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  1. 1. Magnetismo terrestre -1- Regina Gouveia Regina Gouveia Magnetismo Terrestre
  2. 2. Tudo me prende à terra onde me dei:O rio subitamente adolescente,a luz tropeçando nas esquinas,as areias onde ardi impaciente….Dizem que há outros céus e outras luase outros olhos densos de alegriamas eu sou destas casas, destas ruas,deste amor a escorrer melancoliaEugénio de Andrade, “Canção Breve” 2
  3. 3. PrefácioA beleza das coisas só pode ser fruída por um espírito sensível e o artista, ao exprimir na obra aestesia que alguma vez experimentou, inescapavelmente deixa nela as marcas da suaidiossincrasia e das suas vivências. O título desta colectânea de poemas repassados de saudadesde um tempo e de um lugar (que afinal é um universo) é a transposição alegórica de uma temáticacientífica da área da Física, o que não surpreende porque a autora, docente de Física e Químicapode, com a maior naturalidade, emoldurar o seu estro em referentes científicos ainda quemetafóricos, como é o caso presente e foi também o caso das obras anteriores Reflexões eInterferências e Poeira Cósmica.A vertente poética que a autora manifesta e cultiva com mestria mostra, por um lado, que aformação científica e a actividade profissional, ainda que empenhada (como é o caso) nãosatisfazem cabalmente os anseios de uma alma sensível que busca a completude. Por isso, que aprática da arte seja um complemento cabonde do frio racionalismo que enforma e estrutura aciência. A autora reconhece-o quando diz “ É difícil de explicar pois não há explicação que assentesó na razão “ (poema Sensações, nesta obra). Os poetas são seres sensíveis que, consonantes coma Natureza, vêm e exprimem o que a razão não alcança. A mente do artista pode atribuir àscoisas características que a pessoa dita normal não vislumbra.” A paisagem é um estado de alma“, Fernando Pessoa dixit.Os vinte e sete poemas que a autora nos oferece estão impregnados da recordação saudosa dascoisas e dos seres dos lugares onde decorreu a sua meninice, infância e adolescência (o Universoda autora) recordação que se aviva a cada visita ao seu rincão sito no Nordeste Transmontano. Oque está plasmado nos versos que nos deixa é a transfiguração pelo poeta que a autora é, dosentimento induzido por esse pequeno / grande mundo para ela de tão gratas memórias.A formação científica da autora transparece, como em António Gedeão, na obra poética. Assim,às vezes, notas de cariz científico surgem integrados no discurso poético sem quebras de ritmonem significância, antes pelo contrário, como é, por exemplo o caso do final do poema Ilusão “ Noocaso, o sol vermelho já se esconde, porém, já lá não está, é ilusão. Ainda o vemos devido àrefracção.” Outras vezes (poema Big Bang) noções científicas como a do Big Bang, ligado àexpansão do Universo são contrapostas à vivência da autora, cujo Universo, clama, se contrai notempo.Dos vinte e sete poemas cinco não são inéditos, respigados que foram do primeiro livro publicadopela autora - Reflexões e Interferências. Foram aqui incluídos por se referirem à temáticanordestina, foco polarizador da inspiração dos poemas agora dados à estampa. Muitos dos poemasdestilam nostalgia de um tempo que passou mas que deixou marcas indeléveis, agoratransfiguradas em poesia induzida pela revivência desse passado. No poema que temexpressamente essa designação - Nostalgia - é dada conta do desaparecimento de práticasancestrais ligadas à economia de subsistência das populações nordestinas (cultura da oliveira e daamendoeira, emblema da região agora substituído pela cerejeira, também objecto de um poema).Curiosa a terminologia ligada a essas práticas como alpechim e infernos.Sem curar de fazer uma recensão completa da obra, no conjunto de grande nível e valor artístico –tarefa que competirá a quem for da arte da crítica literária - apraz-me salientar dois exemplosparadigmáticos: No poema Sensações a autora poetiza “o cheiro da sua casa da aldeia”, o querecorda Régio quando refere em uma das suas obras “ os bons e maus cheiros” de uma velha casa. 3
  4. 4. No poema Entropia a degradação da matéria viva (medronhos apodrecendo no chão) é usadacomo ilustração do 2º Princípio da Termodinâmica.Já outros autores com formação científica de base poetaram glosando, por exemplo, temas deFísica (Niels Bohr) e / ou de Química (António Gedeão / Rómulo de Carvalho). Mas no caso dapresente autora a poesia, ainda que insira aspectos da sua cultura científica encadeados nodiscurso poético, o lirismo dos temas e a forma como são tratados denunciam uma sensibilidadeque só pode ser feminina.A presente obra, pela diversidade dos tópicos que percorre, todos ligados à vivência da autora naterra das suas raízes ficará, sem dúvida, como um belo retrato poético do Nordeste Transmontano.José Ferreira da Silva11 Professor Catedrático jubilado do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. 4
  5. 5. RaízesAs minhas raízes estão em íngremes ladeiras, em terras de xisto,onde crescem amendoeiras, carrascos, sobreiros, oliveiras,e onde o sentir é outro, mais profundo.Como que em busca da certeza de que existo,gosto de vaguear pelas ladeiras, sentindo rumorejar o rio ao fundo.OutroraOutrora, seriam por certo diferenteso achatamento polar, o campo magnético, a atracção lunare, como tal, o peso das coisas, as marés.Diferença subtil, irrelevante,pois se esse tempo, à escala humana é já distante,à escala do Universo ainda é presente.Outrora, seriam por certo diferentes as gentes que no castro habitavammas como hoje, sofriam, amavam e guerreavam em sangrentas batalhas,deixando virgens, talvez para sempre, tímidas donzelas.Testemunhas desse tempo, as muralhas,naturais do lado do abismo, do outro lado humana construção,como também humana a destruição que de onde em onde grassa.Ignorou-se que enquanto o tempo passa,as pedras guardam na memória os feitos da história,o sangue derramado, a glória, o revés.Em terras que com sangue foram adubadas,florescem hoje papoilas encarnadaspor entre alvas estevas, roxas arçãs e giestas amarelas.Na Primavera, todas elas salpicam a ladeira do castro até ao rio.Deste, quem sabe, o rumor será ainda eco dum clamor,outrora lançado no vazio.Tempos agrestesEram tempos agrestesquando da azeitona ou da amêndoa, a apanha.Era o vento cieiro que vinha de Espanhauma brisa seca, cortante, geladaque gretava a pele já de si curtida,era a soalheira que encardia o rosto no ateado AgostoEram tempos agrestesde fugas para França e de passadoresde silêncios pesados, de densos suoresque iam desgastando dia a dia a vidaqual roupa delida já de tanto usada.Eram tempos agrestes 5
  6. 6. grávidos de sol, de frio e de nada.OcasoEm Fevereiro, o dia quase exangue, era azul claro e rosa a cor do céu.Depois escureceu; tornou-se cor de chumbo e cor de sangue.Talvez anjos brincando na imensidão etéreaou, simplesmente, a interacção da luz com a matéria.O sol vai imergindo por detrás do monte e no horizontedestaca-se a silhueta de um sobreiro. Difusa, voa rasante uma cotoviae é então que, no céu, Vénus se anuncia.CaminhadaFlores tímidas, selvagens, atapetam o chão.Coberta de líquenes e musgo, a fraga, ao fundo,onde frágil se equilibra uma oliveiraque espreita a queda de água que escorre na ladeiraonde agoniza um pombal, já sem função.Um balir de rebanho rompe o ar dolentee uma avezita, que emerge de um sobreiro,toma por seu mundo o céu inteiro.Medito enquanto calcorreio o caminho lentamente.Quanta transformação química ocorridapara transformar húmus em vida?Quanta energia transformada?Quanto neutrino atravessando o nada?MoinhoEntre calhaus e areias, grossas, finas,virgens porque há muito não pisadas,e mescladas de vegetação rasteira,resistem ao tempo, no fundo da ladeiraumas ruínas de um açude, um canal e um moinho,cuja cobertura se perdeu como todos os anos se perdiaquando o rio, nas enchentes, lúbrico crescia.Ainda hoje o rio umas vezes adormece outras galopa na viagem.Do moinho que agoniza junto à margemresta, corroída, uma mó que em tempos transformava grão em pó.Restam também vestígios de uma antiga construçãoe, numa fraga, escavada uma pequena cova, talvez a gamela de um cão.Quiçá um perdigueiro, companhia de caça do moleiro.CrepúsculoPlana o falcão sobre a ravina.O sol declina e todo um mistério invade o ar.Num eco etéreo, há um rumor que se aproxima.Talvez o vento cujo lamento cruza a neblina 6
  7. 7. que esconde o dia e abraça a noite que se anuncianuma acalmia, numa doçura crepuscular.Porém, na Terra, algures há guerra, bombas, granadas a deflagrar.BarcaEntardece. Ainda uns raios de sol, já desmaiadosque se reflectem nos calhaus rolados que o rio afaga.No ar, um silêncio que apenas o rumor do rio apaga,rumor, ou talvez prece ao Senhor da Barca, ali ao lado.Já não existe mais a barca que outrora foi realmas na margem do rio, enferrujado,testemunha de um tempo intemporal,jaz moribundo um pedaço do caboque, a cada viagem, guiava a barca de uma à outra margem.Big-BangNa minha infância, o Universo estendia-se do Castelo até às Eiras,envolvendo a Praça e o Cabecinho onde ficava a minha escola.Á volta eram ladeiras que velavam o sono do rio lá no fundoEra assim o meu mundo que para mim, era maior que o infinitoe que em cinco linhas aqui ficou descrito,contrariando assim, à evidência, uma das conjecturas da ciência.Desde o seu Big-Bang o meu Universo contrai-se, não se expande.TeiaCom as recordações da minha infância fui tecendo, dia a dia, enredada teia.O cheiro do azeite no lagar e no Outono a fermentar o mosto,o céu estrelado, o luar de Agosto, as cores da Primavera e as do Outono,o vermelho das papoilas, dos medronhos, o branco das flores de amendoeira,o sabor das amoras de silva ou de amoreira, as histórias contadas à lareira o som da chuva , daneve, do granizo, na escacha da amêndoa, o som do riso,o rumorejar do rio no fundo da ladeira, o piar da coruja, o bramir do vento,são imagens que preenchem os meus sonhose assim invadem o meu pensamento, enredando-o na emaranhada teiaque até hoje a minha vida prendepor um fio, que tanto se contrai como distende.PonteSempre em concordância com o traçado,desventraram a ladeira de um e outro lado.O rio, no fundo, parece alheado,correndo ligeiro ou sonhando parado.Sobre ele crescem, da ponte, pilares e tabuleiro.Este, apoiado só no meio, cresce dia a diapara um e outro lado, sempre em simetria.As leis da física assim o determinam. 7
  8. 8. Pesos, momentos, reacções, tensões,tudo se conjuga em equaçõesque os operários jamais imaginam.Em busca da terra prometidavêm daquém, dalém, vêm de Leste,vêm de África, têm vida agreste,chegam a pagar o sonho com a vida.E o Sabor, em eterno devaneio,beija a ladeira a tudo o mais alheio.Flores de amendoeiraAs flores de amendoeira, antes da Primavera,cobrem a ladeira como um branco véuou como vestes de anjo que se esfumou no céu.Impressa no código genético a química magiada ebúrnea cor que recende a nostalgiaCasas de XistoCasas de xisto com, sem escaleiras,traves de zimbro nas padieiras,balcões, sacadas, toscas ombreiras,foram com o tempo, há muito tempo…Ficaram histórias entre as memórias que traz o ventoque chora, chora e no seu prantolembra o encanto das casas de outrora.EstevasPegajosas as estevas, quando florescem,ostentam flores majestosas de fino odor.Porém as flores fenecem.Resta uma além, murcha, esquecida.Pobre flor! Uma das pétalas já não tem vidamas, mesmo assim, desfalecida, mantém o odor.DivagaçãoCom o olhar perdido entre rio e céu,tendo por horizonte o infinito, divaga o meu eu, angustiado, aflito.Se este rio fosse meu, não permitiria que algo o poluíssee talvez um dia com ele me fundissenum apertado e sempiterno abraçoquando a vida nada mais fosse que cansaçoAndorinhasSentada no terraço,vejo as andorinhas entrar e sair dos ninhos na casa do vizinho. 8
  9. 9. O vizinho morreu e a casa está abandonada,mas as andorinhas, de luto, como é sempre o seu vestir,talvez pelo vizinho, os que o antecederam e os que ainda hão-de vir,continuam a voltear em torno dos ninhos na casa agora abandonadado vizinho que morreu.Sempre me lembro das andorinhas no beiral da casa do vizinho.Sei que as de agora não são as mesmas que as de outroramas talvez de geração em geração, tal como passa o sentido de orientação,tenha passado a informaçãoda minha existência no terraço em frente à casa do vizinhodesde quando o meu pai me dizia poesia que falava da sua migração.Orientadas pelo campo magnético terrestre, pelo sol, pelas estrelasou simplesmente navegando à vista, aí vão elas seguindo uma pistaque as trará de volta novamente, quando se iniciar o tempo quenteSó que um dia já não haverá casa do vizinho,nem eu estarei no terraço a recebê-las.Cores outonaisO muro de xisto é já uma ruína mas a vinha, velha e tão cansada,exibe de novo os seus tons outonais.Numa subtil gradação de frequências a folhagem é agora amarelada, acobreada, cor de vinho,acastanhada.Ostentam cores outonais também, mais além, a pereira e o marmeleiro.Enquanto transferências de electrões desencadeiam oxidações e reduções,carotenos e antocianinas conjugam-se em paisagens quase surreais.Sentada numa fraga, ao lado de um sobreiro,quero perpetuar estes instantes, transformar em eterno este momento,mas o agora de há pouco, já é antes, nesta implacável corrida do tempo.ProdígioProdigiosa aquela cerejeira com seus frutos.Sensual, rubro o epicarpo,carnudo, nacarado o mesocarpoda pudica semente protecção.Tal como se fora a vez primeirasaboreio uma cereja calmamentenum misto de volúpia e devoção.LiçãoConstava no compêndio que eu tinha que estudarque o azeite, no essencial, é um misto de oleína e palmitinade diferente densidade e ponto de fusãoFalava ainda o meu compêndio em decantação, ponto de inflamação,porém, ainda antes do compêndio, era bem pequenina e já sabiaque os negros frutos de todo o olival iriam ser esmagados no lagar 9
  10. 10. para das entranhas o azeite retirarjunto com o alpechim do qual se iria separarAmargo e negro, o alpechim, iria ser lançado nos infernos 2.Também antes do compêndio já sabia que em candeias o azeite iria alumiare que em gélidos Invernos iria talhar, em duas camadas se iria separar,a inferior, pastosa, esbranquiçada, a superior , viscosa, amarelada.Mas quando criança, também me apercebia que o tão dourado azeite,à mesa sempre usado com deleite, na malga do pobre não ia ter lugar,quando muito o azeite das sobras de fritar.Só que isso não constava no compêndio.NostalgiaQuando passo num amendoal, após o verão,sinto um misto de nostalgia e emoçãoao ver a amêndoa abandonada nas árvores e no chão.Outrora significou prosperidade e eram guardados os amendoaispara garantir que os rebusqueiros não rebuscavam demais,que rebuscavam só no chão, à claridade, só de dia e não ao lusco-fusco.Hoje, já ninguém anda ao rebusco.No Verão, sob um sol abrasador, era a apanha.Hoje fica nas árvores e cai na terra que a arrebanha e com ela se funde; confundem-se os seustons. Da escacha já há muito não se ouvem sons.Os escachadores ora em uníssono, ora desfasados, habilmente manejadoscom gestos secos, certeiros e breves por mulheres, crianças, raparigas,que enchiam o ar de risos e cantigas, iam partindo a amêndoa,sempre cadenciados, deixando o grão intacto ou com mazelas leves,enquanto das cascas, o monte crescia no chão.Mais tarde, a par da lenha, na lareira, iriam servir para combustão.O grão ia para sacos de serapilheira. Mais tarde era vendidoe o seu destino era assim perdido. Aquele que ficava imperfeito, esbotenado, iria ser, mais tarde,laminado, misturado com ovos e açúcar, nos rochedos cujas receitas eram envoltas em segredose cuja doçura ocultava a agrurade tanta fadiga e de tanto suor.Eram a lavra, a limpa, a enxertia, ano após ano um ritual que se cumpriae quando floriam as amendoeiras, o lavrador contemplavado cimo das ladeiras aqueles véus de noiva a perder de vista,não com o olhar breve de um turista,mas com um profundo olhar, cheio de amor.StacattoAli onde o silêncio impera e onde o infinito faz sentido,numa fraga, junto ao rio, foi esculpido algo que pode ser uma mensagem,uma data, talvez de uma viagem, um nome, quiçá o de um romeiro,que envolto num denso nevoeiro, surgiu num dealbar de primavera.2 reservatórios para recolha do alpechim 10
  11. 11. EntropiaDesde o átomo à célula, toda uma evoluçãoque desafia os mais ousados sonhos.E assim, no mato denso de carrascos,salpicando de cor os dias baçose dando aos espaços um ar de fantasia,irrompem sensuais e rubros os medronhos.Alguns logo ali se degradam, ao cair no chão.Eis o sentido da evolução.Chamou-se-lhe entropia.33 Para além destes 22 poemas e, por também terem a ver com o nordeste transmontano, serão incluídos nolivro 5 poemas de Reflexões e Interferências. São eles: Ilusão, Hipocrisia, Castro, Flores, Sensações 11

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