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Polishop (livro de poesia) - Tiago Nené [pt]
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Polishop (livro de poesia) - Tiago Nené [pt]

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Versão integral do livro "Polishop" do poeta Tiago Nené, poeta português e natural de Tavira, Algarve. Trata-se de um livro editado em Espanha pelo Ayuntamiento de Punta Umbria, livro que fez parte da colecção Palavra Ibérica, colecção de poesia ibérica que contou com nomes como Manuel Moya, Uberto Stabile, José Carlos Barros, Rui Costa, Maria do Sameiro Barroso, Golghona Anghel, entre outros.

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Polishop (livro de poesia) - Tiago Nené [pt]

  1. 1. PREFÁCIOA BELEZA SUJAJosé Carlos BarrosProcurar um descentramento; um lugar de fora. E procurar também cortar fios,ligações, aproximações. Até o olhar poisar nos objectos e devolver apenas o queos objectos mostram à superfície do que parecem ser. Acontece que esta (espéciede) máquina fotográfica tem uma memória por dentro: e quando a luz do flashilumina os objectos, os eventos, ou antes mesmo do disparo, já as interrogações(e o desconforto delas) acompanham esse impulso, esse movimento sem retornoem direcção ao coração das coisas. Falo de uma poesia que parece decidir-se noterritório da sua própria impossibilidade; num conflito permanente entre ficçãoe realidade, entre concretude e fingimento, entre aceitação (desistência) einterrogação; entre milagre, revelação e, por outro lado, afastamento ereconhecimento da insuficiência do poema no desígnio de mudar o mundo.Nem sempre os títulos dos livros de poesia remetem para o seu universotemático. Neste caso, no entanto (e não obstante a primeira sensação dedesconcerto), o título é já o enunciado, o resumo, do projecto que move o autornesta busca (ou deambulação) pelas margens, por «um pequeno subúrbio/ ondeos carros não passam», por lugares onde os terramotos apanham «pessoas quefaziam amor» e «morriam de uma causa lenta e dolorosa» e onde (em vão?) seespera «a esperança/ de um próximo começo». Polishop é o nome de umaconhecida cadeia de venda de produtos milagrosos: cremes contra as rugas e acelulite (e as estrias), cintas vibráteis que resolvem os problemas dasadiposidades abdominais, escadas de alumínio que ocupam apenas, numarmário, o espaço de vinte centímetros, kits para desmontar variadores (seja láisso o que for), artefactos que picam a cebola sem o incómodo prosaico daslágrimas. O título é a acertada metáfora deste universo de perdas, dedesencontros, de impossibilidades (também de exaltações), de encenações – e,simultaneamente, de procuras, de rasuras (intervalos, fronteiras) entre o que é eo que poderia (deveria) ser. Há, nestes versos, o incómodo que reverte de umolhar irónico, altivo, desarmado, livre, sobre as armadilhas do quotidiano, sobreo desconcerto das relações humanas (sentimentos, moralidade), sobre anormalidade, assim interrogada, de supostos inquestionáveis códigos deconduta; sobre o logro das aparências; um olhar (às vezes apenas fotográfico,neutro) a trazer à superfície o lixo, a sujidade, as partes por unir, aincompletude, a impossibilidade de chegar a um lugar e de ocupá-lo por inteiro;onde, por indiferença (por desistência, por cansaço), «as pessoas sobrevivemquando alguém morre». O título do livro é a metáfora do mundo retratadonestes versos: a vida, o quotidiano, olhados de cima, de fora, como se tudo sedesenvolvesse já num território de pechisbeque, de prometidos paraísos apilhas, de felicidade anunciada a prestações. Os produtos da Polishop – a ilusãodo mundo perfeito, a promessa da alegria, as virtudes do consumismo, os
  2. 2. consequentes ruídos do anúncio, da frase, da publicidade erigida a realidadeconcreta – parecem ser tudo o que temos quando (como algures se dirá nestelivro) o tempo é de montarmos o circo e fazermos de conta. E por isso, numoutro poema, se fala do político que cola, nas paredes, os seus próprios cartazes,confrontando-se com o logro do que ele mesmo anuncia (como num produtoque a Polishop venderia em horário nobre para curar as varizes). Nem sempreos poemas deste livro, na sua aparente dispersão temática e formal, parecemfazer parte de um conjunto lógico, coerente, de peças que vão encaixando atémostrar o retrato inteiro que (por um momento) não adivinhávamos nas suaspartes desligadas. Mas este é um livro de poesia, mais que uma recolha deversos e poemas: essa aparente dispersão (que nos ilude pelas inusitadasimagens, pelas incursões aparentemente exteriores ao poema, pelo salto – quese revela ser contiguidade – entre o poema lírico mais extenso e a concisão doaforismo, pelo encadear de reflexões sobre a arte poética ou a crua descrição dosestilhaços do quotidiano) revela-nos, aos poucos, um pano inteiro onde osdiferentes (múltiplos) fios não cerziram mais que pedaços desatados. Há algo(há muito), nestes versos, de surrealidade, de sobressaltada transfiguração dasimagens, de re-leitura, de re-interpretação, de deflagração às vezes sem umcentro reconhecível que possa acudir-nos. É certo: porque a linguagem não sedesliga nunca dos temas e do universo que procura servir: esse universo deperplexidade e desencanto onde já nem é possível regressar ao ponto de partidanem caminhar a partir de nenhum ponto. Porque nos perdemos no lixo dascoisas, na «beleza suja» em que nos distraímos e afastámos de nós mesmos,entre logro e fingimento, entre imagens (falsas) cujo sentido já nem chegamos ainterrogar. Servida por um rigor que busca na palavra o sentido exacto e últimodas coisas, esta poesia (a deste livro) confronta-nos com o mundo que vivemostantas vezes sem exigirmos dele o que está por detrás (ou além) do lodo e doimperceptível milagre de um tempo anterior (antigo) em que era possívelacreditar: «éramos tão novos (…), bebíamos veneno para dormir». É por aí queesta poesia nos leva: pelo incómodo sobressalto; pela convicção de que épreferível bebermos veneno para dormir, de que é indispensável amarmos «oamor quando nasce», do que nos sujeitarmos à impossibilidade de nossentarmos a uma mesa do Majestic ou de «soltar os cães dentro dos poemas deamor».NOTA: em 28 de Maio de 2010 a obra “Polishop”, de Tiago Nené, foiapresentada por José Carlos Barros no “Pátio de Letras”, em Faro.
  3. 3. POLISHOPclick,dormem em simultâneo sobre as escarpase sobre a sua beleza suja,interior ao sono, interior à chuva,colocam as mãos nos bolsos como se lá estivesseparte de uma incompletude que os completasse,consolidam a solidão inacessível,sentem o vento processar o seu rigor irregularnos pulsos rasgados,ouvem música petrificada, julgam que o ritmoe o movimento da cabeça os podem apartar,e por isso se intitulam apenasde ouvintes de música,click,nunca saberiam assinalar, por exemplo, nos negativosda presente sessão, os lugares íngremesdas suas infânciasque se consolam e flagelam entre si.sobre eles disparo como se atirasse a matarsobre as suas ideias transumantesem direcção à trovoada ocados meus olhos brancos.click,o crepúsculo carrega-nos, a confusão inicia-nos as fugas,todas as fugas, todas as horas que a bem ou a malsingram e quebram.quem me dera poder embriagar-lhes a sombra,desatar-lhes os nós da vida,poder vê-los andar de novo,e ficar aqui para sempre, neste fim de tarde,compensando a minha completa falta de rostocom a tripulação dos meus dedosfingindo sobre a máquina fotográfica.
  4. 4. METROPOLITANO[aos que sabem ouvir]no metropolitano do ouvidoo ritmo da minha inconsciência:os subúrbios do poema que são mais seguros,o desperdiçar de sentimentosnas complicações de uma velhaidentidade, um método ludovico,o centro de uma cidade que andasobre o seu congestionamento.[uma nova carruagem chegacom destino ao braço esquerdoe a uma acção simples].creio que ouvir pode ser falar com o ouvido,e falar com o ouvido pode ser devolvertotalmente esse sentido.finalmente oiço o grito de munch,é encorpado, com textura de sílex,eternamente velho num ventre de silêncio,e não enterra quaisquer lamentos.[uma nova carruagem chega, sem destino].fecho os meus olhos.
  5. 5. PERFÍDIAIncrível como se amaqualquer animalrecém-nascido.por isso, aindaque em vão, amamoso amor quando nasce, esseanimal que em criançaalimentamos,e que um dianos comerá o coração.
  6. 6. CORAÇÕES DE PLENILÚNIOQuerer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa,/ as tâmaras,a voz da grande Kolthoum vinda de uma / janela num cântico apaixonado ao NiloVictor Oliveira Mateusa entrada secreta é breve comoa abertura dos lábios meramente à PALAVRA.a necessidade de uma necessidade geraa incompletude que produz o néctarno coração feminino de plenilúnio.as folhas no ar conduzem borboletas inatmosféricas,o vento conduz o ódio que a criação retémnum fio de silêncio atravessandoa transparência oculta da matéria.a entrada da espera é brevee emancipa um segredo que ainda se fundenas membranas de uma tentativaassertiva e ovípara de coerência.esperar por ti é esperar que o primeiro finalda história que ainda corre num só catetote desiluda como um relógio que pára,um gato subitamente fusco, ouum verso mau do nosso poeta preferido.
  7. 7. MAJESTICe não há uma só repetiçãoque se cruza com uma primeira vez,e alguém que deixa uma beleza em prol de outra,o desamor de um amor culpado,uma eternidade invertida,o cansaço invisível num homoponto.e não há uma dor que sobe aos dons,e um inverno rigoroso que é o pudor do verão[e talvez da primavera],e os líquenes de uma canção por gestos.e não há corações num frappé[é, porém, lindo o majestic]sobre uma travessa de uvaspassando nas ruas dos dedos que emparedamo sangue oculto mas lilássob o movimento dos astros da pele.e nenhum segredo desperdoa todo o tempo,e não retiramos as minas de tacto sobre o mapa da cidade,e nunca regressaremos aqui, antesdissolvemos agora o rasto do seu infinito.e diz oscar wilde que o inverno traz consigo a sabedoria,e eu ainda espero que vague uma mesa.
  8. 8. A DENSIDADE DOS SISTEMAS[aos perfeccionistas]o onde é demasiado denso para o quando,o quando é demasiado denso para o quem,o quem é demasiado denso para o o quê,o o quê é demasiado denso para o porquê.rejeitar as coisas que não tensé acender o rastilho do tempo que resta,a densidade comparativa dos sistemasdestruí-los-á um por um:primeiro o espaço, depois o tempo, depoiso facto consumado, depois as dúvidase finalmente as explicações infundadas.- e nós?- nós acabaremos por subsistir no territórioda alma, sem densidade alguma.
  9. 9. MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA[ensaio sobre celebridades]com as rugas escondidas de uma distância esticada,o útero mudo, uma língua fóssil, a emoção mortífera.o seu fruto é frígido, o seu todo tem as partes por unir.as alíneas do seu índice são duvidosas e a músicaque lhe enche o quarto é de vinil branco. o seutempo não tem a densidade que o nome exige,apesar de ninguém o saber. dos seus olhos saemporcelanas, o seu inverno é subterrâneo, a sua históriaconta-se por carta. no seu exílio conheceu genteque traduziu goethe e hölderlin e lhes acrescentou versospor graça. os seus erros nunca couberam dentro de versosporque o seu coração sempre mudou com as novasgrafias. nunca ninguém colocou um dedo que fossenas suas feridas porque sempre as soube esconderfora dos locais do rosto. o seu sigilo tem a duraçãodo olhar, e este, sem distinguir planos, descontinuaa discrição dos movimentos dos outros. o seu infinitooscila na memória inconsciente, a sua água évaporizada com as sombras do corpo contra a luzquente. o seu alheamento é um pequeno subúrbioonde os carros não passam e o passado das pessoasque lá vivem fica na grande cidade. a sua imaginaçãoé solitária, a sua razão sempre extirpou a matéria fluida.as suas pétalas são autónomas em relação às flores,as suas cores envelhecem como se por esse factodeixassem de ser úteis. a partir de certa alturaa sua natureza torna-se sonora e inexprimível, eas suas obsessões são indefesas e frágeis. rilkeum dia escreve-lhe uma carta que veio devolvidae nela constava um poema escrito à mão e pingosde suor nocturno. todos os seus princípios eramoficialmente os seus fins, e o silêncio do públicoestranhamente o fazia notar ainda mais. até que elamorre, morre mais do que a lei da vida, e o seu abismocontinua exuberante. apesar de ter vivido uma vidacorrosiva, ela permanece como um protótipo, porqueas pessoas não vêem as pequenas coisas, porque aspessoas não se revêem nos equilíbrios, porque as pessoasparecem sobreviver quando alguém morre, porqueas pessoas apenas sabem ver ao longe.
  10. 10. O TERRAMOTO[a uma pessoa intemporal]querida joana, o terramoto apanhou pessoas que faziam amor,pessoas que morriam de uma causa lenta e dolorosa,pessoas que celebravam contratos com apertos de mão,pessoas com instrumentos na terra fértil,pessoas que faziam de conta, pessoas sem relógio.os que faziam amor perpetuaram-no, os que morriamviram a sua morte impedida por uma colectiva e mais bem aceite,os que celebravam contratos perderam as mãos coladas,os que trabalhavam na terra fértil foram soterrados,os que faziam de conta procuraram cumprir uma promessa,os que não tinham relógio escaparam ao tempo.meu amor, sermos egoístas é tentar impedir que as coisas mudem,sermos intensos é não respeitar causas e efeitos,espero-te no meu futuro, ainda que ele não sejao efeito directo de um presente que ainda treme muito.
  11. 11. SUBMERSÃO[a uma pessoa demasiado especial para ser compreensível]sem desatar o nó de cegueiraou deixar cair o pano,direi que a submersãochegou ao ponto de nos acharmosdois estranhos sem tactonum dos milhares de pontos.de.vistado fim, esperando a esperançade um próximo começo.
  12. 12. AUNG SAN SUU KYImontemos o circo. façamosde conta. deixemosque o sonho acorde e confesse.sintamos todo o impactode ver as palavras de peletomarem formae rédea de coisas lúcidaspresas no desejo de um pequeno erro.o nosso coraçãoé a nossa cabeça, e para sermos felizes,ou temos sorte,ou somos brilhantes.somos romeu e julieta,reféns perfeitosde todos os sonhos.
  13. 13. GESTAÇÃO / POEM IN PROGRESSa ecografia morfológica está bem,as medidas estão certas,o poema está com um quilo e poucoe tem trinta e dois centímetros.daqui parece perfeito,sei que não tem hidrocefalia,nem lábio leporino,ou cataratas congénitas.eu vi-o mexer-se bem no fundo do seupré-destino morale todos os seus significadoscontinuavam inteiramente livres,o seu autêntico deliberado,e os seus acontecimentos espantososimpondo ao sonho as excepçõesque ele necessita para ser credível.para a semana far-se-áuma amniocentese, e se porventurao líquido estiver contaminado,sou capaz de tomarpirimetamina, sulfadiazina e ácido folínico.
  14. 14. LICITAÇÃOPode um homem enriquecer a natureza com a sua incompletude?Manoel de Barrosnão sei o que escondeo silêncionunca o entenditalvez sirvapara leiloar sentimentossim, deve serexactamente issoque acontece -e a licitação mais baixasempre vence.
  15. 15. CONCEITONo vazio leve das miragens, esconde-se, / nas vindimas da noite,/ o corpo dormente da eternidade que rebentaMaria do Sameiro Barrosopara viveres, lembra-te, só precisasde um conceito.e depois sabê-lo, sem contudo o decorar,e constatar que éimpossível guardá-lo,porque digamos que é impossívelguardaro que deve ser maior,bem maior do que o que somos.isso a vida, podes ir,tudo o resto émeramente científico e teórico.um dia encontrar-te-ásnum tempo com o teu rosto velho,desaparecendosobre todo o alimentodo espaço que ainda cresce.
  16. 16. COTOVELOS SOBRE A MESAinvisíveis luzes estão acesas.vejo o andré, ofundador, desintegrando as direcçõesdo tempo sujopassível de ser reciclado em boa arte.o mário, ode vasconcelos, enfia a rosto na cabeçae engole as sombras disponíveisdos alimentos citadinos mas rugosos.o antónio, o de maria e o de lisboa, sorri comoaparece na capade um livro póstumo (consultem-no)e crê retirar aos poucoso ar aos insectos que circulam.do outro lado oalexandre, o de oneill,ergue-se em direcção a uma dascasas-de-banho de que o mundo, contiguamente,é feito.mas vendo bem as coisas,talvez segundoum intervalo quadrangular,este meu trabalho do olhardirá apenas respeitoao meu poema. o que lhes interessará a elesé que uma vez chegadosao surrealismo reflexo do seu público anonimatocada um escreverá o seu.
  17. 17. HÍMEN DO TEMPOimpossível, e nesse impossível uma forte sensação de possível, ospoetas que morrem dentro de aves, os sons que se ouvem no ar,transformações de palavras, palavras de palavras. impossível, enesse impossível uma última sensação de possibilidade, todo otempo em simultâneo suspenso, consumido o espaço com amesma aleatoriedade do sangue que narra.
  18. 18. 03032007no livro que me foi emprestado -uma edição de poesia de novalis -vinha uma notamuito ténue a lápis tremendo. diziaprocuro o último livro deruy duarte [de] carvalho - de que nunca li coisa alguma -e encontro este, que procureihá dias sem encontrar.vinha datadoe escrito assim: 03032007.não vinha assinado, nem a caligrafiapertence a quem mo emprestou.e estes factos, lentamente suspensosna superfície móvel da memória mais imediata,impuseramno mapa sem rios da minha leituraum sentido extremo de ficção real.
  19. 19. UM POEMA COM FORMA ESTRANHAalargar [anota aí]a imobilidade depois de ver a rapidez das sombras,uma [filma, filma isto]existência não expressaé maisverdadeira. só ele [tira a máquina da chuva]saberia comofazer passar o seu corpo por cima de si mesmo,por fora da música, do [que música é esta?]karma, sobre as nuvens [um, dois e terês] fixasde cor profunda [ele éo poeta dos íssimos, mas shiuuu]tudo o que lhe odeiam [ele temtrintae nove de febre e toda a genialética]é tudoo que eles gostariam de ter,ele que sabe como resumir todo o silêncio a só um começo.[corta. repete]
  20. 20. JOHN UPDIKEmorreu sem um critério rigoroso.não se poderá dizer que tenha sido a lei da vidaou a lei da morteou uma derradeira e infinitacomposição da urgência.hoje morreu-lhe o corpo, morreu porque assimdisseram os médicos, porque assimdisse o seu pulso frágil como o equilíbrioda terra, e porque agora é o tempo que o respira.hoje morreu-lhe o corpo, repito em voz alta.e isso é tudo o que,da perspectiva da nossa memória incompleta,precisamos de saber.
  21. 21. PARA O BEM E PARA O MAL[autobiografia]para o bem e para o mal / eu sou o tiago nené e nasci / dentro domeu corpo, muitos dias após o meu nascimento. / não posso maisser outro, estou preso / ao solo de mim mesmo, perdi as clarividênciasque me pertenciam / quando eu próprio lhes era imensamenteimperceptível. / para o bem e para o mal / o meu apelidonão é comum, e morfológica / e espiritualmente me remete bem lápara o começo, / ao átrio das coisas novas e palpáveis / com orelevo móbil do coração bem saliente. / para o bem e para o mal/ uso uns óculos ralph lauren com uma armação / castanho-escurae uma graduação de quatro, / repito, quatro dioptrias em cadaolho. / porém, ainda há aqueles que me conhecem, ou conheceram,/ sem óculos, com os olhos profundos directamente sobre /as suas almas furtivas, e os seus olhos densamente / sobre osmeus, onde as minhas lembranças de ontem são / impressas nospoemas de hoje. / para bem e para o mal / eu sou de facto o tiagonené, / posso prová-lo, posso exibir o meu / bilhete de identidade,submeter-me a análises de sangue, / ou caminhar elegantementesobre a rua. / e há quem ame e quem deteste, / quem ache simpáticoou estúpido, / ou ainda quem me condene por soltar os cãesdentro dos poemas de amor. / na verdade, / e para o bem e parao mal, / eu sou tudo isso, / mas se tivesse de me definir ou redefinir,diria / apenas que sou aquele que agora resume a vida / numagorda miserável, / espremível como uma laranja / cujo sumo resultarámuito azedo.
  22. 22. REFEIÇÃO COMPLETAtalvez não queiras um amor absoluto,mas uma só refeição completa.podes comer-me as pernas,os braços, o fígado à florentina,e os dedos dos pés al ajillo,ou talvez encontres o peixe quevive dentro do meu sangue.não é verdade que assim morra,diz o livro que não podemos viver sem amor,e podemos morrer sem amor?o amor é o momento,e o meu amor é passivo, são as tuashipocondrias nos meus órgãos,os teus dentes exemplares nas minhas praçase a misteriosa velocidadesó de imaginar o que digo com a convicçãoe ordem com que o exijo.fá-lo, fá-lo, fá-lo, fá-lo.chegarás à côdea do meu coraçãode três dias lentos. afinal,não precisas de um amor absoluto,mas de uma só refeição completa.
  23. 23. O SONHOe cobri o rosto sem preterir as coresESPAÇO & TEMPOos lugares estão vivos quando conduzem a outro tempoMAPPUGGHJEpartiram aqueles que precisam de regressarMOTS-VALISEincrível como são os olhos com sedeos que deixam cair a água.
  24. 24. KARMAe duvidamos dos instantesmas não de todo o tempo,dos versos mas não da poesia.se alguém nos disserque o tempo parece uma cascata de céusacreditamos mais facilmentedo que se alguém disserque nos ama.e acreditamos nos poetas,e não naqueles loucosque dizem que uma pessoase mata muitas vezesse tiver muitos corpos. e duvidamosde certas palavrasmas não de todas as combinaçõesentre sílabas. acreditamosna geração do movimento masnão conseguimos sair do meio do caos.e acreditamos nos tirosque acabámos de ver partirmas não que estamosprestes a morrer.
  25. 25. O TRIÂNGULO DE SANGUEAs palavras / não dizem o mundo / dizem o desejo /de dizer o mundoLuís Enenão fiques lento perante o imóvel,instala num triângulo de sangueuma pequena rua.deixa essa rua açoitar o sangue que correparado no seu asfalto.não isoles os teus sentidos, não os atirescomo pedras.ninguém suspeita se apenas viveressegundo o rigor da tua arte.sê perpendicular às tuas fugas,corre e apaixona o mundo.
  26. 26. DOUBLE FANTASYI just believe in me, Yoko and me, and thats reality.The dream is over, what can I say? The dream is over.John Lennondeus é uma distância profunda sem corpos que a meçam.a minha presença é uma boca invulnerável à matéria.EU contraí a minha força e saúde militares,eu desenhei uma maçã no mapa-múndie fechei os olhos com violência com o propósito de a engolir.a minha mão operou o impossível no sono feérico,nele clarificou as pontes destruídasentre os meus principais pensamentose mais tarde haveria de se cruzarcom um mark chapman de olhos vermelhose o DOUBLE FANTASY debaixo do braçoouvindo a pestilância que vinha do dakota.está uma noite espontânea e o paul goresh não registaránada que neste momento só pergunte.a noite, digamos, é da cor da dança invisíveldos dentes mudando de posição quando a bocase fecha para ESCUTAR apenas.cinco tiros rasgam o ar e o sonho acaba. a noiteperdeu o túnel por onde passava a sua fantasia.
  27. 27. SINFONIA DAS NUVENSeu acho que te amo, disse.como se o amor,o verdadeiro amor,admitissealgum tipo de dúvida.
  28. 28. CIDADE SUBJECTIVAe depois existe uma cidade subjectiva(sem casas)e observa-se no arum copo de whisky gigante, ouvem-se vizinhos furtivossobre a sede rígida,e emagrecem as palavras que riscam a parede, descreve-sea memória cautelosamentee sazonam-se as vozes que vão escurecendonum buraco de energia.e faz-se silêncio e não há luz na mão.[e o futebol não pára(um jogador vê o segundo amarelo e voltapara o geral subjectivo)]e por fim,uma última corrida à tona de um semi-sono vivo,a solidão de um golo.nasce então o esquecimento de uma alegria(violoncesca)de noite, luzes e transpiração.
  29. 29. A HORA IMPLÍCITA[a uma pessoa que vive na direcção da sua vontade, em horasimplícitas]todos os acasos são subterfúgios, por exemploeste silêncio é mais lento quea cabeça que o absorve, fendendo em mim uma página em branco.[e chove] foi precisotransformar-me em chuva para que as minhas lágrimasadquirissem a velocidade que condissessecom a condição antológica do meu estado.[e dá-se uma transfusão de estações do ano por detrásdo branco da página] - um ajuste de contas é circundante,um abraço cheio comove os nervos dos braços vazios.através de mim passa o meu corpo, eu vejo-o,a carne é um gueto escuro, a sua sombra um centro falsosem gravidade,o equilíbrio deu à luz o intervaloque desliga a luz das palavras íntimas - espalho-me por cadasua raiz que me trouxe até aqui.[e começo de novo, e alimento-me de mim mesmo]ainda confundo poesia com amore um amor nato e frio com um sorriso radioactivo e dolente,[só os ecos das palavras absolvem]e um sorriso radioactivo e dolente com a certeza absolutae magnífica das coisas que dançam com submarinos no sangue[a morte ainda nos espera longe:dará uma vida poeticamente configurada uma morte lírica?]e no meio de tudo, [retomo], desse silêncio mais lento que ocoração que o absorve,a ideia de que um homem inteligentejamais colocaria as coisas do seu ponto de vista.[e limpamo-nos um no outro]e regressamos na ficção da boleia do pensamentocerteiro de alguém que passa no momento em que nos ocorreque seria suficiente fazer uso do potencial pandémico deste amorpara acabar com tudo e impedir o regresso e o progresso.[e a nossa lembrança conjunta, no tempo justo e diurno,é a única que ainda cresce no jardim da memória.e a chuva cessa, o sol espreguiça, são seis em ponto,o frio de palavras inaudíveisescuta por entre a respiração ofegante de um corpoque rasteja devagar até mim.]
  30. 30. FAZ DE CONTA[a uma mulher bonita]faz de conta: quea festa acabou, a felicidade continua,e nós ainda escolhemoso vocabuláriopara nos cravarmos os dedosna pele móbilcomo o tempo que nos esquecesem fazer de conta, semgerminar ou colocar a nossa belezaconjunta na ambiguidade de uma bocamaternal,sem umas mãos que nos exoneremda linguagem indiscutível,veneno azul,que nos aproxima os silênciosque hão-de vire as artes materiais dos fármacos.
  31. 31. CAMPANHAo candidato não deve preocupar-secom certas questões,são quinze dias terríveis,e isto não é uma equipa de futebol.aqui não há artistas e ainda temosuma lacuna no terreno: não conhecemosnem a ti maria, nem o zé bois,nem boa parte da populaçãode risco ao H1N1e possivelmente resistente ao tamiflu.precisamos de mais gente,e o voluntariado está difícil nos dias de hoje.aqui todos têm opiniões,[o mandatário projecta-sedentro de si mesmo, por entre o silêncio que anteslhe esculpiu as feições]há uma técnica de comando e controlo,um yin e um yang,e temos uma auto-estima muito prodigiosa,fortemente disciplinados quantoà delegação de competênciase dinâmica de grupo.por isso não entendocomo é possível passar-se à noitede carro pelo concelhoe ver-se o candidato a colar os cartazes.
  32. 32. TAXONOMIAa verdadeira taxonomia dos génerosremete-me para a obra de ilmar laaban,rumores claros ao arquivar o som.e eu escrevo,os vizinhos queixam-se da minha autonomiae independência sonora,do modo como bato os ovose concebo uma omelete de som e cassandra.algumas pessoas circulam em mimdescalças com os pés na água índigo,preocupadas com a estéticade um discurso ilógico sobre os bunkersde uma identidade ocidental,pessoas experimentaisque discutem a feminilidade em silêncio,não entendendo nunca o papelda tecnologia na poesia, o seu mestradosobre a memória contemporâneados meros corpos, e o elo perdido dosvanguardistas sem contextofobiasporque os seus diplomas arderamnoutros obstáculos biográficos.i must be free now i must be free nowand should not hesitatei should go now but instead insteadinstead theres i meanhá um século xxi por ensaiare um futuro neo-deterministaa colocar de costaspara a minha performance pletórax.e eu bato, continuo a bater os ovosaté ver uma gueixa a tocar shamisene eu mato, e me uso comparativamente,doo-me como um revólver quente,e eu morro, e eu escrevo, e eu sinto.
  33. 33. POEMA DE BOAS-VINDAS AOS MOTARDS NA28.º CONCENTRAÇÃO INTERNACIONAL DE MOTOS -CIDADE DE FAROvêm em duas rodas, as vísceras sincronizadascom a mão direita, pensam que o futuroé tudo o que se esquiva ao passado.desmentem verdades absolutas,instalam fantasias no lugar de medos,transgridem regrasem prol de uma verdade indecisa,picoteiam suavidades como dúvidas remotas,redefinem caminhos, nem semprecientes do risco.a sua ilusão é redundante por opção,não precisam de falsificar a urgênciaporque a sua gravidade se perde por si só.pulverizam a cidade de faro pelo verão,o seu barulho incendeia um próximo regresso,enquanto o seu amor vem em pequenos monopólios.e selam abraços de cerveja multicolorcom os seus olhos invisíveis, desaparecemtão rápidos quão ubíquos como um tiro de luz.
  34. 34. ÉRAMOS TÃO NOVOSDespertei com a tua ausência tão mal sintonizada como sempre, /Como sempre repleta de café morno queimando os meus sonhos.Celia Léonéramos tão novos,explodíamos por tudo e por nada,lembrávamo-nos de existirem cada pequena coisa,atendíamos telefones públicos,incendiávamos o silêncio com um grito,adorávamos que nos invejassem,bebíamos veneno para dormir.a memória era costeira e mecânica,havia búzios em nós, o som perfeito, esculpidode uma cidade esvaída,da tímida perspectiva do mar.e só o não saber nos marcava as horas, cada minutodesprendia os corpos mútuos,o repetido fim interrompido ia bebendo o resto do tempo.
  35. 35. PROTOCOLOkyoto, pulmões de ferro,picar o ponto a:delírios minúsculos,seguir a linha dos pássaros,feridas dissemelhantes,ruas emparedadas no interiordos teus canais,aproximações da inocência,distância entre sangues marítimos,respiração húmida do beijo frondoso,óculos de um gandhi-flipperficcionado num olharque ainda caminha,cintila numa cor ocade clarividência irresponsável,evidencia a árvore íntegrapor cima do teu lábiofazendo o mar ciciarnos pulmões de ferro,na tua cabeça livre,no teu suave azul solúvelgotejando isenção,libertando substância subtil e dúctildas coisas meramente ténues,essas coisas, esse hábito volúvel,esse protocolofragilmente feroz, fictício, nu,flora no interiordo teu corpo ausente e frio.
  36. 36. TEORIA DO FIM[a Graciela Perosio]não sabemos o caminho de regresso / ao nosso começo.talvez nos tenhamos perdido / no infinito caótico da criação,o infinito no rosto que muda / noutro infinito que ficano sorriso que intui. / tirámos todo o silêncio / dasentranhas da terra para saber que a nossa estadia mútua /é uma marioneta nos reflexos de um e de outro, /sendo queaqueles, os reflexos, estão condicionados pelos espíritos, signos,ou pela maneira peculiar e inata / de se comer uma laranja azul[mas isto, claro, é uma mera suposição].não sabemos o caminho de regresso ao nosso começo, /é esta a questão. / talvez porque não seja o mesmo, o caminho, /talvez porque este não esteja exactamente no mesmo lugare se tenha transformado num verso [num verso em linha recta],talvez porque o começo esteja noutro lugar ou tenha havido doisque se cruzaram, enlearam e perturbaram,ou talvez porque o fim tenha simplesmente mudado de lugar.[e tudo isto, claro, são meras suposições]
  37. 37. EPÍLOGOImpressiona que um escritor tão jovem produza primeiras obras tão especiais. Talvezimperfeitas (como todas), mas, sem dúvida, especiais. Recordemos que Tiago MiguelSerrano Pereira Nené (Tavira, Portugal, 1982) apenas havia publicado um livro emPortugal e poemas avulsos em revistas literárias de Espanha, Portugal e México. Eespecifico: a obra que tem em mãos o leitor versa sobre um dos temas poéticos porexcelência: o homem situado dentro do espaço e do tempo. O normal nos poetas jovens,talvez devido à sua aprendizagem, é que comecem com poemas onde o eu pessoal seconfunde com o lírico e tratem temas menos substantivos como o amor passional. Noentanto, Tiago aproxima-nos do espaço/tempo sagrado por excelência, os centroscomerciais (ainda que virtuais). Talvez não sejam, na actualidade, estes centros, lugaresque substituíram os templos. Lá, cumprimos os nossos rituais de consumo enquanto otempo se demora. O que é o espaço, para Tiago Nené? Será um espaço arbitrário,caprichoso, ideal? Aventuro-me a responder que não, que o seu espaço tem por objectoo mais cruel do real quando se aproxima do Aberto segundo a concepção de Rilke.Talvez não seja assim quando nos diz: desaparecendo / sobre todo o alimento/ doespaço que ainda cresce.O poeta concebe o espaço, como o faria Ana Hatherly, como um território-tempo quecontém toda a luz do mundo, intervalo por onde desliza o pensamento imaginandoimagens numa cosmovisão de sentimentos, paixões e arrebatamentos. Porque o poeta,ainda que duvide, nunca é neutral com as palavras, e somente através de imagens entraem comunicação com o indizível. Segundo Bachelard, a função fenomenológica daimagem poética é a sublimação que opera mediante a mesma e que se expressa pelaabertura de um estilo único: “captar a imagem do ser na mesma brevidade efémerade sua ontologia”. Não será esse o preciso sentido do poema que inaugura o livro ondeo autor se confessa coleccionador de imagens graças a uma câmara fotográfica? Aindaque em última instância nos confesse que “a confusão inicia-nos as fugas /…/ todas ashoras que a bem ou a mal singram e quebram. / quem me dera poder embriagar-lhes asombra, desatar-lhes os nós da vida”.Uma parte do nosso universo é luz, mas tal não significa que haja vida. Para o poeta doalgarve Tiago Nené, um espaço está vivo se conduzir a outro tempo, o que é dizer ocontrário do que acontece nos centros comerciais: esses espaços que atrasam o tempo epara ele se iluminam com uma luz difusa, uma luz eléctrica que não produz sombras.Mais do que templos os poetas nos fazem lembrar túmulos, mausoléus ou velórios. Edaí o diabólico e o numinoso, que é quase o mesmo, destes espaços. Talvez estejamosdentro de um espaço sem hímen, onde o tempo suspenso nos diz: “está num não-lugar.Ainda que sorria por o estarmos a filmar para sua segurança, actue como se nada fosse,controle as suas emoções e não se esqueça de passar pelo duty free…” Ante estasituação o poeta busca essa plenitude impossível de conseguir. Talvez inspirando-se nopoeta brasileiro Manoel de Barros, busca a sua “incompletude” através de um processoque consiste em desaprender: desaprender oito horas por dia ensina os princípios.Assim se nos revela outra parte essencial deste livro que nos fala da ânsia de plenitude,da fome lato sensu, entendendo por fome “essa falta espantosa do ser, esse vazio quetortura, essa aspiração, menos à utópica plenitude que à simples realidade” (AmélieNothomb). Num estilo febril, com quarenta de febre, omitindo maiúsculas em nomespróprios e depois de ponto final (e que falta faz, não somos tão importantes quantoisso), o poeta trata de descobrir as zonas de espanto do espaço, do amor, da comida, dotempo nos seus começos e no seu fim, febril como a caótica viagem de um anti-herói donosso tempo, febril como uma má digestão que perdura demasiado tempo.Esperemos que Tiago Nené não demore muito a oferecer-nos novos poemas empróximos livros.Jack LandesHuelva, 30 Outubro de 2009

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