Pnl 3 ceb -solidariedade-e_cooperacao

268 visualizações

Publicada em

1º Prémio PNL, Concurso "Eu Conto!"

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
268
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Pnl 3 ceb -solidariedade-e_cooperacao

  1. 1. Solidariedade e Cooperação:Uma opção de vida, uma realidade que nunca deve ser esquecida! Concurso «Eu conto!» Plano Nacional de Leitura, em parceria com o Banco Popular 1
  2. 2. Escola Básica e Secundária de AnadiaAgrupamento de Escolas de Anadia 3
  3. 3. A noite ainda dormia quando acordei, naquele dia que havia de ficar para sempre na minhamemória. A minha rotina dessa manhã era a mesma que me acompanhava já desde os meusescassos dezasseis anos. Abandonava a minha cama pelas seis e meia da manhã, para “pegar” na fábrica às oito. Omeu ritual diário permanecia imutável ao longo das últimas décadas. A água escorria livremente pelo meu corpo, ainda robusto, embora a força da idade jácomeçasse a ficar visível. As calças e a camisola de malha substituíram a toalha que antes fizdeslizar pelo meu corpo, limpando-o do revigorante banho matinal. Seguiu-se um substancialpequeno-almoço, do qual jamais prescindia e que assegurava a minha força física para o dia queentão se antevia. O percurso que fazia até à fábrica, de cerca de vinte minutos, era passado a meditar noimenso trabalho que me aguardava. O dia despontava tristonho, parecendo adivinhar atempestade que estava prestes a cair sobre a minha sólida vida, pensava eu então. Ao longo de todos estes anos, em que trabalhei nesta fábrica, nunca conheci outro trabalho.No entanto, fui sempre atualizando os meus conhecimentos, foram muitas as ações e os cursosque frequentei, pois sabia que eram muito importantes e que o meu emprego também dependiade uma constante aprendizagem. Nem dei, como acontecia na maior parte das vezes, que chegava ao estacionamento dafábrica. Apesar de muitos dos colegas já terem chegado, eles respeitavam-me de tal maneira queme reservavam o mesmo lugar que ocupava há muito tempo. Por mim, estacionava o carro emqualquer outro lugar, mas fi-lo nesse espaço, como sempre, embora mais por respeito por moguardarem do que por vontade de o fazer. A minha chegada foi aclamada pelos meus colegas que, embora mais novos, meacarinhavam sempre com um sonoro bom dia! Eu, embora chefiasse aquela secção, era tido comoum pai, que lhes ensinara os primeiros passos, os ajudara a desbravar o caminho, que até alitinham percorrido. E eu sentia-me bem, tal mestre em quem o discípulo confiava e acreditava queele tinha a sabedoria e a destreza suficientes para ensinar. Mas, ao mesmo tempo, aprendia. Sim,eu também aprendia com eles. E eles procuravam-me, pois eu sempre cooperava com eles,ensinava-lhes tudo o que sabia, sem medo de usurparem o meu lugar, que conquistara com muitotrabalho e sempre, mas sempre, com muito amor pela arte. Verifiquei todo o trabalho que havia nesse dia, distribui tarefas, dei conselhos, e tinha de mededicar à nova contratação, ainda verde mas que me parecia ia dar um bom trabalhador. Quandoestava para lhe dar as habituais explicações, como fazia sempre que era contratado um novo 4
  4. 4. funcionário, apareceu o Doutor Amadeu que me disse que deveria dirigir-me urgentemente àdireção. O meu coração saltou-me do peito e senti as minhas pernas cambalearem. O que sepassava? Tantas outras vezes me chamaram igualmente com urgência, porque é que dessa vezsentia um pânico pelo meu corpo? Por que razão vacilava? Por que motivo ficara eu nervoso? Os meus pés rastejaram até ao gabinete do diretor geral que, depois dos habituais bons dias,me mandou entrar e sentar. No seu semblante, sempre inexpressivo, notava uma réstia de mágoaque jamais me lembrava de lhe ver. Finalmente começou o seu longo discurso, que seguidormente e certo que o meu fim tinha chegado! Retive alguns trechos acerca da crise, da falta deencomendas, da necessidade de reestruturar o pessoal e da dificuldade em pagar os saláriostodos, de negociar os termos do fim da minha vida profissional nessa empresa… o fim da minhavida! Não percebi como era preciso despedir-me, se mantinham o pedido de pessoal. Algo meescapava, contudo a minha questão ficou sem resposta. O resto dos dias, que tive de trabalhar, fi-lo com eficiência e profissionalismo, mas commuita mágoa e uma grande tristeza. Infelizmente chegou o último dia. A “festa” de despedida foibonita, se podemos caracterizar de bonito algo bom que termina. Porém os rapazes quiseramprestar-me uma homenagem e eu não os quis magoar. Sorri, mas qual sorriso triste, infeliz esofrido, que não deixava que o meu mais íntimo ser saísse do estado de hipnose e se alegrassepela delicadeza da lembrança dos meus amigos. E eis que tudo estava terminado. Pela primeira vez na minha vida, sem contar nos meus quatro anos em que caíra da bicicletanova e chorara, quando o meu avô me disse que um homem não chora, secara o rosto e nuncamais ninguém me tinha visto verter uma única lágrima. Até àquele dia. Mas pelo menos aprendique um homem também chora! De seguida, retirei o meu carro do meu “lugar cativo” e dirigi-me a casa mantendo o estadode hipnose, que não me queria abandonar. O que iria fazer? Como iria ganhar a minha vida? De facto, terminara o curso de mecânica na então Escola Técnica de Anadia, porém issotinha sido há mais de 30 anos. Lembro-me vivamente que, desde esse instante, fui admitido nafábrica de motorizadas e bicicletas, a “Bimovimento”. Jamais tinha feito outro trabalho, quem,com a minha idade, me empregaria agora? Fevereiro despedia-se com um sol que irradiava e, afinal, eu despedia-me também. Ahistória não era bem assim: fora antes despedido! 5
  5. 5. Os dias de março desenrolaram-se a um ritmo tão lento e, apesar de solarengos, aclamandopela primavera que se avizinhava, pareciam-me todos iguais, de uma monotonia letárgica que medeixava completamente desfeito. Percorri fábricas, empresas, comércios, padarias, obras, respondi a anúncios, inscrevi-me nocentro de emprego e a resposta era sempre igual. Nada! Sempre nada! O subsídio de emprego terminara há alguns meses e a possibilidade de ter empregotambém. A idade ajudava na recusa, apesar de não abertamente, sabia que esse era o principalmotivo. Vivo sozinho. Três anos antes de ser despedido, a minha esposa tinha falecido. Filhos?Nunca fomos agraciados com eles e por isso, vivo sozinho desde então. Pelo menos, senti-me bempor ela não estar, por não ver ao que cheguei e de não ter de passar pelo que estou a passar.Como eu fui e como estou: um verdadeiro caco. Ainda com boa idade de trabalhar, mas velho demais para ser aceite e novo de mais para me aposentar. No dia que pela primeira vez tive fome a sério, a neta dos meus vizinhos, a Maria, umamenina bonita e esperta, sentou-se no degrau da minha entrada. Trazia com ela a mochila daescola. Nunca fui de incomodar os outros, por isso, quando os meus vizinhos me perguntavam seestava tudo bem, eu fazia o melhor dos meus sorrisos e respondia que sim. Pois, com um ou outrobiscate ia conseguindo sobreviver. Maria perguntou-me, então, na sua vozinha doce e infantil: - Sabe Matemática? Perante a minha resposta positiva, ela pediu-me se eu a podia ajudar. Não podia pagar-me,mas repartiria o seu almoço comigo como forma de pagamento. Vendo o meu ar de recusa, elacomentou: - Só aceito a sua ajuda, se “pagar” da maneira que estou a dizer. Como gosto de ajudar, aceitei. - Então, primeiro vamos comer para ter forças para aprender, como diz a minha mãe. A partir desse dia, tenho ajudado a Maria na Matemática. Ela tem muitas dúvidas, que seestendem também a outras disciplinas e como tal, tenho-lhe dado o meu apoio. Os examesestavam à porta e esperava que ela conseguisse passar. As notas nos testes, pelo que me iacontando, não eram lá grande coisa. Ajudei-a durante o último mês de aulas e aguardei pelos resultados, como se tivesse sido eua fazer os exames. A entrada na faculdade, como ela dizia que queria, não me parecia possível. Eu 6
  6. 6. bem via as suas questões. Sem dúvida que não iria conseguir, principalmente em medicina comotanto queria. Nunca lhe quis estragar o seu sonho, embora não o alimentasse muito. No dia em que saíram as notas, ela não apareceu. Pois, devia ter chumbado. Decerto queestava triste e sentir-se-ia envergonhada para aparecer. Foi então que vi a colega que às vezesvinha com ela a casa dos avós. Sem pensar e com a curiosidade a aflorar, perguntei-lhe se sabia asnotas da Maria e se ela tinha passado. - Passou, sim! - exclamou a menina, numa grande alegria e continuou - Se ela não passassemais ninguém o faria. A nota mais baixa dela foi dezanove, e só teve dois, o resto foi tudo vinte!Ela sempre foi a maior. Ajuda-nos a todos e ainda consegue ter tempo para muitas outrasatividades. Mas hoje está doente e nem pôde ir ver as notas. Fiquei sem palavras. Como era possível? Eu ensinara-lhe o quê? Como é que eu podia tersido enganado por uma menina de dezassete anos? Ela gozara comigo? Fizera-me de parvo? E se ofez, terá sido com que intenção? Claro, os meus olhos encheram-se de lágrimas e o meu rosto tornou-se o leito de um rioapós o degelo. Era a segunda vez que eu chorava. Contudo havia uma diferença, desta vez sentiauma imensa alegria. Deixei assim que as lágrimas escorressem livremente e apercebi-me comoaquela menina era inteligente. No momento em que me pediu o meu apoio, sabia que eurecusaria a comida, mas percebeu que eu jamais recusaria um pedido de ajuda. Desta vez, a minha capacidade de ensinar tinha sido superada pela de aprender. Mariatinha-me dado uma grande lição: a solidariedade e a cooperação não têm preço. Podemos ajudarsem ter nada em troca, pois foi exatamente o que Maria teve em troca: nada! Mas maisimportante do que receber é dar. Eu pensei que dava, porém afinal recebi muito mais e não faloapenas da comida, mas muito especialmente do ensinamento que Maria me transmitira de que asolidariedade deve estar presente em cada um de nós. Maria apareceu uns dias depois, sorridente e com o seu ar infantil, pediu-me desculpa. Euabracei-me a ela e só soube dizer: - Parabéns, Maria e muito obrigado! Maria não parou de me surpreender. Por sua vez, tinha uma surpresa, mas eu tinha de ircom ela. Nesse dia, chegámos ao ATL, onde ela apoiava alguns meninos. Estavam então a precisarde uma pessoa para ajudar com as crianças e os jovens. Marcada o dia e hora da entrevista, fi-la respondendo a todas as questões e passado unsdias, era chamado para o meu novo emprego. 7
  7. 7. Com a ajuda dela consegui este emprego. Não tem nada a ver com aquilo que fiz até então,ou talvez tenha, pois sempre ensinei e cuidei de pessoas mais jovens. Mas sei que adoro o quefaço e que coloco toda a sabedoria, que a vida me ensinou, quando estou com os meninos, massempre, sempre lembro que tudo isto só foi possível devido à solidariedade das pessoas e de umaem particular, a Maria. Tempos depois, decidi transformar um dos quartos da minha casa numa sala de estudo e,quando não estou a trabalhar, recebo alunos das escolas e estudo com eles as matérias dasdiferentes disciplinas. Faço-o sem receber qualquer contrapartida financeira, porém recebo umagrande riqueza, que é a de ver que posso ajudar estes jovens. Ensino-lhes não apenas a estudar,mas também lhes transmito a máxima que aprendi com a Maria: A partilha, a cooperação e a solidariedade não se vendem. Pelo contrário, dão-se com amore o maior tributo e recompensa correspondem ao amor que se recebe em troca! 8

×