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Aula quarto de despejo
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CAROLINA MARIA DE JESUS foi uma mulher, negra, brasileira,
pobre e escritora. Nascida em Sacramento, Minas Gerais, numa
comunidade rural, estudou dois anos em uma escola paga pela
mulher de um fazendeiro, aprendeu a ler e a escrever. Migrou
para São Paulo e passou a morar na favela do Canindé. Mãe de
três filhos de pais diferentes que criou sozinha, catando papel
na rua; se negou a ser dependente de qualquer homem.
Embora tenha estudado pouco, aprendeu o suficiente para ler
livros que encontrava no lixo e escrever um diário, contando sobre
seu dia-a-dia e como enxergava o mundo a sua volta. Alguns
destes diários foram publicados como Quarto de Despejo,
metáfora criada pela escritora para se referir à favela em
relação à capital. Embora escrito na linguagem simples e
deselegante de uma pessoa sem muita instrução, seu diário foi
traduzido para 14 idiomas e tornou-se um best-seller.
Aula quarto de despejo
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• NOME: Carolina Maria de Jesus
• NASCIMENTO: 1914
• MORTE: 13021977
• ONDE NASCEU: Sacramento (MG)
• ONDE MOROU: São Paulo (SP)
• PROFISSÃO: Foi empregada doméstica em SP, onde, mais tarde passou a
catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis para sobreviver.
• MOTIVO PARA ESCREVER UM LIVRO: “quando eu não tinha nada o que
comer, em vez de xingar eu escrevia.”
• MOTIVO PARA LER UM LIVRO: “para adquirirmos boas maneiras e
formarmos nosso caráter.”
•AUTORA: Carolina Maria de Jesus
•ESCOLA LITERÁRIA: Literatura Contemporânea
•ANO DE PUBLICAÇÃO: 1960
•GÊNERO: Diário - memórias
•DIVISÃO DA OBRA: A obra mostra o relato de 4 anos (1955,
1958, 1959 e 1960).
•LOCAL EM QUE SE PASSA A HISTÓRIA: São Paulo – Favela
do Canindé
•TEMAS: Amor, morte, miséria, fome questões raciais,
questões de gênero, literatura, preconceito, drogas,
violência, violação de direitos humanos, prostituição.
CAROLINA MARIA DE JESUS –
narradora e protagonista da
história. Carolina é mineira e vem
tentar a vida em São Paulo, onde
vai morar na Favela do Canindé. É
uma mulher negra, pobre,
favelada, desempregada, e que
tem amor pela escrita e pela
leitura. Tem três filhos de pais
distintos e trabalha como catadora
para sustentá-los.
CAROLINA
MARIA DE JESUS
JOÃO JOSÉ
Filho mais velho de Carolina;
nasceu em 1948, tinha 7 anos
no início da narrativa.
JOSÉ CARLOS
Filho do meio; nasceu em
1949, tinha 6 anos no início
da narrativa.
PERSONAGENS
VERA EUNICE
Filha mais nova de Carolina;
nasceu em 1953, tinha 2 anos no
início da narrativa. Desde cedo,
manifestava aversão à favela e
gostava do “luxo”.
SECUNDÁRIOS
Vários moradores da favela e seus
arredores, Senhor Manoel e
Raimundo, pretendentes de Carolina.
PERSONAGENS
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Aula quarto de despejo
❖ “Quarto de despejo: diário de uma favelada” é um livro em forma de
diário, escrito por Carolina Maria de Jesus. A obra é uma compilação de diários
escritos durante cinco anos da vida de Carolina, entre 1955 e 1960, e editados
pelo jornalista Audálio Dantas, que fez uma seleção dentre as quase mil páginas
escritas pela autora. Nessa seleção, escolheu os relatos dos anos 1955, 1958, 1959
e o primeiro dia de 1960.
❖ Os diários foram escritos em cadernos velhos encontrados nos lixos da
cidade de São Paulo e, diferentemente dos diários confidenciais, esses registram
e denunciam o cotidiano de miséria, fome e violência da protagonista, bem como
dos moradores da antiga favela do Canindé, com a intenção de um dia serem
lidos. São relatos que mostram a negligência do poder público para com a
população menos favorecida socioeconomicamente; os conflitos entre os
moradores da favela; a luta diária pela sobrevivência, pelo pão de cada dia; além
das questões ligadas ao momento político da época.
❖ A NARRAÇÃO: Como foi escrito em forma de diário, o livro é escrito em
primeira pessoa.
OS LIMITES ENTRE A PERSONAGEM E A ESCRITORA
OU A VIDA IMITA A ARTE
Inicialmente , é muito importante que você faça uma distinção entre a autora e
a personagem. Mas não é a mesma coisa? Não. Em toda obra literária, por mais
que ela relate a sua realidade dos fatos, como é o caso da obra em estudo, existe
o autor e a personagem (e às vezes um narrador), que podem ser pessoas
diferentes ou a mesma pessoa, mas que ocupam papéis diferentes na narrativa .
Por se tratar de um diário autobiográfico, temos de conhecer bem que foi a
autora para compreender sua personagem – as duas se fundem obviamente, não
há como desvincular a autora da narradora do diário, mas é preciso entender que
o foco narrativo é uma opção literária.
OS LIMITES ENTRE A PERSONAGEM E A ESCRITORA
OU A VIDA IMITA A ARTE
❖ CAROLINA MARIA DE JESUS é mineira, estudou apenas
dois anos na escola, onde aprendeu a ler e a escrever e veio
tentar a vida em São Paulo. Trabalhava como doméstica e
morava na extinta favela do Canindé, a maior favela
paulista.
❖Nunca se casou, por opção; a vida a fez descrer em um
relacionamento homem-mulher, mas tinha três filhos
pequenos, um de cada pai: João José, José Carlos (cujos
pais não conhecemos0) e Vera Eunice (filha de um
empresário o qual ela não revela o nome em seu diário a
pedido dele, pois era casado e tinha família).
❖A luta constante de Carolina era pela sobrevivência dela e dos
filhos; tornara-se catadora de papel, metal e de qualquer outro
material que pudesse vender em depósitos de reciclagem. Como
nem sempre consegue dinheiro para comer – por várias vezes
manifesta que sua felicidade estava em ver os filhos
alimentados, mas isso nem sempre era possível, em algumas
ocasiões, catava comida nos lixos (ou seus filhos catavam) e levava
para casa, e sempre ia no frigorífico catar ossos para cozinhar, fazer
sopa, enfim, para dar um gosto à comida.
“O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada.Temos que
imitar os animais.”
❖Era no lixo que Carolina achava também os cadernos em que
escrevia seus relatos, poemas e canções.
❖ Carolina e os filhos moravam em um barraco muito
precário e pequeno, cujo telhado era feito de papelões
que apodreciam e, consequentemente, deixavam a água
da chuva passar. Não havia infraestrutura, como água
encanada, saneamento e estava cheio de pulgas.
❖ Sobre a energia elétrica, havia um homem que
explorava todos os moradores da favela, cobrando pelos
“gatos” e quem não pagasse as taxas que ele estipulava,
tinha sua luz cortada – foi o caso de Carolina.
❖ Água (não fica claro onde os moradores da favela
conseguiam água). No diário, temos o registro de
que todas as manhãs Carolina acordava bem cedo
para pegar água – ia nesse horário para não
encontrar as moradoras: “Deixei o leito às 5 e meia
para pegar água. Não gosto de estar entre as
mulheres porque é na torneira que elas falam de
todos e de tudo.”
Sobre morar na favela, eis seu inferno:
odiava aquele lugar, não se via
pertencente àquele mundo, apesar de
toda a sua pobreza. Queria uma casa
para morar, longe dali. Com frequência,
refere-se aos favelados em 3ª pessoa.
Não gostava das pessoas e nem as
pessoas dela: “Aqui, todas impricam
comigo. Dizem que falo muito bem. Que
sei atrair os homens. (...) Quando fico
nervosa não gosto de discutir. Prefiro
escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento
no quintal e escrevo.”
Além disso, em suas discussões,
ela ameaçava sempre os vizinhos
de que iria colocá-los em seu
livro: “Vocês são incultas, não
pode compreender. Vou escrever
um livro referente a favela. Hei de
citar tudo o que aqui se passa. E
tudo que vocês me fazem. Eu
quero escrever o livro, e vocês
com estas cenas desagradaveis
me fornece os argumentos.”
❖ Sendo hostilizada pelos moradores da favela, a
narradora conta que, muitas vezes, seus filhos
eram maltratados e perseguidos por eles – um
deles o João, chegou a ser acusado de tentar
violentar uma menina.
❖Carolina descreve, por fim, que muitas vezes se
metia em brigas dos moradores, como uma forma
de tentar corrigir injustiças que ela via, mas era
chamada de “fedida” pelos outros.
A rotina de Carolina, narrada
no diário, não modifica muito:
acordar cedo para ir pegar
água, catar papel, fazer
comida, ler, escrever e dormir
(e quase sempre acordar de
madrugada com barulho de
vizinhos).
Mesmo tendo praticamente
dois anos de estudo, Carolina se
apropriou da escrita e utilizou-
se dela como uma forma de
resistência à ignorância e,
depois, como ascensão social:
“Mesmo elas me aborrecendo,
eu escrevo. Sei dominar meus
impulsos. Tenho apenas dois
anos de grupo escolar, mas
procurei formar o meu caráter.
A única coisa que não existe na
favela é solidariedade.”
❖A escrita e a leitura eram, para ela, uma forma de fugir
da realidade: “Deixei o leito as 3 da manhã (...) para
escrever. Enquanto escrevo, vou pensando que resido num
castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas
são de prata e as luzes de brilhantes (...) É preciso criar este
ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.”
❖Além do escapismo, ler e escrever eram um vício:
“Quando cheguei em casa era 22,30. liguei o rádio. Tomei
banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir
sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor
invenção do homem.”
❖Por ser uma pessoa de muitas leituras, percebe-se a
intertextualidade literária do diário de Carolina – aqui é
interessante verificar a oposição entre a escrita coloquial,
popular e a erudita, pertencentes à mesma personagem: “Parece
que este cigano quer hospedar-se no meu coração (...). Ele parece
o Castro Alves. Suas sobrancelhas unem-se.”
❖Em outra ocasião, ela observa sua filha Vera Eunice: “E eu
pensei no Casimiro de Abreu que disse: ‘A vida é bela. Ri,
criança’. Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a
época está apropriada para dizer: Chora criança. A vida é
amarga.”
❖A violência, na obra, aparece em todos os sentidos: física, moral,
psicológica, violência doméstica, violência de gênero, violência
racial. Para cada uma delas, apresenta-se uma situação rotineira
dos moradores da favela. “Leila insultou um jovem e ele
espancou-a. Lhe jogou no solo e um ponta-pé no rosto. O ato é
selvagem (...)”
❖Também a maldade humana a partir do descaso com o outro é
relatado por Carolina: uma das moças da favela foi pedir esmolas
em uma casa; a dona prontamente deu-lhe um pacote fechado. Já
em casa, quando ela foi abrir, havia vários ratos mortos. Outra
vez foi com os filhos de Carolina, “ganharam uns pães duro, mas
estava recheado com pernas de barata.” E assim a maldade
humana perpetua...
A VIOLÊNCIA NA FAVELA
❖A morte e o suicídio são constantes nos relatos de Carolina.
Durante a narrativa, muitas vezes o desânimo toma conta da
personagem - por viver constantemente na luta e não ter o que dar
de comer aos filhos - e ela pensa em cometer suicídio. “Hoje não
temos nada pra comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos.
Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó.”
“Eu estou começando a perder o interesse pela existência.
Começo a revoltar. E minha revolta é justa.”
“Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer.
Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de
alimentação no estômago. E por infelicidade eu amanheci com
fome.” Mas a esperança sempre teima em aparecer, e é ela que
posterga a morte.
O SUICÍDIO, PRODUTO DO DESÂNIMO
❖Em seus relatos, Carolina indica que
conheceu um jornalista, Audálio Dantas,
em 1958, que iria fazer uma reportagem
na favela, mas que ficou muito
interessado em seus escritos. Ele
percebeu que a literatura da moça da
favela era em tom de denúncia, algo
inédito: a visão da favela de dentro da
favela.
❖Assim, alguns trechos de seus diários
foram publicados no jornal “Folha da
Noite” (em 1958) e na revista “O
Cruzeiro” (1959). Mais tarde os relatos
foram reunidos em livro, “Quarto de
despejo: o diário de uma favelada”,
lançado em 1960.
Audálio Dantas entrou na história de
“Quarto de despejo” como jornalista,
repórter foi encarregado de escrever
uma matéria sobre uma favela que
se expandia na beira do rio Tietê, no
bairro do Canindé. Lá, no rebuliço
favelado, encontrou a negra
Carolina, que logo se colocou como
alguém que tinha o que dizer.
A história da favela que ele buscava
estava escrita em uns vinte cadernos
encardidos que Carolina guardava
em seu barraco.
❖Audálio Dantas leu e logo viu: repórter nenhum, escritor
nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de
dentro da favela.
❖Da reportagem – reprodução de trechos do diário – ele foi o
responsável pelo que se chama edição de texto. Leu todos
aqueles vinte cadernos que continham o dia a dia de Carolina e
de seus companheiros de triste viagem.
❖A repetição da rotina favelada, por mais fiel que fosse, seria
exaustiva. Por isso foram feitos cortes, selecionados os trechos
mais significativos.
❖A fome aparece no texto com uma frequência irritante.
Personagem trágica, inarredável. Tão grande e tão marcante
que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina.
❖Carolina viu a cor da fome – a Amarela.
❖A reação de Carolina também está
registrada no diário: “Quando cheguei
e abri a porta, vi um bilhete. Conheci a
letra do repórter (...) o bilhete dizia que
a reportagem vai sair no dia 10 [de
julho], no “Cruzeiro”. Que o livro vai ser
editado Fiquei emocionada.”
❖ e foi traduzido em treze idiomas e
vendido em mais de quarenta países.
Renomados escritores, como Rachel de
Queirós, Sérgio Milliet, Helena Silveira,
Manuel Bandeira entre outros,
também se posicionaram sobre os
escritos da autora.
❖O que não impediu que alguns torcessem o
nariz para o livro e até lançassem dúvidas
sobre a autenticidade do texto de Carolina.
Aquilo, diziam, só podia ser obra de um
espertalhão, um golpe publicitário.
❖O poeta Manuel Bandeira, em lúcido artigo,
colocou as coisas no devido lugar: “ninguém
poderia inventar aquela linguagem, aquele
dizer as coisas com extraordinária força
criativa mas típico de quem ficou a meio do
caminho da instrução primária.”
Carolina Maria de Jesus e
Clarice Lispector
Os jornais, as revistas, o rádio e a televisão, primeiro
aqui e depois no mundo inteiro, abriram espaço para
o livro e para a história de sua autora (...)
transformada de um dia para outro numa patética
Cinderela, saída do borralho do lixo para brilhar
intensamente sob as luzes da cidade.”
(Prefácio – Quarto de Despejo)
Um livro assim, forte e original, só podia gerar muita
polêmica. Para começar, ele rompeu a rotina das magras
edições de dois, três mil exemplares, no Brasil. Em poucos
meses, a partir de agosto de 1960, quando foi lançado,
sucessivas edições atingiram, em conjunto, a altura dos 100
mil exemplares.
O impacto causado por “Quarto de despejo” foi além das
discussões sobre o texto. O problema na favela, na época de
dimensões ainda reduzidas em São Paulo, foi discutido por
técnicos e políticos. Um grupo de estudantes fundou o
Movimento Universitário de Desfavelamento, cuja sigla -
MUD – revelava, no mínimo, uma intenção generosa. Ou um
sonho. E Carolina era alçada à condição de cidadã, com
título oficial conferido pela Câmara Municipal de São Paulo.
O espaço da narrativa é a extinta
Favela do Canindé, localizada às
margens do Rio Tietê, em São Paulo.
“O cenário em que foi escrito o
diário já não é o mesmo. Parte
dele deu lugar ao asfalto de uma
nova avenida, por coincidência
chamada de Marginal. A Marginal
do Tietê, que passa por ali onde até
meados dos anos 1960 se erguia o
caos semiurbano e subumano da
favela do Canindé.” (Prólogo –
Quarto de despejo)
Como a narrativa segue até o
primeiro dia de 1960 (ano em que foi
destruída), o diário relata rumores
entre os moradores de que iriam
acabar com a favela e,
consequentemente, o medo de não
terem para onde ir.
A favela é apresentada pela
narradora como uma analogia ao
quarto do despejo: “A favela é o
quarto de despejo. E as autoridades
ignoram que tem o quarto de
despejo. ”
Quando chegou a São Paulo, a favela foi o único lugar em
que ela conseguiu se abrigar. Morava na rua A, barraco nº 9;
sua casa foi construída com restos de tábua e materiais de
uma construção que havia ali próximo. Mas ela odiava
aquele lugar. “Credo, para viver num lugar assim só os
porcos. Isto aqui é o chiqueiro de são Paulo.”
Interessante, porém, observar que a favela nunca saiu de
Carolina, pois quando ela lançou seu livro e se mudou dali, a
imprensa e a população em geral a reconheciam como “a
escritora da favela”. A partir do momento em que ela se
mudou do barro para o asfalto (conseguiu comprar sua casa
própria), Carolina foi abandonada, ou seja, o que
interessava para a mídia era a favela. E até os dias atuais, o
assunto da favela chama a atenção, mas está muito longe de
ser amenizado.
A narrativa tem início em 15 de julho
de 1965 e término em 01 de janeiro
de 1960. No diário de Carolina,
percebem-se várias menções a
momentos sociais e políticos em que
vivia o Brasil à época.
A década de 1950 foi marcada
historicamente pelo lema “50 anos
em 5”, do então presidente da
República, Juscelino Kubistchek, que
visava à modernização das cidades, à
construção de Brasília (que foi
concluída em 1960) e à esperança de
uma política “mais justa e igualitária”.
E é exatamente o contrário disso tudo que Carolina mostra
em seu diário. Enquanto São Paulo se modernizava,
preocupava-se com a industrialização que objetivava o
progresso, uma parcela da população continuava vivendo na
mais pura miséria; a urbanização acabou trazendo muitos
problemas sociais que o estado foi incapaz de resolver. E
Carolina relatou muito bem essa questão.
“Mas eu já observei os nossos políticos. Para observá-los fui
na Assembleia. A sucursal do Governo. Foi lá que eu vi
ranger os dentes. Vi os pobres sair chorando. E as lágrimas
dos pobres comove os poetas (...) os poetas do lixo, os
idealistas da favela, um expecador que assiste e observa as
trajedias que os politicos representam em relação ao povo.”
Alguns políticos também são citados no diário: o próprio
Kubistchek, Jânio Quadros, Carlos Lacerda, Adhemar Pereira
de Barros (prefeito da cidade de São Paulo entre 1957 e 1961 e
duas vezes governador, entre 1947 e 1951 e de 1963 a 1966) e
demais políticos tratados de uma maneira geral, sem nomes.
“Eu quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o
adhemar e queimar o juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo
pelos políticos.”
Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o
que é fome, a dor e aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que
pode fazer a minoria?”
“De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a
fome, que tem a sua matriz nas favelas e as sucursais nos lares dos
operários.”
A descrença (a mesma que sentimos hoje) nos políticos,
aos olhares de Carolina vem em um desabafo:
O QUARTO DE DESPEJO É ABERTO À CULTURA
Após a publicação em forma de livro; “Quarto de despejo originou outras
manifestações artísticas, a saber:
❖“Quarto de Despejo”, um samba composto por B. Lobo;
❖ “Eu te arrespondo Carolina”, livro de Herculano Neves; adaptação para
o teatro em peça de Edy Lima;
❖ “Despertar de um sonho”, filme da televisão alemã tendo a própria
Carolina como protagonista (ainda inédito no Brasil);
❖ Episódio da série “Caso Verdade”, exibida pela Rede Globo de
Televisão, no ano de 1983;
❖ “Carolina uma biografia” (2018) , deTom Farias, pela editora Malê.
Aula quarto de despejo
Fim!

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Aula quarto de despejo

  • 6. CAROLINA MARIA DE JESUS foi uma mulher, negra, brasileira, pobre e escritora. Nascida em Sacramento, Minas Gerais, numa comunidade rural, estudou dois anos em uma escola paga pela mulher de um fazendeiro, aprendeu a ler e a escrever. Migrou para São Paulo e passou a morar na favela do Canindé. Mãe de três filhos de pais diferentes que criou sozinha, catando papel na rua; se negou a ser dependente de qualquer homem. Embora tenha estudado pouco, aprendeu o suficiente para ler livros que encontrava no lixo e escrever um diário, contando sobre seu dia-a-dia e como enxergava o mundo a sua volta. Alguns destes diários foram publicados como Quarto de Despejo, metáfora criada pela escritora para se referir à favela em relação à capital. Embora escrito na linguagem simples e deselegante de uma pessoa sem muita instrução, seu diário foi traduzido para 14 idiomas e tornou-se um best-seller.
  • 10. • NOME: Carolina Maria de Jesus • NASCIMENTO: 1914 • MORTE: 13021977 • ONDE NASCEU: Sacramento (MG) • ONDE MOROU: São Paulo (SP) • PROFISSÃO: Foi empregada doméstica em SP, onde, mais tarde passou a catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis para sobreviver. • MOTIVO PARA ESCREVER UM LIVRO: “quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia.” • MOTIVO PARA LER UM LIVRO: “para adquirirmos boas maneiras e formarmos nosso caráter.”
  • 11. •AUTORA: Carolina Maria de Jesus •ESCOLA LITERÁRIA: Literatura Contemporânea •ANO DE PUBLICAÇÃO: 1960 •GÊNERO: Diário - memórias •DIVISÃO DA OBRA: A obra mostra o relato de 4 anos (1955, 1958, 1959 e 1960). •LOCAL EM QUE SE PASSA A HISTÓRIA: São Paulo – Favela do Canindé •TEMAS: Amor, morte, miséria, fome questões raciais, questões de gênero, literatura, preconceito, drogas, violência, violação de direitos humanos, prostituição.
  • 12. CAROLINA MARIA DE JESUS – narradora e protagonista da história. Carolina é mineira e vem tentar a vida em São Paulo, onde vai morar na Favela do Canindé. É uma mulher negra, pobre, favelada, desempregada, e que tem amor pela escrita e pela leitura. Tem três filhos de pais distintos e trabalha como catadora para sustentá-los. CAROLINA MARIA DE JESUS
  • 13. JOÃO JOSÉ Filho mais velho de Carolina; nasceu em 1948, tinha 7 anos no início da narrativa. JOSÉ CARLOS Filho do meio; nasceu em 1949, tinha 6 anos no início da narrativa. PERSONAGENS
  • 14. VERA EUNICE Filha mais nova de Carolina; nasceu em 1953, tinha 2 anos no início da narrativa. Desde cedo, manifestava aversão à favela e gostava do “luxo”. SECUNDÁRIOS Vários moradores da favela e seus arredores, Senhor Manoel e Raimundo, pretendentes de Carolina. PERSONAGENS
  • 17. ❖ “Quarto de despejo: diário de uma favelada” é um livro em forma de diário, escrito por Carolina Maria de Jesus. A obra é uma compilação de diários escritos durante cinco anos da vida de Carolina, entre 1955 e 1960, e editados pelo jornalista Audálio Dantas, que fez uma seleção dentre as quase mil páginas escritas pela autora. Nessa seleção, escolheu os relatos dos anos 1955, 1958, 1959 e o primeiro dia de 1960. ❖ Os diários foram escritos em cadernos velhos encontrados nos lixos da cidade de São Paulo e, diferentemente dos diários confidenciais, esses registram e denunciam o cotidiano de miséria, fome e violência da protagonista, bem como dos moradores da antiga favela do Canindé, com a intenção de um dia serem lidos. São relatos que mostram a negligência do poder público para com a população menos favorecida socioeconomicamente; os conflitos entre os moradores da favela; a luta diária pela sobrevivência, pelo pão de cada dia; além das questões ligadas ao momento político da época.
  • 18. ❖ A NARRAÇÃO: Como foi escrito em forma de diário, o livro é escrito em primeira pessoa. OS LIMITES ENTRE A PERSONAGEM E A ESCRITORA OU A VIDA IMITA A ARTE Inicialmente , é muito importante que você faça uma distinção entre a autora e a personagem. Mas não é a mesma coisa? Não. Em toda obra literária, por mais que ela relate a sua realidade dos fatos, como é o caso da obra em estudo, existe o autor e a personagem (e às vezes um narrador), que podem ser pessoas diferentes ou a mesma pessoa, mas que ocupam papéis diferentes na narrativa . Por se tratar de um diário autobiográfico, temos de conhecer bem que foi a autora para compreender sua personagem – as duas se fundem obviamente, não há como desvincular a autora da narradora do diário, mas é preciso entender que o foco narrativo é uma opção literária. OS LIMITES ENTRE A PERSONAGEM E A ESCRITORA OU A VIDA IMITA A ARTE
  • 19. ❖ CAROLINA MARIA DE JESUS é mineira, estudou apenas dois anos na escola, onde aprendeu a ler e a escrever e veio tentar a vida em São Paulo. Trabalhava como doméstica e morava na extinta favela do Canindé, a maior favela paulista. ❖Nunca se casou, por opção; a vida a fez descrer em um relacionamento homem-mulher, mas tinha três filhos pequenos, um de cada pai: João José, José Carlos (cujos pais não conhecemos0) e Vera Eunice (filha de um empresário o qual ela não revela o nome em seu diário a pedido dele, pois era casado e tinha família).
  • 20. ❖A luta constante de Carolina era pela sobrevivência dela e dos filhos; tornara-se catadora de papel, metal e de qualquer outro material que pudesse vender em depósitos de reciclagem. Como nem sempre consegue dinheiro para comer – por várias vezes manifesta que sua felicidade estava em ver os filhos alimentados, mas isso nem sempre era possível, em algumas ocasiões, catava comida nos lixos (ou seus filhos catavam) e levava para casa, e sempre ia no frigorífico catar ossos para cozinhar, fazer sopa, enfim, para dar um gosto à comida. “O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada.Temos que imitar os animais.” ❖Era no lixo que Carolina achava também os cadernos em que escrevia seus relatos, poemas e canções.
  • 21. ❖ Carolina e os filhos moravam em um barraco muito precário e pequeno, cujo telhado era feito de papelões que apodreciam e, consequentemente, deixavam a água da chuva passar. Não havia infraestrutura, como água encanada, saneamento e estava cheio de pulgas. ❖ Sobre a energia elétrica, havia um homem que explorava todos os moradores da favela, cobrando pelos “gatos” e quem não pagasse as taxas que ele estipulava, tinha sua luz cortada – foi o caso de Carolina.
  • 22. ❖ Água (não fica claro onde os moradores da favela conseguiam água). No diário, temos o registro de que todas as manhãs Carolina acordava bem cedo para pegar água – ia nesse horário para não encontrar as moradoras: “Deixei o leito às 5 e meia para pegar água. Não gosto de estar entre as mulheres porque é na torneira que elas falam de todos e de tudo.”
  • 23. Sobre morar na favela, eis seu inferno: odiava aquele lugar, não se via pertencente àquele mundo, apesar de toda a sua pobreza. Queria uma casa para morar, longe dali. Com frequência, refere-se aos favelados em 3ª pessoa. Não gostava das pessoas e nem as pessoas dela: “Aqui, todas impricam comigo. Dizem que falo muito bem. Que sei atrair os homens. (...) Quando fico nervosa não gosto de discutir. Prefiro escrever. Todos os dias eu escrevo. Sento no quintal e escrevo.”
  • 24. Além disso, em suas discussões, ela ameaçava sempre os vizinhos de que iria colocá-los em seu livro: “Vocês são incultas, não pode compreender. Vou escrever um livro referente a favela. Hei de citar tudo o que aqui se passa. E tudo que vocês me fazem. Eu quero escrever o livro, e vocês com estas cenas desagradaveis me fornece os argumentos.”
  • 25. ❖ Sendo hostilizada pelos moradores da favela, a narradora conta que, muitas vezes, seus filhos eram maltratados e perseguidos por eles – um deles o João, chegou a ser acusado de tentar violentar uma menina. ❖Carolina descreve, por fim, que muitas vezes se metia em brigas dos moradores, como uma forma de tentar corrigir injustiças que ela via, mas era chamada de “fedida” pelos outros.
  • 26. A rotina de Carolina, narrada no diário, não modifica muito: acordar cedo para ir pegar água, catar papel, fazer comida, ler, escrever e dormir (e quase sempre acordar de madrugada com barulho de vizinhos).
  • 27. Mesmo tendo praticamente dois anos de estudo, Carolina se apropriou da escrita e utilizou- se dela como uma forma de resistência à ignorância e, depois, como ascensão social: “Mesmo elas me aborrecendo, eu escrevo. Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar o meu caráter. A única coisa que não existe na favela é solidariedade.”
  • 28. ❖A escrita e a leitura eram, para ela, uma forma de fugir da realidade: “Deixei o leito as 3 da manhã (...) para escrever. Enquanto escrevo, vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes (...) É preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.” ❖Além do escapismo, ler e escrever eram um vício: “Quando cheguei em casa era 22,30. liguei o rádio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.”
  • 29. ❖Por ser uma pessoa de muitas leituras, percebe-se a intertextualidade literária do diário de Carolina – aqui é interessante verificar a oposição entre a escrita coloquial, popular e a erudita, pertencentes à mesma personagem: “Parece que este cigano quer hospedar-se no meu coração (...). Ele parece o Castro Alves. Suas sobrancelhas unem-se.” ❖Em outra ocasião, ela observa sua filha Vera Eunice: “E eu pensei no Casimiro de Abreu que disse: ‘A vida é bela. Ri, criança’. Só se a vida era boa naquele tempo. Porque agora a época está apropriada para dizer: Chora criança. A vida é amarga.”
  • 30. ❖A violência, na obra, aparece em todos os sentidos: física, moral, psicológica, violência doméstica, violência de gênero, violência racial. Para cada uma delas, apresenta-se uma situação rotineira dos moradores da favela. “Leila insultou um jovem e ele espancou-a. Lhe jogou no solo e um ponta-pé no rosto. O ato é selvagem (...)” ❖Também a maldade humana a partir do descaso com o outro é relatado por Carolina: uma das moças da favela foi pedir esmolas em uma casa; a dona prontamente deu-lhe um pacote fechado. Já em casa, quando ela foi abrir, havia vários ratos mortos. Outra vez foi com os filhos de Carolina, “ganharam uns pães duro, mas estava recheado com pernas de barata.” E assim a maldade humana perpetua... A VIOLÊNCIA NA FAVELA
  • 31. ❖A morte e o suicídio são constantes nos relatos de Carolina. Durante a narrativa, muitas vezes o desânimo toma conta da personagem - por viver constantemente na luta e não ter o que dar de comer aos filhos - e ela pensa em cometer suicídio. “Hoje não temos nada pra comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó.” “Eu estou começando a perder o interesse pela existência. Começo a revoltar. E minha revolta é justa.” “Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome.” Mas a esperança sempre teima em aparecer, e é ela que posterga a morte. O SUICÍDIO, PRODUTO DO DESÂNIMO
  • 32. ❖Em seus relatos, Carolina indica que conheceu um jornalista, Audálio Dantas, em 1958, que iria fazer uma reportagem na favela, mas que ficou muito interessado em seus escritos. Ele percebeu que a literatura da moça da favela era em tom de denúncia, algo inédito: a visão da favela de dentro da favela. ❖Assim, alguns trechos de seus diários foram publicados no jornal “Folha da Noite” (em 1958) e na revista “O Cruzeiro” (1959). Mais tarde os relatos foram reunidos em livro, “Quarto de despejo: o diário de uma favelada”, lançado em 1960.
  • 33. Audálio Dantas entrou na história de “Quarto de despejo” como jornalista, repórter foi encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrou a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. A história da favela que ele buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco.
  • 34. ❖Audálio Dantas leu e logo viu: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história – a visão de dentro da favela. ❖Da reportagem – reprodução de trechos do diário – ele foi o responsável pelo que se chama edição de texto. Leu todos aqueles vinte cadernos que continham o dia a dia de Carolina e de seus companheiros de triste viagem. ❖A repetição da rotina favelada, por mais fiel que fosse, seria exaustiva. Por isso foram feitos cortes, selecionados os trechos mais significativos. ❖A fome aparece no texto com uma frequência irritante. Personagem trágica, inarredável. Tão grande e tão marcante que adquire cor na narrativa tragicamente poética de Carolina. ❖Carolina viu a cor da fome – a Amarela.
  • 35. ❖A reação de Carolina também está registrada no diário: “Quando cheguei e abri a porta, vi um bilhete. Conheci a letra do repórter (...) o bilhete dizia que a reportagem vai sair no dia 10 [de julho], no “Cruzeiro”. Que o livro vai ser editado Fiquei emocionada.” ❖ e foi traduzido em treze idiomas e vendido em mais de quarenta países. Renomados escritores, como Rachel de Queirós, Sérgio Milliet, Helena Silveira, Manuel Bandeira entre outros, também se posicionaram sobre os escritos da autora.
  • 36. ❖O que não impediu que alguns torcessem o nariz para o livro e até lançassem dúvidas sobre a autenticidade do texto de Carolina. Aquilo, diziam, só podia ser obra de um espertalhão, um golpe publicitário. ❖O poeta Manuel Bandeira, em lúcido artigo, colocou as coisas no devido lugar: “ninguém poderia inventar aquela linguagem, aquele dizer as coisas com extraordinária força criativa mas típico de quem ficou a meio do caminho da instrução primária.”
  • 37. Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector
  • 38. Os jornais, as revistas, o rádio e a televisão, primeiro aqui e depois no mundo inteiro, abriram espaço para o livro e para a história de sua autora (...) transformada de um dia para outro numa patética Cinderela, saída do borralho do lixo para brilhar intensamente sob as luzes da cidade.” (Prefácio – Quarto de Despejo)
  • 39. Um livro assim, forte e original, só podia gerar muita polêmica. Para começar, ele rompeu a rotina das magras edições de dois, três mil exemplares, no Brasil. Em poucos meses, a partir de agosto de 1960, quando foi lançado, sucessivas edições atingiram, em conjunto, a altura dos 100 mil exemplares. O impacto causado por “Quarto de despejo” foi além das discussões sobre o texto. O problema na favela, na época de dimensões ainda reduzidas em São Paulo, foi discutido por técnicos e políticos. Um grupo de estudantes fundou o Movimento Universitário de Desfavelamento, cuja sigla - MUD – revelava, no mínimo, uma intenção generosa. Ou um sonho. E Carolina era alçada à condição de cidadã, com título oficial conferido pela Câmara Municipal de São Paulo.
  • 40. O espaço da narrativa é a extinta Favela do Canindé, localizada às margens do Rio Tietê, em São Paulo. “O cenário em que foi escrito o diário já não é o mesmo. Parte dele deu lugar ao asfalto de uma nova avenida, por coincidência chamada de Marginal. A Marginal do Tietê, que passa por ali onde até meados dos anos 1960 se erguia o caos semiurbano e subumano da favela do Canindé.” (Prólogo – Quarto de despejo)
  • 41. Como a narrativa segue até o primeiro dia de 1960 (ano em que foi destruída), o diário relata rumores entre os moradores de que iriam acabar com a favela e, consequentemente, o medo de não terem para onde ir. A favela é apresentada pela narradora como uma analogia ao quarto do despejo: “A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo. ”
  • 42. Quando chegou a São Paulo, a favela foi o único lugar em que ela conseguiu se abrigar. Morava na rua A, barraco nº 9; sua casa foi construída com restos de tábua e materiais de uma construção que havia ali próximo. Mas ela odiava aquele lugar. “Credo, para viver num lugar assim só os porcos. Isto aqui é o chiqueiro de são Paulo.” Interessante, porém, observar que a favela nunca saiu de Carolina, pois quando ela lançou seu livro e se mudou dali, a imprensa e a população em geral a reconheciam como “a escritora da favela”. A partir do momento em que ela se mudou do barro para o asfalto (conseguiu comprar sua casa própria), Carolina foi abandonada, ou seja, o que interessava para a mídia era a favela. E até os dias atuais, o assunto da favela chama a atenção, mas está muito longe de ser amenizado.
  • 43. A narrativa tem início em 15 de julho de 1965 e término em 01 de janeiro de 1960. No diário de Carolina, percebem-se várias menções a momentos sociais e políticos em que vivia o Brasil à época. A década de 1950 foi marcada historicamente pelo lema “50 anos em 5”, do então presidente da República, Juscelino Kubistchek, que visava à modernização das cidades, à construção de Brasília (que foi concluída em 1960) e à esperança de uma política “mais justa e igualitária”.
  • 44. E é exatamente o contrário disso tudo que Carolina mostra em seu diário. Enquanto São Paulo se modernizava, preocupava-se com a industrialização que objetivava o progresso, uma parcela da população continuava vivendo na mais pura miséria; a urbanização acabou trazendo muitos problemas sociais que o estado foi incapaz de resolver. E Carolina relatou muito bem essa questão. “Mas eu já observei os nossos políticos. Para observá-los fui na Assembleia. A sucursal do Governo. Foi lá que eu vi ranger os dentes. Vi os pobres sair chorando. E as lágrimas dos pobres comove os poetas (...) os poetas do lixo, os idealistas da favela, um expecador que assiste e observa as trajedias que os politicos representam em relação ao povo.”
  • 45. Alguns políticos também são citados no diário: o próprio Kubistchek, Jânio Quadros, Carlos Lacerda, Adhemar Pereira de Barros (prefeito da cidade de São Paulo entre 1957 e 1961 e duas vezes governador, entre 1947 e 1951 e de 1963 a 1966) e demais políticos tratados de uma maneira geral, sem nomes. “Eu quando estou com fome quero matar o Janio, quero enforcar o adhemar e queimar o juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos.” Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor e aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria?” “De quatro em quatro anos muda-se os políticos e não soluciona a fome, que tem a sua matriz nas favelas e as sucursais nos lares dos operários.”
  • 46. A descrença (a mesma que sentimos hoje) nos políticos, aos olhares de Carolina vem em um desabafo:
  • 47. O QUARTO DE DESPEJO É ABERTO À CULTURA Após a publicação em forma de livro; “Quarto de despejo originou outras manifestações artísticas, a saber: ❖“Quarto de Despejo”, um samba composto por B. Lobo; ❖ “Eu te arrespondo Carolina”, livro de Herculano Neves; adaptação para o teatro em peça de Edy Lima; ❖ “Despertar de um sonho”, filme da televisão alemã tendo a própria Carolina como protagonista (ainda inédito no Brasil); ❖ Episódio da série “Caso Verdade”, exibida pela Rede Globo de Televisão, no ano de 1983; ❖ “Carolina uma biografia” (2018) , deTom Farias, pela editora Malê.
  • 49. Fim!