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SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 120 • ANGLO VESTIBULARES
SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA
Vida
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na pequena cidade
mineira de Itabira, que, na ficção de sua poesia, o poeta soube transformar
numa espécie de mito, associando-o sempre à tópica da lembrança
dolorosa. Conforme o mesmo argumento poético, as jazidas de ferro da
cidade teriam fornecido ao poeta seu jeito austero e brioso de ser.
Descendia de fazendeiros e mineradores da região de Itabira. Estudou
em Belo Horizonte, tendo se formado em farmácia. Depois de estabelecer
contatos com o Modernismo paulista, fundou, em 1925, A Revista,
primeiro periódico de vanguarda em Minas Gerais. Participavam de
seu grupo literário: João Alphonsus, Emílio Moura, Martins de Almei-
da, Pedro Nava e Abgar Renault. Trabalhou também na grande im-
prensa de Belo Horizonte, representada pelo Diário de Minas e Minas
Gerais. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu funções burocráticas no serviço públi-
co até 1962. Paralelamente, manteve seções de crônicas em diversos jornais do país. Foi também tradu-
tor e ensaísta. Morreu no Rio de Janeiro, em 1987.
Drummond sempre se comportou de modo discreto, avesso à publicidade, notabilizando-se como
pai de família tradicional. Todavia, após a morte, veio a público sua faceta íntima de amante dedicado,
pois manteve um longo e intenso amor paralelo à vida familiar, que, segundo o discurso biográfico
logo estabelecido, lhe teria inspirado diversos poemas eróticos, bem mais explícitos do que os que
normalmente publicava em seus livros, como é o caso de O Amor Natural, editado em 1992.
Drummond tinha 28 anos quando, em 1930, editou Alguma Poesia, seu primeiro livro. Os poemas
que o compõe vinham sendo divulgados desde 1923, quer fosse em periódicos mineiros como o
Diário de Minas, A Revista e Verde; quer fosse em veículos mais cosmopolitas do Rio de Janeiro,
como O Jornal, Festa; ou em órgãos dirigidos pelos modernistas de São Paulo, como Estética, Terra
Roxa e Outras Terras, Revista de Antropofagia.
Obra: Reunião, Nova Reunião
A obra poética de Drummond editada em vida constitui-se, basicamente, por dezenove livros,
que se agrupam em dois volumes, com o título de Nova Reunião. Esses volumes foram organizados
para homenagear o octogésimo aniversário do poeta, em 1982, mas acabaram saindo no ano
seguinte, quatro anos antes de sua morte.
Antes disso, porém, os dez primeiros livros dessa série foram organizados e editados pelo autor em
1969, no volume Reunião, que, segundo a unanimidade da crítica, são os melhores livros de Drummond:
Alguma Poesia, 1930
Brejo das Almas, 1934
Sentimento do Mundo, 1940
José, 1942
AA RROOSSAA DDOO PPOOVVOO
Carlos Drummond de Andrade
ANALISE DA OBRA IVAN TEIXEIRA´
A Rosa do Povo, 1945
Novos Poemas, 1948
Claro Enigma, 1951
Fazendeiro do Ar, 1954
A Vida Passada a Limpo, 1959
Lição de Coisas, 1962
Entre os livros acrescidos ao volume Nova Reunião,
encontra-se uma trilogia memorialística, composta por
Boitempo & A Falta que Ama (1969), Menino Antigo:
Boitempo II (1973) e Esquecer para Lembrar: Boitempo
III (1979), livros que ficcionalizam o passado mineiro
(rural e urbano) da personagem lírica que o poeta insti-
tui como autor de suas obras.
Principais Temas de Reunião
Em 1962, ao completar 60 anos e depois de publi-
car Lição de Coisas, o poeta organizou uma seleção de
seus poemas, a que deu o título impessoal de Antologia
Poética. Na pequena nota introdutória ao volume,
explicou que sua escolha obedeceu a critérios informa-
tivos, razão pela qual agrupou os poemas em torno de
nove núcleos temáticos, os quais formaram seções no
volume, com títulos específicos. Os poemas de Anto-
logia Poética foram extraídos dos dez livros que, mais
tarde, seriam coligidos em Reunião. Os temas e as res-
pectivas seções do volume são os seguintes:
1. o indivíduo (“um eu todo retorcido”)
2. a terra natal (“uma província: esta”)
3. a família (“a família que me dei”)
4. amigos (“cantar de amigos”)
5. o choque social (“na praça de convites”)
6. o conhecimento amoroso (“amar-amaro”)
7. a própria poesia (“poesia contemplada”)
8. exercícios lúdicos (“uma, duas argolinhas”)
9. uma visão, ou tentativa de, da existência (“tentativa
de exploração e de interpretação do estar-no-mun-
do”)
Não é difícil perceber que todos esses temas estão
estreitamente interligados: o indivíduo, entendido co-
mo personagem poética, surge de uma família numa
terra qualquer. Cresce. Faz amigos e freqüenta a pra-
ça, onde amplia suas relações e conhece a política e o
amor. Então, descobre a poesia, na qual tanto se ades-
tra que chega a brincar com as palavras. Já formado,
adquire opinião sobre as coisas, o mundo e a existên-
cia.
Como se vê, os oito últimos temas da Antologia
Poética não passam de variação ou projeções do pri-
meiro — o indivíduo. Assim, Reunião deve ser lido
como uma espécie de unipoema, no qual se conden-
sa uma das mais extraordinárias experiências artís-
ticas da literatura brasileira.
A Poesia dos Anos 1930
Conforme uma divisão clássica da poesia brasi-
leira do século XX, genericamente chamada moder-
nista, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Ma-
nuel Bandeira formariam o núcleo de uma primeira
fase (1922-30), preocupada com a criação de uma
linguagem, de um temário e de uma suposta sensi-
bilidade que fosse adequada à expressão do homem
no século que se iniciava. Nessa fase, domina o pro-
pósito de atualização do conceito de arte no Brasil,
o que conduz o olhar do artista local para as gran-
des formulações das vanguardas européias, toma-
das como instrumento para a solução do impasse
deixado pelo esgotamento das fórmulas do século
XIX.
Esse primeiro momento será marcado por um
paradoxo, ainda que aparente: ao mesmo tempo em
que se buscam sugestões de matrizes européias (Fu-
turismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo), há o
projeto de se produzir uma síntese artística do país,
com todas as diversidades de sua língua, de seu po-
vo, de suas regiões e de sua história. Em rigor, as
vanguardas européias deveriam funcionar como um
conceito para a revisão do país e para a construção
de uma arte que se ajustasse aos novos tempos. Por
causa desse clima de renovação de estruturas, a poe-
sia do período apresenta um certo gosto tecnicista,
que, não raro, produz o efeito de artificialismo e pes-
quisa formal.
Conforme a mesma divisão, os anos 1930 mar-
cam o surgimento de poetas que consolidariam a ta-
refa da geração anterior, dando à poesia praticada
no Brasil uma certa estabilidade formal e temática,
normalmente tomada como mais típica do século
XX. Já não há tanta aversão ao século XIX nem à
tradição clássica do Ocidente. O verso livre, o verso
sem rima e a ausência de pontuação convencional —
grandes conquistas da primeira fase — convivem
pacificamente com versos, formas, ritmos, motivos e
temas tradicionais. A poesia se torna mais concei-
tual, investigando grandes questões sociais e exis-
tenciais. A visão marxista da história propicia um
posicionamento crítico dos valores francamente ca-
pitalista. Da mesma forma, o Existencialismo e a Psi-
canálise oferecem uma variada gama de tópicas e
técnicas, que conferem diversidade temática e den-
sidade semântica aos novos poetas: a guerra, a polí-
tica, o operário, o burguês, o amor, a família, o pas-
sado, o presente, o individual, o coletivo, o universal
e o local serão temas comuns na poesia da segunda
geração modernista. Esses motivos cristalizam-se de
maneira admirável sobretudo em A Rosa do Povo,
de Carlos Drummond de Andrade, mas podem ser
surpreendidos também em Murilo Mendes, Vinícius
de Morais, Cecília Meireles e em Jorge de Lima, que
compõem o perfil da segunda fase do Modernismo
Brasileiro.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 121 • ANGLO VESTIBULARES
A ROSA DO POVO (1945)
Poesia da Crise e do Impasse
A Rosa do Povo contém 55 poemas, tendo sido a mais
longa obra até então composta por Carlos Drummond de
Andrade. Trata-se de seu quinto livro. Antes dele, o poeta
publicara: Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934),
Sentimento do Mundo (1940) e José (1942). A Rosa do Povo
representa a consolidação qualitativa e formal do
Modernismo, sendo também a maior realização artística
do poeta até o momento. Nele, Drummond adota tanto o
verso livre quanto o verso tradicional (redondilho e
decassílabo), dando preferência a poemas longos de
estrofação e versos irregulares. Como em outros livros do
autor, a repetição (redundância, tautologia, reiteração), a
enumeração e a gradação destacam-se entre os processos
estilísticos do livro. Contribuem para o efeito de rapidez e
modernidade dos poemas. Quando a enumeração consti-
tui-se de elementos logicamente desconexos, leva o nome
de enumeração caótica, o que também ocorre com fre-
qüência na obra.
A Rosa do Povo é um livro dominado pela idéia de
crise: crise do indivíduo, crise da poesia, crise da so-
ciedade, crise dos mitos e crise dos sonhos. Demons-
trando extrema lucidez diante do impasse da vida e da
arte, o poeta sempre recusará solução fácil para proble-
ma difícil, como evidenciou no famoso poema “José”,
do livro homônimo (1942). Em A Rosa do Povo persiste
a tópica do impasse, revestida de ceticismo irônico,
sem nenhum desespero, mas também sem grandes es-
peranças, exceto na hipótese provisória da poesia, ins-
trumento com que procura superar os erros do mundo.
Em “Rola Mundo”, de A Rosa do Povo, essa idéia
importante acha-se sintetiza em três versos inenfáticos,
porém precisos em sua força semântica:
Como vencer o oceano
se é livre a navegação
mas proibido fazer barcos?
Ceticismo Irônico
Exemplo clássico de riso desencantado, que tem
muito a ver com o pensamento ficcional de Machado
de Assis, de quem Drummond se coloca como o mais
perfeito herdeiro na arte brasileira, é o poema “Consolo
na Praia”, adotado como suporte de exercício no final
do presente estudo. Nesse breve texto de versos re-
gulares, enumeram-se as mais atrozes desvantagens do
indivíduo desvalido, como se fossem amenos acidentes
de crise momentânea. No final, a voz irônica sugere
que a personagem se entregue ao sono, como forma de
ensaiar a morte. Pela lógica do leitor, a morte seria a
verdadeira solução para a personagem do poema, mas,
caso a voz lírica a recomendasse, demonstraria alguma
crença na vida, porque a estaria considerando digna de
confronto. O pensamento irônico evita atitudes francas.
Por isso, recomenda o sono, evitando nomear o des-
consolo, que figura como consolo no título:
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Assim, a ironia explica-se por insinuar o contrário
do que afirma. Em certo sentido, o poema põe em xe-
que o próprio conceito de ironia, pois é mais ou menos
óbvia a idéia de que o absurdo da vida não dispensa
certa dose de inconformismo. E o texto apresenta um
discurso inconformado com aparência de resignação.
Em “A Flor e a Náusea”, comentado adiante, a voz líri-
ca pergunta: posso, sem armas, revoltar-me?
Euforia Épica
Apesar da ironia e do ceticismo, A Rosa do Povo
ostenta certa esperança na solidariedade da poesia e na
crítica às instituições opressoras. Assim, se o livro é,
por um lado, cético e irônico, nem por isso deixa de
apresentar uma discreta euforia épica, em que o poeta
realiza a promessa de uma poesia adequada ao canto
da vida presente, tal como programou em Sentimento
do Mundo (1940) e somente agora realiza: denúncia do
burguês desumano; simpatia pelo trabalhador destemi-
do; atenção ao desenrolar da segunda grande guerra;
lamento pelo genocídio do conflito; esperança na re-
construção democrática do mundo; crença na utopia
comunista; alusão à opressão da Ditadura Vargas. Ao
lado desse aspecto propriamente social e coletivo, há
intensa investigação lírica do indivíduo e sua relação
com a passagem do tempo, com a família e com o
amor.
A referida euforia épica (discreta) encontra-se em
diversos poemas sobre a Segunda Guerra, que sem-
pre incorporam a participação russa, como a indicar
que a utopia marxista integra a mínima dose de oti-
mismo necessário para a lucidez da análise do tempo
presente. Para exemplificar a tópica da reconstrução
do mundo por via democrática, veja-se o poema “Te-
legrama de Moscou”:
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 122 • ANGLO VESTIBULARES
Stalingrado era importante cidade russa à beira
do Volga. Além de sua força simbólica (compunha-se
do nome de Stalin), a cidade exercia posição estratégi-
ca na União Soviética, por causa de seu depósito de
armas, do transporte de alimentos e de petróleo. A ci-
dade foi invadida por Hitler em agosto de 1942, tendo
resistido até fevereiro de 1943, quando os nazistas fo-
ram derrotados. Esse cerco passou para a história co-
mo uma das mais importantes batalhas da Segunda
Guerra. A partir daí, o exército alemão começou a per-
der o privilégio de grandes iniciativas. Ao figurar a ce-
na da reconstrução da cidade pelas supostas forças
democráticas, o poema de Drummond institui sua re-
sistência em símbolo da liberdade contra a opressão.
Há outro poema em A Rosa do Povo sobre essa bata-
lha, “Carta a Stalingrado”. Nele, a voz lírica alerta que
a poesia fugiu dos livros para os jornais. Insinua tam-
bém que o cerco da cidade russa imita a epopéia ho-
mérica, com a vantagem de caber em telegramas. O
exemplo de Stalingrado terá tido o poder de unir pes-
soas dos quatro cantos do mundo, em torno do ideal
comunista, então entendido como opção esclarecida
do ponto de vista ideológico.
Construção da Intimidade
Apesar da força dos poemas sociais de A Rosa do
Povo, talvez a maior informação estética do livro
venha da investigação lírica do indivíduo, organizada
de tal forma que não se distancia muito dos poemas
que ficcionalizam a objetividade do mundo exterior,
como em “Carta a Stalingrado”. Esse será, por certo, o
caso de “A Flor e a Náusea”, obra-prima de perquiri-
ção do desajuste da pessoa com o mundo objetivo.
Outros haverá que, singularizando um pouco mais a
noção do “eu todo retorcido”, tematizam a idéia do in-
divíduo diante da família, do amor, da memória, do
tempo e da morte. “Onde há pouco falávamos” e “Os
Últimos Dias” exemplificam essa vertente temática do
livro. No primeiro desses poemas, um velho piano
simboliza o elo indissolúvel entre o passado e o pre-
sente, encarnando a tópica, muito reiterada em A Ro-
sa do Povo, de que os mortos controlam os vivos. A
essa tópica associa-se o tema de que o indivíduo é
sempre menor do que a família, noção básica nos poe-
mas de construção da intimidade em Drummond:
É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
E ele toca e ele chora e ele canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.
Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla põe-se a bater, cruel, em hora
espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa seu lamento.
Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
Em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
E sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
ele estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.
Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um íncubo perturba
nossa modesta, profunda confidência.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 123 • ANGLO VESTIBULARES
Desenho de Beatriz Sherman
Esse texto representa um momento forte da poesia
sobre a família em A Rosa do Povo. A família entendida
como frágil motivo de (in)segurança do indivíduo. Sem
os perigos da vida exterior (inspetores, caçadores,
vulpinos [espertalhões como raposa]), a casa, todavia,
apresenta outros riscos, talvez piores que os de fora,
pois aí reside o invisível demônio da memória (íncubo),
que inviabiliza qualquer estabilidade emocional (con-
fidência). Por ironia, sabendo-a frágil (modesta), o texto
classifica a confidência do indivíduo em família de pro-
funda. Em outro momento do poema, o piano é com-
parado ao corvo do poema homônimo de Edgar Allan
Poe, símbolo da interferência inquietante do passado
sobre o presente. Em “Resíduo”, o mais conhecido
poema sobre os “laços de família” em A Rosa do Povo,
a voz lírica dirá: oh abre os vidros de loção/e abafa/o
insuportável mau cheiro da memória.
Inquietudes do Indivíduo, Instabilidade Social
Fica, assim, admitido que os dois principais nú-
cleos temáticos de A Rosa do Povo são: a) as inquietu-
des do indivíduo; e b) a instabilidade social. Ao pri-
meiro corresponde a inclinação lírica do livro; ao se-
gundo, a vertente épica. Todavia, não se pode esque-
cer que os motivos se mesclam com freqüência, mes-
mo porque a matéria social, fundindo-se com a da
pessoa, também será submetida a tratamento lírico.
Além da metáfora e da mistura de estilos (o baixo com
o elevado; o irônico com o emotivo; o sério com o pa-
ródico), devem-se observar os efeitos sonoros dos
poemas de A Rosa do Povo, livro que tanto tira pro-
veito da orquestração panorâmica de grandes painéis
(“Nosso Tempo”, “Morte no Avião”) quanto explora a
música silente da intimidade de pequenas seqüências
que recompõem os espaços sombrios da memória.
Em ambos os casos, deve-se notar a arte do enjambe-
ment, isto é, a maneira com que o poeta termina um
verso e inicia o seguinte, deixando em suspense a
complementação semântica dos mesmos. A arte de li-
gadura entre um verso e outro atinge grande relevo
no livro. Observe-se a primeira estrofe de “Onde há
pouco falávamos”, transcrito parcialmente na página
anterior:
É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.
Em casos como esses, a leitura correta deve pro-
duzir ou evitar pausas, conforme se queira acentuar a
conformação melódica ou a estrutura semântica do
texto. Nesse exemplo específico, é necessário observar
que a interrupção semântica imposta pelos finais dos
versos pretende sugerir a fragmentação psicológica da
memória afetiva, dividida entre o passado e o presente.
O velho instrumento será o elo precário entre as duas
abstrações, transpostas ao poema como imagens da
vida, e não como a própria vida em si. Mais adiante, no
presente ensaio, será discutido o princípio de que a
vida não cabe na poesia, senão por meio de imagens
ou noções conceituais que a representam. As imagens,
idéias, noções ou conceitos que possibilitam a inclusão
da vida à arte pode se chamar linguagem.
Organização do Volume
Evidentemente, a poesia figurada em A Rosa do
Povo encarna temas, premissas, pressupostos e ques-
tões que Drummond concebe como adequados ao de-
bate cultural de seu tempo. O volume é organizado da
seguinte maneira: no começo, há dois poemas sobre
poesia, isto é, duas poéticas ou manifestos poéticos,
nos quais se esboça um conceito de poesia, com idéias
sobre técnicas compositivas, temas e finalidade do poe-
ma. Trata-se, portanto, de textos metalingüísticos, cuja
função é apresentar e discutir a concepção de poesia
adotada no volume. Em outros termos, ao poeta com-
pete investigar também a linguagem do próprio livro, e
não apenas questões ligadas ao indivíduo ou à socieda-
de. A linguagem seria o ponto de união entre aquelas
duas categorias temáticas. Tais poemas, dos mais
famosos do volume, são: “Consideração do Poema” e
“A Procura da Poesia”.
O terceiro poema do volume é “A Flor e a Náu-
sea”. Este é semelhante aos dois anteriores, pois fun-
ciona como uma espécie de anúncio temático da obra:
o indivíduo e sua relação conflituosa com o mundo.
Em perspectiva existencialista, o poema propõe o te-
ma do sujeito revoltado até a náusea, tentando sempre
racionalizar sua insatisfação: “posso sem armas revol-
tar-me?”. Por propor uma diretriz temática que será
retomada em diversos poemas, pode-se dizer que “A
Flor e a Náusea” é também de uma espécie de poética.
Depois desses três poemas programáticos, segue a
matéria propriamente dita, que tanto pode ser de ca-
ráter social quanto pessoal. O tom poderá ser de dis-
creta euforia ou de ceticismo irônico. O tema oscilará
entre o impasse insolúvel ou a proposta de precárias
soluções.
Poesia: Imagem ,Viagem: Linguagem
Se o livro começa por considerações acerca do
conceito de poesia, não será incorreto afirmar que ter-
mina por longa reflexão lírica sobre o cinema. É o que
se percebe em “Canto ao homem do Povo Charlie
Chaplin”. Aqui se desvenda o grande mistério coloca-
do nos dois primeiros poemas do livro, que será dis-
cutido mais adiante no presente ensaio: sobre o que
deve falar a poesia, se ela não consegue incorporar os
sentimentos, a natureza nem os homens em sociedade?
Tal como no cinema, a poesia trata de imagens dos
sentimentos, imagens da natureza e imagens dos ho-
mens em sociedade. Em outros termos, a poesia, tal
como o cinema, trabalha com a linguagem, entendida
como representação cultural do mundo. Assim, ao
produzir imagens, o cinema poderá ser uma espécie
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 124 • ANGLO VESTIBULARES
de alegoria da literatura, que, ao dizer homem, exclui qualquer homem particular e empírico para incorporar um
determinado conceito de homem em vigor num tempo historicamente determinado. Entretanto, esse homem da
poesia produz a impressão de um homem singularizado. Eis a mágica da arte, que, trabalhando com categorias
culturais, produz a impressão de natureza. Nesse sentido, a poesia, tal como o cinema, será uma máquina de pro-
dução de efeitos, pois articula conceitos e noções culturais, a que se pode dar o amplo nome de linguagem.
Assim, em “Canto ao Homem
do Povo Charlie Chaplin”, tem-se a
impressão da vida em seus múltiplos
aspectos cotidianos, porque o texto
transpõe para a linguagem verbal as
variadas situações vividas por Carli-
tos e instituídas em signos da arte
cinematográfica. Tem-se aí a noção,
discutida nas duas poéticas de aber-
tura do volume, de que a vida, antes
de entrar para a arte, tem de se trans-
formar em signo artístico, isto é, em
símbolo, em tema, em tópica, em
assunto, em arquétipo situacional,
em estrutura narrativa e em figura
de retórica. Somente assim se realiza
a grande viagem da natureza para a
cultura e desta para a arte. Tanto em
“Consideração do Poema” quanto
em “Procura da Poesia”, a criação
poética é metaforizada na idéia de
viagem: essa viagem é mortal, e co-
meçá-la; nem me reveles teus senti-
mentos,/que se prevalecem do equí-
voco e tentam a grande viagem.
“Canto ao Homem do Povo Charlie
Chaplin” apresenta outra noção im-
portante para o conceito de poesia
de A Rosa do Povo, que é a idéia de
que, no mundo contemporâneo, o
heroísmo não fica bem sem ironia.
O penúltimo poema do livro
também discute o conceito de arte,
de poesia e de cultura. Trata-se de
“Mário de Andrade Desce aos Infer-
nos”, escrito por ocasião da morte
do amigo e, em certos sentidos, mes-
tre do poeta Carlos Drummond de
Andrade. Nesse poema, há uma pas-
sagem sugestiva da flor como metá-
fora de poesia, que recorre de diver-
sas maneiras em todo o volume.
Aqui, ela pode ser metáfora do ami-
go que acaba de morrer:
A rosa do povo despetala-se,
Ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço?
Por esse fragmento, percebe-se a idéia de que, apesar da ironia, a poesia possui uma missão: anuncia, convoca,
dá esperança. No final do terceiro verso, o canto poético é comparado, em tom interrogativo, com o choro de cri-
ança. Trata-se de uma voz inoperante em face dos negócios concretos do mundo, mas é também inevitável e abso-
luta. Em “Consideração do Poema” o eu lírico confessa que arriscou toda a vida na literatura. Nesse sentido, o
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 125 • ANGLO VESTIBULARES
ceticismo irônico seria apenas um modo de construção
da ficção poética, que pretende ser cristal e vencer o
tempo. Essa noção encontra-se também nas poéticas
de abertura de A Rosa do Povo.
Consideração do Poema
Em “Consideração do Poema”, há uma espécie de
declaração do princípio de que a poesia, resultando de
uma atitude intelectual, decorre das opções artísticas
do poeta e, por isso mesmo, funde-se com a existên-
cia, marcada pela própria experiência poética passada
(uma pedra no meio do caminho) e por leituras de poe-
tas contemporâneos (Vinícius de Morais, Murilo Men-
des, Pablo Neruda, Guillaume Apollinaire, Vladimir
Maiakovski):
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespodente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
[...]
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus,
Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda minha vida que joguei.
Além dessas noções, o poema informa sobre um
dos principais temas do livro: o povo, isto é, as ques-
tões sociais — nada transcendentes e nem um pouco
sentimentais, como deixam ver esses versos da par-
te final do texto:
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
[...]
Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.
Enfim, o vocábulo povo encontra-se no próprio
título do livro. Conforme se viu anteriormente, o vo-
cábulo rosa será metáfora de poesia e ressurge em
diversos poemas do livro. Esse texto de abertura
ensina também que, embora sempre lógicos, os
poemas do volume possuem algumas imagens obs-
curas, que destoam da racionalidade da média dos
enunciados. Tanto nesse texto como nos demais de
A Rosa do Povo, tais imagens devem ser entendidas
como incorporação da poética surrealista. Além de
indicar o diálogo com essa corrente da vanguarda
européia, funcionam como meio de adensamento
estético da frase. Observem-se os seguintes versos:
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Anteriormente, o texto vinha caracterizando a pró-
pria voz lírica, apresentada como observadora objetiva
e impiedosa dos fatos dignos de se incorporarem ao
canto. Subitamente, surgem esses versos obscuros,
cuja função é caracterizar os caminhos desconhecidos
e imprevistos da viagem da voz lírica por entre a lin-
guagem e os assuntos de que pode tratar. O ensaio viu
antes e retoma aqui a idéia de que a poesia se apresen-
ta sob o signo da viagem, do trânsito imprevisto da
natureza para a linguagem. Nesse fragmento, o canto
poético é figurado como um navio que leva uma men-
sagem, carregado de imagens fragmentárias, que
sugerem a multiplicidade de tópicas de que pode falar
o poeta. Apensar da noite, que simboliza a imprevisibi-
lidade da aventura da criação, ele possui dois ou três
faróis que orientam a confecção poética, impedindo
que o poema se perca no mar negro da jornada rumo à
consecução da arte acabada.
Procura da Poesia
“Procura da Poesia” é semelhante ao poema comen-
tado anteriormente. Aqui, como acontece com quase os
poemas-manifestos, há uma parte que nega (não faças) e
outra que afirma (penetra). Na primeira, o poeta expõe o
que não se deve esperar da poesia; na segunda, apre-
senta suas reivindicações. O poeta recusa a poesia fun-
dada na relação direta com o fato, supostamente apoia-
da no sentimentalismo das relações amorosas ou na sub-
jetividade de circunstâncias pessoais:
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
Não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pes-
soais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
Esse excelente, completo e confortável corpo, tão
infenso à efusão lírica.
[...]
O que pensas e sentes ainda não é poesia.
Na parte afirmativa, defende-se a idéia de poesia
como fato lingüístico, como fenômeno de linguagem,
que não a aparta da vida dos fenômenos, apenas pres-
supõe a mediação imagética coisa e signo:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 126 • ANGLO VESTIBULARES
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
[...]
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
trouxeste a chave?
Repara:
Ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Embora muito comentado pela fortuna crítica de
Drummond, esse poema não se encontra suficientemente
esclarecido. A dificuldade maior de seu entendimento
consiste em que o poeta nega o valor dos acontecimentos
(pessoais ou coletivos) como matéria de poesia num livro
radicalmente voltado para a multiplicidade dos fatos pes-
soais e coletivos. Em substituição aos acontecimentos,
esse texto recomenda o mergulho no reino das palavras,
onde residem os poemas que esperam ser escritos. Se os
fatos não contam, como entender poemas como “A Morte
do Leiteiro” (o caso de um trabalhador que morre por ser
confundido com um ladrão) ou “O Caso do Vestido” (a
estória de um homem que solicita a mediação de sua es-
posa na conquista de outra mulher)? Se os incidentes pes-
soais também não servem à poesia, como interpretar poe-
mas em que a voz lírica simula a presença do próprio pai
(“Rua da Madrugada”, “No País dos Andrades”)? Alguma
coisa requer explicação, pois parece haver uma contra-
dição entre a poética de A Rosa do Povo e seus poemas
concretamente considerados. Todavia, tal contradição é
aparente e se desfaz com a compreensão efetiva do poe-
ma, discutido anteriormente e retomado a seguir.
Normalmente, os críticos alegam que, com as ne-
gativas e as afirmações de “Procura da Poesia”, o poeta
pretende ressaltar o valor da linguagem no processo
poético. Isso é verdade, mas não é tudo. Ao dizer que
os acontecimentos e os incidentes pessoais não devem
entrar na poesia, o poeta pretende, de fato, defender a
idéia de que poesia só se faz com temas, tópicas ou as-
suntos escolhidos, e não com os fatos em si. Como se
viu anteriormente, o que entra na poesia são idéias ou
representação dos fatos que se cristalizam nas pala-
vras, na linguagem. Tanto os sentimentos pessoais
quanto a vida em sociedade entram no poema, mas
não como matéria bruta, senão como temas, idéias,
imagens ou conceitos associados à realidade das coi-
sas. É nesse sentido que se deve entender a noção de
linguagem, que, no poema, aparece na perífrase reino
das palavras. Por essa razão é que os poemas pré-exis-
tem a si próprios, isto é, são realidades virtuais que in-
tegram as hipóteses previstas pelo código da poesia de
cada tempo, no caso, a recente tradição da poesia con-
temporânea. Assim, desfaz-se a aparente contradição
entre a proposta de “Procura da Poesia” e a matéria so-
cial e individual dos poemas de A Rosa do Povo, por-
que aí há muitos acontecimentos e muitos incidentes
pessoais no livro, mas não como instancias singulares
dos fenômenos, senão como conceitos gerais ou no-
ções ideais, as quais ficcionalizam (instituem em ficção)
as particularidades da vida concreta. Como toda arte, a
poesia de Drummond resulta de operações intelectuais
do juízo, da razão e cultura.
Em outros termos, a natureza e os homens em so-
ciedade, explicitamente negados como matéria do
canto, tornam-se matéria do mesmo canto depois de
se converterem em linguagem, isto é, quando trans-
postos para a condição de imagens ou conceitos cul-
turais de natureza e de sociedade. Por essa perspecti-
va, um texto para ser, de fato, um poema deverá pare-
cer com os poemas que integram a noção de poesia
de um dado momento. No décimo livro da República,
Platão explica que, ao construir uma cadeira, o artesão
nada mais faz do que imitar a idéia de cadeira. Se o
objeto resultante de seu trabalho não parecer com
uma cadeira e não exercer a função que se espera de
uma cadeira, não poderá ser considerado como ca-
deira. Será outra coisa. Assim, os textos de A Rosa do
Povo serão tomados como poéticos desde que se
aproximem do conceito de boa poesia adotado pelo
autor e por seus leitores. É nesse sentido que os poe-
mas moram no reino das palavras, isto é, residem no
espaço convencional da linguagem, do código cultural
da comunicação artística. O domínio competente des-
se código (trouxeste a chave?) produzirá o efeito de es-
pontaneidade, de revolta, de singularidade ou indig-
nação, dependendo do caso específico de cada texto.
A Flor e a Náusea
O terceiro poema de A Rosa do Povo, “A Flor e a
Náusea”, é também uma espécie de poética, pois con-
tém a síntese da visão política e existencial do volume,
que consiste na crítica, por meio de metáforas e sím-
bolos, da reificação a que está condenado o homem
na sociedade capitalista. Surge aí, pela primeira vez, o
vocábulo flor, como metáfora de poesia, que oferece
uma mínima esperança para os tempos de crise:
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucina-
ções e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
Fundem-se no mesmo impasse.
[...]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço
do tráfego.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 127 • ANGLO VESTIBULARES
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
[da tarde
E lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolu-
[mam-se,
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, ga-
[linhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o
[nojo e o ódio.
No primeiro fragmento, em versos de extrema
modernidade, a voz lírica incorpora noções típicas do
intelectual de convicções marxistas (preso à minha
classe e a algumas roupas) e do existencialismo (o tem-
po não chegou de completa justiça). Em ambos os ca-
sos, a revolta impõe-se como tema do poema que se
inicia: devo seguir até o enjôo/posso sem armas revol-
tar-me. Na seqüência, o texto enumera imagens que
traduzem a indisposição do indivíduo correto contra o
mundo errado. À beira do desespero, este se apega à
poesia como instrumento de confronto: uma flor nas-
ceu na rua!/Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. O
título do poema alude ao romance A Náusea, do filó-
sofo existencialista Jean Paul Sartre, que fornece certa
linha de argumento temático de A Rosa do Povo.
Nosso Tempo
Na linha da poesia social, destaca-se, ainda, o poe-
ma “Nosso Tempo”, que apresenta um amplo painel da
fragmentação psicológica, política e social da época,
em que a guerra e a desconfiança dividiam as pessoas:
Este é tempo de partido,
Tempo de homens partidos.
[...]
Este é tempo de divisas,
Tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
Obscenos gestos avulsos.
Como hipótese de solução para a crise do con-
flito entre o indivíduo e a sociedade, resta à voz líri-
ca a adesão ao mito da rebeldia das hipóteses alter-
nativas, tal como se vê no final desse texto impor-
tante, em que se retoma de maneira convincente a
antipatia contra a mais-valia capitalista, anunciada
em “A Flor e a Náusea”:
O poeta
declina de toda a responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras
[armas
promete ajudar a
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta,
um verme.
Além da modernidade da adesão marxista, A Rosa
do Povo possui dois poemas de aberta propaganda da
utopia comunista, então considerada como hipótese
histórica que seduziu grande parte de artistas cons-
cientemente radicais: “Mas Viveremos” e “Com o Rus-
so em Berlim”. No primeiro destes, o comunismo é fi-
gurado, primeiro, como uma estrela cintilante; depois,
como uma espécie de navio da esperança vermelha:
Pouco importa que dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.
E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.
Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos,
ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavras.
Os versos idealizam a era comunista como uma es-
pécie de idade de ouro moderna, em que haverá paz e
fartura para todos. A seqüência trigo e sol nascendo as-
socia esse poema moderno à tópica da sociedade sem
classes dos antigos pastores ideais, o que pode ser in-
terpretado como possível ironia do autor à própria con-
vicção política. Conforme se viu anteriormente, grandes
artistas e intelectuais dos anos 1940 partilharam da con-
vicção comunista. Jorge Amado é o caso mais célebre
no Brasil. Em seu romance Seara Vermelha, de 1946, há
passagens de aberta alegoria ideológica, tal como se vê
nessas estrofes de A Rosa do Povo. Outro índice do
tempo presente no livro de Drummond é, viu-se antes,
a alusão à Segunda Grande Guerra, tal como se observa
nos poemas “Carta a Stalingrado”, “Telegrama de Mos-
cou”, “Visão 1944” e “Notícias”, entre outros.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 128 • ANGLO VESTIBULARES
autoraricatura
Tema Amoroso, Estilo Mesclado
O tema amoroso é muito forte em A Rosa do Povo.
“Caso do Vestido”, um dos mais populares poemas do
livro, é estória de amor em forma de diálogo. Trata-se
de um sentimento absurdo, em que uma esposa implo-
ra que uma mulher fatal durma com seu marido, para
lhe satisfazer a vontade:
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.
Aí, como em quase todo poema do gênero, o
amor será sempre amaro, isto é, amargo. Sem ne-
nhum conceito explícito, a narrativa do poema escon-
de um conceito sobre o indivíduo e sobre a família, tal
como se deixam vislumbrar em certos arquétipos do
imaginário popular: o homem define-se pelo exclusi-
vismo da vontade; a mulher, pela submissão a seu
ponto na hierarquia familiar. Não obstante, a unidade
de caráter reside nesta, e não naquele.
“O Mito” é um longo texto sobre o conceito de
amor, voltado para o tema da idealização da mulher,
que entra para a arte sem sair da vida cotidiana do sécu-
lo XX. Nesse poema, pode-se observar um traço im-
portante de A Rosa do Povo, que é a transferência de
um assunto tradicionalmente elevado, o conceito de
contemplação amorosa, para o ambiente prosaico da
sociedade moderna, o que necessariamente implica a
mistura de diferentes espécies de vocábulos e a interpe-
netração de elementos de esferas semânticas distintas:
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma,
fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado.
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
A essa espécie de montagem, de origem cubista
e surrealista, dá-se o nome de estilo mesclado, estu-
dado em Drummond pelo crítico José Guilherme
Merquior. Ótimo exemplo de mistura de estilos em A
Rosa do Povo encontra-se no poema “Anúncio da Ro-
sa”. Aí, imagina-se a notícia da venda irônica de algo
que não se pode vender, razão pela qual a linguagem
oscila entre afirmações e negaceios, coloquialismos e
expressões eruditas. O objeto de venda é uma flor,
mas que também pode ser a arte ou a poesia, postas
em situação de negócio:
Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.
[...]
Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa
[irrisão.
Como se trata de texto experimental, convém re-
correr ao dicionário e examinar o astucioso emprego
de alguns vocábulos: Aurilavrado: trabalhado em
ouro; filaucioso: egoísta, presunçoso; mercancia: mer-
cadoria; irrisão: zombaria, escárnio. Se se admitir que
o texto fala do valor da arte na sociedade capitalista,
ter-se-á de concluir que propõe a ironia como postura
ideal para a produção de poesia nos tempos moder-
nos. Daí o tom sarcástico diante da situação que esta-
belece baixo preço para o que pode valer muito. Ter-
mina com a idéia de que a burguesia apodrece. Seria
possível também imaginar que o texto ridiculariza o
poeta antiquado querendo sustentar o emprego de
linguagem velha em tempos modernos. Simples na
aparência, esse talvez seja um dos textos mais equívo-
cos de A Rosa do Povo, perdendo, nesse sentido, para
“Áporo”, outra experiência enigmática com a lingua-
gem.
Na dimensão do estilo mesclado enquadra-se,
também, o poema “Nova Canção do Exílio”, paródia
do célebre poema de Gonçalves Dias, caracterizada
pela radicalidade do estilo telegráfico, herdado do
primeiro modernismo:
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
Sem nenhuma utopia nacionalista, o espaço míti-
co de Drummond caracteriza-se, antes, pela idea-
lização de um ponto abstrato em que o indivíduo pu-
desse encontrar o vazio da própria solidão e sentir-se
bem aí.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 129 • ANGLO VESTIBULARES
Retrato de Família
Além de se manifestar no tema amoroso, o genro
lírico consubstancia-se em diversos poemas sobre a fa-
mília, entendida como os antecedentes da formação do
indivíduo. “Retrato de Família” contém uma descrição
metafórica de uma antiga fotografia, em que o passado
é interpretado como antecipação do presente, que se
torna misterioso pelas projeções ancestrais. Também
tematizam a família os poemas “Rua da Madrugada” e
“No País dos Andrades”. A persistência da memória é o
núcleo temático de “Resíduo”, em que o tema da me-
mória se funde com a idéia de que o presente é a soma-
tória de experiências passadas e, por isso, dolorosas:
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
No queixo de tua filha.
[...]
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
E abafa
O insuportável mau cheiro da memória.
Se o poema tematiza a permanência do humano,
não se pode extrair dele nenhuma idéia de transcen-
dência. O pensamento geral de A Rosa do Povo é do-
minado, antes, pela idéia do circunstancial, do material
e do histórico. Os traços que compõem o indivíduo de-
correm da história ou da genética. Podem se associar
tanto à insistência de um traço de caráter quanto à
permanência de um rato ou de um botão.
Tempo, Corrosão, Morte
Em Drummond, a pessoa carregará sempre um “eu
todo retorcido”. Terá dificuldades com o seu “fatal lado
esquerdo”. Será problematizante. A inquietação do pen-
samento poético de A Rosa do Povo associa-se a certas
tópicas da tradição da poesia européia, como a passa-
gem do tempo, a inevitabilidade da morte e a ameaça do
medo. Talvez fosse melhor não entender a poesia reflexi-
va de Drummond como decorrência de sua experiência
verdadeira com a vida, porque em 1945 o poeta tinha
apenas quarenta e três anos. Suas inquietudes serão
antes um questionamento temático, um esforço dialético
do espírito ou se traduzem como desejo de participar de
um debate instaurado pela mais remota tradição da líri-
ca ocidental. Reflexões sobre a passagem do tempo, a
intromissão do passado no presente, o início da velhice e
outras carências do indivíduo formam o núcleo temático
dos decassílabos de “Versos à Boca da Noite”:
Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva...
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.
[...]
Mas vem o tempo e a idéia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.
E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.
E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.
O verso final do fragmento é particularmente sig-
nificativo para a compreensão do repertório temático
de A Rosa do Povo. Aí se condensa a tópica da intro-
missão do passado no presente, cristalizando a idéia
de que o momento atual nada mais é do que a con-
fluência de experiências preteridas, idéia forte nos
poemas de ponderação existencial do volume.
Em “Morte no Avião” o impasse da completa disso-
lução ganha corpo no monólogo de um homem que re-
compõe o último dia de sua vida, que termina com um
desastre aéreo. Aspecto instigante do poema é o ponto
de vista da elocução. Quem fala? De onde fala? Qual sua
relação com o que fala? Objetivo e quase indiferente, o
relato tanto pode ser atribuído a alguém que já morreu
quanto a alguém que sabe da morte próxima sem que
haja condição lógica para isso. Há paradoxo em ambos
os casos. Em qualquer das hipóteses, o absurdo incrus-
tado no cotidiano da cidade grande confere densidade
ficcional ao texto, cujo início é tão incisivo quanto o final:
Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
Cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.
[...]
golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço,
[raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícias.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 130 • ANGLO VESTIBULARES
Família de Drummond. O poeta acha-se à esquerda, de braços
cruzados.
Como em todos os poemas de A Rosa do Povo,
aqui o homem não acaba em transcendência. De-
pois da morte, a personagem não se transforma em
alma, mas em notícia. Vira matéria de jornal. Há um
poema que, pelo assunto, se aproxima de “Morte no
Avião”. Trata-se de “Os Últimos Dias”, espécie de
arte de morrer ou preparação para a morte. Nela, a
voz lírica imagina como seria a percepção do mun-
do se fosse possível prever o exato instante do fim.
Entre os preparativos para o encontro solene, pro-
põe-se uma orgulhosa resignação, sem medo ou re-
morso:
E que a hora esperada não seja vil, manchada
[de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem
[as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize,
e a sombra da cama calcária não a encha de
súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.
Ainda aqui, o extremo da experiência humana
não desperta nenhum dos mitos salvacionistas da
teologia cristã. A dureza de algumas imagens con-
diz com o realismo do pensamento geral do texto, tal
como se vê em riso sem boca (morte) e cama calcária
(cova).
Mas, se o medo não deve macular a extrema ex-
periência do homem, nem por isso deixa de o acom-
panhar nas pequenas coisas do dia-a-dia. Esse é o
tema do poema “O Medo”, que fala da condição pou-
co heróica da pessoa em seu funcionamento diário,
perdida entre as pequenas coisas da vida:
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com suas física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Partindo de metáforas concretas, o poema formu-
la uma noção abstrata. Trata-se da alegoria da tópica
de que o motor da história não será jamais a coragem,
mas sim o temor, a pequenez.
Mário de Andrade e Charlie Chaplin
A amargura dos poemas sobre o tempo, a velhice
e a família se dissolve um pouco na homenagem aos
grandes artistas, tal como se observa em “Mário de
Andrade Desce aos Infernos” e “Canto ao Homem do
Povo Charlie Chaplin”. Em ambos os textos, os home-
nageados funcionam como metonímia de arte, de so-
lidariedade e de comunicação humana, síntese da
idéia de poesia em A Rosa do Povo.
LEITURA E EXERCÍCIOS
Texto para a questão 1
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
1. O texto pertence a “A Flor e a Náusea”. Assinale
a alternativa correta:
a) integra o núcleo temático do existencialismo:
revolta contra a desigualdade social no país.
b) integra o núcleo temático do amar-amaro: expres-
são da angústia decorrente da solidão coletiva.
c) integra o núcleo temático do impasse social:
revolta contra o isolamento do indivíduo.
d) integra o núcleo temático do impasse existen-
cial: revolta contra uma inércia sem explicação.
e) integra o núcleo temático da crise do indiví-
duo: irritação contra os valores capitalistas.
Texto para a questão 2
Carrego comigo
Há dezenas de anos
Há centenas de anos
O pequeno embrulho.
[...]
Já não me recordo
Onde o encontrei.
Se foi um presente
Ou se foi furtado.
[...]
Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.
[...]
Não sei que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.
Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 131 • ANGLO VESTIBULARES
2. O fragmento pertence a “Carrego Comigo”. Ob-
serve as afirmações e assinale a alternativa correta:
I. Texto alegórico, de dimensão mais filosófica
do que social.
II. A “coisa” misteriosa pode ser a identidade
do eu lírico.
III. Trata-se de alegoria do pecado original.
a) Todas estão corretas.
b) Todas estão erradas.
c) Somente III está correta.
d) Somente I e II estão corretas.
e) Somente I e III estão corretas.
Texto para a questão 3
O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Como remédio entornado
em camisa de doente;
como dedo na penugem
de braço de namorada;
como vento no cabelo,
fluindo: fiquei mais moço.
Já não tenho cicatriz.
3. O texto pertence a “Desfile”. Assinale a alterna-
tiva correta:
a) Dominado por processo reiterativo e por com-
paração lógica entre juventude e cicatriz.
b) Marcado por processo reiterativo e pela com-
paração entre elementos logicamente descone-
xos: remédio, dedo, vento, juventude (enume-
ração caótica).
c) Dominado por nítida inclinação tautológica,
com metonímia: o vocábulo cicatriz emprega-se
como metáfora de juventude.
d) Dominado por processo metafórico, com reite-
ração gradativa de elementos logicamente rela-
cionados: remédio, dedo, vento, juventude, ci-
catriz (enumeração caótica).
e) Com versos metrificados e gradação do ele-
mento menor para o maior: travesseiro, tempo,
doente, cicatriz.
Texto para a questão 4
Nosso Tempo
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra
[...]
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo
esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
Papéis?
Crimes?
Moedas?
4. O poema pertence ao núcleo de poesia social de
A Rosa do Povo. Responda:
a) Pode ser considerado como exemplo da cha-
mada poesia do impasse ou da crise. Por que?
b) Na primeira unidade, afirma-se que as leis não
dão conta de uma organização social justa. Qual
o argumento do poeta contra o domínio da lei?
Texto para a questão 5
Consolo na Praia
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possui casa, navio, terra.
mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À Sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.
5. O título insinua o contrário do que o texto sugere.
Responda:
a) Em que consiste a contradição entre o título e
o sentido geral do poema?
b) O poema é irônico. Por que?
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 132 • ANGLO VESTIBULARES
Texto para a questão 6
Morte do Leiteiro
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
Que ladrão se mata com tiro.
[...]
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
Saltou para sua mão.
Ladrão? Se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
Não sei,
é tarde para saber.
6. A comparação entre a primeira estrofe e o final da
segunda revela um paralelo e uma oposição signi-
ficativos. Responda:
a) Em que consiste tal oposição?
b) Há uma imagem em particular que se afasta da
regularidade lógica do poema. De que imagem
se trata? Qual sua função na significação geral
do texto?
Texto para a questão 7
Áporo
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
7. A imagem da flor ou da rosa é recorrente em A
Rosa do Povo. Responda:
a) O poema encena uma situação de impasse, que
se insinua pela imagem do país bloqueado, en-
tre outras. Qual o sentido do surgimento da or-
quídea no final?
b) A última palavra do primeiro verso e a primeira
do segundo evidenciam um procedimento típico
do estilo de A Rosa do Povo, que pode ser obser-
vado tanto no início de “Morte do Leiteiro” quan-
to em “Consolo na Praia”. De que procedimento
se trata? Qual sua função na poesia moderna?
Texto para a questão 8
Episódio
Manhã cedo passa
à minha porta um boi.
De onde vem ele
se não há fazendas?
Vem cheirando o tempo
entre noite e rosa.
Pára à minha porta
sua lenta máquina.
Alheio à polícia
Anterior ao tráfego
ó boi, me conquistas
para outro, teu reino.
Seguro teus chifres:
eis-me transportado
sonho e compromisso
ao País Profundo.
8. O poema apresenta pequena narrativa alegórica.
Responda:
a) Ao irromper do nada em meio à cidade, o que
simboliza o boi?
b) A expressão “País Profundo” está grafada
com iniciais maiúsculas. Qual o sentido dessa
expressão na economia geral do poema?
Texto para a questão 9
Mário de Andrade Desce aos Infernos
A rosa do povo despetala-se,
ou ainda conserva o pudor da alva?
É um anúncio, um chamado, uma esperança
embora frágil, pranto infantil no berço?
Talvez apenas um ai de resta, quem sabe.
Mas há um ouvido mais fino que escuta, um
peito de artista que incha.
e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o
poeta anunciou,
o poeta, nas trevas, anunciou.
9. A rosa é símbolo importante em A Rosa do Povo.
Responda:
a) Ao anunciar a rosa do povo como símbolo de
poesia, como o poeta a caracteriza?
b) Pela lógica do texto, todos os leitores se com-
portam de maneira uniforme diante da rosa
do povo? Há diferenças em sua recepção? Se
houver diferença, qual seria ela?
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 133 • ANGLO VESTIBULARES
RESPOSTAS
1. D
2. D
3. B
4. a) Porque o enunciado apresenta problemas,
questões e críticas para as quais não vislum-
bra soluções. O poema insinua que a solução
consiste na unidade, mas demonstra que o
mundo é fragmentado e sem sentido.
b) As leis não garantem alimentação (carne), mo-
radia (fogo) nem conforto (sapato). Além disso,
as leis divorciaram-se demais da natureza, pois
não conseguem regular o nascimento dos lírios.
5. a) O título anuncia consolo; e o poema tematiza o
total desespero. A recomendação final do sono
como forma de solução evidencia que não há
saída para o impasse da personagem, despida
de todo amparo moral e físico.
b) A primeira ironia consiste em anunciar consolo
e apresentar desespero. Depois, ela se prolonga
por todo o poema, cujo tom é ameno no anún-
cio da carência total. A diferença entre tom e
matéria resulta em ironia.
6. a) Na primeira estrofe, predomina a impessoalida-
de de uma voz objetiva, que não individualiza as
noções. No final da segunda estrofe, o texto es-
força-se por personalizar as noções, individuali-
zando o caso singular de um leiteiro específico.
b) Trata-se da seguinte passagem: “O revólver da
gaveta/saltou para sua mão”. Trata-se de uma
prosopoéia ou personificação, cuja função real-
ça a ação mecânica do burguês ao tirar a vida
de um trabalhador.
7. a) O surgimento da orquídea pode simbolizar o
nascimento de uma solução para a crise figura-
da ao longo do texto. Como, no livro, a imagem
da flor simboliza a poesia, pode-se admitir que
ela seja uma solução para os impasses da vida
social.
b) Trata-se da repetição, processo muito freqüen-
te em A Rosa do Povo. A repetição pode assu-
mir várias formas na poesia moderna. Quase
sempre sugere a mesmice e a rapidez com que
se reproduzem as coisas do cotidiano.
8. a) O boi simboliza a natureza, que surge inexpli-
cavelmente para reconquistar seu lugar no
espaço civilizado da cidade.
b) A expressão indica o espaço abstrato das for-
ças inconscientes do indivíduo, que se iden-
tificam com as formas simples da natureza.
9. a) Identificada como “rosa do povo”, a poesia é
apresentada como uma força espontânea e sem
muita eficácia, embora represente a dimensão
pura de algumas manifestações culturais. Asso-
cia-se à idéia de fragilidade, de pranto e de in-
fância. Mas na consciência de suas limitações
consiste sua verdadeira força.
b) A “rosa do povo” não é percebida de maneira
uniforme. Aqueles que a percebem devida-
mente são seres mais sensíveis, dotados de ta-
lento artístico. Embora seja “do povo”, a poesia
não é assimilada por todos.
SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 134 • ANGLO VESTIBULARES

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A rosa do_povo

  • 1. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 120 • ANGLO VESTIBULARES SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA Vida Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, na pequena cidade mineira de Itabira, que, na ficção de sua poesia, o poeta soube transformar numa espécie de mito, associando-o sempre à tópica da lembrança dolorosa. Conforme o mesmo argumento poético, as jazidas de ferro da cidade teriam fornecido ao poeta seu jeito austero e brioso de ser. Descendia de fazendeiros e mineradores da região de Itabira. Estudou em Belo Horizonte, tendo se formado em farmácia. Depois de estabelecer contatos com o Modernismo paulista, fundou, em 1925, A Revista, primeiro periódico de vanguarda em Minas Gerais. Participavam de seu grupo literário: João Alphonsus, Emílio Moura, Martins de Almei- da, Pedro Nava e Abgar Renault. Trabalhou também na grande im- prensa de Belo Horizonte, representada pelo Diário de Minas e Minas Gerais. Em 1934, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu funções burocráticas no serviço públi- co até 1962. Paralelamente, manteve seções de crônicas em diversos jornais do país. Foi também tradu- tor e ensaísta. Morreu no Rio de Janeiro, em 1987. Drummond sempre se comportou de modo discreto, avesso à publicidade, notabilizando-se como pai de família tradicional. Todavia, após a morte, veio a público sua faceta íntima de amante dedicado, pois manteve um longo e intenso amor paralelo à vida familiar, que, segundo o discurso biográfico logo estabelecido, lhe teria inspirado diversos poemas eróticos, bem mais explícitos do que os que normalmente publicava em seus livros, como é o caso de O Amor Natural, editado em 1992. Drummond tinha 28 anos quando, em 1930, editou Alguma Poesia, seu primeiro livro. Os poemas que o compõe vinham sendo divulgados desde 1923, quer fosse em periódicos mineiros como o Diário de Minas, A Revista e Verde; quer fosse em veículos mais cosmopolitas do Rio de Janeiro, como O Jornal, Festa; ou em órgãos dirigidos pelos modernistas de São Paulo, como Estética, Terra Roxa e Outras Terras, Revista de Antropofagia. Obra: Reunião, Nova Reunião A obra poética de Drummond editada em vida constitui-se, basicamente, por dezenove livros, que se agrupam em dois volumes, com o título de Nova Reunião. Esses volumes foram organizados para homenagear o octogésimo aniversário do poeta, em 1982, mas acabaram saindo no ano seguinte, quatro anos antes de sua morte. Antes disso, porém, os dez primeiros livros dessa série foram organizados e editados pelo autor em 1969, no volume Reunião, que, segundo a unanimidade da crítica, são os melhores livros de Drummond: Alguma Poesia, 1930 Brejo das Almas, 1934 Sentimento do Mundo, 1940 José, 1942 AA RROOSSAA DDOO PPOOVVOO Carlos Drummond de Andrade ANALISE DA OBRA IVAN TEIXEIRA´
  • 2. A Rosa do Povo, 1945 Novos Poemas, 1948 Claro Enigma, 1951 Fazendeiro do Ar, 1954 A Vida Passada a Limpo, 1959 Lição de Coisas, 1962 Entre os livros acrescidos ao volume Nova Reunião, encontra-se uma trilogia memorialística, composta por Boitempo & A Falta que Ama (1969), Menino Antigo: Boitempo II (1973) e Esquecer para Lembrar: Boitempo III (1979), livros que ficcionalizam o passado mineiro (rural e urbano) da personagem lírica que o poeta insti- tui como autor de suas obras. Principais Temas de Reunião Em 1962, ao completar 60 anos e depois de publi- car Lição de Coisas, o poeta organizou uma seleção de seus poemas, a que deu o título impessoal de Antologia Poética. Na pequena nota introdutória ao volume, explicou que sua escolha obedeceu a critérios informa- tivos, razão pela qual agrupou os poemas em torno de nove núcleos temáticos, os quais formaram seções no volume, com títulos específicos. Os poemas de Anto- logia Poética foram extraídos dos dez livros que, mais tarde, seriam coligidos em Reunião. Os temas e as res- pectivas seções do volume são os seguintes: 1. o indivíduo (“um eu todo retorcido”) 2. a terra natal (“uma província: esta”) 3. a família (“a família que me dei”) 4. amigos (“cantar de amigos”) 5. o choque social (“na praça de convites”) 6. o conhecimento amoroso (“amar-amaro”) 7. a própria poesia (“poesia contemplada”) 8. exercícios lúdicos (“uma, duas argolinhas”) 9. uma visão, ou tentativa de, da existência (“tentativa de exploração e de interpretação do estar-no-mun- do”) Não é difícil perceber que todos esses temas estão estreitamente interligados: o indivíduo, entendido co- mo personagem poética, surge de uma família numa terra qualquer. Cresce. Faz amigos e freqüenta a pra- ça, onde amplia suas relações e conhece a política e o amor. Então, descobre a poesia, na qual tanto se ades- tra que chega a brincar com as palavras. Já formado, adquire opinião sobre as coisas, o mundo e a existên- cia. Como se vê, os oito últimos temas da Antologia Poética não passam de variação ou projeções do pri- meiro — o indivíduo. Assim, Reunião deve ser lido como uma espécie de unipoema, no qual se conden- sa uma das mais extraordinárias experiências artís- ticas da literatura brasileira. A Poesia dos Anos 1930 Conforme uma divisão clássica da poesia brasi- leira do século XX, genericamente chamada moder- nista, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Ma- nuel Bandeira formariam o núcleo de uma primeira fase (1922-30), preocupada com a criação de uma linguagem, de um temário e de uma suposta sensi- bilidade que fosse adequada à expressão do homem no século que se iniciava. Nessa fase, domina o pro- pósito de atualização do conceito de arte no Brasil, o que conduz o olhar do artista local para as gran- des formulações das vanguardas européias, toma- das como instrumento para a solução do impasse deixado pelo esgotamento das fórmulas do século XIX. Esse primeiro momento será marcado por um paradoxo, ainda que aparente: ao mesmo tempo em que se buscam sugestões de matrizes européias (Fu- turismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo), há o projeto de se produzir uma síntese artística do país, com todas as diversidades de sua língua, de seu po- vo, de suas regiões e de sua história. Em rigor, as vanguardas européias deveriam funcionar como um conceito para a revisão do país e para a construção de uma arte que se ajustasse aos novos tempos. Por causa desse clima de renovação de estruturas, a poe- sia do período apresenta um certo gosto tecnicista, que, não raro, produz o efeito de artificialismo e pes- quisa formal. Conforme a mesma divisão, os anos 1930 mar- cam o surgimento de poetas que consolidariam a ta- refa da geração anterior, dando à poesia praticada no Brasil uma certa estabilidade formal e temática, normalmente tomada como mais típica do século XX. Já não há tanta aversão ao século XIX nem à tradição clássica do Ocidente. O verso livre, o verso sem rima e a ausência de pontuação convencional — grandes conquistas da primeira fase — convivem pacificamente com versos, formas, ritmos, motivos e temas tradicionais. A poesia se torna mais concei- tual, investigando grandes questões sociais e exis- tenciais. A visão marxista da história propicia um posicionamento crítico dos valores francamente ca- pitalista. Da mesma forma, o Existencialismo e a Psi- canálise oferecem uma variada gama de tópicas e técnicas, que conferem diversidade temática e den- sidade semântica aos novos poetas: a guerra, a polí- tica, o operário, o burguês, o amor, a família, o pas- sado, o presente, o individual, o coletivo, o universal e o local serão temas comuns na poesia da segunda geração modernista. Esses motivos cristalizam-se de maneira admirável sobretudo em A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, mas podem ser surpreendidos também em Murilo Mendes, Vinícius de Morais, Cecília Meireles e em Jorge de Lima, que compõem o perfil da segunda fase do Modernismo Brasileiro. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 121 • ANGLO VESTIBULARES
  • 3. A ROSA DO POVO (1945) Poesia da Crise e do Impasse A Rosa do Povo contém 55 poemas, tendo sido a mais longa obra até então composta por Carlos Drummond de Andrade. Trata-se de seu quinto livro. Antes dele, o poeta publicara: Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940) e José (1942). A Rosa do Povo representa a consolidação qualitativa e formal do Modernismo, sendo também a maior realização artística do poeta até o momento. Nele, Drummond adota tanto o verso livre quanto o verso tradicional (redondilho e decassílabo), dando preferência a poemas longos de estrofação e versos irregulares. Como em outros livros do autor, a repetição (redundância, tautologia, reiteração), a enumeração e a gradação destacam-se entre os processos estilísticos do livro. Contribuem para o efeito de rapidez e modernidade dos poemas. Quando a enumeração consti- tui-se de elementos logicamente desconexos, leva o nome de enumeração caótica, o que também ocorre com fre- qüência na obra. A Rosa do Povo é um livro dominado pela idéia de crise: crise do indivíduo, crise da poesia, crise da so- ciedade, crise dos mitos e crise dos sonhos. Demons- trando extrema lucidez diante do impasse da vida e da arte, o poeta sempre recusará solução fácil para proble- ma difícil, como evidenciou no famoso poema “José”, do livro homônimo (1942). Em A Rosa do Povo persiste a tópica do impasse, revestida de ceticismo irônico, sem nenhum desespero, mas também sem grandes es- peranças, exceto na hipótese provisória da poesia, ins- trumento com que procura superar os erros do mundo. Em “Rola Mundo”, de A Rosa do Povo, essa idéia importante acha-se sintetiza em três versos inenfáticos, porém precisos em sua força semântica: Como vencer o oceano se é livre a navegação mas proibido fazer barcos? Ceticismo Irônico Exemplo clássico de riso desencantado, que tem muito a ver com o pensamento ficcional de Machado de Assis, de quem Drummond se coloca como o mais perfeito herdeiro na arte brasileira, é o poema “Consolo na Praia”, adotado como suporte de exercício no final do presente estudo. Nesse breve texto de versos re- gulares, enumeram-se as mais atrozes desvantagens do indivíduo desvalido, como se fossem amenos acidentes de crise momentânea. No final, a voz irônica sugere que a personagem se entregue ao sono, como forma de ensaiar a morte. Pela lógica do leitor, a morte seria a verdadeira solução para a personagem do poema, mas, caso a voz lírica a recomendasse, demonstraria alguma crença na vida, porque a estaria considerando digna de confronto. O pensamento irônico evita atitudes francas. Por isso, recomenda o sono, evitando nomear o des- consolo, que figura como consolo no título: Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis casa, navio, terra. Mas tens um cão. Assim, a ironia explica-se por insinuar o contrário do que afirma. Em certo sentido, o poema põe em xe- que o próprio conceito de ironia, pois é mais ou menos óbvia a idéia de que o absurdo da vida não dispensa certa dose de inconformismo. E o texto apresenta um discurso inconformado com aparência de resignação. Em “A Flor e a Náusea”, comentado adiante, a voz líri- ca pergunta: posso, sem armas, revoltar-me? Euforia Épica Apesar da ironia e do ceticismo, A Rosa do Povo ostenta certa esperança na solidariedade da poesia e na crítica às instituições opressoras. Assim, se o livro é, por um lado, cético e irônico, nem por isso deixa de apresentar uma discreta euforia épica, em que o poeta realiza a promessa de uma poesia adequada ao canto da vida presente, tal como programou em Sentimento do Mundo (1940) e somente agora realiza: denúncia do burguês desumano; simpatia pelo trabalhador destemi- do; atenção ao desenrolar da segunda grande guerra; lamento pelo genocídio do conflito; esperança na re- construção democrática do mundo; crença na utopia comunista; alusão à opressão da Ditadura Vargas. Ao lado desse aspecto propriamente social e coletivo, há intensa investigação lírica do indivíduo e sua relação com a passagem do tempo, com a família e com o amor. A referida euforia épica (discreta) encontra-se em diversos poemas sobre a Segunda Guerra, que sem- pre incorporam a participação russa, como a indicar que a utopia marxista integra a mínima dose de oti- mismo necessário para a lucidez da análise do tempo presente. Para exemplificar a tópica da reconstrução do mundo por via democrática, veja-se o poema “Te- legrama de Moscou”: Pedra por pedra reconstruiremos a cidade. Casa e mais casa se cobrirá o chão. Rua e mais rua o trânsito ressurgirá. Começaremos pela estação da estrada de ferro e pela usina de energia elétrica. Outros homens, em outras casas, continuarão a mesma certeza. Sobraram apenas algumas árvores com cicatrizes, como soldados. A neve baixou, cobrindo as feridas. O vento varreu a dura lembrança. Mas o assombro, a fábula gravam no ar o fantasma da antiga cidade que penetrará o corpo da nova. Aqui se chamava e se chamará sempre Stalingrado. — Stalingrado: o tempo responde. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 122 • ANGLO VESTIBULARES
  • 4. Stalingrado era importante cidade russa à beira do Volga. Além de sua força simbólica (compunha-se do nome de Stalin), a cidade exercia posição estratégi- ca na União Soviética, por causa de seu depósito de armas, do transporte de alimentos e de petróleo. A ci- dade foi invadida por Hitler em agosto de 1942, tendo resistido até fevereiro de 1943, quando os nazistas fo- ram derrotados. Esse cerco passou para a história co- mo uma das mais importantes batalhas da Segunda Guerra. A partir daí, o exército alemão começou a per- der o privilégio de grandes iniciativas. Ao figurar a ce- na da reconstrução da cidade pelas supostas forças democráticas, o poema de Drummond institui sua re- sistência em símbolo da liberdade contra a opressão. Há outro poema em A Rosa do Povo sobre essa bata- lha, “Carta a Stalingrado”. Nele, a voz lírica alerta que a poesia fugiu dos livros para os jornais. Insinua tam- bém que o cerco da cidade russa imita a epopéia ho- mérica, com a vantagem de caber em telegramas. O exemplo de Stalingrado terá tido o poder de unir pes- soas dos quatro cantos do mundo, em torno do ideal comunista, então entendido como opção esclarecida do ponto de vista ideológico. Construção da Intimidade Apesar da força dos poemas sociais de A Rosa do Povo, talvez a maior informação estética do livro venha da investigação lírica do indivíduo, organizada de tal forma que não se distancia muito dos poemas que ficcionalizam a objetividade do mundo exterior, como em “Carta a Stalingrado”. Esse será, por certo, o caso de “A Flor e a Náusea”, obra-prima de perquiri- ção do desajuste da pessoa com o mundo objetivo. Outros haverá que, singularizando um pouco mais a noção do “eu todo retorcido”, tematizam a idéia do in- divíduo diante da família, do amor, da memória, do tempo e da morte. “Onde há pouco falávamos” e “Os Últimos Dias” exemplificam essa vertente temática do livro. No primeiro desses poemas, um velho piano simboliza o elo indissolúvel entre o passado e o pre- sente, encarnando a tópica, muito reiterada em A Ro- sa do Povo, de que os mortos controlam os vivos. A essa tópica associa-se o tema de que o indivíduo é sempre menor do que a família, noção básica nos poe- mas de construção da intimidade em Drummond: É um antigo piano, foi de alguma avó, morta em outro século. E ele toca e ele chora e ele canta sozinho, mas recusa raivoso filtrar o mínimo acorde, se o fere mão de moça presente. Ai piano enguiçado, Jesus! Sua gente está morta, seu prazer sepultado, seu destino cumprido, e uma tecla põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono. É um rato? O vento? Descemos a escada, olhamos apavorados a forma escura, e cessa seu lamento. Mas esquecemos. O dia perdoa. Nossa vontade é amar, o piano cabe Em nosso amor. Pobre piano, o tempo aqui passou, dedos se acumularam no verniz roído. Floresta de dedos, montes de música e valsas e murmúrios E sandálias de outro mundo em chãos nublados. Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos. Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco: ele estronda. A poeira profusa salta, e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis, circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível. Assim nosso carinho encontra nele o fel, e se resigna. Uma parede marca a rua e a casa. É toda proteção, docilidade, afago. Uma parede se encosta em nós, ao vacilante ajuda, ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite, o medo imemorial, os inspetores da penitenciária, os caçadores, os vulpinos. Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis. Uma cadeira se renova ao meu desejo. A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas e confiantes. A casa vive. Confio em cada tábua. Ora, sucede que um íncubo perturba nossa modesta, profunda confidência. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 123 • ANGLO VESTIBULARES Desenho de Beatriz Sherman
  • 5. Esse texto representa um momento forte da poesia sobre a família em A Rosa do Povo. A família entendida como frágil motivo de (in)segurança do indivíduo. Sem os perigos da vida exterior (inspetores, caçadores, vulpinos [espertalhões como raposa]), a casa, todavia, apresenta outros riscos, talvez piores que os de fora, pois aí reside o invisível demônio da memória (íncubo), que inviabiliza qualquer estabilidade emocional (con- fidência). Por ironia, sabendo-a frágil (modesta), o texto classifica a confidência do indivíduo em família de pro- funda. Em outro momento do poema, o piano é com- parado ao corvo do poema homônimo de Edgar Allan Poe, símbolo da interferência inquietante do passado sobre o presente. Em “Resíduo”, o mais conhecido poema sobre os “laços de família” em A Rosa do Povo, a voz lírica dirá: oh abre os vidros de loção/e abafa/o insuportável mau cheiro da memória. Inquietudes do Indivíduo, Instabilidade Social Fica, assim, admitido que os dois principais nú- cleos temáticos de A Rosa do Povo são: a) as inquietu- des do indivíduo; e b) a instabilidade social. Ao pri- meiro corresponde a inclinação lírica do livro; ao se- gundo, a vertente épica. Todavia, não se pode esque- cer que os motivos se mesclam com freqüência, mes- mo porque a matéria social, fundindo-se com a da pessoa, também será submetida a tratamento lírico. Além da metáfora e da mistura de estilos (o baixo com o elevado; o irônico com o emotivo; o sério com o pa- ródico), devem-se observar os efeitos sonoros dos poemas de A Rosa do Povo, livro que tanto tira pro- veito da orquestração panorâmica de grandes painéis (“Nosso Tempo”, “Morte no Avião”) quanto explora a música silente da intimidade de pequenas seqüências que recompõem os espaços sombrios da memória. Em ambos os casos, deve-se notar a arte do enjambe- ment, isto é, a maneira com que o poeta termina um verso e inicia o seguinte, deixando em suspense a complementação semântica dos mesmos. A arte de li- gadura entre um verso e outro atinge grande relevo no livro. Observe-se a primeira estrofe de “Onde há pouco falávamos”, transcrito parcialmente na página anterior: É um antigo piano, foi de alguma avó, morta em outro século. Em casos como esses, a leitura correta deve pro- duzir ou evitar pausas, conforme se queira acentuar a conformação melódica ou a estrutura semântica do texto. Nesse exemplo específico, é necessário observar que a interrupção semântica imposta pelos finais dos versos pretende sugerir a fragmentação psicológica da memória afetiva, dividida entre o passado e o presente. O velho instrumento será o elo precário entre as duas abstrações, transpostas ao poema como imagens da vida, e não como a própria vida em si. Mais adiante, no presente ensaio, será discutido o princípio de que a vida não cabe na poesia, senão por meio de imagens ou noções conceituais que a representam. As imagens, idéias, noções ou conceitos que possibilitam a inclusão da vida à arte pode se chamar linguagem. Organização do Volume Evidentemente, a poesia figurada em A Rosa do Povo encarna temas, premissas, pressupostos e ques- tões que Drummond concebe como adequados ao de- bate cultural de seu tempo. O volume é organizado da seguinte maneira: no começo, há dois poemas sobre poesia, isto é, duas poéticas ou manifestos poéticos, nos quais se esboça um conceito de poesia, com idéias sobre técnicas compositivas, temas e finalidade do poe- ma. Trata-se, portanto, de textos metalingüísticos, cuja função é apresentar e discutir a concepção de poesia adotada no volume. Em outros termos, ao poeta com- pete investigar também a linguagem do próprio livro, e não apenas questões ligadas ao indivíduo ou à socieda- de. A linguagem seria o ponto de união entre aquelas duas categorias temáticas. Tais poemas, dos mais famosos do volume, são: “Consideração do Poema” e “A Procura da Poesia”. O terceiro poema do volume é “A Flor e a Náu- sea”. Este é semelhante aos dois anteriores, pois fun- ciona como uma espécie de anúncio temático da obra: o indivíduo e sua relação conflituosa com o mundo. Em perspectiva existencialista, o poema propõe o te- ma do sujeito revoltado até a náusea, tentando sempre racionalizar sua insatisfação: “posso sem armas revol- tar-me?”. Por propor uma diretriz temática que será retomada em diversos poemas, pode-se dizer que “A Flor e a Náusea” é também de uma espécie de poética. Depois desses três poemas programáticos, segue a matéria propriamente dita, que tanto pode ser de ca- ráter social quanto pessoal. O tom poderá ser de dis- creta euforia ou de ceticismo irônico. O tema oscilará entre o impasse insolúvel ou a proposta de precárias soluções. Poesia: Imagem ,Viagem: Linguagem Se o livro começa por considerações acerca do conceito de poesia, não será incorreto afirmar que ter- mina por longa reflexão lírica sobre o cinema. É o que se percebe em “Canto ao homem do Povo Charlie Chaplin”. Aqui se desvenda o grande mistério coloca- do nos dois primeiros poemas do livro, que será dis- cutido mais adiante no presente ensaio: sobre o que deve falar a poesia, se ela não consegue incorporar os sentimentos, a natureza nem os homens em sociedade? Tal como no cinema, a poesia trata de imagens dos sentimentos, imagens da natureza e imagens dos ho- mens em sociedade. Em outros termos, a poesia, tal como o cinema, trabalha com a linguagem, entendida como representação cultural do mundo. Assim, ao produzir imagens, o cinema poderá ser uma espécie SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 124 • ANGLO VESTIBULARES
  • 6. de alegoria da literatura, que, ao dizer homem, exclui qualquer homem particular e empírico para incorporar um determinado conceito de homem em vigor num tempo historicamente determinado. Entretanto, esse homem da poesia produz a impressão de um homem singularizado. Eis a mágica da arte, que, trabalhando com categorias culturais, produz a impressão de natureza. Nesse sentido, a poesia, tal como o cinema, será uma máquina de pro- dução de efeitos, pois articula conceitos e noções culturais, a que se pode dar o amplo nome de linguagem. Assim, em “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”, tem-se a impressão da vida em seus múltiplos aspectos cotidianos, porque o texto transpõe para a linguagem verbal as variadas situações vividas por Carli- tos e instituídas em signos da arte cinematográfica. Tem-se aí a noção, discutida nas duas poéticas de aber- tura do volume, de que a vida, antes de entrar para a arte, tem de se trans- formar em signo artístico, isto é, em símbolo, em tema, em tópica, em assunto, em arquétipo situacional, em estrutura narrativa e em figura de retórica. Somente assim se realiza a grande viagem da natureza para a cultura e desta para a arte. Tanto em “Consideração do Poema” quanto em “Procura da Poesia”, a criação poética é metaforizada na idéia de viagem: essa viagem é mortal, e co- meçá-la; nem me reveles teus senti- mentos,/que se prevalecem do equí- voco e tentam a grande viagem. “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin” apresenta outra noção im- portante para o conceito de poesia de A Rosa do Povo, que é a idéia de que, no mundo contemporâneo, o heroísmo não fica bem sem ironia. O penúltimo poema do livro também discute o conceito de arte, de poesia e de cultura. Trata-se de “Mário de Andrade Desce aos Infer- nos”, escrito por ocasião da morte do amigo e, em certos sentidos, mes- tre do poeta Carlos Drummond de Andrade. Nesse poema, há uma pas- sagem sugestiva da flor como metá- fora de poesia, que recorre de diver- sas maneiras em todo o volume. Aqui, ela pode ser metáfora do ami- go que acaba de morrer: A rosa do povo despetala-se, Ou ainda conserva o pudor da alva? É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço? Por esse fragmento, percebe-se a idéia de que, apesar da ironia, a poesia possui uma missão: anuncia, convoca, dá esperança. No final do terceiro verso, o canto poético é comparado, em tom interrogativo, com o choro de cri- ança. Trata-se de uma voz inoperante em face dos negócios concretos do mundo, mas é também inevitável e abso- luta. Em “Consideração do Poema” o eu lírico confessa que arriscou toda a vida na literatura. Nesse sentido, o SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 125 • ANGLO VESTIBULARES
  • 7. ceticismo irônico seria apenas um modo de construção da ficção poética, que pretende ser cristal e vencer o tempo. Essa noção encontra-se também nas poéticas de abertura de A Rosa do Povo. Consideração do Poema Em “Consideração do Poema”, há uma espécie de declaração do princípio de que a poesia, resultando de uma atitude intelectual, decorre das opções artísticas do poeta e, por isso mesmo, funde-se com a existên- cia, marcada pela própria experiência poética passada (uma pedra no meio do caminho) e por leituras de poe- tas contemporâneos (Vinícius de Morais, Murilo Men- des, Pablo Neruda, Guillaume Apollinaire, Vladimir Maiakovski): Não rimarei a palavra sono com a incorrespodente palavra outono. Rimarei com a palavra carne ou qualquer outra, que todas me convêm. [...] Uma pedra no meio do caminho ou apenas um rastro, não importa. Estes poetas são meus. De todo o orgulho, de toda a precisão se incorporaram ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo. Que Neruda me dê sua gravata chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski. São todos meus irmãos, não são jornais nem deslizar de lancha entre camélias: é toda minha vida que joguei. Além dessas noções, o poema informa sobre um dos principais temas do livro: o povo, isto é, as ques- tões sociais — nada transcendentes e nem um pouco sentimentais, como deixam ver esses versos da par- te final do texto: Poeta do finito e da matéria, cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas, boca tão seca, mas ardor tão casto. [...] Tal uma lâmina, o povo, meu poema, te atravessa. Enfim, o vocábulo povo encontra-se no próprio título do livro. Conforme se viu anteriormente, o vo- cábulo rosa será metáfora de poesia e ressurge em diversos poemas do livro. Esse texto de abertura ensina também que, embora sempre lógicos, os poemas do volume possuem algumas imagens obs- curas, que destoam da racionalidade da média dos enunciados. Tanto nesse texto como nos demais de A Rosa do Povo, tais imagens devem ser entendidas como incorporação da poética surrealista. Além de indicar o diálogo com essa corrente da vanguarda européia, funcionam como meio de adensamento estético da frase. Observem-se os seguintes versos: Dar tudo pela presença dos longínquos, sentir que há ecos, poucos, mas cristal, não rocha apenas, peixes circulando sob o navio que leva esta mensagem, e aves de bico longo conferindo sua derrota, e dois ou três faróis, últimos! esperança do mar negro. Anteriormente, o texto vinha caracterizando a pró- pria voz lírica, apresentada como observadora objetiva e impiedosa dos fatos dignos de se incorporarem ao canto. Subitamente, surgem esses versos obscuros, cuja função é caracterizar os caminhos desconhecidos e imprevistos da viagem da voz lírica por entre a lin- guagem e os assuntos de que pode tratar. O ensaio viu antes e retoma aqui a idéia de que a poesia se apresen- ta sob o signo da viagem, do trânsito imprevisto da natureza para a linguagem. Nesse fragmento, o canto poético é figurado como um navio que leva uma men- sagem, carregado de imagens fragmentárias, que sugerem a multiplicidade de tópicas de que pode falar o poeta. Apensar da noite, que simboliza a imprevisibi- lidade da aventura da criação, ele possui dois ou três faróis que orientam a confecção poética, impedindo que o poema se perca no mar negro da jornada rumo à consecução da arte acabada. Procura da Poesia “Procura da Poesia” é semelhante ao poema comen- tado anteriormente. Aqui, como acontece com quase os poemas-manifestos, há uma parte que nega (não faças) e outra que afirma (penetra). Na primeira, o poeta expõe o que não se deve esperar da poesia; na segunda, apre- senta suas reivindicações. O poeta recusa a poesia fun- dada na relação direta com o fato, supostamente apoia- da no sentimentalismo das relações amorosas ou na sub- jetividade de circunstâncias pessoais: Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, Não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pes- soais não contam. Não faças poesia com o corpo, Esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. [...] O que pensas e sentes ainda não é poesia. Na parte afirmativa, defende-se a idéia de poesia como fato lingüístico, como fenômeno de linguagem, que não a aparta da vida dos fenômenos, apenas pres- supõe a mediação imagética coisa e signo: Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 126 • ANGLO VESTIBULARES
  • 8. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. [...] Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: trouxeste a chave? Repara: Ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. Embora muito comentado pela fortuna crítica de Drummond, esse poema não se encontra suficientemente esclarecido. A dificuldade maior de seu entendimento consiste em que o poeta nega o valor dos acontecimentos (pessoais ou coletivos) como matéria de poesia num livro radicalmente voltado para a multiplicidade dos fatos pes- soais e coletivos. Em substituição aos acontecimentos, esse texto recomenda o mergulho no reino das palavras, onde residem os poemas que esperam ser escritos. Se os fatos não contam, como entender poemas como “A Morte do Leiteiro” (o caso de um trabalhador que morre por ser confundido com um ladrão) ou “O Caso do Vestido” (a estória de um homem que solicita a mediação de sua es- posa na conquista de outra mulher)? Se os incidentes pes- soais também não servem à poesia, como interpretar poe- mas em que a voz lírica simula a presença do próprio pai (“Rua da Madrugada”, “No País dos Andrades”)? Alguma coisa requer explicação, pois parece haver uma contra- dição entre a poética de A Rosa do Povo e seus poemas concretamente considerados. Todavia, tal contradição é aparente e se desfaz com a compreensão efetiva do poe- ma, discutido anteriormente e retomado a seguir. Normalmente, os críticos alegam que, com as ne- gativas e as afirmações de “Procura da Poesia”, o poeta pretende ressaltar o valor da linguagem no processo poético. Isso é verdade, mas não é tudo. Ao dizer que os acontecimentos e os incidentes pessoais não devem entrar na poesia, o poeta pretende, de fato, defender a idéia de que poesia só se faz com temas, tópicas ou as- suntos escolhidos, e não com os fatos em si. Como se viu anteriormente, o que entra na poesia são idéias ou representação dos fatos que se cristalizam nas pala- vras, na linguagem. Tanto os sentimentos pessoais quanto a vida em sociedade entram no poema, mas não como matéria bruta, senão como temas, idéias, imagens ou conceitos associados à realidade das coi- sas. É nesse sentido que se deve entender a noção de linguagem, que, no poema, aparece na perífrase reino das palavras. Por essa razão é que os poemas pré-exis- tem a si próprios, isto é, são realidades virtuais que in- tegram as hipóteses previstas pelo código da poesia de cada tempo, no caso, a recente tradição da poesia con- temporânea. Assim, desfaz-se a aparente contradição entre a proposta de “Procura da Poesia” e a matéria so- cial e individual dos poemas de A Rosa do Povo, por- que aí há muitos acontecimentos e muitos incidentes pessoais no livro, mas não como instancias singulares dos fenômenos, senão como conceitos gerais ou no- ções ideais, as quais ficcionalizam (instituem em ficção) as particularidades da vida concreta. Como toda arte, a poesia de Drummond resulta de operações intelectuais do juízo, da razão e cultura. Em outros termos, a natureza e os homens em so- ciedade, explicitamente negados como matéria do canto, tornam-se matéria do mesmo canto depois de se converterem em linguagem, isto é, quando trans- postos para a condição de imagens ou conceitos cul- turais de natureza e de sociedade. Por essa perspecti- va, um texto para ser, de fato, um poema deverá pare- cer com os poemas que integram a noção de poesia de um dado momento. No décimo livro da República, Platão explica que, ao construir uma cadeira, o artesão nada mais faz do que imitar a idéia de cadeira. Se o objeto resultante de seu trabalho não parecer com uma cadeira e não exercer a função que se espera de uma cadeira, não poderá ser considerado como ca- deira. Será outra coisa. Assim, os textos de A Rosa do Povo serão tomados como poéticos desde que se aproximem do conceito de boa poesia adotado pelo autor e por seus leitores. É nesse sentido que os poe- mas moram no reino das palavras, isto é, residem no espaço convencional da linguagem, do código cultural da comunicação artística. O domínio competente des- se código (trouxeste a chave?) produzirá o efeito de es- pontaneidade, de revolta, de singularidade ou indig- nação, dependendo do caso específico de cada texto. A Flor e a Náusea O terceiro poema de A Rosa do Povo, “A Flor e a Náusea”, é também uma espécie de poética, pois con- tém a síntese da visão política e existencial do volume, que consiste na crítica, por meio de metáforas e sím- bolos, da reificação a que está condenado o homem na sociedade capitalista. Surge aí, pela primeira vez, o vocábulo flor, como metáfora de poesia, que oferece uma mínima esperança para os tempos de crise: Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjôo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucina- ções e espera. O tempo pobre, o poeta pobre Fundem-se no mesmo impasse. [...] Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 127 • ANGLO VESTIBULARES
  • 9. Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia, rompe o asfalto. Façam completo silêncio, paralisem os negócios, Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem. Seu nome não está nos livros. É feia. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas [da tarde E lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens maciças avolu- [mam-se, Pequenos pontos brancos movem-se no mar, ga- [linhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o [nojo e o ódio. No primeiro fragmento, em versos de extrema modernidade, a voz lírica incorpora noções típicas do intelectual de convicções marxistas (preso à minha classe e a algumas roupas) e do existencialismo (o tem- po não chegou de completa justiça). Em ambos os ca- sos, a revolta impõe-se como tema do poema que se inicia: devo seguir até o enjôo/posso sem armas revol- tar-me. Na seqüência, o texto enumera imagens que traduzem a indisposição do indivíduo correto contra o mundo errado. À beira do desespero, este se apega à poesia como instrumento de confronto: uma flor nas- ceu na rua!/Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. O título do poema alude ao romance A Náusea, do filó- sofo existencialista Jean Paul Sartre, que fornece certa linha de argumento temático de A Rosa do Povo. Nosso Tempo Na linha da poesia social, destaca-se, ainda, o poe- ma “Nosso Tempo”, que apresenta um amplo painel da fragmentação psicológica, política e social da época, em que a guerra e a desconfiança dividiam as pessoas: Este é tempo de partido, Tempo de homens partidos. [...] Este é tempo de divisas, Tempo de gente cortada. De mãos viajando sem braços, Obscenos gestos avulsos. Como hipótese de solução para a crise do con- flito entre o indivíduo e a sociedade, resta à voz líri- ca a adesão ao mito da rebeldia das hipóteses alter- nativas, tal como se vê no final desse texto impor- tante, em que se retoma de maneira convincente a antipatia contra a mais-valia capitalista, anunciada em “A Flor e a Náusea”: O poeta declina de toda a responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras, intuições, símbolos e outras [armas promete ajudar a a destruí-lo como uma pedreira, uma floresta, um verme. Além da modernidade da adesão marxista, A Rosa do Povo possui dois poemas de aberta propaganda da utopia comunista, então considerada como hipótese histórica que seduziu grande parte de artistas cons- cientemente radicais: “Mas Viveremos” e “Com o Rus- so em Berlim”. No primeiro destes, o comunismo é fi- gurado, primeiro, como uma estrela cintilante; depois, como uma espécie de navio da esperança vermelha: Pouco importa que dedos se desliguem e não se escrevam cartas nem se façam sinais da praia ao rubro couraçado. Ele chegará, ele viaja o mundo. E ganhará enfim todos os portos, avião sem bombas entre Natal e China, petróleo, flores, crianças estudando, beijo de moça, trigo e sol nascendo. Ele caminhará nas avenidas, entrará nas casas, abolirá os mortos, ele viaja sempre, esse navio, essa rosa, esse canto, essa palavras. Os versos idealizam a era comunista como uma es- pécie de idade de ouro moderna, em que haverá paz e fartura para todos. A seqüência trigo e sol nascendo as- socia esse poema moderno à tópica da sociedade sem classes dos antigos pastores ideais, o que pode ser in- terpretado como possível ironia do autor à própria con- vicção política. Conforme se viu anteriormente, grandes artistas e intelectuais dos anos 1940 partilharam da con- vicção comunista. Jorge Amado é o caso mais célebre no Brasil. Em seu romance Seara Vermelha, de 1946, há passagens de aberta alegoria ideológica, tal como se vê nessas estrofes de A Rosa do Povo. Outro índice do tempo presente no livro de Drummond é, viu-se antes, a alusão à Segunda Grande Guerra, tal como se observa nos poemas “Carta a Stalingrado”, “Telegrama de Mos- cou”, “Visão 1944” e “Notícias”, entre outros. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 128 • ANGLO VESTIBULARES autoraricatura
  • 10. Tema Amoroso, Estilo Mesclado O tema amoroso é muito forte em A Rosa do Povo. “Caso do Vestido”, um dos mais populares poemas do livro, é estória de amor em forma de diálogo. Trata-se de um sentimento absurdo, em que uma esposa implo- ra que uma mulher fatal durma com seu marido, para lhe satisfazer a vontade: Eu não amo teu marido, me falou ela se rindo. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto, só pra lhe satisfazer, não por mim, não quero homem. Olhei para vosso pai, os olhos dele pediam. Olhei para a dona ruim, os olhos dela gozavam. Aí, como em quase todo poema do gênero, o amor será sempre amaro, isto é, amargo. Sem ne- nhum conceito explícito, a narrativa do poema escon- de um conceito sobre o indivíduo e sobre a família, tal como se deixam vislumbrar em certos arquétipos do imaginário popular: o homem define-se pelo exclusi- vismo da vontade; a mulher, pela submissão a seu ponto na hierarquia familiar. Não obstante, a unidade de caráter reside nesta, e não naquele. “O Mito” é um longo texto sobre o conceito de amor, voltado para o tema da idealização da mulher, que entra para a arte sem sair da vida cotidiana do sécu- lo XX. Nesse poema, pode-se observar um traço im- portante de A Rosa do Povo, que é a transferência de um assunto tradicionalmente elevado, o conceito de contemplação amorosa, para o ambiente prosaico da sociedade moderna, o que necessariamente implica a mistura de diferentes espécies de vocábulos e a interpe- netração de elementos de esferas semânticas distintas: Menos eu... que de orgulhoso me basto pensando nela. Pensando com unha, plasma, fúria, gilete, desânimo. Amor tão disparatado. Desbaratado é que é... Nunca a sentei no meu colo nem vi pela fechadura. Mas eu sei quanto me custa manter esse gelo digno, essa indiferença gaia e não gritar: Vem, Fulana! A essa espécie de montagem, de origem cubista e surrealista, dá-se o nome de estilo mesclado, estu- dado em Drummond pelo crítico José Guilherme Merquior. Ótimo exemplo de mistura de estilos em A Rosa do Povo encontra-se no poema “Anúncio da Ro- sa”. Aí, imagina-se a notícia da venda irônica de algo que não se pode vender, razão pela qual a linguagem oscila entre afirmações e negaceios, coloquialismos e expressões eruditas. O objeto de venda é uma flor, mas que também pode ser a arte ou a poesia, postas em situação de negócio: Imenso trabalho nos custa a flor. Por menos de oito contos vendê-la? Nunca. Primavera não há mais doce, rosa tão meiga onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis. [...] Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada, não, é cruel existir em tempo assim filaucioso. Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas, oferecer-vos alta mercancia estelar e sofrer vossa [irrisão. Como se trata de texto experimental, convém re- correr ao dicionário e examinar o astucioso emprego de alguns vocábulos: Aurilavrado: trabalhado em ouro; filaucioso: egoísta, presunçoso; mercancia: mer- cadoria; irrisão: zombaria, escárnio. Se se admitir que o texto fala do valor da arte na sociedade capitalista, ter-se-á de concluir que propõe a ironia como postura ideal para a produção de poesia nos tempos moder- nos. Daí o tom sarcástico diante da situação que esta- belece baixo preço para o que pode valer muito. Ter- mina com a idéia de que a burguesia apodrece. Seria possível também imaginar que o texto ridiculariza o poeta antiquado querendo sustentar o emprego de linguagem velha em tempos modernos. Simples na aparência, esse talvez seja um dos textos mais equívo- cos de A Rosa do Povo, perdendo, nesse sentido, para “Áporo”, outra experiência enigmática com a lingua- gem. Na dimensão do estilo mesclado enquadra-se, também, o poema “Nova Canção do Exílio”, paródia do célebre poema de Gonçalves Dias, caracterizada pela radicalidade do estilo telegráfico, herdado do primeiro modernismo: Ainda um grito de vida e voltar para onde é tudo belo e fantástico: a palmeira, o sabiá, o longe. Sem nenhuma utopia nacionalista, o espaço míti- co de Drummond caracteriza-se, antes, pela idea- lização de um ponto abstrato em que o indivíduo pu- desse encontrar o vazio da própria solidão e sentir-se bem aí. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 129 • ANGLO VESTIBULARES
  • 11. Retrato de Família Além de se manifestar no tema amoroso, o genro lírico consubstancia-se em diversos poemas sobre a fa- mília, entendida como os antecedentes da formação do indivíduo. “Retrato de Família” contém uma descrição metafórica de uma antiga fotografia, em que o passado é interpretado como antecipação do presente, que se torna misterioso pelas projeções ancestrais. Também tematizam a família os poemas “Rua da Madrugada” e “No País dos Andrades”. A persistência da memória é o núcleo temático de “Resíduo”, em que o tema da me- mória se funde com a idéia de que o presente é a soma- tória de experiências passadas e, por isso, dolorosas: Pois de tudo fica um pouco. Fica um pouco de teu queixo No queixo de tua filha. [...] E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção E abafa O insuportável mau cheiro da memória. Se o poema tematiza a permanência do humano, não se pode extrair dele nenhuma idéia de transcen- dência. O pensamento geral de A Rosa do Povo é do- minado, antes, pela idéia do circunstancial, do material e do histórico. Os traços que compõem o indivíduo de- correm da história ou da genética. Podem se associar tanto à insistência de um traço de caráter quanto à permanência de um rato ou de um botão. Tempo, Corrosão, Morte Em Drummond, a pessoa carregará sempre um “eu todo retorcido”. Terá dificuldades com o seu “fatal lado esquerdo”. Será problematizante. A inquietação do pen- samento poético de A Rosa do Povo associa-se a certas tópicas da tradição da poesia européia, como a passa- gem do tempo, a inevitabilidade da morte e a ameaça do medo. Talvez fosse melhor não entender a poesia reflexi- va de Drummond como decorrência de sua experiência verdadeira com a vida, porque em 1945 o poeta tinha apenas quarenta e três anos. Suas inquietudes serão antes um questionamento temático, um esforço dialético do espírito ou se traduzem como desejo de participar de um debate instaurado pela mais remota tradição da líri- ca ocidental. Reflexões sobre a passagem do tempo, a intromissão do passado no presente, o início da velhice e outras carências do indivíduo formam o núcleo temático dos decassílabos de “Versos à Boca da Noite”: Sinto que o tempo sobre mim abate sua mão pesada. Rugas, dentes, calva... Uma aceitação maior de tudo, e o medo de novas descobertas. [...] Mas vem o tempo e a idéia de passado visitar-te na curva de um jardim. Vem a recordação, e te penetra dentro de um cinema, subitamente. E as memórias escorrem do pescoço, do paletó, da guerra, do arco-íris; enroscam-se no sono e te perseguem, à busca de pupila que as reflita. E depois das memórias vem o tempo trazer novo sortimento de memórias, até que, fatigado, te recuses e não saibas se a vida é ou foi. O verso final do fragmento é particularmente sig- nificativo para a compreensão do repertório temático de A Rosa do Povo. Aí se condensa a tópica da intro- missão do passado no presente, cristalizando a idéia de que o momento atual nada mais é do que a con- fluência de experiências preteridas, idéia forte nos poemas de ponderação existencial do volume. Em “Morte no Avião” o impasse da completa disso- lução ganha corpo no monólogo de um homem que re- compõe o último dia de sua vida, que termina com um desastre aéreo. Aspecto instigante do poema é o ponto de vista da elocução. Quem fala? De onde fala? Qual sua relação com o que fala? Objetivo e quase indiferente, o relato tanto pode ser atribuído a alguém que já morreu quanto a alguém que sabe da morte próxima sem que haja condição lógica para isso. Há paradoxo em ambos os casos. Em qualquer das hipóteses, o absurdo incrus- tado no cotidiano da cidade grande confere densidade ficcional ao texto, cujo início é tão incisivo quanto o final: Acordo para a morte. Barbeio-me, visto-me, calço-me. É meu último dia: um dia Cortado de nenhum pressentimento. Tudo funciona como sempre. Saio para a rua. Vou morrer. [...] golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, [raio choque estrondo fulguração rolamos pulverizados caio verticalmente e me transformo em notícias. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 130 • ANGLO VESTIBULARES Família de Drummond. O poeta acha-se à esquerda, de braços cruzados.
  • 12. Como em todos os poemas de A Rosa do Povo, aqui o homem não acaba em transcendência. De- pois da morte, a personagem não se transforma em alma, mas em notícia. Vira matéria de jornal. Há um poema que, pelo assunto, se aproxima de “Morte no Avião”. Trata-se de “Os Últimos Dias”, espécie de arte de morrer ou preparação para a morte. Nela, a voz lírica imagina como seria a percepção do mun- do se fosse possível prever o exato instante do fim. Entre os preparativos para o encontro solene, pro- põe-se uma orgulhosa resignação, sem medo ou re- morso: E que a hora esperada não seja vil, manchada [de medo, submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta, mas não a quero negando as outras horas nem [as palavras ditas antes com voz firme, os pensamentos maduramente pensados, os atos que atrás de si deixaram situações. Que o riso sem boca não a aterrorize, e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas, dedos torcidos, lívido suor de remorso. Ainda aqui, o extremo da experiência humana não desperta nenhum dos mitos salvacionistas da teologia cristã. A dureza de algumas imagens con- diz com o realismo do pensamento geral do texto, tal como se vê em riso sem boca (morte) e cama calcária (cova). Mas, se o medo não deve macular a extrema ex- periência do homem, nem por isso deixa de o acom- panhar nas pequenas coisas do dia-a-dia. Esse é o tema do poema “O Medo”, que fala da condição pou- co heróica da pessoa em seu funcionamento diário, perdida entre as pequenas coisas da vida: Faremos casas de medo, duros tijolos de medo, medrosos caules, repuxos, ruas só de medo e calma. E com asas de prudência, com resplendores covardes, atingiremos o cimo de nossa cauta subida. O medo, com suas física, tanto produz: carcereiros, edifícios, escritores, este poema; outras vidas. Partindo de metáforas concretas, o poema formu- la uma noção abstrata. Trata-se da alegoria da tópica de que o motor da história não será jamais a coragem, mas sim o temor, a pequenez. Mário de Andrade e Charlie Chaplin A amargura dos poemas sobre o tempo, a velhice e a família se dissolve um pouco na homenagem aos grandes artistas, tal como se observa em “Mário de Andrade Desce aos Infernos” e “Canto ao Homem do Povo Charlie Chaplin”. Em ambos os textos, os home- nageados funcionam como metonímia de arte, de so- lidariedade e de comunicação humana, síntese da idéia de poesia em A Rosa do Povo. LEITURA E EXERCÍCIOS Texto para a questão 1 Vomitar esse tédio sobre a cidade. Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. Nenhuma carta escrita nem recebida. Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem. 1. O texto pertence a “A Flor e a Náusea”. Assinale a alternativa correta: a) integra o núcleo temático do existencialismo: revolta contra a desigualdade social no país. b) integra o núcleo temático do amar-amaro: expres- são da angústia decorrente da solidão coletiva. c) integra o núcleo temático do impasse social: revolta contra o isolamento do indivíduo. d) integra o núcleo temático do impasse existen- cial: revolta contra uma inércia sem explicação. e) integra o núcleo temático da crise do indiví- duo: irritação contra os valores capitalistas. Texto para a questão 2 Carrego comigo Há dezenas de anos Há centenas de anos O pequeno embrulho. [...] Já não me recordo Onde o encontrei. Se foi um presente Ou se foi furtado. [...] Não ouso entreabri-lo. Que coisa contém, ou se algo contém, nunca saberei. [...] Não sei que seja. Eu não a escolhi. Jamais a fitei. Mas levo uma coisa. Não estou vazio, não estou sozinho, pois anda comigo algo indescritível. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 131 • ANGLO VESTIBULARES
  • 13. 2. O fragmento pertence a “Carrego Comigo”. Ob- serve as afirmações e assinale a alternativa correta: I. Texto alegórico, de dimensão mais filosófica do que social. II. A “coisa” misteriosa pode ser a identidade do eu lírico. III. Trata-se de alegoria do pecado original. a) Todas estão corretas. b) Todas estão erradas. c) Somente III está correta. d) Somente I e II estão corretas. e) Somente I e III estão corretas. Texto para a questão 3 O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como dedo na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. 3. O texto pertence a “Desfile”. Assinale a alterna- tiva correta: a) Dominado por processo reiterativo e por com- paração lógica entre juventude e cicatriz. b) Marcado por processo reiterativo e pela com- paração entre elementos logicamente descone- xos: remédio, dedo, vento, juventude (enume- ração caótica). c) Dominado por nítida inclinação tautológica, com metonímia: o vocábulo cicatriz emprega-se como metáfora de juventude. d) Dominado por processo metafórico, com reite- ração gradativa de elementos logicamente rela- cionados: remédio, dedo, vento, juventude, ci- catriz (enumeração caótica). e) Com versos metrificados e gradação do ele- mento menor para o maior: travesseiro, tempo, doente, cicatriz. Texto para a questão 4 Nosso Tempo Este é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra [...] E continuamos. É tempo de muletas. Tempo de mortos faladores e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado, mas ainda é tempo de viver e contar. Certas histórias não se perderam. Conheço bem esta casa, pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se, a sala grande conduz a quartos terríveis, como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa, conduz à copa de frutas ácidas, ao claro jardim central, à água que goteja e segreda o incesto, a bênção, a partida, conduz às celas fechadas, que contêm: Papéis? Crimes? Moedas? 4. O poema pertence ao núcleo de poesia social de A Rosa do Povo. Responda: a) Pode ser considerado como exemplo da cha- mada poesia do impasse ou da crise. Por que? b) Na primeira unidade, afirma-se que as leis não dão conta de uma organização social justa. Qual o argumento do poeta contra o domínio da lei? Texto para a questão 5 Consolo na Praia Vamos, não chores... A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possui casa, navio, terra. mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas, e o humour? A injustiça não se resolve. À Sombra do mundo errado murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento... Dorme, meu filho. 5. O título insinua o contrário do que o texto sugere. Responda: a) Em que consiste a contradição entre o título e o sentido geral do poema? b) O poema é irônico. Por que? SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 132 • ANGLO VESTIBULARES
  • 14. Texto para a questão 6 Morte do Leiteiro Há pouco leite no país, é preciso entregá-lo cedo. Há muita sede no país, é preciso entregá-lo cedo. Há no país uma legenda, Que ladrão se mata com tiro. [...] Mas este acordou em pânico (ladrões infestam o bairro), não quis saber de mais nada. O revólver da gaveta Saltou para sua mão. Ladrão? Se pega com tiro. Os tiros na madrugada liquidaram meu leiteiro. Se era noivo, se era virgem, se era alegre, se era bom, Não sei, é tarde para saber. 6. A comparação entre a primeira estrofe e o final da segunda revela um paralelo e uma oposição signi- ficativos. Responda: a) Em que consiste tal oposição? b) Há uma imagem em particular que se afasta da regularidade lógica do poema. De que imagem se trata? Qual sua função na significação geral do texto? Texto para a questão 7 Áporo Um inseto cava cava sem alarme perfurando a terra sem achar escape. Que fazer, exausto, em país bloqueado, enlace de noite raiz e minério? Eis que o labirinto (oh razão, mistério) presto se desata: em verde, sozinha, antieuclidiana, uma orquídea forma-se. 7. A imagem da flor ou da rosa é recorrente em A Rosa do Povo. Responda: a) O poema encena uma situação de impasse, que se insinua pela imagem do país bloqueado, en- tre outras. Qual o sentido do surgimento da or- quídea no final? b) A última palavra do primeiro verso e a primeira do segundo evidenciam um procedimento típico do estilo de A Rosa do Povo, que pode ser obser- vado tanto no início de “Morte do Leiteiro” quan- to em “Consolo na Praia”. De que procedimento se trata? Qual sua função na poesia moderna? Texto para a questão 8 Episódio Manhã cedo passa à minha porta um boi. De onde vem ele se não há fazendas? Vem cheirando o tempo entre noite e rosa. Pára à minha porta sua lenta máquina. Alheio à polícia Anterior ao tráfego ó boi, me conquistas para outro, teu reino. Seguro teus chifres: eis-me transportado sonho e compromisso ao País Profundo. 8. O poema apresenta pequena narrativa alegórica. Responda: a) Ao irromper do nada em meio à cidade, o que simboliza o boi? b) A expressão “País Profundo” está grafada com iniciais maiúsculas. Qual o sentido dessa expressão na economia geral do poema? Texto para a questão 9 Mário de Andrade Desce aos Infernos A rosa do povo despetala-se, ou ainda conserva o pudor da alva? É um anúncio, um chamado, uma esperança embora frágil, pranto infantil no berço? Talvez apenas um ai de resta, quem sabe. Mas há um ouvido mais fino que escuta, um peito de artista que incha. e uma rosa se abre, um segredo comunica-se, o poeta anunciou, o poeta, nas trevas, anunciou. 9. A rosa é símbolo importante em A Rosa do Povo. Responda: a) Ao anunciar a rosa do povo como símbolo de poesia, como o poeta a caracteriza? b) Pela lógica do texto, todos os leitores se com- portam de maneira uniforme diante da rosa do povo? Há diferenças em sua recepção? Se houver diferença, qual seria ela? SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 133 • ANGLO VESTIBULARES
  • 15. RESPOSTAS 1. D 2. D 3. B 4. a) Porque o enunciado apresenta problemas, questões e críticas para as quais não vislum- bra soluções. O poema insinua que a solução consiste na unidade, mas demonstra que o mundo é fragmentado e sem sentido. b) As leis não garantem alimentação (carne), mo- radia (fogo) nem conforto (sapato). Além disso, as leis divorciaram-se demais da natureza, pois não conseguem regular o nascimento dos lírios. 5. a) O título anuncia consolo; e o poema tematiza o total desespero. A recomendação final do sono como forma de solução evidencia que não há saída para o impasse da personagem, despida de todo amparo moral e físico. b) A primeira ironia consiste em anunciar consolo e apresentar desespero. Depois, ela se prolonga por todo o poema, cujo tom é ameno no anún- cio da carência total. A diferença entre tom e matéria resulta em ironia. 6. a) Na primeira estrofe, predomina a impessoalida- de de uma voz objetiva, que não individualiza as noções. No final da segunda estrofe, o texto es- força-se por personalizar as noções, individuali- zando o caso singular de um leiteiro específico. b) Trata-se da seguinte passagem: “O revólver da gaveta/saltou para sua mão”. Trata-se de uma prosopoéia ou personificação, cuja função real- ça a ação mecânica do burguês ao tirar a vida de um trabalhador. 7. a) O surgimento da orquídea pode simbolizar o nascimento de uma solução para a crise figura- da ao longo do texto. Como, no livro, a imagem da flor simboliza a poesia, pode-se admitir que ela seja uma solução para os impasses da vida social. b) Trata-se da repetição, processo muito freqüen- te em A Rosa do Povo. A repetição pode assu- mir várias formas na poesia moderna. Quase sempre sugere a mesmice e a rapidez com que se reproduzem as coisas do cotidiano. 8. a) O boi simboliza a natureza, que surge inexpli- cavelmente para reconquistar seu lugar no espaço civilizado da cidade. b) A expressão indica o espaço abstrato das for- ças inconscientes do indivíduo, que se iden- tificam com as formas simples da natureza. 9. a) Identificada como “rosa do povo”, a poesia é apresentada como uma força espontânea e sem muita eficácia, embora represente a dimensão pura de algumas manifestações culturais. Asso- cia-se à idéia de fragilidade, de pranto e de in- fância. Mas na consciência de suas limitações consiste sua verdadeira força. b) A “rosa do povo” não é percebida de maneira uniforme. Aqueles que a percebem devida- mente são seres mais sensíveis, dotados de ta- lento artístico. Embora seja “do povo”, a poesia não é assimilada por todos. SISTEMA ANGLO DE ENSINO • 134 • ANGLO VESTIBULARES