Medicina (Ribeirão Preto)                                                              Simpósio: MORTE: VALORES E DIMENSÕE...
Visão da criança sobre a morte        Somos seres vivos mortais. Como humanos, nos              Estudos psicoanalíticos ta...
Vendruscolo Jmente sofrem o impacto da mesma, porém a comuni-          MATERIAL E MÉTODOcação de seu sofrimento pode ser i...
Visão da criança sobre a mortemo lugar e ao sair pediu para ir embora. No dia se-       va: “A Gabriela ta triste, vai cho...
Vendruscolo Jmorre, sobre saudade e sobre a Isabela alguns minu-         vai levá ele... Pronto, levou... Agora acordou......
Visão da criança sobre a morteresultado sobre o tumor, as dores aumentavam e                 T – “Por quê?”.surgiram as me...
Vendruscolo J       A mãe entrega-me a caixa de segredos e diz                      sia, recorro novamente a Alves (19981)...
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3 visao crianca_sobre_morte

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3 visao crianca_sobre_morte

  1. 1. Medicina (Ribeirão Preto) Simpósio: MORTE: VALORES E DIMENSÕES2005; 38 (1): 26-33. Capítulo III Visão da Criança sobre a Morte CHILDREN´S VIEW ON DEATH Juliana VendruscoloDocente. Universidade Paulista – UNIP. Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP. Psicóloga do Grupo de Apoio à Criança comCâncer – GACC.CORRESPONDÊNCIA: Av. Meira Jr, nº 1895 ap 302. 14085-230 Ribeirão Preto –SP. Telefone 016 6240513 . e-mail: jvendruscolo@yahoo.com.br Vendruscolo J. Visão da criança sobre a morte. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38 (1): 26-33. Resumo: Modelo de Estudo: Relato de casos. Objetivos do estudo: Rever alguns aspectos da literatura sobre a criança frente à morte integrando-os com experiências clínicas. A morte é algo desconhecido, inquieta-nos e leva a busca da compreensão do início e do fim. A criança vivencia questões relacionadas ao tema da morte e pode expressar sua experiência nessa realidade, cognitiva e afetivamente.Existem várias pesquisas sobre a compreensão da morte pela criança, relacionando essa compreensão com o nível de desenvolvimento global da criança. É possível identificar três componentes do conceito de morte na criança: irreversibilidade (impossibilidade de retornar ao estado anterior, morte do corpo), não funcionalidade (compreensão de que todas as funções definidoras da vida cessam com a morte) e universalidade (tudo que é vivo morre). Metodologia: Para ilustrar esses aspectos serão apresentados dois casos clínicos, o primeiro relacionado à vivência de agravamento de um câncer ósseo em uma criança de 5 anos e a possibilidade de morte iminente e o segundo direcionado para a vivência de luto de uma criança de 3 anos.Resultados. Conclusões: O atendimento psicológico demonstrou ser imprescindível nas situações em que a criança vivencia questões relacionadas à morte. Importância do proble- ma, Comentários: Os estudos sobre a compreensão da criança sobre a morte e o processo do morrer auxiliam os profissionais da saúde e também os familiares a lidar com a criança que experiência tal vivência, possibilitando que a mesma possa compartilhar seus sentimentos sentindo-se compreendida e acolhida. Descritores: Morte. Crianças. Atendimento Psicológico. Luto.INTRODUÇÃO A morte é algo desconhecido que nos inquieta, fazendo com que questionemos a vida em sua origem “Amar o perdido / deixa confundido /este e seu fim. Como tema, já inspirou poetas e artistas emcoração. suas criações, as quais tocam nossa alma e nos apro- xima, de forma delicada, dessa certeza tão temida em Nada pode o olvido / contra o sem sentido / nossa existência.apelo do não. Falar sobre a morte nos faz debruçar sobre o As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / que permanece após a perda: a memória. Relembrandoà palma da mão. Alves1. “...o que a memória ama fica eterno. Eterni- Mas as coisas findas / muito mais que lin- dade não é o sem-fim.das, / essas ficarão.” Eternidade é o tempo quando o longe fica (Carlos Drummond de Andrade, “Memória”). perto.” (p. 43)26
  2. 2. Visão da criança sobre a morte Somos seres vivos mortais. Como humanos, nos Estudos psicoanalíticos também contribuemdiferenciamos de outros seres, justamente pela nossa para compreensão sobre a maneira da criança conce-consciência sobre a mortalidade, sobre a finitude de ber a morte Aberastury5 refere que a percepção danossa existência. A certeza da morte é um dado que morte pela criança pode ser verificada respondendo-perpassa a nossa concepção sobre o homem. Segun- se a três questões:do o filosofo Heidegger2 somos seres para a morte, e • Como a criança expressa sua representação daa vivência do tempo em harmonia circular do passado morte? Que significados dá para ela?presente e futuro constitui o sentido de nosso existir. • Percebe o perigo da morte quando está doente, com Entretanto, essas reflexões parecem não nos ou sem esperança de cura?respaldar, em um primeiro instante, quando vemos as- • Percebe a morte de pessoas queridas mesmo quan-sociados os termos morte e criança. Tais palavras do esse fato é omitido?parecem contraditórias. É como se a morte não se Os estudos realizados evidenciam, então, que aocupasse da vida na infância em nenhuma forma de criança que vivencia uma situação relacionada à mor-aproximação – pela morte da própria criança, pela te, seja a possibilidade de sua própria morte, ou mes-perda de alguém próximo de sua convivência, ou de mo a perda de pessoas queridas, mantém impressaum bichinho de estimação ou até mesmo pelas ima- em seu psiquismo, registros e emoções a esse respei-gens de TV e jogos infantis. Essa concepção errônea to. A maneira como ela organiza e expressa sua com-favorece atitudes inadequadas dos adultos com as cri- preensão e seus sentimentos está relacionada ao seu desenvolvimento afetivo e cognitivo. É imprescindívelanças que vivenciam situações relacionadas à morte, que para cuidar do psiquismo infantil os profissionaistais como: evitar o assunto, minimizar o sofrimento da saúde e os pais tenham como referência a molduraque eles próprios estão sentindo para poupar a crian- desenvolvimental, ou seja, que considerem o que éça, utilizando eufemismos que confundem ainda mais esperado em termos de habilidades e competênciasa criança e até mesmo a criação de mentiras que ve- para cada faixa etária6. Será apresentada a seguir,nham substituir a situação que envolve a morte. uma descrição de alguns aspectos relacionados à Segundo Kovács3 temática da morte em 5 etapas do desenvolvimento, “Ao não falar, o adulto crê estar protegen- baseado em um estudo anterior com crianças curadasdo a criança, como se essa proteção aliviasse a de câncer7. Vale ressaltar, que essa divisão das ida-dor e mudasse magicamente a realidade. O que des não deve ser considerada rigidamente, pois é pos-ocorre é que a criança se sente confusa e desam- sível ocorrer variações em diferentes crianças.parada sem ter com quem conversar.” (p. 49) Um primeiro grupo a ser considerado envolve as crianças muito pequenas até os 3 anos de idade. O que será que uma criança pensa sobre a O início desse período envolve aquisições básicas paramorte? Será que ela se preocupa mesmo com isso? o desenvolvimento, tais como o senso de confiançaTais questionamentos que parecem perturbar os adul- básica, que possibilita a criança visualizar o mundotos precisam ser esclarecidos. como um lugar seguro e estável, adquirindo o sentido Torres4 refere que as investigações sobre a de confiabilidade, proteção e previsão em relação àscompreensão da morte pela criança começaram em outras pessoas e a si mesma. Nessa fase de explora-1934 e continuam ao longo desses anos diferencian- ção sensório-motora, as interações do bebê com odo-se entre aquelas que questionam sobre a idade em ambiente São governadas por sensações primitivas eque as crianças compreendem a morte e aquelas que, atividades que gradualmente passam a ter o domínioalém disso, procuram investigar se a compreensão de motor. Por volta de 1 ano, o lactente já adquire a no-cada componente está relacionada com o nível de ção de que os objetos e pessoas são permanentes,desenvolvimento global. Essas dimensões de níveis do existindo mesmo quando não estão no local. Posteri-conceito de morte na criança São apresentados da ormente, começa a desenvolver a autonomia e oseguinte forma: autocontrole. Há um aumento das habilidades mo-• Irreversibilidade – impossibilidade de retornar ao toras o que favorece maior independência dos pais. estado anterior, morte do corpo. Essa criança, por volta dos 2 anos possui representa-• Não funcionalidade – compreensão de que todas as ções mentais do mundo, crescendo a possibilidade ima- funções definidoras da vida cessam com a morte. ginativa e surgindo os pensamentos mágicos. As cri-• Universalidade – tudo que é vivo morre. anças que vivenciam uma perda nessa etapa, certa- 27
  3. 3. Vendruscolo Jmente sofrem o impacto da mesma, porém a comuni- MATERIAL E MÉTODOcação de seu sofrimento pode ser incompreendida.Ela já sente falta de quem morreu, mas esse conceito Com o objetivo de ilustrar esses aspectos teóri-abstrato não é apreendido. A pessoa não está mais ali, cos serão apresentados 2 casos clínicos referentes àmas voltará, como outros saem e voltam. Entretanto, vivência de 2 crianças frente à questão da morte. Es-com o passar do tempo, a demora do retorno pode ses casos foram atendidos no Serviço de Oncologiasuscitar sinais de incômodo. Além desse aspecto, a Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade decriança nota a alteração emocional e até do cotidiano Medicina de Ribeirão Preto-USP.dos adultos com quem convive e, pelo processo, ima- A primeira criança, que chamarei de Gabriela,ginativo, começa a buscar suas formas de compreen- tem 3 anos de idade e perdeu sua irmã de 15 anosder aquela situação. após um TMO há aproximadamente 6 meses. No período compreendido entre 3 a 5 anos, as O segundo caso contará a história de Maria, 5crianças já começam a serem desafiadas pelo mundo anos, com diagnóstico de osteonarcoma em fase desocial a serem cada vez mais ativas, a dominar novas agravamento da doença.habilidades e serem mais produtivas. Precisam desen-volver um senso de iniciativa, conseguindo, assim, RESULTADOS E DISCUSSÃOplanejar e empreender tarefas com responsabilidade.Nessa fase o pensamento ainda é ilógico e egocêntrico.Os seus desejos exercem acentuada influência acer- Um pouco da história de Gabrielaca da compreensão dos fenômenos do mundo. Frente Gabriela iniciou o atendimento psicológico comà situação relacionada à morte já é possível ocorrer 2 anos e 10 meses de idade. Sua Irmã de 15 anosquestionamentos sobre a causa, sendo que, devido ao (Isabela) havia falecido há 2 meses, após um trans-egocentrismo, em muitas situações pode a mesma ser plante de medula óssea realizado para o tratamentoassociada, em sua imaginação, à alguma de suas ações. de uma leucemia. Gabriela soube que a irmã estavaEmerge o conceito de morte como imobilidade em com “dodói” e ia ao médico “tomar remédio” paracontra posição ao de estar vivo, representado pelo sarar. Durante o período de tratamento, Gabriela fica-movimento. Ainda há uma associação da morte com va com as avós e amigas de sua mãe. Ela não foiseparação e sono, porém não de forma definitiva, informada sobre a morte da irmã no mesmo dia, sen-mantendo a noção reversibilidade. do que posteriormente, foi dito a ela que sua irmã ha- Por volta de 5 ou 6 anos, a vida escolar torna- via ido “mora com o papai do céu”. Então, Gabrielase mais intensa e sua importância aumenta, na medi- passou a cobrar a volta da irmã para casa, pedindoda em que é nesse ambiente que a criança aprimora para ir ao hospital buscá-la.seu senso de atividade, sentindo-se gratificada pelo O primeiro atendimento foi realizado no hospi-sucesso e pela aquisição do senso de adequação e tal. Gabriela estava muito tensa e agitada. Aceitoucompetência sobre si mesmas. Cognitivamente começa brincar um pouco na recreação, mas logo que entra-ocorrer a preocupação com regras, apesar do pensa- mos na sala de atendimento ela começou a gritar, per-mento ainda ser concreto. A idéia de morte ainda não guntando onde estava sua irmã. Kovacks3 mencionaé universal, ou seja, não acontece a todos. Há uma que em casos onde ocorre o ocultamento da verdadetendência a personificar a morte e representá-las em sobre a morte de pessoas da família o processo defiguras (bicho-papão, caveira...). luto da criança fica perturbado, bem como sua rela- A noção de irreversibilidade começa a se insta- ção com o adulto. A criança percebe a incoerência dolar, bem como a concepção de quer não pode ser evi- fato e das informações, sentindo-se confusa e frus-tada. Há muita associação ao sono, a perda de cons- trada se o adulto reforçar a primeira fase frente àciência e gera um grande medo frente à separação, à perda, que é a negação, será difícil ocorrer a elabora-obscuridade e ao vazio. ção. Tentei perguntar-lhe sobre o que havia aconteci- Entre 9 e 10 anos, em continuidade aos pro- do, mas Gabriela escondeu-se sob a mesa, recusandocessos descritos anteriormente, as crianças já perce- qualquer contato verbal e/ou físico. Procurei sinali-bem que a morte envolve a cessação das atividades zar-lhe que percebia seu descontentamento, suacorpóreas e há diminuição do pensamento mágico. É irritação e sua vontade de ver a Isabela. Disse quecapaz de incluir-se à idéia de morte, mas atribui o fim estava ali para ajudá-la e que ela poderia ficar tran-da vida à velhice e à doença. qüila. Ela ficou por mais ou menos 20 minutos no mes-28
  4. 4. Visão da criança sobre a mortemo lugar e ao sair pediu para ir embora. No dia se- va: “A Gabriela ta triste, vai chorar”. A possibilidadeguinte falei com sua mãe ao telefone para saber como de expressar os sentimentos ajudou Gabriela a se apro-Gabriela estava. A mãe referiu que ela chorou ao sair ximar da sua experiência frente à morte de sua irmã.do hospital e disse que não queria mais voltar lá. Com- Iniciam os questionamentos e a busca de soluçõesbinamos o atendimento seguinte no consultório. concretas (a médica vem e resolve). O segundo atendimento ocorreu de forma mais Então desenhava a carinha de feliz. Nessatranqüila. Gabriela entrou com sua mãe, explorou os ocasião falou de Isabela, dizendo que ela havia ensi-brinquedos e gradativamente, ficou mais à vontade. nado a desenhar. Perguntei sobre Isabela e ela disseAceitou que a mãe saísse e ficamos a sós na sala de que o “papai do céu” quis morar com ela. “Não voltouatendimento. Ela brincou com entusiasmo com a mais”.. Em seguida correu até a janela, olhou para o“fazendinha” e, repetidamente, fazia com que os bi- céu e disse: “A Isabela! Ta no céu. Olha lá... Ela tachos movessem. Então, a médica vinha e ele “acor- vindo aqui. Vem brincar com a Gabriela”..dava”. Nesse momento é possível observar a idéia de Permanecer na dor, falar da tristeza se tornareversibilidade da morte, associando-a com o dormir. difícil, é preciso a “carinha de feliz”. Começam aAntes de ir embora pede para levar um camelo para emergir as lembranças, porém nessa fase, misturadospoder cuidar dele em casa. à realidade.É possível observar a dificuldade quanto à Não era o momento para intervenções, apenas noção de irreversibilidade.era preciso que ela pudesse se expressar. Pedi para Após esse 3º atendimento Sueli relatou quemãe para que marcássemos uma sessão de orienta- Gabriela estava um pouco mais tranqüila em casa,ção. Nessa ocasião, expliquei-lhe sobre a necessida- dormindo melhor e não havia mais pedido para buscarde de Gabriela falar sobre a morte. Sueli contou-me Isabela no hospital.que isso ocorre em casa, mas que a família “muda de No 4º atendimento Gabriela retoma a brinca-assunto”. É importante notar, nesse aspecto, a dificul- deira com a “fazendinha”, os desenhos da carinha edade do adulto se deparar com essas questões começa a montar lego. Com o lego faz sua família e A mãe questiona se ela sabe mesmo o que diz que a Isabela veio no consultório para me ver. Pedehouve e se não seria melhor “deixar de lado” esse para que eu a cumprimente. Conversamos sobre ela,assunto o que estava fazendo ali e procuro favorecer que A forma de abordar a necessidade de expres- Gabriela expresse seus sentimentos. “O papai do céusão de Gabriela sobre a morte da irmã foi direcionada deixou ela vir me ver. Ali a Isabela...”.pelos comportamentos de irritação e agressão apre- Após alguns minutos ela pergunta: “A moça quersentados pela criança e referidos pela mãe. Gabriela saber se ela pode sentar no sofá branco”.. Quandonão aceitava limites, impedia que algum tocasse nos peço para explicar quem é a moça, ela diz que é umaobjetos de Isabela e recusava-se a usar a cama da moça que morreu ontem e veio com a Isabela. Dizirmã (transferida para ela no momento). que ela quer ficar um pouco no sofá. Pede para que Frente a tais necessidades, Sueli concordou com eu olhe. É preciso mergulhar no mundo imaginativoa continuidade dos atendimentos. A alteração de com- desta criança para estar com ela em seus sentimen-portamento demonstrava ser um sintoma desse pro- tos. Há uma identificação muito forte com a irmã e,cesso de luto. Ainda não era possível compreender nessa fase, cuidar de sua volta parece ser uma tarefaqual a sua representação sobre a morte, porém evi- importante. Kovacks3 citando Raimbault refere que adenciava-se que Gabriela sabia sobre a perda da irmã elaboração do luto exige uma desindentificação e ume sentia o impacto da mesma. desinvestimento de energia que permita a introjeção No 3º e 4º atendimento, Gabriela manteve as do objeto perdido na forma de lembranças, atos, pala-brincadeiras com a “fazendinha”, sendo que os ani- vras e até em o investimento de energia em outro ob-mais adoeciam e morriam, mas com a presença do jeto. Contudo, esta parece ser uma árdua tarefa nes-médico, acordavam e voltavam a viver. Entretanto, sa etapa da vida.começou a expressar sentimentos que oscilavam en- Olho na direção que ela indica e digo que temtre raiva e tristeza em relação ao animal morto. Quando algumas coisas que eu não vejo, mesmo ela conse-pontuava que percebia sua raiva, Gabriela dizia: “Por- guindo ver, mas que ela pode dizer para a moça ficar,que morreu? A Gabriela ta aqui... ele não quer mais se ela concordar. Ela “fala” com a moça. Pergunta sebrincar, foi embora no hospital e não voltou”.. Em se- ela conhece essa pessoa e ela diz que não. Mostroguida gritava com o bichinho: “Bobo, bobo”.. E fala- que ela tem conseguido falar comigo sobre gente que 29
  5. 5. Vendruscolo Jmorre, sobre saudade e sobre a Isabela alguns minu- vai levá ele... Pronto, levou... Agora acordou... Va-tos despede-se da moça. Sueli continua referindo mos pegar a cavala agora...”. Tento questionar paramelhora do comportamento. onde levaram ele, mas Gabriela parece não querer No 5º atendimento Gabriela estava tranqüila, falar sobre isso. Faz a mesma brincadeira com a “ca-brinca com a “fazendinha”, devolve o camelo e diz vala”, mas não responde à questões. Então digo a elaque a Isabela não vem porque está com o “papai do que os bichinhos morreram e foram levados para ou-céu”. tro lugar e aí a gente não vê onde é. “E”. Brincamos Ela parece sinalizar sua integração,o camelo já com uma árvore e frutinhas para montar e encaixar,está bom, pode voltar para o consultório e Isabela apa- dando nomes às frutas (pêra, maçã, laranja e limão).rece situada de uma forma mais integrada Agora eu sou eu sou a “Branca de Neve”. Anda pela Em 07, retomamos os atendimento a pedido da sala como se visse as camas dos 7 anões. Pega amãe, pois Gabriela passa a incluir a presença da irmã maçã “É a maça miraculosa...” “come” a maçã e cianas refeições da família. Frente a esta atitude, a mãe no chão “Morri”. Repete essa cena várias vezes e emconcorda que Isabela virá e depois evita a continuida- seguida faz a Cinderela morrer. “Ela cai, fica doente ede do assunto. Sueli queixa-se que Gabriela parece morre”.. Também repete a cena várias vezes.imitar a irmã, o que a deixa irritada com a criança. “Quanta gente e bicho que morreu não éSegundo Bromberg8 é preciso considerar as relações Gabriela?” “A Isabela não vem” “Ela não vem, tam-familiares da criança enlutada, pois todo funcionamento bém morreu”.do sistema familiar pode estar alterado. A autora pros- Ela corre para a janela para fechar a cortina.segue afirmando que de acordo com vários teóricos, o Nesse momento a mãe interrompe a sessão. Encerroprimeiro passo para a elaboração do luto é a aceita- com Gabriela.ção que a morte se deu. Entretanto, muitas famílias Gabriela continua em atendimento psicológiconão compreendem a forma da criança pequena acei- bem como sua mãe e a sua irmã mais velha também.tar esse fato por não entenderem o funcionamento do O pai recusou o acompanhamento, mantendo, em casa,psiquismo infantil. total silêncio frente a seus sentimentos. Nos atendimentos Gabriela mostra-se agressi- O caso de Maria será apresentado da maneirava. Falo sobre a morte dos bichos, mas recusa-se a mais próxima ao seu jeito de ser – contando uma história.falar da irmã. Em nosso 8° atendimento Gabriela chega sor- A CAIXA DE SEGREDOSridente e logo vai à janela. Pede para abrir e querolhar o céu. Era uma vez, uma menina chamada Maria. Proponho desenho. Peço que desenhe sua casa Ao longo dos seus 3 anos, algumas coisas impor-e as pessoas que moram lá. Ela diz que não e que vai tantes demarcaram sua vida, como por exemplo:desenhar um coração feliz. Falo sobre ela estar feliz ser fã incondicional da cantora Sandy; namorarhoje. Ela sorri. Diz que às vezes fica triste e faz cora- o irmão da mesma, Júnior; decidir tornar-se joga-ção triste. Pergunto sobre o porque está triste e ela dora de vôlei e a descoberta de um osteonarcomaconta sobre briga com sua mãe. Ela já consegue falar em seu braço. Toda a sua família, que não erade tristeza e pela primeira vez a desenha. Então pon- aquela que chamamos de nuclear, envolveu-se notuo que às vezes isso acontece e pergunto o que hou- processo de tratamento. As presenças marcantesve com ela. “Minha mãe me bateu... não eu bati nela eram de sua mãe, companheira para mimos e bron-porque ela pegou o meu sapato... aí ela chorou e ficou cas, sua avó que sempre tentava convencer o mun-triste”.. Procurei abordar com ela as situações onde a do a seu favor e seu tio, que mais tarde veio agente faz coisas que os adultos não gostam e eles tam- ocupar o papel de pai, ausente até então.bém brigam. Ela ia falar sobre a Isabela parou. “A Foram muitos sufocos ao longo do tratamen-I...” “O que foi? O que você ia contar...” “Nada, a to: possibilidade de amputação do braço, quimio-Isabela não tá”.. Falo sobre lembrar da irmã, da sau- terapia, recidiva na perna, nova cirurgia e maisdade, da vontade de vê-la e da raiva que dá quando quimio. Maria e sua mãe sempre firmes e, partici-ela não está. Ela desenha uma pessoa mas quer parar pando das decisões, superavam cada obstáculo.de “brincar disso”. E foi assim, com essa mesma determinação que fi- Pede o “Rei Leão”, brinca com ele e os demais zeram a outra parte da história que recomeçoubichos. Ele morre e outro animal o carrega. “Agora quando a quimioterapia já não tinha mais um bom30
  6. 6. Visão da criança sobre a morteresultado sobre o tumor, as dores aumentavam e T – “Por quê?”.surgiram as metástases. M – “Ela acha que não tem jeito de ser ines- A gente se encontrava quando Maria vinha quecível”.ao hospital para a consulta médica. Essas “con- Maria volta-se para o CD e escolhe a músi-versas” com a “tia” dependiam da vontade de Ma- ca “Imortal”. Ouvimos e cantamos.ria. Nessa época em que não era mais possível an- M – “Tia, sabe o que é imortal?”.dar e ela ficava em um carrinho, era muito impor- T – “Me conta”.tante respeitar seus sinais verbais ou gestuais M – “É o que não morre... pode ir emboraquando indicavam a recusa de contato ou desejo mas fica no coração. Que nem inesquecível. Quan-de aproximação. A indicação de quimioterapia e do a gente gosta é imortal pro outro e fica assim,radioterapia paliativa, deixando margem para a sem esquecer”.ansiedade da mãe, frente a dúvida: fazer ou não? T – “Isso que você está falando é muito bo-Deixá-la “sossegada”? Era importante ouvir Ma- nito, emociona a gente”.ria, mas entendê-la em sua linguagem de 5 anos. M – “Eu sou imortal pra você e você não meEla queria viver intensamente um monte de sonhos, esquece e você é também para mim. Quando a genteaceitava tratar-se para conseguir realizá-los, mas gosta uma da outra, você cuida dos meus segre-precisava estar em sua casa, com suas coisas... dos. Tia, ajuda minha mãe a entender a música. Segundo Kovácks3 as crianças percebem a de- Ela é teimosa. Acho que se eu for embora com oterioração que a doença provoca, pois elas estão em Júnior ela vai ficar mal...”.contato intimo com o próprio corpo. Podem chegaraté a fazer perguntas, porém, procurando a confirma- Conversamos sobre esses sentimentos, sobreção de algo que já sabem. a nossa emoção naquela hora e o quanto quere- mos cuidar de quem amamos. Um combinado da- Optou por radioterapia para amenizar a dor, quele dia foi que eu a ajudaria a fazer sua mãeanalgesia com controle por medicamentos e inter- entender “essas coisas”. Ela pede para levar arupção da quimioterapia. Porém, os “carocinhos” caixa de segredos para a sua casa.continuavam a aparecer e incomodavam Maria e Kovácks3 refere que as crianças terminais, alémsua mãe, que preocupava-se em poupá-la de tal do medo da morte apresentam medo do sofrimento,constatação. O mais interessante é que Maria tam- do tratamento e da separação. É muito importante quebém queria cuidar de sua mãe e controlava-se ao a criança que estiver com a possibilidade de mortemáximo para não expressar sentimentos que a en- iminente sinta-se acompanhada. O medo da mortetristecessem. Foi aí que criamos o artifício da “cai- como finitude ainda não está presente aos 5 anos.xa, de segredos”. Lá cabia tudo, os sonhos, os me- Entretanto a ameaça do rompimento de laços afetivosdos, os amores e os “combinados” (pactos entre com as figuras de apego mantêm-se como ponto co-nós duas). Cuidávamos da nossa caixa, concreti- mum desde etapas anteriores8. A percepção do agra-zando em uma caixa de sapatos embrulhada em vamento favorece que a criança consiga integrar-sepapel colorido, ao som de “Sandy e Júnior”. Um com mais facilidade ao processo de despedida8. É pre-dia, ao longo das nossas “conversas” Maria pe- ciso entender a linguagem que ela usa para nos sinali-diu para abrir a caixa pois iríamos guardar mais zar essa vivência.segredos. Ela disse: Assim eu fiz. Nesse mesmo sentido, conver- M – “Tia, vou colocar uma música que você sei com sua mãe. Foram novos momentos difíceis.gosta”. Localizou no CD a música “Inesquecível”. A doença progredia. Maria ficou cega e cada vezOuvimos. Em seguida disse: mais, enxergava de longe os acontecimentos. Apro- M – “Você sabe o que é inesquecível?” ximei-me ainda mais de sua mãe, ajudando-a a T – “O que é pra você?”. estar ao lado de Maria o tempo necessário. M – “É o que a gente não esquece”. Uma semana após a sua morte, sua mãe li- T – “É, acho que é isso”. gou e disse que precisava me ver. Marcamos uma M – “Quando a gente gosta de alguém, esse “conversa” para o dia seguinte.alguém, ele mora no coração da gente e é ines- Ao chegarem ao hospital, a mãe, a avó e oquecível...”. Sabe tia, minha mãe não entende essa tio emocionaram-me, porém conseguiram perma-música. necer no hospital. 31
  7. 7. Vendruscolo J A mãe entrega-me a caixa de segredos e diz sia, recorro novamente a Alves (19981) que descreveque Maria uma semana antes de seu agravamen- essa possibilidade em uma especialidade por ele cria-to, havia pedido para avó guardar a caixa e da e denominada “morienterapeuta” (moriens – queentregá-la para mim. Antes, abriu-a e mostrou al- está morrendo (latina) e therapeuein – cuidar, servir,guns objetos, dizendo que os segredos sempre iam curar (do grego)).existir. Disse que a mãe e a avó tinham que me “ O morienterapeuta, ao contrário, entra ementregar a caixa. cena quando as esperanças se foram. A despedida é Eu acho que Maria sabia que a entrega da certa. Ele ou ela tem de estar em paz com a vida e acaixa de segredos ia favorecer que a mãe e a avó morte, tem de saber que a morte é parte da vida: pre-também compartilhassem alguns, naquele momento. cisa ser cuidada. Por isso, o morienterapeuta terá de Falamos de muitas coisas, relembramos os ser um ser tranqüilo, em paz com o fim, com o fim dosbons momentos, os difíceis também, contaram so- outros de quem ele cuida, em paz com o seu própriobre “Eu não fiz tudo o que eu podia...”. Levanta- fim, quando outros cuidarão dele. Dele não se espe-mos os “se” e os “será”. Enfim, foi possível expor ram nem milagres nem recursos heróicos para obri-tudo aquilo que se tenta prender em um processo gar o débil coração a bater por mais um dia. Dele sede luto. esperam apenas os cuidados com o corpo – é preciso Alguns meses depois, sua mãe ligou e con- que a despedida seja mansa e sem dor. E os cuidadostou sobre novos projetos, confirmando o nosso com a alma: ele não tem medo de falar sobre agrande e precioso segredo sobre algo como “Ines- morte.”(p.132-133)quecível” e “Imortal”. Quem sabe assim, poderemos, em sintonia com o poeta, dizer:CONCLUSÃO “ Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser Falar sobre a morte pode nos trazer temores, tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que acriar angústia e resultar em uma vontade de evitar o vida é um álbum de minissonatas. Cada momento deassunto. Entretanto ela é uma parte da nossa vida. beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é umaComo profissionais da saúde precisamos de recursos experiência completa que está destinada à eternida-para lidar com essas situações e assim, continuar cui- de. Um único momento de beleza e amor justifica adando de nossos pacientes. Ainda recorrendo à poe- vida inteira.”(p.139) Vendruscolo J. Children´s view on death. Medicina (Ribeirão Preto) 2005; 38(1): 26-33. Abstract: Type of Study: Cases Report. Study’s Objectives: To review some aspects in literature about the children’s view on death, integrating them with clinical experiences. Death is something unknown that disturb us and lead us to a search for the comprehension of the beginning and of the end. Children experience situations that are related to the topic of death and they can express their experiences in this reality, cognitively and affectionately. There are several researches into the children’s comprehension of death, relating this comprehension with the children’s level of global development. It is possible to identify three components in the children’s death concept: irreversibility (impossibility to return to the previous state, body’s death); no functionality (understanding that all functions that define life cease with death) and universality (everything that is alive, dies). Methodology: In order to illustrate these aspects two clinical cases will be presented: the first one is related to the experience of a five-year-old child with bone cancer, whose disease grew worse with the possibility of imminent death and the second one is directed to a three-year- old child’s mourning experience. Results and Conclusion: The psychological assistance proved to be indispensable when children experience situations that are related with death. Problem’s importance and Comments: The studies of the children’s comprehension of death and of the dying process help the health professionals and also the families to deal with those children who go through such experience, making it possible for them to share their own feelings and at the same time to feel understood and protected. Keywords: Death. Children. Psychological Assistance. Mourning Experience.32
  8. 8. Visão da criança sobre a morte REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 6 - Greenspan S. Entrevista clínica com crianças. Porto Alegre: Artes Médicas;1993.1 - Alves R. Concertos para corpo e alma. Campinas:Papirus; 1998. p.132-3. 7 - Vendruscolo J, Valle EMR. A criança curada de câncer, mo- dos de existir. In: Valle ERM, org. Psico-oncologia pediátrica.2 - Heidegger M. Ser e tempo I, II.Petrópolis: Vozes; 1996. São Paulo: Casa do Psicólogo;2001. p. 247-2923 - Kovácks MJ. Morte e desenvolvimento humano. São 8 - Bromberg MHPF. “Ele vai voltar?” A criança diante da morte. Paulo:Casa do Psicólogo; 1992. In: Berthoud CME, Bromberg MHPF, Borrego MRMC. Ensaios sobre formação e rompimento de vínculos afetivos.4 - Torres WC. A criança diante da morte. Desafios. São Taubaté:Cabral Editorial;1997. p. 43-63. Paulo:Casa do Psicólgo; 1999.5 - Aberastury A. La percepcion de la muerte en los niños y otros escritos. Buenos Aires: Kargieman; 1978. 33

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