Reflexões e interferências

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Reflexões e interferências

  1. 1. Regina GouveiaReflexões e interferências
  2. 2. Diz António Gedeão que todo o tempo é depoesia, desde a arrumação do caos à confusãoda harmonia. Por sua vez, Inês Pedrosa diz que apoesia é uma barragem contra a desumanidade.Talvez seja por isso que Regina Gouveia escrevepoesia. Escreve-a e guarda-a num ficheiro decomputador.Achei que a sua poesia tinha que ganhar asas eassim considero- me um pouco responsável poreste livro.Falar da autora e da sua poesia? Tudo o que eudissesse poderia parecer suspeito. Por isso,limito-me a citar o que outros disseram.Conheci Regina Gouveia porque ela é umadaquelas pessoas de que nunca mais nosausentamos, depois de as conhecermos. Foi porisso que um seu antigo aluno, hoje umprestigiado técnico superior, me falou dela, deuma forma tão especial que a quis conhecer.Reconhecemo-nos, após marcarmos encontrotelefónico, sem senhas nem códigos, numaconfeitaria do Porto, e foi como se nostivéssemos conhecido desde sempre. E é oconhecimento dessa Regina que gostava departilhar.O seu corpo de aspecto frágil, a sua voz suave,não chegavam para esconder uma paixãoenorme pelo que fazia: ensinar. Era(é) quase comovedor ouvi-la falar do que faz, dasua entrega na tentativa de transmitir a alunos efuturos professores esse amor pela partilha dosaber e por gostar de aprender, esseconhecimento de que tudo está em todos.Descobri, entretanto, que há muito usava aPoesia como elemento motivador para o ensinoda sua disciplina, Física e Química, eque se não tinha esquecido de semear essepresente em todos aqueles que lhe passavam por 2
  3. 3. perto. Impressionava-me o seu conhecimento deliteratura e a sua capacidade para descobrir opoema certo para cada assunto. E uma obra suaexplicando como se tinha tornado professora,entretanto publicada, mostrava como a sua prosaera igualmente poética. Não podia deixar de lheperguntar por que não escrevia Poesia.Respondeu-me com aquele seu sorriso delicadoe modesto:" E quem lhe disse que não escrevo?"Tinha que a ler e em breve tive o prazer e ahonra de ter em mãos os seus escritos. Li-os comum certo espanto: eram tão reais, falavam dascoisas de todos os dias e, ao mesmo tempo,mostravam-nas de uma forma que nos permitiavê-las como se pela primeira vez.É, pois, para mim, uma honra poder dizerque fui das primeiras pessoas a ver em ReginaGouveia uma Poeta que, escrevendo eensinando, partilha um Dom mais que humano.Pois não serão os Poetas os Profetas do nossotempo?(Extractos do texto de apresentação da autoria da DrªMaria do Carmo Cruz e que consta da colectâneaTempera(Mental), na qual foram incluídos seis poemasda autoraPequenos poemas impressionistas nos quais aspalavras, lançadas como pequenas pinceladasdescrevem os sentimentos da autora, motivadospor factores tão diversos como a Natureza, umaconversa ou uma notícia na televisão. Umconjunto de textos pautados pelo ritmo e pelamelodia, onde a alegria de memórias passadascontrasta com os problemas da sociedadepresente.(Texto de apreciação do júri do Concurso on-line"Novos Talentos" promovido pela Porto Editora,concurso a que a autora concorreu e no qual lhe foiatribuída a classificação de 4 estrelas) Fernando Gouveia 3
  4. 4. AusênciaHoje não estou para ninguém.Se alguém telefonar,nem que seja algum ministro,(como se fosse vulgar algum ministro ligar...)digam só que eu não existo,ou então fui viajar,que ando à deriva no espaço,que estou morta de cansaço.Sentada no meu terraço,hoje não estou para ninguém.Quero ver o pôr do sol,mais logo, ao entardecer,quero ver Vénus nascere a lua desabrochar.Quero dormir ao luar,é noite de lua cheia.Quero ter como lençoleste céu que me rodeia,um céu de estrelas pejado.Quero ver a estrela polar,Marte, Júpiter, DragãoCassiopeia, Leão,quero ver estrelas cadentes,correndo no céu estreladobrilhando, muito luzentes.Quero sonhar com pulsarescom galáxias, quasares,e à luz das constelaçõesembriargar-me de amor.Quero esquecer meus pesarese todo este amargorque por dentro me consomeao pensar que ainda há um ror,são oitocentos milhões,de gente que passa fome. 4
  5. 5. EnleiosO poeta enleia palavras e faz um soneto,o compositor, enleando notas compõe umconcerto,uma valsa, uma polka, uma sonata,que por vezes a um poema se adapta.Os químicos não recorrem às líricas;com números e letras escrevem fórmulasempíricas,moleculares, iónicas, racionais,e tantas outras com nomes que tais.Enleando números, físicos e matemáticos,tentam deslindar casos problemáticos.Enleando fios, a minha tia Ausendafazia toalhas e colchas de renda,enquanto enleada num amor passado,continuava à espera do príncipe encantado.CertezaFalavam-nos de heróis e de vilões,e eram sempre os outros os vilões.Contavam-nos batalhas e traições,falavam de epopeias, de façanhas,de guerras desiguais, mesmo assim ganhas.A meio da lição,já eu montava no meu alazãoe uma vezes era D. João,outras vezes D. Sebastiãoou D. Fernando, morto em Fez,ou então, D Filipa, a linda Inês,o Decepado, sempre com a bandeira,ou ainda Brites, a famosa padeira.Cresci e desde então não mais sonheiusar a espada, guerrear, ser realeza.Passei a confrontar-me com a certezaque um belo dia nada mais sereique molécula, átomo ou ião,mistura de cinza com poeiraprovavelmente pisada no chão. 5
  6. 6. NavegaçãoNo meu barco de sonhos icei vela,vela latina.Não sei se o meu barco é nau ou caravelasei que me fiz ao largo, de bolina.e não usei de Bernouilli o teorema.Para navegar,só precisei de um poema de Sofiacom gosto a mar e cheiro a maresiaInfinitoO que é o infinito?Será um estado de almanum dia de muita calma,em que o ar fica paradode tão sereno e tão quente?Será um oito deitadodos que vêm nas sebentas,nos compêndios, nos opúsculos,ou serão as tardes lentasque precedem os crepúsculos?Ou será o quocienteem toda e qualquer divisão,sem indeterminação,em que zero é o divisor?Ou será um grande amor?Ou será a imensa dorsentida ao perder alguém?Ou será a imensidãodo Universo em expansão?Ou será mesmo o Além?Será a suprema alegriade ver um filho nascer?Será talvez a magiade ver a vida crescer?O que é o infinito?Talvez seja aquele gritoque eu tento a custo suster 6
  7. 7. NaveNão tem nome minha naveseja de um deus ou de um sábio.Sem bússola, sem astrolábio,computador ou radar,cá vou eu na minha navemais uma vez a girar,no meu passeio orbital.Minha nave é espacial.Com qualquer velocidadee momento linear,vai girando minha navecom seu momento angular.Minha nave é singular.Minha nave não precisade impulsão nem gravidade,pelo espaço ela desliza,só precisa liberdade.Não tem motores de explosão,não há qualquer combustãonem reacção nuclear.Ela pode viajarsem energia solare sem ajuda do vento.O motor da minha naveé só o meu pensamento.OzonoO ozono é um gás de fórmula O3,que diminui ano a ano, mês a mês,lá nas camadas da estratosfera,porque o homem, com a sua insensatez,continua a lançar "CêEfeCês",todos os dias na atmosferaE uma menina de seu nome Vera,de olhos azuis e com clara tez,que faria cinco anos no próximo mês,morreu de melanoma, no passado dia três. 7
  8. 8. TempoPara os físicos, o tempo é uma grandeza,não por ser grande, com toda a certeza.É grandeza porque é mensurávele é esta ideia que eu acho contestável.Usando raciocínios, em geral profundos,os físicos, a contratempo,em horas, minutos e segundos,tentam dividir o tempo.E ainda usam múltiplos,outras vezes submúltiplos,como nano, pico, fento.Ora há minutos que duram como vidase há vidas que nem segundos duram,como há imagens que ficam esquecidasenquanto outras para sempre perduram.O tempo do calendário e da agendaé simplesmente um tempo por encomenda.Que saudades eu tenho do tempo de criança,tempo da ilusão, do sonho, da esperança,tempo de quimera,em que o tempo não era tempo,porque o tempo, simplesmente não era.Mas voa o meu pensamentopara as crianças da rua,que embaladas pelo vento,tendo a velá-las a lua,dormem no chão ao relento,enquanto passa, alheio, o tempo.EnsinamentosCom o meu pai aprendi a olhar o céu,que era mais belo quando da cor do breu.Com ele aprendi o que era um cometae que a estrela da tarde era apenas um planeta.Foi ele quem me ensinou a identificaro norte, o sul, o nascente e o poente,o futuro, o passado e o presente.Então eu não podia imaginar,no futuro tanto passado e tanto ausente. 8
  9. 9. NeveA neve é um cristalcom padrão hexagonal.De origem molecular,tem átomos de hidrogénioligados a oxigéniode uma forma regular.Em flocos, lembrando enxames,e com o vento a ajudar,volteia com ademanesantes de no chão pousar.Transforma-se em branco manto,e é motivo de espanto,de êxtase, contemplação.É fonte de inspiraçãopara poetas, pintores,para amantes sonhadores.Ela é todas as coresem uma só reunidas,mas também é mãos doridasem gentes desprotegidasdo frio cruel, cortante,que enregela num instante.Cobrem-se com velhos trapos,com jornais e com farrapos,e nós fechamos os olhosa todos estes escolhos.É cómodo ignorar.É bem mais fácil pensarnos cristais hexagonaise na neve dos postais.IndeterminismoO nosso Universo é quadrimensional,a quarta dimensão é fundamentale já não faz sentido a seta do tempo.Daí eu não saber se este sofrimento,esta angústia infinda que me invade o peito,afinal é causa ou será efeito. 9
  10. 10. Poesia iGosto do narciso poetaaquela flor cuja corola,por dentro amarela,é branca por fora.Colhi duas.Uma decidi comê-lacuidando assimengravidar de poesiaMas a poesia, tão arredia,riu-se de mim.Cheia de mágoa,à beira da águalancei ao mara outra flor, daquelas duas.E fiquei a olhar, a flor boiarna onda que vai e que logo vem,que se reflecte e se refracta,que interfere e se difracta.A luz do sol bateu no marfê-lo de prata,reflexão também.Por entre os meus dedos,a areia fluíasuavemente.A flor boiava dolentementee a onda, sempre a ir e voltar,e o som do marcom seus segredose o gosto a sal a pairar no ardeixando um cheiro a maresia.Então, por magia,luz , céu e ar,onda do mar, no ir e voltar,areia, sal , flor a boiar,tudo em redor foi poesia 10
  11. 11. MarMar, lugar de encantamentoonde por vezes o ventose agita em remoinhos,mar de baleias, golfinhos,de algas e de corais,mar de sais...Mar de navios, veleiros,e de grandes petroleiros,mar de botes e traineiras,de grandes frotas pesqueirasque navegam norte e sul,mar azul...Mar que tantos nomes usas,mar de argonautas, medusas,mar, que ora estás encrespado,ora calmo, mar paradoonde a lua se retrata, 11
  12. 12. mar de prata....Mar que namoras estrelas,mar de naus e caravelas,mar de istmos e estreitos,mar de navios desfeitos,guardando tanto tesouro,mar de ouro...Mar de ondas e de vagas,mar que as areias afagas,mar de águas frias e quentes,mar que ligas continentese ilhas em todo o mundo,mar profundo...Mar de viagens, naufrágios,mar de bons e maus presságios,mar de piratas, corsários,mar de homens temerários,mar de gente destemida,mar de vida....Mar onde espreita a tormenta,mar da rota da pimentae de outras especiarias,da seda, das pedrarias,mar que Neptuno reclama,mar de fama...Mar onde nadam sereias,mar das grandes epopeias,mar do cabo Bojador,do gigante Adamastor,mar de Gama e de Cabral,mar fatal...Mar de tanta fantasia,mar da grande nostalgia,de sonho e desilusão,mar de vida e mar de morte,temo pela tua sortenas garras da poluição. 12
  13. 13. IndicadorIndicador, o que indica,pode ser dedo da mão,mas também identificacarácter de solução.Pode ser o tornesol,ou a fenolftaleína,pode ser bromotimol,ou também heliantina.Há quem não encontre o rumoe precise de um sinal,talvez um fio de prumoque lhe indique a vertical.Há quem passe pela vida,só entregue à sua sorte,com a bússola perdida,jamais encontrando o norte,deixando confusos rastos.Há quem diga que os astrosno Universo em expansãosão grandes indicadores.Há quem neles leia amores,venturas e dissabores.E há quem leia uma paixãonum simples ramo de flores.AbrigoA minha capa inglesa com setenta anosabrigou amores, sonhos, desenganos.Era de meu pai.Apesar da idadeque não se adivinhaainda me protege da chuva que cai,forte ou miudinha,e ainda me abriga do frio e do vento.Só não me protege daquela saudade,que, qual neve, invadeo meu pensamento 13
  14. 14. SorrisoJunto à campa da minha mãenasceram lírios no passado mês.Alguns dos seus elementos,o magnésio talvez,já terão sido, por certo,pertença da minha mãe.Há momentos,passava pertode um lírio que ali corteie quando o olhar fixei,pareceu-me ver alguémque sorria para mim.Doce, o sorriso, sem fim.Por certo era a minha mãe,só ela sorria assim.SaturnoUsando a minha lunetaobservo o céu nocturnoe eis que me surge Saturno,um fabuloso planeta..É de uma estranha belezacom os seus anéis geladosque brilham iluminados.Para o sistema solaré um planeta gigantemas, ideia extravagante,poderia flutuarse pousado em grande mar.Fascina tanta grandezadeste infinito universoem que o mundo está imerso.Possui-me um grande fervore agradeço ao Criador,seja lá Ele qual for,e agradeço a Galileupor me ajudar a olhar o Céu. 14
  15. 15. ChamaDançava a chama, voluptuosa,espalhando em redor um tom vermelho-rosaAs achas ardiam na lareirae a criança batendo as palmas, rindo,dizia "lindo, lindo",apontando a fogueira.Era uma chama voluptuosae ao mesmo tempo etérea,por causa do plasma,o quarto estado da matéria.Vibravam núcleos e iões,e em estranhas convulsões,electrões davam saltos quânticos.Era a energiaque assim se emitiaem passos de dança, sensuais, românticos.A criança que, batendo as palmas, rindo,dizia "lindo, lindo",adormeceu sorrindo.E então a louca chama, pressentindoque a criança já estava dormindo,deu em esmorecer, foi-se extinguindo.ApoloPara os antigos romanosApolo era deus da Artee como deus, imortal.Após mais de dois mil anoso homem, simples mortal,projecta idas a Marte.Da Lua, pisou o solo,viajando na Apolo,uma nave espacial.. 15
  16. 16. ExploraçãoQual exploradora, parti um dia.Embrenhei-me na selva da vidaonde sabia andar escondidaa poesiaEncontrei-ana luz ténue do sol ao fim do dia,na molécula, no átomo, no quantum de energia,nas leis de Newton, no conceito de entropia.Encontrei-ana reflexão da luz, na impulsão no ar,no cheiro a maresia e nas algas do mar,no orvalho, na geada, na chuva, no luar.Encontrei-ano ínfimo e no imenso que a vista não alcança,nas rugas dum idoso, no rir de uma criança,numa tela, num concerto, numa dança.Encontrei-ano voo da gaivota, na pétala da flor,na chama que tremula e se multiplica em core que irradia energia na forma de calorEncontrei-anas estrelas, nas galáxias mais distantes,no olhar apaixonado daqueles dois amantes,nos extintos dinossauros de dimensões gigantes.Encontrei-aem medusas, corais, nos fundos oceanos,no vento a agitar nas árvores os ramos,em pinturas rupestres com vários milhares deanosEncontrei-ana violeta escondida no canto do jardime no frasco que continha essência de jasmim.Tentei então guardá-la só para mim.Foi assim que ela se evoloue de novo eu aqui estoua procurá-la. 16
  17. 17. SensaçõesTem um cheiro inconfundívela minha casa da aldeiaNão sei se é do rosmaninhoque perfuma todo o linhodentro das arcas guardado,se é da madeira das portas,dos tectos e do sobradose é das pratas no lambrimou das peças de faiança,são travessas e são pratos,nas paredes pendurados,se é das peças de mobíliauma herança de família,não sei se é dos retratosque às vezes, a horas mortas,falam, sorriem para mim.Terão perfume as memóriasde quando eu era criança?Terá perfume a lembrança?Tem um cheiro inesquecívela minha casa da aldeiaMas não é só o odor 17
  18. 18. São as cores e são os sonsque vejo e ouço em qualquer ladoe em tudo o que me rodeia.Lembro lágrimas, sorrisos,por vezes já imprecisos.Lembro sussurros e históriasimagens em vários tonsplenas de luz e de corou também acinzentadasbaças, sem cor, desbotadas.Têm cor alguns dos sonsSons e cores têm odorA minha casa da aldeiacheira a afecto e amor.Mesmo quando estou distanteàs vezes, por um instante,chego a pensar que estou lá,pois apesar da distânciaeu sinto aquela fragrância.Que explicação haverá?Será acção magnética?Uma interacção eléctrica?Força electromagnética?Gravítica? Nuclear?Forte ou fraca interacção?É difícil de explicarpois não há explicaçãoque assente só na razão.Esta estranha sensaçãotem a ver com o coração. 18
  19. 19. CorA cor, o que é afinal?Energia, no essencial.É emissão de fotões,é um salto de electrões,absorções, emissões,ou também interacçõesentre a luz e a matéria.Pode ser sublime, etérea.Ela é interferênciaé período, é frequênciaela é excitação,e logo desexcitação,ela é inspiraçãona paleta do pintor.Afinal o que é a cor?È o vermelho de Almada?É o azul de Chagall?Seja ela tudo ou nada,a cor é fundamental.Seja no azul do mar,que às vezes é cor de breu,seja no azul do céuou no verde de um olhar,seja no roxo dos montes,seja no cinza das fontes,nas searas amarelas,perturbantes de tão belas,seja no verde das plantas,no colorido das mantas,seja em janelas, portadas,seja em telhados, fachadas,em azulejos, vitraisou em tantas coisas mais,a cor é fundamental.O que é a cor afinal?Energia, no essencial 19
  20. 20. PastoralAinda hoje não seise apenas o sonheiou foi real.A orquestra tocava a Pastorale eu, comovida, aplaudia.Pareceu-me ver que estremeciaa flor que eu usava na lapela.Creio que também elase comovia.Ou então seriapor causa da tal da ressonância.Sei que a minha menteera toda ela sinfoniae fragrância.Ao allegro seguia-se o andantee mais adianteum outro allegro, a tempestade- Beethoven, a genialidade.O som crescia, enchia todo o ar,e, de repente,um dos violinos pareceu-me ser um querubimnão sei se aquele do canto do jardimse o outro, na capelaà direita no altar.Pareceu-me que eu estava a flutuare que a orquestra tocava a Pastoralsó para mim.Ainda hoje não seise tudo isto eu sonheiou se foi mesmo assimtudo real.AfagosA onda rasga-se em espuma,a bruma seduz o ar,e o vento afaga a duna.Escondo-me dentro da bruma,torno-me em coisa nenhuma,e deitada sobre a duna,afago a espuma do mar 20
  21. 21. AbrilForam cravos vermelhos nos canos dasespingardasCortaram-se grilhões,abriram-se prisões,soltaram-se emoções,há muito adormecidas.Foram cravos vermelhos nos canos dasespingardasApós tão longa espera,aquela primavera,aquele Abril, trouxeraesperança a muitas vidas.Foram cravos vermelhos nos canos dasespingardasFoi o sonho a flutuar,foi o amor a pairar,a alegria a fervilhar,nas praças, nas avenidas.Depois, murcharam os cravos nos canos dasespingardas.Por que hão-de sempre murchar as flores ?AmazóniaA floresta Amazónica é o pulmão do mundoe, segundo a segundo, está a desaparecer,porque homens, sem qualquer ideal,para além do vil metal,a mandam abater.Rancorosos, brutais,mandaram abater o Chico Mendes e outros mais,só porque eles não queriam vera Amazónia desaparecer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer.A Amazónia é o pulmão do mundo,a Amazónia não pode morrer. 21
  22. 22. PazPalavras leva-as o vento.Também leva o pensamento,leva ainda as folhas soltasque caem no fim do tempoe vão por aí revoltas,revoltas, a ondularquais aves a esvoaçar.Palavras leva-as o ventoe não as pode arrumar,tantas são, tão diferentes,umas duras, outras quentes,outras um pouco dormentes,que podem significarcoisas tão surpreendentes,e tantas coisas diversas!Palavras leva-as o ventoe andam por vezes dispersassem ninguém que as queira usar.Veja-se a palavra paz,tão bonita, como jazperdida por esse mundo,completamente esquecidaqual folha morta caída,num charco sombrio, imundo.SidaTomásmorreu ontem com sidana flor da vida.Entretanto, num casino da Florida,Joe, traficante de heroína,de ecstasy, crack e cocaína,jogava a vida de Tomás. 22
  23. 23. ImagemMinha mãe era brasileira de alma e coração,para ela, o Brasil era país de eleição.O meu pai era brasileiro de torna- viageme assim, do Brasil eu construí uma imagem.Nessa imagem há uma miscelânea talque vai de Salvador até ao Carnaval,de Copacabana à aguardente de cana.É Elis, Betânia, Caetano, Jobimé jeito de samba, sabor de quindim.São as cataratas do Iguaçue as cachoeiras lá em AvaréÉ jaca, acerola, pitanga, cajugosto de garapa, cheiro de café,É Sena, Pelé.É Oscar Niemeyer disperso em Brasíliaé toda a famíliaIrmãos, tios, primos, sobrinhos, sei lá,ali em S.Paulo, Goiás, ParanáSanta Catarina.È Chico Buarque, o meu cantor dilecto,Cabral de Melo Neto, 23
  24. 24. "Vida e Morte Severina"É Manuel Bandeira e é Jorge AmadoÉrico Veríssimo, Alcântara MachadoDi Cavalcanti, Vinicius, Heitor Villa Lobos.É impossível enumerar todos.É a bandeira, verde e amarela,é cheiro de cravo, sabor a canelaÉ telenovela,coronéis, jagunços, grandes fazendeiros,fazendas, engenhos, bois e boiadeiros.É praia e é mar, é Sol a brilharÉ o Céu Azul e o Cruzeiro do SulÉ pamonha de milho e é vatapáEnfeitando os jardins, é o manacáÉ um povo que canta e seus males espantaÈ a Amazónia e é o Pantanal,Pedro Álvares CabralÉ um testemunho bem colonialcomo em Olinda e em Parati,é o negro Zumbi,os Tupi-GuaraniÉ onça pintada, tatu, colibriÉ cheiro a cocada, gosto de siriÉ mistura de gentesÉ o TiradentesÉ o LampiãoÉ o Rio Amazonas e o MaranhãoÉ arroz com feijãonem sempre na mesaÉ a extrema pobrezados descamisados,marginalizados,dos sem terra e sem pão,gente do sertão.É Carmen Miranda, afinal portuguesa,tudo isto é Brasil com toda a certeza 24
  25. 25. MinaMina faz lembrar minério,e também algum mistério,naquelas muito profundas,e muitas vezes imundas,onde espreita frio e cruo perigo do grisu.Mina, lembra ouro, diamantes,e as condições degradantesem que se extraem da terra.Mina também lembra guerracom todo o horror que encerra.Gimbi, menino de Angola,não vai mais jogar à bolapois ficou estropiado,sem as pernas, mutilado,ao pisar em chão minado.EstrelasA estrela que ambos olhamospode já não existirhá vários milhões de anos.E tu olhas-me a sorrir,pensas que estou a mentir.A luz que então envioupelo espaço vagueoue só agora chegou,enquanto a pobre da estrela,que em tempos fora tão bela,foi minguando, definhou,e em anã se transformou,ou então foi em gigante,talvez em buraco negro.É como o desaconchegodaquela paixão de amanteque ao morrer, depois de intensa,deixa uma dor negra imensa. 25
  26. 26. MãeComo eu me lembro bem, mãe.Catorze anos seria talvez a minha idade,uma colega do liceudisse que tu eras a senhora mais bonita dacidadeE eufiquei toda cheia de vaidade.Lembro-me de tanta outra coisa mãeDo linho esticado dentro do bastidore dos teus bordados em ponto pé-de flor,em matiz, ponto de sombra ou de grilhão,ao sabor da imaginação,como o vestido da minha comunhão.Lembro-me dos cozinhados que fazias compaixão;chamavas-lhe quitutes, mãe.Receita portuguesa, brasileira, italiana,ainda hoje os teus quitutes têm famaentre os amigos que os saborearam.Ainda há dias alguns os recordaram.Lembro-me aindaque não era só o sabor, era o aspecto.Em tudo colocavas muito afectoe sempre a tua a sensibilidade infinda.Além de sensível eras tolerante, corajosa,lutadora, criativa, generosa.Como eu recordo, mãe,tantas histórias inventadas por ti,em que o sabiá e a surucucu 26
  27. 27. contracenavam com o colibri,com a jibóia e o bicho tatu.Como eu recordo, mãe,a tua lindíssima voz de sopranocantando árias de Verdi, de Puccini,(da Madame Butterfly, da Traviata),do barbeiro de Sevilha de Rossini,ou ainda Shubert, a serenata,tentando eu acompanhar-te no pianoque, por falta de talento, mal tocava,o que algum desgosto te causava.Um dia, já a tua mente muito vária,apercebi-me de que não gravara a tua vozTentei então que cantasses uma áriapara ficar com os registos entre nósTarde demaisDe reconhecer a música tu foste incapazTinhas apenas cinquenta e oito anos.E a partir daí a doença, tão voraz,foi-te destruindo dia a dia a mente,dia após dia causando mais danose eu, recusando-me a aceitar tais desenganos,era contigo que me revoltava, mãe.Que foi feito de ti mãeoutrora tão sensata, inteligente?Que foi feito da tua sensibilidade,da tua coragem e força de vontade?Porque te deixaste assim destruir, mãe?Ficaram as fotos, a recordação,tanto vazio no meu coração,tantas lembranças, algumas em bocados.Como herança deixaste o bastidor,as partituras, as receitas, os bordados.Ficaram sentimentos de culpa e muita dor.Por dizer ficou ainda tanto amor. 27
  28. 28. ImaginárioO meu imagináriolembra, em imagens, um caleidoscópio,sem o sonho, seria como um baroscópio,a que faltou o arpara o empurrar.No meu imaginário cruzam-se dois mundosligados por laços, em geral, profundosNo meu imagináriohá onças pintadas,mouras encantadas,há o bem-te-vi,há o colibri,há a andorinha,e a joaninha,que voa, que voavai para Lisboa,há o bicho tatu,a surucucu,há o gato e o cão,a assombração,o bicho papão.Há jaboticabas, caquis e goiabas,há nozes, amêndoas, pitangas e mangashá cerejas, castanhase jacas, tamanhas.Há cocos, coqueirosbolotas, sobreiros.Há cheiro a jasmim, há o alecrim,há o sabiá, há o jacaré.Há frio e há fumo que sai da chaminéHá montes e há sol, há neve e há mar,histórias ao luar. 28
  29. 29. Há o Zé do Telhado, há o Lampiãoo lobo, a raposa, a cobra pitãohá o mocho, há o cuco, a perdiz, o tucanohá o vira, o malhão,samba todo o ano.Há todas as gentes e todas as cores,múltiplos cheiros, múltiplos sabores.Há bacalhau no Natal e no fim do ano,há arroz doce, folar, e há couve mineirahá feijoada, bem à brasileira,há pão- de - ló, leite creme, rolete de cana,há pé de moleque e cocada baiana.Há bonecas de trapos e de porcelana.Há navegantes e há bandeirantes,há escravos, há reis e há imperadores,há grandes senhores,há marqueses, vilões,condes e barões,burguesia, nobrezae muita pobreza.Há muito opressão,muita exploração.Há jugo e há canga,grito do Ipiranga.Há guerras com Espanha,e a RestauraçãoHá muita façanhae muito visionário.No meu imaginário,que une dois mundos,há laços profundos,de muita beleza.Há canto de canário,sabor a medronho,há quimera e sonho,cheiro a maresia,alguma tristeza,e muita nostalgia,cor azul turquesa. 29
  30. 30. AfectosHoje eu decidi escrever um poemacom os afectos por tema.Podia ser sobre a buganvília,sobre a família,sobre o gosto do mel,sobre o bolero de Ravel,sobre o meu filho Miguel ,que em pequenino,os olhos a cintilar de amor,aplaudia ao ver qualquer flora que chamava tanta,sobre os livros de Florbela Espanca,Pessoa, Saramago, AquilinoManuel Alegre, Gedeão, Quental.Podia ser sobre o Natalcom a família reunida à mesae as chaminés a expelir fumoPodia ser sobre a Cláudia, sobre a Teresasobre o meu filho Nunoque me dizia, em pequenito,gosto de ti até ao infinito.Podia ser sobre o cheiro do tomilho,o sabor da pamonha de milho,sobre o meu gato andarilho,sobre a minha mãe,que cantava tão bemde Verdi, a Traviata,de Schubert, a serenata.Podia ser sobre o alecrim que, aos molhos,faz chorar os olhos,como cantava o meu pai.Podia ser sobre o meu bonsaiPodia ser sobre as cadeiras que herdei da avó, 30
  31. 31. tal como do avô a caixa do rapé,podia ser sobre as colchas em filé,rede de nó,rendadas, bordadas,feitas por várias tias.Podia ser sobre as tristezas e as alegriasque partilho, por inteirocom o marido, amante e companheiro.Podia ser sobre os chapéus da mãe e as suasluvas,podia ser sobre o gosto das uvasnas vindimas, em Setembro.Podia ser sobre Paris, sobre Veneza,sobre as conversas à mesaou sobre as histórias ao serão, em Dezembro.sobre Mozart, Chopin, sobre Gauguin, Renoir,sobre o sol, sobre a lua, sobre o mar,sobre a areia quente no verão,sobre a neve a cobrir o chão,sobre a amizade, sobre a saudade.Mas eu decidi que ia escrever um poematendo os afectos por tema.E o poema que escrevi fala de afectosFala de afectos nas linhas,e nas entrelinhas,fala de afectos através de imagense de viagenspelo espaço e pelo tempoOs afectos estão dispersos,implícitos nos vários versos.Com afectos povoei meu pensamento. 31
  32. 32. VidaO mundo com todas as suas fragrânciasé feito de elementos, misturas, substâncias.Elementos mais ou menos cem.Como pode acreditar alguém, com senso,que a diversidade de um universo tão imensoa partir de tão pouco seja conseguida?Mas o mais estranho é o que agora vem.Muito menos elementos temaquilo a que resolvemos chamar vida.FloresEram flores selvagens embelezando Maio,junto ao caminho.Eram muitas e singelas,rubras, azuis, roxas , brancas, amarelas.Os seus nomes?Creio que uma se chamava rosmaninho,as outras não sei, mas não importa.Numa conferência a que a memória me reportaFeynman, Nobel da Física, sobre a ciência diziaque o nome das coisas não é o que mais importa,até porque de lugar para lugar varia.Importa muito mais observar, reflectir, interrogar.Só assim se pode compreender a natureza.E também amar,eu acrescentaria.Veio isto a propósito das flores, junto ao caminhoque me impressionaram pela singeleza,mas cujo nome não sei.Por isso as baptizei;a uma chamei ternura e a outra afecto,a uma outra alegria,a uma dei o nome fantasia,a outra atribuí o nome de paixão.A uma que logo ali murchou,e murcha se quedoubaptizei-a com o nome de ilusão. 32
  33. 33. IlusãoEm pleno estioos meus olhos vagueiam na ladeiraque exulta em cor, em cheiro e em sonsque me afloram o ouvido, subtisOs meus olhos vagueiam na ladeiraexuberante em todos os seus tonstecendo à minha volta mil ardisÉ o amarelo das searas,das oliveiras, o verde prateado,dos troncos dos sobreiros o tom acastanhado,mais além um outro verde, das figueiras.Pobres figueiras em terras tão avaras,avaras de água, que não de encantamento 33
  34. 34. que esse de há muito me há a mim tomadoenquanto dolente passa o ventoque agita os ramos das amendoeiras.Os meus olhos vagueiam na ladeiraem pleno estioe sinto um arrepioLá em baixo serpenteia preguiçoso o rioe o céu, por cima, dum azul sem fim,parece olhar para mim .Sinto no ar toda uma fragrânciae volto sem querer à minha infânciade sonhos que nunca mais foram sonhados.Amoras, mel, uvas e mostode repente sinto-lhes o gostoTudo se repete agora e logo, de onde em onde.Cigarras, besouros, libelinhasgaviões, pardais e andorinhas,urze, giesta, papoilas e tomilho,tudo se agita; é grande a euforianos meus pensamentos enredados,grávidos de sonho e fantasiaque parecem gerar como que um filho,envolto em tule, rendas e brocados.Afaga-me uma onda de alegriamatizada de muita nostalgia,aproxima-se a noite, ao fim do dia.No ocaso, o sol vermelho já se esconde,porém, já lá não está, é ilusão!Ainda o vemos devido à refracção 34
  35. 35. MiragemEstou sentada no café do caisaqui na Ribeira junto ao rio,um passante segue pela rádio o desafio,e, ao meu lado, uma jovem enlevadaolha com o olhar perdido a outra margem,enquanto um casal recorda uma viagem.Os demais conversam sobre tudo.Aqui e além falares dispersos.Aqueles ali creio que falam eslavoe conversam com um ar muito sisudo 35
  36. 36. Na minha mesa está pousado um cravo iie o livro que ando a ler "Primeiros versos"Não me apetece ler, de enamoradaque fico ao olhar esta paisagemmista de sonho e de realidade,nem sei se ela existe ou se é miragem.Do outro lado, as caves imponentes;atravesso a ponte e já me encontro em Gaia,na vila nova que agora é cidade.Vejo o Douro, os barcos rio acimalevam turistas e passam indolentes,vejo as fachadas de granito, e bem por cimaameaçando chuva o céu cinzento.Um ar frio perpassa-me, é o ventoo tal a que chamam de nortada.Regresso e inicio uma viagem,entro num carro eléctrico, na parageme aí vou eu vagueando com o olhar,S. Francisco, S. Pedro em Miragaia,a Alfândega, Massarelos , vários cais.O eléctrico avança um pouco maise do outro lado já vejo o Cabedelo,o rio encontrou o Oceano, entrou no mar.Difusos através da bruma,uma traineira, um navio parado,que para entrar na barra ao largo aguarda.enquanto o mar se agita e regurgita espuma.A difusão da luz torna tudo mais belo,mas o meu passeio vai findar, não tarda.O meu corpo está enregeladoe o vento desalinha-me o cabelo.É quase noite, urge regressarmas é difícil ter que abandonarestas paisagens de bruma e de granito.Não sei se adivinhando o meu pensaruma gaivota solta um pio, aflito. 36
  37. 37. AmantesÉ AgostoAmam-se na praia, com o sol já posto,fundem-se as bocas, do sal fica o gosto,salpica-os a espuma que o mar regurgita.Amam-se na praia à luz do luar,gemidos de amor, bramidos do mar,tudo se confunde quando o mar se agita.É AgostoEnvolvem-se os corpos, ela toda nua,tendo a vigiá-los, sempre atenta a lua.A areia brilha, os corpos resplandecem.No Céu, andam anjos muito divertidos,vão lançando setas, fazem de Cupidos.Na praia os amantes, por fim adormecem.É AgostoAcordam mil vezes pela noite foraAmam-se de novo não importa a horanem a areia húmida nem a noite friaAmam-se uma vez, mais outra, mais outraÉ de amor e sal o gosto na bocaNunca um tal êxtase nem tanta magiaÉ AgostoAcordam bem cedo, cheira a maresia.Amam-se de novo ao romper do dia.IdílioOlhava para a Luae pensava nelaEntão, de repenteficou sem saberse a Lua era ela.Viu-a toda nuamas ela era a Luae então, docementeouviu "Eu sou tua"Ficou sem saberse era ela ou a Lua 37
  38. 38. TelejornalVejo o Telejornal no canal doisA apresentadora fala da BSE, de clonagem,do Kosovo e, logo depois,de um acidente no Cais do Sodrée da instabilidade na Guiné.E eu empreendo no tempo uma viagem...O Braima, a Binta, o Adrião,onde andarão neste momento?Conheci-os em Bafatá, há muito tempo,iam buscar o "cume" no fim da refeição.Recordo os seus olhos vivos de criançaspele negra, dentes alvos, sem igualos passos apressados quando o ventoanunciava em breve um temporalEu era aluna e eles mestresdo crioulo de que mal guardo lembranças.Das mulheres, recordo as suas vestesfossem mulheres grandes ou "bajudas"no tronco, eram em geral desnudas,presos na cinta panos coloridosque, de compridos,chegavam quase ao chão.Algumas eram de tal modo belasque pareciam extraídas de telasRecordo, servindo-me o café, o Infalicom aquele seu olhar tão doce e tristetalvez o ar mais triste que eu já vi. 38
  39. 39. Será que o café ainda existe?Recordo aquele condutor, o Mamadumostrando com orgulho o seu meninoQue terá feito deles o destino?Recordo os passeios na estrada do Gabuos mangueiros, os troncos de poilão,a mesquita, o mercado, a sensaçãode paz que tudo irradiava,apesar do obus de Piche que atroava,apesar da maldição da guerracujo espectro por cima pairava.Recordo ainda o cheiro e a cor da terra,o Colufe e o Geba sinuososonde canoas esguias deslizavam,recordo macaquitos numerososque entre os ramos das árvores saltavamenquanto que lagartos, preguiçosos,ao sol, pelos caminhos se espraiavame uma miríade de insectos buliçososao nosso redor sempre volteavam.Recordo o batuque daquele casamentoNa foto ficou bem impresso o momentoem que o dançarino fazia um mortalnuma fantástica expressão corporalFoi lá na Ponte Nova, naquela tabancaonde de azul se coloriam panosque as mulheres usavam em volta da ancae que desciam quase até ao chão.Tudo isto se passou há muitos anos.A apresentadora fala agora em danoscausados por uma longa estiageme mostra uma desértica paisagem.Eu regresso da minha viageme tento organizar o pensamento.O telejornal está quase no final.Deve seguir-se a previsão do tempo. 39
  40. 40. HeroínaPara mim, em criança, heroínaera pessoa, obviamente feminina.Podia ser Maria, Brites ou Joana,era mulher, de grande lenda e fama.Mais tarde vim-me a aperceberdas que não tinham direito a notícias,lutavam, morriam, sofriam sevícias,mas delas não rezava a históriaque, na escola, eu tinha que aprender.Hoje, esculpe-se na minha memóriacom fino escopro, a expressão da dorem rostos de mulheres ao mundo divulgados,e por câmeras para sempre fixados,no Kosovo, na Argélia, em Timor.Por isso, dar o nome de heroínaa uma droga que mata e arruina,só pode ser uma questão de negro humor.HiroximaFoi no Japão.Mil novecentos e quarenta e cinco,era Verão,caiu a morte em Hiroxima.Poucos ficaram para contardaquela bomba tão assassina,chamada bomba nuclear,que transportada no Enola Gay,alguém lançou mesmo por cima.Quantos morreram, isso não sei.Foi no Japão,mil novecentos e quarenta e cinco,era Verão,e ainda ontem, em Hiroxima,nasceu sem vida uma menina,por causa da bomba assassina 40
  41. 41. GraveGrave era o acento, da ortografia,quando á era à e eu não sabiae, por isso, dava erros quando escrevia,redigia, era assim que se dizia.Grave era o ar do Sr. Jorge Aragão,com relógio de ouro e bengala na mão,ou o do Sr. Abade, pregando o sermão,ou o da minha tia Conceição,sempre suspirando profundo,dizendo que vinha aí o fim do mundo,que já levara lá para bem fundo,o pobre do meu tio Edmundo,que confundindo sonho e realidade,subira à torre mais alta da cidade,e se deixara cair, que ingenuidade,ignorando não só as leis da gravidade,mas que grave não era apenas o acento,nem o ar do Sr. Jorge Aragão em outro tempo,nem o ai da tia Conceição, que sofrimento,nem o sermão do abade, que tormento!Grave é também a folha solta ao vento.PaixãoCintila o olhare brilha o sorrisonum luzir sem fim.Tudo é som de riso,tem cor de luar,e toque de cetim.Tudo sabe a mel,tudo cheira a flor,a horto, a vergel.É isto o amor.É isto a paixão.Pobre coração!Bate aceleradoe descompassado.Quer sair do peitoe não encontra jeito. 41
  42. 42. PalavrõesQuando em pequenina, mãe,me contavas histórias aos serões,também me dizias: Não se dizem palavrões.Mal sabias, quando contavas histórias aosserões,que eu iria aprender muitos, muitos palavrões.Não aqueles a que te referias nos serões,mas outros geradores de muitas confusões.Os nucleões que são os neutrões e os protões,e os que giram á volta do núcleo e como piões,e que são chamados de electrões,todos eles aos biliões, de biliões, de biliões.Mais tarde vieram os bariões,os mesões e os positrões,os antiprotões e os antineutrões,e ainda os fotões, os muões e os fermiões.Havia os ciclotrões que aceleravam iões,os betatrões acelerando electrões,os sincrotões, podiam ser bevatrões,que aceleravam protões.Tantos, tantos palavrões....Ouvia falar de charme, de spin, de estranheza,e do princípio da incerteza.Apanhada de surpresa,que saudades tinha, então,de estar contigo ao serão. 42
  43. 43. TchadorDéboras, Irinas, Svetlanasucranianas,sul- americanas,não importa.Partiram em busca de uma portaque lhes desse acesso a melhores vidas.e acabaram ludibriadas,iludidas,nas mãos de proxenetas.São traficadassão exploradas,vezes sem conta são violadas 43
  44. 44. e quando, apesar de jovens, acabadas,são abandonadas,jogadas nas sarjetas.Sandras, Bintas, não importa o nome,a vida deu-lhes até hoje violência e fome.Aquela com onze anos, tão menina,de uma outra menina já é mãe.Por certo é a primeira boneca que ela tem.E nos olhos, em vez de ódio e de revolta,uma lágrima solta,enquanto embala a filha com amor.Aquela outra ali é argelina,talvez a "pietá" que correu mundo.Nos olhos um desgosto tão profundo,maior que o próprio mundo.E aquelas outras das quais não vejo o rostoque, se doentes, não podem ser tratadas,que são impuras, se desvirginadas,que se forem violadaspoderão por castigo ser queimadas?O que dirão os seus olhos por baixo do tchador?Humilhação?Desgosto?Resignação?Rancor?Talvez revolta?Se eu um dia usar tchadorpor meu quereracreditem que não é para me esconderé só para tentar não vertanta injustiça, tanto horror,tanto fanatismo, tanta dor,neste mundo cruel à nossa volta. 44
  45. 45. HipocrisiaLactarius deliciosus.Não sei se foi Lineuquem o nome lhes deu.Eu,no meio do pinhal,com gestos suaves, subtis,vou-as colhendo uma a uma.São as sanchas, frágeis, delicadas,como que envergonhadas,por baixo da caruma.Chapéu e pé em tom alaranjado,já em pequenina,a medo, eu as colhiapois sabiaque mesmo ali ao lado,outros cogumelos,alguns muito mais belos,teciam seus ardis.Insidiosos, perigosos,escondem em si a muscarina,a psilocibina,tanta, tanta toxina,tantas vezes fatal.Tal qual a hipocrisianos humanos,desumanos,antes eu diria,que enchem a boca com a democraciae a globalização,visando um mundo novo,enquanto vendem armas para matar o povoque subjugam pela exploração. 45
  46. 46. ImpulsãoArquimedesnão descobriu Ganimedes,que é uma lua.Diz a lenda que saiu nu para a rua,gritando Eureka, Eureka,com enorme satisfação.Acabara de descobrir a impulsão.E é essa a principal razãopor que, volvidos mais de dois mil anos,navios continuam a cruzar os oceanos.AlteridadeQuando, em pequenina,me via ao espelho daquele guarda fatostentava abrir a porta, em busca da meninaque eu achava estar do outro lado.Já então eu achava que a meninaera uma outra menina que não eu.Hoje, quando me vejo no espelho daquele guardafatosou em outro qualquer, não importa qual,sei também que o que vejo não sou eu.Tudo o que eu faço, do outro lado,a outra faz em simetria.Saúdo-a com a minha mão direitae ela que me espreita,talvez por ironia,devolve-me com a esquerda a saudação.Eis a razãode eu não conhecer o meu realporque a outra que de lá me respondeunão era eumas a imagem simétrica, direita, virtual. 46
  47. 47. MoleSe me falam em mole, por associação,posso pensar em macio, em massa informe,mas posso pensar em rígido, isso conformepensar no significado ou na oposição.Mas estranho é falar de mole como quantidade,a que corresponde aquela enormidade,seis vezes dez elevado a vinte e três.É estranho ou esotérico talvez,mas é assim que o nosso mundo é feito.Não deixaria ninguém satisfeito uma mole de pãojá que nos esmagaria e, de tal jeito,nem poderíamos morrer de indigestão.Mas se ao mundo chegasse uma mole de amor,por certo o mundo desabrocharia em flor.A exploração, a xenofobia,a guerra, a fome, tudo acabariae um novo mundo, então, começaria.LataQuando ia à praia, em criança,levava pá e balde em lata,que eram azuis e cor da prata.Lembro também, eu criança,que em casa da família Malcata,que usava talher de prata,trabalhava a senhora Liberata,que vivia num bairro de latae que, um dia, emigrou para França.O seu endereço, perto da Flandres,tenho-o na agenda, em papel almaço.O balde e a pá, azul e pratacom que eu brincava em criança,e a casa da senhora Liberataque um dia emigrou para França,eram de lata- folha de Flandres,folha que é feita com estanho e aço. 47
  48. 48. Arco-írisPasseio no jardim das Tulherias,o céu é cinza, o ar é baço.Pelo espaçoecoam doces melodiasque uma criança extrai da concertina.Não sei se é menino ou se é menina,só vejo as mãos e os olhos de um negropenetrante.Um velho casaco do irmão, talvez do paicobre-lhe a cabeça e sobre os ombros cai,tentando protegê- la do frio que é cortante 48
  49. 49. É Abril, um Abril de chuva e frio,o dia é sombrio.No Céu, um arco íris imensocobre a cidade com um halo intenso.Lá ao fundo o obelisco hirto e só,recorda o Egipto, e um certo faraó.Mais além o Arco do Triunfo e la Défense"Honni soit qui mal y pense".Para trás, o Louvre e a Catedralali à esquerda, sempre monumental,a torre Eiffelqual torre de Babelonde se ouvem os idiomas mais diversos,são os turistas, por Paris dispersos.Lá em cima, o Sacré Coeur, Monmartre,esta é a cidade luz, da boémia e da arteno país de Renoir, Rodin, Ravel e Sartre,Belmondo, Godard, Chevalierdo grande Le Corbusier,de Descartes e Lavoisier,de Aznavour, Piaff e JulietteParis dos Boulevards, de la Vilette,do centro Pompidou, Beaubourg, Les Hallesdo Moulin Rouge e de Pigalle,da Ópera, da Madalena,das pontes sobre o Sena.É Abril, um Abril de chuva e frio.A música flutua no ar densoe no Céu, sombrio,um arco íris imenso.Tudo isto me fascina e me seduz:Paris, o som da concertina,e a dispersão da luz 49
  50. 50. XenofobiaQuando era criançaderam-me a bonecada prima RebecaTinha uma trançaloira, cor do trigo.Chamei-lhe Constança.Usava um vestidoque ia até ao chãoe quando a voltava iiiera a sensaçãoEis a Joaninhacom um negro rostoe negra carapinha.Vê-la dava gosto.As duas vestiamo mesmo vestido,muito colorido,e lá se entendiam.De qual mais gostavasei que não sabia,pois tenho a ideiaque a cor não contava,e a ambas eu queria.Eu não conhecia.a xenofobia.Palavra tão feia,quem a quer usarnão teve a bonecada prima Rebecap´ra poder brincar 50
  51. 51. NormalNormal.Pode ou não ser vertical,a algo é perpendicular.Pode significar regularcomo alguns poliedros,cubos e tetraedros,como alguns verbos tambémque, outros, defeitos têm,o que não impede ninguémde sempre os utilizarde uma forma natural.Normal.Basta apor-lhe só um Ae não normal aí está, 51
  52. 52. o que nem todos respeitampor vezes até rejeitam.É isto a intolerância,fruto da ignorância,pois a água, substânciaà vida fundamental,não é lá muito normal.Durante o aquecimento,em vez de o volume sofrerum continuado aumento,começa por decresceraté um dado momento,de máxima densidade,depois começa a crescer,quase com normalidade.Tudo isto é anormal,e é essa anormalidadeque vai permitir explicarque se a água congelaro gelo fique a boiar,como acontece no marduma região polar.Tal qual como um cobertor,o gelo, isolador,cobre o mar com muito amor,não deixa a água gelar.A vida dentro do marpode assim continuar.Para a vida é fundamentale tudo isto, afinal,porque a água é anormal 52
  53. 53. LuzComo deve estar cansada,direi mesmo extenuada,sempre, sempre a viajar,e sem poder descansar,mudando de direcção,reflexão e refracção....Por vezes até nos finta,viajando pelo Mundoa três vezes dez à quintaquilómetros por segundo.Viaja há quanto tempo,perscrutando o firmamento ?Terá muito que contarse alguém a quiser escutar.Os físicos e os poetas,os amantes e os profetasescutam-na à sua maneira,mas em toda esta viagemela traz uma mensagempara a humanidade inteira.Da forma que as coisas vãopoderá acontecerque ela deixe de correre fique tudo em escuridão.TransformaçõesPodem ser físicas e químicas as transformações.Às segundas chamamos reacções,mas há as que ocorrem nos coraçõese que vão de paixonetas a paixões,que podem destruir, quais furacões,que a cinzas podem reduzir, como vulcões,esperanças, sonhos e ilusões.Foi isso o que aconteceuao meu tetravô Bartolomeu,que com um enfarte morreupor causa duma paixão que (não) viveu... 53
  54. 54. Amón-RáKeops, Kefren, Mikerinos,as monumentais Pirâmides em GizéEu ali ao lado, em pé,senti-me menor que um grão de areiadaquela que as pirâmides rodeiano deserto, uma imensidade,ali mesmo ao lado da cidade.Sobrevoar o Egipto é impressionanteTudo é deserto, apenas junto ao Nilouma estreita faixa verdejante.Navegar no Nilo é emocionanteKarnak, Luxor, Edfu, Kom Ombo,Assuão, a ilha Elefantina,assim se navega rio acima.São vários os templos ao longo das margens,veleiros deslizam ao sabor das aragens.Tudo impressiona naquelas paragens.Assuão lembra o paraíso,pelo menos é assim que o ajuízo,uma calma, uma beleza,todo um encantamentoque não provém só da natureza.È uma melopeia de inúmeros sons,são os cheiros e as cores, em infinitos tons.Ir ao Egipto é recuar muito no tempoCleópatra, Ramsés, TutankhamonAkhenaton, a rainha Hatschepsut,deuses e deusas, como a deusa Nut,o deus Hórus ou o deus Aton,a deusa Hathorda alegria e do amor,Amon Rá, deus dos deuses, deus do Sol,o mesmo Solque, volvidas tantas gerações,ainda presenteia o Egipto com fotões. 54
  55. 55. GuerraGuerra rima com terra e com serra.Estranhamente, guerra não rimacom dor,com horror,com terror,mas a guerra é um estupor.Estranhamente, guerra também não rimacom milhõesde vidas desperdiçadas à toa,com biliõesem dinheiro, seja o dólar ou a coroa,que vai enriquecer mafiosos,nem um pouco escrupulosos.Estranhamente,guerra que devia rimar com dor,rima com terra e com serraque deveriam rimar com flor.MeninosNum dia primaveril,numa escola em Arganil,meninos de bibe anil,entoam canções de Abril,enquanto que no Brasil,meninos, bem mais de mil,entregues à sua sorte,temem o esquadrão da mortee na ilha de Timormeninos, também um ror,envoltos em muita dortentam esquecer o horror. 55
  56. 56. BetãoO menino ouvia, ouviaenquanto o avô descreviao que em pequenino viasempre que à janela ia.Via uma floresta densaque se espraiava, imensa,árvores grandes, frondosas.Na floresta havia esquilos,répteis, batráquios, grilos,muitas aves, mariposas,lebres, coelhos e gamos.O menino ouvia, ouvia,enquanto o avô descreviao que via há muitos anos.Havia líquenes, fungos,e meninos de olhos profundoscorriam pela floresta.Os dias eram de festa,davam-se grandes passeiose ali nasciam enleios.A floresta era pujança,era vida, era esperança.Fecha os olhos o meninoe tenta, tenta imaginar.Chega até a acreditarque quando os olhos abrira floresta vai surgir.Que grande desilusão!Abre os olhos o meninomas só vê o desatinode uma floresta em betão. 56
  57. 57. AmosiaSofro de um estranho malque se agrava dia a diaJá fiz muita endoscopiaraios X, tomografia,LASER e sonografia,uma densitometria,e até cintilografia.O relatório final,lacónico, por sinal,reza apenas na sentençaDesconhecida a doença..Há dias aconteceualgo estranho e anormal.Vi surgir, vindo do céu,um ser de forma espiral,com uma voz de metal,oriundo doutra galáxia.Falei logo no meu mal,dele era conhecedor.Não o disse por faláciapois donde vinha é banal.É doença bem estudadae tem por nome amosia.Sabe-se ser provocadapor vírus de nome amore bactéria poesia.É de fácil solução,basta usar medicação,KXcalomelanos.Não a trouxe na bagageme a fórmula não quis dizerPorém, ficou de a trazerjá na próxima viagem,daqui a mil milhões de anos. 57
  58. 58. PoetaIsto de se ser poetaé pior que uma peçonha,é uma peste medonhaque o corpo e a mente infectaNum turbilhão de emoçõeso sangue arde, crepita,o corpo sua, tirita,a mente toda se agitaem tremendas convulsões.Sob uma angústia infinitae a sensação de abandono,perde-se a fome e o sono,cuida-se de ensandecer.Depois de dura agonia,após a obra nascere o poema virar flor,surge uma branda acalmia.Mas ao poeta, coitado,sem forças, desalentado,banhado em mental suor,só lhe apetece morrerou então permanecerem estado de torpor.ElasticidadeNão sei se obedece à lei de Hooke ou não,mas é elástico o coração.Uns são muito elásticos, outros não.Uns têm o amor como bandeirapodem amar a humanidade inteira,outros vão amando aqui e além,outros amam sempre alguéme há os que nunca amam ninguém.Tem que haver uma razãopara tanta desigualdade.Só vejo uma explicação,a constante de elasticidade 58
  59. 59. BalcãsA guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,irracional.Tentam fugir delaa criança, o homem, a mulher bela.A guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,brutal.Tenta fugir da guerra dos Balcãsaquele ancião cheio de cãs.A guerra dos Balcãsé, aliás, como todas as guerras,sensacional.Na comunidade internacionalpode ver-se em qualquer telejornale homens e mulheres falam dela na ruaE a guerra ?Ah, a guerra, essa continua...InternetAtravés da Internet,a estrada da informação,escrevi ao primo João,casado com a prima Arlete,que nasceu no Maranhãoe vive lá no Japão.O seu e-mail escrevi-o endereço electrónico-e logo a seguir recebia resposta do nipónico,que afinal é brasileiro.Maravilhosa invenção!Pensar eu que o electrão,com ajuda do fotão,é um grande mensageiroem toda esta transmissão,que numa fracção de segundoliga entre si todo o mundo! 59
  60. 60. CastroEm mato de urze, de giesta, de carrasco,fica ali escondido, abandonado, o castro,castelo dos mouros, como o povo diz,de onde, quem sabe,uma moura donzelafugiu para Castelanum belo alazãoenquanto soprava o vento suão.Partiu com um mouro, ou partiu com cristão?De livre vontade ou partiu infeliz?Quem sabe,não descenderia da moura donzelaminha bisavó, de seu nome Anaque era castelhanafugida da guerra, da luta intestinaentre um tal D. Carlos e D. Cristina?Quem sabe?Pergunto ao carrasco,mas não existia, ao tempo, no castro.Questiono o rio que corre no fundo,mas a água de outroracorreu, foi embora,perdeu-se no mundo.AmorÉ belo o amor quando acontecee torna-se sublime, se floresce.Mas se dá fruto, para além da flor,não há adjectivos para o amor.Uma nova palavra, um termo novo urge inventarcom perfume de luar,e som de esperança,com cor de bem-aventurança,com volteios de ninfa em etérea dança. 60
  61. 61. Ausência _______________________________________ 4Enleios ________________________________________ 5Certeza ________________________________________ 5Navegação ______________________________________ 6Infinito _______________________________________ 6Nave ___________________________________________ 7Ozono __________________________________________ 7Tempo __________________________________________ 8Ensinamentos ___________________________________ 8Neve ___________________________________________ 9Indeterminismo _________________________________ 9Poesia ________________________________________ 10Mar ___________________________________________ 11Indicador _____________________________________ 13Abrigo ________________________________________ 13Sorriso _______________________________________ 14Saturno _______________________________________ 14Chama _________________________________________ 15Apolo _________________________________________ 15Exploração ____________________________________ 16Sensações _____________________________________ 17Cor ___________________________________________ 19Pastoral ______________________________________ 20Afagos ________________________________________ 20Abril _________________________________________ 21Amazónia ______________________________________ 21Paz ___________________________________________ 22Sida __________________________________________ 22Imagem ________________________________________ 23 61
  62. 62. Mina __________________________________________ 25Estrelas ______________________________________ 25Mãe ___________________________________________ 26Imaginário ____________________________________ 28Afectos _______________________________________ 30Vida __________________________________________ 32Flores ________________________________________ 32Ilusão ________________________________________ 33Miragem _______________________________________ 35Amantes _______________________________________ 37Idílio ________________________________________ 37Telejornal ____________________________________ 38Heroína _______________________________________ 40Hiroxima ______________________________________ 40Grave _________________________________________ 41Paixão ________________________________________ 41Palavrões _____________________________________ 42Tchador _______________________________________ 43Hipocrisia ____________________________________ 45Impulsão ______________________________________ 46Alteridade ____________________________________ 46Mole __________________________________________ 47Lata __________________________________________ 47Arco-íris _____________________________________ 48Xenofobia _____________________________________ 50Normal ________________________________________ 51Luz ___________________________________________ 53Transformações ________________________________ 53Amón-Rá _______________________________________ 54Guerra ________________________________________ 55 62
  63. 63. Meninos _______________________________________ 55Betão _________________________________________ 56Amosia ________________________________________ 57Poeta _________________________________________ 58Elasticidade __________________________________ 58Balcãs ________________________________________ 59Internet ______________________________________ 59Castro ________________________________________ 60Amor __________________________________________ 60i É assim designado, por vezes, o narciso cuja campânulacentral é amarela e em que as pétalas exteriores sãobrancasii de António Nobreiii quando eu era criança brinquei com uma boneca que tinhaduas cabeças opostas, uma branca, outra negra. . Quandoexibia uma, a outra ficava coberta pelo vestido. 63

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