Flor do lácio o latim o que quer, oque pode esta língua

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Flor do lácio o latim o que quer, oque pode esta língua

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIVCOLEGIADO DO CURSO DE LETRAS COM HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURAS - LICENCIATURA LUCIANA FERREIRA NASCIMENTO “FLOR DO LÁCIO: O LATIM. O QUE QUER, O QUE PODE ESTA LÍNGUA?” Conceição do Coité 2012
  2. 2. LUCIANA FERREIRA NASCIMENTO “FLOR DO LÁCIO: O LATIM.O QUE QUER, O QUE PODE ESTA LÍNGUA?” Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas - Licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB – campus XIV) para obtenção do título de Licenciada. Orientador: Prof. José Luís Costa Bulcão Conceição do Coité 2012
  3. 3. [...] o espírito de romanidade, transmitido pelos nossosantepassados, não deixará de ser mantido e propagado,enquanto estivermos em contacto, através da língualatina, com a fonte criadora e propulsora dessa energiavivificante. (Vandick L. da Nóbrega, 1962, p. 16)
  4. 4. Dedico este trabalho à sociedade em geral, a qual sei que faz partedele pois, ao tratar de língua e cultura latina, estamos voltando o nossoolhar para aqueles que nos antecederam e que construíram para nós asbases para a vida social. Em especial, dedico esta pesquisa àcomunidade acadêmica, para que, se desejarem, possam dela usufruire aprofundar seus conhecimentos acerca do latim e sua incontestávelimportância para a compreensão de nós mesmos enquanto seresparticipantes de uma sociedade; e ao meu mestre e professor de Latim,Luís Bulcão, como forma de agradecer e mostrar que sua dedicação eamor a essa língua transmite a sensação e o desejo de amá-la comsemelhante intensidade.
  5. 5. AGRADECIMENTOSAgradecer é sempre a melhor maneira de, sem muitas palavras, lembrar de todos aqueles que,direta ou indiretamente, contribuíram para você ser o que é.Agradeço, sem dúvida e sempre em primeiro lugar, ao meu grande e divino amigo Deus, pelagraça de viver e poder realizar os meus sonhos; por ter escolhido para mim uma família tãohumilde e feliz;A meus pais, pelo amor, pela paciência e apoio incondicionais, estando sempre ao meu lado eme impulsionando a seguir em frente;Aos meus irmãos, Cassiano e Tanísia, os quais amo e sempre me deram palavras de apoio ecarinho;A Robson, pela parceria, cumplicidade, pelo apoio aos meus estudos e por acreditar nos meusobjetivos, dando-me atenção e amor;À UNEB, pela oportunidade de ingressar em um mundo onde pude conhecer melhor aspessoas, a vida em sociedade e a mim mesma. Aos funcionários, bibliotecários, professores ealunos, pelo respeito, consideração e auxílio;Aos meus professores, todos os que passaram pela sala de aula: pelo carinho, pelos momentosde aprendizagem e entretenimento, pelas viagens e encontros, pelos conselhos e peladedicação em transmitir seus conhecimentos;Em especial, ao meu professor de Língua, Literatura e Cultura Latinas, Luís Bulcão, por teraceito a minha proposta de pesquisa e me orientado, sendo transparente e mostrando-me oserros e acertos; pelo seu amor ao latim, que é claramente perceptível e, por isso, instigou- mea também amar essa língua; e por sua amizade, a qual sei que permanecerá fora dos murosdesta Universidade;À turma de Letras Vernáculas 2008.1, sem distinção, incluindo aqueles que, por um motivoou outro, desistiram do curso. A todos os meus colegas e parceiros, por todos os momentosque passamos juntos, bons e ruins, como uma grande família;Às minhas amigas Ana Elma, Daiane, Grasiele, Maeli, Vigna e Cíntia, pelo coleguismo, pelaparceria e cumplicidade, pelos momentos de distração e diversão, pelo carinho e pela sinceraamizade.A todos, muito obrigada! Amo vocês!
  6. 6. RESUMOEste trabalho sobre língua e cultura latinas trata de um estudo suscinto e aprofundado sobre aimportância do Latim, enfocando o legado construído e perpetuado pelo Império Romano porseu intermédio, especialmente sob os pontos de vista linguístico e literário, os quais mostramque a herança deixada pelos romanos foram de extrema relevância para fundamentar asociedade contemporânea. O objetivo desta monografia é fazer-se (re)conhecer o legadocultural erigido por essa antiga civilização, o qual manteve-se vivo graças a um idioma quesobreviveu ao tempo e que, eternizado nas chamadas línguas românicas, a exemplo doportuguês, propicia um estudo conciso de si próprio, facilitando a compreensão das regras evalores que permeiam a sociedade atual. O estudo recorre à origem de Roma, desde o Lácioaté a formação e queda do Império. De cunho bibliográfico, os teóricos mais utilizados para arealização deste trabalho foram: Cunha (1982), Napoleão Mendes de Almeida (1992), ZéliaCardoso (1999) e (2003), Maurer Jr (1962), apud Rossi (2001) e Oswaldo Furlan (2006).Palavras-chave: Legado romano. Língua. Literatura.
  7. 7. ABSTRACTThis work about Latin language and culture is a succinct and thorough study about theimportance of Latin, focusing on the legacy built and perpetuated by the Roman Empirethrough them, especially in the views of language and literature, which show that theinheritance the Romans were extremely important to support the contemporary society. Thepurpose of this monograph is to be (re) learn the cultural legacy built by this ancientcivilization, which remained alive thanks to a language that survived the time and that,immortalized in so-called Romance languages, like Portuguese, provides a brief study ofitself, facilitating the understanding of the rules and values that permeate todays society. Thestudy refers to the origin of Rome, from Lazio to the formation and fall of the Empire. Ofbibliographical, theorists commonly used for this study were: Cunha (1982), NapoleonMendes de Almeida (1992), Zelia Cardoso (1999) and (2003), Maurer Jr (1962), cited inRossi (2001) and Oswaldo Furlan (2006).Key words: Roman Heritage. Language. Literature.
  8. 8. SUMÁRIOINTRODUÇÃO .................................................................................................. 09CAPÍTULO 1 O LATIM E O SEU LEGADO CULTURAL .................... 111.1 Do Lácio a Roma ................................................................... 121.2 A língua na formação de um povo ....................................... 161.3 A herança deixada para a humanidade .............................. 18CAPÍTULO 2 A LÍNGUA LATINA ............................................................ 232.1 Os aspectos vulgar e clássico da língua ............................... 242.2 As línguas românicas ............................................................ 272.3 Uma fonte de conhecimento do Português .......................... 29CAPÍTULO 3 A LITERATURA LATINA ................................................. 333.1 Um breve histórico ................................................................ 343.2 A poesia latina ....................................................................... 363.3 A prosa literária .................................................................... 41CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 45
  9. 9. REFERÊNCIAS
  10. 10. 9 INTRODUÇÃO Entre os mais distintos e sofisticados meios de comunicação, a língua é, sem dúvidanenhuma, o mais importante e valioso sistema comunicativo de uma civilização. Desde que ohomem sabiamente criou a escrita e as diversas formas de comunicar-se, a língua tornou-se amais relevante delas por carregar consigo não somente aspectos semânticos e pragmáticos,mas também a história (e a memória) de um povo. Assim, como qualquer outra língua, com olatim não foi diferente. Estabelecido como língua oficial do Império Romano, passou a servigente inclusive nas áreas conquistadas e, propagado pelos diversos territórios, era usadocada vez mais como língua de comunicação entre os romanos e os povos das províncias,tornando-se uma língua universalizante, que unia as civilizações. Surgiram, então, variedadesno latim falado, ou seja, dialetos que, em parte, diferenciavam-no do latim literário, o erudito.O uso daquele latim foi então disseminado por todo o império e também por outros povos, oque permitiu o surgimento das línguas românicas, como é o caso do português. Entretanto, o objetivo deste trabalho não se reduz ao estudo do latim enquanto línguaclássica e/ou vulgar, mas ao legado linguístico, literário e, sobretudo, cultural que foi deixadopelo povo romano para o mundo ocidental. Cabe aqui um estudo linear e suscinto de como olatim deixou de ser a língua de um povo para fazer parte da vida de toda uma civilização, sejanos aspectos linguísticos ou culturais. Para tanto, compõe-se de pesquisas bibliográficas esuportes teóricos de autores tradicionais e contemporâneos que se debruçam sobre a históriado latim. Estudar a herança latina significa, pois, resgatar a história que antecedeu a nossa evalorizar os resquícios desta antiga civilização, que proporcionou ao mundo atual técnicas econhecimentos para se viver em sociedade. Sendo assim, cada capítulo deste trabalhoabordará aspectos que demonstram e comprovam a concretude deste legado que deve ser cadavez mais reconhecido e valorizado. Portanto, far-se-á conseguinte uma sintética exposição doque dispõe cada seção e os estudos feitos acerca da importância do latim. O primeiro capítulo destina-se a uma análise, do ponto de vista histórico, de como alíngua latina propiciou uma herança cultural para as civilizações posteriores, bem como sua
  11. 11. 10relevância. Para tanto, é relatada a história e a origem do povo latino, a evolução do latim aolongo da consolidação do império e seu uso pelo povo romano e pelos conquistados,demonstrando sua forte presença na formação do caráter daquela nação. Ressalta-se que nestecapítulo são tratados muitos aspectos desse legado, mas para o estudo aqui realizado o queinteressa são as heranças linguística e literária. O capítulo 2 refere-se ao legado linguístico e atudo que estiver ligado a este aspecto, como a etimologia, a lexicologia, a morfologia etc.Neste item, é mostrado inclusive como o estudo desta língua proporciona um aporte seguropara a aprendizagem do português (o que não significa, porém, que se deva tomá-lo somentecomo base para isso). Considerando-se o latim como arte de ler e escrever bem, o terceiro e último capítulotrata da literatura latina, abordando suscintamente a história da criação da poesia e prosalatinas (fases, épocas e obras mais relevantes). Trata também dos literatos que contavam,cantavam e encantavam com suas belas criações literárias. Pretende-se, pois, com estecapítulo, mostrar que a vida em Roma também era contada principalmente pela arte da escrita,através das obras literárias, e como estas serviram, e ainda servem, de inspiração paraescritores de épocas distintas. Para os antigos romanos, legatus,i era um embaixador, um emissário, um comissárioencarregado de regular os negócios de um povo vencido assistido por mais nove romanos. Jápara o mundo contemporâneo, como um bem que alguém deixa a outrem por meio detestamento, um legado é uma riqueza; quando cultural, uma fortuna de valor inestimável.Assim, estudar o surgimento dos povos latinos sob os pontos de vista linguístico e literário éum retorno à origem daqueles que contribuíram para a gênese de nossa sociedade. Portanto,pode-se dizer que o latim é um dos mais importantes legados culturais deixado pelo ImpérioRomano, que ainda se faz presente na sociedade contemporânea.
  12. 12. 11 CAPÍTULO 1: A LÍNGUA LATINA E O SEU LEGADO CULTURAL A língua latina foi, por muito tempo, o mais influente e importante sistema linguísticodas antigas civilizações, não só por ser parte significativa da consolidação do grande ImpérioRomano, mas porque através dela o seu mundo se fez conhecido. É possível ratificar essaafirmativa uma vez que, historicamente, a luta pela extensão territorial de Roma, e mais tardeas conquistas desta civilização, permitiu a unificação entre vários povos, tanto pela língua,fonte de comunicação entre todos, como por meio da integração de culturas e costumes. Cadapovo dava um pouco e recebia do outro, numa espécie de “troca” que tornou possível aglobalização – prodígio romano, outrora chamada romanização – entre as etnias e, assim,mudou a história da sociedade ocidental como um todo. Aprender latim significa, portanto, resgatar uma língua que fundamentou a nossacivilização e transmitiu através de si a história de seu povo: costumes, pensamentos,tecnologias, concepções de vida em sociedade, lazer, consumo diário, ofícios e ocupações,estruturas familiares, política, conquistas, enfim, tudo o que diz respeito ao modo de viver deum povo e que só foi possível o conhecimento porque essa língua sobreviveu ao tempo e àqueda do Império Romano que, mesmo deposto como supremo e poderoso, não deixou suahistória “jogada ao vento”, transmitindo-a a todos por meio do idioma. Isso é legado, éherança passada de geração em geração. A própria definição de legado vem inclusive do latim legatus,i que etmologicamentevem de legare (delegar, transmitir a alguém, enviar com uma missão), de acordo com Cunha(1982), e denomina um “valor previamente determinado que alguém deixa por testamento”.Na definição atual, legado é sim um valor deixado, mas um bem cultural, social e existencial.Assim, dizer que o latim é um legado romano significa afirmar que essa língua tem nãosomente uma função sistemática de comunicação, mas sobretudo de conhecimento,transmissão de valores culturais e sociais. O estudo sociolinguístico é um trabalho interdisciplinar que possibilita oconhecimento da estrutura social de um povo por intermédio da análise de sua língua. É umadas grandes ferramentas do saber que a ciência moderna possui, dando uma grandeoportunidade não só de resgatar e exclarecer fatos históricos, como também de descobrir e
  13. 13. 12contá-los sobre outra ótica. Logo, como compreender o mundo contemporâneo, em toda suacomplexidade, sem conceber nossas raízes latinas? Como entender o mundo medieval e ahistória do cristianismo sem uma incursão pelo latim? Para a História, Filosofia, Direito,Filologia etc, os grandes tratados da antiguidade foram escritos em latim, sem os quais éimpossível um trabalho de pesquisa mais sério. Outrossim, encontra-se a presença da língua latina na atualidade em outros camposcientíficos, mesmo em áreas que não foram trabalhadas ou mesmo conhecidas pelos antigosromanos, como o caso de determinados ramos da Biologia. Toda nomenclatura da Zoologia eda Botânica está em latim; na classificação periódica dos elementos da Química, esses sãoabreviados levando em consideração a terminologia em latim; na Medicina, utiliza-se destalíngua clássica para, em anatomia, nomear ossos, sistemas, órgãos, músculos etc. Áreashumanas e exatas “beberam e bebem” desta fonte. Entretanto, para se compreender melhor o estudo aqui realizado sobre o latim e seulegado, dando destaque ao linguístico e literário, acredita-se que é pertinente algumasconsiderações prévias acerca dessa língua, tais como sua origem, ascensão e declínio, pois oque se quer neste trabalho é fazer-se (re)conhecer a grande contribuição dada por ela aomundo atual. As fontes bibliográficas para este estudo foram principalmente proporcionadaspelo módulo do professor Luís Bulcão, mas também de autores que tratam da língua e culturalatinas. Com tais referências, pretende-se, pois, mostrar que em nossa sociedade e na maioriadas civilizações contemporâneas ocidentais, de uma forma ou de outra, a presença do latim évisível, não aos olhos, mas ao olhar crítico de quem conhece (ou se permite conhecer) aherança deixada por essa língua.1.1 Do Lácio a Roma Localizada às margens do rio Tibre, em região que facilitava a comunicação entre aEtrúria e a Magna Grécia, principais áreas da Península Itálica, entre os séculos VIII e VI a.C., o Lácio tem relevantes motivos para ser preservado pela história. Território de solo rico,onde os latinos – pastores e agricultores – levavam uma vida simples, situava-se na partecentral da Itália, entre o mar Tyrreno (hoje Mediterrâneo), à margem esquerda do Tibre, osApenninos e os montes Albanos. Esta região é o berço de três importantes marcos dahumanidade: o latim, o Império Romano e indiretamente, o Cristianismo.
  14. 14. 13 Como ponto estratégico por sua localização e por seu solo rico, os latinos sofriaminvasões e saques diversos. Em uma tentativa inicial de mera proteção, acabam se tornandograndes guerreiros que erguem a cidade de Roma. A fundação de Roma é cercada demistérios e belezas, pois tanto pode ser contada pela Mitologia, com os irmãos gêmeosRômulo e Remo, como pela Literatura – através da chegada de Eneias, descendente troianoque vai para o Lácio – ou mesmo pela História, com a unificação das tribos que viviam napenínsula tendo como líderes os etruscos. Há 2500 anos o latim era apenas uma das línguas faladas na região central daPenínsula Itálica. Língua usada pelos latinos, convivia na situação limítrofe com outrosidiomas locais: osco, volsco, samnita, umbro, etrusco, falisco etc. As inscrições em latim maisantigas que se conhecem datam do século VI a.C. e foram feitas em várias versões do alfabetogrego, o qual havia sido levado para a Itália por colonos gregos. Este alfabeto, comadaptações ao romano, é o que se utiliza hoje. A princípio, nota-se a influência da língualatina para a disseminação da cultura romana, a qual só foi possível graças ao triunfo de umidioma que por séculos foi sinônimo de supremacia, poder e erudição. Fundada, inicialmente Roma se torna uma Monarquia, a qual teve o comando dadinastia etrusca: Tarquínio, o Antigo, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo. Fim do regime, acidade dos irmãos amamentados por uma loba passa a uma República. Neste novo regimepolítico, os romanos conquistam os povos vizinhos, fazendo com que Roma adquirissehegemonia sobre os habitantes da península e o latim, em 272 a. C, se tornasse língua oficial.O maior nome republicano é Júlio César. Após ser assassinado, Roma se torna um Império, eo nome César, sinônimo de imperador. Enquanto Império, os romanos conhecem váriosimperadores, mas dois nomes se destacam pela importância com a cultura: Augusto eAdriano. É nesta fase que Roma conquista o mundo, ampliando seus horizontes e levando suacultura para os quatro cantos conhecidos da Terra. O latim torna-se, então, o grandemensageiro romano. Roma, durante algum tempo, após a morte de Júlio César, foi marcada por guerrascivis, pelo sentimento de impotência do povo em reverter a situação e trazer de volta os anosde glória do império. Sobre o comando de Augusto, os literatos da época responsabilizaram-se, então, por esta missão. Como o poeta Virgílio, sensível às reações populares diante dosacontecimentos, tentavam, através de suas obras, trazer à memória recordações de um tempopróspero, onde o campo era um ambiente de paz e o trabalho gerava o progresso. A história deRoma, desde a sua fundação, era recontada em poemas para que fosse percebida a grandezada nação e a indiscutível contribuição de seu povo para tal.
  15. 15. 14 Ao longo do tempo, o Império Romano estendeu-se por grande parte da Europa, norteda África e Oriente Médio. O latim era usado em todo império como língua oficial da lei, daadministração e, cada vez mais, como a língua do dia-a-dia. A literatura era comum entre oscidadãos romanos e as obras de grandes autores latinos eram lidas por muitos. Neste meiotempo, no leste do Mediterrâneo, o grego continuava sendo língua franca e os romanos cultosfalavam tanto o latim quanto o grego. Os exemplos mais antigos de literatura latina são astraduções das peças gregas e o manual de agricultura de Cato, os quais datam de 150 a.C. Alinguagem usada na literatura latina ancestral, o latim clássico, era algo diferente do latimfalado, conhecido como latim vulgar. O declínio do latim como língua oficial e dominante corresponde ao enfraquecimentodo Império Romano, o que, mais uma vez, ratifica a indissociável relação entre linguagem ehistória. A unidade linguística ia sendo desfeita, assim como a unidade social definhavadevido ao momento pelo qual Roma passava. Todavia as marcas romanas já estavam tãoimpregnadas na humanidade que, mesmo perdendo o poder político e lingüístico, Roma irálegar a base de culturas vindouras. O Cristianismo, assim, passa a ser o grande responsávelpor tal feito. O quadro a seguir mostra, sinteticamente, a origem, ascensão e o declínio do ImpérioRomano e, consequentemente, da língua latina1: Período Roma Língua 753 a.C Fundação de Roma pelos Vestígios arqueológicos de um gêmeos Rômulo e Remo vilarejo (Lácio) habitado por pastores (segundo a lenda). e lavradores latinos. 509 a.C Até então uma monarquia, os latinos de Roma a tornam uma Surgem as primeiras inscrições em república. latim. 272 a.C Roma dominava a Itália. O latim torna-se língua oficial da Península Itálica. 58-44 a.C Júlio César é declarado ditador Desenvolvimento do latim arcaico sob perpétuo pelo Senado, mas é o influxo da literatura grega. morto.1 Quadro elaborado a partir das informações contidas no módulo de Língua, Literatura e Cultura Latinasorganizado pelo Professor Luís Bulcão.
  16. 16. 1527 a.C e 14 d.C Após uma guerra civil, Produção literária de Virgilio, Horácio Otaviano (Augusto) vira e outros escritores. imperador e consolida os O latim é usado em todo o Império domínios no Mediterrâneo. como língua oficial da lei, da administração e cada vez mais como língua do dia-a-dia.116 Com Trajano, o império alcança sua extensão máxima. Os romanos cultos falam tanto o O auge dura até as invasões latim quanto o grego. dos povos bárbaros.313 Constantino confere liberdade Enfraquece o prestígio da língua religiosa ao império e lança as literária e a separação entre o latim bases para transformar o clássico e vulgar diminue. cristianismo em religião oficial.395 Antes de morrer, o imperador Ao longo do tempo o latim se Teodósio divide os domínios dialectaliza e os romanismos de Roma em Império do desenvolvem-se cada vez mais. Ocidente e Império do Oriente.476 Com a queda do Império, a oposição Rômulo Augusto, último entre unidade e diversidade, entre imperador do Ocidente, é latim culto e popular foi eliminada deposto em 476 e, em 1453, o definitivamente em benefício deste Império do Oriente cai. último.639 A língua escrita tornou-se quase Isolamento das diversas partes impossível pelo alto preço dos do Império e colapso cultural. pergaminhos e pela falta total de papiro; condenação da literatura.813 Renascimento carolíngio (renascimento da literatura e Morte do latim culto e nascimento dos das artes que teria ocorrido romanços, rompendo a unidade do principalmente no reinado de latim e favorecendo sua diversificação. Carlos Magno).
  17. 17. 16 Pode-se observar pelo quadro-síntese que, mesmo após o colapso do Império Romanoocidental, em 476 d.C, o latim continuou a ser usado como linguagem literária por toda aEuropa central e ocidental. Durante o século XV, começou a perder sua posição dominante naEuropa como língua de pesquisadores e religiosos e foi amplamente substituída por versõesescritas das línguas vernáculas europeias, muitas das quais eram descendentes ou haviam sidofortemente influenciadas pelo latim. As fases pelas quais passou a língua latina, assim como a história de Roma e de seupovo, mostram o quanto essa nação lutou pela estabilidade política, social e cultural, na buscada perfeição que Augusto almejava em seu governo. A divisão do Império, as lutas sociais, odescontentamento, as guerras, a instabilidade linguística e, principalmente, o fim do gloriosomomento histórico romano facilitaram as invasões dos chamados bárbaros. Junto com suasterras, com seu povo agora conquistado, a língua também perde sua autonomia. Levada paravários povos e distintos lugares resulta, tempos depois, na criação de outras línguas.1.2 A língua na formação de um povo Uma nação se estabelece a partir de seu povo e de sua língua. Quando uma línguadeixa de existir, pode-se dizer que, junto com esta, “morre” um povo. Da mesma forma épossível afiançar que um povo que cultiva suas letras faz parte de uma nação rica. É o que osromanos, inicialmente, perceberam ao contatar com os etruscos e, posteriormente, ratificaram,quando do convivio com a civilização helênica. Se para muitos Roma foi mestra, dos gregosfoi aprendiz. E isto pode ser verificado em sua trajetória. Desde que Roma foi fundada, seus governadores sempre buscaram a comunicaçãoentre os povos do Lácio e as províncias conquistadas. Através de estradas e vias públicas, elespretendiam extender tanto o território romano como a cultura de sua nação, pois teriam agarantia de um império sólido e unificado. Por tal motivo, o latim foi imprescindível. Os cidadãos romanos tinham direitos e deveres bem estabelecidos e, durante aRepública, por exemplo, as leis eram bem rígidas e deviam ser seguidas à risca. Aorganização da sociedade romana era feita por meio dessas leis que se tornaram fundamentaispara uma vida sociável. Quando os imperadores impuseram seu poder, a cidadania passou aser um dos principais requisitos para um romano. Assim, Roma era dividida entre plebeus (o
  18. 18. 17povo) e patrícios (os cidadãos). Aqueles poderiam conseguir o status de cidadão se fossemgrandes proprietários de terras, e os que não conseguiam teriam que suportar as obrigações desubordinado. No entanto, o significado de cidadania foi ampliado e, atualmente, cidadão étodo aquele que tem direitos e deveres para com a sociedade em que vive. Em se tratando da vida em Roma, pode-se dizer que os romanos viviam de modosemelhante ao mundo de hoje, numa cidade grande: ruas cheias de pessoas, casasaglomeradas, mendigos, estradas e construções imponentes, tudo quanto diz respeito a umametrópole. Festas e eventos com comida e bebida em abundância, seguidos de muita orgia eembriaguez, eram típicos da burguesia. Com a expansão do império, o convívio com outrospovos permitiu a transmissão do latim para estes e, consequentemente, os aspectos culturaisromanos. Isso implica que as províncias que iam sendo conquistadas tinham contato com avida social romana através do latim, que era usado por todos em Roma. Com a propagação do latim e a relação com outros povos, torna-se evidente o contatocom outras línguas e, mais ainda, os fatores que condicionam uma mudança, seja em queâmbito for. Isso ocorre porque, inevitavelmente, toda língua carrega consigo aspectosculturais e sociais de seu falante que, em contato com outra(s), é influenciada direta ouindiretamente. Assim ocorreu com a língua latina ao longo do Império Romano: ao conquistarnovos territórios, o latim passou a ser influenciado por outras línguas, como o grego e oetrusco, que juntamente com a língua de Roma faziam parte do cotidiano desses povos. Na época da consagração do imperador Augusto, a proposta da pax augusta pareciaentorpecer e alegrar os ânimos de uma população desgastada por guerras civis. A volta aocampo, o trabalho manual e a luta pelo progresso eram forças propulsoras que impulsionavamos romanos a seguir o instinto patriota de elevar sua nação. O momento magno quase queexigia isso do povo, entretanto a sensação de estabilidade não duraria eternamente. O latim começa a perder sua posição de língua oficial e dominante, quando a culturadesses outros povos passa a influenciar consideravelmente a de Roma. Entretanto, no períodode gestão do imperador Constantino, a religião que viria mais tarde a se espalhar pelo mundo– o Cristianismo – passou a utilizar a língua latina como principal difusora de seus ideais. Olatim propagou-se de tal maneira pelos territórios romanos que ocorreu a sua dialetação,tornando o latim clássico, usado mais frequentemente pela burguesia e pelos literatos, muitodiferente do latim falado pelo povo, o chamado vulgar. Deve-se ressaltar, contudo, que ao estudar o latim vulgar e suas variações linguísticasé indispensável destacar a contribuição daqueles escritores que utilizaram em suas obras essedialeto, tornando possível o estudo e a comprovação da diversidade do idioma e,
  19. 19. 18especialmente, de sua importância enquanto língua do povo e pedra basilar para a formaçãode outras línguas. Produto de uma contribuição variada, o sermo vulgaris possibilitou quelínguas como o português viessem a surgir, tornando-se patrimônio de uma nação. Torna-seindiscutível afirmar que toda e qualquer língua é um valioso bem a ser preservado pelo seupovo. O latim, surgido na região do Lácio, formou seu povo, os latinos, que por sua vez,constituiu o Império Romano que, mais tarde, proporcionou ao mundo, através de sua língua,o surgimento de outras que fariam dela uma língua eterna, vivida e revivida no cotidiano dos“neoromanos” da contemporaneidade. 1.3 A herança deixada para a humanidade Pode-se afirmar que o latim teve e tem importante influência na sociedade atual e,como visto, não somente no aspecto linguístico. Além das diversas línguas românicas geradasque são importantes campos de estudo, há várias outras áreas científicas e artísticas em queele se faz presente, seja em parte ou no todo, e que, mesmo parecendo díspares, conferem aesta língua a sua contribuição, tais como: Biologia, Medicina, Direito, Filosofia, Sociologia,História, Religião, Literatura, Escultura, Arquitetura, Música, Cinema, dentre outras. [...] há uma rica literatura deixada pelo mundo romano, que não só nos permite o desfrute de autênticas obras de arte como estende seu alcance por outras áreas do conhecimento: pela historiografia, pela filosofia, pela antropologia, pela teoria literária em todos os seus matizes, pela ciência, pelo teatro. [...] há o interesse linguístico pelo latim. [...] Sendo uma das mais antigas línguas indo-europeias [...] fornece-nos explicações para fenômenos aparentemente inexplicáveis de nosso idioma e das línguas irmãs do português. (CARDOSO, 1999, p. 10) Para a ciência, o sistema de nomenclatura binominal, que foi criado por CarolusLinnaeus em 1755, utiliza o latim nas nomenclaturas científicas em geral, em nomes deplantas e animais. Os biólogos usam a terminologia latina, assim como os paleontólogos eoutros cientistas, a fim de nomear gêneros e espécies. Na medicina, Nero foi o precursor doparto em “cesariana”, pois este imperador, um dos doze Césares, nasceu em circunstânciasespeciais. Assim, o Latim exerceu enorme influência sobre diversas línguas vivas, ao servir defonte vocabular para a ciência, o mundo acadêmico e o Direito, em especial.
  20. 20. 19 O aspecto religioso ocidental até hoje apresenta muitas semelhanças com a religiãoromana, sendo o Cristianismo o maior destaque nesse caso, já que se apresenta como religiãooficial praticamente em todo esse hemisfério planetário. O latim eclesiástico ainda é usadopela Igreja Católica em liturgias e documentos oficiais, apesar das missas atualmente seremcelebradas em línguas vernáculas. Há, no entanto, indícios de que em algumas regiões doBrasil, por exemplo, a igreja opte por rezar missas em latim, como eram feitas originalmente.Pode-se observar também que geralmente palavras escritas em latim aparecem em emblemas,símbolos e brasões de instituições como igrejas, universidades e fóruns, representando o lemaao qual defendem. O Direito romano, para muitos especialistas, é a mais significativa contribuição dessepovo para a sociedade moderna, pois esta rígida ciência ainda é a base da legislação brasileirae de outras nações. Em textos jurídicos, encontram-se expressões como habeas corpus, álibi,data vênia, animus decipiendi, animus ambulandi, animus abutendi e animus confitendi. Atémesmo os conceitos de cidadania, expansão e civilização têm procedências na mitologiaromana. Num pequeno núcleo urbano originou-se um grandioso império e sua trajetória deorganização política se divide entre Monarquia, República e Império, fato acontecido tambémna estruturação política brasileira. As instituições políticas romanas inspiraram filósofosiluministas ao criarem também os senados (em latim: Senatus é a mais remota assembleiapolítica da Roma antiga, com origem nos Conselhos de Anciãos da Antiguidade orientalsurgidos após o ano 4000 a.C. Daí a origem de seu nome, senex, "velho", "idoso"). Dois outros motivos pelos quais Roma deve ser constantemente lembrada são aLiteratura e a Filosofia. Vários estilos literários praticados atualmente são de origem romana,como é o caso da sátira. É uma literatura que supera em quantidade e qualidade qualquer outraliteratura nacional durante o mesmo período, pois basta lembrar as grandes obras da Teologiacomo o hinário e as coletâneas de lendas cristãs. Também, no lado profano, nomes como osde Dante, Petrarca, Boccaccio, Erasmo, Bacon, Descartes e Newton produziram obras etratados valiosíssimos em latim. Até mesmo o termo literatura vem do latim "litterae" quesignifica "letras", possivelmente uma tradução do grego "grammatikee". Em latim, literaturasignifica uma instrução ou um conjunto de saberes ou habilidades de escrever e ler bem, e serelaciona com as artes da gramática, da retórica e da poética. Os escritores romanos deixaram para as futuras gerações uma visão detalhada da vida cotidiana e de sua diversão, de suas angústias, de seus prazeres e de suas dores. Praticamente podemos sentir o gosto das refeições das pessoas comuns: o pão
  21. 21. 20 integral, o queijo fresco prensado à mão, os figos verdes de segunda safra e, é claro, o pequeno peixe de grande popularidade, o arenque. Podemos caminhar pelas fazendas romanas graças à poesia de Virgílio e ouvir conselhos de como trabalhar a terra. Considerava-se que o sétimo dia da Lua trazia sorte para laçar e domar o gado selvagem e, no verão, o feno de um prado seco deveria ser cortado depois do anoitecer para melhores resultados, uma das regras da produção de feno que era seguida com frequência na Itália e que persiste na lembrança de muitos. (BLAINEY, 2008, apud COSTA, 2009) A Filosofia apresenta-se como base da moral romana, da qual se destaca Horácio comoum poeta cuja obra está marcada pelos valores do estoicismo (corrente filosófica quefundamentava-se num universal materialismo e dispensava qualquer transcendência) e doepicurismo, o qual foi uma das respostas dadas pelas escolas filosóficas ao momento históricoem que vivia a Grécia da época helenística. Ambas são, entretanto, correntes da filosofia queretornam à metafísica naturalista dos pré-socráticos e foram de extrema relevância para aconcepção de valores dos romanos para a vida em sociedade. Os romanos foram introdutores de novos componentes arquitetônicos, dos quais sedestacam os arcos, as cúpulas e as abóbadas, além dos aspectos monumentais de suasconstruções, a exemplo de estradas e pontes, imprescindíveis para facilitar a comunicação e ocomércio entre as cidades, assim como para garantir a união do Império através da melhorlocomoção do exército e de pessoas. Sem falar nos arcos de triunfo, anfiteatros, templos,circos, basílicas e casas de banhos (termas). Muitos desses monumentos sobrevivem até osdias atuais, como é o caso das ruínas do Coliseu. Na escultura, sempre houve a preocupação de reproduzir de forma realista ascaracterísticas da fisionomia dos modelos, mormente cabeças ou bustos, principalmente dasgrandes personagens públicas, dando grande valor ainda à técnica dos afrescos e mosaicos.Isso mostra a inovação dos romanos em relação aos gregos, uma vez que estes, aorepresentarem um imperador ou filósofo importante, os endeusavam e davam-lhes uma formaescultural divinizada. Quanto ao esporte, as lutas de gladiadores nas arenas (termo quesignifica areia), o lançamento de dardos, as corridas, o levantamento de pesos e a natação,praticados pelos romanos, exerceram muita influência nas modalidades esportivas atuais,tendo até mesmo a estrutura dos estádios de futebol inserida neste legado (uma analogia aoColiseu, que estruturalmente pode ter dado origem a esses espaços esportivos). A publicidade faz parte de uma importante atividade econômica que move o setor deconsumo, tendo como principal interesse a difusão maciça de apelos que instigam a comprade produtos e serviços. O termo publicidade, de acordo com Cunha (1982), vem dosubstantivo latino publicus e do verbo publicare, sendo originalmente vocacionado para a
  22. 22. 21livre circulação das idéias. Ao redor do mundo, ela interfere decisivamente nas decisõestomadas pelos consumidores por meio do intensivo investimento na propagação de marcas.Pertencentes a esse paradigma, marcas como ADIDAS e OLYMPIKUS, ambas produtoras demateriais esportivos, possuem, na investigação da sua raiz etimológica, origem no latim:ADIDAS - do verbo latino addo, -is, -ere, -didi, -ditum = 1) colocar junto de, pôr juntamente,aplicar, adaptar; 2) ajuntar, acrescentar, aumentar, redobrar a velocidade; 3) tornar-se maiscorajoso, dar coragem. No português adido (adj. sm.); e OLYMPIKUS - do adjetivo latinoolympicus, -a, -um = Olímpico, do substantivo latino Olympus, i = Olimpo, montanha entre aTessália e a Macedônia, morada dos deuses. Percebe-se, lexicalmente, (Cunha, 1982) que até mesmo nas relações mais intrínsecasdo homem, esta cultura está presente: o termo “família”, derivado do latim “famulus”, quesignifica “escravo doméstico”, foi criado na Roma Antiga para designar um novo grupo socialque surgiu entre as tribos latinas, ao serem introduzidas a agricultura e a escravidãolegalizadas. Até mesmo “amor” é latino: o verbo amare é a base para a palavra amor; diligeretem a noção de "ser afetuoso de", "a estima", e seria adequado para descrever a amizade dedois homens; caritas é usado em traduções da Bíblia para significar "amor caritativo". Socialmente, a noiva como figura central na cerimônia de casamento, bem vestida earrumada com flores de laranjeiras no véu, é mais um artifício romano. Como este, outroshábitos diários desse povo prevalecem no cotidiano, a saber: tomar vinho por razões etílicasou de saúde; tomar banho em locais públicos; valorizar os avanços tecnológicos; lutar pelosdireitos de um cidadão etc. Diante de tanta exuberância e riqueza, porém, não se engane empensar que antigamente não existiam práticas como a prostituição, o homossexualismo e oócio; atitudes imorais como propina, orgia e luxúrias (os aristocratas viviam em versõesluxuosas da domus, a tradicional casa da nobreza romana, que possuía água corrente episcinas aquecidas); as diferenças sociais e a escravização. Esta antiga língua está ainda nas tecnologias mais modernas (segundo BLAINEY,2008 apud COSTA, 2009): na fecundação in vitro, no fax (abreviação de fac simile, quesignifica "faça de maneira semelhante"), num curriculum vitae, na renda per capita, déficits,superávits, e da pós-graduação lato ou stricto sensu ao doutor honoris causa. Mesmo muitaspalavras importadas do inglês remontam ao latim: na informática usa-se o verbo deletar, doinglês to delete, que vem do verbo deleo, delere (latim) e significa "destruo, apago”.Aproximadamente oitenta por cento das palavras da língua portuguesa são oriundas ou aindaescritas em latim, como, por exemplo, as expressões idem, o supra summum, o et caetera.
  23. 23. 22 Alguns filmes, como A Paixão de Cristo, apresentam diálogos em latim; muitasorganizações e governos ainda hoje ostentam lemas em latim, como o estado brasileiro deMinas Gerais (libertas quæ sera tamen). A tradução para o latim de obras "best-sellers",como Harry Potter, além da presença da língua latina em jogos de videogame e em letras demúsicas de bandas conhecidas se tornam fatores de interesse por jovens para seu estudo.Encontra-se ainda vivo o gênero épico no cinema, em que naquela época, os gladiadoresapareciam a serviço das narrativas no começo do Cristianismo. Outro legado romano é aforma de contar os dias do ano e o próprio calendário gregoriano usado atualmente. Adenominação do mês de julho, por exemplo, é emprestado do nome Júlio César, tendo César,por sua vez, virado sinônimo de imperador e derivado em alemão kaiser e em russo czar. Em relação ao seu valor linguístico, não se pode deixar de falar que o latim vulgar é oancestral das línguas neolatinas (italiano, francês, espanhol, português, romeno, catalão, reto-românico e outros idiomas e dialetos regionais da área); assim também como muitas palavrasadaptadas e/ou originadas do latim foram adotadas por outras línguas modernas nãoneolatinas, como o inglês e o alemão. O fato de haver sido a língua franca do mundo ocidentalpor mais de mil anos é prova de sua influência. Após sua transformação nas línguasromânicas, o latim continuou a fornecer um repertório de termos para muitos campossemânticos, especialmente culturais e técnicos, para uma ampla variedade de línguas. Das cidades aos campos, das termas aos teatros, da literatura à filosofia, da ciência àengenharia, da história à mitologia, enfim, todo esse legado romano assegura a perpetuação deum passado que está recriado na sociedade contemporânea, através da língua latina. Portanto,essa grande herança deixada pela civilização romana marca um elo entre o seu passado e opresente, tornando-se um patrimônio de valor inestimável, que deve ser preservado e estudadoao longo dos tempos.
  24. 24. 23 CAPÍTULO 2: A LÍNGUA LATINA A língua, de um modo geral, pode ser definida como um sistema de signosconvencionais que articula a comunicação entre pessoas de uma determinada comunidade.Este sistema, por não compor uma realidade estática, possui um dinamismo que o leva de umaimperceptível variação a uma notória mudança. A língua latina, portanto, foi a linguagem quepredominou, inicialmente, na região do Lácio até estender-se por toda a Roma e, temposdepois, para diversos lugares do mundo. Isso mostra desde já a influência desse sistemalinguístico para a formação de outras línguas. Entre vários outros falados na Península Itálica, o latim era o idioma de simplespastores e rústicos agricultores, pessoas que viviam diretamente da terra e apenas o utilizavamcomo meio de comunicação. Com a romanização, os latinos, além de entrarem em contatocom povos cujo modelo social era mais estruturado, acabaram incorporando elementos deculturas diversas para formar o que viria a ser o Império Romano. Assim, a priori serviram-sedos etruscos, dos quais possivelmente herdaram o alfabeto que nos foi legado. Por fim,enriqueceram-se com os gregos, de quem não só se inspiraram no apreço pelas artes como, esobretudo, no cultivo das letras. Uma vez com uma sociedade politicamente ordenada e fazendo uso da língua parafins inclusive estéticos, os romanos passam a conhecer a literatura como arte, e o latim passa ater dois padrões de fala: o vulgar e o literário. Fundamentais para a história do antigo império,estas duas modalidades de articulação da mesma língua convivem lado a lado por muitotempo, até que tenham desfechos diferentes: uma transformar-se-á, gerando falares, enquantoa outra será preservada em obras de arte. Para Maurer Jr. (1962, p. 53 apud ROSSI, 2001) na Roma antiga, as três principaismanifestações do latim eram: a língua literária, utilizada por grandes escritores como Cícero eHorácio; a língua coloquial urbana, usada pela sociedade aristocrática; e a língua vulgar, queera falada pelo povo. É interessante ainda constatar algumas características do latim clássico:a primeira delas é a estabilidade linguística, pois era extremamente rígido. Isso se deve por setratar de uma língua empregada por uma elite dominante – os patrícios – zelosa de proteger
  25. 25. 24seu poder político, econômico e social, uma vez que tinha costumes e educação muitorefinada. Outra característica é a formalidade da língua, sempre tendendo para o sintético, e aestabilidade do latim literário, uma espécie de suporte documental para o latim utilizado poressa minoria. Vê-se aí o idioma como fator de dominação, como instrumento de poder, umaespécie de subestimação da cultura do dominado, como se o fato de saber uma língua deextrema rigidez gramatical, como o latim clássico, conferisse direitos quase divinos aos seusfalantes, e qualquer outra manifestação linguística diferente desta seria quase uma ofensa aosdeuses. Daí a marginalização por parte dos patrícios do latim dito vulgar. Apesar disso, algunsescritores, como Cícero e Petrônio, usaram-no em suas obras. Quando o latim, através da sua repercussão como língua oficial do Império Romano,foi aos poucos sendo integrado à cultura local de outras comunidades, sofreu direta eindiretamente modificações em sua estrutura, sobretudo no que diz respeito à fala, resultandoentão na sua dialetação. Com o passar do tempo, este continuou a se distanciar do padrãoliterário e acabou evoluindo para as línguas românicas. Por outro lado, muitas palavrasadaptadas e/ou originadas do latim foram adotadas por outras línguas não neolatinas, como oinglês e o alemão. O fato de haver sido a língua franca do mundo ocidental por mais de mil anos é provamaior de sua influência. Esta influência pode ser muito bem detectada em diversas áreassociais, verificando-se os elementos linguisticos de diferentes povos. Após sua transformaçãonas línguas românicas, o latim continuou a fornecer um repertório de termos a muitos campossemânticos, especialmente para o português que, apesar de ser formado com a contribuiçãolinguistica de várias culturas, tem a língua dos antigos romanos como sua matriz principal.2.1 Os aspectos vulgar e clássico da língua O latim foi transmitido de geração em geração e para povos de lugares distantes que,em contato com esta língua, assimilaram-na e disseminaram-na por onde passaram, levandoconsigo resquícios da cultura romana. Com o passar do tempo, aqueles que com ela tiveramcontato, a seu modo, utilizaram-na em suas próprias culturas e fizeram, portanto, do latimuma língua universal. Segundo Cardoso (1999, p. 06), “durante o longo período de tempo emque foi utilizado como língua viva, o latim sofreu, evidentemente, profundas transformações”,
  26. 26. 25Para atestar a afirmação, basta notar as grandes dessemelhanças entre os primeiros textosliterários produzidos no início do século I a.C. e os da era cristã, no final do século V. Este fato faz com que, de acordo com o período e a situação social predominante,caracterize-se historicamente o latim. Assim, denomina-se latim pré-histórico à língua faladapelos primeiros habitantes do Lácio, aproximadamente no século XI a.C, quando não se temvestígios de nenhum documento escrito. Ao surgiram os primeiros documentos escritos,aproximadamente entre os séculos VII e IV a.C., este é chamado latim proto-histórico. Olatim utilizado entre o século III e I a.C. e que manifestava-se, sobretudo, nos textos literáriosé nomeado arcaico. A partir do momento em que essa língua enriquece sua estruturagramatical, graças à literatura e à influência da cultura helenística, surge o latim clássico, nosegundo quartel do século I a.C. quando foram criadas obras literárias que marcaram a poesiae a prosa latinas. Por fim, considera-se o latim pós-clássico, recorrente nos primeiros séculosda era cristã, entre I e V, o que já não carrega a pureza e o vigor gramatical que marcaram afase anterior, percebendo-se, logo, a dialetação do mesmo. É possível compreender que as fases pelas quais esta língua passou acarretaramvariações e condicionamentos, o que justifica as mudanças ocorridas e a concepção de que olatim poderia, com o tempo, se extinguir, o que felizmente, não aconteceu. Fato é que, a partirdo período arcaico, Roma passa a conviver com duas “modalidades linguisticamenteacentuadas”: o latim clássico e o latim vulgar. Uma língua tem dois empregos distintos: o literário, quase sempre escrito, usado pelos artistas da palavra e pela sociedade culta, difundido nas escolas e Academias – e o popular, falado quase sempre, de que se serve o povo despreocupado e inculto. (NETO apud CARVALHO e NASCIMENTO, 1984, p.13) O latim falado, denominado vulgar ou sermo vulgaris, floresceu durante o ImpérioRomano e permaneceu quando então os povos bárbaros invadiram e conquistaram essa nação.Os fatores que diferenciam-no do latim erudito estão além da dialetação. Sendo aquele usadopelas classes populares e estas, portanto, em maior número, funcionava “como uminstrumento familiar de comunicação diária” (Coutinho, 1976, p. 30). A principalconsequência do processo de romanização do latim foi o descontrole da variação linguísticaque ocorreu na língua. Os indícios do latim vulgar podem ser encontrados em algumas obrasliterárias da época, e isso permite ratificar as fases do latim. Entretanto, como era umavariedade da língua oral, dificultava o estudo da gramática por ser muito distinta.
  27. 27. 26 No estudo do latim vulgar, deve-se salientar a importância das obras dos escritores da decadência romana, sobretudo daqueles que, visando a um objetivo superior, escreviam com simplicidade, sem a preocupação da gramática e do estilo. Neste número, estão os escritores cristãos. (COUTINHO, 1976, p. 31) Como afirma o autor, as construções gramaticais eram mais simples, caracterizando-seo latim vulgar por mudanças no vocabulário quando, por exemplo, acrescentou novossignificados a uma mesma palavra ou na criação de outras; na fonética, pela supressão,inserção ou transformação de segmentos fônicos, tais como encontros vocálicos; namorfologia, ao reduzir o número de declinações e casos do latim clássico etc; e na sintaxe,principalmente pelas construções analíticas (muitas destas transformações estão presentes emgramáticas das línguas novilatinas, como o português). De acordo com Furlan (2006, p. 31),porém, “entendê-lo no sentido depreciativo de vulgarismo, de uso linguístico condenável,implicaria equívoco resultante de visão linguística superada”. Isso porque, segundo ele, avariação falada do latim não significa que houve corrupção do latim clássico, tampouco que olatim vulgar o sucedeu, uma vez que caracteriza-se como uma evolução e perpetuação dalíngua. Já o latim clássico, também chamado de sermo urbanus, é o latim em sua essênciaculta e bela, uma língua sintética que prima pela objetividade. Segundo Coutinho (1976, p.29) “caracteriza-se pelo apuro do vocabulário, pela correção gramatical e pela elegância doestilo”. Em outras palavras, era uma forma que, em um número menor de vocábulos,transmitia a mesma mensagem que frases complexas de línguas analíticas. A pureza esofisticação desta modalidade é ainda sinônimo de admiração de estudiosos da língua. Por serde extrema rigidez gramatical, era utilizada especialmente pelas classes mais prestigiadas epelos autores literários. Por tal motivo, para uns o latim é tão aclamado e por outros tãorepudiado: a gramática latina exige muita atenção e estudo, portanto, o esforço para umaaprendizagem significativa varia conforme a motivação de cada um. Importante notar que o latim clássico está diretamente relacionado ao latim literário,usado nas obras. Para Furlan (2006, p.32) “o latim clássico é o da língua literária e da línguaescrita em situação formal, com preocupações estéticas ou didáticas pelos escritores doperíodo áureo da literatura latina”. Isso faz, segundo ele, com que a língua e a literatura latinasdiferenciem-se do grego, por exemplo, pois por ser sintética, não era produto somente dointelecto, mas de elementos que a tornaram suprema, erudita, símbolo do poder romano. Foiatravés da língua latina, especialmente do latim clássico, que Roma instituiu seu Império, pormeio das grandes obras literárias que foram escritas na época. O próprio César Augusto
  28. 28. 27percebeu o valor que a língua tinha e, por isso, instigava os poetas e prosadores latinos acomporem textos que transmitissem ao povo, principalmente, aos conquistados, as glórias doImpério Romano. A relevância de estudar o latim clássico vai muito além das dúvidas recorrentes emlínguas como o português, o qual a maior parte do vernáculo se compõe de palavras latinas. Oconfronto de línguas sintéticas com línguas analíticas, especialmente quando estas sãooriundas daquelas, permitem a comparação entre elas e influenciam no estudo concentrado dalíngua em suas especificidades (aspectos morfológicos, sintáticos, semânticos etc). O latim vulgar era usado pelas diversas classes populares (sermo quotidianus,urbanus, plebeius, rusticus, ruralis, pedestris, castrensis etc). O latim clássico, apesar decultivado e preservado pela classe mais culta da sociedade romana, foi cedendo espaço para opadrão coloquial. No período considerado pós-clássico, a língua literária começou a perder apureza e sua característica sintética para dar lugar a formas analíticas, dialetações oriundas dadisseminação do latim vulgar. O latim vulgar, comum a todos, é, portanto, o ancestral daslínguas neolatinas.2.2 As línguas românicas A queda do Império fez com que o latim perdesse o poder de língua normativa. Associedades que haviam sido conquistadas e o absorveram como língua, tornaram-no tãodiversificado que isso implicou, geograficamente, na consequente formação de sistemaslinguísticos distintos. Naturalmente, foi um processo lento, mas decorridos os séculos, elesforam se concretizando. Herança valiosa para as sociedades que as tem como línguas oficiais, ou mesmo umsegundo falar, as línguas românicas formam um grupo de idiomas evoluído do latim vulgar.Sabendo-se que a língua, de uma forma geral, é viva e dinâmica e, por este motivo, carregaconsigo aspectos histórico-culturais de um povo, tornando-se o elemento básico para aconstrução e o desenvolvimento de uma civilização, pode-se afirmar que as línguas neolatinassão responsáveis pela formação de um novo mundo: a civilização latina. Será que, realmente com propriedade, o Latim deve ser chamado de língua morta? [...] E se afirmássemos que o Latim, mesmo não sendo a língua de um povo, é,
  29. 29. 28 talvez por isso a língua de uma civilização, a nossa civilização ocidental? (SILVA ROSA, 1974). Com o enfraquecimento da unidade linguística, no século V, o latim vulgar sedialetou, passando a se desenvolver distintamente em localidades e contextos diversos.Surgem, assim, falares regionais que, mesmo oriundos do latim, devido às grandesmodificações apresentadas, já não se poderia concebê-los como tal. Por outro lado, tambémnão poderiam ser considerados como línguas literárias, por faltar-lhes “instrumentoslinguísticos” (CARVALHO; NASCIMENTO, 1984) para as novas composições sociais epolíticas. A esses múltiplos falares intermediários (castelhano, leonês, galo-provençal,romanço lusitânico etc) entre o latim vulgar e as línguas românicas atuais, chama-se romançosou romances. Logo, conclui-se que as línguas românicas têm raiz mediata no latim vulgar eimediata nos romanços. Passada a fase de transição que caracterizou os romanços, paulatinamente com osurgimento de textos redigidos atesta-se, então, o nascimento das línguas românicas.Importante lembrar que o registro literário de aparecimento de alguns desses idiomasacompanham simultaneamente o surgimento de determinada nação. Isto para citar aimportância política de uma língua. Assim, tem-se: francês (séc. IX); espanhol ou castelhano(séc. X); italiano (séc. X); sardo (séc. XI); provençal (séc. XII); rético ou reto-românico (séc.XII); catalão (séc. XII, ou princípios do séc. XIII); português (séc. XIII); franco-provençal(séc. XIII); dálmata ou dalmático (séc. XIV) e romeno (séc. XVI). As línguas românicas encontram-se presentes nos sete continentes, atuando em seispaíses como línguas oficiais. Delas, apenas o dalmático – falado até fins do século XIX naDalmácia, antiga região da Iugoslávia – está morto. Estes idiomas não só comprovam que olatim vive, como também trazem consigo uma gama imensa do apogeu do Império Romano,servindo de fonte formadora para novas sociedades. Talvez como ascendentes têm de morrer para que a vida exploda, o Latim, mesmo não sendo língua de um grupamento social (logo “morreu”), está cada vez mais vivo como o repositório, a fonte de solução dos problemas linguísticos aflorados pela angústia criadora deste inventor insaciável que é o homem moderno. (SILVA ROSA, 1974) Embora o latim não seja mais língua de um grupo que nasça falando-o, estudiososaceitam a concepção de que, pela herança linguística, literária e sócio-cultural deixada, esteencontra-se vivo, de uma forma diferente, no mundo atual. Além disso, seu conhecimento é
  30. 30. 29fundamental para a compreensão das línguas românicas, e estas, por sua vez, fortalecem anecessidade de estudá-lo. Para Bearzoti Filho (2002, p.9) “Dentre elas, muitas tiveram cursode vida breve. Outras sobreviveram, ganharam tradição escrita e tornaram-se línguas oficiaisde Estados Modernos independentes”. Segundo o autor, as línguas de origem latina maisinfluentes e disseminadas, no presente e no passado, são o português, o galego, o espanhol, ocatalão, o francês, o provençal, o italiano e o romeno. Atualmente, dos dez idiomas maisfalados no mundo três são românicos (o espanhol, o português e o francês) e dois receberambastante influência do latim (o inglês e o alemão); e dos cinco principais difundidos com acolonização (o inglês, o francês, o espanhol, o holandês e o português), mais uma vez a línguados romanos se faz presente.2.3 Uma fonte de conhecimento do Português No prefácio de seu livro Gramática Latina, Napoleão Mendes de Almeida (1992) tratada verdadeira importância do latim, no qual aponta, dentre outras, sua relevância para oconhecimento da língua materna brasileira, o português. Afirma que não se pode pensar noestudo do latim apenas como benefício para a aprendizagem exclusiva do próprio idioma,muito menos que esta é a sua primeira finalidade, pois deste “podemos retirar a utilidade paratodo o vernáculo”. Sabendo-se, porém, que a língua portuguesa possui influência quaseunânime da língua latina, a qual abrange cerca de oitenta por cento do léxico, o autor defendeque o estudo do idioma dos antigos romanos possibilita um entendimento conciso da línguanacional e, para tanto, propõe a inserção do latim nas salas de aula, desde a formação básica àsuperior. Almeida afirma ainda que, para qualquer outro fim, o estudo do latim proporciona maiordesenvolvimento do raciocínio lógico e da coordenação mental, aguçando o hábito de análisee o espírito de observação, como deve ser todo trabalho educativo. Entretanto, hábilidadescognitivas à parte, sendo a língua portuguesa uma extensão do latim, que em processo deromanização chegou à Península Ibérica no século III a. C., em todos os aspectos linguísticosde sua formação encontram-se elementos da língua dos césares. É possível, portanto, detectaratualmente na gramática vernácula brasileira indicíos pertencentes tanto ao latim vulgar comoao clássico, já que ambos conviveram e, até certo ponto, se misturaram.
  31. 31. 30 Na fonética, com o latim vulgar, a tendência na fala do povo era tornar palavrasproparoxítonas em paroxítonas. Esse fator explica porque em português há um númeroconsiderável de palavras paroxítonas em relação às demais. Exemplo: álacrem (latimclássico) > alácre (latim vulgar) > alegre (português); cáthedram (latim clássico) > cathédra(latim vulgar) > cadeira (português). No léxico também houve a predominância do uso depalavras populares e afetivas com sufixos diminutivos. Por exemplo: o vocábulo auris (latimclássico) era mais utilizado na forma diminutiva auricula (latim vulgar). A evolução dessapalavra, através de processos fonéticos e fonológicos, resultou em orelha; a palavra equus(latim clássico) jamais era usada pelo povo que preferia caballu (latim vulgar), culminandoem cavalo. Ainda em relação ao léxico, a formação do português brasileiro foi muito influenciadopelos empréstimos linguísticos, mas o latim sobressaiu a todos, por meio da variação falada, aqual agregou palavras de todos os povos da Península Ibérica. Deste modo, a contribuiçãolatina para a compreensão de algumas palavras em português parece ser indispensável, poispossibilita ao aprendiz a percepção do sentido amplo de um vernáculo e a análise devocábulos aparentemente da mesma “família”. Exemplos: água fluvial (lat. fluvius, i: rio);água pluvial (lat. pluvius, i: chuva), daí pluviômetro, instrumento que mede as preciptaçõesdas chuvas; cavalo alado (lat. ala, ae: asa) e inverno (lat. hibernu), por isso a palavraportuguesa hibernar, que diz respeito ao ato dos animais permanecerem em sua tocarepousando durante o inverno. Na morfologia, verifica-se uma quantidade enorme de estrutura que não só facilita oentendimento do português, como também o coloca em contato direto com o latim. É o casodas formas comparativas e superlativas de adjetivos, que mesmo existindo uma tendência parao analitismo, nota-se ambas convivendo na gramática portuguesa. Exemplo de comparativo:dulcior, no latim clássico (forma sintética); magis ou plus dulce, no latim vulgar (formaanalítica); mais doce em português. Exemplo de superlativo: dulcissimus, no latim clássico(forma sintética); multo dulce, no vulgar (forma analítica); docíssimo e muito doce emportuguês. O mesmo se dá na formação da voz passiva na língua portuguesa: enquanto apassiva analítica segue a predominância do latim corrente, a passiva sintética ou de infinitivoseguem a forma do latim clássico. Dando continuidade à morfologia, a regra do plural em muitas palavras na línguaportuguesa consiste apenas no acréscimo da desinência S, o que não ocorre em latim. Assim,o estudo da língua latina esclarece que as diferentes formas de plural do português, sobretudoterminadas em ão, podem ser naturalmente explicadas. A terminação plural ões tem sua
  32. 32. 31origem na terminação latina one ou ones, a exemplo de orationes (orações) e nationes(nações); o plural ães, nasceu de palavras terminadas em an, ane ou anes, como canes (cães) epanes (pães); o plural ãos teve duas formações: anu, anus, como em manus (mãos) e granus(grãos) e palavras paroxítonas terminadas em ãos, como bênção (bênçãos) e órfão (órfãos).Há, ainda algumas palavras na língua portuguesa que permitem mais de uma forma de plural,mas a tendência é a predominância do plural ões, como ancião, que pode ser anciãos, anciõesou anciães. Na sintaxe, também se encontram várias estruturas que só podem ser entendidas eexplicadas a partir do conhecimento da língua dos romanos. Citemos o caso das oraçõessubordinadas substantivas que no português possuem mais de uma forma: as substantivasreduzidas de infinitivo, as quais seguem o latim clássico. Exemplo: O povo diz ser a Terraredonda (Vulgus dicit terram esse rotundam); e as substantivas desenvolvidas, que mediante aconjunção integrante segue o analitismo do latim vulgar. Exemplo: O povo diz que a terra éredonda (Vulgus dicit quod Terra est rotunda). Como meio para um conhecimento mais específico sobre uma língua, observa-setambém a etimologia. A etimologia é a ciência que estuda a origem das palavras em seusentido mais verdadeiro possível, desde a raiz linguística a qual se originou. Se no portuguêsas palavras originaram-se, em sua maioria, do latim, logo, muitos vocábulos têm sentidoconciso com a busca pela origem etimológica latina. Entender o processo de formação daspalavras a partir do latim facilita a compreensão de termos aparentemente ilógicos. É o casoda palavra dominus,i (senhor) que aparece nos vocábulos dominar, domínio, condomínio;ager,agri (campo) origem das palavras agrário, agrícola, agricultor; e nauta,ae (marinheiro)formadora de náutico, astronauta, internauta etc. A título de curiosidade, ainda etimológica, os dias da semana têm seus nomes nalíngua portuguesa devido a palavras de origem latina. Nas liturgias, os dias da semana daPáscoa eram considerados dias santos, por isso não se deveria trabalhar: O shabbat (o sábado)era o dia em que os judeus se uniam para fazer sua reunião de fé e de mercado, último dia deseu calendário semanal, sendo este, portanto, o dia de descanso. Em 189 d.C., o Papa Vítor Imuda o dia de descanso dos cristãos para o domingo, em homenagem à ressurreição de Cristo.Em 325 d.C., as orientações decididas no Primeiro Concílio de Niceia, reafirmaram a decisãode Vítor I, mudando o nome de Solis Dies, que significa Dia do Sol - forma como os pagãosse referiam ao domingo - para Dominica Dies, depois para Dominus Dei, que em portuguêsquer dizer “Dia do Senhor” e evoluiu para o vernáculo domingo.
  33. 33. 32 Como descreve Arruda (2011, p. 18) o conhecimento de uma língua está muito alémde sua estrutura ou gramática, pois possui também aspectos culturais e históricos. Então,conhecer a língua latina, bem como a sua formação, conferem ao usuário do idioma portuguêsa capacidade de entender sua própria origem e elucidar as dúvidas relacionadas às mudançasde uma língua para outra.
  34. 34. 33 CAPÍTULO 3: A LITERATURA LATINA A Literatura é uma das principais expressões artísticas que prima por criar um universoparalelo ao mundo real, mas com traços que se assemelham a este. Fatos históricos, problemassociais, vida em comunidade, guerras, conquistas etc, tudo o que marca o cotidiano de umpovo pode se tornar objeto de inspiração para esta arte. Vale ressaltar, no entanto, queLiteratura não deve ser confundida com História, apesar delas se relacionarem. Ocorre que aarte literária, de um modo geral, permite ao ser humano a sensação de parecer possível omundo ficcional, colocando-o próximo do mundo real e conferindo ao seu contexto socialuma similaridade com o ambiente descrito na obra. Evidente que este não é o objetivo daliteratura, tampouco sua função, mas se a vida ao redor do Lácio inspirava os escritores autilizarem-no como espaço privilegiado em suas obras, não tinha razão para não sê-lo. Assim, este capítulo trata, de maneira específica e suscinta, da Literatura Latina,apresentando um breve relato sobre o surgimento desta arte, alguns momentos importantes dasociedade romana, os quais influenciaram os artistas a compor seus trabalhos, e umaclassificação em “fases” e “épocas” que, conquanto convencionais, guardam característicasbem marcantes. Outrossim, serão citados alguns escritores e obras de extrema relevância parao conhecimento acadêmico, bem como a importância que essa literatura teve em sua época eainda tem para as civilizações posteriores, pois, embora a criação de obras literárias em Romatenha sido inicialmente lenta e imitadora, o que denominar-se-á Literatura Latina é o resultadode um “ato criador” inigualável que contará e encantará a humanidade, como define Coelho(1980, p. 22). Ressalta-se que, para a conceituação de literatura num âmbito geral foramutilizadas as teorias de Nelly Coelho (1980) e, para o estudo da Literatura Latina, (prosa epoesia), os teóricos foram Zélia Cardoso (2003) e Oswaldo Furlan (2006), além de estudoscomplementares.
  35. 35. 343.1 Um breve histórico A arte de contar histórias é conhecida desde a Grécia antiga, e os romanos tinham oentendimento de que, para ser uma nação independente e de cultura própria, deveriam ter asua forma diferente de fazê-la. Inspirados nos gregos, mas não copistas, os latinosintroduziram e fundamentaram sua literatura para, tempos depois, fazer parte da história.Tomando como exemplo a Ilíada e a Odisséia, ambas atribuídas ao escritor grego Homero,poetas e prosadores latinos começaram a escrever sobre a vida em Roma. Assim, surgemobras que tanto contam o cotidiano romano como os grandes feitos dos imperadores. Alémdisso, o próprio latim torna-se o elo de ligação entre a arte falada e a escrita, e a literaturapassa a ser contemplada como forma de manifestar o belo e o inspirador. Segundo Cardoso (2003), “o estudo de uma literatura, portanto, deve ser precedido deuma coleta de informações sobre a época em que ela nasceu e floresceu”, assim como “acompreensão das manifestações culturais de um povo pressupõe o conhecimento dascircunstâncias em que elas se produziram”. Logo, para que se possa dar início ao estudo daLiteratura Latina torna-se conveniente compreender como essa arte originou-se em Roma eem que contexto social. A literatura de Roma, assim como qualquer outra, estava intrinsecamente relacionada àvida social, havendo períodos em que esta foi mais ou menos favorecida e valorizada. Seunascimento, evolução, apogeu e, por fim, declínio acompanham o ritmo da própria históriaromana. A consequência da romanização impôs aos latinos o convívio com vários povos,atuando em determinados momentos como aprendiz e, em outros, como mestre. Aprenderammuito, a princípio, com os etruscos, dos quais possivelmente legaram o alfabeto, eposteriormente com os gregos de quem, dentre tantas heranças culturais, desenvolveram ocultivo das letras. Sob a boa influência helênica, desde o século III a. C., o latim praticado com intuitoartístico foi sendo gradativamente enriquecido, até alcançar, no século I a. C., como afirmaCunha (1986, p.12), “a alta perfeição da prosa de Cícero e César, ou da poesia de Vergílio eHorácio”. Em 240 a.C., o épico grego Odisseia foi traduzido para a língua latina por LívioAndrônico, um grego de Tarento que morava e ensinava em Roma. E isso marcariaoficialmente o início da literatura local. No entanto, foi em meados dos séculos VII ou VI a.C que a literatura realmente começaa surgir, restringindo-se, até então, a manifestações orais. O surgimento de Roma, contado
  36. 36. 35mitologicamente pela lenda dos irmãos Rômulo e Remo, ou mesmo pela História, a partir dospovos que habitaram o Lácio, passando pelas conquistas territoriais, as guerras, as vitórias eperdas, o triunfo do Império Romano, as invasões etc eram temas recorrentes dessas obras dearte. Todas as transformações sofridas por Roma, desde o seu “nascimento”, transcorrendoa Monarquia, a República até a queda do Império, são documentadas e registradas pelaliteratura e, quando a criação destas produções cresce em grande escala, vê-se a necessidadede organizá-las. Cardoso (2003) diz que “embora saibamos que a tentativa de classificar asmanifestações literárias por períodos, épocas ou escolas é arbitrária e convencional” [...], estaé uma forma de especificar os pensamentos de cada momento que foram, sem dúvidanenhuma, distintos entre si por possuírem, sobretudo, características definidas. Logo, ahistória desta literatura foi dividida didaticamente em períodos, e os trabalhos produzidos,classificados em gêneros para, compreendendo o contexto da época, poder ser feito oentendimento adequado das obras. Classifica-se, pois, a literatura latina em quatro fases, as quais se distinguem peloperíodo em que determinados fatos ocorreram e que marcaram a história romana: a primeira, afase primitiva: corresponde às primeiras obras traduzidas para o latim e às primeirasinscrições nesta língua; a segunda, a helenística: os romanos inspiram-se nas produçõesgregas para criar as suas primeiras poesias; a terceira fase é a clássica: período em que aliteratura alcança seu auge, pois é justamente o momento de esplendor do Império Romano, eos seus governantes dão o aval para que os poetas e prosadores latinos escrevam as glórias e opoder que nessa época o mundo mediterrâneo pôde conhecer. Por ocorrer nesta faseacontecimentos distintos, foi sub-dividida em três épocas: a época de Cícero, criador de umaliteratura clássica; a de Augusto, considerada a mais elevada pois este imperador usou aliteratura inclusive a serviço da política; e a época dos imperadores julio-claudianos, em queRoma já começa a perder seu poder hegemônico, mas ainda florescem obras literárias. Quando o Império entra em decadência, inicia-se a quarta e última fase, a pós-clássica,a qual, mesmo não contendo o brilho da anterior, revela grandes escritores. Esta fase, tambémpor características diferentes, se divide em duas épocas: a neoclássica, em que ainda se tem aescrita de obras relevantes tanto na poesia como na prosa; e a cristã, no final do século II, queabre espaço para produções de caráter estritamente religioso. A queda do Império Romano enfraquece em muito a produção literária latina, umavez que o Cristianismo, implantado por Constantino como religião oficial, e a dialetação dalíngua latina, aliados a outros fatores político-culturais, prenunciam um novo período na
  37. 37. 36história da humanidade: a Idade Média. A Igreja Católica Romana passa a ser a grandematenedora dos trabalhos produzidos em latim. Prova disso é que, nos séculos posteriores, asepístolas e poesias líricas de conteúdo religioso serão os tipos mais comuns de obras literáriase, especialmente nos séculos IV e V, as Cartas de São Jerônimo serão exemplos marcantespara estudo da língua latina. Com isso, “os textos escritos em latim só atingiam um públicoreduzido” e “a produção literária definhava” (CARDOSO, 2003, p.210). Assim, acontinuidade da Literatura Latina se deu, desse momento em diante, com obras eclesiásticas eescritores ligados a assuntos espirituais e morais. Importante ressaltar que, em 395 d.C. após o falecimento de Teodósio, na tentativa deevitar o desmoronamento, o vasto Império Romano foi dividido em duas partes: Ocidente eOriente. A parte ocidental é a primeira a ser invadida e dominada pelos povos bárbaros,sucumbindo em 476. Já o Império do Oriente duraria tempo suficiente para que o latim setornasse uma língua universalizante (através do surgimento das línguas românicas) e para quesua escrita fosse cada vez mais utilizada pela religião e entre as classes sociais cultas dasociedade. Para Coelho (1980, p. 23) “a arte é na realidade, em suas expressões mais variadas, ofenômeno que descobre o mundo à Humanidade”, buscando entender o universo do homem esua existência, por isso deixa de ser a imitação do real para tornar-se a verdade do mundoficcional. Assim, o que se produziu em Roma é resultado da essência que a literaturaencontrou no ser humano, sobretudo na vida do povo romano, com seus mistérios e conflitosexistenciais. Estudar e entender a Literatura Latina é buscar no passado um sentido para opresente, já que muito do que foi escrito compõe hoje a nossa história. A partir desse sintéticoestudo, busca-se compreender como os gêneros literários romanos se difundiram,transformando sobremaneira suas obras em clássicos da literatura universal e fontes deinspiração para escritores contemporâneos.3.2 A poesia latina Tanto na Grécia como em Roma, as primeiras obras de arte inspiravam-se em mitosacerca da origem dessas civilizações. A pequena região conhecida como Lácio foi, através damitologia romana, transfigurada em um ambiente onde o mágico e o extraordinário aconteceu:duas crianças são encontradas e alimentadas por uma loba. Com o passar do tempo, essas
  38. 38. 37crianças crescem e se tornam as precussoras de um futuro grande império. A lenda dos irmãosRômulo e Remo é muito conhecida e hoje permite estudar a história do povo latino sob outrosaspectos, pois detalhes dessa narrativa mostram como essa sociedade foi se formando. Apesarde o mito ser considerado “como criação estética da imaginação humana” (CHASE apudFURLAN, 2006, p. 250), sem dúvida, as histórias criadas sobre a formação de Roma foramimprescindíveis para que estudos mais completos fossem feitos sobre essa antiga civilização. A literatura em verso “é obra de fantasia, de ficção ou imaginação” (FURLAN, p.253), a qual favorece a diversidade de interpretações através da utilização de metáforas eoutras figuras de linguagem. Em Roma, a criação poética estava mais ligada à musicalidade;muitos poemas eram, inicialmente, escritos para serem cantados. Assim, os cânticos podemter sido os anunciadores dos futuros gêneros literários romanos. Deste modo, considera-seque, em Roma, as produções escritas em caráter de poesia pertencem às formas lírica, épica,satírica, dramática (tragédia e comédia) e didática. A poesia lírica é geralmente definida como uma escrita em versos criada, em suamaioria, de forma subjetiva, em que o autor encontra na beleza do universo ao seu redor (anatureza, os seres, os sentimentos e emoções, as relações humanas etc) inspiração paraescrever. Composta em pequenas estrofes, na Antiguidade era acompanhada por uminstrumento musical (em especial a lira; daí os nomes lírica e lirismo), num tom harmônicoentre palavra e melodia. Mesmo antes da invasão cultural helênica, impondo a poesia grega como modelo deimitação, em Roma, assim como em outros povos do Mediterrâneo, já existia manifestaçõesrudimentares do lirismo expressas através do canto. Os cantos heroicos, os fesceninos, taisquais os religiosos e funerários podem ser enquadrados na natureza de líricos, todavia todoscom características pré-literárias. Somente com a primeira composição de forma helênica dopoema-canção em homenagem ao deus Juno, escrito em 207 a.C. – também atribuído a LívioAndrônico – é que o lirismo assume proporções peculiarmente artísticas entre os romanos. Os romanos adotaram teorias de Platão para criar sua poesia e, no caso da lírica,inaugurada pelos latinos aproximadamente no século VII a.C., era calcada sobretudo napreocupação do poeta com seus sentimentos. O mundo exterior era desconsiderado e o queimportava era a resolução de problemas e conflitos intrínsecos. Além disso, muito damitologia romana inspirava a criação dos ambientes e a idealização da realidade. Sãoexemplos de consagrados escritores líricos de Roma os poetas Catulo, Virgílio, Tibulo,Propércio, Horácio e Ovídio, os quais compunham em diversas espécies de poesias líricas
  39. 39. 38(odes, elegias, éclogas etc), incitando a beleza textual vários escritores da literatura universalpela magistral elegância poética. A poesia épica é uma forma escrita caracterizada pela narração de acontecimentosgrandiosos, heroicos, tais como batalhas e conquistas territoriais, em que os personagensprincipais possuem uma força física incomum e assemelham-se, pela coragem e astúcia, aosdeuses. É criada com o intuito de ser recitada ao público e sua estrutura compõe-se de estrofeslongas. Em Roma, esse estilo de poesia teve grande destaque sobretudo no período em que oImpério Romano se expandia e alcançava seu auge: Virgílio cria a Eneida. Inspirada naformação e consolidação do império, esta obra de arte clássica e universal, segundo seu autornão foi terminada. Por isso, antes de sua morte, Virgílio pede que o manuscrito seja destruído,mas o então imperador Augusto intervem e mantém a obra. A epopeia virgiliana conta ahistória latina por meio da vida do heroi Eneias, sobrevivente da guerra de Troia e que,através da ajuda dos deuses e de sua força sobrenatural, chega ao Lácio, onde funda a futura egloriosa Roma. É importante considerar que, apesar de Eneida ter sido criada a partir do exemplogrego do poeta Homero, é uma obra que constitui valor inestímavel e, como afirma Cardoso(2003, p. 5) “a literatura latina conseguiu ser criativa e original”. Dessa maneira, por ser aepopeia uma narrativa que engrandece a nação a que faz referência, Virgílio sente anecessidade e oportunidade de contribuir com essa glória, criando uma história que por muitotempo passou a ser considerada uma verdade. O incentivo vem também do imperadorAugusto, que deseja que Roma faça-se conhecida ao mundo mediterrâneo. O que ele e muitomenos Virgílio esperavam é que a Eneida tivesse a repercussão que teve para a época e, maisainda, a possibilidade de tornar-se uma literatura de âmbito universal, fonte de inspiração parafuturas epopeias, a exemplo de África de Francesco Petrarca, escrita em latim em 1342, e Oslusíadas, de Camões, em 1572, em pleno Humanismo. Durante toda a antiguidade romana, a Idade Média e o Renascentismo, o poema virgiliano constituiu modelo de composição e foi reproduzido em múltiplas edições, entre elas a versão do Codex Vatticanus, que data do século IV, e a edição ilustrada do século XIII de Henri de Veldecke. A idealização do Império Romano e sua identificação com a expansão do Cristianismo levaram Dante Alighieri a escolher Virgílio como parceiro na viagem aos infernos, que ele narra em A divina comédia, e a Eneida como modelo de composição poética para aquele que foi um dos maiores poemas da literatura medieval. A Eneida inspirou também Os lusíadas. Assim como a poesia lírica de Camões anunciou e depois permeou sua epopéia, nas Eglogas e Geórgicas de Virgílio é possível também perceber o sopro da Eneida. (CLARET, 2007, p.16)
  40. 40. 39 Outros escritores romanos que compunham poesias épicas foram Névio e Ênio,merecendo destaque Lucano, autor de Pharsália – poema sobre uma guerra civil – PúblioPapínio Estácio, que escreveu Tebaida, e Claudiano com Sobre o rápto de Prosérpina, a qual,segundo Claret (2007, p. 9) “consegue reviver o gênero já em seu período de decadência”. Já a poesia satírica merece destaque por ser um produto sui generis, nascido emRoma e sem influências helenísticas. Segundo Cardoso (2003, p. 89), “não só despertainteresse por suas próprias características, por afigurar-se como uma espécie de crônica socialem versos, como também por ter sido amiúde considerada como um gênero poético original”.Essa forma de poesia caracteriza-se pela crítica, pela censura, pelo ataque a comportamentos econdutas morais; pela ridicularização de costumes, defeitos e vícios. E tudo feito com umtoque de humor e ironia. Com uma coletânea composta de poemas variados, com metros diversos e agrupadosem quatro volumes, foi Ênio a inaugurar o gênero, nomeando-o de Sátiras (Satirae, oriundodo latim satura, saturado, misturado, carregado). Contudo, conforme Furlan (2006, p. 254),foi com Horácio que a sátira “alcançou o mais alto grau de perfeição” e, com o poeta Juvenal,“ela se tornou um dos gêneros mais respeitáveis e apreciados da literatura latina”. Merecemdestaque também o romano Marcial, o qual criou sátiras com caricaturas muito bemdetalhadas, Varrão – autor de uma imensa e variada obra – e Lucílio, o qual pela liberdadede escrita é considerado “o verdadeiro criador da sátira latina” (CARDOSO, 2003, p. 91). Vê-se, pois, que a produção literária em Roma possuía, para todos os gêneros, representantes dealta qualidade e estilo próprio, o que proporcionou uma vasta e rica literatura. A sátira foi umsucesso entre os romanos, que utilizavam-na para escancarar os problemas e dilemas sociaisde forma lúdica e artística e uma herança para os dias atuais. A poesia dramática envolvia uma série de episódios complicados ou patéticos, assimcomo acontecimentos terríveis ou catastróficos. Tal qual a epopeia, a dramaturgia tambémtem origem grega, ainda assim nos primordios da civilização latina são encontrados resquíciosembrionários, sobretudo de caráter religioso, que contribuíram para a formação desta espéciepoética. Este estilo de poesia compreendia duas formas distintas de manifestação: a comédia ea tragédia. A primeira é uma espécie de poesia cuja representação teatral transmite ao público,como afirma Coelho (1980, p. 38), “o mundo do materialismo grosseiro. O ridículo ou amediocridade do mundo real, concreto e mesquinho” [...]. Em outras palavras, é uma forma desatirizar pessoas e determinadas situações, a inferioridade humana perante os deuses,costumes, valores morais etc. Pela definição, é possível perceber que a comédia contrapõe-sea idealizar a realidade – pelo contrário, procura demonstrar de forma concreta o mundo a que
  41. 41. 40os homens comuns estão submetidos. A comédia latina teve predileção por temas gregos jáem discussão, e são representantes dessa modalidade dramaturgos como os poetas Plauto eTerêncio, os quais assumiam as diversas funções de autor, ator e diretor de cena, tendo seustextos a proeza de alcançar os dias atuais. A tragédia, por sua vez, caracteriza-se por representar em versos a linguagem comum,recitada com um ritmo próximo à fala cotidiana. Em geral, é uma poesia dialogada e atuada,as personagens são seres em conflito com o mundo exterior e o seu final, na maioria dasvezes, é trágico e irreversível. Ainda que de raiz helênica e também trazida por LívioAndrônico, a tragédia teve o seu início em Roma por volta do século II a.C. com os poetasPacúvio, dotado de linguagem solene e eloquente, e Ácio, possuidor de grande habilidadedescritiva. Outros nomes como Névio e Ênio tiveram relevância, porém Sêneca foi o maisconhecido dramaturgo, autor de dez peças. Foi esse estilo de poesia, em comunhão com acomédia e a sátira, que infuenciou a criação do teatro. No entanto, vale lembrar que adramaturgia foi mais comum na Grécia do que em Roma, uma vez que os latinos preferiamusar os grandes teatros (como o Coliseu) para o combate de gladiadores e animais. Atualmente muito do que se vê da dramaturgia vem da arte greco-romana. As linhasteóricas de estudo, as concepções cênicas, as peças teatrais revisitadas são demonstrações decomo a Antiguidade Clássica greco-latina ainda é basilar na sociedade pós-moderna. Inclusiveciências como a Psicologia bebem na fonte para desenvolverem trabalhos, a exemplo doPsicodrama. A poesia denominada didática, por fim, é considerada uma categoria especial depoesia que prima transmitir informações e conhecimentos, tendo sido muito utilizada comomaterial pedagógico em Roma. Entretanto, mesmo objetivando o caráter didático mantinhaelementos e recursos próprios da linguagem poética. Segundo Cardoso [...] poderia parecer estranha a utilização da poesia para transmitir o saber. Em Roma, contudo [...] foi freqüente essa prática. [...] O romano sempre demonstrou ter espírito prático e pragmático. Ao aprender a manejar o verso, foi levado, evidentemente, a descobrir-lhe uma função utilitária. E nasceu dessa forma a poesia didática, que coexistiu com os demais gêneros poéticos em todas as fases da literatura latina. (CARDOSO, 2003, p.102-103) Apesar de apresentar indícios desde a fase primitiva com pequenos textos em versos(oráculos, predições, provérbios), a poesia didática foi realmente introduzida em Romaatravés de poemas filosóficos do escritor Ênio, aproximadamente em II a.C. Catão tambémcompôs poesias de caráter didático, mas foi no século I a.C que ela alcançou seu auge com os

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