Revista final 2

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Revista final 2

  1. 1. Revista de PsicanáliseAno 2013Núcleo de Estudos e Pesquisas emPsicanáliseAv Cristiano Machado,640-Sl:1501Bairro Sagrada FamíliaBelo Horizonte – MGCEP.: 30.140-060.Telefax: (31) 3241-2042www.nepp.com.brneppbh@yahoo.com.br
  2. 2. Revista de PsicanáliseAno 2013PESQUISA REALIZADA PELA EQUIPE NEPP - NÚCLEODE ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICANÁLISEEQUIPE:Supervisão Geral: Prof. Sérgio Costa – PsicanalistaClínico e Didata – Presidente do NEPP
  3. 3. Revista de PsicanáliseAno 2013POLÍTICA, TELEVISÃO,RELIGIÃO E CRIMINALIDADEProf. Sérgio CostaEstes são os meios deque dispõe o capitalismo paratomar o lugar que estádesocupado no ator social?(vazio)Quando falo deste lugardesocupado e vazio, tenho quepensar em duas ordens degrandeza que sempre mexemcom o ser humano: espaço etempo. E o que mais chama aminha atenção no trabalhoclínico é a ordem crescente dainibição. Uma vez essasenergias retidas e represadasno ego do sujeito, é criada aangústia e essa angústia étraduzida em sintomas.No governo FernandoHenrique muito se falou ecriticou o neoliberalismo,movimento vivido por volta de1665, com mais intensidade naInglaterra, e que fez com que aEuropa, em 200 anos mais oumenos, tivesse um impulsomuito grande em todos ossetores, com uma diferençaque, na Alemanha, oromantismo e o nacionalismofizeram com que o povo alemãodesse uma contribuição muitogrande ao teatro, filosofia e,uma tremenda arrancada naspesquisas e desenvolvimentodo conhecimento psíquicohumano.Anos depois, na França,havia um movimento políticomuito grande contra a igrejacatólica, principalmente dosrepresentantes da área dasaúde mental. A política parauma arquitetura da instauraçãoe implantação da patologia dahisteria. Os líderes destemovimento Charcot e Gambettinspiraram o jovem médicoSigmund Freud, que em 1927,escreveu o texto “Sintoma,angústia, inibição”. A Europapassava por grandes momentosde angústia e inibição e tinha,como sintoma, uma massa depessoas sofrendo de uma moralsexual civilizada e comoresultante: “doenças mentaismodernas” (vol. IX).Brasil: 2000Um povo inibido, commedo, tenso. Um verdadeiro“mal-estar.Nos anos 90, o Brasilatinge o ápice muito forte dedúvidas, por uma massa deinformações e um arco-íris depossibilidades e desajustes napolítica e na religião. FernandoCollor de Melo, mexendo naenergia instintual de seu povo,
  4. 4. Revista de PsicanáliseAno 2013causou um grande desequilíbriogerando um desafeto,confiscando o dinheiro dosbrasileiros. Foi punido o nossopai totêmico, por ter traído otabu de mexer naquilo que osseus filhos mais esperavam queele controlasse. Daí oaparecimento dos jovens cara-pintadas, uma nova geração debrasileiros...(totem e o tabu)evidenciando assim, a puniçãode sua transgressão.A política FernandoHenrique acalma o coração dopovo(...). Desperta de novo osabiá, o boitatá, o uirapuru.Morre a andorinha. Conclui-seassim, através desta metáfora,a possibilidade de um equilíbriona ordem social. MovimentosMST, CUT, PT, como urubus,atacam e promovem um ritualmacabro de desestabilização dopsiquismo do nosso povo,gerando medo e instabilidade.Sexo, drogas, criminalidade,com seus comandosespecializados e bempreparados, tomando conta deum país. Um Estado-mãeomisso. A mídia jogando asinformações no ar, de umaforma isolada e congelada, semuma abordagem sociológica esem uma seqüência dosporquês dos fatos ocorridos,nos deixando com calafrios demedo das notícias.Leva-me a pensar em umapolítica de guerrilha paradesestabilizar a situação. Comogovernar? Uma classe médiaoprimida. E as religiões sealastrando como erva daninha.Analfabetos sendo ordenadosem massa, enquanto a igrejacatólica assiste em estado deestupor, as conseqüências dosseus erros do passado, e o seudeclínio. Movimentos demulheres, mães, donas de casa,profissionais, esposas..., nabusca da realização de seusexo (gozo), desejo inerente aoser humano. Brigas entre asigrejas de todas asdenominações(...), e o que épior: em nome de Deus. “Irmãosó ajuda irmão”.A TV, uma máquina forte,interfere na nossa intimidadetendo, na mídia, o marketinginfluenciando e fabricando“Feiticeiras e Tiazinhas”. Sexo...princípio do prazer(...). OEstado aumentando impostos,taxas de telefonia, aumento decombustíveis, falta emprego(...).Uma política acabando com ossetores de saúde e educação.Anarquia total entre duas forçaspoderosas massacrando o egodo povo brasileiro que está semnorte. Igrejas de todas asdenominações disputandoadeptos. A religião se encontranum enorme mercado pessoal.
  5. 5. Revista de PsicanáliseAno 2013Monique Evans, ementrevista para uma revista, dizque seu programa sobre sexo(sacanagem pura) é abençoadopelo Deus da sua igrejaevangélica. Cultos satânicosnascendo; cultos à maconha emfestas de hotéis fazenda.Política, narcotráfico. Omarketing do demônio paravender Deus. Os bandidos namídia a toda hora dominando omundo, mesmo dentro depresídios de segurança máxima,tornando a criminalidade umpoder paralelo tão forte quantoo Estado. As multinacionaismanipulando os preços dosremédios, mesmo contra apolítica de preços do governo. Adesestruturação da família, afomentação das doençasmentais.Hoje, poderia se dizer queos profissionais da área dasaúde mental são merosrepetidores de Freud sobre omal estar na comunicação(...).Mas venho alertar, que até aprópria psicanálise está emcrise. Uma teoria que resiste amais de cem anos, e que hoje édisputada em tribunais poraqueles que bebem em suaságuas e que também adepreciam, até pela próprialinhagem de Sigmund Freud,sua neta Sofia Freud, psicóloga,a qual não poupou palavrasdepreciativas contra o avô, noseu artigo publicado na revista,“Superinteressante”, em janeirode 2003.O Brasil está vivendo qualfilosofia? Qual política?Continua repetindo “Entradas eBandeiras, colônia deexploração?”Quem não virar“irmãozinho”, não tem maischance no mercado detrabalho?Nós temos que ser a carado nosso país? Um povo semcultura, um povo analfabeto, umpovo sofrido? Um povo visto nomundo todo como o povo do“jeitinho”? Os esmoleiros?Saltimbancos com osmovimentos radicais?Até quando vamos viver alenda de marketing “RobinWood”?Agora, a grande perguntaespeculativa feita por Machadode Assis em 1881, em “OAlienista”, que já vislumbrava ofuturo do Brasil: “A grande casaverde?” A casa dos doidos(...)?PODERÍAMOS PENSAR EMUM MAL ESTAR NACIVILIZAÇÃO?No meu modo deentender, a agressividade vemse alastrando no momento em
  6. 6. Revista de PsicanáliseAno 2013que o indivíduo, enquanto atorsocial, não tem, bem definido, oseu papel social qualificado. Asnormas sociais não sãoimpostas de modo claro edefinido.Com a perda dos rituais ea maldição imposta pelasuperação das normas do totempelo pai totêmico, os seus filhoscaem em desgraça (...) e setornam proscritos.Até porque o estado debem-estar social, caracteriza-seexatamente pela oferta de bense serviços destinados a protegero indivíduo, mesmo queprecariamente, de umadependência absoluta emrelação ao mercado e àcapacidade de provisão dafamília, assegurando aoscidadãos, graus distintos desegurança e bem-estar nasvárias etapas do ciclo de vida.O Brasil é vítima de suaspróprias relações psíquicasburguesas e do tripé: líderesreligiosos, líderes políticos,empresários; só estes levamvantagem em tudo, não tendomedidas para os seus desejos eo não reconhecimento das suasfunções de pais totêmicos e, porconseguinte, os seus atributospara com os demais sujeitos docenário social.RE-NASCIMENTO E RE-CONHECIMENTO DO PAI:QUAL PAI? PAI BIOLÓGICOOU PAI SOCIAL?Um novo nascimento paraa paternidade, um “re-nascimento” do Pai? Énecessário.Um reconhecimento desuas funções e de seu papel,reconhecimento sociológico(objetivo, factual) e moral(subjetivo, nutrido de gratidão)?É recomendável.Um reconhecimentobiológico (nos casos de criançasabandonadas, adotadas, órfãs)?É discutível e discutido.Tocamos aqui a angústiaexistencial crucial da condiçãomasculina: a incerteza dapaternidade. A mãe, radiosaporque “realizada” assim que setorna mãe, desconhece talangústia.O laço paterno, parece-me, jamais poderá ser, no planofísico, tão carnal, tão intenso,tão profundo quanto o laçomaterno.“Em nenhum momento, oshomens experimentaram asensação física de “gerar umfilho”, ainda que, certamente,tenham ajudado a concebê-lo...mas, no fundo, nem tiveram asensação de o “gerar” – exceto,mais tarde, psicológica e
  7. 7. Revista de PsicanáliseAno 2013socialmente, enquanto pai“social”.”UMA REVOLTA PARA AFUNÇÃO PAIQue estranhoencaminhamento levou, alémdas exigências do trabalhocientífico e da objetividadesociológica, uma ardente eantiga militante da causafeminista a tomar a defesa doshomens, vítimas do “avanço”dessa causa, desses múltiplospais condenados a viver umaexperiência cruel de solidãomoral, enquanto seus filhos sãotirados de sua afeição pela açãoconjungada das mãesemancipadas e dos juízesimpregnados de estereotipiasultrapassadas?Por um lado, certamente,o destino infeliz desses paisejetados, desestabilizados,desvalorizados, e os efeitosnefastos de sua exclusão datríade parental sobre odesenvolvimento dos filhos, epor outro lado, o interesse daspróprias mulheres: “se vocêsnão reintroduzirem os pais nocircuito, estarão contribuindopara a pauperização acentuadadas mulheres, para a suasolidão e vulnerabilidadeirreparáveis”.Sem dúvida, os homensnão gostarão muito que sejadesvelada sua impotência, suaderrota, o fim de suas ilusões.Alguns se queixam deestarem destronados. Suasqueixas não encontram eco namídia, pouco preocupada emdefender a antiga ordem.Alguns, mais conscientese menos numerosos, tentamorganizar a resistência e criam“centros para homens”, ou“centros de crise para homens”,sinal de que está chegando umanova consciência e, talvez, umarevolta organizada contra osexcessos da liberação damulher. Liberação, aliás,legítima.Quanto aos outroshomens, a maioria, reagematravés da indiferença, daincredulidade, da desconfiança.Assim, para além darevolta contra o pai e através deuma possível revolta dos pais, orenascimento do pai e oreconhecimento dos pais, emsuas funções específicas,deveriam aparecer como sendoo “coroamento feliz da luta dasmulheres pela igualdade e agarantia contra a solidão dasmães”.Que a dor do“desligamento” conjugal possadar lugar, pouco a pouco, aotermo de um trabalho adulto de
  8. 8. Revista de PsicanáliseAno 2013luto, e graças a uma vontadevital de renascimento, aosentimento de uma “novaaliança” entre os amantesdesunidos, no interesse dospais excluídos, nos interessesdas mães abandonadas, mas,acima de tudo, no real interessedos filhos “fragmentados”.E que então a fórmula “talpai, tal filho”, tornando-se “taispais, tais filhos”, seja encaradacomo a expressão de umotimismo razoável, que podeser enxergada com maisclarividência em DIREITO DEFAMÍLIA.DIREITO DE FAMÍLIA EPSICANÁLISETexto Pesquisado e desenvolvidopela equipe do Nepp“Para a Psicanálise asexualidade é a ordem dodesejo. Pode o Direito legislarsobre o desejo, ou será odesejo que legisla sobre oDireito? Afinal, se há umanorma é porque a ela secontrapõe um desejo. Os DezMandamentos só foram criadospor existirem aqueles dezdesejos, ou ainda, “o Direito sóexiste porque existe o torto”(Giorgio Del Vecchio).“Devido ao limite destetrabalho, deter-me-ei a dizer dealgo que advém de uma práxiscomo advogado na área doDireito de Família e daobservação e escuta de mais dequatorze anos de casaisseparados e histórias deconstituição e desconstituiçãode famílias. Assim, ao invés detrazer as teorias, osfundamentos de uma e de outra,ou a interlocução possível,falarei de sua aplicabilidade nocampo do Direito de Família”.“O advogado familiaristadepara-se constantemente comproblemas que transcendem oselementos meramente jurídicos.Muitas vezes o conflito não ésomente dessa natureza,embora aparente sê-lo. Énecessário perceber o texto econtexto do conflito, a linha e aentrelinha do litígio. Seatentarmos para a mensageminconsciente, que nos chegapelo discurso das demandasque geram conflitos, poderemosdesenvolver melhor nossaatuação como advogados.”“Influenciado por grandesmestres do Direito, comoGiorgio Del Vecchio, Kelsen,Pierre Legendre, Caio Mário daSilva Pereira, João BaptistaVillela, dentre outros, passei abuscar no ato de advogar algoque pudesse dar respostas maiseficientes e eficazes para asolução dos conflitos. Observei
  9. 9. Revista de PsicanáliseAno 2013que nas demandas objetivas econcretas que me chegavam,algumas coisas não eram ditas.Não que eles não tivessemconsciência. Havia algoinconsciente, não dito.”“A Psicanálise remeteu-me a elementos e ainstrumentos que ampliaram efizeram-me entender melhor oobjeto do meu trabalho: odiscurso do meu cliente,Freudianamente, é escutar oque está por detrás do discurso,ou como Lacan, o que estáentre o dito e o por dizer”.“Antes de pensar naaplicabilidade do pensamento eda técnica psicanalítica na vidade um advogado familiarista, épreciso retomar o conceito defamília”.“Para o Direito, o conceitode família esteve sempre ligadoa dois elementos fundamentais:consangüinidade e casamentoformal e solene. Mas arealidade nos tem dado outranoção de família. Primeiro,porque o elemento daconsangüinidade não éfundamental para a suaconstituição, pois se fosse nãoseria possível no Direito oinstituto de Adoção. A esserespeito João Baptista Villelamuito bem já o demonstrou, emseu trabalho publicado em1979, sob o título ADesbiologização daPaternidade. Segundo, porque ocasamento não é mais a únicaforma de constituição de família,conforme diz o art. 226 daConstituição Federal: pela uniãoestável (concubinato), pelospais e seus descendentes.”“Mas a questão da famíliavai além de sua positivação nosordenamentos jurídicos. Tanto éque ela sempre existiu econtinuará existindo, desta oudaquela forma, em qualquertempo ou espaço. O que mudaé apenas as formas de suaconstituição. Talvez, a partir domomento em que os juristas ejulgadores entenderem a famíliasob um conceito mais amplo, alegislação que a regulamentanão sofra tantas modificações,como vêm ocorrendo nosúltimos tempos. As ordenaçõessobre Direito de Família nuncamudaram tanto em tão poucotempo. É preciso entendê-lasacima da história, já que é umainstituição que atravessa otempo e espaço: é a célulabásica da sociedade e está aídesde os primórdios.”“Se buscarmos em outrasdisciplinas o conceito de família,veremos que ela se apresentatambém de variadas formas:patriarcal ou matriarcal,poligâmica ou monogâmica,como grupo natural de
  10. 10. Revista de PsicanáliseAno 2013indivíduos unidos por uma duplarelação biológica, que por umlado, a geração dá oscomponentes do grupo, e poroutro, as condições de o meio edesenvolvimento dos maisnovos, mantendo este grupo,enquanto os adultos garantem asua reprodução e manutenção.”“Mas será mesmo afamília uma organizaçãonatural? O que verdadeiramentemantém e assegura a existênciada família? Será a lei jurídicaassociada ao afeto e aos laçosde consangüinidade?”“Para o psicanalistafrancês Jacques Lacan, afamília não é natural, é cultural.Por isso é que ela se apresentadas mais variadas formas, deacordo com as diferençasculturais. Para ele, a família nãose constitui apenas de umhomem, uma mulher e filhos,ainda que casadossolenemente. Ela é, antes detudo, uma estruturaçãopsíquica, onde cada um de seusmembros ocupa um lugardefinido. Lugar do pai, da mãe edos filhos sem, entretanto,estarem necessariamenteligados.”“Tomando a idéia deLacan e de Villela, e atrevendo-me a divergir dos conceitosmais estáveis em Direito, possodizer que a família não énatural. É cultural. Ela não seconstitui de um macho, de umafêmea e de filhos. Ela é umaestruturação psíquica, ondecada membro tem um lugardefinido. Para se ocupar o lugardo pai, da mãe e do filho, não énecessário laço biológico. Damesma forma, a mãe ou o paibiológico podem ocupar estelugar no momento em queentregam o filho para seradotado, por exemplo. Pode sertambém que, não obstante oslaços formais e deconsangüinidade, o pai ou amãe não ocupem, por algumadificuldade interna, o lugar depai ou de mãe, tão necessário(essencial) à nossa estruturaçãopsíquica e à nossa formaçãocomo seres humanos e sujeitos.Apenas para ilustrar, um canil,com macho, fêmea e filhotes,jamais constituirá uma família,embora naturalmente unidos,pois falta-lhes justamente apassagem da natureza para acultura. Os cães podem até teruma “certa inteligência”(escolher caminho mais curtopara chegar ao alimento, porexemplo), mas são incapazesde reconhecer o erro. Para issoseria necessário o “simbólico”.Esse passo para o simbólico, sóo homem deu, e é justamenteisto que nos diferencia dosoutros animais e que nos
  11. 11. Revista de PsicanáliseAno 2013permite constituir uma família,ou melhor, compor umaestruturação familiar.”“É uma estrutura familiar,que existe antes e acima doDireito, que nos interessainvestigar. E é mesmo sobre elaque o Direito vem, através dostempos, tentando legislar com ointuito de ajudar a mantê-la paraque o indivíduo possa existircomo cidadão, pois sem essaestrutura onde há lugar definidopara cada membro, o indivíduoseria psicótico. É aí que seestrutura o sujeito eestabelecem-se as primeirasleis psíquicas. Quando estas seausentam, faz-se necessária alei jurídica para sobrevivênciado próprio indivíduo e dasociedade. Em outras palavras,quando a estrutura familiar nãoé capaz de se sustentar naoriginalidade em que foiconstituída, a lei jurídica podevir em seu socorro.”“Por mais que o Direito,através de suas normas, tentealcançar o justo e o equilíbriodas relações familiais, há algoque lhe escapa, algo nãonormatizável, pois essasrelações são regidas tambémpelo inconsciente. Freud, emseu texto de 1915, OInconsciente, faz a indagação:‘Como devemos chegar a umconhecimento do inconsciente?Certamente, não só oconhecemos como algoconsciente, depois que elesofreu transformação outradução para algoconsciente(...)’.“Para ele, o inconscientese manifesta em atos quepoderíamos considerar os maisbanais: palavras, ditasdistraidamente, sem quequiséssemos dizê-las, ou emlugar de outras; esquecimentos;lapsos; atos falhos e outros atosque, trazidos à consciência,denunciam algo doinconsciente. Por exemplo,esquecer o número do telefoneou perder o endereço doadvogado; demorar a levar adocumentação necessária;esquecer a consulta; dizer umnome em lugar de outro, etc.”“Mais tarde, Lacan veiodemonstrar e afirmar que ‘oinconsciente é estruturado comoa linguagem’. Mas não háespaço aqui, nos limites destetrabalho, para tecer maioresconsiderações e teorizaçõessobre definições doinconsciente. Interessa-nosentender, ainda que grossomodo, como ele funciona e quala sua influência no discurso denossos clientes. Nóstrabalhamos com o discurso,com a linguagem. Daíprecisarmos nos escutar. Nós,
  12. 12. Revista de PsicanáliseAno 2013advogados de família, somostambém profissionais da escuta,assim como os psicanalistas.”“Se fizermos uma leituraatenta de um processo deseparação litigiosa, porexemplo, poderemos constatarque toda a discórdia ali encobrefatos. É uma relação de amor eódio mal resolvida, ou malcomeçada, que aparece nodiscurso objetivo, consciente,através daquela manifestação.Basta raciocinarmos que, emgeral, o motivo pelo qual selitiga é sempre patrimonial,material e, portanto, “objetivo”.Sendo assim, bastaria às partesraciocinarem fria eobjetivamente parasolucionarem o litígio. Issogeralmente não acontece,porque questões afetivas e deoutra ordem estão misturadasàquilo que deveria ser objetivo eprático. Um processo deseparação deveria ser visto sobdois ângulos ou em duas partes:uma objetiva e concreta e outraafetiva. O nosso trabalhodeveria ser, então, pontuar essamistura, a confusãoestabelecida pelas partes.Obviamente, isso não é tãosimples, pois as razõesapresentadas para litígio, narecepção das partes, estão,além de contaminadas pelaemoção, geralmente encobrindoum outro discurso. O nossotrabalho deveria ser desmontaro discurso da aparência paraque surja o verdadeiro motivodo litígio. Não é mesmo simples,pois há interesses e toda umacultura jurídico-processual decultivo por trás do fato.”“Neste sentido, a lei8.408/92 veio fazerintervenções. Estabeleceu queas partes poderão requerer aseparação judicial pelo decursode prazo de um ano, ou seja,não há mais que se falar emculpa na separação semmencionar culpa. As pessoasnão precisarão mais revelar aoEstado sua intimidade. Essaconquista é uma grandeevolução, já que apresenta osmotivos justificadores de umaseparação. Segundo aenumeração da lei, nem sempreera viável, pois na maioria dasvezes, era impossível de seprovar. E na realidade, osverdadeiros motivos de umaseparação não são aqueleselencados pela lei. São naverdade, motivos aparentes. Porexemplo: se aparece umaterceira pessoa em uma relaçãoconjugal, isto pode não ser averdadeira causa da separação,mas a conseqüência de umrelacionamento que já deixaraespaço para isso e queapresentava sinais de
  13. 13. Revista de PsicanáliseAno 2013deterioração. As agressõesfísicas, da mesma forma, seacontecem é porque algo jáestá ruído, mas não constituempropriamente a causa. Comessa lei, vemos uma tendênciado Estado de afastar-se dasquestões de foro mais íntimo,ao estabelecer separação semculpa, que, aliás, é o que vêmocorrendo nos mais avançadosordenamentos jurídicos.Certamente já se percebeu queos verdadeiros motivos de umaseparação não são aqueleselencados pela lei, mas algomais remoto e mais profundoentre os sujeitos.”“É como dizer-se que,embora o casamento não estejaindo bem, ‘não vou me separarpor causa dos filhos’. Isto, alémde um preconceito em relação àseparação, é uma grandementira para si mesmo. Ora,separar é muito difícil e só sefaz em último caso e às vezesnem mesmo em último caso. Édifícil assumir o desejo de seseparar. Muitas vezes acaba-semantendo a aparência docasamento. Estabelecem-serelações extraconjugais,paralelas, para suportar arelação oficial. Ora, os filhos sãomeras desculpas. É o discursoconsciente sobrepondo-se aodesejo inconsciente. Numaanálise rápida da situação,percebemos que os filhosestarão melhores à medida queos pais estiverem melhores:juntos ou separados. O divórciopode ser sempre um malmenor.”“Uma outra observaçãopara nossa reflexão é aincômoda situação de atuarmoscomo advogados das duaspartes separantes. No que nãose possa sê-lo. Mas quando hápendências a serem discutidascom a ajuda do advogado,ficamos sempre ensejandofantasias, em ambos, de queestamos inclinando mais paraum ou outro. Verdadeiro ou nãoo fato de inclinar-se mais paraum lado, é muito mais cômodoaos clientes entenderem que oque não lhes agrada é oadvogado. Muda-se então deprofissional. Não é raro aspessoas ficarem trocando deadvogado, sempre deslocandoa responsabilidade da não-separação ou do litígio para osprofissionais. É muito mais fácilachar que a culpa ou aresponsabilidade de não chegara um acordo é do advogado.Enquanto isso, se mantém arelação prazerosa da dor.”“Como Freud observou, asrelações sociais mais íntimassão justamente as que maisestão sujeitas à eclosão deconflitos. Amor e ódio, por
  14. 14. Revista de PsicanáliseAno 2013exemplo, nem sempre sãoexcludentes. Eles apenas sepolarizam. Nós amamos eodiamos. Assim é a naturezahumana, assim são os vínculosfamiliais. É certo que a famíliahoje está diferente. A suatransformação é a reivindicaçãode ampliação do espaço deliberdade das pessoas.”“Como vimos, as relaçõesfamiliares são intricadas ecomplexas, pois comportamelementos objetivos (jurídicos enormativos), afetivos einconscientes. Perceber assutilezas que as entremeiam étranscender o elementomeramente jurídico, pararesolver de maneira menostraumática, mais rápida emenos onerosa os problemasque nessa área nos sãoapresentados. Nós, advogadosfamiliaristas, precisamos teruma outra escuta, perceberalém do meramente jurídico,para que possamos, comoprofissionais, contribuir para amelhoria das relaçõeshumanas.”Neste contexto temos queobservar a família e seuscomportamentos. Tomemosalguns dados de época demanifestações de programas deTV que influenciaram a família:
  15. 15. Revista de PsicanáliseAno 2013“A regra eficiente é o pecado”Anos 60Nas alternativas do mundo moderno, qualquer forma de controle é ineficaz.É curioso como as três instituições básicas: a sociedade familiar, empresa eEstado caminham na direção de um pacto, passando a vigorar o conceitocidadania.Filhos, funcionários e cidadãos: os compromissos recíprocos passam a substituir avisão primitiva.
  16. 16. Revista de PsicanáliseAno 2013“Sou do tempo que...”Anos 70Grávida não usa biquíni, hoje ela dita a moda.O alarde em torno da mulher desquitada converteu-se hoje, em naturalidade total.O discurso e as palavras sempre estão em avanço se comparados com asatitudes reais.
  17. 17. Revista de PsicanáliseAno 2013“Uma família em transição”Anos 80Educar filhos sem os erros dos pais; mas não é fácil.A frenqüência da família católica na igreja do bairro também escasseou.A dificuldade da busca de valores.
  18. 18. Revista de PsicanáliseAno 2013
  19. 19. Revista de PsicanáliseAno 2013“Por um pouco de trauma”Anos 90Agir de forma espontânea, falar, conversar e ter abertura.Ressurgimento do tradicionalismo nas relações familiares.Dúvidas e indecisão.
  20. 20. Revista de PsicanáliseAno 2013“Hans Kelsen (1881-1973), apesar de inicialmente,apontar em seus trabalhos adistinção entre a teoria pura doDireito e a especulaçãopsicossociológica, mais tardeconcebe a soberania do Estadoem termos da Psicanálise deFreud, seu contemporâneo.Pelo menos é o que registra emseu texto, O Conceito de Estadoe Psicologia Social, onde a todoinstante faz referências aostextos de Freud, especialmenteTotem e Tabu, Psicologia dasMassas e Análise do Ego.Também em sua última obra,Teoria Geral das Normas, emque reformulou algunsconceitos, traz uma importantecontribuição para aaproximação Direito ePsicanálise quando,investigando sobre a origem dasleis, remete-nos a umregressum infinitum, onde cadanorma é determinada por umanorma superior, deparando-secom fictio como origem, como aprimeira lei do Pai (non dupère). Não estariam Freud eKelsen falando de uma mesmalei? A lei jurídica e a lei‘psicanalítica’ não seentrecruzam ou têm umamesma origem?”Cito também o textoCriminalidade por Sentimentode Culpa (1915). Hoje está adelinqüência, a cada dia maiscedo, na realidade dos jovens.O intercâmbio e asmisturas entre ficção e realidadesão constantes e têm limites,muito ambíguos. Os programasde televisão têm que serrevistos no caráter ético,filosófico e político,principalmente nas telenovelaspara a pré-adolescência eadolescência, que sãosignificativos.A equipe do Nepp, apóster levantado estas questões econvidada por algumas escolasde Belo Horizonte para ministrarpalestras para pais e mestres,notou uma maciça presença dejovens atentos e participativoscom perguntas sobre taisfenômenos que estamosvivendo.Entrevistamos 180 jovens elevantamos alguns problemasde ordem social que estãointerferindo no psiquismohumano. A partir daí forjamosalgumas questões que o Estadonão pode fugir em tentarresolver. E a Psicanálise, comseu cunho de movimentopolítico, através do Nepp, tenta
  21. 21. Revista de PsicanáliseAno 2013dar a sua contribuição com estapesquisa e a realização daúltima jornada que abordou taisquestões.
  22. 22. Revista de PsicanáliseAno 2013
  23. 23. Revista de PsicanáliseAno 2013PERFIL DA FAMÍLIA MINEIRAMÃEPAIIRMÃSIRMÃOSAVÓS/AVÔS48%74%66%47%34%A PESSOA MAIS IMPORTANTE DA FAMÍLIA
  24. 24. Revista de PsicanáliseAno 2013PERFIL DA FAMÍLIAMINEIRAASSUNTOS QUE CONVERSAMCOM OS PAISMÃE PAIDINHEIRO NOTICIÁRIO VIZINHOS POLÍTICA MÚSICA NOVELA SEXODOENÇA RELIGIÃO FUTEBOL26%%15%28%18%29%12%24%19%29%15%21%19%11%20%16%9%27%8%14%6%
  25. 25. Revista de PsicanáliseAno 2013PERFIL DOS FILHOSVIDA EM COMUMPÚBLICO PESQUISADO - 180 JOVENS51% 49%COMPANHIAUNIÃO30%22%48%DISPUTAS ENTREIRMÃOSBRIGASDESOBEDIÊNCIAPROBLEMASFINACEIROSVIVERIA SEM OSFAMILIARES, MASSENTIRIA FALTANÃO VIVERIASEM ELESVIVERIA SEMSENTIR FALTADA FAMÍLIA53%24%23%
  26. 26. Revista de PsicanáliseAno 201353%44%06%Viveria sem os familiares,mas sentiria falta deles.Não poderia viver sem eles.Poderia viver sem sentir falta deles.PERFIL DA FAMÍLIA MINEIRA / VIDA EM COMUM65%35%VANTAGENSCompanhia União52%48%BRIGAMPOR...Desobediênciados filhosBagunça51% 50%DESVANTAGENSProblemasFinanceirosDesobediência75%25%FAZEM REFEIÇÕESTVLigadaConversando
  27. 27. Revista de PsicanáliseAno 2013A IMPORTÂNCIA DO PAI NA FAMÍLIAMÃE FICADISPONÍVEL40%60%NO EQUILÍBRIO DOCONTROLE DA MÃESOBRE OS FILHOS50%50%MÃE FAZ FALTANO LAR30%70%SEGURÂNÇAFINANCEIRA66%34%PORQUE BRIGAM: DINHEIRO PARALAZER40%60%IMPÕE RESPEITO NAFAMÍLIA80%20%FILHOSFILHAS
  28. 28. Revista de PsicanáliseAno 2013O QUE É CONDENADO NO COMPORTAMENTO: MÃE/PAI65%35%25%15%10%TRAIR O PAIBATER NA MÃENÃO DAR ATENÇÃO AFAMÍLIANÃO SUSTENTAR A FAMÍLIASUSTENTAR OUTRAFAMÍLIATRAIR A MÃE COM OUTRANÃO CUIDAR DA CASA
  29. 29. Revista de PsicanáliseAno 2013
  30. 30. Revista de PsicanáliseAno 2013“A Psicanálise simplifica a vida.Ela fornece o fio que conduz o homempara fora do labirinto”.Sigmund FreudRESENHA DA JORNADANEPPProf. Sérgio CostaO NEPP veio com aseguinte proposta para essajornada:“Chamar a atenção dasociedade para oinconsciente e suasmanifestações”.Já há algum tempo,nossa equipe vemdesenvolvendo uma pesquisasobre o inconsciente e suasmanifestações no sujeitocomo ator social no seu meio.A necessidade deinvadir um lugar proibido ousagrado, ou até mesmo vistocomo um rompimento de umrito, é interpretadosimbolicamente na semióticada Psicanálise, como formade neutralizar sentimentos deinferioridade, e umacapacidade de superar leis,porque as leis não estariamsendo cumpridas pelos seusmandatários.Mas a mídia quetransmite os absurdos emhorário nobre, levando osadolescentes a veremmaciços fatos em formaespetacular, sem suahistoricidade; manchetes dejornais com chamadas emrecorte, congelando eignorando a complexidade docrime cometido pelo sujeito(...); os registros são feitos deforma generalizada, semescala de valores.Não há registros depunição e retenção dosimpulsos nos mais jovens.Todas as característicasfisiológicas da idade sãosomadas a um novo modelofamiliar, onde a figura daautoridade paterna estásendo ejetada dos lares,criando-se um sentimento deabandono e uma raiva muitogrande por se sentiremrejeitados.Freud, em seu trabalhointitulado “Delinqüente porSentimento de Culpa” (1915),comenta: “certos indivíduosexperimentam um vago etorturante mal-estar – umsentimento de culpa, cujacausa ignoram e que só seatenua desde que, pratiquemum delito para que possamser punidos”.
  31. 31. Revista de PsicanáliseAno 2013Qual seria a origemdesse sentimento de culpaque preexiste ao crime?Freud adverte que estáno Complexo de Édipo, isto é,nos impulsos parricidas eincestuosos não devidamentesuperados pelo sujeito.A ação acusadora dosuperego atormenta oindivíduo. Então, para aliviar-se, ele pratica o crime,logrando com isso, obter oduplo vínculo: o dedescarregar através de atos einvestidas de superação dasleis ditadas pelas normassociais suas pulsões edípicase, ao mesmo tempo, o deatrair para si próprio, ocastigo reclamado pelosuperego.Um paralelo que eugostaria de fazer, para poderprovar esta premissa, écitando uma frase de Freud,na qual ele adverte que ascrianças “são más” paraprovocar o castigo, e que umavez alcançado isso, semostram tranqüilas econtentes durante algumtempo.Constata-se, assim, quea delinqüência juvenil estariadentro dos parâmetros dosprodutos neuróticos dosconflitos edipianos (pulsãoinconsciente ao incesto, aoparricídio), onde seu olho deenergia nascente teria umadata cronológica para o seunascimento entre quatro esete anos de idade.Poderíamos fazer umparalelo, que com freqüênciaa neurose substitui o delito evice-versa, e a diferença entreum e outro, se encontra nadireção que toma a descargados impulsos.Partindo dosfundamentos do inconsciente,parece possível deduzir que:1. A violência é derivadados impulsos do ID, porser anti-social,fundamentado na lei deque ele é amoral, nãopermite derivação nemrepressão alguma, edescarrega diretamentesob forma de crime,roubo, violação, etc;2. De uma má formaçãodo SUPEREGO que,coincidindo com umEGO utilitário eepicurista, dá lugar àexecução hipócrita edissimulada dosmesmos atos delitivos;
  32. 32. Revista de PsicanáliseAno 20133. A possibilidade dahipertrofia doSUPEREGO que cria noEGO um sentimento deculpabilidade, levando-oà realização do delitocomo meio autopunitivoe expiatório de suastendências incestuosasinfantis;4. O ideal de EGO, comosomatório, que averiguaa realidade propiciandodesconforto por não tertido parâmetros delimites na infância,coloca o sujeito emcheque: “Quando vouser eu? Porque eu nãoposso ser você? Sóvocê como ‘outro’ temcompetência paratanto?”Segundo Freud, osentimento de culpa jáexistente no pré-conscienteleva o indivíduo a realizar odelito, como resultado desubtrair algo que ele mesmojulga ser o “fatal destino”.A consciência de culpapode resultar da reativaçãodo remorso, em virtude doparricídio primitivo ou ainda,da persistência eimpertinência, perseverantesdos desejos incestuososinconscientes.Em tal caso, o delitorepresenta para o sujeito asua libertação: quandodescarrega tais impulsos esofre os castigos impostospela lei, sua sensação é dealívio.Algo análogo acontecenos delírios de auto-acusação, e o portador depatologia mental de grandemonta, pede aos gritoscastigo e tortura (...).Nos delírios deperseguição o SUPEREGOse “exterioriza” e inflige àconsciência do EGO, ocastigo que suaindividualidade merece, porsua perversidade pré-consciente. Se às vezes operseguido se tornaperseguidor, comete ohomicídio contra um inocente.Nós teríamos querepensar sobre os valoresmorais éticos, dosmecanismos reguladores dasleis sobre os seusgovernantes e sobre a mídiasensacionalista. Assimtambém, do “Homem-Deus”,líder religioso que esquece assuas funções de homem “comDeus”, e se torna tirano eagente adoecedor (...).
  33. 33. Revista de PsicanáliseAno 2013Cabe aqui, também, alembrança do artigo de Freuddatado de 1908, “MoralSexual Civilizada e DoençaNervosa Moderna”:“Nossa civilização repousa,falando de modo geral, sobrea supressão dos instintos.Cada indivíduo tem querenunciar uma parte dos seusatributos a uma parcela doseu sentimento deonipotência ou ainda dasinclinações vingativas ouagressivas de suapersonalidade”.O vigor original e avelocidade do instinto sexualvariam de indivíduo paraindivíduo. Assim também,acontece com um quantumdessa energia que vai e podeser equalizada pelo “ego”,através do mecanismo dedefesa de sublimação.Em os “Três Ensaiospara uma Teoria Sexual”(1905), Freud trata de umaquestão capital para aeducação, ao mostrar que oimpulso sexual humano – apulsão sexual – pode serdecomposto em funçõesparciais.Os programas detelevisão e os noticiários vêmestimulando o imaginário dosujeito, com grandes cargasde estímulos desconexos eseus filtros, mais a política dadesestruturação familiar.Estes sujeitos setornam atores sociais, quevestem os personagens que amídia vende, e não vêem najustiça homens de alma(psique) imaculada quepossam representá-la, paralhe ditar as égides da lei.Será que esta tramanão seria um alerta para asociedade, que está exalandoo mau cheiro dadeteriorização do pai totêmicoque já está morto?!Em todos os poderes,nós temos conhecimentopela mídia, de corrupção econluios de seus mais altosrepresentantes. E é atravésda investigação da clínicapsicopatológica que opsicanalista trabalha eenxerga os desvios,perturbações eanormalidades – “Como vasode cristal quebrado”, como dizFreud em sua metáfora, ondechama a atenção para umaobservação apurada noformato especial de cadapedaço da estruturacaracterística do cristal inteiro– os pedaços se quebramobedecendo às linhas deforça determinadas pela
  34. 34. Revista de PsicanáliseAno 2013disposição singular, estruturaldas moléculas daquele vaso –Freud quis nos dizer quemuito pode se saber sobre aestrutura psíquica, caso seestudem seus“desequilíbrios”, suasrupturas.E é com essa propostaque o NEPP se lança,corajosamente nestapesquisa, para nos nortearsobre as possíveis moléculase estruturas contaminadasque estão quebrando tantosvasos humanos...E só aí talvez,poderemos “juntar os nossoscacos para construirmos onosso vitral” (Adélia Prado).Glossário:Epicurista: partidáriodo epicurismo; materialista;que busca o prazer.
  35. 35. Revista de PsicanáliseAno 2013ADOLESCÊNCIA,SOCIEDADE CIVILIZADA EVIOLÊNCIAValéria Maria Porto Trinchero“Detrás de la mascara de umaadolescência difícil, esta el rosto deuma sociedade difícil, hostil y queno desea compreender”A. AberasturyINTRODUÇÃOA adolescência é umprocesso que ocorre duranteo desenvolvimento evolutivodo indivíduo, caracterizadopor uma revoluçãobiopsicossocial.No entanto,até o final do século XIX, aadolescência não erareconhecida socialmentepelos adultos como umaetapa do ciclo vital. Antesdesta época, entendia-se queo indivíduo passavadiretamente da infância àidade adulta, sem transitarpor um estágio intermediário.Assim, podemos entenderque a etapa denominadaadolescência vemcaracterizar-se como uma dasidades da vida a partir doséculo XX.No processo dedesenvolvimento a puberdadeé conceituada como a etapade modificações físicas quelevam à maturidadereprodutiva, enquanto que aadolescência éfundamentalmentepsicossocial. São processosque ocorremconcomitantemente , porémas velocidades de maturaçãode cada setor são distintas eindividualizadas .Apesar de oconhecimento humano terevoluído em relação aodesenvolvimentobiopsicossocial a essência docomportamento persistegraças a característicaspulsionais inerentes àespécie. Sigmund Freud,criador da psicanálise, vemsistematizar o que asreligiões, a mitologia e ospoetas tentavam explicitar :as vicissitudes da almahumana.Através das guerras,violência urbana ou a nívelfamiliar, percebemos osimpulsos agressivos de nossaespécie. A cultura vigentevem influenciar, dimensionare caracterizar estes impulsos.Em nossa sociedade avulgarização do privativo, a
  36. 36. Revista de PsicanáliseAno 2013perda de referência entre oindividual e o coletivo, aliberalização docomportamento sexual e ainesgotável violência urbanaflagrada diariamente pelamídia fazem com que ohomem, de certa forma, nãodifira, em sua essênciapulsional, de seus ancestrais.A civilização, faz comque haja adequações daexpressão da vida pulsional ,através da tentativa deequilíbrio entre a satisfaçãoinstintual e as demandas dosuperego como instânciareguladora parental e social.Devemos, entretanto,diferenciar os conceitos deagressão e hostilidade. Esteúltimo, provém do latimhostis, que quer dizer inimigo.A hostilidade carece daambigüidade implícita notermo agressão, é sempredestrutiva ou ao menos tem afinalidade de destruição. É osentimento concomitante esubjacente à violência .Assim, podemos definirviolência como uma forcamotivadora, um impulsoconsciente e inconscientedirigido a causar dano. Aviolência não deve serconsiderada como algo queherdamos e sobre o qual nãopodemos fazer nada arespeito. A hostilidadeexcessiva pode serconsiderada uma patologiatransmissível de pessoa apessoa, grupo a grupo, ebasicamente no contato dospais com os filhos, degeração a geração.O infante humanodemanda grandesquantidades de amor esegurança e, através doscuidados adequados de suamãe, introjeta seussentimentos de satisfação. Amãe limita a ansiedade numprimeiro momento de vida,satisfazendo as necessidadese contendo as angústias deseu bebê.Não poderemos, então,separar afetos de limites.Mães superprotetoras ounegligentes acabam gerandofilhos intolerantes àfrustração, e pessoasintolerantes à frustraçãocostumam tomar à força oque querem; assim, aviolência substitui a satisfaçãodo desejo de interaçãoadequada, do cuidado com ooutro tão vital ao ser humanono início de sua caminhada.
  37. 37. Revista de PsicanáliseAno 2013ADOLESCENTE EVIOLÊNCIAPara compreender oadolescente violento temosque situá-lo em seu momentobiopsicossocial. Aadolescência começa comuma forma de “violência”produzida pela natureza, quesão as transformações físicasda puberdade; diz-se que oadolescente é expectador enão ator de seu processo decrescimento. É também umafase de profundas mudançaspsicológicas, uma etapa deincertezas, de construção deidentidade na qual deve sedesligar de sua situaçãoanterior infantil e, para tanto,ataca buscando limitesexternos que o contenham.Em nossa sociedade osadolescentes encontram umaenorme gama de escolhas,são livres para escolher entreas mais variadas religiões,deparam-se com diversoscódigos morais, encontram-sefrente a uma série de gruposdiferentes com crençasdiferentes e práticas diversas.Outras vezes, por medoantecipado do fracasso,buscam como identidade umaposição onde não haja operigo de fracassar, porque aidentidade já é a do própriofracasso (marginalidade,violência, fracasso escolar,...)Assim, a condutaviolenta pode ser consideradacomo uma defesa anteameaças externas e internas,numa fase de crise deidentidade, durante odesenvolvimento delamesma.CARACTERÍSTICASCLÍNICAS DOADOLESCENTE VIOLENTOO adolescente violentovê a si mesmo em um mundoameaçador, suasexperiências dolorosasanteriores (negligência,abuso, superprotecão) lheensinaram que o ambiente éhostil. A emoção fundamentalé a desconfiança. Seusprincipais traços são baixaauto estima, excessivadesconfiança, tendência ajustificar a violência,hipersensibilidade aproximidade física,“permissão” para ser violento(perante padrões parentais),baixa tolerância à frustração,dentre outros.
  38. 38. Revista de PsicanáliseAno 2013Através de traços detemperamento como aimpulsividade, a constantebusca de novas sensações, afalta de controle sobre seusimpulsos e desejos, percebede forma equivocada ascondutas dos demais,julgando como negativas suasações.O ENVOLVIMENTOFAMILIAR E SOCIALA infância e aadolescência são períodoscríticos e vulneráveis dodesenvolvimento humano.Fatores como a hostilidade,os maus tratos físicos epsíquicos, influemnegativamente também pelassituações conflitivas edepressivas que geram.Dentre os elementos“contemporâneos”, cogitadoscomo causa do aumento daviolência entre osadolescentes, temos comofator central o declínio dafigura do pai que vem sendosubtraído por várioselementos da atualidade. Opai, atualmente ausente ouextremamente desvalorizado,já não representa a lei e deixavago o lugar de autoridade nafamília, impossibilitando aintrojeção da “lei” pelosadolescentes.A mãe, como figuraambivalente, passa do afeto àindiferença, da rigidez moral àcumplicidade, confundindoseu papel materno com apermissividade extrema paraangariar a simpatia e“amizade” de seus filhos.É nesta situaçãocaótica de desestruturafamiliar que vai ser construídaa identidade do adolescenteviolento.CONCLUSÃOAo transitar pelaadolescência para chegar aomundo adulto, o ser humanose depara com um mundoidealizado em regras enormas sociaisfreqüentemente diferentesdaquele em que vive. Tementão que vivenciar suascontradições, o que contribuipara incrementar os seusconflitos, num processo quepor si só já é rico emcontradições.
  39. 39. Revista de PsicanáliseAno 2013Fatores como asrelações com o ambientefamiliar, a sociedade, osvínculos precoces com o parparental estão sendo cadavez mais estudados, ficandoevidente sua participação noscasos de condutas violentaspor parte destesadolescentes.Crianças rechaçadasou extremamente protegidas,carregam ao longo de suatrajetória de vida, umsentimento de inferioridadeque vai ser uma fonteinesgotável de ira e ódio.Os pais, aoincentivarem em seus filhosuma certa capacidadecompetitiva para que possamatingir as metas impostas pornossa sociedade, deveriamnotar a tênue linha entreegoísmo e hostilidade; teriamque perceber que o bem estarde uma sociedade dependede que seus membroscontribuam para tanto, porém,nossos modelos atuais deêxito se baseiam muito maisna medida em que o sujeito écapaz de extrair seu bemestar da própria sociedade.Bibliografia:1) Aberastury,A. e Knobel,M. : AdolescênciaNormal, Porto Alegre,Artes Médicas 19922) Áries,P. : História Socialda Criança e da Família,Rio de Janeiro,Guanabara Koogan S.A., 19813) Freud, S. : O Mal Estarna Civilização4) Freud, S. : Totem eTabu5) Levisky, D. L. :Adolescência ReflexõesPsicanalíticas, SãoPaulo, Casa doPsicólogo ,20016) Ruiz,C. A. A. e Marcos,F. E. , AspectosPsicológicos de laViolência en laAdolescência, Estúdiosde Juventud N 62/03

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