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Referências BibliográficasBOUACHA, Ali Magid. Le discours médiatique et ses vérités. Analyse linguistiqued’une chronique d...
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Vlog mas poxa vida como crônica contemporânea na internet e na televisão

  1. 1. Resumo:O presente artigo visa analisar como os vlogs podem ser considerados como crônicascontemporâneas digitais. Aqui também será analisado o vlog “Mas poxa vida” de PCSiqueira, procurando identificar como a televisão se apropria de seu discursoconstruindo novas identidades e resignificando seu conteúdo.Abstract:The following article shows how the vlogs can be considered as digital contemporarychronicles. Here we‟ll analyze also how the vlog “Mas poxa vida”, presented by PCSiqueira, identifying how the television appropriates of its speech by building newidentities and changing its content.Palavras-chave/keywords:Cibercultura, vlog, televisão, crônica, opiniãoVlog Mas Poxa Vida como crônica contemporânea na Internet ena TelevisãoIntrodução: Convergência, Credibilidade e OpiniãoA televisão, por ser uma mídia popular, tem uma personalidade caleidoscópica. Elainspira e expira os ânseios do seu tempo, mantendo-se distante da inflexibilidade deprogramação, sendo está baseada em número de audiência. Refletindo os pensamentos das massas ao mesmo ritmo em que os moldava, atelevisão teve seu apogeu do século XXI, e hoje está passando por um lento, poréminevitável, enfraquecimento. A internet vem mostrando-se como uma forte concorrenteno sentido de construção de ideologias e práticas civis. Se a televisão criou umacultura de massa e uma cultura midiática (Kellner, 2001), a internet e os computadorescriaram a cibercultura (Lévy, 2005). Essa é uma análise bastante sintética, entretanto.O que todos os pensadores estão de acordo, é que, embora os meios tenhamparticipado de maneira determinante nos rumos da cultura contemporânea, não é esteo único fator para as mudanças de nossa época. Os meios de comunicação de massas tendem a tratar a todos como iguais nosentido de distribuição da mensagem. Ao contrário, a internet é uma construção devárias comunidades virtuais e, com a possibilidade de personalização que ela emite, ainformação é apresentada em vários formatos diferentes.
  2. 2. Quando Henry Jenkins propõe em 2008 uma cultura da convergência, fica claroque estamos passando por uma época de turbulências e mudanças nos cenários dasculturas acima listadas. Essa convergência apontada registra o momento em que osmeios começam a compartilhar informações de maneira que, para compreender otodo, os fruidores das obras em jogo devem percorrer diversos meios diferentes. É o caso das obras baseadas no filme Matrix (1999). Embora paracompreender a trama, baste ao espectador assistir aos filmes da trilogia, a experiênciafica incompleta. Para entender como se constroem todos os detalhes do “universoMatrix”, o espectador deve virar jogador no game “Enter the Matrix” além de assistiranimes da série Animatrix, caracterizando a obra como multimídia não no sentido devárias mídias incorporadas numa só, mas no sentido de várias mídias diferentesconvergindo para uma experiência única. Note-se que isso não significa transformar romances em filmes, teatro emtelenovela ou cds em dvds. Cada meio contribui de forma diferente para a concepçãode um universo multimídia. Experiências semelhantes em diversas mídias vêem apontando um período emque para atingir a compreensão completa do ambiente contemporâneo, o ser humanoé forçado a mergulhar em diversas mídias fragmentadas, coletando seus pedaços eunindo-as para formar significado. Desde o final do século passado, as grandes empresas de Televisão do Brasilvêem fazendo um esforço para integrar seus serviços com o ambiente virtual dainternet. Os primeiros contatos aconteceram através da disponibilização de arquivospara os portais de conteúdo que construiram. Entretanto, para que os portaisganhassem vida própria e começassem a influenciar na programação televisiva,demorou um pouco mais. De forma cautelosa, digna das instituições conservadoras,aos poucos a internet começou a adentrar na programação televisiva, permitindo, porexemplo, que o Big Brother Brasil fosse votado através do site da Globo, que imagensda internet fossem incorporadas aos noticiários e perfis oficiais de redes sociais nainternet fossem divulgados em horário nobre. Mas como afirmamos anteriormente, a cultura da convergência não é apenastransformar um conteúdo de um meio para a implementação em outro meio diferente.Já na década de 60, Marshall McLuhan (1995) havia descontruído essa ideia, aoafirmar que o meio é a própria mensagem. Mesmo quando o conteúdo que seapresenta seja o mesmo, o próprio ambiente modifica a mensagem:
  3. 3. Por outro lado, temos a questão do “mesmo conteúdo” em meios diferentes. Mas essa não é uma discussão recente: o filme já demonstrou que o meio é a mensagem. Ao assisti-lo no cinema, com som Surround, uma tela gigantesca, um conjunto de poltronas no estilo platéia e o simples fato de você ter de se deslocar de sua casa já criam um ambiente completamente diferente do filme em casa, onde a tela é pequena, o som carece de qualidade, vários ruídos (tanto da televisão como do ambiente) modificam a experiência do usuário. O mesmo ocorre ao assistir um filme no smartphone ou no tablet: são experiências diferentes. O conteúdo é, ao mesmo tempo, igual e diferente: o meio o modifica. (Nogueira, 2010) Qualquer conteúdo produzido no ambiente virtual, ganha “credibilidade” noambiente offline ao ser reproduzido por uma mídia tradicional, como o Rádio, o Jornale a própria televisão. Portanto, a experiência de assistir a um vídeo no Youtubeé muitodiferente de assistí-lo num canal de TV. As pessoas ainda acreditam veementementeque se uma informação foi produzida por um meio tradicional, é porque houve uma“seleção” por parte dos editores, que checaram a informação e a confirmaram antesde publicá-la. De fato, sabe-se que essa preocupação existe. Entretanto, a critério deexemplificação, uma pesquisa realizada pela revista científica britânica Naturecomparou verbetes da Wikipedia com a Enciclopedia Britannica procurou apontar qualdas duas teria mais erros. O resultado revelou um empate técnico entre asenciclopédias, provando que um conteúdo livre colaborativo online poderia ter omesmo grau de confiabilidade de outras fontes mais tradicionais. Embora boa parte da população ainda acredite cegamente nas informaçõesapresentadas pela televisão, a internet vem produzindo um efeito de ceticismoconforme os usuários se integram cada vez mais nas comunidades online. Parte dissopode ser comprovada durante as eleições de 2010 no Brasil, especialmente emAlagoas, onde o candidato a reeleição teve que enfrentar os dois maiores grupos decomunicação do estado e mesmo assim saiu vitorioso. Boa parte de sua campanhadestinada às classes mais elevadas do estado foi direcionada através da internet. A credibilidade e a confiança são os pilares para a construção da opiniãoatravés dos meios de comunicação. Quanto maior o nível de confiança de umdeterminado meio com relação ao seu público, maiores são as chances de influenciardecisões. Independentemente de como as informações são construídas, elas contém
  4. 4. uma carga mínima de opinião. Em seu livro “Jornalismo Opiniativo”, José Marques deMarques De Melo afirma: Entendemos os meios de comunicação coletiva, através dos quais as mensagens jornlísticas penetram na sociedade, bem como os demais meios de reprodução simbólica, são “aparatos ideológicos”, funcionando, se não monoliticamente atrelados ao Estado, como dá entender Althusser, pelo menos atuando como uma “indústria da consciência”, de acordo com a perspectiva que lhes atribui Enzensberger, influenciando pessoas, comovendo grupos, mobilizando comunidades, dentro das contradições que marcam as sociedades. (Marques De Melo, 2003: pg. 73) Portanto, até um simples blog na web, com pouco mais de uma dezena deleitores, é capaz de exercer influência sobre a opinião dos mesmos. E o potencialdessa influência é medido através do grau de confiabilidade, credibilidade e intimidadeque o escritor tem sobre seus leitores. A influência exercida por uma pessoa varia de acordo com o ambiente em queela está presente. Alguns ambientes aumentam a influência e outros a reduzem.Podemos afirmar que a televisão é, por si própria, um meio que aumenta a influenciadas pessoas que estão sendo transmitidas. Mesmo nos dias de hoje, aparecer numjornal ou num programa televisivo ainda é sinônimo de status, para não dizer orgulho,por parte dos participantes. A televisão vem se apropriando com relativo sucesso das ferramentas epersonagens da nova web. Durante o 11 de Setembro, vários vídeos produzidos poramadores foram vendidos a preços astronômicos para jornais. Atualmente, uma rápidabusca em sites de compartilhamento de vídeos permite um número incrível demateriais para serem utilizados na indústria jornalística televisiva. Nesse sentido, esteartigo visa analisar como a televisão está se apropriando desses discursos, tendocomo estudo de caso principal o vlogueiro PC Siqueira e seu vlog “Mas poxa vida”.Procuraremos ressaltar as principais diferenças entre o consumo via internet vs. viatelevisão, bem como compreender como ocorre a formação de opinião dosconsumidores nestes ambientes.
  5. 5. Blogs, Fotologs e VlogsJá há um bom tempo que os Blogs começaram a ser aceitos como formadores deopinão na esfera pública. Políticos, professores e pesquisadores adotam blogs paraexpor seus pensamentos e falar sobre a sociedade. Mesmo pessoas sem ensinosuperior ou comprovadamente especialistas em alguma área conseguem manter seupúblico e gerar conversação entre as partes envolvidas nos processos. Os leitoresassumem uma pequena parte da produção de conteúdo ao comentarem. Embora a internet já dispusesse, ainda na década de 90, de meios parapublicação de textos próprios, foi somente no início do século XXI que os blogsdispararam, graças à criação de tecnologias que permitiam uma publicação fácil esimples de textos na web. Hoje, praticamente todos os portais de conteúdo atuaispossuem uma seção de blogueiros selecionados (muitos deles pagos para manteremos blogs). Grandes redes de comunicação mantém colocaram seus jornalistas paraatuarem como blogueiros no portais que administram. É o caso, por exemplo, do jornal“O Globo” que mantém uma seção com dezenas de blogueiros alimentando o site1. Com o surgimento das câmeras fotográficas digitais e o barataeamento doscomponentes eletrônicos, logo surgiram os fotologs, uma espécie de blogs onde osconteúdos são majoritariamente compostos por fotografias. Da mesma forma que osblogs, os fotologs abriram muitas portas para os profissionais nas mídias tradicionais,revelando novos fotográfos e criando um senso de comunidade na área. Algunsjornais já estão experimentando o uso de seu acervo fotográfico nos fotologs, como éo caso do Grupo Estado que recentemente abriu uma conta no fotolog Flickr ondepublica com periodicidade as melhores fotos de suas matérias2. O caso mais famoso no Brail, entretanto, é o da Fotologger Mariana SouzaAlves Lima, mais conhecida pelo seu nickname Marimoon. Quando a MTV a contratouainda em 2008 para apresentar o programa scrap MTV, ela carregou todos os seus fãsvirtuais que acompanhavam seu fotolog e inclusive compravam roupas que ela mesmacriava em sua loja virtual para a televisão. O programa foi ao ar já com umaquantidade certa de telespectadores que aguardavam ansiosos pela estréia da webcelebridade.1 http://oglobo.globo.com/blogs/2 http://www.flickr.com/photos/estadaocombr/
  6. 6. De fato, a MTV tem se mostrado a emissora a melhor incorporar a cibecultura àcultura de massas. Seu público majoritariamente formado por adolescentes e adultosjovens favorece a inserção da emissora na Rede. Isso pode ser evidenciado tanto emseu portal de internet como na programação da emissora. Retornaremos a esse pontomais à frente no texto. O boom da banda larga permitiu que vídeos fossem compartilhados emambiente virtual. A tecnologia para upload3 e download de vídeos em browsers4 éantiga, entretanto foi necessário que os usuários tivessem uma velocidade de internetsuficiente para experimentarem a visualização de vídeos online sem que o tempo decarregamento demorasse horas. Embora a prática de vlogging se remeta aos primódios da internet – poucodepois do surgimento dos blogs e fotologs, foi somente ao final desta década que osvlogs se tornaram populares no Brasil a ponto de atingirem centenas de milhares deviews5. Esses vlogs extremamente populares adotam uma postura de crônica modernadigital, conceito que explanaremos mais à frente. O primeiro vlog nesse estilo, deautoria de Ronald Rios, que mistura humor com opinião. Isso se tornou a estruturadominante nos vlogs de sucesso no Brasil. A capacidade de falar de determinadosassuntos de forma ácida e crítica – mesmo que não fundamentada – é um pontoimportante e necessário também.Crônica: jornal, televisão e internetDe qualquer forma, esses três formatos de produção de conteúdo (blogs, fotologs evlogs) são tão metamórficos quanto a própria televisão. Embora o que mude seja osuporte, ambos tratam dos mais diversos assuntos. Sustentaremos aqui que emalguns casos, podem ser colocados no patamar de crônica enquanto formato digital.Esta afirmação é baseada no que Marques De Melo afirma serem as característicasde uma crônica. Para ele, a crônica brasileira é um estilo literário/jornalístico único,“não encontrando equivalente na produção jornalística de outros países” (Marques DeMelo, 2003: p. 148). Também, mais uma vez, recorremos à McLuhan através doconceito de que o “o meio é a mensagem” e de que, portanto, o simples fato detirarmos a crônica do jornal já produz profundas modificações na produção de3 Ato de colocar uma arquivo na internet4 Software usado para navegar na web5 Métrica usada na informática para contar uma visualização de uma página na web
  7. 7. conteúdo, afinal “[...] toda tecnologia gradualmente cria um ambiente humanototalmente novo” (McLuhan, 1995: p. 10). A crônica teve inicio juntamente com o jornalismo impresso. Segundo MartinVivaldi “a crônica jornalística é, em essência, uma informação interpretativa evalorativa de fatos noticiosos, atuais ou atualizados, onde narra e ao mesmo tempo sejulga o narrado” (Vivaldi apud Marques De Melo, 2003: p. 151). As crônicas brasileirascheiram à cidade, o cronista é aquele que consegue entender os sentimentos dapopulação e falar sobre os mesmos. Embora a crônica seja um gênero derivante dos jornais e da literatura, écomum encontrá-la em outros suportes. O rádio e a TV se apropriaram das crônicas,embora este último tenha tido mais sucesso. Em sua configuração, colocam o cronistaem frente à uma câmera e, além de ler e interpretar sua crônica – cujo texto devesofrer adaptação para o contexto televisivo – tem suas feições modificadas a cadapalavra, completando o conteúdo de seus períodos falados com pausas eexclamações devidamente colocadas. Em sua tese de doutorado “Estudo semântico-enunciativo da modalidade em artigos de opinião”, Janete Neves se apoia em AliMagid Bouacha. Para os autores, a crônica televisiva “é uma crítica a posteriori, pois éanálise do evento, do fato” (Neves, 2006: p. 30). A crônica presente no Vlog se aproxima bastante da crônica televisiva,entretanto, enquanto esta se baseia nas crônicas presentes em jornais e revistasimpressos, o Vlog se baseia nos próprios Blogs – que não deixam de ser, em últimaanálise, crônicas digitais.Vlog “Mas Poxa Vida” como crônica digitalO vlog que examinaremos a seguir é o “Mas Poxa Vida”6, apresentado por PauloCezar Goulart Siqueira, mais conhecido na internet pelo seu apelido PC Siqueira. Ovlog é apresentado de uma à três vezes por semana em seu canal do Youtube7, temfortes traços da crônica contemporânea. Recentemente a MTV adiquiriu direitos paraexibir trechos do vlog com exclusividade na televisão brasileira – e desta apropriaçãofalaremos mais à frente. Entendemos que o Vlog apresentado por PC Siqueira constitui-se enquantocrônica, e para isso fundamentaremos a problemática através de uma análise empírica6 http://www.youtube.com/user/maspoxavida7 Popular site de distribuição e reprodução vídeos online
  8. 8. de seus posts8 e dos conceitos de crônica esplanados por diversos jornalistas eteóricos da área de comunicação. O Vlog Mas Poxa Vida trata dos mais diversosassuntos, vezes aleatórios, vezes em voga nos grandes meios de comunicação. Oprimeiro Vlog de PC Siqueira, por exemplo, tratava do filme avatar e da super-lotaçãodos cinemas 3D para o filme. Como destaque pessoal, PC fala sobre o fato de servesgo e que, por isso, é incapaz de perceber as cenas 3D dos filmes com este efeito.Vemos aqui um retrato da realidade comentado de forma crítica e, de certa forma,despretenciosa. Muito se assemelha à uma “conversa fiada”. No seu segundo vídeo, fala sobre sua infância ao comentar sobre o jogo Sonice contextualiza com um jogo que acabou de adquirir. Observamos aqui a “pausa”, ummomento em que o cronista “reflete a trégua necessária à vida social” (Marques DeMelo, 2003: p. 155). PC consegue juntar elementos que dão significado aos seuspensamentos, ainda que o assunto aparentemente não tenha conexão alguma com arealidade social. Carlos Drummond de Andrade, em carta a um dos seus leitores que reclamava da “frivolidade” do cronista, faz a reivindicação do “espaço descompromissado”, argumentando que o jornal já está cheio de assuntos gravas. “O inútil tem sua forma particular de utilidade. É a pausa, o descanso, o refrigério, no desmedido afã de racionalizar todos os atos de nossa vida (e a do próximo) sob critério exclusivo de eficiência, produtividade, rentabilidade e tal e coisa. Tão compensatória é essa pauda que o inútil acaba por se tornar da maior utilidade, exagero que não hesito em combater, como nocivo ao equilíbrio moral. Nós devemos cultivar o ócio ou a frivolidade como valores utilitários de contrapeso, mas pelo simples e puro deleite de fruí-los também como expressões da vida.” (Marques De Melo, 2003: pgs. 155-156) Os títulos de suas postagens frequentemente trazem os assuntos que serãoabordados de forma simples e direta, como o caso de um dos seus vídeos maisfamosos: “Nerds e o Sexo, Shakespeare e Cerveja”. Aqui observamos o autor tratar detemas pouco falados pelo público, pouco visto em crônicas, mas que é umacaracterística forte dos vlogs: a cultura de nichos. PC Siqueira fala para um públicoclaro: nerds, jovens, de classe média, que usam bastante internet, gostam de rock eestão acima da média nacional em estudos. O fator idade é extremamente importante,e pode ser evidenciado ao examinar o conteúdo de suas postagens, que8 Formato de publicação em blogs, fotologs e vlogs. Equivalente em alguns casos à “artigo”
  9. 9. frequentemente falam sobre suas experiências na infância. Pessoas fora dos seusvalores ético-morais (playboys, pré-adolescentes, homofóbicos, etc.) sãofrequentemente xingados pelo autor. Mas mesmo assim, acaba também executandofunção de cronista: “Lourenço Diaféria [...] diz que as pessoas lêem crônicas no jornaldiário “porque a crônica nada mais é que as palavras que elas gostariam de terescrito” (Marques De Melo, 2003: pag. 162). De certa forma, PC Siqueira age também como um mediador entre os fatosque estão acontecendo (ou que já aconteceram) e uma psicologia coletiva criada pelosseus assinantes. As pessoas que assistem à PC Siqueira se identificam com oconteúdo postado. São pessoas que geralmente foram excluídas socialmente durantea infância/adolescência e que encontraram na internet e no seu vlog uma pessoa quecompartilha de seus pensamentos sem pudores. Para Marques De Melo (2003), ainda,uma das características fundamentais da crônica é a: [...] Crítica social, que corresponde a “entrar fundo no significado dos atos e sentimentos do homem”. Diz Antônio Cândido que essa tarefa o cronista realiza de modo dissimulado, pois ele mantém o “ar despreocupado, de quem está falando coisas sem maior consequência”. Esse é um traço essencial da crônica moderna, que assume o ar de “conversa fiada”, de apreciação irônica dos acontecimentos, deixando de ser o “comentário mais ou menos argumentativo e expositivo” que se praticava nos fins do século XIX. (Marques De Melo, 2003: p. 156) O vlogueiro soube utilizar, além das estruturas do Youtube, de várias outrasferramentas, em especial à redes sociais, para divulgar sua presença na internet,caracterizando-se como uma web celebridade. Os conteúdos do vlog Mas Poxa Vidavão muito além dos vídeos produzidos no Youtube: são parte da própria presença dePC Siqueira na internet. Como os usuários podem comentar os vídeos e conversardiretamente com o autor através de redes sociais como o Twitter, emerge uma culturaparticipativa muito mais do que à dos cronistas impressos. A crônica digital écomposta diretamente pelos participantes. Os comentários são extensões dascrônicas digitais. A evolução de seus vídeos em quesitos técnicos e argumentativos é evidente.PC Siqueira é, hoje, aos moldes de Jean Burgess e Joshua Green, “letrado” noYoutube: “Se „letrado‟ no contexto do Youtube, portanto, significa não apenas sercapaz de criar e consumir o conteúdo em vídeo, mas também ser capaz de
  10. 10. compreender o modo como o Youtube funciona como conjunto de tecnologias e comorede social” (Burgess e Green, 2009: p. 101). Embora estejamos trabalhando aqui o conceito do Mas Poxa Vida como umacrônica digital, não podemos deixar de esquecer que, antes de tudo, ele trata-se deum vlog. Portanto, deve-se ter em mente que o vlog não é uma crônica digital, masage como se o fosse em diversos momentos. Portanto a crônica faz parte do Vlog,mas não é necessariamente o vlog inteiro, nem parte obrigatória. O Youtube estárepleto de vlogs musicais, cômicos, roteirizados, etc., que não se caracterizamenquanto crônica. Em certos momentos, o vlog Mas Poxa Vida assume característicasde programas televisivos, concedendo entrevistas, respondendo perguntas dos fãs,quebrando a rotina de apenas “falar sobre assuntos” e produzir conteúdos diferentesdos anteriores. Apesar dessas conjunturas diferenciais, é inegável que na maior parte dotempo, PC Siqueira atue como um cronista contemporâneo, capaz de reproduzir aânsia de seus espectadores. Lígia Averbuck traduz com eficácia o porquê do MasPoxa Vida ser considerado como crônica: [A crônica é] O texto sutil ou o que provoca o riso fácil, o que conduz à risada aberta ou leva à irônia é também o meio de expressão do cronista gaúcho que alcança, quase sempre, a medida de uma naturalidade surpreendente e de uma economia expressiva em nível de genuína criação artística (Averbuck apud Marques De Melo, 2003: Pgs.159-160).Apropriação do Vlog pela TelevisãoComo falamos anteriormente, a MTV tem mostrado-se como o canal da televisãobrasileira que mais eficazmente está utilizando a internet para compor suaprogramação. Além de manter um portal de conteúdo com diversos assuntos deinteresse juvenil (Música, Humor, Games, Geek, Lifestyle, Cidadania, Mundo eProgramas), conseguiu com relativo sucesso exportar o conteúdo online para atelevisão. Depois do sucesso ao trazer a fotologger Marimoon à programação da MTV, ocomediante e vlogger Ronald Rios e seu produtor Erik Gustavo levaram o sitehumorístico, o Badalhoca, para a emissora em 2009. O blogueiro Didi, do blog Te DouUm Dado, virou repórter da emissora e hoje apresenta o programa Didiabólico. JanaRosa, do blog Agora Que Sou Rica, apresenta atualmente o IT MTV. O blog Colírios, da Revista Capricho, virou um reality show no canal, buscandoum quarto blogueiro para o blog Vida de Garoto. E o Twitter do perfil @MussumAlive,uma parodia oa ex-Trapalhão, ganhou quadro no programa Furo MTV. Mais
  11. 11. recentemente, a web celebridade Katylene virou uma animação adaptada para atelevisão. Embora cada uma dessas apropriações mereça uma análise sobre asmodificações entre a versão virtual e a versão televisiva, focaremos no Vlog Mas Poxavida, que tem seus vídeos exibidos durante os comerciais do programa Comédia MTV,num quadro chamado Comédia Extra. Diferentemente das outras apropriações da MTV, no caso do Vlogger PCSiqueira, não existe uma criação nova. Seus posts são recortados e entãosimplesmente reproduzidos na televisão. É uma apropriação próxima daquela que atelevisão faz sobre o cinema. Entretanto, mesmo que seus posts fossem reproduzidosna íntegra, a mensagem seria diferente. Mais uma vez, voltemos à McLuhan paracompreender que o meio representa a própria mensagem: “„O meio é a mensagem‟,porque é o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações eassociações humanas” (Mcluhan, 1995: p. 23) Além de um meio diferente, convém também considerar o contexto dasapresentações. Ao apresentar o seu Vlog, PC Siqueira expõe que se trata [o vlog]apenas de considerações aleatórias sobre diversos assuntos. Portanto, não se trata,em última análise, de um vlog cômico, mas de um vlog opinativo. Ao ser executado em um player do Youtube, o contexto do vlog são asaparições anteriores, os comentários e os recados deixados pelo autor em suas redessociais. Ao ser colocado na MTV, durante um programa de humor, o significado desuas palavras pode ter um efeito diferente. Sam Gregory expressa uma preocupaçãosobre o conteúdo do youtube que é editado e retirado do seu contexto que éfundamental para entendermos as apropriações da televisão sobre o vlog Mas PoxaVida. A preocupação de Gregory é com relação aos vídeos de ativistas, mas pode sertranquilamente traduzida para qualquer situação: Quando os vídeos de direitos humanos circulam cada vez mais distantes de seus lugares de origem – ou seja, incorporados, compartilhados, remixados – torna-se essencial inserir o contexto e os modos de ação dentro do vídeo e de sua imagística em vez de colocá- los fora do vídeo [...] ele se torna desconectado das opções de ação a não ser que essas opções sejam inseridas no próprio vídeo e a menos que sua mensagem seja claramente transmitida (Gregory apud Burgess e Green, 2009: p. 160) Portanto, posicionamentos feitos pelo autor que teriam uma conotação derepreensão, opinião ou seriedade, são distorcidos pelo meio em que ele se encontra epelo conteúdo em inserção. Além disso, seus vídeos são editados para ficarem maiscurtos, cortando partes que poderiam complementar o que está em exibição. Assistir àPC Siqueira na televisão é uma experiência totalmente diferente à assitir seu canal noYoutube. A distância do monitor da televisão para o espectador, o sofá que conforta, ocontrole remoto na mão, os comerciais, etc., tudo isso modifica a experiência dotelespectador, que é muito mais completa no computador. Existe também a questão
  12. 12. do zapping na televisão. Pode-se argumentar que também existe um zapping nocomputador: as pessoas conversam em redes sociais, lêem texto, entre outras ações,enquanto vêem o canal do Youtube. Mas o zapping no computador permite que ousuário dê pause no vídeo e retorne no momento que desejar da onde parou. PCSiqueira, enquanto cronista digital, somente no seu canal do Youtube. Não existe aqui também, uma convergência midiática. O produto apresentadona televisão não diáloga com a versão online, nem indica caminhos para seestabelecer um contato além da televisão. A televisão apresenta o final de umadiscussão, enquanto na internet, os posts de PC Siqueira são apenas o começo deuma série de comentários, tweets e recados em diversas mídias sociais na internet.Considerações FinaisNeste artigo sustentei a hipótese de que certos blogs, fotologs e vlogs podem serconsiderados crônicas contemporâneas em formato digital. Examinei conceitos sobreconvergência, credibilidade e opnião nos meios empregados nesses meios, bem comoo fato de que cada meio representa um ambiente diferente para a compreensão damensagem, pois, fundamentados em McLuhan (1995), o meio é a própria mensagem.Discorri também sobre uma breve história dos blogs, fotologs e vlogs na internetbrasileira, e como a Televisão brasileira se apropriou desses meios, ora convergindo,ora simplesmente convertendo. Tais práticas vêem se tornando comum no meio digitalbrasileiro. Usamos aqui o vlog do PC Siqueiro, o Mas Poxa Vida, como exemplo dasapropriações da televisão dos meios de comunicação digital. O seu vlog pode serconsiderado como uma crônica conteporânea digital em certos momentos do vlog,quando visualizado no Youtube. Entretanto, ao partir para a televisão, o vlog passa ater uma conotação humorísitica, descaracterizando-o como crônica. É importante observamos como o ambiente e o meio podem influenciar aconstrução de significados. Por mais que a televisão apele para efeitos visuais, táticaspersuasivas e roteiros programados, se não for utilizada uma metodologia deconvergência entre os meios utilizados, a internet sempre será mais completa que atelevisão. A apropriação dos conteúdos digitais por parte das mídias tradicionais devecrescer de forma exponencial nos próximos anos. Ora eles irão convergir criando
  13. 13. interação entre as diferentes mídias, ora irão simplesmente copiar e editar, comofazem com os filmes de cinema na televisão.
  14. 14. Referências BibliográficasBOUACHA, Ali Magid. Le discours médiatique et ses vérités. Analyse linguistiqued’une chronique du journal: Le Monde. In: M. H. A. Carreira (dir.), Faits et effetslinguistiques dans la presse actuelle, Paris, Université Paris 8, 1999BURGESS, Jean; GREEN, Joshua. Youtube e a revolução digital: como o maiorfenômeno da cultura participativa transformou a mídia e a sociedade. São Paulo:editora ALEPH, 2009.JENKINS, Henry. A cultura da convergência. São Paulo: editora ALEPH, 2008.KELLNER, Douglas. A cultura da mídia: Estudos Culturais: identidade e políticaentre o moderno e o pós-moderno. Bauru, SP: editora EDUSC, 2001.LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: editora 34, 2005MARQUES DE MELO, José. Jornalismo opinativo: gêneros opinativos nojornalismo brasileiro. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003.MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. SãoPaulo: editora Cultrix, 1995.NEVES, Janete dos Santos Bessa. Estudo semântico-enunciativo da modalidadeem artigos de opinião. Tese de doutorado defendida por Janete dos Santos BessaNeves; Orientador: Eneida do Rego Monteiro Bomfim. Rio de Janeiro: PUC,Departamento de Letras, 2006.NOGUEIRA, Tiago. O meio (ainda) é a mensagem! Site Web Diálogos, Acessado em23/Nov/2010. Disponível em: http://www.webdialogos.com/2010/cibercultura/o-meio-ainda-e-a-mensagem-2/

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