O protagonismo hegemônico de assis chateaubriand

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O artigo tem por finalidade analisar a presença histórica de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo como primeiro empresário brasileiro a constituir grupo jornalístico de dimensão nacional a partir de discurso hegemônico, que mesclava interesses pessoais a uma forte participação política e presença em eventos como a Revolução de 30, que levou ao poder Getúlio Vargas, populista e autoritário. Veremos como Chatô, como era chamado, adicionava a seu discurso favorável a um capitalismo nacional dependente, concepções de mundo advindas do hitlerismo e fascismo como forma de justificar domínio e direção das sociedades por elites conservadoras.

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O protagonismo hegemônico de assis chateaubriand

  1. 1. 1 Emanoel Francisco Pinto Barreto Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Brasil e.barreto@ufrnet.br G1-2 Historia de la Comunicación O protagonismo hegemônico de Assis Chateaubriand ResumoO artigo tem por finalidade analisar a presença histórica de Francisco de AssisChateaubriand Bandeira de Melo como primeiro empresário brasileiro a constituir grupojornalístico de dimensão nacional a partir de discurso hegemônico, que mesclava interessespessoais a uma forte participação política e presença em eventos como a Revolução de 30,que levou ao poder Getúlio Vargas, populista e autoritário. Veremos como Chatô, comoera chamado, adicionava a seu discurso favorável a um capitalismo nacional dependente,concepções de mundo advindas do hitlerismo e fascismo como forma de justificar domínioe direção das sociedades por elites conservadoras.Palavras-chave: Chateaubriand, jornalismo, poder, política AbstractThis current work aims to express the Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira deMelos contribution, as the first brazilian businessman, to develop a national journalisticgroup starting with hegemoniacal speech which mixed personal interests, huge politicalparticipation, and be present at the important events like the 1930 Revolution, whichelected Getúlio Vargas, who was popular and authoritarian. He was called "Chatô" as anickname and well see how he included in his pleasant speech, a dependent nationalcapitalism, worlds conceptions from Hitler and fascism as a way to justify theconservative elites power and management.Keywords: Chateaubriand, journalism, power, politics O jornalismo é espaço privilegiado para representação e análise do real histórico. Eisso em função de que tem a virtual possibilidade de apropriação dos fatos, dando-lhes aversão desejada pelo grupo que detém o controle do jornal. A intervenção jornalística nodrama da história, pelo próprio fato de ser uma intervenção, é, ela mesma, parte da históriada disputa pelo poder, o qual, conquistado e mantido, integra as condições impositivas,atributos e privilégios de quem o conquistou e o mantém, e assim fará a representaçãolegitimada da vida social, a dramaturgia redacional daquilo que aconteceu no theatrummundi. E isso sempre favorece as elites, que têm condições econômicas de assumir esse
  2. 2. 2controle, avocar a si o discurso memorial do que se passou e fazer desse discurso seupróprio apanágio e justificação hegemônica no contínuo ocorrer da história. Assim, parteda luta das elites é assegurar a naturalização desse fazer-ver-o-mundo segundo umadeterminada forma, naturalizando o quadro instalado de uma determinada época comosendo o certo e o conveniente – a si e às demais classes, às quais têm o dever de dirigir eliderar. A partir de tais observações temos que o jornalismo é uma das maneiras desseexercício de poder e, em si, uma forma de justificá-lo, em processo meta-histórico. Para a consecução de tal realidade – um jornalismo interventivo, de eficáciaeditorial – exige-se a construção de empreendimentos de vulto, muitas vezessistematizados em redes empresariais poderosas as quais, por sua vez, ao enunciar odiscurso das elites, enunciam, dentro das elites, seu próprio discurso hegemônico perante aconcorrência setorial. É o caso do jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira deMelo, figura histórica fundadora do protagonismo comunicacional hegemônico no Brasil.Como poucos, Chateaubriand encarnou o processo de hegemonização dos interessesideológicos do capital via jornalismo. A penetração de seus veículos de comunicação, comsua eficácia editorial, tinha força suficiente para influir junto às elites, classe média eambientes populares, causando com isso a sensação de que estava ali a representação deuns e de outros, uma espécie de fiel da balança, um jornalismo de compromisso. Seudiscurso modernizante dos meios de comunicação trouxe ao país a TV em setembro de1950, consolidando seu império no setor. No auge, o conglomerado Diários Associados,designação do grupo jornalístico sob seu comando, reunia em todo o Brasil 36 jornais, 18revistas, 36 rádios e 18 emissoras de televisão, além de bater recordes de tiragem com arevista O Cruzeiro (Fortes, 2009). A par disso, Chatô, como era conhecido, firmara a aura de defensor das artes,inaugurando o Museu de Arte Moderna de São Paulo-Masp em 1947, mediante incisivotrabalho de reunião de fundos junto à nata do capitalismo brasileiro. Jornalista, contribuiudecisivamente com um discurso centrado nos valores e prioridades históricas do capital,trabalhando pelo estabelecimento de um consenso passivo junto aos dominados, nacircunscrição do quartel histórico em que teve atuação. Empresário, tinha interesses queiam do jornalismo à propriedade de terras, passando por investimentos na indústriafarmacêutica. Esse ser bifronte, assim, tinha desenvoltura suficiente investir na política,tornar-se senador e embaixador do Brasil na Inglaterra, participando também daconspiração que levou à Revolução de 30. A presença de Chateaubriand, seu gesto
  3. 3. 3ideológico – germanófilo, anticomunista, alinhamento com os EUA segundo umcapitalismo nacional dependente –, está inserida em período de grandes mudanças:urbanização nascente e crescente, primeiros esgares da industrialização e, não há comoescusar, a presença hegemonista dos Diários Associados, sob sua direção. O trabalho quedesenvolveu junto à superestrutura dá pista suficientemente forte para que seja visto comoo primeiro grande mentor intelectual do jornalismo de rede no país, cujo trabalho rendiadividendos na formulação de um discurso hegemônico das elites e, em processometadiscursivo, se afirmava perante o país – e concorrentes – como aquele que melhorrepresentava tais interesses, cobrando por isso um alto preço. Constituiu-se, desta forma,em pregador e recipiendatário dos resultados daquilo que pregava. A análise a respeito dopersonagem em apreço será realizada a partir da obra basilar Chatô, o rei do Brasil, deFernando Morais, e de pesquisa de textos de autoria do próprio Chateaubriand. Aíencontraremos o núcleo deste trabalho: o discurso hegemonista de Chateaubriand dentrodo discurso hegemônico das elites nacionais, a quem impunha, com vigor incomum, opoderio do seu pronunciamento. Para análise, tomaremos como recorte histórico o iníciode sua vida profissional até o ano de 1945, período em que firmou os alicerces do seuimpério comunicacional.De índios, africanos e comunistas Um aspecto de relevo no estudo dos vultos, na biografia em seu sentido decaptação do homem em seu tempo histórico, diz respeito não só ao relato sequenciado dosatos que perpetrou em seu roteiro impontual de vida; mais que isso, a biografia diz dosujeito em suas pulsões, projetos, feitos, quando se misturam sua historicidade e condiçãohumana na unicidade do sujeito; o gesto/discurso do ator repercutindo no mundo e desterecebendo o ato responsivo. É dentro de tal enquadramento que faremos, nos limites desteartigo, o registro do perfil ora proposto. Complexo, carismático, Chatô tinha, para usoperlocutório, autopromocional, uma espécie de autodefinição, onde, com inescondívelboutade, se apresentava: André Malraux alimentava a ilusão de escrever a biografia de Chiquinho Matarazzo, mas eu consegui demovê-lo dessa rematada besteira. Acho que, como vingança, tentou escrever um livro sobre a minha vida, mas acabou desistindo. Depois foi a vez do padre Dutra, que cercava parentes meus pelas esquinas, em
  4. 4. 4 busca de informações para compor um livro sobre a minha vida. Quem também andou bisbilhotando as minhas misérias, com planos de imortalizar-me no papel, foi a princesa Bibescu, da Romênia, editora e escritora. Os três fracassaram, mas a todos eu havia feito uma modesta exigência: a obra teria de começar descrevendo a cena em que eu e minha filha Teresa apareceríamos nus, sentados na foz do rio Cururipe, comendo bispos portugueses, tal como fizeram meus ancestrais caetés, quatro séculos atrás. O deslumbrante piquenique, que já povoou alguns delírios meus, seria a forma ideal de divulgar a origem do meu sangue ameríndio na Europa (Chateaubriand, 1994, p.11). À assertiva que supostamente o apresentava como descendente de ameríndioscontrapunha outro aspecto do seu discurso, esse sim, essencial, cerne ideológico de suahistoricidade: quando acusado por adversários de negligenciar seus afazeres comoembaixador do Brasil na Inglaterra, passando a maior parte do tempo à frente de seusnegócios no Brasil, respondia: “Isso é coisa de comunistas, de índios botocudos. Gentinhaatrasada, esses jornalistas brasileiros. Pensam como africanos...” (Morais, 1994, p. 17). Originário da Paraíba, município de Umbuzeiro, região Nordeste do Brasil, nasceua 4 de outubro de 1892; era raquítico e gago; aos nove anos não lia nem escrevia (Morais,1994, p. 30). Essas limitações, superadas a tempo, permitiram o crescimento de AssisChateaubriand em sua construção íntima, coadunada com o pensamento liberal. Ante isto,vale ressaltar que se o homem/sujeito é de alguma forma assujeitado à sua identidade e aseu tempo, e disto não tem como escapar, ele existe em situação idiossincrática nacondição de ser único; interpreta e reinterpreta o mundo a partir de si e consigo, daíadvindo aquilo que fará em gesto socialmente visível e segundo as suas possibilidades. Ohomem, assim, é condicionado a seu tempo e a si próprio, mas vive esse condicionamentode maneira bastante própria. Desta forma, se “a pluralidade é a condição da ação humanaporque somos todos iguais, isto é, humanos, de um modo tal que ninguém jamais é igual aqualquer outro que viveu, vive ou viverá (Arendt, 2011, pp. 9-10), foi assim queChateaubriand, experienciando seu tempo, marcou-o com tipicidade única, individuada,tirando proveito do comportamento da época quando “a moda na imprensa brasileira navirada do século não era a notícia, mas a polêmica” (Morais, 1994, p. 60). O polemista tornou-se advogado, sagrou-se professor de Direito, nunca assumiu acadeira e em 1917 chega ao Rio de Janeiro para dedicar-se inteiramente ao jornalismo.Antes, fora advogado da poderosa família Lundgren, estado de Pernambuco, em difícildisputa. Numa assertiva demonstrou seu intento de vida e seus métodos: ao recusar-se areceber pagamento da causa vitoriosa, justificou-se assim: “Prefiro tê-los eternamente
  5. 5. 5como meus devedores. Melhor do que ter o dinheiro dos Lundgren é ter os própriosLundgren para sempre dentro do meu embornal (Morais, 1994, p. 94). Estava aíconfigurado o ator social em sua essência anímica: Chatô, em seu relacionamento com aburguesia, ao mesmo tempo em que a defendia tinha com ela uma relação cínica,debochada, ajustando o discurso do poder ao seu talante de intelectual orgânico daquiloque, apoiando, depreciava; e, depreciando, daquilo mesmo se servia. Ciente daparticipação no jogo burguês justificou assim o pedido de aval a um amigo, o engenheiroEugênio Gudin, para a compra de um carro, algo tido em 1917 como consumo suntuário: – Seu Gudin, eu só advogo para ganhar dinheiro e comprar um jornal. Acha que andando de bonde e fazendo a vida de classe média inspiro confiança aos acionistas da futura gazeta? O carro próprio é hoje o melhor indício de prosperidade. O importante não é ter dinheiro, mas transmitir a ilusão de que ele não anda longe de mim. [...] As sociedades vivem de mitos. Quero que a burguesia alimente o mito da minha petulante fortuna, porque é dessa burguesia que precisarei, muito em breve (Morais, 1994, p. 97). Seu acesso à burguesia se dava, ao que se percebe, por confluência ideológica einteresse pessoal. Assim, empilhava o discurso da ordem ao seu corolário idiossincrático.A essa mescla incluía participação junto à intelectualidade brasileira, chegando a serconvidado a participar da Semana de Arte Moderna de em fevereiro de 1922, em SãoPaulo. [...] Graça Aranha [escritor] deu-lhe o privilégio de ler, em primeira mão, a “bomba” que preparara para a semana paulista: a conferência intitulada “A emoção estética na arte moderna” [...] Ao final da leitura, Chateaubriand livrou-se do maço de papéis [...] Partiu para cima do autor, a quem tratava pelo prenome, de dedo em riste: – Zé Pereira! Vocês enlouqueceram. Isto não é arte, não é literatura: é anticapitalismo puro. [...] Não quero desagradar o capitalismo. É com ele que estou metido [...] (Morais, 1994, pp. 127-128). A atitude de Chateaubriand se inseria no que preconiza Gramsci quando diz que oempresário “deve ser um organizador da massa de homens, deve ser um organizador „deconfiança‟ dos que investem em sua empresa, dos compradores de sua mercadoria”(Gramsci, 2001, p. 15). Ganhando a confiança do capitalismo a construção do impériojornalístico de Chateaubriand começou aos 32 anos de idade, quando, na manhã do dia 30de outubro de 1924 assumia, como dono, a direção de O Jornal, adquirido com o apoioexatamente das “classes conservadoras”, a fim de que pudesse paradoxalmente defender os
  6. 6. 6“grandes interesses nacionais”, conjugando tal paradoxo ao fato de ser favorável a umcapitalismo dependente, o que de alguma forma se opõe ao nacionalismo (Morais, 1994,pp. 138-140).O Cruzeiro, Getúlio e a Revolução de 30 A 10 de dezembro de 1928 lançou, com grande campanha publicitária, um dosmaiores marcos do seu futuro poderio: começava a circular, com tiragem de 50 milexemplares, rodada em Buenos Aires, a revista Cruzeiro, depois O Cruzeiro, o que muitoagradou ao futuro ditador Getúlio Vargas, então governador do Rio Grande do Sul.Assessorado pelo americano Fitz Gibbon, cuja expertise importara do matutino The NewYork American, Chateaubriand dele ouviu: a publicação seria o “mais moderno processoamericano de infiltração na consciência dos consumidores” (Morais, 1994, p. 187). Doisanos depois apoiou à chamada Revolução de 30, que levaria ao poder Getúlio Vargas, a 24de outubro daquele ano. Sinergizando seus dotes de intelectual orgânico e empresário decomunicação aos pressupostos da Revolução conseguiu a oportuna conciliação, em seusartigos, entre o nacionalismo getulista e seu pragmatismo do capitalista emergente: Getúlioqueria “redimir o país da servidão econômica e financeira”. Chatô, prestigiado e próximoao presidente, não iria perder a oportunidade. Em artigo onde esquecia que o nacionalismonão fazia parte do seu corolário de crenças políticas, disse: “Usemos de preferência roupasde algodão. [...] Eliminemos os ternos brancos de linho. [...] O Brasil produz artigos finosde algodão. [...] Que todos os brasileiros não mandem fazer mais roupas senão de panobrasileiro [...] (Morais, 1994, p. 255). Sob o título “Juízes da Revolução”, artigo publicado dia 4 de novembro daqueleano permitia a Chatô afirmar sua lealdade ao movimento getulista: “Nada queremos paranós. Não aceitamos cargos públicos, pela própria índole do mandato que já exercemos, daopinião. A única posição que nos seduz na República nova é a de juízes desapaixonadosdos atos daqueles que vão dirigi-la” (Chateaubriand, 1998, p. 617). O pronunciamento traz,junto à denotação político-ideológica, a conotação do jornalismo como missão, o jornalistacomo ator desinteressado, apenas registrador objetivo da história. Mais que isso, ojornalista como presuntivo representante do povo pelo mandato virtual que lhe teria sidooutorgado via opinião pública. Mesmo assumindo que o país se encontrava sob estado deexceção, exaltava: “O ditador que se controla, que põe pesos ao próprio arbítrio, realiza um
  7. 7. 7ato de sabedoria, como de prudência” (Chateaubriand, 1998, p. 656). Afirmava no mesmotexto que a nação havia sido “brindada” pelo “governo revolucionário” com um “esboçode Constituição”, para em seguida praticar culto à personalidade: “Com o Sr. GetúlioVargas dir-se-ia que é o guarda-noturno do regime. O vigilante noturno é um servidor daordem, querido em todo o bairro, porque ele implanta o respeito à lei, afugenta osmalfeitores, espalha a segurança e a paz, sem que ninguém se aperceba da sua autoridade.”Sem que fosse a intenção, expunha todos os efeitos ideológicos do sistema de poder, umavez que é próprio da ideologia ocultar-se como fenômeno imposto em surdina. No artigo “Um monstro” invertia por completo a acepção do termo ao colocar oditador na condição de um ser grandioso. Datado do dia 18 de novembro de 1930, o textoafirmava que, na companhia do ditador, na “sua intimidade, o que respiramos é um ar azul,todo feito de amabilidades burguesas, de claridades geométricas, de razão harmoniosa e desalubridade moral. [...] Maquiavel é pinto para o Sr. Getúlio Vargas” (Chateaubriand,1998, p. 665). Trinta dias após a vitória do golpe, que vicejara ante a falência dasoligarquias da chamada República Velha, Chateaubriand fora a São Paulo para “ver umaimponente parada de trabalhadores [...]. [...] as massas obreiras cantavam [...] possuídas deentusiasmo [...]. Os líderes militares eram objeto de verdadeira ovação das associaçõestrabalhistas representadas naquele desfile”, segundo registrou no artigo “Uma impressãode São Paulo” (Chateaubriand, 1998, p. 681). A chamada Revolução assumia assim ares debenemerência das elites, uma espécie de favor ou caridade histórica ante um povo dedescamisados, agrupamento de incapazes sem luz própria. No mesmo artigo, porém,admitia que presos políticos, ligado ao velho regime, encontravam-se incomunicáveis semque soubessem de que crimes eram acusados. O avanço conservador arrimava-se até nasurrada visão de ser o brasileiro um povo cordial, dado ao descanso, avesso ao trabalho,justificando-se assim o movimento de 1930, visão que pode ser encontrada no texto“Providências Necessárias”, onde está dito que o licenciamento e possível demissão demuitos funcionários da Biblioteca da Câmara dos Deputados representaria justa retribuiçãode pecados sociais praticados por funcionários apresentados na condição de “malandros”(Chateaubriand, 1998, p. 785). Declarações do ditador foram apresentadas na íntegra porChateaubriand dia 17 de dezembro: – Certo, o regime de economias a que estamos submetendo os orçamentos e na maior parte sem prejudicar a eficiência administrativa, choca o sentimentalismo brasileiro. Alegam-se que há famílias ao desamparo porque os seus chefes foram
  8. 8. 8 dispensados pelo governo. [...] Há muitas probabilidades de trabalhos fora dos quadros do funcionalismo e, agora mais do que nunca, pois para tutelar a economia brasileira vamos imprimir um surto considerável à produção nacional, quer no campo das atividades agrárias, quer no terreno das indústrias economicamente viáveis do País (Chateaubriand, 1998, p. 767). Com a assertiva o ditador deixava à mostra visão de ser o brasileiro povoadocicado, transformando a questão social em caso de folhetim, sugerindo que o Estadoabria perspectivas novas, devendo todos se ajustar aos tempos. Distante, encarcerado naItália, temos a visão gramsciana a respeito do golpe de 30: na América do Sul a baseindustrial era restrita e inexistiam superestruturas complexas, predominando assim duascategorias de intelectuais tradicionais: “o clero e uma casta militar”, que haviam apoiado omovimento de Getúlio (Gramsci, 1999, p. 31). Adiantando-nos no tempo vamosreencontrar Chatô dia 3 de novembro de 1936, quando, ao analisar a guerra civilespanhola, elogia o ditador português Oliveira Salazar, favorável à queda do governo legalda Segunda República Espanhola. Alardeava o “perigo comunista” advertindo que“Portugal seria cego ou estúpido se olhasse com indiferença a vizinhança de um paíssovietizado” (Chateaubriand, 1999a, p. 847). Seu pensamento reunia estranhoentendimento: no mesmo artigo, a par de apoiar a ditadura no Brasil e o golpe na Espanha,criticava a resistência espanhola ao golpe: “Se os rebeldes vencessem, o mundo iria assistirao espetáculo do extermínio da liberdade.”A defesa do partido único, a inspiração em Hitler Sua compreensão da marcha histórica era assim expressa: Tem o Brasil duas mentalidades opostas. A mentalidade tupi, que é a mentalidade do ameríndio, e a mentalidade transatlântica, que é a projeção do espírito debruçado sobre o mundo [...]. O índio, como os tipos inferiores, mostra a inatividade da faculdade de reflexão. Ele só pensa no presente. Só se ocupa das coisas e dos pequenos detalhes da hora que passa. [Não tem capacidade de] decompor fatos gerais complexos, desenvolver ideias abstratas para deles tirar verdades, explicar causas e consequências. [...] Desgraçadamente, é com o índio, com um modelo subalterno e degradado de vida social, que se quer padronizar a civilização brasileira (Chateaubriand, 1999a, pp. 850-851).
  9. 9. 9 Apesar do racismo manifesto, postou-se contra atitude do Partido Integralista que, aexemplo do Partido Nazista, desenvolvia aqui ação antissemita. De forma implausívelencontraria na nossa miscigenação as bases para contrariar a pregação integralista, não semantes contemporizar, conciliando o nazismo e a grandeza de sua obra, em artigo sob otítulo “O Brasil para a humanidade”, dia 26 de abril de 1936: Não temos porque imitar a Alemanha do Sr. Hitler na guerra contra os judeus, até porque a Alemanha possui, na sua ciência, na sua história, na sua indústria, na sua poesia, na sua arte, coisas muito mais belas, muito mais nobres do que esse grotesco e subalterno aspecto da obra nazista. Fez o nacional-socialismo coisas prodigiosas pelo ressurgimento da Alemanha; na sua vigorosa pousée para a renascença imperial, só encontramos essa mácula, esse ponto obscuro, empanando o brilho do disco solar da ascensão germânica” (Chateaubriand, 1999a, p. 327). Ao tempo em que na Europa vicejavam os partidos nazista e fascista, o governo deGetúlio apresentava esgares favoráveis ao partido único no Brasil, àqueles de algumaforma assemelhado. Chateaubriand saiu em defesa da ideia. Corria o ano de 1937. Getúlioinstalara o Estado Novo a 10 de novembro, a pretexto de impedir suposto levantecomunista. Dia 23, o jornalista diria em seus jornais: Enunciou hoje o Sr. Agamemnon Magalhães uma verdade que desde vários dias repito neste pedaço de coluna. No Estado, que o golpe de 10 de novembro suspendeu, só existe uma ideologia. [...] Tal como Hitler consumou na Alemanha, Getúlio Vargas, na plenitude do seu poder de comando, golpeou de morte todos os resíduos autonomistas provincianos [criando um Estado unitário em lugar da Federação] (Chateaubriand, 1999b, pp. 929-930). Afirmaria no mesmo texto que a criação do Partido Nacional seria condição basilarpara a efetividade da convivência política. Defenderia, em novembro daquele ano, ocolonialismo na África e o “aproveitamento” daquele continente pelos europeus,advertindo que o Brasil, como exportador de matéria-prima, teria ali sólido concorrente edeveria ter pressa (Chateaubriand, 1999b, pp. 933-934). Novamente tocaria na tese dopartido único em novembro, dizendo que “entre a nação e o Estado só deve existir de hojepor diante o Partido Nacional, depositário exclusivo e impessoal do ideal e da ordem deNovembro [...] (Chateaubriand, 1999b, p. 946). Voltaria sua inspiração outra vez ao nazi-fascismo dia 1º de dezembro:
  10. 10. 10 Na Itália, ao Partido Fascista apenas é quem a lei concede o direito de existência. Un organo dello Stato, chama-o a lei. [...] Na Alemanha, desde julho de 1934, foi interdito o funcionamento de outro partido qualquer fora do nacional-socialista. [...] Em Portugal, a União Nacional é outrossim o partido único [...]” (Chateaubriand, 1999b, p. 951). Chateaubriand, pela via inversa, defendia a ideia de partido dos comunistas a quemtanto combatia, criticava o Estado liberal e partia em defesa das elites que elaboravam oideário do monismo partidário lembrando que estas seriam “dementes” se admitissemdeixar de pé “partidos obsoletos” (Chateaubriand, 1999b, p. 950). O partido único,defendia, será assemelhado a um exército, sem que ali houvesse militantes, masmilicianos. Em elaborado discurso ideológico fazia a inversão do real em função de que asaparências pareciam confirmar aquilo que era dito. Assim, justificando a implantação doEstado Novo como ordem favorável ao povo, afirmava que as elites haviam “contrariadoabertamente dezenas de milhares de interesses privados” (Chateaubriand, 1999b, p. 959).Tanto que, no artigo intitulado “A alegria do dever cumprido”, de 5 de dezembro, elogiavao Partido Integralista, de essência fascista, que entrava em processo de autodissoluçãotática para agregar-se ao getulismo: “A maior força, na política, não consiste em alcançar opoder, mas sim, resignados, o vermos exercido por quem é capaz de realizar as nossasmais caras ideias e esperanças [...]” (Chateaubriand, 1999b, p. 964).Os nórdicos e a miscigenação pura Chateaubriand continuaria a defender o partido único, de minoria, cujos membros,selecionados, militantes, funcionaram como seus intelectuais orgânicos. Os grandesintelectuais formulariam a essência de um Estado plenipotenciário e os demais militantesse encarregariam de fazer a difusão de tal ideário. Para ele, Vargas e o partido únicotinham um “sentido de missão” “educativo e reeducativo do povo, para fazê-lo aceitar eidentificar-se com as grandes reformas do regime” (Chateaubriand, 1999b, p. 971). Aproposta de ensinar o povo a pensar tinha como paradigmas o Partido Nacional Socialistaalemão, o Partido Fascista italiano e a União Nacional, portuguesa. Dizia que a nenhumbrasileiro assistiria o direito de filiar-se a um partido que não aquele em fase depreconização. E afirmava: “O Sr. Goebels formulou com uma clarividência solar a tese deminoria partidária, da minoria militante, dentro do vasto organismo da democraciaautoritária (Chateaubriand, 1999b, p. 973). Coroando seu pronunciamento, ensinava: “[...]
  11. 11. 11adianta Hitler: „Todos os alemães ideologicamente precisam receber uma educaçãonacional-socialista. E os melhores nacionais-socialistas é que deverão ser os filiados dopartido, como os melhores partidários é que deverão assumir a direção do Estado‟”(Chateaubriand, 1999b, p. 974). A ação de Assis Chateaubriand, perfilhada ao ditadorVargas, conseguia criar condições para que levasse adiante seus propósitos pessoais: o detornar-se proprietário de uma grande cadeia de comunicação, inscrita num sistemaautoritário. As filigranas desse método as vamos encontrar no fato de que, defendendo oEstado autoritário, seria possível sim chegar a tais objetivos: ele funcionaria comointelectual orgânico e teria assim ampla margem de manobra, uma vez que é próprio dointelectual orgânico a crítica ao sistema ao qual se acha agregado. Ainda falando sobre o Brasil e a Alemanha nazista faria uma diferenciação:“Temos aqui, sim, uma democracia autoritária, mas não a ditadura de um homem sobre oEstado e a Nação [...]” (Chateaubriand, 1999b, p. 967). Utilizando-se de argumentaçãosutil, estabelecia e legitimava a ação getulista a partir da seguinte argumentação: naAlemanha havia o “predomínio da raça nórdica” a dar sustentação ao nazismo quedefendia a “pureza imaculada do arianismo”. Quanto ao autoritarismo brasileiro estariaembasado exatamente em situação contrária, a de miscigenação, o que, paradoxalmente, osaproximaria pela dimensão suprema do poder lá e cá. Seria exatamente aí que, no Brasil, oautoritarismo se fincaria: a defesa dessa compactada e pura miscigenação, suacontinuidade, seria missão do poder instalado: “Aqui, o poder estatal é uma armadurapolítica que se destina à organização do povo e à sua disciplina” (Chateaubriand, 1999b, p.966). Assim estaria justificada a presença do ditador e de um pretendido partido único. NaAlemanha era preciso preservar a pureza de uma suposta raça superior; aqui era necessáriounificar, no amalgamado puro das etnias, toda a sociedade. [...] O que tínhamos no Brasil era o tipo do Estado neutro. [...] o Brasil deve agora passar, de um Estado neutro para o totalitário, a fim de se conservar amanhã apenas autoritário. No instante em que se segue ao golpe de Estado este e a sociedade deverão se confundir numa só entidade. [...] Mas o objetivo do Estado, em um futuro imediato, está escrito. Ele restituirá às iniciativas privadas, uma vez organizadas, a sua iniciativa criadora, de modo que voltem a funcionar livremente os seus órgãos, dentro dos novos limites que lhes forem traçados. É uma concentração hoje para uma descentralização amanhã (Chateaubriand, 1999b, p. 983).
  12. 12. 12 A pregação em torno do “Estado neutro” assegurava a formulação da proposta do“Estado integral”. Em ambos os casos ficava a sociedade a reboque, justificando-se opoder das elites que voltariam a ter espaço e participação a tempo devido no Estadototalitário/autoritário, garantindo-se “a ordem econômica, a ordem moral, a ordem políticae a ordem espiritual da Nação” (Chateaubriand, 1999b, p. 985). Novamente recorrendo aoideário de Hitler, lembrava: “O Estado dos nossos dias, afirma o Fuhrer, não existe porquenós lhe damos leis, senão porque as nossas leis encontram a sua sanção no coração dopovo (Adolf Hitler, citado em Chateaubriand, 1999b, p. 989). Outros aspectos do seu conservadorismo podemos encontrá-los em artigo do dia29 de setembro de 1937, intitulado “Atos novos e palavras antigas”, em que defendia anecessidade de uma hegemonização à base de um Estado policialesco: “No quadro dosinteresses sociais, exclamava o Sr. Getúlio Vargas, o poder de polícia do Estado chegaatingir os interesses privados. E cravando a lança no coração do liberalismo, trucidava-ocom estas palavras: „A velha fórmula política dos direitos do homem parece estardecadente‟” (Getúlio Vargas, citado em Chateaubriand, 1999b, p. 1028). Um dia antes do artigo acima, expressara novamente sua gemanofilia ao lembrarque, ao tomar o poder, Hitler tivera como primeira preocupação implantar uma escola deformação de quadros com base no “direito natural” de uma suposta elite a isso destinada(Chateaubriand, 1999b, pp. 1025-1026). É verdade que Chatô chegara a ser preso algumas vezes em 1932 ao aliar-se aomovimento que exigia o retorno à democracia (Morais, 1994, p. 287), mas isso não forasuficiente para que deixasse de apoiar Getúlio em seus jornais, após as prisões. Odesenrolar da Segunda Guerra permitiu-lhe enfatizar suas convicções germanófilas mesmoadmitindo que os Aliados seriam vencedores. O artigo “Velho Canibal”, de 1º de maio de1941, é típico quando registra o poderio do exército alemão, sua competência tática e suavirtual invencibilidade. Todo o artigo é desenvolvido ao elencar de tais virtudes bélicas,para apenas nas últimas linhas admitir que Hitler não tinha uma armada poderosa,tampouco lograva dominar a aviação. Encerrando o texto, diz: “O oceano é o seu calcanharde Aquiles; é aí que o Reich acabará afogando os seus estupendos triunfos em terra. O maré um velho canibal telúrico” (Chateaubriand, 1999c, p. 281). Na sequência de textos relativos ao tema vamos encontrá-lo mais esquivo aos nazisem 1944, quando, a 21 de março, denunciava plano daqueles para agregar simpatizantes noBrasil. Chegou a falar na “praga nazista” que intentava se estabelecer aqui (Chateaubriand,
  13. 13. 131999d, p. 272). O ano de 1944 registrava sua refluência elogiosa. Criticava a “Gestapo”,enaltecia os “direitos do homem” e repudiava a “opressão política” como algo“monstruoso”, para dizer: “Fascismo e nazismo degeneraram em opressão coletiva como ahumanidade só as conheceu na Idade Média” (Chateaubriand, 1999d, p. 1194). Em 1945, final da Guerra, os Estados Unidos eram elogiados e tidos como naçãoamiga do Brasil (Chateaubriand, 2000, p. 437). Do início, até o final do recorte temporalescolhido para este artigo, percebemos o articulador obstinado, com telos bastante incisivo:tornar-se figura influente nas elites nacionais. E afinal, quando da derrocada de Getúlio,deposto, assim a registrou no artigo “O triste fim de Policarpo Vargas”, datado de 1º denovembro daquele ano, quando passaria a criticar o ex-ditador: As circunstâncias que cercam o ocaso do Sr. Getúlio Vargas oferecem a sensação do fenômeno da decrepitude de um homem, e que é um dos mais curiosos em que poderíamos meditar. [...] É o Sr. Getúlio Vargas mais um temperamento passivo do que ativo. Adora trabalhar por omissão (Chateaubriand, 2000, pp. 957-961). A ordem jurídica institucional é fraudada ao povo pelos chefes totalitários, justamente para lhe oferecer em troca ordem, tranqüilidade e justiça (Chateaubriand, 2000, p. 992). A essa época já estava estabelecido como magnata da comunicação. Dia 20 demarço de 1968, gravemente enfermo, hospitalizado, escreveu pequeno artigocomemorando que, dali a três meses seria inaugurado em Natal, Rio Grande do Norte, oMuseu Regional de Natal. Após isso, disse: “Não vou escrever nem ditar mais nada.Acabou” (Morais, 1994, p. 639). Morreria dia 4 de abril daquele ano.Considerações Finais Chateaubriand representou a quintessência do pensamento conservador de suaépoca. Viu nos regimes autoritários a solução hegemônica para a manutenção eperpetuação de status quo em que a sociedade teria em elites esclarecidas e autoritáriastaumaturgos a guiar as massas não-pensantes. A aparência dos fenômenos nazista efascista parecia confirmar tão concepção. Não seria uma coisa ou outra, mas um liberaldisposto a tirar partido de qualquer situação. Sua figura idiossincrática permitiu aconstrução de um império com notável presença na formulação de uma certa consciência
  14. 14. 14política e imaginário nacionais, contribuindo para a cristalização das elites econômicas dasquais se tornara membro e porta-voz.REFERÊNCIASArendt, H. (2010). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.Chateaubriand, A. (1994). (Epígrafe). In MORAIS, F. Chatô – O Rei do Brasil (p. 11). SãoPaulo: Companhia das Letras.______. (1998). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1930(Vol.7). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand.______. (1999a). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1936(Vol.13). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand.______. (1999b). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1937(Vol.14). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand.______. (1999c). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1941(Vol. 18). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand. .______. (1999d). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1944(Vol. 21). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand. .______. (2000). O pensamento de Assis Chateaubriand: artigos publicados em 1945 (Vol.22). Brasília: Fundação Assis Chateaubriand. .FORTES, J. (2009). História dos Diários Associados. Recuperado em 21 dez, 2011, dehttp://www.meionorte.com/josefortes/historia-dos-diarios-associados-102463.html.Gramsci, A. (2001). Cadernos do Cárcere (Vol. 2, 2a ed.). Rio de Janeiro: CivilizaçãoBrasileira, 2001.Morais, F. (1994). Chatô – O Rei do Brasil (p. 11). São Paulo: Companhia das Letras.

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