Corpo e temporalidade

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Corpo e temporalidade

  1. 1. CORPO E TEMPORALIDADE Delia Catullo GoldfarbRESUMO: Este breve artigo oferece uma síntese do livro “Corpo, tempo eenvelhecimento” também disponível neste site. Aborda alguns eixos possíveis parapensar as vicissitudes da subjetividade no processo do envelhecimento Quando ouvimos frases como: “eu quero fazer tantas coisas mas meu corpo jánão me deixa” ou “ainda há tanto para ser feito mas acho que meu tempo já estáacabando” nos encontramos ante um discurso altamente significativo de alguém quefala de limites e limitações muito frequentemente irreversíveis. De alguém que falado corpo e do tempo. Esclareçamos primeiramente a questão do corpo. Perguntemo-nos de que nosfala um idoso quando se refere a seu corpo com estas palavras. O que esta nos dizendoquando se refere a seu corpo como um estranho, um outro, algo que o prejudica. Quando sentimos prazer e estamos bem com “nosso” corpo o sentimos comopróprio, é algo que nos pertence; mas quando o sofrimento se faz presente, sentimosque alguma coisa que nos ataca de fora, esse nosso corpo se revela incontroláveldesconhecido e estranho. Rugas, cabelos brancos, doenças degenerativas, presbiopia,etc, são sentidos como esses agressores externos que vêm questionar nossa imagem depotência, saúde e beleza. Então quando um idoso fala de seu corpo com estaspalavras, está falando de um corpo de sofrimento, está falando de uma contradição, deum psiquismo desejante, vivo, com vontade de fazer muitas coisas, e de um corpo quejá não serve como instrumento. O que jamais poderemos esquecer e que este corposofredor ou decadente pôde continuar sendo objeto de investimentos amorosossuficientemente significativos que façam uma ponte com o prazer. Mas, este corpo édiferente do abordado por outras áreas do conhecimento. Quando falamos de corpo desde o ponto de vista da psicanálise não nosreferimos ao organismo natural objeto de estudo das ciências biológicas; falamos deum corpo sobre o qual os afetos, os prazeres e sofrimentos e as emoções vão deixandomarcas, construindo história, criando uma imagem corporal que quer ser permanente,imagem que nos permitirá nos reconhecermos sempre os mesmos, apesar dasmudanças que o tempo ou as circunstâncias de vida venham nos impor. Este corpo passará por significativas transformações ao longo da vida. Naadolescência esse corpo que cresce desordenadamente a mercê das vissicitudes_______________________________________________________________________________________________________ Ger-Ações – Centro de Ações e Pesquisas em Gerontologia CNPJ: 09.290.454/0001-19 / CCM: 3.722.8927 www.geracoes.org.br
  2. 2. hormonais, fará o sujeito se sentir estranho. Mas o jovem sabe que essas mudançasnão são outra coisa que o prelúdio de um futuro de pleno uso de sua capacidadecorporal. Mas quando o idoso se olha no espelho, (ou no olhar dos outros) este lhedevolve uma imagem ligada a uma deterioração das capacidades corpóreas e de perdade beleza, imagem na qual o idoso não se reconhece e diz: “esse não sou eu”. Emborasaiba que aquela imagem lhe pertence, ela produz uma impressão de estranheza,frequentemente apavorante porque não se liga a um futuro pleno de realizações masantecipa ou confirma a velhice, enquanto que a imagem da memória é uma imagemidealizada que remete a completude e onipotência. Quando a pessoa que envelhece diz: “esse não sou eu”, diz que o rosto em quepoderia se reconhecer tranquilamente não é aquele. Quero novamente esclarecer que afalta de reconhecimento de que falo não se refere ao sujeito como tal, pois tanto oadolescente quanto o idoso sabem que aquela imagem lhes pertence, masexperimentam ante ela uma estranheza, um susto. Chamo este momento singular deestranheza ante a própria imagem de “espelho negativo”. É um fenômeno que anunciaa proximidade da velhice em termos de estética e que se acompanha de outros quedizem sobre a funcionalidade do corpo e sobre o valor social que cada cultura outorgaa esta fase da vida. Ele acontece antes da velhice se instalar como vivência existencial do sujeito egeralmente relacionado a um acontecimento na vida do sujeito que aparece semprecomo externo a ele, uma perda, uma doença, ou um dado que vêm do social. Ésempre algo que vem “de fora” e localiza o sujeito em um novo tempo. Este éjustamente o sentimento predominante. Alguma coisa que nos acontece subitamente,como se um relógio que marcava sempre a mesma hora começasse a funcionarbruscamente marcando um tempo que passa aceleradamente. Então, bem antes davelhice chegar assiste-se mais o menos de forma impotente ao declínio corporal. Dizemos que o tempo da vida se desenvolve entre o nascimento e a morte.Mas este tempo vivido é diferente do tempo medido. O tempo medido, o da idadecronológica pouco têm a ver com o tempo vivido ou subjetivo. No entrecruzamentodestes dois tempos se encontra o sujeito que envelhece, aquele que além de medir otempo vivido, começa a contar o que lhe resta para viver e, no melhor dos casos, fazplanos para esse tempo que ainda está por vir. Assim, o tempo psicológico é apercepção da passagem de nossa vida, e todo o que é vivo é perecedouro e está sujeitoa mudanças. O tempo do envelhecimento está ligado à consciência da finitude, que seinstaura a partir de diferentes experiências de proximidade com a morte durante a vidatoda, mas que na velhice adquire a dimensão do iniludível. Em uma pessoa jovem este_______________________________________________________________________________________________________ Ger-Ações – Centro de Ações e Pesquisas em Gerontologia CNPJ: 09.290.454/0001-19 / CCM: 3.722.8927 www.geracoes.org.br
  3. 3. tipo de experiências provocam mudanças consideráveis, mas ele sabe que têm a vidatoda pela frente para reparar, modificar, construir. Na pessoa mais idosa o elementomais angustiante é o estreitamento do horizonte de futuro, já não tem mais todo otempo pela frente, só resta mais um pouco e pode não ser suficiente para abrigar tantodesejo. Este tempo subjetivo é o tempo que interessa à psicanálise. Neste sentido vale a pena repensar a questão da reminiscência, esta formaespecial de fantasia que se desenvolve especialmente na velhice mais avançada.Contrariamente ao que se acredita, a reminiscência não representa um sinal dedecrepitude ou depressão. Ela realiza uma articulação entre as três dimensõestemporais outorgando ao ser um sentido de comando da realidade e continuidade doser. A perda de objetos significativos de difícil substituição, somadas àsdificuldades provocadas pelas limitações físicas funcionais e a consciência de finitudeincrementam no idoso a necessidade de bem estar. Assim, a reminiscência pode serentendida como uma forma de exercício da memória histórica que será elaborativa seachar um eco, uma escuta apropriada e um aproveitamento social, impedindo adepressão do vazio de objetos. A reminiscência é a insistência da história. Quando não é possível investir no porvir, o psiquismo se defende dadestruição investindo no passado idealizado. Assim, além de se manter vínculos nopresente, se evita que as lembranças se evaporem e a história subjetiva se perca sob osefeitos da demência. Não devemos confundir a reminiscência com a nostalgia onde a lembrança serefere sempre a um objeto perdido, irrecuperável e em poder dos outros, como porexemplo, a juventude. A nostalgia é uma experiência sempre dolorosa, que nãoconsegue recriar o prazer no ato de contar porque não pode recriar o objeto. O velhonostálgico e deprimido fala de suas lembranças com tristeza e raiva enquanto o velhoreminiscente o faz sempre com um certo orgulho e satisfação. Agora, de que falamos quando falamos de velhos? Falamos de um sujeitopsíquico em constante crescimento e evolução, altamente afetado pela representaçãode um corpo que declina e pela consciência da finitude. Mas, estamos falando de umlimite e não de uma limitação. Limite que será o do corpo biológico que sofre umainvolução, mas não daquele outro que sabemos capaz de prazer, instrumento de amore que deverá ser incentivado a sentir e se sensibilizar com a proximidade dos outros ea força dos vínculos. Limite que será o da finitude elaborativa orientando investimentos adequados,promovendo reflexão e não desespero, solidariedade e não solidão. Limite enfim que não feche a porta à paixão sempre possível._______________________________________________________________________________________________________ Ger-Ações – Centro de Ações e Pesquisas em Gerontologia CNPJ: 09.290.454/0001-19 / CCM: 3.722.8927 www.geracoes.org.br
  4. 4. Delia Catullo Goldfarb Psicóloga e psicanalista com mestrado pela PUC-SP edoutorado em psicologia pela USP-SP. Tem especialização em Gerontologia pelaSBGG e FLACSO. Além de atuar em clínica particular é consultora do PNUD,assessora em políticas públicas e criadora do curso “Psicogerontologia: fundamentose perspectivas” na COGEAE/PUC-SP. É membro fundador da Rede Ibero-americanade Psicogerontologia e da Associação Nacional de Gerontologia. Como pesquisadorase dedica principalmente aos temas: Alzheimer, depressão, cuidados e cuidadores,demências, acompanhamento terapêutico com idosos, psicanálise e envelhecimento,finitude, fragilidade, dependência, família e políticas públicas. Tem publicado oslivros "Corpo, tempo e envelhecimento" e "Demências" pela editora Casa doPsicólogo, além de diversos artigos no Brasil e no exterior.delia@geracoes.org.br_______________________________________________________________________________________________________ Ger-Ações – Centro de Ações e Pesquisas em Gerontologia CNPJ: 09.290.454/0001-19 / CCM: 3.722.8927 www.geracoes.org.br

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