvia Lane propunha, agora já acompa- nhada de um grupo de professores do Programa de Pós- Graduação em Psicologia Social (Bader Sawaia, Suely Rolnik,LeonorGaioto,AntônioCiampa,MariadoCarmo Guedes, entre outros) e reunindo alunos/ orientandos que buscavam alternativas para a tradicional Psicologia So- cial (Wanderley Codo (1981), Renate Sanchez (1974), Antonio Ciampa (1977 e 1986), Alfredo Naffah (1983), Carlos Peraro Filho (1978 e 1988), Irede Cardoso (1978), Bader Sawaia (1979 e 1987), Ivanise Leite (1979), Eizabeth Lenza (1981), Maria Lucia Violante (1981), FernandoPontes(1983),SylviaFriedman(1985),Brígido Camargo (1985), Elvira Wagner (1986), Sueli Terezinha Martins (1987), Denise Camargo (1988), entre outros). Sílvia Lane, seus alunos e colaboradores se volta- ram, dessa forma, para a tarefa de construir uma alter- nativa teórica que estivesse consoante com os proble- mas enfrentados no cotidiano da realidade brasilei- ra. E é importante frisar que essa construção teórica se dava em todos os espaços que Sílvia Lane ocupava como professora, pesquisadora e militante por uma psicologia social crítica. Ela foi protagonista dessa posição em vários even- tos, dentre eles debates com Aroldo Rodrigues, o repre- sentante no Brasil da psicologia social cognitivista. Nos debates, Aroldo Rodrigues afirmava que aquilo que Sílvia Lane fazia não era ciência, era política. Se- gundo ele “. . . a Psicologia Social é uma ciência básica e neutra, a ela cabe descobrir as relações estáveis entre variáveis psicossociais a fim de possibilitar ao tecnólogo social a solução dos problemas sociais de forma cons- ciente e não improvisada” (Rodrigues, 1986, apud Sawaia, 2002). Em suas respostas, Sílvia Lane afirmava que: “. . . o fundamental neste momento é a psicologia rever sua prá- tica, pois teoria e prática têm que vir juntas. Não se pode dividir a psicologia social em ciência aplicada e pura” (Lane, 1986, apud Sawaia, 2002). No final dos anos 70 Sílvia e seus orientandos reali- zaram,uma intensa discussão teórico-metodológica no
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    Psicologia & Sociedade;19, Edição Especial 2: 46-56, 2007 51 Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia So- cial da PUC-SP, formalizando e sistematizando o pro- cesso de revisão metodológica da Psicologia Social. Nesse processo, foi feita a releitura de George Mead e de Politzer; discutiu-se a crítica feita à psicologia social por Poitou, Bruno e Pêcheux; a partir do livro organiza- do por Serge Moscovici, Introduction de la Psychologie Sociale, discutiu-se o conceito de Representação Social; também debruçaram sobre as questões da linguagem, analisando e Teorias da Psicologia da Linguagem de Robert Terwilliger. Mas, é com a (re)descoberta de Vigotski, Luria e Leontiev que se tornou possível o salto de qualidade que levou à fundamentação das categorias básicas do psiquismo: a consciência, a atividade e a iden- tidade, que foi levado ao público através da principal obra do período: Psicologia Social: O homem em movi- mento, organizado por Sílvia Lane e Wanderley Codo em 1984. Completaram este trabalho a teoria da iden- tidade como metamorfose, elaborada por Antonio da Costa Ciampa em tese de doutorado de 1987, A estória do Severino e a história da Severina; e a discussão sobre consciência realizada por Bader Sawaia no seu douto- rado, A consciência em construção no trabalho de cons- trução da existência, em 1987. Comessedesenvolvimentoteórico, pelaprimeiravez, criou-se, de fato, uma alternativa à psicologia social norte-americana. O mesmo movimento realizado por Florestan Fernandes, de busca da realidade social, do trabalho empírico, da busca de alternativas metodológica para se construir a base de uma teoria consistente, foi realizado por Sílvia Lane no campo da Psicologia So- cial. Em artigo comentando os cursos e programas de psicologiasocialnoBrasil,ministradosentre1983e1993, Sergio Ozella identifica a importância que o aporte teó- rico desenvolvido na PUC-SP ganhou neste período. Em 1983, os autores mais citados e indicados como leitura nos cursos de psicologia social, eram Aroldo Rodrigues (54 menções); J. L. Freedman (36); Solomon Asch (29); Krech, Crutchfield e Ballachey (29) e Sílvia Lane com o seu introdutório O que é a Psicologia Social (22). Em 1993, Sílvia Lane e Wanderley Codo com Psicologia Social: O homem em movimento, recebem 63 menções, seguidos do livro Psicologia Social deAroldo Rodrigues com 36. Em terceiro lugar O que é a Psicologia Social com 28 menções. Foi o coroamento de um intenso e im- portante trabalho realizado por Sílvia durante todos aque- les anos, investindo na construção da Psicologia Social no Brasil e na América Latina. Naqueles intensos anos 70 e 80, com toda aquela movimentação e esforços para a renovação, ocorreu a construção da ABRAPSO em 1980. Reunindo profes- sores da PUC-SP, orientandos do programa de pós-gra- duação e outros profissionais e professores de outras escolas, Sílvia Lane fundou a Associação Brasileira de Psicologia Social. Havia, naqueles anos, a ALAPSO – Associação Latino-americana de Psicologia Social, mas era uma entidade sem representatividade, que servia apenas de espaço de projeção para alguns poucos que nela se mantinham, sem qualquer esforço de construção deumaPsicologiaparaaAméricaLatina.Em1979, apro- vou-se no encontro da SIP (Sociedade Interamericana de Psicologia) no Peru, a proposta de criar associações nacionais, substituindo a ALAPSO. Ainda em 1979, quando Sílvia Lane retornou ao Brasil, organizou um Encontro de Psicologia Social e realizou reunião para debater a criação da ABRAPSO. “Segundo Sílvia, uma das principais realizações do encontro foi a de conscien- tizar os participantes psicólogos de que suas perplexida- des, percebidas até então como sentimentos individuais, eram compartilhadas por cientistas de diversas áreas”. (Sawaia, 2002, p. 66). Em 10 de julho de 1980, na Uni- versidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), foi funda- da a ABRAPSO. “A criação da ABRAPSO é um marco decisivo na orientação da psicologia social brasileira em direção à problemática de nossa realidade sócio-econô- mica-política-cultural. Também reafirma a importância fundamental de Lane, que ficou na presidência nacional até 1983 . . .” (Molon apud Sawaia, 2002, p. 67).A histó- ria da Psicologia Social no Brasil tem assim uma forte presença de Sílvia Lane. Esta história que caminha na direção do compromisso com a realidade brasileira e da América Latina e que em termos de produção teórica culmina com a produção da chamada Psicologia Social Sócio-Histórica. Sílvia Lane parecia sempre saber para onde cami- nhar e para onde levar a Psicologia Social, mas todos aqueles que com ela conviveram sabem que ela “inven- tou junto”, ou seja, prezou sempre os espaços de criação coletiva. Por isto, houvesse mais espaço para traçarmos todas as linhas do desenvolvimento da Psicologia Social no Brasil, a partir de Sílvia, os traços alcançariam a to- dos que hoje se encontram no campo de uma Psicologia Social comprometida e crítica.³ Uma Psicologia Social Sócio-Histórica A Psicologia Social que veio a ser denominada sócio-histórica surgiu nesse processo de revisão e crítica com vistas à produção de um conhecimento comprome- tido com a transformação social. Como vimos, foram diversos os atores desse processo, que resultou em um conjunto de elaborações teóricas afinadas com a idéia da desnaturalização dos fenômenos sociais. Entretanto, vimos também que Sílvia Lane se des- tacou nesse processo e conduziu um conjunto de pes- quisas e elaborações conceituais que são identificadas como psicologia social sócio-histórica.
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 52 Seus fundamentos epistemológicos, metodológicos e ontológicos já foram mencionados. Decorrem do ma- terialismo histórico e dialético e permitem abordar os fenômenos sociais e psicológicos na sua historicidade. Também mencionamos anteriormente um recorte da obra teórica de Sílvia Lane, que nos permite perceber a coe- rente articulação entre suas proposições teóricas e práti- cas por meio da compreensão de duas importantes ques- tões: a dialética subjetividade-objetividade; e a forma- ção e mudança de valores. A partir desses fundamentos, então, Sílvia Lane de- senvolveu a concepção de uma subjetividade em proces- so dialético, numa dialética subjetividade-objetividade. Teve acesso à obra dos soviéticos Luria, Leontiev e Vigotski e, a partir deles, desenvolveu o estudo das cate- gorias do psiquismo: atividade, consciência e identida- de. Articulou seus estudos sobre linguagem e processo grupal à compreensão das categorias como processos constituídos por mediações. Trabalhou também, nessa perspectiva, com a teoria das representações sociais de Moscovici. Uma pessoa é a síntese do particular e do universal, ou seja, sua individualidade se constitui, necessaria- mente, na relação objetiva com o seu meio físico, geo- gráfico, histórico e social. que irão, através de suas ações, desenvolver, o psiquismo humano constituído, fundamentalmente, pelas categorias: consciência, ati- vidade e afetividade, (trataremos da Identidade num segundo momento). Empiricamente, podemos constatar as mediações constitutivas dessas categorias: as emoções, a lingua- gem e o pensamento, responsáveis pela subjetivação/ objetivação do psiquismo humano. A análise só estará completa se considerarmos o ser humano, ontogeneticamente, como um ser sócio-his- tórico, ou seja, ele se desenvolveu através de ferra- mentas inventadas e de uma linguagem articulada a fim de transmitir a utilidade dessas para os seu pares. Estas relações se dão através da mediação de grupos sociais dos quais um indivíduo participa, necessaria- mente, a fim de garantir sua sobrevivência, assim, além de adquirir a linguagem produzida por esta socieda- de, desenvolve o pensamento, os afetos e sentimentos. É neste processo de interação que se desenvolve a sua Identidade, como categoria constitutiva de seu psiquismo. Indivíduo e Sociedade são inseparáveis, segundo a dialética, pois o particular contem em si o universal, deste modo, se desejamos conhecer cientificamente o ser humano, é necessário considerá-lo dentro do con- texto histórico, inserido em um processo constante de subjetivação/objetivação. Nosso organismo é estimulado a todo momento: per- cebemos, sentimos, reagimos, refletimos e agimos, objetivando a nossa subjetividade a qual por sua vez se transforma, num processo constante, de metamor- fose, isto se não nos deixarmos cristalizar por papéis desempenhados sem uma reflexão crítica. (Lane, 2002, p. 12). Nesta síntese, toda a riqueza das formulações teóri- cas de Sílvia Lane pode ser percebida. Estão aí coloca- das as suas principais contribuições: devemos compre- ender o psiquismo como processo constante, um proces- so constituído na vida concreta, por meio das ações, vivências, experiências do indivíduo e por meio de suas relações. Processo contraditório, revelador da dinâmica entre a totalidade social e a particularidade das situações individuais, entre o universal e o singular das experiên- cias humanas. E processo protagonizado por sujeitos his- tóricos, que, por serem sujeitos trazem emoção, refle- xão, ação, movimento. A produção de Sílvia Lane não se desviou, em ne- nhummomento,deseupropósitomaior:desenvolveruma psicologia que contribua com a transformação da socie- dade. A compreensão dos aspectos psicológicos como constituídos em uma dialética subjetividade-objetivida- de traz a possibilidade de superar explicações que ape- nas justapõem indivíduo e sociedade e permite que, ao se falar do sujeito, fale-se, necessariamente, da realida- de social da qual participa. E compreender que ambos, sujeito e sociedade estão em um movimento que tem por base as contradições do processo histórico, significa po- der apontar as possibilidades de transformação. O aprofundamento dessa perspectiva, podemos di- zer, encontra-se com outra vertente importante da obra de Sílvia Lane: como se constituem e qual o papel dos valores no processo subjetivo-objetivo ou na relação in- divíduo-sociedade. Seus estudos iniciais sobre a dimen- são valorativa presente nos significados das palavras, investigações realizadas com o diferencial semântico de Osgood, ampliaram-se com as noções de significado so- cial e sentido pessoal, desenvolvidas a partir de Leontiev e Vigotski, no estudo da linguagem como mediação no processo atividade-consciência. Posteriormente, essas investigações desenvolveram-se com os estudos sobre emoções e a postulação da categoria afetividade. Em relação à linguagem, Sílvia Lane sempre apon- tou a necessidade de se considerar os aspectos ideológi- cos presentes na construção de significados. Dessa ma- neira, pôde desenvolver a compreensão da linguagem comomediaçãonoprocessodeconsciênciafazendoclara referência ao lugar social ocupado pelo indivíduo e às determinações históricas a que está sujeito. Ao mesmo tempo, considerar o indivíduo também como produtor de sentidos recoloca-o em posição ativa, mesmo que de maneira contraditória. Na verdade, a investigação da ar- ticulação entre significados sociais e sentidos pessoais
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    Psicologia & Sociedade;19, Edição Especial 2: 46-56, 2007 53 possibilitada pela atividade, concretiza a investigação da dialética subjetividade-objetividade. A análise que Leontiev faz da aprendizagem da língua materna aponta para dois processos que se interli- gam necessariamente: se, por um lado, os significa- dos atribuídos às palavras são produzidos pela coleti- vidade no seu processar históricos e no desenvolvi- mento de sua consciência social e, como tal, se subor- dinam às leis histórico-sociais, por outro, os signifi- cados se processam e transformam através de ativi- dades e pensamentos de indivíduos concretos e assim se individualizam, se ‘subjetivam’, na medida em que ‘retornam’para a objetividade sensorial do mundo que os cerca, através das ações que eles desenvolvem con- cretamente. Desta forma, os significados produzidos historicamen- te pelo grupo social adquirem, no âmbito do indiví- duo, um ‘sentido pessoal’, ou seja, a palavra se rela- ciona com a realidade, com a própria vida e com os motivos de cada indivíduo. (Lane, 1984b, p. 32-33). A linguagem, produção ao mesmo tempo social e individual é expressão da síntese e do movimento entre sujeito e realidade. Significado e sentido, como unidade de contrários, ao mesmo tempo revelam e possibilitam e concretizam a dialética subjetividade-objetividade. O desenvolvimento dos estudos sobre as categorias do psiquismopossibilitouqueSílviaLaneavançassenacom- preensão da emoção e da criatividade. São os desafios que sempre se propôs a enfrentar e de maneira coerente: é necessário compreender o que permite ao homem se implicar, se reconhecer como sujeito, compreender as determinações a que está sujeito e as formas de agir so- bre elas. É necessário compreender o que impede e o que permite ao homem agir para transformar a realidade de forma libertadora e emancipadora. Por isso, a necessidade de pesquisar como surgem, se mantém e se modificam as emoções. A afetividade é também categoria fundamental do psiquismo, formula- ção de Sílvia Lane para indicar a ligação do indivíduo com o contexto social para além de um reconhecimento cognitivo. O ser humano é um todo – fisiologia e psicologia são manifestações de uma mesma totalidade. Assim como as funções fisiológicas estão integradas, também as psicológicas interagem, desenvolvendo funções psiconeurológicas superiores que ampliam a capaci- dade humana. Em síntese, ele é produto de um longo processo histórico, no qual as mediações das emoções, da linguagem, do pensamento e dos grupos sociais constituem a subjetividade: consciência, atividade, afetividade e identidade. Essa subjetividade, em sua unidade dialética com a objetividade, permite o desenvolvimento de valores morais, éticos e estéticos. (Lane, 1999, p. 119). Exatamente por trazer a questão dos valores e sua constituição na dialética subjetividade-objetividade, sem perder de vista a inserção histórica do indivíduo é que Sílvia Lane realizou uma psicologia social que desven- dou a unidade contraditória entre indivíduo e sociedade. A psicologia social sócio-histórica coloca-se como uma psicologia que não aceita o que constata, mas uma psi- cologia social que se posiciona, porque o reconhecimento da historicidade dos fenômenos que estuda assim o per- mite. Coerente com a visão de que o conhecimento e a in- tenção prática em relação ao objeto não se separam, Síl- via Lane nos deixou desafios: avançar na pesquisa sobre a maneira como os indivíduos se implicam ou não com sua própria realidade é compromisso ético de quem se dedica à Psicologia. Procurei entender, primeiro, como se formam os valo- res nos seres humanos, como eles se dão e orientam o cotidiano das pessoas. . . Esse é o desafio, esmiuçar como se dão os processos, não só na formação de va- lores, mas na mudança de valores. Sem esquecer que eles vêm carregados de muita história – a familiar, a social – e não é fácil mudar. A não ser que a pessoa assuma, realmente, uma reflexão crítica . . . Aí surge outro dilema, outra contradição: entre imaginação e fantasia. A fantasia leva à alienação, é destrutiva, por- que perde os vínculos com o real, enquanto que a ima- ginação tem os pés no real, no cotidiano. Outro desa- fio que surgiu há pouco tempo é a apatia, o desinte- resse. Alguém indiferente às coisas está negando a própria vida, a emoção, o afeto! Isso é terrível! Como se forma um sentimento de indiferença? Ele é a mor- te, é virar um robô. São desafios nos quais temos que nos aprofundar, pesquisar. Se assumirmos que a trans- formação social só se dará eticamente, quem mais do que nós, psicólogos, tem essa arma na mão? É exata- mente esse pensar ético que deve estar presente onde o psicólogo estiver atuando. (Lane, 2000). Um pensar ético, um compromisso ético que alia o conhecimento com a ação. A proposta, o desafio de pesquisar para poder interferir, atuar para que os homens sejam sujeitos, não sejam robôs. Para que os homens se envolvam, não sejam indiferentes. O referencial da psi- cologia social sócio-histórica, ao apontar a historicidade constitutiva dos fenômenos, ao apontar sua gênese con- traditória permite apontar ações de superação, permite usar o conhecimento de forma posicionada. Uma Psicologia Atenta ao Contexto Social ou “Toda a Psicologia é Social” 4 Cabe destacar, ainda, a questão do “social” que ca- racteriza e nomeia a Psicologia de Sílvia Lane. A noção teórica que nos faz colocar o epíteto de social na psico- logia merece atenção de todos nós, pois ele não tem o mesmo sentido em todos os lugares onde aparece.
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 54 É fácil que ocorra nas áreas de conhecimento a acei- tação de nomenclaturas que refletem mais a acomoda- ção dos interesses de seus construtores do que a clareza na delimitação de suas possibilidades e obrigações. Tal é o caso, por exemplo, da Psicologia Social estadunidense que, a despeito de contar uma enorme produção de arti- gos e livros, ainda na década de setenta tinha vários au- tores que afirmavam ser prejudicial tentar qualquer defi- nição de seu escopo porque isso tiraria a liberdade das pessoas que estavam engajadas na sua construção. Isto é, para essas pessoas a indefinição era a forma de manter aquela Psicologia Social. Pois é possível afirmar que tenha sido exatamente a exigência de esclarecer o que seria o social na psicolo- gia que tenha gerado no Brasil a possibilidade de desen- volvimentos que diferenciaram de forma tão significati- va seus contornos e projetos de pesquisa e de atuação. Essa exigência permitiu que a inserção do grupo de tra- balho que Sílvia Lane compunha, ganhasse uma nova qualidade, pois foi diferente daquela mais comum nos grupos então atuantes no Brasil. Não se tratava de apli- car ou proceder a algum desenvolvimento marginal na Psicologia, decorrente da apropriação do pensamento psicológico encontrado pronto em outros países. Era pre- ciso indicar claramente a partir de qual solo se estava trabalhando e, já aí, produzir algo novo, uma vez que adequado a este solo específico. A inserção de seu grupo de trabalho foi diferente porque eles se comportavam como construtores da Psi- cologia. A exigência de nomear sua produção pode ter sido importante para que o comportamento desse grupo não fosse reprodutor, ou aplicador, ou pregador, ou repetidor, ou defensor de algo que lhes havia sido man- dado desde algum lugar supostamente especial onde a Psicologia brotava de forma mais espontânea do que nas terras tupiniquins. A Psicologia era algo que precisava ser construído e essa tarefa cabia a cada uma das pesso- as que participavam desse debate. Claro que muitas das iniciativas surgiram a partir do exercício da crítica ao conhecimento que era encontrado pronto.A partir desse exercício crítico, houve recusas de várias ordens às concepções advindas de outras plagas. Por exemplo, a recusa de que o epíteto “social” fosse simplesmente agregado aos diferentes tópicos aborda- dos pela Psicologia tradicional. Assim, para ser social não bastava tratar de uma possível “percepção social”, consoante com uma Psicologia que por tanto tempo es- tudara um conceito que ela denominava de percepção individual. Também não bastava colher para exame al- gum evento grupal e aplicar sobre ele um procedimento de exame estabelecido para fenômenos individuais. Nos debates em sala de aula, na busca de encontrar elementos fundamentais dessa perspectiva social, houve algum momento de radicalização, talvez pueril, “apa- rentemente” desnecessária, nessa caracterização. Tal é o caso da exigência de que a produção dessa psicologia tivesse que ocorrer sempre de forma coletiva.Assim, para ser coerente com as exigências de construção de uma psicologia social, seria preciso que seus textos fossem produzidos de forma claramente social e grupal. O ter- mo “aparentemente” vem entre aspas porque parece re- fletir uma exigência importante, ainda que formulada em sala de aula de forma pouco precisa, qual seja a de que a instauração de uma psicologia efetivamente comprome- tida com as necessidades do povo brasileiro seria tarefa decoletivosdepsicólogoscomprometidoscomessapers- pectiva. Vale ressaltar um elemento caracterizador desse so- cial que resume o que se apresenta aqui. Tratava-se de situar cada evento, cada pessoa, cada iniciativa em seu contexto social. O social não seria simplesmente um acréscimo ao que a Psicologia já sabia fazer. Tampouco significava uma defenestração do que fora produzido até então. Ele teria que ser uma fonte de renovação dessa Psicologia, sua capacitação para enfrentar os desafios que a sociedade lhe propunha e produzir respostas às questões que realidade lhe impunha. Nessa perspectiva, o psicólogo social não seria so- mente aquele que trabalharia com problemas ou situa- ções de caráter social ou grupal. Um psicólogo clínico (em atendimento individual, em consultório particular), seria também um psicólogo social. Para isso, bastaria que ele procedesse em seu trabalho ao exercício de contextua- lização do seu cliente no seu momento social e histórico. Na medida em que as fontes explicativas e os resultados obtidos tivessem um caráter de habilitação de cada pes- soa para atuar e transformar sua realidade (isto é, parti- cipar dos processos de transformação), esse trabalho poderia ser considerado como de psicologia social. A atenção ao contexto do fazer humano foi uma for- ma de inserir no campo de visão da Psicologia aquilo que nos anos setenta era chamado de “realidade brasilei- ra”. Diante do reconhecimento de que a Psicologia se desenvolvera quase sempre sem atentar para as necessi- dades, virtudes e problemas vividos pela maioria da po- pulação brasileira, o contexto a que se deveria dar aten- ção era o contexto econômico, histórico e social onde viviam os brasileiros. Neste sentido é que a expressão “toda a psicologia é social” ganha uma possibilidade de compreensão fértil para o projeto de construção de uma psicologia social efetivamente adequada aos povos brasileiro e latino-ame- ricano. É possível afirmar que essa compreensão, do que seja o social na Psicologia, tenha se mantido válida até o fim da vida de Sílvia Lane. Seu entusiasmo e disposição para
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    Psicologia & Sociedade;19, Edição Especial 2: 46-56, 2007 55 colaboração, nas mais diferentes iniciativas, se reacenderam quando percebeu que um movimento, com essas características, ganhava espaço na Psicologia Bra- sileira. Ao longo da última década, Sílvia não poupou esforços para colaborar. Uma Psicologia com Compromisso Social: Uma Herança de Sílvia Lane Para finalizarmos este artigo, cabe fazer a relação da Psicologia Social produzida sob a orientação e empenho da Profa. Sílvia Lane, com o projeto, hoje existente, de uma Psicologia com compromisso social. Sílvia Lane tem sua produção e seu exercício, como professora, marcados pela certeza de que a Psicologia deveria se produzir de forma a ser útil para a transforma- ção da realidade social em nossos países de Terceiro Mundo. Perseguiu isto como uma obsessão e sem des- cuidar de dar-lhe forma acadêmica e rigor científico. Buscou métodos, instrumentos, conceitos e teorias que pudessem dar conta disto. Não se acomodou e nem mes- mo se satisfez com o que estava posto em cada momen- to. Cada certeza era o início de um novo momento de dúvidas e buscas. Sílvia Lane dialogou com todos; acei- tou desafios e acolheu sugestões e iniciativas de seus alu- nos. Produziu coletivamente com eles, talvez seus prin- cipais interlocutores. A única certeza de que nunca abriu mão foi a da necessidade da produção de uma ciência com compromisso social. Nunca se importou com rótu- los e com passeios por diferentes teorias, porque busca- va outra coisa: um conhecimento capaz de falar da vida vivida e de apresentar possibilidades de contribuição para a transformação das condições de vida na busca da dig- nidade. Qualquer tema poderia ser eixo das pesquisas que seus orientandos traziam, mas todos deveriam lhe responder: qual a realidade que quero contribuir para mudar? Esta intransigência ética marcou seu trabalho de pes- quisadora e professora. Deixou para a Psicologia uma obra importante nesta direção. Mas, mais do que isto, ela deixou um conjunto de psicólogos e pesquisadores, em sua maioria identificados com a ABRAPSO, que bus- cam de vários lugares teóricos produzir uma nova Psico- logia: uma psicologia com compromisso social com a realidade brasileira e da América Latina. Isto nos permi- te afirmar que Sílvia Lane mudou os rumos da Psicolo- gia no Brasil e permitiu a construção de um novo projeto para a ciência e para a profissão. Notas 1. Para uma crítica profunda desse modelo veja Bock, Ana M. B. (1997). As aventuras do Barão de Münchhausen na Psi- cologia: Um estudo sobre o significado do fenômeno psico- lógico na categoria dos psicólogos. Tese de doutorado não- publicada, Programa de Psicologia Social, Pontifícia Uni- versidade Católica de São Paulo. 2. Veja Bonfim, Elizabeth. Psicologia Social no Brasil; Freitas, Mª de Fátima Q. (1996, jan./jun.). Contribuições da Psicolo- gia Social e Psicologia Política ao desenvolvimento da Psi- cologia Social Comunitária: Os paradigmas de Sílvia Lane, Ignacio Martín-Baró e Maritza Montero. Psicologia & Soci- edade, 1(8), e também os próprios Anais do I Encontro Regi- onal de Psicologia na Comunidade (1981, set.), São Paulo, ABRAPSO, no qual Alberto Abib Andery relata a experiên- cia dos estágio em Osasco. 3. Dados sobre estas iniciativas podem ser encontrados em pu- blicação de Bader Sawaia (2002). Sílvia Lane: Vol. 8. Cole- ção Pioneiros da Psicologia Brasileira, de iniciativa do Con- selho Federal de Psicologia, Brasília, DF: Imago. 4. Esta afirmação citada entre aspas está presente em texto de Sílvia Lane publicado em 1984 –Psicologia Social: O ho- mem em movimento – pela Ed. Brasiliense, organizado por ela e por Wanderley Codo (Lane, 1984a). Referências Ciampa, A. C. (1987). A estória do Severino e a história de Severina: Um ensaio de Psicologia Social. São Paulo, SP: Brasiliense. Lane, S. T. M. (1984a). A Psicologia Social e uma nova concep- ção de homem para a Psicologia. In S. T. M. Lane & W. Codo (Eds.), Psicologia Social: O homem em movimento (pp. 10-19). São Paulo, SP: Brasiliense. Lane, S. T. M. (1984b). Linguagem, pensamento e representa- ções sociais. In S. T. M. Lane & W. Codo (Eds.), Psicologia Social: O homem em movimento (pp. 32-39). São Paulo, SP: Brasiliense. Lane, S. T. M. (1999). Os fundamentos teóricos e conclusões. In S. T. M. Lane & Y. Araújo (Eds.), Arqueologia das emoções (pp. 11-33, 119-120). Petrópolis, RJ: Vozes. Lane, S. T. M. (2000, maio/jun.). Diálogos: Uma psicologia para transformar a sociedade [Entrevista]. PSI Jornal de Psicolo- gia, São Paulo, 18(122), 4-6. Lane, S. T. M. (2002). A dialética da subjetividade versus a obje- tividade. In O. Furtado, Odair & F. González-Rey (Eds.), Por uma epistemologia da subjetividade: Um debate entre a teoria sócio-histórica e a teoria das representações sociais (pp. 11-17). São Paulo, SP: Casa do Psicólogo. Lane, S. T. M., & Sawaia, B. B. (1995). La Psicologia Social Comunitária en Brasil. In E. Wiesenfeld & E. Sánchez (Eds.), Psicologia Social Comunitaria: contribuciones Latinoame- ricanas (pp. 69-116). Caracas, Venezuela: Fondo Tropykos. Sawaia, B. (1987). A consciência em construção no trabalho de construção da existência. Tese de Doutorado não-publicada, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Sawaia, B. (2002). Sílvia Lane: Vol. 8. Coleção Pioneiros da Psicologia Brasileira. Rio de Janeiro, RJ: Imago.
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    Bock, A.M.B.; Ferreira,M.R.; Gonçalves, M.G.M.; Furtado, O. “Sílvia Lane e o Projeto do ‘Compromisso Social da Psicologia’” 56 Ana Mercês Bahia Bock é Psicóloga e Professora titular da Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), ministrando aulas na graduação e no programa de Pós-Graduação em Educação: psicologia da educação. É presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP) gestão 2004/2007. Foi orientanda no mestrado e no doutorado da Profa. Sílvia Lane. Endereço para correspondência: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Rua Monte Alegre, 984, São Paulo, SP, 05014-001. psicopuc@pucsp.br Marcos Ribeiro Ferreira é Psicólogo e Professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Formou-se em Psicologia e obteve título de doutor na PUC-SP. É presidente da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia gestão 2005/2007. Endereço para correspondência: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia, Florianópolis, SC, 88040-970. psico@cfh.ufsc.br Maria da Graça M. Gonçalves é Psicóloga, Professora de Psicologia Social na Faculdade de Psicologia da PUC-SP; diretora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, gestões 2001/2005; 2005/2009; presidente do Conselho Regional de Psicologia (CRP) gestão 2004/2007. Foi orientanda da Profa. Sílvia Lane no doutorado. Odair Furtado é Psicólogo e Professor associado na Faculdade de Psicologia da PUC-SP, ministrando aulas na graduação e na Pós-Graduação em Psicologia Social. Foi orientando da Profa. Sílvia Lane. Foi presidente do CFP gestão 2001/2004. Sílvia Lane e o Projeto do “Compromisso Social da Psicologia” Ana Mercês Bahia Bock, Marcos Ribeiro Ferreira, Maria da Graça M. Gonçalves, Odair Furtado Recebido: 23/05/2007 1ª revisão: 20/07/2007 Aceite final: 14/09/2007
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    51 Psicologia: Teoria ePesquisa 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 51-64 A Psicologia Social Contemporânea: Principais Tendências e Perspectivas Nacionais e Internacionais Maria Cristina Ferreira1 Universidade Salgado de Oliveira RESUMO - O presente trabalho faz um balanço do estado atual da Psicologia Social, no plano nacional e internacional. Para tanto, faz uma revisão inicial das principais tendências que marcaram a evolução da Psicologia Social na América do Norte, para, em seguida, apresentar as características atuais mais relevantes dessa disciplina na América do Norte, na Europa e na América Latina. Em seguida, detém-se na análise da recente produção brasileira em Psicologia Social. À guisa de conclusão, discute os desafios futuros que se colocam à produção nacional na área de Psicologia Social, especialmente no que diz respeito a seu impacto no cenário acadêmico internacional. Palavras-chave: Psicologia Social; Psicologia Social Psicológica; Psicologia Social Sociológica; Psicologia Social Crítica. Contemporary Social Psychology: National and International Main Trends and Perspectives ABSTRACT – This paper revises the current state of the art of Social Psychology in Brazil and abroad. For such, it initially reviews the main trends that influenced the evolution of North American Social Psychology, and presents the most relevant current characteristics of the discipline in North America, Europe and Latin America. Then, an analysis of the recent Brazilian publications in Social Psychology is offered. In conclusion, it discusses the future challenges of Brazilian scientific production in the area of Social Psychology, especially with respect to its impact on the international academic scenario. Keywords: Social Psychology; Psychological Social Psychology; Sociological Social Psychology; Critical Social Psychology. 1 Endereço para correspondência: Rua Marquês de Valença, 80 Apto. 602. Rio de Janeiro, RJ. CEP 20550-030. E-mail: mcris@centroin. com.br. No decorrer de sua breve história, a Psicologia Social tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de abordagens teóricas adotadas como referenciais legítimos à produção de conhecimentos sociopsicológicos. Tal contexto tem dificultado sobremaneira a delimitação do objeto de es- tudo ou mesmo dos vários objetos de estudo dessa disciplina. Contudo, o binômio indivíduo-sociedade, isto é, o estudo das relações que os indivíduos mantêm entre si e com a sua sociedade ou cultura, sempre esteve no centro das preocu- pações dos psicólogos sociais, com o pêndulo oscilando ora para um lado, ora para o outro. Assim é que, em seus primórdios, a Psicologia Social adotou uma abordagem eminentemente molar, dedicando- se prioritariamente ao estudo dos processos socioculturais e concebendo o indivíduo como integrante desse sistema. Com o passar do tempo, porém, ela foi progressivamente adotando níveis mais moleculares de análise e se tornando mais indi- vidualista, ao se focalizar cada vez mais na investigação de processos intraindividuais. Em reação a tal individualização, a Psicologia Social irá assistir a outras mudanças de rumo, responsáveis pelo desenvolvimento de abordagens que se voltam novamente para a análise de eventos e processos histórica e culturalmente situados e dinâmicos. A ênfase maior dada ao indivíduo ou à sociedade fez com que diferentes autores (House, 1977; Stephan & Ste- phan, 1985) começassem a defender a existência de duas modalidades de Psicologia Social: a Psicologia Social Psicológica e a Psicologia Social Sociológica. A Psicologia Social Psicológica, segundo a definição de G.Allport (1954), que se tornou clássica, procura explicar os sentimentos, pensamentos e comportamentos do indivíduo na presença real ou imaginada de outras pessoas. Já a Psicologia Social Sociológica, segundo Stephan e Stephan (1985), tem como foco o estudo da experiência social que o indivíduo adquire a partir de sua participação nos diferentes grupos sociais com os quais convive. Em outras palavras, os psicólogos sociais da primeira vertente tendem a enfatizar principalmente os processos intraindividuais responsáveis pelo modo pelo qual os indivíduos respondem aos estímulos sociais, enquanto os últimos tendem a privilegiar os fenômenos que emergem dos diferentes grupos e sociedades. Para além dessa já hoje clássica divisão, a Psicologia Social desdobrou-se, mais recentemente, em outra vertente, qual seja a Psicologia Social Crítica (Álvaro & Garrido, 2006) ou Psicologia Social Histórico-Crítica (Mancebo & Jacó-Vilela, 2004), expressões que abarcam, na realidade, diferentes posturas teóricas. Assim é que, de acordo com Hepburn (2003), tanto o Socioconstrucionismo (Gergen, 1997) e a Psicologia Discursiva (Potter & Wetherell, 1987), como a Psicologia Marxista, o pós-modernismo e o femi- nismo, entre outros, contribuem atualmente para o campo da Psicologia Social Crítica. Tais perspectivas guardam em comum o fato de adotarem uma postura crítica em relação às instituições, organizações e práticas da sociedade atual, bem
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    52 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira como do conhecimento até então produzido pela Psicologia Social a esse respeito. Nesse sentido, colocam-se contra a opressão e a exploração presentes na maioria das sociedades e têm como um de seus principais objetivos a promoção da mudança social como forma de garantir o bem-estar do ser humano (Hepburn, 2003). A evolução da Psicologia Social, nas diferentes partes de mundo, vem ocorrendo, de certa forma, associada às várias modalidades ou vertentes da disciplina. Assim é que, na América do Norte, e mais especialmente nos Estados Unidos da América, a Psicologia Social Psicológica foi e continua sendo a tendência predominante. Já na Europa, é possível se notar uma preocupação maior com os processos grupais e socioculturais, que sempre estiveram na base das preocupações da Psicologia Social Sociológica. Por outro lado, na América Latina, verifica-se a adoção da Psicologia Social Crítica como abordagem preferencial à análise dos graves problemas sociais que costumam assolar a região. O objetivo do presente trabalho é fazer um breve balanço do estado atual da Psicologia Social, no plano nacional e internacional. Para tanto, inicia-se com uma breve revisão das principais tendências teóricas e temáticas que marcaram a evolução da Psicologia Social na América do Norte, para, em seguida, discutir as características mais relevantes da dis- ciplina na atualidade, no contexto norte-americano, europeu e latino-americano. Posteriormente, detém-se na análise da recente produção brasileira em Psicologia Social, procuran- do compará-la com as tendências anteriormente apontadas. À guisa de conclusão, discute os desafios futuros que se colocam à produção nacional dessa área de conhecimento, especialmente no que diz respeito à sua visibilidade e impacto no cenário acadêmico internacional. A Psicologia Social na América do Norte: Evolução Teórica e Temática Duas obras, publicadas no ano de 1908, irão marcar a fundação oficial da Psicologia Social moderna na América do Norte: o livro Uma introdução à psicologia social, de autoria de William McDougall, e o livro Psicologia social: uma resenha e um livro texto, de autoria de Edward Ross (Pepitone, 1981). Contudo, Ross era sociólogo e McDougall, psicólogo, o que fez com que uma das obras se situasse no âmbito da Sociologia e outra, no escopo da Psicologia, anunciando, já naquela época, a separação ocorrida muito mais tarde entre a Psicologia Social Psicológica e a Psicolo- gia Social Sociológica. Assim é que, durante algum tempo, na América do Norte, a Psicologia Social desenvolveu-se paralelamente no contexto de ambas as disciplinas. Logo, porém, isto é, ainda nas primeiras décadas do século XX, a Psicologia Social Psicológica estabelece-se como a tendência predominante no cenário norte-americano, em especial nos Estados Unidos da América (EUA), sob forte influência do behaviorismo. Exemplo marcante de tal enfoque é o livro texto de Psicologia Social publicado em 1924, por Floyd Allport, considerado um dos mais famosos psicólogos sociais beha- vioristas da época. Ao defender que a Psicologia Social deveria concentrar-se no estudo experimental do indivíduo, na medida em que o grupo constituía-se tão somente em mais um estímulo do ambiente social a que esse indivíduo era submetido, Allport define os contornos da Psicologia Social Psicológica como uma disciplina objetiva, de base experimental e focada no indivíduo (Franzoi, 2007). Os anos de 1920 e 1930 serão dominados pelo estudo das atitudes, da influência social interpessoal e da dinâmica de grupos. No que tange às atitudes, a investigação concentrou- se no desenvolvimento de diferentes técnicas destinadas a mensurar tal constructo tomado como um fenômeno mental (McGarty & Haslam, 1997). No que se refere à influência social e dinâmica de grupos, merecem destaque os experi- mentos realizados por Muzar Sheriff e Kurt Lewin, psicólo- gos europeus que imigraram para os EUAe receberam fortes influências do gestaltismo. Sheriff (1936) estava interessado no processo de formação de normas sociais, tendo chegado à conclusão de que os grupos desenvolvem normas que governam os julgamentos dos indivíduos que dele fazem parte, bem como dos novos membros que a elas também se adaptam, em função das normas grupais existirem à revelia de seus membros individuais. Lewin e seus colegas (Lewin, Lippitt & White, 1939) dedicaram-se à análise da influência dos estilos de liderança e do clima grupal sobre o comportamento dos membros do grupo, tendo observado que o estilo de liderança democrático produzia normas grupais construtivas e independentes, que levavam à realização de um trabalho produtivo, independen- temente da presença ou não do líder. Já a liderança laissez- faire deixava os membros passivos, enquanto os grupos com liderança autocrática tornavam-se agressivos ou apáticos. Dois principais temas marcaram as duas décadas sub- sequentes, que assinalam o período da Segunda Grande Guerra e do pós-guerra: atitudes e percepção de pessoa. A investigação das atitudes, iniciada nos anos 20, prosseguiu nas décadas seguintes com os experimentos de Carl Hovland e sua equipe sobre comunicação e persuasão (Hovland, Ja- nis & Kelley, 1953), que levaram a importantes conclusões acerca dos diferentes fatores que interferiam na mudança de atitudes (Goethals, 2003).Tais estudos, bem como os que lhes sucederam, conferiram às atitudes um papel fundamental no campo da Psicologia Social Psicológica, tendo levado alguns autores (e.g., McGuire, 1968) a afirmar que tal fenômeno constituía-se em conceito central à Psicologia Social. A investigação sobre percepção de pessoas, que até hoje consiste em uma das áreas centrais de estudo da Psicologia Social Psicológica, inicia-se com os trabalhos de Fritz Heider (1944, 1946, 1958), que também imigrou da Alemanha para os EUA durante a Segunda Grande Guerra, e recebeu forte influência do gestaltismo. Na publicação de 1944, o autor realiza o primeiro tratamento sistemático dos processos atri- buicionais (Goethals, 2003), ao lançar o argumento de que os indivíduos associam as ações das pessoas a motivos e dispo- sições internas, em função de perceberem uma justaposição ou gestalt entre o modo pelo qual as pessoas se comportam e a natureza de suas qualidades pessoais. Tal argumento sobre como as pessoas realizam atribuições causais será aprofun- dado no livro de 1958, traduzido para o português com o nome de “Psicologia das Relações Interpessoais”. No artigo de 1946, Heider desenvolve a teoria do equilíbrio, segundo a qual as pessoas tendem a manter sentimentos e cognições
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    53Psic.: Teor. ePesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 Psicologia Social coerentes sobre um mesmo objeto ou pessoa, de modo a obter uma situação de equilíbrio. Quando esse equilíbrio se desfaz, elas vivenciam uma situação de tensão e procuram restabelecê-lo, mediante a mudança de algum dos elementos da situação. Tal princípio encontra-se na base das teorias da consistência cognitiva que irão proliferar nos anos seguintes. Ainda na área de percepção de pessoas, merecem desta- que os estudos de Solomon Asch (1946), que irá aplicar os princípios gestaltistas em seus experimentos sobre a forma- ção de impressões. Seus resultados levam-no a concluir que as informações sobre as características pessoais do outro são organizadas em um todo coerente, que difere da soma das partes e pode ser modificado por peças críticas de informação que provocam a reorganização desse todo.Ademais, a ordem com que as informações são recebidas afeta a formação da impressão global. Os anos de 1950 e 1960 assistem à renovação do interesse pelas pesquisas sobre influência social e processos intergru- pais, conduzidas, sobretudo, sob a liderança de Asch e Leon Festinger. Asch (1952), na esteira dos trabalhos anteriores de Sheriff (1936) sobre formação de normas sociais, já citados, interessa-se pela análise dos processos que levam os indivíduos a se conformarem com as normas do grupo ao realizarem julgamentos, ainda quando se torna evidente que tais julgamentos estão incorretos. Seus estudos sobre conformidade suscitaram uma série de desdobramentos posteriores, relacionados à investigação dos diferentes fato- res que influenciavam tal fenômeno, além de inspirarem os experimentos clássicos de Milgram (1965), sobre obediência à autoridade. Festinger (1954), sob a influência das investigações realizadas por Lewin, propõe a teoria dos processos de com- paração social, na qual defende que as pessoas necessitam avaliar suas habilidades e opiniões a partir de comparações realizadas com outros indivíduos que lhes são similares. A referida teoria suscitou uma série de experimentos, reemergiu algumas vezes ao longo dos anos 70 e encontra-se solida- mente estabelecida no momento atual, sendo usada, de forma recorrente, como mecanismo explanatório dos processos de formação da identidade pessoal e social (Goethals, 2003). Posteriormente, Festinger (1957) introduz a teoria da dis- sonância cognitiva, na qual estabelece que as pessoas são motivadas a procurar o equilíbrio entre suas atitudes e ações. Nesse sentido, quando instadas a mudar seu comportamento, mostram-se propensas a modificar também suas atitudes, de modo a restabelecerem o equilíbrio entre ações e atitudes. Apesar de ter sido alvo de críticas, a referida teoria foi uma das principais responsáveis pelo desenvolvimento da Psico- logia Social Psicológica nas décadas seguintes (Rodrigues, Assmar & Jablonski, 2000), tendo propiciado um grande número de pesquisas experimentais rigorosas, conduzidas com a finalidade de testar seus vários pressupostos. As teorias da atribuição irão dominar o cenário sociopsi- cológico norte-americano a partir do final dos anos de 1960 e durante os anos de 1970 e 1980, numa evidência da ascensão progressiva do cognitivismo no campo da Psicologia Social Psicológica.Apoiando-se nos pressupostos sobre as relações interpessoais antecipados por Heider (1944, 1958), as refe- ridas teorias e seus desdobramentos (Jones & Davis, 1965; Kelley, 1967; Ross, 1977; Weiner, 1986) vão se debruçar sobre os processos cognitivos responsáveis pelos julgamen- tos sociais, isto é, pelos mecanismos que levam o indivíduo a perceber e atribuir causas internas (pessoais) ou externas (situacionais) ao comportamento do outro, bem como sobre os erros e vieses que interferem em tais processos.As inves- tigações desenvolvidas no âmbito das teorias atribuicionais contribuíram não apenas para a elucidação de alguns dos princípios que governam o pensamento social, mas também para a maior compreensão de outros fenômenos psicossociais, como, por exemplo, a depressão e o ajustamento conjugal (Goethals, 2003). A partir dos anos 1980, o cognitivismo se consolida de vez como a perspectiva dominante na Psicologia Social Psi- cológica e no cenário norte-americano. Em consequência, o principal tema de investigação passa a ser a cognição social, que tem como objetivo básico compreender os processos cognitivos que se encontram subjacentes ao pensamento social (Fiske & Taylor, 1984). Adotando tal perspectiva, os psicólogos sociais cognitivistas se dedicam então a fazer uma reanálise de temas que já vinham sendo estudados há algum tempo, procurando agora, porém, desvelar os mecanismos cognitivos subjacentes a tais fenômenos, tendência que se mantém até os dias atuais, conforme será visto mais à frente. A Crise da Psicologia Social na América do Norte A breve descrição da evolução teórica e temática da Psicologia Social norte-americana evidencia que, com o passar do tempo, o modelo de pesquisa-ação orientado para a comunidade e para o estudo dos grupos, introduzido por Lewin ainda nos anos de 1930, foi sendo paulatinamente abandonado e substituído pela investigação de fenômenos e processos eminentemente intraindividuais, de natureza cognitiva. Tendo como meta última a investigação das leis universais capazes de explicar o comportamento social, a Psicologia Social Psicológica estrutura-se progressivamente como uma ciência natural e empírica, que desconsidera o papel que as estruturas sociais e os sistemas culturais exercem sobre os indivíduos (Pepitone, 1981). É nesse contexto que os anos de 1970 irão assistir ao surgimento da chamada “crise da Psicologia Social”, moti- vada pela excessiva individualização da Psicologia Social Psicológica e dos movimentos sociais ocorridos nos anos de 1970 (como o feminismo, por exemplo). Nesse sentido, a crise da Psicologia Social se caracterizou, sobretudo, pelo questionamento das bases conceituais e metodológicas da Psicologia Social Psicológica até então dominante, no que tange à sua validade, relevância e capacidade de generali- zação (Apfelbaum, 1992). Os questionamentos se dirigiam principalmente à sua relevância social, isto é, ao fato dessa vertente da Psicologia Social usar uma linguagem científica cada vez mais neutra e afastada dos problemas sociais reais e, consequentemente, desenvolver modelos e teorias que não eram capazes de con- tribuir para a explicação da nova realidade social que surgia. Adicionalmente, criticava-se a artificialidade dos experimen- tos conduzidos em laboratório, a falta de compromisso ético de seus mentores e a excessiva fragmentação dos modelos teóricos (Jones, 1985).
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    54 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira As críticas referidas suscitaram grande resistência da comunidade científica estabelecida à época. No entanto, contribuíram para o movimento de internacionalização da Psicologia Social, responsável pelo desenvolvimento de uma Psicologia Social Européia, mais preocupada com o contexto social, e, mais recentemente, de uma Psicologia Latino- Americana, voltada prioritariamente para os problemas sociais, a serem abordadas logo após uma breve revisão do atual estado da arte da Psicologia Social naAmérica do Norte. A Psicologia Social na América do Norte: Tendências Atuais Na atualidade, os psicólogos sociais da América do Norte continuam se debruçando sobre temas tradicionais, que já tinham sido objeto de interesse dos que construíram a história da disciplina naquele país, mas também vêm se dedicando a novas temáticas que contribuíram para expandir e diversificar o espectro de fenômenos sociais investigados no contexto norte-americano. De acordo com Ross, Lepper e Ward (2010), em capítulo publicado na quinta e mais recente edição do Handbook of Social Psychology, três tópicos po- dem ser considerados centrais à psicologia social, em função do continuado interesse que vêm despertando, razão pela qual que se encontram presentes na maioria dos livros textos e palestras sobre o assunto. São eles a cognição social, as atitudes e os processos grupais. A esses tópicos, Ross e cols. ainda acrescentam algumas novas vertentes da Psicologia Social que, mais recentemente, vêm também se mostrando promissoras. Entre elas, merecem destaque a Neurociência Social e a Psicologia Social Evolucionista. Uma revisão dos principais desenvolvimentos conceituais e empíricos desses tópicos e vertentes será, então, realizada a seguir, como forma de situar o atual estado da arte da Psicologia Social norte-americana. Cognição social Segundo Carlston (2010), a cognição social pode ser vista atualmente como uma subárea da Psicologia, responsável por integrar uma série de micro-teorias que, ao longo do tempo, foram se desenvolvendo no contexto da Psicologia Social para explicar os modos pelos quais as pessoas pensam sobre si mesmas e sobre as coisas, formam impressões acerca de outras pessoas ou grupos sociais e explicam comportamentos e eventos. Apoiada no modelo de processamento de infor- mação (que considera a atenção e percepção, a memória e o julgamento como diferentes etapas do processamento cognitivo), a cognição social dedica-se, assim, a estudar o conteúdo das representações mentais e os mecanismos que se encontram subjacentes ao processamento da informação social. Ela se focaliza, portanto, nos modos pelos quais as impressões, crenças e cognições sobre os estímulos sociais (o próprio indivíduo, bem como outras pessoas, grupos e eventos sociais) são formadas e afetam o comportamento. No que tange ao conteúdo das representações mentais, a premissa básica é a de que as informações sociais são repre- sentadas cognitivamente sob a forma de estruturas mentais, isto é, de estruturas gerais de conhecimento, construídas, organizadas e estocadas na memória em categorias, com base nas informações obtidas no contato do indivíduo com seu mundo social (Quinn, Macrae & Bodenhausen, 2003). Essas estruturas são denominadas de esquemas sociais, que podem tomar a forma de protótipos (representam os mem- bros mais típicos) ou de exemplares (representam membros individuais), a serem acessados quando necessário. Tal acesso ocorre por meio do processamento da infor- mação social, mediante o qual o percebedor social identifica inicialmente os atributos salientes na pessoa alvo de sua percepção (Quinn & cols., 2003). Em seguida, ele procura na memória as representações mentais ou esquemas similares aos atributos identificados, seleciona o mais apropriado e usa-o para realizar inferências acerca daquela pessoa, armaze- nando na memória de longo prazo a avaliação daí resultante. Subjacente a todo esse processo, há o pressuposto básico de que as pessoas são limitadas em sua capacidade de pro- cessar informações e, por essa razão, utilizam-se de certas estratégias ou heurísticas para lidar com o grande volume e complexidade de informações sociais a que são submetidas em seu dia-a-dia (Pennington, 2000). Com isso, acabam por cometer erros e distorções em seus julgamentos e tomadas de decisão. Algumas questões chaves têm permeado as investigações na área da cognição social (Quinn & cols., 2003). Elas dizem respeito principalmente ao grau em que o processamento cognitivo é automático ou controlado, à influência da moti- vação e do afeto na cognição social e ao fato de a cognição ser abstrata ou situada. No que diz respeito à automaticidade ou não do proces- samento da informação social, os resultados têm apontado que as pessoas podem realizar tanto julgamentos mais espontâneos e automáticos, quanto julgamentos mais cons- cientes e reflexivos, sendo que o uso de um tipo ou outro irá depender principalmente de sua motivação e habilidade em cada situação (Pennington, 2000). Nesse sentido, muitos dos julgamentos sociais ocorrem de forma inconsciente, não intencional, não controlável e demandam pouco da já limitada capacidade humana de processamento. Contudo, fenôme- nos mais complexos podem exigir um processamento mais consciente e controlado, o que irá depender da habilidade cognitiva do percebedor e/ou do fato de o processamento automático mostrar-se contrário a seus objetivos e metas. O debate acerca das influências da motivação e do afeto na cognição social tem permeado essa área de estudos desde seus primórdios. Em que pese o fato de os primeiros psicó- logos sociais cognitivistas terem rejeitado tais influências, as pesquisas mais recentes apontam que os afetos e motivações individuais interagem com as cognições na determinação do comportamento social (Schwarz, 1998). Nesse sentido, fatores motivacionais podem interferir no grau de esforço cognitivo despendido no processamento da informação social, bem como direcionar tal processamento, ao facilitar a ativação de esquemas relevantes às metas do indivíduo (Quinn & cols., 2003). Por outro lado, tem-se também veri- ficado que a codificação, elaboração e julgamento sociais são mediados pelas emoções, na medida em que elas contribuem para a ativação de informações com elas congruentes, além de provocarem reorganizações mentais que se mostrem mais
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    55Psic.: Teor. ePesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 Psicologia Social consistentes com as experiências afetivas individuais (Quinn & cols., 2003). As investigações iniciais na área da cognição social dedi- caram-se, sobretudo, a esclarecer as diferentes características associadas à representação e processamento da informação social, ou seja, seu principal foco era uma cognição social abstrata e vinculada ao que se passava no interior da cabeça do indivíduo. Mais recentemente, porém, os psicólogos sociais cognitivistas passaram a explorar as características da situação social que interferem nas estratégias de proces- samento, ou seja, uma cognição social situada. Com isso, a ênfase se desloca do “pensamento sobre os estímulos sociais” para o “pensamento no contexto social” (Schwarz, 1998). Os resultados iniciais de tais estudos já puseram em evidência que os julgamentos sociais de uma mesma pessoa alvo podem diferir em função dos diferentes indivíduos que realizam tais julgamentos, a depender da natureza das interações de cada um com a pessoa alvo. Desse modo, um conjunto de pessoas interagindo ativamente e compartilhando suas avaliações, transmitirão informações que serão interpretadas e integradas diferentemente por cada percebedor (Smith & Collins, 2009). Entre os principais fenômenos psicossocias investigados atualmente, na perspectiva da cognição social, encontram-se o self, a formação de impressões, a percepção de pessoas e os estereótipos. No contexto do cognitivismo, o self é conceitu- ado como um autoesquema, isto é, como uma representação mental que contém o conhecimento do percebedor acerca de si próprio, no que se refere a suas características de persona- lidade, papéis sociais, experiências passadas e metas futuras (Quinn & cols., 2003).As pesquisas sobre essa temática têm demonstrado que as pessoas diferem em termos dos atributos que consideram centrais à sua autodefinição, das dimensões distintas de seus autoesquemas que podem ser ativadas em si- tuações diversas, das informações relativas a seu autoconceito que são processadas de modo mais completo e que são mais facilmente relembradas, e da forma com que a autodefinição do indivíduo afeta as crenças e expectativas que ele traz para uma determinada situação social. O self decorre, portanto, de um processo flexível e construtivo de julgamento sobre si mesmo, que leva o indivíduo a se apresentar de diferentes maneiras, a depender do ambiente social em que se encon- tra inserido, o que irá contribuir para sua adaptação a esse ambiente (Quinn & cols., 2003). Os estereótipos, a formação de impressões e a percepção de pessoas constituem temas tradicionalmente estudados pela Psicologia Social e centrais à área de cognição social. Em contraste com os autoesquemas, que contêm as estruturas de conhecimento sobre o próprio indivíduo, os estereótipos consistem em esquemas ou representações mentais sobre grupos sociais. Nesse sentido, eles interferem ativamente no processo de formação de impressão e percepção de pes- soas, que é o responsável pela integração de informações e avaliação de outros indivíduos, ou seja, pelas formas com que o percebedor interpreta os indivíduos que o rodeiam. Os achados empíricos mais recentes nesse campo de estudos têm demonstrado que as pessoas costumam realizar inferências iniciais (formação e percepção de pessoa) baseadas em es- tereótipos, o que significa dizer que essas categorias sociais são ativadas de modo automático ou inconsciente, tão logo o percebedor identifica um determinado indivíduo como pertencente a certo grupo social. Posteriormente, dependendo de sua motivação e habilidade, poderá corrigir essa impres- são inicial, com base em informações mais individualizadas e que se mostrem congruentes ou incongruentes com seus estereótipos (Quinn & cols., 2003). Em síntese, a investigação atual na área da cognição social evoluiu progressivamente, de modo a incluir temas não abordados inicialmente, como a automaticidade dos processos sociocognitivos, os afetos e a motivação. Tais avanços contribuíram sobremaneira para ampliar o escopo da teorização e pesquisa nesse campo de estudos, além de alargarem a compreensão da ampla gama de fenômenos res- ponsáveis pela atuação do indivíduo em seu contexto social. Atitudes As atitudes constituem-se em um dos construtos mais antigos no contexto sociopsicológico, embora suas defi- nições nem sempre sejam consensuais. Contudo, alguns temas são recorrentes nas várias definições oferecidas pelos autores, como o fato de elas se encontrarem associadas a diversas manifestações, incluindo-se as crenças, os valores e as opiniões, e de elas envolverem avaliações de objetos sociais (Saucier, 2000). De acordo com Fabrigar e Wegener (2010), as atitudes podem ser conceituadas como avaliações gerais e duradouras, que variam de um extremo positivo a um extremo negativo, dos objetos presentes no mundo social, o que abrange pessoas, grupos, comportamentos etc. Nesse sentido, elas integram as cognições e afetos sobre tais objetos (Crano & Prislin, 2006). A partir de um interesse inicial pelo desenvolvimento de técnicas destinadas a mensurar as atitudes, as investigações nessaáreaevoluírampaulatinamentenabuscademodelosmais sofisticados e capazes de explicar os processos psicológicos responsáveis pela formação e mudança de atitudes, bem como pela consistência entre atitudes e comportamento. Embora as expressões “formação de atitudes” e “mudança de atitudes” sejamfrequentementeusadasemconjunto(formaçãoemudan- ça de atiudades), elas se encontram, na realidade, vinculadas a processos distintos (Crano & Prislin, 2006). Assim é que a formaçãodeatitudescostumaocorrerdeformanãoconsciente, pormeiodeaprendizagemcondicionadaoumedianteameraex- posição a estímulos vivenciados como afetivamente positivos. Amudança de atitudes, por seu turno, costuma ocorrer no plano consciente e vem sendo mais recentemente explicada pelos modelos de processos duais (Chaiken & Trope, 1999), que atualmente dominam a pesquisa na área de persuasão. Tais modelos sustentam que quando os percebedores são competentes e encontram-se adequadamente motivados, eles costumam se engajar em um processo de análise sistemática das mensagens persuasivas. Se elas contiverem argumentos consistentes, isto é, apoiados na realidade e estruturados de maneira lógica e racional, serão capazes de gerar mudanças atitudinais apoiadas em tais argumentos, as quais se mostra- rão duradouras e resistentes a mudanças. Caso, porém, os percebedores estejam desmotivados ou não tenham suficiente habilidade para adequadamente processar as mensagens, eles irão se apoiar em indícios periféricos e mais facilmente accessíveis (da fonte, da mensagem ou da situação) ou em
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    56 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira heurísticas para processar as mensagens. Assim, por exem- plo, eles podem usar como heurística a regra do consenso e, simplesmente, concordar com a maioria. Tais mudanças atitudinais serão, porém, menos estáveis e resistentes à mu- dança. Em síntese, os modelos duais sustentam que a fonte e a mensagem possuem funções distintas e interagem com a motivação e a habilidade na configuração do processo de mudança de atitudes (Crano & Prislin, 2006), isto é, que tal processo depende da motivação e habilidade dos indivíduos para processar informações relevantes à mudança. No que tange à consistência entre atitudes e comporta- mento, os achados mais recentes têm evidenciado que deter- minadas propriedades estruturais das atitudes são responsá- veis pela maior ou menor capacidade de as atitudes preverem o comportamento (Fabrigar & Wegener, 2010). Assim, por exemplo, tem-se verificado que maior consistência entre julgamentos atitudinais e comportamento costuma emergir quando ambos os tipos de respostas se apoiam em inputs ou informações similares (Schwarz, 1998). Adicionalmente, evidências têm sido reunidas sobre o fato de que atitudes mais automáticas costumam predizer comportamentos mais espontâneos, ao passo que atitudes mais deliberadas costu- mam predizer comportamentos mais conscientes (Petty & Briñol, 2010). Por outro lado, mudanças atitudinais apoiadas em processos lógicos, motivados e conscientes apresentam maior probabilidade de influenciar o comportamento (Crano & Prislin, 2006). Um desenvolvimento mais recente no campo das atitudes diz respeito ao uso de medidas implícitas para mensurá-las (Petty & Briñol, 2010).Assim é que, após um longo período dominado pelos instrumentos de autorrelato com foco nas avaliações conscientes e deliberadas dos indivíduos (medidas explícitas) como técnica preferencial de mensuração das atitudes, os pesquisadores têm recorrido cada vez mais à adoção de medidas que captam as avaliações mais automá- ticas e não conscientes (medidas implícitas, como os testes de associações de palavras, por exemplo). Tais avanços têm contribuído sobremaneira para a elucidação das condições em que as atitudes são formadas e modificadas, bem como de suas ligações com o comportamento, conforme brevemente revisto nessa seção. Processos grupais O estudo dos fenômenos grupais tem uma longa história na área da Psicologia Social, tendo se constituído no objeto de preocupações de vários pioneiros da Psicologia norte- americana, como Lewin, Sheriff e Asch. Com o passar do tempo, porém, as investigações nessa área tenderam a se concentrar em níveis cada vez mais micros de análise, que se focalizavam sobremaneira nas qualidades, características e ações dos membros individuais, quando na presença de um grupo. Nesse sentido, pouca atenção foi dada durante algum tempo aos processos dinâmicos que levam o indivíduo a par- ticipar da vida grupal e aos efeitos da não participação, aos processos que levam o grupo a modificar o comportamento de seus membros e a agir como uma unidade autônoma e dife- renciada de qualquer um de seus membros etc., especialmente no contexto norte-americano (Forsyth & Burnette, 2010). Mais recentemente, porém, avanços realizados em me- todologias de análises de dados que consideram o grupo uma unidade autônoma e não uma soma de indivíduos têm propiciado avanços consideráveis no estado atual do conhecimento sobre os processos grupais. Nesse sentido, Moura, Leader, Pelletier eAbrams (2009), em levantamento recente sobre o estado da pesquisa sobre grupos, realizado em alguns dos periódicos norte-americanos e europeus mais citados na área de Psicologia Social, concluíram que um terço das publicações nesses periódicos continha pesquisas na área de processos grupais, o que evidencia o vigor que a referida temática continua tendo no contexto das investiga- ções psicossociais. Neurociência social A área de Neurociência Social, assim cunhada pela pri- meira vez por Cacioppo e Berntson (1992), surge movida principalmente pelo interesse de investigar as possíveis associações existentes entre a cognição social e as funções cerebrais, com o intuito de compreender o papel desem- penhado pelas estruturas neurais no processamento da informação social (Adolphs, 2009). O pressuposto básico é, portanto, o de que determinados mecanismos neurocerebrais são responsáveis pelo raciocínio social, isto é, que existem determinadas estruturas cerebrais especializadas nas ativi- dades de autopercepção e percepção dos demais indivíduos e grupos sociais, bem como nas ações que permitem a vida em sociedade (Heatherton & Wheatley, 2010). Em resumo, a Neurociência Social dedica-se à análise das bases neuro- biológicas da cognição social. O advento de novas técnicas de imagens neurais, em especial a ressonância magnética funcional, tem permitido a localização precisa de diferentes estruturas cerebrais e proporcionado consideráveis avanços à Neurociência So- cial, apesar de tal área ainda se encontrar na infância. Nesse sentido, evidências já disponíveis apontam que determinadas regiões do córtex cerebral superior são especializadas em determinados processos sociocognitivos, como, por exem- plo, a percepção de si mesmo, a detecção e compreensão de faces, vozes e movimentos humanos, a percepção de senti- mentos dos outros, a atribuição de estados mentais ao outro etc. (Grande-García, 2009). Por essa razão, lesões cerebrais nessas áreas podem afetar negativamente os julgamentos e interações sociais. Assim, por exemplo, a meta-análise realizada por Overwalle (2009) reuniu evidências de que a percepção de estados mais temporários (metas, desejos e intenções) está relacionada à ativação da junção parietal temporal, enquanto a inferência de disposições mais duradouras ou de normas e eventos interpessoais encontra-se associada à ativação do córtex pré-frontal medial, ainda que alguns estados temporários possam também ativá-lo. Tais dados levaram o autor a concluir que esses dois substratos neurais vinculam-se particularmente à cognição social. Contudo, Adolphs (2009) adverte que cognição social também é sensível ao contexto, o que faz com que a interface entre cérebro e cognição social seja modulada pelo contexto social e pelo autocontrole volitivo.
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    57Psic.: Teor. ePesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 Psicologia Social A Neurociência Social pode ser vista como um campo promissor de investigação na área de Psicologia Social que poderá indubitavelmente contribuir para maior compreensão do comportamento social. Para tanto, será, porém, necessário avançar em uma série de questões que até o momento ainda não foram suficientemente esclarecidas pelos estudos que vêm sendo conduzidos sob essa perspectiva. Assim é que a análise das inter-relações entre cérebro e comportamento social tem se limitado até aqui à consideração de processos intraindividuais e situacionais, o que lança dúvidas sobre a efetividade de tal abordagem para o estudo de fenômenos que se encontram na convergência de variáveis individuais e macrossociais, como, por exemplo, os processos intergrupais (Dovidio, Pearson & Orr, 2008). De todo modo, ela poderá atuar como uma perspectiva complementar a outras mais apropriadas à investigação das influências macrossociais na conduta social. Psicologia social evolucionista A Psicologia Social Evolucionista tem suas origens na teoria da evolução genética de Darwin, segundo a qual a evolução das espécies se dá com base em um ciclo que inclui a variação, a competição e a hereditariedade. Desse modo, as espécies apresentam variações em suas características cons- tituintes e habilidades para lidarem com seu meio ambiente. Como os recursos à vida dessas espécies que se encontram disponíveis no meio ambiente são escassos, somente aquelas dotadas de maiores habilidades competitivas irão conseguir sobreviver, bem como transmitir tais habilidades para a gera- ção seguinte. Em gerações sucessivas, mudanças nas espécies acabam por ocorrer no sentido de acentuarem cada vez mais essas capacidades de sobrevivência (Mesoudi, 2009). Apoiando-se em tais pressupostos, os psicólogos sociais evolucionistas defendem que processos similares à evolução genética operam na transmissão da cultura. Postula-se, assim, que os diferentes grupamentos humanos variam em suas crenças e valores culturais, e que, em função de recursos cognitivos limitados, algumas dessas variantes culturais são mais prováveis de serem aprendidas e lembradas, em geral aquelas transmitidas por modelos mais proeminentes (pais, celebridades etc.). Nesse sentido, a transmissão da cultura se dá por meio de processos de imitação e aprendizagem social, por meio dos quais ocorre a seleção natural dos valores a serem transmitidos à outra geração (Mesoudi, 2009). De acordo com Maner e Kenrich (2010), a Psicologia Social Evolucionista não se opõe às tradicionais teorias da Psicologia Social, mas, ao contrário, procura explicar alguns resultados controversos obtidos em diferentes áreas psicossociais. Para tanto, apoia-se no pressuposto de que muitos pensamentos, sentimentos e comportamentos sociais encontram-se associados a mecanismos biológicos que in- teragem de forma dinâmica com processos psicológicos e de aprendizagem, no interior de uma determinada cultura. Nesse sentido, vários temas abordados pela Psicologia Social Psicológica têm sido re-examinados sob a perspectiva da Psicologia Social Evolucionista, como, por exemplo, as rela- ções interpessoais e intergrupais, com resultados promissores que evidenciam a pertinência e propriedade de se utilizar tal abordagem de forma complementar, na investigação de determinados fenômenos psicossociais (Maner & Kenrich, 2010; Mesoudi, 2009). A Psicologia Social na Europa: Evolução e Tendências Atuais Apesar de a Psicologia Social europeia ter inicialmente caminhado lado a lado com a Psicologia Social Psicológica, ela começou, a partir dos anos 1970 e motivada pela crise da Psicologia Social na América do Norte, a adquirir sua própria identidade e a demonstrar maior preocupação com a estrutura social. Desde então, ela vem crescendo pro- gressivamente em tamanho e influência. Entre os temas de estudo mais frequentes no contexto europeu encontram-se a identidade social, que se insere principalmente no contexto das relações intergrupais, e as representações sociais, que remetem a uma psicologia dos grupos e coletividades. Tais temas serão revistos a seguir, como forma de contextualizar a Psicologia Social européia. Identidade social A teoria da identidade social surge na literatura sociop- sicológica com Henri Tajfel, da Universidade de Bristol, na Inglaterra, e seus colaboradores (Tajfel, 1981; Tajfel & Turner, 1986), que procuraram enfatizar a dimensão social do comportamento individual e grupal, ao postularem que o indivíduo é moldado pela sociedade e pela cultura. Nesse sentido, defendem que as relações intergrupais estão intima- mente relacionadas a processos de identificação grupal e de comparação social. A teoria da identidade social apoia-se em três postula- dos básicos: (1) o autoconceito é derivado da identificação e pertença grupal; (3) as pessoas são motivadas a manter uma autoestima positiva; (3) as pessoas estabelecem uma identidade social positiva mediante a comparação favorável de seu próprio grupo (in-group) com outros grupos sociais (out-groups). Nesse sentido, quando tal comparação não se mostra favorável ao próprio grupo, elas irão adotar diferentes estratégias para recuperar o favoritismo de seu próprio grupo, como forma de assegurar uma autoestima positiva. As primeiras demonstrações sobre a identificação social e o favoritismo do próprio grupo foram realizadas por Tajfel (1981), mediante o uso de experimentos adotando a técni- ca do paradigma dos grupos mínimos, em que as pessoas eram arbitrariamente assinaladas a grupos com os quais não possuíam nenhuma identificação anterior e, mesmo assim, tendiam a manter a vantagem do próprio grupo. Desde então, o referido princípio tem sido objeto de inúmeras verificações empíricas, dentro e fora do laboratório. Tais estudos têm consistentemente apontado que a força da identificação com o próprio grupo e a necessidade de manter uma autoestima positiva encontram-se na base das relações intergupais, ao provocarem o favoritismo do próprio grupo e as atitudes discriminatórias daí decorrentes (Brown, 2000). Assim, por exemplo, a revisão de 34 estudos conduzida por Aberson, Healy e Romero (2000) observou que as pessoas de auto-
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    58 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira estima elevada exibiam maior favoritismo ao próprio grupo do que as de autoestima mais baixa. Outros estudos têm verificado que as pessoas que vivenciam uma diminuição de sua autoestima tendem a expressar maior preconceito (Fein & Spencer, 1997). Um extensão da teoria da identidade social é a teoria da autocategorização de Turner, Hogg, Oakes, Reicher e Wethe- rell (1987). Seu foco são os fatores que levam os indivíduos a realizarem determinadas categorizações, bem como suas consequências para o comportamento coletivo. Postula-se, assim, que a depender da força da pressão social presente em determinadas situações, as pessoas deixarão de lado suas características idiossincráticas (autopercepção) e ativarão suas identidades sociais, o que as levará ao engajamento em ações coletivas. De acordo com esses autores, portanto, as identidades sociais consistem em categorias socialmente construídas que se mostram mais ou menos salientes, em função das características da situação social. A teoria da identidade social, em suas múltiplas verten- tes, pode ser vista, portanto, como uma abordagem que, nos últimos 30 anos, vem procurando elucidar o papel desem- penhado pelo autoconceito nos processos e relações inter- grupais, mediante a articulação de fenômenos de natureza sociocognitiva, motivacional e macrossocial que permeiam a vida coletiva. Inicialmente surgida na Europa, ela tem sido adotada cada vez mais como referencial por pesquisadores de diversas partes do mundo, incluindo-se aí muitos psicólogos norte-americanos, podendo ser considerada atualmente uma das mais significativas teorias para a análise das relações entre o indivíduo e o grupo (Hogg, 2006). Nesse sentido, ela vem sendo utilizada mais recentemente não apenas no estudo das relações intergrupais, mas também na investigação da autocategorização e de vários processos grupais, como a coesão, a liderança, a influência social etc. No entanto, ela continua sem resolver um de seus principais desafios, qual seja promover a maior compreensão dos aspectos afetivos que se encontram subjacentes às formas mais hostis e destrutivas de comportamento intergrupal (Brown, 2000). Representações sociais Segundo Moscovici (1981), as representações sociais englobam um conjunto de conceitos, imagens e explicações que se originam do senso comum, no contexto das intera- ções e comunicações interpessoais. Nesse sentido, elas vão se modificando à medida que novos significados vão sendo acrescentados à realidade. Ainda de acordo com o autor (Moscovici, 1984), a função das representações sociais é dar sentido ao desconhecido, transformando o não familiar em algo familiar. Para tanto, apoia-se nos processos de ancoragem e objetivação. O primeiro se ocupa de inserir o fenômeno não familiar em uma rede de categorias e imagens familiares, de modo a que ele possa ser interpretado, enquanto o segundo tem por objetivo transformar o que é abstrato em algo concreto e que pode ser, assim, tocado. Uma extensão do trabalho de Moscovici é a teoria do núcleo central, que foi proposta por Abric (1994) e defende que toda representação social organiza-se em torno de um núcleo central e de elementos periféricos. O núcleo central consiste no elemento essencial da representação, em função de organizá-la e lhe dar sentido. Ele é mais rígido e ancora-se na memória coletiva do grupo, em suas condições históri- cas e sociais. Já os elementos periféricos são mais móveis e flexíveis. Sua função é proteger a estabilidade do núcleo central e permitir a adaptação de grupos e indivíduos a situações específicas. O núcleo central é, portanto, norma- tivo, enquanto os elementos periféricos são funcionais, por possibilitarem a ancoragem da representação na realidade do momento (Sá, 1996). A teoria das representações sociais foi amplamente difundida nas décadas seguintes à sua introdução na lite- ratura sociopsicológica, especialmente entre os psicólogos europeus e latino-americanos, com os pesquisadores de tal corrente procurando aplicar seus princípios teóricos a inú- meros eventos aos quais podem ser atribuídos significados que emergem do senso comum. Nesse sentido, a análise das teorias mantidas pelo homem comum tem contribuído para a compreensão de fenômenos tão diversificados quanto a saúde/doença, a doença mental, a violência, a justiça, o de- semprego, a amizade, os sistemas tecnológicos, os sistemas econômicos etc. A Psicologia Social na América Latina: Evolução e Tendências Atuais A Psicologia Social praticada na América Latina, até a década de 1970, esteve grandemente influenciada pelo paradigma da Psicologia Social Psicológica, tendência até hoje dominante na América do Norte. Ao final da década, porém, muitos psicólogos sociais latino-americanos inicia- ram um forte movimento de questionamento à Psicologia Social norte-americana (em função de seu experimentalismo e individualismo), em prol de uma psicologia social mais contextualizada, isto é, mais voltada para os problemas políticos e sociais que a região vinha enfrentando. Estimu- lados pela arbitrariedade dos regimes militares e pela grande desigualdade social do continente, esses psicólogos sociais irão defender uma ruptura radical com a psicologia social tradicional (Spink & Spink, 2005). Nesse sentido, vários psicólogos latino-americanos pas- saram a adotar como referencial de seus estudos a Psicologia Social Crítica. Um autor frequentemente citado como legí- timo representante dessa perspectiva na Psicologia Social latino-americana é Martin-Baró, psicólogo e padre jesuíta espanhol, radicado em El Salvador, que defendia em suas obras o desenvolvimento de uma psicologia social compro- metida com a realidade social latino-americana. Como forma de ajudar a minorar a situação estrutural de injustiça social que permeia a maioria dos povos latino-ame- ricanos, Martín-Baró (1996) enfatiza que a principal tarefa do psicólogo social deve ser a conscientização de pessoas e grupos, como forma de levá-los a desenvolver um saber crí- tico sobre si e sobre sua realidade, que lhes permita controlar sua própria existência. De acordo com o autor, urge, portanto, que os psicólogos sociais contribuam para a construção de identidades pessoais, coletivas e históricas capazes de romper a situação de alienação das maiorias populares oprimidas e desumanizadas que vivem à margem da sociedade dominan-
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    59Psic.: Teor. ePesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 Psicologia Social te e, consequentemente, levar à mudança social. Trata-se, assim, de desenvolver um saber psicológico historicamente construído que se mostre capaz de compreender e contribuir para sanar os problemas que atingem as maiorias populares e oprimidas. Para ele (Martin-Baró, 1989), então, a construção teórica em psicologia social deve emergir dos problemas e conflitos vivenciados pelo povo latino-americano, de forma contextualizada com sua história. Outra autora de destaque no cenário latino-americano é Maritza Montero, da Venezuela. Em revisão recente sobre a Psicologia Social Crítica em seu país, Montero e Montene- gro (2006) assinalam que ela se caracteriza principalmente por questionar os modos de produção de conhecimento e prática da Psicologia e perseguir a transformação social e a relevância social da pesquisa e intervenção sobre os proble- mas sociais que assolam o país. Para tanto, coloca-se contra as abordagens positivistas e experimentais, a neutralidade científica e as perspectivas individualistas de abordagem dos fenômenos psicossociais, defendendo, ao contrário, a produção de um conhecimento contextualizado, participan- te e coconstruído por pesquisadores e atores sociais, como forma de contribuir para a solução dos problemas sociais que vivenciam e transformar sua realidade social. Apoiando-se primordialmente em tal referencial, os psicólogos venezuelanos, muitas vezes em colaboração com colegas latino-americanos de outras nacionalidades, têm direcionado suas investigações para as temáticas dos estereótipos, autoimagens, identidades sociais, nacionalis- mo, movimentos sociais, poder social, relações de gênero, violência doméstica, direitos reprodutivos da mulher, entre outros. Tais estudos têm sido acompanhados, também, por uma intensa produção teórica sobre os princípios paradigmá- ticos da Psicologia Comunitária, bem como suas práticas e inserção no campo da ciência, sobre os modos de construção do conhecimento, sobre o conceito de empoderamento, sobre a pesquisa participativa etc. (Montero & Montenegro, 2006). Iniciativas sob a perspectiva da Psicologia Crítica tam- bém têm despontado em outros países latino-americanos como, por exemplo, a Colômbia (Molina-Valencia & Mesa, 2006), o Chile (Shafir, 2006) e o Brasil, que será objeto de análise mais detalhada na próxima seção. Cumpre registrar, porém, que a Psicologia Social Crítica não é a única tendência dominante naAmérica Latina, na medida em que nela coexis- tem múltiplas tendências, havendo, assim, vários psicólogos sociais na região que vêm desenvolvendo seus trabalhos com o apoio de referenciais da Psicologia Social norte-americana ou da Psicologia Social europeia. Nesse sentido, Álvaro e Garrido (2006) questionam se é possível afirmar a existência de uma Psicologia Social latino-americana que reúna traços próprios de identidade. A Produção Brasileira em Psicologia Social As primeiras publicações brasileiras com foco na análise de questões psicossociais começaram a surgir na década de 1930 (Bonfim, 2003). No entanto, a institucionalização da Psicologia Social irá ocorrer apenas em 1962, quando o Conselho Federal de Psicologia, por meio do parecer 403/62, criou o currículo mínimo para os cursos de Psico- logia, estabelecendo, assim, a obrigatoriedade do ensino da Psicologia Social. A partir de então, e até os anos 1970, a Psicologia Social Psicológica norte-americana foi a dominante, de modo se- melhante ao que ocorreu no resto da América Latina. Uma das obras bastante adotada nos cursos de Psicologia Social durante esse período, e que expressa tal tendência, é o livro “Psicologia social”, de autoria de Aroldo Rodrigues, publi- cado pela primeira vez em 1972 e que se encontra atualmente em sua 23ª edição. Seu autor foi também o responsável pelo desenvolvimento de uma profícua linha de pesquisa em Psi- cologia Social no país, a qual foi divulgada em uma série de artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros, ao longo dos anos 1970 e 1980. No entanto, a partir do final da década de 1970, os psicó- logos sociais brasileiros também irão participar ativamente do movimento de ruptura com a Psicologia Social tradicio- nal ocorrido na América Latina. Assim é que, a partir da publicação, em 1984, do livro organizado por Silvia Lane e Vanderley Codo e intitulado “Psicologia social: O homem em movimento”, vários outros manuais brasileiros de Psico- logia Social (Campos & Guareschi, 2000; Jacques, Strey, Bernardes, Guareschi, Carlos & Fonseca, 1998; Lane & Sawaia, 1994; Mancebo e Jacó-Vilela, 2004) se sucederam, na perspectiva da Psicologia Social Crítica. De acordo com Carvalho e Dunker (2006), tal movimento constitui atual- mente uma das principais correntes da Psicologia brasileira, e vem procurando abordar, sobretudo, alguns dos problemas sociais enfrentados pelo país, como, por exemplo, a violên- cia doméstica, as crianças de rua, a pobreza, a desigualdade social e a exclusão educacional. Outro evento que marcou a evolução da Psicologia Social brasileira foi a criação, em 1980, da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO), estabelecida com o pro- pósito de redefinir o campo da Psicologia Social e contribuir para a construção de um referencial teórico orientado pela concepção de que o ser humano constitui-se em um produto histórico-social, de que indivíduo e sociedade se implicam mutuamente (Jacques & cols., 1998). A partir da década de 1980, começaram também a se desenvolver no país os cursos de pós-graduação stricto-sensu, que exerceram importante papel na estruturação de diferentes linhas de pesquisa na área de Psicologia Social, orientadas por paradigmas e tendências diversificadas, bem como no incremento da produção cien- tífica brasileira em Psicologia Social. Com o intuito de obter um breve panorama da atual produção brasileira em Psicologia Social, que permitisse sua posterior contextualização no cenário internacional, foi realizado um levantamento de todos os volumes disponíveis na base de dados Scielo de seis periódicos nacionais da área de Psicologia, avaliados comoA1 ouA2 no sistema QUALIS 2010, a saber: Estudos de Psicologia (Campinas); Estudos de Psicologia (Natal); Psicologia em Estudo; Psicologia e Sociedade; Psicologia: Reflexão e Crítica; Psicologia: Teoria e Pesquisa. Os volumes de 2010 não foram, porém, incluídos, em função de que alguns desses periódicos ainda não conta- vam com tais volumes disponibilizados eletronicamente por ocasião da consulta, realizada durante o mês de julho de 2010. Todos os artigos publicados nesses periódicos, durante os períodos assinalados, foram examinados, excetuando-se
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    60 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira as resenhas, notícias, entrevistas e editoriais. Desse total, foram selecionados, para posterior análise, os que podiam ser classificados como pertencentes à área de Psicologia Social. Cabe aqui mencionar as dificuldades encontradas no estabelecimento de critérios para a categorização dos artigos no escopo da Psicologia Social contemporânea, em função da pluralidade de formas que a disciplina vem progressiva- mente assumindo, o que torna por vezes os limites entre ela e alguns outros campos do saber psicológico muito tênues. Nesse sentido, optou-se pelo exame individual de cada artigo e eleição dos que podiam ser identificados com pelo menos uma das três principais vertentes atuais da Psicologia Social, discutidas previamente (Psicologia Social Psicológi- ca, Psicologia Social Sociológica e Psicologia Social Crítica). Assim, por exemplo, fenômenos psicossociais como papéis familiares, infância, juventude e envelhecimento, violência intrafamiliar, saúde mental e meio ambiente, que vêm sendo estudados não apenas pela Psicologia Social, mas também por outras áreas da Psicologia (Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia da Saúde, Psicologia Clínica, PsicologiaAmbien- tal, Psicologia do Trabalho etc.), foram incluídos apenas quando foi possível obter indicações de que eles estavam sendo abordados por meio de referenciais teóricos e/ou temas afetos a pelo menos uma das três vertentes sociopsicológicas supra mencionadas. Considerando-se, por outro lado, que o objetivo era fazer um levantamento da produção nacional, os artigos da área de Psicologia Social, cujos autores eram todos estrangeiros e/ou não incluíam indivíduos brasileiros como participantes, também foram excluídos da presente análise. Adotando-se tais critérios, foram selecionados 636 arti- gos para compor uma base de dados com informações sobre características de autoria e sua natureza teórica, temática e metodológica. Na Tabela 1, apresenta-se a distribuição do número de periódicos e fascículos examinados ao longo do período estudado, bem como do número de artigos classifica- dos como pertencentes à categoria de estudos em Psicologia Social, nos diferentes periódicos analisados. Com relação ao número de autores, observou-se maior percentual de artigos com dois autores (41%), seguido pelo percentual de artigos com um autor (24%) ou com três autores (18%), e com o restante (17%) oscilando entre artigos de quatro a 13 autores. Entre os artigos com mais de um autor, a maioria (76%) dizia respeito a parcerias entre autores de uma mesma instituição, seguida por parcerias interestaduais (14%) ou internacionais (10%). Tais dados podem ser vistos como um reflexo do incentivo à publicação de teses e dissertações em que os orientadores atuam como coautores dos trabalhos de seus orientandos. No que tange à afiliação institucional desses autores, a maioria provinha de instituições públicas federais (47%) ou estaduais (18%), com somente 21% pertencendo a insti- tuições privadas e o restante (14%) referindo-se a autorias que combinavam duas ou mais dessas categorias. Já no que se refere à distribuição geográfica dos autores, destacou-se o predomínio da região sudeste (41%), seguida pela região sul (26%), nordeste (16%) e centro-oeste (9%), com a re- gião norte aparecendo com menos de 1% e o restante (8%) se referindo a parcerias inter-regionais. Tais dados vão ao encontro do fato de o maior número de centros de pós-gra- duação stricto-sensu em Psicologia do país concentrar-se nas regiões sudeste e sul que, contam, consequentemente, com maior contingente de pesquisadores, os quais, por sua vez, angariam a maior parte dos recursos dos órgãos de fomento para a pesquisa. Atendo-se à vertente da Psicologia Social na qual os artigos se inseriam, foi possível constatar que a maior parte dos artigos identificava-se com os fundamentos teórico- metodológicos da Psicologia Social Crítica (46%), seguida pelo percentual de artigos identificados com a Psicologia Social Psicológica, de natureza predominantemente norte- americana (38%), e com a Psicologia Social Sociológica, de base eminentemente europeia (16%). A preferência dos psicólogos brasileiros pela Psicologia Social Crítica mostra-se coerente com a tendência mais recen- te de adesão a tal perspectiva que vem sendo observada em diversos outros países daAmérica Latina. Outrossim, cumpre enfatizar o importante papel que o periódico Psicologia e Sociedade vem desempenhando na veiculação da produção brasileira associada à Psicologia Social Crítica.Assim é que pouco mais da metade dos artigos inseridos nessa perspectiva (53%) foram publicados no periódico em questão, com os demais se dividindo pelos outros cinco periódicos analisados. Em relação às temáticas de estudo, observou-se que as que vêm despertando maior interesse dos psicólogos sociais brasileiros são as práticas sociais (15%), as representações sociais (15%), a configuração de identidades e subjetividades (14%) e as atitudes, crenças, valores e percepções sociais (13%). O cruzamento das informações relativas à modalidade da Psicologia Social e às temáticas de estudo abordadas per- mite, porém, uma análise mais pormenorizada dessa questão. Nesse sentido, entre aqueles que se referenciam à perspectiva da Psicologia Social Crítica, os principais temas de estudo são Tabela 1. Periódicos, fascísculos e artigos avaliados. Periódicos Período analisado Número de fascículos Número de artigos Estudos em Psicologia (Campinas) 2002-2009 29 70 Estudos em Psicologia (Natal) 1997-2009 34 93 Psicologia e Sociedade 2002-2009 26 184 Psicologia em Estudo 2001-2009 26 108 Psicologia: Reflexão e Crítica 1997-2009 38 94 Psicologia: Teoria e Pesquisa 2000-2009 34 87 Total --------- 187 636 Fonte: Dados da pesquisa
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    61Psic.: Teor. ePesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 Psicologia Social as práticas sociais, como, por exemplo, a violência, a inclusão e exclusão social, a criatividade etc. (32%), a configuração de identidades e subjetividades (30%), as práticas de pesquisa e intervenção em Psicologia Social (15%) e os papéis de gênero (8%). Já entre os adeptos da Psicologia Social Psicológica, os temas de maior interesse são as atitudes, crenças, valores e percepções sociais (34%), as relações interpessoais (17%), os afetos, emoções e motivação social (16%) e a autopercepção (12%). No escopo da Psicologia Social Sociológica, é nítida a preferência pelo tema das representações sociais (91%), com o percentual restante distribuindo-se entre temas variados. Vale assinalar que alguns dos artigos classificados nas áreas de atitudes e crenças ou de representações sociais afirmavam estar investigando tais temáticas mas continham apenas uma revisão da literatura associada ao objeto dessas crenças, atitudes ou representações sociais (como, por exem- plo, a velhice, a reforma psiquiátrica etc.), sem que houvesse a preocupação de se apresentarem também os fundamentos teóricos subjacentes a essas temáticas. Outros ainda afirma- vam estar realizando uma análise psicossocial de algum tema, porém não forneciam maiores evidências sobre a perspectiva teórica que orientava tal análise, o que fez com que por vezes ela tivesse que ser inferida, a partir do tema abordado ou de autores trazidos na discussão dos resultados. No que diz respeito à metodologia, verificou-se inicial- mente se o estudo era de natureza teórica ou empírica. Foram considerados, como artigos teóricos, os estudos caracteriza- dos por revisões críticas de conceitos, modelos e/ou teorias, ou de reflexão e discussão de temas, práticas e métodos de pesquisa e intervenção psicossocial, alicerçados em posições teóricas e por vezes também em casos ilustrativos. Já os arti- gos empíricos foram classificados como tal se envolvessem procedimentos de coleta e análise de dados. Os artigos teóricos corresponderam a 34% da produção total no período analisado, com os demais 67% referindo-se a estudos empíricos com o uso de metodologias variadas, na qual se sobressai a qualitativa. Cruzando-se essas infor- mações com as vertentes psicossociais, foi possível, porém, observar que, entre os estudos conduzidos na perspectiva da Psicologia Social Crítica, 40% eram teóricos e 55% apoiavam-se em estudos empíricos de natureza qualitativa, com os demais adotando outros tipos de metodologias. Já entre os estudos orientados pela Psicologia Social Psico- lógica, a tendência maior foi pelos estudos quantitativos de natureza correlacional ou comparativa (47%), seguidos pelos estudos voltados ao desenvolvimento ou adaptação de instrumentos de medida (17%) e pelos de natureza teórica (11%), havendo um pequeno número de estudos associados a metodologias experimentais, quantitativo-descritivas ou qualitativas. Por fim, no conjunto de trabalhos alocados na vertente da Psicologia Social Sociológica, constatou-se que a maioria optou pela associação de metodologias qualitati- vas e quantitativas (56%) ou pela adoção de metodologias qualitativas (21%), seguida pelos estudos teóricos (10%) e com um pequeno número utilizando somente metodologias de cunho quantitativo. Atendo-se somente aos estudos empíricos, verificou-se que eles vêm utilizando diferentes tipos de amostras, ainda que prevaleçam entre elas os grupos ou indivíduos especí- ficos, como, por exemplo, alcoolistas, pacientes crônicos, usuários de drogas etc. (19%), estudantes universitários (18%), adolescentes (11%) ou grupos profissionais, como professores, enfermeiros, trabalhadores em saúde mental etc. (10%). Já no que diz respeito aos instrumentos de coleta de dados, a preferência recai nos questionários ou escalas (50%), seguidos pelas entrevistas (15%). Em síntese, o exame da produção brasileira em Psico- logia Social veiculada em seis dos principais periódicos nacionais nos últimos 10 anos permite a conclusão de que as três vertentes atuais da Psicologia Social encontram-se representadas nessa produção, com maior preferência por es- tudos de natureza teórica ou de natureza empírico-qualitativa conduzidos na perspectiva da Psicologia Social Crítica. Já entre os estudos orientados pela Psicologia Social Psicológica predominam aqueles eminentemente quantitativos e, entre os apoiados na Psicologia Social Sociológica, aqueles de cunho qualititativo-quantitativo.As investigações empíricas associadas às diferentes vertentes têm privilegiado o uso de questionários, escalas ou entrevistas. Tais resultados apresentam semelhanças e divergências com o levantamento realizado por Ferreira (1992), com base na produção em Psicologia Social veiculada em quatro periódicos (Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada; Psicologia: Teoria e Pesquisa; Psicologia-USP; PSICO) e nos Anais das Reuniões Anuais da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, no período de 1980 a 1991.Assim é que, naquela ocasião, a perspectiva da Psicologia Social Psicológica era a dominante e a Psicologia Social Sociológica começava a dar os primeiros passos, não tendo sido detectados indícios de trabalhos que pudessem ser alocados na vertente da Psi- cologia Social Crítica. Entre os temas mais estudados no período encontravam-se a socialização, a percepção social e as atitudes, crenças e valores. Verifica-se, assim, que o tema das atitudes, crenças e valores, juntamente com a percepção social, vem, há várias décadas, constituindo-se em um dos principais objetos de estudo dos psicólogos brasileiros. Já a temática da socialização não se encontra mais no centro de interesse atual desses investigadores. Por outro lado, a grande diferença entre os dois levantamentos citados diz respeito ao surgimento e consolidação da Psicologia Social Crítica no cenário nacional. Considerações Finais A revisão sobre a evolução e estado atual da Psicologia Social no Brasil e no exterior evidencia que, na América do Norte, a disciplina tem sido dominada pela Psicologia Social Psicológica, de base eminentemente cognitivista e experi- mental, que se focaliza prioritariamente nos eventos e proces- sos intrapsíquicos que intervêm na relação do indivíduo com seu meio social. Já na Europa, prevalece a Psicologia Social Sociológica, que faz uso de metodologias experimentais e não experimentais, com o intuito de desvendar sobretudo os processos subjacentes às relações que se passam no interior dos grupos sociais e entre grupos.AAmérica Latina, por seu turno, tem aderido cada vez mais à Psicologia Social Crítica, que se preocupa basicamente com os problemas sociais, procurando assim desenvolver um saber autônomo e capaz
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    62 Psic.: Teor.e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26, n. especial, pp. 51-64 M. C. Ferreira de compreender tais fenômenos.Acompanhando a tendência verificada na América Latina, a Psicologia Social Brasileira tem adotado preferencialmente a Psicologia Social Crítica, muito embora seja possível verificar que as três vertentes atuais da Psicologia Social contemporânea encontram-se representadas na produção brasileira dos últimos 10 anos. Tais constatações remetem a algumas reflexões acerca das perspectivas futuras dessa produção, no que diz respeito a seu impacto no cenário internacional. Com relação aos artigos de cunho teórico, encontrados, sobretudo, no âmbito da Psico- logia Social Crítica, é possível constatar que a maioria tem se limitado a desenvolver reflexões e defender determinados argumentos à luz de autores já consagrados nesse campo de estudos. Poucos e esparsos são, portanto, os trabalhos nos quais se nota a preocupação com a formulação de conceitos, metodologias ou modelos teóricos inovadores, capazes assim de colocar a Psicologia Social Crítica brasileira em posição de destaque no cenário latino-americano ou mesmo norte- americano ou europeu. Atendo-se aos trabalhos empíricos, verifica-se que há nítida preferência pelas investigações de natureza qualitativo- descritiva, que vêm indubitavelmente contribuindo para maior compreensão de uma ampla gama de fenômenos psicossociais, estejam eles referenciados à Psicologia Social Crítica ou à Psicologia Social Sociológica. Seria interessan- te, porém, que tais estudos pudessem evoluir no sentido de investigar as diferentes alternativas de ação e intervenção propostas, que acabam ficando, na maioria das vezes, apenas no nível de sugestões para estudos futuros. Exemplo disso é o fato de que os trabalhos anteriores de um mesmo autor não são em geral citados em suas publicações subsequentes, em função de cada uma delas se referir a temáticas diferentes. Outrossim, seria preferível que esses estudos adotassem uma linha consistente de invesigação que fosse paulatinamente acumulando informações sobre um objeto de pesquisa ou intervenção de modo a que, ao final de certo tempo, seus autores tivessem condições de reunir um corpo considerável de conhecimentos capazes de exercer algum impacto no cenário nacional e internacional. Focalizando-se, por fim, nas pesquisas empíricas de natureza quantitativa, utilizadas principalmente na área da Psicologia Social Psicológica, verifica-se que poucas são as de caráter experimental, método preferencial nas publicações internacionais sob essa perspectiva. Nesse sentido, os estudos brasileiros têm optado por recorrer principalmente ao método correlacional ou comparativo, sem, no entanto, lançar mão de ferramentas mais poderosas de análise de dados, como, por exemplo, a modelagem de equações estruturais e outras análises multivariadas, que há alguns anos vêm sendo as estratégias de análise de dados mais adotadas nos estudos internacionais dessa natureza. Ademais, muitos desses estudos apoiam-se em referen- ciais frágeis, o que os impede, muitas vezes, de conterem hipóteses sólidas e fundamentadas em evidências teórico- empíricas, característica também marcante nos estudos internacionais. Acrescente-se a isso o fato de que os desen- volvimentos mais atuais no cenário internacional, como a Psicologia Social Evolucionista e a Neurociência Social, têm sido abordados apenas de forma esparsa e, ainda assim, em artigos teóricos. Urge, portanto, que os psicólogos sociais brasileiros adeptos da Psicologia Social Psicológica incor- porem os aspectos mencionados em seus futuros trabalhos de investigação, de modo a que eles possam se tornar com- petitivos no cenário internacional. Vale ressaltar, ainda, a pouca atenção dada à cultura nos estudos brasileiros em Psicologia Social, independentemente da vertente a que se vinculam. Contudo, a grande diversidade sociocultural que caracteriza o país constitui-se em terreno fértil para a realização de análises sistemáticas e profícuas acerca das características particulares que configuram a iden- tidade, o comportamento e as práticas sociais do brasileiro. Nesse sentido, o desenvolvimento de linhas de pesquisa nessa direção reveste-se indubitavelmente da capacidade potencial de contribuir para a construção de uma verdadeira Psicologia Social brasileira, construída, de forma autônoma, ainda que na interseção da pluralidade de teorias e métodos que configuram a Psicologia Social contemporânea. À guisa de conclusão, cabe mencionar que o presente trabalho pretendeu realizar uma breve revisão das principais tendências que marcam a Psicologia Social contemporânea, sem pretender, no entanto, ser exaustivo, em função das limitações de espaço e da proposta que o norteou. Nesse sentido, certos recortes e limites precisaram ser efetuados, o que implicou a não abordagem de alguns desdobramentos e temas relevantes à Psicologia Social na atualidade, como, por exemplo, a Psicologia Transcultural, a Etnopsicologia, a Psicologia Institucional etc. Por outro lado, nem todos os periódicos da área de Psicologia foram incluídos no levan- tamento da produção nacional, nem tampouco as teses e dissertações. Ainda assim, porém, foi possível apontar os consideráveis avanços obtidos pela Psicologia Social nas últimas décadas, no plano internacional e nacional, bem como os desafios que se colocam à produção brasileira da área nesse novo milênio. Referências Aberson, C. L., Healy, M. R., & Romero, V. L. (2000). Ingroup bias and self-esteem: A meta-analysis. Personality and Social Psychology Review, 4, 157-173. Abric, J. C. (1994). Pratiques sociales et représentations. Paris: Presses Universitaires de France. Adolphs, R. (2009). 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    kriterion, Belo Horizonte,nº 127, Jun./2013, p. 109-124 O método dialético e a análise do real Luis Henrique Zago* luishenriquezago@hotmail.com RESUMO  Ao evidenciar que as relações estabelecidas por homens e mulheres com o meio concreto engendram o real, a dialética torna exequível a revolução do status quo por possibilitar a compreensão de que o mundo é sempre resultado da práxis humana, seja ela marcada por relações de dominação que reificam e fetichizam a prática social, seja marcada por relações que operam a humanização dos homens e mulheres. Ao romper com os fetiches, ou seja, ao perceber que os objetos não devem sujeitá-los, homens e mulheres avançam de encontro à reificação, alçando-se a possibilidade de revolucionar suas condições de existência. Assim, o rompimento da pseudoconcreticidade ocorre no momento em que se evidencia que a realidade social se concretiza por meio das condições de produção e reprodução da existência social das pessoas, que é em nossa sociedade marcada pela luta de classes. Este processo de rompimento exige um esforço construtor de uma interpretação do real que vá para além de uma representação caótica do todo, típico das vivências cotidianas. Este artigo postula que o método materialista histórico dialético pode auxiliar neste processo. Partindo desta constatação, elabora-se reflexão sobre este método de análise do real. Palavras-chave  Dialética, pseudoconcreticidade, realidade e ciência. SUMMARY  By showing that the relationships established by men and * Professor de Filosofia da Faculdade da Fundação Educacional de Araçatuba. Artigo recebido em 21/07/2011 e aprovado em 26/12/2011.
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    Luis Henrique Zago110 womenwith the practical means to engender real, dialectic makes possible the revolution of the status quo by allowing the understanding that the world is always the result of human practice, it is marked by relations of domination that fetishize and reify the social practice or marked by relationships that operate at the humanization of men and women. By breaking with the fetishes, or to realize that objects should not expose them, men and women advance against reification, raising the possibility of revolutionizing his conditions of existence. Thus, disruption of pseudoconcreticity occurs at the moment is evident that social reality is concretized through the conditions of production and reproduction of social existence, which is in our society marked by class struggle. This process requires a breakout effort to construct an interpretation of reality that go beyond a representation of the whole chaotic, typical of everyday experiences. This article posits that the historical materialist dialectical method con help this process. Based on this observation, we undertake reflection on this method of analysis of the real. Keywords  Dialectics, pseudoconcreticity, reality and science. Segundo Kosik (1976) vivemos em um mundo marcado por uma psedoconcreticidade1 . Neste ambiente o aspecto fenomênico é assumido isoladamente, desconsiderando-se a essência. A realidade possui como elemento constituinte os dois aspectos (fenômeno e essência2 ), sendo o manifesto nela uma das possíveis representações fenomênicas da essência. 1 Kosik (1976 p.11) caracteriza a pseudoconcreticidade da seguinte forma: “A ele [mundo da pseudoconcreticidade] pertencem: o mundo dos fenômenos externos, que se desenvolvem à superfície dos processos realmente essências; o mundo do tráfico e da manipulação, isto é, da práxis fetichizada dos homens (...); o mundo das representações comuns, que são projeções dos fenômenos externos nas consciências dos homens, produto da praxis fetichizada, formas ideológicas de seu movimento; o mundo dos objetos fixados, que dão a impressão de serem condições naturais e não imediatamente reconhecíveis como resultado da atividade social dos homens.” 2 Entendemos por essência aqueles elementos que por sua primazia garantam a existência de outros elementos que sem aqueles não existiriam. Em Marx o trabalho emerge como elemento essencial na medida em que media a relação entre o homem e a natureza tornando possível o processo de “emergir” do humano do mundo natural, o que leva a constituição de uma “segunda natureza”. Os fenômenos, elementos decorrentes da essência, apresentam-se como uma das muitas formas de ser da essência. Segundo Ranieri (2002/2003 p.11) os fenômenos “... agem socialmente no sentido de estabelecer direções possíveis à articulação da essência, constituindo-a, e mesmo determinando a direção tomada pelo complexo como um todo, na medida em que constituem formas que têm por trás a possibilidade da reflexão e da decisão, uma vez que são conscientizadoras da ação humana. Os complexos são capazes de modificar a direção dos caminhos percorridos pela essência, e sua articulação com a primeira das categorias (o trabalho) é a verdadeira natureza movente e movida do processo de estruturação daquela essência. A essência do ser social é, portanto, todo o processo passado do qual ela mesma é o resultado.”
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    111O método dialéticoe a análise do real Uma análise acurada deve ponderar que as partes constituintes do real devem ser apreendidas como unidade, mesmo que a essência seja percebida como diferente e não imediatamente como o fenômeno. Parte-se do observável rumo à essência, o que tornará possível a compreensão do ser social como totalidade que se relaciona intimamente a vida material e concreta dos seres humanos. Como os elementos que marcam a forma de ser dos objetos devem ser percebidos de forma integrada (como todo) é imprescindível notar a relação entre os diferentes níveis de totalidade do real para uma compreensão precisa das coisas. Esta integração pressupõe que não existe predomínio de estruturas que se sobreponham umas as outras. A necessidade de integrar os diferentes níveis de totalização torna imprecisa e infecunda para a compreensão da realidade leituras que promovam uma cisão, como a realizada por Althusser (1992), da organização social em infra-estrutura e superestrutura ou em aparelhos ideológicos e repressores. Não é possível separar as instituições educacionais, por exemplo, de outras esferas da sociedade como realiza o autor francês3 . O sistema do capital afeta todos os elementos da sociedade e os integra em uma ordem maior como lembra Mézaros (2005 p.43): As determinações gerais do capital afetam profundamente cada âmbito particular com alguma influência na educação, e de forma nenhuma apenas instituições educacionais formais. Estas estão estritamente integradas na totalidade dos processos sociais. Não podem funcionar adequadamente exceto se estiverem em sintonia com as determinações educacionais gerais da sociedade como um todo. O perigo de leituras como a de Althusser (1992), é produzir a equivocada ilusão de que existam instituições, ou como quer o autor aparelhos, independentes das ações humanas que acabam por determinar e subjugar os sujeitos. Ao cindir a sociedade perde-se a percepção de que na verdade todos os elementos estão interligados. O autor acaba por corroborar o equívoco de que existe uma “mão invisível” a gerir o sistema, o que pode suscitar nas 3 O método dialético, tal como proposto por Hegel e Marx, é justamente uma tentativa de pensar o mundo integrando as diferentes esferas contraditórias do real. Pressupõe-se que pensar dialeticamente seja pensar por contradições e que ao separar as diferentes esferas da realidade tem-se um empobrecimento da percepção do real por perder-se a totalidade. Sobre a necessidade de integrar as esferas contraditórias do real escreveu Hegel (2007:26) “O botão desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. E essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo. Mas a contradição de um sistema filosófico não costuma conceber-se desse modo; além disso, a consciência que apreende essa contradição não sabe geralmente libertá-la – ou mantê-la livre – de sua unilateralidade; nem sabe reconhecer no que aparece sob a forma de luta e contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários.”
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    Luis Henrique Zago112 pessoasconformismo e passividade quanto a necessidade de interferir no real. Sobre isso escreve Pierre Bordieu (apud Ranieri 2002/2003 p.28) Converter em entidades transcendentes, que estão nas práticas da relação entre essência e existência, as construções a que a ciência deve recorrer, para dar a razão dos conjuntos estruturados e significativos que a acumulação de inumeráveis ações históricas produz, é reduzir a história a um ‘processo sem sujeito’ e substituir, simplesmente, o ‘sujeito criador’ do subjetivismo por um autômato subjugado pelas leis mortas de uma história da natureza. Essa visão imanentista que faz da estrutura, Capital ou Modo de produção, uma entelecheia se desenvolvendo ela mesma num processo de auto-realização, reduz os agentes históricos ao papel de suportes (Träger) da estrutura e, suas ações, a simples manifestações epifenomenais do poder que pertence à estrutura de se desenvolver segundo suas próprias leis, e de determinar ou sobredeterminar outras estruturas. Diferentemente do que afirma Althusser (1992) a dialética marxiana pressupõe uma visão totalizante do real, ou seja, por meio dela tenta-se perceber os diferentes elementos sociais como interligados a uma mesma totalidade. O agir e o pensar, mesmo que não nos demos conta disso, sempre implicam a percepção do todo, uma certa visão do conjunto das relações. Evidentemente existem diferentes níveis de totalização. Há totalidades mais abrangentes que envolvem outras de menor abrangência. A abrangência de uma totalidade relaciona-se ao nível de generalização alcançado pelo pensamento e aos objetivos das pessoas em cada situação especifica. Sobre isso escreve Konder (1991 p.39) Se eu estou empenhado em analisar as questões políticas que estão sendo vividas pelo meu país, o nível de totalização que me é necessário é o da visão de conjunto da sociedade brasileira, da sua economia, da sua história, das suas contradições atuais. Se, porém, eu quiser aprofundar a minha análise e quiser entender a situação do Brasil no quadro mundial, vou precisar de um nível de totalização mais abrangente: vou precisar de uma visão de conjunto do capitalismo, da sua gênese, da sua evolução, dos seus impasses no mundo de hoje. E, se eu quiser elevar a minha análise a um plano filosófico, precisarei ter, então, uma visão de conjunto da história da humanidade... Os diferentes níveis de totalidade são identificados por Vygotsky como unidades. Para o autor soviético ao se segmentar a realidade em unidades de análise deve se tomar o cuidado de abarcar uma unidade que preserve em si as características essências da totalidade. Para não incorrer no risco de que se considere que a unidade de análise não necessita possuir em si as características fundamentais da totalidade optou-se neste trabalho por não usar o termo unidade, mas totalidade de menor ou maior abrangência. O complicador neste tipo de análise do real é conseguir encontrar um nível de totalidade que preserve em si as características essenciais dos níveis mais
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    113O método dialéticoe a análise do real abrangentes. Ao discutir a postura dos pesquisadores de psicologia que ao estudar o real dividem a realidade em elementos mais simples sem o devido cuidado Vygotsky (2000 apud Duarte p.89) comenta a necessidade de se ter apreço pela busca da totalidade na análise do real: Cremos que substituir esse tipo de análise por outro muito diferente é um passo decisivo e crítico para a teoria do pensamento e da linguagem. Teria de ser uma análise que segmentasse o complexo conjunto em unidades. Por unidade entendemos o resultado da análise que, diferentemente dos elementos, goza de todas as propriedades fundamentais características do conjunto e constitui uma parte viva e indivisível da totalidade. Não é a fórmula química da água senão o estudo das moléculas e do movimento molecular o que constitui a chave da explicação das propriedades definidoras da água. Assim, a célula viva, que conserva todas as propriedades fundamentais da vida, definidora dos organismos vivos, é a verdadeira unidade da análise biológica No cotidiano, a percepção do todo não é nítida porque são pinçados apenas alguns aspectos mais relevantes do todo que nortearão as condutas e os pensamentos. Mesmo assim, a totalidade continua como pano de fundo, como lembra Kosik (1976 p.15). “O ‘horizonte’ – obscuramente intuído – de uma realidade indeterminada como todo constitui o pano de fundo inevitável de cada ação e cada pensamento, embora ele seja inconsciente para a consciência ingênua.” Quando no cotidiano o todo é percebido sem clareza estrutura-se um pensamento de senso comum que tende a representar os objetos como se eles estivessem desligados de suas condições históricas e sociais. Ao representar os objetos desta forma este tipo de pensamento acaba por negar o movimento dialético dos elementos, afastando-se do mundo real rumo a pseudoconcreticidade. Mesmo que a totalidade não seja percebida ela continua existindo e determinando as partes que a compõem. Em oposição ao pensamento de senso comum a dialética se propõe a compreender a “coisa em si”, construindo uma compreensão da realidade que considere a totalidade como dinâmica e em constante construção social. Ao considerar a realidade desta forma a dialética rompe com a pseudoconcreticidade, por desvelar as tramas que relacionam a essência ao fenômeno. Foi por isso que Hegel (2007:36) preconizava: “O verdadeiro é o todo. Mas o todo é somente a essência que se implementa através de seu desenvolvimento.” Marx e Engels (2007) ao usarem a dialética objetivam suprimir a imediaticidade e a pretensa independência com que o fenômeno surge, subsumindo-o a sua essência. Com a dialética os elementos cotidianos deixam de ser naturalizados e eternizados, passando a ser encarados como sujeitos
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    Luis Henrique Zago114 dapráxis social da humanidade. Neste sentido, a dialética é um esforço para perceber as relações reais (sociais e históricas) por entre as formas estranhadas com que se apresentam os fenômenos. Segundo Marx e Engels (2007:42): Ela [a história] não tem necessidade, como na concepção idealista de história, de procurar uma categoria em cada período, mas sim de permanecer constantemente sobre o solo da história real; não de explicar a práxis partindo da ideia, mas de explicar as formações ideais a partir da práxis material e chegar, com isso, ao resultado de que todas as formas e [todos os] produtos da consciência não podem ser dissolvidos por obradacríticaespiritual,porsuadissoluçãona‘autoconsciência’ousuatransformação em ‘fantasma’, ‘espectro’, ‘visões’ etc., mas apenas pela demolição prática das relações sociais reais [realen] de onde provêm essas enganações idealistas... Não é exclusividade do pensamento dialético a percepção da necessidade de se buscar a essência constituinte do mundo fenomênico. Esta se apresenta como uma das grandes questões da filosofia contemporânea, como fica patente, por exemplo, nas elucubrações filosóficas expostas pela fenomenologia. Ao propor a redução fenomenológica, Husserl está objetivando justamente a essência do fenômeno, que é alcançada, segundo ele, por meio do rompimento com a atitude cotidiana de relacionar-se com o mundo. Por meio de uma postura transcendental, os fenomenólogos acreditam conseguir atingir um nível de consciência em que é possível apreender a essência do real. Assim, a fenomenologia constitui-se como uma ciência das essências. Sobre isso afirma Galeffi (2000 p.24) “Portanto, a tarefa da Fenomenologia Transcendental é a de elucidar e rastrear gradualmente todos os possíveis dados da consciência, segundo as suas modalidades e possíveis modificações de comportamento. Trata-se da construção de uma ciência das essências, construção edificada ‘passo a passo’; uma ciência das essências...” Pode soar paradoxal que pesquisadores alinhados a uma corrente denominada fenomenologia se preocupem justamente com a essência, no entanto, os fenomenólogos postulam que o modo típico do aparecer dos fenômenos à consciência seja por meio das essências. Os teóricos desta linha entendem as essências como os universais, os conceitos que tornam possíveis a classificação, reconhecimento e distinção dos diferentes fatos particulares. Por meio dos universais são reconhecidos os diferentes modos de se apresentar dos fenômenos.Apesar de preconizar o retorno às coisas, ao se organizar desta forma a fenomenologia acaba por afastar-se das coisas uma vez que coloca a consciência como aquela que significa e dá sentido ao real. De forma diversa, a dialética marxiana busca o significado do real na atuação histórica, concreta e material das pessoas. É na história que os
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    115O método dialéticoe a análise do real seres humanos engendram e significam o mundo ao seu redor. História aqui entendida não como a sucessão dos fatos, mas como luta cotidiana dos homens e mulheres para produzir suas condições materiais de existência na relação com a natureza mediada pelo trabalho, bem como, o modo como os seres humanos interpretam essas relações4 . Assim, não é a consciência a essência, mas a relação com o meio concreto. A consciência, não é apenas organizadora do meio, mas também ente que se organiza em função e em relação com o material. Segundo Marx e Engels (2007 p.41): “de acordo com o já exposto, é claro que a efetiva riqueza espiritual do indivíduo depende inteiramente da riqueza de suas relações reais”. As formas de pensamento sejam elas reais ou ilusórias refletem as relações efetivas entre os sujeitos. Tanto a linguagem quanto o próprio pensamento são resultantes das condições históricas, materiais em que se encontram as pessoas. Ao discutir estas questões Chasin (apud RAGO FILHO 2010 p.2) explicita isto Atividade ideal é atividade social. O pensamento tem caráter social porque sua atualização é a atualização de um predicado do homem, cujo ser é, igualmente, atividade social. Na universalidade ou na individualidade de cada modo de existência teórica – cientista, pensador etc. – o pensamento é atividade social, inclusive pelos materiais e instrumentos empregados. Em síntese, consciência, saber, pensamento etc., sob qualquer tipo de formação ideal, das mais gerais às mais específicas, da mais individualizada à mais genérica, dependem do ser da atividade sensível, socialmente configurado, ao qual confirmam por sua atividade abstrata, igualmente social. (CHASIN apud RAGO FILHO 2010 p.2) O método dialético irá justamente buscar as relações concretas e efetivas por trás dos fenômenos. Sobre esta posição marxiana escreveu Walhens (apud Kosik 1976 p.17): “O marxismo é o esforço para ler, por trás da pseudoimediaticidade do mundo econômico reificado as relações inter- humanas que o edificaram e se dissimularam por trás de sua obra.” O entendimento pleno destas relações inter-humanas está para além do fenomênico, formando o que vem a ser a coisa em si, que apesar de distinta do fenômeno se manifesta de forma mediata a ele. Marx (1986:620) expressa o fato de que a essência é diferente do aparente em O Capital quando discute o conceito de mais valor: “Todas as ciências, exceto a economia política, reconhecem que as coisas apresentam frequentemente uma aparência oposta à 4 Marx e Engels (2007 p.40) entendem a história da seguinte forma: “A história nada mais é do que o suceder-se de gerações distintas, em que cada uma delas explora os materiais, os capitais e as forças de produção a ela transmitidas pelas gerações anteriores; portanto por um lado ela continua a atividade anterior sob condições totalmente alteradas e, por outro, modifica com uma atividade completamente diferente as antigas condições...”
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    Luis Henrique Zago116 suaessência.” O fenômeno torna patente algo que não é ele mesmo, o que faz com que sua razão de ser esteja em seu contrário. A sua função primordial é indicar a essência, que se manifesta nele de modo parcial ou apenas sob certos ângulos e aspectos5 . Os fenômenos são aspectos singulares historicamente desenvolvidos, que manifestam uma das muitas possibilidades de ser da essência. Assim, compreender o fenômeno é justamente atingir a essência da coisa. Em oposição ao singular a essência é extraída da complexidade do real, é o elemento comum de diversas entificações fenomênicas aquilatadas. Temos de frisar que apesar de serem percebidos em momentos distintos da ação humana fenômeno e essência estão intimamente ligados formando o todo. O mundo fenomênico se constitui na concomitante relação de manifestar e esconder a essência. Segundo Kosik (1976 p.12) “Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde.” Para se chegar à compreensão e conceituação da essência é imprescindível um esforço que abstraia as coisas do campo prático. Inicialmente os objetos não surgem como elementos a serem analisados e compreendidos teoricamente; apresentam-se como campo para a atividade prático sensível, que resulta em uma intuição prática da realidade, poder-se-ia afirmar cotidiana. Segundo Kosik (1976 p.10): No trato prático utilitário com as coisas – em que a realidade se revela como mundo dos meios, fins, instrumentos, exigências e esforços para satisfazer a estas – o individuo ‘em situação’ cria suas próprias representações das coisas e elabora todo um sistema correlativo de noções que capta e fixa o aspecto fenomênico da realidade. O processo rumo a uma compreensão que vá além do campo prático liga- se a uma percuciente análise que envolve abstrações que atingem a essência das coisas. O que significa que por meio deste processo é possível atingir o concreto através da mediação do pensamento cientifico6 , ou seja, rompe- 5 Tanto Marx (1985) quanto Hegel (2007) percebem que a essência não se manifesta imediatamente tornando necessárias formas peculiares de conhecimento como a ciência e a filosofia. Ao discutir a transformação do valor ou do preço da força de trabalho em salário Marx (1985 p.625) explicita isso: “À forma aparente, ‘valor e preço do trabalho’ ou ‘salário’, em contraste com a relação essencial que ela dissimula, o valor e o preço da força de trabalho, podemos aplicar o que é válido para todas as formas aparentes e seu fundo oculto. As primeiras aparecem direta e espontaneamente como formas correntes de pensamento; o segundo só é descoberto pela ciência.” Hegel (2007 p.41) ao esclarecer os objetivos da Fenomenologia do Espírito vai na mesma direção de Marx: “O que esta Fenomenologia do Espírito apresenta é o vir-a-ser da ciência em geral ou do saber. O saber, como é inicialmente – ou o espírito imediato – é algo carente-de-espírito: a consciência sensível. Para tornar-se saber autêntico, ou produzir o elemento da ciência que é seu conceito puro, o saber tem de se esfalfar através de um longo caminho.” 6 O processo de mediação consiste justamente na pratica de reflexão. Sobre a mediação escreveu Hegel (2007 p. 36): “Com efeito, a mediação não é outra coisa senão a igualdade-consigo-mesmo semovente,
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    117O método dialéticoe a análise do real se com o cotidiano, com o senso comum, evita-se a simples apreensão das manifestações mais aparentes da realidade e por meio da mediação constrói-se o concreto pelo pensamento. Atingir o concreto pelo pensamento, através da mediação, não significa aderir ao idealismo. O método materialista histórico dialético postula que apesar de o conhecimento ser construído pelo pensamento ele ainda assim é social7 e, quando o processo é feito de forma correta, um reflexo da realidade. Sobre isso escreve Vygotsky (apud Duarte 2000 p.88) Este novo enfoque nos mostra que a realidade determina nossa experiência; que a realidade determina o objeto da ciência e seu método e que é totalmente impossível estudar os conceitos de qualquer ciência prescindindo das realidades representadas por esses conceitos. F. Engels assinala repetidas vezes que para a lógica dialética a metodologia da ciência é o reflexo da metodologia da realidade. A abstração, que consiste na maneira de proceder do pensamento, é o processo por meio do qual alguma coisa é destacada para ser objeto de estudo ou pesquisa. Segundo Abbagnano (1962), o ato de abstrair envolve dois elementos, o isolamento da coisa pré-escolhida das demais com que ela se relaciona e a pesquisa propriamente dita do que foi separado. Por ser apropriação ideal de objetos reais as abstrações imbricam-se as condições históricas e sociais dos indivíduos que as executam, ou seja, a maneira como se dá o posicionamento epistemológico que norteia as abstrações se relaciona ao momento histórico e social em que se encontra o pesquisador. Há que se considerar que toda pesquisa se liga aos problemas e necessidades surgidos no próprio corpo social e que serão estudadas em conformidade com os modos como a essência se apresenta a sociedade. Sobre isso escrevem Marx e Engels (2007 p.93): As representações que estes indivíduos produzem são representações, seja sobre sua relação com a natureza, seja sobre suas relações entre si ou sobre sua própria condição ou a reflexão sobre si mesmo, o momento do Eu para-si-essente, a negatividade pura ou reduzida à sua pura abstração, o simples vir-a-ser. O Eu, ou o vir-a-ser em geral – esse mediatizar –, justamente por causa de sua simplicidade, é a imediatez que vem-a-ser, e o imediato mesmo.” 7 O social, o material é a base para toda a produção teórica. Evidentemente para que esta base seja percebida e compreendida é imprescindível a mediação do pensamento o que pode levar a ilusão de que o pensamente tem a primazia em relação ao material. Cumpre lembrar que o próprio pensamento parte de uma base material e biológica que foi construída ao longo de uma história evolutiva que se fez socialmente. Sobre a primazia do material escrevem Marx e Engels (2007 p.106): “A matéria é, um ser atual, real, mas o é apenas em si, como algo oculto; apenas ela ‘se estende e se realiza ativamente na multiplicidade’ (um ‘ser atual, real’ ‘se realiza’!!) é que ela se torna natureza. Existe, em primeiro lugar, o conceito de matéria, o abstrato, a representação, e esta realiza a si mesma na natureza real. Temos aqui, textualmente, a teoria hegeliana da preexistência das categorias criadoras.”
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    Luis Henrique Zago118 natural[Beschaffenheit]. É claro que, em todos esses casos, essas representações são uma expressão consciente – real ou ilusória – de suas verdadeiras relações e atividades, de sua produção, de seu intercâmbio, de sua organização social e política. Apesar de as abstrações quando corretas reproduzirem parcialmente o concreto por meio do pensamento elas não fundam o real e não são o concreto, longe disto, é o pensamento que se constitui na relação com o concreto o compreendendo de forma limitada. A reprodução do concreto pelo pensamento envolve o esforço de síntese das diversas determinações do real, ou seja, o concreto pensado é a unidade do diverso8 . Neste sentido o concreto pensado se aproxima do conceito idealista, porém o modo de alcançar e de entendê-lo é incomensuravelmente diferente da proposta idealista. Enquanto para o idealismo o conceito é o elemento que confere realidade às coisas, no materialismo histórico dialético, o concreto pensado surge como resultado da relação com o real. Sobre isso escrevem Marx e Engels (2007 p.94): Totalmente ao contrário da filosofia alemã, que desce do céu para a terra, aqui se eleva da terra ao céu. Quer dizer, não se parte daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens de carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida Pelo que foi escrito acima se torna patente a divergência com o idealismo. Hegel, possivelmente o maior dos idealistas contemporâneos, nega que abstrair signifique retirar da realidade material elementos para serem conceituados. Para ele, o real, o concreto são os conceitos, sendo a realidade material privada de concreticidade. Idealistassobrevalorizamoconceito,conferindoaeleaprimaziaemrelação aos elementos materiais, por ser ele o ponto de partida para a representação do real e por ser o elemento por meio do qual se organiza o mundo no pensamento. Estas características engendram a ilusão de que o conceito confere realidade às coisas. É necessário perceber que apesar de ser ponto de partida para a compreensão do real o conceito estrutura-se a partir da realidade vivida pelos homens e mulheres. Sobre isso escreve (Marx 2011 p.54): “Por isso, Hegel caiu na ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que sintetiza-se em si, aprofunda-se em si, e movimenta-se a partir de si mesmo, enquanto 8 “O concreto é concreto por que é síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade” (Marx 2011 p.54)
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    119O método dialéticoe a análise do real o método de ascender do abstrato ao concreto é somente o modo do pensamento de apropriar-se do concreto, de reproduzi-lo como um concreto mental. Mas de forma alguma é o processo de gênese do próprio concreto.” Assim para os idealistas são os conceitos a essência do real. Os filósofos desta corrente de pensamento fazem uma inversão em relação ao materialismo conferindo primazia ao conceito, por ser, segundo eles, a substância do real. Por meio dos conceitos as pessoas organizam a realidade que as envolve. Os conceitos relacionam-se a categoria de universalidade. Originalmente os objetos surgem destituídos de sentido as pessoas. Inicialmente contempla- se o mundo como um todo sem sentido. A categoria de universalidade surge quando o multiverso inicial destituído de sentido se articula ganhando significação. Segundo Ranieri (2002/2003 p.18): “precisamente ela [categoria de universalidade] é a passagem do multiverso sem valor ao universo, o mundo que se apresenta de forma generalizada, porém, organizada, com sentido.” Esse universo é significativo a consciência humana por ser justamente produto da consciência dotada de condições de generalizar e abstrair. A categoria de universalidade organiza as coisas em elementos sintéticos igualmente abstratos, decorrentes do processo de generalização, mas que se desmembram formando unidades universais dos elementos singulares. São por exemplo os conceitos universais de mesa, árvore, ser humano que abarcam uma totalidade de seres singulares de determinado grupo que usamos para organizar o nosso pensamento sobre as coisas. Estes conceitos formam uma unidade sintética pré ideada dos elementos singulares, formam o uno, ou seja, um conceito que envolve uma totalidade de singularidades diversas que podem ser agrupadas sobre a mesma categoria. Em si mesma a singularidade não é compreendida, a compreensão torna-se possível somente pela mediação do uno, que ordena a capacidade de generalização do pensar. Apesar de o uno surgir à consciência como substância a priori, como pura construção ideal, na verdade não passa de representação decorrente de generalizações que os homens e mulheres constroem no contato com entes singulares. Segundo Ranieri (2002/2003 p.19): (...) [o uno] enquanto tal, prescinde de base material imediata, pois se apresenta como imagem que nutre o próprio pensamento – o singular se expressa na forma do objeto- outro, aquele ser-para-nós que aparece de forma acabada, quando o pressuposto das mediações não tem mais lugar. Ele é o próprio resultado do processo de mediação. Finalmente, o universal absorvido valorativamente é decomposto em singularidades concernentes a um processo único, e o conceito universal abstrato (singular) depara- se com a universalidade do múltiplo.
  • 255.
    Luis Henrique Zago120 Oente singular se nega enquanto concreto no conceito universal e retorna a si mediado por este conceito onde alcança a sua compreensão. Cabe a particularidade esclarecer este processo, ou seja, cabe a ela demonstrar as relações entre o objeto concreto e o universal. Segundo Ranieri (2002/2003 p.19): “cabe a ela [particularidade] desvendar o terreno das mediações que são circunscritas pelas esferas fenomênicas e indicar as formas conjugadas dessas esferas com a realidade da essência”, ou seja, compreender de que forma a complexidade social apresenta fenomenicamente a essência. Este desvendamento é factível apenas pela identificação dos elementos concretos que influem na estruturação do objeto. A identificação dos elementos concretos pressupõe um caminho que passa pela esfera de atividade humana, a posterior apreensão desta atividade na relação sujeito objeto e, por fim, a reprodução conceitual do objeto. Este caminho deve possibilitar que os diversos elementos que determinam a forma de ser do objeto apareçam plenamente integrados as varias esferas possíveis de existência. Evidentemente a atividade humana concreta detém a primazia neste caminho, afinal é a partir do concreto que se estrutura o social e o teórico, sobre isso escreve Lukács (apud Ranieri 2002/2003 p.20): Quando um automóvel vem ao meu encontro numa encruzilhada posso vê-lo como um fenômeno tecnológico, como um fenômeno sociológico, como um fenômeno relativo à filosofia da cultura, etc.; no entanto, o automóvel real é uma realidade, que poderá me atropelar ou não. O objeto sociológico ou cultural ‘automóvel’ é produzido, antes de tudo, em um ângulo visual que depende dos movimentos reais do automóvel e é a sua reprodução no pensamento. Mas o automóvel existente é, por assim dizer, sempre primário em relação ao ponto de vista sociológico a seu respeito, já que o automóvel andaria mesmo que eu não fizesse sociologia alguma sobre ele, ao passo que nenhum automóvel será posto em movimento a partir de uma sociologia do automóvel. Há, pois, uma prioridade da realidade do real, se assim se pode dizer; e, segundo penso, devemos tentar voltar a estes fatos primitivos da vida e compreender os fenômenos complexos partindo dos fenômenos originários. Para Marx (2011), a percepção que integra as várias formas de ser dos objetos torna imprescindível que se consiga distinguir o menos desenvolvido do mais desenvolvido. Uma vez que a abstração que possibilita a integração, deve partir preferencialmente da forma mais desenvolvida. O que não significa que o menos desenvolvido é considerado como irreal ou menos real, considera-se apenas que a sua razão de ser encontra-se na forma mais avançada. Sobre isso escreveu Marx (2011p.58) ao abordar as formas de entender o desenvolvimento econômico: A sociedade burguesa é a mais desenvolvida e diversificada organização histórica de produção. Por essa razão, as categorias que expressam suas relações e a compreensão
  • 256.
    121O método dialéticoe a análise do real de sua estrutura permitem simultaneamente compreender a organização e as relações de produção de todas as formas de sociedade desaparecida, com cujos escombros e elementos edificou-se, parte dos quais ainda carrega consigo como resíduos não superados, parte [que] nela se desenvolvem de meros indícios em significações plenas etc. A anatomia do ser humano é a chave para a anatomia do macaco.” Aabstração, seja do mais desenvolvido ou não, deve realizar a analise dos elementos a serem estudados. Segundo Marx (1985) apenas por meio de um processo de análise correta dos elementos da realidade é possível compreender o real de forma cientifica. Sobre a necessidade de analise promovida pela abstração afirma o filósofo no prefacio da primeira edição de O Capital: “na análise das formas econômicas, não se pode utilizar nem o microscópio nem reagentes químicos.Acapacidade de abstração substitui estes meios.” (MARX 1985 p.4) Cumpre destacar que a análise a qual nos referimos difere profundamente da proposta por Descartes (1996) em seu método de abordagem correta do real, no Discurso do método. A proposta cartesiana de análise além de desconsiderar os aspectos históricos e sociais da realidade, não passa de um fracionamento para a descrição do imediatamente visível nas inúmeras partes. As inúmeras partes são fracionadas e posteriormente alinhavadas sem se considerar que juntas elas são mais que a sua simples soma. Ao se articularem formando uma totalidade, as partes individuais passam a deter características que não possuiriam se permanecessem separadas. A análise que propomos objetiva justamente o que está para além do fenomênico, ou seja, a essência, sua natureza e sua origem, defendemos que apenas assim teríamos uma descrição do todo que compõe o real, uma descrição portanto cientifica. A atividade analítico-abstrativa deve desvelar a relação entre o fenômeno e a essência, demonstrando que eles formam um todo. Uma descrição científica da realidade parte de uma visão do todo, sempre presente no contato com o real como se afirmou anteriormente, mas ainda nebulosa e imprecisa, ou seja, parte-se de um conceito vazio de significação concreta. Desta representação conceitual vaga ruma-se para uma formulação conceitual que deixe de ser caótica e passe a representar efetivamente a realidade das coisas. Em uma elucidativa passagem Marx (2011 p.54) esclarece este processo de construção do conhecimento: Parece que o correto é começarmos pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo, e, portanto, no caso da economia, por exemplo, pela população, que é o fundamento e o sujeito do ato social de produção como um todo. Considerado de maneira mais rigorosa, entretanto, isso se mostra falso. A população é uma abstração quando deixo
  • 257.
    Luis Henrique Zago122 defora, por exemplo, as classes das quais é constituída. Essas classes, por sua vez, são uma palavra vazia se desconheço os elementos nos quais se baseiam. P.ex., trabalho assalariado, capital, etc. Estes supõem troca, divisão do trabalho, preço, etc. O capital, p.ex., não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço etc. Por isso, se eu começasse pela população, esta seria uma representação caótica do todo e, por meio de uma determinação mais precisa, chegaria analiticamente a conceitos cada vez mais simples; do concreto representado [chegaria] a conceitos abstratos [abstrakta] cada vez mais finos, até que tivesse chegado às determinações mais simples. Daí teria de dar início à viagem de retorno até que finalmente chegasse de novo à população, mas desta vez não como a representação caótica de um todo, mas com uma rica totalidade de muitas determinações e relações. O pensamento não possui a capacidade de abarcar corretamente o concreto de forma imediata, se tomamos o conceito de população de forma imediata ele não passa de uma abstração que esclarece muito pouco sobre a realidade econômica por não corresponder a complexidade do real. Como o termo população não consegue romper com uma representação caótica do todo é necessário passar a análise, até atingir os conceitos mais simples. Feita a análise é preciso reconstruir o objeto, faz-se o caminho inverso do mais simples ao conceito que foi o ponto de partida, que ao ser atingido não será mais representado como um todo caótico, mas como uma rica totalidade de determinações. Por meio desse processo, o concreto é reproduzido pelo pensamento. Mesmo depois de superada a representação caótica do todo e alcançada á totalidade como determinação de relações diversas, esta não é o real, mas apenas o que o ser humano com suas limitadas capacidades consegue apreender e formular sobre o real. A realidade é infinitamente mais complexa do que a capacidade humana de descrevê-la e pensá-la. Sobre isso escreve Marx (2011 p.55): “O todo com um todo de pensamentos, tal como aparece na cabeça, é um produto da cabeça pensante que se apropria do mundo do único modo que lhe é possível (...). O sujeito real, como antes, continua a existir em sua autonomia fora da cabeça; isso, claro, enquanto a cabeça se comportar apenas especulativa, apenas teoricamente. Por isso, também no método teórico o sujeito, a sociedade, tem de estar continuamente presente como pressuposto da representação.” Cumpre frisar que a impossibilidade de atingir a plenitude do real não deve desmotivar o processo de busca pela totalidade. Afinal construir uma representação do real que não seja caótica é incomensuravelmente melhor para a ação do que restringir-se a uma interpretação confusa da realidade.
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    123O método dialéticoe a análise do real Considerações finais Ao evidenciar que são as relações estabelecidas por homens e mulheres com o meio concreto que engendram o real a dialética torna exequível a revolução do status quo, por possibilitar a compreensão de que o mundo é sempreresultadodapráxishumana,sejaelamarcadaporrelaçõesdedominação que reificam e fetichizam a prática social seja marcada por relações que operam a humanização dos homens e mulheres. Ao romper com os fetiches, ou seja, ao perceber que os objetos não devem sujeitá-los, homens e mulheres avançam de encontro à reificação alçando-se a possibilidade de revolucionar suas condições de existência. Assim o rompimento da psedoconcreticidade ocorre no momento em que se evidencia que a realidade social se concretiza por meio das condições de produção e reprodução da existência social das pessoas que é em nossa sociedade marcada pela luta de classes. Sobre isso escreve Kosik (1976 p.19): “O mundo real não é, portanto, um mundo de objetos ‘reais’ fixados, que sob o seu aspecto fetichizado levem uma existência transcendente como uma variante naturalisticamente entendida das ideias platônicas; ao invés, é um mundo em que as coisas, as relações e os significados são considerados como produtos do homem social, e o próprio homem se revela como sujeito real do mundo social. (...) Ao contrário do mundo da pseudoconcreticidade, o mundo da realidade é o mundo da realização da verdade, é o mundo em que a verdade não é dada e predestinada, não está pronta e acabada, impressa de forma imutável na consciência humana: é o mundo em que a verdade devém. Por esta razão a história humana pode ser o processo da verdade e a história da verdade. A destruição da pseudoconcreticidade significa que a verdade não é nem inatingível, nem alcançável de uma vez para sempre, mas que ela se faz; logo, se desenvolve e se realiza.” Todo esse processo de perda de referenciais, de estranhamento e sujeição aos ditames traçados pelo mercado são vivenciados por homens e mulheres. Eles vivem esta realidade em cada momento de suas vidas, sofrem com ela, lutam nela, desanimam, adoecem, às vezes vencem, conquistam e sobrevivem. Referências bibliográficas ABBAGNANO, Nicola - Dicionário de filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1962. ALTHUSSER, Louis - Aparelhos ideológicos de estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de estado. 6ª ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1992 DESCARTES, René - Discurso do Método. São Paulo. Nova Cultural, 1996. DUARTE, Newton – “A anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco: A dialética em Vigotski e em Marx e a questão do saber objetivo na educação escolar”, Educação & Sociedade, ano XXI, nº 71, Julho 2000.
  • 259.
    Luis Henrique Zago124 GALEFFI,Dante Augusto – “O que é isto – a fenomenologia de Husserl?”, Ideação, Feira de Santana,n.5, p.13-36, jan./jun. 2000. HEGEL, Georg W. F. - Fenomenologia do Espírito, 4ªed., Petrópolis: Vozes, 2007. HELLER, Agnes - O cotidiano e a históri, 4a ed., São Paulo: Paz e Terra, 1970. KONDER, Leandro - O que é dialética?, 22ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1991. KOSIK, Karel - Dialética do Concreto, 2ª ed., São Paulo: Paz e Terra, 1976. LEONTIEV, A. - O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978. MARX, Karl - O capital: crítica da economia política, 10ª ed., São Paulo: Difel, 1985. ___________  -  Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857- 1858 Esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo, 2011. ___________  -  Manuscritos econômicos-filosóficos, São Paulo: Boitempo, 2004. MARX, K. e ENGELS, F. - A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas 1845- 1846, São Paulo: Boitempo, 2007. MÉZAROS, István - A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005. RAGO FILHO, Antonio - J. Chasin: A Teoria das Abstrações. Disponível em: http:// www.verinotio.org/edicoes_anteriores.htm. Acesso em: 15/07/2010. NIETZCHE, Friedrich Wilhelm - Os pitagóricos. In: Pré-Socráticos: Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo. Nova Cultural, 1996. RANIERI, Jesus – “Sobre o conceito de ideologia”, Estudos de Sociologia,Araraquara v 13/14: 7-36, 2002/2003. _____________  -  Alienação e Estranhamento: A atualidade de Marx na crítica contemporânea do Capital. Disponível em: http://www.nodo50.org/cubasigloXXI/ congreso06/conf3_ranieri.pdf. Acesso em: 10/04/2009. SIRGADO, Angel Pino – “A corrente sócio-histórica de psicologia: fundamentos epistemológicos e perspectivas educacionais”, Em Aberto, Brasília, ano 9, n. 48, out./ dez. 1990.