Estórias com sabor a nordeste

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Estórias com sabor a nordeste

  1. 1. Regina GouveiaEstórias com sabor a Nordeste
  2. 2. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaPrefácioNo Prefácio de “O Fogo e as Cinzas” Manuel da Fonseca diz: Ficção constrói-se com oque fica do passado. Revive-o.É um pouco esse reviver do passado, de uma vida de mais de meio século, que emergeem Estórias com sabor a Nordeste. As personagens podem ter sido inspiradas porpersonagens reais que conheci no Nordeste Transmontano, mas também em tantosoutros lugares por onde tenho passado e /ou viajado, por personagens reais ouimaginárias de que ouvi falar à volta da lareira, nos serões ainda iluminados à luz dopetromax, ou simplesmente por personagens que entram em nossas casa através dosjornais, do ecrã da televisão, dos livros que lemos.Também os cenários, embora virtuais, são inspirados em locais reais. Não será difícilreconhecer no Rio, o rio Sabor, que Stº Estêvão teve como inspiração o Stº Antão daBarca, que a Terra nos transporta para a freguesia de Parada e que a Vila teve comoinspiração Alfândega da Fé. Com cenários e personagens fui construindo estórias, oumelhor, recriando histórias e estórias que foram passando, algumas de geração emgeração, quem sabe, “assopradas” pelo vento cieiro….Mas porquê esse reviver do passado?Um dos meus passatempos favoritos é, desde criança, a leitura O gosto pela leitura foi-me incutido principalmente pelo meu pai. Desde sempre me lembro de o ouvir ler-meexcertos de textos ou poesias (Camões, Guerra Junqueiro, Júlio Dinis, Camilo, VictorHugo…) . Não sei se lia bem ou mal, sei que ouvi-lo me fascinava e comovia ao mesmotempo. Um dia decidi aventurar-me na escrita, que foi secreta até há cerca de trêsanos. Em 2000 tinha sido editado, pela mão da Areal Editores, um livro da minha autoria“ Se eu não fosse professora de Física. Algumas reflexões sobre prática lectivas” Um dia,a Drª Maria do Carmo Cruz, em conversa, disse-me que já tinha oferecido o meu livro avárias pessoas. Fiquei um pouco intrigada. Por que razão uma pessoa licenciada emGermânicas, oferecia um livro que falava do percurso e da experiência de uma 1professora de Física? A resposta vou buscá - la directamente a um texto seu:E uma obra sua explicando como se tinha tornado professora, entretanto publicada,mostrava como a sua prosa era igualmente poética. Não podia deixar de lhe perguntarpor que não escrevia Poesia…..:" E quem lhe disse que não escrevo? " Tinha que a ler eem breve tive o prazer e a honra de ter em mãos os seus escritos. Li-os com um certo1 (Extractos do texto de apresentação da autoria da Drª Maria do Carmo Cruz e que consta da colectânea Tempera(Mental),na qual foram incluídos seis poemas meus) 2
  3. 3. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaespanto: eram tão reais, falavam das coisas de todos os dias e, ao mesmo tempo,mostravam-nas de uma forma que nos permitia vê-las como se pela primeira vez.É, pois, em primeiro lugar, à Drª Maria do Carmo Cruz que devo o ter ganho coragempara dar a conhecer a minha escrita. Comecei por participar em duas colectâneas depoesia e por fim decidi-me a publicar sozinha. Foi assim que surgiu, em 2002, o meuprimeiro livro de poemas “Reflexões e Interferências”, em co-edição com a EditoraPalavra em Mutação.Incentivada pela aceitação que os meus poemas tiveram, muito para além daquilo queeu esperava, ganhei coragem para continuar a escrever/publicar poesia e dar a conhecera prosa. È assim que surgem Estórias com sabor a Nordeste. Poderá parecer estranhoque tendo começado a publicar tão tardiamente, surjam agora várias publicaçõespróximas no tempo A explicação, se é que existe, talvez possa ser encontrada numpoema de Manuel Alegre.…. E no entanto o tempo agora é de corridacontra o tempo se corre contra o tempocontra o tempo se corre e assim se morreem frente ao mar olhando a desmedidadistância entre a tão curta vida e o amor dela…..e todo o tempo agora é contra o tempoe mesmo sem correr só há corrida.(Canção do tempo que passa, in Alegre, A.(2001), Livro do Português Errante, D.Quixote)Porto, 12 de Abril de 2004 3
  4. 4. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaÀ memória: • de meus pais, muito em particular à de minha mãe, • dos meus tios Cândida, António e Júlio.Ao Fernando, a minha segunda memória, ao Miguel, ao Nuno, à Teresa e à Rita.Ainda aos meus irmãos e à memória duma nossa antepassada castelhana que inspirouuma das personagens que atravessam estas estórias 4
  5. 5. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaDebaixo dos sobreiros Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Miguel Torga , em “ Um Reino Maravilhoso” 5
  6. 6. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaEsta é a estória de uma família. Dela existem vários testemunhos. Alguns são tãosimples como um lenço bordado, um hissope ou uma luva desgarrada, mas há dois quese destacam: a CASA e o chão debaixo dos sobreiros. Chamo-lhe estória porque aspersonagens são fruto da imaginação. Isso não impede, porém, que esta família tenha asua árvore genealógica. 6
  7. 7. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia 7
  8. 8. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia1 Meu pai tinha fama de aventureiro. Quando novo, viajara por três continentes, emsituações por vezes rocambolescas. No entanto não foi esse aventureiro que eu conhecimas sim um homem sem a mínima vontade de sair para qualquer lado. Era lá na TERRAque ele se sentia bem. E acontecia o mesmo com os seus irmãos. Referiam-se sempre àaldeia como a TERRA e quando falavam dela era de uma forma tão enlevada que meconfundia. Apercebia-me quando o meu pai tinha que se ausentar por uns dias; ficavaansioso, tenso e no seu olhar, sempre expressivo, eu notava inquietude que por vezesme parecia insegurança. Quando regressava a nossa casa, a tranquilidade regressava aoseu olhar e dizia: Há lá dinheiro que pague esta paz. Lembra-me a CASA.Sempre que o meu pai ou os meus tios se referiam à casa que tinha sido dos avós edepois dos pais, chamavam-lhe a CASA. Por vezes o meu pai acrescentava: Daqui só para debaixo dos sobreiros.Referia-se deste modo ao cemitério, que está rodeado de sobreiros. Também os meus tios tinham uma relação singular com o cemitério. O TIO, quevivia em Lisboa, sempre que vinha à TERRA dizia: Não se esqueçam que eu depois quero vir para debaixo dos sobreiros.Creio ter entendido esta relação com o cemitério muitos anos mais tarde. A sepultura dafamília ficava mesmo em frente ao portão. Quando o cemitério se tornou demasiadopequeno, foi preciso ampliá-lo. Nas obras de ampliação foi incluída a criação de uma“alameda” central, pelo que o jazigo teve que ser mudado. Nessa altura já o meu pai e oTIO estavam suficientemente esclerosados para poderem tomar qualquer decisão; coubeà TIA escolher o local para onde a campa deveria ser mudada. Achou que eraimportante consultar-me bem como aos meus primos, filhos do TIO. Para nós eraindiferente a nova localização da campa, mas a TIA queria a nossa opinião. A seupedido, acabei por me deslocar à TERRA. Indicou-me os lugares por que poderíamosoptar e quando sugeri um deles a TIA disse: Não. Os vizinhos do lado direito não são lá muito boa gente.A uma outra sugestão, ripostou: Aí ? Tão ensombrado ? Não, tem que ser um lugar mais soalheiro.Percebi então que a TIA tinha uma concepção muito própria sobre a vida depois damorte e admiti que essa concepção seria comum aos irmãos. Para eles, “debaixo dossobreiros”, deveria representar em morte, o mesmo que a CASA representara em vida.Debaixo dos sobreiros está toda a família: os meus avós Álvaro e Marta, os irmãos desta,os meus tios Clara, Pedro e Adélia, os meus pais, o TIO, a TIA e o marido - o tio Justino.A tia Laura, mulher do TIO, alfacinha de quatro costados, essa quis ser sepultada no 8
  9. 9. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiajazigo da família, no Alto de S. João. Debaixo dos sobreiros estão também os meusbisavós: Isabel Castelhana e Luís Engrácio. Foram eles os primeiros a ocupar o jazigo.2Nunca conheci os meus bisavós mas a sua história sempre me fascinou. A minha bisavóterá chegado a Portugal, juntamente com um irmão, por volta de 1865. Eram refugiadospolíticos. Durante quase todo o século XIX a Espanha viveu uma terrível convulsãopolítica muitas vezes caracterizada pela brutalidade. Por volta de 1830 opõem-se duasfacções rivais- cristinistas e carlistas. Os primeiros apoiam a terceira esposa de D.Fernando, Maria Cristina, regente do Reino em nome de sua filha Isabel II; os segundosapoiam D. Carlos, irmão do rei. As guerrilhas carlistas prolongar-se-iam até quase finaisdo século XIX. Não sei qual das facções a minha bisavó e o irmão apoiavam, apenas seique se chamavam Isabel e Diego e tinham como apelido, Rodriguez. Parece que terãovindo de Castela, pelo que a minha bisavó foi sempre conhecida por Isabel Castelhana.Os dois irmãos ter-se-ão disfarçado de sombreireiros. Como da arte não percebiamnada, sempre que em alguma terra por onde passavam alguém lhes pedia para consertarum sombreiro eles alegavam ter pressa pois tinham de chegar ainda com dia ao lugar dodestino. Num dia frio de Dezembro, terão chegado famintos e cansados às margens doRio, precisamente quando Luís Engrácio varejava uma das quatro únicas oliveiras quetinha herdado de seus pais, numa nesga de terra, junto ao Rio, num local designado porZimbro. Luís Engrácio era ainda jovem (23 anos), mas já marcado por uma vida detrabalho. Ficara órfão de mãe aos 6 anos e de pai aos 10. Dos seus pais herdara apenasa nesga de terra no Zimbro, o casebre onde vivia e a alcunha por que era conhecido. Oseu nome era Luís Pereira, mas como a mãe se chamava Engrácia, foi sempre conhecidopelo Luís Engrácio.Luís Engrácio tinha as mãos engaranhadas com o frio pelo que resolveu acender unsguissos para as aquecer. Foi nesse momento que viu surgir Isabel e Diego. Boas tardes nos dê Deus. Queçam-se aí - terá dito.Foram estas as primeiras palavras que aquele que seria o meu bisavô Luís Engráciodirigiu àqueles que viriam a ser a minha bisavó Isabel Castelhana e o meu tio bisavôDiego Rodriguez. O frio, o cansaço e a fome eram tantos que Isabel e Diego devem teresquecido o pavor que sempre os assaltou pelo caminho - serem identificados,denunciados e apanhados pelas hostes da facção rival. Em silêncio chegaram-se à beirado simulacro de fogueira. Comeram ainda da parca merenda que Luís Engrácio levaracom ele- um cibo de pão com azeitonas e cebola.Casebre que chega p´ra um, chega p´ra três. Passados tantos dias, Isabel e Diegotiveram algo parecido com um tecto para se acolherem, numa aldeia transmontana que 9
  10. 10. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveianunca tinham sonhado conhecer e a que mais tarde os seus netos chamariam a TERRA. Apresença dos dois irmãos, falando arrevesado, levantou uma onda de curiosidade naaldeia à mistura com alguma suspeita. Seguiu-se-lhes mais tarde um misto de admiraçãoe respeito, em boa parte graças à estima que todo o povo tinha por Luís Engrácio. Masao povo, não parecia bem Isabel estar a viver no casebre de Luís. Isabel, decidida dizia: Hombre, que hay! Yo no estoy haciendo nada de malo.Não sei se para calar as bocas do povo, se para arranjar quem lhe fizesse o caldo, se poramor, ou se por ter descoberto que Isabel e Diego tinham conseguido trazer com elesouro e dinheiro, Luís Engrácio resolveu casar com Isabel. Na época, um homem paracasar deveria envergar um capote, mas Luís Engrácio não tinha dinheiro para comprá-lo.Isabel pretendeu oferecer-lho mas Luís não aceitou. Enquanto não casarmos o dinheiro é só teu.Foi assim que o Padre Pimentel casou Isabel Rodriguez com Luís Engrácio, este de capoteemprestado. Os padrinhos foram Diego Rodriguez e Maria Clemente que mais tarde viriaa casar com Diego.Luís Engrácio era um homem habituado ao trabalho; o ouro e o dinheiro de Isabelderam uma ajuda. A nesga de terra no Zimbro começou a aumentar, por compra dasterras vizinhas. O número de oliveiras crescia. Juntavam-se-lhe agora amendoeiras,sobreiros, laranjeiras, vinha, terras de pão, hortas e lameiros. Isabel cria bichos da sedae Luís Engrácio abelhas. São agora um casal de lavradores abastados. Engrácio fala comorgulho de Isabel. É uma mulher sabida- referia, querendo significar que a mulher não era analfabeta.Nunca passara pela cabeça de Luís Engrácio, analfabeto, ter um dia uma mulher que tãobem soubesse ler, escrever, e fazer contas.O casebre, esse já há muito que dera lugar à CASA.3A transformação do casebre em casa foi gradual. Disso são bem evidentes as escadasque sobem e descem para os mais variados compartimentos e o passadiço sobre acanelha. Também não restam dúvidas que a primeira parte da casa a ser construída foia cozinha. Trata-se de um compartimento muito amplo a que se tem acesso da rua, porumas escadas de xisto, com corrimão de madeira. Ao cimo das escadas existe o balcão aque se segue uma porta com um postigo. Num dos cantos da cozinha tínhamos o lar.Ao lar tinha-se acesso por uma portinha de madeira que se prolongava por um conjuntode escanos que rodeavam a lareira propriamente dita. Em dois dos escanos havia 10
  11. 11. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiapreguiças2. Um dos escanos estava encostado a uma parede e em frente a ele existia umoutro, de costas muito altas, por trás das quais funcionava, por baixo a cantareira ondese colocavam os cântaros da água e por cima o louceiro.Provavelmente terá sido esta a primeira versão da CASA. Posteriormente o meu bisavôterá comprado alguns casebres contíguos e a casa foi crescendo. Num dos lados dacozinha abriram-se duas portas que dão acesso a um quarto e a uma sala com varandapara a rua; construíram-se ainda duas escadas: uma que dá lugar ao forro - designaçãodada ao sótão- e outra que dá acesso a um quarto a um nível ligeiramente inferior e quefoi, durante muito tempo, o quarto dos bichos da seda. Mais tarde, do outro lado dacozinha construíram-se umas escadas que davam acesso a três quartos, a um nívelligeiramente superior. Um desses quartos constitui o passadiço sobre a canelha debaixodo qual ficavam a lenha e os carros. Em baixo, a loja (dos bois, dos machos, do cavalo edo burro), a adega, o pio do vinho, o cortelho dos porcos, o forno e o galinheiro.Não sei ao certo quantos anos mediaram entre o casamento dos meus bisavós e onascimento da primeira filha- a minha avó Marta, mas quando a minha avó nasceu ocasebre já tinha dado lugar à CASA, provavelmente não na sua versão final, mas pelomenos na sua primeira etapa de construção. A seguir à avó Marta nasceram mais trêsfilhos - o João que morreu ainda menino, e de quem o meu pai viria a herdar o nome, aMatilde e o Afonso.O meu pai foi o primeiro neto dos meus bisavós. Com eles viveu em criança. Com eles,com a tia Matilde, o tio Afonso e os criados Pepe, António e Artúrio, que substituiuAntónio quando este morreu. Pepe e António eram galegos e se alguém quisesse ver aminha bisavó zangada era dizer-lhe que os criados eram da sua terra. Hombre, yo soy castellana, no gallega.Pepe fumava muito e tinha com o tabaco uma relação quase sensual. O meu pai ficavafascinado ao vê-lo enrolar a mortalha para fazer um cigarro. Uma vez deu um a fumara meu pai, tinha ele oito anos. Ficou tão mal disposto que tossiu e vomitou o dia inteiro.Ficou vacinado para toda a vida. Nunca fumou. Por isso dizia que tinha ficado a deverum favor a Pepe. Artúrio era da TERRA e o seu nome era Artur. Foi a mãe, por nãosaber dizer o nome, que lhe criou a alcunha. O Artúrio fazia os piões com que o meu paibrincava. O Artúrio e também o tio Afonso com quem o meu pai sempre manteve umarelação no mínimo, ambivalente. Penso que o meu pai via o tio Afonso mais como umcompanheiro mais velho, do que como tio. Lembro-me de discutirem muitas vezes, aponto de ficarem incompatibilizados temporariamente. O tema podia ser política, futebol,religião, agricultura, ou qualquer outro, mas se era dia de dar para o torto, tínhamosdiscussão pela certa. Por vezes o tio Afonso terminava aos berros.2 tábuas que giram em torno de um eixo e podem funcionar como mesas de apoio 11
  12. 12. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia Lembra-te de que eu sou teu tio.O fascínio do meu pai pela CASA e pela TERRA vinha desde aquela fase da sua vida,quando menino.Gostava de recordar os cheiros, as cores, os gostos: do pão acabado de fazer, do mel,das compotas no Outono, das torradas (de unto e de azeite, no lagar), do fumeiro (asalheiras, os salpicões, os bulhos, as chouriças, os chouriços doces com mel e amêndoa),das sanchas, das rocas e dos roquelhos guisados, dos míscaros assados na brasa, dosespargos fritos com ovos, das doçarias de Natal (as rabanadas, as filhoses, os milhos, oarroz doce, a aletria, os fritos de jerimum), dos folares na Páscoa (os de carne e osdoces), das sopas de tomate da tia Matilde, das casulas com bulho, do leite das cabrasacabadas de ordenhar, do queijo, do soro, da coalhada e dos requeijões, das “tortillas”,das “empanadas”, dos “gaspachos” e das “yemas bentas” da avó, das frutas ao longo detodo o ano (no Outono as peras, as maçãs, as romãs, os diospiros, os medronhos; noInverno e na Primavera, as laranjas; em Junho as amoras de amoreira, as cerejas, asginjas, os figos lampos, os pêssegos de S. João, as malapas; no Verão as amoras desilva, os melões, as melancias, os figos, as uvas).Gostava de recordar os sons: do toque a rezar3, da escacha da amêndoa, do crepitar dalenha na lareira, do chiar dos carros de bois e do passar dos machos na rua, dos homensa pisar o vinho, do ferrador a ferrar os machos, do ferreiro a malhar o ferro, dos sinos daIgreja na Páscoa e nos casamentos, das vozes na rua ao lusco- fusco, do azeite a estalarnas sopas de xis, do chiar do porco na matança, do cantar do cuco na primavera.Gostava de recordar os animais: os bois (o castanho e o manso), os machos (o carriço eo amarelo que faziam brrrrrrrrrr na loja, por baixo do seu quarto), os porcos e os leitõesno cortelho, as galinhas, os perús e os galos no galinheiro, o gato Simeão e a gataBaronesa, o cão preto e o cão grande, as andorinhas que faziam os ninhos debaixo davaranda da sala.Gostava de recordar as suas brincadeiras de menino: pendurado nas engarelas doscarros, jogando ao pião, à rodinca e ao espiche, trepando às árvores para apanhar osninhos, apanhando formigas de asa para montar as costelas aos pássaros, trincando ocarambelo nos dias de muito frio, correndo atrás das canas dos foguetes na festa de StoEstevão.Gostava de recordar os rituais, particularmente o da matança do porco.Gostava de recordar a feitura do pão, do fumeiro, dos folares, do queijo, do azeite, dovinho, da aguardente e do sabão com soda e borras de azeite.O seu amor à TERRA foi-lhe incutido, antes de tudo, pelo avô que ele adorava. Nunca iaao Zimbro que não dissesse com os olhos rasos de lágrimas:3 toque das Trindades 12
  13. 13. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia Quantas vezes vim aqui com ele. Aos doze anos eu já sabia podar, enxertar, crestar.A sua relação com a avó era mais distante. Quando lhe perguntava por que razão tinhavindo de Espanha ela, que nunca se acostumou a dizer o seu nome em português,respondia: Juan, no me gusta hablar de eso.Dela lembrava essencialmente que lhe ensinou as primeiras letras e que era quem ocastigava quando fazia tolices. Quando era castigado, o avô sofria mais que ele. Quantasvezes, ao sair para o campo voltava atrás e dizia: Isabel, tu não ralhes com o menino.Quando o meu pai tinha doze anos, morreu o meu bisavô e logo depois a minha bisavó.Dizia o meu pai que morreram de desgosto com a morte da tia Matilde. A tia Matilde era,no dizer de meu pai, a rapariga mais bonita das redondezas, mas era doente. Tinha umproblema de coração. Aos 19 anos começou a namorar com Luciano Almeida, um jovemda aldeia. Consciente da sua doença, resolveu ir consultar um médico ao Porto, ondeminha avó Marta vivia com o meu avô Álvaro, ajudante de escrivão de Finanças. Aviagem era penosa. O meu bisavô levou a tia Matilde, a cavalo, até ao Pocinho paraapanhar o combóio. No Porto, era suposto estar o meu avô na estação, à espera dacunhada. O meu avô não pôde ir pelo que pediu a um colega que lhe fizesse esse favor.A tia Matilde ficou muito aflita quando não viu o cunhado e mais ainda quando se viuacompanhada por um desconhecido numa terra, que só pelo tamanho já era de siassustadora.Fosse pelo cansaço da viagem, fosse pela angústia da chegada, no dia seguinte àmesma, a tia Matilde faleceu com um ataque cardíaco. A avó Marta, que estava grávidapela quinta vez, perdeu a criança e a tia Matilde, em vida, não chegou a regressar àaldeia para casar com Luciano Almeida.4A avó Marta casou com o avô Álvaro Matias em 1898. O avô Álvaro era de uma aldeiavizinha. Filho de um sapateiro analfabeto, teria sido um continuador do pai se o PadrePimentel, pároco de várias aldeias, entre elas as dos meus avós, não se tivesseapercebido que o rapaz era muito inteligente e não tivesse convencido o meu bisavô adeixá-lo ir à escola. A aldeia de Álvaro não tinha escola pelo que percorria a pé todos osdias os 5 km que separavam a sua aldeia da TERRA. Fez com distinção o exame desegundo grau, que era assim que se chamava a quarta classe. A sua paixão era aleitura. À falta de qualquer livro em casa, um dia em que acompanhou o pai à feira, naVila, com os poucos trocados que tinha amealhado, comprou um Borda d´ Água. De 13
  14. 14. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiatanto ler e reler as antevisões do tempo, os conselhos aos lavradores, as anedotas, jásabia de cor, quer os conteúdos, quer as páginas onde se encontravam.Cedo o pai se apercebeu de que o filho não tinha grande queda nem para a lavoura nempara a arte de sapateiro. Aos 15 anos mandou-o para o Porto. Aí tinha um primo que lhearranjou o emprego de marçano numa loja de fazendas. Mais tarde, um cliente da loja,secretário de finanças, apercebeu-se das capacidades do rapaz e arranjou-lhe oemprego de ajudante de escrivão. Aos 28 anos o ajudante de escrivão de Finanças,regressou pela primeira vez a casa em gozo de férias. Resolveu ir à TERRA visitar oPadre Pimentel, agora já muito surdo e trôpego. Foi o Padre Pimentel que lhe sugeriupara esposa a minha avó Marta. Foi ainda o Padre Pimentel quem os casou, seis mesesdepois. O casamento foi por procuração pois o meu avô tinha regressado ao Porto e nãoera fácil deslocar-se à TERRA para casar. Passados dois meses a minha avó,aproveitando a companhia do farmacêutico da Vila que tinha que deslocar-se ao Porto,foi ter com o marido. No Porto nasceram os 4 primeiros filhos do casal - João, José, Clarae Pedro. Teriam sido cinco não fosse o aborto na sequência da morte da tia Matilde. Aminha avó ficou grávida do tio José pouco tempo depois de meu pai nascer. Por isso,desde pequenino, e até à morte dos meus bisavós, o meu pai viveu com eles na TERRA.Após a morte dos meus bisavós, o meu tio avô Afonso continuou a morar na CASA,acompanhado do Artúrio que entretanto casara e vivia lá com a mulher, Zefa, e os doisfilhos: o António Joaquim e a Germana. Quando o tio Afonso casou com a tia Teresa,filha única, os pais impuseram-lhe ir viver com eles. Mas Artúrio continuou a viver naCASA com a sua família, que entretanto cresceu com o nascimento da Balbina. Os meusavós raramente ali iam, pois naquele tempo a viagem do Porto à TERRA era difícil,especialmente com filhos pequenos.O meu avô sempre desejara aproximar-se da TERRA. Em 1915 conseguiu ser transferidopara a Vila (era assim que era conhecida a sede do Concelho), onde nasceram Adélia eMatilde. A transferência do meu avô para a Vila permitia-lhe ir com frequência à TERRA.Na época da caça sempre que podia, lá estava caído. O meu avô era um grandecaçador. O que ele gostava era de ir à perdiz mas também ia ao coelho, à lebre, às rolas,aos tordos. A minha avó, no Outono, por altura de fazer as compotas, no Inverno, poraltura de fazer o fumeiro e na Páscoa, época de folares, mudava-se de armas e bagagenspar a CASA e aí permanecia por um tempo cada vez mais dilatado. Por esse tempo já aCASA pertencia aos meus avós.Com a reforma do meu avô em 1932, a família regressa definitivamente à CASA que vaicontinuar a partilhar com os filhos do Artúrio, o António Joaquim, a Germana e a Balbinaque se encarregam fundamentalmente das lides do campo. Nesta altura, apenas a TIAvivia com os pais. O TIO, que entretanto tinha cumprido o serviço militar, ingressara naforça aérea e casara com uma jovem de Lisboa. O meu pai, dedicava-se a explorar o 14
  15. 15. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiamundo. Isso até 1934. Em 1935 a TIA casa com o tio Justino, rapaz da aldeia que erafuncionário público em Viana do Castelo.Todos os Natais, quase sempre na Páscoa, e na altura das vindimas, a TIA e o tioJustino regressavam à CASA. O TIO, nem sempre, e quando ia, ia só. A tia Laura foiapenas três vezes à TERRA, duas delas para dar a conhecer aos avós os meus primosAfonso e Gonçalo e a terceira no casamento da TIA.Dos meus tios só conheci a tia Matilde e o tio José, a quem sempre chamei simplesmenteTIA e TIO, e os respectivos cônjuges. Os outros morreram cedo: o tio Pedro, em menino,com a pneumónica, a tia Clara e a tia Adélia, na flor da idade, tuberculosas. Também nãoconheci os meus avós. A minha avó faleceu em 1936 e o meu avô em 1938. Deixaramaos filhos a CASA praticamente como a tinham recebido dos meus bisavós. Apenas lhetinham sido introduzidas três pequenas alterações: uma delas consistia numa espéciede quarto de banho, com uma sanita em madeira que dava directamente para a loja dosmachos; as outras duas consistiam em dois nichos (a que na CASA chamavam pilheiras),um grande e um pequeno, numa das paredes da varanda e quatro cabides, um poucotoscos, numa das paredes da cozinha. O nicho maior destinava-se a colocar o jornal e olivro que o meu avô estivesse a ler, o outro destinava-se à caixinha do rapé. Soube dafunção dos nichos pelo António Joaquim, que mantendo a tradição de família viveusempre na CASA. Foi também por ele que soube da função dos cabides. Cada cabide era para seu capote. O do seu avô, o do seu pai, o do seu tio e o do Sr. Padre Marcos que vinha todas as noites para conversar com o avô. O do seu pai, pouco usado por ele, foi depois destinado ao seu tio Justino.5O casamento da TIA com o Tio Justino não foi, de início, motivo de grande alegria paraos meus avós. Não que não gostassem do tio Justino. Antes pelo contrário. Se há homem bom está ali- dizia a minha avó.Mas o casamento iria implicar longas separações e a CASA já estava muito vazia. Talvezpressentindo isso, a TIA, após o casamento, foi adiando sucessivamente a sua ida paraViana. O tio Justino vivia numa pensão e vinha à Terra sempre que lhe era possível. Coma morte da minha avó, em 1936, a ida da TIA para Viana ficou ainda mais complicada.Como deixar o pai, para mais tão combalido depois da morte da mãe? O tio Justino lá seia resignando a continuar a viver no quarto da pensão, vindo à TERRA sempre quepodia. E foi assim até à morte do meu avô em 1938. Só então a TIA se decidiu aacompanhar o marido. 15
  16. 16. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaO tio Justino era de facto um homem bom. Coxeava um pouco de uma perna nasequência de uma tuberculose óssea, mal curada em menino. Por vezes tinha muitasdores mas não se impacientava. Nunca o vi zangado. O meu pai comentava: Só mesmo a paciência do Justino para aturar a ranzinza da minha irmã.A paciência do tio Justino manifestava-se nas mais pequenas coisas. Era sempre ele quedeitava a canela no arroz doce. Começava por fazer, num papel, um estudo do desenhoque queria fazer no prato. Depois colocava a canela na ponta do cabo de um garfo oucolher que segurava com a mão esquerda, enquanto, com a mão direita dava pequeninostoques nesse mesmo cabo. Era um trabalho de minúcia mas cujo efeito erasurpreendente. Nunca vi pratos de arroz doce mais bem decorados, e quem diz arrozdoce diz aletria ou milhos. Foi ainda o tio Justino quem me ensinou a nadar no Rio. E quepaciência ele teve que ter! Ainda hoje está dependurado de uma das traves da adega, ocolete de placas de cortiça, ligadas entre si por tiras de pano, que ele construiu para asminhas lições. Eu adorava-o.A TIA era uma boa pessoa, sempre pronta a ajudar, mas o que ela dissesse era lei e aide quem a contrariasse. Vivia sempre preocupada com a opinião dos outros. Cuidado que isso parece mal; o povo pode falar.Muito religiosa, explicava todos os factos invocando a intervenção divina. Se uma pessoabondosa morria de repente, praticamente sem sofrimento, a TIA comentava: É que Deus não dorme e sabe muito bem quem merece a Sua protecção.Mas se outra boa alma morria depois de um longo sofrimento a TIA justificava: O Senhor escolhe os bons para os pôr à prova.A sua maior fé era em Sto Estevão para todos apenas o Santo- o padroeiro da Terra. Afesta do Santo ocorre no primeiro domingo de Setembro, pelo que genericamente o diaé de Sol, geralmente intenso. Todos os anos a TIA comentava: Sto Estevão fez o milagre. Esteve um dia lindo.Só me lembro de ter chovido uma vez, na festa do Santo. Também dessa vez a TIAachou que tinha sido milagre. Foi um milagre e dos grandes. Aquela chuvinha serviu para assentar o pó.Creio que a TIA, após sair da escola, nunca leu qualquer outra coisa que não fossemmissais, bíblias ou pagelas religiosas, que coleccionava, bem como terços. Já a colecçãodo tio Justino era de outra natureza. Coleccionava objectos relacionados com as lides dolinho. Eram cardas, espadelas, maças, rocas, fusos, dobadoiras. Até o jipe teve quecompartilhar o seu lugar na garagem, por baixo do passadiço da CASA, agora fechado,com um tear que comprou numa aldeia vizinha. Também coleccionava termos usados naTERRA, pelo que andava sempre com um bloquinho no bolso e sempre que ouvia umapalavra já em desuso ou mal pronunciada, lá ia ele anotá-la. Esta mania de procurar 16
  17. 17. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiacoisas, fossem elas objectos ou palavras, levou a que o TIO lhe chamasse porbrincadeira, o procurador.O TIO gostava de chamar as pessoas por alcunhas, algumas que só ele usava. A um filhodo António Joaquim, que em criança passava a vida dentro de uma espécie de gaiolaimprovisada, idêntica ao que costumamos chamar de parques, chamou sempre AfonsoVI. À TIA chamava-a de agulhinha porque o seu passatempo preferido era fazer renda,muito particularmente os panos de cinco agulhas. A mim, por ser um pouco irrequieta,chamava-me piãozinho. Mas a par destas alcunhas carregadas de ternura, havia as que,pela forma como eram ditas, faziam transparecer um sentimento bem diferente. Umadelas era “O Botas”, quando se referia a Salazar.Lembro-me das grandes discussões que havia entre o meu pai e o TIO, sempre por causada política. O meu pai era salazarista e para se justificar invocava sempre o mesmoargumento. Eu saí daqui em 1919 e sei bem a bagunça que se vivia. Agora está tudo calmo.O TIO respondia-lhe então: Especialmente em Peniche e em Caxias.E a partir daqui a conversa subia habitualmente de tom e acabava quase sempre domesmo modo. O TIO dizia-lhe: Não há pior cego que aquele que não quer ver.Ao que o meu pai respondia: Sim, sim tu falas, mas cagas no prato onde comes. Tenho vergonha de ser teu irmão.Isto tudo era da boca para fora pois se havia sentimento que o meu pai nutria peloirmão não era o de vergonha mas o de orgulho, particularmente na sua bela carreiramilitar.As opções políticas do meu pai começaram a ficar um pouco abaladas após as eleições de1958. O TIO conhecia Humberto Delgado com quem tinha trabalhado, e tinha por eleuma grande consideração que se reflectia na imagem com que o descrevia. Talvez porisso, o meu pai nutria alguma simpatia pelo General. Mas o seu voto foi, naturalmente,para o Almirante. No dia 14 de Maio de 1958, dia em que o general passou pelo Porto emcampanha, o meu pai estava lá casualmente e viu. Por isso, quando foram anunciados osresultados das eleições de 8 de Junho, terá comentado: Aqui houve marosca.Isso, no entanto, não o impediu de continuar a elogiar o homem de S. Bento e a ter emlugar de destaque, na sua estante, o livro “Salazar na Intimidade”. Em 1960 o TIO épassado à reserva compulsivamente. Fui eu quem entregou ao meu pai a carta do TIOque trazia a notícia. O meu pai começou a ler a carta e eu fiquei ali à espera daqueletrecho habitual: “Como vai o piãozinho ? Diz-lhe que já estou com saudades”. 17
  18. 18. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaMas não foi isso que ouvi. Vi o rosto do meu pai crispar-se e pela primeira vez ouvi-odizer um palavrão na minha frente. Grandes filhos da puta.Não entendi a quem se referia, mas se usou o plural não se refere ao TIO, pensei, e saíde imediato sem que o meu pai desse conta. Creio, no entanto, que o maior golpe nassuas convicções políticas foi dado em 1965, quando o General foi assassinado. O TIOpassava agora mais tempo na TERRA. Um dia, na varanda da CASA, pegou num jornalque se referia à morte do general, como tendo sido obra dos seus correligionários.Comentou em voz alta: A quem eles pensam que enganam? Quem o matou foi a “Pevide”.Como visse o meu olhar atónito o TIO achou que era tempo de eu abrir os olhos. Foi essaa primeira sessão de esclarecimento político que tive na vida. À noite, talvez um poucopara provocar o meu pai, comentei que fora a Pide a responsável pela morte do General.Esperava uma reacção violenta mas fiquei surpreendida quando ouvi o meu pai comentarcom algum desalento : Já não digo nada.Não posso localizar a data em que “Salazar na Intimidade” deixou de ocupar a estante domeu pai, nem sei que sumiço o livro levou. O certo é que no espólio nunca apareceu.6Após a morte dos meus bisavós, o meu pai, com 12 anos, foi viver para o Porto com ospais e os irmãos (à data José, Pedro e Clara). Tinha feito o exame do primeiro grau comdistinção, mas como o professor Bernardo tinha falecido, a TERRA ficara sem escola e osseus estudos tinham terminado aí. Era uma criança um pouco selvagem pois os cuidadosdisciplinadores da avó não tinham surtido o efeito desejado, face à complacência do avôaliada à cumplicidade do Pepe, do António, do Artúrio e da Zefa. A casa dos pais era umacasa cheia de regras. Horas para levantar, horas para deitar, horas para comer, horaspara rezar, horas para ler, regras para estar à mesa. Tudo isto era demais para umacriança que nem sabia pegar nos talheres. A sua vida, até aí despreocupada,transformou-se num inferno. Por um lado os castigos do pai quando alguma regra erainfringida, por outro a chacota dos irmãos para quem era praticamente um estranho. Sóa mãe parecia apoiá-lo. Para agravar tudo isto o pai achou que ele devia completar ainstrução primária. O irmão José frequentava o segundo grau e tinha um professorconhecido pelo seu elevado grau de exigência mas também pela sua barbaridade. Foi aoscuidados desse professor - Germano Vicente Dias - que o meu avô entregou o meu pai.O meu pai era inteligente pelo que em breve se tornou o melhor aluno da classe. Issovaleu-lhe a consideração do irmão, em quem passou a ter um aliado. Parecia assim mais 18
  19. 19. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiafácil de suportar a disciplina do pai. As coisas ter-se-iam arranjado se o professorGermano não tivesse dado um golpe de misericórdia em toda a situação.O professor passou uma prova para os alunos fazerem e o meu pai foi o único queresolveu tudo correctamente. Então Germano Vicente Dias passou-lhe a palmatória paraa mão e disse-lhe: Hoje és tu que vais castigar os colegas ; o primeiro será o teu irmão a quem terás que aplicar dez palmatoadas, cinco em cada mão - duas por cada erro, mais quatro por cada conta mal feita.O irmão estendeu cada uma das mãos e o meu pai aplicou-lhe os 10 “bolos” combastante suavidade, não fosse ele o seu irmão. Então, o professor tirou-lhe a palmatóriadas mãos. Eu vou mostrar-te como se usa a palmatória.As mãos do meu pai jorraram sangue mas não chorou. À noite, enquanto a mãe comlágrimas nos olhos lhe tratava as mãos, o pai comentava : Só assim te farás homem.No dia seguinte de manhã o meu pai não estava na cama. Tinha saído, pé ante pé,direito à estação, onde se meteu no combóio do Douro. Expulso do combóio sempre queera descoberta a sua clandestinidade, fazia troços do percurso a pé, sempre junto à linhaférrea, comendo o que encontrava pelos campos onde passava e assim, ao fim de váriosdias, cheio de fome, sujo e exausto chegou à Vila. Procurou o boticário a quem seidentificou e em casa de quem dormiu, depois de uma boa ceia. Nesse mesmo dia, ummensageiro levou a notícia ao meu tio avô Afonso que, no dia seguinte, em pessoa, foibuscar o sobrinho. Aproveitou para telegrafar para o Porto a sossegar a famíliadesesperada, que já imaginava o filho afogado no mar ou vítima de qualquer outrafatalidade.Passa então a viver na CASA com o tio Afonso, o Artúrio e a família deste. Ajuda naslides do campo e tem como principal divertimento acompanhar o tio nas peixadas quefaziam no Rio. Aprende a deitar as redes e as chumbeiras e a pôr o embude nas locas ,para obrigar os peixes a sair. Os homens metiam-se no Rio, todos nus, mesmo empleno inverno. Ele ainda quase menino, um pouco envergonhado, lá ia também. Peixesapanhados, era preparar a fogueira para os assar. Para ele sobrava ir buscar a lenha eatiçar o lume. Os peixes, assados pelos homens, eram acompanhados com aquele pãoque ninguém fazia tão bem como a Zefa, e servidos com aquele molho que, só delembrar, fazia crescer água na boca. Guarda dessa altura recordações felizes.Quando, após a transferência do meu avô, os meus avós foram viver para a Vila, o meupai foi viver com eles, mas não conseguiu adaptar-se, apesar de cada vez serem maisfortes os laços com os irmãos, particularmente com José. Por isso passava a maior partedo tempo na CASA, mesmo depois do casamento do tio Afonso. O Artúrio proporciona-lhe 19
  20. 20. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaalguns encontros com raparigas e mulheres da TERRA e assim se faz a sua iniciação. Aos18 anos apaixona-se por Luísa, com 16, de quem toda a vida guardará um lençobordado. Mas Luisa morre com a gripe pneumónica. Não houve uma só família na TERRAque não tivesse ficado de luto devido à pneumónica. O meu tio Pedro, ainda menino,morre também vítima da epidemia.Estava-se no rescaldo da Grande Guerra e em Portugal vivia-se uma tremendainstabilidade política. A pneumónica tinha espalhado dor e luto à sua volta.Provavelmente tudo isto, aliado às marcas deixadas pela morte dos avós e à dificuldadede relacionamento com o pai, terá pesado na decisão que o meu pai tomou. Decidiupartir, mas nem ele próprio sabia concretamente porque partia tal como não sabia muitobem para onde ia. Tinha então 19 anos de idade.A viagem era, de si, uma história fantástica; infelizmente não consegui guardar a maiorparte dos pormenores pois o meu pai não gostava muito de recordá-la. Saiu de casaainda noite escura. Num pequeno saco levava a pouca bagagem que tinha e, numataleiga, a merenda que Zefa lhe tinha arranjado, convencida que o meu pai ia para umafesta, numa aldeia um pouco distante. Só levava uma intenção, atravessar a fronteira.Subiu e desceu ladeiras até chegar ao Douro, que atravessou a nado. Ao fim de algunsdias foi ter a Medina Del Campo onde foi acolhido por uma família de lavradores, muitohospitaleira, para quem trabalhou durante cerca de um ano e meio. Mas o seu espíritoinquieto não o deixou parar por lá mais tempo. Conhece Denis, um jovem francês que setinha acolhido em Espanha durante a Grande Guerra e que vai regressar a casa emBedous, nos Pirinéus, relativamente perto de Lourdes. Parte com ele. Vai a Lourdes comDenis. Reza pela primeira vez, depois de tanto tempo. Nas suas orações, num misto deportuguês e castelhano, pois fora assim que as aprendera, lembra os mortos, os vivos, aTERRA e a CASA. No regresso a Bedous, passam por Pau onde Denis lhe apresenta asua prima Monique. Monique parece-se imenso com Luisa, o que perturba o meu pai.Nasce assim a segunda grande paixão da sua vida. Disposto a remover montanhas ecom a ajuda de Denis o meu pai aproxima-se da família de Monique. O pai, Mr. Dupont, émarceneiro e tem uma oficina em Pau. O meu pai vai trabalhar com ele. Aprende o ofícioe trabalha empenhadamente, por um lado para impressionar o pai de Monique, poroutro porque o trabalho lhe dá prazer. Gostava de usar as plainas, as garlopas, as enxós.Gostava do cheiro da madeira e do serrim, da resina da madeira de pinho ainda verde.Com Monique limita-se a trocar olhares que são correspondidos. Parecia que finalmenteiria reencontrar a paz há tanto perdida. Espera toda a semana pelo domingo. Ao entrarna Igreja faz por entrar logo a seguir a Monique para receber das mãos dela o hissope deágua-benta. E assim passa mais de um ano. Quando Mr. Dupont se apercebe dasintenções do meu pai chama-o e diz-lhe: 20
  21. 21. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia Meu rapaz, não tenhas ilusões. A Monique está prometida a um primo que presentemente vive na Argélia. Logo que regresse casar-se-ão.Nessa mesma noite o meu pai arruma as trouxas e prepara-se para partir. Por baixo daporta da marcenaria deixa um envelope dirigido a Mademoiselle Monique. Lá dentro umamensagem curta, aliás a única mensagem de amor que trocou com ela, para além dosolhares e da passagem do hissope. Il faut que je parte mais je t´aimerai toujours.Passa pela igreja. Entra e pede perdão a Deus pela falta que irá cometer. Passa junto dapia de água-benta e rouba o hissope. Não sabe bem porquê, leva um destino- Marselha- de que Denis lhe falara. Está-se em 1921, depois da guerra, e arranjar trabalho não éfácil. Consegue uns biscates na estiva do porto. Conhece marinheiros e com a ajuda deum deles consegue partir como clandestino para Dakar, no Senegal. Não faz a mínimaideia de onde fica o Senegal, mas ao consultar o mapa, apercebe-se que é perto daGuiné, a colónia portuguesa de que ouvira falar nos tempos de escola. Durante a viagemdecide que não ficará em Dakar. Decide que é para a Guiné que há-de ir. Pensava queuma vez no Senegal seria fácil chegar à Guiné, pois dominava razoavelmente a línguafrancesa. Só que ignorava que a maior parte da população falava nas suas línguasnativas e o francês de pouco lhe serviria. Atravessou parte do Senegal com Infali, umgila4 guineense. Foi assim que conseguiu chegar à Guiné. Durante a viagem com Infalitoma corpo a ideia de montar um pequeno comércio, com o pouco dinheiro queconseguira juntar ao longo dos últimos três anos. Estabelece-se em Bafatá. Pela suavida passam várias mulheres, uma delas a crioula Cesária. Pela primeira vez escrevepara casa, depois de quase três anos e meio sem dar notícias. A carta encontrou-a poracaso a TIA, esquecida no meio de umas peças de linho que herdou da mãe. Achou queeu devia ser a sua depositária e por isso veio parar às minhas mãos. Bafatá, 2 de Dezembro de 1922 Querida Mãe: Escrevo-lhe da Guiné, em África. Não é tão longe como Angola ou Moçambique, mas mesmo assim demoram-se muitos dias a cá chegar, de barco. Imagino quantas aflições não terão passado por minha causa. Mas, como coisa ruim não tem perigo, encontro-me são e salvo. Quando saí de Portugal fui para Espanha, e daí para França. Não imagina as saudades que tive da CASA e de todos, e o número de vezes que pensei em voltar. Eu sei que a mãe não consegue entender por que razão parti. Se calhar nem eu sei. Mas eu sou assim. Só estou bem onde não estou. Na CASA sinto-me bem, mas a mãe sabe que eu e o pai não nos4 contrabandista que faz o comércio transfronteiriço 21
  22. 22. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia conseguimos entender. Sei que a culpa é minha que sou rebelde. Acredite mãe, eu gostava de mudar, mas não consigo. Tanto só estou bem onde não estou, que da França vim para aqui, sem eu mesmo saber porquê. Acho que alguém guia os meus passos, mesmo sem eu querer, mas também não sei quem. Mas não se preocupe. Estou bem. Aqui é tudo muito diferente. As pessoas são pretas, como a mãe deve saber, mas mesmo assim diferentes. Há assim como que uma espécie de raças dentro da raça. Há os manjacos, os balantas, os mandingas, os fulas, os futa-fulas, os saracolés, os papéis e muitos outros. Não falam português e cada uma dessa espécie de raças fala uma língua diferente das outras. Mas há uma língua que muitos falam -o crioulo. É nessa língua que eu lhes falo. É engraçado o crioulo, mãe. Bó quer dizer tu, cá, quer dizer não, jubi é ver, obi é ouvir. Vivem numa espécie de aldeias a que chamamos tabancas. Os homens geralmente vivem com mais que uma mulher, todos na mesma casa. As casas são redondas, com um só compartimento e cobertas de palha. Alguns, principalmente os fulas, criam gado, umas vacas muito magrinhas, mas grande parte vive da agricultura. O que mais cultivam é o arroz mas também um pouco de milho e mancarrra (amendoim). No amanho da terra não usam arados, nem charruas mas sim uma espécie de sachos de madeira. O arroz é cultivado nas bolanhas (uma espécie de charcos) e o trabalho é essencialmente feito por mulheres que, enquanto trabalham, carregam os filhos ás costas presos com um pano. Aqui faz sempre calor. De Novembro a Maio quase que não chove. Nos outros meses cai cada aguaceiro, que de repente a água nos dá pelos joelhos. Mas não molhamos as calças porque aqui andamos de calções - os brancos, porque os pretos andam com uns balandraus até aos pés. Isso os homens, porque as mulheres andam com o peito destapado e usam uns panos compridos coloridos, enrolados na cintura e que vão quase até ao chão. Andam todos descalços e as mulheres usam muitos penduricalhos, geralmente ao pescoço e nos tornozelos. São muito boa gente mas têm costumes muito diferentes dos nossos a começar pela religião Não são da nossa religião e a maior parte são muçulmanos. Também acreditam em Deus, só que Lhe chamam Alá. Moisés é um profeta e Jesus Cristo também. Dizem que o último profeta foi Maomé, que deixou as leis sagradas que respeitam, e que estão no Alcorão, que é assim como a Bíblia para nós. Não comem carne de porco nem bebem vinho. O seu dia Santo não é o domingo, mas a sexta. Às igrejas, que são diferentes das nossas, chamam mesquitas, mas em muitas tabancas não há mesquitas. Mas eles rezam sempre cinco vezes ao dia. Lavam-se antes de rezar e rezam de joelhos ,com a cabeça encostada ao chão, virados para Meca que é a terra onde nasceu Maomé, e que fica muito longe daqui. Todos os anos, durante um mês fazem jejum total do nascer ao pôr- do- sol. Chamam-lhe o mês do 22
  23. 23. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia Ramadão. A música deles também é muito diferente da nossa, e os instrumentos também. Usam muitos, feitos por eles com cabaças, peles de macaco, troncos de árvores - são tambores, uma espécie de bandolins, e muitos outros que não lhe sei explicar. Eu gosto muito de ver as danças que fazem ao som dessa música. Como nem todos são muçulmanos, há quem beba vinho, mas é vinho de palma. Não se faz com uvas mas com seiva de palmeiras que são umas árvores muito altas. Aqui há árvores muito esquisitas. Há umas muito grandes que parecem ter ratos pendurados, mas não são - são uns frutos que não comemos. E por falar em frutos há aqui alguns que eu nunca tinha visto. O que mais estranhei foram uns que sabem a resina. Agora já me estou a acostumar ao gosto, mas foi custoso. Também não comem batatas e couves como nós. Quase só comem arroz. A terra também não é como a nossa. É vermelha e não há serras. Há rios muito cheios de curvas e maiores que o nosso. Há peixes, mas também não sabem como os nossos. Um animal que às vezes aparece nos rios é o crocodilo. Já ouviu falar mãe? É como um lagarto muito grande e que come animais grandes, mesmo pessoas. Por falar em animais, há aqui muitos macacos que trepam pelas árvores, lagartos, pássaros, alguns muito bonitos, e muitos morcegos, tantos, que à noite urinam em cima da gente. Há muitas moscas, muito mais que aí. São tantas que a gente já as não enxota. Habitua-se e anda com elas pela cara, pelos braços, pelas pernas. Há também muito mosquito, osgas, e baratas- grandes que eu sei lá. Os cheiros aqui são muito diferentes, mas gosto deles. Não tanto como dos nossos, já se vê. Aqui há poucos portugueses mas os poucos que somos juntamo- nos de vez em quando, para jogar uma suecada e lembrar as nossas terras. Eu tenho um pequeno soto onde vendo de tudo. Quando preciso de comprar coisas, por vezes vou de barco a Bolama que é a terra mais importante, e que fica junto do mar. Mas também tenho um amigo, o Infali, que é uma espécie de contrabandista e que me abastece. Os nomes, como vê, também são diferentes - Infali, Mamadu, Bonco, Sajuma, Kumba, Braima, Binta. Pus-me para aqui a contar tudo e nem perguntei por todos. Como estão ? O Pai continua a caçar? O José já fez a tropa? A Clara já tem namorado ? E as meninas? Já devem estar grandes. E o tio Afonso ? O Artúrio e a Zefa estão bem ? Diga-lhes que, quando for Fevereiro, colham uns galhos de amendoeira em flor e os ponham na sepultura dos avós. Ou eles ou os filhos. Mãe, vou-me despedir. Como o Natal se aproxima desejo-lhes um Santo Natal. Aqui não tem grande graça. Para mim é triste porque me lembro muito dos Natais na CASA. Recomende-me a todos, que eu qualquer dia volto. A sua benção, mãe 23
  24. 24. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveia JoãoQuando a minha avó recebeu esta carta, já a tia Clara não fazia parte do rol dos vivos;tinha falecido vítima de tuberculose. A carta está um pouco esborratada. Dizia a TIA quejá tinha chegado assim e que a minha avó reconhecera nela duas lágrimas de meu pai.Talvez essas duas se tenham misturado com outras, vertidas pela minha avó que duranteaqueles três anos e meio tinha sofrido calada. Ao marido não podia falar da sua dor poisele, indignado com a partida do filho, nem sequer no seu nome queria ouvir falar.O meu pai manter-se-ia em Bafatá por mais uns anos e escreveria mais cartas para casa,mas delas não ficou qualquer registo. Da sua passagem pela Guiné, para além destacarta, resta apenas uma foto desbotada ao lado da Cesária, em frente a uma palhota,possivelmente aquela onde viviam. Durante esse tempo morrerão a sua irmã Adélia, oArtúrio e a Zefa, José cumprirá o serviço militar, ingressará na força aérea, casará eterá dois filhos, e Matilde ficará noiva do tio Justino. A sua estada na Guiné foibruscamente interrompida quando, em 1934, adoece gravemente com tifo. Regressa àTERRA, segundo ele, para morrer. Mas não era esse o seu destino.7Quando o barco atraca no cais o TIO aguarda ansioso o irmão. Recebera a carta que lheescrevera, já com muita dificuldade, num dos momentos em que a febre abrandara umpouco. Em poucas linhas, com uma letra tremida dizia que estava muito doente eembarcava para Portugal onde esperava chegar ainda com vida para depois sersepultado debaixo dos sobreiros. O TIO receava já não reconhecer o irmão pois tinhampassado 15 anos. Mas quando viu descer um homem envelhecido, com aspectocadavérico, amparado e muito trémulo, teve como que uma intuição. Quando chegouperto dele perguntou: És o João ?O meu pai já não respondeu. Caiu inanimado nos braços do irmão. Por isso, quandonaquele dia abriu os olhos, não conseguiu perceber onde estava. Não identificou o quartonem o rosto da mulher que o fitava. Sou a sua cunhada Laura , mulher do José.Teve alguma dificuldade em apreender o significado daquelas palavras. Durante um mêsnão dera conta do que se passava à sua volta. Nos seus delírios frequentes chamara peloavô, pela mãe, pela avó, por Luisa e por Monique. Um dia, alagado em suor grita aflito: José perdoa-me mas foi o Sr. Professor que me obrigou. 24
  25. 25. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaApós o incidente no desembarque, o TIO levou o meu pai para sua casa e chamou oDoutor Silveira, médico da família, que o examinou cuidadosamente. Então Doutor? Perguntou o TIO. Só por milagre se salvará- respondeu o Doutor Silveira.O TIO comunicou então para a TERRA o estado em que estava o irmão. As notícias nãoos apanharam de surpresa pois já anteriormente tinha escrito a dar conta do conteúdoda carta do meu pai. Desde esse dia que a minha avó e a TIA passavam a maior partedo tempo na igreja, onde as velas não se apagavam. Na CASA, todos faziam promessasa todos os Santos, particularmente a Sto Estevão. Voltas de joelhos à capela, uma toalhade linho bordada para cada altar, razões de trigo, dias de jejum. Até o meu avô fez umapromessa, ele que não era muito para essas coisas. Como já de há muito se falava nanecessidade de construir um coreto par as festas em honra de Sto Estevão, o meu avôprometeu que se o filho se salvasse mandaria construir não um, mas dois coretos juntoda capela do Santo.Fosse pelas promessas e rezas, fosse pelos cuidados que o TIO e a tia Laura tiveram,fosse por obra dos medicamentos receitados pelo Dr. Silveira, pouco a pouco o meu paifoi-se libertando das garras da morte. No primeiro dia em que se levantou para se sentarnuma cadeira de braços no pequeno jardim da casa, foi amparado pela tia Laura e peloTIO. Só nesse dia é que reparou nos rostos daqueles seus companheiros dos últimostempos. O irmão era uma bela figura- alto e garboso, quando estava fardado ficava comum aspecto imponente. A cunhada não era bonita mas tinha uma presença agradável.Reparou então em duas crianças pequenas que brincavam num cavalinho de pau- ossobrinhos Afonso e Gonçalo que não conhecia, mas de quem o irmão já lhe falara porcarta. Como era possível que durante todo este tempo não se tivesse apercebido dascrianças ? O TIO e a tia Laura tinham-nas posto em casa dos avós maternos durante adoença do tio. Abraçou o irmão e chorou. Lembrou-se então que o pai dizia que umhomem não chora, mas essa lembrança fê-lo chorar ainda mais.Passara-se mais um mês e o meu pai ia poder, finalmente, regressar à CASA.Interrogava-se várias vezes sobre como iria ser a sua relação com o pai e partiu comuma certa apreensão. O TIO acompanhou-o pois o seu estado de saúde era aindaprecário. A viagem entre a Vila e a TERRA foi feita num carro de machos, todo enfeitadocom ramos de árvores, e tocado pelo António Joaquim. Quando chegou ao fundo dasescadas da CASA foi penetrado pelos cheiros que jamais esquecera. Mas o que mais lheficou na memória dos cheiros desse dia foi o dos milhos doces polvilhados com canela.No balcão, e continuando pela cozinha, estavam todos- o pai, a mãe, o tio Afonso, a irmãMatilde, o António Joaquim, a Germana e a Balbina. Estes últimos eram ainda muitonovos quando partira pelo que já não os conhecia, embora desde logo tivesse adivinhado 25
  26. 26. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaquem eram. Estavam também muitos vizinhos, entre eles um jovem que também nãoreconheceu.Começou por abraçar a mãe; preparava-se para cumprimentar o pai na forma habitual,uma vénia com o pedido da bênção. Mas o pai, com os olhos rasos de lágrimasestreitou-o nos braços. Seguiram-se os cumprimentos a todos os outros, uns maisefusivos que outros. Para o fim ficou o jovem que não reconhecera. Era Justino. Ocasamento da TIA com o tio Justino já tivera data marcada, mas logo que se soube doestado de saúde do meu pai a TIA disse-lhe: Temos que desmarcar o casamento por agora. O meu irmão João está muito mal e as esperanças são poucas. Não vou casar nestas condições.O meu pai recupera agora rapidamente. Passa a maior parte do tempo sentado navaranda. No nicho maior da parede há sempre o jornal e um ou outro livro. Não lheapetece ler mas o pai vai-lhe dando conta dos principais acontecimentos. Por vezes, aofim da tarde, os dois vão até à Fraga. De lá avista-se o Santo, onde já se iniciaram asobras dos coretos. Pai e filho aprendem a gostar-se mutuamente, tal qual são um eoutro. Vai, com os pais e a irmã, conhecer Fátima. Vai também a Viana a e ao BomJesus em Braga. Os pais podem assim rever sítios que já não viam há muito, enquantoque ele e a irmã os conhecem pela primeira vez.Tudo parece ter voltado ao normal e a TIA casa finalmente com o tio Justino, no dia 5 deAgosto de 1935. O casamento foi na capela de Sto Estevão, já rodeada de dois beloscoretos. A Capela de Sto Estevão não fica propriamente na TERRA. Fica à beira do Rio, nofundo de uma ladeira. Chegar lá não é muito difícil. O pior é regressar, pois a ladeira émuito íngreme. Vem-se de macho, é certo, mas para os animais a subida também nãoé fácil. O casamento foi celebrado pelo Padre Marcos e os padrinhos foram o TIO e a tiaLaura. No fim da cerimónia religiosa e antes de se iniciar o almoço, a ti Idalina cantou asloas. Possivelmente como ainda as cantava, quando eu a conheci muitos anos maistarde. “Biba o noibo mai-la noiba Bibam os pais que a criaram Bibam também os padrinhos que à igreja os lubaram”Seguiu-se o almoço. Peixes do rio, vitela, borrego e peru assados, arroz de vitela,presunto, folar de carne, bolo moreno, pão de ló, arroz doce, aletria, milhos doces,súplicas, económicos, e vinho à descrição. Também não podiam faltar o “vinho fino” e ostremoços, adoçados no Rio.Após o casamento da TIA todos estranharam a avó, mas atribuíram o seu ar abatido àapreensão que lhe causava a partida da filha, que supunha para breve. Infelizmente nãoera só isso. A Avó estava doente. Já passara por muito. A morte da irmã, dos pais e dos 26
  27. 27. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiatrês filhos foram-na minando por dentro. A juntar a tudo isso, as aflições que passarapor causa do meu pai. A doença que quase o levara, foi a gota de água. Morre em 1936,vítima de ataque cardíaco.A morte da avó abalou muito toda a família. Mas a vida não para. Na CASA vivem agorao avô, a TIA, o meu pai e o António Joaquim com as irmãs. O tio Justino está a trabalharem Viana, mas sempre que pode aparece. Quando o meu pai partiu em 1919, a TIA tinhaapenas dois anos pelo que praticamente não se conheciam. É nesta altura que se vãocriar laços. Com a TIA e com o tio Justino, de quem o meu pai sempre dirá, tal como odissera a mãe: Se há homem bom, está ali.Agora restabelecido, o meu pai assume-se pela primeira vez como lavrador. É ele quetrata de todos os problemas da CASA, ajudado pela TIA. Quando é preciso contratar osranchos para apanha da amêndoa e da azeitona, contratar os jeireiros para as diferentestarefas, vender a amêndoa, o azeite ou o vinho é ele quem vai, depois de ouvir a opiniãodo pai, da TIA e do António Joaquim. Participa em todos os trabalhos sejam eles a lavra,a limpa, ou qualquer outro. Mas os que lhe dão especial prazer são a poda e a enxertia,que aprendeu em menino com o avô.Sempre que parece estar a restabelecer-se o equilíbrio na vida emocional do meu pai,surge algo desestabilizador. Em 1938, o meu avô morre. Para o meu pai,estranhamente, a morte do pai foi um golpe mais duro do que a morte da mãe. Talvezpor se terem encontrado tão tarde, talvez porque mais um laço se rompia. A TIA vaifinalmente para Viana. O meu pai decide partir, desta vez para o Brasil, onde vive o tioFilipe. O tio Filipe não era propriamente tio. Era um primo da minha avó, filho de DiegoRodriguez e Maria Clemente. Tendo ficado órfão bastante cedo, decidiu vender aherança e partir para o Brasil. A vida correu-lhe bem e tinha em S. Paulo uma firma,relativamente importante, de venda por grosso - a firma Rodriguez. Manteve semprealgum contacto com a família pelo que o meu pai partiu ao seu encontro, mas sem dissoo prevenir. De tal modo se sentia que disse aos irmãos que desta vez partia para nãovoltar. Antes de partir vendeu ao TIO a sua parte na CASA. Entre a parca bagagem quelevou iam um lenço bordado e um hissope.8Apesar da sua vida errante, uma das maiores cidades que o meu pai já tinha visto eraLisboa, que conhecia mal. Estivera lá apenas duas vezes. A primeira quando regressara 27
  28. 28. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiadoente da Guiné, e dessa vez pouco ou nada tinha visto. A segunda foi antes doembarque para o Brasil. Durante uma semana, com o irmão, tinha visitado osJerónimos, a torre de Belém, o castelo de S. Jorge, tinha passeado pela Baixa, tinhaentrado no Grandela e no Chiado. Quando chegou a S. Paulo, ficou um pouco assustadocom o tamanho da cidade e teve alguma dificuldade em dar com a morada do tio Filipe.Quando chegou a casa do tio ficou estarrecido. Era uma bela casa, rodeada de umjardim. Tocou a campainha e apareceu uma empregada a quem se identificou. O tioFilipe não estava, mas estava a mulher, a tia Carlota, uma senhora brasileira,descendente de italianos, ainda nova. A tia Carlota, recebeu-o numa sala ricamentemobilada, cheia de cristais e pratas. Nunca o meu pai vira nada parecido. Na CASA nãohavia cristais nem pratas, à excepção da caixinha de rapé do pai, no nicho pequeno davaranda, e quanto aos móveis, eram muito simples- camas de ferro, várias arcas, doisroupeiros em mogno onde se acomodava a roupa de toda a família e na sala uma mesacom 12 cadeiras e um louceiro, também em mogno. As outras casas por onde tinhapassado, eram ainda mais simples, à excepção da casa do irmão José em Lisboa, queem nada se comparava à casa do tio Filipe. Parecia assim confirmada a ideia de que otio Filipe estava muito bem de vida. O tio Filipe não estava, mas não devia demorar.Esperou.Quando o tio chegou, acompanhado do primo Júlio, 10 anos mais novo que meu pai, esteapresentou-se como o João, o filho mais velho da prima Marta. O tio Filipe nuncaconhecera o João, pois saíra rapaz da Terra, ainda a prima Marta era solteira, mas comela trocara sempre correspondência, pelo que estava um pouco a par da vida da família.O meu pai já não saiu dali. Ficou a viver em casa do tio e a trabalhar na firmaRodriguez, de início fazendo um pouco de tudo, mas logo depois como caixeiro viajante.O tio Filipe lembrava-lhe um pouco o pai, pois também pautava a sua vida por muitasregras. A sua e a dos que trabalhavam com ele. Uma das regras que lhe impôs foi: Aqui sou o tio Filipe, mas na firma sou o Sr. Rodriguez.Não sei se ao escolher para o meu pai a vida de viajante, o tio Filipe teve em conta avida errante que ele até aí levara. Mas a escolha não poderia ter sido melhor. O meu pairepresentava a firma do tio nas principais povoações ao longo da Estrada de Ferro daSorocabana: Avaré, Botucatu, Ourinhos, Presidente Prudente. Adorava a sua vida deviajante. Era muito responsável no seu trabalho, mas totalmente irresponsável no quedizia respeito à sua vida privada. Tinha uma mulher em cada uma das localidades poronde passava e gastava quanto ganhava, com carros, orgias e mulheres. Isto atéconhecer Nair. 28
  29. 29. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaFoi no Brasil que o meu pai teve uma vida social mais intensa. Torna-se sócio daARCESP5, relacionando-se com muitos outros comerciantes, alguns deles portugueses(patrícios, como sempre lhes chamava). Juntamente com seu primo Júlio é sócio devárias associações culturais e recreativas, entre elas o clube de regatas Tietê. Éprecisamente nesse clube que ambos conhecem Nair. Desde logo Nair impressiona o meupai. Lembra-lhe Luisa e Monique. Não sabe bem porquê. Estas eram relativamente altas,tinham lábios finos e cabelos castanhos. Nair é relativamente baixa, tem lábios grossose olhos e cabelos negros.Nair não só impressionou o meu pai, como também o seu primo Júlio, mas foi este quemconquistou o coração de Nair. Não houve disputa entre os dois. Quando o meu pai seapercebeu de que Júlio gostava de Nair, retirou-se simplesmente de cena. Não seriajusto roubar a mulher ao primo, filho do tio que tão bem o tinha acolhido. Durante anosviveu uma paixão em silêncio. Nair casou com Júlio em 1942. Meu pai foi, não sópadrinho de casamento, como também padrinho dos dois filhos do casal- uma meninanascida em 1943 e um rapaz nascido em 1944. Júlio, partilhando uma mania comum amuitos brasileiros, de darem a todos os filhos nomes começados pela mesma letra, deua ambos um nome começado por R: Renata e Ricardo. Renata e Ricardo irão semprerepresentar papel importante na vida afectiva do meu pai. De Nair guardará sempre,sem o primo e ela saberem, uma luva que um dia deixou esquecida no clube. Afinal,omitir este facto ao primo não deveria ser tão grave como roubar um hissope numaigreja de Pau.A partir do dia em que conheceu Nair, passou a levar uma vida mais regrada. Para issotambém terá contribuído o fim da sua vida de viajante. Efectivamente o tio Filipe, cedose apercebeu que meu pai tinha muito mais jeito para o negócio do que Júlio. Pensou,então, que a melhor maneira de garantir o futuro da firma após a sua morte, seria dar-lhe sociedade. O meu pai tornou-se então sócio minoritário da firma que passou achamar-se Rodriguez e Matias. O que o tio Filipe nunca imaginou foi que, uns anosmais tarde, o meu pai venderia a sua quota ao primo Júlio, para regressardefinitivamente à TERRA. Mas isso foi depois de conhecer Mariana.9Durante todo este tempo o meu pai raramente escreve aos irmãos que se queixam dosseus silêncios prolongados. Esses escrevem com mais frequência. Nas cartas, dão-lheconta do que se vai passando. Numa delas o TIO fala-lhe entusiasticamente da festa deSto Estevão em que ele, e mais alguns camaradas, acompanharam a procissão5 Associação dos Representantes Comerciais do Estado de S. Paulo 29
  30. 30. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiasobrevoando-a em aviões. Fala-lhe também de Majores e Coronéis que leva à TERRA ede uma homenagem que lhe prestaram na Vila. Conta-lhe vários episódios divertidoscomo aquele que aconteceu com a Germana, uma das vezes em que foi à TERRA comdois oficiais seus colegas, e a viúva de um outro, uma senhora suíça, a quem chamavamMadame Junqueira, por ser este o nome de família do falecido marido, e que já porvárias vezes manifestara o desejo de conhecer a TERRA. Segundo ela, as descrições doTIO traziam-lhe à mente recordações da sua Suíça distante. Madame Junqueira nãoconseguiu conquistar a simpatia da Germana: “A Senhora D. Madama debe ser uma desabergonhada. Bem de Lisboa, só, com os homes, e fuma como eis”.Mas o meu pai tenta esquecer a TERRA, a CASA e tudo o que com elas se relaciona.Também durante todo este tempo só entrou três vezes numa igreja, aliás sempre amesma, a Igreja de N. Sr.ª da Consolação, em S. Paulo. Foi no casamento de Júlio e nosbaptizados de Renata e Ricardo. O coro da igreja acompanhou a cerimónia religiosa dobaptizado de Ricardo. O meu pai reparou particularmente na solista, com uma linda vozde soprano. Estava decidido a conhecê-la. Seguiu-a várias vezes sem que ela desse porisso. Soube onde morava. Na rua havia uma estabelecimento de um patrício, “Seu”Antero, com o qual foi metendo conversa até saber pormenores da sua vida. Era umajovem, descendente de italianos, de uma família simples, que vivia ali perto com os paise os irmãos. O pai era contabilista na farmo-química Baldacci. A jovem, que se chamavaMariana, vivera até há pouco tempo com uns tios, numa fazenda do interior do estado.Foi “Seu” Antero quem apresentou Mariana ao meu pai. Quando o meu pai começou afazer a corte a Mariana, ela comentou com a irmã mais velha. Aquele “Seu” João é bobo. Podia ser meu pai.Mas o meu pai, apesar de 20 anos mais velho que Mariana, era ainda um homemcativante. Muito vivo, bom contador de histórias, com uma vida social relativamenteintensa e, na altura, com uma boa situação económica. Tudo isto terá contribuído paraque a resistência de Mariana fosse progressivamente diminuindo. Casaram em 1945,mas só civilmente. Não sei se a iniciativa foi de ambos, ou de algum deles em particular,mas creio que os dois tinham a consciência que naquela relação havia grandeprobabilidade de insucesso.Mariana revelou-se uma caixinha de surpresas. Não só era uma mulher muito bonitacomo tinha uma série de predicados, para além daquele que tinha chamado a atenção domeu pai, no dia em que a conheceu - a sua bela voz de soprano. Bordava com mãos defada e cozinhava divinamente. Nos primeiros anos de casamento tudo correu bem.Tinham uma vida despreocupada. Em casa havia de tudo e podiam divertir-se. Iam àópera, ao cinema, ao clube, à praia; viajavam no Chevrolet que o meu pai tinhacomprado, conviviam muito com amigos. Quando Mariana manifestou a vontade de ter 30
  31. 31. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaum filho, aí as coisas complicaram-se. O meu pai disse frontalmente que não queriafilhos. Já não tinha idade para ser pai e além disso era um homem que não gostava deamarras. Para crianças já tinha os afilhados a quem queria como filhos. Perante ainsistência de minha mãe começam as desavenças no casal seguidas de curtas ausênciasde meu pai, cada vez mais frequentes. Quando em 1949 a minha mãe lhe anuncia queestá grávida o meu pai propôs-lhe desfazer-se da criança, o que a minha mãe não aceita.O meu pai terá feito um ultimato à minha mãe: Ou ela, ou eu.Ao que a minha mãe terá respondido: Ela. As ausências do meu pai tornam-se agora prolongadas, para além de frequentes.A minha mãe sabe que voltou à vida desregrada que tinha quando era viajante. Mas estádecidida. A criança irá nascer. Quando eu nasci em 10 de Janeiro de 1950, num dia decalor sufocante, o meu pai estava ausente já há uns dias. Regressou, por acaso, no dia15 depois de ter passado por casa do primo Júlio onde lhe deram a notícia do meunascimento. Quando soube que era uma menina terá apenas comentado: Um azar nunca vem só.Quando entrou em casa eu dormia no berço. Parece que nem para mim olhou. Sentou-sena sala onde eu e minha mãe nos encontrávamos. Foi a minha mãe quem falouprimeiro. Vens para ficar? Ainda não sei- respondeu o meu pai.A minha mãe saiu por instantes e o meu pai aproximou-se do berço, creio que mais porcuriosidade do que por qualquer outro sentimento. Olhou para mim e voltou a sentar-se.Quando a minha mãe regressou e após alguns minutos de silêncio, o meu pai perguntou-lhe: Já tem nome? Estava a pensar em Gabriela- respondeu a minha mãeEntão o meu pai disse: Eu preferia que fosse Marta.Foi assim que nasceu o meu nome.Embora o meu pai não tivesse decidido ficar, agora são os períodos de presença quepassam a ser cada vez mais frequentes e prolongados. Um dia, tinha eu já cinco meses,decidiu-se a ficar definitivamente. Nesse mesmo dia levou lá a casa os afilhados, Ricardoe Renata. Ter-nos-á apresentado assim: Esta menina chama-se Marta e é como se fosse vossa irmã.E para mim, que do mundo tinha começado a descobrir as minhas mãos, terá dito: Estes são a Renata e o Ricardo que são como teus irmãos. 31
  32. 32. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaO meu pai tinha decidido aprender a gostar de mim, como em tempos tivera queaprender a gostar do pai.Até essa altura o meu pai praticamente nunca falara da TERRA nem da CASA com aminha mãe. Será a partir daqui que ele começará a fazê-lo criando na minha mãe umaimagem que só para ele era real. A CASA era o lugar mais acolhedor que alguma veztivera conhecido. A TERRA era um lugar paradisíaco, com cheiros, cores, sons e saborescomo não existiam em qualquer outra parte do mundo. Falava-lhe de estevas, urzes,arçãs, papoilas, alecrim; de andorinhas, melros, calhandras, cotovias, poupas, cucos,gaios. Descrevia as encostas do Rio, no fim do Inverno, com as amendoeiras em flor,como parecendo véus de noiva, em Junho com os seus tons de castanho, amarelo, verdee roxo, e em Outubro com os tons dados pelas folhas secas das árvores e das vinhas,lembrando telas dos melhores pintores. Falava-lhe das oliveiras no inverno, geladas,como lembrando árvores de prata, dos pingarelhos de gelo caindo dos beirais comolembrando peças de cristal. Falava-lhe também da capelinha de Sto Estevão, lá junto aoRio, que corria preguiçoso nos dias cálidos de Verão e tumultuoso nos dias de invernia,como que ciumento da beleza das encostas que o ladeavam. Descrevia os vários tons docéu, cinza quase branco anunciando neve, cinza quase negro anunciando trovoada, azulsem igual, nos dias límpidos ou, em outros dias, azul manchado de branco pelos castelosde nuvens cuja sombra, nas encostas, se misturava com todos os seus tons tornando apaisagem ainda mais deslumbrante. O meu pai falava de tudo isto, mas omitia quãoduras são a apanha da amêndoa sob um sol abrasador e a da azeitona, sob um frio derachar, tal como omitia a inexistência de estrada entre a vila e a TERRA, a falta de luzeléctrica, de água canalizada, o pouco conforto da CASA. Creio que nestas omissões nãohavia intenção deliberada de enganar a minha mãe. Não, o meu pai via de facto a TERRAcomo o paraíso e a CASA como um palácio.A firma não vai lá muito bem desde a morte do tio Filipe em 1951. O primo Júlio,decididamente não tem jeito para o negócio. Também a situação política no Brasil vaide mal a pior. Todos estes factores aliados à saudade da TERRA e da CASA devem terlevado o meu pai a fixar o regresso como objectivo. Consegue convencer a minha mãe,inicialmente muito renitente. Nessa altura vende a sua quota ao primo. Felizmente o tioFilipe já cá não estava para ver. Regressa. Desta vez será definitivamente. Estávamosem 1954, o ano em que o presidente Getúlio Vargas se suicida. Parte para Portugal,apenas com uma mágoa- não poder levar consigo Renata e Ricardo.10 32
  33. 33. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaA viagem é feita de barco. Viemos em primeira classe. Eu sou a principal companhia domeu pai pois a minha mãe vem enjoada quase todo o tempo. O meu pai, sempre quecontava a viagem, comentava com orgulho: Algumas vezes, a única “senhora” presente na sala de refeições era a Marta.Sei que fizemos escala nas Canárias. Não que me lembre, mas ainda guardo uma bonecaque o meu pai lá me comprou. Ao chegar a Lisboa lá estava o TIO, no cais, para recebero irmão. Desta vez o irmão não vinha para morrer. Há muito que não amava tanto avida.Logo que conheceu a minha mãe, o TIO apercebeu-se que a adaptação à TERRA e àCASA seria no mínimo difícil, senão impossível. Tenta convencer o meu pai a adiar a ida,e a procurar um modo de vida em Lisboa. Mas o meu pai estava decidido. Queria ir ver aTERRA e a CASA e o mais rapidamente possível. É certo que a CASA já não lhepertencia. Vendera a sua parte ao irmão antes de partir, mas ele desde logo lhe dissera: É como se continuasse a ser tua.Fomos no Austin A40 que o TIO tinha recentemente comprado. Mas só até à Vila poispara a TERRA ainda não havia estrada. Na Vila aguardava-nos o António Joaquim comum carro de machos ricamente engalanado com galhos de amendoeira em flor.Estávamos em Março. Os bancos para nos sentarmos estavam cobertos com colchas delinho impecavelmente lavadas. Todos estes cuidados tinham estado a cargo da TIA e dotio Justino que tirou uns dias de licença par nos poder receber. A TIA, já uma semanaantes da chegada fora com a Germana e a Balbina para o Rio, tratar da lavagem dascolchas. Em sua opinião, só no Rio uma roupa podia ficar bem lavada. No dia dachegada o António Joaquim foi colher os ramos de amendoeira e depois, foi o trabalhode engalanar o carro. A imagem do carro impressionou a minha mãe mas não conseguiutornar a viagem confortável. Quando entrou na TERRA a minha mãe estava maçada.Para além disso, sentia frio como nunca tinha sentido, mesmo quando, em menina,vivia na fazenda dos tios, onde por vezes as temperaturas chegavam aos 80C.Fosse por ter chegado ao lusco- fusco, fosse pelas vestes das pessoas, todas muitoescuras, fosse porque, para além da CASA poucas casas eram caiadas, a minha mãe nãoconseguiu ver as tais cores fascinantes de que o meu pai lhe falara. Via tudo cinzento etriste. E quanto aos cheiros os que ela identificava não os achava agradáveis- o doestrume e o dos excrementos dos animais, nas ruas. Quando chegou à CASA, asdesilusões continuaram. Ao entrar na cozinha o cheiro que mais identificou foi o de fumo,fumo esse que lhe fazia arder os olhos. A iluminação da CASA era feita através das maisvariadas formas- candeias, lampiões, candeeiros de petróleo, gasómetros e umpetromax. Por azar, nessa noite ninguém conseguiu pôr o petromax a funcionar e ocheiro do carboneto no gasómetro, incomodava a minha mãe. Tiveram que comer à luzde um candeeiro de petróleo. 33
  34. 34. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaO jantar estava divino, mas Mariana já está demasiado confusa para percepcionar osgostos e os cheiros. À sobremesa come uma compota de ginja na qual parece detectarqualquer coisa estranha. Dizem-lhe que é assim mesmo. Mas no dia seguinte, à luz dodia, Mariana descobre que a ginjada está coberta de moscas que morreram coladas aodoce, vítimas da sua gula. A CASA tem andado de facto um pouco desleixada. Se a TIAainda estivesse para controlar tudo, tal nunca teria acontecido. Mas a Germana e aBalbina, duas boas criaturas, dão pouca importância a certos aspectos de higiene. O meupai, esse está deliciado com tudo. Parece ter regressado aos seus dias de menino. Nessanoite Mariana chora copiosamente e no dia seguinte decide não sair da cama. Nem noseguinte, nem nos vários que se lhe seguiram. Ignora-me, mas eu tenho muito quemcuide de mim- a TIA, a Germana, a Balbina e todas as vizinhas, particularmente a Sr.ªFelismina e a sua filha, Mininha. De tal modo eu ando de mão em mão que a Sr.ªFelismina me chamará sempre a pombinha da Catrina. A TIA e o tio Justino têm queregressar. A TIA ainda pensa ficar mas o tio Justino acha que o meu pai e a minha mãetêm um problema que tem que ser resolvido por eles e que qualquer interferênciaestranha pode ser negativa.O estado depressivo da minha mãe agrava-se de dia para dia e o TIO acha que a minhamãe tem que ser vista por um médico. Regressamos a Lisboa, mas já durante a viagemo meu pai vai arquitectando uma solução para o problema. Construir uma casa, commais conforto, no palheiro que existe no cimo da aldeia. Fala nesta ideia ao irmão que oapoia. Com esta ideia em mente o meu pai quer voltar à TERRA o mais cedo que lhe forpossível. O médico acha que a minha mãe está como que em estado de choque pelo quenem pensar em regressar. O meu pai pensa então em regressar só comigo, enquanto aminha mãe fica internada numa clínica. O TIO acha que é um disparate pois, embora aBalbina e a Germana sejam muito extremosas, não saberão cuidar duma criança comhábitos muito diferentes dos delas. Mas o meu pai é inflexível. Eu levo a Marta comigo.Não sei se ao tomar esta decisão, o meu pai já estava a contar com a colaboração daSr.ª Felismina e da Mininha. A Sr.ª Felismina morava paredes meias com a CASA. Ela, oSr. Pedro e a Mininha. O casal era já idoso e a Mininha, teria na altura os seus 35 anos.Foi com esta família que eu passei a maior parte daquele tempo. De início estranheimuito a falta de minha mãe (a mamãe, como eu dizia) mas pouco a pouco a suaimagem foi-se diluindo. Desses tempos guardo muito boas recordações. Nunca tinhabrincado com um gato, nunca tinha feito festas a um cordeiro, nunca tinha pegado numpintainho ao colo e agora tinha um só para mim, que a Mininha me tinha dado e de queeu cuidava, com a sua ajuda. Também nunca tinha cozinhado. Mas a Srª Felisminaarranjou-me uma panelinha de ferro de três pés, idêntica ás que ela punha ao lume, eeu fingia que cozinhava. Para não estragar a roupa que eu trazia, toda ela muito cuidada, 34
  35. 35. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaalguma bordada pela minha mãe, fazem-me umas peças de roupa simples para eu usarlá em casa.O meu pai anda preocupado com os projectos para a casa de cima, que é assim que elelhe começa a chamar. Não me pode dar grande atenção, mas todos os dias me contahistórias e de vez em quando leva-me ao palheiro para me explicar como será a novacasa. Claro que eu não consigo imaginar nada. Fico apenas com a ideia de que irá serbonita. Uma das vezes leva-me até ao ribeiro para onde estavam a ser conduzidas ascanalizações para os esgotos. Não sei bem quanto tempo decorreu entre essa ida e aminha crise de paludismo. Na TERRA, e em tempos mais remotos, era relativamentefrequente as pessoas adoecerem com paludismo- sezões, como lhe chamavam. Por vezesbastava uma ida ao rio ou a um dos vários ribeiros, onde deveriam existir mosquitos dogénero “anopheles”. Quando comecei com muitas tremuras e períodos de muita febre, omeu pai mandou o António Joaquim à Vila falar com o Dr. Sebastião, um homemextremamente generoso, um autêntico João Semana. Em face das explicações doAntónio Joaquim, o Dr. Sebastião imaginou logo do que se tratava. Apareceu munidocom quinino e preparado para fazer uma recolha de sangue para análise. Comecei logo atomar o quinino. Posteriormente a análise confirmou que eu estava com paludismo. Nãosei quanto tempo estive doente. Passei todo o tempo na casa da Sr.ª Felismina. Lembro-me de que sempre que abria os olhos via à cabeceira da cama, o meu pai, a Mininha e aSr.ª Felismina. A Germana e a Balbina passavam os dias a chorar. Ai que se “bai” o nosso anjinho.Pediram licença ao meu pai para fazer uma promessa a Sto Estevão. Se eu curasse, iriavestida de anjo na procissão da festa de Maio. É que Sto Estevão tem duas festas - a deSetembro e a de Maio, apenas com a parte religiosa. O meu pai anuiu. Faria tudo parame ver boa. As vestes foram alugadas em Viana. Foi assim que eu “fui de anjo”. Aminha mãe só soube de tudo isto, tempos mais tarde. A TIA e o tio Justino souberammais cedo porque apareciam com frequência. Aliás foram eles que trataram de alugar asvestimentas. O TIO também vinha à TERRA de vez em quando tal como eu e o meu paiíamos por vezes a Lisboa. A minha mãe é que não viria à TERRA durante mais de umano, precisamente o tempo de construir a casa de cima.11A minha mãe regressou à TERRA em Agosto de 1955. O tio Justino estava de férias peloque se pôde contar com o apoio da TIA na difícil tarefa de criar condições para aadaptação da minha mãe. Desta vez, ao chegar, o choque não foi tão grande. Para issocontribuíram vários factores. Um deles foi a viagem. O meu pai tinha comprado um 35
  36. 36. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiaautomóvel, um Sinca em segunda mão e, à sua custa, mandado dar um jeito aocaminho entre a Vila e a TERRA. Foi de automóvel, e não de carro de machos, que aviagem foi feita desta vez. Por outro lado, a minha mãe já sabia com o que contava.Sabia ainda que existia a casa de cima com outro conforto.Para a casa de cima, que confina com duas ruas, entra-se por uns grandes portões emferro que dão acesso a um pátio descoberto- o pátio de cima- mais tarde coberto poruma ramada. Esse pátio dá acesso a um outro, fechado- o pátio de baixo- quecomunica com a outra rua. Este pátio, por cima do qual está um terraço, dá para aadega que tem uma outra porta, para a rua. O pátio de cima dá ainda acesso ao quartoda costura, ao pio do vinho, também este com um outro acesso a partir da rua, e àsescadas para o piso superior. Neste há uma cozinha grande (se bem que muito menorque a da Casa) com uma lareira, uma sala, dois quartos, o escritório do meu pai e umacasa de banho. Por cima da cozinha há um depósito para onde era elevada a água. Estaera transportada, desde a fonte, em cântaros dentro das cangalhas no dorso dosmachos. No pátio de baixo foi colocado um pequeno gerador de energia eléctrica. Nãohavia nem forno, nem galinheiro, nem cortelho de porcos, nem loja para os animais. Omeu pai sabia que, nessa áreas, jamais iria poder contar com a minha mãe. Quando aminha mãe chegou não havia móveis, à excepção de duas camas de ferro. O meu paiiria deixar a tarefa da decoração para a minha mãe, na esperança de que isso lhecriasse um envolvimento com a casa. As ordens médicas eram no sentido de a ocuparem tarefas, nas quais se sentisse envolvida.Como a casa de cima não tinha móveis, apenas lá dormíamos. O dia passávamo-lo naCASA. Eu adorava. A CASA com todas aquelas escadas, com o Lar e o forro, com osescanos e as preguiças exercia sobre mim grande fascínio. As refeições eramconfeccionadas sob a supervisão da TIA. A minha mãe ia assistindo e aprendendo. Aindahoje acho estranho como é que sendo a TIA tão intolerante com certas práticas, tãoconservadora, aceitou tão bem a minha mãe, apesar de casada apenas civilmente. Nuncase referia a isso, embora a situação a desgostasse. Quando alguma pessoa levantava oproblema ela limitava-se a dizer: São outras terras com outros usos. Que lhe havemos de fazer?Já no que respeita aos problemas decorrentes da dificuldade de adaptação da minhamãe, aí era totalmente sincera quando dizia: Não me admiro nada. Para quem vem duma terra onde há de tudo, deve ser muito difícil gostar disto. Isso é para nós que temos aqui as nossas raízes.Quando a minha mãe manifestou a intenção de começar a bordar, a TIA pôs-lhe àdisposição peças de linho, que ainda estavam intactas nos baús, linhas, agulhas, dedaise bastidores. 36
  37. 37. Estórias com sabor a Nordeste Regina GouveiaÀ tarde, a Mininha vinha fazer companhia à minha mãe enquanto eu ia fazer companhiaà Sr.ª Felismina, o que me dava sempre imenso prazer. Já ensaiava uns pontos demeia, que ela me tinha ensinado. Eu tinha como objectivo fazer uns meiotes para o Sr.Pedro, obra que nunca concluí, não sei se devido à minha inabilidade se à morte do Sr.Pedro dois anos depois. A Mininha, tal como a TIA, ficava admirada porque a minha mãebordava sem “risco”. Imaginava o que ia bordar e a partir daí as mãos trabalhavam comas agulhas e as linhas. Também os motivos bordados nada tinham a ver com aquilo aque a TIA e a Mininha estavam habituadas- eram araras, tucanos, colibris, sabiás,papagaios, catatuas, tatus; eram goiabas, jaboticabas, caquis, mangas, mamões. E tudoisto envolvido num colorido que me encantava.Os encontros da minha mãe com a Mininha, em que participava a TIA sempre que estavana TERRA, ficariam sempre marcados na minha memória, especialmente a partir domomento em que a minha mãe recomeçou a cantar. Também aí houve aprendizagemdos dois lados: enquanto a minha mãe aprendia as modinhas da Terra, a TIA e aMininha aprendiam modinhas brasileiras, que a minha mãe cantaria sempre comsotaque, mesmo depois de praticamente o perder. Eu gostava muito das que falavamdaquele outro mundo de além-mar, que eu já quase esquecera. Uma delas era umacanção com que a minha mãe me embalara . Bicho Tatu saia do telhado deixe o “minino “ dormir sossegado Dorme neném que a cuca vem “pegá” mamãe foi na roça papai no “cafezá”.Eu crescia assim entre dois mundos. Mas a adaptação da minha mãe não estava a serfácil. De vez em quando ficava muito triste e com o olhar muito distante como daquelavez em que ensinava à Mininha uma canção da sua terra que dizia: Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.Não conseguiu a acabar o último verso. Começou a chorar. Acho que a canção traduzia oque lhe ia na alma. Mas fazia sempre por reagir, ocupando-se. Empenhou-se nadecoração da casa. Os móveis, escolhidos por ela, eram simples mas com a marca doseu bom gosto. Foi ela quem depois confeccionou as cortinas com o linho da CASA quebordou, muitas vezes com a ajuda da Mininha. Agora passávamos a maior parte dotempo na casa de cima e outra das suas ocupações foi ensinar-me a ler, mesmo antes 37
  38. 38. Estórias com sabor a Nordeste Regina Gouveiade ir para a escola. Tentou também ensinar a ler a Germana e a Balbina que nãopassaram da escrita do nome. Comigo teve mais sucesso. Quando cheguei à escola, emOutubro de 1956, já sabia ler, escrever e fazer contas de somar e subtrair. Entreidirectamente para a segunda classe. A aritmética foi-me ensinada pelo meu pai. Não seise por isso, quando mais tarde chegou a hora de decidir qual o curso a seguir, a minhamãe sugeria- me as Letras e o meu pai, as Ciências.12Guardo algumas recordações da escola mas nenhuma do meu primeiro dia de aulas.Também guardo muito poucas recordações da professora que tive nesse ano- a D.Cremilde. Curiosamente lembro-me mais dos seus três filhos, duas meninas e ummenino, com idades entre os dois e os cinco anos, e do marido que recordo sempremontado num fogoso cavalo branco. A D. Cremilde vivia na casa da escola, se é que casase lhe podia chamar. Na verdade a escola era um edifício muito velho, um pouco emruínas, onde já tinha estudado o meu avô Álvaro. Consistia em duas salas- uma era asala de aulas que albergava simultaneamente as quatro classes e a outra era a casa daprofessora, onde a D. Cremilde criou dois compartimentos, improvisando uma separaçãocom uns cortinados de chita. Eu, tal como os outros alunos, conhecia a casa porque a D.Cremilde, como tinha as crianças pequenas, ia muitas vezes a essa zona. Por issodeslocávamo-nos lá, com frequência, para mostrar a conta, a cópia ou qualquer outrotrabalho. Toda a gente sabia que a D. Cremilde detestava estar na TERRA; há muito quealmejava ser colocada na sua aldeia que distava mais de 20 km. Era lá que vivia omarido que, de vez em quando, a vinha visitar. No meu segundo ano de escola, ou seja,na terceira classe, a escola passou a posto escolar, segundo se dizia à boca cheia, porinfluência da D. Cremilde, que assim conseguiu ser colocada mais próximo da sua aldeia.Passámos então a ter como professora uma regente escolar- a menina Celeste- de quemtambém me lembro pouco. Lembro-me no entanto de que a menina Celeste trocava osbês pelos vês. Assim dizia-nos: Meninos vamos ao “travalho”.Creio que estas gafes da menina Celeste resultavam da sua extrema preocupação emnão trocar os vês pelos bês como acontece ainda hoje na TERRA. Quando um dia o meupai comentava este episódio com o TIO este aproveitou logo para dizer: Mais uma bela obra do “Botas”. Fecha as Escolas Normais, cria os postos escolares. Quanto mais ignorantes formos, melhor. 38

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