Andarilhas 2010

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Páginas da Pública de 12 de Setembro de 2010 sobre as Palavras Andarilhas em Beja, Portugal.

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Andarilhas 2010

  1. 1. palavras Conta-me histórias... em Beja Durante três dias, as histórias serão as protagonistas de um encontro de narradores em Beja. Melhor, de uma festa. É a XI Edição das Palavras Andarilhas, de 16 a 18 de Setembro. Escutámos quatro contadores profissionais, porque nem só as crianças precisam de histórias. Ou o leitor não estaria aí com uma revista nas mãos. Texto Rita Pimenta Ilustração Mariana Soares C omeçou por ser um encontro Dentro das ofertas desta XI edição, promovi- sobre álbum ilustrado. Por último, a sessão de de narração oral, inspirado da pela Câmara Municipal e pela Associação de multileituras de Maria Teresa Meireles, “O Livro na Maratón de Cuentos de Defesa do Património de Beja, algumas não se Duplicado”. Diz Cristina Taquelim: “Trata da Guadalajara, mas foi integrando podem perder, diz a programadora. Entre elas, intertextualidade, que textos moram dentro de outras áreas: escrita criativa, a homenagem ao escritor António Torrado, logo outros textos? É uma área muito grata ao nosso ilustração, animação do livro e da no primeiro dia, a assinalar os 40 anos da sua trabalho de mediadores. Nós ajudamos a cons- leitura. E cresceu. Agora, as Palavras Andarilhas carreira literária. “É um homem que fez muito truir instrumentos para essa descoberta.” são “uma festa da palavra falada e escrita, que pela valorização da infância e foi companheiro Há um dia dedicado exclusivamente à ora- chega a milhares de pessoas”, diz Cristina de armas de Matilde Rosa Araújo na defesa dos lidade, e aí é dado espaço a um narrador para Taquelim, da Biblioteca Municipal de Beja e direitos da criança. Não há um texto do António falar da sua forma de pensar a narração. “Em uma das organizadoras. Se não há festa como que toque o lugar-comum, que não revele um tra- Portugal, há muito pouca produção teórica de a outra, como esta também não. balho de literatura cuidado e um grande respeito narradores sobre narração. Esta semana foi Contos Fora de Portas, Festival da Narração pelo leitor. Isto tem de ser homenageado.” entregue a primeira candidatura para uma tese — Eu Conto para Que Tu Sonhes, Mercado das de doutoramento sobre o tema, do narrador Artes da Palavra, Biblioteca Andarilha são alguns Pensar a narração Luís Carmelo. Estamos contentíssimos.” Será títulos das actividades que durante três dias irão Três propostas para sexta-feira: conhecer a au- no dia 18 que se dará então voz a Xabier Puente mobilizar muitas instituições e profissionais liga- tora brasileira Fanny Abramovich. “Uma grande Docampo, Um Alfabeto do Conto. “Escritor e es- dos à promoção da leitura e do livro, “de Lagos a comunicadora, pioneira na educação pela arte pecialista nestas áreas, trabalhou muito com as Montalegre”. A estafeta da leitura, por exemplo, no Brasil e que escreve para uma faixa muito metodologias do Rodari [Ginni] e tem um livro que começa no encontro de Beja e se prolonga difícil: dos nove aos 11 anos.” Aqui, Cristina Ta- publicado em Portugal de contos de terror ga- por três meses em várias bibliotecas, associações quelim aproveita para sublinhar a necessidade legos que escutava em sua casa: Quando à Noite e escolas do país contabilizou perto de 15 mil de se “concretizar no terreno uma política de lín- Batem à Porta (Ambar). Delicioso.” “ouvidores” na edição de 2008. gua portuguesa, que não pode ser definida por Também Nicolás Buenaventura Vidal é um Quem for às Andarilhas, segundo a também decreto”. Isso faz-se, por exemplo, “trazendo convidado muito especial e será dada oportu- narradora Cristina Taquelim, “terá uma expe- livros e autores brasileiros a Portugal e levando nidade a uma contadora do concelho, Mariana riência diferente, de partilha, rica em termos autores e livros portugueses ao Brasil”. Haverá Pacheco, de participar. “Vai estar à conversa co- afectivos e emocionais. E pode contar com uma uma sala de leitura com as obras da autora e uma migo, num sinal claro de que é possível encon- componente muito forte de formação de grande comunicação que Fanny Abramovich intitulou trar num espaço de biblioteca uma relação en- qualidade”. A festa foi nomeada em 2009 para “Da Cartinha ao Encantamento Literário”. tre os narradores profissionais e os tradicionais o importante Prémio ALMA — Astrid Lindgren, A segunda proposta para dia 17 será a possibili- das comunidades rurais que nos cercam.” que distingue autores e entidades de todo o dade de escutar o autor do Animalário Universal mundo que promovam a literatura infantil. do Professor Revillod, Javier Saéz Castán, falar rpimenta@publico.pt c
  2. 2. palavras DR Rodolfo Castro, argentino, vive em Portugal há seis meses. Tem propostas de formação na Biblioteca Municipal de Oeiras, Universidade Nova de Lisboa e Casa das Histórias Um narrador é um provocador A menina bondosa Não se conta para os outros, mas com Cada escola era um mundo diferente: Era uma vez uma menina bondosa que tinha os outros. Esta é uma das certezas de “Podiam ser escolas só de rapazes, só de ganho três medalhas: uma pela sua bondade, Rodolfo Castro, narrador argentino, 44 raparigas, mistas, públicas, privadas, es- outra por ser muito obediente e outra ainda anos. Outra: “Sou um contador de histó- colas de ricos, de marginais. Foi a gota de pelas suas boas maneiras. rias urbano, logo sou escravo do livro.” ouro.” Esta experiência definiu o rumo da Um dia, o rei permitiu à menina passear Isto é, não tem “a memória de pais e avós sua vida. Uma outra também: “A primeira pelos jardins do palácio. A menina pôs as três a contar contos e a resgatar a tradição vez que li um conto sem livro foi numa medalhas ao pescoço e foi para o jardim, mas oral da comunidade”. Por isso, diz: “Há sessão em que um contador da editora no jardim não havia flores, só porquinhos. O rei histórias que não me compete contar. faltou e eu tive de o substituir.” adorava porcos e os porcos comiam as flores. Fazem parte de um estilo essencialmente Era uma sala com 200 pessoas e lan- Muitos porquinhos começaram a correr por oral que não me pertence.” çaram-no para a “arena”. Aflito, Rodolfo entre os pés da menina. De repente, um lobo Mas afinal o que é um contador de his- Castro contou algumas das histórias que entrou no jardim à procura de um deles. A tórias? “É um provocador. Uma pessoa tinha lido vezes sem conta às turmas por menina escondeu-se atrás de um arbusto. O lobo que apresenta uma situação, um conto, onde passara. “Eu não sabia que as sabia”, não a tinha descoberto, mas a menina tinha um objecto que é estranho, transgressor, diz, ainda hoje surpreendido. E conclui: muito medo e tremia imenso. Tanto que as três que provoca dúvida, reflexão, medo. Pro- “Não fui eu que escolhi os contos, foram medalhas chocaram umas contra as outras e o vocador porque põe na realidade algo os contos que me escolheram.” Reconhece lobo ouviu, saltou detrás do arbusto e devorou que ultrapassa os limites da realidade. Eu que estava nervosíssimo, mas houve um a menina boa. Dela só ficaram os seus sapatos tento ser um narrador provocador.” conto que resultou muito bem. “Foi nesse e as três medalhas que tinha ganho por ser tão As suas memórias mais remotas relacio- momento que percebi que me tinha trans- obediente. nadas com contos são as brincadeiras com formado num contador de histórias.” Mas não se preocupem, este conto tem um final as irmãs. “Os meus pais trabalhavam todo Não tem intenções didácticas nem mo- feliz: todos os porquinhos conseguiram escapar. o dia e não nos faltava tempo para nos ralizadoras e diz que, com as crianças, ‘deseducarmos’ sozinhos. Não tínhamos “uma sessão de contos tem de ter sempre Adaptação livre do conto O Contador de muitos brinquedos, não tínhamos muitos algum caos. Se isso não acontece, é por- Histórias, de Saki (um dos que Rodolfo Castro livros, não tínhamos muito de nada. Então que algo está mal. A criança tem de gritar, costuma escolher contar nas suas sessões) brincávamos a inventar mundos.” de se emocionar, rir, ficar em silêncio”. Até aos 30 anos, foi professor do 1.º E com os adultos? “Aí, o contador conta ciclo na Argentina, mas também orga- o conto exactamente como o preparou. nizava excursões e férias com miúdos Os adultos são passivos. Por respeito, mas e com idosos. “Aproveitava para contar também por vergonha de serem julgados. contos. Gostava de inventar histórias à Gosto do público adulto porque é uma volta da fogueira.” Esta prática serviu- oportunidade para uma maior intimida- lhe quando foi para o México, em 1998. de, para textos mais psicológicos.” “Lá, eu não tinha nada. Contar contos foi Rodolfo Castro tem alguns livros sobre uma questão de sobrevivência.” Durante teoria do conto e há um que gostava de três anos, foi todas as manhãs a todas as ver traduzido para português, La intui- escolas do México (“todas, todas”) ler cion de leer, la intención de narrar. contos de livros de uma editora que os Outra certeza: “Um contador que quer comercializava directamente nos esta- apoiar quem o escuta não deve fechar a belecimentos de ensino. “As escolas no história com um pensamento final. De- México têm entre mil e 1500 alunos. Eu ve dar liberdade para pensar. Os contos ia a umas 20 salas por dia.” explicam-se por si só.”
  3. 3. DR Maurício Corrêa Leite, brasileiro, percorre as zonas mais isoladas dos países de expressão portuguesa com a sua Mala de Leitura. Na foto, Kuanza Sul (Angola), 2008 Não gosto de contar histórias Ponto de tecer poesia Maurício Corrêa Leite estudou teatro. objecto que mudou a minha vida.” Diz Cada fio é uma poesia, “Teatro de boneco”, explica. Para dar voz que faz parte deste “caldeirão dos conta- cada ponto é um versinho, e histórias aos fantoches e marionetas, dores de histórias”, mas com um papel cada beijo que te mando “recorria a livros infantis e de banda de- diferente: “Eu formo leitores, o contador é voo de passarinho. senhada”. E nunca mais separou as duas forma ouvintes.” E defende que os narra- Cada pena é uma escrita, artes: “Por isso, eu levo esse mundo de dores devem sempre divulgar as fontes, cada flor é borboleta, teatro na mala.” Quando diz “mala”, não seja da tradição oral de uma região, seja cada traço é uma ternura é metáfora, é mesmo uma mala, azul, de uma obra. “Não acho justo que não se que escrevo com caneta. cheia de livros, fotos, bonecos e uma cite o autor e o livro.” Te amo porque te amo, caixa de música. Chamou-lhe Mala de Tem uma grande cumplicidade com as e te faço um casaquinho Leitura. É com ela que trabalha. crianças e quando aparece com uma mala de fio todo trançado Brasileiro, natural de Guiába, Matogros- daquelas, cheia de magia mesmo antes de pela aranha tecelã. so, este homem de 56 anos surpreende aberta, “elas já amam”. No entanto, sabe Se hoje teço a poesia, ao dizer: “Não gosto de contar histórias. muito bem o que faz: “Eu estudei, sou talvez te entregue Sabe porquê? Quando você vira contador professor, sou alfabetizador, estudei psi- amanhã. de histórias, em todo o lugar que você vai, cologia infantil, psicologia de educação, no meio do nada, todo o mundo pede: metodologia de ensino, didáctica. Não Sylvia Orthof, Editora Ebal ‘Conta uma história?’ E eu não tenho essa entro numa escola sem ter noção do que bondade no coração, essa generosidade.” está acontecendo ali. E sei botar o menino Tem outra: visita crianças em lugares de no lugar, se ele me enche o saco.” Seguros no escuro difícil acesso e tudo faz para que conhe- Tem verdadeira noção do tipo de livros çam livros e se apaixonem pela leitura. deve levar para cada contexto: “Quando Todas as noites “O meu trabalho é levar livros para eu vou para África para uma casa com olho e procuro crianças que se encontram em regiões 600 órfãos, não posso levar a história debaixo da cama isoladas: na Amazónia, no meio do pan- de uma mãe que enquanto esperava a o monstro escuro. tanal, no Brasil isolado pela água, em criança teceu uma manta...” Só quando dele África, por falta de estradas, trabalho em Procura primeiro o caminho do humor não tem nem cheiro regiões de campos minados, todos os lu- e depois vai proporcionando uma oferta boto a cabeça no travesseiro. gares difíceis que você possa imaginar.” diferente, até que o leitor faça as suas esco- Um esforço justificado assim: “É impor- lhas. Classifica os leitores assim: “Pré-leitor, Todas as noites tante que as crianças tenham acesso ao o leitor iniciante e o leitor que já busca a leve e fagueiro património cultural da humanidade.” sua própria leitura.” O que faz é “plantar a o monstro escuro Detesta que lhe falem em “livrinhos” ideia de que livro é uma coisa bacana, uma toca a coberta e não entende o papel da CPLP. Dá um forma boa até de aprender coisas com os pra ver se durmo exemplo: “Consegui editar um livro pa- personagens, conhecer lugares, até para ou se estou desperta. ra crianças de um autor português no sonhar o conhecimento faz falta”. Só quando vê que não há perigo Brasil. Quando os enviei para cá, foi pre- E ressalva que “cultura é diferente da deita comigo ciso pagar uma taxa na alfândega. Não escola da instrução”. É aí que ele entra: e dorme seguro. podiam ser levantados directamente e a “Com a parte cultural que dê prazer, que espera resultou em 3500 euros. Grande não seja trabalho pedagógico mas artísti- Marina Colasanti, Minha Ilha Maravilha, política para a língua portuguesa...” co. Dar uma noção do que há pelo mun- Editora Atica Só conta histórias com o livro à frente: do e que a leitura sempre apresenta uma (poemas que Maurício Leite lê às crianças nas “Dou voz aos autores, compartilho este saída.” c sessões de promoção do livro e da leitura)
  4. 4. palavras DR António Fontinha, ex-actor, fundou o Movimento de Narração Oral Portuguesa O lobo nem sempre é mau O rapazito e o Rei Salomão António Fontinha iniciou o Movimento tador, já que vivia de contar histórias, Toda a gente sabe que o Rei Salomão era o de Narração Oral em Portugal e acredi- tive de fazer marketing de mim próprio homem mais sábio do mundo. Sabia de tudo e ta na “cultura popular como garante da e da minha actividade. A profissão nem a todos ensinava e dava bons conselhos. Vivia identidade nacional”. Não no sentido existia.” Aliás, tem de se registar para muito longe mas a sua fama chegava a todo o nacionalista, mas para “tentar colocar efeitos de IRS como “profissional de es- lado. um pouco de justiça no desajustamento pectáculos”. Sabei também que naquele tempo não havia entre as culturas” que se vão impondo. Noutros países ocidentais, poucos, só fósforos como hoje há, nem nada do género, “Porque carga de água eu tenho de me há 40 anos é reconhecida como activi- com a mesma finalidade. Nesses tempos, ia-se de preocupar com o Capuchinho Vermelho? dade profissional. A falta de produção casa em casa a pedir lume. As pessoas traziam Por que é que o lobo tem de ser mau?”, teórica poderá explicar um pouco isso. consigo uma pinha que acendiam na altura, ou pergunta. E logo responde: “Porque eu “Desde há 3000 anos, com Aristóteles e então de tição ou cavaco aceso voltavam a casa. comprei, sem querer, essa ideia. Uma outros, teorizou-se sobre o teatro, a lite- Certo dia, bateu à porta do Rei Salomão um sociedade de consumo entrou por aqui ratura, a poesia, mas nada sobre narra- miudinho pedindo-lhe lume. O sábio mirou o e arrebanhou tudo.” ção oral. E sempre existiu.” gaiato e disse-lhe admirado: O narrador vai lembrando que os ve- Para António Fontinha, ex-actor (fun- — Então como queres tu o lume se não trazes lhos contadores portugueses têm uma re- dou o Espaço Teatro, primeira compa- nada para o levares. Não podes levar brasas na presentação diferente daqueles animais: nhia portuguesa de teatro e dança), o mão. “Na tradição oral portuguesa, o lobo nem contador “pode ser alguém controver- O rapazito, meio envergonhado, disse então: sempre é mau.” E não quer que se fique so, desbocado, nada politicamente cor- — Eu apanhava um punhado da cinza e depois a pensar que considera a tradição cultu- recto e mesmo assim ser o escolhido”. Sua Majestade punha uma brasa em cima da ral portuguesa mais importante que as Diz ainda que só consegue “encontrar cinza. outras: “Há matrizes na nossa educação essa constante no meio rural mas não — Está bem, entra lá, disse o sábio Salomão. cultural, no imaginário da cultura tradi- no urbano”. O miudinho entrou e apanhou a cinza sobre a cional portuguesa, que não são melhores Uma pessoa idosa aproveita o seu qual o rei colocou uma brasa acesa. Agradeceu e nem piores que a inglesa, a francesa a tempo e sabe potenciar o momento. “E saiu apressado. mandinga ou outra. Todas são horizon- depois vêm os da pedagogia chatear o O rei, ainda meio admirado da inteligência da talmente irmãs, mas também não acho, velho: ‘Então você disse aquilo à crian- criança, virou-se para a mulher e comentou: desculpem lá, que as outras sejam mais ça?’ E as crianças: ‘Conta lá outra, conta — Que tempos estes, eu, Rei Salomão, sábio, importantes que a minha.” lá outra’.” Alguns contadores só sabem até já tenho que aprender com as crianças! Duas máximas norteiam o trabalho uma história ou duas e estão sempre a deste narrador desde que iniciou a car- ser chamados. Luís Henriques, Rabacinas, Proença-a-Nova. reira, há 15 anos: promoção do imaginá- Fontinha não ensaia os contos, não Recolha e redacção de Francisco Henriques, a rio da tradição e promoção da figura do usa adereços, mas pode acontecer ex- partir da versão ouvida em criança contador de histórias. perimentar contar um novo a alguém se O que mudou entretanto foi a forma o momento se propiciar. Ri-se quando (António Fontinha nunca contou este conto, mas de pensar o que é um contador. Hoje diz: lhe perguntamos se testa a narração em “possivelmente” há-de contá-lo) “Um contador é alguém que é reconheci- frente ao espelho ou a uma parede. “Não, do como tal por aqueles que gostam de não! Na tradição oral, o mais importante o ouvir contar histórias.” Quando já não é o momento em que acontece o encon- lhe pedirem, deve sair da ribalta. “Mas se tro entre os que querem ouvir e quem me tivesse feito a pergunta há 15 anos, a está a contar. E isso é complexo, não se minha cartilha era outra”, diz divertido. esgota naquele dia. É um processo, não “Quando tive de me assumir como con- é um espectáculo.”
  5. 5. DR Crsitina Taquelim, narradora, bibliotecária e organizadora das Palavras Andarilhas Conto o que é significante para mim O contador antes de começar Chegou à Biblioteca Municipal de Beja gente escutava, mas que depois deixou Fez um gesto em redondo / como se quisesse “sem saber nada de literatura”, conta de ser ouvido. No entanto, continuava a desenhar o sol, / a casca de um caracol, / um balão / Cristina Taquelim, “nem de Psicologia”, contar. Um dia, um miúdo pergunta-lhe a sombra de um pião/ um bombo. / E disse: / A licenciatura que tinha terminado. “A única por que continuava ele com as suas his- história que vou contar/ começa por uma ponta, / coisa que eu tinha dentro de mim para dar tórias. Resposta: no princípio, contava dá uma volta reviravolta / meio tonta, e acaba, / tal àquelas crianças eram histórias. Felizmen- para mudar o mundo. Hoje, conto para e qual mesmo ao lado, / de onde antes tudo tinha te que a minha avó me tinha contado mui- que o mundo não me mude a mim. começado: tas.” Foi assim que respondeu à pergunta “Cada contador dará um motivo dife- / / Por isso / para a cambalhota final/ da história em como se tinha tornado narradora. rente para contar”, diz. “Os contos foram em salto mortal, / onde ninguém corre perigo: / — Tem consciência de que, na altura, uma forma de encontro com a minha his- Contem, contem comigo: “não sabia fazer uma actividade expres- tória, com as minhas memórias, com a / E o contador contente por contar/ ficou-se a olhar siva com os miúdos, só sabia contar”. força da palavra. Não é tanto o que se para toda aquela gente, / à roda da história/ e dele Descobriu então que havia qualquer coi- conta, mas o que se escuta. Cada vez é contador, / desenhador no ar, / inventor da arte de sa nesta actividade que levava a que, “em mais importante para mim escutar do que saltar sem se mexer. grupos com comportamentos de grande contar.” Mas contar “é uma experiência Ficou-se a olhar, a olhar/ e suspirou de prazer complexidade, onde nada funcionava, o pessoal perfeitamente encantatória. Es- a ponto de se esquecer de continuar./ conto de tradição oral resultasse”. E des- tarmos perante 60 pessoas sem outros // — Mas onde é que eu ia — perguntou o contador/ creve: “Eles abriam a boca e durante to- recursos que não seja a palavra, o gesto e um pouco perdido no meio do contentamento de do o conto não ‘tugiam nem mugiam’.” a voz, e percebermos a emoção que passa contar/ e ouvir contar, / que é assim a modos que Percebeu que afinal o assunto era mais no olhar do outro”. uma espécie de cócega, / virada do avesso, / uma sério e que valia a pena estudar e explo- As diferenças de contar para crianças sede, um sabor, / um sabor a pêssego / antes de o rar o que se relacionasse com literatura ou adultos são essencialmente de reper- pêssego chegar ao céu da boca... para a infância, técnicas de escrita, ilus- tório e de ritmo. “Só conto o que é ide- // — Ah! Lembrou-se o contador, / que às vezes se tração. “Apercebi-me de que podia juntar ologicamente significante para mim.” A distraía dos recados que trazia. / E com um lento imagem e trabalhar, por exemplo, O Gi- biblioteca de Beja foi “das primeiras do aceno/ de quem muda a folha, / de um livro ou do gante Egoísta, do Oscar Wilde. Se quises- país a organizar sessões de contos para pensamento, / o contador concluiu: / A História se explorar a narração oral, podia deixar adultos, com a Mil e Uma Noites, Mil e que vou contar é / nem mais nem menos que uma o livro de fora e ajudar os miúdos a cons- Uma Histórias”. história circular / como vão poder já já observar. truir imagens mentais das personagens”, Cristina sugere: “Temos pessoas nas e começou a fazer um longo caminho nossas comunidades, cidades e aldeias, António Torrado, Conto Contigo, Civilização em mediação da leitura, mas também homens e mulheres que ainda contam. Editora em narração. Descubram-nos, conversem com eles.” “Separo o trabalho de narradora com Sobre a necessidade de histórias, diz: (Cristina Taquelim, às vezes, diz este o de mediadora de leitura, embora ine- “Um homem muito interessante de Be- texto em voz alta. “É literatura para a vitavelmente se cruzem, pois na biblio- ja chamado Paulo Lima fez um trabalho infância, sem a qual eu também não teca tenho de usar os dois recursos.” sobre a fome no Alentejo. Nesse trabalho, chegaria aos contos.”) Mais estratégia na mediação, menos na há um testemunho de um informante narração. que dizia que muitas vezes no Alentejo Para Cristina Taquelim, um narrador do latifúndio eram as histórias que ma- “é alguém que trabalha com a voz, com tavam a fome.” o gesto, a palavra, a memória e a iden- Precisamos de histórias desde o princí- tidade”. Para que serve? Começa então pio do tempo. “E continuamos com uma uma história de um contador que toda a fome dos diabos.” a

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