miúdos
Levar as palavras onde
elas não chegam
Texto Rita Pimenta Fotografia Fernando Ladeira
Fazem teatro sem texto dramático, partilham o prazer da leitura com os mais novos
e com os outros, levam literatura aos lugares onde se desconfia das palavras e dos
livros. Chamam-se Andante, Associação Artística e não vão deixar de andar por aí.
C
ristina Paiva,
actriz, diz já ter
assistido “a coisas
extraordinárias”
no seu trabalho
de promoção
da leitura. E dá um exemplo
passado numa prisão, “palco”
onde a Andante periodicamente
“representa”: “Um homem
um pouco assustador esteve
todo o espectáculo de óculos
escuros. Com uma atitude
corporal de recusa ao que
estava a acontecer. Não queria
estar ali.” (Aqui, explica como é
complicado estar perante uma
série de homens condenados. E
desculpa-se por este não ser um
exemplo com crianças.)
“No final do espectáculo, veio
ter comigo, ele era enorme, um
gigante. Tirou os óculos escuros,
deu-me um aperto de mão e
agradeceu-me comovido.” Cristina
tem muitas histórias assim. É por
isso que nunca desistirá.
Seduzir leitores. Eis um
dos grandes propósitos desta
companhia teatral que raramente
está num palco convencional.
“Somos uma companhia de teatro
com algumas particularidades:
não trabalhamos em teatros,
mas em bibliotecas escolares e
públicas, em salas de escolas. Não
trabalhamos com texto dramático,
mas com a poesia e a prosa que
vamos buscar aos livros e às quais
damos uma linguagem cénica,
teatral”, explica a fundadora da
Andante, Associação Artística.
A sede é em Alcochete, mas são
inúmeras as paragens pelo país.
Levam as palavras onde elas não
chegam. Hoje, por exemplo, vão
estar na Biblioteca de Constância,
às 15h30, a apresentar Às Escuras,
o Amor. Textos para jovens. Ou
para quem quiser.
Precisardomaravilhoso
“Desde o início que temos um
objectivo: a promoção da leitura.”
Dito de outra forma e mais
adiante: “Nós partilhamos o prazer
das palavras, o prazer de ler”,
continua a actriz, numa conversa
telefónica com a Pública. Por
isso, as bibliotecas são o cenário
privilegiado para esta “espécie de
missão de cavaleiros andantes”.
Mas o leitor pode muito bem
ter a sorte de os encontrar na
inauguração de uma livraria, num
congresso de literatura ou numa
exposição. Haja orçamento...
Cristina Paiva lembra que
ainda há pessoas que têm “pudor
em entrar nas bibliotecas, em
mexer nos livros. Há quem tenha
ouvido dizer que ler é difícil e
aborrecido”. A Andante quer
desmontar tudo isso. Apagar a
ideia de que os livros são para um
“grupo de ‘intelectualóides’ ou
são algo de inacessível”.
Acredita que é possível “mudar
a vida de uma pessoa a partir
das palavras e dos livros” e tem
a certeza de que o trabalho que
desenvolve desde 1999, quando é
acompanhado e continuado pelos
técnicos das bibliotecas, “faz a
diferença em muitos lugares”.
Porque estas iniciativas
trazem as pessoas para um
outro universo. “O ser humano
precisa do maravilhoso. Vamos
procurá-lo em alguém que canta
bem, vamos procurá-lo na arte,
em qualquer lugar. Quanto c
miúdos
mais lermos, mais graus de
maravilhoso podemos ir buscar.”
Depois, há a identificação com
os textos. “Quando as pessoas
se encontram nas palavras
dos outros, se revêem nelas e
pensam ‘estas palavras também
foram escritas para mim’, há
um clique que se dá. É evidente
que se nunca mais ninguém
trabalhar com estas pessoas, mais
ninguém lhes mostrar um livro,
provavelmente o espectáculo
teve só o efeito emocional
naquela hora. Mas nos vários
locais que sei que o trabalho foi
desenvolvido com continuidade
isto faz a diferença.”
Para ontem (falando de
continuidade), estava marcada
uma actividade do Clube de
Leitura em Voz Alta (que se
reúne quinzenalmente na
Biblioteca de Alcochete para
leituras partilhadas) de que fazia
também parte a plantação de
árvores no concelho.
Há um espectáculo para
crianças do 1.º ciclo que resulta
sempre muito bem quando
há articulação entre todos os
mediadores. Chama-se Às Avessas.
“A escola prepara com os meninos
alguns dos poemas que vão ser
lidos. Não é análise de texto, é
leitura conjunta ou encenação.
Qaundo os miúdos vão ver
o espectáculo e, de repente,
escutam aquele texto que já
conhecem, com a nossa música,
ficam entusiasmados e já têm uma
referência.” É uma semente que
se lança.
Para o 2.º ciclo, a Andante
tem no seu “catálogo” o atelier
Anatomias e, para o ensino
secundário, o espectáculo Às
Escuras, o Amor. O centenário
da implantação da República
motivou um desafio por parte
da Biblioteca de Alcochete, que
resultou num espectáculo (fotos
nestas páginas) que tem andado
a viajar pelo país. Há marcações
até meados de Fevereiro de 2011,
“sem confirmação por causa dos
cortes orçamentais”. É possível
conhecer (e solicitar) os vários
trabalhos desta companhia em
www.andante.com.pt/.
Em 2011, irão homenagear
Manuel da Fonseca, no
centenário do seu nascimento.
Por isso, andam “deliciados
a trabalhar textos da Seara de
Vento e Cerro Maior”.
A Gulbenkian e a DGLB
Actriz“desdesempre”,CristinaPaiva
assistiu por dentro ao crescimento
darededasbibliotecaspúblicas,“no
meiodosanos90”,ecomeçouapen-
sarquepodiajuntarasduascoisasde
que mais gostava de fazer: “Teatro e
ler em voz alta.” E juntou mesmo.
“Duas instituições grandes
conheceram o nosso trabalho
e pegaram em nós. Foi o IPLB,
agora chama-se DGLB [Direcção-
Geral do Livro e das Bibliotecas]
e qualquer dia não se chama
coisa nenhuma... Colocaram-
nos na carteira de itinerâncias.
Também a Gulbenkian, que tinha
uma rede de bibliotecas e o seu
próprio serviço de itinerâncias,
com acções de formação e
espectáculos de promoção da
leitura. Começámos a andar com
estas duas instituições.”
Pensaram que poderiam
crescer, mas hoje são apenas
duas pessoas a tempo inteiro na
Andante: Cristina Paiva (actriz) e
Fernando Ladeira (sonoplasta).
Durante algum tempo foram três,
mas tornou-se insustentável.
“Os espectáculos custam menos
agora do que quando começámos.
A reboque da crise, cortam-
se actividades. As bibliotecas
deixaram de ter possibilidade
de adquirir espectáculos (e até
livros e pessoal para trabalhar).
Somos um complemento ao
trabalho dos técnicos, mas, com
os cortes, somos os primeiros a
ser dispensados.”
No entanto, Cristina Paiva
sublinha “a capacidade de
resistência brutal dos artistas”. Por
isso está certa de que vai continuar
o seu trabalho. “Fazemos isto
porque não podemos fazer outra
coisa. Só paramos quando não
tivermos o que comer. Tirando
isso, voltaremos sempre aqui.” A
andar. a
rpimenta@publico.pt
O espectáculo sobre o centenário da República viajou pelo país e tem marcações até Fevereiro de 2011, mas a ideia nasceu em Alcochete

Miudos 28-11-10 Andante

  • 1.
    miúdos Levar as palavrasonde elas não chegam Texto Rita Pimenta Fotografia Fernando Ladeira Fazem teatro sem texto dramático, partilham o prazer da leitura com os mais novos e com os outros, levam literatura aos lugares onde se desconfia das palavras e dos livros. Chamam-se Andante, Associação Artística e não vão deixar de andar por aí.
  • 2.
    C ristina Paiva, actriz, dizjá ter assistido “a coisas extraordinárias” no seu trabalho de promoção da leitura. E dá um exemplo passado numa prisão, “palco” onde a Andante periodicamente “representa”: “Um homem um pouco assustador esteve todo o espectáculo de óculos escuros. Com uma atitude corporal de recusa ao que estava a acontecer. Não queria estar ali.” (Aqui, explica como é complicado estar perante uma série de homens condenados. E desculpa-se por este não ser um exemplo com crianças.) “No final do espectáculo, veio ter comigo, ele era enorme, um gigante. Tirou os óculos escuros, deu-me um aperto de mão e agradeceu-me comovido.” Cristina tem muitas histórias assim. É por isso que nunca desistirá. Seduzir leitores. Eis um dos grandes propósitos desta companhia teatral que raramente está num palco convencional. “Somos uma companhia de teatro com algumas particularidades: não trabalhamos em teatros, mas em bibliotecas escolares e públicas, em salas de escolas. Não trabalhamos com texto dramático, mas com a poesia e a prosa que vamos buscar aos livros e às quais damos uma linguagem cénica, teatral”, explica a fundadora da Andante, Associação Artística. A sede é em Alcochete, mas são inúmeras as paragens pelo país. Levam as palavras onde elas não chegam. Hoje, por exemplo, vão estar na Biblioteca de Constância, às 15h30, a apresentar Às Escuras, o Amor. Textos para jovens. Ou para quem quiser. Precisardomaravilhoso “Desde o início que temos um objectivo: a promoção da leitura.” Dito de outra forma e mais adiante: “Nós partilhamos o prazer das palavras, o prazer de ler”, continua a actriz, numa conversa telefónica com a Pública. Por isso, as bibliotecas são o cenário privilegiado para esta “espécie de missão de cavaleiros andantes”. Mas o leitor pode muito bem ter a sorte de os encontrar na inauguração de uma livraria, num congresso de literatura ou numa exposição. Haja orçamento... Cristina Paiva lembra que ainda há pessoas que têm “pudor em entrar nas bibliotecas, em mexer nos livros. Há quem tenha ouvido dizer que ler é difícil e aborrecido”. A Andante quer desmontar tudo isso. Apagar a ideia de que os livros são para um “grupo de ‘intelectualóides’ ou são algo de inacessível”. Acredita que é possível “mudar a vida de uma pessoa a partir das palavras e dos livros” e tem a certeza de que o trabalho que desenvolve desde 1999, quando é acompanhado e continuado pelos técnicos das bibliotecas, “faz a diferença em muitos lugares”. Porque estas iniciativas trazem as pessoas para um outro universo. “O ser humano precisa do maravilhoso. Vamos procurá-lo em alguém que canta bem, vamos procurá-lo na arte, em qualquer lugar. Quanto c
  • 3.
    miúdos mais lermos, maisgraus de maravilhoso podemos ir buscar.” Depois, há a identificação com os textos. “Quando as pessoas se encontram nas palavras dos outros, se revêem nelas e pensam ‘estas palavras também foram escritas para mim’, há um clique que se dá. É evidente que se nunca mais ninguém trabalhar com estas pessoas, mais ninguém lhes mostrar um livro, provavelmente o espectáculo teve só o efeito emocional naquela hora. Mas nos vários locais que sei que o trabalho foi desenvolvido com continuidade isto faz a diferença.” Para ontem (falando de continuidade), estava marcada uma actividade do Clube de Leitura em Voz Alta (que se reúne quinzenalmente na Biblioteca de Alcochete para leituras partilhadas) de que fazia também parte a plantação de árvores no concelho. Há um espectáculo para crianças do 1.º ciclo que resulta sempre muito bem quando há articulação entre todos os mediadores. Chama-se Às Avessas. “A escola prepara com os meninos alguns dos poemas que vão ser lidos. Não é análise de texto, é leitura conjunta ou encenação. Qaundo os miúdos vão ver o espectáculo e, de repente, escutam aquele texto que já conhecem, com a nossa música, ficam entusiasmados e já têm uma referência.” É uma semente que se lança. Para o 2.º ciclo, a Andante tem no seu “catálogo” o atelier Anatomias e, para o ensino secundário, o espectáculo Às Escuras, o Amor. O centenário da implantação da República motivou um desafio por parte da Biblioteca de Alcochete, que resultou num espectáculo (fotos nestas páginas) que tem andado a viajar pelo país. Há marcações até meados de Fevereiro de 2011, “sem confirmação por causa dos cortes orçamentais”. É possível conhecer (e solicitar) os vários trabalhos desta companhia em www.andante.com.pt/. Em 2011, irão homenagear Manuel da Fonseca, no centenário do seu nascimento. Por isso, andam “deliciados a trabalhar textos da Seara de Vento e Cerro Maior”. A Gulbenkian e a DGLB Actriz“desdesempre”,CristinaPaiva assistiu por dentro ao crescimento darededasbibliotecaspúblicas,“no meiodosanos90”,ecomeçouapen- sarquepodiajuntarasduascoisasde que mais gostava de fazer: “Teatro e ler em voz alta.” E juntou mesmo. “Duas instituições grandes conheceram o nosso trabalho e pegaram em nós. Foi o IPLB, agora chama-se DGLB [Direcção- Geral do Livro e das Bibliotecas] e qualquer dia não se chama coisa nenhuma... Colocaram- nos na carteira de itinerâncias. Também a Gulbenkian, que tinha uma rede de bibliotecas e o seu próprio serviço de itinerâncias, com acções de formação e espectáculos de promoção da leitura. Começámos a andar com estas duas instituições.” Pensaram que poderiam crescer, mas hoje são apenas duas pessoas a tempo inteiro na Andante: Cristina Paiva (actriz) e Fernando Ladeira (sonoplasta). Durante algum tempo foram três, mas tornou-se insustentável. “Os espectáculos custam menos agora do que quando começámos. A reboque da crise, cortam- se actividades. As bibliotecas deixaram de ter possibilidade de adquirir espectáculos (e até livros e pessoal para trabalhar). Somos um complemento ao trabalho dos técnicos, mas, com os cortes, somos os primeiros a ser dispensados.” No entanto, Cristina Paiva sublinha “a capacidade de resistência brutal dos artistas”. Por isso está certa de que vai continuar o seu trabalho. “Fazemos isto porque não podemos fazer outra coisa. Só paramos quando não tivermos o que comer. Tirando isso, voltaremos sempre aqui.” A andar. a rpimenta@publico.pt O espectáculo sobre o centenário da República viajou pelo país e tem marcações até Fevereiro de 2011, mas a ideia nasceu em Alcochete