Apontamentos cristianismo e cultura

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Apontamentos cristianismo e cultura

  1. 1. Cristianismo e CulturaPremissas1. Realismo:“Poucas observações e muito raciocínio conduzem ao erro. Muitasobservações e pouco raciocínio conduzem à verdade.” – Alexis CarrelDe facto a verdade está mais na observação do que no simples raciocínio eexperiência. O método para conhecer um objecto é me dado pelo próprioobjecto, não pode ser definido por mim.É de notar que quando se fala de observação/experiência, não se falaexclusivamente de experimentar. O que caracteriza a experiência é o factode perceber as coisas, descobrir o seu sentido. Por exemplo: uma pessoapode saber que o cancro é mau, mesmo nunca tendo tido cancro (pode ter tium familiar com esse problema).Experiência elementar – Conjunto de exigências e evidências do coraçãodo Homem, ou seja conjunto de experiências que estão implícitas napessoa, no seu oração, antes de lhe ter sido incutido ou educado. Porexemplo: apesar da multiplicidade de costumes existentes no nosso planeta,a maneira de uma mãe olhar para o seu filho aquando do seu nascimento ésempre o mesmo.2. Razoabilidade:Antes de mais entende-se como razão a capacidade de se dar conta do realna totalidade dos seus factores.Assim, como se sabe se uma atitude é ou não razoável?Uma atitude razoável é uma atitude motivada por razões adequadas.Exemplo: Imagine-se que uma pessoa ao falar para uma plateia seapresenta-se com um megafone e se justificasse dizendo que estava roucoisso não seria considerado razoável.È que ter em conta que uma atitude racional nem sempre está intimamenteligado com o que é demonstrável.Demonstrável significa percorrer todos os passos de um processo e porvezes isso não é possível. Por exemplo: o homem não pode demonstrarcomo é que as coisas existem. Mesmo que alguém possa demonstrar queesta mesa é feita de um material que tem uma determinada composição,nunca poderá percorrer todas as passagens pelas quais esta mesa existe.Surge assim o método da certeza moral que consiste na interpretaçãosimultânea de uma multiplicidade de indícios, cuja única leitura razoável éaquela certeza.1
  2. 2. Exemplo: como é que seu sei que “a minha mãe quer me bem” vouobservando a minha mãe ao longo do tempo e vou recolhendo váriosindícios que convergem para a certeza de que ela me quer bem.Aplicação do método de certeza moral: fé.A fé é aderir àquilo que outra pessoa afirma. Assim se eu ceguei à certezade que uma pessoa sabe aquilo que diz e não me engana, posso acreditarnela, sem precisar de provar todos os passos. Se a única razoabilidadeestivesse na evidência imediata ou demonstrada pessoalmente, o homemnão poderia avançar, porque cada um teria de refazer todos os processosdesde o início.É obvio que este método pode falhar, mas as certezas científicas tambémfalham e isso não tira o facto de que com estes métodos se podem alcançarcerteza.3. Incidência moralidade na dinâmica do conhecimento:A razão é inseparável da unidade do eu. De facto, o instrumento paraconhecer é a razão, no entanto há uma profunda relação entre o instrumentoda razão e o resto da nossa pessoa. A razão não é uma máquina que se podeseparar do resto da personalidade, de modo a que possa a agir sozinha, epor isso não a usamos bem quando temos uma dor ou temos raiva oudesilusão pela incompreensão dos outros.Exemplo: um rapaz é muito bom a português, mas no dia do teste ele temuma dor de barriga, e tem má nota no teste.De facto o sentimento activa a nossa dinâmica para conhecer. Quanto maisinteressado estiver por uma coisa, e quanto mais me causar curiosidade emconhecer, mais estou impelido a conhecer. Assim os meus sentimentoscondicionam o meu instrumento de conhecimento.Assim dado que a razão e a emoção misturam-se, deve-se conseguircolocar os sentimentos no devido lugar.A regra moral do conhecimento é “Amar a verdade mais do que nóspróprios”. Isto significa estarmos livres de preconceitos.Todos temos preconceitos, no entanto não devemos ficar presos a essespreconceitos, deve-se procurar ultrapassa-los.Sentido Religioso1. A vida é procura de si próprioPara podemos enfrentar a experiência religiosa, temos de partir de nósmesmos, e assim detectar os aspectos que a constituem. Mas para partirmosde nós mesmos temos de observar nos a nós próprios em acção visto que só2
  3. 3. em acção sabemos o que verdadeiramente somos capazes de fazer, sem cairno preconceito do que pensamos que somos.Imaginemos, por exemplo, um rapaz que, por vários motivos, não gosta dearitmética e por isso nunca se tenha esforçado em estuda-la. Ele não estarána altura de perceber se tem uma capacidade pelo menos normal nessecampo. Se, pelo contrário, começa a empenhar-se, até pode chegar adescobrir que tem uma capacidade acima da média. Precisamente porque sóem acção podemos descobrir o nosso talento.2. O empenhamento com a vidaQuanto mais uma pessoa está empenhada com a vida, mais percepção terádos factores próprios da vida. No entanto, o fenómeno religioso tem a vercom a totalidade do homem, por isso, para o homem o compreender deforma correcta, não deve empenhar apenas alguns aspectos da suaexistência, mas toda a sua vida.O empenhamento é manifestado de várias formas:-Lealdade à Tradição – A tradição é o ponto de partida, é a hipótese detrabalho com o qual a natureza nos coloca diante da vida e da história. Seráuma atitude desleal com a realidade considerar a tradição errada.- Vivência do presente – O presente é um factor fundamental paracompreender o valor do eu. É no presente que a vida deve ser avaliada, opassado poderá auxiliar na compreensão do presente mas não o explica.- Critica – Deve avaliar essa tradição e escolher aquilo que queremos paranós.3. Dupla realidadeO Homem é constituído por duas realidade, uma material (mensurável,divisível e mutável) e outra espiritual (não quantificável e permanente),duas realidades que são inseparáveis.4. O nível de certas perguntasO sentido religioso coincide com a tentativa do Homem de se conhecer a sipróprio, de se empenhar com a vida, através de certas perguntas: Com quem partilhar a vida? O que vale a pena? Quem sou eu?Estas perguntas dirigem-se ao fundo do nosso ser e não se podem extinguirexigindo uma resposta total.5. A exigência de uma resposta totalEstas perguntas exigem uma resposta total, que cubra o horizonte inteiro darazão, caso contrário levará a um estado de irrequietação e insatisfação.3
  4. 4. O homem tem uma atracção pelo infinito que o homem gostaria de agarrar,mas que sempre lhe foge. Ou seja ele depara-se com uma tensão contínuapara andar para além daquilo que momentaneamente se atinge, em direcçãoa uma meta que está sempre mais além, quase inalcançável. Isto porque oque move a pessoa não é mais eu a procura da verdade, procura essa que sevai demonstrar inalcançável, mesmo que toda a vida tenhamos que esperarpor ele.6. Desproporção em relação à resposta totalQuanto mais uma pessoa avança na tentativa de responder àquelasperguntas, tanto mais se apercebe da potência, e tanto mais descobre a suaprópria desproporção face à resposta total.7. Tristeza e desesperoEsta tentativa de querer atingir o infinito e não conseguir leva a que oHomem fique triste. No entanto essa tristeza está carregada de esperançavisto que a pessoa tem noção do que quer e continua a procurarDe facto quando o Homem exclui a possibilidade do infinitamente grandetem como único destino cair no desespero até morrer por causa dele.8. Sentido religioso na sua dimensãoO sentido religioso é a capacidade que tem a razão para exprimir a suanatureza profunda na interrogação última, ou seja é um conjunto deperguntas que nos provocam e nos levam a perceber quem somos.Logo o sentido religioso coloca-se na realidade do nosso eu.9. A inevitabilidade de uma respostaÉ inevitável para o homem dar um sentido à vida: faz parte da própriaestrutura do ser, do próprio facto de existir.Assim o Homem vai percebendo que não está sozinho e há um último quedá sentido à vida. O Homem sem esse significado para a sua existência(Deus), desespera e morre.Atitudes IrrazoáveisDiante da pergunta última, o Homem pode assumir uma atitude ou posiçãoirrazoável, quando não reconhece a sua evidência, pelo que desvaloriza,reduz, nega ou evita as perguntas do porquê da existência.Quem nega as perguntas fundamentais da vida, quem não as enfrenta, quemas reduz à sua própria medida, perde a sua própria identidade conduzindo aque o homem já não saiba entrar em relação com a riqueza do passado eidentifique a vida com a mera reacção do instante; feche se em si mesmo ejá não consiga comunicar com o outro, e já não experimente a liberdadecomo realização do desejo de infinito que o caracteriza.4
  5. 5. Podem identificar-se 6 posições irrazoáveis:1. Negação teórica das perguntasNeste caso as perguntas sobre o significado da vida são definidas comosem sentido. Essas perguntas são desnecessárias logo são rapidamenteabafadas.2. Substituição voluntarista das perguntasNo lugar daquelas perguntas põe-se a energia da vontade, uma energia quefaz agir com o objectivo de afirmação de si próprio.Esta vivência voluntarista tem como ponto de partida: Vivência baseada no gosto pessoal Sentimento utópico pelo qual a energia de vontade não é activadapor uma meta reconhecida mas sim por uma meta que a vontadeestipula. Projecto social que esquece o conteúdo mais autêntico e pessoal daexistência.Exemplo: Um pai que trabalha dia e noite para conseguir ascender nacarreira e que se esquece que a sua função principal é ser pai.Abdicando da sua função principal, perde de vista a essência daquiloque é, não dando resposta ao seu sentido religioso.3. Negação prática das perguntasÉ visível naqueles que, não querendo perder tempo a perguntar se Deusexiste ou não, vivem como se Ele não existisse. Evitam que certasperguntas que lhe inquietam surjam ou, quando elas se lhe deparam reagemde modo indiferente.Esta atitude caracteriza-se por um medo de enfrentar o próprio ser, ummedo de pensar e de avivar um mistério que há dentro do Homem.4. Evasão estética ou sentimentalAcontece quando o Homem, diante do porquê da existência, vê somenteum espectáculo de beleza e sentimentos, mas não se empenha com aseriedade na procura de resposta.5. A negação desesperadaNegação da possibilidade de resposta às perguntas depois de terem sidolevadas a sério. È tanto mais viva esta atitude, quanto mais se sentem asperguntas. No entanto é a dificuldade de resposta que a um dado momento,faz dizer “que não é possível”.5
  6. 6. Exemplo: Florbela Espanca que depois de ter perseguido o amor infinito enunca o ter conseguido alcançar, desespera e nega que esse amor sejapossível.6. A alienaçãoA resposta às perguntas está num projecto que se realizará no futuro, e queportanto se cumprirá sem que o eu possa fazer experiência dele.A vida tem um sentido positivo: contribuir para o progresso. Assim asperguntas fundamentais têm como objectivo servir esse progresso.Ora isto leva a um grande problema. De facto as perguntas fundamentaisconstituem a minha pessoa. È impossível encaminhar a resposta a essasperguntas para uma realização que diga respeito a uma colectividade, semque isso dissolva a identidade do homem, sem que isso leve à alienação oHomem.O eu seria sacrificado e teria de se destruir para que aquela evolução darealidade acontecesse.Exemplo: Revolução soviética que impôs uma ditadura levando a que aspessoas perdessem toda a sua liberdade, sendo impedidos de pensar e detomar as decisões que fossem melhor para eles próprios.Consequências das atitudes IrrazoáveisEstas atitudes irrazoáveis levam-nos a desvalorizar as perguntas últimas econsequentemente a perder o controlo de nós próprios, o sentido da nossaexistência, conduzindo a três consequências:1. A ruptura com o passado2. Solidão3. Perda de liberdade1. Ruptura com o passadoQuando o homem perde o sentido de viver não reconhecendo o significadopelo qual vive, a sua personalidade torna-se frágil e débil, reduzindo a suaexistência a uma pura reacção do instante. Sendo assim é perdida toda ariqueza da história e da tradição: o homem corta as pontes com o passado.Ao retirar ao Homem os seus alicerces, torna-se mais fácil manipulá-lovisto este desconhecer a direcção do seu sentido religioso.2. SolidãoA falta de significado torna o homem incapaz de comunicar: de facto, ohomem que não está empenhado com a sua vida não tem nada deinteressante para comunicar ao outro homem e não tem motivos paracaminhar ao seu lado. Portanto, a solidão que daí deriva não é estarsozinho, mas sim, a ausência de um significado. Esta solidão leva a que oHomem perca a paixão e o gosto de viver.6
  7. 7. 3. A perda de liberdadeA liberdade não é ser selvagem, ou seja, tomar o seu prazer como absoluto,a liberdade é sim: o cumprimento total de si mesmo e a capacidade deadesão ao ser.O homem percebe que é livre quando vive a experiência de satisfação deum desejo. A liberdade é a realização do destino para que o Homem é feito,é portanto, a experiência da verdade de si. No entanto, a verdade do próprioeu é um outro; Deus, o único em que o homem pode fazer experiência dasatisfação plena do seu desejo.Assim, o Homem só será verdadeiramente livre quando reconhecer a suadependência, não ao poder, mas sim a Deus, quando a sua adesão a Deusfor total. Quando isto acontecer: “O Mundo pode fazer de mim aquilo quequiser, mas não me vence pois eu sou livre”.Itinerário do sentido religiosoAs perguntas últimas são despertadas pela relação com a realidade.O Homem, para não cair em atitudes irrazoáveis, deixando-se levar porpreconceitos e ideologias, deve manter uma relação verdadeira com arealidade, baseada na razão, de modo a que as perguntas últimas sejam umaconstante.O primeiro sentimento que o ser humano experimenta, no seu contacto como mundo, é o espanto e o entusiasmo, motivado pela existência de algo queexiste independentemente dele, e da qual ele depende.O homem quando se dá conta desta presença inexorável, dá-se conta de queexiste uma ordem dentro desta realidade, ordem esta que traz consigo umabeleza e harmonia a esta realidade.É através desta percepção que nos apercebemos de que a vida é um dom:que não é fruto da decisão de cada um de nós, mas que a nossa existência énos totalmente dada, isto é que depende de Outro.O eu do Homem, que se descobre feito e dependente de Deus, escuta dentrode si uma voz que lhe diz o que é o bem e o mal: esta consciência do bem edo mal está de tal forma impressa no coração do homem, que guiará apessoa em cada juízo por si feito. É assim, ao viver em relação com omundo, que todos nós nos apercebemos que há algo de transcendente, quevai para além da realidade, isto é, que nos apercebemos do valor daanalogia.A provocação do real em ir para além daquilo que aparece introduz aexperiência do sinal. O sinal é uma experiência real que me remete paraoutra coisa. Assim, a capacidade humana vai descobrir nos sinais o sentidodas coisas.7
  8. 8. Na relação com o mundo, emerge o carácter exigencial da vida humana istoé carácter que instigue o homem para a procura de respostas plenas.Existem quatro categorias fundamentais eu são:1. Exigência de verdade  Exigência do significado das coisas, daexistência.2. Exigência de justiça  Exigência de justiça que é o próprio homem3. Exigência de felicidade  Cumprimento de si mesmo4. Exigência de amor  Separar-se completamente de si mesmo paraentrar num tu.Sem a hipótese de um além, essas exigências seriam sufocadas.O dinamismo do sinal e o facto da natureza da existência humana serexigêncial conduzem à descoberta do mundo como sinal de qualquer coisade Outro que cumpre o homem mais do que qualquer posse.A dinâmica do sinal faz descobrir o verdadeiro sentido da razão. A razão éa exigência de explicação total. Como esta exigência não encontra respostano horizonte da experiência humana, a razão, para ser coerente consigoprópria, lança-se mais além, chegando à percepção do desconhecido,inatingível mas real. É ao descobrirmos o mistério que a razão deixa de terbarreiras.O homem, enquanto ser livre, não pode chegar ao seu cumprimento, nãopode chegar ao seu destino, a não ser através da sua liberdade. É através daminha liberdade que o destino, o fim, o objectivo se pode tornar numaresposta a mim.De facto, o Homem, no jogo da sua liberdade tem duas opções: Enfrentar o real mantendo um espírito aberto a todas as provocaçõesou, Encarar o mundo segundo o seu parecerAssim reconhecer Deus não é antes de mais um problema da ciência, nemda filosofia, nem da sensibilidade, mas da liberdade, ou seja do ponto devista com que uma pessoa se põe diante da realidade.A interpretação necessita de liberdade, mas necessita de uma liberdade queesteja educada a estar aberta a toda a realidade, a pôr-se numa posição deespera e de pedido e a admitir cada possibilidade de resposta, sem a prioriexcluir nenhuma. De facto a liberdade joga-se no quotidiano: ao se terliberdade para não só:1. se ser capaz de estar aberto à totalidade dos factores, como também,2. saber reconhecer o positivo do quotidiano da vida e não esperar quea vida seja diferente isto é ser capaz de abraçar de forma conscienteaquilo que nos surge diante dos olhos, aquilo que nos foi dado.8
  9. 9. O homem, nesta aventura à descoberta do mistério, vive inevitavelmente aexperiência do risco, que consiste no facto de apesar de serem evidentes asrazões da existência de Deus, o Homem permanece como que bloqueado,não conseguindo aderir a essa verdade, na medida em que existe umaseparação; “uma brecha entre a razão e a afectividade, a razão e a vontade”Há duas formas de enfrentar esse medo:1. Pela força de vontade, força da liberdade2. A dimensão comunitária proporciona ao homem encontrar umaenergia extra, através da qual se torna possível ultrapassar esseabismo. Assim, a dimensão comunitária deve ser encarada comouma base e um sustento à liberdade humana. De facto a comunidadenão substitui a liberdade, mas sustenta-a, fazendo com que o Homemcorra o risco de aderir a Deus.Razão e RevelaçãoO ponto mais importante da razão é a percepção do mistério pois aquiloque move a razão é o desejo de entrar no mistério, de o descobrir, de oconhecer. No entanto, o homem é incapaz de entrar no mistério pois esteestá para além da capacidade da razão, com instrumentos puramentehumanos.Assim a vida do homem é uma tensão contínua em direcção ao mistério,onde por um lado se sente a presença do mistério, mas por outro lado nãopode alcança-lo.Esta tensão, no qual somos chamados a reconhecer o mistério sem opodermos ver, é uma posição vertiginosa que não é fácil de manter, pois oHomem é muitas vezes levado a definir o significado do mistério, caindona pretensão de particularizar o todo.O homem pode viver a dramaticidade da sua relação com o mistério de 2modos:1. Tentar defini-lo com os seus próprios meios – Caindo-se no ídoloonde se concebe o homem como medida de todas as coisas, e onde arazão procura definir o significado último da realidade, ou sejapretende ser Deus, substituindo a realidade por uma interpretação noqual o Homem perde o seu verdadeiro rosto. Isto não está correctopois este facto não corresponde à natureza da razão e porque leva a jánão se saber reconhecer o verdadeiro rosto da vida e da realidade econsequentemente não responde adequadamente ao desejo humano.Mos dias de hoje, o ídolo assume a forma de ideologias. Assim se oHomem não depender de Deus ficará dependente da ideologia e9
  10. 10. consequentemente poderá levar à violência nas relações e mesmo àguerra (exemplo: ideologia nazi).2. Revelação – A razão reconhece a existência do mistério, mastambém a sua incapacidade para o definir positivamente, pelo queadmite, como o único caminho para o conhecer, que o própriomistério revele o seu rosto, se mostre de modo compreensível. Ovértice da razão é, então, deixar aberta a possibilidade de Deus tomea iniciativa de se revelar.Condições para aceitar a revelação: Admitir que é possível – Pois é própria da razão deixar abertatodas as possibilidades, mesmo a de que seja Deus a fazer-Seconhecer pelo Homem e não o homem a descobrir Deus e nãoimpor condições ao Mistério, sob pena de não o reconhecerverdadeiramente. Esta hipótese de revelação é conveniente. – e leva o Homem acompreender-se a si próprio. A hipótese da revelação deve permitir aprofundar o mistério (enão reduzi-lo). – isto é devemos adaptar a revelação àexperiência humana de modo a aproximarmo-nos a ele. A hipótese da revelação deve ser compreensível ao HomemAssim, a vida do Homem é a expectativa de que Deus se revele e, destemodo, venha ao encontro do desejo de conhecer o mistério presente narealidade.Na origem da Pretensão CristãO homem, se usar a razão, é levado a reconhecer que, para dar sentido àvida (para reconhecer a razão da sua existência), é preciso admitir aexistência de mistério, isto é, de uma realidade da qual dependem todas ascoisas.Se o sentido da existência é o Mistério que está na origem da realidade e naqual tudo encontra valor, se a felicidade está na sua presença, se aquilo porque vale a pena viver é Deus, então o único problema da existência é comoé que se faz para entrar em relação com ele para que, se possa satisfazer,dentro do possível, as exigências da felicidade, justiça e de amor quecaracterizam o coração do homem.Há dois modos para enfrentar o problema da relação com o mistério: Parte do pressuposto de que o mistério permanecerá sempre semrosto e portanto é impossível entrar em relação directa com ele.10
  11. 11. Surge assim as várias religiões que são tentativas por parte dohomem de imaginar o mistério e de se pôr em relação com ele. O Mistério entra na vida do homem e acompanha-o de forma aeste descobrir o seu destino de felicidade. Nesse sentido, não seriajá o homem a tentar entrar em relação com o mistério, mas seria opróprio mistério a entrar em relação com cada pessoa, revelando asua natureza divina.A escolha de uma religião exige um conjunto de regras. No entanto estasregras não asfixiam a pessoa, mas sim, potenciam a sua liberdade, poisessas pessoas desejam essas regras, dado que há uma relação de amor.Para avaliar qual é a religião que imagina Deus de modo maiscorrespondente à realidade, podem seguir-se estes critérios: Conhecer todas as religiões que existiram para depois fazer umaescolha razoável.  Este critério é utópico Conhecer as religiões mais importantes, as que são maispraticadas no mundo No entanto, o que me interessa não é onúmero de seguidores de dada religião, mas sim a verdadeira, aresposta ao meu coração. Criar uma religião universal tomando o melhor de cada religião(sincretismo religioso) Isto é impossível pois o melhor ésempre diferente, e muda de pessoa para pessoa. Além disso, seessa religião estivesse nas mãos de alguns homens queestabelecessem o que é melhor, criar-se ia uma religião submetidaao poder. Seguir a religião da sua tradição  Que sugere que cada homemsiga a religião da sua tradição a apartir daí vamos verificar secorresponde ao nosso coração, ou se por outro lado ao longo davida encontra uma religião mais adequada à sua razão, e ao seucoração. Se isso acontecer, por amor à verdade abandona tudo econverte-se.O homem exprime por isso a sua exigência de identificar a relação com omistério através da criatividade religiosa: qualquer religião tem em comumcom as outras, o facto de ser um esforço do homem para imaginar qual é osignificado último. A religião é por isso uma tentativa do homem, que deveser considerada e valorizada por toda a dignidade que implica.New Age11
  12. 12. A New Age é uma tendência religiosa enraizada no esoterismo ocidental doséculo XIX e vulgarizada na segunda metade do século XX, que seapresenta sob o sinal do mito astrológico do Aquário. Este movimentomistura elementos das várias religiões (sincretismo religioso), sobretudodas orientais como: Primado do espírito sobre a matéria Necessidade da interioridade Importância da consciência Várias práticas de meditação Procura de paz e de uma fraternidade universal.Esta “nova espiritualidade” procura, baseando-se nas antigas religiões eculturas, dar uma visão alternativa à espiritualidade cristã. Aqui o homemdescobre que está intimamente ligado à Força ou Energia universal, que ésagrada e está na origem de toda a vida, é nesta energia que o Homembusca a harmonia e a unidade com o real, que cura o homem de qualquersentido de imperfeição e de limite.A música é uma das expressões significativas da New Age. Trata-se de umtipo de música relaxante e apaziguadora, que permite ao homem destacar-se da realidade e isolar-se no seu próprio mundo interior, encontrando aíaquelas forças espirituais que lhe dão bem-estar e paz.Na base desta corrente cultural encontra-se, então, a busca deaperfeiçoamento e da exaltação do homem. Para atingir esseaperfeiçoamento pode-se seguir: A via esotérica  busca de conhecimento A via ocultista  Busca de poder onde o homem se sente capaz decontrolar o mundo e obter os bens que deseja. Revela ao homem queele possui um poder divino.Diferenças entre a New Age e a fé cristã:Cristianismo New AgeAcredita num Deus. Deus nãocoincide com o mundo nem com ohomem. De facto mora nele, mas éseu Criador.Na New Age não há um Deus. Deusestá em tudoNa oração entra-se em diálogo comDeus. A oração não é a simplesredescoberta do eu, mas pressupõe oencontro de duas pessoas.A oração no New Age está naprópria pessoa e não num Outro.O homem peca e a única via de Para a New Age a salvação vem de12
  13. 13. salvação é Cristo. Nenhuma técnicade libertação, nenhum esforço deconcentração pessoal, nenhumasintonia de consciências pode salvaro homem.todos. Não há um Deus para estemovimento a salvação vem dopróprio esforço do homem.O sofrimento e a morte têm umsignificado. O sofrimento vivido emunião com Jesus crucificado, que nacruz revelou o Seu amor peloshomens, é fonte de salvação. Amorte é vista como a passagemobrigatória para entrar na vidaeterna.Não aceitam o sofrimento e a morte.O mundo novo constrói-se com asobras de amor recíproco.A New Age quer mudar o mundoUma pretensão inimaginável: um factoTodas as religiões são verdadeiras pelo que nenhuma deverá pretender ser aúnica verdadeira. No entanto, o cristianismo afirma-se como tal. Enquantopessoas com espírito aberto a qualquer possibilidade, devemos perceber oporquê da sua arrogância.Segundo a hipótese da revelação, o mistério poderá ter entrado em relaçãocom o Homem, num certo momento da história, indicando ao Homem amaneira de O conhecer e de estar em relação com ele. A questão que secoloca é se isso aconteceu, ou não?O cristianismo baseia-se nesse facto, anunciando o encontro do Homemcom Deus. Caso esta possibilidade seja verdade, o problema central dofenómeno religioso deixa de ser uma tentativa de imaginar Deus, mas sim apreocupação de se estar no caminho por ele indicado. Trata-se portanto deuma escolha de liberdade, que aceita ou recusa este facto e para Oconhecer, temos de ir ao Seu encontro e comprometermo-nos com Ele (temde se fazer experiência do encontro).Assim o cristianismo funde-se no facto de que Jesus é Deus, pelo que apergunta “É verdade que Deus interveio na história” torna-se “Quem éJesus Cristo”, para aqueles que acreditam que Deus interveio na história.Assim, para estes, a pergunta “Quem é Jesus Cristo?” não pode passar aolado de ninguém. Ao enfrentar-se com alguém que se intitula de Deus, éque o Homem se vê obrigado a tomar uma posição pessoal. Quer seja13
  14. 14. verdade ou não que Cristo é filho de Deus não tem o valor de umacuriosidade intelectual, mas é decisivo para a vida.Deparamo-nos assim com um facto histórico, pois o cristianismo tem comobase um homem, Jesus Cristo, que se diz filho de Deus, e não um conjuntode regras. Daí que se fosse provado que Jesus nunca tinha existido, todo ocristianismo cairia põe terra.É preciso ter presente que, enquanto todas as grandes personalidadesreligiosas evidenciaram um sentido de desproporção em relação ao divino ese definiram no máximo como mensageiros de Deus, Cristo é o únicohomem que se identificou com Deus.Como se colocou o problema cristão na históriaPara avaliar a pretensão de Cristo, é preciso levar em conta o anúncio queas suas primeiras testemunhas fizeram dele, isto é os apóstolos, daí acriação dos evangelhos.Os evangelhos são um documento histórico que trata, segundo recordaçõesdos apóstolos, de factos relacionados com Cristo. Os apóstolos sentiramesta necessidade pois acharam que deviam dar a conhecer e anunciar a todaa humanidade que Deus se fez homem em Cristo.Para compreender os evangelhos é preciso estarmos dispostos a conheceros factos históricos partindo do pressuposto de que o anúncio é verídico, ouseja é preciso ter contacto ou deixar-se provocar pela totalidade do facto,que não consiste no somatório de elementos históricos mas na pretensão deCristo ser Deus.Para compreender a pretensão de Cristo, temos que ter em atenção queapenas partilhando, através do tempo, a vida com uma pessoa, é possívelcompreende-la e confiar nas suas palavras e acções, sendo essa certeza,essa segurança e confiança sobre o outro apenas atingidas, a partir deténues indícios, se o homem se mostrar portador de um espírito aberto e deuma inteligência humana.Foi o que aconteceu aqueles que iam contactando cm Cristo, e que sendotocados por essa pessoa, se tornavam seus amigos. A sua convivênciaquotidiana com Ele acaba por confirmar a convicção inicial de que Cristo éverdadeiramente o Filho de Deus.Devido a esta convivência, os primeiros discípulos descobriram que Cristoé um homem excepcional, é dono da realidade, tem uma inteligência únicado humano e uma dialéctica imbatível, mas principalmente, dirige-se acada homem com uma capacidade impressionante de captar a suahumanidade e a revelar. Por fim, Cristo não era apenas poderoso einteligente, mas também era bom, olhando para cada pessoa com amor.14
  15. 15. Diante de um homem tão excepcional surgiu a questão “Quem é?”, não sóperante os seus amigos, mas também perante todos aqueles que oencontravam, mesmo nos seus inimigos. De facto, era de tal forma evidenteque aquele homem não tinha comparação, que para entender quem ele era,não podiam senão confiar nas suas palavras.A pedagogia de Jesus Cristo ao revelar-seCapitulo VIIUma ideia discute-se, um homem não.Jesus Cristo é um homem, não uma ideia, nem uma doutrina ou umconjunto de preceitos, logo o cristianismo baseando-se no facto de umhomem, de nome Jesus, não se discute. Caso se provasse que Jesus não erahistoricamente verdade, o Cristianismo perderia a credibilidade.Hoje em dia, a maioria das pessoas reconhece a existência de Jesus, o quealgumas não acreditam é na pretensão d’Ele ser o Filho de Deus. De facto apergunta “Quem é Jesus Cristo?” transforma-se inevitavelmente em “Seráque Jesus Cristo é verdadeiramente o filho de Deus?”.De facto Jesus Cristo afirmava-se não só como homem, mas também comofilho de Deus, sendo a resposta para o coração de todos os homens.Como saber quem é Jesus Cristo?: Ir à fonte, isto é aos evangelhos. Tomar consciência que Jesus Cristoé um facto que entra dentro da história do homem com a pretensãode ser a revelação do mistério. Inteligência que reconhece os indícios e desperta a convicção inicial.A fé é um caso prático de certeza moral.Mas será que este homem tão normal poderá ser ao mesmo tempo Filho deDeus?Só há três justificações para um homem se afirmar como sendo Deus:1. É louco – No entanto se observarmos o evangelho, descritos porquem O conheceu e quem contactou com ele, verifica-se que tudo oque fez foi sensato, e nunca demonstrou nenhum sinal de loucura ouirrazoabilidade.2. Queria chamar a atenção e poder – Ele nunca viveu rodeado deriqueza, bem pelo contrário. O que foi evidente perante a sua pena demorte, que naquela altura era a pena de morte mais mal vista pelasociedade.15
  16. 16. 3. Estava a dizer a verdade – e nesse caso merece um pouco daatenção de cada um de nós.A excepcionalidade do comportamento de Jesus era tal que as evidênciasdo seu contexto familiar, já não serviam para defini-Lo.Jesus foi, assim, revelando-se devagar, usando uma inteligente pedagogiapara se auto-definir.Como era essa pedagogia?Á pergunta “ Quem és tu?” Cristo não deu imediatamente uma respostacompleta, mas sim foi fazendo-o de uma forma progressiva, usando umapedagogia reveladora que permitia que cada pessoa se pusesse na melhorposição para reconhecer o seu verdadeiro rosto.Etapas da pedagogia:1. Cristo pede a quem o encontra que o siga: Nesta fase apesar damensagem ser entendível e aceitável por todos, o seu conteúdo realainda não era percebido. De facto Jesus tinha em mente, umaimplicação muito maior, a de possibilitar ao homem que este façaexperiência de si mesmo, seguindo aquilo que está na sua natureza,mas, nesta fase, as pessoas não se apercebem disso.2. Cristo pede a quem o segue que renuncie a si mesmo: Sendo para talnecessário abandonar a posição de si mesmo, ou seja, separar-se debens, família etc. Coloca-se, assim, no centro de afectividade e deliberdade do homem. Pedindo ao homem que realize cada acção porsua causa, entregando-lhe a sua vida, porque apenas n’Ele podeencontrar o seu sentido e a sua realização, chamando, no entanto, aatenção para o risco de, ao fazê-lo, e no confronto com a mentalidadecomum, se pode ser ostracizado pela sociedade. Mesmo ele própriodesliga-se dos sentimentos naturais enquanto filho e irmão, dandoprimazia à sua própria pessoa enquanto Filho de Deus.3. Que testemunhe diante de todos o seu seguimento: isto porque umarelação verdadeira precisa de se afirmar perante a sociedade, demodo a permanecer sustentável, tendo, por isso, que ser divulgada eter força suficiente para todos confrontar. É neste momento queCristo se identifica com Deus, e fá-lo segundo três aspectos:a. Identifica-se com a origem da lei – “lei” era para os fariseus,sinónimo de Deus, de divino. Jesus modifica aquilo que paraos fariseus representava o divino comunicado ao homem,identificando-se assim com a fonte da lei.b. Atribui a si, o poder de perdoar os pecados, poder esse detidoapenas por Deus – Dizendo que o poder de perdoar os pecadosé muito superior ao simples poder de curar uma doença.16
  17. 17. c. Cristo identifica-se com o princípio ético – Quem faz o bemsem se dar conta d’Ele, sem ter consciência d’Ele, faz o bemporque estabelece, mesmo sem saber uma relação com Ele.Jesus coloca-se como discriminante entre o bem e o mal, nãotanto como juiz. Ele é o bem e não estar com Ele é mal. Viverbem significa servi-Lo, segui-Lo.4. Nos últimos tempos de vida terrena, Cristo chega-se a declararexplicitamente Filho de Deus. - Esta declaração explicita aconteceem três momentos:a. Jesus decide ir a Jerusalém, apesar de até então ter fugido dosfariseus, de modo a evitar ser preso. No templo, Jesus decideconfrontar os fariseus no domínio da interpretação dasEscrituras: afirmando a sua natureza divina e negando o factode Cristo ser filho de David.b. Discussão passada no templo de Jerusalém com os judeus,onde estes insistem serem filhos de Abrão e Jesus responde:“Antes que Abraão existisse, Eu sou”, provocando revolta nosjudeus.c. No Sinédrio, quando o Sumo-sacerdote lhe pergunta se érealmente Cristo, Filho de Deus, Ele apenas afirma “Tu odisseste” acrescentando inclusive, “ De hoje em diante vereis oFilho do Homem sentado à direita de Deus, e Vê-lo-eis a virsobre as nuvens do céu”. Perante tal afirmação e pretensão, foiacusado de blasfémia, sendo condenado à morte.Assim, o reconhecimento de Jesus enquanto Filho de Deus é uma questãode liberdade, ou seja, Ele revela-se perante o Homem de forma discreta esustentada, para que o homem se pudesse desenvolver e tornar conscienteda posição originária que tinha tomado diante d’Ele.O Coração do Problema da IgrejaCapitulo IXO coração do problema da Igreja consiste em enfrentar a pergunta “Comopode o homem que não entrou em contacto com directo com Jesus avaliarse Ele é verdadeiramente Filho de Deus?”Ao longo dos tempos, fruto da tentativa de encontrar respostas à questãoposta, verifica-se a existência de 3 posições culturais diferentes:1. Atitude racionalista – Diz que Cristo é um facto do passado eportanto, para o estudar aplica-se o método da razão histórica:17
  18. 18. recolhe-se todos os dados sobre a existência histórica de Cristo,compara-se e avalia-se, e chega-se à certeza sobre Ele.No entanto, este método em vez de aproximar o homem de Cristo,afasta-o pois não considera um dos aspectos com que o facto deCristo se colocou: de facto, a mensagem cristã não é a de umaausência, mas o método de Deus connosco, ou seja o método dapresença, aqui e agora, que o método racionalista não toma emconsideração, pois considera Cristo como um facto passado.2. Atitude protestante – Profundamente religiosa, diz que a distânciaque existe entre o homem e Deus é preenchida pelo Espírito de Deus,que iluminando o coração do homem, fá-lo sentir a verdade dapessoa de Jesus Cristo. O método protestante é portanto, o da relaçãointerior e directa entre o Homem e Deus, através das Escrituras.O problema é que esta atitude não respeita o método que Deusescolheu para se comunicar ao homem. Deus podia ter optado pelarevelação interior, mas preferiu escolher um outro modo, o de setornar homem e partilhar a sua vivência entre nós. A atitudeprotestantista reduz a experiência cristã a uma experiênciameramente interior.Além disso dá lugar a uma infinidade de interpretações esubjectividade, pois cada um lê as escrituras e interpreta-as à suamaneira.Protestantismo CatolicismoSomente a fé – a única coisaque me interessa para mesalvar é a fé.Para me salvar tenho de ter fé e aminha fé deve se aproximar dasminhas obras (caridade).A única fonte deconhecimento de Cristo sãoas escrituras (Bíblia)A única fonte de conhecimento é aspalavras de Deus (escritura +tradição que inclui aquilo que foirevelado aos santos etc.)Não acreditam natransubstanciação, aeucaristia é apenas umsimboloAcreditam na transubstanciação, aeucaristia representa efectivamenteque Deus está a entrar dentro denós, através da hóstia.3. Atitude ortodoxo-católico – É coerente com a estrutura doacontecimento cristão tal qual ele se apresentou na história, comoanúncio de que Deus se fez “carne”, se fez presença integralmentehumana. Tal presença e seu significado foi e continuará a serencontrada ao longo dos tempos entre os crentes e a sua unidade, naIgreja e nos sacramentos. A realidade de Cristo torna-se presente,faz-se encontro existencial em todos os tempos através da espécie18
  19. 19. humana que Ele acolheu. Esta historia é transmitida através dosevangelhos.O olhar ortodoxo-católico valoriza os factos positivos presentes nas duasatitudes: Esta atitude não elimina a pesquisa histórica, mas sim, dápossibilidade de utilizar essa pesquisa de modo mais adequado. Poisapenas envolvendo-se na experiência, é possível atingir o seu sentidoobjectivo e a realidade que encerra coerentemente. Relativamente à atitude protestantista, partilha da ideia de que oabsoluto, independentemente dos desvios humanos, pode manifestar-se ao homem.Os factores constitutivos do fenómeno cristão nahistóriaCapitulo XA Igreja apresenta-se como a relação com Cristo vivo. O início da Igrejacomeça com um conjunto de amigos que estão juntos porque tinham anoção de que Cristo estava vivo no meio deles, e tinham de transmitir a suapalavra. A Igreja surge assim como a continuidade de Cristo na historia.Os 3 factores constitutivos são:1. Comunidade – A Igreja era um conjunto de pessoas ligadas entre si,e era-o de modo visível. Esta realidade comunitária distinguia-se detodas as outras pelas seguintes características:a. Tinha a consciência de ser, como o povo hebraico,propriedade de Deus. Mas enquanto uma pessoa fazia parte dopovo hebraico por uma derivação étnica (um hebreu nasciahebreu), os cristãos formavam um povo porque Deus os colocajuntos através da fé comum em Jesus Cristo.b. Tinha um novo conceito de verdade. A verdade é conhecidaconfiando-se a uma testemunha, e é convivência com atestemunha que nos torna certos da verdade.c. Tinha a consciência de ser a comunidade de Deus, seja nosentido de que o conteúdo da vida da Igreja é o mistério feitocarne, seja no sentido de que é Deus a reunir aqueles que sãoseus.d. Tinha a consciência de ser em toda a parte a mesma Igreja.Assim a Igreja não é a soma de muitas igrejas, mas é a mesmaconsciência de ser relação com Cristo, que vive onde umgrupo de cristãos se reúne em seu nome.19
  20. 20. 2. Dom de espírito – Consciência que os cristãos tinham sido tocadospor este dom de espírito. Esta consciência implicava:a. O homem investido por este dom de espírito fazia experiênciade uma mudança profunda no seu ser, que lhe transformavanuma pessoa nova.b. O inicio de uma plenitude de vida, de tal forma que a relaçãodo cristão com a realidade se tornava rica de verdade ecarregada de amor.c. A força do altus leva as pessoas a arriscarem-se a pronunciar-se, pois sabem que estão acompanhadas. Essa força vai mesustentar para me fazer transmitir a verdade, quando não tenhoforça humana, para o fazer.d. O acontecer do milagre, que leva o homem a pedir o dom deespírito, invoca-lo, mendiga-lo.3. Comunhão – Que significa posse em comum, do qual derivava umasolidariedade partilhando todas as coisas da vida, quer as materiaisquer as espirituais. A comunhão entre os cristãos implicava osseguintes aspectos:a. A lei de convivência entre os cristãos era a tensão para pôr emcomum toda a vida. Esta tensão implicava a liberdade de cadaum.b. A igreja era caracterizada por uma estrutura social nova.c. A igreja tinha uma expressão ritual. Nesse sentido, aEucaristia, que significava dom de graça, era o sinal de toda avida da comunidade.d. Assumia uma posição hierárquica, ou seja era uma autoridade,procurando ajudar o homem a crescer e a seguir o caminhocerto, podendo para tal dizer me quando estou a fazer algomal.e. Tinha uma dimensão missionária, uma urgência de comunicaro anúncio de Cristo a todos os homens.f. Procuravam caminhar para a santidade, sendo que santosignificava pertencente a Cristo.O factor Humano na IgrejaCapitulo XIA Igreja tem consciência de ser não apenas o veiculo do divino, mas oveiculo do divino através do humano. O factor humano é essencial e nãocontingente: de facto Deus é a vida e uma vida não se comunica através de20
  21. 21. ideias, mas sim através de uma modalidade que implique todos os factoresda vida: através do humano.A Igreja é portanto o prolongamento de Cristo na história, no tempo e noespaço. Sendo este prolongamento, ela é a modalidade com que Cristocontinua a estar presente na história e, portanto, é o método cm que oEspírito de Cristo mobiliza o mundo para a verdade, a justiça e a felicidade.Como a Igreja é uma realidade humana, se se quer avalia-la de modocorrecto é preciso ter em consideração as seguintes implicações: O cristão que é chamado a comunicar o divino fá-lo através do seutemperamento particular e mentalidade. Os cristãos são livres, logo o ideal cristão realiza-se na medida emque a liberdade do cristão o queira, podendo acontecer que o indivíduotraga consigo o ideal mas, ao mesmo tempo o contradiga na sua maneirade viver. Isto não significa que os outros homens se encostem à parede,e não sigam a mensagem cristã, pois quem a transmite também não ofaz. De facto a mensagem divina que a Igreja nos propõe tem de passaratravés do humano e por isso mesmo nunca realizará integralmente oideal, existirá sempre defeitos. Imagine-se uma mulher casada, com umfilho pequeno e este adoece, ela precisando de ir à farmácia buscar umremédio pede ao pai que vá buscar o remédio, no entanto este recusa-sea ir pois considera que a preocupação da mãe é excessivo. Será que amãe desiste? Se aquele de quem seria óbvio esperar um certocompromisso falha e se o outro ama o objecto desse compromisso,então este outro multiplicará as energias, sem se esconder atrás doincumprimento do outro. Os valores que a Igreja comunica passam através do ambiente e dosvalores histórico-culturais em que ela vive. O cristianismo, não está no mundo para esvaziar a dinâmica daevolução histórica, mas para comunicar aqueles valores que se forempreservados dão a qualquer evolução os instrumentos para se tornarmais útil como expressão dos homens. A Igreja não se propõecertamente esvaziar os conteúdos que a evolução histórica introduz navivência humana: a fé incide e determina a personalidade do sujeito quese dispõe à acção e ele usará os meios que os seus dotes pessoais e oscondicionalismos históricos lhe sugerirem e se ele viverconscientemente o contexto universal da Igreja, há de fazê-lo com umequilíbrio, uma paciência, que de outro modo não teria.A Igreja desenvolve nas relações do homem, a mesma função de Jesus, istoé, educar o sentido religioso de cada homem. No horizonte destafuncionalidade, a Igreja é caracterizada pelos seguintes factores:21
  22. 22.  A Igreja comunica a palavra definitiva sobre o homem e a história.Esta ideia conduz-nos a duas vias: A pessoa é fonte de valores e nãoestá sujeito a nenhuma dependência, excepto a dependência originalconstituída por Deus; por outro lado tudo tende para o significado do“reino de Deus”. Esta palavra definitiva salva o homem eencaminha-o para uma posição justa diante de si mesmo e do mundo.A Igreja, enquanto prolongamento de Cristo, pretende dar ao homemesta palavra. A função da Igreja é o chamamento contínuo para conduzir o homema viver em consciência da dependência total do Mistério (solicitudecontinua). A Igreja educa o homem para a consciência da sua dependênciaoriginal, de tal forma que o homem se coloque na sua posição idealpara enfrentar e encontrar a solução de todos os problemas humanos. Os problemas humanos podem ser sintetizados em quatro categorias:a cultura, o amor, o trabalho e a politica. A Igreja não tem o objectivo de resolver os problemas do homem,mas sim a de dar um significado ao homem, que facilita o enfrentardesses problemas. É tarefa do Homem e da sua liberdade enfrentar e resolver asproblemáticas da sua existência. No entanto, esta liberdade estásubordinada a Deus. A Igreja tem assim como papel orientar ohomem a solucionar os seus problemas, dentro de uma atitudereligiosa. Por exemplo, através da caridade. O homem tem sempre a possibilidade de fazer o bem ou o mal, quepõe continuamente em jogo a liberdade do homem. O cristão está consciente de que a vida é uma tensão contínua paraum destino de bem que só Deus pode cumprir. Assim a vida é umempenhamento sem limites e sem tréguas, em que a paz está noapoiar-se no apoiar-se do Mistério.O factor Divino na IgrejaCapitulo XIIA Igreja, através de um veículo humano, e por isso imperfeito, comunicauma realidade divina, comunicando a verdade da vida introduzida porCristo no mundo, e respondendo, assim, à questão fundamental acerca dosentido da existência.A primeira forma que o divino tem de se fazer presente ao homem consistena comunicação de si mesmo como verdade. A Igreja é a comunicação daverdade no sentido em que é através dela que o divino se faz presente ao22
  23. 23. homem, comunicando-se a si mesmo como verdade. Deus faz chegar averdade através da Igreja que pretende transmitir a verdade última acercada existência humana. Esta verdade ensinada pela Igreja é válida na medidaem que não esquece nenhum aspecto da realidade, valoriza o bem e julgaou transforma o mal, redimindo e transformando todas as coisas.A comunicação da verdade divina na Igreja é feita através de um veículohumano e, como tal, imperfeito e falível, e dá-se de duas formas: Magistério ordinário:O magistério ordinário, que é a forma mais comum de comunicação daverdade por parte da Igreja, consiste no facto desta se fazer por osmose(difusão), pois é através da comunidade eclesial (que está unida ao bispoque por sua vez está unido ao Papa) que o cristão chega às verdadesdivinas. De facto, a vida da comunidade apresenta-se como a evolução deCristo na história.Os instrumentos essenciais através dos quais se desenvolve o magistérioordinário podem ser: Encíclicas Discursos dos Papas Documentos e as cartas dos bispos à sua diocese.Quando este método osmótico de aprendizagem se prolonga no tempo,chama-se tradição, que é o maior instrumento de comunicação da verdadecristã. A tradição é a memória da comunidade que vive agora, enriquecidapela memória de toda a história.Assim o magistério ordinário tem uma função bastante importante na vidada igreja. Magistério extraordinário:O magistério extraordinário consiste numa iniciativa excepcional que oPapa toma para esclarecer um conteúdo de fé ou de moral cristã. Pode fazê-lo através: Convocação de um Concilio Ecuménico Intervenção pessoalEstas iniciativas excepcionais que pretendem explicitar valores que jáfazem parte da vida e da consciência da comunidade cristã designam-se pordogmas.A verdade que é definida com o magistério extraordinário já faz parte davida da Igreja. A autoridade apenas a identifica, defendendo-a eesclarecendo o que era desde sempre vivido, não é fruto de uma convicçãorepentina ou de uma reacção irreflectida.A autoridade tem na Igreja uma dupla função:23
  24. 24.  Função ideal – indicando a direcção e o caminho a seguir Função limite – Compete-lhe julgar quando ocorre algumdesvio à direcção ideal e definir o limite.Na Igreja nem tudo é dogma: antes de mais porque poderia não sernecessária essa explicitação extraordinária, para além disso, nem tudo podejá ter emergido de modo claro à consciência da comunidade cristã.De facto, a proclamação de um dogma tem uma função pedagógica, tendoo dogma a tarefa a educar para a verdade que Cristo confiou à Igreja. Como tempo, a Igreja toma consciência de si mesmo (amadurece) e do queCristo lhe deu, coincidindo a formulação dogmática com este saltoqualitativo que a Igreja faz.Na formulação do dogma, que é explicitado dentro de uma trajectóriahistórica, a Igreja é assistida pelo espírito santo, que lhe permite cumprir asua missão de comunicação da verdade ao mundo e não definir um errocomo dogma.A segunda forma que o divino tem de se fazer presente ao homem consistena Igreja comunicar uma realidade divina. Isto é, a Igreja não se limita acomunicar a verdade, comunica também uma realidade divina poistransmite a presença de Deus.Na comunicação do divino com a realidade, a Igreja desenvolve osseguintes factores: Esta comunicação toca o homem e transforma-o, gerando umacriatura nova. De facto, verifica-se no homem que se aproxima deCristo uma participação mais profunda no seu ser.Verifica-se assim “ graça santificante”.Graça santificante – É o termo utilizado pela tradição cristã para designar aacção pelo qual se realiza um novo ser. Aqueles que aderem à iniciativagratuita de Deus, mudam o seu ser, tornando-se novos homens e santos. Porsantos, entenda-se, homem que adere a Deus, que vive tudo em Cristo. A graça santificante comunica-se através de gestos chamadossacramentos. Estes gestos são, assim, o prolongamento histórico dosgestos de Cristo, através dos quais ele comunica a salvação e comotal se comunica a si próprio. Assim, a própria Igreja é sacramento namedida em que é sinal da presença de Cristo e da força divina. Os sacramentos sustêm eficazmente o homem em todo o caminho davida. O sacramento é a experiência da relação com Cristo dentro do gestoconcreto.24
  25. 25.  O sacramento implica a liberdade do homem, a qual é indispensávelpara que o ser humano comunique eficazmente com o divino. Paraque o homem mude o seu ser e se transforme num homem novo, énecessário que participe no sacramento com plena consciência deliberdade e não de um modo mecânico. É a liberdade que torna plenaa participação de ser humano no sacramento, envolvendo-se com osignificado do gesto. Em suma, para entrar em relação com o divino,para aderir a Cristo, o homem deve estar livre de automatismos eentregar-se por inteiro.Mesmo no baptismo isto acontece, porque a liberdade está sempre inscritanum contexto comunitário: é a realidade comunitária em que a criançanasce e da qual faz parte com toda a dignidade do seu ser, que educará asua liberdade e que permitirá o desenvolvimento consciente da novidade davida que o gesto do baptismo comunica.25

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