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UM

O      fim da minha vida estava se aproximando, eu sentia isso.
Cada parte do meu corpo doía como se estivesse sendo
arrancada de mim. Tudo o que eu ouvia era Nora gritando do
meu lado e Paulo tentando me ajudar.
Era inevitável o fim, quem me dera morrer de forma majestosa.
A dor estava aumentando, eu sentia meu coração batendo
fracamente. Minha cabeça parecia que ia explodir assim como
cada osso do meu corpo. Nora continuava a gritar, eu queria
poder falar para ela parar com aquilo, mas não tinha força o
suficiente para fazer. Paulo começou a fazer uma massagem
cardíaca em mim. Era tarde, eu já estava partindo. Partindo para
outro lugar, o inferno para ser mais exato. Eu não era digno do
céu, disso eu tinha certeza.
Meus olhos foram se fechando devagar e a partir daí eu não
consegui ver mais nada. Tudo o que eu sentia era uma grande
queimação percorrer minhas veias, aquilo não era sangue. Não,
não. Sangue não faria uma coisa daquelas a uma pessoa.
Meu coração bateu mais três vezes, Tum, Tum, Tum. E então
parou de repente.
A última coisa que ouvi antes das sombras me alcançarem fora
Nora gritar meu nome e Paulo dizer:
— Não desista filho.
Desistir? Eu não queria desistir, mais meu destino estava traçado
e a morte além de tudo era boa, porque assim eu me tornaria um
IMORTAL.

ANTES
Eu me levantei tarde na manhã seguinte, o que não era de se
assustar. Nora já havia saído para o trabalho, assim como Paulo.
Nora era uma simples bancária, já Paulo é professor
Universitário. Sempre tive tudo o que eu sempre quis, mas de
uns meses pra cá eu sentia que já não seria necessário pedir mais
nada e mesmo com a insistência de Nora e Paulo em me dar as
coias eu os reprimia.
Estava sentado à mesa da cozinha quando o telefone toca. Era
Nora, ela queria saber se eu já havia acordado e se estava bem.
Nora e Paulo não conseguem ter filhos, mas de uns tempos pra
cá ela vem fazendo uma série de exames para conseguir tal feito.
Não que ter um filho adotado não seja a mesma coisa, mas os
dois querem um de “verdade” se é que me entendem.
— Sim, mãe. Já estou de pé — falei levando um pedaço do pão
de forma a boca. — Não se preocupe comigo, tudo ficará bem.
Ela anda muito preocupada comigo nesses últimos meses. Eu
tenho sentido dores de cabeças muito fortes e posso dizer que
mesmo para uma pessoa anormal como eu isso não é normal.
O porquê de anormal? É que eu tenho alguns problemas
psicóticos às vezes — brincadeira — eu tenho um dom, se é que
podemos chamar isso de dom. Geralmente as pessoas me
chamam de esquisito e etc. Sou tratado como esquisito pelo
simples fato de poder ver o futuro da pessoa com apenas um
toque. Geralmente eu não encosto em ninguém, mas fica difícil
quando se tem um amigo que não desgruda da gente.
Andei até meu quarto e me arrumei para ir ao Colégio, eu não
estava nem um pouco a fim de ir para aquele lugar. As pessoas
lá são tão idiotas. Se elas soubessem o que o futuro reserva para
elas.
Lembro-me do dia em que falei para Sarah que ela não deveria
sair com Fagner, pois ele estava com uma doença que passava
de uma pessoa para outra com apenas um toque. Ela me
esculhambou me chamando de esquisitão idiota. Na semana
seguinte ela apareceu com uma enorme herpes.
Vesti-me com a calça nova que Nora insistira para eu comprar,
peguei minha mochila, um casaco com capuz e sai para chuva.
Era inverno, então seria difícil ver um dia de sol em Cheston
Ville. Segui andando até o terminal de ônibus. Meu coração
disparou quando a vi. Amanda Rodrigues, a garota por quem eu
era apaixonado. Amanda era uma deusa comparada às outras
garotas do colégio, nós estudamos juntos desde a quinta série e
mesmo assim parece que ela não me nota. Mais quem notaria?
Andei até André que me esperava do outro lado do ponto de
ônibus. André é o meu melhor amigo, as pessoas acham que ele
é esquisito por andar comigo, mais ele não liga. Diz que é tudo
inveja da oposição. Queria eu que fosse.
Coloquei uma luva para proteger minha mão do toque da dele -
esse fora o jeito que eu arrumei para poder não ver o futuro das
pessoas, entretanto ficava difícil quando alguém tinha que me
entregar alguma coisa na sala e sem querer encostava-se à minha
pele nua. Da última vez que isso aconteceu eu vi a vida do meu
professor de Inglês, o senhor Martins. Ele ficou uma fera
quando sem querer deixei escapar que ele estava pensando em
fumar uma depois da aula. Todos na escola começaram a tirar
sarro com a cara do professor e o assunto foi parar na direção.
Fui suspenso por uma semana, à diretora disse que fora por ter
inventado algo tão imbecil com a vida dos outros.
O ônibus chegou me tirando do transe.
— Então? — André perguntou fazendo uma cara de retardado
assim que subimos os degraus do coletivo. — O que você vai
fazer esse final de semana? — perguntou por fim.
— Não sei, por quê?
— O pessoal do último ano está querendo fazer uma festa na
floresta no próximo sábado. Queria saber se está a fim de ir.
— Tudo bem, mas isso soou gay demais. — Eu disse dando uma
risada.
André corou.
— Não foi isso que eu quis dizer — ele tentou argumentar, mas
eu não parava de rir da cara dele.
— Deixe de ser idiota, eu sei o que você quis dizer.
O ônibus seguiu na direção da escola. Alguns alunos faziam um
barulho enorme, o que me deixava com um pouco de dor de
cabeça. Levei a mão esquerda até a testa tentando controlar
aquilo.
— O que foi? — André me perguntou sério.
— Nada. — Menti.
Minha cabeça começou a latejar, eu estava suando frio. Queria
que aqueles idiotas parassem de cantar músicas mais idiotas
ainda.
Andei lentamente até a frente do ônibus e encontrei um lugar
vazio, infelizmente o outro estava ocupado por Amanda. Ela deu
um pequeno sorriso ao me ver.
Tentei dizer alguma coisa do tipo "Posso me sentar aqui?" mais
o que saiu realmente foi:
— Tem alguém sentar aqui posso?
O sorriso dela desapareceu na hora, vi uma expressão de: Ele
por um acaso é idiota, ou melhor, é retardado?
Voltei para meu lugar sentindo meu rosto queimar de tanta
vergonha.
André não parava de rir da minha cara.
— Que foi? — Perguntei com raiva quando ele apontou e
começou a rir.
Minha dor de cabeça só fazia piorar, iria ela melhorar no
decorrer da aula?

Fechei os olhos assim que a professora de matemática entrou na
sala. Minha cabeça ainda estava doendo e eu sentia alguma coisa
escorrendo do meu nariz. Seria sangue?
A professora veio até minha mesa e sem que eu esperasse
perguntou:
— David, você está bem?
Não, eu não estava bem. Uma quantidade enorme de sangue
estava escorrendo pelo meu rosto.
Alguns alunos sussurravam alguma coisa no ouvido dos outros.
Fechei os olhos com esperança de que todos desaparecessem.
— André leve-o até a enfermeira — disse a mulher.
André veio até mim e me puxou pelo braço, eu estava me
sentindo uma criança de cinco anos.
Cheguei à enfermaria e tomei um susto. A senhora Meireles
havia sido substituída por uma garota uns cem anos mais nova
que ela.
— Em que posso ajudá-los? — A garota perguntou dando um
pequeno sorriso.
Senti meu rosto corar, era tanta beleza para uma pessoa só. Seus
olhos pareciam de um azul tão profundo que dava parar ver a
alma da outra pessoa.
— Ele não está se sentindo bem. — André disse para a
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Pude ler em seu crachá Meggie.
A mulher se aproximou de mim e pude sentir sua pele fria me
tocar. Assim que ela o fez, a dor de cabeça passou. E para minha
surpresa eu não consegui ver o futuro dela, parecia que o toque
dela parava as vozes em minha cabeça. De repente era só eu e
Meggie.
André olhou para mim de forma estranha. Assim que me dei
conta estava com as duas mãos no rosto da garota. Eu queria
poder senti-la melhor, ver quem era aquele Anjo que me calava.
— David, você poderia ser menos retardado? — Ele perguntou
me puxando para o assento de plástico que ficava na frente de
uma mesa enorme.
— Desculpa! — Pedi sentindo meu rosto corar.
— Tudo bem! — A mulher disse.
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você tem, e não acha que é um pouco nova para ser enfermeira?
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de um pássaro canoro.
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Disse ela antes de continuar. — David quero que venha me ver
todas as segundas-feiras, tudo bem pra você?
Assenti dando um sorriso, se aquele Anjo podia me calar, quem
seria eu para recusar um pedido.
Ela me examinou e me liberou dando-me um atestado para que
voltasse para casa e descansasse. Eu me sentia péssimo.
— Te vejo na próxima segunda — ela disse.
O tempo não melhorava de jeito nenhum. Parecia que aquele
seria o inverno mais chuvoso de todos os tempos.
Entrei em casa correndo para fugir da grossa chuva que caia sob
a cidade.
Liguei a tevê e o jornal estava passando. Uma jornalista um
tanto anoréxica estava dando umas notícias. Parei para escutá-la.

DOIS JOVENS ESTÃO DESAPARECIDOS, POLÍCIA DIZ
QUE RECEBERA UM CHAMADO DE UM CIRCO DO
QUAL UM URSO HAVIA SUMIDO. A SUSPEITAS DE QUE
OS JOVENS TENHAM SIDO DEVORADOS PELO URSO.

Meu coração gelou, naquela cidade nunca acontecia nada de
bom.
Deitei no sofá e apaguei.

Minha cabeça ainda doía, mas não tanto quanto antes. Abri os
olhos lentamente para me acostumar com a luz que entrava pela
janela do meu quarto. Andei lentamente procurando o
interruptor, apesar de estar claro eu não enxergava nada direito.
Assim que acendi a luz do quarto fui até uma gaveta e peguei
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  • 1.
  • 2. UM O fim da minha vida estava se aproximando, eu sentia isso. Cada parte do meu corpo doía como se estivesse sendo arrancada de mim. Tudo o que eu ouvia era Nora gritando do meu lado e Paulo tentando me ajudar. Era inevitável o fim, quem me dera morrer de forma majestosa. A dor estava aumentando, eu sentia meu coração batendo fracamente. Minha cabeça parecia que ia explodir assim como cada osso do meu corpo. Nora continuava a gritar, eu queria poder falar para ela parar com aquilo, mas não tinha força o suficiente para fazer. Paulo começou a fazer uma massagem cardíaca em mim. Era tarde, eu já estava partindo. Partindo para
  • 3. outro lugar, o inferno para ser mais exato. Eu não era digno do céu, disso eu tinha certeza. Meus olhos foram se fechando devagar e a partir daí eu não consegui ver mais nada. Tudo o que eu sentia era uma grande queimação percorrer minhas veias, aquilo não era sangue. Não, não. Sangue não faria uma coisa daquelas a uma pessoa. Meu coração bateu mais três vezes, Tum, Tum, Tum. E então parou de repente. A última coisa que ouvi antes das sombras me alcançarem fora Nora gritar meu nome e Paulo dizer: — Não desista filho. Desistir? Eu não queria desistir, mais meu destino estava traçado e a morte além de tudo era boa, porque assim eu me tornaria um IMORTAL. ANTES Eu me levantei tarde na manhã seguinte, o que não era de se assustar. Nora já havia saído para o trabalho, assim como Paulo. Nora era uma simples bancária, já Paulo é professor Universitário. Sempre tive tudo o que eu sempre quis, mas de uns meses pra cá eu sentia que já não seria necessário pedir mais nada e mesmo com a insistência de Nora e Paulo em me dar as coias eu os reprimia. Estava sentado à mesa da cozinha quando o telefone toca. Era Nora, ela queria saber se eu já havia acordado e se estava bem. Nora e Paulo não conseguem ter filhos, mas de uns tempos pra cá ela vem fazendo uma série de exames para conseguir tal feito. Não que ter um filho adotado não seja a mesma coisa, mas os dois querem um de “verdade” se é que me entendem. — Sim, mãe. Já estou de pé — falei levando um pedaço do pão de forma a boca. — Não se preocupe comigo, tudo ficará bem.
  • 4. Ela anda muito preocupada comigo nesses últimos meses. Eu tenho sentido dores de cabeças muito fortes e posso dizer que mesmo para uma pessoa anormal como eu isso não é normal. O porquê de anormal? É que eu tenho alguns problemas psicóticos às vezes — brincadeira — eu tenho um dom, se é que podemos chamar isso de dom. Geralmente as pessoas me chamam de esquisito e etc. Sou tratado como esquisito pelo simples fato de poder ver o futuro da pessoa com apenas um toque. Geralmente eu não encosto em ninguém, mas fica difícil quando se tem um amigo que não desgruda da gente. Andei até meu quarto e me arrumei para ir ao Colégio, eu não estava nem um pouco a fim de ir para aquele lugar. As pessoas lá são tão idiotas. Se elas soubessem o que o futuro reserva para elas. Lembro-me do dia em que falei para Sarah que ela não deveria sair com Fagner, pois ele estava com uma doença que passava de uma pessoa para outra com apenas um toque. Ela me esculhambou me chamando de esquisitão idiota. Na semana seguinte ela apareceu com uma enorme herpes. Vesti-me com a calça nova que Nora insistira para eu comprar, peguei minha mochila, um casaco com capuz e sai para chuva. Era inverno, então seria difícil ver um dia de sol em Cheston Ville. Segui andando até o terminal de ônibus. Meu coração disparou quando a vi. Amanda Rodrigues, a garota por quem eu era apaixonado. Amanda era uma deusa comparada às outras garotas do colégio, nós estudamos juntos desde a quinta série e mesmo assim parece que ela não me nota. Mais quem notaria? Andei até André que me esperava do outro lado do ponto de ônibus. André é o meu melhor amigo, as pessoas acham que ele é esquisito por andar comigo, mais ele não liga. Diz que é tudo inveja da oposição. Queria eu que fosse.
  • 5. Coloquei uma luva para proteger minha mão do toque da dele - esse fora o jeito que eu arrumei para poder não ver o futuro das pessoas, entretanto ficava difícil quando alguém tinha que me entregar alguma coisa na sala e sem querer encostava-se à minha pele nua. Da última vez que isso aconteceu eu vi a vida do meu professor de Inglês, o senhor Martins. Ele ficou uma fera quando sem querer deixei escapar que ele estava pensando em fumar uma depois da aula. Todos na escola começaram a tirar sarro com a cara do professor e o assunto foi parar na direção. Fui suspenso por uma semana, à diretora disse que fora por ter inventado algo tão imbecil com a vida dos outros. O ônibus chegou me tirando do transe. — Então? — André perguntou fazendo uma cara de retardado assim que subimos os degraus do coletivo. — O que você vai fazer esse final de semana? — perguntou por fim. — Não sei, por quê? — O pessoal do último ano está querendo fazer uma festa na floresta no próximo sábado. Queria saber se está a fim de ir. — Tudo bem, mas isso soou gay demais. — Eu disse dando uma risada. André corou. — Não foi isso que eu quis dizer — ele tentou argumentar, mas eu não parava de rir da cara dele. — Deixe de ser idiota, eu sei o que você quis dizer. O ônibus seguiu na direção da escola. Alguns alunos faziam um barulho enorme, o que me deixava com um pouco de dor de cabeça. Levei a mão esquerda até a testa tentando controlar aquilo. — O que foi? — André me perguntou sério. — Nada. — Menti.
  • 6. Minha cabeça começou a latejar, eu estava suando frio. Queria que aqueles idiotas parassem de cantar músicas mais idiotas ainda. Andei lentamente até a frente do ônibus e encontrei um lugar vazio, infelizmente o outro estava ocupado por Amanda. Ela deu um pequeno sorriso ao me ver. Tentei dizer alguma coisa do tipo "Posso me sentar aqui?" mais o que saiu realmente foi: — Tem alguém sentar aqui posso? O sorriso dela desapareceu na hora, vi uma expressão de: Ele por um acaso é idiota, ou melhor, é retardado? Voltei para meu lugar sentindo meu rosto queimar de tanta vergonha. André não parava de rir da minha cara. — Que foi? — Perguntei com raiva quando ele apontou e começou a rir. Minha dor de cabeça só fazia piorar, iria ela melhorar no decorrer da aula? Fechei os olhos assim que a professora de matemática entrou na sala. Minha cabeça ainda estava doendo e eu sentia alguma coisa escorrendo do meu nariz. Seria sangue? A professora veio até minha mesa e sem que eu esperasse perguntou: — David, você está bem? Não, eu não estava bem. Uma quantidade enorme de sangue estava escorrendo pelo meu rosto. Alguns alunos sussurravam alguma coisa no ouvido dos outros. Fechei os olhos com esperança de que todos desaparecessem. — André leve-o até a enfermeira — disse a mulher. André veio até mim e me puxou pelo braço, eu estava me sentindo uma criança de cinco anos.
  • 7. Cheguei à enfermaria e tomei um susto. A senhora Meireles havia sido substituída por uma garota uns cem anos mais nova que ela. — Em que posso ajudá-los? — A garota perguntou dando um pequeno sorriso. Senti meu rosto corar, era tanta beleza para uma pessoa só. Seus olhos pareciam de um azul tão profundo que dava parar ver a alma da outra pessoa. — Ele não está se sentindo bem. — André disse para a enfermeira nova. Pude ler em seu crachá Meggie. A mulher se aproximou de mim e pude sentir sua pele fria me tocar. Assim que ela o fez, a dor de cabeça passou. E para minha surpresa eu não consegui ver o futuro dela, parecia que o toque dela parava as vozes em minha cabeça. De repente era só eu e Meggie. André olhou para mim de forma estranha. Assim que me dei conta estava com as duas mãos no rosto da garota. Eu queria poder senti-la melhor, ver quem era aquele Anjo que me calava. — David, você poderia ser menos retardado? — Ele perguntou me puxando para o assento de plástico que ficava na frente de uma mesa enorme. — Desculpa! — Pedi sentindo meu rosto corar. — Tudo bem! — A mulher disse. — Sem querer ofender. — André começou. — Quantos anos você tem, e não acha que é um pouco nova para ser enfermeira? Meggie deu uma risada. Seu sorriso era parecido com o cantar de um pássaro canoro. — Para sua informação querido, eu sou velha o bastante. — Disse ela antes de continuar. — David quero que venha me ver todas as segundas-feiras, tudo bem pra você?
  • 8. Assenti dando um sorriso, se aquele Anjo podia me calar, quem seria eu para recusar um pedido. Ela me examinou e me liberou dando-me um atestado para que voltasse para casa e descansasse. Eu me sentia péssimo. — Te vejo na próxima segunda — ela disse. O tempo não melhorava de jeito nenhum. Parecia que aquele seria o inverno mais chuvoso de todos os tempos. Entrei em casa correndo para fugir da grossa chuva que caia sob a cidade. Liguei a tevê e o jornal estava passando. Uma jornalista um tanto anoréxica estava dando umas notícias. Parei para escutá-la. DOIS JOVENS ESTÃO DESAPARECIDOS, POLÍCIA DIZ QUE RECEBERA UM CHAMADO DE UM CIRCO DO QUAL UM URSO HAVIA SUMIDO. A SUSPEITAS DE QUE OS JOVENS TENHAM SIDO DEVORADOS PELO URSO. Meu coração gelou, naquela cidade nunca acontecia nada de bom. Deitei no sofá e apaguei. Minha cabeça ainda doía, mas não tanto quanto antes. Abri os olhos lentamente para me acostumar com a luz que entrava pela janela do meu quarto. Andei lentamente procurando o interruptor, apesar de estar claro eu não enxergava nada direito. Assim que acendi a luz do quarto fui até uma gaveta e peguei roupas novas. Eu havia suado durante as horas de sono e estava me sentindo horrível. Precisava de um banho urgentemente.