Agora é que são elas - Revista DOC

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Em homenagem ao Dia Internacional
da Mulher (celebrado em 8 de
março) e ao ano em que o Brasil tem
pela primeira vez na sua história uma
presidente mulher – Dilma Roussef,
a Revista DOC conversou com presidentes
de cinco grandes sociedades
brasileiras – Cardiologia; Ginecologia
e Obstetrícia; Neurologia; Anestesiologia;
e Geriatria e Gerontologia,
além de duas médicas referências
em suas áreas de atuação.

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Agora é que são elas - Revista DOC

  1. 1. CAPADOC | 40 |
  2. 2. Agora é queSÃO ELAS por Gabriela Lopes | Fotos de André Feltes, André Lima, Drika Barbosa, Elaine Balata, Leo Chaves, Pedro Vilela e DivulgaçãoE m um universo ainda homens representavam 66,43% dos pela primeira vez na sua história uma considerado “masculino”, profissionais paulistas. Vinte anos presidente mulher – Dilma Roussef, é cada vez maior a presença depois, em 2000, a presença mascu- a Revista DOC conversou com pre-feminina entre as diversas lina já havia diminuído, mas ainda sidentes de cinco grandes sociedadesespecialidades médicas. É o que era predominante, com 55,39% brasileiras – Cardiologia; Ginecolo-comprova uma recente pesquisa dos novos inscritos no Cremesp. gia e Obstetrícia; Neurologia; Anes-desenvolvida pelo Conselho Federal Portanto, o cenário mudou na pri- tesiologia; e Geriatria e Gerontolo-de Medicina (CFM). No período de meira década do século XXI. gia, além de duas médicas referências2000 a 2009, a dimensão de médicas Atualmente, as mulheres desta- em suas áreas de atuação.entre os profissionais credenciados no cam-se em áreas como Cardiolo- Nesta reportagem especial, VeraBrasil subiu mais de quatro pontos gia, Dermatologia, Endocrinologia, Lúcia Fonseca, Márcia Barbosa, Elzapercentuais – de 35,5% para 39,9%, Ginecologia e Pediatria, onde são, Dias da Silva, Nádia Duarte, Ma-o que aponta para uma tendência à proporcionalmente, cerca de quatro rianela de Hekman, Rosa Célia Pi-“feminilização” da profissão. vezes mais numerosas do que os ho- mentel e Meri Baran contam como De acordo com o Conselho Re- mens. Além disso, nota-se a partici- trilharam o caminho de sucesso nagional de Medicina do Estado de pação efetiva das médicas em cargos profissão – das primeiras experiênciasSão Paulo (Cremesp), a quantidade de liderança, o que representa um de- na universidade e adaptações na vidade profissionais inscritas já consoli- safio diário para estas profissionais. pessoal e familiar até as barreiras queda uma mudança expressiva: entre Em homenagem ao Dia Interna- superaram rumo a uma carreira bem-os 3.029 formandos de 2009, 54% cional da Mulher (celebrado em 8 de sucedida. Afinal, qual é o toque femi-são mulheres. Nos anos de 1980, os março) e ao ano em que o Brasil tem nino que elas trazem à Medicina? | 41 | DOC
  3. 3. “Até os meus 40 anos me dediquei integralmente à Medicina. É preciso muito estudo e trabalho”. Márcia de Melo Barbosa Elas por elas Vigor e altruísmo na “A médica deve valorizar a vida pessoal e familiar, além Cardiologia de estudar e alinhar-se às en- tidades médicas, que lutam por melhores salários”. Marilene Melo H á quatro anos, a cardiologista plantão. Aos 56 anos, ela também par- “A mulher tem perfil relacio- Márcia de Melo Barbosa, ticipa do projeto Cidadão Sabará, des- vice-presidente da Sociedade tinado a crianças carentes, e é uma das nado ao imaginário maternal Brasileira de Cardiologia (SBC), deu fundadoras da Associação Sabarense de e compreende o paciente uma reviravolta em sua vida profissional. Proteção aos Animais. pelo fato de ser sensível e A médica diminuiu o ritmo intenso de Antes de assumir a vice-presidência de trabalho no Hospital Socor, em Belo uma das maiores sociedades médicas do delicada. Mas, acima dessas Horizonte (MG), onde é chefe do serviço país, Márcia foi presidente da seccional qualidades, deve ser compe- de Ecocardiografia desde 1983, para se de Minas Gerais e diretora de departa- dedicar mais aos projetos da sociedade mentos da SBC. Segundo ela, o fato de tente no que faz”. e às pesquisas na área acadêmica. Hoje, ter acumulado diversas funções em mais Nádia Duarte ela é também colaboradora do curso de de 20 anos de carreira lhe proporcionou a pós-graduação da Universidade Federal experiência para o atual cargo de lideran- de Minas Gerais (UFMG). ça. “Esta oportunidade é a mola que pode “As mulheres têm mais capa- Márcia confessa que no início da carreira impulsionar cada vez mais o desenvolvi- cidade de administrar múl- sacrificou algumas etapas de sua vida mento da minha carreira”, vislumbra. tiplos trabalhos. Nunca fui pessoal em detrimento da profissão. Sobre suas conquistas profissionais, “Voltei a trabalhar quando meu primei- ela afirma com propriedade que todos privilegiada ou menospreza- ro filho ainda era recém-nascido. Lembro os seus esforços não foram em vão. “Até da por ser médica e mulher. que durante os plantões no CTI o levava os meus 40 anos me dediquei integral- Sempre me impus e tive o para o estacionamento do hospital só para mente à Medicina. Para atingir esse ama- amamentá-lo. Até hoje guardo um retrato durecimento, é preciso muito estudo e respeito como retorno des- com o filho no braço e um livro de Medi- trabalho. Em vista de tudo o que recebi, ta atitude”. cina no outro”, recorda ela, aos risos. o mínimo que posso fazer é contribuir Vera Lúcia Fonseca Dona de personalidade forte, Márcia com as causas sociais, a exemplo dos tra- Barbosa encontra nos esportes a fonte balhos nas ONGs. No final, há sempre de energia para enfrentar 60 horas de uma recompensa”, acredita.DOC | 42 |
  4. 4. Disciplina espartana naNeurologia “Jamais permiti que problemas pessoais influenciassem a vida profissional. Agradeço aos colegas por reconhecerem o valor da minha dedicação”. Elza Dias da SilvaA neurologista carioca Elza Dias The National Hospital for Neurology Disease, da Silva chegou a Brasília referência em Sistema Nervoso. (DF) em uma temporada A médica conta que acompanhou de 39,9%chuvosa de 1972 com a promessa perto o surgimento da tomografia com-de atuar no Hospital Público dos putadorizada e atribui à experiência queServidores da União – um então novo obteve em um hospital de ponta como omodelo de hospital desenvolvido fator que abriu seus horizontes. O que apela Universidade de Brasília (UnB).“Olhava através da janela e me diferenciou dos demais neurologistas foi a postura disciplinada. “Jamais permiti dos médicosperguntava ‘o que estou fazendo aqui’?Não foi nem o clima com o qual que problemas pessoais influenciassem a vida profissional. Estar à frente da chefia brasileiros hojenão me adaptei. A dificuldade era adistância entre os pontos da cidade”, de Neurologia tem sido uma oportuni- dade grandiosa. Agradeço aos colegas são mulheresrecorda a atual presidente da Academia por reconhecerem o valor da minha de-Brasileira de Neurologia (ABN). dicação”, diz ela, que concilia o cargo de No entanto, a capital federal foi o lu-gar ideal para a médica fincar as raízesnecessárias para o desenvolvimento de delegada na Associação Médica de Brasí- lia (AMBr) com a presidência da ABN, mandato que assumiu em 2008. 54%sua profissão. Lá, Elza conheceu reno-mados neurologistas, que estimularam Nos próximos dois anos de gestão, suas propostas são aumentar o número dos formandoso seu interesse pelo estudo no exterior. de associados da academia, promover aEm 1979, a estudante decidiu cursar Neurologia nos cenários nacional e in- paulistas são doMedicina na Universidade de Londres ternacional, além do desenvolvimentoe logo teve a oportunidade de atuar em de trabalho em parceria com o Ministé- sexo femininoum dos melhores hospitais da cidade, o rio da Saúde sobre defesa profissional. | 43 | DOC
  5. 5. Fé e entusiasmo à frente da Ginecologia “Interpreto toda a gratidão que tenho pelas pessoas e pelas instituições por onde passei como concessões divinas. O mínimo que posso fazer é retribuir”. Vera Lúcia Fonseca “S ou muito otimista, extre- Carmela Dutra, conheci pessoas vertente. Acredito que posso con- mamente ‘Pollyana’, que que contribuem até hoje para mi- tribuir para a melhoria do ensino sempre pensa que tudo nha vida”, resume a médica. médico. Na Universidade Federal do dará certo no final”. É com alusão à Recentemente, Vera Fonseca foi Rio de Janeiro (UFRJ), coordeno os personagem de um dos clássicos da reeleita para a gestão de 2010 a residentes de Ginecologia e, na Uni- literatura infanto-juvenil que Vera 2013 da Sgorj. Além disso, há dois versidade Gama Filho, estou à frente Lúcia Fonseca, atual presidente da mandatos ela atua como secretá- do curso de Medicina”, diz ela. Associação de Ginecologia e Obste- ria-executiva adjunta da Federação Casada há 23 anos, mãe de Letí- trícia do Rio de Janeiro (Sgorj), se Brasileira das Associações de Gine- cia, de 14, e católica praticante, a gi- define diante dos desafios de gerir as cologia e Obstetrícia (Febrasgo). necologista coordena aos domingos variadas atividades da Medicina. Ela também é segunda vice-presi- a Pastoral Familiar da Paróquia de Expressiva e de fala rápida, Vera dente do Conselho Federal de Me- Nossa Senhora de Fátima, no Méier, não lembra nem um pouco a meni- dicina do Rio de Janeiro (Cremerj) zona Norte do Rio. “Toda a grati- na tímida, fruto da criação rígida de e participante do grupo Causa Mé- dão pelas pessoas e pelas instituições uma família tradicionalmente por- dica, que rege o conselho. por onde passei, as interpreto como tuguesa. Logo nos primeiros anos Vera tornou-se ainda a responsável concessões divinas. O mínimo que da vida universitária, ela percebeu a pelos projetos de educação conti- posso fazer é retribuir de alguma importância de buscar as oportuni- nuada do Cremerj. “A profissão que forma, apesar do pouco tempo e da dades. “Durante os quatro anos de se compara à Medicina talvez seja consciência de que minha real voca- estágio no Hospital Maternidade o magistério, por isso sigo essa ção é ser médica”, enfatiza Vera.DOC | 44 |
  6. 6. “O fato de uma estrangeira assumir a presidência de uma sociedade por dois anos não foi bem visto, mas tive o apoio dos colegas”. Marianela de HekmanSabedoria que vem deantigas geraçõesC onversar com os mais velhos é Durante o curso, ela percebeu a impor- e Gerontologia do Hospital Moinhos uma das formas de aprendizado tância da reciclagem de conhecimentos de Vento. Questionada sobre a diferença entre as sociedades andinas. Por ao se corresponder com colegas de ou- entre o atendimento clínico de uma médi-seguir esta tradição, Marianela de Hekman tros países. Por meio de intercâmbio, fez ca comparada ao de um médico, Mariane-optou pela Geriatria. Nascida em Lima, pós-graduação no Japão para aprender la se mostra neutra. “Podemos até ser maiscapital do Peru, a médica conta que desde novas técnicas em sua área. atentas aos pacientes do que os homens,muito jovem já tinha facilidade em lidar Ao voltar para o Brasil, engravidou de pois temos instinto maternal. Porém, acom pessoas maduras. “Fui influenciada seu primogênito e dividiu as tarefas do- afinidade do paciente é o que determina apelos meus avós, que apoiaram a escolha mésticas, inclusive nos finais de sema- escolha por um profissional. Não sou femi-pela Medicina, quando meu pai queria na, com o ex-marido, também médico. nista, sou feminina”, esclarece.que eu tivesse sido professora”, conta “Se o paciente ligava para minha casa, Marianela de Hekman já conhece aa presidente da Sociedade Brasileira de tinha de atendê-lo. Uma situação inusi- realidade da Geriatria e Gerontologia noGeriatria e Gerontologia do Rio Grande tada foi quando eu estava em trabalho país. Ela foi presidente da SBGG (nacio-do Sul (SBGG-RS). de parto e a filha de um paciente conse- nal) entre 2006 e 2008. “A princípio, não Sua caminhada profissional começou guiu o número do meu leito para falar foi bem visto o fato de uma estrangeira,no início dos anos de 1980, quando se comigo 12 horas após ter tido o meu naturalizada brasileira, assumir a presi-mudou de Lima para estudar na Univer- filho”, conta. dência da SBGG por dois anos, mas tivesidade Federal de Santa Maria (UFSM), Há três anos, a geriatra é colaborado- o apoio dos colegas da categoria e honreia 300 quilômetros de Porto Alegre. ra do Centro Moriguchi de Geriatria minha gestão”, orgulha-se a médica. | 45 | DOC
  7. 7. Mérito por dedicação à causa da SBA P “Pretendo honrar a ela primeira vez em 62 anos de sua os momentos de descontração em sua fundação, a Sociedade Brasileira de casa, próxima a Boa Viagem, a praia mais Anestesiologia (SBA) nomeou uma famosa de Recife. Nos finais de tarde, ela mulher como presidente em janeiro deste tem o hábito de caminhar na orla. Quan- função deixando mais ano. A pernambucana Nádia da Conceição do possível, costuma receber os amigos Duarte, filiada à sociedade há 22 anos, acumula funções na diretoria da SBA desde para um churrasco ou para degustar um prato servido com um bom vinho. “Sem- do que um simples 2006. “Meu trajeto na SBA sempre foi pre na companhia do casal de gatos Pené- marcado por muito empenho”, afirma. lope e Tom – ou William Thomas Green retrato na galeria dos Desde que assumiu a presidência da Morton, realizador da primeira anestesia sociedade, Nádia Duarte precisou fazer alguns ajustes em sua agenda. Ela reside cirúrgica no mundo”, explica. Em sua cerimônia de posse, a presiden- presidentes”. e trabalha, de segunda a quarta-feira, em te da SBA recebeu uma homenagem inu- Recife (PE), onde é instrutora correspon- sitada: uma reprodução dela mesma em Nádia Duarte sável pelo Centro de Ensino e Treinamen- forma de boneca de Olinda, além de uma to em Anestesiologia do Hospital Univer- apresentação de frevo. No discurso, Nádia sitário Oswaldo Cruz, da Universidade de Duarte confirmou seu empenho e dedi- Pernambuco (UPE). Foco e organização cação. “Pretendo honrar a minha função são essenciais para que a médica adminis- de presidente deixando mais do que um tre a rotina de viagens ao Rio de Janeiro, simples retrato na galeria de presidentes. onde é situada a sede da SBA. A presidência da SBA simboliza o coroa- Apesar da intensidade das atividades mento de uma vida dedicada a uma insti- profissionais, a médica jamais desprezou tuição”, conclui a anestesiologista.DOC | 46 |
  8. 8. Estrella, a pioneira No Brasil, bate à Congregação da Escola, do caso de Maria Augusta foi até a meta- no qual estiveram presentes tão grande que o imperador de do século professores, alunos, diretores Pedro II decretou autorizaçãoXIX, as mulheres eram proibi- e famílias para ouvir o questio- da matrícula das mulheres nasdas de ingressar nas universida- namento da adolescente: “Que escolas superiores por meio dades. Isso não intimidou a estu- importa a idade se me acho reforma Leôncio de Carvalho,dante Maria Augusta Generoso apta para os exames de sufici- em 19 de abril de 1879.Estrella. Aos 15 anos, ela insis- ência que os senhores exigem? Ao voltar para o Brasil em 1882,tiu para que o pai autorizasse Por que a recusa para que eu já formada, Maria Augusta foisua viagem aos Estados Unidos seja examinada?”, contestou. recebida em audiência por Pe-para que tentasse uma oportu- A indagação surtiu efeito. O dro II e pela imperatriz Teresanidade no Medical College for exame foi marcado para o dia Cristina. A médica clinicou porWomen. Ela embarcou para o seguinte e Maria Augusta res- muitos anos no Rio de Janeiroexterior, mas teve seu pedido pondeu o questionário com e deu ênfase ao atendimento denegado por não ter maioridade Inglês impecável. Logo obte- mulheres e crianças, além depara estudar. Inconformada, ve aprovação e matriculou-se ter prestado atenção especialMaria Augusta propôs um de- em seguida. A repercussão aos desfavorecidos. | 47 | DOC
  9. 9. Vencendo desconfianças A primeira médica formada no Brasil e a segunda da América La- tina foi a gaúcha Rita Lobato Velho Lopes, que entrou para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1884, aos 17 anos. No segundo ano acadêmico, a então estudante deci- diu ser transferida para a Faculdade Meri Baran com de Medicina da Bahia, onde colou os netos Daniela e Fábio: orgulho e grau em 1887, com um recorde sur- qualidade de vida preendente: cursou a graduação em apenas quatro anos, quando a dura- ção do curso é de seis. Um dos destaques da carreira da Cidadã a serviço médica foi a tese de doutorado de título Paralelo entre os métodos da Saúde preconizados na cesariana, sendo criticada por muitos pelo fato de ser a primeira mulher que tratou, de forma pública, um tema que era mantido em sigilo pelos colegas de profissão. Assim, a médica de- N o verão de 2008, o Rio de da coordenação da Epidemiologia da dicou-se integralmente ao estudo Janeiro se deparou com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Ginecologia, Obstetrícia e Pe- maior epidemia de dengue do Rio e da superintendência de Vi- diatria, além de lutar diariamente dos últimos anos. A situação exigia gilância em Saúde, experiência que contra a desconfiança dos médicos mais do que uma estrutura integrada ela relembra com nostalgia: “Sinto de Saúde Pública para controle da falta da rotina do órgão público, mas e dos familiares dos pacientes. doença, mas também uma represen- principalmente da minha equipe. Aos poucos, conquistou a con- tante que prestaria esclarecimentos à Prestei suporte a toda a rede de Saúde fiança de todos por meio de traba- população através da mídia: a médica do município, o que proporcionou lho intenso que prestou à comu- Meri Baran. “Tudo o que acontecia ampla dimensão do funcionamento nidade. Rita Lobato foi também a na cidade gerava repercussão. Cada da cidade”, diz a médica. primeira mulher eleita vereadora entrevista era uma situação imprevi- Ao despedir-se da Prefeitura há em Rio Pardo (PR), em 1934, sível”, conta a ex-superintendente de três anos, Meri se tornou uma refe- anos depois de as mulheres con- Vigilância em Saúde da Prefeitura do rência em Saúde Pública. Tanto que, quistarem o direito ao voto. Rio de Janeiro. no ano seguinte, criou um blog sobre Pediatra por formação e especiali- este tema e sobre Medicina de Via- zada em Saúde Pública pela Funda- gem, uma área em expansão. “Acho ção Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante interessante o trabalho de divulgação 18 anos, Meri Baran esteve à frente em blogs e nas redes sociais, desdeDOC | 48 |
  10. 10. “Sinto-me feliz que feito com responsabilidade. As pessoas mantêm a crença de que basta Hoje, a médica de 73 anos, com muito orgulho, valoriza a qualidade dequando contribuo imunizar-se contra a febre amarela que vida e procura, sempre que possível, estão aptas a fazer uma viagem inter- fazer exercícios físicos. Ela reside bemcom informações de nacional. A Medicina de Viagem ainda próximo às filhas, no Leblon, zona é pouco divulgada, mas por meio da Sul do Rio, o que permite uma pausautilidade pública pela publicidade as pessoas começam a se em sua agenda para o que lhe dá mais informar mais a respeito do assunto. prazer: visitar os quatro netos com fre-minha vivência de Sinto-me feliz quando contribuo com quência. “Acompanhar o crescimento informações de utilidade pública pela dos meninos é fascinante. Sempre par-mais de 40 anos na minha vivência de mais de 40 anos na ticipei da criação deles, que têm muitoMedicina”. Medicina”, destaca Meri, que atual- mente é consultora técnica da rede orgulho de mim”, conta a especialista em meio a risos que remetem à matu-Meri Baran Prophylaxis de vacinação. ridade bem-vivida.As médicas no Brasil Ceará Apresenta crescimento de 65% no número de formandas em cinco anos. Alagoas É o estado do Nordeste que tem maior presença das mulheres em relação aos homens na Medicina.Rondônia BahiaO número de médicas neste O estado apresenta crescimento deestado triplicou entre 2009 e mais de 100% nos últimos cinco2010, de 25 para 77 profissionais. anos no número de médicas. Minas Gerais Em 2010, houve um aumento de 55% na força de trabalho feminina. Rio Grande do Sul Crescimento de cerca de 30% São Paulo no número de médicas entre As mulheres representam 38% do total de 2006 e 2010 no estado. profissionais registrados no Cremesp. Por quatro anos consecutivos há um aumento considerável no número de mulheres médicas no estado.Fontes: Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) | 49 | DOC
  11. 11. Colorindo sonhos com os pés no chão “Lembro-me de D eterminação e foco são palavras Intensivista pioneira do Hospital que nortearam o destino da Municipal Miguel Couto, Rosa Célia ter ouvido que era cardiologista pediátrica Rosa Célia Pimentel. Hoje reconhecida se recorda de situações nas quais per- cebeu preconceito por parte da classe diferente das outras como referência, a médica já superou diversos obstáculos na vida. Nascida em médica. “Preconceito sempre existiu e vai existir. Lembro-me de ter ouvido mulheres, mas pouco Palmeira dos Índios (AL), mudou-se para o Rio de Janeiro ainda pequena que era diferente das outras mulheres, mas pouco me importava. As médicas me importava. As e morou em um orfanato porque os pais não tinham condições de cuidar devem encarar a profissão com respon- sabilidade, postura e dignidade” orien- médicas devem dos 11 filhos, permanecendo lá até os 18 anos. Por falar em idade, a típica ta. Após a experiência em hospitais, a médica mudou-se para Londres, mes- encarar a profissão nordestina prefere não revelar a sua. “Não falo e ninguém sabe porque não mo sem conhecer o idioma, para espe- cializar-se em Cardiologia Pediátrica. com responsabilidade”. conto. Como diz um ditado do Norte, quem muito quer saber, mexerico quer “Viajei para a Inglaterra apenas com a bolsa de estudos, sem dinheiro e com Rosa Célia Pimentel fazer”, diverte-se. poucas roupas. Mas tinha muito focoDOC | 50 |
  12. 12. ABMM: uma associação em defesa das médicas A década de 1960 foi marcada por acontecimentos transformadores no Brasil e no mundo, que culmi- naram com a busca pela liberdade de expressão e a entrada da mulher no mercado de trabalho. Em meio a um cenário de mudanças, foi cria- da a Associação Brasileira de Mu- lheres Médicas (ABMM), em 16 dee determinação. Sempre sonhei com séria, honesta, trabalhando muito e con-coisas maiores e coloridas, então não quistando credibilidade”, enfatiza. novembro de 1960, no Rio de Janei-nivelei por baixo. Não dei ouvidos às Em virtude da falta de leitos car- ro. Filiada à Associação Internacio-pessoas”, recorda Rosa. diológicos na rede pública, Rosa Cé- nal de Médicas Mulheres (Medical Em 1989, Rosa Célia passou seis lia percebeu a necessidade de ampliar Women’s International Associationmeses no Children’s Hospital Medical o trabalho desenvolvido no projeto: a – MWIA), a ABMM é resultado daCenter, nos Estados Unidos, para se construção do Hospital Pró-Criança, união de um grupo de médicas.aprofundar em novas técnicas. “Não destinado ao atendimento de patolo- A proposta da ABMM, que reúnehavia recursos no Brasil além da con- gias de alta complexidade, que destina- 300 associadas, é oferecer o encon-sulta, o estetoscópio e o eletrocardio- rá 40% de sua capacidade para trata- tro entre as médicas, o intercâmbiograma para examinar os pacientes. mento de crianças carentes. A previsão científico, o estudo sobre problemasTive coragem de passar um período é que o hospital seja inaugurado emno exterior e foi um privilégio estu- outubro deste ano. de saúde da comunidade em geral,dar com os melhores cardiologistas do Até lá, a médica também encontra- além do auxílio mútuo para resolu-mundo”, conta. rá tempo para se dedicar aos atendi- ção de questões sobre a vida pessoal Ao voltar para o Brasil, Rosa Célia mentos clínicos e para suas atividades e profissional das médicas. “Incenti-criou, em 1996, uma clínica voltada ao favoritas: a prática de atividades físi- vamos a busca pela qualificação dasatendimento gratuito de menores caren- cas e a leitura, que vão de temas bio- médicas que hoje se preocupamtes – o Pró-Criança Cardíaca. O projeto gráficos a livros sobre administração com a carreira. O slogan da ABMMsocial contempla cerca de 50 crianças (a preferência é pelo Inglês, idioma é Cuidar de si para melhor acolher opor semana e oferece consultas clínicas e hoje por ela dominado). No livro Os outro. Nosso propósito é incentivarodontológicas, procedimentos cirúrgicos quatro compromissos, de Don Miguel a qualidade de vida destas profissio-e exames específicos. “Minha vida toda Ruiz – também médico e cirurgião,foi dedicada às crianças. É um projeto Rosa se baseia em quatro conselhos nais para que cuidem delas mesmasousado, o resultado de um trabalho feito para praticar na vida: “seja verdadei- e valorizem a vida pessoal”, explicacom perseverança e determinação. Con- ro; não se faça de vítima; só culpe o Marilene Rezende Melo, presidentesegui captar tanta gente para ajudar na outro se tiver certeza e faça o melhor da ABMM e ex-diretora da Associa-construção desse sonho sendo correta, sempre”, ensina. ção Paulista de Medicina (APM). | 51 | DOC

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