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Miudos - adolescentes e livros 061111

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Página Miúdos da Pública de 6 de Novembro de 2011. Blogue Letra pequena online. De Rita Pimenta

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  1. 1. miúdos Os adolescentes lêem como os adultos Cada vez mais, os adolescentes lêem os mesmos livros que os adultos: best-sellers ou fórmulas que se repetem. Por isso, não os critique, aconselha Andreia Brites, mediadora de leitura. E abandone a pretensão de que todos gostem de livros eruditos. O melhor é mostrar-lhes de tudo e deixá-los escolher. Texto Rita Pimenta Fotografia Rui Gaudêncio R espeitar a criança, que já não é. Devemos diarísticas, dramáticas e frívolas. liberdade, as ajudá-lo a conhecer livros, O marketing funciona com todos preferências, porque há sempre um livro os públicos.” os hábitos e os para um leitor e, muitas Já na conferência de Santa comportamentos vezes, o desinteresse deriva Maria da Feira, no texto Quando que o adolescente do desconhecimento”, diz a o adolescente nos fecha a porta, vai assumindo em busca da mediadora, que realiza ateliers invocou o trabalho da especialista melhor forma de ler é o caminho em várias escolas e bibliotecas Sandra Lee Beckett para falar em para promover a leitura entre do país, integrada na carteira literatura cruzada (crossover). “O os jovens. Quem o defende de itinerâncias da Direcção- conceito significa que há livros é Andreia Brites, mediadora Geral do Livro e das Bibliotecas. inicialmente pensados para o de leitura que participou A crescente autonomia nesta público juvenil mas que tiveram recentemente nas II Jornadas fase da vida dos miúdos leva- muito sucesso junto dos adultos, das Bibliotecas da Maia e na II os “a ler, cada vez mais, livros ultrapassando o público-alvo Biblioconferência de Santa Maria que os adultos também lêem, para quem tinham sido escritos.” da Feira, com reflexões sobre e não podemos criticá-los por Caso de Harry Potter, responsável promoção da leitura junto dos escolherem best-sellers ou pelo regresso à leitura de muitos adolescentes. fórmulas, nem ter a pretensão jovens adultos. “O adulto não pode ser de que todos adorem livros Na sua passagem por Lisboa paternalista com o adolescente, eruditos”. Afinal, “também é em 2009, Beckett concluía: “O pensando nele como uma assim com os adultos”. crossover resulta da combinação Na comunicação que de factores literários e de apresentou na Maia (integrada marketing.” Se os adolescentes nas conferências do Mês estão a ficar cada vez mais Internacional das Bibliotecas sofisticados no seu desejo por Escolares), Leitor adolescente: desafios, a cultura de massas escolhas e paradoxos, dizia: infantiliza os adultos, “muitos dos “Os best-sellers são universais e transversais. As modas na leitura são iguais às outras modas: intensas e fugazes. Nisso, Revistas, os adolescentes também se jornais, banda comportam como os adultos, seguindo-se em tendências e desenhada ou modas: já as houve fantásticas, enciclopédiasSIMON JArrAtt/COrBIS/vMI são leituras tão dignas como uma obra literária
  2. 2. Andreia Brites é mediadora de leitura e trabalha com escolas,bibliotecas e comunidades de leitores de todo o paísquais não integram a verdadeiracultura do conhecimento, masapenas a da informação”. Não se conclua que esteslivros são maus. Segundo ainvestigadora, “muita da melhorficção está actualmente a serpublicada para jovens e é nouniverso infanto-juvenil que aliteratura está a romper com ascategorias estabelecidas peloedifício do cânone e dos estudosliterários”. Hoje, é um fenómenomais visível no fantástico, masa leitura cruzada (embora nãoorientada pelo marketing)sempre existiu, diz a especialista. “Assistimos a uma partilhade leituras mais comum entrepais e filhos adolescentes doque há 20 anos. Por isso, aconversa em torno dos livros étão importante. Há um padrãonas leituras de raparigas de 13, 14,15 anos, que, tendo lido sempree muito, começam a partilharbest-sellers com as mães. NicholasSparks, Nora roberts e outrasfórmulas românticas do génerosão consumidas em família”, dizAndreia Brites. Formada em EstudosPortugueses pela UniversidadeNova de Lisboa, defende outrostextos: “Não podemos esquecerque revistas, jornais, bandadesenhada ou enciclopédias sãoleituras tão dignas como umaobra literária. A outra função domediador é ajudar o adolescentea descodificar o texto que lê e aoqual muitas vezes não acede natotalidade por dificuldade emapreender o código linguístico oudesconhecimento do contexto.Para isso, deve conversar sobreas suas leituras, partilhar ideias,juízos críticos, perplexidades.”Mas ao adolescente “aindalhe falta, e muito, o sentidosimbólico da vida, a capacidadede interpretar o vazio dasmensagens, de reconhecer figurascomo a ironia ou a metáfora”.Ler sem vergonhaPara Brites, “a interpretaçãoliteral da vida condiciona mais osadolescentes do que os adultos nasua apreensão do escrito”. Masconstata que há cada vez maisadolescentes a assumir que lêem.“De há seis anos para cá, à minhapergunta da praxe, no início dosateliers, ‘há alguém que goste deler?’, o tom geral da resposta c
  3. 3. miúdosmudou de ‘não’ para ‘mais ou 11 livros, que passam por toda a Dicionário do Diabomenos’. E há cada vez mais alunos turma, e têm de perceber quais Ambrose Bierce,a levantar o braço, afirmando que pertencem a cada receita.” Tinta-da-China.gostam de ler, sem olharem para A ideia é levá-los a mexer em “Um grande livroa reacção dos colegas. A leitura várias obras e perceberem as de não ficção”já não é um inimigo mortal. É, diferenças. “Descobri que sãopara muitos, uma obrigação; para absolutamente fãs do concursovários, algo que gostam de fazer MasterChef, e por isso têm agorapontualmente e, para alguns, um uma noção do que são receitas.hábito.” Isso ajudou-os. A mim também.” Esta alteração deve-se “ao A turma fascinou-se com as A Evolução de Calpurniainvestimento que tem vindo a colecções João Pastel (Michael Tate Jacqueline Kelly,ser feito na leitura recreativa Broad) e André Cabelo-em-Pé (Guy Contraponto.desde o ensino pré-escolar, à Basse e Pete Wiliamson), ambos “Um livro de literaturasensibilização de educadores da Booksmile. juvenil estrangeira”e pais para a importância da As comunidades de leitores sãoleitura e ao acesso a livros mais mais difíceis de orientar. “Nãodiversificados”. vão de livre vontade passar uma Andreia Brites divulga e hora na biblioteca escolar…”,critica literatura para crianças mas há excepções. E conta a boae jovens na revista Os Meus experiência com a BibliotecaLivros, onde assina uma rubrica Municipal de Sobral de Montesobre promoção da leitura, que Agraço, onde mantém um grupoconsidera ser “uma maneira de de leitura há três anos. “Apanheiformar cidadãos conscientes”. miúdos com 12 anos, que agoraCom entusiasmo, defende que estão com 15. Um deles, na“dar a ler é um acto altruísta” e primeira comunidade, não lia; na Ulysses Mooreafasta pretensões formativas — “se segunda; tornou-se fã das Crónicas Pierdomenico Baccalario,as tivermos, não conseguiremos de Spiderwick e já estava a gostar Presença.ver claramente o jovem que temos da série de Ulysses Moore. É muito “Uma fórmula bemà frente, embaciada que fica a engraçado apanhá-los em fases pensada e cuidada”lente pelo nosso próprio ego”. muito diferentes da vida.”Lamenta que a literatura juvenil Outro exemplo: “Uma dasseja “ostracizada”. “A infantil já miúdas (14 anos) contou queé o parente pobre. E a juvenil é tinha posto o pai a chorartão válida como a infantil e como com A Melodia do Adeus, dea literatura para adultos. E vou Nicholas Sparks. requisitoubater-me por isso até ao fim.” o livro na biblioteca, leu-oNesse sentido, criou, em conjunto e chorou. Depois, foi a mãecom Sérgio Letria, o blogue O (que também chorou) eBicho dos Livros. convenceram o pai. também Beija-Mim ele se emocionou. O que é Jorge Araújo, Aletheia.Pôr o pai a chorar relevante é a expressão da “Um livro de literaturaEm termos práticos, Andreia miúda: ‘Fui eu que pus o meu juvenil portuguesa”Brites orienta dois tipos pai a chorar’.”de actividades: ateliers e Um exercício: “Li umcomunidades de leitores. “Ateliers excerto do Tom Sawyer, comcom uma turma, numa única a capa tapada. Um miúdosessão de 90 minutos. Mostro que diz não gostar de ler e até évárias opções de leitura. Crio um pouco malcomportado foi osituações lúdicas, em que eles, único que identificou o livro. temcom base na capa, no título ou no 14 anos.”tema, dizem que livros gostariam Andreia Brites, admiradorade ler. Por vezes são eles que da escritora Ana Saldanha e fãsugerem livros para outros.” de colecções como O Diário de O mais recente, intitulado Com Um Banana e Ulysses Moore, foi André Cabelo-em-Pé Guya Mão na Massa, aconteceu na “uma adolescente feliz”. Aos Bass (texto), Pete WiliamsonEscola Básica 2/3 Comandante 34 anos, quando está com os (ilustração), Booksmile.Conceição e Silva, da Cova da alunos, continua a sê-lo. “A nível “Um livro ilustrado paraPiedade, com uma turma de da cumplicidade com o grupo, da pré-adolescentes e lido por6.º ano. “Eles têm vários livros grande curiosidade sobre o mundo adolescentes”e três receitas diferentes (com e de gostar do outro, é muito boma forma de receita culinária, continuar adolescente.” Mesmo jámas adaptada à leitura): os crescida. aingredientes e preparação têmque ver com o tipo de livros. Levo rpimenta@publico.pt

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