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Em relação ao governo cubano:                        “Pretendendo livrar-se de más administrações e na esperança de verem ...
Partido Comunista de volta a legalidade, os argumentos surgidos partem da Constituição queveda a organização ou partido qu...
O governo também é valorizado pelo jornal em relação a entrevista concedida porGoulart a uma revista carioca, no qual é fe...
político poderia interpretar a medida como instrumento de repressão. Com a implantação damedida as esquerdas e direitas ex...
presidente ao Estado para verificar a destruição causada pelas enchentes no interior. Isso podeser verificado no trecho ab...
ainda encontrava dificuldades para implantação das reformas. Em editorial de 07-02-1964, ATarde, crítica a demora de Jango...
Percebe-se então que em torno de determinadas questões A Tarde, defende JoãoGoulart e também o critica. Em editorial de 16...
esquerda e a fragilidade das organizações de massa que teve logo em seguida seus líderesperseguidos e presos.5. A Tarde e ...
defendidos pelo jornal baiano de que existia uma ameaça real do comunismo, representadapor grupos extremistas que o presid...
petróleo, o que termina aumentando o preço da gasolina e conseqüentemente o custo de vida,em outro momento, em 14-05-1964 ...
desejando ou insinuando que o presidente fosse deposto. Foi defensor até o final da legalidadedemocrática e por isso podem...
Apesar da Lei de Imprensa ser somente imposta em 1967, os jornais que seposicionaram contrariamente ao regime militar logo...
ReferênciasBARROS, José D’Assunção. O projeto de pesquisa em História: da escolha do tema aoquadro teórico. 4° ed. Petrópo...
OLIVEIRA, Maria Rosa Duarte de. João Goulart na imprensa: de personalidade apersonagem. São Paulo: Annablume, 1993.SILVA, ...
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Jornalismo de posição a tarde e o golpe de 1964

  1. 1. Universidade do Estado da Bahia - UNEB Departamento de Educação – Campus XIV Colegiado de História Jonatha Lima SilvaJornalismo de “posição”: A Tarde e o golpe de 1964 Orientador: Eduardo Borges Conceição do Coité – BA Março de 2010
  2. 2. Universidade do Estado da Bahia - UNEB Departamento de Educação – Campus XIV Colegiado de História Jonatha Lima SilvaJornalismo de “posição”: A Tarde e o golpe de 1964 Artigo apresentado como trabalho de conclusão de curso e requisito parcial para a obtenção da graduação em história. Orientador: Eduardo Borges Conceição do Coité – BA Março de 2010
  3. 3. Jornalismo de “posição”: A Tarde e o golpe de 1964 Jonatha Lima Silva1 ResumoO presente artigo analisa um importante veiculo de comunicação de grande credibilidadeentre os habitantes baianos: o jornal A Tarde. O estudo se define pela análise de editoriais dojornal seis meses antes do golpe militar e seis meses depois, percebendo justamente osposicionamentos, defesas, críticas e ideologias desse órgão da imprensa a respeito do governode João Goulart e Humberto Castelo Branco. Para isso foram destacados alguns editoriais quetratavam de questões relevantes no período, como o temor de uma revolução comunista, aquestão agrária, a crise política-econômica e o surgimento do novo regime orientado pelosmilitares.Palavras-chave: A Tarde; Imprensa; Posicionamento; Centrista; Comunismo e Revolução. AbstractThis article examines an important vehicle of communication of great credibility among theinhabitants of Bahia: A Tarde newspaper. The study is defined by the analysis of newspapereditorials six months before the military coup six months later, realizing just the positions,defenses, and ideologies critical of media report about the government of João Goulart andHumberto Castelo Branco. For that were posted some editorials that dealt with issues relevantperiod, as fears of a communist revolution, the agrarian question, the political-economic crisisand the emergence of the new regime led by the military.Keywords: The Late; Press; Positioning; Centrists; Communism and Revolution.1. Introdução O estudo sobre o papel da imprensa em momentos decisivos na história brasileira,ainda é muito pouco pesquisado, especialmente os que se dedicam a jornais que se limitam acircular somente na esfera estadual. Nesse sentido encontramos do ponto de vistahistoriográfico uma grande lacuna, tornando-se de extrema relevância o estudo da temática.1 Jonatha Lima Silva é discente do curso de história da Universidade do Estado da Bahia do Departamento deEducação Campus XIV.
  4. 4. Tomando como base a realidade baiana, analisei o jornal A Tarde, importante veiculoimpresso presente no cotidiano de grande parte dos baianos da capital e do interior do Estado. A escolha do recorte temporal parte da necessidade de preencher lacunas em torno daDitadura Militar no Brasil e na Bahia, como também perceber ideologicamente as posições deA Tarde, jornal este tão conceituado entre os habitantes baianos. Para tanto foi escolhido paraanálise editoriais do período de setembro de 1963 a setembro de 1964, percebendo justamenteas posições que A Tarde assumiu durante o processo. Devido à objetividade do trabalhoselecionei e analisei alguns editoriais referentes ao governo de João Goulart e de HumbertoCastelo Branco. A escolha do estudo da linha editorial foi feita porque dentro da empresa jornalística,ele se define como o espaço que representa a opinião do jornal, acerca dos fatos de maiorrelevância, em uma dada edição, sua estrutura de texto é muito importante: “[...] deve ser escrito em linguagem cuidada. Para redigi-lo, é necessário definir um objetivo e ter clareza na escolha de uma idéia central para argumentação. O ponto central é: Qual é a verdade? Partindo-se desse ponto, têm-se os critérios para a argumentação. [...]” (Fundamentos da redação jornalística, p. .23) Por possuir esse formato de texto, o editorial deve ser bem elaborado, para que possajustificar ou convencer o leitor, acerca do seu ponto de vista sobre determinadoacontecimento, pois ainda no que se refere a estrutura observamos: “Quanto ao conteúdo, sua estrutura é dissertativa, organizada em tese (apresentação sucinta de uma questão a ser discutida), desenvolvimento (ter argumento e contra- argumentos indispensáveis à discussão e à defesa do ponto de vista do jornal) e conclusão (síntese das idéias anteriormente desenvolvidas). Além disso, deve-se usar exemplos que ilustrem o assunto em questão.” (Fundamentos da redação jornalística, p. 23) O objetivo, portanto do editorial é de opinar e convencer através de argumentos bemestruturados, se define dessa maneira, e sendo assim se estabelece também como umaimportante fonte histórica, pois através dele foi possível verificar e analisar durante oprocesso de pesquisa, a forma como A Tarde tratou o governo de João Goulart meses antes doGolpe Militar, e no semestre que se seguiu com o novo regime. Para a realização do estudo foi necessário utilizar a vasta historiografia sobre aDitadura Militar no Brasil, como também algumas obras referentes a área de comunicação,essa pesquisa interdisciplinar não deixou de privilegiar a construção do trabalho na
  5. 5. perspectiva histórica. Fazer uso de outra área do conhecimento foi importante para acompreensão mais aprofundada no que se refere a função que a imprensa escrita ocupa nasociedade contemporânea, através das leituras foi possível perceber como ela lida e as vezesse confunde com o poder, no momento que assume suas posições ideológicas. O trabalho, portanto, se resume a traçar um diálogo entre os editoriais de A Tardejunto com o conhecimento histórico e comunicacional, se atendo aos momentos de grandetensão política e social que se desdobraram no fim do período democrático brasileiro no iniciodos anos 1960.2. Imprensa, sociedade e suas relações de poder Entendendo a informação como um bem público e os meios de comunicação como osgrandes responsáveis por transmitir esses conteúdos de forma clara, objetiva e despida deinteresses e ideologias, se torna importante nos ater a algumas indagações: Qual o papel que aimprensa ocupa na sociedade? Ela influencia as pessoas a mudarem suas posiçõesideológicas? Como se relaciona a imprensa com o poder? Cabe a ela somente informar asociedade ou também de tomar partido de algum projeto ideológico? Questões como estas nos motivam a tentar entender até onde se estende o poder daimprensa na sociedade contemporânea, já que está se considera e é considerada pelo sensocomum como formadora da opinião pública e do pensamento crítico isento de ideologia nainformação transmitida, porém em momentos em que o poder político e econômico do país seencontram ameaçados, essa característica de isenção da informação alimentada a todo omomento pela imprensa se perde. Foi o que ocorreu no período do Golpe de 1964. Segundo Bernardo Kucinski é comum em países subdesenvolvidos que a notícia sejatratada como mercadoria, onde determinados espaços dos jornais são destinados a anúncios degrupos econômicos que financiam e mantêm a empresa jornalística. Isto é também percebidona relação que a imprensa estabelece com o poder político, apoiando candidatos e defendendogovernos que apresentem projetos condizentes com o seu posicionamento. Devido a esses fatores Kucinski aponta que durante a história do Brasil se tornoucomum o pacto entre a imprensa, os grupos econômicos e políticos do país, mantendo o queele chama de padrão complacente do jornalismo brasileiro.
  6. 6. “A complacência é o resultado normatizado do confronto entre o nosso tipo de democracia e o nosso tipo de capitalismo. É sistêmica e de natureza cultural, um código de comportamento que envolve, de modos diversos, donos de meios de comunicação e jornalistas. Um padrão de jornalismo, típico de sociedades subdesenvolvidas, reforçado, no nosso caso, por duas décadas de regime militar” (JOSÉ, apresentação) Dentro dessa afirmativa percebe-se então que o tipo de jornalismo brasileiro é o decompactuar com o poder em momentos decisivos da história brasileira, quando este lhe éfavorável, no contexto de 1964 como afirma Emiliano José, houve um grande investimentonos meios de comunicação, dentro disso o autor aponta: “é importante acentuar também que os meios de comunicação de massa transformaram-se, no pós-1964 em área de acumulação intensiva de capital. O desenvolvimento acelerado desses meios vincula-se intimamente ao também acelerado processo de expansão do capitalismo monopolista do Brasil[...] Os interesses dos meios de comunicação, portanto, estavam organicamente vinculados à manutenção daquela específica situação política, que lhes dava segurança quanto aos investimentos que realizavam.” (JOSE, p. 22) Nesse momento verifica-se o interesse da maioria dos órgãos da imprensa brasileiraem apoiar o regime militar além de garantir investimentos, afastava o temor do socialismo.Referências contra o socialismo surgiram em editoriais de 1963 e 1964 da Folha de São Pauloe O Estado de São Paulo, inclusive veremos também isto no jornal A Tarde. Portanto naépoca era comum que os jornais apoiassem o sistema capitalista e passassem a desconfiar dequalquer político progressista que defendesse programas “duvidosos” .2 O mesmo ocorreu durante as eleições à presidência do Brasil em 1990 quando osgrandes meios de comunicação defenderam a candidatura de Fernando Collor de Mello,meses antes a revista Veja já fazia propaganda política do candidato, um personagem atéentão desconhecido do cenário político nacional. A defesa do candidato partia do programaque este se predispunha a efetivar, baseado no neoliberalismo das privatizações em oposiçãoao de Luis Inácio Lula da Silva, candidato ainda com o estigma do sindicalismo rebelde. Oestudo de Emiliano José no livro Imprensa e Poder acompanha o posicionamento de algunsórgãos da imprensa durante a candidatura, a posse e o impeachment de Collor. O autor afirmase referindo a imprensa e a Fernando Collor: “A imprensa é partidária, não no sentido de defender este ou aquele partido, mas no de ter um programa a defender. Ela estava perfeitamente identificada com as propostas neoliberais e precisava não só do ator-espetáculo para sua demanda2 Á Exemplo das reformas de base de João Goulart
  7. 7. noticiosa, para a implementação desse novo modelo do culto à personalidade, como também do ator político, que levasse à pratica o seu programa.” (JOSE, p. 26) Tanto em 1964 como em 1990 dois importantes momentos da história políticabrasileira percebe-se o posicionamento explicito dos meios de comunicação e os interessespor detrás da noticia, a informação perpassa a todo o momento pela opinião da empresajornalística. É claro que dentro do jornal existe o espaço dedicado as demandas populares, asdenúncias e as contradições existentes na sociedade, como também crítica ao candidatopreferencial da empresa jornalística, porém a opção existe como afirma Emiliano José. Seolharmos outro aspecto da composição do jornal, constataremos isso, na diagramação, porexemplo, se discute as seguintes questões: Qual a noticia deve ir para a primeira página? Quala fotografia utilizada para ilustrar determinado acontecimento? O que fica em segundo plano?No livro João Goulart e a Imprensa a autora Maria Rosa Duarte de Oliveira, analisajustamente o posicionamento da noticia e a diagramação do jornal no inicio dos anos 1960,concluindo que: “No caso especifico do discurso jornalístico, a ação argumentativa não se reduz aos editoriais, onde, por estar a descoberto, é até menos convincente. É no ‘design’ da página – nas redes diagramáticas das fotos, manchetes e submanchetes, tipos gráficos e textos – que a persuasão se faz iconicamente, de forma direta e mais eficaz.” (OLIVEIRA, p. 48) Dentro disso percebemos que o discurso jornalístico de transmitir a informação deforma clara e precisa sem posições ideológicas é contraditório, já que a todo o momento,desde a formatação do jornal até a opinião declarada nos editoriais há subjetividade eposicionamento, como afirma Emiliano José: “Trata-se de um interessante jogo de faz-de-conta, um discurso repetido insistentemente nos editoriais, o da objetividade e da imparcialidade, editoriais que, aliás, constituem o único espaço que ela admite ser o da opinião, esquecendo-se, ou fingindo ignorar, que o exercício do jornalismo, cotidianamente, termina por ser opinativo, mesmo quando se traveste de pura e simples noticia.” (JOSE, p. 16) No livro de Emiliano José, Imprensa e Poder, o autor constata que apesar de aimprensa ser partidária existem momentos em que ela rompe com o pacto estabelecido, comoocorreu com o ex-presidente Fernando Collor de Mello. As denúncias feitas por seu irmãoPedro Collor concedendo entrevista e revelando os casos de corrupção, compeliu a imprensapartidária de Collor a adotar uma posição contraria ao presidente, já que este estava
  8. 8. envolvido. Naquele momento se a imprensa não continuasse a divulgar os escândalospolíticos e se não posicionasse contrário a Collor, a legitimidade e credibilidade do jornalismobrasileiro poderia ser seriamente abalada. Qual seria verdadeiramente a função da imprensa? Segundo Franklin Martins, em seulivro Jornalismo Político, o jornalista deve ser leal, a empresa em que trabalha, aos colegas,as fontes e principalmente a sociedade. Esta deve ser em última instância preservada, é deverda imprensa garantir a informação fidedigna, correta e isenta, ou seja, segundo o autor osjornalistas devem pensar da seguinte maneira: “Nós, jornalistas, temos um contrato informal com a sociedade, que nos garante uma série de prerrogativas, como o acesso a informações de caráter público[...] em suma, gozamos de liberdade de imprensa. Em contrapartida, a sociedade espera que os jornalistas exerçam esses direitos com o objetivo de mantê-la informada, e não visando ao proveito pessoal ou empresarial. No fundo, o direito do jornalista à liberdade de imprensa é apenas um reflexo do direito de a sociedade ser bem informada. Essa é a questão básica que norteia a relação do jornalista com a sociedade.” (MARTINS, p. 34) Garantir informação isenta é uma obrigação do jornalista e dos meios de comunicação,a partir desta que o leitor irá formar sua opinião sobre determinado acontecimento, entretantoo que se verifica em estudos de jornalistas é que os jornais e os diversos outros meios decomunicação não fazem somente a divulgação da informação e interpretação dos fatos, mas seutilizam da linguagem icônica do veiculo, através da divulgação, edição e a crítica dainformação para se posicionar. Em relação a impressa escrita é somente no espaço doseditoriais que o jornal admite ser o de opinião.3. O veículo Como é possível estudar os posicionamentos de A Tarde durante o Golpe Militar de1964? Para isso é necessário identificar a trajetória do jornal e seu fundador na política baiananos anos que antecederam ao Golpe. Ernesto Simões da Silva Freitas Filho, fundador de ATarde, foi importante político na Bahia, atuou como Deputado, Ministro e até foi candidato aocargo de executivo estadual. Desde a “Revolução de 1930” até o fim do Estado Novo em 1945, A Tarde e ErnestoSimões Filho se posicionaram contra as políticas ditatoriais de Getúlio Vargas. A ideologiaem voga e bastante difundida era da construção de uma nação forte baseada na unidade
  9. 9. nacional e na centralização político-administrativa, fato que incomodava os políticostradicionais da Bahia, pois isso na prática significava diminuição do poder dos estados daFederação e conseqüentemente enfraquecimento dos grupos dirigentes locais. Uma dasmedidas utilizadas pelo Estado Novo para que isso ocorresse era a interventoria federal,criada por Vargas, selecionava políticos e os enviava a outros estados do Brasil com objetivode minar o poder das forças políticas locais. Ernesto Simões Filho além de jornalista, era um político ligado a tradicional oligarquiabaiana, portanto estava também insatisfeito com a política intervencionista de Vargas, seuprincipal opositor durante o período foi o interventor federal Juracy Magalhães enviado aBahia para assumir o cargo de governador do Estado. A constante oposição ao governo de Vargas por alguns políticos baianos fez surgiruma espécie de agrupamento na Bahia, chamado de “autonomistas”, cujo interesse era deaumentar o poder do Estado e se livrar da política intervencionista de Vargas, além depolíticos, atuaram junto ao grupo, intelectuais e alguns advogados que se apoiavam nas leispara defender o sistema liberal e democrático. Ernesto Simões Filho participava dessacorrente e inclusive cedia a sede do jornal A Tarde, para que os membros da “ConcentraçãoAutonomista da Bahia” se reunissem. Em 1945, no final do Estado Novo, diversos artigosdessa corrente foram publicados em A Tarde, tecendo críticas ao governo de Vargas edestacando a necessidade de os baianos reaverem o poder político perdido. Passado o período ditatorial do governo Vargas, se percebe que Ernesto Simões Filhoapóia geralmente as candidaturas ligadas ao PSD, isso se verifica na eleição de OtávioMangabeira com a coligação UDN-PSD e com Luis Régis Pacheco, ex-autonomista, nacoligação PSD-PTB, sendo que no governo deste último Ernesto Simões Filho consegueocupar o cargo de Ministro da Educação no regime democrático de Getúlio Vargas. Durante ogoverno da Bahia no período de Antonio Balbino de Carvalho Filho (1955-1959), eleito pelacoligação UDN-PSD-PTB, o fundador do jornal A Tarde vem a falecer. Depois disso oprincipal opositor de Ernesto Simões Filho, Juracy Magalhães é eleito e exerce mandato de1959-1963. Chegamos então na candidatura de Lomanto Junior, momento em que o país já estasentindo demasiadamente a crise política e econômica do pré-1964, vimos até aqui que ATarde e seu fundador adotou posições em um momento importante da história políticabrasileira: O governo ditatorial de Getúlio Vargas. O lugar de onde surgiu o político ejornalista Ernesto Simões Filho explica a adoção durante sua vida ao PSD, partido este que
  10. 10. juntamente com a UDN, advêm das velhas oligarquias baianas. A Tarde também secaracteriza no mesmo perfil do dono, tentando manter a defesa dos interesses dos oligarcasbaianos, porém ao longo da década de 1950 e início dos anos 1960 é partidária de outrossegmentos da sociedade. Nas eleições de 1962 na Bahia ao cargo de executivo estadual, encontra-se um climade tensão política e uma realidade peculiar quanto a configuração dos partidos. O PSD e oPTB, nesse momento lançam seus candidatos ao cargo de governador do Estado, o primeiropartido muito tradicional passa por uma renovação e coloca em suas fileiras políticos comperfil liberal e progressista representados no candidato Waldir Pires, enquanto que o PTBbaiano apostava na candidatura de Lomanto Júnior. Diferentemente da conjuntura nacional oPTB baiano passa a ser composto pela burguesia agrária e tinha o apoio da oligarquia o quecolocava o partido em sintonia com o PSD nacional, no qual predominantemente fazia parte avelha oligarquia fundiária do Brasil. Por outro lado encontramos no PSD baiano uma baseformada por forças populares, organizações sindicais e membros da classe trabalhadora, o quefazia este se alinhar a organização do PTB nacional. Essa mudança interna do PSD baiano,gerando uma base de apoio com um perfil mais popular, muito peculiar a realidade baiana,colocou o jornal A Tarde em posição de mudança. Devido a isso A Tarde, até então pessedista, pois no partido se concentrava as forçasmais conservadoras, muda sua postura e passa a apoiar o PTB, como afirma o sociólogoAntonio Sérgio Guimarães: “Foi precisamente em torno da candidatura de Waldir Pires ao Governo do Estado que se aglutinou o conjunto das forças progressistas e populares, assim como o conjunto das organizações sindicais e partidárias da classe trabalhadora. Lentamente, à medida que progride a campanha eleitoral, foi ficando nítida a ambigüidade do apoio a máquina partidária pessedista, controlada pelos velhos caciques como Antonio Balbino e Oliveira Brito, à candidatura de Wadir. Até mesmo um jornal tradicionalmente pessedista como A Tarde vai gradualmente definindo-se pela candidatura oponente. Pode-se dizer que o conjunto da burguesia baiana começa a cerrar fileiras em torno da candidatura de Lomanto Junior, apoiada pela UDN, pelo PTB, pelo PR e pelo PL.” (GUIMARAES, p. 32) Fazendo um apanhado das informações contidas no estudo de Antonio SérgioGuimarães, percebe-se economicamente que desde sua fundação A Tarde defendeu osinteresses das classes dominantes, inicialmente nos anos 1930 a defesa era em torno daburguesia mercantil e da oligarquia baiana, ou seja, grupos ligados a terra e ao comércio, essaestrutura econômica era dominante em quase todo cenário brasileiro. A revolução de 1930 fezascender à classe média, detentora de um pequeno capital. Nos anos 1950 e 1960 o Brasil
  11. 11. possui esse grupo consolidado e surgem o proletariado e o empresariado, advindos dodesenvolvimento da industria e da nova realidade econômica que cerca o país. Como afirma osociólogo Antonio Sérgio Guimarães o interesse de A Tarde se define nos grupos que possaminvestir na Bahia e na conjuntura dos anos 1960 quem estava ascensão economicamente era ojovem empresariado: “O caráter pequeno-burguês de A Tarde e sua constituição como representante dos interesses da burguesia agrário-industrial evidencia-se no início dos anos 60 quando, com o acirramento das lutas de classe, ela abandona os interesses da oligarquia fundiária e passa a defender a reforma agrária. Isso significava, na realidade, romper com o coronelato que se aferrava às relações de produção ultrapassadas e às práticas improdutivas de renda da terra. Mas significava também garantir a prosperidade daqueles setores do coronelato que começavam a empresariar a terra. Não se deve esquecer que a principal matriz da burguesia era forçosamente a velha oligarquia” (GUIMARAES, p. 72) Percebe-se então a partir da análise do sociólogo que A Tarde no inicio dos anos 1960rompe com a tradicional oligarquia baiana, este importante segmento que possuía até ametade dos anos 1950 forte representação política. Ernesto Simões Filho foi oriundo desseestrato da sociedade. Tomando como base o estudo de Antonio Sérgio Guimarães e de historiadores comoLuis Henrique Dias Tavares e Paulo Santos Silva foi possível traçar um pouco da trajetóriapolítica de A Tarde e seu fundador, percebendo o contexto político e econômico baiano dosanos de 1930 a 1960 e também identificando posicionamentos a favor de determinados grupospolíticos ligados ao grande latifúndio, e também a segmentos emergentes dentro da sociedadebaiana. Sem dúvida isso é de extrema relevância e o primeiro passo para entendermos queesse veículo de comunicação adota e defende posições. No próximo tópico analisa-sepropriamente os editoriais de setembro de 1963 a setembro de 1964, destacando, o governo deJoão Goulart e de Humberto Castelo Branco.4. Jornalismo de “posição” Como se encontrava o cenário político brasileiro meses antes do Golpe Militar de1964? Com certeza bem crítico, João Goulart, desde o inicio do regime presidencialistatentava angariar apoio para realização de suas reformas de base e aplicação do Plano Trienal,
  12. 12. este último consistia numa serie de medidas que visavam combater a alta inflação do períodoe ao mesmo tempo favorecer o crescimento econômico. Apesar da tentativa de conter a inflação, o resultado do programa foi o crescimentodesta no ano de 1963 e a estagnação econômica. Esse fato repercutiu mal para todos ossegmentos da sociedade, as classes baixas e altas foram afetadas pela crise e nenhumadesejava ter seu poder de compra diminuído, frente ao aumento exorbitante dos bens deprimeira necessidade. Por isso as classes trabalhadoras e também militares de baixa patentereivindicavam aumentos salariais. O contexto de crise política, econômica e social, exacerbado nos momentos finais queantecederam o Golpe Militar de 1964 contribui para a diminuição da importância e dainfluência de João Goulart frente as suas bases de apoio. A Tarde caracterizado como um jornal de matriz conservadora adotara no referidoperíodo uma posição centrista, em relação ao governo de João Goulart, muito semelhante aoutro órgão da impressa escrita como a Folha de São Paulo. Ambos variavam em valorizar ecriticar através de sua linha editorial as medidas políticas adotadas pelo presidente.Referindo-se ao jornal baiano no editorial de 03-09-1963, A Tarde valoriza Goulart porsuspender as atividades do IBAD durante seis meses, instituição que financiava com verbasdo governo federal, campanhas eleitorais de candidatos esquerdistas, o contraponto do IPES,outro órgão formado por homens de negócio que também aplicavam capital para campanha decandidatos. Segundo o jornal o motivo da suspensão partia da corrupção do instituto. No transcorrer do mês de setembro de 1963 A Tarde tece criticas muito contundentesao governo de João Goulart, principalmente ao posicionamento do presidente que não estavanem mais satisfazendo as suas bases de apoio. Em dois editoriais de 10-09-1963 e 19-09-1963, intitulados de Quebra Cabeças e Rumos Incertos, A Tarde relata a falta de apoio aogoverno federal e traça a situação política na qual o presidente se encontrava, abordando oconflito com o Senado, o fracasso do Plano Trienal, as constantes greves e troca de ministros.A falta de apoio político é bastante enfatizada nos editoriais, como segue abaixo: “Afirmando isto, não se está mais que divulgando o estado geral de espírito de toda a Nação. E, como ninguém entende o governo federal, paga ele o pesado tributo de não ter a confiança de quase ninguém, hoje em dia. Até seu partido, vez por outra, se insurge contra o sr. João Goulart, apesar de o presidente da República, além de titular do mais alto posto do País ser também presidente daquela agremiação.” 10- 09-1963
  13. 13. Em outro momento também é analisado o mesmo aspecto: “Com isso, começaram adesagregar-se as hostes janguistas. Rarearam dificilmente seus companheiros por assim dizerde fé, os mais cegos partidários de ontem já esboçavam criticas e queixas, até abertamente.”19-09-1963 Os editoriais citados acima com os títulos bem sugestivos já demonstram opensamento do jornal em relação a situação do governo federal. O Quebra Cabeças, pode serentendido como um governo desmantelado que precisava se organizar enquanto que RumosIncertos indicava a falta de projeto e de uma política segura do governo. Essa situação no pré-1964, ocorria, a base de apoio que realmente Goulart necessitava estava se esvaindo. Basicamente existiam segmentos da sociedade brasileira que deveriam apoiar Goulartpara que este pudesse governar, porém as políticas adotadas pelo presidente não agradavam oscentristas que presenciaram a ineficácia do Plano Trienal, a inflação exorbitante, a estagnaçãoeconômica e ainda não viam com bons olhos a mobilização política dos trabalhadores urbanose rurais, enquanto isso, grupos mais conservadores como: “Os proprietários rurais, por exemplo, tentavam convencer eleitores da classe média nas cidades de que uma emenda constitucional permitindo indenização em títulos, ao invés de em dinheiro, pelas desapropriações de terras seria um atentado a todo o principio da propriedade privada” (SKIDMORE, p. 316) Essa idéia passou a ser tão difundida que realmente assustou grande parte dosbrasileiros, naquele momento para encontrar apoio do centro, era necessário conter a criseeconômica, experiência que naquela altura já havia fracassado, enquanto que manter as“esquerdas”, significava levar adiante o projeto das reformas de base, sem ser muito radicalpara não afastar os centristas. A propaganda dos proprietários rurais aliada ao temor surgido apartir da proposta de reformas de base, destacando principalmente a reforma agrária, além dosdiscursos da esquerda radical que pareciam buscar direitos além da Constituição, resultou noafastamento de uma classe média e também de centristas (fundamentais para Jango se manterfirme no poder), já que o mundo estava polarizado como bem coloca o autor Francisco CarlosTeixeira da Silva em seu artigo A Modernização Autoritária: “A eclosão da guerra fria, a associação entre ‘mundo livre’ e ‘capitalismo’, assim como a questão da terra como ponto central da Revolução Cubana, serviram para consolidar, junto a milhares de brasileiros, a idéia de intocabilidade da propriedade privada, mesmo que reconhecidamente injusta e herdeira de ‘quatro séculos de latifúndio’. O seu pretenso caráter iníquo seria apenas o pretexto através do qual os comunistas, sob os mais diversos matizes, poderiam iniciar a coletivização do país.
  14. 14. Assim não tratava de discutir esse ou aquele modelo de desenvolvimento econômico, e sim de garantir um principio que estava em risco: a propriedade privada”. (SILVA, F. p. .361) Apesar de discursos de radicais e da grande propaganda difundida que Jango tentavaaplicar um Golpe, A Tarde permanece como defensor da legalidade democrática do governo,porém tece muitas criticas ao presidente durante o mês de setembro de 1963, basicamentegirando em torno da falta de posicionamento e da ineficácia política exercida por Goulart. Ojornal baiano identifica-o como jogador político, já que este tentava agradar a todos,colocando, por exemplo, diversos ministros de base conservadora e moderada e causandoinstabilidade no governo, o fato que causa maior irritação de A Tarde no período é justamentea constante troca de ministros feitas pelo presidente. Como segue: “Jamais se teve umgoverno afirmativo, nem se deixou um ministério, as mais das vezes inviável de nascença,criar raízes necessárias para a realização de um programa administrativo.” 19-09-1963 Percebe-se que A Tarde através dos editoriais não exerce somente a opinião, massugere e cobra medidas políticas, principalmente por parte do presidente. Como afirmaEmiliano José a imprensa é partidária porque tem um programa a defender, em relação ATarde o programa se define como afirma Antonio Sérgio Guimarães na defesa da ordem e dosistema federativo, inclui também nesse pacote os investimentos que possam ser levados aBahia. Em editorial de 21-09-1963 o jornal baiano critica a negação do Ministério da Fazendaem conceder investimentos ao cacau da Bahia além de destacar a falta de apoio do presidenteaos baianos, este não sabendo reconhecer os seus aliados. Como segue na seguinte afirmativa:“É – ironia das coisas de política – o presidente acabava de receber um firme apoio dogovernador baiano contra os que visivelmente tramam contra seu legitimo mandato.” “Aliado” este como Lomanto Junior que segundo o jornal dava apoio ao governofederal, como consta em editorial do dia anterior: “...seu apoio ao presidente da Republica quando não tem, como agora, conotações de personalismo ou vesquice partidária, reveste-se do sentido mais alto de sustentação da autoridade constituída e se confunde com os melhores ensinamentos da democracia e com os interesses nacionais.” 20-09-1963 Por trás das bases de apoio de Lomanto Junior, estava A Tarde que durante as eleiçõesde 1962 ao governo do Estado, passou a ser petebista como a maioria da sociedade baiana debase conservadora. Adotando uma linha de governo moderada o governador da Bahia podeser identificado no período como:
  15. 15. “Equilibrista político, na boa tradição do PSD nacional, ao qual formalmente não pertencia, Lomanto procurou atuar, durante os doze meses de sua gestão que antecederam o golpe de 1964, como um ‘algodão entre os cristais’, amortecendo os atritos entre os Magalhães e Jango, o lacerdismo e o trabalhismo, a UDN e o PTB” (FERREIRA, M. p. 3) A Tarde em seu tom moderado, tece varias criticas ao presidente, porém como jornalnão se posiciona radicalmente contra João Goulart, já que naquele momento os ânimosestavam bem elevados, o fato de ser extremado poderia afetar grande parte do público leitor.Em torno dos apontamentos feitos a deficiência do governo de Jango, existia a esperança demelhora, visto que grande parte dos editoriais de setembro de 1963 ocorre a cobrança deposicionamento, frente a política indecisa de Goulart para que este se firme como líder daNação. Isso pode ser entendido a partir da defesa que A Tarde faz a legalidade. Apesar dascriticas ao presidente, o jornal permanece defensor das instituições democráticas, e não desejaque extremistas radicais ocupem o poder. Como pode se verifica a seguir: “Quem vê de pertoo clima de sobressalto em que vivem os poderes constituídos da Nação sabe que chegou ahora do basta para ação impatriótica dos que desejam o poder ao preço mesmo da misérianacional.” 20-09-1963 Em seu editorial de 20-09-1963 intitulado Pela Legalidade, percebe-se a causa que ojornal defende: “Ainda ontem comentávamos que chegou a hora de se fortalecerem os poderesconstituídos da Nação, para que não caiamos no abismo de um golpe ou de uma revolução.” Defendendo, portanto a legalidade democrática, A Tarde se posiciona contrario aqualquer outro regime. Dentro da conjuntura dos anos 1960 isso significava defender ademocracia dentro da ordem capitalista, já que naquele momento o mundo estava polarizado,entre o “Ocidente capitalista” e o “Oriente socialista”. Em relação ao Brasil existia um grandetemor quanto a implantação de um regime baseado no socialismo, esse fato era reforçado pelodiscurso e ações da esquerda radical representada nos movimentos de massa que possuíamcomponentes comunistas. Percebe-se que durante os seis meses que antecederam o golpemilitar no Brasil, A Tarde, permanece com seu discurso anti-comunista. Críticas são feitas aosgovernos internacionais como o de Mão Tse Tung: “Diz o sr. Mão Tse que uma guerra atômica destruiria ‘apenas’ metade do gênero humano. E que, depois dela, esgotados todos os estoques de morte por desintegração, a humanidade se refaria, atingindo, poucos anos além, a cifra de 2 bilhões e meio de almas. Dois bilhões e meios que seriam dominados pela ideologia comunista...” 01-10-1963
  16. 16. Em relação ao governo cubano: “Pretendendo livrar-se de más administrações e na esperança de verem sanados todos os males que afligiam a sua pátria, os cubanos apoiaram, de boa fé, a Fidel Castro, nas suas guerrilhas. No fim, dominados e traídos em seus ideais pelo caudilho vermelho, perderam a sua liberdade, vendo a democracia substituída, a força, pela ditadura.” 28-02-1964 O anti-comunismo de A Tarde, ainda é visto na crítica feita a URSS: “[...] a Rússiaainda sofre as misérias de tantos anos de horror . E ainda continua sendo o mesmo Estadoditatorial, que só consegue extrair produções na cidade, do operariado urbano, que está bemperto do tacão das tropas.” 12-10-1963 A realidade brasileira também é mencionada, na qual existia o Partido Comunista nailegalidade e os membros comunistas infiltrados nos movimentos de massa. Portanto dentro do cenário da Guerra Fria, A Tarde, explicitamente mostrava suaposição ao criticar os principais países representantes do socialismo internacional, emeditorial de 25-01-1964, o jornal baiano se irrita com o financiamento do governo em apoiarum Congresso internacional de trabalhadores comunistas, organizado pelo C.G.T, fato quesegundo A Tarde, só traria mais agitação ao quadro de instabilidade política do país. Segundoo mesmo esse movimento de massa dos trabalhadores estaria dominado por liderescomunistas e pelegos que aderiam as organizações somente para tirar proveito próprio. Noseguinte trecho do editorial isso pode ser verificado: “Quem representa os trabalhadores brasileiros neste congresso? Os dirigentes da C.G.T. Esta sigla demonstra que espécie de pessoas se dizem porta-vozes dos trabalhadores – trabalhadores que jamais viram. Grimpados desta organização ditatorialmente, sem se submeterem a um processo democrático de escolha, significam os dirigentes da C.G.T. a nata do comunismo e peleguismo nacional. Isto é, o que de natureza é mais afastado do real trabalhador brasileiro” Para um jornal centrista como A Tarde os movimentos de massa não eram bem vistos,já que possuíam uma forma muito agressiva de negociação, a CGT, por exemplo, costumavapressionar o governo através da realização de grandes greves o que agravava a situaçãoeconômica e o temor da população em relação ao grande poder de mobilização do grupo. Parao jornal baiano o que mais incomodava era justamente o diálogo que o presidente JoãoGoulart tentava manter com esses grupos radicais, muitos com integrantes comunistas, fatoque afastava cada vez mais a opinião centrista em torno do presidente. Em editorial de 24-02-1964, intitulado Suicídio, o jornal baiano critica a tentativa do governo federal de colocar o
  17. 17. Partido Comunista de volta a legalidade, os argumentos surgidos partem da Constituição queveda a organização ou partido que contrarie o regime democrático, em linguagem médica ATarde faz sua crítica: “O que se pretendeu com a medida, foi promover a defesa da democracia. Esta não pode inocular no seu organismo o germe da própria destruição. Seria absurdo – por analogia – que qualquer pessoa introduzisse no seu organismo os agentes carreadores da doença.” O fato de colocar na ordem legal um partido que defende outro regime seria para ojornal baiano um ato contraditório e suicida. Nos meses que se seguem, A Tarde continua criticando o governo de João Goulartsempre o colocando como jogador querendo atuar em todas as bases. Em editorial de 02-10-1963, intitulado, Definam-se as reformas, o jornal cobra posicionamento do presidente nadefinição da maneira de se fazer as reformas de base. Como segue no trecho abaixo: “Esta indefinição dos homens, dos líderes que tinham, por isso mesmo, dever de comandar a opinião de seus liderados e, por via de conseqüência, da opinião pública, é que esta levando este país a um abismo de desencontros, a uma descrença generalizada nas autoridades e nos poderes constituídos” Em alguns editoriais de outubro e novembro de 1963 percebe-se um bomposicionamento em relação ao governo federal, em editorial de 04-10-1963, o jornal baianocritica a entrevista concedida por Carlos Lacerda a um jornal estrangeiro, no qual ogovernador da Guanabara considerado de extrema direita critica o governo de João Goulartligando-o a grupos comunistas. A Tarde entende que o governo do presidente é deficiente,mas não valoriza as criticas feitas por Lacerda, por estas colocarem em cheque a autoridadedas instituições. O jornal baiano ainda afirma que algumas críticas foram injustas, comoconsta na afirmativa seguinte: “Desmandando-se em criticas, algumas justas, outras injustas,ao governo federal o chefe do executivo da Guanabara causou o que se pode chamar de altoprejuízo ao Brasil e atentado a nossa boa fama nacional.” Em outros editoriais A Tarde valoriza a fala do ministro da fazenda em solucionar osproblemas econômicos do Brasil: “Como paliativos, e não mais que isto, não se pode negar eficácia as medidas que o sr. Carvalho Pinto se disse disposto a adotar. Reconfortada com as palavras tranqüilizadoras do ministro, a Nação passa a aguardar os efeitos dessas providências, anciosa que está para que restaure o equilíbrio econômico e financeiro.” 26-10-1963
  18. 18. O governo também é valorizado pelo jornal em relação a entrevista concedida porGoulart a uma revista carioca, no qual é feita uma avaliação dos pontos positivos: “E essas conclusões positivas existem. Isto porque, sem prejuízo do que merece, na parte política, a posição do presidente Goulart, o pensamento reformista que ele defende naquele documento merece atenção especial e é uma clara e valiosa contribuição à luta pelas reformas de base, de que tanto nosso país precisa.” 26-11- 1963 Dentro da grande quantidade de editoriais analisados, somente alguns valorizam ogoverno presidencial ou adotam um tom moderado de crítica a João Goulart. E porque mesmoassim pode ser afirmado que A Tarde adota uma posição de centro no referido período?Simplesmente devido às posições extremadas do pré-1964. Quando Carlos Lacerdapertencente a extrema direita tece criticas muito contundentes ao presidente, A Tarde vêemem defesa de João Goulart criticando o tom extremado do governador da Guanabara. Tambémpercebe-se quanto ao otimismo de A Tarde frente as declarações do ministro da fazenda e apossível implementação das reformas de base, além de que suas próprias criticas aopresidente, se define mais por uma cobrança de posição, ou seja, de uma política clara quedefina seu grupo e/ou sua base de apoio. Em outubro de 1963 um fato que é duramente criticado por A Tarde é a solicitação dopresidente pelo Estado de Sitio, em três editoriais, o jornal baiano narra a solicitação. Comoconta abaixo: “Funda-se em todas essas razões a inconformidade com o pedido de ‘sitio’ Não se vê a que ele será útil. Não se enxerga no presidente um homem que possa conduzir- se com acerto e a firmeza, que até hoje não encontrou, quando tiver nas mãos poderes multiplicados.” 07-10-1963 A revogação também é citada: “Como que interessado em por lenha na fogueira de agitação que consome o país, o governo federal nos da um triste exemplo de irresponsabilidade.[...] Em resumo manda ao Congresso a proposta de uma medida extrema, com base em fatos que anuncia graves, e pouco depois recua, negando já a gravidade da conjuntura que ele próprio tinha pintado com nuvens carregadas e ameaçadoras.” 09-10-1963 Como bem avaliou A Tarde, a medida visava conter as manifestações políticasviolentas, só que naquele momento confiar poderes extraordinários a Goulart era algo difícil,já que o pedido de Estado de Sitio possuía uma conotação ambígua, ou seja, qualquer grupo
  19. 19. político poderia interpretar a medida como instrumento de repressão. Com a implantação damedida as esquerdas e direitas extremadas, poderiam ser alvo da violência repressiva, e oscentristas vitimas de um golpe, como bem destaca A Tarde, em seu editorial de 09-10-1963. O temor de um golpe crescia na medida em que Goulart se aproximava da esquerdaradical, no mês de dezembro de 1963, a suspeita aumenta por causa da cogitação de substituirLeonel Brizola por Carvalho Pinto no cargo de Ministro da Fazenda. A Tarde condena a açãoem editorial de 12-12-1963, intitulado, O menos indicado, no qual explicitamente seposiciona contrario a indicação de Brizola: “Nestes tempos explosivos, que fará o governo?Será possível que tente tirar do posto um homem equilibrado, conhecedor profundo definanças, que traz consigo tradição de bom senso administrativo – para substitui-lo por umfamoso agitador...” Em 20-12-1963, o jornal também crítica o troca-troca de ministros e faz referência asubstituição de Carvalho Pinto: “Um elemento ainda mais alarmante se juntava aos rumores jáde si incríveis: o sr. Carvalho Pinto seria substituído pelo principal agitador das esquerdas: osr. Leonel Brizola” A aproximação de Goulart com a esquerda extremista com certeza gerava temor porparte de A Tarde que novamente sugere e opina sobre a constante troca de ministros, comodefensor da legalidade democrática seria contraditório apoiar um radical de esquerda queatravés do seu discurso parecia querer romper com a ordem democrática. Outro ponto importante que A Tarde defende no período é a realização deinvestimentos na Bahia e maior autonomia do Estado no que se refere a política e as finanças.Em editorial de 13-12-1963, o jornal baiano defende o projeto de lei que cobra o impostosobre vendas e consignações de acordo com os consumidores e não produtores dos estados,segundo A Tarde, são benefícios a Bahia, pois a cobrança anterior era injusta, além dissocobra a aprovação do presidente para a implantação da medida. Em outros editoriais critica adependência econômica dos estados em relação ao governo da União: “Hoje, a quase unanimidade dos estados brasileiros não conseguem manter uma posição independente, muito menos oposta ao poder central. Faze-lo é votar-se ao insucesso, à miséria sobre todas as formas. Assim, com os cordéis da política de ajuda econômica e financeira o governo central dirige os governos estaduais ” 21- 01-1964 Quando se trata de trazer vantagens ao nordeste e especialmente a Bahia o jornal passaa defender com mais veemência o político João Goulart, como no exemplo da visita do
  20. 20. presidente ao Estado para verificar a destruição causada pelas enchentes no interior. Isso podeser verificado no trecho abaixo: “E reforça com sua presença a esperança de que o crédito queabriu e as providencias que determinou não tiveram o caráter de demonstrações pró-forma,mas foram medidas realmente para valer.” 27-01-1964 Devido constar em seus editoriais sempre a defesa da autonomia e de maioresinvestimentos a Bahia, percebe-se que é em torno da política dos governadores que A Tardefaz sua defesa aguda, tradicionalmente a favor do autonomismo baiano defende a posição dogovernador Lomanto Júnior ao promover uma reunião no Palácio Rio Branco, no qual ogovernador: “[...] buscava encontrar soluções para duas ordens de problemas, primeiro esvaziar o impacto da proposta de reformas de base do presidente Goulart, transferindo para a esfera estadual as decisões relativas a sua implementação ou não; assim como restabelecer as bases da estabilidade política e da governabilidade através do fortalecimento dos estados e municípios, o que retiraria a presidência da República do centro da controvérsia acerca daquelas reformas. Mas, tratava-se também de restaurar uma proposição histórica do autonomismo baiano, fortalecendo no seio da UDN as posições do grupo politicamente mais moderado vinculado ao falecido governador Otávio Mangabeira.” (FERREIRA, M. p. 3) Em editorial de 27-02-1964 o jornal baiano apóia a reunião dos governadores quebuscam maiores investimentos para os estados: “A importância desse encontro, já salientada e, por si só avaliada pela expressão dos seus participantes [...] O tema-central que nos proporcionará a presença de tão ilustres visitantes, a melhor distribuição das rendas federais, para desafogo e maior autonomia estadual [...]” Para angariar apoio do governo da União, A Tarde, sempre coloca o discurso dadesigualdade regional para receber recursos, seja fazendo referência as secas ou a falta dedesenvolvimento tecnológico. No inicio de 1964, a situação política-econômica-social brasileira já esta bastanteagravada. As classes sociais bastante definidas, a direita rejeitando as Reformas de Base,principalmente a reforma agrária e angariando apoio da classe média e da burguesiareformista, além de possuírem aliados dentro das Forças Armadas e dos EUA que tramavam oGolpe Militar. Enquanto que as esquerdas estavam muito divididas e fragmentadas. Essarealidade fez com que João Goulart se aproximasse cada vez mais das forças populares e daesquerda extremada, porém tendo relativo apoio desse segmento da sociedade o presidente
  21. 21. ainda encontrava dificuldades para implantação das reformas. Em editorial de 07-02-1964, ATarde, crítica a demora de Jango na realização da reforma agrária e em 20-02-1964 teme oclima de agitação no campo causado pela invasão de terras e a possível represália por partedos fazendeiros. Em ambos os editoriais o jornal baiano teme a desordem causada em tornoda terra e o crescente aumento do poder da população rural, em se armar e poder causar umarevolução. A Tarde, defende a reforma agrária, porém dentro da ordem, por isso teme apressão dos movimentos populares e cobra medidas urgentes do governo federal para resolvero impasse da questão agrária. Como segue no trecho abaixo: “Já é tempo dos responsáveis pelos destinos do país – governo, parlamento e dirigentes políticos – oferecerem à Nação a justa solução do problema da terra. Ou as medidas nesse sentido partem das próprias autoridades, por meios pacíficos e legais, ou se correrá o risco de ver a questão entregue à sanha de líderes improvisados, sujeitos de idéias extremadas ou não.” 07-02-1964 A aproximação do presidente com os movimentos de massa, como a organização dostrabalhadores incomoda A Tarde, em editorial de 15-02-1964, o jornal crítica o presidentepelo seu jogo político e identifica que agora o chefe da Nação se vê pressionado pelas massasa aumentar o salário mínimo. Como segue abaixo: “Cabe aqui dizer que, quem planta ventos colhe tempestade. Está, pois, o chefe da Nação no centro do redemoinho que ele próprio semeou. Se colhe frutos amargos, não tem de quem se queixar. Responsabilizado, há muito tempo, como fomentador de paredes, dir-se-ia que agora o feitiço virou contra o feiticeiro.” Apesar de não ver com bons olhos a pressão das massas, em editorial de 25-02-1964valoriza a medida implantada pelo presidente de aumento de 100% do mínimo: “Medidajusta, imposta pelas próprias condições de vida, a da majoração, em cem por cento, dos novosníveis salariais.” Mas é somente mais tarde que o jornal baiano avalia bem as conseqüências doaumento salarial, devido a especulação e a constante elevação dos preços dos bens de primeiranecessidade. Nesse momento crítica o governo pela falta de fiscalização em relação aosespeculadores. Como segue no trecho: “E mais uma vez, se confirma que a simplesdecretação, de penada, do novo salário, sem cuidar o governo de medidas complementaresque protejam os consumidores contra a ganância desenfreada, é contra producente.” 11-03-1964
  22. 22. Percebe-se então que em torno de determinadas questões A Tarde, defende JoãoGoulart e também o critica. Em editorial de 16-03-1964, valoriza o discurso na praça daCentral do Brasil em que Goulart afirma a definitiva implantação das reformas de base,entretanto faz a ressalva de que se deve preservar as instituições democráticas. Como constano trecho abaixo: “Líder de massas, deve saber o presidente Goulart que a nação não suporta mais ditaduras, que não abre mão de suas conquistas democráticas. Provas disto nos últimos anos não faltam. Deve o presidente se atentar nelas e apontar-lhes seus conselheiros, que não parecem querer ouvir nem ver o verdadeiro espírito do povo brasileiro, que quer reformas dentro da ordem do respeito a democracia, e da liberdade.” Como se pode analisar A Tarde é a favor da política reformista de Jango, porém dentroda ordem, o jornal não deseja o surgimento de outro regime. Depois do discurso na Central do Brasil, o estopim para o Golpe Militar foi a revoltados marinheiros o que afetou a hierarquia dentro das Forças Armadas. A Tarde, já vinhaanalisando a situação política e premeditava um possível golpe, em editorial de 17-01-1964fala das constantes greves de trabalhadores ocorrendo no país o que ocasionava o aumento dacrise econômica, além disso, crítica o presidente de está vinculado a esses movimentos e fazquestionamentos ao mesmo. Como segue abaixo: Será por exemplo que ainda não enxergou ele que nesse passo só consegue favorecer a candidatura de radicais? Que o povo está cansado dessa inquietação que devora o País? Que por outro lado essa onda de greves só faz criar condições para uma medida política violenta dando razões para os que defendem uma solução golpista para a crise nacional? Em editorial de 31-03-1964, A Tarde faz uma análise correta quanto ao movimentodos marinheiros, destacando que apesar de o presidente reprimir a rebeldia destes, houve umdano irreparável que foi a quebra da hierarquia militar, fato que para o jornal vai desencadearuma crise maior e marcar a vida democrática do país. Na afirmativa verifica-se isso: “Estásemana poderá, assim, marcar para o Brasil uma época decisiva, talvez, para a normalidadedemocrática...” O fato como bem avalia A Tarde, não se encerra em si mesmo e foi o último dosmotivos para desencadear a conspiração golpista. Jango fugiu para o Uruguai e não quisresistir, houve poucas tentativas de resistência no Brasil, o que comprova a desunião da
  23. 23. esquerda e a fragilidade das organizações de massa que teve logo em seguida seus líderesperseguidos e presos.5. A Tarde e o Golpe de 1964 Como ficou a imprensa e a sociedade brasileira, logo após o golpe militar de 1964? Opoder assumido pelo Supremo Comando Revolucionário, formado por militares moderados eda “linha dura” não sofreu inicialmente qualquer forma de resistência civil, assim como daimprensa escrita. O jornal Última Hora, defensor até o fim do presidente João Goulart foifechado após a posse de Humberto Castelo Branco. Entretanto a grande imprensa que já vinhade certa forma aumentando as críticas em relação ao presidente deposto, passou a valorizar edefender o regime arbitrário. Em editorial de 04-04-1964 intitulado O Fim do pesadelo e de07-04-1964 Dinheiro bem gasto, A Tarde explicitamente abraça o golpe dos militares.Defendendo-o com variados argumentos, no primeiro cita a deposição de Goulart e o críticapor esta envolvido com comunistas que tramavam uma revolução bolchevique, principalargumento do jornal para defender o golpe, além disso enobrece os militares por entregar opoder a um civil. Como segue abaixo: “E mais digno ainda de louvor é a desambição de que deram testemunho mais uma vez, quando, ao atingirem, triunfantes, o objetivo, timbraram em respeitar a Constituição, entregando o poder a um civil, o presidente da Câmara Federal, o novo mandatário supremo da nação. A historia recolherá devidamente esse seu gesto.” No segundo defende os gastos exorbitantes do movimento para depor o presidente,necessário segundo o jornal baiano para trazer a liberdade, sem sangue e sem ditadura.Comoaponta o trecho abaixo: “Que teria custado mais aos cofres da nação? O movimento militar que derrubou o governo do sr. João Goulart, sem sangue, sem golpe nas instituições políticas, sem implantação de ditadura, sem perda dos direitos constitucionais, ou os movimentos grevistas insuflados e financiados pelo governo que fugiu?” Em ambos percebe-se a aderência total a favor dos militares, inclusive o entendimentode A Tarde é que as Forças Armadas estão promovendo uma Revolução no país, diferente doantigo presidente deposto que foi eleito democraticamente e ameaçava dar um golpe,implantando uma ditadura. Pensamento um tanto contraditório apesar dos argumentos
  24. 24. defendidos pelo jornal baiano de que existia uma ameaça real do comunismo, representadapor grupos extremistas que o presidente dialogava. Para A Tarde o golpe militar, trouxe a organização, o poder centralizado, a defesa daordem, diferente do período de Goulart, no qual o governo estava totalmente em desordem.Em editorial de 09-04-1964 enfatiza que o novo governo é seguro e estável e que oempréstimo concedido pelas classes produtoras vai ter uma aplicabilidade responsável. “Seriaum empréstimo interno avalisado por um governo estável e responsável, portanto garantido.” Esse entendimento de que A Tarde é um jornal tipicamente de ordem vêem doestudioso Antonio Sérgio Guimarães, este estudo compactua com esse posicionamento epercebe que o jornal baiano defende até o Ato Institucional, quando este visa o combate alideres extremados da esquerda e possíveis comunistas: “Que o rigor contra o comunismo eseus agentes é a principal preocupação do governo que se irá constituir, dentro em breve, nãohá duvida. E não é outra coisa que exigem a ordem e a opinião pública” 10-04-1964 A opinião de A Tarde nesse momento se travesti como opinião pública, a “operaçãolimpeza” defendida pelo jornal baiano e surgida a partir do AI3 tem grande destaque noseditoriais, inclusive com alertas a população para manterem uma vigília da paz, visandoafastar os cidadãos dos perigos subversivos. Como segue abaixo: “A chamada ‘operação limpeza’ não pode cessar e os democratas, vale dizer o povo brasileiro não podem dormir tranqüilos, enquanto o ultimo reduto, o mais longínquo esconderijo, a mais fraca das células, não for vasculhada convenientemente...” 18- 04-1964 Em outro editorial de 23-04-1964 relata que a agitação do período de governo deGoulart acabou graças a implantação do governo militar. Entretanto em 07-05-1964 adverteao governo que tenha cautela ao cassar os mandatos, pois isso pode prejudicar a imagem doBrasil no plano internacional como um país ditatorial. Defendida abertamente por A Tarde aoperação limpeza conseguiu cassar direitos políticos de 378 pessoas até junho de 1964. Oforte anti-comunismo do jornal baiano encontra um instrumento de perseguição através do AI. As medidas anti-inflacionarias adotadas no período contrariaram grande parte dasociedade, mas tiveram resultados efetivos a longo prazo, com a diminuição do índiceinflacionário, durante a aplicação destas o custo de vida aumentou e é um ponto que A Tardecritica. Em editorial de 11-05-1964 relata o corte de subsídios de produtos derivados do3 Assegura ao executivo amplos poderes para suprimir direitos políticos por até dez anos.
  25. 25. petróleo, o que termina aumentando o preço da gasolina e conseqüentemente o custo de vida,em outro momento, em 14-05-1964 cobra medidas mais eficientes de combate a inflação porparte do governo e adverte que a situação inflacionaria é terreno fértil para a ação decomunistas. Um aspecto importante que deve ser destacado é a posição de A Tarde em relação aextensão do mandato presidencial de Castelo Branco, foi possível perceber isto a partir daleitura e análise de quatro editoriais específicos sobre o assunto. Em 18-05-1964 ocorre umadesconfiança de que é possível a extensão do mandato presidencial: “Ninguém, honestamente,poderá, com tanta antecedência, afirmar como já insinua – a impossibilidade de eleiçõesnormais em 1965” Entretanto em 29-05-1964 existe uma confiança plena no presidente e afirma que comcerteza o mandato será cumprido até a data prevista: “Homem de palavra, o marechal Castelo Branco, ao assumir o governo, deixou claro que no dia exato do termino do mandato que iria concluir entregaria o cargo, sem atraso de um minuto, ao seu substituto. E ninguém tenha duvidas. O que disse cumprirá, porque para ele a lei é um dogma.” Em visita a Bahia o presidente Castelo Branco afirma para A Tarde a não extensão doAI, em contrapartida em editorial de 21-08-1964, o jornal baiano não confia plenamente naafirmativa, já que o mandato presidencial foi estendido. Como segue: “O importante,entretanto, não são apenas as palavras. Mais do que elas, os atos. E se o presidente quisermantida as suas afirmações, deve precaver-se, para que não suceda o que ocorreu com aprorrogação do seu mandato.” No último editorial é possível perceber uma desilusão em torno das expectativas de ATarde em relação às declarações presidenciais, o momento ainda é de tensão e, portanto aindapossível de ser adotado medidas autoritárias.6. Considerações Finais O que foi importante considerarmos neste artigo foi justamente o posicionamento de ATarde referente a algumas questões relevantes dentro dos últimos instantes da crise políticabrasileira que desencadeou o golpe militar de 1964. Vimos que o jornal baiano apesar de tecerdiversas críticas a João Goulart, sempre manteve o tom moderado, nunca se exaltando,
  26. 26. desejando ou insinuando que o presidente fosse deposto. Foi defensor até o final da legalidadedemocrática e por isso podemos dizer que assumiu no referido período uma posição de centro,já que no pré-1964 os posicionamentos eram extremados de crítica ou valorização ferrenha aoexecutivo federal. Outro fator importante que reafirma esse ponto de vista é sempre amoderação, jornais como o Estado de São Paulo possuía posições totalmente contrarias a JoãoGoulart, enquanto que A Tarde em determinados momentos cobra, sugere e até defende omandatário da República. O que provoca maior temor de A Tarde, como também dos centristas e da classe médiaé a situação instável da política brasileira, é a falta de posicionamento do presidente que nãopossui uma base de apoio consolidada, apesar de dialogar com todos os segmentos políticos eefetivamente não conseguir apoio para realização de suas reformas de base. O momento decrise que passou a sociedade brasileira atrelada a questões internacionais, como o medocomunista, afetou com certeza a imprensa e a população. A Tarde como vimos é totalmenteanti-comunista, em diversos editoriais critica os países socialistas e movimentos de massa,muitos deles com integrantes e lideres comunistas. A defesa de A Tarde parte, portanto para amanutenção da ordem capitalista, não se deve alterar o regime vigente, apesar de o mesmoórgão de imprensa ser a favor das reformas e que estas aconteçam dentro da legalidadedemocrática. Devido a esses fatores e as posições extremadas do período é possível verificar aposição de centro de A Tarde que também se perde na medida em que o presidente JoãoGoulart se aproxima da esquerda extremada ou “negativa”. Com o golpe militar a maior parte da imprensa brasileira assim como A Tarde passa aapoiar o regime, o jornal baiano entende que a intervenção militar surge para sanar osproblemas políticos-sociais-econômicos que estavam afetando o Brasil naquele momento.Entretanto acreditava-se ser uma intervenção temporária, em editoriais percebe-se essaansiedade quando o jornal baiano deseja saber se vai ocorrer a extensão do mandatopresidencial e do AI, até então medidas autoritárias temporárias justificadas para acabar comos expurgos da sociedade brasileira. Adotando um regime político centralizado e autoritário A Tarde se satisfaz com a“operação limpeza” que visava expurgar representantes da direita e esquerda extremada, issona prática eliminava os movimentos de massa organizados e também componentescomunistas.
  27. 27. Apesar da Lei de Imprensa ser somente imposta em 1967, os jornais que seposicionaram contrariamente ao regime militar logo após o golpe foram fechados, como ojornal Última Hora. Em momentos de crise política no Brasil é que se podem perceberclaramente as posições dos órgãos de imprensa, já que se faz necessário a intervenção noprocesso político, através da opinião e do convencimento da população, garantindo assim apreservação de interesses bem demarcados. Quando a situação é de estabilidade política édifícil perceber isso, pois a todo o momento, o discurso da imprensa é o da imparcialidade, dojornalismo de “posição”, em que a opinião é encoberta pela informação.
  28. 28. ReferênciasBARROS, José D’Assunção. O projeto de pesquisa em História: da escolha do tema aoquadro teórico. 4° ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.BIROLI, Flávia. João Goulart e o golpe de 1964 na imprensa, da transição aos dias atuais:uma análise das relações entre mídia, política e memória.CABRAL, Elisa e CARVALHO, Tanira. Análise do editorial “A defesa de Palocci”, jornalFolha de São Paulo.FERREIRA, Jorge. A estratégia de confronto: a frente de mobilização popular. RevistaBrasileira de história. São Paulo, 2004.FERREIRA, Muniz Gonçalves. O golpe de estado de 1964 na bahia.GUIMARAES, Antônio Sergio Alfredo. Formação e crise da hegemonia burguesa na Bahia.Salvador, UFBA, 1982 (revista em 2003 pelo autor)JOSE, Emiliano. Imprensa e Poder: ligações perigosas. Salvador. EDUFBA; São Paulo:Hucitec, 1996.LIMA, Lilian Martins de. Um discurso sobre o Brasil: uma análise do jornal MinervaBrasiliense – Rio de Janeiro (1843 – 1845)LOPES, Luiz Roberto. Uma história do Brasil republica. 3 °ed. São Paulo: Contexto, 2002.MARTINS, Franklin. Jornalismo Político. São Paulo: Contexto, 2005.MATTOS, Sérgio. Mídia controlada: a historia da censura no Brasil e no mundo. São Paulo:Paulus, 2005.MENDES, Guilherme Rodrigues Monteiro. A argumentação nos editoriais jornalísticos.Análise do editorial “Uma prova para todos”. PUC/SPMENDONÇA, Sonia Regina e FONTES, Virginia Maria. Historia do Brasil recente; 1964 –1992, 4°ed. Editora Ática, 2001.
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