Estudos de psicanálise

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Estudos de psicanálise

  1. 1. ESTUDOS DEPSICANÁLISE ISSN - 0100-3437 Publicação do Círculo Brasileiro de Psicanálise Julho/2010 – Aracaju-Se Número 33Estudos de Psicanálise Aracaju-Se N. 33 P. 13 - 158 Julho / 2010
  2. 2. Indexada em: CLASE (UNAM – México) IndexPsi Periódicos (BVS – PSI) – www.bvs-psi.org.br CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ANPPEP – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia Esta revista é encaminhada como doação para todas as bibliotecas da Rede Brasileira de Bibliotecas da Área de Psicologia – ReBAPFicha Catalográfica ESTUDOS DE PSICANÁLISE. Aracaju. Círculo Brasileiro de Psicanálise, n. 33, jul., 2010. 158 p. Semestral. ISSN: 0100-3437 – 28 x 21cm 1. Psicanálise – periódicos
  3. 3. Revista Estudos de Psicanálise EDITORES DA REVISTA Déborah Pimentel (CPS) Ricardo Azevedo Barreto (CPS) CONSELHO CONSULTIVO Anchyses Jobim Lopes (CBP/RJ) Carlos Antônio Andrade Mello (CPMG) Carlos Pinto Corrêa (CPB) Cibele Prado Barbieri (CPB) Fernando Cesar Bezerra de Andrade (SPP) Isabela Santoro Campanário (CPMG) Luis Martinho Ferreira Maia (SPP) Marcelo Wanderley Bouwman (CPP) Noeli Reck Maggi (CPRS) Philippe Bessoles (Paris 7 - França) Stetina Trani de Meneses e Dacorso (CBP/RJ) CONSELHO EDITORIAL Cecília Tereza Nascimento Rodrigues (CPS) Déborah Pimentel (CPS) Maria das Graças Araújo (CPS) Patrícia Aranda Garcia de Souza (CPS) Ricardo Azevedo Barreto (CPS) CAPA Trabalho em tapeçaria Título: Fim de sessão Maria Aparecida Nascimento Dias Psicóloga - Psicoterapia infantil Imagem cedida pela autora FOTOGRAFIA: Sérgio Silva ENDEREÇO DA REDAÇÃO Praça Tobias Barreto, nº 510 - São José Ed. Centro Médico Odontológico, 12º andar, sala 1208 CEP: 49015-130 Aracaju - Se cbp_br@ig.com.br www.cbp.org.br PROJETO GRÁFICO Valdinei do Carmo EDITORAÇÃO DE TEXTO E IMAGEM Antônio Almeida REVISÃO José Araújo Filho (UFS) - Português Fernanda Gurgel Raposo - Inglês
  4. 4. Círculo Brasileiro de Psicanálise – CBP DIRETORIA Presidente Déborah Pimentel Vice-presidente Cleo Malmann Primeira Secretária Patrícia Aranda Garcia de Souza Segunda Secretária Maria das Graças Araújo Primeira Tesoureira Cecília Tereza Nascimento Rodrigues Segunda Tesoureira Patrícia Aranda Garcia de Souza Editores da Revista Déborah Pimentel e Ricardo Azevedo Barreto Consultoria Administrativa e Diretoria Científica Carlos Pinto Corrêa Cibele Prado Barbieri Maria Mazzarello Cotta Ribeiro Anchyses Jobim Lopes Revista Eletrônica e home-page Cibele Prado Barbieri Representante junto à Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras Anchyses Jobim Lopes
  5. 5. Círculo Brasileiro de Psicanálise – CBP INSTITUIÇÕES FILIADAS Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro - CBP/RJ Av. Nossa Senhora de Copacabana, 769/504 - Copacabana CEP: 20050-002 - Rio de Janeiro - RJ Tel: (21) 2236 0655 Fax: (21) 2236 0279 E-mail: cbp.rj@terra.com.br Site: www.cbp-rj.com.br Círculo Psicanalítico da Bahia - CPB Av. Adhemar de Barros, 1156/101, Ed. Máster Center - Ondina CEP: 40170-110 - Salvador - Ba Tel /Fax: () 3245 6015 E-mail: circulopsi.ba@veloxmail.com.br Site: www.circulopsibahia.org.br Círculo Psicanalítico de Minas Gerais - CPMG R: Maranhão, 734/3º andar - Santa Efigênia CEP: 30150-330 - Belo Horizonte - MG Tel: (31) 3223 6115 Fax: (31) 3287 1170 E-mail: cpmg@cpmg.org.br Site: www.cpmg.org.br Círculo Psicanalítico de Pernambuco - CPP R: Desembargador Martins Pereira, 165 - Rosarinho CEP: 52050-220 - Recife - Pe Tel: (81) 3242 2352 Fax: (81) 3242 2353 E-mail: circulopsicanaliticope@yahoo.com.br Site: www.circulopsicanaliticope.com.br Círculo Psicanalítico do Rio Grande do Sul - CPRS R: Senhor dos Passos, 235 / 1001 - Centro CEP: 90020-180 - Porto Alegre - RS Tel/Fax: (51) 3221 3292 E-mail: circulopsicanaliticors@gmail.com Site: www.cbp.org.br/cprs Círculo Psicanalítico de Sergipe - CPS Praça Tobias Barreto, 510/1208 - São José Ed. Centro Médico Odontológico CEP: 49015-130 - Aracaju - Se Tel: (79) 3211 2055 E-mail: cps@infonet.com.br Site: www.circulopsicanalitico-se.com.br Sociedade Psicanalítica da Paraíba - SPP Av. Presidente Epitácio Pessoa, 753 sl.803/804 - Bairro dos Estados Ed. Central Parque CEP: 58030-000 - João Pessoa - Pb Tel/Fax: (83) 3247 4025 E-mail: sppb@uol.com.br Site: www.sppb.com.br
  6. 6. Sumário 11 13 Editorial Psicopatia da vida cotidiana Psychopath of everyday life Déborah Pimentel 21 O ofício – quase impossível - do psicanalista The job – almost impossible - of the psychoanalyst Anchyses Jobim Lopes 33 Casa da árvore, um lugar para brincar e conversar: uma proposta de atendimento coletivo para crianças de zero a doze anos em comunidades carentes do Rio de Janeiro e Niterói Casa da Árvore, a place for talking and playing: a collective treatment proposal for children from 0 to 12 years old in destitute communities in the cities of Rio de Janeiro and Niterói Beatriz de Souza Lima 49 O nome do pai e o laço social no Grande Sertão: Veredas The Name of the Father and the social bonds in “Grande Sertão: Veredas” Eliana Rodrigues Pereira Mendes 55 Questões sobre a psicopatologia do amor quotidiano Questions about the psychopathology of everyday love Isabela Santoro Campanário 61 Mídia e o espelho da masculinidade? The media and the mirror of masculinity? Júlio César Diniz Hoenisch Carlos da Silva Cirino 75 Nachträglichkeit: leituras sobre o tempo na metapsicologia e na clínica Nachträglichkeit: readings about time in metapsychology and clinic Luis Maia Fernando Cézar Bezerra de Andrade 91 O escorpião e o sapo: o quê da perversão The scorpion and the frog: the point of perversion Maria Beatriz Jacques Ramos 101 Das origens da sexualidade feminina ao feminino nas origens da psicossexualidade humana From the feminine sexuality to the feminine into the human psychosexuality origin Maria das Mêrces Maia Muribeca
  7. 7. 109 A clínica do traumatismo sexual: mediação e desengajamento do traumático The clinic of sexual trauma: mediation and trauma disengagement Philippe Bessoles Marilúcia Lago117 O que será: indagações da paixão What will it be: investigations of passion Miriam Elza Gorender125 A patologização da normalidade The pathologization of normality Paulo Roberto Ceccarelli137 Psicanálise e arte: o programa de humanização no hospital São Lucas em Sergipe Psychoanalysis and art: the humanization programme in São Lucas hospital in Sergipe Ricardo Azevedo Barreto147 Psicanálise e crítica literária Psychoanalysis, literature and literary criticism Stetina Trani de Meneses e Dacorso
  8. 8. Editorial O Círculo Brasileiro de Psicanálise fomenta uma convivência frutífera da hete-rogeneidade do pensamento psicanalítico em seu meio. Não defendemos uma Psica-nálise enclausurada e dogmática, mas um lugar para o psicanalista atento às proble-máticas atuais. Nossa perspectiva teórico-metodológica se reflete em nossas produções cien-tíficas. Alcançamos com êxito e muito esforço nesta edição o número 33 da revistaEstudos de Psicanálise que – como um caleidoscópio – desenha uma pluralidade desaberes e/ou práticas psicanalíticas de membros de nossa Federada e expoentes dediferentes instituições de nosso país e do exterior. Muito nos honra produzirmos, como editores da revista, no biênio vigente daDiretoria do Círculo Brasileiro de Psicanálise, nosso segundo exemplar. Mais ainda,por termos travado, como meta, a produção de dois periódicos por ano, com notávelqualidade técnico-científica, o que só se tornou possível com as valiosas contribuiçõesdos conselheiros de nossa publicação e dos profissionais que trabalham conosco naconsecução do projeto gráfico, da editoração de texto/imagem e da revisão sistemáticade linguagem. A história de nossa revista de quatro décadas e o alcance de nossas produções,que chegam à totalidade da Rede Brasileira de Bibliotecas da Área de Psicologia eultrapassam as fronteiras da brasilidade, exige-nos cada vez mais rigor científico. É oque buscamos incessantemente. Por outro lado, a beleza da Psicanálise nos motiva e permite enfrentar os desa-fios e o mal-estar na civilização. A capa que reveste os instigantes textos que aqui seencontram, portanto, não poderia ser menos do que encantadora, um convite ao ima-ginário, a nos depararmos com as dualidades e profundezas da alma humana. Conviteesse que, de forma calorosa, reiteramos a todos os leitores deste acervo de escritos. Déborah Pimentel e Ricardo Azevedo Barreto Editores
  9. 9. Psicopatia Da Vida Cotidiana1 Psychopath of everyday life Déborah Pimentel2Palavras-chavePsicopatia, perversão, lei, tratamento.ResumoA autora faz uma análise das notícias veiculadas pela imprensa e a partir delas percebe-se ogrande número de pessoas que são vítimas de gente inescrupulosa e mentirosa e a dificuldadeque temos de identificar esses sujeitos perversos que gravitam ao nosso redor. São pessoasque se recusam a viver frustrações e capazes de atrocidades e de recursos ilícitos ou agres-sivos para alcançarem o que desejam a despeito da lei e que recorrem às mentiras, trapaçase crueldades. A autora conclui que não existe uma resposta psicanalítica para os psicopatas,pois ela só existe para um pedido daquele que se dirige a um psicanalista. O tratamento paraa psicopatia, se é que existe, é de ordem social e de caráter educativo. O homem é a medida de todas as coisas. Vivemos uma terceira fase: a socieda- Platão de do espetáculo, narcísica e perversa. Palavras antes usuais, como solida- Estou triste. Muito triste. Vi os homens de riedade e companheirismo, por exemplo, perto. De muito perto. desapareceram do vocabulário e das rela- Antoine de Saint-Exupéry ções do cotidiano. Os índices de violência são crescentes, quer nas ruas, quer nas áreas Houve um período em que a maioria privadas; reinam a intolerância e a insegu-da população era bem neurótica. Para me- rança.lhor definição, histérica. Estragavam tudo no Somos uma sociedade em que o sta-melhor da festa para dormir com um gigante tus social e a imagem que o sujeito constróisentimento de culpa, cheios de ansiedade e e vende de si mesmo é que vão dizer da suade tranquilizantes. importância como sujeito. Há uma cultu- Mais adiante a sociedade deprimiu e ra da mais valia, da Lei do Gérson, do le-nunca se falou tanto, e se prescreveram tan- var vantagens em tudo, ser esperto. Valorestos psicofármacos para a alegria dos labora- como honestidade, nobreza, generosidade,tórios. amizade são ignorados ou tidos como atri- Os tempos mudaram, e as manifesta- butos de pessoas bobas ou ingênuas.ções psíquicas apresentam-se de forma vis- Talvez esta seja uma grande oportu-tosa, quer no uso das drogas, no consumo nidade de dialogarmos com outras áreas doexacerbado, no jogo patológico, no uso alie- conhecimento e oxalá, articularmos melhornante do computador, no culto ao corpo, nos nossos pensamentos entre a Lei e a Cultura,transtornos alimentares, ou ainda nas trans- em um momento em que vivemos uma cri-gressões e violência. se que denuncia a falência das instituições1 Discurso proferido na abertura do XVIII Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, dia 20 de maio de 2010 no Rio de Janeiro.2 Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise para o Biênio 2008-2010. Editora da Revista Estudos de Psicanálise. Doutoranda em Ciências da Saúde, curso do Núcleo de Pós-graduação em Medicina da Univer- sidade Federal de Sergipe. Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010 13
  10. 10. Psicopatia da vida cotidiana pilares da sociedade: família, igreja e gover- A Igreja Católica também tem sido, no. nos últimos meses, a vedete de grande cons- No seio familiar, protegem-se demais trangimento público e tenta, desarticulada e os filhos, e se diz a eles apenas o que eles desajeitadamente, se redimir dos seus peca- querem ouvir; os pais antecipam-se aos seus dos, porquanto, por décadas, as autoridades desejos, não permitindo que aos filhos nada eclesiásticas têm sido omissas e até coniven- falte. Gravíssimo pecado dos tempos atuais. tes com os padres pedófilos, que por sua vez, Observem, pois, os filhos da atualidade. passam o dia falando no amor e temor às leis Eles são esvaziados de desejos e de projetos. de Deus. São simulados. Não sabem o que querem ser no futuro, não Há poucos dias, uma notícia na Folha sabem o que vão fazer amanhã, não querem de São Paulo nos arrebatou pelo seu conte- pensar. Estão insuportavelmente insatisfeitos, údo: um falso padre enganou fiéis por dois se dizem infelizes e incompreendidos. anos com homilias impecáveis, realização Quando frustrados, se são crianças, fa- de casamentos, batizados, missas e ouvindo zem crise de birra, deitam no chão, gritam e confissões. esperneiam e conseguem o que querem ime- É frequente assistirmos governantes diatamente, principalmente se estão em pú- explicarem com naturalidade desvios de blico, por saberem como constranger os pais. verbas públicas, caixa dois, mensalões, ma- Desde muito pequenos aprendem rápido las de dinheiro, frutos de improbidades, cor- como manipular os adultos, principalmente rupção e sonegação. os que se sentem culpados pelo seu estilo de Há uma ausência de culpa ou remorso vida: muito trabalho e pouca atenção aos fi- e total falta de constrangimento dessa tribo lhos, que crescem cheios de presentes e pouca política, quando pegos em flagrante com presença dos pais. Quando se tornam adultos, dinheiro nas cuecas e meias, ou mentindo, são intolerantes às diferenças e se recusam a como certa candidata ao cargo de presiden- viver frustrações; são capazes de atrocidades te da República que fraudou seu curriculum e de recursos ilícitos ou agressivos para al- lattes, dizendo que era mestre e doutora sem cançar o que desejam a despeito da lei e de ser uma coisa ou outra. obstáculos de qualquer natureza. Recorrem Os políticos possuem, como bons psi- às mentiras, trapaças, crueldades. copatas, um grande talento para distorcer as Se abrirmos os jornais ou assistirmos regras, reinterpretar as leis a seu favor, ou as ao noticiário da televisão com um novo reinventar e, simultaneamente, levantam a olhar, facilmente perceberemos a extensão ética como bandeira e entram em movimen- desse problema que é absolutamente estar- tos de combate à corrupção. Claro que nem recedor. Senão, vejamos. todos os políticos são psicopatas, mas não Há poucas semanas, nos noticiários, há dúvida de que psicopatas amam o poder vimos a condenação dos pastores Estevam e e por isso se interessam tanto pela política. Sonia Hernandes, líderes da igreja Renascer Definitivamente não há, aparentemen- em Cristo, que deixaram de prestar contas te, mais nenhuma reserva ética e moral. So- de uma das suas ONGs, mas que também brou muito pouco ou quase nada. Vivemos vêm sendo processados por centenas de fi- em um mundo competitivamente selvagem éis e pelo próprio Ministério Público por e sem lei, principalmente para muitos que sonegação, fraudes e enriquecimento ilícito estão no poder e que manipulam as regras às custas das doações dos seguidores de sua de acordo com as suas conveniências. igreja. A dupla já cumpriu pena de prisão em Sem leis rígidas, a violência se torna Miami por tentar ingressar nos Estados Uni- crescente, e, em contrapartida, a impuni- dos com 56.000 dólares não declarados. dade em alguns segmentos torna-se uma14 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010
  11. 11. Psicopatia da vida cotidianaaberração e uma agressão ao bom-senso dos 31 anos criou dispositivos financeiros quecidadãos do bem. arruinaram muitos clientes, principalmente Estamos próximos ao período eleitoral viúvas ingênuas, em favor do banco, venden-e, é assustador vermos a grande massa abso- do papéis que sabia serem podres, atitudelutamente desinformada e manipulada e as- descrita por ele mesmo em e-mails confes-sim capaz, pelo seu número de eleitores, de sionais para a namorada como monstruosi-deflagrar resultados em troca de cestas bási- dade, mas que renderam muito para o bancocas. É espúria a relação do governo federal e muitos bônus e prestígio para ele próprio.com grupos rurais organizados que recebem Há de se desfiar um rosário de exem-sua ajuda, aval, financiamento e leniência e plos sobre as psicopatias do cotidiano. Nuncainvadem terras produtivas, destroem, depre- se falou tanto em assédio moral e, mais recen-dam e saqueiam propriedades privadas em temente em bullying, outra modalidade de as-cenas de banditismo explícito. sédio caracterizada pela humilhação promo- Na polícia, floresce um meio propício vida entre escolares, crianças e adolescentes,para os psicopatas e talvez isso seja mais um que desestabiliza as vítimas, promovendo si-ponto a ser estudado, pois não há procedi- nais de depressão, ansiedade, angústia, commentos para evitar que eles entrem nessa muitas lágrimas, medo e constrangimentos einstituição, que é bastante atraente, por lhes com francos efeitos no corpo e na alma.conferir poder e legitimidade para as suas Por vivermos em tempos modernos,ações, não raro descritas pela mídia como de era cibernética, agora falamos também emmuita crueldade. cyberbullying: os agressores também es- Existem empresas que têm essas carac- tão on-line. Como mais de dez milhões deterísticas também, pois não respeitam acio- jovens brasileiros têm uma relação quasenistas, sócios, funcionários, nem consumido- visceral com a internet, local de encontrosres e clientes. Organizações que burlam seus e bate-papos no MSN, Orkut, Facebook eresultados para vender melhor as suas ações agora Twitter, os agressores, quando criamna bolsa ou as que fraudam o peso de merca- falsos perfis ou comunidades especializadasdorias, como as duas importantes fábricas de em agredir e denegrir, conseguem promo-chocolates Lacta e Garoto, que foram autua- ver uma dor inexorável ao manchar umadas no mês de maio deste ano pela Secretaria identidade e uma imagem ainda em cons-de Direito Econômico do Ministério da Jus- trução. É o inferno cibernético.tiça, por não avisarem aos consumidores que Precisamos, sem dúvida, revisitarseus ovos de páscoa estavam pesando menos conceitos básicos que parecem perdidos:do que os tamanhos anunciados e assim aufe- ética, empatia e tolerância; eles farão di-riram importante lucro com estas manobras. ferença na nossa compreensão do mundo Nas empresas, portanto, psicopatas es- moderno que traz como marca a psicopatiatão instalados com sucesso. Eles possuem os da vida cotidiana.principais atributos desejados pelos líderes Há alguns dias, vimos uma cena noempresariais, como ambição, inteligência, noticiário que beira o inimaginável: umacapacidade analítica e de liderança, carisma mulher sendo assaltada e lutando com oe disposição para enfrentar desafios. bandido para defender sua bolsa dentro de Muitos se sentem atraídos por ativida- uma delegacia, enquanto os policiais assis-des de alto risco com perspectivas de altos tiam à cena e não moveram um único mús-retornos. A Revista Veja do dia 5 de maio de culo, esboçando sequer um discreto gesto2010 traz a história de Fabrice Tourre que tra- de impedimento da agressão.balhava para o mais importante banco de Wall A violência dos dias atuais tanto podeStreet: Goldman Sachs. O jovem executivo de ser à luz do dia, nas ruas ou na delegacia, Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010 15
  12. 12. Psicopatia da vida cotidiana explícita, como aquela protagonizada pela mos ou voltarmos a nos instrumentalizar de ilustre promotora na intimidade de sua casa, forma adequada para estas reações. onde torturava covardemente sua indefesa Quem sabe, os pais e professores não filha adotiva de apenas dois anos de idade; poderiam ser mais bem instrumentados para como aquela outra, não se sabe qual mais perceber, ainda nas crianças e adolescentes, perversa, praticada pelo Estado omisso, em sinais precoces de transtornos de conduta: que se veem crianças, adultos e velhos aban- mentiras, crueldade e frieza emocional com donados nas ruas à própria sorte e privados ausência de culpa, transferência de respon- de satisfações mínimas para uma existência sabilidades, postura de desafio com pais e com dignidade e, por conseguinte, dos seus professores, vandalismo, fraudes, uso preco- direitos como cidadãos, garantidos, parado- ce de álcool e drogas. xalmente, por que não dizer, ironicamente, Sabe-se que a psicopatia não tem cura, pela nossa Carta Magna. mas, quem sabe, se um olhar mais atento O pior, entretanto, pasmem, nós es- não poderia ser útil, senão, de forma exa- tamos entorpecidos diante dessas notícias e geradamente otimista, evitando um quadro cenas brutais e assistimos a elas muitas vezes mais exacerbado de psicopatia na vida adul- sem reação, sem afeto, sem nenhuma indig- ta, mas também, principalmente, protegen- nação. E com essa capacidade perdida, já há do possíveis vítimas e evitando suas trágicas algum tempo, na verdade, cremos que em- e nefastas ações. botamos também a capacidade reflexiva. É a Nem sempre os psicopatas são identi- mídia, repetindo exaustivamente relatos dos ficados, depende muito do grau de psicopa- dramas familiares e cenas de barbárie, como tia, se baixa, moderada ou grave. Muitas ve- as que envolvem o goleiro Bruno que mandou zes, convive-se com eles no cotidiano, pois assassinar a sua ex namorada com requintes nem todos se transformam em marginais ou de crueldade, que cria em nós um efeito de assassinos, e levam uma vida aparentemente comoção, que não sabemos ser natural ou ar- normal, exercendo seu grande poder de se- tificial. dução, manipulando, traindo, tirando van- A violência e a vida foram banali- tagens e fragilizando os mais vulneráveis, zadas. A maldade dança sob nossos olhos em relacionamentos predatórios com quem ininterruptamente e se maquia e se masca- cruzam pelo caminho e que podem tornar- ra de diversas formas, de sorte que para os se presas fáceis do seu gozo perverso. que tomam conhecimento dela, quer como Existem também aqueles que se trans- testemunhas oculares, quer nos noticiários, formam em homicidas ou, pior, serial killers. seus efeitos são inócuos e é aceita como algo Não faltam exemplos. O mais recente foi há natural do cotidiano. Entretanto ela é devas- três meses, um fato de grande comoção e re- tadora para quem é a vítima, a ponto de o percussão social. Mediante o regime de pro- sujeito, em certas circunstâncias, não mais se gressão de pena, um benefício foi concedido equilibrar, e fenecer, morrer. ao pedreiro Admar que trazia Jesus no nome, No reino animal, o homem é o único assassino confesso de seis jovens de Luziânia capaz de matar e tem inclusive o requinte de (GO), e que cumpria pena por crime de pe- planejar a morte de outros de sua espécie, dofilia. Por ter bom comportamento, o juiz movido por retaliação, ambição, conveniên- decidiu pela soltura, mesmo havendo um pe- cia, pela incapacidade de gerenciar as dife- dido da promotora do caso para um segun- renças ou por mero prazer. do exame criminológico. Ele foi liberado e Uma das perguntas que podemos nos voltou a matar. Ato contínuo e tardio, dia 15 fazer é se de alguma sorte não poderíamos de abril de 2010, o Ministro da Justiça, Luiz resgatar a nossa capacidade de nos indignar- Paulo Barreto, defendeu a realização obriga-16 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010
  13. 13. Psicopatia da vida cotidianatória de exames criminológicos com avaliação to a estuprar”. Perversa, portanto, é a lei queampla da capacidade para convivência social, quer tratar os diferentes de forma igual aosantes da soltura de presos que apresentem dis- demais e que deixa a sociedade desprotegi-túrbios de comportamento, evitando riscos da. Parece que passou da hora de se reverpara a segurança da sociedade. a lei para crimes hediondos. Da psicopatia A psiquiatra forense Hilda Morana foi não se pode esperar cura, redenção ou rea-a Brasília em 2004 tentar convencer deputa- bilitação social.dos a criar prisões especiais para psicopatas. O Ministro da Justiça reconhece queConseguiu fazer a ideia virar um projeto de as pulseiras eletrônicas também não resol-lei, que não foi aprovado. Parece que se faz vem o problema, mas podem ser uma fer-necessária a comoção nacional diante de um ramenta importante na fase de reintegraçãonovo crime que poderia ter sido evitado para (que não deveria existir) e liberdade condi-que se force o endurecimento da lei. cional. Preso novamente, Admar de Jesus, As nações que fazem o diagnóstico dos morreu na prisão em condições pouco es-marginais reclusos têm a reincidência dos cri- clarecedoras. Possivelmente foi punido pelaminosos diminuída em dois terços, uma vez lei dos presos, que abominam pedófilos eque mantêm mais psicopatas longe das ruas. estupradores. Lá a lei é dura e invariavel- Se tivesse havido a aplicação de algum mente é aplicada.sistema de segurança, com exames e até pul- Enfim, a psicopatia cotidiana está aí,seiras eletrônicas, após a soltura desses de- está aqui, ao nosso redor, e é muitas vezeslinquentes, quem sabe, teriam sido evitadas imperceptível e passa-se a conviver comnovas vítimas. ela. Disfarçados, os psicopatas vivem suas Apesar de a origem da palavra psicopatia vidas quer como cândidos religiosos, bonsvir do grego (psyche = mente e pathos = doen- políticos, quer como amantes encantadoresça) ela não é considerada uma doença mental. e amigos queridos, entretanto simultanea-O Ministro da Justiça parece saber que os psi- mente arruínam emocional, física ou finan-copatas não são loucos e, portanto, imputáveis, ceiramente os incautos que a eles se asso-pois essas pessoas não apresentam nenhum ciam, profissional ou pessoalmente.sofrimento mental, nem sofrem de alucinações Existem múltiplas teorias e explica-ou qualquer tipo de desorientação. ções acerca da gênese da psicopatia, incluin- Os psicopatas sabem o que estão fa- do aquelas sobre as quais nós, psicanalistas,zendo, têm ampla consciência dos atos que sabemos tão bem discorrer e que dizempraticam e não sentem nenhuma culpa ou respeito às questões do romance familiar,remorso por nenhuma maldade feita. Eles o nome do pai e o meio cultural, mas, emsabem distinguir as diversas nuances da rea- tempos de francos avanços nos estudos ge-lidade, sabem o que é certo e o que é errado, néticos, não podemos ignorar outras con-ou que é bom e ruim, sabem reconhecer a lei tribuições inclusive as que apontam altera-e, se a transgridem, é pelo simples prazer de ções do sistema límbico, área responsávelfazê-lo: é de sua natureza. pelas emoções justificando a racionalização A experiência do judiciário revela tam- e a frieza desses indivíduos. Para os neuro-bém que psicopatas são reincidentes, e devem logistas, a organização e sinapses do cérebroficar reclusos para sempre, para a segurança de um psicopata são estruturalmente dife-da sociedade, a despeito das leis brasileiras rentes dos de uma pessoa normal. No anoque não permitem que alguém cumpra mais 2000, dois neurocientistas, o neuropsiquia-de trinta anos de reclusão. Muitos psicopatas tra Ricardo de Oliveira-Souza e o neurolo-dizem de forma desafiadora, despudorada e gista Jorge Moll Neto, identificaram, atravésescancarada: “se me soltar, volto a matar, vol- de ressonância magnética, as partes do cé- Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010 17
  14. 14. Psicopatia da vida cotidiana rebro ativadas quando as pessoas fazem jul- final de uma análise, espera-se que o sujeito gamentos morais. possa perceber, no seu sofrimento, a parte de A maioria dos voluntários ativou uma gozo que o compromete. O que muda não é o área chamada Brodmann 10 ao responder sintoma, nem tampouco é o sofrimento, mas às perguntas. Esses mesmos pesquisadores, a posição subjetiva, e isso vai na contramão cinco anos depois, repetiram o experimento da psicoterapia. Assim, conclui-se que quem com pessoas diagnosticadas como psicopatas tem algo a fazer nas instituições é a psica- e verificaram que elas ativavam menos essa nálise como uma teoria e forma de refletir e área cerebral, ratificando que os sujeitos com entender os processos, e não os psicanalistas, transtornos dessa natureza são incompetentes como bem apregoa Jean-Jacques Rassial. De- para sentir o que é certo e o que é errado. finitivamente, não existe uma resposta psica- Do nosso lado, verificamos, como psi- nalítica para os psicopatas, ela só existe para canalistas, que a lei paterna, ou o Nome-do- um pedido daquele que se dirige a um psica- pai, dá consistência simbólica à linguagem e nalista. O tratamento para a psicopatia, se é tem como função inaugurar o social através que existe, é de ordem social e, portanto, não da separação mãe-filho, o que favorece a en- é terapêutico e, sim, educativo. trada do sujeito no mundo das representa- A psicanálise não é capaz de modificar ções simbólicas, ou seja, a criança vai ter que a natureza humana, mas talvez possa revelar colocar alguma coisa no lugar da ausência da possibilidades para essas inclinações pouco mãe, fazendo articulações e substituições de nobres. ordem simbólica. Na psicopatia, o que falha Banalizar a violência é, de alguma não é o pai simbólico nem o pai imaginário, sorte, preservá-la ativa, diluindo simboli- mas o pai real. Nome-do-Pai é o não fundan- camente seus efeitos daninhos e de alguma te, o primeiro, o inicial, é o pai que diz não. O forma não se comprometendo com suas ma- pai real é, por conseguinte, este que diz não nifestações. Não podemos nos esconder em para permitir que exista o nome.  frases feitas: “violência é da natureza do ho- A perversão é a maneira como um su- mem” e sucumbirmos a sua virulência. jeito, na sua relação com o outro, recusa a im- Vale a pena lembrar Freud, que nos diz possibilidade de um gozo infinito e completo. que a violência não é resultado da constru- Considerando que o discurso do pai é aquele ção social, mas é fundante: existimos como que organiza o Édipo na constituição do su- grupo social a partir do assassinato do pai pereu edípico, e o discurso do mestre é o que da horda primitiva. Existimos e nos organi- organiza o Édipo na constituição do supereu zamos a partir de um ato violento. Violento, cultural, percebemos que o psicopata não faz é verdade, mas também justo e necessário, a passagem do discurso do pai para o discur- pois deu um basta ao gozo ilimitado do pai, so do mestre, que parecem contraditórios e criando um código de ética que gravita em requerem dele uma escolha: um ou outro. E, torno da culpa e no qual ficou estabelecido se na psicopatia o que falha é o supereu cul- também que matar não era mais legítimo ou tural, a primeira resposta deve ser, portanto, permitido. Violência e poder estão no DNA institucional. A razão específica disso é que as da lei fundante da civilização. instituições, assim como as psicoterapias têm A cultura terá que se haver com es- um projeto bem definido, que é o ideal de sas questões. Na atual sociedade, na qual há normalização e que não tem nada em comum uma busca da satisfação a qualquer preço e o com a psicanálise que praticamos na nossa ser sucumbe ao ter, percebemos uma grande clínica, que não quer normalizar ninguém. valorização da satisfação da pulsão, favore- No final de uma terapia, espera-se que cendo um gozo sem limite que impede uma haja uma mudança do quadro patológico. No genuína relação afetiva com o objeto e que18 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010
  15. 15. Psicopatia da vida cotidianasignifica um crescente desligamento dos va- manteiga mais frescos, flores em minha jane-lores éticos e morais. la e algumas belas árvores em frente à minha Os psicanalistas não têm fórmulas má- porta; e, se Deus quiser tornar completa a mi-gicas ou saídas. Em um momento em que a nha felicidade, me concederá a alegria de versociedade busca nova ordem de valores, talvez seis ou sete de meus inimigos enforcados nes-a psicanálise possa colaborar com orientações sas árvores. Antes da morte deles, eu, tocadopor ser capaz de explicar a subjetividade e o em meu coração, lhes perdoarei todo o malnão-todo-racional que compõem o sujeito. que em vida me fizeram. Deve-se, é verdade, Talvez os psicanalistas tenham algo a perdoar os inimigos - mas não antes de teremdizer e dividir suas reflexões com as demais sido enforcados.áreas do saber, exercitando a sua dimensãoantropológica, buscando possibilidades de Encerramos fazendo nossas as pala-melhor compreender os laços sociais em vras de Bion em uma entrevista de 1992:uma interlocução interdisciplinar com edu- “leva-se um longo tempo para que alguémcadores, filósofos, antropólogos, sociólogos, saiba o pouco que sabe e um tempo maisassistentes sociais, profissionais do Direito, longo ainda para que esse alguém saiba ocientistas políticos e outros mais, inclusive muito que é saber sobre esse tão pouco”.com os profissionais do mundo financeiro, Construamos juntos um pouco dessepois o poder desejado pelos psicopatas tem saber.importante interface com a economia. Maslembremos: certamente aqui não se trata Keywordsde psicanálise clínica. Por outro lado, exis- Psychopath, perversion, law, treatment.tem perversões e perversões, e havemos deconsiderar essa psicopatia do cotidiano, essa Abstractperversão comum, e reconhecer que ela diz The author makes an analysis of news relatedrespeito em graus diversos a qualquer um. by the press and from them we see the large Propomos uma nova distribuição dos number of people who are victims of unscru-papéis dentro de uma nova responsabilidade pulous people and liars and the difficulty wedo sujeito, poderíamos dizer ainda, respon- have to identify these perverse individualssabilidade pelo destino do coletivo. Parece who gravitate around us. They refuse to liveque a única possibilidade de produzir sujei- frustrations and they are capable of atroci-tos capazes de identificar o que devem ao co- ties. They use illegal or aggressive resourcesletivo é a condição de que antes tenham eles in order to achieve what they want regardlesspróprios sido introduzidos pelo coletivo à of the law and they resort to lying, cheatingcondição humana via educação. and cruelty. The author concludes that there Uma coisa é certa, é preciso falar des- is no psychotherapy response to psychopaths,sa violência que impera no cotidiano, e até, because it only exists for a demand that it isquem sabe, elaborar a violência que nos fun- directed to a psychoanalyst. The treatmentda, e isso talvez possa ser feito nos tornando for psychopaths, if it exists, has a social andresponsáveis por um caminho simbólico para an educational character.a violência que habita em cada sujeito. Freud,para ilustrar isso em 1930, no seu texto Mal-estar na civilização, cita o poeta Heine: Minha disposição é a mais pacífica. Os meus desejos são: uma humilde cabana com um teto de palha, mas boa cama, boa comida, o leite e a Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010 19
  16. 16. Psicopatia da vida cotidiana Tramitação Recebido: 31/05/2010 Aprovado: 14/06/2010 Nome do autor responsável: Déborah Pimentel Endereço: Praça Tobias Barreto 510/1212. Bairro São José. CEP: 49015-130. Aracaju-SE Fone: (79) 3214 1948 E-mail: deborah@infonet.com.br20 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.13-20 – Julho. 2010
  17. 17. O ofício – quase impossível – do psicanalista The job – almost impossible - of the psychoanalyst Anchyses Jobim Lopes1Palavras-chaveReparação, cisão, clima incestual, resto inanalisável.ResumoA escolha do ofício de psicanalista: sublimação e reparação maníaca. Cisão e perda na relaçãoterapêutica. Quebra de ética: casos mais sutis. O clima incestual no divã. Manipulação de pa-cientes sob o disfarce de técnicas mais modernas ou humanas. O resto de análise e a escolhado ofício psicanalítico. Na Instituição Psicanalítica a produção cípios clássicos em uso. Mais que mantê-loscientífica se faz sobre os restos inanalisáveis, - eles constituem a salvaguarda ética da psi-fazendo desses traços secretos uma condição canálise e de sua eficácia terapêutica - trata-de formação permanente. se de aperfeiçoá-los. Carta de Princípios do Círculo O Centro de Atendimento Psicanalíti- Brasileiro de Psicanálise co (CAP) do Círculo Brasileiro de Psicaná- lise (CBP-RJ) constitui uma forma de clíni- ca social, atendendo a preços muito abaixo [...] a formação compõe-se de um tripé: do usual. Recebeu 299 (duzentos e noventaanálise pessoal, teoria e prática clínica super- e nove) pacientes em pouco mais de quatrovisionada, sendo o primeiro item o mais im- anos (17/11/2005 a 18/3/2010). Com a pro-portante. Igrejas ou universidades não podem posta de que todos os pacientes estejam emexigir ou garantir uma análise pessoal [...] supervisão coletiva ou individual, é exclu- Maria Mazzarello Cotta Ribeiro e sivo para tratamento pelos Candidatos do Anchyses Jobim Lopes Curso de Formação Psicanalítica. Através do CAP, mais de duas dezenas de candida- tos realizaram parte de sua prática clínicaINTRODUÇÃO: supervisionada.O RETORNO À CLÍNICA Enquanto o trabalho em uma insti- tuição psicanalítica permanecer no campo Preceitos como neutralidade, abstinên- das aulas e seminários, por mais que temascia, sem conselhos ou tapinhas no ego para clínicos sejam escolhidos, mais parece-muitos se trata de uma ortodoxia fria e ob- rá uma reunião de chefs de cuisine discu-soleta. Será? E como concorrer com o festival tindo tratados de culinária. Mas, quandode terapias intervencionistas ou receitas da uma instituição psicanalítica toma a deci-auto-ajuda tão em moda? Mantendo os prin- são política de sentar à mesa, investir em1 Psicanalista e Membro Efetivo do Círculo Brasileiro de Psicanálise- Seção Rio de Janeiro, Médico e Bacharel em Filosofia pela UFRJ, Mestre em Medicina (Psiquiatria) e em Filosofia pela UFRJ, Doutor em Filosofia pela UFRJ, Prof. Adjunto de Psicologia da UNESA; Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise-Seção Rio de Janeiro, ex-Presidente do Círculo Brasileiro de Psicanálise. Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 21
  18. 18. O ofício - quase impossível - do psicanalista sua clínica social, em supervisões coletivas ESCOLHA DO OFÍCIO e na apresentação de casos clínicos, sobre- De acordo com uma perspectiva freu- vém uma azia crônica. Mal-estar para o diana, a sublimação seria um dos meca- qual o único remédio eficaz é reviver todo nismos fundamentais para a compreensão o nascimento da clínica psicanalítica. Para de todas as escolhas profissionais. Por uma surpresa de alguns, por mais que os textos ótica kleiniana, a sublimação, conceito tão tenham sido lidos, na prática reencontramos valorizado e tão mal explicado na obra de que os fundamentos dos Artigos Sobre Técni- Sigmund Freud, teria por base a reparação ca de Freud (1978, xii) são todos válidos. E dos objetos primários. Na passagem da po- extremamente necessários. Através do CAP, sição esquizoparanoide para a posição de- permanentemente redescobre-se que os pre- pressiva, com a integração do objeto bom ceitos encontrados por Freud, no início da e do objeto mau em um único objeto, com Psicanálise, originaram-se de muita tentati- o reconhecimento de que o objeto amado é va e erro, de desastres clínicos e de alguns o mesmo que foi odiado e atacado, preva- impensáveis sucessos terapêuticos. lecendo a pulsão de vida sobre a pulsão de Simultaneamente, o aumento no nú- morte, a reparação surge para minorar o mero de membros efetivos, que dobrou sentimento de culpa. Tal como o dito popu- no período de dez anos, fez ressurgir ou lar: a criança morde e assopra. Com a cons- agudizar a dispepsia institucional crônica tatação de que o objeto é um só, cai-se no de que todas as instituições psicanalíticas dilema primeiro para que se mantenham sofrem, o que também nos leva a repensar todas as relações internas e externas: a re- a questão da clínica, e de seus efeitos cola- velação íntima para cada um de nós da tão terais, no seio da política institucional. Da decantada ambivalência universal dos seres discussão dos tratados teóricos já nascem humanos. Ambivalência: um dos conceitos acerbas, ou melhor, neuróticas, discussões. fundamentais para a compreensão de todo Mas as discussões sobre uma clínica efeti- o pensamento de Sigmund Freud e sua visão va conduzem tanto a propostas perversas trágica da natureza humana. A descoberta de abandono dos princípios clínicos bási- de que o objeto amado foi também odiado cos de Freud, quanto ao outro extremo, à e atacado torna-se um dos grandes motivos dificuldade também perversa de aceitar-se do sentimento de culpa. A integração do eu e a diferença, a de que há tantas psicanáli- da percepção do mundo na posição depres- ses quanto analistas e pacientes. Tornou-se siva também conduz a apreensão do tempo patente durante as supervisões que o afas- em seu sentido mais usual: passado, presen- tamento da técnica e da ética estava estrei- te e futuro. E agora não há como desfazer os tamente correlacionado com a análise pes- ataques do passado. Nem como evitar que soal dos candidatos. eventuais ataques sejam feitos no futuro. O efeito do manjar psicanalítico, tanto Surge, então, o cuidar dos objetos primários para os terapeutas quanto para a instituição, e a necessidade de procurar por novos obje- mais se parece com a sequela dos alimentos tos, para os quais agora os ataques possam defumados: deliciosos, mas devem ser inge- ser menores, uma preocupação maior, tanto ridos com parcimônia e cautela, pois pos- para evitar a agressão, como para minorar suem todos os hidrocarbonetos canceríge- as agressões feitas pelos objetos secundários nos do cigarro. E do charuto. contra si mesmos. Iniciemos pelo princípio: algumas re- A integração dos objetos parciais em flexões do por que se escolhe ser psicanalista. um objeto único conduz ao sentimento de22 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010
  19. 19. O ofício - quase impossível - do psicanalistaque não são coisas para minha satisfação, inato, um perigoso deslize biologizante demas seres humanos. Apenas dessa forma sua teoria. Para Klein as primeiras repara-ocorre a passagem para identificar-se ao ou- ções são maníacas: basta um desejo onipo-tro e sua diferença. Aqui estamos na verten- tente da criança e pouca ou nenhuma açãote positiva da ética kantiana (KANT, 1974), concreta para consertar. Assim é o reinoa proposta iluminista de uma ética: racio- das fadas e dos duendes, e o da maior partenal, universal e igualitária. É verdade que da religião. A integração crescente do eu eesta proposta, ao longo da história, como da realidade interna, paralela à integraçãobem foi estudada por Horkheimer e Adorno crescente da percepção da realidade exter-(1989) (e que inspiraram Lacan [1986]), re- na, conduz à percepção de quão ineficaz évelou seu outro lado, ou sua deturpação, em a reparação maníaca. Mas é um processoalgo desumano, mecânico e sádico. Mas de- longo. Falar em onipotência, em posiçãovemos propor um retorno a Kant, em que o esquizoparanoide é falar em uma era empreceito básico da ética é o reconhecimento que predomina o narcisismo infantil. Já nada alteridade, de que o outro não é apenas posição depressiva, esse narcisismo tem deum meio para obter meus fins, mas de que ser desinflado. Ou também podemos laca-também se trata de pessoa com sentimen- nianamente complementar, que, sendo otos e necessidades, um fim em si mesmo. Só imaginário a fonte especular do narcisismo,assim se pode dizer: coloquei-me na pele de tem de haver a predominância gradual doalguém. Esse colocar-se dentro da pele de simbólico. De qualquer modo, Klein e La-alguém, que fundamenta o imperativo cate- can concordariam que as feridas narcísicasgórico kantiano, que podemos compreender são inevitáveis.psicanaliticamente através da identificação, A observação e a prática mostram quee sem o qual a transferência seria impossí- aqueles que se dirigem a escolhas profissio-vel. Tanto quanto o supereu, que o próprio nais na esfera terapêutica precisam inter-Freud afirmou ser herdeiro do imperativo namente realizar mais reparações internascategórico, ambos são criaturas híbridas. e externas do que aqueles que optam porAmbos, Freud e Kant, demonstraram que, ocupações mais saudáveis. Desde os aca-sem uma internalização amorosa da lei, se- dêmicos de Medicina que frequentementeríamos sociopatas. desejam curar o câncer (quando não desco- Para a Sra. Klein, esse zelo, essa cura brir a cura definitiva), passando pelos estu-do outro (cura - palavra latina, dentre outros dantes de Psicologia, ávidos por teorias quesentidos, para cuidado, encargo, inquieta- englobem tudo desde o fio de cabelo até oção amorosa, guarda, vigília) não cai do céu último axônio da medula, indo aos psicana-instantaneamente. Não se passa da posição listas que “explicam tudo” (o que é adjudi-esquizoparanoide para a depressiva num pis- cado a Freud, para quem era bem diferentecar de olhos. Logo não se passa à reparação acreditar na tese de que tudo poderia alguminstantaneamente. Um longo processo, em dia ser compreendido e não na crença deque a pulsão de vida deve predominar sobre que pessoalmente poderia elucidar tudo).a de morte, conduz desde mecanismos ne- Não nos esqueçamos de: terapeutas ocu-cessários, mas ainda pouco eficazes, esquizo- pacionais, enfermeiros, arteterapeutas, etc.paranoides, aos depressivos. Talvez por que Dito em kleinianês, as escolhas profissionaisnão tenha sido possível a Freud um insight nas áreas terapêuticas são frequentementemaior na natureza complexa da sublimação, fundamentadas em projetos de reparaçãofrequentemente ele a coloque como um dom maníaca. O fato é que todos os sistemas Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 23
  20. 20. O ofício - quase impossível - do psicanalista religiosos, e mesmo os filosóficos em sua CISÃO E PERDA maioria, tiveram em sua origem, e têm até o Os mecanismos esquizoparanoides presente, por função, socorrer o ser humano são necessários para a psique saudável duran- diante do desamparo e da angústia da mor- te toda vida. A cisão do eu, tão cara a Freud te, do sofrimento da doença e da injustiça. (1978, xxi, xxiii), principalmente em alguns Mesmo numa era em que a ciência falha em de seus últimos escritos, não estabelece ape- ocupar parte dessa função, não se justifica nas uma fonte para as perversões. Para Klein o messianismo manifesto ou disfarçado de a cisão é patológica quando permanente, seja muitos terapeutas, principalmente no caso por não ter ocorrido o predomínio dos me- dos psicanalistas. Muito menos suas crenças canismos da posição depressiva, ou por uma na associação com terapias alternativas, eso- regressão à posição esquizoparanoide. Existe terismos ou na mistura de psicologias com a cisão permanente que origina o fetichismo, religião. No caso da psicanálise, em sua cren- um dos conceitos básicos para a compreen- ça da terapia pela palavra, não é ético que se são das perversões. A importância das cisões, confunda o trabalho por meio do simbóli- reversíveis ou não, constitui um conceito clí- co com propostas ancoradas no imaginário. nico essencial também para o entendimento Principalmente se relembrarmos a função das psicoses. Mas pode-se defender a ideia de do imaginário no espelho e como receptácu- uma cisão benigna, parcialmente reversível, lo do narcisismo, no reforço do pensamento na vida diária e na prática profissional. Ao se- mágico e onipotente. parar o intelectual do afetivo, o eu-realidade Um analista ainda muito ungido de do eu-prazer, a cisão permite que a realida- seu narcisismo pode configurar um preda- de seja fria e desapaixonadamente percebi- dor terapêutico. O messianismo, e a asso- da. Isolando-se a angústia podemos tomar a ciação com práticas ancoradas no imagi- conduta mais útil em momentos de perigo e nário, são inevitavelmente potencializados manter a racionalidade quando decisões im- pela maior arma psicanalítica: a transfe- portantes devem ser tomadas. Pela cisão uma rência. Todo paciente possui problemas parte do eu é sustentada como mero observa- com sua imago paterna, logo o analista será dor de si mesmo e do mundo. empossado principalmente, e ainda mais Nenhuma das atividades na esfera no início da análise, como pai imaginário. terapêutica poderia ser exercida sem uma A investitura pelo suposto saber ocupa o grande tendência do profissional para a ci- lugar de um desejo falho, o de um pai que são. Um cirurgião em segundos pode ter tudo saiba, que tudo possa, que tudo salve: de tomar decisões dramáticas e executá-las o lugar de Deus. Por isso é necessário que com uma frieza impecável, deixando de lado o terapeuta, em sua análise pessoal, tenha que sob seu bisturi está um ser humano. E padecido de uma boa dose de feridas em Freud gostava de comparar a terapêutica seu narcisismo. Concordamos com Quinet psicanalítica com o procedimento cirúrgi- (2009, p. 121): co. O analista tem o dilema de ter de trans- O analista em sua análise deve ter experimen- ferir, mas ao mesmo tempo manter um eu tado a destituição narcísica e deve poder refa- observador implacável. Simultaneamente zer a terceira revolução copernicana, descrita deixar se envolver e não se envolver pelo por Freud, na qual o homem não é senhor paciente significa mantê-lo em certo tipo em sua própria casa, descascando uma a uma de fetichização, na qual não se pode negar como uma cebola suas identificações imaginá- a castração, tal como na defesa maníaca e rias que constituem sua persona, seu little me. nas verdadeiras perversões, mas que, à se- melhança do paciente de Freud (xxi, p.152)24 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010
  21. 21. O ofício - quase impossível - do psicanalistaatraído por mulheres com um certo brilho no Relatos profissionais da área de en-nariz (em alemão: Glanz auf der Nase), foca e fermagem ou de profissionais que cuidamposiciona a visão do analista, colocando toda de pacientes idosos ou terminais, por ve-realidade inter e intrassubjetiva entre parên- zes expõem que a frieza, da qual muitasteses, dando-lhe o dom de supervalorizar o vezes são acusados, também possui outraque passa por insignificante e desapercebido. motivação: as sucessivas perdas. O poucoCaso contrário, o analista tem seu trabalho ou não envolvimento, para muitos, é o queparalisado: pela angústia do paciente, por permite o cuidar de pessoas com as quaistodos os disfarces da resistência, pelas moti- se sabe que o relacionamento inevitavel-vações para ganhos primários e secundários mente terá um fim próximo e irreversível.dos sintomas e, mesmo, pela pura manipula- Neste, porém, temos o reflexo de outração por pacientes pouco escrupulosos. das características do ofício de analista. Outro exemplo, se o analista se dei- Apesar de opiniões contrárias, o analistaxar conduzir (ou melhor, seduzir), pelo que será sempre o ex-analista. Isso quer dizer:é dito, esquece da importância de observar a possibilidade de um convívio social oucomo é dito. Não se consegue notar os atos institucional é sempre limitada, artificialfalhos, o duplo sentido dos significantes, a ou francamente desaconselhável. Por me-predominância de palavras-chave no campo lhor que seja trabalhada a transferência,semântico. Assim, se, como o sultão Xariar, de ambas as partes, é inumano acreditardas Mil e uma Noites, o analista ficar com- em uma elaboração completa. Além dopletamente deslumbrado pelas estórias de fato de que todo analista conhece fatos esua Xerazade, não vai conseguir matar a cha- fantasias do paciente que não foram con-rada de sua neurose. Isto é, sem cisão, ou se tadas a nenhuma outra pessoa. A relaçãotransfere demais ou de menos. analista/paciente difere completamente de Claro que a importância da cisão e da qualquer outra, social ou institucional. Efetichização com o trabalho analítico implica é um caminho sem volta. O que implicagraves riscos. Todo fetiche constitui um obje- que, mesmo em uma análise que dure dezto idealizado. O terapeuta também se coloca anos ou mais, o caminho do paciente é aoa serviço da idealização e fetichização pelo mundo e aos outros. Distante ou próximo,paciente. Condição que pode ser útil ao iní- o fim do trabalho analítico é sempre a metacio da terapia. Mas, em médio prazo, deve-se desejável. E justamente, quando bem reali-lembrar sempre que a cisão benigna pode de- zada, a análise conduz sempre a seu fim ir-generar em um processo tipicamente esqui- reversível, sobretudo se acreditarmos quezoparanoide, e que idealização, além do nar- uma nova terapia ou uma re-análise futuracisismo incluído, constitui uma clássica de- deveria ser feita com outro profissional. Afesa maníaca. O analisando pode agudizar o clínica analítica, ao mesmo tempo em quepai idealizado e superegoico transferindo ao implica um investimento afetivo do tera-analista, numa figura ainda mais narcísica, o peuta, maior do que em qualquer outralugar no imaginário de Deus e do fetiche. E, modalidade de clínica, também implicatal o fetichista de carteirinha, o analista tam- perdas maiores que em qualquer outra.bém pode permanentemente desumanizar Aqui, derivados da cisão ou de mecanis-todo o resto do paciente em detrimento de mos independentes como o controle, osuas teorias e crenças, reduzindo-o ao certo triunfo ou o desprezo pelo paciente ocor-brilho no nariz. A frieza transitória de uma rem para minorar a perda. Controle, triun-situação cirúrgica torna-se a frieza perma- fo ou desprezo, nomeava assim a Sra. Kleinnente do perverso. as defesas maníacas. Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 25
  22. 22. O ofício - quase impossível - do psicanalista O NÃO LUGAR DO GOZO vidade de outros modos de gozo, aparente- mente menores. A experiência trazida pelo Ao longo do tempo, o setting deve relato de leigos, por alunos e candidatos à deixar de ser lugar de gozo do sintoma do formação, também em supervisões indivi- paciente. Se o paciente apresenta direta- duais ou coletivas, subscreve outro lado da mente o sintoma na consulta ao início do questão, tão grave quanto o abuso sexual. tratamento, ou se passar a fazê-lo através da Escreve Simon (2009, p.198): “Pela minha neurose de transferência, desfazer o sinto- experiência, os pacientes, são com mais fre- ma, ou a transferência, é desfazer o gozo. quência, explorados por dinheiro que por Do mesmo modo, é eticamente inadmissí- sexo”. Cremos que poucos analistas expe- vel que seja local de gozo do terapeuta. A rientes discordariam. Também foi feito o satisfação do terapeuta teria de advir do relato, em reuniões do Movimento de Ar- pagamento em dinheiro e do regojizo pelo ticulação das Entidades Psicanalíticas, de sucesso profissional. Teoricamente, porque que a primeira sugestão do aparelhamento uma quantia exagerada como pagamen- psicanalítico de pastores tenha sido feita na to também pode ser gerada por um dese- década de 80 do século passado pela igreja jo perverso de gozo. E, para completar, as evangélica mais famosa por sua avidez pelo motivações que conduziram o terapeuta a lucro e pelo poder político, assim como por sua escolha profissional, como vimos, ul- seu descomunal patrimônio. Quanto ao trapassam muito a necessidade concreta de problema da convivência institucional den- um ganha-pão. Grande parte do prazer do tro das sociedades psicanalíticas, a possibi- terapeuta está em reparar, através dos ou- lidade de exploração política é igualmente tros, seus próprios objetos internos. Como observável. Não que haja, na maioria dos tudo o mais quantitativamente exagerado, casos, uma intenção direta de dolo. Salvo o prazer terapêutico, derivado da sobra daqueles que podemos rotular predadores da análise pessoal, também pode ser ou se terapêuticos. transformar em algo perverso quando em O mesmo autor menciona que a maio- sua busca de gozo. Devem-se franzir ligei- ria das quebras de ética começa de forma ramente as sobrancelhas quando se escuta insidiosa, principalmente “entre a cadeira de alguém, que é paciente, algo como ter e a porta” (SIMON, 2009, p.199). Algumas tido uma sessão ótima porque meu analista perguntas aparentemente inofensivas pelos jogou um monte de verdades na minha cara. pacientes, outras respostas supostamente E também quando algum candidato ou co- anódinas pelo analista, mas que revelam lega relata algo como eu não sabia que era gostos pessoais. À parte sugestões de to- tão divertido tratar crianças. dos os tipos pelo terapeuta, seja no setting, Quando a quebra da ética é menciona- seja fora dele. Opiniões políticas sortidas da, ou é suposta a passagem de informações reveladas pelo analista. Um passo além e confidenciais a terceiros, ou quase sempre a solicitação de pequenos favores. No caso se pensa em uma relação sexual. Usemos o de vínculos institucionais, comentários so- chavão - rios de tinta foram escritos - para bre problemas da sociedade psicanalítica e assinalar a questão da quebra de ética na re- sobre colegas, ou até a indução de que se lação analista/paciente. Além da bibliogra- tome determinada posição partidária. Ou fia psicanalítica, muitos livros e filmes utili- seja, todos aqueles pequenos comentários zaram o tema, mas quase sempre se atendo sociais aos quais a não resposta fica pare- ao ato sexual. O que não pode ofuscar a gra- cendo falta de educação ou uma ortodoxia26 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010
  23. 23. O ofício - quase impossível - do psicanalistatécnica exagerada. Mas não o é. Transferên- mais se o analista, ao mesmo tempo, ocu-cia, resistência, regressão, Édipo, não desa- pa o lugar de professor na formação psi-parecem pelo simples ato mecânico de se canalítica (merece lembrança a propostalevantar do divã ou de uma cadeira. Pede- inicial do CBP-RJ, de que os professoresse a devolução ou compra de um livro, de não podiam ser analistas dos candidatos edoces e salgados, uma pequena arrumação vice-versa, proposta que, em longo prazo,em algo do consultório, uma conversa social mostrou-se inviável). Alunos e professo-após a sessão, uma pequena extensão desta res, análises à parte. E deixar-se o jargãopara poder se opinar melhor, talvez mar- psicanalítico de lado. Todo jargão simpli-car a sessão após o último paciente, quem fica o diálogo entre os pares de uma co-sabe é ainda melhor em um lugar fora da munidade científica, mas se constitui deneutralidade do setting, por exemplo, um reducionismos e chavões. Uma tarefa fun-barzinho. Caso o exemplo seja um tanto ca- damental do analista é embarcar no camporicatural, temos a gravíssima afirmação de semântico dos pacientes, sejam candidatosSimon (2009, p.199): ou não. Sem dar o valor de significado a palavras abstrusas e usar os próprios ter- Os estudos também mostram que a revelação mos que o paciente utiliza no vocabulário de informações pessoais por parte do terapeu- de sua vida cotidiana. Aliás, fato que não ta para o paciente, em particular de fantasias constitui qualquer novidade trazida pela sexuais e de sonhos, está correlacionada com psicanálise. Já no ensino médico se apren- uma transgressão sexual futura. dia a usar o máximo possível as palavras e expressões do paciente, entender através É direito dos pacientes atuar como Xe- delas suas queixas e, através delas, tentarrazade: na forma e no conteúdo, o discurso explicar o tratamento. Usar termos técni-da sedução. No caso do analista, é sua fun- cos com pacientes, além de ser pedante,ção primária estabelecer os limites. Tem-se é perigoso. Seja para médicos ou outrosde reconhecer que pequenos comentários profissionais, para os que desconhecem apessoais, a revelação de gostos e preferências, área psi, ou para colegas e futuros colegasposições políticas, além de inibir os pacientes analistas, é útil e bom lembrar, como o fazde manifestar opiniões opostas, também es- Hirigoyen (2009, p.116) que:tabelecem uma sutil ponte para criar nos pa-cientes imagens do terapeuta. Imagens cuja Um outro procedimento verbal habitual nostendência é serem investidas narcisicamente, perversos é o de utilizar uma linguagem téc-ao auxílio da transferência e da idealização. nica, abstrata, dogmática, para levar o outroO manejo da linguagem é arte do ofício psi- a considerações que ele não compreende, ecanalítico, mas também do de políticos e per- para as quais não ousa pedir explicações, porversos. O analista sabe que o suposto saber medo de passar por imbecil.com que é investido é uma espécie de farsa aser usada no bom sentido. Os pacientes não O CLIMA INCESTUALpossuem esse conhecimento. Ou, quando, nocaso de candidatos já em formação psicanalí- A dúvida se o trauma infantil foi realtica, eles o possuem e pela transferência, pas- ou apenas fantasiado, ou uma combinaçãosam a deixar de lado sua racionalidade. de ambos, atormentou Freud durante a O conhecimento teórico igualmente primeira década de suas descobertas. Empode ser mais uma arma de sedução. Ainda realidade, tratou-se de um fantasma que Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 27
  24. 24. O ofício - quase impossível - do psicanalista nunca deixou de afligi-lo e que foi revivido Em outro polo, podemos rotular de em suas discussões com Ferenczi. Discus- incestual um clima em que a intimidade en- são atualíssima, quando da descoberta, nas tre pais ou cuidadores e a criança ou o ado- últimas décadas, de que a incidência do lescente é utilizado de forma abusiva, uma abuso sexual infantil e do incesto é muito cumplicidade doentia. Neste caso, ocorre mais extensa do que o próprio Freud su- uma transgressão permanente da fronteira punha há um século. Assim como no caso entre relações de parentesco e relações so- de que a perda da ética, por uma posição ciais, em que os adultos, não suportando de gozo do terapeuta, é mais frequente seus problemas e angústias, tratam os filhos por abuso monetário que sexual, também como se fossem adultos, amigos íntimos e se deve pensar que o trauma não precisa até suplentes de cônjuge. ter se originado de um contato físico con- A aproximação ocorrida nas últimas creto, mas de todo um clima que podemos décadas entre pais e seus substitutos e fi- denominar de incestual. Escreve Hirigoyen lhos, pela qual a psicanálise teve um gran- (2009, p.60): de mérito, tem seu lado negativo em que muitas vezes se perde a noção de que pai ou O incestual é um clima: um clima em que sopra mãe, e melhor amigo(a) ou amigos(as) dos um vento de incesto sem que haja incesto. É o filhos, ou deles mesmos, são funções dife- que eu chamaria de incesto soft. Não há nada rentes. Dois exemplos quase caricaturais: a juridicamente condenável, mas a violência per- mãe que trata o filho como confidente ín- versa está presente, sem sinais aparentes. timo de seus problemas afetivos e sexuais, ou até como suplente do ex-marido; o pai Claro que este clima se torna mais que incentiva e acompanha voyeuristica- ou menos patogênico na medida em que é mente as primeiras experiências sexuais e potencializado pela situação edípica e pelas afetivas dos filhos. Consideram-se incestu- fantasias primevas. Englobam-se como in- ais esses e todos os casos em que se nega cestuais várias condutas. Num polo, a ero- ser o relacionamento parental, e familiar tização exagerada na primeira infância, na em graus mais distantes, carregado de tin- direção de uma sexualidade genital e fálica tas edípicas exageradas. Justamente o prin- e não daquela perversa polimorfa da crian- cipal motivo para a necessidade de amigos, ça. O que pode ocorrer por estímulos físicos e outros relacionamentos fora do núcleo diretos ou, o que é muito mais comum nos familiar, é a sua função exogâmica. A apa- dias atuais, pelos estímulos visuais e sonoros rente camaradagem ou intimidade, que da mídia. Há diferença entre o tesão adulto e muitas vezes em realidade encobre condu- ternura infantil (sem a qual os adultos tam- tas transgressivas entre pais e filhos, dife- bém não vivem). Como escreveu Ferenczi re do trabalho de: se preocupar, mas sem (1999, p.300, tradução do autor): exagerar na ansiedade transmitida; infor- mar, mas sem cair no pornográfico; vigiar (...) na verdade as crianças não querem, de e escoltar discretamente dando à criança e, fato, não podem ficar sem ternura (...) se mais principalmente, ao adolescente a sensação amor e amor de um tipo diferente do que elas de que está sendo livre, mas dando espaço precisam é forçado sobre as crianças no esta- para sua intimidade e experiências sexuais; do da ternura, pode conduzir a conseqüências mas, acima de tudo não transmitir em exa- patológicas do mesmo modo que a frustração gero suas próprias angústias e fantasias se- ou a retirada do amor (...). xuais, que serão sempre vivenciadas como28 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010
  25. 25. O ofício - quase impossível - do psicanalistaincestuosas pelos filhos. Com o agravante ma sessão e mesmo de que volte; um dia nãode que essas fantasias sexuais colocam a voltará nunca mais. Dentre os motivos quecriança ou adolescente a serviço do desejo podem causar ou acentuar o clima inces-do adulto e inibem aquelas fantasias que se- tual entre pais ou substitutos e filhos, estáriam próprias deles mesmos e de sua idade. a incapacidade de aceitar a perda e a pró-Difere da pedofilia explícita e da sedução pria depressão. Reparar os objetos internosde menores prevista no código penal, mas através dos filhos ou substitutos implica oo cerne da ética kantiana também é negado, reconhecimento de que a própria infância ee se instrumentaliza o outro como coisa a juventude ficaram para trás. Se todo pacien-serviço de si mesmo. te coloca o terapeuta como pai e mãe, para o analista ele é sempre uma espécie de filhoO CLIMA INCESTUAL NA TERAPIA ou filha. A situação transferencial repete o mesmo sentimento de ameaça da ausência O clima incestual pode ser criado e re- futura. A incapacidade de aceitar esse sen-vivido em qualquer terapia. A crítica contra timento, associada à fantasia de que, em sea neutralidade psicanalítica como algo anti- tornando colega, o paciente estará semprequado frequentemente serve de justificativa presente e sua falta nunca será sentida, le-para tratamentos mais modernos, em que vam a um clima de promíscua intimida-o terapeuta se coloque ao lado do paciente. de. Mas, como acontece na vida real, nãoÀ parte muitos casos em que a neutralida- adianta que o filho adulto seja feliz e bemde encobre a incapacidade técnica, deve-se sucedido: o bebê gordinho foi embora parapensar duas vezes quando se fala de frieza, sempre e, pior, sempre se casa com quemindiferença ou apatia do analista. Fornecer não se escolhe.opiniões pessoais sobre assunto como polí- Portanto, as escolhas dos pacientestica e instituição, contar de sua vida pessoal, ao longo da análise são outro problema.falar de suas crenças e esperanças. Seria mui- Mesmo no mais ortodoxo psicanalistata ingenuidade não perceber que, no setting, corre o sangue de um possível terapeutatoda informação objetiva é acompanhada de de ego. As escolhas dos pacientes muitasfantasia inconsciente, e já vimos que se trata vezes abalam a tão decantada neutralida-de uma forma de sedução. Tenha o paciente de analítica (especialmente no caso daspassado ou não por ele em sua infância ou opções sexuais). Já correu também muitaadolescência, surge o clima incestual. Além tinta sobre o perigo da análise de ego emdo que, se o analista sabe que não é a mãe sua tentativa de moldar o paciente tendoou o pai verdadeiro, muito mais deve saber o analista em sua suposta sanidade men-que não é o melhor amigo ou companheiro tal como modelo identificatório, e insistirde bar. Por sua ancoragem na cisão benigna no terrível: eu sei o que é melhor para você.do eu, a análise é a mais íntima das relações, O problema do modelo é que se trata donum grau que o melhor amigo ou o compa- eu ideal do terapeuta. E, em se tratandonheiro de bar não podem ser e, ao mesmo de eu ideal, caímos novamente na questãotempo, uma relação mais artificial e distante do narcisismo e do imaginário. Caímos noque a de um cirurgião e seu paciente na mesa reforço superegóico, no lado negro e cas-de operação. trador do supereu, e também nas fantasias Outro complicador é o eternamente e fantasmas do terapeuta. À semelhançapresente sentimento de perda: não há garan- dos pais que, por sua angústia e depressãotia alguma de que o paciente volte na próxi- jogam suas fantasias e condutas sexuais Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 29
  26. 26. O ofício - quase impossível - do psicanalista sobre os filhos, a transmissão excessiva des- aceitas, temos ainda de pensar em suas va- sas fantasias e fantasmas, que sempre ocor- riantes. A mais frequente é a mistura de re em algum grau, também cria um clima esoterismo e psicanálise, em que crenças incestual. E deixa-se de estar a serviço do pessoais e transferência são embrulhadas desejo do paciente para se estar a serviço do junto com aconselhamento e auto-ajuda. desejo do terapeuta. Ao contrário do intervencionismo explíci- Pode-se pensar, num primeiro mo- to do comportamentalismo, que se realiza mento, que o prejuízo ao paciente advém em um contexto terapêutico muito diferen- apenas porque, “quando você tempera os te, temos: o amável e modernoso terapeuta rigores da análise com doses criteriosas de new-age, que pode ir de crenças orientais bondade e amabilidade, retira a liberdade ao espiritismo; a bondosa beata, que asso- do paciente, pois é você quem decide o que é cia seu certificado de teologia com um de melhor para ele” (MALCOLM, 2005, p.86). pseudopsicanálise; a psicanalista revolta- A realidade é mais perversa. A construção da com sua instituição, que passa metade do clima incestual no setting, pela desculpa da sessão falando de política institucional. de técnicas menos ortodoxas que mascaram Todos fidedignamente recriam o trauma práticas intervencionistas, recria o trauma do clima incestual. Pensando bem, Anna do clima incestual da infância. Lembrando Freud e Hartmann eram melhores. que o paciente é, por criação do analista e direito próprio, um regredido e um edípico CONCLUSÃO: acentuado, sua resposta não será a de um RESTOS E SUBLIMAÇÃO adulto, mas a de uma criança dependente da ternura do adulto. Em grau mais leve, a Se o desejo de se tornar analista surge criança tentará sempre se moldar às solici- durante uma análise, trata-se de um sinto- tações do adulto. Citando novamente Fe- ma. Sem esse sintoma, neurótico, até meio renczi em seu mais famoso artigo (FEREN- psicótico, se tornar analista apenas calculan- CZI, 1999, p.294, tradução do autor): do na ponta do lápis o ganho financeiro e a reputação profissional, trata-se de um sinto- Cheguei à conclusão de que os pacientes pos- ma perverso, por não estar ancorado na an- suem uma sensibilidade extraordinariamente siedade e na culpa, apenas na satisfação do refinada para as vontades, tendências, capri- ego e do narcisismo. Além de também ser chos, simpatias e antipatias de seu analista uma má decisão em termos financeiros, hoje [...] ao invés de contradizerem o analista ou também é um pouco duvidosa no que tange o acusarem por seus erros e cegueira, os pa- a reputação. cientes se identificam eles próprios com ele O fato de o CBP-RJ constituir uma [...]. instituição ancorada em uma predominân- cia absoluta de analistas leigos permite al- Num grau mais patológico, cria-se gumas constatações. Médicos e psicólogos, ou recria-se uma sedução não menos grave à parte de qual especialidade ou corrente que a de uma relação sexual concreta, com o sigam, possuem os problemas de onipotên- agravante de que o terapeuta permanece im- cia e sentimento de culpa, de sublimação e pune diante do código de ética profissional e reparação que discutimos no início. da legislação criminal. Mas, tendo acompanhado dezenas Se hoje as condutas intervencionistas de candidatos leigos em formação, obser- de Anna Freud ou Heinz Hartmann, e toda vamos algumas vezes que o sintoma de se a escola de psicologia do ego, não são mais querer ser analista simplesmente desapa-30 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010
  27. 27. O ofício - quase impossível - do psicanalistarece. O candidato chega à saudável con- Referênciasclusão de que deve continuar em análise epermanecer em sua profissão de origem.Em alguns outros casos, o recalque ganha CÍRCULO BRASILEIRO DE PSICANÁLISE. Esta-a vez, o sintoma dá lugar a outro mais gra- tuto - Carta de princípios. Estudos de Psicanálise, Riove, e o candidato abandona a formação e a de Janeiro, n. 29, p. 13, set. 2006.análise. Apenas em uma percentagem, tal- FERENCZI, S. Confusion of tongues between adultsvez de um terço dos candidatos iniciais, o and the child (The language of tenderness and ofsintoma seja ainda mais grave, indicando passion) [1933]. In:____. Selected writings. Penguinque restos provavelmente inanalisáveis im- Books,1999.pelem o candidato até o final da formação. Chegamos à conclusão de que uma FREUD, S. Fetichism. In: ____. The standard editionligeira ansiedade e um sentimento de cul- of the complete psychological works of Sigmund Freud,pa não tratável, junto com a cronificação de xxi. London: The Hogarth Press and the Institute ofuma necessidade de sublimação e reparação, Psycho-Analysis, 1978.associadas à incapacidade de completa desti- FREUD, S. Papers on technique. In ____. The stan-tuição narcísica, assim como uma recorren- dard edition of the complete psychological works ofte cisão do eu, constituem requisitos indis- Sigmund Freud, xii. London : The Hogarth Press andpensáveis para a efetivação do desejo de ser the Institute of Psycho-Analysis, 1978.analista. O que pode dar subsídio para umbom terapeuta, mas, sem dúvida, uma per- FREUD, S. Splitting of the ego in the process of de- fence. In: ____. The standard edition of the completesonalidade complicada para o convívio ins- psychological works of Sigmund Freud, xxiii. London:titucional. The Hogarth Press and the Institute of Psycho-Ana- lysis, 1978.KeywordsReparation, splitting, loss, incestous climate, HIRIGOYEN, M. F. Assédio moral - a violência per-non-analyzable remains. versa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009.Abstract HORKHEIMER, M.; ADORNO, T. La dialetique deThe choice of psychoanalysis as a job: subli- la raison. Gallimard, 1989.mation and maniacal reparation. Features ofsplitting and loss in the therapeutic relation- KANT, E. Fundamentação da metafísica dos costu-ship. Rupture in the ethics: more subtle cases. mes. Os Pensadores, vol. XXV. São Paulo: Abril Cul-Incestous climate on the couch. Artful and tural, 1974.unfair means disguised as more modern or KLEIN, M. On identification. Envy and gratitudehuman techniques. Unalysable remains and and other works. Second impression. London: Thethe choice of psychoanalysis as a job. Hogarth Press and The Institute of Psycho-Analysis, 1980. LACAN, J. Kant avec Sade. In: ____: Ecrits. Paris: Seuil, 1986. LOPES, A.; RIBEIRO, M. M. C. Apresentação das reu- niões da articulação das entidades psicanalíticas bra- sileiras. In ALBERTI, S.; AMENDOEIRA, W.; LAN- NES, E.; LOPES, A.; ROCHA, E. (Orgs.). O ofício do psicanalista. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010 31
  28. 28. O ofício - quase impossível - do psicanalista MALCOLM, J. Psicanálise - a profissão impossível. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2005. QUINET, A. A estranheza da psicanálise – a escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. SIMON, R.I. Homens maus fazem o que homens bons sonham. Porto Alegre: Artmed, 2009. Tramitação Recebido: 06/04/2010 Aprovado: 23/06/2010 Nome do autor responsável: Anchyses Jobim Lopes End: Rua Marechal Mascarenhas de Morais 132 ap. 308 Copacabana CEP: 22030-040. Rio de Janeiro - RJ Fone: (21) 2549 5298 E-mail: anchyses@terra.com.br32 Estudos de Psicanálise – Aracaju – n. 33 – p.21-32 – Julho. 2010

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