Pág. miúdos gatafunho 220112

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Página Miúdos da edição de 22 de Janeiro de 2012 da revista Pública. Blogue Letra pequena. De Rita Pimenta

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  1. 1. miúdos Livros ao vivo no Chiado Gatafunho Texto Rita Pimenta Fotografia Miguel Manso Uma editora que é uma livraria, que é um espaço de contadores de histórias e que há-de ser parceira de um grupo de teatro. Assim o sonhou Ana Paula Faria, quando decidiu “fugir” de Bruxelas e ficar em Lisboa. A Gatafunho mora no Espaço Chiado e tem livros ao vivo. Equipa da livraria Ana Paula Faria, editora; Elsa Aço, designer; Paulo César, actor e encenador
  2. 2. H á um equívoco recorrente à volta da protagonista desta história. Ana Paula Faria não é a cantora Ana Faria (a dos memoráveis Queijinhos Frescos), por isso recebe a Pública dizendo: “Sabe que eu não sou a que canta, não sabe?” A alimentar a confusão está o facto de a “ex-cantora” se ter dedicado recentemente à escrita de livros para crianças, público- alvo da editora Gatafunho. Mas adiante, que os leitores já estão esclarecidos. A “loja de livros Gatafunho é um espaço para toda a família”, diz a colaboradora Elsa Aço. “E para qualquer família”, completa Ana Paula Faria: “Temos livros sem idade e em várias línguas: português, francês, inglês, alemão, italiano e até mirandês.” Com dois euros, compra-se o mais barato; com 22, o mais caro. Histórias sem palavras O número e variedade de títulos estrangeiros talvez seja a singularidade maior deste espaço de venda de livros ilustrados “ditos” para a infância. Outra particularidade é a prática de levar contadores de histórias a ler diferentes versões do mesmo título. Para ontem estava agendada a leitura... de um livro sem palavras: A Onda, de Suzy Lee. A apresentação desta obra, uma das mais vendidas da editora, iria contar com as vozes de Elsa Serra, Pedro Lopes e Ana Alpande. “Vamos tentar ter sempre a Elsa e o Pedro como contadores residentes, digamos assim, e mais um convidado. A ideia é proporcionar o maior número de experiências a quem escuta. Crianças e adultos.” Como a loja é pequena, ocupam nestas sessões uma área adjacente, dentro do Edifício Espaço Chiado. “Pomos umas almofadas no chão e criamos um ambiente familiar e de proximidade. Resulta muito bem”, diz a editora e livreira. Está prevista também uma parceria com a Trupilariante, Companhia de Teatro-Circo, para que venha a representar algumas das histórias editadas pela Gatafunho. Fica assim explicada a participação do autor e encenador Paulo César na equipa, que ocupa as suas manhãs na loja desde o início do ano. “É um projecto tão atractivo e apetecível que não se consegue resistir. E tem umas criaturas fascinantes a puxar por ele. Isto é muito mais do que uma pequena livraria num centro comercial”, diz entusiasmado, informando que fará “a ponte entre a livraria e a Trupilariante”. E não tem dúvidas: “A parceria dará resultados muito giros.” Como uma farmácia Paulo César conta como, depois de “uma visita guiada” à livraria para se familiarizar com as obras antes de começar a actividade, se tornou num verdadeiro “devorador de livros”. Agora, já se acalmou um pouco, mas continua a deslumbrar-se com certos títulos que têm à venda. “Todos conhecemos todos os livros que temos aqui”, diz Elsa Aço, designer gráfica que anteriormente trabalhou na Bichinho de Conto. “Funcionamos como uma farmácia. O cliente chega e diz: ‘Preciso de um livro para um menino de sete anos.’ Como os meninos de sete anos não são todos iguais, tentamos perceber o carácter da criança e encaminhar as pessoas para o livro certo. Por isso, conhecer muito bem o que há na livraria é fundamental.” Segundo Paulo César, as orientações são sempre muito bem acolhidas pelos clientes e orgulha-se dos bons resultados de Janeiro, “o mês tradicionalmente pior para vendas está a ser excelente”. A necessidade de a Gatafunho criar o seu próprio ponto de venda é justificada por Ana Paula Faria “pela vontade de compreender o que era estar no outro lado de uma livraria”, mas dar maior visibilidade às suas edições também a moveu. “Aqui posso mostrar melhor os meus livros, dou-lhes uma visibilidade que não tenho na maioria dos outros espaços livreiros. Aí, os pequenos editores ficam sempre mais escondidos.” Chorar por não editar A editora não sobreviveria sem a loja? “Sobreviveria com a mesma dificuldade que sobrevive hoje. Porque hoje só quem tenha muita presunção é que diz que está muito bem. No nosso mercado, é evidente que todas as editoras passam por muitos problemas”, diz, e lembra que “o livro não é um bem essencial e que a cultura não é apoiada”. De caminho, elogia os bibliotecários, os educadores de infância e os professores do 1.º ciclo: “Se eles não trabalhassem tão bem os livros com os miúdos, nem sequer o livro infantil se venderia bem em Portugal.” Escolhe os livros de autores estrangeiros na Feira do Livro Infantil de Bolonha — “o mais importante encontro de editores nesta área” — e também através de pesquisa nos catálogos das editoras em cuja qualidade confia. Quando não consegue realizar algum contrato de edição que gostaria mesmo de realizar, chora. “É verdade, choro mesmo. Como uma criança a quem roubaram um brinquedo. Mas, já que não posso editar todos os livros do mundo, ao menos posso vendê-los”, conclui, numa gargalhada genuína. “Por isso temos tantos livros estrangeiros. Eu gosto muito de livros ilustrados e, sem desprimor para os ilustradores portugueses, quando vemos o que é que se faz lá fora… Encontro tanta coisa espantosa, que fico rendida.” Cadacontador dehistórias convidado mostraasua versãodo mesmolivro. Ontem,A Onda, deSuzyLee,teve direitoatrês vozes c
  3. 3. miúdos Mas nem sempre há dinheiro para “contratos, adiantamentos”. Mesmo se consegue poupar na tradução e na revisão. “Fazemos em casa. Eu traduzo e o Carlos [Araújo] revê ou então o contrário.” O ex-editor da Leya (entre outras editoras para as quais trabalhou) Carlos Araújo ocupa- se agora “da vertente para adulto da Gatafunho, a Livre (designação que joga com as palavras ‘livre’, livro em francês, e ‘livre’, relativo a liberdade)”. Na livraria do Espaço Chiado, “há um cantinho para livros para adultos”. Apoio desigual A protagonista da história da Gatafunho tem 52 anos e deixou para trás uma carreira na Organização das Nações Unidas, onde trabalhou durante 15 anos. “Decidi que não queria ir para Bruxelas, que ficaria em Portugal e realizaria este sonho.” O “vírus dos livros”, como designa a paixão de editar, apanhou-o lá longe no tempo, nas Edições 70. De vez em quando, arrepende-se desta escolha. “Não pensei que fosse um sonho tão dorido. Às vezes, sinto alguma amargura, ao pensar que em Bruxelas estaria a ganhar uma ‘data de dinheiro’.” Depois, com naturalidade, ri-se de si própria e diz: “Com os diabos, não foi a melhor altura para arriscar realizar este sonho!” Começou o projecto há sete anos e, embora o negócio não corra às mil maravilhas, diz não estar arruinada. “A loja está no início e a editora está a tentar sobreviver.” Depois de uma experiência infeliz com uma distribuidora, passou a fazer distribuição directa em todas as livrarias: Fnac, Bertrand, Bulhosa e outras. Porque, diz, quando começa algo, é para levar por diante. E conclui: “Dificilmente me verão ficar pelo caminho.” Para este ano, a editora vai apostar em colecções de autores portugueses e quer dar a conhecer dois ilustradores que considera talentosos: Marta Jacinto e André Caetano. “A Marta Quando a Mãe Grita... Texto e ilustração: Jutta Bauer; tradução: Ana Marques. (O maior sucesso comercial da Gatafunho) Marie na Sombra do Leão Texto: Jerry Piasecki; prefácio: Kofi Annan; tradução: H. Brito. (Livro sobre crianças- soldado, com pouca procura em Portugal) O Incrível Senhor Zooty! Texto e ilustração: Emma Chichester Clark; tradução: H. Brito. (Apesar de a ilustradora ter sido premiada, as vendas deste título são fracas) vive no Algarve e o André em Montemor-o-Novo. Como não estão nos grandes centros, isso reflecte-se na ausência de apoios. Há ilustradores muito apoiados, mas há outros com trabalho muito válido que não chegam sequer a ser conhecidos.” Considera muito injusto esse apoio desigual por parte das instituições portuguesas. Colecção inovadora Os textos das novas edições da Gatafunho serão de Lurdes Breda. “A colecção ilustrada por Marta Jacinto vai ser bastante inovadora”, acredita Ana Paula Faria. Uma obra em que se trabalha os sons de forma bem-humorada e que se destina a crianças no final do pré-escolar e no 1.º ciclo, “para os que ainda não aprenderam a ler e para os que têm alguma dificuldade”. Em títulos estrangeiros, vai editar Jimmy Liao (o grande projecto para 2012), mais um trabalho de Jutta Bauer (o livro mais vendido da editora, Quando a Mãe Grita..., é desta autora) e outra obra sem palavras (O Livro Vermelho, de Barbara Lehman). Planos a levar por diante. rpimenta@publico.pt Edifício Espaço Chiado Rua Nova da Trindade, n.º5, Loja 2. De segunda a sábado, das 10h às 20h

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